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Full text of "A Tradição"

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A TRADIÇÃO 



i.NOMBILA Y UM^Sá 




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Tradição 



Revista mensal (1'ethDographia poríugaeza, illusirada 






/ .-.-«— .\ 




Directores: liADíSIiflD PIÇARRA e M. DIAS NUNES 



\A TRADIÇÃO, de Serpa, pelo programma que «e impoz e pela dUrrcta dili- 
gencia com quo procura dciemponhar ei«e programmu, repreií-nta, a meu 
\êr, o mai» bello cxt-mplo patriótico de educação publica exercida pela im- 
prensa. » 

Ramalho OrtigXo. 



1899 



j.^OV^»^^^ \ 



(Segunda edição) 



COLLABORADO POR 

Adolpho Coelho (Dr.), Alberto Pimentel, Alíredo vle Pratt, 
Álvaro de Castro, Álvaro Pinheiro, Alves Tavares, António 
Alexandrino, Athaídc d'01iveira (Dr.), Conde de Ficalho, Cor- 
rêa Cabral, Castor, D. Carolina Michaelis de Vasconcellos (Dr.*), 
Dias Nunes, Fazenda Júnior, P^ilomatico, João Varella (Dr.), 
Ladislau Piçarra (Dr.), Lopes Piçarra, Miguel de Lemos, Paulo 
Osono, Pedro A. d" Azevedo, Pedro Covas, Ramalho Ortigão, 
D. Sophia da Silva (Dr.^*)^, Sousa Viterbo (Dr.), Tiíeophilo 
Braga (Dr.), Thomaz Pires. 



ColhilKiiiiiloies ailislicos : f. VlIilíAS-BOAS e J. V. PESSOA 



LISBOA 

lYP. DE AT)OLn'HO 'DE MENDONÇA & i UA-^Tt 

4Ó. Rua do (lorpo Santo, 48 

1900 









K .-.->-^.7 



;,BELA Y CAu.PC- 



^' cjtlrmoria 



DO 



SERPENSE ILLUSTRE 

José Francisco Corrêa da Serra 

(») Clérigo do habito de S. Pedro, do conselho de sua magestade, 
fidalgo cavalheiro da sua real casa, conselheiro da legação, agente 
diplomático em Londres, ministro plenipotenciário junto ao go- 
verno dos Estados Unidos, cavalleiro da ordem de Christo 
e commendador da Conceição, conselheiro da fazenda, 
deputado ás Cortes de 1822, doutor em direito canó- 
nico pela Universidade de Roma, sócio fundador e 
secretario perpetuo da academia real das scien- 
cias de Lisboa, correspondente do Instituto de 
França, da sociedade philomatica de Paris, 
sócio da sociedade real de Londres, das 
academias de Turim, Florença, Bordéus, 
Lião, Marselha, Liege, Sena, Mantua, 
e Cortona, das sociedades reaes de 
agricultura do Piemonte, da Tos- 
cana e da Linneana de Ingla- 
terra, dos antiquários de Lon- 
dres e da sociedade real e 
económica de Valença. 




(#) Vide nGlorias Portug^uejas», por A. A. Teixeira de Vasconcellos, Tomo I. 



índice 



Pag. 

Adolpho Coelho (Dr. F.): 

A Morte e o Inverno 33 

Alberto Pimentel : 

Andar ás vozes, 85 e 101 

Tradição de um ofRcio 148 

Alfredo de Pratt : 

O Imperador de Eiras 152 

Álvaro de Castro : 

Lendas 54 

Em quarta -feira de cinzas 122- 

Álvaro Pinheiro : 

Novellas populares minhotas : 

O rei Sardão 12 

A formiga , 27 

O macaco 28 

Senhora do Rosandario 63 

Alves Tavares : 

As festas do Sacramento em Beja, 125, 

141, 176 e 184 

António Alexandrino : 

Contos populares alemtejanos : 

O compadre Bernardo 29 

O lobo e a zorra 45 

Dois gallegos encontrando-se 47 

O Pedro Malas- Artes 60 



Pag. 

O lobo e as três fortunas 76 

A morte de três gallegos 77 

O Grão de Milho 95 

A zorra e a cegonha 111 

O Era e não Era 1 43 

Três gallegos querendo falar á politica . 190 

Athaide d'01iveira (Dr.): 

Contos algarvios : 

A macaca e a oliveira 127 

O principe-diabo 159 

Os três cães 188 

Therapeutica mystica : 

Benzeduras, 141, 142, 143, 174 e 175 

Castor : 

Adivinhas, 15 e 32 

Provérbios e dictos, 32, 47, 64, 79, 112, 

128, 160 e 191 

Conde de Ficalho : 

O elemento árabe na linguagem dos pas- 
tores alemtejanos, 81, 97, 113 e . . . 129 

Corrêa Cabral : 
Antiguidades portuguezas, 44 e 74 

Dias Nunes (M.): 

Natal, Anno-bom e Reis 6 

Danças populares do Baixo-Alemtejo, 20, 

173 6 177 



II 



ÍNDICE 



MoJjs-estribilhos jlemtej\iiuis : 

Mnnuelsinho, você chora '24 

Vae colher a silva 42 

Os olhos da Marianita 54 

Vt-rde Caracol 74 

Dizes cju"eu sou lavadeira 104 

Marianita toi á fonte 120 

Hei de m'ir para o Algarve K-i*> 

Tinhas-me tanta amizade 173 

Na quaresma (Notas avulsas) 38 

A festa da Guadalupe 50 

A procissão do Corpo de Deus BS 

O S. João em Serpa, 90, 123, 139 e 157 

.■Vs Taboas de Moysés 107 

Bibliographia, 16, 47 e 80 

Fazenda Júnior : 

Vidigueira e as suas tradições 11 

A serração da velha ... .... 45 

O touro de S. Marcos 110 

Penitencias nocturnas 187 

Filomatico : 

Bichos uterinos 23 

Bruxas e feiticeiras 59 

Bruxas e bruxedos, 75 e 111 

Jo&o Varella (Dr.) : 

Rimas populares 186 

Ladislau Piçarra (Dr.): 

Jogos populares : 

O arrioz 14 

A bóia 30 

A pélla 53 

O malhão 54 

A espada-nua - 94 

Ao sol e á lua 122 

Esconderêlos 175 

O banho da alma 15 

O carnaval 17 

Therapeutica mystica : 

Benzeduras, 43, 107 e 182 

A peste 155 

O quebranto 181 



Pag. 
Medicina empírica : 

Escrofuloso 70 

Cobro 136 

Lopes Piçarra : 

Habitação, 24 e 55 

Michaélis de Vasconcellos (D. Carolina, Dr.-'') : 

Estatinga-Estantiga 161 

Miguel de Lemos : 

A corrida da vacca das cordas em Ponte 

de Lima, 119 e 151 

Paulo Osório : 

Cancioneiro de Musicas Populares 10 

Povos da Ibéria 124 

Pedro A. d'Azevedo : 

Superstições dos criminosos 87 

A festa de S. Marcos próximo de Serpa. 117 

Pedro Covas : 

Os Virtuosos, 88 e 104 

Ramalho Ortigão : 

A Tradição 134 

Sophia da Silva (Dr.=): 
Botânica popular, 65 e 102 

Sousa Viterbo (Dr.); 

O doutor da mula ruça 2 

TheopMlo Braga (Dr): 

Serração da velha 4y 

Thomaz Pires (A.): 

Lendas & Romances : 

D. Marcos 71 

D. Martinho 72 

Gerinaldo, 93, 119 e 158 

Bernal Francez 182 

Bella Infanta 183 



índice 



III 



ILUSTRAÇÕES 



Gralema. de M^^poK l^<>i>iilai'es 



Pag. 

Apanhadeira de azeitona 3 

Camponeza vindo da fonte 19 

Velho camponez, de calção e polainas... . 35 

Pastor .' 51 

Campaniça 67 

Camponez, de fato domingueiro 83 



Pag. 

Ij Lavadeira 99 

1 1 Acarretador de farinha 115 

j Camponeza á vc Ita da ceifa 131 

i Grupo de marçanos ou aprendizes de tosq." 147 

! I Um tocador de viola 1 63 

li Camponez de çafóes e çamarro 179 



CANCIONEIRO MUSICAL 



Pag. 

Aos Reis 9 

Manuelsinho, você chora 25 

Vae colher a silva 41 

Os olhos da Marianita 57 

Verde caracol 73 

Ao Baptista 89 



Pag. 

Dizes qu'eu sou lavadeira 105 

Marianita foi á fonte 121 

Hei-de m'ir para o Algarve 137 

As Janeiras 153 

Tinhas-me tanta amizade 169 

Ao Deus-Menino 185 




ADDENDA E CORRIGENDA 



Essítatiiigra ^= Esítantig-a 

O erudito redactor da T^evue Hispamque lembra-me que esqueci citar uma 
passagem muito caracteristica da Guerra de Granada^ em que Diego de Mendcza 
descreve a apparição da hoste antiga. 

Deixando aqui consignada a minha gratidão, apresso-me a communicá-Ia aos 
leitores do meu artigo. 

E diz. 

. . / veen los moradores encontrarse por el aire esquadroues ; oyense vo^es como 
de persojias que acometeu : estauttguas llama el vulgo Espaíiol a semejantes appa- 
reucias ó fantasmas que el halio de la tierra, quando el sol sale ó se pojie^ forma en 
el aire baxo., como se recn en el alto las nubes formadas en varias figuras i seme- 
janças. 

Guerra de Granada, lib. IIII (ed. 627, f. 1124) 

Carolina Michaeiles de Vasconcellos. 



A circumstancia d"^ Tradição ter sido impressa a longa distancia dos seus di- 
rectores, deu origem a que escapassem diversos erros, aliás de pequena monta, e 
que facilmente serão corrigidos pelo espirito culto do leitor. Cumpre, no emtanto, 
assignalar os seguintes : 

— A pag. 77, ao fim da columna direita, no verso em que se lê «Com vergonha 
d'ir á missa», leia-se Tem vergonha d' ir á missa. 

— A canção musical n.° q Hei-de mir para o Algarve., é idescante» e não €cho- 
reographica» como por equivoco sahiu : 

— Nas Lendas & -l^omauces., a \'II, a pag. i83, onde se lé Bernal France\ leia- 
se 'Bernaldo France:^. 



A TRADIÇÃO 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA* 



V 



oA. Tmclição» 

«E' assim que se intitula uma revista mensal 
cuja sede de redacção é em Serpa, e cujos direc- 
tores são os srs. Ladislau Piçarra e M. Dias Nu- 
nes. 

O titulo não podia ser mais bem escolhido 
nem mais bem adequado. A Tradição^ propóe-se 
eflectivamente a ser um repositório de ethnopra- 
phia portugueza, e, a ajuizar por este numero, 
não só o seu plano é deveras attrahente, mas 
promette ser executado a capricho, com o pri- 
mor de quem se dedica a estes assumptos com 
todo o atíecto e com todo o desinteresse mate- 
rial. 

Este numero traz artigos curiosissimos e 
vem adornado com uma bella phototypia, repre- 
sentando a Qyípanhadeira de azeitonas, mulher 
de Serpa, além de uma pagina de musica po- 
pular. 

A nova revista merece, por todos os motivos, 
o favor do publico e este não deixará de lh'o 
conceder, dando-se de mais a mais a circumstan- 
cia da Tradição estar ao alcance das bolsas mais 
modestas. O preço da assignatura annual é ape- 
nas de 600 réis, duvidando nós muito que o seu 
producto chegue a custear as despezas mate- 
riaes. 

Saudando jubilosamente a nTradiçãoo, esti- 
mamos, para honra das letras portuguezas, que 
el!a alcance a longa existência a que tem di- 
reito.» 



(Do nDiario de U^oticias, n." 1 1 :90o) 



«A. Tradição» 

«Sob este titulo, começou agora a publicar-se, 
em Serpa, uma revista mensal d'ethnographia por- 
tugueza, illustrada, da qual são directores os srs. 
Ladislau Piçarra e M. Dias Nunes, e collaborador 
artistico o sr. F. Villas Boas. 

Qual é o fim d'esta nova revista ? 

Dil-o a redacção nas seguintes palavras : aA 
Tradição, cujo primeiro numero temos o pra- 
zer de dar a lume, propóe-se reunir — recolhido 
com todo o escrúpulo e fidelidade — o maior nu- 
mero possivel lie materiaes ethnographicos, as- 
sim de caracter physico como de caracter men- 
tal, relativos ao nosso paiz.» 

E' uma obra digna de applauso, que deve con- 
tribuir, como esperam os seus directores, «para 
o rejuvenescimento pátrio e ao mesmo tempo 
para a historia da civilisação humana.» 

Coincide a apparição d'esta magnifica revista 
com o primeiro centenário do nascimento de 
Garrett, que foi em Portugal o iniciador dos tra- 
balhos "folkloristicos". Foi elle o primeiro que 
reuniu materiaes do saber popular no seu es- 
plendido «Romanceiro». 

Mais tarde, os srs. Theophilo Braga, Adolpho 
Coelho, Leite de Vasconcellos, Consiglieri Pe- 
droso e muitos outros alargaram o campo da in- 
vestigação ethnographica, colligirdo novos ma- 
teriaes. 



(♦) Deixámos de publicar, involuntariamente, algumas apre. 
ciaçóes da imprensa, por extravio no correio de vários jor. 
naes que se occuparam da Tradição. 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



A TrjJiçjo vem continuar esta ordem de tra- 
balhos. 

Pelo summario do primeiro numero, vè-se que 
ha de vir a ser um valioso archivo da tradições». 

(D*0 Século, n." 5:114). 

X 
"A. Ti-ttdiviio» 

«E o titulo d'uma interessante publicação men- 
sal de ethnographia portupueza, illustrada, que 
acaba de se publicar em Serpa e de que recebe- 
mos o e.vemplar inicial. 

E' uma revista que deve encontrar protecção 
e que, pela maneira como é redigida, deve ter o 
máximo .icolhimento e longa vida». 

(Da Vid.j Nova, n.° gSS). 



X 



«A. Tradição» 

oChega-nos ali do Alemtejo uma publicação 
muito interesante. E' uma revista mensal de eth- 
nographia portugueza, impressa em Serpa. Dire- 
ctores : Ladislau Piçarra e íM. Dias Nunes. Inti- 
tula se : A Tradição. 

Excellente lembrança, que merece a estima 
dos que ainda em Portugal curam d'estas coisas. 

Nos desejaríamos que esta revista vinda de 
Serpa tivesse principalmente caracter regional. 
O Alemtejo está tão pouco estudado ! O que 
conhecemos de melhor sobre usos e costumes 
transtaganos é a curiosíssima collecção de arti- 
gos publicados em tempo no Elvense. E pouco 
mais. 

Srs. alemtejanos, dêem -nos Alemtejo na Tra- 
dição, e terão prestado um óptimo serviço. 

Não esmoreçam.» 

(D' O Topular, N.« Ó40) 
X 
«A. Tradif^jíio» 

* Temos presente o primeiro numero d"esta 
rcNista, uma das mais interessantes que nos úl- 
timos tempos teem chegado á nossa redacção. 

São seus redactores os nossos velhos amigos 
srs. Dias Nunes e dr. Ladislau Piçarra. 

Estes dois nomes, para nós, constituíam, des- 
de que se annunciou a saida da primorosa re- 
vista, segura earantia de que ella revestiria o in- 
teresse e o brilhantismo que ora lhe encontrá- 
mos. 

Dias Nunes e Ladislau Piçarra são dois escrip- 
tores de talento, vivendo retirados do bulício da 
capital — n'essa formosa e alegre vílla de Serpa, 



lá no extremo do Alemtejo, onde o sol parece 
ter mais brilho e a natureza maiores encantos. 

E' ahi onde elles vivem entregues aos seus tra- 
balhos de investigação do passado. 

.4 Tradição é, pois, mais do que uma revista 
litteraria, é uma revista scientifica, dirigida pro- 
ficientemente, coUaborada com esmero por bons 
escriptores. E' uma publicação que deleita e íns- 
true. 

A par de artigos interessantíssimos e variados, 
publica uma bella photogravura, a «Apanhadeira 
de azeitona», um d'esses typos de mulher de 
olhar insinuante, carnadura sadia e trajo pitto- 
resco, tão característicos do Baíxo-Alemtejo e 
tão desconhecidos aqui, em Lisboa, onde, dos 
provincianos, pouco mais se conhece do que o 
das ovarinas e o das minhotas. 

Também este numero publica a lettra e mu- 
sica da «Cantiga dos reis», essa meiopêa singela 
e mystíca que evoca em nós saudosas recorda- 
ções de infância. 

A «Cantiga aos reis«, ao «Deus Menino», ás 
Janeiras», como são deliciosas na sua quasi 
primitiva simplicidade, e que saudades nos des- 
pertam ! 

Bem hajam os directores da Tradição em tor- 
nar conhecido todo o nosso bello cancioneiro 
popular, as nossas lendas, os nossos usos e cos- 
tumes. 

N'um paiz, onde a ethnographía tem sido tão 
pouco estudada, apesar de tão rica, deve-se bem- 
dizer aquelles que se dedicam á investigação do 
passado, extrahindo d'elle quanto de utíl e de 
bom possam entregar ao futuro. 

E' urri trabalho civílisador e patriótico.» 

(D' A Lanterna, N.° 181) 
X 
«A. Ti'adiçã,o» 

«Tivemos o prazer de receber o primeiro nu- 
mero d'e?ta revista scientifica, illustrada, que 
mensalmente, começou a puhlicar-se na villa de 
Serpa, Q/l Tradição, propondo se, segundo affir- 
ma, reunir o maior numero possível de materiaes 
ethnographicos, assim de caracter physico como 
de caracter mental, relativos ao nosso paiz, vem 
prestar um alto e relevante serviço patriótico. 

Brilhante e competentemente dirijida pelo sr. 
Ladislau Piçarra e M. Dias Nunes, facilmente 
se calcula a importância da nova [/ublicação, pe- 
lo summario que do primeiro numero damos:» 



(D' O Lidador, -N." 7) 

X 

"A Tribuna festeja com as suas melhores ga- 
las o advento, em Serpa, do 1 " n. d' A Tradição, 
revista mensal illustrada de ethnographia por- 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



tugueza, de que são directores os srs. l.adislau 
Piçarra e M. Dias Nunes. .4 Tradição «propõe- 
se reunir — recolhidos com todo o escrúpulo e 
lidclidade — o maior numero possivel de mate- 
riaes ethn(jf;raphicos, assim de caracter phvsico 
como de c.iracter mental, relativos ao nosso 
paiz.» 

De jornaes d'estes, tem o nosso espirito tanta 
necessidade, como o nosso corpo de pão nara 
a bocca ; porque sobre propor-se, a Tradição, 
inventariar toiias essas lindas e su^gestivas coi- 
sas com que se decora o viver rústico pf)rluguez 

— ella será, para os nossos artistas, manancial 
permanente de inspiração, e museu encantador, 
ainda por cima, de adereços para a sua obra. 

Não devem guiar a Tradição, a meu vèr, os- 
tensivos propósitos de erudição. Tudo quanto 
convém, em jornaes assim, é o facto; — e se as 
nossas coisas velhas tendem a desapparecer, por 
esse espirito de cosmopolitismo que vae rasoi- 
rando e nivelando tudo, e por conseguinte des- 
caracterisando-o, a hora não é para se desapro- 
veitar uma linha, um movimento, um segundo, 
em discussões eruditas, que nos dão sempre, no 
fundo, a sensação de artiticiaes; mas sim, e se- 
não exclusivamente ao menos preferentemente, 

— para colher, para recolher, para inventariar, 
para pôr a salvo, emfim, d'essa onda de esque- 
cimento que ahi vem, surda mas pavorosa, as 
mais sagradas, carinhosas e graciosas alfaias do 
lar dos nossos avós. . . 

Inspire-se, pois, no Povo, e só n'elle, a Tradi- 
ção. Se o seu titulo a volta para o passado, vol- 
te-se para o passado com o peito todo : fareje, 
sonde, investigue, recolha ; e quanto mais cheias 
de terra vierem as coisas, mais as furte, por óra, 
ás mãos dos sábios, — que tanto as limpam, em 
regra, que as estragam. . . O presente lá tem os 
seus jornaes : a começar pelo 'T)iario do Governo I 

— e tudo quanto devem fazer os dois prestimo- 
sos poetas de Serpa, é convencerem-se, na devo- 
ção fervorosa da sua tarefa, que não ha mais 
mundo que a terra que calcam, mais jornaes se- 
não a Tradição^ — outro sábio que não seja o 
Povo. 

Vá isto á laia de aviso, que não de commen 
tario ao numero que tenho presente. O numero 
que tenho presente, haja vista o summario, è 
deveras óptimo :» 



Trindade Coelho. 
iDa Tribuna, N." 4) 

X 
«A. Tr-adií^âo» 

«Os livros e os periódicos, semelhantemente 
ás pessoas, têm a sua physionomia especial que 
desde o primeiro momento nos captiva, ou nos 
deixa indifferente ou nos inspira antipathia. Foi 



a primeira impressão a que nos despertou este 
novo periódico em cujo artigo preambular se nos 
depararam logo estas palavras promeitedoras : 
(Seguem alguns periodos do artigo de apresenta- 
ção). 

«Que este bello programma não é uma simples 
phantasia, uma aspiração promettedora, demons- 
tra-o desde já este primeiro numero de A Tra- 
dição que lemos com immenso prazer. Abre por 
um interessante e curiosissimo estudo do illustre 
investigador sr. dr. Sousa Viterbo, sobre a vul- 
garissima expressão doutor da mulla russa, do- 
cumentando a origem que tem por mais prová- 
vel e mostrando que o sentido irónico e irriso 
rio cm que é empregada não é, muito pravavel- 
mente, justo. 

«Seguem se, a esse artigo, as seguintes maté- 
rias que obedecem á orientação da nova revista: 

nQ4 Tradição é uma das mais brilhantes ini- 
ciativas no nosso moderno jornalismo litterario, 
e deve ter um bello êxito não só entre os espíri- 
tos cultos de Portugal, mas no estrangeiro, onde 
estes estudos são muitissimo apreciados.» 

(Da Gaveta das Aldeias^ n." lóo). 



«JECl Bafio IDol Alma» 

«Una notable publicación acaba de fundarse 
en Serpa 'Portugal) con el titulo La Tradición. 

«En el primer número de esta revista, que lle- 
gó recientemente á niiestras manos, se publican 
trabajos curiosisimos dei escritor lisbonense, 
nuestro querido amigo doctor Sousa Viterbo ; 
dei director de la revista, doctor Ladislau Pizar- 
ra, y de otros notahles escritores portugueses, 
con lo cual La Tradición entra de lleno en el 
rango de Ias más importantes revistas lusitanas. 

«Por su brevedad y por lo curioso de la leyen- 
da, vamos à dar á conocer aqui un trabajo dei 
doctor Pizarra, quien en galana forma da á co- 
nocer una superstición muy arraigada, entre el 
elemento popular de Serpa, que cree en ella co- 
mo artículo de fe. 

«£7 bano dei alma se titula el hermoso artícu- 
lo dei director de La Tradición, que traduzido 
dice asi:« 

(D'E/ Globo, n.» S.459). 
X 
«A. Tradição» 
I 

«Sei que a tradição é o alicerce do edifício so- 
cial, como sei que a historia é a mestra da vida; 
mas, confesso, entendo um pouco mais — bem 
pouco, por signal — d'innovações, que de tradi- 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



ções. Por causa d'esta tendência, boa ou má, do 
meu espirito, a tradição, que muitas vezes é di- 
gna de reparo, escip^i-tue pela tangente do es- 
quecimento, se possn dizel-o assim. E, se eu 
perscrutasse o meu foro intimo, pedindo a mim 
próprio a explicação do phenomeno, talvez o re- 

f>aro se traduzisse do seguinte modo : Se uma 
enda acreditável, (que as ha, e não brigam com 
a rasão) fosse memorada como lenda ; a não 
acreditável, como uma patranha; o chamado mi- 
lagre, como uma exploração de mvstiticadores 
hábeis; o bruxedo, como uma /'j/ermict' digna 
de... muita instrucção obrigatória — vá! toda a 
tradição seria útil, porque seria como que o es- 
pelho do que nós fornos^ e em cada recordação 
d'uma desvanecida crença envelhecida fariamos 
nos, em caracteres diamantinos, a sublime pala- 
vra salvadora — Progresso ! Mas não. O povo — 
o eterno ludibriado — toma toda a tradição por 
verdadeira, confundindo a verdade e a mentira, 
que nos vem da tradição. Nas egrejas, onde eu 
quizera, com simples naturalidade, analysar, tra- 
duzida em arte, uma antiga crença robusta, hoje 
em decadência — mandam-me ajoelhar e curvar 
a cabeça, humilde; vendo passar na rua os cor- 
tejos da ingenuidade e quantas vezes, da hvpo- 
crisia — idem ; o problemático, dado por verda- 
deiro ; emfim por toda a parte se impõe a men- 
tira triumphante — que é tradição., mas que é 
lambem imposição, e que deixa de ser, para mim, 
tanto mais digna d'estudo quanto mais certo é 
tornar se-me odiosa, pela seu caracter de soberba 
intolerância, em liberdade de critica não ha ver- 
dade, e arte sem verdade seria bem comparada 
com um dia sem sol. Portanto, as boas tradições, 
essas que nobilitam os povos, que os revigoram 
nas suas aspirações de liberdade e de bom sen- 
so — como por exemplo a tradição das immuni- 
dades municipaes — confundem-se com as do 
velho direito de primogenitura ; e as. da aspi- 
ração para Deus — fonte perene de todo o bem 
— deixam-se mesclar pela exhibição de toda a 
casta d'imbecilidade, desde a penitencia mais 
inútil e mais soez, até ás pragas damninhas e 
aos castigos perversos, attribuidos ao Deus bom 
que o mundo ampara e guia na sua marcha 
triumphal. 

Deve, pois, abandonar-se a tradição e construir 
se um novo edifício social, a começar pelos ali- 
cerces? Não. A Tradição é útil e bôa, comtanto 
que a par da sua rememoração, se faça por não 
olvidar a distincção entre a verdade e a mentira. 
Que se não percam as riquezas do mineral ethno- 
logico ou ethnográphico, minerai que deve ap- 
parecer á luz para bem da civilisação ; mas que, 
dando-se vida ao passado, se nao auxilie, de 
modo algum, o trabalho de sapa dos obreiros da 
treva, que ahi andam fiados também na tradição 
(a tradição do absurdo) — e Quixotes de nova 
espécie — envidando esforços para que a marcha 
não seja para a frente, ti-ansfigurando assim a 
tradição em reacção, e fazendo perigar a liber- 
dade, d'onde deriva todo o Progresso 1 



— Tudo isto me occorreu a propósito, ou a 
despropósito, do bem escolhido titulo d'esta pu 
blicação mensal, iniciada agora pelos dois sym- 
pathicos democratas serpenses. Que o distincto 
poeta dos «Rosmaninhos» e o seu diplomado 
companheiro me perdoem a caturrice — e, en- 
tremos na Tradição : 



II 



— PRELIMINAR — eis a epigraphe da apre- 
sentação da nova revista : duas columnas e meia 
de prosa castiça, em que todos os periodos são 
reveladores de consciência nitida e de talento 
pujante. Os dois tradicionaes (não confundir com 
o negro tradicionalismo hespanhol !) sabem o 
que querem, e para onde caminham. Querem 
comparar o passado com o presente, e caminham 
para o futuro. E como, de certo, se inspiram no 
trabalho luminoso de Theophilo Braga e de tan- 
tos outros beneméritos, não podem errar o pon- 
to alvejado. Que Deus e a rasão — a rasão su- 
prema e a rasão humana — os guiem, e façam 
bôa jornada. 



Principia o trabalho de collaboração por um 
artigo magistral de Souza Viterbo, explicando 
as origens d'um dito popular ^1)owíor da mula 
ruça — que serve de titulo ao mencionado artigo. 
E fiquei sabendo o que não sabia : que o cele- 
brado T)oiitor realmente existiu ; que era um 
excêntrico, pois se vangloriava da sua alcunha ; 
que era o seu nome António Lopes, e residia 
em Évora na 1.' metade do século XVI : o que 
tudo provado fica pela sua carta de doutoração 
ou de favor, que vem na integra. 



Segue o — Natal, (i4nno bom., e l^eis — de Dias 
Nunes. 

U^atal : o de Christo ! Ha perto de 1:900 an- 
nos que isso foi. Simples facto : Ainda assim, o 
maior acontecimento de que resa a Historia. 

Anno bom: como que a esperança de que o 
novo anno não pôde ser ruim ! Grata consolação 
para os que soffreram as agruras do passado 1 

Reis,, a festa dos Reis ; que bello, festejar gente 
tão simples, que morreu ha tantos annos 1 

Animo ! que as lagrimas nào são para aqui. 
Lemos, até com prazer esse trio encantador de 
Dias Nunes. Como elle o conta ! O U^atal,, em 
Serpa, é o natal na minha terra, e penso que em 
todo o Alemtejo é assim. Mas que empolgante 
assumpto, que verdade na descripção ! Até os 
vicios de linguagem ou de pronunciação, não 
deixou no olvido. Nós temos por aqui, á menos, 
o do engraçado a depois do lelhe e do rére. 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



oEntrae, pastonnho, entrae 
por esse portal sagrado, 
vinde vél-o Deus menino 
entre palhinhas dct.iJn » 

Deus menino: o Deus dos «simples» como lhe 
chamou o nosso 1." poeta. 

Como tudo istn c saudoso I 

Bons tempos ! bons tempos I «E que não vol- 
tam mais. . u 

— Anno bom . é que parece que não ha por 
aqui.So uma ou duas vezes em minha vida ouvi 
cantar i\sj\ir,e{rjs^ e prompto. 

-—Depois os '7(ei5, com as cantigas da tradi- 
ção christã, e outras uzadas em Serpa sohre o 
pedido d'esmolas e respectivo agradecimento. 
Tudo d'um sabor poético e — sem calembour — 
cheirando a rosniniiinhos. 

Aqui — terra de republicanos — é esta, a festa 
dos 'Reis, a que tem talvez por antinomia, mais 
nomeada e mais festeiros I Comtudo divergem 
bastante as cantigas rtnaes e a musica, das mdi- 
cadas e transcnptas por Dias Nunes. Nós temos, 
por exemplo : 

Estas casas são caiadas 
por dentro, e por fora não : 
o Senhor que n'ellas mora 
Deus lhe dè a salvação. 

Estas casas são de ouro, 
nellas mora uma princeza : 
Meta a mão ao seu thesouro, 
reparta com a pobreza. 

Senhora dona de casa, 
deixe-se estar que está bem, 
mande-me dar a esmola 
pelo filhinho que tem. 

E outras muitas, devidas á musa popular, e 
que sotTrem modificação de casa para casa e de 
nome para nome, isto é, com a mudança d'invo- 
cacão. 



— Mas passemos adiante, e vejamos um artigo 
de critica, devido á penna de Paulo Osório. In- 
titula-se «Cancioneiro de muzicas populares» e 
n'elle se faz a apologia do professor portuense 
compillador do «Cancioneiro», César das Neves, 
e se nota, pela diflferença de cantares, a difTeren- 
ça dos génios, hespanhol e portuguez, justifica- 
tiva, talvez, d'uma dupla autonomia peninsular. 

— Um bravo! ao ex-director da Q/ílvorada, 
pelas bellezas do seu estylo, pela superioridade 
do seu trabalho. 



— Depois. . ^Supremo prazer o da leitura 
d'um m-ti{r(uinho burilado a primor, que começa 
pela suggestiva e, para mim, empolgante pala- 
vra — Vidigueira ! esta santa palavra que faz lem- 
brar «videiras», e muita uva saborosa e aromá- 
tica, e muita vegetação soberba e bellezas sem 
fim I palavra que é tão grata ao meu ouvi lo como 
ao meu coração de vidigueirense . . c acaba 
pela assign.itura d'um compatriota, amante ex- 
tremo da mesma p;.tria, tanto como eu, ou mais 
do que eu ; o nostálgico Fazenda Júnior, emfim I ) 

Vidigueira e as suas tradições — eis, com[)leta, 
a epigraphe do artigo a que, por conter assump- 
tos da minha terra, mais detidamente mo vou 
referir. Trata se nelle, principalmenit.-. da noti- 
cia tradicional sobre o apparecimento da .S'e- 
nhora das Relíquias, em um zambujeiro, no si- 
tio onde mais tarde se erigiu o chamado con- 
vento do Carmo e por traz do corpo da egreja 
em memoria do immortal Cama, se transformou 
ha pouco, em monumento nacional. O supposto 
episodio milagroso está descrinto com muito 
cuidado e fartas minudencias, resaltando. nitida, 
de toda aquella profusão de tlores. a verdade da 
tradição . . 



— Segue o — Rei Sardão, d" Álvaro l^inheiro : 
conto popular recolhido da tradição oral, segun- 
do o auctor. mas de certo muito mais bello de- 
pois de lhe ter posto mão o ameno estyllista, 
que traz á idéa (e é este o seu maior elogio) a 
maneirai de dizer, de se exprimir, de D Anna de 
Castro Osório, nos seus immoriaes livrinhos — 
Tara as creanças. 



— Agora o 1." espécimen dos — Jogos Popu- 
lares : — O arrinj — e — Superstições : — O ba- 
tiho da Alma ' 

— Pelo dr. l.adlslau Piçarra. 

Conhecem Ladislau Piçarra ? Eu nunca o vi, 
e nem ao menos lhe conheço o retrato, como 
aliás conheço o de Dias Nunes ; mas se a phy- 
sionomia do homem tem alguma relação com os 
traços caracteristicos da physionomia intellec- 
tuai, como esta tem, provado está, com os da 
envergadura moral, o dr. Ladislau Piçarra deve 
ter uma phvsionomia sympathica, como è sym- 
pathico, o seu talento e a sua obra. 

Sobre 70F0.Ç, o auctor começa por uma espécie 
de preambulo com pensamentos muito judiciosos 
attinentes a mostrar a utilidade de fazer conhe- 
cidos, e uzados, os brinquedos da pequenada das 
ruas — promettendo, para outros n."' da revista, 
as dehiais «considerações que o assumpto lhe 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



suggere». Respeitante ao jogo popular — arrio:^ 
— \iue direi ? Muito bem apresentado, muito e^x- 
plicito. mas para mim novidade completa, tanto 
na descnpção como no titulo. Ou terá elle al- 
guma coisa de commum com o jogo arriosca^ 
que lambem desconheço, e cuja palavra repre- 
sentativa se emprega, vulgarmente, como cilada, 
ou engano ? 

A' cerca do tradicional h.inho — i.» das Su- 
perstições — é que existe aqui a mesma crendi- 
ce absurda ^obre a alma dos mortos, e se dão 
as mesmas cautellas do desperdicio da agua 
onde as iilnt.is se banham ; julgo porém que, de- 
vido ao cumprimento integral do velho preceito, 
ou preconceito, nenhuma mulher, casada e nova 
como a tal serpense. enjoou ainda, perante um 
cadáver d'avò, até produzir-se o caso interessante 
constatado pelo auctor. Se o marido a que se 
refere o Banho da Alma tivesse feito o voto de 
S. José, leriamos a registar, talvez uma nova. . . 
interi'enção de espirito santo. 

O povo. o povo 1 E haver quem julgue de gran- 
de utilidade a má ignorância ! 

— Estou quasi no fim da minha tarefa : A se- 
guir, só as — adivinhas — de Castor, copiadas da 
tradição popular, e epigraphada?. graciosamen- 
te peia decifração do próprio enygma . . com o 
fim evidente de nos roubar a gloria de sermos 
adivinhões : pelo que deixo aqui lavrado o meu 
protesto em nome de todos os leitores. 

— E, finalmente, o traballio bibliographico 
d'um dos diiectores da Tradição., que, segundo 
as iniciaes do nome, se chama Dias Nunes e se 
parece immenso com o Castor das oAdivinhas. 
A critica é, como tinha de ser, muito rezumida, 
mas correctíssima e conscenciosa, e diz respeito 
a obras ultimamente publicadas. 

— As illustrações — devidas á intelligente col- 
laboração artística de F. Villas Boas, são : — 
O referido cântico dos Reis, e a apanhadeira 
d'azeitona (Serpa), figura escultural e typica de 
mulher do campo alemtejano, onde é vulgar a 
mulher bella e sã ! 

III 

— E prompto. . 

Ultimado porém este insciente trabalho de 
critica, que fiz muito a meu gosto, sem conse- 
guir, de certo, communicar o meu sentimento a 
auem me lê — aproveito a occasião para agra- 
ecer no meu captivante amigo M. Dias Nunes a 
gentilleza do ofTerecimento do 1." n." da «Tra- 
dição». Faço votos para que os números subse- 
quentes sejam como este, abrilhantados por es- 
criptores disiinctos — pois que o assumpto é 
vasto, e, n'este paiz onde acaba o dinheiro, o 
talento, mercê de Deus, ainda não acabou .. 

E para a frente, caracteres altivos e bons ! 
Investigai ! dai luz I olhos fitos n'um ideal de 
redempção ! 

Cá fico eu a abençoar a vossa obia, e dizendo : 

A Verdade — eis a nossa irmã I 



A Liberdade — eis a nossa mãe ! 

Porque não ha verdade, sem esta, visto que a 
liberdade é a pedra angular, o fundamento de 
pedra, aonde assenta este grandioso ediíicio da 
civilisação moderna 1 

CVidigueira) 

Pedro Cóvas. 

(Do C^Cove de Julho, n.» 778) 

X 
"A. Tracliçíío» 

«Iniciou no passado mez a sua publicação em 
Serpa uma revista mensal, illustrada, de etnogra- 
phia portugueza, tendo por directores os srs. 
Ladislau Piçarra e M. Dias Nunes, e de inteira 
justiça, sem favor, é dizer-se que com o pé di- 
reito entra ella nas lides da imprensa, promet- 
tedora de opimos fructos na especialidade a que 
se consagra, que havendo sido tão descurada 
entre nós até não ha muitos annos, actualmente 
está tendo um culto fervoroso e de que ella é bem 
merecedora, pugnando os que mais de perto se 
lhe dedicam por vencer os descuidos do passado 
a tal respeito, e pondo todo o esforço em res- 
gatar com seus trabalhos o tanto tempo perdido 
para a compilação das riquezas folkloricas do 
nosso paiz, algumas das quaes talvez já irreme- 
diavelmente perdidas. 

Entre os que desde muito lidam n'esta afa- 
nosa faina, tem se feito notar os dois directo- 
res da Tradição, os srs. Ladislau Piçarra e M. 
Dias Nunes, e especialmente do segundo tenho 
eu lido estudos etnographicos muito interessan- 
tes. Isto é garantia segura de que a nova publi- 
cação, fiel ao seu titulo e norteando-se por elle, 
fará brilhante carreira no nosso periodicismo 
destinado a archivar de modo seguro as rique- 
sas tradicionaes de Portugal, táo farto d'ellas, e 
o seu 1." numero d'isso é penhor e testemunho 
de todo o ponto valioso e appl.iudivel. 

Saúdo, pois, jubilosamente a apparição da 
Tradição que por collaborador artístico tem o 
sr. F. Villas Boas.» 

RonRiGO Vei 1.08O. 
(D^Q/íurora do Cavado, N." 2 do 32." anno) 
X 
"A Tr"acli<;;fto>> 

"Revista mensal de eihnographia portugueza, 
illustrada, de que são competentíssimos directo- 
res os snrs. dr. Ladislau Piçarra e M. Dias Nu- 
nes. 

A Tradição veio preencher uma importante 
lacuna na imprensa, pois actualmente não co- 
nhecemos nenguma publicação d'este género. 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



O primeiro numero é collaborado pelo snr. 
dr. Souza Viterbo, Paulo Osório, Fazenda Júnior 
e Álvaro Pinheiro, e traz em boa photo};ravura 
o retrato de uma apanhadeira de azeitona.» 

(Da (T.TffM Je ^'oticias, N." 421) 

X 

"A Ti-uíliv""" 

nD'esta bella revista mensal d'ethnographia 
portugueza, de Serpa, de que são directorcí os 
srs. L-adisIau Piçarra e M. líias Nunes, acabamos 
de receber o i." numero, que se apresenta rica- 
mente escripto, sendo por isso digno dos elogios 
que a imprensa portugueza tem sabido dispen- 
sar-Ihe.u 

■ (Da Soberania do Povo, N." 2:037) 

X 

«A Tracliçíiox 

«Começou a publicar-se, em Serpa, esta re 
vista de ethnographia portugueza, que tem como 
directores os snrs. dr. Ladislau Piçarra e M. 
Dias Nunes, e collaborador artistico o Snr. F. 
Villas Boas. Propõe-se a Tradição, reunir, com 
todo o escrúpulo e fidelidade, o maior numero 
de materiaes ethnographicos, relativos ao nosso 
paiz. 

E' muito bem redigida e de muito valor esta 
Revista, o que fará com que doutos e semi-dou- 
tos a apreciem e reclamem.» 

(D' A Illustração Moderna, N.° 4) 

X 
«A- rrradiQão» 

«Com este titulo começou a publicar-se, em 
Serpa, uma explendida revista mensal d'ethno- 
graphia portugueza. illustrada, tendo por direc- 
tores os srs dr. Ladislau Piçarra e M. Dias Nu- 
nes. 

A «Tradição» vem desempenhar um grande 
papel no meio litterario do nosso paiz e prestar 
valiosos serviços á Ethnographia Portugueza, 
infelizmente bastante descurada. 

Eis algumas linhas do seu artigo de apresen- 
tação, que definem, melhor que nós o podería- 
mos fazer, o que será a nova revista :» 

(Seguem os dois primeiros períodos do artigo 
d'apresentação). 

(Da Semana Alcobacense, N." 544) 



• yV ''I"'i-mll<,'ri<>u 

«Uma revista mensal, illustrada, de ethnogra- 
phia portugueza, publicada em Serpa, sob a di- 
rectoria de Dias Nunes, o conhecido poeta dos 
'lipsinaninlios, e de Ladislau Piçarra, outro poe- 
ta, de mcreciniento também. 

E' nobilíssimo o intuito dos dois poetas que 
dirigem a «Tradição» : «reunir — recolhidos com 
todo o escrúpulo e fidelidade — o maior numero 
possível de materiaes ethnographicos, assim de 
caracter phvsico como de caracter mental, rela- 
tivos ao nosso paiz." Nobilíssimo e merecedor 
do apoio de todos os que sentem ainda um bo- 
cadinho de amor por esta boa e linda terra que 
nos foi berço. 

Insere o 1° numero da «Tradição-» opimos 
trabalhos do dr. Sousa \'iterbo. Dias Nunes, Paulo 
Osório, Álvaro Pinheiro, dr. Ladislau Piçarra, 
etc , etc. 

E para terminar : o meu reconhecimento a 
Dias Nunes pelas carinhosas referencias que se 
permitte fazer ao opúsculo Arte, meu e do Paulo 
Osório. E tanto mais vivo é este meu reconhe- 
cimento, quanto é certo que as palavras que 
consagra ao meu nome são immerecidissimas.» 

JuLio DE Lemos 

(D'/l Aurora du Lima, N." 6:5oi) 

X 



«A Trttcliçttou 

«Com este titulo acaba de vir a lume o i." 
numero d'uma revista mensal d'ethnographia por- 
tugueza, dirigida pelos nossos illustrados colle- 
gas srs. Ladislau Piçarra e M. Dias Nunes. 

Esta revista é d'uma grande utilidade e va- 
lor. 

«O estudo do povo portuguez, no que encerra 
de tradicional e typico, — diz a redacção do novo 
jornal no seu preliminar — e sob o duplo aspe- 
cto da sua vida physica e mental, está infeliz- 
mente bem longe da realisação. 

«A proseguirmos assim, com a mesma indiffe- 
rença e desdém por assumpto que tanto deveria 
interessar-nos, a breve trecho se verá de todo 
obliterada a tradição nacional. 

«Procuremos, pois, despertar de similhante 
índifFerença. que, sobre ser anti-patriotica, nos 
colloca a nós mesmos portuguezes na impossi- 
bilidade de nos conhecermos, e priva a sciencia 
ethnologica dos indispensáveis elementos para 
julgar, com precisão e segurança, das nossas afi- 
nidades ethnicas e da evolução dos nossos usos, 
costumes, instituições e crenças em relação aos 
outros povos.» 

(Do Gil Bra^, N." 1)7 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



«A. Tmcli<^iio» 

«O nosso iimisio e distincio poeta dos «Rosma- 
ninhos* M. Dias Nunes vem prestando, juntamen- 
te com o sr. dr. Ladisl.iu Piçarra, um óptimo 
serviço á ethnopraphia portugueza com a publi- 
cação da sua revista mensal nA Tradição». 

E' uma publicação interessantíssima onde é 
recolhido, com uma persistente paciência e acu- 
rado escrúpulo, tudo quando a tradição popular 
nos lepou. Assim, o numero dois da curiosíssima 
revista insere uma descripção dos usos e costu- 
mes do carnaval no Alemtejo, danças populares 
do Baixo Alemtejo, crenças e superstições, mo- 
das-estribilhos alemtejanas, habitações da mes- 
ma província, novellas populares minhotas, jo- 
gos e contos populares, etc. 

E' um repositório de coisas tão interessantes 
como curiosas, e pena seria que ellas ficassem 
dispersas e perdidas. 

Este numero publica uma esplendida gravura 
representando uma «Camponesa vindo da tonte» 
e a musica popular «Manuelzinho, você chora». 

Aos distinctos escriptores dr. Ladislau Piçar- 
ra e Dias Nunes as nossas felicitações pelo seu 
escrupuloso e paciente trabalho, e agradecimen- 
tos pela amabilidade da olíerta.» 

Marcos Guedes 



|D'0 Sorvete, N.» 92| 



X 



"A. ''Fradiv»" 

«Eis um jornal de que o paiz havia de estar 
cheio : A tradição dos povos, quando lucida- 
mente archivada pelo livro, é de inestimável va- 
lor hisiorico, e se á tradição verbal se devem tra- 
balhos importantes, é certo que a verdade nem 
sempre vae lidima, perfeita, como convém que 
o seja. 

Por isso a Tradição, que em Serpa iniciou a 
a sua honrosa tarefa, é digna de muitos applau- 
sos e da protecção incondicional de todos.» 



(Da Estrella do Minho, N." 188) 



«A. 'J"'ríitli<;;ã.o» 

— Recebemos os n."' 1 e 2 d^eíta excellente 
revista ethnographica que se publica em Serpa, 
sob a direcção dos srs. dr. Ladislau Piçarra e M. 
Dias Nunes. Esta publicação é no género da an- 
tiga — Revista do Minho — mas mais apurada 
tanto na parte material como na disposição dos 
diversos artigos que a tornam attrahente e cu- 



riosíssima. Em todos os números publica uma 
excellente photogravura representando um typo 
popular e a musica d'uma trova alemtejana.» 

(D' O Campo 'd'Ourique, N." 34) 



X 



aA. Tracli<?ão» 

Revista mensal de ethinographia 
portugueza, illustrada 

«Esta revista, publicada em Serpa, veiu pre- 
encher uma lacuna bastante sensível, em publi- 
cações d'este género, tanto na província como 
na capital. 

Lá fora, em paizes adeantados, existem ás de- 
zenas; mas em Portugal onde tão descurado 
anda tudo o que interessa saber do povo, sua 
vida, seu meio, sua actividade, seu sentimento, 
poucos se teem abalançado a obra semelhante, 
tão útil e tão agradável ao mesmo tempo. 

A Tradição é, pois, uma revista de todo o in- 
teresse, bem redigida e methodisada, e faremos 
votos para que os seus directores, os srs. dr. Pi- 
çarra e Dias Nunes, não esmoreçam no incita- 
mento, e continuem a fazer reviver a província, 
o povo, em tudo quamo tem de bello e digno 
de estudo.» 



( De A Pátria, N." 2) 



X 



<<D'esta bellíssima publicação recebemos o n." 
3, relativo ao mez de março. Continua desper- 
tando-nos intimo interesse a leitura de suas pa- 
ginas, pois vemos apparecei- ahí, cem meticu- 
losa fidelidade, o nosso passado, láo cheio d'en- 
cantos, todo embalsamado de poesia, e as sin- 
gelas e encantadoras tradições populares.» 



(Da Seviana Alcobacense, N.° 459) 



X 



«A. Tradição» 

(Segue o extracto do summario do n." 2 da 
Revista.) 

«O numero vem decerto interessante, — mas 
aqui e ali, cheira a sciencia e a litteratvra. Nos 
contos populares não devemos attender só á 
ideação: devemos reproduzir, quanto possível, 
a syntaxe do povo, para que os contos se tor- 
nem, ao mesmo tempo, um dommento da lingua. 

Isto não quer dizer que se caía também no 
exagero, tão vulgar, de estropear palavras, — 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



salvo se a phisionomia anormal de algumas as- 
sumiu caracter geral. 

O melhor processo de reproducção de contos 
populares seria a tachigraphia ; mas se não po- 
der empregar-se, ao menos não adulterar sensi- 
velmente a syntaxe, — mesmo porque á ideação 
do povo uma só forma vae bem : a do mesmo 
povo. E não só a essa. Tamhem não iria mal... 
á dos litteratos.u 

Ch.-A. Hysson (Trindade Coelho). 

(Da Tribuna, n." 11) 

X 

«-A. Tradição» 

«Interessantissimo o numero 2 d'esta Revista, 
em que se vão archivando carinhosamente, com 
todo o escrúpulo da observação sincera, os fas- 
tos da vida popular, sobretudo das populações 
do Alemtejo. Danças, contos, cantigas, estribi- 
lhos, jogos, crenças e superstições, tudo emfim 
que faz o encanto do folk-lore^ tudo ali tem a 
sua agenda, a sua commemoração, de modo a fi- 
car perpetuado pela imprensa o modo de ser 
mais intimo da vida popular portugueza. 

Este numero vem enriquecido com uma pagi- 
na de musica e com uma photogravura, repre- 
sentando um gracioso typo de Serpa — A cam- 
ponesa que volta da fonte.» 

(Do Diário de Noticias, n.° 11:937) 



«A. Tríifliçâou 

«Continua a sua carreira triumphante a excel- 
lente revista que muito honra, com o paiz, a 
terra onde se publica, a villa de Serpa, 

E' uma publicação onde muito se aprende e 
que não devia deixar de ser lida por ninguém.» 

{Da Estreita do Minho, n.° 197) 



X 



«A. Tradição» 

«Eis uma publicação que não tem desmentido 
a espectativa d'aquelles que pela primeira vez a 
viram e sabiam o valor dos seus directores, o 
nosso amigo Dias Nunes e sr. dr. Ladislau Pi- 
çarra. O ultimo numero, o 4.°, referente a abril, 
vem interessantissimo; para se apreciar, basta 
ler o summario:» 



(D'0 Século, n.° 6:224) 



• — A Tradição, apreciabilissima revista men- 
sal d'ethnographia portugueza, illustrad.i, supe- 
riormente dirigida pelos srs. Ladislau Piçarra e 
M. Dias Nunes, tendo por collaborador artistico 
o sr. F. Villas Boas, e publicando-se em Serpa, 
prosegue regularmente em sua publicação, al- 
cançando merecida aura e applausos. Crjm todas 
as veras lhe trago eu os meus.» 

(D'i4 Aurora do Cavado, n." 8 do 32." anno) 



X 



•A. Tradiçuo» 

Bevista mensal d'ethnographia portugueza, 
Ulustrada, de Serpa 

«Repositório d'uzanças populares em voga ou 
recolhidas da tradição, esta revista é altamente 
interessante, porque nos dá uma viva impressão 
do que é o nosso povo, principalmente o alem- 
tejano. 

Typos populares, habitações, costumes, can- 
ções com a respectiva musica, mesinhas, pre- 
conceitos e superstições, lendas e romances con- 
servados nas tradições do povo, danças e folga- 
res, tudo o que constitue o modo de ser do ele- 
mento popular vae surgindo em l/í Tradição de 
modo a photographar o physico e o moral do 
povo portuguez. 

No nosso meio litterario, o povo apenas é co- 
nhecido pela personificação burlesca do Zé Po- 
vinho, de Bordallo Pinheiro, ou pelas descri- 
pções mais ou menos phantasiosas d'alguns ro- 
mancistas. E essa ignorância da modalidade po- 
pular tem sido talvez uma das causas que tem 
tornado tão ronceiro o nosso caminhar no pro- 
gresso. 

Ha na vida do povo muita coisa a extirpar, 
muita coisa a corrigir, muita coisa a aproveitar, 
mas para isso é preciso conhecel-as. Q/í Tradi- 
ção vae na piugada d'esse scopo, tornando-se 
uma espécie d'animatographo em que desfila o 
elemento popular. 

Quanto á parte material, impressão nitida, 
magnifico papel, soberbas illustrações e. . . ba- 
rato. 

Agradecemos a visita e fazemos votos pelas 
prosperidades de C/í Tradição, que bem o me- 
rece.» 

(D' O Jornal de Vagos, n.° 16j 



X 



«A. Tradição» 

«Acabamos de receber o n.° 5 da 1." série 
d'esta revista mensal d'ethnographia portugueza, 
que se publica em Serpa. V"m realmente inte- 
ressante, mostrando-se digna do interesse pu- 
blico e agradando pelo cuidado que se nota em 



10 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



satisfazer bem o seu fim. Insere vários artigos 
de assumptos tradicionaes e é illustrada com 
uma gravura : Cawf.Tniçj ^mulher do termo de 
McrtoTa) e a musica de um descante : Verde ca- 
racol* 

[D' O Ideal da Bairrada, n." 28) 

X 
kA. Tradição» 

«Recebemos mais um numero d'esta interes- 
sante revista mensal que se publica em Serpa, 
sob a direcção dos nossos talentosos coUegas 
Ladislau Piçarra e M. Dias Nunes. 

A sua colíaboração artistica e litteraria é, co- 
mo sempre, primorosa.» 

(D'0 Circulo das Caldas, n." 286) 



oA. Tradição» 

Eevifita mensal de ethnoÊraphia portugueza, 
illustrada— Serpa 

«Sob a intelligente direcção dos srs. Dias Nu- 
nes e Ladislau Piçarra, conhecidos escriptores, 
encetou a sua publicação em janeiro d'este anno 
em Serpa esta interessante revista, destinada a 
reunir o maior numero possível de materiaes 
ethnographicos relativos ao nosso paiz, inserin- 
do dinerentes estudos sobre costumes, crenças, 
linguagem, superstições do nosso povo, e archi- 
vando cantigas populares, historias, provérbios, 
adi\-inhas, tudo emtim que constitue o vasto do- 
mínio áo folk-lore do saber popular». 

Nos cinco números já dados a lume cumprem 
os seus intelligentes directores amplamente as 
promessas feitas ao encetarem aquella publica- 
ção, que de numero para numero se vae tornan- 
do mais interessante. 

Cada um dos números é illustrado com uma 
bdla photogravura reproduzindo um typo popu- 
lar, e insere também uma canção popular para 
piano e canto. 

A colíaboração é escolhida, contando-se entre 
os auctores dos variados e interessantes artigos, 
que a re^^sta tem publicado, alguns dos escri- 
ptores mais distinctos que em Portugal se oc- 
cupam da especialidade. 

O summario do n.» 5, ultimo publicado, é o 
seguinte, e pelo seu simples enunciado se vê a 
importância d'esta publicação.» 

(Du Gaveta da Figueira, n." 762) 

X 

«A Tradição» 

■Acaba de se publicar o n." 6 da serie I d'esta 
crcellente e onica publicação no seu género, de 



que são directores os srs dr. Ladislau Piçarra e 
nosso amigo M. Dias Nunes, de Serpa. 

Esta revista mensal de ethnographia portu- 
gueza, illustrada, que custa por assignatura ape- 
nas a quantia de 600 réis annuaes — o que consti- 
tue um verdadeiro milagre — melhora de numero 
para numero a olhos vistos, tornando-se cada 
vez mais interessante. 

No presente numero nota-se a colíaboração 
distincta de escriptores consagrados como os 
srs. conde de Ficalho, Alberto Pimentel, e estu- 
diosos como os srs. Pedro Covas, Pedro A. de 
Azevedo, A. Thomaz Pires e António Alexan- 
drino, além da publicação de artigos dos seus 
talentosos e distinctos directores. 

O summario é o seguinte: 



Seria uma falta da nossa parte não citar o me- 
recimento do seu collaborador artístico, sr. F. 
Villas-Boas. 

Q/í Tradição, que tem já uma tiragem digna 
de espanto para o nosso minguado mercado lit- 
terario, vende-se avulso, por 60 réis o numero, 
em Lisboa, na Galeria Mónaco, Rocio; no Por- 
to, na Livraria Moreira, praça de D. Pedro, 42 
e 44; e em Coimbra, na Livraria França Amado.» 

(D'0 Século, n.« 6:281) 



X 



«A- Tradição» 

nD'entre o limitadissimo numero de jornaes 
que se consagram ao estudo da pátria portugue- 
za, sobresae com grande valor G^ Tradição. l3es- 
tinada simplssmenie ao estudo ethnographico, 
vem ella preencher uma grande lacuna, e fixar 
uma grande parte da maneira de ser do nosso 
povo. E ha-de, esperamol-o, estudar com muita 
especialidade, com muito amor, com muito in- 
teresse, a maneira como elle falia, como elle 
canta, como elle vive, as suas tendências, etc. 
Todavia devemos distinguir uma simples super- 
stição de uma simples suggestão. 

Da superstição dos criminosos poderia citar 
factos que não determinam superstição, mas 
que são o simples rezultado de uma observação 
extranha de grande poder suggestivo. 

Uma e outra coisa tem valores muito differen- 
tes.» 

(Do V^oticias de Alcobaça, n.° 4). 

X 

oA. Tradição» 

«Aquelles estudos que para Viço constituiram 
a «sciencia nova»>, a demopsycologia, mytogra- 
phia, volk-lehre, litteratura oral, ou, segundo 
William Thoms, o folk-lore, o «oui-dire» dos 
frartcezès, «volker-psycologie» dos allemães, for- 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



U 



mHS basilares nn anthropoIot;i.i, philolopia, so- 
ciologia e o mesmo na historia, i^uc desde ha 
uns cincoenta e tantos annos vêem mteressando 
um núcleo de inteliectuaes e por toda a handn 
riorescem fírandcmente — tanto que o scientista 
hespanhol Machado y Alvarez ainda ha pouco os 
dizia «já sem pátria», — esses estudos trazendo a 
diversos oscriptores nossos uma rara delicia es- 
piritual, torn;iram-os dedicados cultores da psy- 
cologia do povo. 

Occorrem-me aporá estes nomes : Theophilo 
Braga, J. Leite de Vasconcellos, Adc)lpho Coe- 
lho, Trindade Coelho, Armando da Silva, Sousa 
Viterbo, Silva Vieira, P. Fernandes Thomaz, 
A. Thomaz Pires, Paulo Osório, Rodrigo Vello- 
so, Álvaro Pinheiro, Alberto Pimentel, Gualdino 
de Campos, Conde de Ficalho, M. Dias Nunes, 
Ladislau Piçarra, etc, etc. 

Todos esses se hão permittido a gostosa e pro- 
veitosa tarefa de inventariar elementos ethnogra- 
phicos, classificar tantos principios de commo- 
ção artistica, de desenvolver, entre nós, o mais 
captivante ramo das sciencias moraes. 

De Serpa tem-me chegado, aos mezes, a re- 
vista que os dois últimos dos tradicionalistas 
ahi acima nomeados, dirigem e cujo scopo único 
é o estudo scientifico da ethnographia portu- 
gueza. 

«Do nosso follc-lore ha alli tudo; um pouco 
de tudo. As poesias populares, tradições, contos, 
lendas, crenças, superstições, usos, adivinhas, pro- 
vérbios, enhn tout ce qui concerne les nations, 
leurs opinions, isso que. no dizer do Conde de 
Puymagre, é o folk lore, topamol-o em suas pa- 
ginas tractado com notável proficiência. 

Dos números 2, 3, 4, 5 e 6, que estão sob os 
meus olhos e a que devo algumas referencias, 
destaca para o meu carinho, estes escriptos : 
Danças populares do Baixo-Alemtejo, de Dias 
Nunes; Na quaresma, idem ; Therapeutica Mys- 
tica, de Ladislau Piçarra: Serração da velha, de 
Theophilo Braga ; as Lendas & romances, de A. 
Thomaz Pires ; O elemento árabe na linguagem 
dos pastores, do Conde de F'icalho ; e a prosa 
de Alberto Pimentel, Andar ás vozes. 

Outros escriptos, de grande curiosidade tam- 
bém, esmaltam as restantes laudas da Tradição. 

Prosiga a folha serpense na rota d'agora. N'es- 
tes dias, em que, ai de nós ! vamos invadidos pela 
influencia estrangeira, tão pronunciada ; em que, 
por via da grande anciã toda de cosmopolitismo 
que nos accommetteu, a feição nacional parece 
extinguir-se, quando, a despeito da baixa cam- 
bial, as pochades de além fronteiras cursam li- 
vremente no nosso mercado, as paginas da Tra- 
dição são um eloquente protesto que dois poe- 
tas, dois homens honestos e de um valor incon- 
testando, Dias Nunes e o doutor Piçarra, atiram 
ahi á face dos mystificadores. 

Cumprimento-os.» 

JuLio DE Lemos. 

(D'C/Í c^urora do Lima, n." 6562). 



«Continua com toda a regularidade a publica- 
ção d'esta interessante revista, que vê a luz pu- 
blica ern Serpa, e que de numero para numero 
mais afíirma a sua grande importância pela esco- 
lha e variedade dos assumptos e esmerada col- 
laboração tanto litteraria como artistica-» 

(Da Gaveta da Figueira., n." 785). 

X 

«Publicou-se o n." õ d'esta excellente revista 
ethnographica, primoroso repositório de valio- 
sissimos subsidios para o estudo do nosso povo, 
e que é superiormente dirigida pelos srs. Dr. La- 
dislau Piçarra e M. Dias Nunes, de Serpa». 

^Da Semana Aícobacense, n." 471) 

X 

«E indiscutivelmente esta uma das mais inte- 
ressantes publicações portuguezas da actualida- 
de, não só pelos assumptos de que trata, como 
pela sua distincta collaboração. O summario do 
n." 7 que em seguida publicamos, dá sobeja ideia 
do seu valor :» 



(Da Gaveta das Aldeias., r\." 189). 
X 

«Imaginem, se são capazes, onde se publica 
uma revista de sciencia com este titulo, e por 
signal que feita á altura da gravidade das cir- 
cumstancias ? N'uma terra modesta que por um 
triz esteve para não figurar no mappa — em Ser- 
pa, villa do Alemtejo, que poucos conhecem pa- 
ra cá do Douro. E' n'este canto da região do 
gaspacho., da açorda e de paios, que alguns ra- 
pazes curiosos e intelligentes se lembraram de 
estudar as costumeiras, as cantigas, os trajes, as 
superstições, a lingua, as modas, os provérbios 
do povo. Ali encontra o leitor tudo, como na 
botica. E' pedir por bocca. O ultimo numero, 
por exemplo, ensina-nos como se guardam ca- 
bras, as virtudes amatorias do mangerico e da 
alcachofra (aviso aos amadores do pé rachado), e 
benzedura contra a erysipela branca, contra a 
vermelha, a empolar e a negral (t'arrenego), e a 
receita para desembruxar creanças, com farinha 
e agua (com vista ás mulheres de virtude). E 
como se isto fosse pouco, ainda o leitor pode 
admirar uma linda photogravura — a Lavadeira — 
e sabendo solfa, trautear a canção «Dizes que 
sou lavadeira», e que é linda como o lindo amor. 

Tudo isto por três vinténs, hão de concordar 
que é um ovo por um real. Bom e barato, claro 
está que se vende como manteiga. 

Vão ao Moreira, livreiro, e ia apostar que já 
difficilmente encontrarão um exemplar. 



12 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



E' que os nossos amigos Piçarra e Dias Nunes 
(vá um parenlhesis a sério na galhofa do nosso 
semanário) souberam fazer da TmJição um cu- 
riosíssimo repositório digno de figurar na estan- 
te dos amadores d'estas coisas, que, para honra 
nossa, augmenta de dia para dia.» 

Marcos Guedes. 

(D'0 Sorvete, n.° 112). 



X 



«Continua a fazer uma carreira gloriosa o pe- 
riódico A Tradição^ que surgiu do fundo do Alem- 
tejo, da villa de Serpa, com grande surpreza de 
todo o paiz. 

O numero 9 que temos presente, confirma ple- 
namente a impressão que o i.° numero produziu 
em todos os centros litterarios. 

Não fazemos reclamo, que o não orecisa oA 
Tradição. 

E' uma bella publicação, rara entre as rarissi- 
mas que entre nós conseguem lançar raizes sem 
o favor de ninguém.» 

(D'0 Popular^ n." i :202). 



X 



■Segue confirmando os seus créditos e attes- 
tando a intelligencia dos seus directores, os nos- 
sos prezados confrades Ladislau Piçarra e Dias 
Nunes. Excellente o numero relativo a outubro, 
que vem a ser o 10." CoUaboração muito varia- 
da e assumptos interessantes. E' ver o summa- 
rio. que é este :» 



(D '.4 Pátria, n.° 259). 



•Continua com toda a regularidade a publica- 
ção d'esta curiosa e interessante revista d'ethno- 
graphia portugueza, illustrada, que vê a luz da 
publicidade na villa de Serpa, e de que são dire- 
ctores os srs. dr. Ladislau Piçarra e Dias Nunes, 
com illustraçóes dos srs. F. Villas Boas e J. V. 
Pessoa. 

CoUaborada per distinctos escriptores, aug- 
mentando de numero paf-a numero a variedade 
e o interesse dos assumptos que trata, a Tradi- 
ção é, no seu género, uma das publicações mais 
importantes que no paiz se tem feito, ê veio na 
realidade prestar um incontestável serviço aos 
que se interessam pelos progressos dos estudos 
ethnographicos, tão descurados até hoje, infeliz- 
mente, entre nós.» 

fDa Gaveta da Figueira, n." 8o5). 



«Recebemos com superior agrado a curiosa 
revista dirigida pelos srs. Ladislau Picai ia e Dias 
Nunes, que emprehenderam n'esta publicação a 
agradável e útil tarefa de recopilar e fazer revi- 
ver sob uma forma litteraria, amena e compre- 
hensiva, os documentos de diversa ordem que 
interessam á ethnographia, á philologia, á an- 
thropologia e ramos scientificos que com ellas 
se entroncam. 

CoUaborada por escriptores conscienciosos e 
de talento, que imprimem auctoridade a esta 
excellente revista, torna-se attrahente para todos 
pela forma despretenciosa e singella da exposi- 
ção e narrativa, acompanhada de formosos docu- 
mentos photographicos, que illustram todos os 
números. Agradecemos e estimamos deveras a 
amabilidade da troca com a nossa revista.» 

(Da Revista de Educação e Ensino, n." 10, 1899). 

X 

«Sempre curiosíssima, inserindo escriptos de 
verdadeiro valor, esta publicação que está pres- 
tando magníficos serviços á litteratura nacional. 
N'este numero destaca-se a continuação de um 
bello estudo do sr. conde de Ficalho, sobre o 
elemento árabe na linguagem dos pastores alem- 
tejanos. 

Publica, como de costume, uma estampa na 
galeria dos typos populares (Acarret^dor de fa- 
rinha — Brinches) e a pagina musical, preenchida 
pelo trecho coveo^ra^Çihxco Marianita Joi àfonte.v 

(Da Ga:^eta das Aldeias, n.° iSq). 
X 

«A- Tr-adiçtio» 

«Vae quazi no primeiro anno de existência 
esta excellente revista alemtejana, que tem por 
directores dois distinctos publicistas, dois dos 
mais dedicados tradicionalistas, que tanto amam 
a terra portugueza. 

Amar a sua terra, amar o seu paiz, amara sua 
pátria, é querer cada um a todas as tradições, 
tanto da família como do povo. Ora, de todos 
os paizes da Europa, é Portugal o mais rico de 
tradições, como o disse um sábio estranjeiro. 

Pois apezar d'isso, se o dr. Ladislau Piçarra e 
o meu bom amigo M. Dias Nunes não houves- 
sem mettido hombros á empreza para elles glo- 
rioza e para as lettras proveitoza de fundar en- 
tre nós uma revista de estudos scientificos de 
ethnographia portugueza. Portugal não teria ain- 
da hoje, como rico repozitorio e excellente in- 
ventario de elementos tão vastos e importantes, 
uma publicação como a de que estamos falando. 

O ultimo numero, referente a outubro, além 
das illustraçóes, que são, na «Galeria dos typos 
populares», um Grupo de marçanos ou aprendi- 
zes de tosquiador, com o mestre ao lado, e, no 



APRECIAÇÓÇIS DA IMPRENSA 



18 



«Cancioneiro muzical», o Cântico das janeiras, 
insere os artigos seguiniesru 

«Estudos tão ricos, tão bellos e interessantes 
como são os elhnographicos, por onde bem co- 
nhecemos e bem queremos o modo de pensar, 
de sentir e de proceder da nossa querida terra, 
e que também, como disse outro sábio, repie- 
sentam a sctencia /lovj, ao mesmo tempo que 
constituem a psycologia do povo, encontram-se 
na excellente revista alemtejana, tratados com o 
máximo carinho e o mais proficiente cuidado. 

Bem podemos portanto, dizer que o dr. La- 
dislau Piçarra e M. Dias Nunes, com a sua obra, 
com a sua TraJiç3'\ onde o estudo das nossas 
tradições leva ao amor dos uzos, costumes e ca- 
racter do paiz que nos foi berço, desenvolveram 
de tal arte entre nós um dos mais interes^antis- 
mos ramos que compõem as sciencias moraes. 

Cumprmientamos e felicitamos do coração os 
dois distinctos e sympathicos escriptores.» 

ALFKtDO DE PkaTT. 

(Da (lorrespondencia de (loimbr.i^ n." 70). 
X 

«Pnblicou-se o n." 10, correspondente ao mez 
de outubro, d'esta interessantissima revista ethno- 
graphica, cuja sede é em Serpa, e que se dedica 
especialmente a assumptos alemtejanos, embora 
também trate de outros com relação ao resto do 
paiz. 

Os artigos d'este numero são, como os ante- 
riores, muito curiosos. Traz a costumada estam- 
pa musical, que d'esta v^íz se refere á cantiga 
das janeiras, e outra represeutando um grupo de 
«marçanos ou aprendizes de tosquiador, com o 
mestre á frente.» 

Era-nos desconhecida esta significação locd 
«marçano», que nos traz á lembrança aquelia 
outra definição phaniasticamente humoristica de 
uma das comedias de (jervasio Lobato, em que 
uma das personagens diz que na sua terra «mar- 
çanos» são os que nascem em março.» 

(Do 'Diário de U^oticias, n." 12:217). 

X 

«Continua a ser interessantissima esta revista, 
que é das melhores que no seu género conhece- 
mos, e que faz honra á província do Alcmtejo. 

O n." 12, agora publicado, comprehende o se- 
guinte texto :» 



(D" O Popular^ de fevereiro de 1900). 
X 



«Entre toJas as publicações destacamos uma 
-qA Tradição. 



Não ha no nosso paiz outra n'este género. A 
ella está confiada a perpetuação de um certo 
numero de factos, verdadeiros esiypmas de um 
povo, dignos de respeito para o caracterisar c 
definir. Tem e não podia deixar de ter um jo- 
gar á parte, marca um assumpto novo, fere uma 
nota que tem estado no silencio e como tal, se 
impõe á nossa consideração. 

Aos seus redactores o nosso tributo de ad- 
miração, de mãos dadas com a nossa gratidão.» 

(Do Relatório da Direcção da Associ.uãii Aca- 
démica, de Coimbra.) 



X 



«A. Ti*a.<li<^*tto« 

"As publicações periódicas de caracter pura- 
mente iitlenirio, e sobretudo as que revistam 
um caracter um tanto ou quanto scientifico — 
como as de nhilosophia, de historia, (\c geogra- 
phia, de arcneologia, ctc. ; quer dizer as publi- 
cações periódicas de litteratura, que mais utili- 
dade podem ter, são precisamente as que mais 
dillicilmente logram insinuar-se no publico e ao 
mesmo tempo as. que mais rápido decahem. . . 
quasi sempre por falta de matéria prima 

Entre as raras excepções que conhecemos 
com muita satislacão podemos incluir a Tradi 
ç\70, de Serpa, revista de cthnographia que des- 
de o seu primeiro numero (e acaba de comple- 
tar um annoj tem mantido uma brilhantíssima 
collaboração e se tem publicado regularmente, 
o que nos prova que consegue fazer o milagre 
de viver n'um meio rebelde a estudos d'esta or- 
dem. 

No ultimo numero publicado, relativo a de- 
zembro de i8(»q, insere artigos, versos e um tre- 
cho de musica, relacionados com a espécie de 
investigações a que a revista é consagrada : dan- 
ças populares, superstições, lendas, contos po- 
pulares e provérbio^. 

E' um numero muito curioso. 

Os directores d'esta revista, srs. dr. Eadislau 
Piçarra e .M. Dias Nunes, podem ufanar-se de 
dar á estampa uma das publicações modernas 
portuguczas mais interessantes.» 

(Da Ga:[eta das Aldeias, N." 216) 

X 
«A Tr-siclíç*rio» 

«Unter dem Titel «A Tradição» erfcheint 
feit etwa lachresfnst eine portugiesische Zeits- 
chri^t 1'ur Volkskunde, die wohl des interesses 
weiterer Kreise sicher sein darf Die Verleger 
und Versender sind Ladislau Piçarra und Dias 
Nunes in Serpa íPortugali. Die vorliegenden elf 
Nummern bringen Beitrãge aus ailen Gebieien 
der Volkskunde. 



14 



APRECIAÇÕES DA IMPRENSA 



Da sind gediegene Aufsãtze iiber Tracht und 
Spiele, erliiutert" durch meisterhafte Trachten- 
bilder von Villas-Boas und Notenheilagen («por- 
tugiesische Tãnze») in jeder Nummer. Manche 
tièfsinnipe Legende wird mitgeteilt, poesievolle 
Nomanzen, wie die vom Garinaldo, in mehreren 
Fassunqen dargeboten, und aus verschiedenen 
Gegenden, aus der Ghene des Minho, wie aus 
Alèmtejo, Marchen und Fabeln, oft in der Mun- 
dart mitgeteilt. 



Schalkhafte Volksrãtsel fehlen nicht. 

Dem deutschen Leser wird in der Bibliogra- 
phie viel werlvolles Material zugefilhrt. Wir 
wiinschen dem neuen Unternchmen einen gu- 
ten Fortgang und eine weite Verbreitung, au- 
ch in Deutschland.» 

De. Robert Petsch. 

{'Das litterarische Echo — 15. Februar 1900) 




A.UUO I — W." 1 



SEEPA, Janeiro de 1899 



H^i-i«' I 



Editor-adcninisirador, Jote Jeronymo da (.<>/.. iw.iv .u- N .,'.■' ,, l'ui I u^i i , — SERPA 
TypoRraphia de Adolpho Je MetiJuiuj. Kua Jo Curpu .Saino, 4U c 4.- — l.l.MiUA 

A TRADIÇÃO 

> 

REVISTA MENSAL DETHNOGRAPHIA PORTUGUEZA 



DIRECTORES: — LADJSLAU PIÇARRA e M. DIAS NUNES 



PRELiIJVIírJAR 

o estudo do povo portLigucz, no que 
ellc encerra de tradicional e tvpico, e 
sob o duplo aspecto da sua vida physica 
e mental, está infelizmente bem longe da 
realisação. 

Apesar de quanto se tem elTeituado 
n'este ultimo quartel do século, as ma- 
nifestações mentaes do nosso povo otTe- 
recem ainda larguissimo campo a explo- 
rar; principalmente na província do Alem- 
tejo e, em particular, no que respeita a 
festas religiosas, linguagem, contos, jo- 
gos, lendas, estribilhos, superstiç(5es e 
cantos coraes. 

Sob o ponto de vista physico, então, 
pôde aíToitamente asseverar-se que quasi 
nada ou nada se encontra investigado 
e descripto: — nem a organisação e pro- 
cessos consuetudinários das diversas in 
dustrias, taes como a agricultura, a 
cerâmica, a fiação, a cutelaria, etc. ; 
nem as habitações, mobiliário c utensi- 
lios domésticos das classes populares; 
e nem sequer os variadíssimos trajos, 
tão originaes e característicos, tão pitto- 
rescos e evocativos, do operariado dos 
campos. 

A proseguirmos assim, com a mesma 
inditferença e desdém por assumpto que 
tanto deveria interessar-nos, a breve 
treclio se verá de todo obliterada a tra- 
dição nacional. 

E devemos ponderar que a tradição 
— voz augusta e saudosa do passado, 



elo invisível mas poderoso que liga es- 
treitamente os indivíduos e as gerações 
— a tradição é a força que avigóra a 
alma e o caracter de cada povo, d'onde 
em grande parte deriva a respectiva 
existência independente e autónoma. 

Procuremos, pois, despertar de simi- 
Ihante indilVerença, que, sobre ser anti- 
patriótica, nos colloca a nós mesmos 
portuguezes na impossibilidade de nos 
conhecermos, e priva a sciencia eihnolo- 
gica dos indispensáveis elementos para 
julgar, com precisão e segurança, das 
nossas affinidades ethnicas e da evolução 
dos nossos usos, costumes, instituições 
e crenças, em relação aos outros povos. 



A Tradição, cujo primeiro numero 
temos o prazer de dar a lume, propõe- 
se reunir — recolhidos com todo o escrú- 
pulo e fidelidade — o maior numero pos- 
sível de materiaes ethnographicos, assim 
de caracter physico como de caracter 
mental, relativos ao nosso paiz. 

K d'est'arte julgámos prestar sincero 
concurso, modesto embora, á execução 
d'uma obra extraordinariamente gran- 
diosa no seu conjuncto — a Kthnographia 
Portugueza. A qual obra — despertadora 
da tradição nacional e basicamente sub- 
sidiaria da ethnologia — será d^altissimo 
valor para o rejuvenescimento pátrio e 
ao mesmo tem.po para a historia da 
civilisacão humana. 



A TRADIÇÃO 



Antes de concluir este breve prelimi- 
nar, seja-nos dado esclarecer que, muito 
propositalmente substituimos a palavra 
ethnographia á palavra folk-lorc. geral- 
mente adoptada para designar o género 
de trabalhos de que nos occupàmos. 

Em nossa humilde opinião, folk-lore 
(do inglez archaico folk, povo*, e lore 
sciencia» apenas convém a uma simples 
parte dos estudos em questão, — áquella 
que descreve as manifestações da intelli- 
gencia, a chamada sabedoria popular. Ao 
passo que o termo ethnographia — con- 
forme o definiu Topinard — comprehen- 
de integralmente a descripcão de cada 
povo nos seus usos, costumes, religiões, 
línguas, caracteres phvsicos e origens na 
historia. 

A Redacção 



O doutor da mula ruça 

Ainda hoje é vulgar a expressão dou- 
tor da mula ruça^ mas não lhe sei de- 
terminar rigorosamente a significação, 
que me parece se emprega sempre em 
sentido irónico e de troça. Paliando do 
ratinho^ isto é do aldeão da Beira, o snr. 
dr. Theophilo Braga, sugestionado não 
sei por que analogia, diz o seguinte do 
dr. da mula ruça: 

«Como este typo isolado, creou-se en- 
tre o povo o typo do Doutor pedante, 
de um personagem do tempo de D. João 
III, o Doutor da muta ruça., e o typo da 
criada ladina ou Sirigaita.» (») 

Como se vé, não exemplica nem do- 
cumenta a sua asserção. Não seria antes 
o doutor da mula ruça um tvpo simi- 
Ihante ao .João Semana, tão admiravel- 
mente desenhado por Júlio Diniz r 

A única allusão, que por ora tenho 
encontrado na nossa antiga litteratura é 



(') Dr. Theophilo Braga, O Vovó Portu^ 
vol. 2."», pag.' 41 5. 



a que traz o poeta Chiado no Auto das 
rcL!;ãt eiras : 

«O doutor da Mula ruça 
vos dará são, como a palma, 
ou o das sete carapuças, 
que aqui anda vaganau.» 

O doutor da mula ruça não é comtu- 
do uma entidade de phantasia ; teve uma 
realidade histórica, documentalmente 
comprovada. Chamava-se António Lopes 
e residia em Évora na primeira metade 
do século X^I. Parece que elle se glori- 
ficava do seu epitheto popular, porisso 
que vem muito claramente expresso na 
sua carta de doutor. Por certo que o 
adquirira com tal ou qual honra, de mo- 
do a apregoal-o jactanciosamente, d' ou- 
tra sorte não se comprehende que elle 
lhe desse assim foros de cidade. 

António Lopes estudara durante dez 
annos na Universidade de Alcalá de He- 
nares, onde se fez bacharel em artes e 
medicina, tendo toda a sufficiencia e re- 
quisitos para obter o grau de doutor, o 
que todavia não realisou por falta de 
meios. Requereu portanto a el-rei que 
lhe concedesse aquella qualificação para 
gosar das honras e privilégios que usu- 
iruiam os doutores pela Universidade de 
Lisboa. El-rei-, attendendo aos seus me- 
recimentos scientificos, e aos serviços 
prestados não só na cura gratuita da gente 
pobre mas na de outras pessoas gradas, 
accedeu favoravelmente, mandando-o exa- 
minar pelo physico mór, doutor Diogo 
Lopes. Este, effectivamente, acolytado 
pelos drs. António Mendes e Francisco 
Mendes, e mestre Francisco Geraldes, 
procedeu ao respectivo exam.e e achando 
o candidato habilitado lhe passou carta. 
A este auto, que se realisou a 19 de 
maio de (534, assistiram como testemu- 
nhas : Diogo dAfonseca, cavalleiro fi- 
dalgo da casa real, o licenciado Gas- 
par Ribeiro, physico da rainha, e Diogo 
Gomes, boticário. A carta regia de con- 
firmação foi passada a 23 de maio do 
mesmo anno, e acha-se registada na 
chancellaria de D João 3.'', a fls. 87 ver- 



A TRADIÇÃO 




^^^MV^rn M Ti^FOS POPIÍL^^ES 






Apanhadeira de azeitoca (Serpa) 




A TRADIÇÃO 



so Jo Livro 20 das Doações, d'onde a 
transcrevi. 

Julgo curioso reproduzil-a aqui na in- 
tegra, não so como importante documen- 
to para a biographia do Doutor da mula 
ruça, mas também como specimen dos 
diplomas uni\ ersitarios da época. Eil-a: 

«Dom .loham ík a quantos esta minha 
carta virem faço saber que ho doutor 
Amt" Llopez, tísico da mulla Ruça, mo- 
rador em esta cidade dEvora, me apre- 
semtou húa carta do doutor Dioguo Llo- 
pez. meu tísyco moor, de que o theor 
de verbo a verbo he o seguimte: «O dou- 
tor Dioguo Llopez, comemdador da or- 
dem de Xpos (Òhristos) e físico mor deli 
Rey noso senhor em seus regnos e se- 
nhorios, faço saber a quamtos esta mi- 
nha carta de douctorado vyrem como por 
Amtonio Lopez, físico da mulla ruça, 
morador em esta cidade dEvora, me foy 
apresemtado hum alluara dellRe}^ noso 
senhor, per sua alteza asvnado e pasado 
per sua chancelaria, do quall o trellado 
he o seguinte: «Eu ellRey faço saber a 
vos doutor Diogo Llopez, meu físico 
moor, que Amtonio Llopez, físico da 
mulla ruça, morador em esta cidade, me 
dice per sua piticã que elle estudou nove 
ou dez annos no estudo de Alcalaa de 
Annares, que he híja das boas vniversy- 
dades da cristimdade, e nela se fez ba- 
charel em artes e medicia (sic) e, per os 
ga^t(.- serem muito grandes, elle se nam 
fc. .' uctor na dita ^'nive^sidade, posto 
qi ; . ese soficiemcia e os curssos todos 
pc -ados que se requiriam pêra ello e 
vemdo que nam tinha posybylydade pêra 
os ditos gastos, se fez doutor per rescri- 
to, pedimdome per mercê que avemdo 
respeito ha suas letras e sofíciemcia, de 
que cuja tinha emformaçam e asi de meus 
físicos como doutras pesoas notáveis que 
em meu Regno tinha curado, ouvese 
por bem lhe comceder de novo o grão 
de douctor ou que goze dos privilégios 
de que gozam os doutores que sam per 
mim feitos ou dos que se fazem em ha 
Vniversidade de Lisboa, e esto per aver 



doze ou treze annos que cura depois de 
ser graduado em esta cidade,omde curou 
todo este tempo todos os pobres d'ella 
de graça e asi outras muitas pessoas que 
curou em minha corte per meu mãdado, 
e visto as}'^ todo per mim ey por bem e 
me apraz que vos com o douctor André 
Medes e com ho douctor Francisco Mar- 
tins e mestre Francisco Giralldez exami- 
neis o sopricamte e, achamdo que he so- 
fíciente, vos lhe dareis o grão de doutor 
e sendolhe dado, ey por bem que goze 
de todoUos previllegios e liberdades como 
se fose feito doutor na Vnivers3'dade de 
Lisboa, e vos lhe dareis carta do dito grão, 
em a quall será treladado este meu al- 
Ivara de verbo a verbo e o dito exame 
se fará segundo se custumã fazer os exa- 
mes na dita Vniversidade de Lisboa, 
quamdo se os semelhantes grãos dam 
sem elle fazer repitiçam. Notefícouollo 
asy e aos ditos físicos e mãdouos que 
as}»" o cumprais. Anrique da Mota o fez 
em Évora aos xni dias de março de jb' 
xxxii ; e esto semdo provado pellos 
mais devoos e os ditos doutores ave- 
ram juramento primeiro que façam o dito 
exame:» pedimdome que ho comprise co- 
mo nelle he contheudo e em comprimento 
delle mãdey ajumtar os doutores em elle 
comtheudos e nomeados, aos quais de}' 
juramento aos samios avamgelhos segura- 
do forma do dito allvara,que bem e ver- 
dadeiramente comigo o exeminasem pêra 
lhe aver de ser dado o dito grão, semdo 
achado auto e sobficiemte pêra ysso, e el- 
les e eu o examinamos per reguroso exa- 
me, segundo se custuma fazer em ha Vni- 
versidade de Lisboa, quamdo se os se- 
melhantes grãos daão sem repitiçam, e 
per ho achar que era aucto e pertem- 
cemte pêra o dito grão com os ditos dou- 
tores lhe dey o dito grão de douctor na 
forma custumada com todas insignias e 
soblenidades que se nos tais auctos cus- 
tumam fazer, goardamdo inteiramente to- 
dalas clausulas do dito alvará, por bem 
do quall decraro ao dito Amt." Llopez 
per doutor feyto per reguroso exame, asy 
e da maneira que se fazem na dieta Vni- 



A TRADIÇÃO 



vcrsydadc de Lisboa, c mãdo a todas as 
pesoas, que ho conhecimento dcsto per- 
temcer, da parte delIRev noso senhor, 
que ho ajam por doutor feito em exame 
reguroso e por tall o tenham e acatem 
e lhe goardem todas as omras e liberda- 
des, previllegios, graças, prerogativas, 
dignidades e favores e preminencias, que 
se goardam e soem goardar na dita V ni- 
versidade de Lisboa, segumdo forma do 
alvará do dito senhor, e por certidam dclio 
lhe mamdev pasar esta carta per mim 
asinada. Jorge Nabo a fez em a cidade 
dEvora aos xix dias do mes de mayo, e 
eu escrivam fuv presemte a todo o so- 
bredito aucto,o qual se pasou da manei- 
ra que nesta carta se conthem, semdo 
pêra ello e rogado chamado com as tes- 
temunhas que ao dito auto foram pre- 
semtes Diogo dAfonseca, cavaleiro tídal- 
guo da casa delIRey noso senhor, e o 
L.° Gaspar Ribeiro, tísico da Rainha nosa 
senhora, e D." Gomes, boticairo, mora- 
dor em esta cidade ano de jb' xxxini 
anos.» «Pedimdome o dito físico da muUa 
ruça por mercê, pois ja he feito doutor 
pello dito físico moor per reguroso exa- 
me, segumdo forma do meu alvará lhe 
mãdase pasar carta patemte per mim 
asinada e pasada pella minha chancelaria 
per que haprovase e comf\rmase ho dyto 
grão de doutor e que nelía se derojuem 
os estatutos da huniversidade de Lisboa, 
de minha certa ciemcia como se de verbo 
a verbo fosem todos e cada hum per sy 
aerogados e lhe sejam goardados todal- 
las as omras, previlegios, liberdades e 
exemções que tem os doutores feitos per 
exame na dita Universidade de Lisboa, e 
visto per mim seu requirimento ser justo 
e por foUgar de lhe fazer graça e mercê, 
ey por bom o dito grão e o aprouo como 
se na dita carta do físico moor conthem 
e quero e me apraz que ho dito doutor 
Amtonio Llopez goze de todollos previ- 
legios, omras, liberdades, framquezas e 
excepções, que tem e ham os doutores 
feitos por exame na dita Vniversidade de 
Lisboa sem embarguo dos previlegios e 
estatutos da dita Vniversidade em com- 



trairo, os quais aqui ey por nomeados, 
declarados e expressos, como se de to- 
dos e cada hum delles de verbo a verbo 
se aquy fizese expresa mençã sem embar- 
guo de minha ordenaçam do segundo li- 
vro que diz que nam se entemda derogada 
nenhuma ley nem ordenaçã e da substan- 
cia delia se nam fízer expresa mençã e por 
tamto mãdo a todollos corregedores, ou- 
vidores, juizes, justiças, ofíciaes e pesoas, 
a que esta minha carta for mostrada e o 
conhecimento delia pertemcer, que em 
todo lha cumpra e goardem e façam mui 
inteiramente comprir e goardar, como se 
nella conthem, sem duvida nem embarguo 
allgum que a ello ponham, por que asy 
he minha mercê. Dada em ha cidade 
dEvora a xxni dias do mez de mayo — 
Anrique da xMota a fez — anno do nasci- 
mento de noso senhor Ihú X" de jb' 
xxxiiii anos.» 

No Cancioneiro Gcral^ de (iarcia de 
Rezende (vol. !^." da edição de Stuttgart, 
pag. 176) vem o testamento do Macho 
ruço de Luis Freire, o qual termina por 
pedir que lhe ponham na sua sepultura 

o seguinte ditado ou epiíaphio: 

• 

Aqui jaz o mais leal 
macho ruço que nasceu ; 
aqui jaz quem não comeu 
a seu dono um só real. 

Na Bibliotheca Nacional de Madrid 
existe um manuscripto, que é uma com- 
pilação do Cancioneiro de Resende. Tito 
de Noronha, no opúsculo que acerca 
d'esta obra publicou no Porto em 1871, 
sendo o primeiro de uma serie de Curio- 
sidades bibliographicas^ refere- se de pas- 
sagem ao códice madrileno, affirmando 
que elle não é copia do impresso, e que 
contem trovas de mais iS poetas, que 
não vem no livro de Resende. Entre as 
falhas cita o seguinte : 

Do macho ruço de Lui^ Freire. 

Se em tudo o mais fôr tão verdadeiro 
como neste ponto, vè-se que não pode 
merecer inteira confíança. 

No emtanto, quem fizesse uma nova 



A TRADIÇÃO 



edição do Cancioneiro de Garcia de Re- 
zende mo que prestaria um grande ser- 
viço á nossa litteratura) não poderia dei- 
xar de consultar o exemplar manuscripto 
de Madrid, do qual não posso formar 
exacto juizo, por não ter presente minu- 
ciosas informações bibliographicas e pa- 
leographicas, 

SoDSA VITERBO. 



Natal, Anno-bom e Réis 

Este titulo, que apenas serve a epigra- 
phar um singello artigo descripíivo de cos 
tumes locaes, podia bem constituir o the- 
ma de largas considerações acerca d'al- 
guns svstemas religiosos que precederam 
o christianismo, na parte relativa ao nas- 
cimento dos respectivos deuses. 

E quiçá não seriam aqui descabidas, 
nem de todo inúteis, essas considerações: 
A analyse minuciosa e retlectida das 
praticas cultuaes do natal ou natividade, 
que rodeavam o deus Osíris dos eg3'pcios, 
o deus Agni ou Ignis dos árias, e o deus 
Miíhra ou Sol liwictus dos persas e ro- 
manos, derram.a preciosa luz sobre a ori- 
gem e significação de várias lendas, usos 
e costumes populares, adstrictos ás três 
festas principaes que o christianismo ce- 
lebra após o solsticio do inverno, — a do 
Natal, Anno-bom e Réis. 

Não se compadece, porém, o diminuto 
espaço que nos é reservado, com a na- 
tural amplitude de tão magno assumpto; 
alem de que — analysando, e porventura 
comparando, — iriamos invadir o campo 
da ethnologia, quando é de pura ethno- 
graphia que nos incumbe tratar. 

Limitar-nos-hemos, pois, á simples 
descripção dos costumes tradicionaes do 

f)ovo de Serpa, respeitantes ás festas al- 
udidas. 

I 

KATALr 

No lapso de tempo que decorre desde 24 
de Dezembro até h de Janeiro de cada an- 
no, isto é, desde a véspera de Natal até ao 



dia de Reis, representava-se aqui o Auto 
Sacramental do Presépio, animadamente 
e ao vivo, com todos os numerosos perso- 
nagens de que reza a tradição: S. José, N. 
Senhora, o Anjo na nuvem e o Menino per- 
dido; os três pastores, um dos quaes deno- 
minado o pastor alarve ; o rei Herodes e 
mais os Magos rei Gaspar, rei Baltha- 
sar e rei Belchior, o preto, todos de man- 
to e coroa ; a lendária Cigana de quem 
se enamorou o Deus-Menino em Belém, 
etc, etc. 

Estas representações — segundo o tes- 
temunho fidedigno d'um respeitável an- 
cião coevo dos factos que venho narran- 
do — eram muito do agrado do publico 
serpense, que, pela módica quantia de 
um vintém cada pessoa, enchia litteral- 
mente a sala dos espectáculos, a qual 
pertencia ao extincto Celleiro Commum. 

Cahiram em desuso os velhos autos, 
quer profanos quer religiosos, denvolta 
com os vetustos momos e entremezes; e 
o Auto do Presépio (ou Colloquios do 
Presépio) teve afinal em Serpa a derra- 
deira exhibição ahi pelo anno de i835. 

O que ainda subsiste apesar da sua 
origem secular — tão secular como a do 
Presépio — é o costume dos descantes ao 
Deus-Menino, ás Janeiras e aos Réis. 

Em noite de Natal, ao redor dos gran- 
des lumes alimentados a toros de azinho, 
reúne cada familia — principalmente entre 
a classe camponeza — no maior numero 
possivel dos seus membros. E, emquan- 
to aguardam o repicar festivo dos sinos 
annunciando a proximidade da clássica 
missa do gallo, a que assistem os mais 
devotos, vão alternando a chávena do 
café e o pezado repasto das bolotas, pre- 
paradas em grossas assaduras, com apre- 
ciáveis coros ao Deus-Menino. Damos 
em seguida a lettra desses coros; a mu- 
sica, já recolhida, sahirá n'um dos pró- 
ximos números da Tradição. (*) 



(*) Procurei figurar os principaes vicios da lin- 
guagem local, que se me depararam nas rimas 
populares do presente artigo, e aos quaes (a al- 
guns) se referem as notas seguintes. 



A TRADIÇÃO 



AO DEUS-MENINO 



— Que havemos dar ó (') Menino 

Esta noite de Natála (*) ? 

— Camisinhas de bertanha ^^), 
Botanitos de crystála. 

Namorou-se o Deus-Menino 
Da Cigana, em Belém. 
Olha a liita da Ciyana ! 
Que hndo amor que tem '. 

( > Menino está na neve, 
A neve o taz tremera (^). 
Menino-Deus da minh'alma ! 
Quem lhe poderá valera ! 

Lá no palaiço (^) reála 

Uma estrella baixou 

\'isital-o Deus-Menino, 

Que Deus ó (^) mundo mandou. 

— C) meu Menino-Jàsus, 

Quem vos deu? pruque (^) choraes ? 

— Deram-me as moças na fonte, 
Já não quero lá ir mais. 

Esta noite, á mêa (*•) noite, 
Ovi ('-•) cantar o ('") Divino: 
Era Santa Madanela (") 
Que embalava o Deus-Menino. 

— O meu Menino-Jàsus, 
Quem vos deu o fato verde ? 

— Deu-m'o minha avó Sant'Anna 
D'uma doença que teve. 

Sameou-se o pão da vida 
Nas entranhas da Senhora : 
Nasceu uma tal Espiga 
Que sustenta a gente toda! 

Nasceu essa tal Espiga 
N'uma noite de Natála ; 
Nasceu junto á mea noite, 
Antes do gallo cantara. 

Caminhando vae Joséi ('*), 
Caminhando vae Maria : 
Tanto caminham de noite 
Como cammham de dia. 

São chegados a Belém : 
Já toda a gente dormia : 
Só um portal estava aberto. 
Aonde o gado se acolhia. 



Joséi embala o Menino 
Que a Senhora logo vêm, 
F;oi laval-os cuérinhos 
A fontinha de Belém. 



Entrae, pastorinho, entrae 
Por esse portal sagrado, 
Vinde vèl-o Deus-.Slenino 
Entre palhinhas dètado. 



Estribilhos, que se dizem, ora um ora 

outro, depois de cada uma das quadras 
antecedentes: 



i.i-aili-ailí-;iili, 

i.i-ailí-ailí-ailéi. 

O Menino nascido éi. (Ou) 

Li-aiií-ailí, ailí, 
IJ-aifi-ailéi, Menino 1 
Quem vae para o ceu vae bem 
Se não erral-o caminho. 



IT 



AKNQBOm 

«Das festas as vésperas» — diz o an- 
tigo provérbio; e confirmando-o, temos 
que a véspera do primeiro de Janeiro, 
ou dia de Anno-bom, (como de resto a 
véspera do Natal, e assim a de Reis) é 
aqui mais celebrada do que o próprio 
dia de festa, em que os júbilos do povo 
se resumem, atinai, a profusas libações 
ao venerado Deus Baccho. 

De feito, em a noite de 3i de Dezem- 
bro costuma organisar-se um ou mais 
grupos populares, geralmente compostos 
de trabalhadores ruraes, para cantarem 
ás Janeiras. Effectuam-se estes descantes 
ao ar livre e á porta das pessoas a quem 
os cantadores desejam ser agradáveis ou 
por mera amisade, ou mais vulgarmente 
por interesse, com a mira na esmola, 
que pedem no fim da cantoria. Rhyth- 
mado lentamente ao som da viola, n'uma 
toada chorosa de cantocháo, é assim o 
cântico: 



A TRADIÇÃO 



AS JANEIRAS 



Esta noite de Janêras 

Ki de qrande mer'cimento. 

Por sel-a noite primJra 

Em que Deu<; passou trumento C^). 

O trumento que passou 
Vo\ pru nossa redempção : 
O sangue que derramou 
Foi pru nossa salvação. 

Esta noite da Jancras 
Se rezam n'as prophecias; 
Mandou Deus dos céus á terra 
Um Menino doito dias. 

III 



Muitas creanças em trajo, por assim 
dizer, de carnavel continuam a pristina 
usança de esperar os Réis (que hão-de. 
checar das bandas do Oriente) visitando 
as famílias das relações mais intimas; 
pelo que recebe a petizada quantos mi- 
mos e gulodices inventou entre nós a 
conservaria dos conventos. Alem d'isto, 
que se verifica em a noite de 6 de Ja- 
neiro, ha ainda os descantes aos Reis, 
realisados pelo me.smo modo e nas mes- 
mas condições dos descantes ás Janeiras. 

Publicámos hoje a musica dos coros — 
a primeira do nosso Cancioneiro — e eis 
as quadras que lhe correspondem : 

AOS RÉIS 



— Quaes sã' n'os três cavalhêros 
Que fazem sombra no mára? 

— Sã' n'os três de o Oriente, 
Que a Jàsus vêem buscara. 

Não préguntam poisada, 
Nem Honde pernoitara ; 
Só précuram n'o Deus-Menino : 
Aonde o irão achara? 

Foram-n'o achar em Roma 
Revestido no altára, 
Com três mil almas de roda. 
Todas para commungára. 



Missa nova quer dizéra, 
Missa nova quer cantara : 
São .loão ajuda á missa, 
São Pedro muda o missála. 



* 



Resta-nos fallar das desgarradas — as 
rimas populares, em quadras, oitavas ou 
decimas, que só em recitar após os cân- 
ticos aos Réis e ás Janeiras, e dos quaes 
se apartam ou desgarram^ já pela natu- 
reza do assumpto, já pela forma de di- 
zer. Ahi vão uns spécimens de as 

DESGARRADAS 

(Pedindo esmola) 

Senhora que estaes dêtada, 
Tinde-la Virgem ó (•'') péi, 
Tamem tem do outro lado 
O espozo, São Joséi; 
São Miguel bemaventurado, 
E o apostolo São Thoméi. 
Ora escutae me este recado. 
Que elle tem ponto de féi : 
Vinde-nos dar uma esmola 
Em lóvor do .Deus, nascido éi. 



(Na espectativa da esmola) 

l)'aqui d'onde estou bem vejo 

Um canivete balhára, 

Para cortar o chóriço 

Que a senhora me ha-de dára. 

No adro de Santa CathVina 

Ha que (••'•) eu quero ser entarrado, 

Dentro d'um coiro de vinho, 

Seis pães alvos de cada lado. 

A cabeccra o tócinho, 

Os C*) péis um bom lombo assado, 

E pró conducto o quGjinho. 

'Stá o alforge aviado. 



(Se a esmola demora) 

O (1") o chóriço é grosso, 
O ("*) a faca não quer cortara. 
D£-lhe um sarruço-marruço ('^) 
Na horda do alguidéra. 



A TRADIÇÃO 



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10 



A TRADIÇÃO 



(Depois da esmola recebida) 

Viva da casa o patrão, 
Que éi da casa principála ! 
Deus lhe dè saúde e pão 
Prá sua casa ámeniára ! 



Deus o faça bem casado 

Como a Eva com Adão, 

Gloria Deus lhe dè n'este mundo (2**) 

E no outro salvação. 

M. Dias NUNES. 



(M Ó — ao. (^) As palavras acabadas em / 
soam como se tivessem no fim um ti breve. Ex.: 
Natal, \jIjLi : crystal, crystála; real, reála^etc. 
É conveniente notar que, por uma esthetica in- 
nata, o povo repelle, na poesia, a addição do a 
<juando este produz alteração no metro. (■•) E' 
trequente a transposição das lettras r<?, tal co- 
mo succede em bertanlm = bretanha. {^) A's 
palavras terminadas em r convém, exactamente, 
tudo o que dissemos das que terminam em /. 
['') L também frequente na linguagem da gente 
rústica a transposição de, lettras que se observa 
em /7í7/jífo=palacio. (^) 0=ao. (") Pruque— por- 
que. (*) O diphtongo ei sôa quasi sempre ê. Ex.: 
Meia, mea ; azeite, ajéte ; Janeiras, Janèras. 
Também. n'alguns casos, sôa é, como em mante- 
rá '- manteiga. (^) Os diphtongcs ou e ao soam 
âuasi sempre ò no começo das palavras. Ex. : 
luvi, ovi : Joaquim, , Jò^ujm. Quando isolados, 
soam sempre o. ('<•) 0^=ao. (") Madanela=Ma- 
pdalena. (•') O é agudo, isolado ou no fim das 
palavras, sôa éi. Ex.: é, éi ; José, Joséi. i}^) Tru- 
raenlo=tormento., ('<) 0=^ao. ('^) Ha que— é que. 
(i6(Os--aos. (»■) 0=ou. (18) Ó=ou. (19) Sarru- 
ço-mjrruço^ vocábulo onomatopaico, com que 
se pretende exprimir a afiação de qualquer ins- 
trumento cortante, (^o) O povo pronuncia ^^'■/o/ra, 
victoira. histoira^ etc. 

D. N. 



••C\\i:ill\ElltO HE MISICAS POPILARES,. 



Nos romances e lendas do inicio da 
raonarchia e na sua musica dolente mas 
intensamente expressiva, harmoniosa e 
branda como sons ásperos de cantares 
de guerra arrastados de ao longe no ca- 
minhar do vento, estava o gérmen d'essa 
poesia docemente amorosa, encantadora- 
mente elegiaca que com a sua musica 
perfeitamente caracteristica. mais tarde 



havia de ser um dos vinculos da diffe- 
renciação d'um povo, então em plena au- 
rora da sua existência gloriosa. 

Troveiros d"outr'ora, descuidosos can- 
tores de hoje como sois bem os interpre- 
tes d'um povo que um dia quiz ser inde- 
pendente e quer conserver hoje essa li- 
berdade autónoma ! . . 

Seria fácil, por um cancioneiro, traçar 
a historia de Portugal desde o começo 
dos reinados com as trovas gerreiras e da 
cavalleria até ás elegias ao mar quando 
pela primeira vez despertou a audácia 
portuguesa a devassá-lo, e depois, mo- 
dernamente, as cantigas bellicosas que 
dizem a eftervescencia d'esse povo se- 
dento do sol brilhante da liberdade, que 
deixou para após isso mj-steriosamente 
sonhar, nas suas bellas canções d'amor. 

Sonhar hoje, sonhar outr'ora, eterna- 
mente sonhar ! Mas, — fructo da organi- 
sação estranha d'este povo, — a melanco- 
lia supersticiosa da sua dolorida alegria 
vem após o rir e o folgar de instantes, 
ensurdecedor e troante como o ruido 
brusco para um esquecimento de dor, e 
assim temos as suas trovas e as suas 
musicas graciosas, cheias de malícia, ou 
gargalhantes, d'uma alegria doida, que 
vem a propósito de tudo, de uma scena 
de eleições ou d'um desastre nacional, e 
que nos conquistaram as attenções do es- 
trangeiro, que nos portuguezes aprecia 
les toiíjours gais. No emtanto a melan- 
colia cheia d'um fatalismo e d'uma su- 
perstição ingénua é o sentimento que 
mais fundamente caracterisa as canções 
populares da nossa terra. 

Forma um interessante contraste essa 
alma portuguesa, sonhadora e triste, com 
a d'esse povo visinho alegre, despreocu- 
pado, talvez excedendo-nos no apuro da 
sua phantasia. 

Quanto seria bello um grande livro 
onde houvesse inscriptas todas as canti- 
gas anonymas que correm de bocca em 
bocca e pelos lábios vermelhos das ra- 
parigas ao ar sadio do campo extenso e 
verde, sob o céu enorme e azul, e a seu 
lado a musica que lhes dá a melodia, a 



A TRADIÇÃO 



11 



harmonia e o tom alegre c fresco que 
emoldura os quadros cm que se falia de 
amor. . . 



Cabe ao professor portuense Senhor 
César das Neves o emprehendimenlo de 
uma obra dessa natureza e que de ha 
tempo se vem publicando. I.ançada num 
meio por educar, essencialmente igno- 
rante, que se costumou a desprezar tu- 
do o que seja de Arte, só uma energia 
rara e uma vontade inquebrantável po- 
deria ter levado a cabo uma obra does- 
se valor. 

E" exemplo precioso que convém se- 
guir. 

Nas indecisões de plano duma obra 
de completa novidade, na transigência 
parcial com a imbecilidade do meio, o 
Cancioneiro de Musicas Populares^ não 
é isento de defeitos : uma obra modelar 
que destitua de valor qualquer futura 
iniciativa. 

Não tratando agora de verificar a au- 
thenticidade da origem de algumas das 
musicas que o compõem, notarei no em- 
tanto a imperfeição do plano formal da 
obra, plano que n essa transigência como 
meio e no modo de publicação da obra se 
explica por completo. Cerca de quinhen- 
tas musicas que até hoje se tem inserido, 
vêm miscidas, desordenadamente postas: 
agora um romance, depois uma cantiga, 
a seguir uma marcha, uma chula, um fa- 
do, uma dança e assim. Na publicação 
em fascículos, isso dá a cada um d'ellcs 
uma apetecida e apreciada variedade, 
não faz números seguidos na mesma toa- 
da, uniforme e aborrecida, mas na obra 
completa não é certamente a disposição 
mais adequada e precisa. 

Mas se attendermos ao enorme traba- 
lho de factura d" essa obra monumental,- 
minúsculos defeitos come este desappa- 
recem quasi e só teremos a prestar i de- 
vida homenagem a quem soube empre 
hender um trabalho de tal alcance para 
a historia da arte e para a historia d'um 



povo. Demais, sem aquelle defeito, quan- 
tos 'assignantcs não suspenderiam a re- 
cepção a partir dos primeiros fascícu- 
los repletos de toadas de outn»s tem- 
pos ? 

E' isso que levou o auctor a fazel-a 
assim, como também a inscrever ao ci- 
mo de cada musica o nome de uma da- 
ma, n'uma cortez galanteria de ha vinte 
annos. 

Paii,o OSOHIf) 



Vidigueira e as suas tradições 

Corre, desde tempos immemóriaes, na 
Vidigueira a attractiva e encantadora len- 
da do apparecimento da Virgem Senhora 
da Serra, ornando-a a fértil imaginação 
popular com episódios dignos despecial 
menção. 

Um destes episódios é — segundo re- 
za a tradição — que a Virgem appareceu 
no cimo dum zambujeiro a uma po- 
bre pastorinha da herdade dos Alfaiates, 
quando ella supplicava um pedaço de pão 
para saciar a fome que a torturava. Af- 
firma também a crença popular que uma 
velhinha — que se suppõe ser a \'irgem 
— se dirigiu á referida pastora dizendo- 
lhe que fosse para o monte, que lá acha- 
ria a sua arca aberta e replecta de pão, 
regressando logo a rapariga e verifican- 
do que ctíectivamcntc assim era. 

Uns religiosos de \'idigueira, logo gue 
constou o milagre, organisaram um im- 
ponente cortejo que levou procissional- 
mente a \'irgem da Serra para a pitto- 
resca e agradável capellinha de Santa 
Clara, situada n'uma encantadora e apra- 
zível eminência ao norte da villa ; e no 
dia seguinte foram encontrar a mesma 
Senhora no cimo do zambujeiro em que 
apparecera á pobre pastora dos Alfaia- 
tes, cdificando-se pouco tempo depois 
uma ermida da sua invocação, que mais 
tarde, no tempo em que Vasco da Ga- 
ma residiu na Vidigueira, foi transforma- 
da n'um imponente e magnifico convento 



A TRADIÇÃO 



de carmelitas calcados, que funccionou 

até is;u. 

O nome mais vulgarisado e que bem 
caracterisa essa imagem milagrosa, é o 
de Xússa Senhora J.is Relíquias^ origi- 
nando-se semelhante designação no fac- 
to eminentemente suggcstivo de todos 
quererem guardar com muito fervor reli- 
gioso pedaços do tronco do zambujeiro 
em que a Senhora fez o seu appareci- 
mento. Pelo menos a tradiçãd mais se- 
guida assim o confirma. 

Na linda e magnifica quinta perten- 
cente aos srs. viscondes da Ribeira Brava, 
existe — artisticamente envolvida n\ima 
caprichosa e bem trabalhada moldura de 
pedra dé cascata, meio occulta pela era 
e a verdejante ramaria de perfumadas 
roseiras em flor — existe a mais des- 
lumbrante das telas, que representam 
assumptos de caracter puramente reli- 
gioso, na qual se reproduz clara e exhu- 
berantemente o milagre que encerra a 
piedosa apparição da Senhora das Relí- 
quias. 

^'idigueira é fértil em lendas, pela sua 
antiguidade e manifesta importância his- 
tórica. Os costumes d"esse perfumado e 
attrahente cantinho do Alemtejo são ain- 
da os mais puros e democráticos de to- 
da a província transtagana de nobilíssi- 
mas e altivas tradições, e o povo, com 
quanto emancipado das crendices com 
que lhe embalaram o berço, é comtudo 
muito religioso, festejando sempre com 
o mais communicativo e irresistível en- 
thusiasmo as suas festas, que principal- 
mente se realísam no estio. 

Os dias do anno ali mais festejados 
são os seguintes: Anno novo, Reis, Pas- 
choa. Ascensão e Natal, sobretudo a As- 
censão, em cujo dia se realisa a festa as- 
sim denominada na Egreja do Carmo, 
sahindo procissionalmente a Senhora das 
Relíquias, acompanhada de muito povo 
de todo o concelho, que a tem em mui- 
ta veneração. 

Nas festas que tiveram logar nos dias 
14 e lõ de maio de I896, alem de mui- 
tos outros cavalheiros de Lisboa, notá- 



veis na politica e na litteratura, assistiu 
também o dístíncto escríptor Ramalho 
Ortigão, que se hospedou no bello palá- 
cio do illustre titular — seu particular 
amigo — sr. visconde da Ribeira Brava, 
que se confessa um dedicado admirador 
das lettras, muito embora os cuidados da 
politica lhe absorvam a maior parte do 
seu tempo. 

N'esse dia organisam-se ao ar livre 
encantadores bailes populares com ii se- 
lecta assistência de muitos e illustrados 
cavalheiros, convidados expressamente 
para esse fim, que constitue a verdadei- 
j ra e mais attrahente diversão da bellis- 

sima e afamada festa da Ascensão. 
I 

Muitas outras lendas religiosas cir- 
culam entre o povo vidigueirense, alem 
de variadíssimas e até divertidas crendi- 

! ces, que eu — no intuito de ser agradável 
aos leitores de «A Tradição» — vou cui- 

l'i dadosamente colligir, conjunctamente a 
outros assumptos de caracter genuina- 
mente popular, taes como: cantares, su- 
perstições, terrores de coisas extraordiná- 
rias, que todos teem logar n'uma publi- 
cação de consciencioso estudo ethnogra- 
phico do paiz, especialmente do nosso 
querido Alemtejo. 

FAZENDA Júnior. 



NOVELLAS POPULARES MINHOTAS 



O i*ei Sai*clão 



Uma vez era um rei, que tinha uma 

' camisa da cor da pelle de sardão. Um 

' dia casou-se, e a rainha, que não queria 

I vel-o com aquella camisa, despiu-lh'a 

j quando se achava na cama, metteu-a no 

I forno e queimou-a. 

! Ao dar pela falta da sua camisa o rei 

, Sardão sahiu da cama e fugiu, desespe- 

; rado com o mau proceder da mulher. 



A TRADIÇÃO 



Encontrou um palácio muito rico e 
pediu hospedagem nelle. A rainiia sahiu 
em procura d elle a liar n'uma roca de 
oiro, e encontrando o tal palácio e sa- 
bendo qjue o rei Sardáo estava ali hos- 
pedado pôz-se a fiar em frente de uma 
das varandas. l'ma aia que estava pen- 
teando uma das princezas e que viu aquel- 
la mulher a tiar, disse-ihe : 

— O' princeza, que linda roca para 
aquelle dia! 

— \'ae-lhe dizer se ta vende. 

— Vende-me essa roca, mulhersinha ? 

— Não a vendo, minha senhora ; dou- 
a se me concederem a honra de dormir 
esta noite debaixo da cama do rei Sar- 
dão, que está n'esse palácio. 

A aia foi dizel-o immediatamente á 
princeza. que a mandou entrar. 

A' noite deitaram dormideiras na co- 
mida servida ao rei Sardão, que segui- 
damente se recolheu aos seus aposentos 
e adormeceu num somno pesado. Kntão 
a mulher da roca doiro, que era a sua, 
raetteuse debaixo da cama, dizendo mui 
tas' vezes em alta voz: 

— Rei Sardão, lembra-te da rainha 
D. Leonor que de três peças d'oiro que 
tinha só tem duas . . . 

Mas o rei não ouviu. 

No dia seguinte D. Leonor retirou-se 
e veio de novo postar-se em frente do 
palácio e pôz-se a fazer meadas no seu 
sarilho d'oiro. 

A aia que estava penteando a prin- 
ceza a uma das varandas, disse-lhe : 

— O" princeza, que lindo sarilho pa- 
ra aquelle dia ! 

— Vae-lhe dizer se to vende. 

— ^'ende-me esse sarilho, mulhersinha? 

— Não o vendo minha senhora ; dou- 
o se me concederem licença de dormir 
mais esta noite debaixo da cama do rei 
Sardão, que está nesse palácio. 

A aia foi outra vez dizei o á princeza 
que logo a mandou entrar. 

Como na primeira noite, deitaram dor- 
mideiras na comida do rei Sardão que 
logo se recolheu aos seus aposentos e 
adormeceu n"um somno muito pesado. 



K a mulher do sarilho d oiro, que era D. 
Leonor, metteu-se outra vez debaixo da 
cama, bradando muitas vezes em alta 
voz : 

— Rei Sardão, lembra-te da rainha 
D. Leonor que de três peças d'oiro que 
tinha so tem uma . . . 

Mas o rei, como na primeira noite, 
não ouviu. 

Tornou D. Leonor a retirar-se, vol- 
tando pela terceira vez a postar-se em 
frente do palácio, dobando meadas na 
sua dobadoira doiro. 

A aia qne estava, como nos outros 
dias, penteando a princeza, disse-lhe : 

— O' princeza, que linda dobadoira 
para aquelle dia I'. . . 

— \'ae-lhe dizer se ta vende. 

— \'endc-me essa dobadoira, mulher- 
sinha ? 

— Não a vendo, minha senhora ; d(ju- 
a se me derem licença de dormir só mais 
esta noite debaixo da cama do rei Sar- 
dão, que mora nesse palácio. 

Então a aia foi mais uma vez dizel-o 
á princeza, que promptamente a man- 
dou entrar. 

F^izeram o mesmo que nas outras 
duas noites, servindo-se das dormideiras 
para fazer adormecer o rei Sardão, mas 
a desconfiança levou-o a não tomar ali- 
mento algum e recolheu-se aos aposen- 
tos. 

D. Leonor metteu-se debaixo da ca- 
ma, como nas outras noites, repetindo : 

— Rei Sardão, lembra-te da rainha 
D. Leonor que de três peças doiro que 
tinha não tem nenhuma, 

O rei Sardão ouviu aquella voz, mas 
não quiz responder. E D. Leonor retirou 
para nunca mais tornar a apparecer dian- 
te do palácio, á hora em que uma aia 
penteava os loiros cabeílos da princeza. 

Passados alguns dias faziam-se no 
palácio todos os preparativos para feste- 
jar o casamento da formosa princeza com 
o rei Sardão. Fez-se o casamento, e 
quando no fim do lauto jantar todos os 
convidados palestravam alegremente, dis- 
se o rei Sardão : 



14 



A TRADIÇÃO 



— Senhores I Ku tinha uma chave e ! 
perdi-a ; mandei fazer uma nova, mas i 
agora achei a velha. De qual me hei-de 
utiHsar, da nova ou da velha ? 

— Da velha, — bradaram todos. 

— Pois então a minha verdadeira mu- 
lher é a primeira. 

E retirou-se do palácio, com muito 
espanto de todos, para a elle nunca mais 
voltar. 

(Recolhidii <ia tradição omli 

Esposende. Álvaro PINHEIRO. 



JOGOS POPULARES 



A província do Alemtejo ofterece aos 
olhos do observador um vasto quadro 
de jogos populares, o maior numero 
dos quaes, segundo creio, não foram 
ainda publicados. Muitos delles recom- 
raendam-se por uma tal originalidade e 
engenho, que não devem de iorma algu- 
ma deixar-se perder, como succede a 
tantas praticas tradicionaes que a acção 
inexorável do tempo aniquila. 

Alem do seu valor incontestável para 
o estudo da ethnografia, possuem os 
jogos uma altissima importância sob o 
ponto de vista pedagógico. Autores dos 
mais notáveis, baseando-se na sã fisiolo- 
gia e na própria psichologia, preconisam 
os jo^os como um dos melhores elemen- 
tos d educação, merecendo por isso ser 
conservados atravez das gerações. 

Reservando para mais tarde todas as 
considerações que o assumpto nos suge- 
re, limito-me, por agora, á descripção 
pura e simples dos principaes jogos usa- 
dos na margem esquerda do Guadiana. 



O ai*rioií (*) 

Este jogo tem a sua origem nas epo 
cas mais remotas, e é um dos que des- 
pertam maior prazer entre os rapazes. 



(•) Arrioz: arriol ou belindre, como dizem em 
Lisboa. 



Usa-se principalmente no outono, ha- 
vendo o cuidado de procurar para elle 
bons terreiros, planos e enxutos. 

O arrioz é uma pequenina esfera de 
pedra mármore ou massa rija e de su 
perticie lisa. Joga-se deste modo : fir- 
mando o bordo interno da mão esquerda 
no chão, e encostando o arrioz ao bordo 
interno do dedo polegar correspondente, 
dá-se-lhe um piparote com o dedo médio 
da mão direita. Graças a este piparote o 
arrioz parte animado de bastante veloci- 
dade, podendo percorrer uma distancia 
relativamente grande. 

Ao arrioz jogam g-eralmente os rapa- 
zes dois a dois; mas podem entrar no 
mesmo jogo três ou mais parceiros. 

Vejamos em que consiste o jogo do 
arrioz: Reunem-se os rapazes no logar 
convencionado, munido cada um do seu 
arrioz. Fazem uma cova no chão, e, pos- 
tando-se, um de cada vez, a uma certa 
distancia, atiram com os arriozes á refe- 
rida cova. O jogador que consegue enfiar 
na cova, pega no seu arrioz e, collocan- 
do-se na posição acima descripia, joga-o 
aos arriozes dos companheiros até errar 
algum. Neste caso, o parceiro cujo ar- 
rioz foi errado, entra em exercicio jogan- 
do contra os outros arriozes. 

Qualquer parceiro, emquanto joga, 
pôde, querendo, dirigir o seu arrioz á 
cova, e depois d'enfiar n'esta jogá-lo aos 
arriozes dos companheiros. Mas, então, 
se não enfia na cova, perde e dá a vez 
ao companheiro a cujo arrioz apon- 
tava. 

Por cada vez que um arrioz enfia na 
cova, ganha o respectivo jogador — dois, 
e por cada estalo (estrumélo) que dá ba- 
tendo com o seu arrioz n'outro, ganha — 
quatro. 

O parceiro que primeiro faz 24 ganha 
o jogo, e recebe porisso do companheiro 
com o qual acabou o mencionado jogo, 
um arrioz ou qualquer outro objecto 
previamente combinado, como uma mar- 
ca, botão, etc. 

O jogo do arrioz, assim como outros 
que hoje constituem unicamente diverti- 



A TRADIÇÃO 



Ifí 



mentos de rapazes, eram também usados 
outrora por adultos, os quacs encontra- 
vam n'estes exercícios um alegre e inno- 
cente passatempo. 



ADIVINHAS 



(Serpa) 



Ladislau piçarra. 



SUPERSTIÇÕES 

O Banho da Alma 

Ha entro os habitantes do concelho 
de Serpa a seguinte crença : Quando 
qualquer pessoa morre, a alma separa-se 
immediatamente do corpo e banha-se 
em toda a agua que encontra em casa 
do finado e nas habitações que lhe ficam 
mais próximas. 

Daqui o preceito da familia do morto 
mandar acto continuo despejar o pote 
da a»ua. as quartas, etc, a fim de nin- 
guém se servir d'essa agua, considerada 
impura. 

Em abono do que acabo de referir, 
vem a pello narrar um caso que se me 
deparou no exercicio da minha profissão 
clinica : 

Um dia, ha proximamente dois annos, 
indo visitar um doente, sua mulher, ainda 
nova, M. C, natural de Serpa, quei- 
xou-se me de náuseas e vómitos, dizendo 
que attribuia este mal-estar a um nojo 
que contrairá desde pouco tempo. De- 
ra-se o seguinte facto : fallecera o avô 
da doente, e esta tendo em seguida um 
ataque nervoso, em que perdera os sen- 
tidos, trouxeram-lhe uma pucara dagua 
tirada das quartas. Sabendo depois que 
havia bebido da mesma agua, onde jul- 
gava ter-se lavado a alma do avô, foi 
tomada do nojo acima citado. 

Estas náuseas e estes vómitos podiam, 
todavia, explicar-se d'outra forma que 
não a do simples nojo, pois que M. C. 
se achava no seu estado interessante. 

L. P. 



OS DEDAES 

Somos mais de cem irmãos 
'Spnlhados em todo o mundo : 
Nem todos temos coroa, 
E nem todos temos fundo. 

Alguns homens nos perguntam, 
FI as mulheres nos procuram ; 
L)e tanto que lhes servimos, 
Deixam-nos quando nos furam. 



li 



O COMPASSO 

Eu, ave não sou, 
E corpo não tenho ; 
As pernas me afamam. 
Sem pés vou e venho. 

Sei que tenho cabeça 
E que tenho dois bicos ; 
E com estes meus passos 
Sirvo a pobres e a ricos. 

Com meus passos curtos 
Cidades abranjo ; 
No ceu e na terra 
Mil coisas arranjo. 

ITT 

A ALCACHOFRA 

Está uma csphera armada 
Com armas para temer. 
Eu só, uma pobre mulher, 
Tenho que dar que comer. 

Dá tinha, que tinha, 
(Que não adivinha ! ) 
Até mais não poder ser. 

IV 

A MELANCIA 

Verde é meu nascimento. 
Sempre tenho estado presa. 
Tenho agua entre mim : 
Sou fresca de natureza. 



(Da tradkão oral) 

(Serpa) 



CASTOR. 



A TRADIÇÃO 



BIBLIOGRAPHIA 



Faltos religioso» (testas e procissões), por 
Sousa Viterbo. — O erudito escriptor lisbonense 
Senhor Doutor Souza Viterbo, nosso distincto 
collega do Diitrio de Soticu7s. e que hoje nos 
concede a subida honra da sua prestigiosa col- 
laboração, publicou ha pouco um interessante 
trabalho de investigação ethnographica subor- 
dinado ao titulo Fustas reliiziosos (festas e pro- 
cissões). K' um elegante opúsculo de 32 paginas 
(grande formato) no qual o Senhor Doutor Viter- 
bo colligiu, annotando-os com toda a proficiên- 
cia, numerosos e valiosos documentos sobre anti- 
gas cavalgadas, romarias, confrarias e procissões, 
em grande parte já extinctas. 

Os referidos documentos, extrahidos labo- 
riosamente d'entre os vetustos archivos da Tor- 
re do Tombo, encerram um verdadeiro manan- 
cial de inestimáveis íubsidios para a historia do 
sentimento religioso do povo portuguez, nas suas 
múltiplas e variadas manifestações tradicionaes. 

Do opúsculo em questão apenas se fez uma 
tiragem reduzida e que não entrou no mercado. 

Agradecemos ao auctor, muito penhorados, 
a captivante olíerta do exemplar com que nos 
distinauiu. 



Dezoito annos em Africa, por Trindade Coe- 

Iho. — A' penhorante amabilidade do seu auctor, 
o Senhor Doutor Trindade Coelho, devemos a 
posse do importante livro De:ioiío ânuos cm Afri- 
ca, que foi publicado em justa homenagem ao 
insigne funccionario portuguez no ultramar, o 
Conselheiro Senhor José d'Almeida. 

O que é este livro ? Dil-o, na sua vigorosa 
phrase castigada e brilhante, o Senhor Doutor 
Trindade Coelho : — «é a exposição impressa, 
chronologicamente ordenada, doa principaes do- 
cumentos de caracter publico e official que as- 
signalam actos, também de caracter publico, e 
de caracter official também, da vida intensamen- 
te laboriosa, e singularmente prestante, do func- 
cionario a que diz respeito». 

Ao mimitavel contista de Os meus amores, 
ao laureado mestre do moderno conto portu- 
guez — a expressão sincera do nosso agrade- 
cimento cordial. 



Huvens (versos), por J. Leite de Vascon- 
cellos. — O nosso presado amigo Senhor Dou- 
tor J. Leite de V&sconcellos — um eminente ho- 
mem de sciencia doublé d'um poeta distinctis 
simo — acaba de brindar-noi com o seu ultimo 
livro de versos — Nuvens. 

Lemos com summo interesse as novas com- 
posições pocticasdo inspirado auctor das*6íí//aíZíJS 
do Occidente, e de todas nos ficou grata impres- 



são. Apraz-nos porem especialisar, por serem as 
que mais nos vibraram, as poesias intituladas 
Aspira<;ões, Bucólica, IWa minha sepultura, That 
is the question, e In extremis. 

Acceite o Senhor Doutor Vasconcellos um 
affectuoso aperto de mão, significativo dos nos- 
sos agradecimentos e parabéns. 



Arte, por Paulo Osório e Júlio de Lemos. — 
Por causa d'uma apreciação litteraria ao livro 
Tragedia na provinda, de Alberto Pinheiro, em- 
penharam-se em rija pugna na liça da imprensa, 
dois novos de superior talento e vastos recursos 
intellectuaes — Paulo Osório, o estylista delica- 
do e subtil que dirigiu a Alvorada, e Júlio de Le- 
mos, o prosador elegante e vernáculo que temos 
lido e admirado no conto e na critica. Fói a ar- 
te o motivo d'essa pugna, em que ambos os con- 
tendores souberam terçar, como perfeitos geií- 
tlemen que são, as espadas toiedanas dos mais 
finos argumentos. Ambos ficaram vencedores, 
porque ambos afinal tinham razão. E assim, é 
natural e lógico o que succedeu : após o comba- 
te, apertaram-se as mãos e uniram estreitamen- 
te as armas inimigas ; olferecendo-nos agora em 
commum opúsculo os deliciosos artigos que cons- 
tituem a Arte. 

Para ambos, pois, calorosos embora se o tes- 
temunho leal do nosso muito apreço. 



Influencia dos descobrimentos portugueres na 
historia da civilisaçào, por Consiglieri Pedro- 
so. — Para celebrar o quarto centenário da des- 
coberta da índia, realisou o Senhor Consiglieri 
Pedroso em 2<) de Novembro de q?, na Socieda- 
de de Geographia de Lisboa, uma importante 
conferencia, que depois foi publicada em folhe- 
to sob o titulo que nos serve de epigraphe. 

Aqui deixámos consignado o nosso reconhe- 
cimento ao notável publicista e sábio lente do 
Curso Superior de Lettras, pelo exemplar com 
que nos honrou. 



Para as creanças, por D. Anna de CaStrO 

Osório. — Recebemos e agradecemos o n.° 19, i." 
da 4." serie, da excellente publicação Para as 
creanças, que a talentosa auctora dos Infelizes, 
a Senhora D. Anna de Castro Osório, continua 
a redigir com o maior esmero. 



Bulletin des 1. — Temos presente o bole- 
tim, relativo ao mez findo, da prestimosa e flo- 
rescente associação parisiense des 1, de que é 
presidente o Conde de Kératry e secretario geral 
o reputado causidico Doutor Albert Rousseau 

D. N. 



A.I1UO I — N." Vi 



SE&FÀ. Fevereiro de 1899 



íi^ri*» I 



Editor-administrador, Jote Jeronymo da Costa Bravo de Segreiroi, Rua Larga, 2*4 — SERPA 
Typosraphía áe AJolpho de Afendotifa, Kua do Corpo S«i>lo, 46 e 48 — LISftOA 

A TRADIÇÃO 

> 

REVISTA MENSAL DETHNOGRAPHIA PORTUGUEZA 



Directores : — LADISLA U PIÇARRA e M. DIAS NUNES 



O CARNAVAL 

As testas do carnaval, mau grado a 
sua remota origem nas bacaiiaes e satur- 
naes romanas^ encontram-se ainda sobre- 
modo radicadas na villa de Serpa, — como 
aliaz nas demais terras do paiz. Olhando 
para o velho e clássico entrudo, achamo- 
nos, pois, em presença d'uma festa po- 
pular que a tradição tem mantido atra- 
vez das gerações, passando muito embo- 
ra por vicissitudes próprias do caminhar 
constante da sociedade. 

Ao delinear este singelo artigo, de for- 
ma alguma pretendemos tratar do car- 
naval sob o ponto de vista da sua histo- 
ria ; o nosso propósito, mais simples e 
modesto, reduz-se a descrever o que seja 
o carnaval em Serpa, indicando as par- 
ticularidades que elle aqui reveste e lhe 
imprimem uma feição etnográfica local. 

O carnaval no município de Serpa cos- 
tuma, por assim dizer, annunciar-se por 
meio de letreiros e toscos desenhos, fei- 
tos a fungão, nas paredes exteriores dos 
prédios. 

São geralmente os rapazes que se en- 
treteem a riscar nas paredes toda a sé- 
rie de garatujas, sobresaindo as figuras 
obscenas. 

Em certas localidades deste concelho, 
em Brinches por exemplo, attingem as 
referidas illustraçôes uma tal extensão e 
grosseria, que enchem de repugnância e 
indignação toda a gente circumspecta e 
digna, a quem se depara o indecoroso 
espectáculo. Os letreiros são, muitas ve- 



zes, torpes allusões á vida intima das fa- 
mílias. Convém notar que taes manifes- 
tações, reveladoras d'uma evidente de- 
pressão moral, devem-se, em grande par- 
te, á mocidade adulta da terra, que d"es- 
te modo, ou patenteia cupidos instinctos, 
ou então sacia animosidades e vindictas. 

Um outro divertimento, bastante pri- 
mitivo e pouco engraçado, usado aqui 
na época carnavalesca, é o das c'j.^//(.'/rí.7- 
cias. Estas são atiradas, ordinariamente 
de noite, para dentro das casas cujos 
moradores se acham descuidados. Um 
postigo aberto, uma porta mal fechada, 
eis no que andam á espreita os empenha- 
dos em tão extravagante brincadeira. 
Concebe-se facilmente o que a fantasia 
popular nos poderá offerecer, no que res- 
peita a este género de distracções: ca- 
queiros com terra ou cinza, cascas de 
laranjas e mariscos, pedras, etc; n'isto 
consistem as caqueiradas. E não deixa 
de ser curiosa a lembrança de lançar cm 
casa de qualquer cidadão um pedragu- 
Iho bem quente ao lume, afim d'escal- 
dar as mãos que inadvertidamente lhe 
pegarem. 

As quatro semanas que precedem os 
três dias dentrudo, designa-as o povo, e 
por sua ordem : semana d'amigos, sema- 
na d'amigas, semana de compadres e 
semana de comadres. Nas quintas feiras 
da primeira e terceira semana, os rapa- 
zes de maior lidação entre si teem por 
costume reunir-se em casa dum d'el- 
les para ahi, alegres e contentes, come- 
rem, beberem e cantarem. A estas pe- 



18 



A TRADIÇÃO 



quenas festas em família, chamam elles 
— fazer amigos ou compadres, conforme 
a reunião é na quinta feira damigos ou 
de compadres. 

A seu turno, as raparigas, as mais ap- 
proximadas pelos laços da afteição, cos- 
tumam egualmente — fazer amigas e co- 
madres, nas respectivas quintas feiras. 
E, á similhança dos rapazes, reúne um 
grupo delias em c;isa d'uma, e nessa 
casa comem, cantam e bailam, animadas 
pela mais intima satisfação. 

Quando duas amigas querem ser co- 
madres, ha um pequeno cerimonial, que 
não deixaremos de registar. Consiste em 
darem-se os dedos minimos da mão di- 
reita, e, entrelaçando-os, dizerem : 

nComadre, comadre, 
Comadre querida : 
Fazemos comadres 
Para toda a vida». 

As duas semanas de compadres e co- 
madres são habitualmente consagradas 
á arte venatoria. Por esta occasião, os 
caçadores, reunidos em grupos, dirigem- 
se dordinario para a Serra e lá conso- 
mem os dias em procura da apetecida 
presa. No fim da semana de comadres 
regressam a casa os caçadores, alguns 
carregados de coelhos, tornando-se por 
isso alvo da admiração popular. 

A caça é uma arte assaz estimada 
n'esta região e que muitos ainda exer- 
cem com verdadeiro enthusiasmo. 

Não é, porém, este o momento oppor- 
tuno de nos occuparmos d'uma tal di- 
versão, que bem merece ser descripta 
em todas as suas minudencias. 

Mas, proseguindo na descripção do 
nosso carnaval, diremos que, no periodo 
comprehendido entre 20 de Janeiro e o 
Domingo Gordo, nota-se maior anima- 
ção, sobretudo entre os novos, que não 
cessam d'entreter o espirito dirigindo-se 

f graças, ditos picantes, enganos e arre- 
ias. Destas ultimas, por serem um tanto 
curiosas, damos em seguida alguns exem- 
plos : A' noite, quando cada um está 
muito socegado á lareira ou devorando a 



ceia, é frequente ouvir bater o badalo 
da porta: são garotos a quem acode a 
importuna lembrança d'atarem um cor- 
del ao mencionado badalo e de pucha- 
rem por elle, depois de collocados a uma 
certa distancia. A pessoa que vem á 
porta, não divisando ninguém, reconhece 
que é partida d'entrudo. Outras ve- 
zes, ouve-se bater á porta ; pergunta-se : 
«quem é?», e a esta innocente interro- 
gação respondem de fora qualquer das 
phrases : «se está sentado, ponha-se de 
pé», ou «a minha frieira no seu pé», ou 
ainda «manda dizer o balha-balha, que 
accommode a sua canalha». 

Antigamente era perigoso, pelo carna- 
val, passar qualquer varão próximo d'um 
rancho de raparigas do trabalho, porque 
ellas bem depressa o agarravam e lhe 
infligiam toda a casta de judiarias. 

O decorrer dos annos tem, felizmen- 
te, suavisado esta pratica terrivel., e hoje 
não ha, póde-se dizer, o menor risco 
em transitar pelo campo durante o en- 
trudo. 

São também já volvidos os tempos em 
que as laranjas e as seringas (de metal 
ou de canna) desempenhavam papel im- 
portante entre os divertimentos carnava- 
lescos. Actualmente vemos — e ainda 
bem — as laranjas substituídas pela fa- 
gulha do trigo e por papelinhos, e a his- 
tórica e temivel seringa, pela graciosa e 
aromática bisnaga. 

Chegados os três dias de carnaval, re- 
dobra — escusado será dizel-o — o mo- 
vimento d'alegria : As vendas de bebidas 
constantemente atulhadas d'amadores do 
chá de parreira; pelas ruas grupos de 
populares cantando e berrando a plenas 
guelas, e fazendo resuscitar todas as 
modas, que apparecem n'esta occasião 
como uma perfeita revista; bailes por 
toda a parte, onde noite e dia se dança, 
canta e pula. Note-se que as pessoas que 
bailam se apresentam sempre de cara 
descoberta; bailes de mascaras, não nos 
consta que, até hoje, se tenha aqui reali- 
sado algum. Em todo o caso, não faltam 
nas ruas mascarados, assim como danças 



A TRADIÇÃO 



19 




Ê^Ll^I^ DE 



.; y[)i'íh'iM 



II 





Camponeza vindo da fonte (Serpa) 





so 



A TRADIÇÃO 



e rapazes buzinando em caules de cardos 
chamados — de segredo. 

Também é da praxe tirarem os man- 
cebos os lenços ás respectivas namora- 
das, e trazerem-nos ao pescoço até res- 
tituirem-lhos, o que só fazem em quarta 
feira de cinza. 

Nestes dias, o povo, saltando por cima 
das conveniências prescriptas na boa ci- 
vilidade, usa d uma linguagem demasia- 
damente licenciosa, dando livre expansão 
ás tendências coprolalicas, que aliaz se 
revelam quotidianamente. 

Não devemos esquecer que, nos dias 
dentrudo, toda a gente procura saborear 
as melhores iguarias, reinando á sobre- 
mesa, as filhozes, os coscorões, os boli- 
nhòlos e o apreciável arroz doce. 

Após o carnaval vem a quarta feira de 
cinza, e a tarde d'esse dia aproveita-a 
ainda a mocidade para, em alegre roma- 
ria, ir bailar e cantar junto da ermida de 
Nossa Senhora da Guadalupe, situada 
sobre o cume do mais elevado dos mon- 
tes que circundam a villa. 

Para terminar esta breve descripção, 
publicamos, a seguir, algumas quadras 
populares allusívas ao entrudo (i). 

Já lá se vae o entrudo 
Oom gallinhas e capões ; 
Agora vem n'a quaresma, 
Estudam-se as orações. 

Já lá se vae o entrudo 
Com gallinhas e carófos ; 
Agora vem n'a quaresma, 
Resam-se Oa padre -nossos. 

Já lá se vae o entrudo 
Pelo barranco da nora, 
Gritando em altas vozes : 
«A quaresma me põe fora !» 

Oh moças ! não se admirem 
De eu cantar e ser viuvo, 
Que eu canto com alegria 
De vêr fugir o entrudo. 

Ladislau piçarra. 



(*) M- Dias Nunes : Cancioneiro popular do 
Baixo-Alemtejo, prestes a sair á luz. 



Danças populares do liaixo-Aleiíilejo 

As danças populares do Baixo-Alem- 
tejo pertencem, em parte, á categoria 
das religiosas, em parte, na maior parte, 
na quasi totalidade mesmo, ás denomi- 
nadas danças damor. 

O primeiro género de danças, embora 
em manifesta decadência, ainda pôde 
observar-se em diversas festas religiosas 
de arraial, onde valentes mocetões de 
rosto crestado, largas espáduas e amplo 
thorax, suam e tressúam, n'uma espan- 
tosa desenvoltura de gestos e attitudes, 
ao langoroso som de tamboril e gaita. 

Em Aldeia Nova de S. Bento, do con- 
celho de Serpa, celebra-se annualmente, 
em 1 1 de Julho, uma ruidosa festa, a do 
Cirio, cujo principal attractivo consiste 
na exhibição de extraordinária dança, 
em que ha complicados movimentos e 
passos e volteios ; uma dança antiquis- 
sima, secular, executada por sete anjos 
(assim chamados) — sete robustos cam- 
ponezes, vestidos de calção e meia, ca- 
misola branca, faixa de seda a tiracollo, 
e na cabeça, monstruosos chapéus de 
pello, ornados de lãs e fitas e flores e re- 
luzentes bugigangas de latão ! 

E fazem a inveja dos camaradas, e o 
encanto das camponezas suas patricias, 
estes maganões ! 

Ha poucos annos ainda, e por occasião 
da festa de S. Pedro, também os nume- 
rosos pastores que pertencem a Serpa, 
realisavam uma dança, deveras interes- 
sante, em deredor á ermida d'aquelle san- 
to, e desde a ermida, atravessando as ruas 
da villa, até casa dos festeiros. 

Aqui, os dançadores, todos irmãos do 
santo, vestiam o trajo caracteristico do 
seu mister — calção e polainas, jaqueta, 
e larga cinta, negra ou escarlate. Dan- 
çavam sempre em cabello — ás vezes 
debaixo d'um sói ardentissimo — e com 
a opa branca da irmandade. 

E mais e mais danças religiosas, nas 
festas d'arraial, por este Baixo-Alemtejo 
fora: — na festa do Espirito Santo, em 



A TRADIÇÃO 



21 



Aldeia Nova de S. Bento ; na festa das 
Pazes, em Ficalho; na festa da Tumina, 
em Santo Aleixo; na festa de Santa Lu- 
zia, em Pias; etc,, etc, etc 

K' de notar que este género de dança, 
cuja origem remonta a muitos séculos, 
era outrora executada não só por ho- 
mens, tal como hoje ac<jntece, — mas 
tiimbem por mulheres, em algumas so- 
lemnidades de caracter religioso e oífi- 
cial. 

No códice de 'Posturas da Notarei 
lilla de Serpa^ feito em 1086, e confir- 
mado em auto de correição, no anno de 
i()S7, pelo Ouvidor da cidade de Beja, 
Mathias Patto Gotta, vem um artigo, o 
loo.", com bastas allusões ao assumpto 
em questão. Por isso e por nos parecer 
sobremodo curioso, o referido artigo, va- 
mos transcrevel-o na integra, sublinhando 
as phrases que mais interessam ao nosso 
estudo. 

E' assim concebido (textualmente) : 

«Por antiguissimo costume são os hor- 
tallois obrigados a mandarem á procis- 
são do Corpo de Deos de cada anno um 
carro muito bem goarnecido de verdura, 
e os sapateiros com o drago e diabrete 
e os alfaiates com a serpe e os merca- 
dores com dois cavallos fuscos e os 
marsseiros e tindeiros com hua toura, e 
os vendeiros de fruta com duas pellas, e 
os taverneiros com hua dansa de seis 
pessoas bem vestidas com violla e tocador 
delia e as padeiras com hua dansa de 
seis mossas bem ristidas com violla e to- 
cador delia ao que não faltarão com es- 
tas obrigaçois sob penna de pagarem os 
juizes dos ofícios de sapateiros alfaiates 
e hortallois dois mil reis não vindo á 
dita procissão como que nesta postura 
lhe he encarregado, e com suas bandei- 
ras e de pagarem os mercadores que 
são obrigados a dar os cavalinhos fuscos 
cada hú mil reis não vindo ambos os di- 
tos cavalinhos fuscos á procissão, e os 
marceiros, e tindeiros que são obrigados 
a dar a toura pagarão cada hu quinhen- 
tos reis faltando a esta obrigassão, e os 
taverneiros que forem nomeados para da- 



rem a sua dansa e faltarem com ella pa- 
garão de penna dois mil reis cada hu e 
as padeiras que forem nomeadas para 
darem outro sim a sua dansa pap;aram 
de penna mil reis cada hua faltando á 
sua obrip;ação e as vendeiras de fruta 
pagaram outro sim mil reis faltando á 
sua obrigação o que todos assim paga- 
ram de cadea pela primeira vez que ou- 
ver falta porque na segunda pagaram as 
pennas em dobro coin trinta dias de ca- 
dea e os constrangerão pela camera a 
tudo terem muito bem preparado para 
acompanhamento da dita procissão e as- 
sim mandaram se comprisse.» 

Como é sabido, a dança religiosa, nas 
suas várias formas, encontra-se intima- 
mente ligada a certas festas populares e 
tradicionaes da egreja. Quando, pois, tra- 
tarmos de cada uma d'essas festas, que 
todas entram no programma dos nossos 
estudos, descreveremos, então, em seus 
pormenores, a dança respectiva. 

Agora vamos occupar-nos mais deti- 
damente de as — danças d'amor. 



Sem querermos fallar da antiga ga- 
vota, das varsovianas, e do jacé de con- 
tradança, que tinham por assim dizer 
uma feição aristocrática, mencionaremos 
desde já, como danças populares e amo- 
rosas, usadas no Baixo-Alemtejo, nomea- 
damente na margem esquerda do Gua- 
diana, os bailes de roda, o maquinéu^ os 
pinhões, o seu pésinho^ o fandaní^o, os es- 
calhavardos^ o sarilho^ e o fogo dei fu- 
:{il. Depois completaremos a lista. 

Excepção feita para os bailes de roda, 
ainda em pleno vigor, as demais danças 
que citámos, quasi que deixaram de pra- 
ticar-se e apenas subsistem na lembrança 
das pessoas edosas. D'a!gumas, conse 
guimos ainda, não sem grande difficul- 
dade, recolher a musica própria, que to- 
das possuiam, e reconstituir a forma do 
bailado ; d'outras, porem, tão somente o 
nome lográmos conhecer. 



22 



A TRADIÇÃO 



Os bailes de roda, como vulgarmente 
se designa este género de dança, ou são 
nu weio ou aos y^rcs. 

Quando ao meio, homens e mulheres, 
indistinctamcnte, formam dando-se as 
mãos uma grande cadeia circular. Acto 
continuo á formação desta cadeia, vae 
para o centro um par, o primeiro que 
mais lesto andou ; e logo irrompe uma 
cantiga entoada por uma voz, a que ou- 
tras e outras e todas as vozes dos cir- 
cumstantes, por hm., fazem coro. 

Ao mesmo tempo — obedecendo todos 
ao rhvthmo da cantiga — o par volteia 
no centro como a polkar, e a cadeia vae 
rodando, rodando sempre, em continuo 
movimento. Finda a cantiga Separa-se 
o par: o homem procura, d'entre as do 
circulo, outra mulher, e a mulher imita 
o seu primeiro par, substituindo-o por 
outro homem. Foiçam assim dois pares no 
meio. Simultaneamente, sem que os daii- 
çadores hajam descançado, começaram 
a m.oda-estribilho, a cuja musica a can- 
tiga obedecera. Terminada a moda reti- 
ra-se o primeiro par, que vae encorpo- 
rar-se na cadeia, e vem para o centro, 
em seu logar, um novo par, escolhido a 
contento do par que ficou, do mesmo 
modo por que este já fora escolhido pelo 
que o antecedera. 

Depois volta-se ao principio: — nova 
cantiga rhythmada pela moda favorita, 
pares ao centro em movimento de polka, 
e a grande cadeia — mãos entre mãos — 
a rodar, a rodar continuamente. 

A substituição do par mais antigo 
faz se sempre que a cantiga termina e a 
moda-estribilho principia. 

Do par que se encontra no meio ao 
findar o baile, diz-se — que ficou Sara- 
mago. 

Succede ás vezes, n'estes bailes, com- 
binarem-se quatro pessoas, duas de cada 
sexo, para se preferirem mutuamente na 
procura de pares e sempre, d"ess'arte, 
estarem no meio. 



A isto, que não raro é motivo de gran- 
des discórdias, chama-se aqui — fazer 
monte-pio ; e em tal caso, os homens e 
as mulheres que andam na cadeia a ti- 
rai' agoa^ segundo a expressão consa- 
grada, soem cantar numerosas quadras 
allusivas ao facto, ora azedas ora chis- 
tosas, como as que seguem: 

Minha mãe tem lá'ma renda, 
Uma renda d'entremeio. 
Eu não sirvo aqui d'amparo, 
Também quero ir ao meio. 

Minha mãe tem lá 'ma renda, 
Uma renda d'entremeio. 
'Stou-me rentando no balho 
Se não me levam ao meio. 

Minha mãe tem lá 'ma renda, 
Uma renda de tresmalho. 
Se me não levam ao meio, 
'Stou-me rentando no balho. 

Já não quero tirar agoa, 
Que já tenho o tanque cheio. 
Se meu bem aqui estivesse, 
Já eu andava no meio ! 

Dêem as mãos uns aos outros, 
Que me quero ir embora; 
Quem quizer agoa tirada, 
Compre uma besta p'rá nora. 

Eu não sirvo de parede, 
Também quero ir balhar ; 
Se me não levam ao meio, 
Salto p'rá rua a chorar. 

Minha mãe tem lá 'ma renda 
Toda feita á franceza. 
Se me não levam ao meio. 
Vou-me embora com certeza. 

Quem tem cabras vende leite. 
Quem tem porcos tem presuntos. 
Oh moças ! levem-me ao meio, 
Por alma dos seus defunctos ! 

O' moças, levem-me ao meio 
Com toda a delicadeza ; 
Se me não levam agora, 
Então fallo com aspereza. 

Ind'agora tinha calma, 
Agora já tenho frio. 
O' meninas lá do meio. 
Cautela co'o montepio! 



A TRADIÇÃO 



as 



Ind'agora tinha calma, 
Agora já tenho frio. 
Se me nào levam ao meio, 
Vão pVás mães que as pariu. 

Eu também quero balhar, 
Já vou estando zangado ! 
Se me não levam ao meio. 
Já me vou emhor' pVó gado. 

Vou a dar a despedida, 
Nas costas d'uma vidraça. 
Se me não levam ao meio. 
Vou a dar coices á praça 1 

Minha mãe tem lá 'ma renda. 
Uma renda que eu lhe fiz. 
Se me não levam ao meio, 
Vou fazer queixa ao juiz. 

Eu também quero balhar ! 
Oh ! Que desgraça é a minha ! 
Se me não levam ao meio. 
Vou fazer quei.xa á rainha. 

O' moças, levem-me ao meio. 
Em que seja uma vez só ! 
Oh ! Que desgraça é a minha ! 
Nenhuma de mim tem dó ! 

Semeei no meu quintal 

A semente do repolho. 

Oh moças, levem-me ao meio. 

Que me está luzindo o olho ! 

O' moças, levem-me ao meio, 
Quer' balhar um poucochinho; 
Quando não, vou-me pVa casa 
A comer pão com toucinho. 

O' moças, levem-me ao meio, 
Ja vou estando zangado! 
Se acaso me não levam. 
Parto a canastra ao diabo ! 



(Continua) 



M. Dias NUNES. 



CKENÇAS & SUPERSTIÇÕES 



Bichos uterinos 



Crêem as parturientes da classe popu- 
lar, que, dentro da cavidade uterina, e 
juntamente ao feto, se geram bichos de 
varias formas e feitios, capazes de lhes 
roerem as entranhas. 



Affirmam, ainda, as mulheres do povo, 
com toda a sua primitiva ingenuidade, 
que estes bichos se assimelham, exa- 
ctamente, a ratos toupeiros, sapos, eic, 
e saem ás vezes do corpo ainda vivos, 
começando a andar no meio da casa. 

Até succede — é crença popular que 
jà tenho ouvido referir a algumas pes- 
soas — saírem os mencionados bichos, a 
correr como coriscos, indo csconder-sc 
por detraz de qualquer rriovel ! 

As parteiras daqui, que não possuem 
curso algum ofTicial, são as próprias a 
alimentar esta crença extravagante; e 
recommendam por isso ás suas clientes 
que bebam quanta aguardente puderem, 
para, mercê da ingestão do espirituoso 
liquido, matarem os bichos que já exis- 
tam no útero ou por ventura ali venham 
a desenvolver-se. 

A aguardente, ná opinião d'estas po- 
bres creaturas, tem a singular virtude de 
anniquilar o bicho, preservando o feto ! 

Não podemos deixar de lastimar uma 
crença tão absurda, e de condemnar, da 
maneira mais peremptória, a pratica al- 
tamente nociva de ministrar álcool ás 
parturientes; porque dahi resulta uma 
dupla intoxicação, para a mãe e para o 
filho. 

Como consequência fatal de similhante 
pratica, não raro se produzem casos de 
aborto, cuja gravidade representa um 
severo correctivo para quem, desgraça- 
damente, não possue outro guia, que não 
seja a mais profunda ignorância. 

Aquillo que ás pessoas do povo se afi- 
gura ser um bicho, não passa, evidente- 
mente, d'uma simples mola, quando não 
é, apenas, um feto pouco desenvolvido. 



Serpa. 



FILOMATICO. 



IVIodas-estPibilhos alemtejanas 

A primeira e lonja série de modas-es- 
tribilhos que vamos publicar, ao mesmo 
tempo n'esta secção e no Cancioneiro 



u 



A TRADIÇÃO 



Tuusic.il, toi inieirameiue recolhida na 
villa de Serpa. 

Aproveitaremos, por isso, todo o en- 
sejo que se nos ortereça para continuar- 
mos o estudo da linguagem local. 

Cumpre explicar desde já, que, em 
Serpa, — como de resto, creio, em todo 
o Baixo-AIemtejo, — o povo denomina 
«estvlo» a musica ao rhythmo da qual 
entoa as suas cantigas; e chama «resque 
bre» (corrupção de requebro) á lettra de 
qualquer amoda)>.(') A lettra, ou res- 
quebre. conjugada ao estylo constitue a 
tmoda». 

Ha, porém, varias modas que não pos- 
suem resquebre. 

A cantiga dilTere principalmente do res- 
quebre em não ter, como este tem, mu- 
sica especial. 

A série de modas cuja publicação hoje 
iniciamos, — umas, simples descantes, 
choreographicas outras, — possuem to- 
das o competente resquebre, que se diz, 
invariavelmente, depois das cantigas e 
logo após cada uma destas. Eis porque 
adoptámos o titulo de — Modas-estribi- 



Manuelsinho, vocô chora 

Manuelsinho, você chora, 
Você chora, quem lhe deu? 
Qual seri' ó atrevido 
Que o Manuelsinho oífendeu! 

Hufam-se as caixas no Porto, 
K o meu coração no teu ! 
Manuelsinho, você chora. 
Você chora, quem lhe deu? 

Notas. — A musica d'este resquebre, 
inserta n'outro logar da nossa revista. 



convém precisamente aos bailes de roda 
e ao meio^ já descriptos. 

Como o resquebre é composto de duas 
quadras, ha que bisar, dois a dois, os 
versos das cantigas que quizermos subor- 
dinar á moda do Manuelsinho. 

M. Dias NUNES. 



(') Na linguagem popular de Serpa, a palavra 
resquebre também se emprega no sentido de fa- 
ma, reputação. Diz-se — deitar bom ou máo res- 
quebre d'alguem. 

D. N. 



Habitação, mobiliário e ntensilios domésticos 
I 

Habitação 

Com este nosso ligeiro artigo vimos 
hoje inaugurar na Tradição os interes- 
santes trabalhos de investigação ethno- 
graphica relativos á habitação, mobiliário 
e ntensilios domésticos das classes popu- 
lares. 

Começando por tratar da habitação, 
referir-nos- hemos á margem esquerda do 
Guadiana, e particularmente ao que se 
observa em Brinches^ aldeia do concelho 
de Serpa, cuja população orça por 2.700 
almas. 

E' d'esta aldeia, situada entre Serpa 
e Moura, a três kilometros do Guadiana, 
com um solo riquissimp. e que exporta 
muitos cereaes, azeites e gados, que nos 
vamos occupar. 



— As casas d'habitação, sem se re- 
commendarem pelo luxo e pela elegân- 
cia, offerecem comtudo umas certas com- 
modidades e uma tal ou qual originali- 
dade, que merece bem as honras duma 
pequena descripção. 

Pondo de parte a architectura, que é 
uma incógnita n'estes sitios, a não ser 
n'um ou n'outro prédio d'individuos um 
tanto abastados, onde se lobriga e adivi- 
nha a pretenção do pedreiro em apre- 
sentar capiteis toscanos, pouco mais se 
vê do que construcções ruraes, feitas 
quasi exclusivamente de taipa e alvena- 
ria. Os materiaes empregados n'estas 



A TRADIÇÃO 



25 



ff 



5T 



■'^'7-'- 



efmeiGRsiRe líiuâiepL 

1 1 

MANUELSINHO, VOCÊ CHORA 
(CHOREOGRAPUICA) 



3 



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-• — • — f- 



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^\-cV_ \\.\.vx\^_ Ji\. _ vvVxjO, 





26 



A TRADIÇÃO 



consirucçÕes são : tijolo, lambas, baldosa, 
adobo, telha e pedras muito variadas, 
taes como as calcareas, as argilosas, as 
siliciosas, e d'estas, particularmente o 
granito, muito abundante n'esta região. 
A espessura das paredes exteriores va- 
ria entre o™, do e um metro nas alvena- 
rias, e a altura, entre ^"^So e 6 metros 
— primeiros andares. 

A disposição dos prédios é tão irregu- 
lar, que ditíicilmente se encontra uma 
rua bem alinhada. Se passasse por aqui 
a fita métrica dum engenheiro, tinha de 
ordenar uma verdadeira derrocada. E' 
raro o prédio que não tem um, dois ou 
mais poiaes á porta, ou dentro de casa, 
porque os pavimentos ficam uns mais 
altos e outros mais baixos do que a rua. 
CompÕem-se os prédios, em geral, de 
um a quatro corpos. 

A disposição interior dos comparti- 
mentos é sempre um motivo de grandes 
discussões entre amigos e conhecidos, 
notavelmente, se entre elles ha alguns 
entendidos e que tenham grande risco — 
phrase sacramental no sitio. 

Na maioria dos casos, a divisão é as- 
sim feita : porta d'entrada abrindo para 
um corredor que atravessa o prédio a 
todo o comprimento ; aos lados da porta, 
o escriptorio, saleta e sala com janellas 
para a rua, formando a frente ; a seguir 
e lateralmente, ha os quartos interiores 
communicando uns com os outros e re- 
cebendo luz, ou por frestas abertas nas 
paredes, ou por espécies de clara-boias 
feitas nos tectos, quando são cobertos 
com ripa ou canna. A sala de jantar, si- 
tuada perto da cosinha. communica por 
meio de portas e janellas com o pateo, 
varanda ou terraço, quasi sempre com 
larguíssimos horisontes. 

A cosinha, umas das divisões mais 
importantes do prédio, é, em regra, uma | 
casa espaçosa, banhada de luz e ar. No 
inverno desempenha a cosinha um papel 
importantíssimo: das 6 ás lo ou // ho- 
ras da noite, a vida passa-se exclusiva- 
mente nesta casa, á roda da tradicional 
lareira, onde chegam a abrigar-se 12 e 



i5 serões, jogando a bisca lambida^ co- 
mendo o bello magusto, falando, proje- 
ctando, e discutindo os assumptos mais 
extraordinários, a que não é alheia uma 
pontinha de mcá lingua das sr.^^ coma- 
dres. Os contos e as historias da prin- 
ce'{a Mafçdalona e do João de Calais, 
teem também grande rasgo n'estas noi- 
tes. 

As asnas não se empregam por aqui ; 
sobre os últimos fios de taipa assentam 
directamente os barrotes de pinho, ou 
de castanho de 18 a 24 palmos de com- 
primento, e a estes sobrepõe-se o canniço 
de ripa ou de çanna, pregado aos bar- 
rotes e recebendo directamente as te- 
lhas. A juncção das ripas, ou das cannas, 
para formar o canniço é feita de dois 
modos: ripa ou canna muito unida — can- 
niços fechados; canna ou ripa posta com 
intervalos de três a quatro dedos — cati- 
niço de salto de rato. 

Este género de canniços destina-se ás 
casas que necessitam de maior ventila- 
ção, e veem-se frequentemente nas habi- 
tações dos proletários, como medida eco- 
nómica. 

Nos tectos de canna mais confortáveis 
emprega-se com frequência a cal espa- 
lhada em camada, sobre o canniço, dis- 
tribuindo-se de seguida a telha ; obtem-se 
assim o que elles chamam uma casa ca- 
lafetada. 

Nos prédios de gente mais graúda en- 
contram-se, a cada passo, abobadas e 
abobadilhas, vendo-se então, n'algumas, 
o gesso em grande abundância, porque 
o mestre não poupa material. Quanto 
mais gesso, melhor e mais bonito — é a 
theoria; e a propósito cito, como exem- 
plo, um tecto fasquiado — único! — enfei- 
tado com centenares d'estrellas e quadra- 
dinhos de gesso, assentes sobre um fundo 
azul da Prússia ! 

Tudo isto se refere aos prédios mo- 
dernamente construídos, porque nos de 
construcção antiga, a divisão interior dos 
diíferentes compartimentos não obedece 
a principio algum. 

Os compartimentos succedem-se uns 



A TRADIÇÃO 



27 



aos outros, para a direita, para a es- 
querda c para a frente, n'uma desordem 
e confusão tal, que necessário se torna 
um guia para que uma pessoa se não 
perca n'aquelle labyrintho. 

Teem de notável o suíãu da /'ancila^ 

3ue é o compartimento mais resguar- 
ado, e só accessivel e franqueado, nos 
dias de festa, a pessoas de certa ordem ; 
é o que corresponde á sala de visitas. 
Notam-se em quasi todas estas habita- 
ções vestigios de communicação com os 
prédios visinhos, e dizem os velhos ser 
medida adoptada cm tempos maus para 
mais facilmente fugirem á perseguição e 
à vingança dos partidos contrários. 

As portas e janellas, de dimensões ge- 
ralmente acanhadas, nada teem de notá- 
vel ; as antigas são todas inteiriças, gi- 
rando sobre um só linha de gonzos e 
com o postigo aberto a -f da altura ; são 
quasi que exclusivamente de pinho, e 
consta-me que se encontra ainda uma 
ou outra d'azinho, madeira muito abun- 
dante por aqui. 

Nos pavimentos empregam-se as bal- 
dósas, tijolos e a cal; vendo-se, todavia, 
n'alguns prédios de recente construcção, 
soalhos de pinho* e de tiandres, e alguns 
pavimentos de cimento nos escriptorios, 
salas e saletas. 

Em muitos prédios antigos, a casa que 
olha para o quintal é quasi sempre cal- 
çada, e entre outras pedras apparece 
em grande abundância o silex, as diuri- 
tes e alguns pórphyros. 

São rarissimos os prédios sem quin- 
tal, e nos d'alguns indivíduos abastados 
abrange uma grande área tendo como 
dependências: os celleiros, adegas, pa- 
lheiros e cavallariças. 

O desideratum de todo o proprietário 
é ter todas as dependências á mão, ou 
debaixo d'uma só chai'e, como elles di- 
zem. 



(Continua). 



Lopes PIÇARRA. 



NOVELLAS P OPULARES MINHOTAS^ 
II 



Era uma vez uma formiga muito dili- 
gente, que ia para o moinho com um 
sacco de milho ás costas. No caminho 
prendeu-se-lhe um pé na neve. \'oltou-se 
para o sol e disse-lhe : 

— O' sol, tão forte és que não derre- 
tes a neve que o meu pé prende ? 

— Tão forte sou eu que a parede me 
encobre. 

\'olta-se a formiga para a parede : 

— O' parede, tão forte és que enco- 
bres o sol que não derrete a neve que o 
meu pé prende ? 

— Tão forte sou eu que o rato me 
fura. 

Volta-se a formiga para o rato : 

— O' rato, tão forte és que furas a 
parede que encobre o sol que não der- 
rete a neve que o meu pê prende ? 

— Tão forte sou eu que o gato me 
mata. 

\'olta-se a formiga para o gato: 

— O' gato, tão forte és que matas o 
rato que fura a parede que encobre o 
sol que não derrete a neve que o pé 
prende ? 

— Tão forte sou eu que o cão me 
morde. 

Volta-se a formiga para o cão : 
— O' cão, tão lorte és que mordes o 
gato que mata o rato que fura a parede 
que encobre o sol que não derrete a neve 
que o meu pé prende ? 

— Tão forte sou eu que o pau me 
bate. 

Volta-se a formiga para o pau : 

— O' pau, tão forte és que bates no 
cão que morde o gato que mata o rato 
que fura a parede que encobre o sol que 
não derrete a neve que o meu pé prende ? 

— Tão forte sou eu que o lume me 
queima. 



2» 



A TRADIÇÃO 



Volia-se a formiga para o lume : 

— O' lume, tão forte és que queimas 
o pau que bate no cão que morde no 
gato que mata o rato que fura a parede 
que encobre o sol que não derrete a 
neve que o meu pé prende ? 

— Tão forte sou eu que a agua me 
apaga. 

N*olta-se a formiga para a agua : 

— O" agua, tão lorte és que apagas o 
lume que queima o pau que bate no cão 
que morde no gato que mata o rato que 
fura a parede que encobre o sol que não 
derrete a neve que o meu pé prende ? 

— Tão forte sou eu que o boi me bebe. 
Volta-se a formiga para o boi : 

— O' boi, tão forte és que bebes a 
agua que apaga o lume que queima o 
pau que bate no cão que morde no gato 
que mata o rato que fura a parede que 
encobre o sol que não derrete a neve 
que o meu pé prende ? 

— Tão forte sou eu que o marchante 
me mata. 

Volta-se a formiga para o marchante: 

— O' marchante, tão forte és que ma- 
tas o boi que bebe a agua que apaga o 
lume que queima o pau que bate no cão 
que morde no gato que mata o rato que 
fura a parede que encobre o sol que não 
derrete a neve que o meu pé prende ? 

— Tão forte sou eu que Deus me mata. 

(Recolhida da tradição oral) 

III 

O macaco 



Uma vez era um macaco, que tinha 
um rabo muito comprido. Disse-lhe um 
homem: 

— O macaco, és tão feio com esse 
rabol... Vae a um barbeiro que t'o 
corte. 

Foi o macaco ao barbeiro que lhe cor- 
tasse o rabo, e na volta encontrou-se 
com o mesmo homem, que lhe disse : 

— O' macaco, agora ainda és mais 



feio sem o rabo. Porque não vaes ao 
barbeiro que t'o torne a pôr? 
Foi o macaco ao barbeiro: 

— O' barbeiro, torna-me a pôr o meu 
rabo, senão furto-te a melhor navalha 
que tiveres. 

— O teu rabo deitei-o acima de um 
telhado e os gatos comeram-n'o. 

Então, o macaco, furtou lhe a melhor 
navalha. 

Foi por ali acima... acima... e en- 
contrando uma mulher, junto a um rio, 
a escamar sardinhas com as mãos, dis- 
se-lhe : 

— O' porca de mulher, pois tu estás 
a escamar sardinhas com as mãos ?! Toma 
lá esta navalha para escamares as sar- 
dinhas. 

Vem d'ahi a pouco o macaco em pro- 
cura da mulher e encontrando a, disse-lhe: 

— O' mulher, dá cá a minha navalha, 
senão furto-te a melhor sardinha que ahi 
tiveres. 

— A tua navalha cahiu-me ao rio e a 
corrente levou-a. 

Vae o macaco furtou-lhe a melhor sar- 
dinha. 

Foi-se embora e encontrando uma mo- 
leira a comer pão, disse-lhe: 

— O' moleira, tu estás a comer só 
pão?! Toma lá esta sardinha para come- 
res com elle. 

Volta d'ahi a pouco tempo o macaco, 
e diz á molei^-a: 

— O' moleira, dá-me a minha sardi- 
nha, senão furto-te o maior sacco de fa 
rinha que tiveres no teu moinho. 

— A tua sardinha já a comi. 

Então, o macaco, levou-lhe o maior 
sacco de farinha- 

Foi a uma escola de meninas e disse 
á mestra : 

— Aqui tem este sacco de farinha para 
fazer um bolo pequeno para cada me- 
nina e um maior para a mais bonita. 

Veio o macaco ao depois á escola, e 
diz á mestra : 

— O' mestra, dê-me o meu sacco de 
farinha, senão levo-lhe a menina mais 
linda que ahi estiver. 



A TRADIÇÃO 



29 



— Do seu sacco de farinha fiz os bo- 
los ás meninas. 

— Pois então levo-lhe a menina mais 
linda. 

E o macaco furtou-lhe uma menina. 
Encontrou um homem a tocar viola, e 
disse-lhe: 

— O homem, dd-me essa viola que 
eu dou-te esta menina. 

— Essa menina é minha. 

— Pois dá-me a viola que eu dou-t'a. 
Deu-lhe o homem a viola em troca da 

menina. 

O macaco toi para cima das bordas 
de um poço, e começou a tocar na viola, 
e a cantar: 

Do meu rabo fiz navalha, de navalha 
fiz sardinha, de sardinha fiz farinha, de 
farinha fiz menina, de menina fiz viola. . . 
adeus que me vou embora I 

E atirou-se ao poço. 

(Kccoihida da tradição oral) 



Espozende. 



Álvaro PINHEIRO. 



CONTOS POPDLARES ALEMTEJANOS 



o compadre Bernardo 

Havia numa aldeia um casal com 
tantos filhos, que apenas uma pessoa, 
naquella povoação, ainda não tinha sido 
padrinho de qualquer delles. 

O chefe d'este casal chamava-se Ber- 
nardo, e de forma alguma queria ser 
compadre d\im individuo, por mais d'uma 
vez. Ora, tendo o referido Bernardo, 
ainda, uma filha por baptisar, e querendo 
arranjar-lhe madrinha, metteu-se por um 
caminho fora, resolvido a convidar para 
comadre a primeira mulher, embora des- 
conhecida, que elle encontrasse. Ao ter- 
ceiro dia de jornada encontrou, emfim, 
no meio d'uma charneca d" onde unica- 
mente se avistava matto e ceu, uma ve- 
lha que lhe disse: «Então p'rá onde vae 
perdido, irmão ?» «Eu não vou perdido, 



respondeu elle; ando á procura duma 
mulher que queira servir de madrinha a 
uma filha que tenho ainda por baptisar.» 
Diz-Ihe a velha: «pois olhe, se não quer 
ir mais longe, ofiereço-me eu para ma- 
drinha; mas primeiro que tudo vou di- 
zer-lhe quem sou, afim de buscar outra 
pessoa, caso não goste de mim.» Eu 
sou a Morte, e, querendo você, lá vou 
dhoje a oito dias para baptisarmos sua 
filha. » Bernardo respondeu á Morte que 
a elle qualquer pessoa lhe convinha, so- 
mente o que não queria era ser compa- 
dre duma pessoa por mais duma vez. 
A Morte, então, despediu se de Ber- 
nardo, entregando-lhe um taleigo de di- 
nheiro para as primeiras despezas. As- 
sim que o homem chegou a casa, per- 
guntou-lhe sua mulher: «Então, Ber- 
nardo, já encontraste madrinha para a 
nossa filha?» «Já encontrei, e sabes 
quem é ? a Morte ! ; ella é que m'entre- 
gou este taleigo de dinheiro para as pri- 
meiras despezas!» A mulher ouvindo fa- 
lar na xMorte não ficou muito contente, 
mas examinando o que o taleigo conti- 
nha, disse para o marido: «Oh Bernardo, 
com isto já a gente se governa uns tem- 
pos sem trabalhar, não é verdade?» 

Passados oito dias, realisou-se eííecti- 
vamente o baptisado ('), e, na volta da 
egreja, quando chegaram a casa, a Morte, 
chamando o compadre, disse-lhe : «Com- 
padre, faça-se medico, e não lhe dè isso 
cuidado, porque em Você sendo cha- 
mado para alguém e me veja aos pés do 
doente, pode receitar-lhe qualquer coisa, 
que não morre; só morrerá aquelle a 
cuja cabeceira eu me puzer. o 

Quando a fama de Bernardo já an- 
dava muito espalhada, adoeceu a filha do 
rei, e depois de serem consultados os 
grandes médicos do reino e todos have- 
rem declarado que era impossível salvar 
a doente, disse um dos ministros ao rei : 
«Saiba Vossa Real Magestade que o 



(1) Em vez de baptisado^ o povo diz: baptiso. 

L. P. 



30 



A TRADIÇÃO 



único medico que pode salvar a prin- 
ceza é um chamado Bernardo, o qual já 
curou uma filha minha, d'uma doença 
egual á da princeza.» O rei, que a todo 
o^ custo queria salvar a filha, assignou 
uma ordem, que mandou entregar por 
um próprio ao compadre Bernardo, con- 
forme lhe chamavam na aldeia. O com- 
padre Bernardo apressou-se a cumprir a 
ordem regia, e por isso apresentou-se 
logo no palácio, convencido que curava 
a princeza. Mas assim que elle entrou 
no quarto da doente e viu a Morte á sua 
cabeceira, caiu-lhe immediatamente a 
balsa em baixo ('). Pensou um bocado 
e, olhando para quem estava ali, disse : 
«Emfim, voltem-lhe lá a cabeça para onde 
ella tem os pés...» Passadas duas ho- 
ras, levantou-se a princeza completa- 
mente curada, ficando todos pasmados 
duma operação tão simples produzir um 
resultado por tal forma maravilhoso! 

No outro dia, quando o compadre 
Bernardo regressava a sua casa, saiu-lhe 
a Morte ao encontro e disse-lhe que tanto 
como aquillo não lh'ensinara ella, e por 
conseguinte, que se preparasse para qual- 
quer dia marchar, elle em logar da refe- 
rida doente. O compadre Bernardo, pe- 
rante uma ameaça d'esta ordem, pediu 
á Morte, de mãos postas, que lhe per- 
doasse, que elle nunca mais procederia 
assim. E, como a Morte não desistisse 
da ameaça, compadre Bernardo foi a 
casa, contou á mulher o occorrido e em 
seguida dirigiu-se á loja d'um barbeiro 
afim d'este lhe rapar a cabeça á navalha. 
Feita esta operação, voltou a casa a ves- 
tir um fato velho, e ordenou á mulher 
que dissesse á Morte, quando esta o 
viesse procurar, que não sabia d'elle ha- 
via oito dias. Em seguida retirou-se e 
foi á busca dos rapazes para se mistu- 
rar com elles a fim d'escapar, por 
meio deste disfarce, á perseguição da 
sua comadre Morte. Ao cabo de três 



ÍM Caiu-lhe a balsa em baixo = fico\x esmo- 
recido, desanimado. L. P 



dias, andando o compadre Bernardo jo- 
gando á pata, no adro, com os rapazes, 
passou a Morte e perguntou: «O ra- 
pazes, vocês viram para aqui o meu com- 
padre Bernardo?» Salta elle do meio 
dos seus companheiros e diz: «Sim se- 
nhor, esse moço passou agora ahi fu- 
gindo adiante d'uns poucos de rapazes, 
por essa rua adiante.» A Morte, ouvindo 
isto, lançou-lhe mão d'um braço e puxan- 
do-o, proferiu o seguinte : «E' o mesmo; 
uma vez que não está aqui o meu com- 
padre Bernardo, quer dizer que levarei 
este velho pellado.» 



Da tradição ora! 
\Brinches) 



António ALEXANDRINO. 



JOGOS POPULARES 

II 

^^ bola, (O 

O jogo da bóia constituia, entre a ra- 
paziada do concelho de Serpa, um di- 
vertimento dos mais alegres e ruidosos. 

Actualmente vemol-o abandonado, e 
comtudo não se nos depara outro que 
rasoavelmente o substitua. 

O jogo da bóia era próprio da esta- 
ção do inverno, e realisava-se em exten- 
sos terreiros ou rocios, situados ordina- 
riamente nos arrabaldes das povoações. 
Ainda hoje os habitantes d'esta região 
indicam os sitios que serviam de theatro 
ao referido jogo. 

Posto isto, passemos á sua descrição : 
Reunem-se vários rapazes em um deter- 
minado largo, previamente munidos de 
uma bóia de madeira, e de maços ou mo- 
cas de madeira também. Cada jogador 
possue o seu maço ou moca. Em segui- 
da, abrem uma cova no chão, e em tor- 
no d'ella, formando um circulo, fazem 
outras tantas covas quantos os jogado- 
res menos um. A cova do centro é a 



(*) Jogo da bola ou da pinada. 



A TRADIÇÃO 



31 



maior, e serve para n'ella ser encerrada 
a bóia, como adiante se verá. 

A cada jogador pertence a sua cova, 
á excepção d'aquelle que tem d'andar 
com a bóia, ao qual se dá o nome de 
caçador. 

Para se saber quem ha de ser o ca- 
çador, qualquer dos parceiros pega n'uma 
pedrinha, e, levando as mãos atraz das 
costas, fecha-as e apresenta-as immedia- 
tamcnte a outro companheiro. 

Ambas as mãos teem o dorso voltado 
para cima, e o jogador a quem ellas são 
apresentadas, bate com a sua mão di- 
reita n'aquella que elle julga não con- 
ter a pedrinha. Se a pedrinha effectiva- 
mente lá não está, fica livre dandar com 
a bóia ; no caso contrario toma a citada 
pedrinha, e, usando da mesma manobra 
que acabamos d'apontar, apresenta-a a 
um outro companheiro. 

E assim vae a pedrinha passando de 
mão em mão, até chegar ao ultimo dos 
parceiros, o qual fica sendo o caçador. 

Logo que se saiba quem é o caça- 
dor, os jogadores enfiam os maços nas 
respectivas covas e preparam-se para 
defender o circulo, do caçador que a 
todo o custo procura encerrar a bóia na 
cova central. A bóia gira á mercê das 
pancadas que o caçador lhe dá com o 
maço, e de cada vez que ella se appro- 
xima do circulo, é repellida violenta- 
mente pelas pinadas (i) vibradas pelos 
jogadores. E' precisamente no acto em 
que o caçaaor pretende romper o circulo, 
para encerrar a bola, e os jogadores se 
oppõem a esta pretensão, que o jogo 
adquire toda a sua importância. Desen- 
volve-se, n'esse momento, uma lucta mui- 
to acesa entre os jogadores e o caçador : 
os paus cruzam-se no ar, as pinadas suc- 
cedem-se vertiginosamente, e cada joga- 
dor tem "o cuidado de não abandonar a 
sua cova para não a ver immediatamen- 
te occupada pelo caçador, que a seu tur- 



(^) Pinada : pancada dada na bola com o 
maço. 



no também diligencia encerrar a bola ou 
apanhar qualquer cova, que veja vasia. 
Achãmo-nos, pois, n'esta altura em pre- 
sença d'uma scena agitadíssima, animada, 
como é fácil dimaginar, por enorme al- 
gazarra. 

Acontece muitas vezes, no meio d'este 
vivo e engraçado turbilhão, enfiarem na 
mesma cova dois maços; claro que, n'este 
caso, um dos maços tem de sair. K para 
saber-se qual d'elles ha de ser, adopta- 
se o seguinte processo : um dos jogado- 
res approxima-se da cova onde se deu o 
empate, fecha os olhos e, collocando a 
mão aberta entre os dois contendores, 
vae dizendo a bater ora num ora n'outro: 
— «Trocas baldrócas no cu-cu-ru-cu — 
cjuem s'enganou ? - enganaste-te tu». O 
jogador em quem bateu a mão ao pro- 
nunciar-se a ultima palavra, c que perde, 
e é. por conseguinte, esse que tem d'an- 
dar com a bola. Ha ainda outro processo 
de resolver o empate : um dos jogadores 
mette o seu maço entre os dos contendo- 
res, e agarrando-lhe n'uma das extremi- 
dades com ambas as mãos, vae andan- 
do á roda até um dos outros dois maços 
sair. N'este caso, o dono do maço, que 
saiu, perdeu a cova. 

O jogador precisa estar sempre alerta 
durante o exercício, porque, ao menor 
descuido, o caçador, se é dextro e vigi- 
lante, apanha-lhe a cova. 

Supponhãmos agora que o caçador, 
atravessando o circulo formado pelos jo- 
gadores, consegue encerrar a bola na 
cova central — o que tem as suas diffi- 
culdades : N'esta hypotnese, segura a 
bola, o melhor que pôde, com o seu 
maço, e convida um dos jogadores a vir 
desencerral-a. O jogador convidado bate 
então, servindo-se do maço e com toda 
a força, três pancadas na bola encerra- 
da, afim de a fazer saltar da cova. Se 
ao fim das três pancadas a bola perma- 
nece encerrada, o mesmo jogador per- 
de e tem de ceder a sua cova ao caça- 
dor, cujo logar elle vae occupar. 

Os jogadores teem todos o direito de 
pedir marróias. Quando qualquer joga- 



S8 



A TRADIÇÃO 



dor as pede, o caçador, dirigindo-se para 
junto delle, atira com a bola ao ar para 
que lhe dê, aquelle, com o maço. Mas 
se a bola é errada, o jogador que pedira 
a marróia perde e rica portanto sendo o 
caçador. 

Os parceiros trocam ás vezes entre si 
as covas, e quando muitos o fazem ao 
nnesmo tempo, estabelece-se uma tal con- 
fusão e alarido, que fácil se torna ao ca- 
çador, se é ágil, apanhar cova onde se 
installe. Aquelle que no meio desta di- 
vertida peripécia perde a cova, fica sendo 
o caçador, e é alvo de grande troça por 
parte dos companheiros. 

O logar de caçador não tem nada de 
invejável, porque o mesmo precisa an- 
dar constantemente com a bola junto 
dos jogadores, vendo-se frequentes ve- 
zes obrigado a ir buscal-a a longas dis- 
tancias. 

Não é raro ver os jogadores estorcen- 
do-se com. dores, agarrados ás canellas, 
por apanharem com a bola arremessada 
pelos maços: e também se observa, ás ve- 
zes, na refrega das pinadas, levarem os 
parceiros com os maços, embora invo- 
luntariamente. 

Tal é, em suas minúcias, o activo e 
apparatoso jogo da bola, que, como 
dissemos, já deixou de ser usado en- 
tre nós. 



Serpa 



Ladislau piçarra. 



PPtOAUEBIOS E DICTOS 



Mulher doente, mulher p'ra sempre. 

II 
Mais dá o rico crú, que o pobre nú. 

III 
Mulher feia, á luz da candeia. 



IV 



De conselhos e mulher feia tenho eu 



a barriga cheia. 



V 



Arco-iris á tarde, não vem cá em balde. 

VI 
Aberta em Castella, — agoa na terra. 

VII 

Mal vae ao cavalheiro quando não 
chove em Fevereiro. 



(Da tradição oral) 
Serpa. 



(Continua) 
CASTOR. 



ADIVINHAS 



V 

A AMORA 

Sou verde, nasço do verde ; 
Corre-me o sangue sem dôr; 
Tenho três mudanças no anno, 
Sem nenhuma ser d'amor. 

VI 

O OVO 

o pellicós não tem cós^ 
Nem pés, cabeça, nem bico ; 
Já seu filho perliqiiitico 
Tem pés e cabeça e bico 

(Da tradição oral) 

(Continua). 
Serpa. 

CASTOR. 



BIBLIOGRAPHIA 

Por absoluta falta de espaço, somos 
obrigados a retirar hoje esta secção, que 
daremos impreterivelmente no próximo 
numero. 

D. N. 



A.nno I — IV.» 3 

Edilor-adcnmisirador, Jo\ 
Typocraptiia de .1 . 



SERFâ, Karço de 1899 



K<'»rIo I 



A TRADIÇÃO 

> 
REVISTA MENSAL DETHNOGRAPHIA PORTUGUEZA 

DuiECVORES. — LADISLAU PIÇARRA e M. DIAS NUNLS 



A MORTE E O INVERNO 



I 

Com o titulo d'cste artigo escrevi em 
20 de novembro de I877 o seguinte, que 
saiu a lume na revista A Renascença, di- 
rigida por Joaquim d'Araujo, e da qual 
sem duvida pouquissimos dos meus lei- 
tores dlioje terão conhecimento, graças 
á facilidade com que em Portugal desap- 
parecem as publicações da natureza das 
d'aquella. 

«Em 1867 o sr. Furtado, hoje pharma- 
ceu.tico em Bragança descreveu-me em 
Coimbra o seguinte uso, que havia e ha 
ainda, segundo creio, na primeira dessas 
cidades: «A Misericórdia de Bragança 
aluga em quarta feira de Cinza um fato 
que tem pintado um esqueleto com uma 
mascara lígurando a caveira; ha sempre 
muitos alugadores, cada um dos quaes 
não pode trazei o mais que uma hora; 
durante ella entra era todas as casas que 
lhe agrada e- percorre as ruas perseguin- 
do os rapazes com a fouce e um tirapé; 
estes vão atraz delle, correndo-o á pe- 
drada e gritando: 

O morte! 

O piela! 

Sete costellas e meia, 

Nariz de canella. 

O sr. J. A. d' Almeida no seu Diccio- 
jiario abreviado de Chorop^afia refere 



este costume, com uma variante nos ver- 
sos: 

O morte 
O piella, 
Tira a chicha 
Da panella. 

O sr. Theophilo Braga no seu livro 
Kpopèas da raça mosarabe reproduz a 
noticia dochorographo e interpreta da se- 
guinte maneira aquelle costume: «O re- 
sultado desta lucta do catholicismo e do 
despotismo contra a poesia e liberdade 
dos mosarabes, vê-se na mudez e falta 
de festas nacionaes do povo portuguez. 
Quando a burguezia da Europa trabalha 
e ri, sentindo-se forte, productora, com 
a consciência dos seus direitos, em Por- 
tugal ainda se obedece ao pesadello da 
Dança da morte que aterrou na idade 
media (p. 325).» «Com isto divertem a 
alma popular (p. 'ò-iC)).» 

A dança macabra ou dança da morte 
pertence ao dominib da literatura e da 
iconographia ; com quanto se fizessem re- 
presentações mimicas delia fuma, por 
exemplo, em Paris, em 1424, no cemi- 
tério dos Innocentes) nunca entrou no do- 
mínio dos costumes populares: demais a 
piella percorrendo as ruas e sendo per- 
seguida e perseguidora dos rapazes não 
dá ideia da morte, dançando com os re- 
presentantes dos três estados ou das di- 
versas classes sociaes. Esse assumpto 
parece ter^ tido muito pouca voga em 
Portugal. E a mythologia que nos dá a 
explicação daquelíe costume de Bragança, 



34 



A TRADIÇÃO 



ultima transformação duma cerimonia al- 
guns milhares d'annos mais antiga que a 
dança da morte. 

Nos antigos cultos naturalisticos occu- 
pavam um grande lugar as cerimonias 
que svmbolisavam o giro das estações, 
em que a imaginação mythoepica das na- 
ções indoeuropcas via um drama, que 
reproduzia em ponto grande o drama 
quotidiano da lucta do dia e da noite, da 
luz e das trevas; a divindade solar um 
momento vencida saía por fim trium- 
phante da lucta. O inverno era um pa- 
rallelo da noite, como o verão (as esta- 
ções primitivas eram essas duas) do dia. 
Como a noite era identificada á morte, 
assim o inverno foi considerado como a 
morte. Não é o inverno a morte da na- 
tureza, da qual esta ha de resuscitar sem- 
pre com novo vigor e belleza ? Que im- 
mensa alegria quando vinha a primeira 
ave da primavera, quando no prado 
desabrochava a primeira fiôr! O inverno, 
a morte, estava vencida e na sua alegria 
os nossos antepassados não se contenta- 
vam com metter ao campo o arado e 
pensar e curar das cousas positivas da 
vida: haviam de vingar-se do inverno pe- 
las suas próprias mãos, vingança bem 
innocente, mas que por certo lhes dava 
immenso jubilo. Um homem, uma figura 
mesma, symbolisando o inverno, era per- 
seguida pelas povoações, com cantos ade- 
quados, ou então um combate entre o 
inverno e o verão era representado por 
dous contendores escolhidos. 

Quasi todos os costumes populares 
têem as suas raizes nos velhos cultos na- 
turalisticos. O singular costume de Bra- 
•gança explica-se com toda a clareza pela 
cerimonia de expulsar o inverno. 

Jacdb Grimm, que mostra com eviden- 
cia a identificação do inverno e da morte 
(Deutsche Mytholog\e, 3 Ausg. p. 726 ss.), 
depois de referir o costume da lucta do 
Inverno e do Verão, ainda hoje muito 
em voga na AUemanha, diz-nos que nos 
cantos franconios desappareceu inteira- 
mente a menção do verão, subsistindo 
apenas com mais forca a ideia da morte 



expulsa. Raparigas do campo de 7 a 18 
annos percorrem as ruas das cidades, le- 
vando debaixo do braço esquerdo um 
pequeno féretro aberto, de que pende 
um panno de linho que cobre uma boneca. 
O seu canto unisono começa: 

Heut ist mitlasten. 

Wir tragen den Tod ins wasser, wol ist das. 

*Hoje é o meio da quaresma; nós va- 
mos deitar a morte ao rio; bom é isto.» 
Não desejando dar mais que uma suc- 
cinta explicação do costume de Bragança, 
omitto a menção das variantes da ceri- 
monia, como a acho descrita nos mytho- 
logos allemães ; contentar-me-hei com 
mais uma noticia. Os Sorbos no Ober- 
lausitz (refere Grimm, o. c. p. 731) fazem 
uma figura de palha e farrapos; a pessoa 
em cuja casa se deu o ultimo falleci- 
mento deve dar a camisa; a ultima noiva 
deve dar o veu e os farrapos necessá- 
rios; o espantalho é espetado em cima 
dum barrote alto e levado a correr pelas 
mais fortes raparigas do campo, que can- 
tam todas : 

lecz hore, lecz hore! 
jatabate woko, 
pan dele, pan dele 1 

«vôa alto, vôa alto, anda de roda, cáe 
para baixo, cáe para baixo.» A figura é 
corrida á pedrada; quem lhe acerta não 
morre nesse anno. 

O dia da lucta do Vergão e do Inverno 
ou da expulsão da morte varia segundo 
as localidades; mas a quarta dominga de 
quaresma (dominica Isetare) ou meio da 
quaresma são os dias mais escolhidos; 
nos arredores de Boitzenburg no Uker- 
mark a festa acha-se inteiramente deslo- 
cada, porque a lucta do verão e do in- 
verno se representa pelo Natal (A. Kuhn 
und W. Schwartz, Norddeutsche Sagen, 
MurcJien und Gebràuche. 1848, p. 4o3); 
não é pois de extranhar que em Bra- 
gança a Morte percorra as ruas em 
quarta feira de Cinza, e tanto menos 



A TRADIÇÃO 



85 




fij^LE^I^ DE TYPOS POPIÍL^RES 




I I I 





Velho camponez, de calção e polainas 




36 



A TRADIÇÃO 



quanto provavelmente se quis dar um 
sentido christão a um costume dorigem 
puramente pagã. A serração da relha^ 
o enterro do bacalhau^ os Judas de sab- 
bado da Alleluia tèem a mesma fonte 

3ue a expulsão da moite; mas o exame 
esses costumes ficará para outra occa- 
sião. « 



II 



Depois da publicação das observações 
que reproduzi, foi repetida a explicação 
dada da morte piella^ da serração da 
rellia^ do enterro do bacalhau, da queima 
dos Judas [n das ultimas três festas sim- 
plesmente indicada) em mais dum escri- 
pto de pessoas que entenderam não de 
ver citar-me, o que prova que o meu 
artiguinho foi considerado bem commum, 
o que só podia ser motivo de satisfação 
para mim. 

Lendo ha pouco na traducção franceza 
um dos últimos livros do celebre orien- 
talista Max Muller, Nouvelles éiudes de 
mylhologie (Paris, i8g8), renovou-se no 
meu espirito a memoria de ambiciosos 
planos d'estudos nelle formados ha cerca 
de 35 annos quando uma outra obra do 
mesmo auctor, as Lectures on íhe Science 
of Language, me revelou o mundo des- 
conhecido da glottologia e da mytholo- 
gia. Muito foi, entretanto, por mim co- 
lhido para realisar o plano então traçado 
e apenas fragmentos dispersos tenho 
dado a lume de minhas investigações, 
cuja parte relativa ás tradições popula- 
res portuguezas, commentadas com o 
auxilio dos trabalhos de que teem sido 
objecto as dos outros povos, me tenho 
visto obrigado a pôr de lado nestes últi- 
mos annos. Surgem agora mais duas pu- 
blicações sobre aquelle assumpto, a pre- 
sente e Portugália^ de que em breve 
sairá o primeiro numero, sob a direcção 
de Rocha Peixoto e Ricardo Severo. 
Como os noves, de quem muito se deve 
esperar, me exprimiram o amável desejo 
de que eu fosse seu collaborador, minis- 
trar-lhes-hei algumas das velhas notas, 



completadas, quando possivel, com ele- 
mentos de mais recente acquisição. E 
para começar nesta revista, cedi ainda 
uma vez á inspiração de Max Muller, 
que no livro recente alludido se occupa 
a pp. 509-517 do inverno e da morte, a 
propósito de Mamurio. 

Mamurius A'eturius era na tradição ro- 
mana o artifice que fabricara os ancilia^ 
os escudos sagrados dos salios, feitos 
pelo modelo dum caído do ceu no tempo 
de Numa, no qual viveu, segundo a lenda, 
aquelle ferreiro. Na véspera dos idos de 
março, era costume que um homem ves- 
tido de pclles percorresse Roma e fosse 
repellido e expulso delia com varas bran- 
cas: chamavam-lhe Mamurius Veturius. 
Já L. Preller (Roemische Mythologie^ 2.* 
ed. p. 317) approximara esse costume 
do da expulsão do inverno na Allemanha. 
M. Mueller renova essa connexão, sem 
referencia todavia a Preller, mas sim a 
Hanusch na sua obra sobre a Sciencia 
dos mjthos slavos^ a J. Grimm, que eu 
citara, e a Usener, cujo livro sobre os 
Mfthos itálicos ainda não vi. 

O auctor de Nouvelles études de my- 
thologie diz : 

«Nós dizemos sem duvida: «Morreu o 
anno»; mas esta expressão, em nossa 
boca, significa apenas que o anno aca- 
bou. O nosso anno morre com o anno 
civil no ultimo dia de dezembro, iio dia 
de S. Silvestre; e a prova que essa data 
era já festejada pelos pagãos está no cos- 
tume, entre outros que não são pura- 
mente christãos, d'enterrar S. Silvestre 
nesse dia. Em muitos legares não é nem 
a noite de Natal, nem a de S. Silvestre, 
mas a Epiphania que se considera como 
o verdadeiro começo do anno christão. 
Na antiguidade, a guerra entre o sol e o 
anno velho ou o génio do inverno durava 
até aos primeiros dias da primavera, até 
á volta da luz e do calor. Os romanos 
punham o começo do anno no mês de 
março, os slavos no primeiro dia da pri- 
mavera. Nessa epocha, nas proximida- 
des do equinoxio, é ainda costume em 



A TRADIÇÃO 



37 



diversos países da Europa tievar para 
fora, expulsar o anno,» isto c enterrá-lo. 
aLcvar para fora» era primitivamente a 
expressão usada para o transporte do 
cadáver para fora da aldeia, para o inliu- 
mar ou queimar, em latim cffcrc ou am 
dere. » 

Kxtrahindo vários exemplos da cerimo- 
nia da expulsão do inverno^ da tuortc, do 
velho ou da relha^ o que é na essência a 
mesma coisa, expiime M. Mueller o receio 
de que «se ache fastidioso repetir sem- 
pre as mesmas historias». Mas em Por- 
tugal essas historias são muito pouco co- 
nhecidas, porque os nossos folkloristas 
são em regra fraquissimos na parte com- 
parativa e explicativa, sendo até recom- 
mendavel aos que não possam conhecer 
bem e aproveitar os trabalhos capitães 
que interessam ao assumpto, limitarem- 
se a colligir os factos de casa. 

Depois do que eu lera em J. Grimm 
(Deutsche Mythologie Iv'' ed. p. 741 seg.) 
em 1871 não tivera irais nenhuma du- 
vida do que era a serração da velha: a 
velha aqui era o anno velho (a morte, o in- 
verno). Sobre essa cerimonia, degene- 
rada em meio de lograr os papalvos, es- 
crevi alguma coisa na Revista dethnolo- 
gia e de glottologia p. 58 bg O grande 
philologo allemão cita o costume em 
Barcelona (de A. Laborde, Iliuéraire de 
rEspagjid I, 57-58), na Itália (segare la 
vecchiaj^ entre os slavos, etc, 

• Todos os slavos que vivem nos cam- 
pos, diz iM. Mueller, fallar-vos-hao duma 
velha que se leva para fora da aldeia e 
se queima, enterra, afoga, ou serra em 
bocados nas proximidades do equinoxio 
de primavera, ora no domingo de Lae- 
tare^ ora no domingo dos Ramos. Essa 
velha chama-se Marena na Moravia, Mar- 
rana na Polónia e na Silesia, Smrt na 
Bohemia, Smerc entre os wendes, nou- 
tras partes Muriena ou Mamurienda (cp. 
Mamurius). O sentido primitivo de todas 
essas palavras parece ter sido morte ou 
inverno. I Fundando-se sobre textos reu- 
nidos por Usener diz ainda o mesmo au- 



ctor: «Na nnesma epocha do anno leva-se 
pelas ruas, na Itália, um boneco horrendo 
e serram-no ao meio, soltando grandes 
gritos. Esse costume chama-se siegar la 
vecchia no \'eneto, segar la receia perto 
de Kovcredo e de Trieste, segare la nut- 
tiaca em Toscana.» 

Nalgumas partes o inverno (a m<jrte, 
o anno velho, etc.) é queimado, como já 
se vê das palavras acima citadas de M. 
Mueller a propósito dos slavos. 

J. Grimm diz (p. ySo): 

Na Bohemia as creanças levam um ho- 
mem de palha, que deve representai a 
morte, ao cabo do lugar e queimam-no e 
cantam: 

giz resem Smrt ze wsy, 
nowe Leio do wsy ; 
witey Leio libezne, 
obiljcko zelene I 

«já expulsamos a morte do logai e tra- 
zemos para elle o novo estio; bem vindo 
sejas querido estio, verde trigozinho!» 

Em Portugal obscureceu-se muito cedo 
o sentido mythico dessas festas da natu- 
reza, já por influencia do catholicismo e 
d interpretações erróneas, já pela pobreza 
de espirito poético do povo. Comparem- 
se os versos cantados pelos slavos na ex- 
pulsão da morte com as rimas ridiculas 
e chatas da piella de Bragança. Interpre- 
tou-se a velha que se serra como repre- 
sentando a quaresma, e talvez por isso 
se collocou a cerimonia exactamente no 
meio da quaresma numa quarta feira, 
fazendo a sair da quarta dominga, do- 
mingo Laetare. O ódio christão por Ju- 
das fez ver este na imagem da morte que 
se queima; e depois figurou-se no Judas 
um individuo determinado da povoação 
em que se celebra a cremação. No Porto, 
no Largo dos Lóios, ha annos vi queimar 
um Judas que se dizia representar certo 
caixeiro, pouco sympathico aos collegas, 
que acompanharam a cremação com gar- 
galhadas alvarissimas. 

A festa da morte do inverno attingiu 
o ponto Ínfimo da mais indigna prosa ou 



38 



A TRADIÇÃO 



enterro do bacalhau^ que nos mostra co- 
mo se acabam por interpretar do modo 
mais arbitrário os costumes que já não 
se comprehendem, sem deixar de os pra- 
ticar, em resultado do poder enorme do 
habito e da imitação (*). 

Lisboa. 29 de janeiro de ií<u9. 

F. Adolpho coelho. 



KA qUARESMA 

(Notas avulsas) 

Em Serpa, onde o povo trabalhador 
cultiva dia a dia os clássicos descantes, 
como a favorita distracção agradável e 
deleitosa, o que primeiro nos denuncia o 
advento do período quaresmal é a prom- 
pta substituição das canções religiosas ás 
canções d*amor. 

Perderam-se na manhã de quarta-feira 
de Cinza os últimos accentos das modas- 
estribilhos mais em voga durante o car- 
naval : e logo depois ouvem-se os cânti- 
cos religiosos, na falia de creanças inno- 
centes, que passam pela rua, e na voz 
fresca e sonora de rubicundas campo- 
nezas, dispersas pelo campo na labo- 
riosa faina da agricultura. E' assim a 
lettra d'esses cânticos, cuja toada meren- 
corea e branda se vem perpetuando, im- 
mutavel, de geração em geração: 

— Além vem Jesus 

— Que lhe queres vós ? 

— Quero ir com elle 
Porque leva a cruz. 

Seus braços abertos, 
Seus pés encravados, 
Derramando o seu sangue 
Por nossos peccados. 



(*) A queima do Judas e o enterro do baca- 
lhau fazem-se em sabbado d'Alleluia. 

Os periódicos deram noticia de se ter repe- 
tido este anno a saida da morte piella em Bra- 
gança. 



A terra tremia 
Go'o pezo da cruz ; 
Dizendo nós três vezes: 
— Salvae-nos, Jesus ! 

Salvador do mundo, 
Que a todos salvaes^ 
Salvae as nossas almas ! 
Bemdito sejaes! 

Olhae para o ceu, 
Uerás uma cruz. 
Capella de rosas, 
Menino Jesus. 

Olhae para o ceu. 
Verás um craveiro. 
Capella de rosas. 
Menino cordeiro. 

Olhae para o ceu, 
Verás 'ma Maria: 
Capella de rosas 
Cheia d'alegria. 

Perguntae aos anjos 
Que vem de Belém; 
Os anjos que digam 
Para sempre, amen. 

Virgem-Mãe do Carmo 
Mandou-me um recado : 
Que cantasse e rezasse 
O bemdito-louvado. 

O bemdito-louvado 
Não me ha-de a mim esquecer, 
Que a Virgem-Mãe do Carmo 
. Nos ha-de valer. 

Nos ha-de valer 
Com todo o seu valor, 
Rainha-Mãe dos Anjos, 
Do ceu resplandor 1 

Do ceu resplandor, 
Dos anjos maravilha. 
Oh ! como é divina 
A Virgem Maria 1 

Pois d'ella nasceu. 
Nasceu o bom Jesus, 
Que morreu pVa nos salvar 
Nos braços da cruz. 

Nos braços da cruz 
Morreu p'ra nos salvar, 
E nós peccadores 
Sempre a peccar. 



A TRADIÇÃO 



89 



Sempre a peccar, 
Sem emenda ter. 
Devemos considerar 
Que havemos morrer. 

Havemos tnorrer, 

E que conta havemos d;ir 

A'quelle Senhor. 

Que nos ha-de salvar ? 

Virgem-Mãe santíssima, 
Estrella do norie ! 
Pedi ao Senhor 
Nos de bóa sorte. 

Que eu sou peccador, 
Não lhe sei pedir ; 
Não sou merecedor 
Do Senhor me ouvir. 

Do Senhor me ouvir 
Não sou merecedor, 
Virgem-Mãe Santíssima, 
Mãe do Redemptor ! 

Mãe do Redemptor, 
Mãe nossa também, 
Levae-nos á gloria 
Para sempre. Amen. 



Além d'estas quadras, cantam ainda 
as camponezas, no tempo da quares- 
ma, alguns romances e lendas, taes co- 
mo o Lavrador da Arada^ a ^ona Ma- 
ria^ a Sylvauia, a ílrgeni da Lapa^ 
etc, etc. («) E em toda a semana san- 
ta, entre os numerosos ranchos de gua- 
pas moçoilas, que arrancam da seara 
as ervas maninhas, são cantares esco- 
lhidos os 

Martyrios do Senhor 

Meu bom Jesus do Calvário, 
Tendes a cruz d'oliveira, 
Vós sendo o mais doce cravo 
Que nasceu entre a roseira ! 



(*) N'um dos próximos números d'esta revista 
iniciaremos a publicação de romances e lendas 
populares do Alemtejo. 

D. N 



Vosso nome santo é, 
Que é Jesus de Nazareth. 
Aqui tendes a minh'alma 
Que vem morrer pela fé. 

Vosso divino cabello 
Mais fino é que o fino oiro. 
Aqui tendes a minh'alma, 
Mettci pró vosso thezoiro. 

A vossa santa Cabeça 
Croada com duro'espinhos 1 
Paramotide (*) os meus peccados 
Passastes, Senhor, martyrios. 

A vossa divina testa 
Correndo sangue aos rigores ! 
Paramonde os meus peccados 
Passastes, Senhor, as dores. 

Os vossos divinos olhos 
Inclinados para o chão. 
Paramonde os meus peccados 
Passastes, Senhor, paixão. 

Vosso divino nariz 
Já lhe tiraram o cheiro : 
Foi no reino dos judeus. 
Que o venderam por dinheiro. 

As vossas divinas faces 
Cheias d'escarros nojentos ! 
Paramonde os meus peccados 
Passastes, Senhor, tormentos. 

Os vossos divinos beiços, 
Mais roxos que os roxos lirios I 
Paramonde os meus peccados 
Passastes, Senhor, martyrios. 

A vossa divina bocca 
Cheia de fel amargoso, 
Paramonde os meus peccados. 
Oh meu Deus todo-poderoso ! 

Vossa divina garganta 
Lhe enlearam uma corda ! 
Meu bom Jesus do Calvário, 
De nós tende misericórdia ! 

O vosso divino peito 
Foi aberto com uma lança : 
Entrae minh'alma pVa dentro, 
Vós lhe daes a confiança. 



(*) Paramonde = por amor de ; por causa de 

D. N. 



40 



A TRADIÇÃO 



Os vossos divinos braços 
Vos pregaram n'uma cruz, 
PjratnouJc os meus peccados, 
Oh meu amado Jesus ! 

Vossa divina cintura. 
Com 'mi toalha cingida ! 
Parjvionde os meus peccados 
Pe. destes, Senhor, a vida. 

Vossos divinos assentos. 
Sentados na pedra fria ! 
Pjrjvvnide os meus peccados 
Passastes, Senhor, agonia. 

Vossos divinos joelhos 
Arrastados pelo chão ! 
Paramonde os meus peccados 
Passastes, Senhor, paixão. 

Os vossos divinos pés. 
Mais brancos que a neve pura, 
Correndo rios de sangue 
Pela rua da amargura ! 

O vosso divino corpo, 
Todo chagado e ferido ! 
Paramonde os meus peccados 
Fostes vós. Senhor, ventlido. 

Aquella santa mulher 
Que vos foi ver no Calvário, 
Foi quem a vós, Senhor, deu 
O vosso santo sudário. 

Oh mães que tiverem filhos, 
Ajudae-me a chorar ! 
Aquellas que os não teem 
Não podem sentir meu mal. 

Mulheres que tenham filhos, 
Ajudae-me com valor, 
Ajudae-me a chorar 
A morte do Redemptor ! 

Estas doze (?) petições 
Vos offereço a vós Senhor. 
As portas do ceu se abram 
Quando eu d'este mundo fôr; 
E as do inferno, fechadas 
Para todo o peccador. 



Parece-nos conveniente, debaixo do 
ponto de vista que nos guia, enumerar 
as procissões reltitivas á quaresma, ao 
lado d'outros factos, de indiscutível valor 



ethnographico, que também se observam 
aqui e na mesma quadra. 

Chronologicamente, a primeira procis- 
são é a de Penitencia ou dos 'rerceir()s, 
realisada no primeiro domingo da qua- 
resma; sae do antigo convento de S. 
Francisco e promove-a a irmandade da 
Ordem Terceira do mesmo santo. 

A segunda, a de Passos, verifica-se no 
quinto domingo da quaresma, saindo da 
egreja de S. Salvador. 

A terceira procissão, du Triumpho, ou 
vulgarmente dos Ramos, tem logar no 
domingo da Paixão e sáe da egreja de- 
nominada o Santuário (sede da irmanda- 
de do Carmo), que foi pertença, ao que 
nos consta, da rica ordem de S. Paulo. 

E' jmmensamente grande e pesado, de 
rebentar, o pendão da procissão de Ra- 
mos. Pois outr'ora — contam os velhos 
— era preciso mover altos empenhos para 
conseguir-se empunhar o afamado pen- 
dão ! E a creatura feliz que tal honra lo- 
grava, tinha de pagar por isso, á irman- 
dade do Carmo, entre cinco e quinze al- 
queires de trigo. Hoje succede exacta- 
iTiente ao invez: é a irmandade que paga 
ao pendaueiro, não fácil de encontrar, 
mesmo com ser gratificado. 

Reatando. Em quarta-fen^a de trevas, 
pela manhã, costuma sair procissional- 
menteo sagrado viatico, que é ministrado 
aos enfermos e encarcerados. Porém, a 
quarta procissão propriamente dita, que 
aliás já se extinguiu, era a da Visitação 
ou das Bandeiras, assim chamada porque, 
ostentando no préstito sete bandeiras, vi- 
sitava as egrejas de S. Salvador e Santa 
Maria. Efl'ectuava-se esta procissão na 
quinta-feira d'Endoenças, á noite, — os 
templos rescendendo o dúlcido perfume 
do rosmaninho, symbolo da tristeza e 
da paixão, (<;) — e saía da Santa Casa da 
Misericórdia, de ha longos annos instal- 



(*) Diz-se aqui : «quem passou pelo rosma- 
ninho e não cheirou, da morte de Jesus Christo 
se não lembrou» ; e a gente do povo, sempre que 
encontra a aromática labiada, aspira-lhe o per- 
fume com intima devoção. D. N. 



A TRADIÇÃO 



41 



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42 



A TRADIÇÃO 



lada no vasto convento que pertenceu aos 
religiosos paulistas. 

À quinta e ultima procissão da quares- 
ma, também nocturna, é, na sexta-feira 
santa, a do enterro do Senhor, que sáe 
como a antecedente da egreja da Mise- 
ricórdia. 



Durante a semana santa dao-se as con- 
soadas — presentes de bolos e doces, ou, 
mais vulgarmente, de amêndoas confei- 
tas. 

Consagrando este costume secular, a 
Misericórdia, de Serpa, — um estabele- 
cimento que disfruciou avultados rendi- 
mentos e hoje vive em precárias circums- 
tancias, mercê da conversão forçada dos 
seus bens nas quasi improductivas ins- 
cripções nacionaes — a Misericórdia dis- 
tribuia profusamente as consoadas por 
grande numero dos seus irmãos e servi- 
dores. Tinha o provedor seis arráteis de 
amêndoas confeitas; o thezoureiro, dois 
arráteis; dois arráteis, o capellão e 
os pregadores de quinta e sexta feira 
maiores; e eram egualmente contem- 
plados, cada um com seu arrátel, os 
doze irmãos mesarios, os padres que as- 
sistiam ás festas de Endoenças, os enfer- 
meiros, o andador e mais o servo que 
acarretava o trigo dos foros. Isto sem fal- 
lar d uma infinidade de bolos — queijadas, 
raivinhas (>i, biscoitos, etc, que na pró- 
pria casa da Misericórdia se franqueava 
a diversos irmãos. 



No sabbado santo, ao amanhecer, ha 
aqui uma espécie de mercado, largamente 
concorrido, de borregos e cabritos. 

Os pastores das cercanias trazem para 
a villa o gado em a noite anterior e o re- 



colhem dentro de improvisados redis, 
num determinado largo ou rocio junto 
da povoação, onde depois o mercado se 
realisa. 

Munidos de grozas de chocalhos per- 
tencentes a esse gado, magotes de rapa- 
zes aguardam, impacientes, á porta das 
freguezias o primeiro toque dos sinos. 
E tanto que estes vibram, n'um repicar 
festivo, eis que o rapazio se precipita a 
correr por essas ruas fora, em chocalhada 
estridula, a que se junta o estampido de 
não poucos tiros de espingarda, e o ruí- 
do atroador de guizadas, de búzios, e de 
toda a vária sorte de pancadaria. São as 
alleluias. 

M. Dias NUNES. 



(*) Bolos feitos de farinha, ovos e mel. 



D. N. 



IVIodas-estFibilhos alemtejanas 



Vae colher a silva 

Vae colhcl-a silva, 
Vae colhél-a, vae! 
Se a fores colhera^ 
Não dig,as — ai! ai ! 

Não digas — ai! ai! 
Não digas — ai! ui! 
Vae colhél-a si hm., 
Vae^ que eu também fui. 

Notas. — Esta moda foi a predilecta 
do povo serpense durante o carnaval. 

Em andamento de alegreto, dança-se 
ao meio, nos bailes de roda, conforme a 
descripção feita em o numero antecedente 
da nossa revista. 

— Na linguagem popular, quando á 
forma verbal terminada em ?' segue im- 
mediatamente o, a, os, as, seja embora 
artigo, aquella lettra é geralmente subs- 
tituída pela euphonica /, tal como acon- 
tece em Vae colhél-a silva. 

M. Dias NUNES. 



A TRADIÇÃO 



48 



THERAPEUTICA MYSTICA 



Os múltiplos c variados meios que o 
povo costuma empregar para debellar as 
doenças que o atVectam, dividem-sc em 
dois grupos perfeitamente distinctos e in- 
dependentes. Temos, dum lado, o trata- 
mento dos doentes, baseado na simples 
observação e experiência popular, e trans- 
mittindo-se de geração em geração; dou- 
tro lado, as diversas praticas inspiradas 
no poder divino, vindas egualmente até 
nós por via da tradição. 

A estes dois sistemas de tratamento, 
correspondem, no primeiro caso a me- 
dicina empírica, no segundo, a medicina 
mysiica. 

A medicina mystica, segundo o tes- 
temunho dhistoriadores conscienciosos, 
tem as suas raizes nos povos da mais 
remota antiguidade. Com efTeito, no seio 
desses povos, os padres converteram em 
um verdadeiro monopólio a arte de cu- 
rar, envolvendo-a nas nuvens da supers- 
tição e do mysterio. E para que ella 
saisse do santuário dos templos, onde 
estreitamente se achava encerrada, foi 
necessário que os filósofos corressem a 
illuminar os espiritos com o fulgor da 
sua critica viviíkante. (*) 

Mais tarde, á medida que as scien- 
cias iam constituindo-se, a medicina 
abandonava o seu grosseiro empirismo 
e rasgava desassombradamente os veos 
mysteriosos que a encobriam, para se 
transformar numa arte cada vez mais 
racional. Em nossos dias, graças aos 
progressos dos estudos biológicos, ve- 
mos a arte medica adquirir um caracter 
verdadeiramente scientifico e triunfar 
vigorosamente de todos os erros e pre- 
juízos que a cercavam. 

Todavia, apesar do extraordinário des- 
envolvimento das sciencias medicas, e da 
sua manifesta propagação, ainda hoje 



(*) Lepelletier de la Sarthe : Nouvelle Doctri- 
ne Medicale, p. 34-35. 



goza de grande voga, entre o publico, a 
pretenção de curar os doentes por meio 
de processos mvsiicos, taes como: benze- 
duras, encommendaçóes, promessas, etc. 
De todos estes processos, — em secção 
especial e subordinada ao titulo de Ihe- 
rapeiiíica tJiysiica, — iremos fazendo mi- 
nuciosa descrição; pois que, deste modo, 
julgamos fornecer elementos dalgum va- 
lor para a historia da medicina e, parti- 
cularmente, da psicologia popular. 

I 

Benzedura contra a iDflamniação d'olbos 

(Farpão^ cravo e rècha) * 

O doente senta-se numa cadeira, e na 
sua frente, sentada noutra, colloca-se a 
pessoa que benze. A benzedeira tem na 
mão direita uma navalha aberta e na es- 
querda um pedaço de loendro. Km segui- 
da, agitando a navalha, com o gume 
voltado para os olhos, e traçando cruzes 
no ar, diz: 

— «Jesus! que é santo nome de Jesus! 
— onde se nomeia o nome de Jesus, não 
ha perigo nenhum. — Onde o santo nome 
de Jesus se nomeou, este farpão secou e 
mirrou. — Onde o santo nome de Jesus 
se ha de nomear, este farpão ha de se- 
car e mirrar». 

— «Corto» — acrescenta a benzedeira. 

— «Farpão, cravo e récha» — responde 
o doente. 

— «Farpão e cravo corto» — continua a 
benzedeira — i récha atalho, em louvor de 
S. Pedro e S. Paulo. Vermelha o que 
fazes ahi ? Como, bebo e estou aqui; 
de vermelho visto, de vermelho calço e 
de vermelho ando a cavallo. Eu te corto 
farpão, eu te corto pelo pescoço, eu te 
corto pelos braços, eu te corto pela cin- 
tura, eu te corto pela barriga, eu te corto 
pelas pernas e eu te corto pelos pés 
Aqui te hei de cortar, aqui te has de se- 
car e aqui te has de mirrar, que d"aqui 
não has de passar. Em louvor de Deus 



(*) O povo pronuncia récha em vez de: racha. 



44 



A TRADIÇÃO 



e da Virgem Maria. — Padre Nosso, Ave- 
Maria.» 

Depois de proferidas estas palavras, e 
emquanto reza, em voz baixa, o Padre 
Nosso e a Ave-Maria, a benzedeira corta 
na extremidade do pedaço de loendro. 

Toda a reza que acabamos d expor, 
deve dizer-se cinco vezes e sempre pela 
mesma forma; e no fim faz-se o otíere- 
cimento á Senhora Santa Luzia. Eis a 
offerta : 

— «Otfereço estas cinco orações á Se- 
nhora Santa Luzia, que livrou este olho 
de farpão, cravo e récha. Em nome de 
Deus Padre e da ^'irgem Maria. — Pa- 
dre Nosso, Ave-Maria.» 



O tratamento mvstico, muito poucas 
vezes c empregado exclusivamente. D'or- 
dinario, os doentes e suas famílias, ao 
mesmo tempo que se apegam com os 
santos, vão recorrendo á intervenção po- 
sitiva dos médicos, E, para prova, citá- 
mos o dictado seguinte, que circula entre 
o povo e é attribuido a clínicos antigos : 

— Quando os doentes morrem, é o 
medico que os mata; quando escapam, 
salvam-nos os santos. 

No caso acima referido, por exemplo, 
a benzedeira, d'onde colhemos a reza, 
que era uma mulher do povo e analfa- 
beta, recommendava também aos seus 
clientes o uso d*um coUyrio de sulfato 
de zinco. 



Serpa. 



Ladisijvu piçarra. 



ANTIGUIDADES PORTUGUEZAS 



A Ordem de Cbnsto 

A Ordem de Christo foi instituída a 
i5 de Março de 1^19, por uma bulia de 
João XXÍI, concedida a el-rei D. Diniz, 
que deu á nova ordem todos os rendi- 
mentos dos Templários. 



A promulgação do monarcha diz «que 
a Ordem de Christo se fazia em refor- 
mação da do Templo, que se desfez». 

Publicou-se a bulia a 5 de Maio, e logo 
mandou el-rei que se desembaraçasse o 
castello de Castro Marim, onde ficou a 
sede de tão íllustre ordem, da qual foi 
primeiro mestre, que já vinha nomeado 
na bulia, o valoroso cavalleíro d'Avíz, 
D. Fr. Gil Martins. 

O património da Ordem de Christo 
chegou a ser um dos mais rendosos, pois 
accumulou o rendimento formidável de 
quatrocentas e cincoenta e quatro com- 
mendas, e de vinte e uma víllas. 



Convento de Santa Cruz de Coimbra 

Foi fundado em 28 de Julho de ii3i. 

Seguido dos fidalgos seus companhei- 
ros darmas, que consticuiam n'esse tem- 
po a corte, presidiu D. AlTonso Henri- 
ques á cerimonia da fundação do con- 
vento. 

Cavou, D. AtTonso, com uma enxada 
no logar onde havia de erigir-se a capella- 
mór, e enchendo um cesto com a terra 
excavada, o foi despejar fóra do recinto 
da obra. Todos os que acompanhavam 
D. Affonso fizeram o mesmo; era este o 
costume da epocha. 

Existe no convento em questão o claus- 
tro da Manga, mandado construir por 
D. João III. Este monarcha foi quem deu 
o risco do claustro, que desenhou na 
manga do seu roupão; e d ahi o nome. 



Dos privilégios qu'am as Igrelas e seus clmiterios 
e das franquezas qu'am 

Privilégios e grandes franquezas am 
as eygreias dos emperadores e dos rreis, 
e dos outros senhores das terras. 

E esto fov muv com rrazom, que as 
coisas que son de Deos ouvessem moor 
onrra que as dos homes. 

E per ende, poys que en o titolo ante 
d'este falamos en que maneira devem 
seer feytas, e outro ssy de como as con- 



A TRADIÇÃO 



45 



sagran, convcm de di/.cr en este das fran- 
quezas e dos privilégios quem am lãbcm 
cilas como seus cimclerios c inosirar pri- 
meiramente que é privilegio e que quer 
dizer. K cmquantas couzas o am as ey- 
greias. \\ quaes ornes pode a cygreia 
quãdo fogirem a elas e quaes nom ; e 
quê devem a aver os que quebrantam 
tal privilegio como este. 

K sobre todo diremos quaes ornes ho 
dereyto das leys antigas sacar da eygreia. 

(Das leis que I). Sancho I manâou to- 
mar por apontamento.) 



No Convento de Mafra 

O maior sino do convento de Mafra 
péza doze mil kilos. 

No mesmo convento, ha quatro órgãos 
cujos pedestaes são columnas de már- 
more, sustentadas por columnas jónicas 
de cinco metros e dois decimetros d'al- 
tura. 

Os tubos dos órgãos teem seis metros 
de comprido por vinte e oito centimetros 
de diâmetro. 



Antas 

Estes monolithos, muito vulgares entre 
nós, são padrões do tempo dos proto- 
celtas, e serviam para commemorar fa- 
eiros. 

Corrêa CABRAL. 



A SERRAÇÃO DA VELHA 



O antigo e vulgar uso de serrar a j>dha 
também existia nesta villa. A festa da 
«Mi-Carêmc» revestia aqui uma forma 
bastante curiosa, que passamos a des- 
crever. 

Apresentava-se um homem munido 
dum cortiço, dentro do qual se mettia 
um cão e um gato. O cortiço era herme- 
ticamente fechado, e o homem que o tra- 
zia, andava acompanhado doutros, arma- 
dos de cacetes, varas, etc. 



Atraz, a nota alegre do rapazio atre- 
vido, fazendo enorme algazarra. 

V.vn garoto, todo radiante, conduzia a 
serra, que havia de servir para serrar o 
cortiço no local do suplicio, ordinaria- 
mente, um largo, praça ou rocio. A's ve- 
zes, o referido garoto vestia d'anjo, e en- 
tão, era interessante ve-lo, adornado com 
dois molins^ fingindo azas, e uma ca- 
belleira de caracoes! Na mão, levava tam- 
bém o competente lenço de cambraia, 
onde recolhia íigos, amêndoas e outras 
guloseimas, com que o brindavam. 

Como é fácil de suppôr, o cão e o gato, 
engalfinhando-se no interior do cortiço, 
faziam um barulho infernal U qual baru- 
lho, ao mesmo tempo que provocava as 
gargalhadas dos circumstantes, afigura- 
va-se,á rapaziada ingénua, como provindo 
da pobre velha que, ali encerrada, ia las- 
timando a sua horrorosa sorte. 

O cortejo, assim constituido, passeava 
pelas diversas ruas da povoação, até che- 
gar ao sitio convencionado para a ceri- 
monia final, que simplesmente consistia 
na serração do cortiço, por entre as ma- 
nifestações ruidosas do publico enthu- 
siasmado. 

O innocente aujo^ portador da serra, 
é que não escapava nada bem ao termi- 
nar a cerimonia que acabamos de refe- 
rir. Depois de o despojarem de todos os 
^eus adornos, era perseguido de rua em 
rua e levava pancadas que nem um tam- 
bor numa festa! 



Cuba. 



FAZENDA Júnior. 



CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS 
II 

o lobo e a zorra 

Era uma vez uma zorra, que, pas- 
sando por um monturo, achou umas bo- 
tas e enfiou-lhe as mãos dentro, para 
não se enlamear. Estando a zorra já farta 
de buscar o que não encontrava, met- 
teu-se num matto onde se lhe deparou 



46 



A TRADIÇÃO 



um lobo, que lhe perguntou: «O' co- 
madre zorra, onde comprou você es- 
sas botas?» «Onde comprei eu estas bo- 
tas ?!p, diz-lhe a zorra, «em parte ne- 
nhuma, eu mesma as fiz.» O lobo, muito 
admirado, perguntou á zorra se umas 
bolas para elle ficariam muito caras. A 
zorra respondeu que, as que ella tra- 
zia, haviam-lhe custado três carneiros, 
duas ovelhas e quatro borregos; mas 
para o compadre lobo talvez se podes- 
sem fazer com um boi, quatro carneiros, 
três ovelhas e uns cinco ou seis borre- 
gos. O lobo, ao ouvir falar em tão grande 
numero de cabeças, exclamou: a Oh! com 
os diabos!, isso é muito caro!» A esta 
observação, retorquiu a ovelha dizendo 
que as mãos do lobo eram muito maio- 
res, e portanto era preciso mais cabe- 
dal. O lobo, convencido com as palavras 
da zorra, mostrou-se conforme, e decla- 
rou que faria das tripas coração para ar- 
ranjar o gado exigido pela zorra, porque 
andando descalço receava tanchar-se-lhe 
alguma pua nas mãos que o impedisse, 
um par de dias, d'apanhar preza para 
manducar. De facto, o lobo poz-se cm 
procura das referidas cabeças, e assim 
que as arranjou foi entregal-as á zorra, 
a qual ficou muito contente por possuir 
já mantimento para alguns dias, sem ter 
darriscar a pelle. 

O lobo, depois de entregar á zorra o 
gado, perguntou-lhe quando estariam as 
botas promptas; ao que ella respondeu 
que d'ali a uns quinze dias. Passados os 
quinze dias, o lobo foi procurar pelas 
botas, mas a zorra não lh'appareceu. No 
dia seguinte voltou a casa da zorra, e 
ainda mais duas ou três vezes, sempre 
com o mesmo resultado. O lobo, então, 
desconfiou que tinha sido enganado, e 
porisso jurou vingar-se matando a zorra. 
Andando a pensar no engano em que 
tinha caido, encontrou-se^ um dia, por 
acaso, de cara a cara com a zorra, 
a qual logo ficou sobresaltada. Pergun- 
tou-lhe o lobo: «Então, zorra maldita, 
onde estão as minhas botas?» A esta 
pergunta respondeu a zorra, com muita 



doçura : «Não se zangue, compadre Lobo, 
porque o coiro do boi é muito duro, e 
por conseguinte precisa estar mais uns 
dias na cortimenta.» Ora, o lobo, reco- 
nhecendo que já estava enganado, disse- 
Ihe que bem sabia qual era a cortimenta, 
e que se preparasse para lhe pagar tudo 
n'aquella occasião. 

A zorra deitou immediatamente a cor- 
rer, e vendo um buraco, introduziu-se 
n'elle tão rapidamente, que não teve 
tempo de recolher o raban':{óilo (cauda 
comprida). O lobo apanhando esta parte 
fora do buraco arrancou-a, dizendo : 
«Agora já não m'escapas, grande velhaca! 
ficas assignalada.» 

No outro dia, como a zorra se visse 
ameaçada de perder a vida, subiu a um 
oiteiro e deu dois regougos, ao som dos 
quaes se juntaram todas as zorras d'a- 
quelles sitios. A zorra, que tinha regou- 
gado, participou depois ás companheiras 
que as chamara para lhes ensinar uma 
dança muito bonita, que ella aprendera 
num paiz d'onde acabava de regressar. 
Mas para ellas aprenderem esta dança 
era necessário atarem-se os rabos uns 
aos outros. As zorras consentiram nesta 
operação prévia, e a matreira^ assim que 
apanhou as companheiras de rabos ata- 
dos, grita lhes: 

«O' minhas amigas, nada lhes posso 
ensinar agora porque vem alem uma 
jolda (quadrilha) de caçadores acompa- 
nhados d'uma matilha de podengos ; sal- 
ve-se quem poder!» Claro está, que as 
zorras, apenas ouviram falar em poden- 
gos, partiram numa carreira desordena- 
da, arrancando-se-lhes os rabos, que era 
exactamente o que a outra queria, por 
causa da ameaça do lobo. 

Decorridos tempos, o compadre lobo 
tornando a encontrar-se com a comadre 
zorra, disse-lhe: «Olá!, agora é que não 
m'escapas ! . . . «Eu, . . . compadre lobo ! ; 
que lhe fiz para estar tão zangado com- 
migo? Pois não sabe que estou neste 
paiz ha seis mezes, apenas?!» «E's tu, 
sim, já não te recordas d'eu t'arrancar o 
rabo ? » 



A TRADIÇÃO 



47 



A zorra, negando ter sido ella, disse 
ao compadre lobo que era moda o não 
usarem as zorras rabo, e para prova 
convidou-o a ir com ella ao tal oiteiro. 

O lobo, já mais moderado, subiu ef- 
fectivamente ao oiteiro, e a zorra, dando 
novamente dois regougos, fez juntar as 
companheiras que, como ella, se acha- 
vam sem cauda. Em visto disto, ficou o 
lobo convencido que não era aquella a 
zorra que o tinha enganado. 



III 



Doi3 gallegos encontrando-se (*) 

Era uma vez dois gallegos que mar- 
chavam no mesmo caminho, em direcção 
opposta. Esbarrando um no outro, diz 
um delles: 

— o O' xeu diabo! bóxê é txégo ou não 
entxêrga ?» 

— «Entxêrga é prima irmã da albar- 
da!» — respondeu o outro zangado. 

— «Albarda xerá boxe!» — diz o pri- 
meiro ainda mais zangado — «xe não fôxe 
porquê já lh'eu cascaba ! . . . » 

— «Xe não fôxe porquê, já eu cascaba 
em bóxê!... O" xeu diabo! quem é 
bóxê?» 

— «Eu xou filho da Biubinha e neto do 
Carcabian, que nan conhexe o bem que 
lhe fájem nem o pan que lhe dan.» 

— «Oh ! diabo ! xeremos nós irmãos ?! » 
— «Pois xeremos.» 

— «Então que notixias me dás do nóxo 
pae ? » 

— «O nóxo pae morreu;» — diz secca- 
mente o gallego — «caiu dum coibal abai- 
xo e fez trinta réis de despeja.» 

— «E então a nóxa burra?» 

— «A nóxa burra também morreu» — 
respondeu o gallego chorando. 



(*) Os laboriosos habitantes das nossas pro- 
víncias da Beira, são conhecidos, injustamente, 
no Alemtejo pelo nome de gallegos. 

L. P. 



— tOh! diabo! então choras por n<jxa 
burra, e nan choras por n(')Xo pae?!» 

— «A nóxa burr» lebaba a gente a ca- 
bailo, e nóxo pae não; e a burra custou 
dinheiro, e o pae não.» 

— «Hem, n'êxe cájo: adeus, adeus! e 
até á oitra bista.» 



Da tradição oral 
\Brnichfs) 



António ALEXANDRINO. 



P](0VE1{BI0S E DICTOS 



(Continuação) 
VIII 

Em não chovendo em Fevereiro — nem 
bom prado, nem bom palheiro. 

IX 

Fevereiro quente, não o vejas tu nem 
o teu parente. 

X 

Março, mal quanto molhe o rabo ao 
gato, — se de Fevereiro ficou farto. 



(Da tradição orai) 

Serpa. 



(Continua) 
CASTOR. 



BIBLIOGRAPHIA 



o SECUI.O do Natal. — Simplesmente encan- 
tiidora, esta notabilissima publicação, devida á 
iniciativa arrojada do illustre director do Século^ 
Senhor Silva Graça, — o espirito mais incançavel- 
mente emprehendedor que conhecemos em Por- 
tugal. 

Executado com inexcedivel esmero nas ofi- 
cinas da Companhia Nacional Editora e Pires 
Marinho, o Século t/o A'í7/47fapresenta-nos traba- 
lhos artisticos de primeira ordem, como são, no- 
meadamente, as inspiradas producções de Roque 
Gameiro, Leopoldo Battistini, António Rama- 
j lho, J. Vaz e Jorge ColJaço. 

A parte litteraria c soberba. N'ella coUaboram 
com primorosos cscriptos: Delfim Guimarães, 



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lypoKrapàia de AJolfkó J* MtmJomfa, Hu» 4o Corpo Saaio, 46 c 48 — LlikbOA 

A trãdIcão 

> 

REVISTA MENSAL D ETHNOGRAPHIA PORTUGUEZA 



Directores : — LADISLA U PIÇARRA e Aí. DIAS NUNES 



SERRAÇÃO DA VELHA 

O povo pratica por toda a parte em 
Portugal, e ainda em njuitos paizes da 
Europa, a cerimonia da Scn-jçdo iia ÍV- 
M-i, sem saber que essa salsada ou cha- 
rivari de chocalhos, buzinas e campainhas 
com que percorre as ruas. era um acto 
do culto primitivo do Polytheismo indo- 
europeu. 

Quando as concepções religiosas já 
não acham adhcsão nas consciências, per- 
sistem tenazmente no automatismo dos 
costumes, passando do extremo respeito 
da adoração para o desprezo do sarcas- 
mo. Em um polviheismo sideral, como o 
das raças aryanas, os phenomenos da en- 
trada do ]\'rdo e da sahida do Inrcnio 
eram allegorisados em formas dramáti- 
cas, cujos restos subsistem no culto do 
Natal e Paschoa, e entre o povo nas 
usanças do Carro das ervas. Corrida do 
porco preto. Mato carambola e Serração 
da ]'elha. 

A ]'elha é a figuração mythica e alle- 
gorica do Inverno; ainda entre os árabes, 
os sele dias do solsticio do inverno são 
chamados 05 dias da Velha. Entre os po- 
vos germânicos a \\'lha teve a adoração 
cultual sob o nome da deusa HoUa; 
hoje é uma entidade vaga, sem sentido, 
que o povo vae serrar^ isto é, que vae 
fazer passar a sen'a., como quem repelle 
para longe as brumas e as neves do in- 
verno. No tempo de Gil Vicente ainda se 
conservava este sentido do acto dramá- 



tico de passar a serra ; na iragicomedia 
do Triumpho do bwerno., representada 
em iS3o, entra uma velha, que ouer ca 
sar com um moço, o qual lhe faz esta 
condição : 

Que si esia sierra pjsjr 
Asi lloviendo y nevando, 
Luego la quiere tomar. . . 

E quando a Velha se submeiíe á pro- 
va, diz aos que a interrogam: 

Eu não vou senão a tiro 
Por esia semi nevada. 



Eu desejo ser casada 
Com um mancebo solteiro, 



Dixe elle : — Brasia Caiada, 
Praz me, pois que vós querer. 
Com condição que pjssès 
Aquellj semi nevada 
Sem levar nada nos pés. 
E fosse isto logo at;ora, 
Que triumpha a invernada. 

Desde que passou a concepção my- 
thica primitiva, a imaginação popular tra- 
balhou sobre a palavra serra, e do ves- 
tígio da ideia de partir ao meio o anno 
solar, inventou a pratica allegorica de 
partir ao meio com a serra a Velha, met- 
tida dentro de um cortiço. Assim das 
próprias palavras surgem novas formas 
de mvthificação, que nos ajudam a com- 
prehender como as faculdades poéticas 
do espirito humano nos deram as primei- 
ras representações do mundo. Os estu- 



50 



A TRADIÇÃO 



dos ethnologicos conduzindo-nos d re- 
construcção de estados sociaes extinctos, 
conduzem nos ás manifestações mais re- 
motas e inconscientes das concepções 
mentaes primitivas. 

THtoPHiLO BRAGA. 



A FESTA DA GUADALUPE 



Alleluia! Alleluial 

O Sol, descrevendo a gigantesca ecli- 
ptica, vem de transpor gloriosamente o 
eqiiinoxio da primavera ('). 

Espiritos malignos, o frio, o gelo. a 
chuva, as trevas hibernaes, — espancou-os, 
a rajadas de luz, o Astro creador. 

ApoUo venceu P3 thon. 

Ormuzd triumphou de Ahriman. 

Alleluia! Alleluia! 

E, tal como Osiris, e Adónis, e Mi- 
thra, e tantos outros deuses das religiões 
solares, Christo resurgiu, Christo resus- 
citou, — alleluia! alleluia! — depois de 
redimir pela paixão os escuros peccados 
da humanidade inteira. 

E por esse resurgimento luminoso as 
festas á Virgem-Mãe, invocada sob di- 
versas denominações, na florescente qua- 
dra ol3'mpica da Paschoa. Da Paschoa, 
quer dizer — da passaL(em da morte á 
vida, de Jesus Christo. Da Paschoa, isto 
é — da passagem do Sói na linha equi- 
noxial. 



* 
* * 



A festa paschoal de Nossa Senhora 
da Guadalupe (d'Aguadelupes, como o 
povo diz) é uma das mais importantes 
festas religiosas que n'esta villa se veri- 
ficam. 

E nem podia deixar de o ser, desde 
que a alma popular, sempre ingénua e 



(•) Segundo remotas lendas sacerdotaes. 



bôa, pôz todo o enthusiasmo da sua 
crença, todo o ardor da sua fé sincera e 
pura na venerada imagem, que habita, 
lá no cimo da pequena montanha, uma 
dessas «alvas ermidinhas» que ao nosso 
grande Poeta se antolham 

(Como ninhos virgens d'orações piedosas, 

Miradoiros brancos de luar e rosas, 

D'onde as alm-as simples entrevèem Deus ! . . .» 

Principiam no sabbado de alleluia os 
preparativos da festa. De tarde vão as 
irmãs eleitas cuidar do arranjo da Se- 
nhora, bem como de S. Luiz, e S. Gens, 
primitivo orago da vetusta ermida. 

No domingo — domingo de Paschoa, 
quasi sempre alegre e ruidoso — vêem 
para a villa as três imagens alludidas, 
que ficam expostas á adoração do pu- 
blico, na parochial egreja de S. Sal- 
vador. 

O percurso do préstito religioso, desde 
a ermida até á povoação, merece ser 
olhado attentamente. Porque é d'uma 
perspectiva maravilhosa, d'um effeito en- 
cantador, direi mesmo duma poesia infi- 
nita, o lento caminhar da procissão — os 
devotos vestindo as opas brancas da ir- 
mandade — por entre o verde escuro dos 
trigaes ondeantes e sob as doces fulgu- 
rações do claro sói d' Abril. 

Depostas as imagens na egreja do Sal- 
vador, conduz-se o jantar aos presos da 
cadeia. 

Ainda não contei que a irmandade da 
Guadalupe é quasi exclusivamente com- 
posta de trabalhadores ruraes — pobres 
assalariados, que vivem em permanente 
au jour le jouv desde o berço até á cova. 
Pois não obstante os seus minguados re- 
cursos sabem os irmãos da Ciuadalupe 
comprehender e praticar a mais nobre e 
sublime das virtudes 7- a caridade— dis- 
tribuindo um abundante jantar aos míse- 
ros encarcerados. Esta dadiva gentil de 
pobres a pobres constitue um meritório 
feito de abnegação e altruísmo. 

Após o jantar aos presos ha o sermão 
de vésperas, largamente concorrido; e já 



A TRADIÇÃO 



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G^LEJ^I^ DE TYPOS POPIILííIí 



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Fastor (do concelho de Serpa) < 







1 A estampa que dêmos no próximo passado numero é também representativa d'um typo de Serpa. 



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A TRADIÇÃO 



noite cerrada, queimam-se no largo do 
Salvador apreciáveis fogos dartiricio, in- 
tervailados de peças musicaes. 

Segunda-feira de manhã — e emquanto 
no airio da egreja se promove a venda 
dos ramos (') — é a celebração da missa 
solemne, por musica vocal e instrumental. 

Durante a festa, o interior do templo 
olTerece um aspecto pittoresco, mercê da 
immensa variedade de typos e trajos do 
elemento camponez. 

A tarde a procissão magna, que de 
todas se distingue pelo avultado numero 
de fieis que n'ella se incorporam. O ma- 
gestoso cortejo, depois de percorrer o 
costumado itenerario pelas ruas da po- 
voação, previamente atapetadas de espa- 
dana e junca, recolhe á egreja do Salva- 
dor; e em seguida, já lusco-fusco, são as 
imagens reconduzidas á sua campestre 
morada. 



* 
* * 



Os festejos em honra da Senhora da 
Guadalupe teem, entre nós, uma origem 
secular. Porem, outr'ora eííectuavam-se 
as festas na própria ermida da Senhora, 
e alli mesmo as procissões, em torno da 
capella. 

Disse festas porque duas eram as que 
se realisavam: uma, a «dos homens», 
por occasião da Paschoa, e outra pas- 
sado o equinoxio do outomno e pela 
epocha das vindimas, chamada «das mu- 
lheres». 

A similhança do que succedia com as 
ordens monásticas, parece que somente 
individuos do mesmo sexo podiam agru- 
par-se em confraria. 

Foi em 1870, julgo, que as duas ir- 
mandades se fundiram; e desde então 
que se vem celebrando uma só festivi- 
dade em cada anno, a da Paschoa. A 
qual festividade, de esplendor sempre 



(*) Presentes de bolos, fructas, etc, cuja ven- 
da é feita em almoeda. 

D. N. 



crescente, passou desde logo a ter logar 
aqui na villa, em signal de reconheci- 
mento á Senhora, que o povo de Serpa 
invocara num transe angustioso. Desse 
transe se occupa o livro manuscripto da 
• Irmandade dos homes de Nossa Senhora 
de Guadelupe». numa « occorrencia » 
exarada na primeira pagina, de que tran- 
screvemos os seguintes períodos: 

«No anno de 1808 concorrendo huma 
primavera, em que houve muita falta 
d'agua para as cearas e prados, não se 
esperando senão huma escassez de gé- 
neros alimentícios e morrinha no gado 
por falta de pastos, pelo que todo este 
povo estava descoroçoado por vêr imi- 
nente o ílagello da fome, que a todos 
ameassava, Deos Senhor Nosso, como 
Pai de infinita Mizericordia lhe aprouve 
tocar nos corações de alguns devotos de 
Nossa Senhora de Guadelupe e com es- 
pecialidade nos dos Irmãos da mesma 
Senhora Manuel das Candeas Cataluna, 
Francisco Manoel Abraços, Jozé Fran- 
cisco Chorão, Gregório Queixinhas, e 
João Martins Picareta, inspirando-lhes 
que recorrendo a sua Mai Santíssima a 
Senhora de Guadelupe, na mesma Se- 
nhora encontraria© remédio para seus 
males. Não exitarão. e unanimemente e 
de todos os seus corações assentarão que 
devião, depois de suas preces, mandar 
cantar huma missa na capella da referida 
Senhora em acção de graças, pois que 
já nos dias dois e três de Maio havia 
chovido suficientemente; e no dia doze 
d'este mez procederão, com a concor- 
rência de muitos devotos, á cantoria de 
huma festa, dando graças a Deos, e a 
Nossa Senhora de Guadelupe, por se 
terem dignado ouvir as suplicas de seus 
devotos. 

Houverão cearas de evidente milagre, 
porque derão muito trigo, muitos legu- 
mes, muitas fructas, e os prados toma- 
rão pastos, com os quaes os gados se 
nutrirão e criarão. Á vista pois de hum 
tão evidente milagre, com que Deos nos 
favoresseo por intervenção de sua San- 



A TRADIÇÃO 



58 



tissima Mãi a Senhora de Guadelupe, 

não esfriemos na nossa devoção para 
com esta Senhora, continuando em nos- 
sas afflicções, a rogar-lhe e pedir lhe nos 
soccorra em todas as nossas aíflicções, 
devendo todos nós estar bem certos, que 
seu Bendito Filho nada lhe nega; e ro- 
gando-lhe nós de todos os nossos cora- 
ções nos obterá de Deos, não so os bens 
temporaes, mas tãobem a salvação eter- 
na de nossas almas.» 



O: 

En:.. -.. ...... ...., 

N' esses olivaes mettida I 

Virgem-.Mãe da Guadalupe, 
Qucr'-lhe pedir uma cousa : 
— O meu Dem vac ao exame : 
Que não traga a rjpôs.-: ' 



•M. Dias MNES. 



Refere-me um bom velhote octogená- 
rio, a quem eu devo valiosos informes 
sobre o assumpto em questão, que, por 
motivo da assustadora estiagem, cente- 
nas de creancas vindas de todos os pon- 
tos do concelho, caminhavam em roma- 
ria para a ermida da Guadalupe a im- 
plorar da Senhora, compaixão e miseri- 
córdia. O povo ficou conhecendo a pie- 
dosa romagem, dúzias de vezes repeti- 
da, pelo nome de «Procissão dos inno- 
centes». 



Aproveitamos o enseio para registrar 
as quadras que as raparigas cantam 

Á Senhora da Guadalupe 



Virgem-Mãe da Guadalupe, 
Minha mãe, minha madrinha : 
Se meu bem vae ser soldado. 
Oh ! que desgraça é a minha I 

Virgem-Mãe da Guadalupe, 
Minha mãe, minha comadre I 
'Stj sempre pedindo a Deus 
P'ra que o mundo não se acabe! 

Virgem-Mãe da Guadalupe 
Que está na vossa ladeira ! 
Quem me dera ver meu bem 
De resalva na algibeira ! 



Virgem-Mãe da Guadalupe 
Tem uma fita amarella 
Que lhe deram os soldados 
Quando vieram da guerra. 



JOGOS POPULARES 



111 



^-V péllíi 

O jogo da pclla usa se principalmente 
dinverno: e, para o realisar. reunem-se 
os rapazes em largo, rua ou travessa. 

Arranjada a pella, que é ordinaria- 
mente feita de trapos, cada jogador abre 
no chão a sua cova. As covas — é claro, 
tantas quantos os jogadores, — são dis- 
postas em serie e segundo uma linha re- 
cta. A certa distancia das referidas co- 
vas, traça-se uma risca no chão, e em se- 
guida verihca-se á sorte qual o rapaz, 
que hade começar o jogo. A sorte é ti- 
rada pelo processo da pedrinha, já des- 
cripto a propósito do jogo da bola. 

O jogador a quem coube iniciar o exer- 
cicio, collocando-se no sitio marcado pela 
risca, pega na pélla e atira com ella ás 
rebolctjs ao longo da série de covas, de 
modo a enfiar nalguma. O dono da cova, 
onde por acaso a pélla enfiou, corre im- 
mediatamente para ella, e, agarrando-a, 
joga-a ás costas dos parceiros, que neste 
momento já se puzeram em debandada. 

O rapaz, em cujas costas bateu a pélla, 
apanha esta e repete o exercicio que aca- 



('i Denomina-se o Pechôto uma das vastas 
herdades que n'esta villa possue o nobre fidalgo 
e illustre homem de lettras, benhor Conde de 
Ficalho. 

D. N. 



54 



A TRADIÇÃO 



bamos de descrever. E assim successi- 
vamente. 

Por cada vez que o parceiro leva com 
a pélla, põe-se uma pedrinha na respe- 
ctiva cova. E, desde que em qualquer 
cova se juntam sete pedrinhas, o joga- 
dor, a quem ella pertence, tem de ser 
L'?iccrt\iíio. Esta operação — a d^eiicenw 
o jogador — consiste em cada parceiro 
lhe bater nas costas com a pélla, sete ve- 
zes. 

E para que as pancadas sejam mais 
fortes, teem alguns rapazes a malévola 
idéa de metterem, occultamente, dentro 
da pélla uma pedra. 



IV 



O malliâo 

O jogo do malhão tem logar, pode-se 
dizer, em todas as épocas do anno. Para 
o pôr em pratica, escolhem-se bons ter- 
reiros, planos e enxutos. 

Reunem-se, no sitio convencionado, 
dois ou mais rapazes, os quaes collocam 
no chão duas pedras empinadas, chama- 
das malhões, — uma em frente da ou- 
tra, — guardando entre si a distancia 
dalguns metros. Cada jogador toma a sua 
falha (pedra achatada); e em seguida, um 
delles, começando o jogo, aproxima-se 
dum dos malhões e atira com a falha, que 
tem na mão direita, ao outro malhão, 
afim de o derrubar. A este jogador se- 
guem-se os outros, que vão repetindo o 
exercicio. 

O parceiro que derrube o malhão com 
a sua falha, ganha seis; mas se nenhum 
consegue derruba-lo, aquelle dos jogado- 
res que deixou a falha mais perto do re- 
ferido malhão, ganha três. E assim vai 
continuando o jogo até que um dos par- 
ceiros attinja o numero doze. 

Quando os rapazes são em numero par, 
emparceiram-se dois a dois, três a três, 
etc. O contrario succede quando são im- 
pares, pois que então cada um joga só 
para si. 



Os parceiros, que, jogando as suas fa- 
lhas, primeiro fazem doze, ganham o jogo, 
e em compensação andam ás caj>allari- 
tas (ás costas) dos outros jogadores. 



Brinches 



Ladislau piçarra. 



IVIodas-estPibilhos alemtejanas 



• bis 



Os olhos da Marianita 

Os olhos da Marianita \ 
São verdes cor de limão. \ 
Ai! sim Marianita, ai! sim . . . 
Ai! não Marianita, ai! não . . . j 

NOTA. — O resquebre que hoje. inse- 
rimos é de género egual ao dos últimos 
dois publicados — l^ae colher a silva e 
Mamtelsinho, você chora — e dança-se do 
mesmo modo. 

M. Dias NUNES. 



LENDAS 



Duas lendas curiosas pela sua seme- 
lhança flagrante, correm na tradição oral 
do Fundão. 

Pelo sentido que conteem e pelas cren- 
ças que as derivaram, podemos concluir 
que uma d'ellas é variante da outra. 

Com a prova a mais, de que, aquella 
que eu chamarei original é extensiva a 
muitas terras da Beira, como tive occa- 
sião de observar. 

A primeira das lendas é a explicação 
supersticiosa das manchas lunares. 

Andava um homem roçando silvas pe- 
las, serras em domingo, dia dado ao des- 
canço dos trabalhos semanaes. Por 
castigo foi arrebatado da terra para a lua, 
onde se vê eternamente condemnado a 



 TRADIÇÃO 



bò 



andar com um grande molho de silvas ás 
costas. 

Esta parece ser a original, pela qual 
moldaram uma variante no Fundão. 

Nos arredores d'esta villa existe uma 
ponte antiga, já sem guardas, sobre o Al- 
verca, sitio poético, a que o povo sem- 
pre contemplativo ligou a variante. 

Conta aquella bòa gente, que, em 
quinta leira dAscensão, uma lavadeira 
dobrada ao pezo da roupa, se dirigia 
para a ribeira afim de ali a lavar. 

Muitas amigas suas e gente sensata a 
prevenio, que não fosse cm dia como este 
ao trabalho ; descançando este dia, nos 
outros lhe viria a fartura. 

Não ouvio ella estes arrazoados e se 
foi á sua vida^ teimando na idéa de mais 
ganho. Ninguém mais a vio, nem á roupa 
que levara. 

Passado esse dia, todos os annos em 
quinta-feira d'Ascensão, pelo calor ar- 
dente do meio dia, se ouve a lavadeira 
esbatcndo-se desesperadamente debaixo 
do arco simples da ponte. Castigo do ceo, 
segundo o povo diz. 

Ai.vARo DE CASTRO. 



Habitação, mobiliário e utensilios domésticos 
I 

Habitação 



(Conclusão) 

Foi por um simples lapso que, ao tra- 
tarmos da cosinha, não descrevemos a 
chaminé. Seja-nos portanto permittido 
voltar um pouco atraz para prehencher 
esta lacuna. 

A chaminé, situada ordinariamente ao 
fundo da cosinha, consta de duas partes: 
caldeira e tubo ou cano de tiragem. A 
caldeira é abobadada em cima e de for- 
ma rectangular em baixo. E' em geral 
bastante ampla, podendo abrigar-se n'ella 
e á roda do lume, como já dissemos, dez 



e doze pessoas. Do bordo inferior do 
panno pende em regra uma larga faixa 
de grossaria ou de chita, com o fim d'ob- 
star a que o fumo se espalhe pelas casas. 
Na face externa do mesmo panno e em 
cima, observa-se frequentemente uma pi- 
Iheira corrida, onde se costuma collocar 
os utensilios d'arame 

Tanto o panno da chaminé como o res 
pectivo tubo de tiragem são feitos de cal 
e tijolo. O cano da chamii/é é largo e a 
sua altura varia entre um e seis metros. 

Dentro da caldeira, entre o panno e a 
parede do fundo, ha dois barrotes, paral- 
lelos entre si, os quaes servem para sup- 
portar os paus de chouriços e linguiças 
que se põem ao fumeiro. 

A parte superior do cano da chaminé 
communica lateralmente com o exterior 
por meio d aberturrs verticaes e equidis- 
tantes, sepatadas uma das outras por um 
simples tijolo. Ao conjuncto d'estas aber- 
turas dá-se o nome de vede da chaminé. 

Não vai longe ainda o tempo em que 
as chaminés, denominadas :;abu}utas., se 
erguiam, toscas e rudes, por cima dos te- 
lhados, attestando a solidez da sua cons- 
trucção de pedra e cal. 

A configuração dos canos de tiragem 
varia muito, mas a que predomina é a 
de forma cylindrica ou a d'um prisma 
quadrangular recto. A' rede circular aci- 
ma descripta, sobrepõe-se a cúpula da 
chaminé, no vértice da qual se vê, ora 
um vaso de barro com feitio de fantasia, 
ora uma haste de ferro, em torno da qual 
gira, á mercê dos ventos, uma figura do 
mesmo metal, como uma bandeira, um 
gallo, etc. Esta ultima peça mqtalica de- 
sempenha um papel importante na pre- 
visão do tempo. E' um barómetro simples 
e commodo, que o dono da casa costu- 
ma consultar para fazer os seus prognós- 
ticos meteorológicos. Conforme a figura 
está voltada para o norte ou para o sul, 
assim o observador prevê chuvas ou tem- 
po enxuto. 

Em casas de gente pobre e humilde, a 
chaminé é muitas vezes substituída por 
um fogão, construído também de alve- 



56 



A TRADIÇÃO 



naria e aberto na própria parede da co- 
sinha. A porção do cano que sai fora do 
telhado é mais estreita e mais curta que 
a da chaminé, e communica com o ar 
atmospherico por sua extremidade supe- 
rior, que é aberta. 

Antigamente poucas chaminés se usa- 
vam aqui, e a tiragem do fumo era feita 
por um simples buraco praticado no tecto 
da cosinha. O buraco era tapado por um 
pedaço de cortiça atravessado no centro 
pela extremidade duma canna comprida, 
estando a outra extremidade no pavimen- 
to da casa. O primitivo processo de tira- 
gem, que acabamos de citar, ainda hoje 
se observa em algumas habitações, mas 
d'um modo bastante raro. 



* 
# * 



Dando por terminada a descripçao da 
casa propriamente dieta, — embora feita 
duma maneira rápida, — segue-se natu- 
ralmente tratar dos seus annexos. 

Os ann-exos ou dependências da habi- 
tação comprehendem, de ordinário, os 
quintaes. adegas, celleiros, cavallariças e 
palheiros. Occupemo-nos, pois, d'estas 
differentes partes, e pela mesma ordem 
que acabamos de enumera-las. 

Os quintaes são ordinariamente mura- 
dos; e os muros, d'alvenaria e taipa uns, 
outros de taipa simplesmente, teem uma 
altura que varia entre i,"'3o e 4.™ Muitos 
são cobertos com a clássica sebe de car- 
rasco, aro ou tojo; e n'esses realisa o ra- 
pazio divertidas caçadas aos pardaes. A 
sebe destjnada a proteger os muros, das 
intempéries, tem ido desapparecendo a 
pouco e pouco; modernamente é substi- 
tuida pelo espigão d'alvenaria, terminan- 
do umas vezes em gume, outras n'uma 
superfície convexa. 

Ha ainda um ou outro quintal em que 
os muros são substituidos pela piteira do 
vallado, que serve dexcellente trincheira 
contra as escaladas dos ratoneiros de 
frangãos e gallinhas. 

Quasi sempre, o quintal tem um poço 



que fornece agua para as lavagens, regas 
e consumo do gado. 

E' frequente vêr-se, nas trazeiras da 
casa, uma ou mais parreiras forman- 
do latada em todo o comprimento do 
pateo ou varanda. A vegetação dos quin- 
taes consta apenas de uma ou outra ar- 
vore de fructo, algum eucalypto, vários 
temperos, espalhados por alguns alegre- 
tes, e flores mais ou menos vulgares, dis 
tribuidas por diversos canteiros e vasos 
collocados nas varandas. 

Passando agora a occupar-nos das ade- 
gas e celleiros, diremos que são casas, 
geralmente espaçosas, de construcção 
análoga á dos prédios a que me referi 
no artigo anterior. 

Os telhados teem uma ou duas corren- 
tes, e o interior da casa é muitas vezes 
dividido ao meio por arcos e columnas. 
Os pavimentos são de tijolo e cal, ven- 
do-se também alguns aspháltados e alca- 
troados, subindo este resguardo nas pa- 
redes, até á altura, proximamente, dum 
metro. Nas adegas, tanto dazeite como 
de vinho, ha em volta de toda a casa um 
poial, de o,'"6o d'altura nas primeiras, e 
de o,™25 nas segundas, destinado a sup- 
portar os potes ou talhas. 

Os potes d'azeite são na maior parte 
de lata, variando a sua capacidade entre 
20 e 700 decalitros. As talhas de vinho 
são exclusivamente de barro, revestidas 
interiormente d'uma grossa camada de 
pez louro, e a sua capacidade oscila entre 
j5 e 60 almudes. Tonéis de madeira, não 
se usam aqui. O pavimento das adegas 
de vinho tem, em geral, uma ligeira in- 
clinação e ao fundo um deposito subter- 
râneo, a que o povo chama adorna, afim 
de receber não só o liquido produzido 
pela piza das uvas, mas também os mos- 
tos e o vinho, no caso de fracassar algu- 
ma talha. As outras dependências — pa- 
lheiros e cavallariças — são casas ordiná- 
rias e toscas, pouco ou nada cuidadas, 
e em que o asseio deixa muito a desejar. 
Ha um ou outro proprietário que olha 
com mais attenção para estas dependên- 
cias; mas a maioria prima pelo desleixo 



A TRADIÇÃO 



67 




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58 



A TRADIÇÃO 



e fãy ouvidos de mercador quando se lhes 
fala em hvgiene. O desprezo pela arte 
de conservar a saúde é tal que, na maior 
parte dos prédios pertencentes d classe 
popular, a cavallariça é uma casa dentro 
da própria habitação, onde vivem pro- 
miscuamente pessoas e animaes ! 

Nos prédios sem quintal, e mesmo 
nalguns que possuem quintal mas sem 
sahida, ate se vè cavalgaduras entrarem 
e sairem pela porta da rua, atravessando 
ás vezes todos os compartimentos do in- 
terior da habitação. 

O palheiro costuma ser contiguo á ca- 
vallariça. A maneira de o encher de pa- 
lha, não deixa de ser curiosa. A palha 
não é enfardada nem prensada; introduz-se 
solta, em golpelhas ou lençoes, por uma 
abertura feita á beira do telhado. Logo 
que a referida forragem tem attingido 
um ou dois metros despessura, descem 
ao interior do palheiro homens e rapazes, 
e ali dançam, saltam e pulam para que 
a palha fique bem calcada. 



* 
* * 



Falta-nos, para completar o nosso mo- 
desto artigo, falar da h3'giene da habita- 
ção. E' o que vamos fazer d'uma maneira 
summaria. 

Devemos accentuar, em primeiro lo- 
gar, que o povo manifesta ante as pra- 
ticas hygienicas uma verdadeira aver- 
são. Inútil c pretender dcmonstrar-lhe as 
consequências desastrosas e os males 
terríveis, que podem resultar do seu des- 
leixo em matéria d'asseio. Aconselha-lo 
a seguir as boas regras da h3'giene, o 
mesmo é que pregar no deserto. E se a 
auctoridade tenta intervir, ha ameaças, 
desordens, e por vezes contlictos muito 
sérios. O mulherio costuma até distin- 
guir-se n'estas campanhas: é o primeiro 
a sair para a rua n um berreiro d'ensur- 
decer; provoca e insulta as pessoas que 
não adherem ao movimento de protesto 
contra as medidas hygienicas; e, empu- 
nhando, não a pá, como a celebre padeira 



d' Aljubarrota, de saudosa memoria, mas 
as perigosas arf?uis de S. Pedro (pedras), 
— que manejam com uma habilidade e 
uma dextreza admiráveis, — ameaça céus 
e terra, pondo em evidencia a sua fúria 
implacável. E depois, com a nossa pro- 
verbial brandura de costumes, também 
não é de admirar que haja focos de in- 
fecção por toda a parte. Ás estrumeíras 
encontram-se espalhadas pelos quintaes, 
travessas e canadas que circumdam a 
povoação. As piaras de gado pertencen- 
tes ás classes menos abastadas estabe- 
lecem arraiaes nas referidas travessas e 
canadas, e invadem a cada instante a pro- 
priedade alheia, sem medo nem respeito 
á lei. São, em geral, possuidores d'este 
gado, indivíduos que não teem de seu um 
palmo de terra, mas julgando-se no di- 
reito de transformar em baldio, os ferre- 
giaes, courellas, olivaes, etc, etc. 

E' tão extraordinário o que se passa, 
que, sem contar outra espécie de gado, 
ouso affirmar que dormem todas as noi- 
tes, dentro da aldeia, para cima de mil 
porcos ! 

E se alguns indivíduos teem o seu chi- 
queiro, onde dorme e come o cevão, a 
maior parte nem d'isso dispõe, e os ani- 
malejos passam, como inquilinos, a dor- 
mir portas a dentro, como a coisa mais 
natural d'este mundo! 

Cada travessa é uma sentina publica, 
onde se lança toda a espécie de porcaria, 
a qual ali se deposita e conserva, até que 
as aguas pluviaes se encarreguem, de a 
arrastar. 

A remoção das immundicies não está 
a cargo d'entidade alguma official; o que 
não é para extranhar, porque a camará 
municipal e a junta de parochia ainda 
não se dignaram prestar a devida atten- 
ção ao pelouro da hygiene. 

N'estas condições, é natural que sejam 
os próprios habitantes da povoação, que 
tomem sobre si o encargo da limpeza 
publica. As immundicies são removidas 
para fora da localidade em golpelhas ou 
carros munidos de taipaes. Refiro me ás 
immundicies solidas, pois que as urinas 



A TRADIÇÃO 



59 



e aguas sujas são vasadas nos quintaes 
e ti avessas c ate nas próprias ruas. 

— Acabamos d'inuicar, ainda que 
muito resumidamente, as deploráveis 
condições hvgienicas em que se encontra 
a aideia de hrinches. Sciia todavia uma 
grande injustiça, não mencionar, n'este 
logar, uns certos pieccitos usados no lar 
domestico, tendentes á conservação da 
saúde. 

Devemos di/er, em abono da verdade, 
que as casas, mesmo entre as classes po- 
bres, são em geral caiadas periodicamen- 
te, principalmente no estio ou por oc- 
casião d'alguma festa memorável. Os 
pavimentos, bem como as portas e ja- 
nellas, de madeira, são lavadas com agua 
e sabão. Ha também quem esfregue com 
areia as referidas portas e janellas, para 
ficarem mais bem descasqueadas. Isto, 
no caso de simples limpeza da casa, e 
sem o precedente dalguma morte. Por- 
que, dando-se o facto de morrer alguém, 
redobram os cuidados dasscio. A' aguae 
sabão, é necessário accrescentar, então, 
o vinagre e as aguas de ervas cheirosas, 
taes como : o incenso, a mui ta, a alfa- 
zema, o alecrim, a mangcrona, etc. Não 
é licito esquecer o rosmaninho, tão pro- 
fusamente espalhado, sobretudo durante 
a semana santa. 

As plantas aromáticas, que vimos de 
citar, empregam-se ainda em fumigações, 
para purificar o ar contido no interior da 
nabitação. 

Convém frisar, que o povo considera 
o vinagre como o primeiro dos seus de- 
sinfectantes. A elle recorre sempre que 
se trata duma limpeza a valer, como 
succede, por exemplo, quando se pre- 
tende desinfectar o quarto onde falle- 
ceu um tisico, um dilterico, etc. E, já 
que falamos da tuberculose, diremos que 
o vulgo tem per esta doença uma pro- 
funda repulsão. Julga até que basta pisar 
o escarro d'um tisico, para que a terrí- 
vel moléstia se pegue ! 

Digamos, para rematar, duas palavras 
acerca da illuminação. Quanto a illumi- 
nação publica, contam os brinchenses 



apenas com a dos astros, porque a res- 
peito de candieiros nas ruas, não passa, 
por cmquanto, d'uma va^a aspiração. 

Penetrando, porém, no interior das mo- 
radas, ahi vemos a clássica luz dazeite, 
de petróleo c d'estearina. Msta ultima — 
mercê do seu elevado preço — é muito 
menos adoptada. 

Não deixaremos de mencionar, a titulo 
de curiosidade, que existe aqui uma ha- 
bitação, onde também se observa a mo- 
derna luz de gazolina, a oíluscar com o 
seu brilho os olhares dos transeuntes, es- 
tupefactos! A qual habitação pertence ao 
nosso presado amigo e distincto collabo- 
rador artístico desta revista, o Sr. F. 
Villas Boas. 

Lopes PIÇARRA. 



CKENÇAS & SUPEIWTICÕES 



Bruxas e feiticeiras 

Grande parte da massa popular ainda 
hoje acredita piamente em bruxas e fei- 
ticeiras. Por maisextraordinaria que nos 
pareça esta. crença, o facto é que ella 
existe, e disso temos a prova a cada 
passo. 

Segundo a concepção ingénua do povo, 
as bruxas e feiticeiras são mulheres que, 
por meio de certas rezas e artes diabóli- 
cas, podem causar verdadeiros malefícios 
ás outras pessoas. As bruxas distinguem- 
se das feiticeiras em possuirem a facul- 
dade de se transformar em animaes, 
como : formigas, cães, gatos, etc. 

Suppõe o p'^vo, que as bruxas costu- 
mam reunir-se a altas horas da noite nos 
valles e encruzilhadas, e alli, ao som de 
pandeiros, cantam e bailam, e soltam 
estridentes gargalhadas. De tempos a tem- 
pos, estas reuniões revestem um aspecto 
mais solemne: Juntam-se as bruxas das 
diversas localidades, em determinado si- 
tio, tendo cada uma de passar «por baixo 
da silva e por cima da oliva». As bruxas 
que primeiro se reúnem, e emquanto es- 



tk) 



A TRADIÇÃO 



peram pelas mais retardatárias, entretêm- 
se em cantar e bailar ao som dos pandei- 
ros. O povo attribue-lhes, precisamente 
nesse momento, a seguinte quadra : 

"Maria do vallo, 
Que faz, que não vem? 
Já estão as de Borba 
E as de Santarém.» 

Depois de se acharem todas reunidas, 
apresenta-se o diabo sob a forma dum 
cão preto, muitc arrogante, de rabo al- 
çado e encaracolado. Cada bruxa é então 
obrigada a depor um osculo por debaixo 
da cauda do satânico animal. 

Finda esta extravagante cerimonia, as 
bruxas dispersam-se, ficando habilitadas 
a proseguir no exercício da sua arte. 

E' assombroso o poder que o povo at- 
tribue ás bruxas: ellas podem fazer pas- 
sar pelas maiores torturas, as pessoas 
que incorram na sua ira ! 

Muitas das graves doenças que afligem 
o género humano, representam frequen- 
tes vezes a manifestação desse poder ma- 
léfico. Das pessoas doentes que se jul- 
gam sob a influencia das bruxas, diz-se 
que estão embruxadas. 

As miseras creaturas que q publico ba- 
ptisa com o nome de bruxas, são ao mes- 
mo tempo temidas e odiadas. 

Não é raro até, haver quem as persiga 
e maltrate afim de se evitarem novos bru- 
xedos. 

Quando as bruxas frequentam algu- 
ma casa, e se pretende expulsa-las d'ahi, 
põe se em pratica o seguinte processo: 
A pessoa encarregada de tão benemérita 
missão, vai á egreja buscar uma porção 
d"agua benta, e embebendo nessa agua 
um pincel, sacode-o em cruz a cada canto 
da casa, dizendo : 

«Desórga, desórga ! 
Três vezes desórga ! 
Bruxas e feiticeiras, 
D'esta casa para fora ! » 

Realisada esta singela operação, as 
bruxas têm dabandodar a casa. E que- 
rendo levar a expulsão mais longe, diz-se: 



— desta comarca para fora, ou ainda, 
deste reino para fora. 

Resa a tradição que ha pessoas não 
susceptíveis de bruxarias. Essas pessoas 
revelam uns certos signaes, pelos quaes 
as próprias bruxas reconhecem «que não 
podem enti'ar com ellas». 

E' ordinariamente ás creanças que as 
bruxas perseguem de preferencia ; parece 
até que, pela noite fora, ellas se divertem 
em separar as creanças das mães, indo 
collocal-as na pilheira da casa, ou levan- 
do-as para qualquer sitio distante do leito 
onde estavam deitadas Ainda hoje é vul- 
gar esta expressão : — E' um menino nas 
mãos das bruxas ! 

Quando uma creança se apresenta ma- 
gra, com as pernas cruzadas, e tendo dis- 
seminadas pelo corpo, especialmente nos 
membros inferiores, varias echimoses, 
crê o vulgo que se trata duma creança 
embruxada. As echimoses constituem — 
na opinião fantástica do povo — o vestí- 
gio de mordeduras feitas pelas bruxas, 
para sugarem o sangue da creança. 

No próximo numero da Tradição, co- 
meçaremos a descrever as diversas pra- 
ticas usadas com o fim de desembruxar 
as creanças. 



(Brinchesj. 



FILOMATICO. 



CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS 



IV 



o Pedro Malas-Arteí 



Era uma vez um lavrador e uma la- 
vradora, que viviam num monte e preci- 
savam dum rapaz para o seu serviço. 
Um dia, a lavradora, olhando para o ma- 
rido, diz-lhe : 

— «Tu devias ir á aldeia concertar um 
rapaz para nos aviar os mandados, ir ao 
matto e ao poço e guardar os porcos.» 

— «Pois bem» — respondeu o lavrador 
— «irei amanhã á aldeia tratar disso.» 



A TRADIÇÃO 



• U 



— «Vai, mas não me tragas algum que 
se chame Pedro. De modo nenhum que- 
ro Pedros cá em casa. . . i 

No dia sci^uinte, o lavrador foi á al- 
deia, e assim que lá chegou enconlrou-se 
com um rapaz a quem perguntou: 

— «()" rapaz, queres conccrtar-te r» 

— «Quero, sim senhor.» 

— «Como te chamas ?» 

— «Pedro.» 

— «Oh! diabo! não me serves.» 
Dizendo isto, o lavrador dirigiu-se para 

outra rua. K o Pedro Malas-Artes foi im- 
mediatamente collocar-sc a uma esquina, 
por onde elle sabia que o lavrador havia 
de passar. O lavrador, ao passar por esse 
sitio, vendo com etíeito ali um rapaz, e 
não conhecendo que era o mesmo dha 
bocado, diz-lhe: 

— «O' rapaz, queres concertar te?» 

— «Queru, sim senhor.» 

— «Kntão, como te chamas?» 

— «Pedro.» 

— «Oh! diabo! não me serves.» 

O lavrad')r, passando para outra rua, 
encontrou-se novamente com o Pedro, 
que já o esperava disfarçadamente. E, 
cuidando que era outro rapaz, diz lhe: 

— «O' rapaz! queres concertar-te ?» 

— «Quero, sim senhor.» 

— «Como te chamas?! 

— «Pedro.» 

— Oh diabo! então nesta terra ha só 
Pedros ? » 

— «Ha só Pedros, sim senhor» — res- 
pondeu o rapaz. 

— «Oh! mau! disso já eu desconfia- 
va... porque encontrei uns poucos de 
rapazes, todos chamados Pedros!» 

— «E quantos rapazes o senhor procu- 
rar, tantos Pedros ha-de achar» — disse 
Pedro Malas-Artes. 

— cBem, nesse casso, já não busco 
mais. Queres vir comigo?» 

— «Quero, sim senhor» — respondeu 
Pedro; — «mas com uma condição: 
aquelle que se zangar, perde a soldada.» 

— «Pois sim, anda d'ahi» — disse-lhe 
o lavrador. 

Marcharam ambos caminho do monte, 



e quando lá chegaram, diz o lavrador 
para a mulher : 

— «Aqui tens um rapaz que nos pode 
ajudar jpo serviço da casa.» 

— «Como se chama elle?» — pergun- 
tou a lavradora. 

— «Chama-se Pedro.» 

— «Pois então eu não te disse que não 
queria l^edros ?. . . » 

— «Pois sim, mas o qne havia deu fa 
zer, mulher! se naquella aldeia não ha se- 
não Pedros?! Mas elle sempre ha-de fa- 
zer o que_ lhe mandarem. Não é assim, 
Pedro?» — perguntou o lavrador olhan- 
do para o rapaz. 

— «E' sim, senhor meu ;inv>» — res- 
pondeu Pedro. 

A lavradora, ouvindo isto, mostrou-se 
conforme. No outro dia, pela manhã cedo, 
o lavrador levantou-se e mandou o rapaz 
buscar lenha ao matto. Pedro, ouvindo 
as ordens do amo, tratou d'arranjar quan- 
tas cordas poude e marchou para o matto. 
Chegando ao matto, começou a estender 
á roda dclle as cordas que levava. O amo 
* farto d esperar pela lenha, diz para a mu- 
lher: 

— «Pois senhor! o rapaz parece que 
não vem de lá hoje!. . . » 

— «Não te disse eu» — observa a mu- 
lher — «que não concertasses Pedros?» 

— iNão tenho mais remédio» — diz o 
lavrador, já zangado — «senão ir á bus- 
ca delle.» 

E partiu immediatamente para o matto, 
encontrando alio rapaz entretido n'aquelle 
serviço. Não podendo conter-se, grita- 
Ihe logo : 

— «O que andas tu a fazer, Pedro! 
que não te despachas com a lenha?» 

— «Eu, senhor meu amo, ando enro- 
lando o matto com estas cordas, para de- 
pois puxar por elle, a ver se o levo logo 
todo duma vez, para não ter de vir á le- 
nha todos os dias.» 

O lavrador, vendo este grande dispa- 
rate, ia começar a zangar-se, quando Pe- 
dro atalha: 

— «O' senhor meu amo! está zan- 
gado ? » 



tí2 



A TRADIÇÃO 



O amo, lembrando-se de repente da 
combinação feita no acro de concertar 
Pedro, responde : 

— «Eu não. E tu estás ?» í 

— tEu também não» — respondeu Pe- 
dro. 

— «Bem,» — diz o lavrador para o ra- 
paz — «vamos lá arranjar alguma lenha 
para nos irmos embora.» 

Assim fizeram ; e chegados ao monte, 
o lavrador mandou Pedro ao poço. O ra- 
paz, o que havia de fazer ? . . . tornou a 
pegar nas cordas, e elle ahi vai caminho 
do poço. Assim que lá chegou, toca a en- 
rolar o boc-al com as cordas. 

E o amo á espera. . . até que por fim, 
aborrecendo-se^ diz á mulher : 

— «O diabo do rapaz não vem hoje 
do poço!» 

— «Eu não te disse que não concertas- 
ses Pedros ?. . . » — respondeu a mulher. 

O lavrador, então, pegando numa 
quarta, resolveu-se a ir ver o que fazia 
Pedro. E, encontrando-o em volta do bo- 
cal do poço, pergunta-lhe, cm voz alta: 

— «O que estás ahi fazendo, Pedro, 
que não despachas?!» 

— «Eu, meu amo, ando ligando aqui 
o bocal com estas cordas, a ver se, pu- 
xando por ellas, levo logo o poço duma 
vez, para não ter de vir buscar agua to- 
dos os dias.» 

O amo, contrariado com a lembrança 
de Pedro, ia para zangar-se quando elle 
acode: , 

— «O senhor meu amo! está zanga- 
do?» 

— «Eu ríão. E tu estás?» 

— «Eu também não» — respondeu Pe- 
dro. 

— «Bem,» diz o amo — enche lá esta 
quarta dagua e vamos embora.» 

Regressando ambos ao monte, o la- 
vrador mandou Pedro guardar os porcos, 
recommendando-lhe que os não mettesse 
nalgum atasqueiro. Pedro soltou os por- 
cos e, marchando com elles, encontrou 
um grande lamaçal. Do que havia elle 
lembrar-se? Foi esconder o gado por de- 
traz duma altura, cortou o rabo e as 



orelhas a cada porco e veiu enterra-las 
no lamaçal, da seguinte forma: duas ore- 
lhas adiante e um rabo atraz. Isto para 
fingir que os porcos se tinham atascado 
até ás orelhas. 'Acabado este serviço, 
Pedro foi participar ao amo que os por- 
cos estavam enterrados em um lamaçal. 
O lavrador, afBicto com esta noticia, 
partiu immediatamente para o sitio indi- 
cado por Pedro. Chegando áquelle enor- 
me atasqueiro, e.não divisando senão as 
orelhas e os rabos, convenceu-se de que 
os porcos estavam etíectivamente enter- 
rados, como dizia Pedro. Ia para zan- 
gar-se, mas, como Pedro lhe fizesse a 
advertência do costume, tranquilisou-se. 
Foi depois puxar por uma orelha das que 
estavam enterradas, ficou-lhe na mão; 
foi puxar por outra, aconteceu-lhe o mes- 
mo. Em vista d'isto, pensou o lavrador 
que os porcos só poderiam ser desenter- 
rados com enxadas, e por isso mandou 
Pedro ao monte buscar as três enxadas 
maiores que lá estivessem. O Pedro Ma- 
las-ArtPs foi ter com a ama e diz-lhe: 

— «O senhora minha ama ! o amo, que 
me dê as três maiores taleigas de dinhei- 
ro que cá tiver.» 

— «Isso não pôde ser!. . . » — respondeu 
a ama, «então para que hade o teu amo 
querer já as taleigas de dinheiro?!» 

— «E verdade, sim, minha ama. Faça 
favor de chegar aqui á rua do monte, e 
verá que é verdade.» 

A ama acompanhou o rapaz á rua do 
monte, d'onde se avistava o lamaçal, e 
á sua vista, perguntou Pedro, em voz 
alta, ao amo: 

— «O senhor meu amo! as três maio- 
res?» 

— «Sim» respondeu o amo — «as três, 
com tresentos diabos!» 

A lavradora, julgando que se tratava 
das taleigas de dinheiro, entregou-as a 
Pedro. Este, assim que as apanhou, ras- 
gou a fugir em direcção opposta áquella 
em que se achava o amo. 

No caminho, Pedro encontrou uma 
ovelha, tirou-lhe as tripas e metteu-as 
no seio. Mais adiante, vendo umas mu- 



A TRADIÇÃO 



63 



Iheres a lavar num barranco, perguntou- 
Ihes: 

— aõ mulheres I lèem ahi uma nava- 
lha que m emprestem?» 

— «Tenho eu aqui uma» — diz uma 
delias — «toma a lá.» 

— «Kntão para que queres tu a nava- 
lha?» — perguntou uma outra. 

— «Para tirar as tripas que me pesam 
muito; e eu quero tícar leve para fugir 
mais, que levo muita pressa» — respondeu 
Pedro. 

Pegando da navalha, Pedro rasgou a 
camisa dalto a baixo, e as tripas da ove- 
Ihe cairam immediatamcnte no chão. 
Restituiu a navalha á mulher e partiu 
ainda com mais velocidade que até ali. 

O lavrador, cançado desperar por elle 
no lamaçal, foi ao monte saber que de- 
mora era aquella. A mulher do lavrador 
muito admirada, pergunta ao marido: 

— «Kntão ainda elle lá não chegou? 
E para que querias tu tanto dinheiro?!» 

— «Qual dinheiro? Eu mandei buscar 
algum dinheiro ? !» 

— «Então não mandaste buscar as três 
maiores taleigas de dinheiro que cá tí- 
nhamos ?» 

— «Eu não!, o que eu mandei buscar 
foram três enxadas para desenterrar os 
porcos que elle metteu no lamaçal!» 

— «Pois já sabes que elle enganou me. 
Lá nos carregou com as nossas três maio- 
res taleigas de dinheiro ! Eu não te disse 
que não concertasses Pedros ? . . . » 

O lavrador, muito atrapalhado, e com- 
prehendendo que estava roubado, per- 
guntou á mulher o caminho que levara 
Pedro. A mulher indicou-lh'o, e elle par- 
tiu a toda a pressa. 

Chegando ao barranco, onde estavam 
lavando as taes mulheres, perguniou-lhes 
se tinham visto passar ali algum rapaz. 
Elias responderam que sim, e que até 
esse rapaz lhes pedira uma navalha para 
arrancar as próprias tripas, a Hm de fu- 
gir mais. 

— «Assim que lhe cairam as tripas» 
— disseram as mulheres — «o rapaz pa- 
recia um raio !» 



— € Então» — diz o lavrador — «façam 
favor de m'emprestar também uma na- 
valha para eu fazer o mesmo.» 

As mulheres emprestaram lhe a nava- 
lha, e o pobre diaoo, caindo na asneira 
de rasgar a barriga, escusado será dizer 
que ficou logo ali estendido, emquanto 
oue Pedro Slalas Artes, vendo-se livre 
do amo, tratou de gosar o dinheiro o 
melhor que poude. 

l[)a tiadii,-áooral| 



(Brinches). 



António ALK.XANUKINO. 



NOVELLAS POPULARES MINHOTAS 



Senhora do Rosandario. . . 
IV 

Houve uma vez um homem, e tinha 
uma mulher que lhe desejava cegueira. 
Para isso ia todos os dias á egreja pedir 
á Senhora do Rosandario (') que desse 
cegueira ao marido, de maneira que elle 
não visse. 

O homem tantas vezes viu ir a mulher 
para a egreja que, um dia, resolveu ir 
espreitai a. Eoi para a egreja mais cedo, 
e escondeu-se dentro de um confessioná- 
rio. Voo a mulher, benzeu-se, ajoelhou 
e começou a fazer os costumados pedi- 
dos á \'irgem do Rosandario, dizendo: 

— Minha Senhora do Rosandario, dae 
cegueira ao meu homem, de modo que 
elle não veja ! . . . 

O marido que gostava muito de ovos 
fritos com toucinho e que era amante da 
pinga, bradava-lhe de dentro do conces- 
sionário: 

— Dá-lhe ovos fritos com toucinho e 
uma canada de vinho! 

Ia a mulher para casa e cumpria o 



(M Senhora do Rosário. 



G4 



A TRADIÇÃO 



mandado, que julgava ser da Virgem do 
Rosandario. 

O marido ia comendo bem e bebendo 
melhor, e muito de propósito dizia para 
a mulher: 

— Mulher, estou vendo tão pouco!. . . 
(tão poucos ovos, toucinho e vinho). 

Klla então voltava para a egreja, e no- 
vamente pedia: 

— Senhora do Rosandario, dae ce- 
gueira ao meu homem, de modo que 
elle não veja ! . . . 

Bradava-lhe o marido, outra vez, de 
dentro do confessionário: 

— Dá-lhe ovos fritos com toucinho e 
uma canada de vinho ! 

Voltava a mulher para casa, dando 
sempre ovos com toucinho e vinho em 
abundância ao marido. 

E o marido dizendo sempre: 

— Mulher, de cada vez estou vendo 
menos. . . 

Por hm, tantas vezes foi a mulher á 
e^^eja e tantos ovos com toucinho e vi- 
nho deu ao marido, que este, enraivecido 
por ver proceder tão mal sua mulher, 
que lhe desejava cegueira, resolveu ir 
para o esconderijo m.unido de um grosso 
varapau, e na occasião em que a mulher 
fazia os costumados rogos á Virgem do 
Rosandario, sahiu-lhe ao encontro e deu- 
Ihe tamanha coça que a pôz ás portas da 
morte. 



(Kecolh^da da tradição oral) 



(Espozende). 



Ai.vAKO PINHEIRO. 



niOVERBIOS E DICTOS 



lar. 



(Continuação) 

XI 

Natal ao soalhar^ Paschoa á roda do 



XII 



Mulher que dá no marido, é porque 
Deus é servido. 



XIII 

Para ir bem á sacca, vae mal á vacca. 

XIV 

Filho és, pae serás ; conforme vires, 
assim farás. 

XV 

Mulher que canta, não se espanta. 

XVI 

Não diz a pilheira co'a cantareira. 

XVII 

O frio e a fome fazem o gado gallego. 

XVIII 

Por onde Maio passou nado, tudo 
deixou espigado. 

XIX 

O sói de Março pega que nem pega- 
masso. 

XX 

Baba de cão come-se com pão. 

XXI 

Baba de gato, nem chegue ao fato. 

XXII 

Quem se ri sem vêr de quê, seus máos 
feitos alembra, ou os d'alguem. 

(Da tradição oral) 

(Continua.) 
Serpa. 

CASTOR. 

BIBLIOGRAPHIA 

A agglomeração de original obriga-nos 
a retirar a secção bibliographica, que será 
inserta no próximo numero. 

D. N. 



A.iiii«> I — N-" rs 



SEEPÂ, Maio de 1899 



Editor-adrnínistrador, Jote Jeronymo da Costa Bnwo de Negreirot, Rua l.argi, 3 e 4 — SERPA 
TypoRraphia de Adolpho de Mendonça, Kua do Corpo Sanio, 4Ú c 48 — LISHOA 

A TRADIÇÃO 

•> 
REVISTA MENSAL DETHNOGRAPHIA PORTUGUEZA 



T>\KECTOKE.s. — L ADIS L AU PIÇARRA e M. DIAS NUNES 



BOTÂNICA POPULAR 



Notas acerca de algumas plantas da flora 
portugueza 

Quando eu estudava na Escola Poly- 
technica, intentámos — o illustrado bo- 
tânico, já fallecido, António Ricardo da 
Cunha, e cu — fazer uma resenha das 
plantas da Hora portugueza, empregadas 
pelo povo em vários usos, principalmente 
com fins therapeuticos. 

Apro\ eitavamos para isso os trabalhos 
já existentes, e o que se podesse colher 
da tradição oral. 

Esse trabalho não se concluiu. 

As ditíículdades eram grandes, sendo 
das maiores a variabilidade das designa- 
ções e dos usos, e a necessidade de ex- 
cursões longiquas e dispendiosas. De 
resto, António Ricardo já sentia a saúde 
quebrantada, e eu desviei a minha atten- 
ção para outros estudos. 

Agora que o meu illustre collega La- 
dislau Piçarra desejou que eu colligisse 
alguns subsídios para o estudo das usan- 
ças populares, extractei de apontamentos 
colhidos então, e de outros que obtive 
posteriormente, estas modestas notas. 

* 

* * 

Em Lisboa, crê o povo ser de uso sa- 
lutar nas affecções das vias respiratórias, 
em que predomine a tosse: a hera ter- 
restre, mais vulgarmente chamada herva 



terrestre ((ilechoma heredacea), a herva 
agrimonia (Agrimonia eupaloria), os ou- 
regãos lOriganum vulgare), a raiz de al- 
caçus(Glvcyrrhiza glabra),o aipo(Apium 
graveoleris), a pimpinella (Poterium san- 
guisorba), as perpetuas roxas ((jomph re- 
na globosa ou Xcranthemum annum ?j, o 
cardo santo (Centáurea benedicta), os 
agriões (Sisymbrium nasturtium), o hys- 
sopo (Hyssopus olHcinalis), a cevada 
(Hordeum hexastichon, H. vulgare), a 
cevada santa (Hordeum distichon). 

Das perpetuas, das violetas e dos 
agriões, fazem xaropes, que denominam 
lambedores. Para loções, o rosmaninho 
(Lavandula Stoechas). 

O rosmaninho é conhecido desde re- 
moto tempo, e parece que já tinha appli- 
cação medicinal. Gil Vicente, que des- 
creve muitos dos costumes populares do 
seu tempo, menciona o rosmaninho na 
Farça dos Tísicos. Diz assim: 

Buas. — E dar-lhe eu puro vinho? 

M. F. — Guarde-vos Deus de mal ! 
Não, senão agua tal. . . 
Entendeis — cosida com rosmaninho. 

Ainda para loções, usam o alecrim 
manso (Rosmarinus officinalis), a alfaze- 
ma (Lavandula spica), a losna (Artemísia 
absyntium, Lavandula absyntium offici- 
nale, B.), a táveda ou as táguedas (Co- 
nyza squarrosaj, a esteva (Cystus lada- 
niferus), a alfavaca de cobra (Parietaria 
officinalis), a casca de carvalho (Quercus 



66 



A TRADIÇÃO 



robur), as folhas de nogueira (Juglans 
regia\ a congossa (^'iuca major», a hcrva 
molarinha ou moleirinha (Fumaria offici- 
nalis"». Esta é destinada ás doenças cutâ- 
neas. 

Para fumigações, vulgarmente chama- 
das defumaaouros : a arruda (Ruta gra- 
veolens), a mostarda (Sinapis, alba ou 
nigra:), o arrudão (Ruta tennifolia), os 
olhos de canna (Arundo donax), a ar- 
oeira (Pistacea lentiscus). Neste defuma- 
douro juntam cinco raminhos de alecrim 
manso, cinco raminhos de renovo de 
oliveira (Olea sativa) e cinco pedras de 
sal. O qual defumadouro é applicado ás 
creanças que teem lua. Ter lua é uma 
phrase de significação muito vaga, e re- 
presenta ás vezes svmptomas e até doen- 
ças muito differentes. Diz-se que a crean- 
ça tem lua, quando nella se manifestam 
movimentos intestinaes, movimentos con- 
vulsivos, etc. 

Ha ainda para defumadouros, o ale- 
crim bravo (sp ?), o alecrim de S. Sil- 
vestre — o povo diz Selivestre — (spr). 

Em vaporisações, usa-se o cosimento 
da maçã de cypreste iCupressus semper- 
virensi. A maçã de cypreste dá o titulo 
a uma moda choreographica de Tremez 
e Cortiçada, próximo de Santarém. E, a 
propósito, transcrevo uma das quadras: 



«A maçã do acypreste 
E redonda, rebola bem. 
Graças a Deus para sempre. 
Já hoje vi o meu bem.» 



Para combater o nervoso, emprega o 
povo a herva cidreira (Melissa ofticinalis), 
a flor de laranjeira fCitrus aurantium), a 
tilia (Tilia europea), as malvas (Malva syl- 
vestris, M. rotundefolia), a casca de laran- 
ja azeda (Citrus vulgaris, v. hispânica). 

Na infiammação dos olhos, usa-se ofun- 
cho (Anethum foeniculum), os botões de 
rosa (Rosa plena e R. proenestina), e a 
flor da malva. 

Como refrigerante: a grama (Panicum 
dactylon;, a avenca (Adiantum Capillus 
Veneris), a althéa (Althaea officinalis;, a 



legação (Smilax áspera), a raiz de salsa 
(Apium petroselinum). 

Contra a ictericia: a ruiva dos tintu- 
reiros (Rubia tinctorum). 

Para as doenças das vias urinarias: o 
bruço de Salvaterra, que supponho ser 
o bruço do Alemtejo (Laserpitium pen- 
cedanoidesL [)'esta planta fala J. de Fi- 
gueiredo, na Flora pharmaceutica, citando 
Brotero, de quem a mesma planta, pa- 
rece, já era conhecida, como remédio 
popular. Além do bruço, empregam-se 
ainda contra as referidas doenças: a 
herva serra (Lepidium latifolium), as bar- 
bas de milho (Zea ma3's), a bolsa de pas- 
tor (Thlaspi bursa pastoris), o fel da 
terra (Genciana centaureum), a cavallinha 
dos campos (F^quisctum arvensis), sem- 
pre noiva (Polygonum aviculare), a herva 
prata ou herva dos unheiros (Illecebrum 
Paronychiaj, a unha gata (Ononis spi- 
nosa) as saudades bravas (Scabiosa, 
sp. arvensis?) o morangueiro (Fragaria 
vesca). 

Nas doenças do estômago: a salva 
brava (Salvia verbenacoides ou S. scla- 
reoides ?), o fel da terra, a macella ou 
marcella (Anacyclus aureus), a raiz de 
almeirão íCichorium intybus), as bagas de 
zimbro (Juniperus communis). 

Como sudorificas e expectorantes: a 
herva das sete sangrias (Lithospernum 
fructicosum), o mastruço (Lepidium sati- 
vum), a folha do sabugueiro (Sambucus 
nigra), a flor do alecrim (Rosmarinus 
officinalis) e a flor de borragem (Borrago 
officinalis). 

Contra a inflammação de garganta: a 
guiabelha ou diabelha (Plantago corono- 
pifolia). 

Gil Vicente menciona-a duma outra 
fcrma: 

«Tomada da Guiabelha 
Pisada co'o fel d'ovelha.» 

(Farca dos Tísicos). 

Algumas plantas ainda hoje conservam 
a designação porque eram conhecidas 
n'essa epocha. 



A TKADICAO 



G7 




e^LE^I^ DE TYPOS POPDLjaiRES 





\ 




Campaniça (mulher do termo de Mertola) 




68 



A TRADIÇÃO 



António Ribeiro, o chiado^ no Auto das 
Regateiras, faz referencia, entre outras, 
á língua ceivina, norsa branca, alfavaca, 
piorno e aveia ^^Asplenium scolopcndrium, 
Brvonia alba, Parietaria ojVicinalis, La- 
vandula spica, Spartium monospernum 
e avena agraria). 

O povo emprega ainda, contra a tosse 
convulsa : as ortigas mansas, as ortigas 
mortas ou mercurial (Mercurialis annua) 
e o espinheiro alvar (Lvcium europoeum). 

Contra as hemoptyses: as ortigas bra- 
vas (Urtica urens). « 

Contra a inchação : a lingua de vacca 
(Anclusa otiicinalis), a flor de sabugueiro. 

Contra as empigens : a abrotea (As- 
phodelus ramosus). 

Contra a inflammação da bocca : a co- 
chlearia (Cochlearia officinalis), o mei- 
mendro (Hyoscyamus niger ou albus?) 

Contra as verrugas ou tecidos callo- 



sos 
culosus). 

(Concilie) 



uma alga 



a bodelha (Fucus vesi- 



SOPHIA DA SILVA. 



À Procissão do Corpo de Deus 



São volvidos vinte e um annos depois 
que se verificou em Serpa, pela ultima 
vez, a procissão do Corpo de Deus. Era 
esta, como ao diante se verá, uma das 
cinco antiquíssimas procissões que a Ca- 
mará Municipal acompanhava e promovia. 

Procuremos descrevei a. 

Saía do templo do Salvador a imagem 
de S. Jorge em direcção á egreja matriz 
de Santa 'Maria, cerca da qual se orga- 
nisava em definitiva o religioso cortejo. 

De bota e espora, vistoso chapéu de 
bicos, calção e manto de velludo carme- 
zim: no braço esquerdo um pequeno es- 
cudo, e a lança reluzente na mão direita, 
— eilo, o lendário Santo batalhador, 
montando arrogante cavallo branco ajae- 
zado a capricho. 

As rédeas e aos estribos, quatro offi- 
ciaes mechanicos, para me servir agora 



da velha designação: dois barbeiros e dois 
ferreiros, ou então dois barbeiros e dois 
ferradores. 

Após o Santo o alferes e o pagem 
porta-bandeira, ambos a cavallo. Em se- 
guida as éguas e cavallos destado^ que 
as casas ricas forneciam, levados á mão 
e lindameiite ataviados com fitas de seda 
multicores, na cauda, na crina e na tes- 
teira. Atraz a confraria do Santíssimo de 
S. Salvador. 

A este cortejo se juntava, no átrio da 
egreja matriz, a confraria do Santíssimo 
de Santa Maria, que formava cora a do 
Salvador as duas alas da procissão. 

Em meio das irmandades eram condu- 
zidas as imagens de Jesus, Maria e José ('), 
cada uma em seu andor, e ao fim o Sa- 
cramento sob o pallío. 

Depois a Camará Municipal ostentan- 
do o vermelho estandarte onde a emble- 
mática Serpe auribrilha. Depois a phi- 
larmoníca e um numeroso acompanha- 
mento popular. 

A procissão, assim constituída, percor- 
ria o seguinte itinerário, ao cabo do qual 
se dissolvia: rua da Porta de Beja, rua 
da Misericórdia, rua dos Cavallos, Praça, 
rua da Cadeia Velha, e rua de Pedro 
Annes. 



Tão simples e modesta nos últimos 
tempos, a procissão de Corpus devia real- 
mente apresentar-se imponente e luzida, 
outr'ora, quando os oíficios ou classes se 
incorporavam no préstito com as respe- 
ctivas bandeiras e insígnias. 

O teor dos artigos 97.^, 98.° e gg.'' (-) do 
código de Posturas da Notável Villa de 



(1) Estas imagens pertenciam, e ainda perten- 
cem, á egreja de S. Paulo, mas saíam com o Sa- 
cramento da egreja matriz. 

(2) Também o art." 100.", que já publicámos, 
respeita á procissão de Corpus. 

Vid. o meu artigo «Danças populares do Bai- 
xo-Alemtejo» inserto em o n.° 2 da Tradição^ 
pag. 21. 



A TRADIÇÃO 



G9 



Serpa^ a que já me referi ('), pemiitte bem 
avaliar o que seria noutras eras a procis- 
são de que nos occupàmos. \'amos trasla- 
dar para aqui os interessantes artigos. 

07." — <tI)os JUí são ohfi^íiJos a aconi- 
paniuir as procissõts cia cantara com suas 
batuieiras (*), castellos e ensiiiias.» 

«Todo o ortelláo das ortas que são do 
couto da legoa para dentro e viver em 
as ortas das fregue/.ias cujos curas são 
obrigados a vir á procissão do Corpo de 
Dcos, serão obrigados como digo a acom- 
panhar sua bandeira e as procissõis da 
camará com suas ensinias de castellos 
de ram.os de frutas no tempo em que as 
ouver, e no outro com suas ortalissas em 
pao ou astia de nove palmos, direito e 
liso e outro sim todos os ofticiais de of- 
ficio mechanico desta villa serão obriga- 
dos conforme o antiguissimo costume, a 
acompanharem as tais procissõis e suas 
bandeiras, por si com suas próprias pes- 
soas não estando precizamente empedi- 
das e virão com seus castellos e ensinias 
em astia ou pao liso e direito de nove 
palmos ; e os mercadores, marseiros, 
sumbreireiros, tozadores, e tintureiros, 
serigueiros e sirieiros virão conforme o 
seu costume ás ditas procissõis por suas 
próprias pessoas ou de seus filhos maio- 
res de quinze annos, ou parentes em grão 
conhecido, cada um com sua tocha aseza 
de dois arates ao menos cada hua e de 
sorte que não seja ardida em mais da 
tersa parte, porque serão obrigados a re- 
formarem-na, sob pena de qualquer das 
sobreditas faltas nas ditas procissõis, o 
não cumprir com as ensinias e tochas na 
forma que dito he, pagar quinhentos reis 
pela primeira vez e pela segunda em do- 
bro de cadea; e os mercadores, marsei- 
ros, serieiros pagarão as penas em dobro, 
assim da primeira, como da segunda, 
como da terceira vez ; as quais procis- 
sõis se lhes declara serem as seguintes : 
a de S. Sebastião, a de S. Braz, a so- 



(1) Ibid. 

(2) As bandeiras, de variadas cores, tinham a 
forma de estandarte — segundo a tradição oral. 



iene do Corpo de Dci>.s, a de Santa 
Isabel, e a do Anjo ('}; e assim manda- 
ram se comprissem.i) 

i)H." — iiAcotnpaiilianiciito do bem avcn- 
tui ado São Jofirc.» Os ferradores, ser- 
ralheiros, ferreiros, cutillciros, barbei- 
ros e sangradores são obrigados por an- 
tiguissimo costume a acompanharem o 
bem aventurado S. Jcjrge na piíjcissão 
solene do (Lorpo de Deos a que o dito 
Santo asiste, os quais acompanharão 
por suas próprias pessoas em corpo, sem 
capas, com suas rodelhis e espadas nuas 
limpas conforme o antiguissimo costume, 
levando o dito Santo montado em bom 
cavallo de sella com dois pages ao me- 
nos bem vistidos e montados em bons 
cavallos de sella, e o que no dito acom- 
panhamento faltar não indo na forma so- 
bredita pagará de pena quinhentos réis 
e os juizes de seus oílicios que não leva- 
rem o dito Santo na forma que dito he 
pagará de pena dois mil réis de cadea 
que serão repartidos pelos que tocar del- 
les a pagar cada hu e assim mandaram 
se comprisse.» 

99.° — »Das maúmas («j dos lavrado- 
res. r> o Os lavradores das freguezias cujos 
curas são obrigados a vir á procissão do 
Corpo de Deos, virão por si ou por ou- 
trem com suas maúnças, na forma do 
antiguissimo costume, sob pena de pa- 
gar o que faltar quinhentos réis, e assim 
mandaram se comprisse.» 

M. Dias NU.^ES 



MEDICINA empírica 

Os nossos trabalhos d'investigação so- 
bre a medicina popular, ficariam incom- 
pletos se, ao lado dos processos místicos, 
que principiámos a descrever em o n.° 3 



(•) A procissão do Santo Martvr é, das cinco 
a única que se effectua ainda, aliás pobremente 
e sem caracter oííicial. As de S. Braz, Santa Isa- 
bel, e do Anjo, extinguiram-se ha longa data. 

{^) (£Maimça, ou mainça. Pequenino feixe d'es- 
pigas. 



70 



A TRADIÇÃO 



da nossa revista, não nos occiípassemos 
também da therapeutica empírica. 

O empirismo, o mais antigo de todos 
os methodos, appareceu naturalmente en- 
tre os primeiros homens que, ao senti- 
rem-se doentes, proc^uravam por instin- 
cto o meio daliviar seus soffrimentos. 

Durante muitos séculos reinou exclu- 
sivamente este methodo, — o que não é 
para admirar, dada o ignorância em que 
se estava acerca das causas e natureza 
das doenças. 

Só tarde, muito tarde, mercê do estudo 
anatómico e íísiologico do corpo humano, 
a medicina começou a ser uma arte exerci- 
da por forma consciente e reflectida. 

E' unicamente a partir dessa data, que 
a arte de curar merece o nome de me- 
dicina, porque até ahi consistia ella, ape- 
nas, num montão de formulas empiricas, 
empregadas perfeitamente ao acaso, e 
sem outro guia que não fosse o desejo 
d'açertar. 

E mister, todavia, confessar que tem 
grande importância o estudo do methodo 
empirico. No meio da serie infinita de 
remédios que o decorrer dos séculos 
tem vindo accumulando, «acham-se ás 
vezes» — como dizem Nothnagel e Ross- 
bach — «alguns dados preciosos que nos 
obrigam a ser reconhecidos para com 
este methodo.» (') 

Porisso, e porque os próprios erros e 
absurdos de que se acha eivada a the- 
rapeutica empirica devem ser registados, 
como documentos para a historia da me- 
dicina, aqui vimos inaugurar hoje a pre- 
sente secção, intimamente convencidos 
de que ella despertará verdadeiro inte- 
resse entre os leitores da Tradição. 



* 



Escrofuloso 

A escrofulose, conhecida vulgarmente 
pelo nome de escrofuloso ou alpórcas, é 



(•) Nothnagel e Rossbach: Nouveaux Elements 
de Matière Medicale et de Thérapeutique. 



— e com razão — uma das doenças mais 
temidas pelo povo. Quanto á sua natu- 
reza, está o publico muito longe de sup- 
pôr que ella é idêntica á tuberculose, 
como muito bem se demonstra em face 
das modernas doutrinas medicas. 

O escrofuloso, segundo a estreita con- 
cepção popular, representa apenas uma 
fraqueza do sangue, hereditária e tran- 
smissível pela amamentação. Para que 
uma creança adquira a terrível moléstia, 
diz a tradição, basta que uma só vez 
chupe o leite de mulher escrofulosa. — - 
Existe na villa de Serpa, e em muitas 
outras terras alemtejanas, o habito inve- 
terado de curar as escrófulas pela se- 
guinte forma: 

Nos mezes de Maio, Junho e Julho 
de cada anno, e durante os três primei- 
ros dias da lua cheia, vão os indivíduos, 
que se julgam affectados do escrofuloso, 
a casa da pessoa — geralmente mulher 

— dedicada ao caritativo mister de tra- 
tar as alpórcas. Ali, a curandeira, depois 
d'examinar o doente e de certificar-se 
que elle padece d'escrofulas, lança lhe 
no conducto auditivo externo d'ambos 
os lados, uma pequena porção d^um pó 
branco, sobre o qual expreme em se- 
guida erva moira, fresca e pisada, até o 
sueco encher os conductos. Os ouvidos 
são depois tapados com um pouco dal- 
godão em rama. 

Passados quatro ou cinco dias, tira-se o 
algodão e lavam-se os ouvidos com agua 
morna; e se o doente accusa dôr nalgum 
delles, introduz-se-lhe uma bola d'algodão 
embebida em óleo d'amendoas doces. 

Esta cura deve ser praticada, como 
dissemos, no cheio das luas de Maio, 
Junho e Julho, e em três annos succes- 
sivos. A cada doente é imposto o pre- 
ceito de tomar um purgante, três dias 
antes de começarem os curativos; e em- 
quanto dura o tratamento, precisa de 
guardar á risca o reL>;imen. Consiste o 
regimen em o doente não comer batatas, 
carne de porco, bacalhau, queijo d'ove- 
lha, alméce, peixe de pelle azul, figos, 
m.elão e pepino. 



A TRADIÇÃO 



71 



Tem ainda o povo por costume, untar 
as adenites escrofulosas com manteiga 
de vacca rançosa, crendo que esta sub- 
stancia go/a da propriedade de as fazer 
mirrar, evitando assim que ellas suppu- 
rem e abram para o exterior. 

Fm lòrno do p<) branco alraz referido, 
faz-se d'ordinario grande mvsterio. 

Ninguém sabe a sua composição! 

Alcançando eu, porém, em certa oc- 
casião e por especial favor, uma pe- 
quena quantidade d'esse pó, pude veri- 
ficar, pel«) aspecto e sabor, que se tra- 
tava do trivial sal de cosinha bem pul- 
verisado. 

— As classes populares, e mesmo al- 
guns individuos de posição mais elevada, 
depositam ainda lio)e extraordinária fé 
no tratamento que, em breves termos, 
acabámos dexpôr. E a prova, temo-la 
bem patente na larga clientela, que em 
geral rodeia qualquer especialista na arte 
de curar o escrofuloso. 

Ha poucos annos, em i885, falleceu 
em Moura uma mulher, chamada Maria 
Angélica Torres de Mattos, cuja fama 
na cura das aipórcas era tal, que ali con- 
corria gente de toda a parte, tanto de 
Portugal como de Hespanha. Forma- 
vam-se, nas diversas povoações, verda- 
deiras caravanas de doentes, que se di- 
rigiam a Moura afim de receberem a 
miraculosa cura. 

Consta-me até, que alguns médicos de 
Lisboa chegaram a vir expressamente a 
esta importante villa do Alemtejo, com 
o propósito dassistir ao maravilhoso tra- 
tamento! 

A decepção destes curiosos clinicos — 
se é que o facto se deu — devia real- 
mente ser enorme, ao deparar-se-lhes 
uma therapeutica tão fútil e fantástica. 

A maneira de tratar o escrofulismo 
conforme a descrição acima, apesar de 
largamente consagrada pelo uso, nada 
ha que scientificamente a justifique. 

Depois que a anatomia pathologica nos 
veiu dar a verdadeira noção da escrófu- 
la, querer combater esta pertinaz enfer- 
midade depositando nos ouvidos chloreto 



de sódio em pó c sueco d'erva moira, é 
simplesmente irrisório! 

Ainda mesmo encarada a questão pelo 
lado da fraqueza do sangue, a que o povo 
attribue a doença, por que mystico me- 
canismo poderiam as duas citadas sub- 
stancias eliminar do organismo as des- 
agrada\eis manifestações do escrofuloso? 
A insistência em tal processo de cura 
significa tão somente um dos innumeros 
prejuizos radicados no espirito publico, 
que ditlicilmentc veremos desapparecer. 

Ladislau piçarra. 



LENDAS & ROMANCES 

(HecolhtJos Ja traJicdo oral na provinda Jo rt/llemtejoi 



I 



I >- .Al5í,l*COS 

— Lá se apregoam as guerrns 
Entre França e Aragão; 

Ai de mim! que já sou velho, 
E as guerras me matarão; 
De sete filhas que tenho 
Nenhuma sahiu varão! 

— Pae. dae-me armas e cavallos, 
Que quero ir ser capitão. 

— Tendes um lindo cabello, 
F"ilha, conhecer-vos-hão. 

— Mandai o-hei a cortar, 
E aiarei-me um listrão. 

— Filha, tendes lindos olhos, 
Logo conhecer-vos-hão. 

— Ao sahir d'esta corte 
Eu os pregarei no chão. 

— Filha, tendes lindos peitos. 
Logo conhecer-vos-hão. 

— Inda ha-de haver um alfayate 
Que me faça um gibão, 

P'ra desapertar meus peitos, 
Mettel os no coração. 

— Filha, tendes lindo andar, 
Logo conhecer-vos hão. 

— Ha de haver um sapateiro 
Que faça botas de joelhão, 
P.ira quando fór a andar 
Me faça andar de moitão; 

E quando d'aqui me fôr 
D. Marcos me chamarão. 

— Madre mya, madre mya, 
Que me morro ja de amores, 
Que os olhos de D. Marcos 

São de mulher, que não de hombre. 



A TRADIÇÃO 



— Pois se tu o quer's saber, 
Trai o comli^o a ja?itar, 
Bota-Ihe cadeiras baixas, 
Para n'ellas se assentar — . 
D. Marcos, como discreto, 
Não deixou de suspeitar. 
Foi passando pelas baixas 
Nas altas se foi sentar. 

— Madre niya, madre mya, 
Que me morro já de amores, 
Que os olhos de D. Marcos 

São de mulher, que não de hombre. 

— Convidae-o vos, meu filho, 
P'r'a ir á feira passear. 

Que se ellc fòr mulher, 
As fitas se ha de pegar, 
Ç se elle homem fòr. 
As espadas se ha de lançar. 

— Oh I que tão lindas titãs 
P"r' ás senhoras se adornarem. 

— Ohl que bellas espadas 
Para na guerra lidarem. 

— Madre mya, madre mya, 
Que me morro já de amores, 
Que os olhos de D. Marcos 

São de mulher, que não de hombre. 

— Pois se tu o queres saber. 
Leva o comtigo a banhar. 
Pois se eile homem fór, 

As aguas se ha de lançar, 

E se elle mulher fòr. 

Muito bem se ha de escusar — . 

Tinha uma bota descalça, 

E outra por descalçar. 

Quando lhe veio por noticia 

Que sua mãe era morta, 

E seu pae a acabar; 

Que tinha seis irmãs orphãs, 

E as q'ria ir a amparar. 

— Montae vós, ó D. Marcos, 
Que vos quero acompanhar. 

— Sete annos andei na guerra 
Sem ninguém me conhecer; 
Dêem cá uma almofada 

A ver se inda sei coser. 



(Elvas I. 



II 
r>. >i:artinlio 

f Variante do romance anterior) 

— Ohl que guerras são armadas 
Nas costas do Maranhão! 

— Oh, filhai estou muito velho, 
Não as posso vencer, não. 

— Dae-me armas e cavallos, 
Que eu irei por capitão. 

— Tendes as mãos muito finas, 
Filha, conhecer-vos-hão. 



— As minhas mãos, ó meu pae. 
Todo o remédio terão. 
Mandarei fazer 'mas luvas, 
D'ellas nunca sahirão; 
Dae-me armas e cavallos, 

Que eu irei por capitão. 

— Tendes os peitos mui grandes, 

Filha, conhecer-vos-hão. 

— Os meus peitos, ó meu pae. 
Todo o remédio terão, 
Mandarei fazer 'ma farda 
D'ella nunca sahirão; 
Dae-me armas e cavallos, 

Eu irei por capitão. 

— Tendes cabellos mui grandes, 

Filha, conhecer-vos-hã'^. 

— Os mens cabellos, meu pae. 
Todo o remédio terão, 
Dae-me cá uma tesoira, 

Vel os hão cahir no chão ; 
Dae-me armas e cavallos 
Que eu irei por capitão. 

— Dou-te armas e cavallos, 
E dpu-le a minha benção. 

— O minha mãe, minha mãe. 
Os olhos de D. Martinho 

A mim me matarão, 

Todos os feitos são de homem, 

Os olhos de mulher são. 

— Pois se o qaer's exp'rimentar, 
Convida-o para jantar, 

Que se elle mulher fòr, 

Nas baixas se ha de assentar. 

— Que bellos assentos baixos 
Para ás damas oftertar! 

— Que bellos assentos altos 
P'ra D. MartinliO se assentar! 

— O minha mãe, minha mãe, 
Os olhos de D. Martinho 

A mim me matarão, 

Todos os feitos são de homem. 

Os olhos de mulher são. 

— Pois se o quer's exp'rimentar, 
Leva-o a enfeirar. 

Que se elle mulher fôr, 
A's, fitas se ha de agarrar. 

— O que bellas fitas verdes 
Par;i as damas adornar ! 

— O que bellas espadinhas 
P'r;) D. Martinho brigar ! 

— O minha mãe, minha mãe. 
Os olhos de D. Martinho 

A mim me matarão, 

Todos os feitos são de homem. 

Os olhos de mulher são. 

— Pois se o quer's exp'rimentar, 
Convida-o para nadar. 

Que se elle mulher tôr, 
Elle se ha de acobardar. 

— Nade o capitão primeiro, 
Pr'a me poder ensinar ; 
Quem quizer casar comigo 



A TRADIÇÃO 



78 



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VERDE CARACOL 
(DESCANTE) 







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A TRADIÇÃO 



Vá ao palácio real. 

Sou filha de D. Martinho, 

Neta de D. Guiomar. 



(ElvasK 

((íonliHÚii). 



A. Thomaz pires. 



J/Iodas-estribilhos alemtejanas 



Verde caracol 

Verde caracola. 
Minha rica pomba ! 
Kii ando comtigo 
Do sói para sombra. 

Do sói para sombra, 
Da sombra pró sola. 
Minha rica pomba, 
Verde caracola ! 

Sotas. — I 'erde caracol é propriamente 
um descante, mas também se adapta aos 
bailes de roda e aos pares., cuja descri - 
peão faremos dentro em breve, na se- 
quencia do nosso artigo inserto em o 
n." 2 da Tradição sob a epigrapiíe Dan- 
ças papiílares do Baixo Alcmtejo. 

— Quanto a linguagem, devemos notar 
a addição do a breve ás palavras caracol 
e sói, no final dos versos i.°, da pri- 
meira quadra, e 2." e 4.° da quadra se- 
gunda. 

M. Dias NUNES. 



ANTIGOIDADES PORTOGUEZAS 

O quft é privilegio e o que é eygreia privilegiada 



Privilegio: tanto quer dizer como ley 
apartada, que he feita assi naadamente 
por prol e por honra d'alguns homês, ou 
íogares, e nom per todos cumunalmente. 

E porque a eygreia he cousa de Deus 
segundo diz en a ley ante desta, por 



onde ha privilégios mais que as outras 
cousas des homês. 

E assi naadamente en estas cousas ; 
que non de seer apremada de nenhum 
preito, nem d'outro embargo, nem devem 
en ela nem em seus cimeterios Julgar os 
preitos segraes, maiormente os que fo- 
rem de justiça criminal. 

Ca será contra rrazom e que cousa de 
juzgar os omês de morte ou de lesion en 
o lugar que he estabeleçudo pêra servir 
hya Deos, e pêra faserlhy hy obras de 
piedade, 

E outro ssy nom devem hy a faseer 
merchandia. nem devem assoterrar mor- 
tos dentro en ella, segundo já dectermi- 
namos en o titolo dos sacramétos. 

E nom devem h}^ a estar com os cle- 
rygos omcs leigos en o coro quado dizem 
as oras mormente e a missa. E esto he 
porque as possam dizer mais sem em- 
bargos e com maior devoçom : nem de- 
vem os leigos, nem as molheres, a estar 
derrodor do altar quãdo diserem a missa; 
mais podem estar pelos outros Íogares 
da eygreya, os barões a hua parte, e as 
molheres a outra. 

Outro ssy nem hua molhe r nom se 
deve achegar a o altar, nem servir o clé- 
rigo mentre disser a missa; nem devem 
a estar a as oras delas gridizelas do al- 
tar adeente : pêro quãdo quizerê comu- 
gar e fazer oraçom, ou oferecer algua 
cousa, bem se pode chegar atá acerca do 
altar, 

Otro sy nom debe pasar en las casas 
de la eygreia que se teem com ella e com 
suas quites, em que teem esas cosas en 
guarda. E ainda som estas outras fran- 
quezas; que as casas e os erdamentos 
que lhes forem dados ou mandados ou 
vendudos en testamentos dereytamente, 
pêro nom fosse apoderados delles, gaa- 
nharon o senhorio e o dereyto que en 
elas avia aquel que as mandou ou ven- 
deu, ou deu, de maneira que as pode a 
eygreia demandar por suas a quem quer 
que as tanha. E esto privilegio nom am 
eygreias tam solamente mays ainda os 
moesteyros e os speritaes, e os outros 



A TRADIÇÃO 



75 



logares religiosos que sem feyios a ser- 
viço de Deos. 

(Das I.eys que D. Sancho I mandou tomar 
por apontamento) 

Galés, galeões e naus 

As primeiras gales que houve em Por- 
tugal tinham vinte metros de comprido. 

No século XVl construiram-se os pri- 
meiros galeões, que mediam sessenta 
metros de comprido. 

Os tripulantes das galés eram então 
escolhidos entre os pescadores e barquei- 
ros ; mas depois quando principiou a co- 
dificação das leis, foram obrigados os cri- 
minosos a prestar tal serviço Esta pena 
era por toda a vida, ou temporária, con- 
forme o crime praticado. 

A primeira nau que houve em Portu- 

f[al, foi mandada construir por D. Af- 
onso III quando pretendeu conquistar o 
Algarve. 

CoKKÊA CABRAI, 



CRENÇAS & srPEKSTIÇÕES 



Broxas e bruxedos 

Não é raro ouvir dizer, entre o povo, 
que tal creança está embruxada. É não 
admira que o facto se repita com fre- 
quência, pois que é crença vulgar e muito 
espalhada, gostarem as bruxas, como já 
referimos, dexercer a sua arte maléfica 
sobre a innocente infância. 

Quando apparece uma creança rachi- 
tica e enfezada, e que aos circumstantes 
se afigura como sendo mais um triste 
caso de bruxaria, para libertar a infeliz 
victima do terrivel maleficio, adoptam-se 
algumas praticas extravagantes, que pas- 
sámos a descrever. 

I — Chamam-se á casa onde se encon- 
tra a creança embruxada, um Manuel e 
uma Maria. Colloca-se no meio da dita 
casa uma tripéça, e, em torno desta, 



sentam-se no chão o Manuel e a Maria, 
ficando Manuel dum lado da tripéça e 
Maria do lado opposto. 

Em seguida, Manuel, pegando na crean- 
ça, benze-a e diz: 

— «Fulano! (o nome da creança) quem 
t'encalhou ?» 

Maria responde : 

— a Uma alma perdida que por aqui 
passou.» 

Torna Manuel: 

— «Quem tcncalhou, t'ha-de desenca- 
lhar. Em nome de Deus e da \'irgem 
Maria. Toma lá, Maria. i. 

Manuel, ao proferir as ultimas pala- 
vras, passa a creança por Rebaixo da tri- 
péça para as mãos de Maria, que diz : 

— «Deita cá, Manuel. i 

A seu turno, Maria, com a creança nos 
braços, excalama: 

— «Fulano I (o nome da creança) quem 
tencalhou ?» 

Responde Manuel : 

— «Uma alma perdida que por aqui 
passou.» 

Accrescenta Maria : 
— «Quem tencalhou, t'ha-de desenca- 
lhar. 

Toma lá, Manuel. • 

— «Deita cá, Maria» — diz Manuel, re- 
cebendo a creança das mãos de Maria, 
egualmente por debaixo da tripéça. 

A creança tem de passar assim nove 
vezes por debaixo da tripéça ; e a cada 
passagem é necessário que sejam pro- 
nunciadas as mesmas palavras acima 
mencionadas. 

No fim das nove passagens, rezam-se 
cinco Padre-nossos, cinco Ave-Marias e 
cinco Glorias-patri; e estas orações offe- 
recem-se a S. Cypriano, para que livre 
aquclla creança do mal que a afHige. 

Tudo isto tem d'e\ecutar-se durante 
nove dias successivos. E só assim a crean- 
ça conseguirá restaurar a saúde. 

2 — Uma outra pratica, que o povo usa 
para desembruxar as creanças, consiste 
no seguinte : 

Duas pessoas, cujos nomes sejam tam- 
bém Manuel e Maria, fazem uma pepia 



76 



A FRADIÇAO 



(corôa'! de trovisco Ç). Essa pepia é le- 
vada a uma encruzilhada, pela uma hora 
da noite ; e ali os pães da creança em- 
bruxada pegam na pepia e manteem-na 
em posição vertical. 

Em seguida, Manuel e Maria, postan- 
do-se frente a frente e deixando de per- 
meio a referida pepia, passam a creança 
airavez d este misterioso circulo, nove 
vezes. 

A creança passa, é claro, dos braços 
de Manuel para os de Maria, e vice-ver- 
sa ; proferindo as duas caridosas creatu- 
ras, no momento de cada passagem, as 
mesmas palavras que mencionámos na 
pratica antecedente. 

Findas as nove passagens, o Manuel e 
a Maria desmancham a pepia e espalham 
os destroços pela encruzilhada. 

E, a seguir, rasgam com a mão es- 
querda uma camisa da creança e lançam 
os farrapos no mesmo sitio. 

Depois d'esta operação, regressam to- 
dos para suas casas, convencidos que sal- 
varam aquella pobre victima, do horrível 
bruxedo. E' necessário, porém, que ao 
regressarem, nenhuma das pessoas olhe 
para traz, porque se alguém tem a ousa- 
dia de voltar a vista para o caminho per- 
corrido, já sabe que mão occulta lhe vi- 
bra estrondosa bofetada. 

E' a própria bruxa, auctora do malefí- 
cio em questão, que parece estar á es- 
preita, para exercer a sua vingança. 



(Brinches). 



FILOMATICO. 



CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS 



o lobo e as três fortunas 

Era duma vez um lobo que, ao levan- 
tar-se um dia, pela manhã, espreguiçou-se 
e deu três espirros, dizendo: «Oh! que 



(') A virtude do trovisco proveiu, segundo a 
tradição, de ser a este arbusto que Nossa Senhora 
se abrigou por occasião d'uma grande trovoada. 



tres fortunas que eu hoje vou ter ! ... » 
Poz-se a caminho, e passado um oiteiro, 
viu dois carneiros guerreando. Quando 
elle diz lá comsigo: «Cá está a primeira 
fortuna. E esta não é má.» Chegou ao 
pé dos carneiros, sem elles sentirem, e 
disse-lhes: 

— «Que diabo de desordem é essa? 
então aqui já náo ha rei nem roque?! 
pois esperem que eu já os castigo...» 

Os carneiros, vendo que já não po- 
diam fugir-lhe, responderam: 

— «O' senhor lobo, nós bem sabemos 
que você nos mata e nos come; mas 
primeiro, tire-nos lá aqui duma duvida, 
para ver qual de nós tem razão.» 

— «Então que duvida é essa?» — per- 
guntou o lobo. 

— «Ora,» — diz um dos carneiros — 
«é que eu digo que a pastagem aqui para 
este lado, é do meu dono, e para aquelle 
lado, é que pertence ao dono do meu 
camarada; e elle diz que não, E, para 
ficarmos sabendo quem tem razão, pe- 
dimos-lhe que veja se este marco está 
certo com aquelle que está além adiante.» 

O lobo, não desconfiando da malicia 
do carneiro, aproximou se do marco para 
decidir a questão. Poz-se a olhar muito 
attento para os marcos, a ver se estavam 
no endireito (direcção) um do outro, 
quando uma forte pancada o fez cair 
por terra, sem sentidos. Tinham sido os 
carneiros, que, apanhando o lobo dis- 
traído, correram ao mesmo tempo para 
elle e deram-lhe uma valente marrocada 
(marrada). 

O desgraçado do lobo, quando tornou 
a si, lá se levantou com muito custo e 
marchou, dizendo: «Se as outras fortu- 
nas forem como esta, acabam de matar- 
me. E de mais a mais, havendo já dois 
dias sem comer nada senão matto! 

Ia assim o lobo a lamentar a sua sor- 
te, quando, erguendo a cabeça, avistou, 
no meio dum valle, uma égua, já muito 
velha e magra, e uma filha que andavam 
pastando. Mal as avistou, disse logo: 
«Estas é que não m'escapam: porque a 
mãe é velha e está magra, e a filha é 



A TRADIÇÃO 



77 



ainda muito nova para me poder fazer 
mal. Mas, cm todo o caso, não perco 
nada, matando a mãe, ainda assim, ape- 
sar de velha, ella não me dè alguma 
j'eutosa (parelha de coices).» O lobo loi- 
se chegando com toda a cautella para ao 
pé da égua, e disse lhe: 

— "O amiga ! eu lenho íome. . . e en- 
tão, tem paciência, mas vaes morrer.» 

Respondeu-lhe a égua: 

— «Olha lá! eu sou velha, tenho a 
carne dura, e alem disso estou magra. 

Mas se tu quizesses, fazias-me um la- 
vor, e eu, em paga delle, dava-te minha 
tilha.» 

— «Kntão que favor c esse?» — per- 
guntou o lobo. 

— «Ora, c tirares-me um cravinho pas- 
sado, que tenho numa pata e que não 
me deixa andar.» 

— a Vá lá. . . isso pouco custa.» 

A égua assim que o apanhou a geito, 
deu-lhe uma parelha de coices tão grande 
que lhe escangalhou os queixos, e mar- 
chou com a h^ha para casa do dono. 

O lobo, ainda com as dores, metteu- 
se pelo valle abaixo, e encontrando uma 
porca com bacorinhos, disselhe: 

— «O porca! tem paciência, mas eu 
ando com muita fome, e vou comer os 
teus filhos.» 

— «O senhor lobo!» — respondeu a 
porca — «eu não me importo que me 
coma os filhos, mas primeiro vamos ba- 
ptisa-los.» 

— «Então como c que isso se faz?» 
— perguntou o lobo. 

— «Olhe!» — diz-lhe a porca — «você 
sobe para cima do bocal daquelle poço 
e eu fico em baixo para lhos ir dando 
dum em um; e você depois vai mergu- 
Ihando-os e comendo-os.» 

— «Bem, pois então vá lá.» 

O lobo subiu para cima do bocal, e a 
porca assim que lá o agarrou, deu-lhe 
uma trombada que o fez cair para den- 
tro do poço, e fugiu com os filhos. 

Elle, como poude, lá conseguiu sair do 
poço e continuou a sua jornada. 

Mais adiante, encontrando uma vacca 



com uma corda atada a uma perna, disse 
comsigo: «Ksta agora é que não mes- 
capa de maneira nenhuma, porque eu 
agarrome á corda, enleioa, a vacca cai 
e eu como-a.» KíTectivamente o lobo 
agarrou-se á corda, mas a vacca assim 
que o sentiu, desatou a correr, arrastan- 
do-o pelo chão. Quando a corda se par- 
tiu, o lobo levantou-se em misero estado, 
e disse lastimosamente: «Ora, quem te 
manda, lobo, ser marcador d'exlrêmas, 
alveitar de bestas e baptisador de por- 
cos ? E por fim, se a corda se não parte 
ou o nó se não desata — ir morrer a casa 
do dono da vacca !» 



VI 



A morto de três gallegos 

Numa occasião vieram ao Alemtejo 
fazer azeite, três gallegos, que combina- 
ram voltar )untos, á sua terra ('). 

Assim que cá chegaram, foi cada um 
para o seu lagar ; mas como os lagares 
não acabassem a moenda ao mesmo tem- 
po, succedeu que o mestre do lagar que 
fechou primeiro, foi a um dos outros dois 
lagares, e disse para o lagareiro: 

— «O camarada! cinton queres algu- 
ma cousja lá para a terra ! Sce quisjcres, 
eu martxo para lá ámanhan.» 

Respondeu o outro: 

— «Oh diabo! einton nós non combi- 
námos boliar juntos r!» 



(') Os mestres de lagar d'azeite ou lagareiros, 
eram antigamente, nesta região, indivíduos vin- 
dos das nossas províncias do Norte. Ainda hoje 
se vêem desses homens em vários lagares da 
margem esquerda do (Juadiana. 

O mister de lagareiro, entre os habitantes da 
Beira, era — segundo a tradição — tão estimado, 
que os pães, ao lançarem a benção aos filhos, di- 
ziam: «Deus te faça arcebispo ou lagareiro no 
Alemtejo.» 

Na boca do povo — e ainda a propósito de gal- 
legos — corre a seguinte quadra : 

«O gallego lá da Beira, 
Baptisado na caldeira, 
(>om vergonha d'ir á missa, 
Com sapatos de cortiça.» 



78 



A TRADIÇÃO 



— «Pois é herdade, mas como sçabes, 
ficando eu cá, fásço mais despèsja, e eu 
bim para ganhar — e non para gastar.» 

— «Pois scim, mas olha: sce queres, 
ficas i\^u\ comigo, e eu dou-te de comer 
e dormir.» 

— «Pois bem, nêsce cásjo fico.» 
Passados dois dias, fechou também 

aquelle lagar, e em seguida marcharam 
ambos os"^ gallegos caminho do lagar, 
onde se achava o terceiro gallego. Diri- 
gindo-se a este, participaram-lhe que es- 
tavam de marcha para a terra. Mas elle, 
que não queria ficar só, disse aos dois 
camaradas: 

— «Fiquem mais três ou quatro dias, 
até eu acabar; eu lhes dou de comer, e 
dormimos aqui todos.» 

Os outros dois camaradas acceitaram 
a proposta, e ali se conservaram até fe- 
char o lagar. 

Depois, puzeram-se os três gallegos a 
caminho, quando o mais velho diz para 
os outros: 

— «O' rapazes! nós bâmos fàsjer uma 
cousja :» 

Perguntam os outros : 

— «Einton o que é, camarada?» 

— «py non entrarmos em poboasções, 
ainda ascim, nalguma estalagem, os la- 
drões non sçaiban que nós lebâmos di- 
nheiro. E einton, o melhor é dormirmos 
scempre no campo.» 

— «E' herdade, tem rasjão» — respon- 
deram os dois camaradas. 

Como a jornada era grande e o pão se 
acabou ao fim de oito dias, os gallegos 
passando por umas amoreiras carregadas 
de fructo já maduro, subiu cada um para 
a sua arvore, afim de saciarem a fome, 
comendo amoras. Nesse mesmo dia, es- 
cureceu-se-lhes num escampado (descam- 
pado i, onde havia três azinheiras muito 
grandes. Diz o mais velho: 

— «O' rapásjes! o melhor é sçubir- 
mos cada um para scima da sçua asji- 
nheira por causja dos bitxos. 

Etfectivamente, cada um subiu para 
cima da sua azinheira; mas dahi a pe- 
daço chegou uma quadrilha de ladrões, 



que se foi pôr debaixo da azinheira do 
meio. E estenderam uma manta no chão 
para contarem o dinheiro que tinham rou- 
bado esse dia. 

Quando se ia principiar a contar o di- 
nheiro, diz o capitão para um dos ladrões : 

— «O' fulano! acende lá uma fogueira 
para se ver melhor.» 

Acendeu-se a fogueira, e como era de 
palha de centeio, desenrolou-se uma gran- 
de chama e uma enorme fumaceira, a 
ponto que o pobre gallego, que estava 
em cima da azinheira, teve de começar 
a mecher-se. Os ladrões, ouvindo baru- 
lho em cima da arvore, olharam e viram 
o gallego todo afflicto. Mas não lhe per- 
doaram ! Obrigaram-no a descer, apa- 
nharam-lhe o dinheiro e depois mata- 
ram-no. 

Nesta occasião, diz um dos ladrões: 

— «Caramba ! Já havia muito tempo 
que não via um diabo com o sangue tão 
negro ! » 

Ouvindo isto, respondeu um dos outros 
gallegos: 

— «Pudera! não ha de ter o sçangue 
negro, sce elle comeu amoras ! . . . » 

Os ladrões olhando para a azinheira 
donde vinham estas palavras, viram ou- 
tro gallego, que obrigaram da mesma 
forma a descer, para o roubarem e ma- 
tarem. 

Quando o estavam matando, diz um 
outro ladrão : 

— «Este diabo morreu por falar.» 

— «Por isco eu» — diz o terceiro gal- 
lego — «estou aqui muito caladinho.» 

— «Olá!» — disseram os ladrões — 
«você também ahi está?... Pois então 
venha cá para baixo, que lhe queremos 
também fazer as contas.» 

O pobre do gallego não teve mais re- 
médio senão descer da azinheira, e os 
ladrões fizeram-lhe o mesmo que tinham 
feito aos outros dois. 



(Da tradição oral) 

(Brinches). 



António ALEXANDRINO. 



A TRADIÇÃO 



79 



PROATICTJOS E PTCTOS 

(Continuação) 
XXIII 

Sogra, nem de pao á porta. 

O pae imprudente faz o filho desobe- 
diente. 

XXV 

Quem bem faz, pra si faz. 

XXVI 

Ruim c a gallinha que não esgatanha 
pVa si. 

XX\"II 

Quem se veste de ruim panno, ves- 
te-se duas vezes ao anno. 

XX\"III 

Boccado comido não grangeia amigo. 

XXIX 

Quem não é pra cavandellas, não se 
mette n'ellas. 

XXX 

Nem todo o matto é ore^^os. 
XXXI 

Pela linha vem a tinha e a sarna ás 
cabras. 

XXXII 

Se queres ver o teu corpo, mata um 
porco. 

XXXIII 

Agoa fervida alimenta a vida. 

XXXIV 

Vacca chiquita^ sempre parece novita. 



XXXV 

Quando não ha lombo, linguiça como. 

XXXVI 

Arvore ruim não a queima a geada. 
XXXMI 

Coa vontade de ter stiimaficos, metto 
os meus pés em boccas de cântaros. 

XXXMII 

Trovões em Janeiro, searas de quar- 
teiro. 

XXXIX 

Paschoa em Março, ou fome ou mor- 
taço. 

XL 

Anno de gamão, anno de pão. 

XLI 
Quem bate co'a mão fica com quinhão. 

XLII 

Anno bissexto, palha e trigo dentro 
d'um cesto. 

LXIII 

Natal ao domingo, vende os bois e 
compra trigo. 

XLIV 

Natal á segunda feira, alarga a eira; 
e depois, vende o trigo e compra bois. 

XLV 

Quando te vires morto, acolhe-te ao 
porco (ou ao hortoi. 



(Da tradição oralj 

Serpa. 



(Continua) 
CASTOR. 



80 



A TRADIÇÃO 



BIBLIOGRAPHIA 



Degeneração e degenerados na sociedade, 
pelo Doutor F. Ferraz de Macedo. — O nosso 
mui respeitável amigo e sábio anthropoloí^o, Se- 
nhor Doutor F. Ferraz de Macedo, uma das mais 
fulgentes glorias da sciencia portugueza, deu ul- 
timamente á estampa — creio que a propósito 
do já celebre crime do Bigode — um precioso 
opúsculo intitulado Degeneração e degenerados 
na sociedade (ensaios de investigações anthro- 
pologicas, segundo os modernos processos scien- 
tirtcos). 

A superior competência do auctor em assum- 
ptos d'esta Índole, aos quaes o illustre homem de 
sciencia vem consagrando desde longos annos 
toda a prodigiosa actividade do seu cérebro, dis- 

f>ensa-nos bem de encarecer o mérito io traba- 
ho recentemente publicado. Basta tão só recor- 
dar, que Degeneração e degenerados na socie- 
dade é uma producção do mesmo espirito lumi- 
noso e profundo que dotou a sciencia anthropo- 
logica com essa obra magistral que se chama 
Crime et Criminei. 

D'aqui endereçámos ao nosso presadissimo 
amigo Senhor Doutor F"erraz de Macedo, intimo 
e cordial agradecimento pela olTerta do exemplar 
com que nos honrou. 



As mouras encantadas e os encantamentos no 

Algarve, por Francisco Xavier d'Alhavde Oli- 
veira. — O erudito auctor dos Contos infantis^ 
Senhor Doutor Athayde d'01iveira, teve a ama- 
bilidade de offertar-nos o seu excellente livro 
As mouras encantadas e os encantamentos no Al- 
gane. — E' um bello trabalho de investigação, 
reflectido e consciencioso, largamente subsi- 
diário dos estudos mythographicos, infelizmente 
tão descurados entre nós. 
Muitos agradecimentos. 



ies livres d'or de Ia science. — A importante 
livraria-editora Schleicher Frères, de Paris, ini- 
ciou ha próximo de um anno a publicação de 
uma bibliotheca litteraria de vulgarisação scien- 
tifica, cujos volumes obedecem ao titulo geral 
de Les livres d'or de la science. 

Em França, como em muitos outros paizes, 
tem a nova bibliotheca alcançado um brilhante 
successo, graças aos escolhidos assumptos dos 
livros d ouro., todos interessantíssimos, e graças 
ao primor da edição alliado á modicidade do 
preço. 

Eis os nomes dos livros vindos a lume : Le 
Panorama des Siécles, por J. Weber; Les Races 
Jaunes: Les Celestes, \)or Kámoná Plauchut; La 
Photographie de Vlnvisible, les Tiayons X, por 



L. Aubert; Histoire et role du 'Boeuf dans la 
Civilisalion, por E. Chester; La Prehistoire de 
la France, por Stéphane Servant; La Vie Mys- 
terieuse des Mers., por Emile Deschamps; La Vie 
d'un Tliéàtre, por Paul Ginisty ; Tableau de 
V Histoire littéraire du Monde., por Frédéric Lo- 
lié ; 'Tour devenir Médecin, pelo Dr Michaut ; 
Les Microbes et la Mort, pelo Dr. J. de Fon- 
tenelle; Les Feux et les Eaux, por M. Gri- 
veau. 

Cada volume in-i8.", de cerca de 200 paginas, 
impresso em óptimo papel e adornado de ex- 
plendidas gravuras, vende-se por um franco na 
referida livraria-editora, rue des Saints Peres, i5, 
Paris. 



Portvgalia. — Assim se denomina uma luxuo- 
sa publicação trimestral, que acaba de ver a 
luz no Porto sob a directoria dos Senhores 
Ricardo Severo, Rocha Peixoto e Fonseca Car- 
doso. 

A Portvgalia, «será um Archivo Nacional de 
materiaes para o estudo do povo portugue:^, mo- 
nographias, de inquérito a toda uma collectivi- 
dade desde as suas origens, considerando o in- 
dividuo, as raças, os povos, na sua natureza in- 
tima e modos de ser, usanças, civilisaçóes, his- 
toria . . » 

O primeiro numero, que temos presente, in- 
serindo numerosas gravuras intercaladas no texto, 
é collaborado pelos distinctos publicistas Senho- 
res Doutor Adolpho Coelho, Alberto Sampaio, 
Duarte Silva, Fonseca Cardoso, Ferreira Lou- 
reiro, Goltz de Carvalho, Martins Sarmento, Pe- 
dro Fernandes Thomaz, Ricardo Severo, Rocha 
Peixoto e Santos Rocha. 

A Portvgalia encontra-'se á venda na «Livra- 
ria Chardron», do Porto. 



Revista Branca. — Continua a sair com a 
maior regularidade a Revista Branca, primoroso 
quinzenário redigido por Caiei, a insigne escri- 
ptora a quem a litteratura portugueza deve, en- 
tre outros livros de subido valor. Madame Ré- 
nan e oA Filha do João do Outeiro 

A T^evista Branca, que muito particularmente 
recommendàmos aos nossos leitores, assigna-se 
na rua dos Prazeres, n." 87. Lisboa. O preço da 
assignatura por anno é i^póSo réis. 



Boletim da Beal Associação dos Architectos 
Civis e Archeologos portuguezes. — RecebemoS 

os n."' 3 e 4 {'i." série) d'esta notabilissima pu- 
blicação, que deveras agradecemos. 

D. N. 



^uuo I — IV. ti 



SEBFá, Junho de 1899 



H^ii<' I 



Editor-adininistrador, Josf Jeronymo da Coita Bravo Je 
TypoRrapliia de AJolpho d< Mendonça, Kua do (, 



A TRADIÇÃO 

REVISTA WENSAL DETHNOGRflPHIfl PORTUGUEZA 



\^\KECJORES: — L ADIS L AU PIÇARRA e M. DIAS NUNES 



O elemento árabe na linguagem dos pastores 
alenitejanos 



K' bem sabido, como da conquista dos 
árabes e da sua longa permanência na 
Península, particularmente na parte me- 
ridional, ficaram muitos vestigios no as- 
pecto, nos hábitos, nas industrias locaes 
e na lingua do nosso povo. Quanto á lín- 
gua, porém, aquella ínHuencia limitou-se 
em geral a enriquecer o vocabulário. A 
grammatica ficou latina ou antes latino- 
rustica, sem modificação sensível. A ín- 
dole das duas línguas, aquella de que já 
usavam os conquistados e a que traziam 
comsigo os conquistadores, era demasia- 
do diversa para que se podessem pene- 
trar profundamente. 

A linguagem dos povos da Península 
ficou, pois, intacta ou quasi intacta na 
sua estructura intima, e apenas superfi- 
cialmente se enriqueceu de novas pala- 
vras. E mesmo na adopção destas novas 
palavras se deu uma circumstancia notá- 
vel. São raras, como já indicaram En- 
gelmann e Diez, as palavras abstractas, 
hespanholas ou portuguezas, de origem 
árabe. Os termos, que designam paixões, 
sentimentos, modos de ser internos do 
espirito ou da alma, são, com raríssimas 
excepções, de origem latina, quer dizer, 
que já se usavam antes da conquista. 
Parece que dominados e dominadores fi- 
caram durante séculos moralmente sepa- 
rados e aífastados. Conservando uma re- 
ligião distincta, affeições e aspirações di- 



versas, os povos dominados pensavam no 
seu velho e rude idioma, e apenas apren- 
deram as palavras necessárias para se en- 
tenderem com os seus novos senhores e 
amos. 

Peio contrario são frequentes as pala- 
vras concretas de origem árabe. Nomes 
de impostos, de cargos civis ou militares, 
introduzidos pelos que exerciam a aucto 
ridade; designações de peças de vestuá- 
rio e de objectos de uso commum ; ter- 
mos de sciencia, ou das artes e officios 
em que os árabes eram peritos, abundam 
nas línguas da Península. Com os novos 
objectos e as novas profissões vieram na- 
turalmente os seus nomes. E estes ter- 
mos são particularmente frequentes n'a- 
quellas profissões ou industrias a que os 
árabes mais se dedicavam. Assim, os 
árabes eram peritos constructores ; e nos 
officios de pedreiros e carpinteiros ha 
muitos termos da sua lingua, a começar 
pelo de alvcnel ou alveiicu, com que na 
nossa provincia ainda se designa o pró- 
prio pedreiro. Os árabes eram cuidado- 
sos horticultores; e na linguagem dos 
hortelões ha muitas palavras que d'elles 
nos ficaram, como é, para dar apenas 
um exemplo, o nome da conhecida e ty- 
pica Jiora da horta alemtejana. Poderia 
multiplicar estas indicações, se nos não 
affastassem do assumpto especial. 

Mais que nenhuma outra, talvez, a 
profissão de pastor foi seguida e respei- 
tada entre os árabes. Como os outros 
povos semitas, os árabes eram tradicio- 
nalmente pastores ; pastores de tempos 



82 



A TRADIÇÃO 



immemoriaes na sua remota península 
natal ; pastores no norte cie Africa, don- 
de, misturados com os berbeies, passa- 
ram ás nossas terras. Nada mais natural, 
pois, do que encontrarmos um grande 
numero de termos de origem árabe na 
linguagem profissional do pastor alcmte- 
jano ; por isso que os próprios árabes se 
dedicavam nos velhos tempos da domi- 
çáo á guarda dos seus gados; e os ricos 
senhores árabes ensinavam e impunham 
aos seus servos mosarabes os nomes e 
termos da sua lingua. Esta abundância 
resalta das seguintes notas acerca das 
palavras empregadas pelos pastores, no- 
tas tomadas principalmente no termo de 
Serpa, e, receio bem, muito incompletas. 
Pode haver, porém, um certo interesse 
em as publicar, porque, de um lado parte 
doestas palavras ou faltam ou vêem mal 
definidas nos nossos Diccionarios: e de 
outro, tendo resistido intactas muitos 
séculos, se vão obliterando neste nosso 
tempo, em que tudo se transforma e gasta. 

Comecemos pela designação dos pró- 
prios pastores. 

^{abadão é o pastor chefe, a cargo de 
quem está a fiscalisação e inspecção de 
todos os rebanhos de gado lanigero do 
mesmo dono. l m grande lavradoí , po- 
dendo possuir alguns niMhares de cabe- 
beças, divididas em numerosos rebanhos, 
tem ao seu serviço um único rabadão. 
A palavra rabadan é de origem árabe, e 
derivada, segundo admitte Dozy, de rabb 
addlian (o dono ou chefe das ovelhas ou 
carneiros). Bluteau, que a não inclue no 
seu Vocabulário, cita-a no emtanto como 
sendo hespanhola: «a que o«i castelhanos 
chamam rabadan.» E' porém, perfeita- 
mente portugueza, corrente em todo o 
Alemtejo, pelo menos no districto de Bcyã. 
E' de notar que a palavra vem mal defi- 
nida nos nossos Diccionarios modernos, 
pcH- exemplo, no de Moraes. Pelo con- 
trario, o velho Diccionario hespanhol de 
Covarrubias dá-lhe exactamente o senti- 
do que ainda hoje tem no Alemtejo. 

Maioral é o primeiro pastor de cada 
rebanho — tantos maioraes quantos re- 



banhos. A palavra nada tem de árabe, 
como é fácil de ver; e a sua origem é 
peifeitnmentc clara. 

Ajuda é o segundo pastor do rebanho. 
Também a sua origem é claríssima; e 
unicamente notaiei, que se toma franca- 
mente como designação própria, e se diz 
por exemplo — O Ajuda de tal ou tal re- 
banho. 

Zaii;al significa hoje propriamente no 
Alemtejo um rapasito de treze ou qua- 
torze annos, que ás vezes nem ganha 
soldada, serve só pelo comer, e auxilia 
na guarda do gado o maioral e o ajuda. 
E" palavra árabe, e, na mesma forma 
:^agal^ significava naquella lingua um ra- 
paz forte e animoso. Por uma simples e 
natural derivação de sentido veio a de- 
signar os pastores moços, habitualmente 
robustos e desembaraçados. N'esta acce- 
pção, no masculino e no feminino, ^agal 
e :{agala^ a empregaram os escriptores 
hcspanhoes, C-crvantes e outros; e tam- 
bém os nossos portuguezes de mais au- 
ctoridade, como Rodrigues Lobo e Sá 
de Miranda. E', pois, uma palavra clás- 
sica da nossa lingua. No emtanto, incli- 
no-me a crer, que cm tempos foi mais 
hespanhola que portugueza. Gil Vicente, 
quando escreve em hespanhol, serve-se 
com frequência das expressões \agal e 
:;aí>ala. No «Auto pastoril castelhano» 
chama mesmo ■^agala á Esposa dos can- 
tares, que identifica com Nossa Senhora: 

Pues sabes quien es aquelhi? 
Es la za^ala hermosa, 
Que Salomon dice esposa 
Quando canticava d'ella. 

Quando, porém, escreve na sua lingua, 
no «Auto pastoril portuguez», no «Auto 
de Mofina Mendes» e em outros, escreve 
sempre — que me lembre — pastor e pas- 
tora, por onde parece não admittir a pri- 
meira como genuinamente portugueza. 
Voltando aos nossos pastores de Serpa, 
temos que entre elles '{agal não é syno- 
nymo de pastor ou de pastor moço, mas 
é o nome próprio e especial do rapasito 
que anda no rebanho. 



A TRADIÇÃO 



88 






(V'W(í>!]KIjp[ DE TY 



ff 



\I 



Camponez. de fato domingueiro iSerpa) 



ti-4 





84 



A TRADIÇÃO 



Passemos aos nomes, que os pastores 
dão ao gado, nas diversas idades e cir- 
cumstanrias. 

'fíorrc^o e horrefia lhe começam a cha- 
mar desde o nascimento. A palavra cor- 
deiro não é empregada por elles, e nem sei 
mesmo se a conhecem. 

Borro e borra lhe passam a chamar 
ao anno,ou mais propriamente lhe come- 
çam a chamar ahi pelos fins das feiras 
do verão, quando tem quasi um anno. 
Esta e a precedente palavra procedan 
da mesma origem, evidentemente latina. 
Se se derivaram da lan ainda curta, e 
formando uma espécie de borra, como 
dizem alguns Diccionarios; se de biirriis, 
de côr ruiva ou castanha escura, como 
dizem outros, é o que não procuraremos 
averiguar. De resto, não me occuparei 
em examinar asetymologias das palavras 
correntes e que se encontram nos Diccio- 
narios. 

iMalaío e malaia é hoje synonymo de 
borro e borra. Ha muito poucos annos 
os pastores de Serpa nem a conheciam; 
mas ultimamente começaram a empre- 
gal-a com frequência, tendo-a aprendido 
nas feiras. Deve, pois, ser antiga em ou- 
tras regiões do Àlemtejo ou do paiz. 
Confesso, que a palavra é para mim per- 
feitamente mysteriosa. De origem árabe 
não parece ser ; e nem Sousa, nem En- 
gelmann e Dozy, nem Yanguas a men- 
cionam. A palavra malato significou em 
hespanhol eem portuguez, doente, adoen- 
tado, mal disposto; mas tal não pode 
ser a origem, porque o gado não tem 
doenças ou crises especiaes no período 
em que se lhe dá este nome. Lembraria 
a palavra mulato^ se se provasse— o que 
eu náo sei — que a expressão só se em- 
prega nas regiões onde ha gado de lan 
preta; mas ainda assim, a derivação seria 
muito forçada. O mais prudente, é dei- 
xar apenas registada a palavra e a sua 
significação actual, para que outros lhe 
procurem as origens. 

Carneiro é o borro ou malato, chegado 
ao seu completo desenvolvimento, ahi 
pelos dois annos. A palavra pertence á 



linguagem dos pastores, como pertence 
á de todos, pois é correntíssima. Tem-se- 
Ihe dado varias origens mais ou menos 
de phantasia ; e se vem de carne, como 
quer o «Díccíonario de la Real Academia 
Espanola», ou de corno, como mais ge- 
ralmente se admitte, é questão de que 
me não occuparei. Unicamente notarei 
que existe na Ínfima latínídade a palavra 
carncriíis ou carnerus; mas é simples- 
mente uma latínisação barbara do hes- 
panhol carnero., como acontece em vá- 
rios outros casos nos documentos da 
idade-média. Voltando ao Àlemtejo, os 
pastores distinguem pelo nome de car- 
neiros pães os que são destinados á pa- 
dreação ; mas habitualmente dizem os 
carneiros^ pela simples rasão de que nas 
mãos do lavrador ficam em geral só os 
que teem este destino. O resto do gado 
macho (expressão dos mesmos pastores) 
é vendido nas feiras, ou como borregos, 
ou, um anno depois, como malatos. 

Ovelha é palavra correntíssima de ori- 
gem latina bem conhecida. A's que foram 
lançadas aos carneiros chamam ovelhas 
de ventre ; e ás que, pela sua idade, ou 
qualquer outra círcumstancia, ficaram 
forras chamam altas. Creio que esta pa- 
lavra alta deve vir de ligeira, solta, alta- 
nada, podendo sem inconveniente ser 
mandada para pastagens e terrenos mais 
ásperos. Tendo fallado em ovelhas for- 
ras., é de notar, que o adjectivo vem da 
palavra árabe ho7~r, feminino horra^ que 
significa livre, liberto. Deu, com a mes- 
ma significação, o hespanhol horro e 
horra., c o portuguez forro e forra., pela 
troca habitual do h em /'. Applicada ao 
gado e no sentido indicado não a encon- 
tro nos nossos Diccionarios, comquanto 
seja de uso corrente ; mas vem mencio- 
nada no hespanhol da Academia: Ovejas 
horras. Llanian los pastores a las que no 
quedan _prenadas. 

Marouço chamam os pastores ao car- 
neiro pae, depois de uma certa idade, 
quando já está bem formado e encorpado. 
Falta este termo nos nossos Diccionarios; 
mas vem nos hespanhoes, com a forma 



A TRADIÇÃO 



85 



monieco, Covarrubias define a palavra 
moruccu: canicro ri c/O, /víi/rf Jf la ma- 
nada., exactamente o marouço dos nos- 
sos alemtejanos. Dá lhe como origem a 
palavra muro, porque aquciles carneiros 
tém a cabeça tão forte, que são capazes 
de derrubar um muro, como os famosos 
arietes da velha arte da guerra. K' neces- 
sário notar, que o exccilente licenceado 
D Sebastião Covarrubias tem ás vezes 
uma viva imaginação para etvmologias. 

l-arota c a ovelha velha, que se ven- 
de nas feiras, ou se dá em pagamento 
de pastagens e outras serventias, ou como 
renda por certas terras, ou se mata para 
alimentação das quadrilhas de trabalha- 
dores, principalmente dos algarvios que 
vém ás aceifas. O caso é um tanto in- 
trincado, e começo por dizer que nunca 
vi a palavra escripta, e a transcrevo de 
ouvido como a pronunciam os pastores. 
A palavra falta nos nossos Diccionarios, 
e nos hespanhoes tem o sentido de : «mu- 
lher descarada e sem juizo». K' necessá- 
rio pôr de parte esta origem, porque não 
ha derivação de sentido admissível, que 
nos leve a applicar o nome de uma mu- 
lher de má nota a uma ovelha, depois de 
velha. A palavra favela deve ter outra 
origem, provavelmente árabe; como pa- 
rece resultar do seu cunho e da dispo- 
sição das lettras que a compõem. Voeja- 
mos se é possível chegar a uma conje- 
ctura plausível. Fr. Joaquim de S." Rosa, 
no seu excellente Elucidário (Suppl.), dá 
a palavra farrapo como tendo designado 
um carneiro grande. Applica-se ho)e este 
nome mais aos porcos, mas parece que 
antigamente designou um carneiro. Km 
um testamento do anno de 1463, citado 
por S." Rosa, se diz: «Levem por otfe- 
renda á missa cantada dous alqueires de 
pam amassado, e hum farropo, e huma 

quarta de vinho Sinco crelegos 

cantem por mim sinco missas, e levem 
por offerenda outros dous alqueires de 
pão amassado, e hum farropo, e huma 
quarta de vinho á missa cantada.» No 
anno de i4(38 cumpriu João Alves este 
testamento fielmente, e no Instrumento, 



donde consta que o cumpriu, não se men- 
cionam os áo\s farropos., e sim dois car- 
neiros. Conclue S." Rosa, ao que parece 
com rasão, que as duas palavras signi- 
ficavam a mesma coisa ; e tanto mais, 
quanto não era uso levar porcos ás igre- 
jas, e pelo contrario se levavam com fre- 
quência os carneiros aos adros das igre- 
jas, como ofTertas. Yanguas, no seu Glo- 
sario, cita esta palavra farropo., na fé 
de S." Rosa, e deriva-a de jarof, pala- 
vra árabe, que, segundo o Vocabulista de 
Pedro de Alcalá, significou um borrego. 

Deixando esta derivação sob a respon- 
sabilidade e auctoridade de D. Leopoldo 
Yanguas, temos que farropo signifi- 
cou um carneiro no antigo portuguez. 
Podemos imaginar uma forma feminina, 
que seria farrópa e significaria ovelha. 
De farrópa teríamos faróta por uma 
leve alteração de pronuncia. K' claro que 
isto não passa de uma ccjnjectura quasi 
sem base. Mas esta conjectura tornar-se- 
hia plausível e mesmo segura, se em al- 
gum documento antigo, contracto de 
renda, aforamento, ou de qualquer ou- 
tra natureza, se encontrasse a palavra es 
cripta na forma farrópa ou faropa; e é 
bem possível que se venha a encontrar. 
Por emquanto deixaremos apenas indi- 
cado, que a palavra se prende talvez ao 
árabe jarof (kharof)., o que não repugna, 
porque o Klia inicial se troca ás vezes 
em /■ (Veja se Dozy, Glossairej. 

Passemos agora a examinar qual é a 
constituição dos rebanhos, e quaes os 
nomes que lhes dão. 



(Coniinúi) 



Conde de FICAI.HO. 



ANDAR ÁS VOZES 



Assumpto novo, em matéria de su- 
perstições, não é fácil encontral-o. 

Aquella de que vou fallar-lhes é co- 
nhecida e está generalisada tanto no con- 
tinente como nos Açores. A ella se refe- 
rem D. Francisco Manuel, Theophilo 



86 



A TRADIÇÃO 



Braga, Júlio César Machado e vários 
outros. 

Mas o que pretendo contar é o modo 
como eu próprio recebi na infância essa 
superstição popular, de que conservo 
ainda uma viva impressão pessoal. 

A locução — c-Jiidar ás ro^^cs — expri- 
me o facto de qualquer pessoa vaguear 
pela rua á escuta do que os outros dizem, 
para tirar agoiro do que elles disserem. 
E, segundo o que ouvir, esperará boa 
ou má fortuna no negocio que traz no 
pensamento. 

Castilho, no Amor e melancolia^ allu- 
diu a esta tradição relacionando-a apenas 
com a noite festiva do Santo Precursor: 

Qual com bochecho na bôcca 
applicando attento ouvido, . 
espera que á meia noite 
seja um nome proferido. 

Não é outra coisa senão o costume de 
andar ás 3'o:^es^ mas unicamente sob uma 
intenção amorosa, por isso que a noite 
de S. João reveste para òs namorados, 
um caracter fatidico. 

Comtudo a superstição não se res- 
tringe áquella noite ; é extensiva, na 
crença do povo, a qualquer dia do anno. 

Com o seu bochecho na bôcca é cos- 
tume andar ás i'o:{es, e tomar como se 
fosse para nós o que os outros vão con- 
versando em voz audivel. 

O bochecho, difficultando a respiração, 
torna-se incompatível com as grandes dis- 
tancias. 

Mas já não acontece o mesmo na vés- 
pera de S. João, em que os namorados, 
tendo ido beber a agua da meia noite^ 
ficam por algum tempo junto ás fontes 
á espera que venham pessoas conver- 
sando, para ouvirem o que ellas di- 
zem. 

No Porto, porém, accresce á tradição 
o costume de, quando alguém anda ás 
vo:^es, se dirigir, como em silenciosa ro- 
magem, á capellinha da Senhora das 
Verdades. Tal é o pittoresco especial da 
versão portuense. 



Cré-se que a Virgem d'aquella invo- 
cação fará com que as pessoas que en- 
contrámos pela rua nos revelem involun- 
tária e inconscientemente o porvir dizen- 
do verdades que o tempo confirmará. 

Eu fui muitas vezes, quando era pe- 
queno, á referida capellinha, para acom- 
panhar uma pessoa da minha familia, 
que acreditava na tradição de que pelas 
i'o:{es se ficava sabendo a verdade futura. 

Sahiamos de casa depois das nove 
horas da noite e iamos atravessando a 
cidade, sem dizer palavra, em direcção 
á Sé. 

A capella da Senhora das Verdades 
fica por traz do Paço F^piscopal, junto 
ás escadas d'aquella mesma denomina- 
ção, as quaes dão sahida para outras es- 
cadas que descem ao Codeçal e Barrédo. 

Houve na antiga cerca da cidade, uma 
pequena porta ou postigo encimado, como 
era costume, por um oratório, dentro do 
qual estava a imagem da Nossa Senhora 
das Verdades ou 'Tostigo. 

Demolida esta porta, o cónego Nicolau 
de Parada fez á sua custa, ahi perto, 
uma capella para onde transferiu a ima- 
gem, que tinha sido apeada com a porta. 

A imagem é de pedra, e de boa es- 
culptura, se se attender a que será por- 
ventura tão antiga como a primeira e 
acanhada circumvallação do burgo por- 
tuense. 

Tanto a capella como o prédio con- 
tiguo pertenceram a uma senhora da fa- 
milia Calheiros, de Ponte de Lima, por 
compra que fez aos herdeiros do cónego 
Parada. 

Na parede do coro lê-se ainda hoje 
uma inscripção que diz: «Foi mandada 
reedificar esta capella por D. Angela Ja- 
come do Lago e Moscoso, no anno de 
mil oitocentos e quarenta e três. 

O actual proprietário do prédio e da 
capella é o sr. general Calheiros, par 
do reino. 

Ambos os edificios foram muito damni- 
ficados pela metralha no tempo do cerco. 
Ha algumas balas cravadas na parede 
da casa, e estragos causados pela arti- 



A TRADIÇÃO 



87 



Iheria nas varandas de feno. K' uma me- 
moria histórica, que tem sido respeitada. 
Ainda bem. 

Toda a propriedade ficava exposta á 
pontaria das baterias mii^uclistas de Villa 
Nova de Gaya, por estar situada no mon- 
te da Sé. 

O actual jardim da casa entesta com 
a ponte de 'T). I.iiiy I. ein fiente da Ser- 
ra do Pilar. 

A Senhora das Xe^dades conserva-se, 
no ahar-mór, dentro da uma maquineta, 
tendo de cada lado outras imagens, como 
a fazerem-lhe cortejo. 

No tempo da reediticadora havia missa 
todos os dias, e festa annual, não só em 
honra do orago, como de Nossa Senhora 
da Conceição, á qual é dedicado um altar 
que fica do lado esquerdo. 

Ha muitos annos, porém, que não se 
diz ali missa, nem se celebra a festa so- 
lemne. 

(Concluc.) 

(Lisboa) 

Ai.BEKTo PIMENTEL. 



SUPERSTIÇÕSS DOS CRIMINOSOS 

Em 28 d'abril de 1890 foi attrahido 
João Lopes Nogueira da Silva, o '^l}Ai- 
uhas, lavrador rico de Salvaterra de Ma- 
gos, a um pinhal, pouco distante d'aquel- 
la villa, e alli caiu assassinado por Joa- 
quim dos Santos, o Pegas, de 2, annos, 
natural de Ferreira do Zêzere, residente 
na \'^arzea Fresca e casado com Marga- 
rida Amaio, natural de Muge, de costu- 
mes fáceis e cúmplice no crime. Morto 
o lavrador por motivos obscuros, mas 
que parecem fluctuar entre roubo e vin- 
gança da dignidade marital oífendida, 
recommendou o criminoso a sua mulher 
que voltasse o cadáver, no modo que 
respectivamente descrevem os jornaes de 
Lisboa «A Pátria» e a «Vanguarda», de 
3o de abril. Aquelle dizia: «O marido 
aconselhou-a a collocal-o de barriga pai"a 
o ar. Klla teve repugnância. O marido 
disse-lhe ou ia ella ou elle. N'esta con- 



junctura, cila resolveusc a ir, dando um 
pequeno empurrão no cadáver.» A «Van- 
guardai descrevia o acto da forma seguin- 
te : tDesviaram-se para um sitio distante 
uns 100 metros, mais ou menos, do logar 
onde estava o cadáver, e sentaram se, 
visto o marido não ter forças para atidar. 
Fila disse que, como o cadáver estava 
de bruços, o marido não podia fugir ; 
este então pediu-lhe para pólo de bar- 
riga para o ar, afim de verem se podiam 
fugir. Fila ao começo recusou se, como 
elle teimasse para que fosse, que eniáo 
ia elle de gatas.» Apesar da precaução 
tomada foram os dois criminosos presos, 
pouco tempo depois, no mesmo local do 
crime. 

Encontramos, portanto, aqui uma acção 
supersticiosa, que tem por fim livrar o 
criminoso da acção da justiça, e que se 
pode collocar a par de outros costumes 
já notados no estrangeiro. 

O sr. ÍMivcustimmC) cila alguns exem- 
plos como ^Iberglaube und Síra/rechí^ 
traducção do russo, com o caso d'uma 
mulher que abandonou de inverno na 
estrada um filho seu de dez mezes, dei- 
xando ao lado os seus próprios sapatos, 
na persuasão, que fazendo isto, ficaria 
desconhecida ; o resultado, porém, foi 
completamente contrario, pois o sapateiro 
d'aldeia logo reconheceu a proprietária 
delles. Noutro caso um criminoso cortou 
de propósito a mão para deixar no local 
um vestigio sanguinolento da sua pessoa. 
F^inalmente conta que os ciganos da Hun- 
gria costumão deixar escondidas nas ca- 
sas que roubam bagas de belladona. 

As superstições usadas pelos crimino- 
sos não são fáceis de conhecer porque a 
maior parte das vezes são consideradas 
como indícios ár máximo cynismo e re- 
quintada malvadez. 



(Lisboa). 



Pedro A. d'AZEVEDO. 



(') Um prefacio pelo Dr. Kohler da Universi- 
dade de Berlim, 1897, pag. 129. 



88 



A TRADIÇÃO 



OS VIRTUOSOS 



Ku começo por annunciar a todo o or- 
be que na minha terra não conheci ain- 
da, nem me consta que em tempo al- 
gum houvesse, um espécimen, um só 
typo desta raça maldita de explorado- 
res. Tanto não podeiei dizer acerca dos 
crendeiros da sua falsa virtude — que por 
aqui abundam, infelizmente. 

Km todo o caso algum elogio nos ca- 
be, porque, se o crer em nigromancias 
de virtuoso é somente uma prova de 
ignorância, querer passar por homem ou 
por mulher de virtude é muito mais ab- 
jecto, porque é a prova provada da ve- 
Ihacaria. 

E esta provem quasi sempre do mau 
caracter, ao passo que aquella é tanto 
mais digna de dó quanto é certo que bem 
poucas vezes somos nós os culpados da 
própria ignorância. 

Que culpa terá agora o povo de não 
saber ler? — E quem não souber ler dif- 
ficilmente saberá raciocinar. E' — lendo — 
que se abrem horisontes novos e vastos 
ao nosso espirito. 

Começamos a conhecer o mundo no 
dia em que começamos a lêr. — Ha quem 
duvide? Ha. Pois que o não duvide nin- 
guém : O que sabe a nossa familia e o 
nosso visinho será muito útil e bello, 
mas fica muito áquem do que nos é pre- 
ciso para vér bem, e ao longe. Com a 
vista desarmada não se analysam os as- 
tros; no largo mar, ou sobre a superfi- 
cie da terra immensa, o marinheiro ou 
o viandante precisam de augmentar a 
vista para vér; 'e até para as coisas pe- 
quenas precisamos dum microscópio. E 
este ultimo exemplo é o mais applicavel 
porque o instrumento é saber ler^ e as 
pequenas coisas serão talvez aquellas 
que nos rodeiam — a sabedoria dos nos- 
sos parentes e dos nossos visinhos, o 
acanhado horisonte da nossa vista e do 
nosso meio. 

tA educação e amoral» — dirão — «be- 
be-se na egreja, e entre a gente simples 



e boa, que a ha.» — Discordo: O padre 
ensina a moral do cathecismo, mas não 
appella para a razão; a gente bôa e ru- 
de acceita muitas vezes o elixir do vir- 
tuoso, contra o quinino da medicina, con- 
tra o bisturi da cirurgia. Só com os ar- 
gumentos da razão é que se prova que, 
se é muitas vezes insufficiente o saber 
dos clinicos, mais insufficiente tem de 
ser a receita dos virtuosos- • • 

Ah, o sobrenatural I Esquecia-me d'isto. 
Se o maravilhoso, pregado nas egrejas, 
é coisa tão vulgar como nos dizem do 
alto dos púlpitos, que admira que, por 
uma graça divina, o virtuoso adivinhe e 
cure, e não seja nada, comparado com 
elle, o homem de sciencia! Se a simpli- 
cidade é a mãe da virtude, e o saber nos 
perverte: que admira então que a igno- 
rância seja laureada como um predicado 
valioso; e saber ler e saber pensar seja 
tido por muita gente bôa como a coisa 
mais nefasta e mais perigosa ; e que o 
reino dos céus seja para os pobres d'es- 
pirito ?! 

Ah, o maravilhoso! A eterna sphinge! 
— Oh, Deus, que immensa noite ! e como 
abusam do vosso nome ! Perguntam-vos 
na treva, e sai a luz da sciencia e da ra- 
zão! Querem achar-vos longe da cons- 
ciência, sendo vós a crystallisação, a di- 
vinisação da consciência universal! 

Mas voltemos aos virtuosos, 

isto é, aos homens sem virtude. E, já 
agora, fallêmos de coisas vergonhosas da 
minha terra — scenas de superstição e 
d'obscurantismo, mais crassas e mais re- 
pugnantes que a própria essência da as- 
neira e da mentira. 

E não haver quem bata isto, quem im- 
peça isto; e não haver propaganda sal- 
vadora, que arranque tantos infelizes das 
garras da ignorância a mais feroz! 

Leiam e pasmem: 

— Um pobre homem d'aqui appare- 
ceu em casa, um dia, vindo não sei de 
que feira, aonde parece que fez um mau 
negocio. Não vem alegre; julga-se doen- 
te; perde o amor ao tiabalho; tem so- 
nhos maus, tem visões ruins: está imbe- 



A FRADIÇÁO 



ff"- 



epRgi0RgiRe pugiepL 



9 



I 



(HYMNO) 



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J ^ 1 






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1 1 V v? 



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90 



A,. TRAPIÇAO 



cil, ou doido, afinal. A mulher e a famí- 
lia da mulher — todos supersticiosos: 
crêem que ha pessoas de virtude^ e bru- 
xas e feiticeiras; crêem que os loucos o 
não são por qualquer desequilíbrio de 
faculdades, — que ha Debídas malditas, 
miolos de jumento fornecidos em grandes 
ou pequenas dozes, pragas detfeito ma- 
ligno, maus olhaduSy invejas que conta- 
minam e matam . . . 

(Conclue) 

(Vidigueira) 

Pedro COVAS. 



O S. JOÃO EM SERPA 

Depois de Santo António, o famoso 
casamenteiro, pertence a S. João Bap- 
tista o maior culto popular. A juventude, 
mormente, é toda cantares e júbilos e 
folguedos na tradicional commemoração 
do santo pegureiro ('). Pois se elle é in- 
vocado, não menos que o nosso thauma- 
turgo, em eternas questões do eterno 
amor ! 

* 

14 de Junho: véspera das novenas 
ao Precursor, que ordinariamente se re- 
zam nas egrejas de Santa Maria, S. Sal- 
vador e S. Paulo C). Durante a tarde, 
grupos de raparigas — esbeltas campone- 
zas de seio túmido, respirando saúde e 
alacridade — se entregam á divertida ta- 
refa de «compor o Santo» com seu dia- 
dema de prata bem polido, largas fitas 
de seda mui garridas, e copiosos ramos 
d'ouripel f). 



(') A propósito de pegureiro. 

Recusando mostrar qualquer objecto, costuma 
dizer se aqui (em linguagem familiar): «não tem 
vista nem crista, nem a pellica (samarra) de S. 
João Baptista. 

(*) Também se venera o Baptista, alguns an- 
nos, na capella do Mosteirinho, no velho con- 
vento de S. Francisco, e nas ermidas de S. Ro- 
que e N S.» dos Remédios. 

(') Ao S. João da egreja de Santa Maria enfiam 
um annel d'oiro nos dedos médio :; indicador da 
mão direita. O lendário nnnel de S. João Baptis- 
ta é decantado na quadra n." 4. 



Das mencionadas egrejas, é claro, cada 
uma possue o seu Baptista, e a cada 
imagem corresponde um grupo ou irman- 
dade de raparigas solteiras (^). 

A' noite, numerosa mocidade de am- 
bos os sexos costuma reunir junto á 
porta dos templos a que alludi, afim de 
«dar a alvorada ao Santo». 

Nunca assistiu, leitor, a uma alvorada? 
Pois vale a pena, só para ouvir cantar 
estas formosíssimas quadras Q em lou- 
vor de 

S. João Baptista 



I 



Se o Baptista bem soubesse 
Quando era o seu dia, 
Descia dos céus á terra 
Com prazer e alegria. 

II 

O Baptista não vem hoje, 
Ha-de vir segunda-feira ; 
Ha-de achar a cama feita, 
Coberta de erva cidreira. 

III 

— D'onde vindes meu Baptista, 
Pela calma, sem chapéu ? 
— Venho de ver as fogueiras 
Que se acenderam no céu. 

IV 

Oh ! que lindo annel d'oiro 
Que o Baptista traz no dedo ! 
Que lhe deu sua madrinha 
Santa Clara do I^oredo. 



Do altar de San João 
Até ao de San Francisco, 
Tudo são cravos e rosas 
Postas pela mão de Christo. 



(^) Quatro raparigas. d'entre as de cada grupo, 
são escolhidas para os cargos Hnnuaes de juija, 
escrivóa, thesoureira e tnordoma da cera. A's 
quatro eleitas^ assim chamadas, incumbe, em 
e.Npecial, o trabalho de angariar dinheiro, esmo- 
lando, para as despezas da festividade. 

(=) Inserimos, na secção competente, a musica 
respectiva. 



A TRADIÇÃO 



91 



V! 

Do altar de Santo António 
Até ao de San João, 
Tudo são cravos e rosas 
Postas pela sua mão. 

Vil 

O' Baptista, o Baptista, 
O' Baptista meu compadre ! 
Casastes as moças todas. 
Deixastes vossa comad^^e I . . 

VIII 

Do altar de Santo António 
Até ao de San João, 
Tudo é verdura e tiores 
'Spalhadas no meio do chão. 

IX 

Lá vem San João abaixo, 
Vestido d'azul-ferrete : 
N'uma mão traz a bandeira, 
E na outra um ramalhete. 



X 



Lá vem o Baptista abaixo, 
Dando volta ao rocio. 
Dizendo aos inquilinos : 
— Váo pagar ao senhorio (^). 

XI 

Lá vem o Baptista abaixo 
Perguntando uma cadeira. 
Se vem p'ra salvar as almas, 
A minha seja a primeira. 

XII 

San João se adormeceu 
No collo de sua tia : 
Eram três dias passados, — 
San João inda dormia! 

XIII 

— Onde estará o Baptista, 
Que não 'stá no seu altar ? 
— Foi ao ceu ver as fogueiras, 
Para tornar a voltar. 



(^) E' de antiquissimo costume pagar a renda 
de casas pelo S. João e pelo Natal. 



XIV 

San João e mais San Pedro 
Ambos vestem um vestido: 
San João, prata lavrada, 
San Pedro, oiro batido. 

XV 

Baptista dae-me capella, 
hl em meu peito fortaleza, 
Para poder festejar 
Vosso dia com grandeza. 

XVI 

San João á minha porta ? 
Eu não sei que lhe hei- de dari 
Darei lhe uma canna verde 
Para pôr no seu altar. 

XVII 

San João á minha porta? 
Hei-de lhe dar a capella; 
Hei-de pedir af) Baptista 
Me faça bòa donzella. 

XVIII 

Santo António apanha flores, 
San Francisco leva a cesta, 
San João faz a capella, 
E (]hristo a póe na cabeça. 

XIX 

San João apanha flores 
E vae deitando prá cesta; 
A \'irgem faz a capella 
E diz : — ponham na cabeça. 

XX 

Quinta-feira d'Ascensão 
Do ceu caiu uma tlór. 
Dizem que a mãe do Baptista 
E' prima- irmã do Senhor. 

XXI 

Lá no rio do Jordão 
Passeia Santa Isabel ; 
Dizem que é mãe do Baptista: 
Oh 1 que dita de mulher! 

XXII 

O Baptista chora, chora. 
Chora sem consolação. 
Que perdeu o cordeirinho 
Lá no rio do Jordão. 



n 



A TRADIÇÃO 



XXIII 

/^juntem-se as moçiis todas I 
Vamos ao ria do Jordão 
A buscar o cordeirinho 
Para o dar a San João. 

XXIV 

Vamos moças, vamos todas 1 
Vamos ao rio do Jordão, 
Para vér baptisar Christo 
E Christo baptisar João. 

XXV 

San Zacharias é mudo ; 
Por graça de Deus, então : 
— Como se chama o menino ? 
— Ha de chamar-se João. 

XXVI 

San João comprou um burro 
Para pular as fogueiras ; 
E depois de as pular todas, 
Deu-o de presente ás freiras. 

XXVII 

A treze do mez de Junho 
Santo António se demove, 
San João a vinte e quatro, 
E San Pedro a vinte nove. 

XXVIII 

San João e mais San Pedro 
São dois santos mudadores : 
San João muda os casaes, 
San Pedro muda os pastores. 0) 

XXIX 

San João e mais San Pedro 
Foram jogar uma lucta : 
San João ficou por baixo ; 
San Pedro não teve a culpa. 

XXX 

Foram deitar uma lucta 
San Pedro mais San João ; 
San Pedro, por ser mais velho, 
Caiu-lhe o c. do calção ! 



C) A mudança de casaes, a que se allude, quer 
dizer mudança de domicilio, o que tem iogar pe- 
lo S. João ou pelo Natal. — Os pastores ajustam 
com seus amos o preço do serviço annual em 
dia de S. Pedro. 



XXXI 

Meu engraçado Baptista, 
Minha jóia, meu amor ! 
Tendes por gloria ser prinio 
Padrinho do redemptor 1 

XXXII 

O mérito do Baptista, 
A que gráo Deus o levou. 
Que, depois de degollado. 
Ainda o Baptista fallou ! 

XXXIII 

Baptista, não permittaes 
Q'ae eu vosso deixe de ser ! 
Baptista cada vez mais. 
Baptista até morrer ! 

XXXIV 

o livro do Sacramento 
Só o Baptista o abriu ; 
Aos braços da Virgem pura 
Só o Baptista subiu. 

XXXV 

No altar de San João 
'Stá um ramo d'açucenas 
Onde os namorados vão 
Dar allivio ás suas penas. (8) 

XXXVI 

No altar de San João 
'Stá um lindo damasqueiro : 
Dá damascos de milagre. 
Não se vendem por dinheiro. 

XXXVII 

No altar de San João 
'Stá'ma linda cerejeira: 
P<.de-se dar por ditoso 
Quem lhe colher a primeira. 

XXXVIII 

Alem vem o San João 
Alegre como um pombinho: 
N'uma máo troz uma cruz, 
E na outra o cordeirinho. 



(8) Na collecção de cantigas que hoje publicá- 
mos, ha muitas, que são communs a Santo An- 
tónio, com a substituição, apenas, d'este nome 
pelo de baptista ou Sun João. Está n'este caso 
a quadra xxxv, que também se canta : — No altar 
de Santo António — 'stá um ramo de açuce- 
nas, etc. 



A TRADIÇÃO 



M 



XXXIX 

Senhoras evangelistas, 
Não lenham lalt;i de fé, 
Que entre todos os santinhos 
O Baptista maior é. 

X I. 

San João me prometteu 
De me dar uma capelia. 
Também eu lhe prometti 
Toda a vida ser donzella. 

XI, l 

Lá n aquellas ervas verdes, 
Foi a minha perdição ; 
Perdi o meu annel d'oiro 
Na noite de San João. 

XLII 

No adro do Salvador 
'Stá um mastro levantado. 
Em companha do Baptista 
'Stá Jesus sacramentado. 

Xl.III 

Entre carroças lie oiro 
E vidraças de crystal, 
Vem a sagrada Custodia 
A San João adorar. 

XI. IV 

(jrandes festas ha no ceu 
Em dia de San João : 
San João baptisa Christo, 
Christo baptisa João. 

XI. V 

O Baptista é divino. 
Por divino se aclamou ; 
No ventre de sua mãe, 
A Jesus se ajoelhou. 

X L V I 

San Zacharias é mudo ; 
Esta noite ha de fallar, 
Para dizer que o Baptista, 
João se ha-de chamar. 

X L V 1 1 

O' apostolo San Pedro 
Que do céu tindel-as chaves, 
Dae-me novas do Baptista, 
Que lhe tenho saudades. 



XI. VI 11 

Festa que fazem os moiros 
Em noite de San João ! 
Quando os moiros o festejam, 
Que fará quem é chrislão ! 

X I . I X 

O' Baptista, ó Baptista, 
O' Baptista no Jordão ! 
Parente de Jesus Christo, 
Sois um cravo em botão ! 

L 

Quando a Virgem-Maria 
Santa Isabel visitou, 
O Baptista, de contente, 
No seu ventre ajoelhou. 

LI 

Santa Isabel se prepara 
P'ra uma grande visita, 
Que ahi vem o Santo Verbo 
Santificar o Baptista. 

1. il 

O Baptista, no deserto, 
Cobriu o rosto de veu. 
Quinta feira d'Ascensão 
Subiu Jesus Christo ao ceu. 

LIII 

Não sei que tem o Baptista 
No dia em que quer nascer, 
Que, sejam velhos ou moços. 
Tudo faz endoidecer. 

LI V 

Que é das moças d'esta terra 
Que não as posso encontrar? 
Certo é que ellas não querem 
O Baptista festejar! 

Dias NUNES. 



(Conclue) 



.M. 



LENDAS & ROMANCES 

íl{ecolhiJos da íriídiçâo oral im província do <i/llemteJo) 

ni 

Gerinalílo (Egmhard) 

— Gerinaldo, Gerinaldo, 
Pagem d'el-rei tão querido 1 
Quem me dera, Gerinaldo, 
Vir's aqui dormir comigo. 



94 



A TRADIÇÃO 



— Quando quereis vós, Senhora, 

Que eu va em vosso serviço ? 

— Entre a uma e as duas, 

Que já meu pae está dormido — . 

A uma náo era dada 

Gerinaldo era sahido; 

Foi ao quarto da princeza. 

Deu um ai mui dolorido. 

— Qual será o confiado, 

Qual será o atrevido, 

Que entre as portas do meu quarto 

Dá um ai tão dolorido ? 

— E' Gerinaldo, Senhora, 

Que vem em vosso serviço. 

— Anda cá, ó Germaldo, 

Deita-te aqui comitío — . 

Era pela manhãsinha, 

El-rei q'ria o seu vestido : 

— Ou Gerinaldo é morto, 

Ou Gerinaldo é sahido — . 

Responderam os vassallos 

Todos muito atrevidos : 

— Vá se ao quarto da princeza, 

Q/lchjrá-os bem dormidos. 

Voltados um para o outro, 

Que nem mulher com marido — . 

Foi-se el-rei até ao quarto, 

Aohou-os mui hem dormidos. 

— Eu se mato Gerinaldo, 

Criei-o de pequenino, 

E se mato a minha filha 

Tenho o meu reino perdido — . 

E lançou as mãos atraz 

A um punhal que trazia, 

Voltou os copos p'r'á filha 

E o bico p'ra Gerinaldo. 

Acordando Gerinaldo 

Achou se mui bem ferido : 

— Acorda, acorda, princeza, 

Acorda que estou perdido. 

— CaK-te, caT-te, Gerinaldo, 

Não te faças presentido. 

Que meu pae é dos bons homens, 

Hade me casar comtigo, 

— Deus vos salve, ó bom Rei, 

'Qui tendes vosso vestido, 

E aqui estou a vossos pés, 

Mandae-me dar o castigo; 

Eu è que fui o confiado 

No seu quarto penetrar. 

Aqui estou a vossos pés 

Mandae me a gorja cortar. 

— O castigo que te hei dar 

Já o tenho promettido, 

Trata-a a ella por mulher 

E ella a ti por marido — . 

— Oh I quem tivera a dita 

Que Gerinaldo ha tido, 

'Té 'gora fiel vassallo, 

Agora filho querido ! 



(Elvas;. 



(Continua) 

A. Thomaz pires. 



JOGOS POPULARES 



A. espacla-niia. 

Pertence este jogo ao numero daquel- 
les que passaram á historia, pois que 
desde alguns annos deixou elle de vigo- 
rar entre os nossos conterrâneos. Era um 
exercício muito animado, e que deman- 
dava considerável esforço físico. 

O jogo da espada-nua usava se de noite, 
principalmente na estação calmosa. 

Para o realisar, juntavam-se muitos 
rapazes num largo chamado coito. Em 
Brinches, era no próprio adro da egreja 
matriz. Os jogadores, em numero par, 
dividiam-se em dois grupos eguaes, e 
cada grupo escolhia, d"entre os seus 
membros, um chefe a quem chamavam 
mãe. 

Um dos grupos era obrigado a defen- 
der o coito, e o outro propunha-se a con- 
quista-lo. Tirava-se á sorte, o grupo que 
havia de guardar o coito, em opposição 
áquelle que tinha de o atacar. 

Note-se que o zelo do primeiro grupo 
era não só defender o coito, mas ainda 
perseguir e prender os adversários. O 
maior empenho d'estes consistia, pelo 
contrario, em penetrarem no coito sem 
se deixarem agarrar. 

Vejamos como a turbulenta rapaziada 
punha em pratica o apparatoso espectá- 
culo. 

Occupado o coito pelo grupo da defe- 
za, iam os parceiros do outro grupo es- 
conder-se sob a direcção da respectiva 
mãe; e quando esta via que os seus su- 
bordinados estavam embuscados, vinha 
participar á outra mãe, que já podia man- 
dar em caça delles. Succedia então, que, 
dos jogadores de guarda ao coito, parte 
continuava ali no seu posto de defeza, e 
a outra parte, acompanhada de seu chefe, 
seguia immediatamente á busca dos 
adversários. Estes mal se apercebiam 
descobertos, rasgavam a fugir, quanto 
podiam, para não serem aprisionados. 



A TRADIÇÃO 



96 



Toda a povoação era neste momento 
cortada pelos <(uerreiros^ correndo atraz 
uns dos outros, e transpondo ás vezes 
grandes distancias. Nem sempre os per- 
seguidos (ugiam para os pontos afasta- 
tados; também se dirigiam a miudc para 
o coito, afim de se introduzirem nelle. 

A" entrada do mencionado recinto ira- 
Nava se ordinariamente rija lucta entre os 
contendores. Claro está, que, quando os 
aspirantes ao coito dispunham de maior 
robustez, fácil se lhes tornava a vicioria, 
porque entravam á viva força, deixando 
muita vez de pernas ao ar aquelles que 
pretendiam oppoi -se á sua passagem. O 
contrario succedia — está bem de ver — 
quando os defensores eram mais valen- 
tes, pois n este caso nenhum adversário 
podia entrar no coito sem ser preso. 

Também acontecia verse o coito soli- 
tário, completamente abandonado: era 
quando os que deviam guarda-lo, inHui- 
dos com as correrias dos seus compa- 
nheiros, saltavam a correr da mesma 
forma em cata dos perseguidos. Logo 
que o facto se dava, a mãe que comman- 
dava o grupo da opposição, gritava: «o' 
meus! corram ao coito, que está o coito 
sem gente.» A seu turno, a mãe do gru- 
po defensor bradava egualmente aos seus, 
que corressem a defender o coito. 

Quando algum jogador era apanhado 
na carreira, se a mão que o pilhava não 
tinha a firmeza sufficiente para o segurar, 
elle safava-se-lhe, e a prisão ficava de 
nenhum effeito. 

Na partida seguinte, os que defendiam 
o coito passavam a ataca-lo e vice-versa. 



O jogo, cuja descrição acabámos de 
fazer, constituía um bello exercício, de 
molde a desenvolver amplamente as for- 
ças físicas. Tinha, porem, o grave incon- 
veniente dexpôr os parceiros a trambu- 
Ihões bastante desagradáveis e de pro- 
duzir immensa fadiga pelas carreiras. 



Quanto a origem deste jogo, não pódc 
deixar de ser muito remota, como clara- 
mente se deprehende da sua própria des- 
crição. A palavra coiío recordando-nos 
os antigos coutos pertencentes aos senho- 
res; as batalhas entre os rapazes, simu- 
lacros das históricas escaramuças entre 
coutos visinhos; as correrias atravez da 
povoação e suas immediações, — tudo nos 
! leva a crer que o jogo da cspaJa-fiua da- 
ta, pelo menos, dos primeiros séculos da 
monarchia. 

Convém advertir, que ainda ha pou- 
cos annos se jogava á cspada-inij, — o 
que prova a enorme persistência da tra- 
dição, até mesmo nas diversões infantis, 
nas quaes bastas vezes se reflectem os 
usos e costumes de longiquas eras. 



(Brinches). 



Ladisijii' piçarra. 



CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS 



VII 



o Grão de Milho 

Havia uma mulher, que era casada e 
vivia com muito desgosto; não porque 
se desse mal com o marido, mas por não 
ter filhos. Um dia disse ella: iSo queria, 
neste mundo, que Deus me desse um fi- 
lho, ainda que elle fosse do tamanho 
dum grão de milho!» 

Deus ouviu a e satisfez-lhe o pedido. 

A mulher, não podendo, um dia. ir le- 
var o jantar ao marido, que andava la- 
vrando, disse : 

— lOra, quem ha de ir hoje levar o 
jantar ao meu homem r. . . o meu filho 
com certeza não é capaz.» 

Responde o filho: 

— «Ora essa ! Então não sou ?I . . . po- 
nha lá a albarda em cima da burra e ve- 
rá emquanto eu vou.» 

.\ mulher, em vista disto, albardou a 
burra, montou o filho e poz-lhe a panella 
do jantar adiante, e disse-lhe : 



96 



A TRADIÇÃO 



— iVai depressa, e, em o pae jantan- 
do, dize-lhe que venha n'um instante cá 
a casa. que faz falta.» 

No caminho, as mondadeiras que viam 
a panella em cima da burra, sem nin- 
guém a segural-a, diziam, muito admi- 
radas : " 

— «Olhem uma panella em cima da- 
quella burra, sem ninguém lhe segu- 
rar! ...» 

O Grão de Milho, muito zangado, res- 
pondia : 

— o O' mulheres do diabo! então vo- 
cês não me vêem?! Pois eu não sou tão 
pequeno como tudo isso, sou um homem 
regular.! 

Quando chegou aonde o pae andava 
lavrando, brádou-lhe ; mas como o pae 
so via a burra e a panella, perguntou : 

— «Quem diabo está a bradar-me ?» 

— «Sou eu,» — respondeu o filho — 
«não me vê ?!» 

O homem, então, lembrando-se que 
era o filho, chegou-se ao pé da burra 
tirou a panella e desceu-o.» 

Ao meio dia foram comer o jantar, e 
quando acabaram, diz o filho ao pae: 

— «O pae! a mãe que chegasse vo- 
cemessê lá a casa num instante, que faz 
lá falta.» 

O homem marchou, dizendo ao filho : 

— «Olha, emquanto eu venho e não 
venho, vai ahi guardando os bois ; mas 
acautela-te, não os deixes ir além para 
aquelle coival.» 

Ainda bem o homem não tinha parti- 
do, principiou a chover, e o meu Grão 
de Milho foi metter-se dentro duma cou- 
ve, para não se molhar. 

Os bois, é claro, vendo-se sem guar- 
da, trataram dir para o coival ; e um 
delles papou a couve onde estava o Grão 
de Milho e enguliu-o. 

D'ahi a pedaço voltou o pae, e, vendo 
os bois comendo as couves, começou a 
bradar ao filho, que lhe respondeu da 
barriga do boi: «O' pai, mate o nosso 
boi lobato, que eu lhe darei dinheiro para 
três ou quatro.» 

Tantas vezes o filho disse isto ao pae, 



que este resolveu matar o boi. Morto o 
boi, deitaram as tripas fora, e dentro del- 
ias estava o Grão de Milho. 

Um lobo que passou por ali, vendo as 
tripas, comeu-as e enguliu também o 
Grão de Milho. Quando o lobo ia para 
assaltar algum rebanho, o Grão de Mi- 
lho dava noticia e começava logo a gri- 
tar: «O' pastor! lá vai lobo. . .» E assim 
fazia com que o pobre lobo não provas- 
se nada. 

Como a fome )á fosse muita, viu-se o 
lobo obrigado a comer areia; dando-lhe 
em resultado uma forte diarrhéa. Com a 
diarrhéa saiu para fora o Grão de Milho, 
que foi lavar-se a um barranco. Mais 
tarde, o Grão de Milho encontrou um 
sub-terraneo, que era onde os ladrões 
costumavam dormir, e onde também 
guardavam os roubos que faziam. O 
Grão de Milho, não querendo dormir ao 
relento, entrou para o subterrâneo. D'ahi 
a pedaço, chegou uma grande quadrilha 
de ladrões, que se puzeram a contar o 
dinheiro. Depois do dinheiro estar con- 
tado, o capitão dos ladrões começou a 
dividi-lo, dizendo : 

— «Tanto para mim, tanto para ti, 
tanto para fulano, tanto para beltrano...» 

— «E então para mim, nada ?!» — dizia 
o Grão de Milho. 

Os ladrões, ouvindo aquella voz, agar- 
raram um grande susto; pegaram no di- 
nheiro que puderam e fugiram, deixan- 
do muito mais dinheiro que aquelle que 
levaram. O Grão de Milho no outro dia 
marchou para casa e disse ao pae: «O' 
pae ! arranje lá três bestas boas e venha 
commigo.» 

O pae arranjou as bestas e marcharam 
ambos caminho do subterrâneo. Assim 
que lá chegaram, encheram três saccos 
de libras. E o Grão de Milho a dizer de 
vez em quando: «Então, pae! não lhe 
dizia eu que matasse o nosso boi lobato, 
que eu lhe daria dinheiro para três ou 
quatro?!» 



(Da tradição oral) 
(Brinches). 



António ALEXANDRINO.' 



A.UUO I — N." T 



SEUFâ. Julho de 1899 



ISérle I 



Editor-adminidrador, Jo»e Jeronymo da Cotia Bravo de Negretron, Rua Larga, 9 c 4 — SERPA 
TypoRraphia de AJolpho de Mendonça, Kua do Corpo Santo, 46 e 48 — LISBOA 

A tradTcãõ 

REVISTA lyiENSAL DETHNOGRAPHIA PORTUGUEZA 



DIRECTORES: — LADISLAU PIÇARRA e M. DIAS NUNES 



O elemento árabe na linguagem dos pastores 
alemtejanos 



(continuado de pac. 85) 



A distribuição do gado de lan do mes- 
mo amo em rebanhos varia naturalmente 
nas diversas épocas do anno. No fim do 
verão, suppondo já vendido todo o fj^atio 
maclio^ com excepção dos carneiros pães, 
ficam unicamente as ovelhas de ventre^ 
divididas em dois. trcs ou mais rebanhos, 
segundo a importância da lavoira de que 
se trata ; e ficam as borregas do anno 
anterior, que já então se chamam borras^ 
e vão constituir, durante o inverno e pri- 
mavera seguintes, o chamado alfeire. 

Alfeire é, pois, o rebanho das ovelhas 
novas, ás quaes occasionalmente se jun- 
tam algumas das mais velhas que ficas- 
sem forras. Em todo o caso, é um reba- 
nho de ovelhas, que nem tiveram, nem 
estão para ter borregos. Quando se trata 
do gado de lan, é esta a única accepção 
da palavra ; e diz-se o alfeire, sem mais 
explicações. iVlas dá-se também este no- 
me aos rebanhos de porcos, que pas- 
sam, segundo as idades, de serem baco- 
radas a chamarem-se alfeires^ até depois 
constituirem varas\ e ahi, nos alfeires de 
porcos, fazem-se algumas distincções que 
não vem ao nosso caso. Também se em- 
prega a palavra como adiectivo, e se diz, 
por exemplo, uma égua ai feira ^ em op- 
posição a uma ép^ua parida ou apoldrada. 
Devo, no entanto, advertir, que esta ul- 



tima expressão é talvez mais ribatejana 
que alemtejana, e se applica mais ao gado 
grosso que ao miúdo. Não me lembro 
de ouvir dizer a um pastor uma orelha 
alfeira. dirá antes uma orelha do alfeire 
ou das altas. 

A palavra é árabe de origem, e vem 
de al-heir quasi sem alteração, pela sim- 
ples e habitual mudança do //. duro em 
f. Al-heir significa em árabe o curral ou 
recinto fechado onde se guarda o gado. 
No antigo portuguez conservou este sen- 
tido. Fr. .Joaquim de Santa Rosa, no seu 
Klucidario, cita umas posturas de Kvora 
do anno de i'2<')4, nas quaes a palavra 
alfeire significa um curral, e a palavra 
alfeireiro o homem que ali estaVa de 
guarda. Depois, por uma fácil derivação 
de sentido, passou a designar o gado que 
se encerra\a, particularmente as fêmeas 
novas e que se queriam mais bem guar 
dadas. Tratando-se do gado de lan, tem 
hoje na linguagem dos pastores alemte- 
janos a accepção já mencionada, e ne- 
nhuma outra. 

Pelo correr do outono começam a 
nascer os borregos, e formam-se as chi- 
cadas. 

Chicadas são pequenos atalhos de ove- 
lhas, tendo borregos muito novos, ape- 
nas de dias ; e chama-se chicadeiro o ho- 
mem que guarda cada uma d'ellas. É 
palavra originalmente hespanhola, e jul- 
go-a derivada de chico, pequeno. A exis- 
tência da chicada é provisória e muito 
curta ; e, á medida que os borregos to- 
mam força, vão-se juntando e fundindo 



98 



A TRADIÇÃO 



aquelles atalhos até ao numero sufficiente 
para formarem uma paridade. 

Pari.útJc é o rebanho das ovelhas pa- 
ridas. Não encontro a pahr.ra neste sen ^ 
tido nos Diccionarios portuguezes de que 
me sirvo ; e, no entanto, bem merecia ser 
ali admittida pois é de uso corrente e ac- 
cepçâo bem definida. A paridade orça 
por quatrocentas ovelhas proximamente, 
o que, com os borregos, dá um rebanho 
de oitocentas cabeças, pouco mais ou 
menos. Formam se tantas, quantas o nu- 
mero total exige. Um lavrador, que te- 
nha, por exemplo, mil e seiscentas ou 
mil e setecentas ovelhas de ventre, for- 
mará successivamente quatro, que os pas- 
tores distinguem pelos nomes de pari- 
dade temporaii, segunda paridade^ ter- 
ceira paridade e paridade sej'odia (pro- 
nunciam saroida). Cada um d'estes re- 
banhos tem naturalmente o seu maioral, 
ajuda e zagal, e é perfeitamente inde- 
pendente de todos os outros. 

Andam assim todo o inverno, até que, 
ahi pelo mez de fevereiro, mais tarde ou 
mais cedo, segundo a força dos borregos 
e o estado das pastagens, se faz a apar- 
tação^ isto é, se separam os borregos das 
mães. Os borregos vão formar dois reba- 
nhos, do gado macho, e do gado femeo\ 
e as ovelhas passam a ser regularmente 
ordenhadas para o fabrico dos queijos, 
e constituem o alavão, ou os alavões se 
o seu numero é muito grande. 

Alavão é, pois, o nome do rebanho 
que dá leite. Alguns escrevem alabão ; 
mas adoptei a forma indicada pela pro- 
nuncia constante dos pastores. A palavra 
está diversamente definida nos nossos dic- 
cionarios. Sousa diz: «significa as ove- 
lhas que dão muito leite.» Moraes diz: 
«gado de creação e de leite.» O Diccio- 
nario contemporâneo: "gado de creação 
que ainda mamma». Tudo isto é mais ou 
menos inexacto — alavão no Alemtejo si- 
gnifica unicamente o rebanho que dá leite 
pela ordenha, nunca aquelle em que os 
borregos ainda mammão. Também é in- 
differente para o caso que dê muito ou 
pouco leite. O nome do rebanho anda li- 



gado sempre ao facto de dar leite para 
os queijos : começa a chamar-se alavão 
no dia em que os borregos se apartam : 
deixa de se chamar alavão no dia em que 
a ordenha cessa. Esta é a significação da 
palavra no Alemtejo ; seria interessante 
saber o sentido que lhe dão na Serra da 
Estrella, onde as coisas se passam de 
modo um pouco diverso. 

Sousa, nos seus Vestígios, deriva esta 
palavra dé al-labban^ que em árabe si- 
gnifica leite. Engelmann hesita em acceitar 
a sua etymologia: primeiro, porque nunca 
encontrou aquella palavra, al-labbau^ nos 
escriplores arábicos, com o sentido de dar 
muito leite — já vimos, que esta definição 
de Sousa é pouco exacta: segundo porque 
julga que a palavra em portuguez signi- 
fica em geral rebanho. Dozy reforça as 
duvidas de Engelmann, fundando-se so- 
bretudo em que a palavra em portuguez 
tem o sentido lato de rebanho, rancho, 
agrupamento de animaes. Com todo o 
respeito devido a estas grandes auctori- 
dades, afasto-me completamente da sua 
opinião, e tenho a etymologia proposta 
por fr. João de Sousa como sendo extre- 
mamente plausível. Os sábios auctores 
do Glossaire foram illudídos pelos nossos 
Diccionarios. E verdade que Bluteau, de- 
pois de definir correctamente alavão «a 
manada das ovelhas que dão leite», acres- 
centa, que se pode também dizer «ala- 
vão de gallinhas, etc. por grande numero 
d'ellas». E Vieyra fala do mesmo modo 
n'um «alavão de gallinhas», no que me 
parece que não fez mais do que copiar o 
seu predecessor. Isto, no entanto, deve 
ser uma phantasia do erudito padre D. 
Raphael Bluteau, o qual deu como cor- 
rente um significado occasional. No Alem- 
tejo. onde a palavra alavão é typica, per- 
feitamente popular e evidentemente an- 
tiquíssima, nunca a ouvi applicar a um 
rancho de gallinhas ou de patos, nunca 
a um rebanho de outro gado qualquer, 
nunca mesmo a um rebanho de ovelhas, 
a não ser no periodo em que são orde- 
nhadas. A palavra alavão anda indisso- 
luvelmente ligada á ideia de leite. Dado 



A TRADIÇÃO 



99 




&^LERI^ DE TVPOS POPIIMRES 





\'II 




Lavadeira i Serpa) 




100 



A TRADIÇÃO 



isto, nada mais natural do que derival-a 
de jllahban., que em árabe significa leite. 

Ainda devemos citar o nome de fa:^en 
tVj, dado exclusivamente aos rebanhos de 
gado macho. Habitualmente os borregos 
são vendidos, mas quando o lavrador os 
conserva um ou mais annos, formam-se 
o que os pastores chamam fa^eudas^ uma 
fii-cnJa tU' malaios^ ou uma fif^enda de 
carneiros, segundo as idades. 'Fambem 
os cabreiros empregam esta palavra para 
o rebanho de gado macho — dizendo uma 
fazenda de chibatos. 

\'oltando ás ovelhas ; pelo correr do 
mez de junho, a ordenha cessa, a quei- 
jada (rouparia) feixa-se, e o gado, na lin- 
guagem dos pastores, e deitado a vasio. 
Deixa desde esse momento de haver ala- 
vão ou rebanho que tenha esse nome. 
Depois, durante o verão, vende-se o gado 
macho, vendem-se as farotas e as ove- 
lhas que o lavrador não quer ou não 
pode conservar, o alfeire funde-se nas ove- 
lhas de ventre, as borregas passam a for 
mar novo alteire, e as coisas recomeçam 
como nos annos anteriores. Tal é a dis- 
tribuição dos rebanhos nas diversas es- 
tações, tomando o nosso exemplo, é 
claro, em uma lavoira já de certa im- 
portância, porque, sendo o gado em me- 
nor numero, as coisas simplificam-se um 
pouco. 

Examinemos agora alguns traços da 
vida do pastor. — E em primeiro logar 
será necessário advertir, para os leitores 
estranhos á província, que não ha pasto- 
ras no Alemtejo. As pastoras dos Autos 
de Gil \'icente, a linda pastorinha do 
Romance popular, as rapariguitas mais 
ou menos pittorescas, que no Minho, na 
Beira ou na Estremadura, em geral nas 
regiões de pequena cultura, nós encon- 
tramos guardando o seu punhado de ove- 
lhas, com algumas cabras á mistura, tudo 
isto é desconhecido na nossa província, 
pelo menos na parte de que nos occu- 
pamos. O Alemtejo é a terra das gran- 
des culturas e das grandes extensões; as 
cabeças de gado de lan contam-se por 
centenas e milhares ; á noite não reco- 



lhem aos curraes do povoado, mas dor- 
mem, verão e inverno, pelos descampa- 
dos e alqueives ; os rebanhos transitam 
de herdade para herdade, a dezenas de 
kilomctros de distancia. Não podem, por- 
tanto, ser guardados por mulheres, e 
unicamente por homens e homens robus- 
tos. 

Estes homens charaam-se propriamente 
pastores. Sob o nome de ganadeiros, in- 
cluem-se em geral todos os guardadores 
de gado, pastores, porqueiros, vaqueiros, 
eguariços e outros \ mas quando se diz 
simplesmente um pastor., entende-se um 
guardador de gado de lan. 

Ser pastor constitue uma profissão á 
parte, que em geral se segue toda a vida. 
E há mais ; como o rabadão e os maio- 
raes tomam muitas vezes um filho para 
zagal, a profissão tende a fixar-se na fa- 
mília. Eu conheço em Serpa famílias, de 
que todos os homens, com raras exce- 
pções, são pastores ; e isto ha gerações 
successivas. D'aqui resulta, que elles for- 
mam uma classe por assim dizer distin- 
cta, com alguns hábitos e privilégios es- 
peciaes. 

Em Serpa serve-lhes também de liga- 
ção o pertencerem quasi todos á irman- 
dade de S. Pedro, S. Pedro é o santo 
dos pastores, sem duvida por ter sido 
elle próprio um grande pastor de almas. 
Logo ao sair da villa, á direita e nas bai- 
xas da Sr.* de Guadalupe, fica a ermi- 
da do santo, onde, no dia próprio e qua- 
si sempre por um terrível calor, se jun- 
tam os festeiros, no seu trajo de pas- 
tores, com a opa branca por cima. Que 
esta devoção especial é antiquíssima, 
prova-o um habito immemoríal. Em Ser- 
pa, os creados de anno das lavoíras 
são concertados (ajustados e tomados) 
em um dia especial, e despedem-se ou 
são despedidos no mesmo dia; ora, em- 
quanto os outros ganadeiros, os ganhões 
e mais creados são todos concertados 
em dia de Santa Maria, os pastores, 
única excepção, entram para casa do 
amo no dia de S. Pedro, como para 
o solemnisar. A este habito allude a 



A TRADIÇÃO 



101 



quadra publicada no ultimo numcrtj dcs- 
te jornal : 

San João e mais San Pedro 
São dois santos mudadores : 
San João muda os casaes, 
San Pedro muda os pastores. 

\'ejamos agora alguns nomes das pe- 
ças do vestuário e dos objectos de que 
se serve o pastor. 



(Continua) 



Conde de FICALHO. 



ANDAK ÁS VOZES (*) 



(Cunclusáo) 



A porta principal (porque a capella 
tem mais duas portas) c de madeira, com 
dois ralos, por onde os devotos podem 
vêr a imagem da Senhora das Verdades. 

Muitas vezes a vi, á noite, á luz da 
lâmpada que pendia deante do altar-mór. 
Eu e a pessoa que eu acompanhava ali, 
ajoelhávamos no degrau da porta, quan- 
do chegávamos ao termo da nossa silen- 
cioí>a romagem. Sabe Deus com que 
amargura essa querida pessoa, que a 
morte levou ha sete annos, pediria a 
Nossa Senhora das Verdades que não 
viessem a realisar-se as funestas pro- 
phecias, que teria ouvido. Com que amar- 
gura e com que fé ! 

Eu era então uma creança e não dava, 
por isso, valor aos negócios de familia, 
aos assumptos domésticos, por mais mo- 
mentosos que fossem. Chegava a abor- 
recer-me aquella maçada de atravessar 
em silencio a cidade, do bairro Occiden- 
tal para o bairro oriental, desde a rua 



(*) No começo d'est í artigo, pag. 86, linha 29, 
sahiu por lapso de revisão — com o seu bochecho 
em vez de — com ou sem bochecho. 



16 de maio até á Sé. Se eu estava na 
edade em que se falia sempre! (2ustava- 
me fazer tão longa jornada silenciosa- 
mente, como se levasse na bocca uma 
forte mordaça. 

Apenas me distraía com os olhos e 
pelos olhos, sem me importar com as 
1'o^es. (lOsiava de passar pelas lojas de 
commercio, porque offereciam alguma 
variedade devida ás pessoas, de dilleren- 
te cathegoria social, que as (requen- 
tavam. 

Nas l(jjas dos Clérigos, por cuja cal- 
çada desciamos, havia sempre mais ou 
menos senhoias, que faziam as suas 
compras, porque naquelle tempo as da- 
mas portuenses sahiam pouco durante o 
dia. 

Nas lojas da rua do Loureiro, por onde, 
em caminho da Sé, subiamos a rua Chã, 
era certo haver algum padre de capote, 
que conversava, bocejando, com o dono 
do estabelecimento. 

E" de notar que nestas lojas ainda 
hoje se fabricam e vendem vestimentas 
sacerdotaes, especialmente casulas e es- 
tolas : fica assim explicada a presença de 
algum padre naquellas lojas. 

Logo que entravamos na rua Chã, todo 
o ruido da cidade cessava. O antigo bur- 
go episcopal era morto, solitário. Ali co- 
meçava eu a entristecer, e a compene- 
trar-me algum tanto do sentimento reli- 
gioso, que tinha inspirado a nossa ro- 
magem. 

Quando já perto de mim negrejavam 
as paredes da Sé, na solidão e no si- 
lencio, a minha tristeza, mixto de enfado 
e terror, augmentava, a ponto de me fa- 
zer tremer ás vezes. 

Era convulse, agitado, que eu ajoelha- 
va, ao chegar á capella da Senhora das 
Verdades, no degrau da porta, com as 
mãos postas e o boné debaixo do braço. 

Não sei se rezava nem o que rezava, 
emquanto essa querida pessoa orava fer 
vorosamente com os lábios collados a 
um dos ralos, como se estivesse fallando 
com Nossa Senhora para dentro da er- 
mida. 



102 



A TRADIÇÃO 



ToJo o meu desejo era vèi-me d'ali 
para fora o mais depressa possível, po- 
der quebrar o silencio, desforrar-me, com 
usura, de tão longa e forçada mudez. 

Mas a pessoa que eu acompanhava, 
ao voltarmos para casa, vinha quasi 
sempre preoccupada, a revolver na mente 
as royes^ agradáveis ou desagradáveis, 
que tinha ouvido. 

Pobre e crédula creatura, ante-gostava 
a felicidade que lhe tinha sido annun- 
ciada, ou vergava ao peso de alguma 
prophecia de desgraça, de algum aviso 
aziago, acreditando, por egual, uma ou 
outra cousa. 

Aqui está, pois, como segundo a wr- 
sjo do Porto, a capella de Nossa Senho- 
ra das \'erdades é o termo tradicional 
do andar ás }'0'{es^ o limite obrigado 
dessa silenciosa romagem que os su- 
persticiosos fazem cheios de fé, com ou 
sem bochecho na bôcca. 

Como é do estylo não fallar quando 
se anda ás ro^t^s, algumas pessoas, por 
evitar o descuido de não guardar silen- 
cio (o que estragaria a romagem) sujei- 
tam-se ao incommodo do bochecho. Mas 
por isso mesmo que é incommodo, a 
maior parte da gente dispensa o, cer- 
rando os dentes uns contra os outros e 
pondo toda a sua attenção em não dizer 
palavra. 

Só os namorados, na noite de S. João, 
se resignam a esse sacrifício, mas duran- 
te pouco tempo. 

Vinha aqui a propósito um latinório : 
Omnia rincit amor. O amor, para ven- 
cer, soffre tudo : até o ter agua na bôcca 
quando ha fogo no coração. 

¥. no amor, como em tudo o mais, 
melhor é ter agua na bôcca do que ficar 
a fazer cruzes na bôcca. 



(Lisboa) 



Alberto PIMENTEL. 



BOTIllC:! POPUIIB 



Notas acerca de algumas plantas da flora 
portugaeza (*) 

(Conclusão) 

Tratámos em o nosso anterior artigo 
das plantas usadas na medicina popular. 
Vamos falar hoje de outras plantas com 
diversas applicações. 

Para banhar os animaes, usa o povo 
a folha e a casca do salgueiro (Salix alba) 
e a tasneira (Senecio )acobaea) ; para la- 
var fato, a hera (Hedera helix); para per- 
fumar a roupa, o trevo de cheiro (Trifo- 
lium melilotus officinalis); para apanhar 
moscas, as salgadeiras (Atriplex halimus); 
para coalhar o leite, o cardo do coalho 
(Cinara cardunculus svlvestris); para la- 
var o cabello, o avencão (Asplenium, sp?); 
para aromatisar a conserva de azeito- 
nas, a neveda maior (Nepeta cataria, 
Thymus calamintha, Melissa calamintha) 
e os ouregãos; para accender o lume, a 
carqueja (Cjenista tridentata); para a cu- 
linária, as folhas do loureiro (Laurus no- 
bilis). 

Por occasião da festa da Paschoa, tam- 
bém costumam utilisar os ramos de lou- 
reiro e de alecrim para enfeitar <is cosi- 
nhas. 

Em certas tintas, que se empregam nas 
madeiras, o fungão (Lycoperdon tincto- 
rium); e para obter mucilagem, as se- 
mentes de marmeleiro (Pyrus Cydonia). 



Uma das romarias mais interessantes 
e mais concorridas nos arredores de Lis- 
boa, é a de Nossa Senhora da Atalaya. 
Muito se tem escripto acerca d'essa ro- 
maria; por isso, apenas mencionarei ago- 
ra o seguinte pormenor: 



(*) Na I.» parte d'este artigo e quasi no fim 
da pag. 66, 2.' columna, onde se le Farça dos 
Tísicos, leia-se Farça dos Físicos. 



A 1 KADiÇAO 



103 



Na madrugada da festa ^aude, que 
costuma ser a madrugada do uliimo do- 
mingo de agosto, quando a alvura das 
casas começa a saliir da sombra, o sol 
nascente cora de laivos róseos as nebu- 
losidades húmidas da manhã e doura ao 
de leve o cimo dos pinhaes, vão os ro- 
meiros, guiados pelo retumtum das phy- 
larmonicas, lavar o rosto a uma fontinha 
próxima. 

Depois, alguns intrépidos pesquizado- 
res vão pelos campos á volta, ás vezes 
bem longe, porque a planta não é muito 
vulgar, colher as camarinhas (Kmpetrum 
álbum». Parece que so tcem virtude^ co- 
lhidas assim. 

No regresso da romaria é pittoresco o 
desrile d aquella gente. \'ozes quebram a 
serenidade do ar entoando uma decima 
de lado ou alguma cantiga da moda 
nova. 

As cintas, deslaçadas, escorregam em 
voltas frouxas; lenços brancos adejam ao 
pescoço sobre as bandas da jaqueta, e, 
entalado na títa do chapéu, lá vem o ra- 
minho verde, junto ao registo de Nossa 
Senhora. 

Pelas festas de Santo António, S. João 
e S. Pedro, mas principalmente das duas 
primeiras, apparece no mercado de Lis- 
boa grande numero de vasos de barro 
vermelho contendo uma planta odorifera, 
o mangericão ordinário (Ocimum mini- 
mum). O povo elimina á palavra a ter- 
minação áspera e pronuncia carinhosa- 
mente — mangerico. 

E' de boa praxe amatoria otíerecer va- 
sinhos de mangericão; e isto mesmo nas 
classes medianamente abastadas. 

Para maior gala leva então um cravo 
de papel vermelho com um pedacinho de 
papel branco preso na haste á maneira 
de bandeirinha, onde se lêem, impressos, 
versos de pé quebrado. 

Lá vai, pois, a planta aromática, trium- 
phante e desfraldando o guião, exhalar 
perfumes e cantar loas, em homenagem 
a um coração amigo. 

A'emol-a em muitas casas e, até, ás ve- 
zes, a embalsamar o ar impuro e a flo- 



rescer á escassa luz das janellas das pri- 
sões. 

Copio algumas quadras, para amostra 
do lyrismo a que se guindam os vates 
da especialidade. 

«Com qu.ilKj liorcs honiiiis, 
Ao meu bem faço um raminho: 
Açucena, amor perteitf», 
Cravo dobrado, junquilho.u 

•Este cravo bem bonito 
E' p'ra dar ao meu amor; 
Cravo roxo é rei dos cravos, 
Do jardim mimosa flor.» 

«Oavo rf)xo á cintura, 
E' signa! de sentiinento. 
Vae, cravinho, vae depressa 
Adonde esta meu pensamento.» 

«O cravo é cór de logo, 
A relva é mangericão. 
Não me despeço, menina, 
Da tua conversação.» 

"Este mimoso cravo. 
Entre as liores reverdece. 
Também o meu lindf) amor 
Entre os amor's se conhece.» 



"Esta vae por despedida, 
Despedida verdadeira: 
Vae na folhinha de um cravo, 
Na folhinha verdadeira.» 

«Satniei um cravo branco 
N'um canteiro do jardim, 
1'ara ficar de memoria 
O dia em que te conheci.» 

Também é duso corrente adquirir, na 
véspera das ditas festas, a pedido ou por 
compra, alfazema, cardo de S. João (Ci- 
vara humilis, L.) e herva pinheira (Sedum 
fructiculosumi. A alfazema serve para 
perfumar a roupa e para defumadouros, 
principalmente ás creancinhas. 

Aos cardos de S. João, mais conhecidos 
por alcachofas ou alcachofras, attribuem 
o mérito de revelar o bom ou mau êxito 
que de futuro terão os amores. Se a al- 
cachofa reflorir, depois de queimada á 
meia noite, na fogueira — bom prenuncio 



101 



A TRADIÇÃO 



amoroso; de contrario — grandes triste- 
zas no animo das meninas consultantes. 
A sciencia explica, é verdade, e satisfa- 
toriamente, o extranho phenomeno ; mas 
em prosa chan, com detrimento e menos- 
prezo da poesia e do enlevo dos ternos 
corações. . . 

A herva pinheira, chamuscada á meia 
noite da véspera de S. João, e depois re- 
verdecida, é signal de muita felicidade 
para o consultante. A felicidade, n'este 
caso, é ter muito dinheiro. 

Muitas das plantas que citei, não mere- 
cem confiança no que respeita ás suas 
virtudes therapeuticas ; mas algumas ha, 
que são deveras aproveitáveis, e vêem 
incluidas na Pharmacopéa Portugueza. A 
sua classificação, porém, é extremamente 
diílicil, por não obtermos, aqui em Lis- 
boa, os respectivos exemplares. É justa- 
mente o que nos acontece com a salva e 
o alecrim, por exemplo. 

— As minhas notas pouco valor teem ; 
outras pessoas mais competentes teriam 
pesquizado com melhor êxito. Os médi- 
cos, dispersos pelas colónias portugue- 
zas, por exemplo, quanto não poderiam 
investigar n*este sentido, e que proveito 
não resultaria" para a therapeutica, das 
suas investigações ? 

Terminando, cumpre-me agradecer ás 
Ex.™*' Sr.^^ D. Alzira e D. Miquelina Cos- 
ta, e ao Sr. João José da Costa, que tão 
valioso auxilio me dispensaram n'este tra- 
balho. 

SOPHIA DA SILVA. 



IVIodas-estribilhos alemtejanas 



Dizes qu'eu sou lavadeira 

Di{es qu'eu sou lavadeira, ] 
Que ando no mar a lapára.\ 
Eu passo uma vida alegre \ 
Na ribeira a namorara. \ '^' 



Na ribeira a namorara 
ly qu'eu passo o meu born tempo.. 
Desejava amor saberá t 

Qual era o leu pensamento! \ 



)bis 



M. Dias NUNES. 



OS iriRTmíosos 



(Cl nclusão) 



E dão começo ao maior dos martyro- 
lógios: 

— «E' preciso que digas quem te deu 
alguma coisa a beber. Vamos, falia. Po- 
des ainda salvar- te, se fallares. Ha mu- 
lheres ruins, que nos querem muito mal 
e nos invejam. Foste victima de maus 
olhados e de maus tratos. Falia, homem, 
falia!.) 

E o pobre diabo, desequilibrado por 
desgosto, ou por qualquer resfriamento, 
responde, a muito custo, e quasi sem 
comprehender: 

— «Eu bebi, bebi, mas não me lembro 
aonde; foi numa taverna... ao fim da 
villa. . . café, café, numa chávena. . . Ha- 
via gente commigo: dois homens, amigos 
meus. Mulheres é que me deram o 
café. . . ». 

Grande alarido! As mulheres ges- 
ticulam, praguejam, uivam. . . 

— «Ao virtuoso, ao virtuoso! elle dirá 
tudo, saberá tudo, dará remédio para 
tudo. . . Ao virtuoso, ao virtuoso!» 

— E o bando. . . pessoas de familia e 
visinhos — a pobre gente ignorante e fa- 
nática, e, por isso, tanto ou mais parvos 
do que o próprio idiota em questão — 
continua gritando, feroz, endiabrado: «A 
caminho, a caminho de Beja! E' lá que 
está o virtuoso. . . Ah, que elle ha de di- 
zer-nos como tudo se passou!. . .» 

— «O' Beja das tradições liberaes: e 
consentes tu isto ?» 

Mas vamos, não ha tempo a perder, 
a cavalgada chega, chega tudo emfim: 
— o doente, a mulher, a familia da mu- 



A TKADIÇÁO 



106 



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DiZcS ou'lu sou lavadeira 

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106 



A TRADIÇÃO 



Iher, muita gente desvairada, em summa, 
que pergunta a astúcia e a velhacaria. . . 
h aonde, santo Deus ? (ainda bem, ao 
menos issol) é na cadeia que vão encon- 
trar a pessoa que anciosamente pergun- 
tam — a cadeia de Beja, em que um vir- 
tuoso, não sei d'onde, exercia a sua hon- 
rada proíissão á\idirÍ7iho e curandeiro 
milai;;roso! E faliam provavelmente com 
o carcereiro, ou pessoa de família do ho- 
mem de virtude^ porque, apresentados a 
este (o' maravilha !i este sabe tudo: Ex- 
plica ao doente que uma chávena de café 
o poz naquelle estado miserando; que 
foi bebida em uma taverna na companhia 
de mais dois amigos, que ficaram indem- 
nes; que três mulheres é que prepararam 
o mistiforio, a bebida infernal; que as 
três vestem de preto, são altas e delga- 
das, não têm relações de qualidade al- 
guma com a sua familia, e que tudo fi- 
zeram por inveja. E, antes de receitar, 
falia do passado do doente : explica mi- 
nudencias de namoros, as rasões que o 
levaram ao casamento, as suas felicida- 
des e os seus desastres, etc. Em tudo 
acertando á justa com o passado do in- 
feliz. 

A receita dictou-a assim : 

— «Vão para casa. Comprem um gallo 
preto, matem-o e tirem-lhe as enxúndias. 
Depois escolham uma quarta de trigo, a 
dedo. Em uma sexta feira, á meia noite, 
ponham as enxúndias e mais três ovos 
no lar do lume. Passem a despir o doen- 
te, mt em péllo; o fato defumem-o com 
alfazema, também no lar do lume. Es- 
perem até á uma hora da noite : ahi se 
apresentarão três mulheres de preto, que 
nunca ainda lhe perguntaram a casa ; es- 
tacarão á porta. . 

N este momento a mulher do doente 
as mandará entrar e immediatamente 
lhes entregará a quarta de trigo, dizendo: 
— Aqui teem. — As três perguntarão : — 
Para que é isto? — Ao que, replicará a 
mulher: — Levem lá. . . E, rápido, todos 
os homens e mulheres presentes, muni- 
dos de paus, vaçouras, etc, se atirarão ás 
três a desancal-as furiosamente. 



E a cura é immediata, a ponto de, até 
o próprio doente, ainda ml em pêllo^ po- 
der molhar as agulhas!» 

E o virtuoso concluiu prudentemente : 
«Adverte-se que, não se dando a compa- 
rência das três malvadas na primeira 
sexta feira da experiência, esta se deverá 
repetir sete sextas feiras a fio, compran- 
do de cada vez novo gallo preto, e fa- 
zendo as demais coisas atraz menciona- 
das.» 

Agora o melhor da festa: 

Estas experiências não se poderam rea- 
lisar porque o doido teve o bom senso de 
pôr em duvida a sua efficacia e, implici- 
tamente, a seriedade de quem lh'as re- 
ceitou; por maiores esforços que se em- 
pregassem, não houve quem o fizesse 
despir. . . 

Grande alarido! o mulherio bramava! 
A visinhança intervinha, contrariada ou 
interessada, conforme o grau de critério 
de cada um. Balbúrdia infernal, indescri- 
ptivel ! Gente sensata: — que deixassem 
o homem, que tivessem dó do homem! 
E os crendeiros, que eram em maior nu- 
mero, ás unhas com o pobre diabo, ten- 
tando arrancar-lhe o fato a pedaços, já 
que o singular pudor do idiota o não dei- 
xava vir d'ouira maneira! Não o mata- 
ram, mas deixaram-o bem moido! Ber- 
ravam: — Bruto que não se quer curar . . . 
Ha-de morrer para ahi como um cão!.E 
a fazerem-se despezas; e a perderem-se 
noites; e tanta gente a incommodar-se. . . 
Para quê? para quê? E havia lagrimas 
na vóz, e havia lagrimas nos olhos. . . 

No conceito d'aquella gente (e ainda 
era preciso que tal gente tivesse conceito) 
até o poeta dizia, se resuscitasse: «.E a 
nada o bruto se moveu li* 

Ha dias, disse eu a alguém que pas- 
sava: «Teu tio está melhor?» A que o 
interrogado respondeu: «Isso sim!... 
'tá qáes na mesma : Antão., elle não qri\ 
fazer a mesinha ...» 



(Vidigueira) 



Pedro COVAS. 



A TRAOIÇAO 



107 



THERAPKUTICA MYSTICA 

II 

Benzedura contra a erysipéla {*) 



A benzedeira, tendo na mão direita 
um rosário, collocase em frente do doen- 
te, e, benzendo com a própria cruz do 
rosário a região erysipelada, \ai profe- 
rindo a seguinte oração : 

— «Em louvor de Deus e da Virgem 
Maria. A mão de Deus vá adiante, que 
a minha não tem valia. S. Sezinando 
pelo mundo andou — com a Virgem 
Nossa Senhora se encontrou — e a Se- 
nhora lhe perguntou:» 

— «Donde vens Sezinando?» 

— a Eu, Senhora, venho de Roma.» 

— «Que viste lá ?» 

— «Erysipéla.» 

— «Volta para traz e corta-a : erysi- 
péla branca, erysipéla branquinha — ery- 
sipéla vermelha, erysipéla vermelhinha 
— erysipéla empolar — ei\"sipéla negral. 
Todo o mal de erysipéla, eu te corto e 
te deito para o mar — para onde não oi- 
ças gallo nem gallinha cantar — nem mãe 
por seu lílho bradar.» 

F^sta oração deve proferií-se durante 
cinco sessões, e em cada sessão cinco ve- 
zes. No fim da quinta vez, e em cada 
sessão, diz-se : « Alleluia, alleluia, alleluia. 
Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto. 
Sicut erat in principio, et nunc, et sem- 
per, et in saecula saeculorum. Amen. E 
em seguida reza-se o Padre Nosso e a 
Ave Maria. 

Toda a reza precedente é offerecida ás 
cinco chagas de Nosso Senhor Jesus 
Christo. Eis o offerecimento : 

«Em louvor das cinco chagas de Nosso 
Senhor Jesus Christo e sua Mãe Maria 
jSantissima. Todos os inales que nestes 
logares estão — seja servido de lhe dar 
saúde e o pôr são.» 



(*) O povo pronuncia : êresipela. 



Variante da benzedura anterior 



«Em louvor de Deus e da \'irgem Ma 
ria. A mão de Deus vá adiante, que a 
minha não tem valia.» 

«Nossa Senhora pelo mundo andííu — 
com a vcrmfUia se encontrou — e a Se- 
nhora lhe perguntou:» 

— «Que vevínclha é esta?p 

— « Eu não sou vermelha, sou rosa cor- 
ça. Como a carne e mino o osso.» 

— «E's rosa corcenosa. (>omes a carne, 
minas o osso. Eu te corto: cabeça, rabo 
e pescoço, corpo todo. Para as bandas 
do mar te deitarei.» 

«Em louvor da Virgem Maria. Padre 
Nosso, Ave Maria. 

Esta oração, depois de proferida as 
cinco vezes do estilo, faz-se seguir das 
mesmas palavras que citámos no caso 
antecedente, e é ofVerecida da mesma 
forma ás cinco chagas de Nosso Senh<^r 
Jesus Christo. E, para que as benzedu- 
ras surtam eíVeito, devem egualmente ser 
executadas durante cinco dias. 



(Brinches). 



Ladislau piçarra. 



AS TABOAS DE MOYSÉS 



A interessante reza tradicional subor- 
dinada a este titulo, é a de maior e mais 
profunda devoção para a gente do povo, 
que a diz, com a fé cega dos crentes, em 
todos os transes dolorosos da sua vida, 
em todos os momentos de anciedade, af- 
tiicção e angustia. Rezam se as Taboas 
de Moysés quando a tempestade se de- 
sencadeia e o trovão ribomba nos espa- 
ços ameaçador; quando as chuvas torren- 
ciaes arrasam os campos, nas invernias, 
ou quando as largas estiagens, resequin- 
do o arvoredo e as searas ainda tenras, 
abysmam toda a população agricola na 
lúgubre perspectiva da fome e da mise- 



108 



A TRADIÇÃO 



ria próximas. Se algum ente querido em- 
prehende larga viagem arriscada, reza-se 
devotamente as Taboas de Mo^^sés : e 
reza-se ainda a mesma oração quando o 
mancebo recenseado para o serviço mili- 
tar vac tirar a sorte, a qual, sendo-lhe 
adversa, obrigal-o ha a pagar o tão odia- 
do tributo de sangue. 

Na sua grande fé ingénua e rude, o 
povo cré que, se as Taboas são ditas 
correntemente, sem nenhum erro ou ti- 
tubeação, o mal que se teme é de certo 
conjurado; o contrario, porém, é de fu- 
nestíssimo presagio. 

O manuscripto das Taboas, introdu- 
zido a occultas no forro do casaco de 
qualquer pessoa, torna essa pessoa — se- 
gundo a crença — inattingivel a toda a es- 
pécie de infelicidade ou revez. 

Eis a oração, que rielmente recolhemos 
da tradição oral : 

— Christovão, queres ser salvo ? 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me a primeira. 

— A primeira é a Casa Santa de Jeru- 
salém, onde Jesus Christo morreu por 
nós. Amen. 

— Christovão, queres ser salvo ? 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me as duas. 

— As duas são as Taboas de Moysés, 
onde Jesus Christo pôz os seus divinos 
pés. E a primeira, a Casa Santa de 
Jerusalém, onde Jesus Christo morreu por 
nós. Amen. 

— Christovão, queres ser salvo ? 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
nae as três. 

— As três são as Três Marias. As duas 
são as Taboas de Moysés, onde Jesus 
Christo pôz os seus divinos pés. E a pri- 
meira, a Casa Santa de Jerusalém, onde 
Jesus Christo morreu por nós. Amen. 

— Christovão, queres ser salvo ? 



— Pela g^-aça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me as quatro. 

— As quatro são os Quatro Evangelis- 
tas. As três são as três Marias. As duas 
são as Taboas de Moysés, onde Jesus 
Christo pôz os seus divinos pés. E a pri- 
meira, a Casa Santa de Jerusalém, onde 
Jesus Christo morreu por nós. Amen. 

— Christovão, queres ser salvo? 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me as cinco. 

— As cinco são as Cinco Chagas de 
Nosso Senhor Jesus Christo. As quatro 
são os Quatro Evangelistas. As três são 
as Três Marias. As duas são as Taboas 
de Moysés, onde Jesus Christo pôz os 
seus divinos pés. E a primeira, a Casa 
Santa de Jerusalém, onde Jesus Christo 
morreu por nós. Amen. 

— Christovão, queres ser salvo ? 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me as seis. 

— As seis são os Seis Cirios Bentos 
com que se alumia o Santíssimo Sacra- 
mento. As cinco são as Cinco Chagas de 
Nosso Senhor Jesus Christo. As quatro 
são os Quatro Evangelistas. As três são 
as Três Marias. As duas são as Taboas 
de Moysés, onde Jesus Christo pôz os 
seus divinos pés. E a primeira, a Casa 
Santa de Jerusalém, onde Jesus Christo 
morreu por nós. Amen. 

— Christovão, queres ser salvo? 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me as sete. 

— As sete são os Sete Passos. As seis 
são os Seis Cirios Bentos com que se 
alumia o Santíssimo Sacramento. As 
cinco são as Cinco Chagas de Nosso Se- 
nhor Jesus Christo. As quatro são os 
Quatro Evangelistas. As três são as Três 
Marias. As duas são as Taboas de Moy- 



A TRADIÇÃO 



109 



sés, onde Jesus Christo pôz os seus divi- 
nos pés. K a primeira, a Casa Santa de 
Jerusalém, onde Jesus (Christo morreu 
por nós. Amen. 

— (^hristovão, queres ser salvo: 

— l^ela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze pala\ras que sabes, di/e- 
me as oito. 

— As oito são os Oito Coros de Anjos. 
As sete são os Sete Passos, As seis são 
os Seis Cirios lientos com que se alumia 
o Santissimo Saciamento. As cinco são 
as (jnco C>hagas de Nosso Senhor Jesus 
Christo. As quatro são os Quatro Kvan- 
gelistas. As três são as Três Marias. As 
duas são as Taboas de Moysés, onde Je- 
sus Christo pôz os seus divinos pés. K a 
primeira, a Casa Santa de Jerusalém, 
onde Jesus Christo morreu por nos. Amen. 

— Christovão, queres ser salvo? 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me as nove. 

— As nove são os Nove Mezes em que 
Nossa Senhora trouxe o seu bemdito fi- 
lho no seu divino ventre. As oito são os 
Oito Coros de Anjos. As sete são os Sete 
Passos. As seis são os Seis Cirios Ben- 
tos com que se alumia o Santissimo Sa- 
cramento. As cinco são as Cinco Chagas 
de Nosso Senhor Jesus Christo. As qua- 
tro são os Quatro P^vangelistas. As três 
são as Três Marias. As duas são as Ta- 
boas de Moysés, onde Jesus Christo pôz 
os seus divinos pés. E a primeira, a Casa 
Santa de Jerusalém, onde Jesus Christo 
morreu por nós. Amen. 

— Christovão, queres ser salvo? 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me as dez. 

— As dez são os Dez Mandamentos. 
As nove são os Nove Mezes em que 
Nossa Senhora trouxe o seu bemdito fi- 
lho no seu divino ventre. As cito são os 
Oito Coros de Anjos. As sete são os 
Sete Passos. As seis são os Seis Cirios 



Bentos com que se alumia o Santissimo 
Sacramento. As cinco são as (jnco (cha- 
gas de Nosso Senhor Jesus (Christo. As 
quatro são os Quatro Evangelistas. As 
três são as Frcs Marias. As duas são as 
Taboas de Moysés, onde Jesus Christo 
pôz os seus divinos pés. K a primeira, a 
Casa Santa de Jerusalém, onde Jesus 
(Jiristo morreu por nos. Amen. 

— Christovão, queres ser salvo? 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me as onze. 

— As onze são as Onze .Mil \ irgens. 
As dez são os Dez .Mandamentos. As no- 
ve são os Nove Mezes em que Nossa Se- 
nhora trouxe o seu bemdito li lho no seu 
divino ventre. As oito são os Oito Coros 
de Anjos. As sete são os Sete Passos. 
As seis são os Seis Cirios Bentos com que 
se alumia o Santissimo Sacramento. As 
cinco são as Cinco Chagas de Nosso Se- 
nhor Jesus Christo. As quatro são os 
Quatro Evangelistas. As três são as Três 
Marias. As duas são as Taboas de Moy- 
sés, onde Jesus Christo pôz os seus divi- 
nos pés. K a primeira, a Casa Santa de 
Jerusalém, onde Jesus Christo morreu 
por nós, Amen. 

— Christovão, queres ser salvo? 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me as doze. 

— As doze são os Doze Apóstolos. As 
onze são as Onze Mil Virgens. As dez 
são os Dez Mandamentos. As nove são 
os Nove Mezes em que Nossa Senhora 
trouxe o seu bemdito filho no seu divino 
ventre. As oito são os Oito Coros de An- 
jos. As sete são os Sete Passos. As seis 
são os Seis Cirios Bentos com que se 
alumia o Santissimo Sacramento. As 
cinco são as Cinco Chagas de Nosso Se- 
nhor Jesus Christo. As quatro são os 
Quatro Evangelistas. As três são as Três 
Marias. As duas são as Taboas de Moy 
sés, onde Jesus Christo pôz os seus divi- 
nos pés. E a primeira, a Casa Santa de 



110 



A TRADIÇÃO 



Jerusalém, onde Jesus Christo morreu 
por nos. Amen. 

— Christovão, queres ser salvo? 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me as treze. 

— As treze são os Treze Raios do Sói 
com que arrebenta o Diabo maior. As 
doze são os Doze Apóstolos. As onze são 
as Onze Mil Virgens. As dez são os Dez 
Mandamentos. As nove são os Nove 
Mezes em que Nossa Senhora trouxe o 
seu bemdito filho no seu divino ventre. 
As oito são os Oito Coros de Anjos. As 
sete são os Sete Passos. As seis são os 
Seis Cirios Bentos com que se alumia o 
Santissimo Sacramento. As cinco são 
as Cinco Chagas de Nosso Senhor Je- 
sus Christo. As quatro são os Quatro 
Evangelistas. As três são as Três Marias 
As duas são as Taboas de Moysés, onde 
Jesus Christo pôz os seus divinos pés. E a 
primeira, a Casa Santa de Jerusalém, on- 
de Jesus Christo morreu por nós. Amen. 

— Christovão, queres ser salvo." 

— Pela graça de Deus, Senhor, sim, 
quero. 

— Das treze palavras que sabes, dize- 
me as treze. 

— As treze são os Treze Raios da 
Lua. Arrebenta, Diabo! que a minh'alma 
não é tua. As doze são os Doze Após- 
tolos. As onze são as Onze mil Virgens. 
As dez são os Dez Mandamentos. As 
nove são os Nove Mezes em que Nossa 
Senhora trouxe o seu bemdito filho no 
seu divino ventre. As oito são os Oito 
Coros de Anjos. As sete são os Sete Pas- 
sos. As seis são os Seis Cirios Bentos 
com que se alumia o Santissimo Sacra- 
mento. As cinco são as Cinco Chagas de 
Nosso Senhor Jesus Christo. As quatro 
são os Quatro Evangelistas. As três são 
as Três Marias. As duas são as Taboas 
de Moysés, onde Jesus Christo pôz os seus 
divinos pés. E a primeira, a Casa Santa 
de Jerusalém, onde Jesus Christo morreu 
por nós. Amen. 

M. Dias NUNES. 



O TOURO DE S. MARCOS 



Na egreja do Carmo ou da Senhora 
das Reliquias, situada nos subúrbios da 
encantadora villa da Vidigueira, existe 
uma imagem de S. Marcos, representan- 
do este santo no acto de receber a mis- 
são d'evangplisar os povos. 

A egreja acaba agora mesmo de ser 
reconstruída ; mas no seu antigo altar- 
mór, incrustada num dos pilares doura- 
dos, lá estava a referida imagem tendo 
aos pés um touro. A figura que repre- 
senta este animal, é uma obra d'arte, ma- 
gnificamente cinzelada, sobresaindo, em 
bello relevo, das inscrustações do dito 
pilar. 

A crença popular em volta de S. Mar- 
cos, desenvolveu-se extraordinariamente, 
a ponto de considerarem o mencionado 
touro como sendo capaz d'amansar as 
creanças! 

Vejamos como procediam as mães in- 
génuas destes sitios, para que os seus 
filhos fossem mansinhos. 

Dirigiam-se as mulherzinhas, geral- 
mente camponias, á egreja das Reliquias, 
de preferencia aos domingos e dias san- 
tificados. Chegadas á egreja, offereciam 
algumas orações á imagem da Senhora 
das Reliquias, e em seguida iam apresen- 
tar a creança a S. Marcos, repetindo 
n'essa occasião as mesmas rezas. 

Feita a apresentação e proferida a reza, 
batiam com a testa da creança na fronte 
do touro. Tal é a curiosa pratica, de que 
muitas vezes fui testemunha ocular. 

O piedoso exercício, acima descripto, 
parece que nem sempre era feito com a 
devida moderação, pois corre até a ver- 
são de que uma pobre camponeza de 
Sant'Anna — pittoresca aldeia de Portel 
— vibrou uma pancada com tanta violên- 
cia, que a infeliz creança lhe falleceu 
nos braços. 



Os lavradores mantinham outr'ora 
uma grande devoção pelo Senhor S. 



A TRADIÇÃO 



111 



Marcos; e a prova temo-la nas esplen- 
didas festas que ellesrealisavamem honra 
do mesmo Santo, as quaes ficaram assi- 
gnaladas na tradição popular. A cxtinc- 
ção destas festas data, segundo uns, dos 
princípios do século WIIl, ou dos lins 
deste século, segundo outros. 

Teixeira dAragão corrobora este facto 
num bello estudo sobre a Vidigueira, 
saido a lume em 1880, por occasião do 
tri-centenario de (Camões. 



Não devemos esquecer, que é da egre- 
ja da Senhora das Keliquias que foram 
trasladados os ossos de \'asco da (jama 
— o immortal descobridor da índia — 
para o sumptuoso convento de Santa Ma- 
ria de Belém. 

Na antiga capellamór da egreja do 
Carmo, do lado da epistola, via-se uma 
lapide commemorativa da trasladação. 

FAZENDA Júnior. 



CRENÇAS & SUPERSTIÇÕES 

Bmxas e bruxedos 

3 — A pratica que vamos descrever, 
destinada também a desembruxar as 
creanças, constitue, como o leitor verá, 
uma curiosa variante das duas anteriores, 
publicadas em o n.° 5 desta revista. Pas- 
semos, pois, á sua descrição. 

Um Manuel e três Marias peneiram 
uma porção de farinha de centeio, tendo 
as quatro pessoas o cuidado de pegarem 
na peneira com a mão esquerda. Penei- 
rada a farinha, as três Marias amassam- 
na com agua, tirada também com a mão 
esquerda de três fontes ou poços. 

A agua é ministrada por Manuel, que 
a vai deitando na massa á medida que é 
precisa. Depois damassada a farinha, 
tende-se e faz-se com ella uma pepia. 

Tanto o amassar como o tender, deve 
egualmente ser feito com a mão esquerda. 



Preparada assim a pepia, esperam o 
cantar do gallo á meia noite, c a essa 
hora dirigem-se a uma encruzilhada para 
alli passarem a creança atravez da cita- 
da coroa de massa, e usando o mesmo 
processo que expuzcmos a propósito da 
pratica 2.*. Logo que esta cerimonia fm- 
da, esmigalham a pepia e espalham-na 
pelo chão, no próprio sitio da encruzi- 
lhada. K em seguida voltam todos os cir- 
cumstantes para casa, na intima convic- 
ção de que libertaram a creança da ac- 
ção maléfica das bruxas. 

O preceito aqui estabelecido de ser a 
mão esquerda que deve realisar todo o 
trabalho, liga-se naturalmente ao pensa- 
mento popular de que a mão direita é 
de Deus, ao passo que a esquerda per- 
tence ao Diabo. 



(Brinches) 



FILOMATICO. 



CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS 

VIII 
\^ zorra e a cegonha 



D'uma occasião, uma zorra, ouvindo 
dizer que as cegonhas eram muito esper- 
tas, resolveu enganar a primeira que en- 
contrasse. A zorra marchou, e, ao passar 
por um valle, viu que estava ali uma ce- 
gonha ; dirigiu-se para ella e disse-lhe : 

— «Salve-a Deus, comadre cegonha! 
mesmo á sua busca é que eu andava. . . b 

— «Então para quê?i — perguntou a 
cegonha. 

— «Porque tal dia faço annos, e quero 
que vocemecè assista ao jantar.» 

— «Sim senhora, comadre zorra, pôde 
ficar descançada que não falto.» 

— «Pois bem, I — disse a zorra — «nesse 
caso, desde já lhe agradeço, e não se es- 
queça.» 

No dia combinado, a cegonha foi a casa 
da zorra, e quando lá chegou, tinha a 
zorra acabado de tirar umas papas do 
lume, e estava á espera que arrefecessem, 



112 



A TRADIÇÃO 



para se não escaldar. Logo que as pa- 

f)as arrefeceram, deitou-as a zorra numa 
age, e disse á cegonha: «Comadre, ve- 
nha jã para a mesa, que isto está que nem 

Puzeramse ambas a comer as papas, 
mas como a cegonha só depennicava, 
pouco comia ; ao passo que a zorra, com 
a Hngua, raspava tudo. 

A cegonha, vendo que tinha sido en- 
ganada pela zorra, jurou vingar-se, e para 
isso, disse lhe : 

— «O comadre! dhoje a tantos dias, 
também eu faço annos, e não a dispenso 
de modo algum, porque já comprei um 
borrego para o jantar desse dia». 

A zorra, que não sabia já o tempo em 
que tinha comido borreguinho, hcou doi- 
da de contente, e respondeu logo que não 
faltaria. 

Effectivamente, a zorra não faltou no 
dia marcado, mas a cegonha é que, em 
vez de deitar a carne num prato, fe-la 
em salada e metteu-a dentio duma amen- 
tolia (almotolia). Succedeu então, que a 
cegonha com o bico comeu a carne toda, 
e a zorra, não podendo metter a lingua 
dentro da ameníolia^ ficou em jejum. 

Quando acabou o jantar, armou-se 
uma trovoada, e a zorra perguntou á ce- 
gonha : 

— «C comadre cegonha! então que 
musica é esta ? » 

Respondeu-lhe a cegonha : 

— "Isto são as vôdas dei cielo. Agora 
vou eu para lá, e se você quer vir com- 
migo, eu a levo ás minhas costas. Se 
você visse, comadre, aquillo ali ha de 
tudo, e com fartura I» 

A zorra, como tinha ficado mal de 
jantar, ouvindo dizer que havia de tudo 
com fartura, acceitou o convite da cego- 
nha. Esta levantou vôo, e quando a zorra 
se viu lá por essas alturas, começou a 
temer uma grande queda, e dizia de vez 
em quando: «Se desta escapo como es- 
pero, não torno ás vôdas dd eido.-» 



(*) Ginja-marmello — coisa excellente. 



A cegonha, assim que viu que ia em 
par dum rochedo, disse á zorra : 

— «O' comadre! chegue-se lá mais 
aqui para este lado, que já vou estando 
cançada desse.» A pobre da zorra, não 
desconfiando, foi mudar de posição \ ao 
mesmo tempo, a cegonha escapou-se-lhe 
debaixo e deixou-a cair. A zorra, já na 
queda, reparando no rochedo, diz-lhe: 

— «Foge rocha, que te parto!» 



(Da tradição oral) 
(Brinches). 



António ALEXANDRINO. 



PEOVEEBIOS E DICTOS 



(Continuação) 

XLVI 

Se queres ver mal a Portugal, dá-lhe 
três cheias antes do Natal. 

XLVII 

Janeiro, geadeiro, afogou a mãe no ri- 
beiro. 

XLVIII 

Em Fevereiro, febras de frio e não de 
linho. 

XLIX 

Março, marçagão, pela manhã focinho 
de cão e á tarde um bom borregao. 



Em Março começando a dar ao rabo, 
— não fica ovelha em oiteiro, nem bor- 
rego em descampado, nem pastor em- 
pellicado. 

LI 

Não ha lenha como o azinho, nem car- 
ne como o toucinho. 

(Da tradição oral) (Continua) 

(Serpa) 

CASTOR. 



Anuo I — N.«S 



SEBFA. ÁgOBto de 1899 



S<^fio I 



Editor-adminisiruJor, Jate Jtronymn Ja Cotia ttr.ivo Je Segreirot, Ruji Larga, j e 4 — SKRPA 
Typourapliia dr AJolpho d« Slenãoncã, Kua «lo Corpo Sanio, 4Ó e 48 — LISBOA 

A TRADIÇÃO 

■> 
REVISTA MENSAL DETHNOGRAPHIA PORTUGUEZA 



"Úx^^c-XOK^^. — LADISL AU PIÇARRA e M. DIAS NUNES 



O elemento árabe na linguagem dos pastores 
alemtejanos 



(conliiuiado de pa^. loij 



O vestuário dos pastores (*) é egual 
ao dos outros aleintcjanos do campo; 
mas tendo algumas peças especiaes, que 
indicaremos brevemente com os seus no- 
mes. 

Pellico é uma grande jaqueta de pelles, 
que os pastores trazem vestida nos dias 
mais frios; ao hombro logo que o tempo 
aquece. Do mesmo modo que muitos ou- 
tros objectos do seu uso, o pellico é 
todo feito por elles. O pastor dá o pre- 
paro ás pelles de modo que fiquem com 
a lan intacta, soraiido-as com repetidas 
fricções da mão e das unhas, e estican- 
do-as em todos os sentidos, até ficarem 
macias e com o casco bem branco. Cor- 
ta-as depois com a habilidade dum ver- 
dadeiro alfayate ; e cose as diversas pe- 
ças com corriol, um fio resistente, for- 
mado de finissimas tiras do mesmo coiro 
de ovelha ou borrego, cortadas e torci- 
das em fresco. E certo, que algumas 
d'estas jaquetas, feitas de pelles pretas 
por íóra e forradas de pelles brancas, 
chegam a ser elegantes. O pellico é sem 
duvida alguma a peça mais tj^pica do ves- 
tuário, por isso que só os pastores o 



(*) Veja-se a estampa publicada na Tradição^ 
pag. 5i. 



usam. A palavra é também hcspanhola 
e de origem evidentíssima. 

Çamarro é divei so do pellico, formado 
de duas pelles, uma maior nas costas, 
outra no peito, e sem mangas. Não é de 
modo algum especial aos pastores, e ou- 
tros ganadeiros e homens de trabalho 
se vêem frequentemente no inverno com 
çamarros. Objecto e nome são antigos; 
e já o nosso Gil Vicente menciona: 

Os çamarros dos vaqueiros. 

Em hespanhol ha a mesma palavra, 
tendo hoje a forma :iamtirro; e Covarru- 
bias dá-lhe diversas etymologias, algu- 
mas do hebraico, c todas mais ou menos 
duvidosas. É notável, que as samarras 
ecciesiasticas, asque se vestiam aos con- 
demnados da Inquisição, tenham alem da 
similhança de nome, uma certa similhan- 
ça de forma com os çamarros dos gana- 
deiros. Deixando estas questões, que nos 
levavam longe, o que parece seguro c que 
a palavra nos não veiu por intermédio dos 
árabes. 

ÇV//ot'S, ou melhor çafões <*) são cons- 
tantemente usados pelos pastores, como, 
de resto, por quasi todos os trabalhado- 
res do campo. Os dos pastores são em 
geral de pelles de ovelha com a lan, e 
também feitos por elles; mas ás vezes 
de verão são de pelle de cabra ou chi- 
bato. A palavra çafão (usa-se sempre no 
plural) em hespanhol çahon e :[ahun^ é de 



(*)A orthographia çafões é mais chegada á ori- 
gem provável, e também á pronuncia alemtejana. 



lU 



A TRADIÇÃO 



origem árabe, como parece também ser 
da mesma origem o objecto que designa. 
Govarrubias diz, que é nome arábico, si- 
gnificando calça ancha csparcida. Yan- 
guas explica melhor, que eram calções 
abertos de ambos os lados, não passan- 
do da barriga da perna, e feitos de pelle 
de carneiro ou de outras pelles. E ac- 
crescenia. que a palavia çalioii^ com o 
seu correspondente arábico, vem já no Vo- 
cabulistade Pedrod'Alcalá(i ■o5);eaquel- 
le nome arábico se encontra também em 
um documento árabe de Almeria do XV 
século, onde se \è: picles para los ^aliones 
y \apatos (tr. de Yanguas). 

Colmos são polainas grosseiras de coi- 
ro, que poucos pastores, dos mais velhos, 
ainda usam; o maior numero traz hoje 
botas. A palavra é de origem bem evi- 
dente e não carece de explicação. 

Referindo-nos ainda á estampa, an- 
tes citada, notamos ali mais dois obje- 
ctos t3^picos: a funda a tiracollo, com a 
qual o pastor lança pedras a grande dis- 
tancia para voltar o gado: o cajado de 
forma muito especial, que lhe serve para 
em feiras, apartações, tosquias, segurar 
pelo pescoço ovelhas e carneiros. 

O pastor alemtejano é um nómada. 
E' claro que em distancias relativamente 
muito curtas, quando o comparamos com 
os verdadeiros nómadas da Africa ou da 
Ásia; mas emfim é um nómada. Como 
tal necessita levar comsigo as provisões 
de alguns dias, e os poucos mas indis- 
pensáveis objectos de que diariamente se 
serve. Tudo isto é transportado pelos 
burros, mais habitualmente burras, do re- 
banho. São pittorescas as duas ou três 
burras década rebanho, com a sua carga 
complicada, sem cabeçada, chocalho ao 
pescoço, pastando tranquillamente atraz 
das ovelhas. Tão pouco téem mudado no 
correr d'estes últimos trez ou quatro sé- 
culos, que nunca as vejo sem me lembrar 
d aquclle extraordinário poeta que foi o 
Gil Vicente. A burra que elle descreveu 
pertencia a outra provincia e a uma ma- 
nada de gado mesclado como se encontram 
mais para o norte; mas a sua descripção 



e tão puramente portugueza, tão inten- 
samente rústica, que não resisto á tenta- 
ção de a transcrever. 

Entra o pastor André cm scena, e diz: 

Eu perdi, se s';inoutece, 
A a^na ruça de meu pae, 
O ra^to por aqui vae. 
Mas a burra nao parece, 
Nem sei em que valle cai, 
Leva os tarros e apeiros, 
O çurrão co'os chocalhos, 
Os çamarros dos vaqueiros, 
Dois sacos de pães inteiroí, 
Porros, cebolas e alhos. 
Leva as peas da boiada, 
As carrancas dos rafeiros, 
E foi-se a pascer folhada, 
Porque besta despeada 
Não pasce nos sovereiros. 

Ahi fica a burra do rebanho evocada 
pela viva imaginação do poeta que mais 
e melhor sentiu o povo do campo portu- 
guez. Mas necessitamos descrevel-a pro- 
saicamente sob o nosso ponto de vista 
muito especial. O aparelho da burra é 
simples, e consiste apenas n'uma alma- 
írixa^ feita pelo próprio pastor com as 
pelles das ovelhas mortas. Estas pelles 
seguram- se por uma silha grosseiía de 
corda, (*) a qual de um e outro lado se 
vem prender a uma espécie de arrocho 
muito curvo, que mantém as pelles no 
seu logar. 

oAlmairixa é palavra árabe, como a sua 
forma o está dizendo bem claramente; 
mas ha duvidas sobre o vocábulo d'onde 
procede. Sousa áQn\o\i-Aáe.almatraxa o. 
do verbo taraxa\ mas o sentido levanta 
algumas difficuldades. Dozy julga-a uma 
contiacção áz almadraqucxa^ que no an- 
tigo portuguez teve a accepção de traves- 
seiro largo (cf. St.* Rosa). Em todo o 
caso, almatrixa passou a significar a 



(*) Ou antes de baraço. No Alemtejo chamam 
cordas, as cordas grandes de linho de carregar 
carros e carretas; todas as outras cordas, princi- 
palmente sendo de esparto, são baraços (do ára- 
be maras). Dentro da designação geral baraço ha 
depois aljirme e outras variedades. 



A TRADIÇÃO 



115 




116 



A TRADIÇÃO 



cobertura ou coxim, que se lançava so- 
bre o lombo das bestas; c é exactamente 
o sentido que lhe dão os nossos pastores. 

Sobre as almatrixas das burras se car- 
rega o avio da semana, que geralmente 
ao sabbado um dos pastores vem buscar 
a casa do amo: o pão de trigo para os 
homens em saccos — «doissaccos de pães 
inteirosx, como dizia o nosso Ciil ^'icen- 
te: o pão de cevada para os cães: o azei- 
te nas clhircs, cornos de boi de grandes 
dimensões, como geralmente são os da 
raça alemtejana: o sal no sau'Í7'o^ feito 
da parte inferior de um corno de boi: vi- 
nagre e outros condimentos «cebolas e 
alhos», como tamb^^m dizia Gil Vicente. 

Ali andam egualmente os poucos mas 
indispensáveis utensílios do pastor. Os 
mais miúdos, colheres de pau e de chi- 
fre de carneiro, canivetes e mais ferra- 
menta, andam dentro do çurrão ou sm - 
rão^ em hespanhol çurron^ a clássica bol- 
sa de pelles, que todos os diccionarios e 
todos os escriptores bucólicos mencionam. 
Na sua bainha de pelle andp o cutello^ 
com que nos chapa rraes o pastor corta a 
lenha para cozinhar e para os grandes 
lumes da noite. Nem pôde esquecer a 
caldeira de arame, onde fazem as migas 
de azeite, e ás vezes na primavera as 
migas canhas (brancas) com leite para o 
almoço; e á noite a sopa de azeite e ce- 
bola, chamada calatroia^ ou de verão a 
sopa fria, a que dão o nome de vinagra- 
da — o caspacho dos hespanhoes. 

Sobre a burra anda também de dia o 
harqitino^ um dos objectos mais caracte- 
rísticos da bagagem. O barquino é uma 
espécie de grande borracha, ou antes de 
odre para agua, teito também pelo pas- 
tor. A cabra ou chibato, cuja pelle é des- 
tinada a fazer um barquino, é esfolada 
de um modo especial, sem incisão ao 
longo do ventre e peito, a coiro cerra- 
do^ (*) como dizem os pastores e cabrei- 



(*) Deve escrever-se cerrado e não serrado^ 
porque evidentemente significa não aberto. O fim 
d'esta operação é diminuir a extensão das cos- 
turas, que depois tem de se fazer. 



ros. O coiro é depois salgado pela parte 
interna; e quando tem tomado bem o sal, 
atam fortemente as aberturas das pernas 
e do pescoço, e dcitam-lhe dentro agua 
com entrecasca de sobro ou azinho. Anda 
d'este modo muitos dias curtindo. E en- 
tão vasado, enxuto, e cosido com corriol a 
costuras dobradas. Ao logar do pescoço 
adaptam um bocal largo de madciía, que 
pode servir de copo, tendo no centro um 
orifício, tapado comum espicho. Fica as- 
sim prompio, e, depois de servir alguns 
dias ou semanas, faz boa agua e bastan- 
te fresca, porque o coiro é um tanto per- 
meável e está sempre molhado pela pai'- 
te de fora. Para beber, exercese uma 
leve pressão sobre o coiro, e a agua af- 
íiue ao bocal; mas é precisa uma certa 
aprendisagem para o saber fazer, e já 
me tem succedido molhar-me todo ao 
querer beber por um barquino de pastor. 

Porque lhe chamam barquino ? A pa- 
lavra falta em todos os nossos dicciona- 
rios, com excepção do «Novo Dicciona- 
rio da Lingua Portugueza», onde em 
duvida se deriva de barco. E' possível 
que assim seja, comquanto a similhança 
com um barco seja muito remota. Em to- 
do o caso, e apesar de me não parecer esta 
origem provável, eu não saberei propor 
melhor derivação. O nome, quanto pos- 
so julgar, é local e puramente portuguez. 
Em Hespanha parece que incluem uma 
coisa similhante sob a designação mais 
geral de pellejo. Pelo menos na Califór- 
nia, onde se conservam muitos hábitos e 
nomes hespanhoes, pellejo tem este senti- 
do. Em um dos seus contos, o bem conhe- 
cido escriptor americano, Bret Harte, tem 
a seguinte phrase: . . .a lialf drained 
pellejo, or goatskin rvater-bag. E' exacta- 
mente o nosso barquino. 

Uma coisa a notar, é que todos estes 
objectos, com excepção do cutello, da 
caldeira e de poucos mais, são fabricados 
pelo próprio pastor, e fabricados com as 
matérias primas mais simples e mais di- 
rectamente á sua disposição. Com as pel- 
les do seu gado o pastor faz almatrixas, 
çafóes, pellicos., çamarros, e corriol ou o 



A TRADIÇÃO 



117 



fio com que cose. E com algumas pelles 
de cabras ou chibos, que facilmente ob- 
tém por troca dos cabreiros da serra, faz 
surrõcs e hanjuinos. Os cornos de algu- 
ma rez, que se mala nas boiadas do amo, 
fornecem-ihe clhircs e saleiros^ emquan- 
to nos cornos dos carneiros, previamente 
amollecidos a fogo brando, elle talha par- 
te das suas colheres, Elle próprio colhe 
nos sovereiraes a cortiça, em que recor- 
ta as tampas das cliares e saleiros. E el- 
le próprio vae buscar aos barrancos ou á 
serra a madeira de freixo, de zimbro, ou 
de raiz de urze, em que talha os bocaes 
dos barquinos, as colheres, os espichos 
dos barquinos e das chaves, os seus ca- 
chimbos, e os cabos da ferramenta com 
que trabalha. Esta ferramenta é também 
muito primitiva, e consiste em canivetes 
de folha direita, e outros de folha curva, 
chamados leí^ras. São feitos das navalhas 
de barba, velhas e gastas, dos barbeiros 
da aldeia ou villa mais próxima, obtidas 
a troco de algum borreguito, dado pela 
Allekiia. Os ferreiros da localidade dão 
volta ás legras^ e o próprio pastor as fi- 
xa em cabos de pau com ponteiras de 
corno de cabra. 

O pastor exerce assim uma serie de 
pequenas industrias extremamente inte- 
ressantes, nas quaes ha mesmo uma certa 
manifestação de Arte, porque as pegas das 
colheres, os espichos dos barquinos, os 
cabos da ferramenta, são ornados, lavra- 
dos, arrendados em complicadas escul- 
pturas com desenhos muito originaes. In- 
dustria e arte um tanto selvagens, nasci- 
das do isolamento, transmittidas por tra- 
dição de pastor a pastor, não é fácil sa- 
ber ha quantos annos, ou ha quantos sé- 
culos. 



(Continua) 



Conde de FICALHO. 



A FESTA DE S MARCOS PRÓXIMO DE SERPA 



(2& IDE3 A.EJR,ILl 



Em 1758 disseram os priores das fre- 
guezias de Serpa, respondendo aos inter- 
rogatórios do P. Luiz Cardoso (*), o se- 
guinte : 

a No termo d'esta villa socede, e se pra- 
tica um acto pio de devoção, que tem 
algumas circunstancias de notável: Fes- 
teja-se S. Marcos na hermida, que dice- 
mos, sinco léguas da villa na Serra gran- 
de, os irmãos do santo, todos os que tem 
malhadas na dita sei'ra, e outras pessoas 
na festa: sae o prior de S. Bento (fregue- 
zia da Aldeã Nova) da Igreja de S. Alar- 
cos ao campo paramentado com capa de 
Asperges, e chama em nome de S. Mar- 
cos hum tourf) bravo, que a gente da fes- 
ta traz entre si a pouca distancia do dito 
Prior, lançando-lhe agua benta, e o touro 
caminha para o sacerdote, ou obbedecen- 
do ao preceito, como crê a bondade do 
povo, ou por opprimido da gente que só 
lhe deixa aquella coxia livre: vay seguin- 
do-o, entra na Igreja, assiste a toda a 
missa socegado e canta-se-lhe o Evange- 
lho entre as pontas: no fim da missa sa- 
he o touro entre a gente para o campo: 
e sim he reppaiavel o socego de animal 
tão bravo n'aquella acção.» 

Esta festividade popular não é ou não 
era privativa do termo de Serpa; existe 
espalhada n'outros pontos do paiz, como 
se pôde ver pelas menções que delia fa- 
zem os srs. Th. Braga, O T^ovo Portu- 
gue:{^ II, 278 e Leite de Vasconcellos, 
Tradições Topulares., 178, e que resu- 
mo aqui. 

Assim em Alter-do-Chão, para livrar os 
gados dos lobos e de moléstias, introduz- 
se um novilho na egreja e terminada a 



(*) As respostas dos parochos conservam-se 
actualmente no Archivo Nacional. Pelo officio de 
16 de setembro de 1898 foi prohibida a copia de 
documentos no mesmo Archivo ; essa medida 
manifestamente illegal, que apreciarei um dia 
noutro logar, ainda não foi revogada. 



118 



A TRADIÇÃO 



festividade entram numerosos bezerros, 
aue são olVerecidos a S. Marcos. Em San- 
domil (concelho de Cèa) é bento um boi 
bravo. Finalmente em Arcozéllo-da-Ser- 
ra (concelho de Gouveia) segundo Pinho 
Leal, Vorttiij^al Aut!íj:;o c Moderno^ I, 238 
A, havia o seguinte uso: «Na capella de 
S. Marcos faziam antigamente uma festa 
no seu dia, indo na procissão um touro 
braroy que entrava na capella e ia até ao 
altar mor assistir a festa, muito quieto. 
Havia então feira.» 

Se o santo tinha forca ou virtude para 
domar os louros; muito maior teria, para 
amansar os rapazes travessos. , Doesta ló- 
gica especial resultou a crença de que 
obrigando-os a dar umas mancadas (ter- 
mo consagrado) na imagem do santo 
evangelista, ou melhor no touro que o 
acompanha sempre, elles melhorariam de 
temperamento. 

A S. Lucas, collega de S. Marcos na 
confecção dos evangelhos, é que de di 
reito pertence o uso do touro que o povo 
lhe roubou. Como é sabido, o leão de S. 
Marcos symbolisava o poderio de Vene 
za, e é sempre n'esta companhia que o 
representam as imagens orthodoxas. Em 
Penha-d' Aguiar, (concelho de Figueira-de 
Castello-Kodrigo) deitam as creanças por 
espaço de uma hora na supposta sepul- 
tura do santo para as amansar, limitan- 
do-se em S. Marcos da Serra (Algarve) 
e numa freguezia do concelho de Ton- 
della ao simples contacto do touro e da 
creança. 

Parte d'estes costumes existem também 
na provincia hespanhola de Cáceres, e 
entre nós não os tenho encontrado ao 
norte do Doiro. 

O evangelista S. Marcos é festejado 
em 25 de abril, e o Papa S. Marcos em 
7 de outubro; este ultimo, porem, ao que 
parece, passa indiftérente ao povo. 

Entre os milagres de S. Marcos evan- 
gelista conta-se o seguinte, que vem nas 
Acta Sanctorum (Tom. Ill do mez de 
abril, pag. 357j o qual aqui resumo. 
Causava admiração aos habitantes da A- 
pulia, na Itália meridional, não chover 



havia cinco annos no paiz, até que lhes 
foi revellado por certos religiosos, que is- 
so era motivado por não observarem a 
festa de S. Marcos. Reuniram se então 
todos na igreja por occasião da mais pró- 
xima festa do santo onde «impetraram» 
com orações os benehcios de b. Marcos: 
e logo choveu com mais abundância do 
que havia esperança, cessando a esteri- 
lidade da terra. 

E' portanto crivei que d'aqui os lavra- 
dores passassem também a implorar a 
protecção do santo para os seus gados, 
especialmente touros, juntando á petição 
a scena espectaculosa da domação dum 
animal pouco brando; no que foram auxi- 
liados pelo clero indulgente com as su- 
perstições por motivos especiaes. 

Jorge Cardoso no Agiologio Lusitano^ 
Tom. II, pgg. 706 e 714, publicado em 
1657, conta S. Marcos ter apparecido 
montado n'um ginete, «trocando a penna 
em lança, e o libro em adarga» n'um 
combate que se travou em i385 perto de 
Trancoso, entre portuguezes e castelha- 
nos. 

Km memoria d'este facto deixuu este 
amigo dos portuguezes «esculpidas numa 
viva lage, as ferraduras do brioso ginete 
em que vinha». 

Pelo que se vê, o facto histórico está 
tão bem authenticado, como a aventura 
succedida a D. Fuás Roupinho no sitio 
da Pederneira, junto da Praia-da-Naza- 
reth... (*) . . 

Cardoso diz ainda : «D'Õde parece na- 
ceo a devoção grande, que ha neste reino 
com o sagrado evangelista, cujas imagens 
(pela maior parte) são milagrosas. 

E o Touro (chamado de S. Marcos) 
tam celebrado dos nossos rústicos, & 
camponezes, cujo abuso (como supersti- 
cioso) está cõdenado por breve do Papa 
Clemente VIII, a 10 de março de lôgS. 
conforme o Doctor Valle de Ensalmis 
opusc. I sect. 2. c. 2 n- i3. & 14.» 



(*) Cfr. Leite de Vasconcellos, ^T(eligiões da 
Lusitânia I. 38 1, nota 4. 



A TRADIÇÃO 



119 



Evidentemente ha no culto popular de 
S. Marcos eleinentos anteriores ao reco- 
nhecimento otlicial do chrisiianismo, pro- 
vindos duuiros sysienias religiosos, tal- 
vez do de Mithra. 



(Lisboa) 



PtDKO A. d' AZEVEDO. 



LRNDAS & ROMANCES 

{Recolhidos da tradição oral na província do Alemte/o/ 

IV 
Goi*iii3il<1o 

/Variante do romance cavalleiresco anterior/ 

— Gerinaldo, Gerinaldo. 

Papem d'el rei mais querido, 

Bem podias, Gerinaldo, 

Passar a noite comigo. 

— Se eu por ser vosso vassallo, 

Senhora"zombaes comigo. . . 

— Eu não estou zombando, não, 

Deveras é que t'o digo. 

Vem entre as dez e as onze, 

Acharás meu pae dormido — . 

As dez horas eram dadas 

Gerinaldo era venido. 

— Quem bate á minha porta, 

Quem bate, o que é isso ? 

— E' Gerinaldo, senhora. 

Que vem no vos.so serviço — . 

Tanto conversaram ambos 

Que pela manhã eram dormidos. 

O rei, que já lhe tardava, 

Foi ao quarto da infanta, 

E achn-os ambos dormidos: 

— Eu se niHto Gerinaldo, 

Criei-o de pequenino, 

E se mato a infanta 

Fica o meu reino perdido ; 

Aqui iica este punhal 

PVa signal que sou sabido — . 

Acordando Gerinaldo 

Deu um ai mui dolorido : 

— Acordae, bella infanta, 

Acordae que estou perdido : 

Entre nós anibns de dois 

Um punhal está mettido. 

— Levanta-te, Gerinaldo, 

Vae-te entregar ao castigo. 

Que meu pae é muito bom 

Ha-de-te casar comigo — . 

— Deus te salve, rei senhor. 

— Deus te salve, Gerinaldo, 

Que ainda agora és venido. 

— Fui fazer uma caçada 

E pVa lá amanhecido. 



—A caça que tu caçaste 

Come a meza comigo. 

— Aqui me tem vossa mageslade, 

Mande-me dar o castigo. 

— t) castigo que te dou 

E' Gue a recebas por mulher 

E eíla a ti por marido — . 

I)iziam os mais vaxsallos : 

— Oli quem tivera a dita 

Que (Jerinaldo tem tido ! — 

Muitas vezes a ventura 

Patrocina os atrevidos. 

Quando os não vae derrubando. 

Que a muitos tem succedido. 



(Elvas) 



A. Thomaz pires. 



A corrida da Vdcca das cordas em Ponte de Lima 



Por uso antiquissimo e nunca inter- 
rompido ate i>S.S4 inclusive, fcz-se sem- 
pre, annualmente, em Ponte de Lima, a 
corrida da vacca das cordas^ na véspera 
de Corpus (Jiristi. 

Sendo, em verdade, um espectáculo 
burlesco e brutal, era todavia muito apre- 
ciado pelos limarcnses, que o respeita- 
vam e mantinham como usança veneran- 
da e divertimento publico de que não 
queriam privar-se. 

De tal funcção foram constantemente 
ministros os moleiros do concelho, que 
tinham obrigação de pegarem ás cordas 
e executarem a corrida^ sob a condem- 
nação de duzentos réis pagos da cadeia 
por aquelle que não comparecesse ou se 
furtasse a tal mister, segundo o Código 
das Posturas Municipaes de 1646, cap. 
56; — e de quatrocentos e oitenta réis, 
segundo o de i7-2o, cap. bb. Ha poucos 
annos a esta parte, aquellas funcções obri- 
gadas passaram a ser desempenhadas 
por homens pagos a dinheiro pelo sena- 
do da camará. 

O programma era invariável ; não ad- 
mittia suppressões nem additamentos. Ti- 
nha o seguinte desempenho, como o pre- 
senceámos durante perto de trinta e oito 
annos. 

Pelas três para as quatro horas da tar- 
de, prendia-se ao gradeamento de ferro 



120 



A TRADIÇÃO 



da janella da torre dos sinos da Egreja 
Matriz, uma vacca mansa, destinada ao 
talho: e o paciíico animal ficava alli, até 
ás seis horas aproximadamente, exposto 
ao arbitrio dos transeuntes e do rapazio 
inquieto e malfazejo, que, por prazer, 
procuravam mortihcal-o e embravecel-o 
com aguilhoadas e bastonadas, no meio 
de vozearias e assobios, no meio de apu- 
pos e dicterios, não raro immoraes. 

Deleite para os espectadores e estimu- 
lo para as alegrias e risadas unisonas. 

Ordinariamente ás seis horas, praso 
determinado pelo senado ou só pelo pre- 
sidente, appareciam dois moleiros dos 
obrigados e ultimamente os remunerados 
executores das sortes do estylo, — que mu- 
nidos de cordas, de uns nove a dez me- 
tros pelo menos, as enlaçavam nas pon- 
tas do animal acior e delias se serviam co- 
mo de guias ou tirantes ou leme da cor- 
da corrida. 

A vacca desprendida, seguidamente, 
do gradeamento de ferro, era guiada em 
roda da Egreja, que volteava três vezes 
a trote e pesado galope, sempre agui- 
Ihoada e sempre apupada. 

E o povo. a correr, a correr — uns, 
atraz d'ella para a estourarem e simulta- 
neamente não perderem um momento de 
goso do espectáculo; — outros na frente, 
procurando furtar-se ao atropellamento : 
as portas das casas a fecharem-se, umas, 
e a abrirem-se, outras, para se isolarem 
momentaneamente da investida da vacca 
e evitar o impulso das ondas populares 
que se formavam e desfaziam pelas ruas 
e pelo adro : e as familias apinhadas 
pelos peitoris e sacadas, a casarem as 
suas alegrias ruidosas com as gargalha- 
das estrepitosas dos espectadores da pra- 
ça endoudecidos. 

Findas as três voltas, os ministros da 
corrida arrastavam ou aliavam corda e 
cabo ao pobre animal, encaminhando-o 
para a alameda do passeio de D! Fernan- 
do, para o vasto areal e para a ponte, 
em demanda dos grupos de povo expec- 
tante contra quem podessem promover 
as investidas, ou pelo menos enredal-o 



com as cordas. E faziam-n'o com mes- 
tria atrevida. 

Se o animal embravecido, arremettia 
com alguém ou fazia algum atropella- 
mento, ou se as cordas ensarilhavam as 
pernas de qualquer temerário ou descui- 
dado transeunte, proclamava se geral- 
mente o espectáculo de af^radavel e di- 
j'ertido; mas não se dando nenhum d'es- 
tes factos, todos unanimemente o apoda- 
vam de semsaborico, concluindo pelas 
phrases sacramentaes: «a vacca d'este 
anno não fez figura, não prestou para 
nada». 

Ao toque da Trindade, estando tudo 
terminado, a vacca seguia o caminho do 
seu destino ; a gente. . . cada mocho pa- 
ra o seu buraco. 

(Cap. XXV, posthumo, do livro «Pon- 
te de Lima».) 



(Conclue) 



Miguel dk LEMOS. 



fttodas-estpibilhos alemtejanas 



Marianita foi á fonte 

Marianita foi á fonte 

E a camarinha quebrou. 

Ah ! ah ! ah ! oh meu lindo bem ! 

Ah! ah! ah! oh meu lindo amor! 

Marianita não tem culpa, 
Culpa tem quem n^a mandou. 
Ah ! ah ! ah ! oh meu lindo bem ! 
Ah! ah! ah! oh meu lindo amor! 

M. Dias NUNES. 



A TRADIÇÃO 



121 



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VIII 

MARIANITA FOI Á FONTE 
(CHOREOGRAPHICA) 







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122 



A TRADIÇÃO 



JOGOS POPULARES 

VI 
_A-o sol e sx lixsL 



Representa este jogo um divertimento 
cheio de simplicidade e alegria, que or- 
dinariamente os rapazes põem em scena 
ao formoso luar das tépidas noites de 
estio. 

A expressão «ao sol e á lua» é im- 
própria para designar o folguedo que va- 
mos descrever, pois que de noite não 
brilham os raios do astro-rei. Em rigor, 
deveriamos dizer «á lua e á sombra». 

Mas como a primeira designação é a 
que está consagrada peio uso, adoptâ- 
mo-la por isso de preferencia. 

Para jogar ao sol e á lua^ escolheni os 
rapazes um local onde exista boa som 
bra. Km Brinches costumam reunir-se 
no adro da egreja. Os parceiros que en- 
tram neste jogo devem ser em numero 
par, ficando metade á sombra e metade 
á lua. Os jogadores que se acham á lua 
teem por tarefa agarrar os da sombra, 
mas fora d'esta. E, para determinarem 
tanto os rapazes a quem cabe a sombra 
como aquelles que hão de andar á lua, 
tiram a sorte pelo processo da pedrinha, 
já exposto a propósito do jogo da bóia 
(T7\idição^ n.° 2, p. 3i). 

Occupados os respectivos postos, co- 
meçam os jogadores que estão á som- 
bra a fazer fosquinhas diante dos adver- 
sários: saltam da sombra para a lua e 
da lua para a sombra, e andam ás car- 
reirinhas d'instante a instante, de modo 
a desafiar os parceiros seus rivaes. Estes, 
impellidos naturalmente pelo desejo de 
apanhar os da sombra, correm atraz 
delles com toda a ligeireza de que são 
capazes. O largo onde se realisa o jogo 
e suas immediações transformam-se, en- 
tão, em verdadeiro campo de corridas 
pedestres, animadas pela vozearia da ra- 
paziada inquieta. 

Quando algum parceiro se deixa agar- 



rar na carreira, tem d'ir juntar se aos 
que giram á lua, passando o seu perse- 
guidor para a sombra. E assim vai con- 
tinuando o buliçoso brinquedo até que 
os jogadores estejam fatigados. 

De certo, ninguém contestará que «ao 
sol e á lua» é um exercício antiquíssimo, 
e que, sob o ponto de vista hygienico, 
merece a nossa calorosa approvação. 



(Brinches) 



Ladislau piçarra. 



Em quarta-feipa de einzas 



Ha talvez perto de três annos realisa- 
vase ainda no Fundão, em quarta-feira 
de Cinzas, uma procissão na qual o povo 
em creações e symbolos, os mais extra- 
vagantes, expandia a sua imaginação fer- 
tilissima. 

Abria este original cortejo, pelo pen- 
dão escarlate com as iniciaes romanas S. 
P. Q. R. Seguia-se o paraíso, symboli- 
sado por um andor onde m.urchava um 
loureiro, roubado pelos membros da ir- 
mandade n'uma propriedade da villa, 
tendo espetadas laranjas — á laia de ma- 
çãs. Uma serpente enroscada á supposta 
arvore do Bem e do Mal, trepava por el- 
la, contra a vontade de um anjo de pau, 
muito rechonchudo, de espada em pu- 
nho e posição melodramática. Comple- 
tando este paraíso raro, seguia-se atraz 
um homem de calças brancas cobertas 
com folhas de laranjeira, e uma mulher 
vestida de verde, laranja na mão, fazen- 
do gatimanhos, oficrecendo-a e retiran- 
do-a ao farçola do Adão compromettido, 
que não atinava em agarral-a 

Os mart3Tes de Marrocos seguiam-se 
cabisbaixos, de hábitos de frade, levando 
um d'elles um jugo sobre o qual um ra- 
tão enfarruscado de negro, intitulado rei 
mouro, com um alfange descarregava 
golpes furiosos. Um homem vestido de 
branco e pautado nas costas e peito com 
fitas pretas a imitarem costellas, fingia a 



A TRADIÇÃO 



123 



morte, que de foice na mão, ameaçava o 
rei moLiio. 

\'inha depois o menino Isaac, de túnica 
branca, carregando um molho de vides 
ou fitas de carpinteiro, perseguido por 
seu pae Abrahão, que vestia decentemen- 
te opa branca, capa dasperges e cobria 
a cabeça com uma mitra de bispo. Nun- 
ca se chegava a realisar o nefando atten- 
tado, devido á intervenção d'um anjo que 
com uma hta segurava a espada do feroz 
papá. Depois, em confusão e ao acaso, 
vinham lodos os santos, coxos, manetas, 
desazados, de que se podia dispor para 
a festa. 

Seguia-se tinahncnte o paliio e a mu- 
sica e o rapazio. 

Ai.vAKo DK CASTRO. 



O S- JOÃO EM SERPA(*) 



(Cominiiado de pag g3) 



LV 



Nascei, nascei meu Baptista, 
Nascei luz do Ev^ntielho ! 
Inda que sois pequenino, 
Por grande vos considero. 

LVI 

O Baptista está no ceu, 
Na gloria do mesmo Deus ; 
Me^mo de lá 'stá rogando 
Pelos que são servos seus. 

LVII 

Té os moiros na Moirama 
Festejam o San João : 
Correm toiros e cavallos, 
Com cannas verdes na mão! 

No final de cada quadra, e sempre na 
mesma toada, é da praxe dizer um d'es- 
tes dois estribilhos : 



(*) A falta . de espaço com que luctàmos não 
nos permitte concluir a puMica ão d'este artigo 
no presente numero de (Í4 Tradição. 



Ora viva, 

E ora viva ! 

Viva o Baptista, e viva! 

Viva o Baptista, e viva! 

Ora viva, 

E ora viva ! 

Viva a gloria mais subida ! 

Viva a gloria mais subida ! 

Além da preciosa collecção de cantigas 
que reproduzimos, existe ainda, referen- 
te ao S. João, uma expressiva moda es- 
tribilho, choreographica e de bonita mu- 
sica, com a seguinte lettra : 

San João ! San Joã(j ! San João ! 
Outro anno nao deixeis pass.ir I 
i)ae-me noivo, San João, d.ie-me noivo, 
Dae me noivo, que me quero casar! . . . 

# 

No decurso das novenas, eífectuadas 
de modo singcllo e conforme o ritual, 
nada se nos olícrece digno de menção. 
E' em 23 de Junho, véspera do Baptista, 
que principalmente se observa o grande 
numero de costumes populares — alguns 
bem singulares e curiosos — estreitamen- 
te ligados á vetusta festividade do sols- 
ticio estivo. N'cste dia á tarde se verilica 
a centenária usança do passeio ás hortas 
para «fazer as capellas». Fazer as capei- 
las significa propriamente c^mer fructa ; 
tão só para as creanças entretecem viri- 
dentes coroas de mentrasto e buxo, ma- 
tisadas de flores várias, e com engraçados 
pingentes de cerejas, e ginjas, ameixas, 
soromenhos, etc. 

O costume secular de que falíamos — 
ao que reza a tradição oral e também a 
tradição escripta — foi outr^ora praticado 
até pela própria municipalidade serpen- 
se, a qual, em meio de ruidosos folgue- 
dos, ia fazer suas capellas á horta deno- 
minada dos Banhos. Desta velha solem- 
nisação por parte da camará, era ainda, 
talvez, um resto persistente, a cerimonia, 
não ha muito cahida em desuso, de nos 
paços municipaes ser arvorado o respe- 
ctivo estandarte em dia de S. João. 



Em logar das três badaladas monótonas 
do estylo, os sinos repicam alegremente 



124 



A TRADIÇÃO 



Ave-Marias. Prestes é noite e noite de 
festa. Dentro em poucas horas, quando 
os sinos de novo repicarem, ao toque 
d' Almas, bastas fogueiras d'alecrim cre- 
pitarão luminosas por essas ruas, e as 
portas dos templos serão abertas de par 
em par. Então começa o movimento, o 
bulicio, a jubilosa animação d'um povo 
inteiro, que se diverte rendendo culto ao 
bemaventurado S. João. Grupos de cam- 
ponezes cantando em coro ao som da 
viola ou do harmonium, percorrem a vil- 
la em todas as direcções. Centenas de 
pessoas — o elemento feminino predomi- 
nando — se cruzam nas ruas e largos em 
visita ás egrejas que expõem o Santo, 
egrejas lindamente adornadas com vasos 
de flores e arcos de verdura donde pen- 
de um sem numero de balões venezianos. 
Aqui e alli bailes de roda, em que as ra- 
parigas se apresentam com os seus me- 
lhores trajos domingueiros. Estes bailes 
populares, que hoje em dia se realisam 
dentro de casa, eram feitos ao ar livre e 
em redor dos mastros; mas isto — rela- 
tam os velhos — ha bons 40 annos, ainda 
no tempo em que o adufe se impunha co- 
mo instrumento da moda. 

Por volta da meia-noite encerram-se as 
egrejas; as fogueiras despedem o ultimo 
clarão ; raream os descantes ; o bulicio 
das ruas é quasi extincto. 

Meia-noite é a hora solemne das ex- 
periências feitas so^b a religiosa invoca- 
ção do Santo Precursor. 

(Conclue) 

M. Dias NUNES. 



POVOS DA IBÉRIA 



A arte de um povo é só de um im- 
menso valor, é mesmo um esteio da in- 
dependência d'esse povo se trouxer 
bem impresso o cunho de nacionalidade. 
Sem isso não. 

A arte universal de que Goethe foi o 
precursor não é mais do que o limite do 
decadência. E' para lá que caminham ho- 



je quasi todas as litteraturas, como con- 
sequência lógica da decadência das so- 
ciedades que tendem egualmente para um 
limite extremo d'onde ha-de surgir lumi- 
nosamente remoçada com um nimbo bri- 
lhante que se irá, no futuro, tornando ni- 
tido no desenvolver d'um progresso pa- 
cifico e utilisavel. As litteraturas caminha- 
rão também, porque a sua trajectória é 
uma d'essas que só os grandes abalos 
sociaes podem modificar. No entanto, os 
alicerces em que deve assentar uma arte 
proficua e sã estão entre nós firmes bem 
como em toda a parte. Porque esse ca- 
racter distinctivo das nacionalidades é 
sempre o ultimo a desapparecer; guarda- 
o nas horas do perigo o povo e é bem 
mais difficil subjugar a alma d'elle — o 
relicário precioso das suas crenças, dos 
seus contos, das suas lendas — que anu- 
lar-lhe a força dos seus braços com tiros 
de canhão. São os sentimentos do povo, 
os que as litteraturas tém explorado nos 
seus períodos de oiro ; e porque a 
alma portugueza é uma das mais doce- 
mente poéticas de toda a parte, é que da 
nossa pátria têem sido em tempos idos, 
os maiores poetas do mundo inteiro. E 
se digo das mais docemente poéticas é 
porque ella conserva o meio termo entre 
a idealisação gélida dos do norte e a ve- 
hemencia sensual dos povos do sul. E' as- 
sim que a põe a sua situação geographi- 
ca, que é a causa principal d'essas varia- 
ções dos caracteres dos povos. E' a prin- 
cipal mas não a única, essa causa, porque 
ella não bastaria a justificar a differencia- 
ção innegavel que existe entre o povo 
portuguez e o de Hespanha. E' vêl-os 
nas suas canções, nas musicas originaes 
que as completam, para bem nos certi- 
ficarmos desse facto cuja explicação vera 
por certo da origem das respectivas po- 
pulações indirectamente e, d'um modo 
directo, do seu papel histórico. Limito-me 
ao segundo ponto porque o primeiro exi- 
giria um desenvolvimento incompatível 
com o tempo que tenho e com o pouco 
espaço de que disponho. As trovas e as 
musicas populares portuguezas são im- 



A TRADIÇÃO 



125 



I 



pregnadas d'uma tristeza fatalista que 
leva a vèr tudo sempre pelo lado mau e 
põe uma nota escura em todas as sãs 
alegrias do nosso povo. l\m Hespanha não; 
e a elles fora mais propriamente applica- 
do aquelle verso da cançoneta d alem dos 
Alpes: 

les portufíais 
som toujours gais. 

Lá ha um fundamento de jovialidade 
que permanece inalterável airavez de to- 
das as desventuras, uma maneiía de não 
reparar no futuro, um ar folião e sem 
cuidados. Poique ? 

A ditierenciação da nossa nacionalida- 
de começa propriamente a mostrar-se 
com nitidez nos rins do século quinze. E' 
então que o espirito da aventura se ma- 
nifesta em vér e nos leva pelo mar des- 
conhecido a caminho de gloriosos desco- 
brimentos. K ao povo portuguez então 
atraia a .immensidade das aguas, mas 
amedrontava-o ao mesmo tempo, com o 
terror das coisas desconhecidas, pela sor- 
te dos que tinham ido, quem sabe se no 
cumprimento d um fado que não era bom. 
Essa predilecção pelas descobertas, essa 
anciã de conhecer os segredos do mar, 
isso e o tempei amento intensamente 
amoroso que nos concedia o clima fize- 
ram de nós um povo romântico e fata- 
lista, com coração e pessimismo. Os hes 
panhoes tém mais a anciã da conquista, 
partem para ella, valentões, cantando, e 
é ainda assim que de lá voltam mesmo 
que adversa lhes tenha sido a sorte. Nós, 
sendo um povo de descobridores nunca 
o fomos de conquistadores, e a prova es- 
tá em que, conquistadas as terras logo 
decahiam e após as descobertas, com tão 
largo caminho para applicação da nossa 
actividade, não conquistávamos mais. A' 
conquista faltou muito aquella espectati- 
va anciame do que virá^ que leva á apre- 
hensão os mais fortes espíritos. Basta a 
descoberta ser apparentementemuitomais 
serena que uma conquista, onde é mais 
fácil reinar um enthusiasmo vivo. Mas por- 



que é isso assim? A resposta implicaria o 
facto citado da influencia das raças consti- 
tuintes dos povos das duas nações. Mais 
livremente;, um dia, d'ella poderei ampla- 
mente tratar. 

Pai;(.o OSÓRIO. 



'\s fcslas (lo SacnimiMilo riii Bi 



A festa do T^ac do Céo, como lhe 
chama o povo, celebra-se annualmente, 
nos três dias immediatos á quinta-feira 
de Corpus Christi. 

A sua origem vem já de tempos im- 
memoriaes, e foi determinada, segundo a 
tradição oral que corre entre o povo de 
Beja, pela extincção d uma epidemia de 
cholera morbus, que ceifara milhares de 
vidas, enchendo de terror a população 
da cidade, que, doida de pavor, corria 
aos templos a implorar, em prece fervo- 
rosa, a intervenção divina, para pôr ter- 
mo a tão medonha hecatombe. 

Os mais abastados deliberaram entre 
si celebrar uma festa ao Santissimo Sa- 
cramento, se a epidemia desapparecesse 
em breve. Como a epidemia levantasse, 
ahi pelos fins de maio, decidiram cele- 
brar a festa promettida, logo a seguir á 
festa oíficial do Corpo de Deus. 

Logo que o povo soube da promessa 
teita, com uma unanimidade de crenças 
admirável, suggerida' pelo terror, pois 
que o terror faz mais crentes, numa ho- 
ra, do que todo um apostolado em dez 
annos de catechese, correu, á porfia, a 
casa dos iniciadores da festa, a ofíerecer o 
seu obulo para as despezas da mesma, 
que deveria ser a mais grandiosa possi- 
vel, para que a epidemia não voltasse; 
pois poucos havia que não pranteassem 
ainda a morte dum filho, d um irmão, 
da esposa ou de qualquer ente quc^ido, 
emfim, e receassem pelos sobreviventes, 
que o gladio inexorável da peste podia 
arrebatar também. 

Celebrou-se a primeira vez, ainda se- 
gundo a tradição oral, na freguezia de 



12G 



A TRADIÇÃO 



S. João, combinando-se logo que, d'ahi 
em diante, cadafreguezia celebraria a fes- 
ta um anno, de modo que ella servisse 
para perpetuar a memoria do milagre 
obtido e também para afastar nova vizi- 
ta do horrivel Hagello. 

A festa, que no primeiro anno já foi 
grandiosa, foi augmentando de propor- 
ções, devido á rivalidade das freguezias, 
cada uma das quaes se esforçava por 
supplantar a festa do anno anterior, 
acrescentando mais um numero ao pro- 
gramma. 

Dahi veio que a festa, de character 
puramente religioso, como devia ser uma 
simples acção de graças pela extincção 
dum Hagello ainda vivamente impresso 
na imaginação de todos, foi, nos annos 
posteriores, mesclando o profano ao sa- 
cro, com a organisação de touradas na 
Praça de D. Manoel, cavallinhos fuscos^ 
cavalhadas, arraial de fogos d'artificio, 
etc, manifestações estas que teem desap- 
parecido quasi de todo. 

E é pena que estas festas profanas, 
que são complemento natural de qual- 
quer festa com pretenções a grandiosa, 
como urbi et orbi se tem annunciado a 
festa do Sacramento em Beja, para a qual 
os comboios dão bilhetes reduzidos, etc, 
etc, em logar de desapparecerem, não 
tenham augmentado, embora se suppri- 
missem alguns números da festa d'egre- 
Ja; pois que o forasteiro, que vier atra- 
hido pela fama das festas de Beja, se 
quizer saber em que ellas consistem, 
deve vestir o habito de penitente, pôr o 
escapulário ao pescoço e, de rozario na 
mão, metter-se na egreja, d'onde não 
sahirá senão no fim de três dias, pro- 
fundamente edificado em philosophia 
theologica e com os tympanos saturados 
de hymnos sacros, vocalisados pelos 
cantores da Sé de Lisboa. Na rua, 
durante os dois primeiros dias de fes- 
ta, não ha manifestação festiva de quali- 
dade alguma, a não ser o fmi-gá-gá. . . 
das philarmonicas que acompanham as 
delegações das irmandades á egreja da 
festa. 



Entremos, porém, na descripção da fes- 
ta como ella é actualmente. 

Na sexta feira, primeiro dia de festa, 
ha missa cantada a grande instrumental, 
executada por uma orchestra, composta, 
na sua quasi totalidade, de instrumentis- 
tas de Lisboa, no numero dos quaes vêm 
sempre alguns de primeira ordem, como 
Cagiani e outros, e pelos cantores da Sé 
de Lisboa, cujo conjuncto custa pelos três 
dias de festa 4oo.'3?'00o a dooíTíooo réis. 
Dos cantores, diz também a tradição oral 
que, nos primeiros annos da celebração 
da festa eram tratados com taes atten- 
çÕes e esmero, que até tomavam banhos 
de leite (sic). 

Alem da missa ha sermão, pregado 
(tanto este, como mais dois de que se 
compõe a festa) por algum dos oradores 
mais notáveis do paiz, como Alves Men- 
des, Patricio e outros. De tarde, ha vés- 
peras a grande instrumental e sermão. 

A egreja é ricamente ornamentada de 
brocados de seda e oiro, distribuídos, 
com profusão e fino gosto, em todo o 
templo, pelos armadores de Lisboa, que 
costumam chegar a Beja oito dias antes 
da festa, sendo a chegada annunciada por 
alguns foguetes. Quando terminam a or- 
namentação, celebra-se o acontecimento 
com novo foguetorio, que é o acompa- 
nhamento obrigado de todos os actos 
da festa, desde a primeira reunião de ir- 
mãos para deliberar sobre as despezas 
que se costuma effectuar, um mez antes, 
até ao ultimo acto, que é a procissão 
que leva a esmola aos prezos. 

Neste primeiro dia, a igreja é pouco 
concorrida, e tam pouco, que a festa res- 
pectiva podia perfeitamente ser suprimida 
sem protesto do povo, quede bom grado 
a trocaria por qualquer festival profa- 
no. No sabbado repete-se exactamente o 
mesmo programma, augmentado com 
arraial de fogo d'artificio, á noite, mas 
de baixo preço e por consequência in- 
significante em quantidade e inferior em 
qualidade. 

(Continua) 

(Beja). Alves TAVARES. 



A TRADIÇÃO 



127 



CONTOS ALGARVIOS 
I 

A macaca e a oliveira 

Rra uma vez certa macaca que rece- 
beu de uma sua visinha uma bolsa de 
grãos em pagamento de um recado. Su- 
biu a uma oliveira e pòz-se a comer os 
grãos. Caiu-lhe um e a oliveira apanhou-o 

— Da-me o meu grão — disse a macaca. 

— Não quero — respondeu a oliveira. 

— Ahl sim? pois vou dizer ao teu do- 
no que te corte. 

Dirii^iu-se ao dono da oliveira e disse- 
Ihe: 

— Corta a tua oliveira, que me não 
quer dar o meu grão. 

O dono da oliveira respondeu: 

— Não corto, porque não quero. 

— Ah! sim? pois vou dizer á justiça 
que te prenda por não quereres cortar a 
oliveira, que me não quer dar o meu 

Dirigiu-se á justiça e apresentou a sua 
partipação. A justiça respondeu: 

— Não prendo o dono da oliveira. 

— Ah! sim? pois vou queixar-me ao 
rei para que te tire a vara, visto não que- 
reres prender o dono da oliveira, que a 
não quer cortar, por ella me não destituir 
o meu grão. 

Dirigiu se ao rei a queixar-se da justiça. 

— Não tiro a vara á justiça — respon- 
deu o rei. 

— Ah! sim? pois vou dizer á rainha 
que se ponha mal com o rei, por tu não 
quereres tirar a vara á justiça, que não 
quer prender o dono da oliveira, que a 
não manda cortar, por ella me não resti- 
tuir o meu grão. 

A rainha ouviu os queixumes da ma- 
cacaca e respondeu : 

— Por cousa tão pequena nã ; me po- 
nho mal com o rei. 

— Ah! sim? pois vou queixar-me á ra- 
ta para que esta rate a roupa da rai- 
nha, que se não quer pôr mal com o 
rei, por este não querer tirar a vara á 
justiça, que não quer prender o dono da 



oliveira, o qnfi\ a não quer cortar, por 
ella me não dar o meu grão. 
A rata respondeu : 

— Não quero ratar a roupa da rainha. 

— Ah ! sim? pois vou queixar me á ga- 
ta para que te mate, visto não quereres 
ratar a roupa da rainha, por esta não 
querer pôr-se mal com o rei, que não 
quer tirar a vara á justiça, que não pren- 
de o dono da oliveira, por este a não 
mandar coitar, por esta me não entregar 
o meu grão. 

A gata respondeu : 

— Não mato a rata por tão pouco. 

— Ah! sim ? pois vou dizer a ribeira que 
afogue a gata, por esta não querer 
matar a rata, que não quer ratar a 
roupa da rainha, por esta se não pôr mal 
com o rei, por este não querer tirar a 
vara á justiça, e esta não querer prender 
o dono da oliveira, por este a não cortar, 
visto que ella me não restitue o meu 
grão. 

A ribeira respondeu: 

— Não quero afogar a gata. 

— Ah ! sim ? pois vou dizer ao pássaro 
que beba a agua da ribeira, que não quer 
afogar a gata, por esta não matar a 
rata, que não quer ratar a roupa da 
rainha, que se não quer pôr mal com o 
rei, por este não tirar a vara á justiça, 
que não quer prender o dono da oliveira, 
que a não quer cortar, por esta não me 
restituir o meu grão. 

O pássaro respondeu: 

— Não quei o beber a agua da ribeira. 

— Ah ! sim ? pois vou dizer á espingar- 
da que mate o pássaro, que não quer be- 
ber a agua da ribeira, por esta não afo- 
gar a gata, que não quer matar a rata, 
que não quer ratar a roupa da rainha, 
que se não quer pôr mal com o rei, por 
este não tirar a vara á justiça, que não 
quer prender o dono da oliveira, por este 
a não cortar, por ella me não restituir o 
meu grão. 

A espingarda respondeu: 

— Vou matar o pássaro. 

O pássaro ouviu a resposta e disse á 
espingarda: 



128 



A TRADIÇÃO 



— Não me mates, que vou beber a 
agua da ribeira. 

A ribeira disse ao pássaro: 

— Não me bebas, porque vou afogar a 
gata. 

A gata respondeu : 

— Não me afogues, porque eu mato a 
rata 

A rata respondeu : 

— Não me mates, porque eu vou ra- 
tar a roupa á rainha. 

A rainha respondeu : 

— Não me rates a roupa, porque eu 
ponho-me mal com o rei. 

O rei respondeu: 

— Não te ponhas mal comigo, porque 
eu vou tirar a vara á justiça. 

A justiça respondeu: 

— Não me tires a vara, porque eu man- 
do prender o dono da oliveira. 

O dono da oliveira disse: 

— Não me prendas, porque vou cortar 
a oliveira. 

A oliveira respondeu: 

— Não me cortes, porque eu vou en- 
tregar o grão á macaca. 

E finalmente a macaca recebeu o seu 
grão, estabelecendo-se por esta forma a 
paz geral. 

(Da tradição oral, em Loulé). 

Athayde d'OLIVEIRA 



PKOVEKBIOS E DICTOS 



(Continuação) 



LII 

Em não chovendo por S. Matheus, fa- 
ze conta côas ovelhas, que os borregos 
não são teus. 

LIII 

Guarda que comer, não guardes que 
fazer. 



LIV 

Quinta-feira d' Ascensão, coalha a amên- 
doa e o pinhão, mosca o burro e o boi 
não. 

LV 

Anno d'amendoas, anno de prendas. 

LVI 
Pão molle, depressa se engole. 

LVII 

Se queres bons cães de caça, busca- 
Ihe a raça. 

LVIII 

Fezes com pão, passageiras são. 

LIX 

Ha sói que rega e agua que sécca. 

LX 

Em cima do leite, nada lhe deite. 

LXI 
O mez d'Agosto arremeda os outros. 

LXII 
Osga que pica, mortalha aviada. 

LXIII 
Das festas, as vésperas. 

LXIV 

Dia de S. Thomé — se não tiveres por- 
co, apanha a mulher pelo pé. 

LXV 

Dia de S. Thiago — vae á vinha, acha- 
rás bago. 



(Da tradição oral) 

(Serpa) 



(Continua) 

CASTOR. 



Anuo I — N.^O 



SERPA. Setembro de 1899 



>^«"l'Í«' I 



Edilor-adininistrador, José Jfronymo da Cotta Briwo de S'ff(reirot, Rua Larsa, 3 e 4 — SERfA 
Typot;rapliia de Adolpho de Mendonçj, Kua do Corpo Saiilo, 46 e 4K — l.ISHOA 



A TRADIÇÃO 

> 

REVISTA MENSAL CETHNOGRAPHIA PORTUGUEZA 



Directores: — LADISLAU PIÇARRA e M. DIAS SUNES 



O elemento árabe na linguagem dos pastores 
alemíejanos 



(continuado de pae. 117) 



I 



Quando os rebanhos mudam de her- 
dade para herdade, ás vezes a muitos ki- 
lometros de distancia, as burras levam 
também a rede^ onde o gado dorme a 
céu aberto Os pasto'-es dizem sempre a 
rede. Nunca empregam a palavra mais 
clássica redil. Quanto á palavra também 
clássica aprisco, essa tem entre elles um 
sentido diverso e muito especial, como 
logo veremos. 

A rede é armada em forma quadrada, 
marcada pelos tanchôes (tanchar do lat. 
plautare pela der. bem conhecida), que 
são estacas de azinho, aguçadas na parte 
inferior; quando o solo está muito duro, 
abrem-se os buracos com um tanchão de 
ponta de ferro. Aos tanchôes se prende 
a rede propriamente dita, feita de uma 
corda tina de esparto, chamada alfirme. 
O nome desta corda ou baraço é clara- 
mente de origem árabe; mas, faltando 
nos Vocabulários, não saberei dizer em que 
expressão árabe se filia. As redes de al- 
firme vem feitas do Algarve ás feiras do 
Alemtejo, e ali se compram por uma cer- 
ta medida, chamada perna. Quatro per- 
nas de rede são sufficientes para um re- 
banho ordinário. O pastor adapta-as ás 
dimensões precisas, reforçando-as em ge- 



ral pela passagem de novos alfirmes. E 
necessário que sejam resistentes. Km re- 
gra, o gado apenas se encosta á rede; 
mas ás vezes em noites escuras, num 
espanto súbito, n'um attaque de lobos, 
exerce pressões íortissimas. K, se a rede 
cede, extramalha-se tudo, com grande 
trabalho para os pastores, e perdas sen- 
síveis para o amo. Todos os dias, para 
estrumar a terra, se muda a rede. Ao 
espaço que occupou se chama uma re- 
dada., ou lí/na noite — no pagamento de 
pastagens ou serventias, esiipulase al- 
gumas vezes que se darão tantas ou tan- 
tas noites. 

Os pastores dormem ao lado da rede, 
a céu aberto como o seu gado. Apenas 
têm um abrigo perpendicular, que collo- 
cam do lado donde vem o vento; e ali 
ficam nas noites mais chuvosas de de- 
zembro, nas noites mais frias de janeiro, 
protegidos pelos pellicos e çafÕes, e so- 
bretudo pela manta., que os cobre dos 
pés á cabeça. A matita de lan alemteja- 
na, bem conhecida e conhecida há sécu- 
los, merece um estudo especial ; mas des- 
locado n'este lugar e que melhor cabe 
no exame das industrias caseiras. 

Mais do que as pelles, mais ninda do 
que a manta, o lume torna toleráveis as 
grandes noites fiias, passadas ao relen- 
to. O pastor usa largamente d este re- 
curso; os montados abundam, e elle cor- 
ta á^ vontade a lenha para a sua foguei- 
ra. É curioso, em noites de inverno, ver 
de um sitio elevado os campos de Ser- 
pa, salpicados de pontos brilhantes pelos 



130 



A TRADIÇÃO 



lumes dos pastores. A fora o frio e a 
chuva, as noites são tranquillns; o pas- 
tor dorme socegado, confiado na vigilân- 
cia dos cães. 

Os mfciros alemtejanos são — segun- 
do julgo — uma sub-raça dos cães da Ser- 
ra da hstrella ; mas tendo caracteres par- 
ticulares. São hoje muito menos bellos 
do que eram aqui ha vinte ou trinta an- 
nos, e a rasão é simples. N'estes annos 
tem-se arrancado muito matto, arroteado 
muito terreno, e os lobos têem-se torna- 
do bastante raros. Os cães grandes e for- 
tes são, portanto, muito menos necessá- 
rios do que eram ; e o pastor apura me- 
nos a raça nesse sentido, pois é estra- 
nho ao desejo esthetico de ter cães bel- 
los, simplesmente por serem bellos. No 
emtanto, os rafeiros conservam os cara- 
cteres de uma raça bem definida; e to- 
dos os instinctos de guarda, accumulados 
durante muitas gerações Succedeu-me 
um dia, passando a cavallo no ribeiro de 
Enxoé, ver ao lado de uma moita um 
grupo de quatro ou cinco borreguitos per- 
didos do rebanho, que ia já longe e nem 
se avistava. A alguns passos dos borre- 
gos estava deitado um rafeiro^ que — 
permitta-se a expressão — tinha eviden- 
temente a noção clara de que o seu de- 
ver era ficar ali, até o pastor dar pela 
falta dos borregos c voltar a traz bus- 
cal-os. 

Resta-me apenas, para terminar estas 
notas, falar de dois períodos importantes 
na exploração dn gado de lan — o pcrio- 
do da ordenha e o da tosquia. 

Já vimos, que a ordenha começa em 
geral pelos meados de fevereiro, ou pou- 
co antes. Os pastores procedem previa- 
mente á rabe/a^ que consiste na tosquia 
local de alguma lan suja, que possa es- 
torvar no acto da ordenha. I^abejadas 
as ovelhas, e apartados os borregos pa- 
ra uma pastagem distante, onde as mães 
os não vejam e os não ouçam, está con- 
stituído o alavão. 

Ordenha-se então regularmente duas 
vezes ao dia, uma de madrugada, a ou- 
tra ao começar da tarde. A ordenha faz- 



se no aprisco, uma rede de forma espe- 
cial, comprida e estreita, e exclusiva- 
mente destinada a este fim. O aprisco 
tem apenas a largura sufliciente para tra- 
balharem quatro homens a par, e o com- 
primento necessário para n'elle caber to- 
do o alavão. Apertado o alavão para o 
alto do aprisco — este arma-se geralmen- 
te em um terreno inclinado — os quatro 
homens começam a ordenhar, tendo ca- 
da um delles deante de si um ferrado., 
que é um vaso de barro, feito pelos olei- 
ros da terra, e de foima muito especial 
e muito engenhosa. Os quatro homens 
são o maioral do alavão, o ajuda do ala- 
vão, o roupeiro e o ajuda do roupeiro. 
Cada um d'elles ordenha uma ovelha no 
seu ferrado^ e, passando-a depois para 
traz das costas, segue com outra e assim 
successivamente. A posição dos homens 
é forçada, e algumas das ovelhas, prin- 
cipalmente das novas, deffendem-se es- 
perneando, de modo que o trabalho é 
violento. Quando quatro homens chegam 
ao cabo de um alavão de oitocentas ca- 
beças ou mais, chegam deneados. Note- 
se, que este trabalho se repete duas ve- 
zes ao dia \ e se faz sem interrupção du- 
rante três a quatro mezes. 

O leite passa dos ferrados para os 
cântaros., e n'estes é trazido para a rou- 
paria., uma das casas do monte, {^) es- 
pecialmente destinada ao fabrico dos 
queijos. Ahi é deitado em um pote pe- 
queno, chamado a::{ado., sendo coado por 
pannos sobrepostos, especialmente teci- 
dos para este fim, e aos quaes se dá o 
nome de coádeiros. Estes coádeiros são 
fabricados na província ; mas não nas ter- 
ras de Serpa. Alguns campanissos am- 
bulantes os trazem a vender por casa 
dos lavradores. Na linguagem da mar- 
gem esquerda do Guadiana, campanisso 
significa um habitante de Campo de Ou- 
rique, mais em geral da região que na 



(') Todos sabem, que esta palavra monte sig- 
nirica no Alemtejo o conjuncto das edificações 
ruracs de uma herdade. 



A TRADIÇÃO 



181 




(L^ 



/^ 



^^- 



e^ERI^ DE TYPOS POPllL^RES 




I X 




í '"'U- 




Camponeza á volta da ceifa i Serpa i 




132 



A TRADIÇÃO 



margem direita se extende para o sul de 
Beja até quasi aos confins do Algarve. 
As rouparias empregam um numero con- 
siderável de codiífiros, que todos os dias 
se lavam e se penduram a seccar. D'aqui 
resulta um grande estendal de roufa, o que 
seguramente deverá ser a origem das pa- 
lavras voupariã e roupeiro. E' de notar, 
que o ^'oupciro não é um dos pastores, 
como dizem alguns dos nossos Dicciona- 
rios; é um homem, cuja profissão espe- 
cial consiste na fabricação dos queijos. 
Naturalmente ha-os mais e menos peri- 
tos; e é difficillimo obter um boyii rou- 
peiro. 

Quando o leite está no a:{ado., deitam- 
Ihe o cardo, sob cuja influencia coalha. 
O coalho é tirado para cima da meza de 
pinho, chamada queijeira., onde o rou- 
peiro e o seu ajuda o trabalham, migan- 
do-o, remigando-o, e apertando-o nos cin- 
chos até estar feito o queijo de dimen- 
sões ordinárias, chamado simplesmente 
queijo., ou ás vezes de menores dimen- 
sões, tendo então o nome áQ.\unca. De- 
pois de um pouco enxutos, os queijos são 
passados para um caniçadc, onde du- 
rante quinze ou mais dias soffrem uma 
fermentação especial, scientificamente 
bem conhecida, e conhecida também pra- 
cticamente pelos roupeiros, que lhe cha- 
mam o a^edo. Passei rapidamente e mui- 
to ao de leve sobre estas operações, por- 
que são mais ou menos familiares a to- 
dos, e porque os nomes usados são tam- 
bém communs e empregados em outras 
regiões. Quanto á installação primitiva e 
barbara das rouparias, quanto á incerte- 
za dos resultados, haveria muito a dizer; 
mas isso são questões económicas, com- 
pletamente estranhas á Índole d'estes ar- 
tigos, e á Índole d'esta Revista. 

Emquanto o roupeiro e o ajuda traba- 
lham os coalhos, e os apertam nos cin- 
chos, o soro do leite escoa pela queijeira 
inclinada, e cae por uma calha em um 
grande tacho de arame. E depois levado 
ao lume n'este mesmo tacho, e dá-se-lhe 
uma fervura para o engrossar, deitando- 
se-lhe também uma pequena porção de 



leite puro para o tornar mais rico. Fica 
assim feito o almece. O almece repre- 
zenta, durante a primavera, um papel 
importante na alimentação das classes 
pobres de Serpa e outras villas do Alem- 
tejo. E muito barato e é bastante nutri- 
tivo. Todas as madrugadas, os moços do 
monte das diversas lavoiras vêm nos car- 
rinhos ou nas bestas do monte trazer o 
almece ás vendas da villa. E de uso, que 
venham pelo caminho tocando ou asso- 
prando em grandes búzios. Ao accordar 
em Serpa, nos miezes de abril e maio, 
ouve-se ainda.de noite ou ao alvorecer o 
som rouco dos búzios, annunciando ás 
mulheres da villa que o seu almoço vem 
chegando. 

Não se pode bem dizer, que esta pa- 
lavra almece seja derivada do árabe — é 
mais do que isso, é uma pura palavra 
árabe, que chegou até nós sem a mais 
leve alteração de sentido, e quasi sem a 
mais leve aheração de pronuncia. Os ára- 
bes do Oriente e do deserto chamavam 
ao soro do leite al-meçl., mas os do oc- 
cidente da Africa na sua pronuncia espe- 
cial e menos correcta diziam al-meiç. 
Por estes nos veiu a palavra ; e compre- 
hende-se que forçadamente devia tomar 
a forma almece. 

Nada mais interessante do que estes 
vocábulos, que são como documentos vi- 
vos de historia; e nos deixam entrever 
as transformações porque passou a ex- 
ploração do nosso solo, e os longos pe- 
ríodos estacionários, succedendo a essas 
transformações. Uma simples palavra e 
bem vulgar, almece., pode contar-nos fa- 
ctos capitães da nossa historia, e justa- 
mente daquelles que as chronicas não 
mencionam. 

Os árabes — melhor diremos os mus- 
sulmanos ou moiros, porque estes eram 
de variadíssimas raças — os moiros, ao 
invadirem a Península, encontraram o 
solo occupado por uma população de- 
certo escassa, mas, ainda que desigual- 
mente, espalhada por toda a região. A 
base d'estes habitantes era formada pe- 
los antigos hispano-romanos, sobre os 



A TRADIÇÃO 



183 



quaes por uma precedente invasão se 
viera derramar uma raça germânica ou 
goda, que já ao tempo de que falamos 
estava mais ou menos fundida com elles. 
A maior parte desta população submel- 
teu-se. Os nobres guerreiros de pura ra- 
ça goda foram varridos pela conquista 
mussulmana e refugiaram se nos desvios 
das Astúrias, onde formaram o núcleo 
do que devia depois ser o poderoso rei- 
no de Leão, do qual brotaram todos os 
reinos christaos das Hespanhas. Mas os 
homens de inferior condição, os villões, 
os colonos, os servos ligados á terra, a 
massa do povo emfim, essa ficou sob o 
d minio dos moiros — e a final não era 
muito mais duro que o dos antigos se- 
nhores godos. Formou-se assim a popu- 
lação christan mosarahe^ de que os livros 
pouco falam; mas que em ultima analy- 
se reprezentavd a classe trabalhadora, 
na qual residia a rudimentar vida econó- 
mica. Os mosarabcs — como o seu nome 
indica — arabisaram-se um pouco, e apren- 
deram em parte a lingua dos invasoies. 
Comtudo, no intimo da familia conser- 
varam o uso do seu velho idioma, e no 
intimo dos corações o culto da relisíião 
christan. 

Afora Toledo e outros rarissimos cen- 
tros, a população t)iosai\2he foi essencial- 
mente rural, ligada á terra e vivendo da 
terra. Os terrenos sem dono, maninhos 
e desaproveitados, deviam ser extensís- 
simos; mas havia já tractos cultivados. 
E n'esta agricultura muito primitiva a 
forma pastoril dominava como sempre 
succede. Documentos muito posteriores 
nos mostram ainda como os bustos, os 
prata, os páscoa^ todas as formas da pas- 
tagem natural nos montes e nas planí- 
cies, predominavam sobre a terra real- 
mente cultivada. Estas creações de ga- 
dos e as industrias com ellas ligadas 
deviam, porém, ser absolutamente bar- 
baras, como barbara e rudimentar era a 
cultura propriamente dita. 

Os moiros traziam comsigo uma civi- 
iisação de certo inferior pelo caracter 
moral, mas pelo lado material incompa- 



ravelmente superior. (') Sob a sua inlluen- 
cia tudo se transformou. Nem de outro 
modo se poderia explicar o grande nu- 
mero de palavras árabes que então se 
introduziram. Koram necessários nomes 
iioros para coisas iioiuis, porque os pro- 
cessos melhoraram, porque a agiicultura 
e as industrias derivadas se alteraram, 
aperfeiçoando-se. E' o que sempre suc- 
cede. 

Embora esta transformação fosse gra- 
dual e lenta, deve-se ter iniciado logo nos 
primeiros tempos da conquista; deve-se 
ter firmado logo nos primeiros séculos, 
quando os reinos christaos do norte es- 
tavam ainda fracos, quando o dominio 
dos moiros nas nossas terras meridio- 
naes era seguro e quasi pacifico. Pode- 
se, pois, acceitar como um facto prova- 
do, que as modificações, introduzidas 
pelos moiíos nos hábitos e na lingua do 
povo rural, devem pela maior parte da- 
tar do IX ou do X século, ou talvez de 
antes. Para tornarmos o facto mais frizan- 
te por um exemplo, -é certo que o uso do 
almece e da palavra a/mfct-n" estes nossos 
campos de Serpa c muito anterior á fun- 
dação da Monarchia Portugueza. Quan- 
do Affonso Henriques se encontrou com 
os moiros em Ourique, já no mesmo 
Campo de Ourique se fazia almece e se 
dizia aln:ece, exactamente como hoje. 

Vem agora o longo, laborioso e glo- 
rioso periodo da reconquista da Penín- 
sula pelos christaos. Os reis de Leão e 
de Castella, os primeiros reis de Portu- 
gal correram as terras do centn» e do sul 
em expedições triumphantes, em invasões 
que pareciam definitivas, para logo em 
seguida retrocederem perante o poder 
mais forte dos moiros. Pouco a pouco, 
porém, as conquistas a principio ephe- 
meras foram-se firmando, até á liberta- 
ção completa do território portuguez, e 



(•) Sobre este e outros pontos ao deante men- 
cionados existem opiniões variadas. K claro, que 
as não podemos debater n'este logar : e unica- 
mente damos em poucas palavras as que nos pa- 
recem mais seguras. 



134 



A TRADIÇÃO 



muito mais tarde de todo o território da 
Hespanha. Mas esta volta do dominio 
christão não annulou a transformação 
operada antes pelos moiros na língua e 
hábitos do homem do povo; e a razão é 
clara. 

Com os cliristãos voltavam importan- 
tíssimos elementos de futura civilisação, 
desconhecidos dos árabes; mas esses 
elementos eram sobretudo moraes. Vol- 
tavam ideias mais definidas, posto que 
ainda indecisas, de justiça, de liberdade 
c mesmo de igualdade. Voltava um certo 
respeito pela vida humana, ao menos 
pela vida do homem livre. Eram deriva- 
dos estes e outros elementos principal 
mente das inspirações da religião e do 
evangelho, até certo ponto também de 
tradições romanas e de tradições germâ- 
nicas, já anteriormente fundidas nos có- 
digos e nas leis da Monarchia ^^^lsigo- 
thica. O estado moral das populações ru- 
raes modificou-se, pois, sensivelmente; 
mas as condições materiaes da sua vida 
fica'"am as mesmas. Os rudes leoneses, 
os bravos e incultos companheiros de 
armas de D. AlTonso Henriques ou de 
D. Sancho I, mesmo os membros do 
clero mais illustrados, pouco se occupa- 
ram d'essas condições materiaes, e ainda 
quando as quizessem alterar e melhorar 
não o saberiam fazer. Os humildes mo- 
sarabes do campo passaram, pois, com 
grande jubilo dos seus corações, a serem 
governados pelos seus irmãos em sangue, 
em lingua e em religião; mas na econo- 
mia interna da casa pobre, na cultura 
imperfeita do bocado de terra, no trata- 
mento do gado, continuaram a seguir to- 
dos os processos, e a empregar todos os 
termos, que lhes tinham ensinado os 
moiros. Continuaram a moer o seu grão 
em moinhos, movidos pela agua ou pelos 
animaes, e a dizer a:{enha e atafona. 
Continuaram a regar as suas hortas por 
meio de engenhos, e a dizer a nora, e a 
almanjarra da nora. Continuaram a or- 
denhar as suas ovelhas e a dizer alavão., 
e almece. E' claro, que podia multiplicar 
estes exemplos. 



Estas vulgarissimas palavras plebcas 
attestam-nos, pois, dois factos capitães : 
primeiro, que uma revolução radical 
transformou a vida caseira e agricola do 
nosso povo, e teve lugar sob a intluencia 
de uma gente que fallava a lingua ará- 
bica : segundo, que nenhuma alteração, 
egualmente radical, veiu depois destruir 
o que ficava feito. 

Se hoje, todos os documentos escriptos 
da nossa historia desapparecesscm subi- 
tamente, aquelles dois factos ainda fica- 
vam provados pela simples existência de 
taes palavras. 



(Continua) 



Conde de FICALHO. 



R THADIÇAO 



Com muito praser vi o novo periódico 
alemtejano, que tiveram a bondade de 
me fazer conhecer. 

A « Tradição » , de Serpa, pelo program- 
ma que se impoz e pela discreta diligen- 
cia com que procura desempenhar esse 
programma, representa, a meu ver, o mais 
bello exemplo patriótico de educação pu- 
blica exercida pela imprensa. 

A pátria não é um organismo exclusi- 
vamente politico, como cuido que ima- 
ginam as nossas secretarias de estado. 
A pátria e também a terra e a tradição. 

A terra ama-se por simples instincto, 
em virtude de leis naturaes que prendem 
o affecto do homem aos logares em que 
nasceu, assim como a raiz prende a ar- 
vore ao solo de que bebe a seiva. 

O amor da tradição, esse, é um resul- 
tado educativo. Para amar a tradição é 
preciso conhecel-a, e é no fundo d'esse 
conhecimento que verdadeiramente re- 
side a consciência da nacionalidade. 

A nação portugueza — todos o sabem 
— carece de delimitação geographica e 
de fundamentos de raça. Povo de forma- 
ção politica, feito a fio de espada pelo 
valor indomável dos nossos antepassa- 
dos, é no precedente histórico que elle 



A TRADIÇÃO 



185 



tem a sua razão de ser, c c portanto no 
espirito glorioso dos nossos mortos que 
nós temos de retemperar dia a dia, o es- 
pirito que nos une em coilectividade so- 
cial, independente e autónoma. Tendo 
tido por célula ancestral a enunciação 
bellicosa de uma ideia, entraremos em 
decomposição desde que cm nós c^m-O- 
reça ou se abastarde o ideal que nos ge- 
rou. 

.V religião, que é ainda uma inexhau- 
rivel fonte de consolações individuaes, 
deixou de ser o laço dogmático, que ou- 
trora prendia e ideniilicava todos os es- 
píritos n'um sentimento commum. 

Ao regimen theologico succederam-se 
systemas philosophicos e consequentes 
systemas políticos, que uns depois d'ou- 
tros se teem aluído na vacuidade, produ- 
zindo a geral índitTercnça entristecida, 
que é o mal do nosso tempo. 

Se portanto pretendermos reconstituir 
a homog^íneidade moral, a conciliação de 
ideias e de sentimentos, a convicção col- 
lectiva cmtim, de que se deduz o que 
poderemos chamar o estado dalma de 
um povo, é, evidentemente, na historia 
do nosso passado que teremos de recon- 
solidar o combalido portuguezismo do 
nosso ser. 

Ora o que é a tradição senão a histo- 
ria viva, permanente, por hereditariedade, 
no lar domestico, nos usos e costumes 
dos logares, nos processos do trabalho, 
no engenho atávico, na arte e na poesia 
do povo e na sua mesma lingoa ? 
Inspirar-se na tradição, qualquer que 
seja a forma de actividade em que cada 
um opere, — na industria, na pedagogia, 
na política, na arte, na litteratura, — é 
fortalecer a nacionalidade. Renegar a tra- 
dição é abjurar a familía e a pátria. 

Facilmente se comprehende que no jor- 
nalismo da capital, onde a intriga politi- 
ca, a controvérsia dos partidos, o movi- 
mento cosmopolita da sociedade, a hos- 
tilidade dos egoísmos em concorrência 
e o contiicto das \ aidades em lucta. absor- 
vem quasi completamente a laboriosida- 
de dos escriptores, occupe um logar su- 



balterno, ou não tenha logar nenlnmi. .1 
bthnologia do paiz. 

De uma vez. em Beja, por occ;isiao 
de uma festa publica em que se tinham 
reunido alguns dos principaes elementos 
de uma exposição ethnographica, um il- 
lustre estadista, então chefe do governo 
executivo, dizia, num desabafo de sym- 
pathica ingenuidade, a um grupo de la- 
vradores meus amigos: 

— «Pois senhores, francamente lhes 
confesso que nunca imaginei que o Alem- 
tejo fosse isto!n. 

Kstc insigne governante não tinha com 
etleíto a mínima suspeita de que o Alf*m- 
tejo, que elle então via pela primeira vez 
em sua vida, fosse aquillo que o Alem- 
tejo etfectívamente é. Tão profunda, tão 
encyclopedíca, tão maravilhosa ignorân- 
cia das coisas nacionaes n'uma das zonas 
mais ccntraes de um paiz, todo elle tão 
comprehensivel e tão diminuto, não é at- 
tributo pessoal do personagem a que al- 
ludo, e a que poderíamos chamar syn- 
theticamcnte o Cioverno. Os homens pre- 
dominantes do partido politico d'esse 
Cavalheiro, os seus leaders, os seus pre- 
sidentes de commissões, os seus orado- 
res, os seus apagadores, os seus jorna- 
listas, não estarão muito mais adeantados 
do que elle no ponto de que se tratava 
em Beja, ou de que se pudesse tratar em 
Braga, em Vizeu, em Bragança, em Lei- 
ria ou em Villa Real de Santo António. 
F^.sta grande massa de desconhecimentos 
acumulada na cabeça das pessoas é muito 
commum na capital do reino. 

O que me admira, o que me penalisa, 
o que verdadeiramente me dóe, é que 
nas províncias, onde na roda do anno se 
dizem e se fazem menos tolices do que 
as que se declaram em Lisboa no espa- 
ço de cada dia appareçam periódicos 
novos e robustos destinados a não faze- 
rem mais do que repetir com mais em- 
phatica tumidcz (porque a grandeosidade 
do estylo está sempre na razão inversa da 
estreiteza do meio) o que se diz na prosa 
senil das folhas lisboetas. São, em peor 
papel, e em typo.mais safado, as mes- 



136 



A TRADIÇÃO 



mas allusões de calão, incomprehensi- 
veis para quem não tiver a chave dos ci- 
frantes; são os mesmos dichotes, as 
mesmas piadas, as mesmas biscas, a 
mesma preocupação vesanica de dandys- 
mo avariado, a mesma iufantena a ca- 
rallo^ como tão expressivamente dizia o 
pobre Daudet. 

Todo o meu agradecimento — e pena 
tenho de que elle seja tão obscuro! — 
aos que me proporcionam o refrigério 
espiritual de receber do extremo Alem- 
tejo, da pequena villa de Serpa, um pe- 
riódico humilde e precioso, que sabe ser 
genuina e largamente portuguez pelo sim- 
ples processo de se conservar restricta- 
mente provincial. 

Dedicando-se a registrar a vida nacio- 
nal da sua região, coordenando paciente- 
mente todos os seus phenomenos pecu- 
liares — os costumes domésticos e ruraes, 
o ivpo phvsionomico, o amanho das cul- 
turas, os utensílios da lavoura e da casa, 
a indumentária, a alimentação, os ane- 
xins e os apologos locaes, as historias 
da borralheira, os contos de fadas e de 
bruxas, o romanceiro regional, as loas e 
os vilhancicos dos santos predilectos, as 
cantigas das romagens entoadas em coro 
ao compasso dos adufes, o vocabulário 
popular, e o senso esthetico deduzido do 
modo de construir o lar, de enastrar o 
cesto, de moldar a bilha, de esculpir o 
tarro de cortiça e a colher de buxo, de 
tecer o alforge, de vestir e enfeitar a mu- 
lher, de engatar a carreta e de arrear o 
cavallo, — a pequena revista de Serpa, 
que eu acabo de ler neste valle do Ja- 
mor, entre as aldeias amoiriscadas da 
freguezia de Carnaxide, enche-me de en 
ternecido reconhecimento, e faz-me pen- 
sar na bella obra que se faria se cada 
uma das diferentes regiões do paiz con- 
tribuísse com subsídios d'este valor para 
a formação do grande livro inédito da 
Pátria Portugueza. 

Quinta de S. José a Linda-a-Pastora, 

i3 d'agosto 99. 

Ramalho ORTIGÃO. 



]VIodas-estribilhos alemtejanas 



Hei-de m'ir para o Algarve 

Hei- de m'ir para Algarve, 

— Sim, sim ! — 
Hei-de lá 'síaV oito dias, 

— ISlão, não ! — 
Qiiero cantar e talhara 

— Sim, sim ! — 

Com as moças algarvias. 

— Não, não ! — 

M. Dias NUNES. 



MEDICINA empírica 

A erupção vesiculosa designada em me- 
dicina por "^ona ou herpes ■^oster^ conhe- 
ce-a o povo pelo nome de cobro. Esta 
doença apparece, segundo a crença po- 
pular, em qualquer pessoa, que vista uma 
camisa por onde tenha passado um bicho. 
E no estcndedoiro do lavado que a gente 
do povo aífirma dar-se a perigosa inqui- 
nação produzida pelos bichos. 

Depois de lavada a roupa, costumam as 
lavadeiras estendê-la no chão, expondo-a 
assim ao sol para enxugar mais depres- 
sa. Não admira, pois, que, nesta occasião, 
qualquer bicho atrevido (um lagarto, uma 
lagartixa, etc), transitando por ali, passe 
por cima da referida roupa. Ora, como 
succede ser a camisa uma das peças do 
vestuário que mais anda em contacto di- 
recto com o corpo, julga o publico que é 
por intermédio delia que se transmitte o 
gérmen da incommmoda erupção. E tão 
arreigada se acha a crença de que vimos 
falando, que as lavadeiras usam o inva- 
riável preceito d'enxugar a roupa, vol- 
tando-lhe o avesso para o chão. Ado- 
ptando este pequeno artificio, julgam as 
ingénuas lavadeiras evitar que ás pessoas 



A TRADIÇÃO 



187 




Qfimmmim pugiep 

IX 

HEI-DE M'IR PARA O ALGARVE 
(CHOREOGRAPHICA) 



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138 



A TRADIÇÃO 



se communique, por aquella via, qualquer 
secreção peçonhenta; mas o que, pela 
certa, ellas ignoram c que estendendo a 
roupa pelo chão, a expõem mui facilmente 
á invasão dinnumeros micróbios existen- 
tentes á superfície do solo. 

A etiologia da -oua, enunciada, como 
acima hca dito, por forma tão simples e 
pittoresca, não passa evidentemente duma 
perfeita fantasia; pois sabe-se hoje mui- 
to bem, graças ãs modernas investigações 
anatomo-pathologicas, que o herpes :;oster 
está ligado a uma alteração nervosa, pro- 
duzida por diversas causas, taes como: 
um traumatismo, o frio, uma compres- 
são de nervos, uma intoxicação, etc. 

A'cerca da :^oua existe ainda uma su- 
perstição, que merece ser registada. Con- 
siste ella em suppor-se que, quando o 
cobro une a cabeça ao rabo^ é um signal 
fatidico, porque annuncia a morte do do- 
ente. 

A -ojia seguindo, como é sabido, o 
trajecto dos filetes nervosos cutâneos, 
apresenta varias formas, entre as quaes 
o vulgo crê ver a figura dum bicho com 
rabo e cabeça. São estas duas ultimas 
partes que, juntando se, constituem, como 
dissemos, um terrível presagio para a 
pessoa atacada. 

Passemos agora a occupar-nos do tra- 
tamento popular do cobro. 

Para combater esta banal enfermidade, 
tem o povo por habito friccionar a re- 
gião affectada com uma mistura de pól- 
vora e vinagre, ou com o óleo do trigo 
torrado. Este ultimo é usado de prefe- 
rencia, porque parece actuar d'uma ma- 
neira mais efficaz. Eu próprio testemu- 
nho o bom êxito que vários doentes têm 
colhido da applicação do óleo de trigo. 

Eis como se costuma preparai- o cita- 
do oleo:Leva-se á loja dum ferreiro uma 
pequena porção de trigo em grão; depo- 
sita se esse trigo em cima da bigorna, 
e sobre elle colloca-se um ferro em brasa. 
O trigo em contacto com o metal incan- 
descente arde rápido, desenvolvendo uma 
chama muito viva, e deixa á superficie 
da bigorna uma camada d"oleo escuro. 



semelhante á tintura d'iodo. Precisamen- 
te neste momento, o ferreiro, fazendo de 
medico, corre a untar os seus próprios 
dedos no óleo assim preparado e fricciona 
em seguida a região onde assenta o cobro. 

O doente volta á loja do ferreiro duas, 
três ou mais vezes, até que o cobro dê 
indícios doestar morto., e não sejam por- 
isso necessárias mais fricções. 

O processo de cura, que acabamos 
d'expôr, pôde afigurar-se um tanto extra- 
nho; mas a verdade é que elle dá em 
geral bom resultado, sobretudo quando 
se trata do cobro puro, isto é, do cobro 
livre de complicações, rcvelando-se-nos 
como simples manifestação idiopathica. 

Não terminaremos este despretencioso 
artigo, sem um ligeiro commentario re- 
lativo á etimologia da palavra cobro. 

Parece que, por analogia, cobro deri- 
va de cobra. E, a justificar esta deriva- 
ção, temos a crença vulgar de ser a do- 
ença do cobro produzida pela passagem 
dum bicho sobre a roupa de vestir. Mo- 
raes no seu aDiccionario da Lingua Por- 
tugueza», definindo cobreio.^ — que os 
nossos diccionaristas tomam como sinó- 
nimo de cobro — diz : «doença que o vul- 
go crê proceder de passar cobra por cima 
das camisas ou roupa de vestir». 

Devemos, porém, notar, baseando-nos 
em o testemunho das lavadeiras e da gente 
do campo, que a cobra, sendo um reptil 
essencialmente arisco e fugitivo, nunca 
se vê passar por cima da roupa. Os ani 
mães, que se apontam como podendo 
causar a ^ona., na passagem atravez do 
nosso vestuário, são: lagartos, lagartixas, 
ósgas, aranhões, etc. 

O cobro, parece no entanto, ser uma 
palavra genuinamente portugueza. O que 
por emquanto não pude averiguar, é, se 
também são de origem portugueza a cren- 
ça e a superstição ligadas ao herpes :^os- 
ter, ou se por ventura derivam de povos 
mais remotos. 



(Serpa) 



Ladislau piçarra. 



A TRADIÇÃO 



139 



O S. JOÃO EM SERPA 



(Continuado áe paf;. 124) 



Conhecer o desconhecido, devassar os 
segredos do fuiuro, descerrar a bruma 
enigmática e mysteriosa do porvir, — tal 
é o objecto capital das experiências (ou 
experimentações), cujo resultado se an- 
tolha infallivel á crença popular. 

Múltiplas e variadas na forma, podem 
classitkar-se as experiências, quanto á 
sua essência, em amorosas, económicas, 
de vida ou morte próxima, e de meteo- 
rologia. As do primeiro género são pe- 
culiares das raparigas solteiras; vejamos 
como estas soem levantar os horóscopos. 
Como e, minuciosamente, para qué. 

Km regra, as experimentações teem 
logar á meia-noite, pouco mais ou me- 
nos ; agora o resultado do maior numero 
delias, senão da quasi totalidade, so- 
mente é }'isirel na manhã de S. João. 

Por sua vetustade immemorial, cum- 
pre referir em primeiro logar a clássica 
experiência da alcachofra (*). 

Despontada á thezoura a flor do cardo, 
a cabeça ou alcachofra é passada pela 
chama da fogueira e depois posta ao re- 
lento em toda a noite. 

Refloresceu a alcachofra ?Se reflores- 
ceu é certo o casamento*, no caso nega- 
tivo, o celibato é fatal. H dada a hypo- 
these da refloresccncia, conforme esta 
foi grande ou pequena, assim o marido 
ha-de ser homem solteiro ou viuvo. 

Outra experiência, muito similhante á 
da alcachofra, se pratica com uma planta 
denominada em vulgar rabo-dc-^ato. Sa- 
code-se a inflorescencia dum pedúnculo, 
o qual, depois da sacramental passagem 
pelo fogo santo, vac depositar-se, a noite 



(*) A alcachofra usada nas experiências é a 
do cardo de coalho (cinara carditnculus sylves- 
tris), a^que chamam aqui «cardo de pencas» ou 
simplesmente «penqueira», em razão das abun- 
dantes folhas, compridas e carnudas, que acom- 
panham o caule. E' comestível o talo d'esta va- 
riedade do cardo. 



inteira, junto a uma infusa cheia d'agoa. 
A reflorescencia produziu-se r não se 
produziu ? No piimeiro caso, vulgarissi- 
mo sempre que ficou algum botão pres- 
tes a desabrochar, a rapariga pode crer 
que é amada pelo rapaz que namora; 
que ella é a preferida, se porventura 
tem alguma rival; que ha-de casar, in- 
dubitavelmente, com o escolhido do seu 
coração, etc, etc. No segundo caso. . . 
adeus ricas esperanças ! adeus sonhos 
damor! 

A experiência cm questão usa-se tam- 
bém, e largamente, fora da noite do Ba- 
ptista. Ahi pelos mezes de Março e Abril, 
em especial, tem ella grande voga entre 
os ranchos de camponezas que mondam 
as searas, onde o rabo vegeta abarrisco, 
como que para tentar, dir-se-hia. a cu- 
riosidade feminina. Ha porém a notar 
uma variante na execução da engraçada 
experiência. O pedúnculo, previamente 
despojado de suas flores, é humedecido 
no lábio e em seguida introduzido no 
seio das raparigas, cujo calor substitue 
(e vantajosamente. ..ia chamma das fo- 
gueiras. E' mais rápido e mais. . . pitto- 
resco, vamos! este modo de lazer a ex- 
periência. 

Eis umas rimas populares allusivas, 
que ha tempo ouvi dizer a uma mulher 
do campo: 

Duas flores fde; perfeição. 
A's tenças d'um bem-querer, 
Foram ambas a fazer 
No seio experimentação. 

D'estas duas que aqui estão, 
Uma era a que experimentava. 
Em se ver tão recolhido, 
Saiu das moças florido. . . 
Entre as duas rabeava! 

Não menos usada e não menos antiga 
que as duas anteriores, é a experiência 
dos credos. Effeitua-se d'est'arte: Com 
um bochecho dagoa, reza-se o credo in 
mente três vezes successivas, percorren- 
do o espaço comprehendido entre três 
portados que estejam na mesma direcção 



140 



A TRADIÇÃO 



e dos quaes o ultimo deite para a rua. 
A' rua se deita o bochecho d'agoa logo 
que a experiente chegou ao portado íe?'- 
miiius^ perto do qual se queda «a escu- 
tar as vozes do mundo». O primeiro 
nome masculino que a rapariga ouvir, é 
o nome do homem que virá a esposal-a. 
Succede ás vezes — coisa engiaçada ! — 
ser d algum animalejo, que o dono cha- 
ma, o nome pronunciado... 

Experiência divertida, a da peneira, 
cujo escopo consiste, principalmente, em 
aquilatar das intenções amorosas d'al- 
gucm. 

Dos biccos duma thezoura, que duas 
raparigas seguram ao de leve com dois 
únicos dedos, está suspen-^a pelo aro, ver- 
ticalmente, a m3'steriosa peneira conten- 
do um rosário, uma fatia de pão e uma 
mãochinha de sal. Acabada de soar a 
ultima badalada da meia-noite, falia assim 
uma das raparigas, a mais interessada 
na operação: 

— Em louvor de S. Pedro e S. Paulo, 
e Jesus Sacramentado, e as Ondas do Mar 
Salgado, dize-me Peneira, sim ou não: 
(e aqui se formula expressamente a per- 
gunta do que se deseja). Uma volta ar- 
rebatada da peneira, que por si só se 
move (sicj, é resposta affirmativa; a im 
mobilidade importa negação. 

Ha quem interrogue o prestimoso 
utensilio caseirinho, elevado á categoria 
de oráculo, para informar-se da bôa ou 
má sorte, que espera determinada crea- 
tura; para averiguar se sim ou não ap 
parecerá certa cousa perdida, etc, etc. 
A ditVerença está meramente na pergunta; 
quanto ao mais, nenhuma alteração. 

Três experiências — seculares, vulga- 
res, e similares entre si : a do ovo, a da 
cera e a da cin-a. 

Um ovo, partido e deitado em meio 
copo dagoa, fica durante a noite ao re- 
lento. Ao outro dia ae manhã, ha rapa- 
riga que vé nitidamente (sic; desenhar-se 
na albumina, um ou mais objectos — sym- 
bolos da profissão do seu noivo ideal. A 
cinza, peneirada numa taboa e posta ao 
sereno da noite, bem como a cera der- 



retida, que é da praxe lançar n'uma ba- 
cia d'agoa, possuem uma virtude reve- 
ladora idêntica á do ovo. Cera e cinza 
manifestam, aos olhos das meninas sol- 
teiras, quantos symbolos appetece á phan- 
tasia juvenil ! » 

Mais três experiências populares, que 
não devemos esquecer, são as da bacia 
d'aíioa^ 5 réis e maçaus. 

A bacia dagoa — como de resto todos 
os objectos empregados nas experimenta- 
ções — é exposta ao relento e, antes, pas- 
sada pela fogueira quando bate meia-noi- 
te. No dia seguinte, entre meio-dia e uma 
hora, agoa para a rua! O nome da pes- 
soa do sexo forte que primeiro atravessar 
o local molhado, será, por sem duvida, 
o nome do esposo. . . futuro. 

A moeda de 5 réis é arremessada á 
P3'ra, de cujas cinzas vae desenterrar-se 
assim que rompe o dia, para com ella 
esmolar o primeiro pobre que surge. O 
noivo chamar-se-ha como o pedinte. 

Entre meio-dia e uma hora, jogam-se 
á rua as maçans, em numero de três. 
Se ninguém cubicar o legendário fructo, 
a menina irá á cova de palmito e capella, 
na bem conhecida expressão popular. Pelo 
contrario, se qualquer individuo passando 
pela rua colher espontaneamente alguma 
das maçans, o casamento ê seguro. E a 
graça do maridinho? Egual á do tran- 
seunte que o acaso deparou. 

Que o leitor nos desculpe se começa- 
mos a aborrecel-o; mas já agora mais 
duas experiências, para completar a sé- 
rie das amorosas. 

U'ma ê a dos papelinhos — metade em 
branco, metade inscrevendo diversos no- 
mes — que as raparigas tiram á sorte. 
Ficará solteira toda aquella a quem cou- 
ber um papelinho em branco. Papelinho 
escripto, traduz consorcio e até designa 
o par da feliz donzella! 

A outra experiência, que falta descre- 
ver, ê feita com o auxilio de: um livro, 
um pão, uma canna verde e um molho 
de chaves. Estes quatro objectos, ou se 
collocam em cima d'uma mesa, ou se 
põem junto aos quatro cantos duma 



A TRADIÇÃO 



141 



casa. Uma, duas, três ou quatro rapari- 
gas entram na casa ás escuras, e cada 
uma procura encontrar seu objecto cuja 
posição particular ellas desconhecem. Ao 
livro corresponde o prognostico de mor- 
rer donzella; ao pão, o casamento com 
um viuvo; á canna verde, o casamento 
com um rapaz solteiro. O molho de cha- 
ves significa que a rapariga c bòa dona 
de casa, mas que morrerá solteira. 



(Conclu«| 



íM. Dias NUNES. 



;\s IVs>;is (In Siicraiiieiihi pui Hcia 



(Continuado de pag 126) 



Neste dia e no domingo de manhã, 
em que também ha missa e sermão, é a 
festa extremamente concorrida por todas 
as classes, desde o hiii;-life da terra, que 
lá vai ostentar as loiletles ricas, estrea- 
das no baile que a Sociedade Be/eme dá 
aos sócios, na quinta-teira do Corpo de 
Deus, até á costureira mais humilde, que 
não se poupa ao sacriricio do vestido 
novo. 

Comparecem as auctoridades civis e 
militares, e mais pessoas .gradas, que são 
convidadas para todos os actos da festa, 
aos quaes assistem em logares reserva- 
dos. 

Assiste também o Bispo, uma força 
de sargento que faz a guarda d'honra 
ao Senhor exposto, e uma delegação de 
cada irmandade das difíerentes fregue- 
zias. 

As varias delegações, com o respectivo 
reitor á frente e acompanhadas pela phi- 
larmonica, sahem processionalmente da 
egreja a que pertencem, até ao templo 
onde a festa é celebrada. 

No domingo, pelas doze horas da ma- 
nhã, pouco mais ou menos, chegam ao 
adro da egreja da festa as originalissi- 
mas carradas de espadana, conduzidas, 
á custa do reitor e thesoureiro, em car- 



ros alemiejanos puxados por juntas de 
bois, com as cabeças e cangas enfeitadas 
de flores e fitas. 

A originalidade das carradas, de for- 
ma prismática, consiste principalmente 
na sua ornamentação, feita com tiores 
vermelhas (cm geral malvasardinhã) nas 
faces anterior e posterior do macisso de 
espadana. Ao centro dos caprichosos 
arabescos, que as llores desenham, vcem- 
se as iniciaes SS (Santíssimo Sacramen- 
to) ou alguns emblemas eucharisticos. 

Conservam-se as carradas em exposi- 
ção em frente da egreja, pelo espaço de 
duas horas, findas as quaes, seguem pe- 
las ruas por onde deve passar a procis- 
são, espalhando pelo solo a espadana, 
correspondente á junca usada n'outras 
terras. 

Logo que termina a festa da manhã, 
é distribuido um bodo a 200 ou Soo po- 
bres, bodo previamente disposto no adro 
da egreja em mesas cobertas dalvissi- 
mas toalhas. 

Cada pobre é esmolado com um pão, 
meio kilo de vacca, quatrocentos gram- 
mas d'arroz, cento e vinte cinco gram- 
mas de toucinho, duas laranjas e cin- 
coenta réis em dinheiro — tudo isto ador- 
nado com flores artificiaes. 

Finda a distribuição, que é acompa- 
nhada de musica e foguetes, segue-se a 
procissão do jantar aos presos. 

(Continua) 
(Beja). Alves TAVARES. 



THERAPEUTICA MYSTICA 



BENZEDURAS 

Loulé fornece um bom capitulo de cu- 
riosidades neste género. Não admira, por- 
que, não ha muito tempo, um medico, da 
escola antiga, resolveu se a tomar o ex- 
pediente de curar uma dor por intermé- 
dio do processo das benzeduras. Parece 
que as orações eram antigamente recita- 
das em verso; hoje, porém, restam-nos 
exactamente como vão escriptas: 



14: 



A TRADIÇÃO 



I 

Benzedura do Tarpão 

«Jesus, diz a benzedeira, santo nome 
de Jesus, onde está o santo nome de Je- 
sus não está mal nenhum.» 

Continua a benzedeira: — «Eu te corto.» 

Responde o doente: — «Farpão.» 

Continua a benzedeira: 

aisso mesmo é que eu te corto. Eu t'o 
corto da cabeça, eu t'o corto dos braços, 
eu t"o corto das pernas, para que tu não 
possas reinar. Aqui te has-de de seccar, 
aqui te has-de mirrar, d'aqui não has-de 
passar. Hei-de-te mandar deitar para 
alem das aguas do mar, onde não ouças 
galinhas nem galos cantar, nem filhos 
bradar.» 

«Em louvor de Deus e de Maria, 

Padre Nosso e Ave Maria.» 

N. B. — Emquanto se dizem aquellas 
palavras, passa-se por cima do ifarpão 
uma argola de ouro ou um dente de alho. 
Estp benzedura faz-se nove vezes, e no 
fim de cada uma, reza a benzedeira um 
Padre Nosso e uma Ave Maria, que se 
offerece á Santa Luzia e á Sagrada 
Morte e Paixão de Christo. 

O paciente reza também o P. N. e 
Ave Maria. 

II 

Benzedura do mau olhado 

«Jesus, santo nome de Jesus, etc., etc.» 

Diz depois a benzedeira: 

a Eu te benzo, criatura, do mau olhado. 
Se fôr na cabeça, em nome da Senhora 
da Cabeça, se fôr nos olhos, em nome 
de Santa Luzia, se fòr na cara, em nome 
de Santa Clara, se fôr nos braços, em 
louvor de S. Marcos, se fôr nas costas, 
em louvor da Senhora das Verónicas, e 
se fôr no corpo, em louvor do meu Se- 
nhor Jesus Christo, que tem o poder todo. 
Santa Anna pariu a Virgem e a Virgem 
pariu o meu Senhor Jesus Christo, assim 
como isto é verdade, assim seja este 



olhado d'aqui tirado e para as ondas do 
mar deitado, onde não ouça galo nem 
galinha cantar». 

«Em louvor de Deus etc, etc, etc» 

N. B. — Esta benzedura faz-se com 
um rosário na mão. Reza-se uma Salve 
Rainha, ofFerecendo-se a Nossa Senhora. 
Faz-se esta benzedura nove vezes. 

O paciente reza também a Salve Rai- 
nha. 

III 

Benzedura da constipação 

«Jesus, santo nome de Jesus, etc, etc.» 

Diz depois a benzedeira: 

« Benzo esta constipação do sol em honra 
de Deus Omnipotente, benzo esta cons- 
tipação do calor e da febre, em honra e 
louvor de N. Senhora das Neves, benzo 
esta constipação repentina, em louvor de 
Deus e de Santa Catharina, benzo esta 
constipação da frieza em louvor de Deus 
e de Santa Thereza. Tira-te para fora 
das costellas, assim como Jesus Christo 
foi crucificado; tira-te para fora da bar- 
riga em louvor de Deus e de Santa Mar- 
garida; tira te para fora do corpo, assim 
como Jesus Christo foi morto; tira-te 
para fora dos pés, em louvor da Virgem 
Santissima, mãi dos peccadores.» 

«Em louvor de Deus etc, etc, etc.» 

N. B. — Benze-se o paciente três dias 
e em cada dia três vezes. Volta-se a crea- 
tura com as costas para quem a benze 
e diz-se o credo nove vezes, sempre com 
a mão a fazer cruzes sobre as costas do 
paciente. No fim de uma serie de três 
credos reza-se uma Salve Rainha á Se- 
nhora das Dores e um Padre Nosso e 
uma Ave Maria ás cinco Chagas de 
Christo. O paciente reza também. 

IV 

Benzedura da dôr de barriga 

«Jesus, santo nome de Jesus, etc, etc.» 

Diz a benzedeira : 

«Quando N. Senhor pelo mundo anda- 



I 



A TRADIÇÃO 



148 



va, chegou a casa de um homem bom e 
d'uma mulher brava. Pediu pousada e o 
homem dava e a mulher não dava. \ Se- 
nhora foi deiíar-se e logo começou a cho- 
ver agua por cima e por bai.\o, e com es- 
tas mesmas palavras a dôr da barriga 
será curada.» 

«Em louvor de Deus etc, etc, etc.» 

N. l^. — Ksta oração reza-se nove vezes. 



BeDzedura de um nervo torcido 

«Jesus, santo nome de Jesus, etc, etc.» 
Diz a benzedeira. — «Ku coso.» 
Responde o doente. — «Osso quebrado, 

nervo torto.» 

Continua a benzedeira : 

"Cose a Virgem melhor do que eu coso. 

A ^'irgem cose pelo são e eu coso pelo 

vão.« 

oEm louvor de Deus etc, etc, etc.» 

N. B. — Depois de se fazer aquella 
benzedura, molha a benzedeira os dedos 
em azeite e esfrega com elles a parte 
dorida. Reza um P. N. e uma Ave Ma- 
ria a Santo Amaro, advogado das per- 
nas e dos braços. No fim, olíerece-se 
tudo á Sagrada xNlorte e Paixão de Chris- 
ío. Esta benzedura taz-se nove vezes. 

N. B. — A própria benzedeira em- 
quanto reza a oração e diz «eu coso» fin- 
ge coser um novello de linhas com uma 
agulha. 

M 

Benzedura da erysipéla 

«Jesus, santo nome de Jesus, etc, etc.» 

Diz a benzedeira : 

«Indo Nossa Senhora por seu caminho, 
com a i'e7^mclhiiiha se encontrou. Nossa 
Senhora lhe perguntou: «para onde vais, 
i'ej'>?ielluJiha? » Ki>ermelhinha respondeu: 
«vou comer a tua carne, roer os teus os- 
sos, e beber o teu sangue.» 

Nossa Senhora lhe disse: «não has-de 
comer a minha carne, nem roer os meus 



ossos, nem beber o meu sangue, porque 
eu aqui te hei de cortar e hei de te re- 
talhar. — Jesus! o que corto? lirysipéla 
corto, a erysipéla sanguinea, erysipéla 
negral, o erysipelar e o ar, e todas as 
qualidades de erysipéla, que haja, aqui 
te secco e te corto; morrerás e daqui 
não passarás.» 

o Rim louvor de Deus etc, etc, etc." 

N. B Em quanto se dizem aquel- 

las palavras, faz a benzedeira a imitação 
de cortar com uma faca a enfermidade, 
cortando um pedaço de pau de figueira, 
nove vezes, e rezando um P. N. e uma 
A. M. 



(Loulé) 

(Concluc) 



Athayde d'OIJVEIRA. 



CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS 

IX 

o Era e não Era 

Havia numa aldeia dois compadres; 
um era muito rico e outro muito pobre. 
O rico não tinha familia, e o pobre tinha 
dois filhos. 

Um dos filhos, achava o pae que era 
parvo e o outro muito esperto. 

Aquelle que o pae julgava parvo, pô-lo 
a guardar gado, e o outro, queria que 
fosse padre. Mas, como, para fazer o fi- 
lho padre, o pae não tinha dinheiro, foi 
ter com o compadre rico e pediu-lh'o 
emprestado, dizendo que o filho lhe pa- 
garia em dizendo missa. 

O compadre rico emprestou o dinheiro 
ao compadre pobre, e o filho deste foi 
para a escola. Mas, desgraçadamente, o 
rapaz nunca foi capaz de passar do «livro 
de seis vinténs» ! Ora, o compadre rico, 
sabendo disto, foi a casa do compadre 
pobre e disse-lhe : 

— «Então, compadre! como has-de (*j 
tu agora pagar o que me deves, se o teu 
filho nem ao menos foi capaz de passar 



(M O povo pronuncia : ha-des. 



U4 



A TRADIÇÃO 



do I livro de seis vinténs» ?I Mas olha, ha 
um meio de me pagares. Sabes que 
meio é ? B 

— «Eu não, senhor compadre» — res- 
pondeu o compadre pobre. 

— «Pois bem. Esse meio é arranja- 
rem-me uma mentira que seja maior que 
o Padre Nosso. Dou-lhes para isso sete 
dias; e no hm desse tempo, se a tiverem 
arranjado, perdôo-tc a divida.» 

Em vista disto, o pae e o rilho puze- 
ram-se a combinar que mentira haviam 
d'arranjar. Estavam já no sexto dia, e 
não arranjavam nada, se o rilho, que elle 
achava parvo, não viesse a casa essa noite. 

Esse rilho, vendo-os muito tristes da 
sua vida, perguntou-lhes: «Então, o que 
teem, que estão tão tristes?» O pae con- 
tou lhe o que havia, e elle respondeu: 
«Bem. Não lhe dé isso cuidado, que eu 
vou a casa do meu padrinho.» No outro 
dia, foi logo a casa do padrinho, e, assim 
que lá chegou, disse-lhe: a Sabe, padri- 
nho, o que eu venho cá fazer hoje? Ve 
nho coniar-lhe um caso.» 

— «Era uma vez um era e não era^ que 
andava lavrando na serra, com um boi 
caihandro e outro carrapato, quando lhe 
foi a noticia que o pae era morto e a 
mãe por nascer. Vae, o homem o que 
havia de fazer? Poz os bois ás costas e 
o arado a comer. 

«D'ali foi por um valle abaixo e encon- 
trou um ninho de cartaxo com cinco ovos 
de batárda (abetardaj. Deitou-os á burra 
preta e tirou-os a burra parda, saindo- 
ihe dois leões, que nem galgóes. Um dia 
foi á caça com os seus galgÕes, e subin- 
do um valle abaixo, viu uma laranjeira 
carregada de romãs. Foi acima delia e 
colheu marmellos. Veiu para baixo e 
apanhou maçãs. Nisto, vem de lá o dono 
do meloal e diz lhe : «O' seu amigo! 
quem lhe deu a Você licença de colher 
favas do olival que não é seu?» E ati- 
rando-lhe com um tarrão (torrão), deu- 
lhe com um melão, que, aceitando-Ihe na 
testa, lhe fez sangue num artelho. 

«Dali foi contar umas colmeias, não as 
deu contadas. Foi contar as abelhas, fal- 



tava-lhe uma. Foi á busca da abelha, en- 
controu sete lobos comendo nella. Assim 
que viu isto, atirou-lhes com uma macha- 
dinha que levava. Os lobos fugiram, dei- 
xando ainda uma perna da abelha. 

«Aquella perna, espremeu-a, e ainda 
lhe deu sete canadas de mel. 

«Mas, como não tinha onde o mette. , 
tirou um piolho e fez da pelle um sur- 
rão e deitou-lhe o mel dentro. 

«Foi á busca da machadinha, não a en- 
controu, e, puxando fogo ao matto, ar- 
deu o ferro e ricou-lhe o cabo; mas o bar- 
beiro, trabalhando sete dias e sete noites, 
saiu-lhe um anzol. 

«Um dia foi á pesca e apanhou uma 
burra com cangalhas e tudo. 

«A burra, com o trabalho, fez-se-lhe 
uma matadura, e elle foi logo a casa do 
ferreiro para lhe ensinar alguma coisa. O 
ferreiro ensinou-lhe um alqueire de fa- 
vas torradas. 

«Ora, com o calor das favas, a burra 
morreu, tendo por isso de a levar para o 
almargem. Dahi a tempos, passou por 
aquelle sitio e viu um faval nascido no 
lombo da burra. 

«Ficou muito admirado; e, quando foi 
tempo de ceifar o faval, foi lá e encon- 
trou-lhe dentro uma porca javarda com 
sete javardinhos. Assim que a viu atirou- 
Ihe logo com a fouce que levava, e o 
cabo tanchou-se-lhe no rabo. 

«A javarda, como se sentia ferida, co- 
meçou a fugir para todos os lados, de 
maneira que, com a foice ceifava, com 
as ventas limpava, e com as patas debu- 
lhava. 

«E o faval, padrinho, deu tantas favas, 
que vendeu sete quarteiros e ainda man- 
dou ao padrinho um presente, que era 
muito mais que as que vendeu!» 

— «O' afilhado!» — respondeu o pa- 
drinho — «isso é mentira ! . . . » 

— «Pois, padrinho, foi isso mesmo que 
eu cá vim fazer, para lhe pagar o que 
meu pae lhe devia.» 

(Da tradição oralj 

(Brinches). 

António ALEXANDRINO- 



A.iino I — :N.« IO 



SEBPâ. Outabro de 1899 



Série I 



Editor-administrador, Jote Jeronymo da Coita Bravo de Segreirot, Rua Larga, a e ^ — SERPA 
Typographia de Adolpho de Mendonça, Kua do Corpo Santo, 46 e 4a — LISBOA 



A TRADIÇÃO 

> 

REVISTA lYlENSAL OETHNOGRAPHIA PORTUGUEZA 



Y^\RECTORE.S: — LADISLAU PIÇARRA e M. DIAS NUNES 



O elemento árabe na lingaagem dos pastores 
alemtejanos 



(continuado de pa^^. 134) 



Da tosquia pouco ha a dizer. A no- 
menclatura c simples, e as palavras em- 
pregadas bem conhecidas. 

Nas grandes lavoiras alemtejanas, a 
tosquia ainda é, e sobretudo foi, uma 
festa annual. Quando deve ter logar, alii 
pelos fins de abril ou princípios de maio, 
todos os rebanhos recolhem á principal 
herdade do amo. Ali se reúne todo o 
gado de lan, todos os pastores, e a qua- 
drilha dos fosquiadores ( »). Durante os dias 
de tosquia, em numero variável natural- 
mente segundo o numero do gado e o 
numero dos tosquiadores, estes recebem 
ou um salário bastante elevado a secco, 
ou um salário menor e de comer. N'este 
ultimo caso é que a tosquia constitue 
uma festa. O Jantar dos tosquiadores é 
lauto, constando de legumes, hortaliças, 
toucinho, carne de ovelha, queijo e vi- 
nho. E este jantar estende-se a todos os 
pastores, a todos os outros creados da 
lavoira, e aos pobres e mendigos, que 
vêm de legoas de distancia receber os 
abundantes restos. 

A tosquia faz-se habitualmente ao ar 



(M A organisação d'estes grupos, algumas ce- 
rimonias e ornatos de que usam, são extrema- 
mente interessantes; mas não pertencem pro- 
f)riamente á linguagem e vida do pastor, e me- 
hor serão estudadas separadamente. 



livre, em um terreno junto do monte, 
bem battido e bem varrido, chamado o 
tendal. Os pastores agarram as ovelhas 
e carneiros, atam-lhes os quatro pés com 
um alfirme^ e estendem- nos cm linha 
sobre o tendal. Cada um dos tosquiado- 
res passa então a tosquiar uma cabeça 
de gado. Acabada esta, a lan do carnei- 
ro, ovelha ou malato, é enrolada em 
véllo. A lan dos borregos, chamada an- 
ninho., que ainda não pode formar véllo^ 
vae sendo recolhida em golpelhas. Algu- 
ma thezourada que escape é tratada pelo 
próprio tosquiador com pó de canhão, 
ou de caravão., como elles dizem. Mas 
se a ovelha tem ronha., o tratamento é 
mais demorado e feito pelos pastores, 
que a untam com mera. 

A mera é uma substancia semi-liqui- 
da e de côr escura, obtida por distillaçao 
de diversas madeiras, do zimbro, do 
zambujo ou do azinho. Nas nossas re- 
giões é quasi toda feita na Amarelleja, 
uma aldeia do concelho de Moura, donde 
a trazem a vender em odres; e, segundo 
me informam, é exclusivamente feita com 
a lenha de azinho estilada. 

Mesmo que a cabeça de gado esteja 
san, passa geralmente ao sair das mãos 
do tosquiador, por uma lavagem do lom- 
bo, dada pelos pastores. Para isso, estes 
têm feito nos dias anteriores cozimentos 
de hervas aromáticas em grandes tachos 
de arame. Mysteriosamente, como se se 
tratasse de algum encantamento, o pas- 
tor vigia a fervura, mechendo com um 
pausinho as plantas, nas quaes parece 



146 



A TRADIÇÃO 



predominarem as labiadas. O ingre- 
diente mais constante d'estes cozimen- 
tos — porque as receitas variam — é no 
emtanto a cebola ãlvarrani}). Se accres- 
centarmos, que o momento da tosquia é 
também o da inais i-igorosa contagem do 
gado, teremos dito tudo quanto possa ter 
algum interesse. 

Passámos assim em revista as princi- 
paes phases da vida do pastor, vida que 
pode parecer ociosa, porque elle tíca ho- 
ras e horas, encostado ao cajado ou sen- 
tado numa pedra, vendo pastar o gado; 
mas que na realidade é uma vida dura. 
As noites tempestuosas de inverno dor- 
midas ao relento, os terriveis soes aiem- 
tejanos, apanhados a pé firme muitas 
vezes sem uma so;nbra, as longas cami- 
nhadas de herdade para herdade ou em 
épocas de feiras, exigem do pastor does- 
tas nossas regiões uma robustez espe- 
cial, que elle só alcança, começando a 
ser \agal desde quasi creança. 

E' necessário accrescentar, que o alem- 
tejano é geralmente um bom pastor, in- 
telligente e perito, conhecendo as neces- 
sidades do gado, sabendo dar as voltas 
para aproveitar as pastagens, sabendo 
procurar os sitios para armar a rede em 
tempos ásperos; e sobre issa cuidadoso. 
Para esta ultima qualidade contribue o 
facto de elle ser uma espécie de sócio do 
amo. Alem de ganhar a pequena soldada 
em dinheiro e as comedias^ o pastor traz 
no rebanho um certo numero de ovelhas 
suas, a que se chama o seu pegulhal. 
Esta antiquissima palavra de origem la- 
tina, que em outras regiões significa um 
rebanho ou um pequeno rebanho, appli- 
ca-se restrictamente no Alemtejo ás ove- 
lhas do pastor (^). O pegulhal é uma ver- 



(') A cebola alvarran ou albarran (bolbo da 
Scilla marítima L.) deriva o seu nome vulgar do 
adjectivo arabe barraní^ que significa campestre: 
cebola alvarran é, pois, a cebola brava ou dos 
campos, em opposição á cebola cultivada ou das 
hortas. 

{') Os porqueiros também trazem no rebanho 
alguns porcos seus, que do mesmo modo se 
chamam pegulhal. 



dadcira parceria ; as ovelhas são do 
pastor, e ao pastor pertencem os borre- 
gos e a lan, emquanto ao amo perten- 
cem os estrumes e o leite, o que paga 
sufficientemente a pastagem. Embora a 
existência do pegulhal possa dar logar a 
algumas fraudes, dá por outro lado ao 
pastor um interesse especial no seu re- 
banho ; mas iamos caindo de novo nas 
questões económicas de que nos temos 
systematicamente afastado. 

Pelo que fica dito se vê, que o pastor 
do Alemtejo emprega um numero consi- 
derável de palavras, tendo uma origem 
arabe bem patente. Não é, porém, sim- 
plesmente n'estas palavras que se revela 
a antiga influencia dos moiros. A meu 
ver, em todo o regimen do gado se pode 
ainda descobrir o influxo de um povo 
pertencente á raça semitica, de instinctos 
nómadas e para quem durante muito 
tempo o gado foi a principal riqueza. 
Isto é sem duvida mais sensivel na Hes- 
panha, onde existem os rebanhos trans- 
humantes. Mas mesmo no nosso Alem- 
tejo, apezar de não haver verdadeira 
transhumancia, os grandes rebanhos vi- 
vendo constantemente nos descampados, 
mudados repetidas vezes para legoas de 
distancia, guardados por homens feitos 
que d'isso fazem a sua profissão, lem- 
bram-nos o que se passa ou se passou 
em tempos remotos entre semitas. Lem- 
bram-nos os árabes do Sahará Occiden- 
tal, percorrendo com os seus rebanhos 
centenas de legoas em busca da escassa 
herva, que fez brotar a escassa chuva. 
Podem mesmo lembrar-nos os velhos pa- 
triarchas da Biblia, caminhando com as 
suas famílias e os rebanhos, que consti- 
tuíam toda a sua riqueza. E' claro que 
tudo isto se attenuou no nosso paiz du- 
rante séculos pela appropriação dos ter- 
renos, pela diminuição dos baldios, pela 
divisão da propriedade, por muitas ou- 
tras" causas que restringiram as migra- 
ções; mas não julgo diflicil descobrir ain- 
da nos hábitos d'esta nossa gente do sul 
a remota acção de um povo de pastores 
nómadas. 



A TRADIÇÃO 



147 




148 



A TRADIÇÃO 



E isto torna-se talvez mais evidente, 
comparando-o com o que se passa no 
norte do paiz. Ali o regimen do gado, 
particularmente do gado de lan, é intei- 
ramente diverso. As ovelhas fraccio- 
nam-se em pequenas parcellas. Tor- 
nam-se mais caseiras, recolhendo todas 
as noites aos curraes, aos alpendres, aos 
estábulos dos casaes ou dos logares. A 
sua guarda entrega-se geralmente aos 
cuidados de creanças, que ainda não 
téem força para trabalhar de outro mo- 
do. Pequenitos ou pequenitas de doze, 
de treze ou de quatorze annos levam o 
gado para as veigas do valle, ou para as 
boiças do monte. De que este ultimo fa- 
cto é antiquíssimo, temos uma prova 
muito curiosa. Nos mais antigos monu- 
mentos da nossa lingua, a palavra pas- 
tor (como outras palavras terminadas em 
or não tinha então feminino e applica- 
va-se a ambos os sexos) a palavra pas- 
tor era synonymo de moço e de moça. 
Nos Cancioneiros do XIÍI e XIV séculos 
ha dezenas de exemplos deste sentido 
dado á palavra. Em uma canção de Es- 
tevam da Guarda, este aconselha a um 
moço e mau poeta, que seja modesto: em 
quanto /ores tam pastor d idade — o sen 
tido é perfeitamente claro. Em outra can- 
ção de Pêro de Veer, por signal encanta- 
dora, uma rapariga abandonada pelo na- 
morado, queixa-se dizendo:... eu fiquei 
mui coitada pastor^ como quem dissesse, 
uma moça muito infeliz. O Livro Velho 
das Linhagens diz de um D. Fernam de 
Castro, que foi o melhor pastor d'Espa- 
nha^ como hoje diríamos o melhor rapaz 
de Hespanha. Basta de exemplos i'), e pe- 
dimos desculpa d'esta digressão pelos do- 
mínios do velho portuguez; mas vinha de 
molde ao nosso argumento. Para que este 
sentido se desse figuradamente á palavra 
pastor era necessário que os verdadei- 



(•) Veja-se D. Carolina Michaelis de Vascon- 
cellos, Randglossen ^um alt-portugiesischen Lie- 
derbuch I, õ8; ao favor d'esta erudita escriptora 
devemos a indicação de tão curioso íacto philo- 
logico. 



ros pastores fossem habitualmente quasi 
creanças, como hoje são. E para que es- 
tivesse estabelecido no principio do XIII 
século era necessário que o habito fosse 
antigo, e viesse do principio da monarchia 
e de antes. Isto deixa-nos entrever, que em 
terras do Minho e Douro, e em terras de 
Galliza, o regimen do gado e o systema 
de cultura fosse desde bem remotos tem- 
pos muito similhante ao actual; rapazitos 
e rapariguitas guardavam os pequeninos 
rebanhos de uma pequenina cultura. Eu 
bem sei, que a natureza geológica do solo 
e o seu relevo, a distribuição das aguas 
e outras causas puramente physicas ex- 
plicam em grande parte a extrema divi- 
são da propriedade e da cultura, e, por- 
tanto, o regimen do gado, que de tal di- 
visão depende; mas será licito attribuir 
uma pequena parte á influencia menor 
dos semitas, muito menos intensa ali por 
muito mencs duradoura. 

Pelo contrario, n'estes nossos campos 
de Serpa, que foram terra de moiros 
durante quatro séculos e meio sem inter- 
rupção, aquella infiuencia ficou perfeita- 
mente marcada. 

Conde de FICAI. HO. 



TRADIÇÃO DE UM OFFICIO 

Convém fixar a tradição da antiga in- 
dustria do barbeiro nacional, porque é 
um dos officios que teem passado por 
maiores transformações entre nós. 

Ainda nas províncias se encontra, é 
certo, o typo primitivo d'essa profissão. 
Mas o progresso alterou-o profundamente 
nos principaes centros do paiz, e é de 
suppor que a evolução vá irradiando, 
ainda que lentamente, das cidades civili- 
sadas para as mais remotas povoações 
montezinhas. 

A loja do barbeiro, pequena e infecta, 
denunciava-se no exterior pela porta de 
vidros, pintada de verde, e pela bacia de 
latão em meia lua, emblema do officio. 
Muitas vezes o barbeiro não tinha loja, 
trabalhava ao ar livre, o que ainda hoje 



A TRADIÇÃO 



149 



não deixou de acontecer em certos arre- 
dores saloios de Lisboa, incluindo o 
Campo Grande, quando ali se realisa o 
mercado dos moços de lavoira. N'outras 
povoaç(5es, que ficam afastadas da egreja 
parochial, o barbeiro, se não reside na 
freguezia, chega ao domingo antes da 
tmissa das almas», assenta arraial junto 
ao adro, e tange uma buzina para dar 
signal aos habitantes que desejem bar- 
bear-se para ir á missa, o que aliás é do 
esivlo. 

Na Povoa de Varzim, onde tem pene- 
trado a civilisação do Porto, a symbo- 
lica bacia de latão, pendurada sobre a 
porta da loja, foi substituida por enor- 
mes tesoiras doiradas, abertas em X. 

O barbeiro antigo não tinha as mais 
das vezes official, porque os seus escas- 
sos lucros lh'o não consentiam, mas ti- 
nha sempre um aprendiz, que fazia tiro- 
cinio ensaboando as faces dos freguezes, 
e cuidava da hypothetica limpesa da loja. 

A operação de aensaboar» requeria 
grande destresa de movimentos, que se 
não podia adquirir de um dia para o 
outro. A mão manobrava ágil sobre a 
cara do padecente, sendo o dorso dos 
dedos que ia distribuindo a espuma 
n'uma fricção rápida, quasi sempre con- 
tundente. 

O freguez, ajoujado dentro de uma 
toalha folhuda, muito recalcada no pes- 
coço, soffria ainda o supplicio de uma 
semi-colleira de barro : era a bacia de 
louça branca, em forma de crescente 
musulmano, com ornatos azues. 

No folho da toalha consistia o luxo 
único admittido n'esta industria pela tra- 
dição; mas a mesma toalha servia para 
uma longa serie de dias e queixos, salvo 
o caso de apparecer na loja algum fo- 
rasteiro graúdo, o que raras vezes acon- 
tecia. 

O «panninho da barba», hoje substi- 
tuído nas cidades pelo livrete de papel, 
que perde uma folha depois de servido 
cada freguez, ficava atravessado no hom- 
bro direito da victima á laia de dragona 
pendente sobre o omoplata. 



Kmquanto o aprendiz manobrava com 
o tradicional sabão amarello, gordo e 
pegajento, o mestre dando trella aos fre- 
guezes, porque não havia melhor soa- 
lheiro, passava a navalha sobre o assen- 
tador, que era ordinariamente um pau 
de piteira. 

A mão calosa do rapaz, roliça de friei- 
ras no inverno, punha de tal modo arre- 
piada a face do freguez, se não contun- 
dida, que bem pode ser que viesse d'ahi 
o chamar-se aensaboadella» a qualquer 
reprimenda áspera, que deixa uma pes- 
soa de cara á banda. 

O que não padece duvida, porém, é 
que a palavra « barbeiro", na accepção 
de vento rijo e cortante, proveio da bru- 
talidade com que o mestre-escama fazia 
a barba aos freguezes, não obstante o 
prévio simulacro de assentar o fio á na- 
valha e experimental-o golpeando a unha 
do dedo pollegar mais de uma vez. 

Também ficou em uso a locução «fa- 
zer a barba» para significar que se dei- 
xou qualquer pessoa oem castigada. 

Terminada a «ensaboadella» pelo 
aprendiz, preparava-se o mestre para 
entrar em luncções; e se não estava bem 
certo nos hábitos do freguez, pergunta- 
va-lhe : 

— Quer dedo ou noz ? 

Metter o dedo dentro da bocca do pa- 
decente era requisito indispensável para 
dar-lhe relevo á face, de modo que a na- 
valha podesse correr melhor, levando 
coiro e cabello. 

Se, porém, ao padecente repugnava a 
unha negra do barbeiro, tinha de fugir 
de Scylla para ir naufragar em Charyb- 
dis, acceitando a noz, natural ou artifi- 
cial, que devia conservar na bocca em- 
quanto fosse barbeado. 

Este simples facto revela ao mesmo 
tempo o atrazo de uma industria e da 
hygiene publica em Portugal ; milhões 
de micróbios, pneumococcus e quejan- 
dos, passariam de bôcca em bôcca trans- 
portados pelo dedo do barbeiro ou pela 
noz que o substituia. 

Para se evitar o contagio que pode 



150 



A TRADIÇÃO 



transmiltir-se pela navalha, não havia 
precaução nenhuma ; e comtudo seria tão 
tacil como barato desinfectal-a ao fogo. 

O barbeiro, quando tinha a loja cheia 
de gente, o que ordinariamente acon- 
tecia aos sabbados á noite e aos domin- 
gos pela manhã, ainda mais abreviava o 
trabalho, deixando ás vezes vários gilva- 
zes na cara do freguez. 

Também acontecia perder a tramon- 
tana, com prejuizo dos queixos alheios, 
quando algum garotote lhe gritava á 
porta : 

— O' mestre I tem obra feita ? 

Estas chalaças do rapazio a determi- 
nadas industrias foram desapparecendo 
lentamente, e estão quasi perdidas na 
tradição. 

Não ha gavrochc em Lisboa que se 
lembre agora de arreliar um carvoeiro 
perguntando-lhe: 

— Já deu meio dia em S. Paulo? 

O Figaro portuguez sempre teve veia 
politica, por isso os assumptos da go- 
vernação publica são de preferencia dis- 
cutidos nas suas lojas. Na província, o 
barbeiro contenta-se de tornear os negó- 
cios do estado, commentando-os ; mas 
em Lisboa os barbeiros dos ministros 
teem a pretenção de fazer parte da en- 
grenagem burocrática, e não são já pou- 
cos os que estão empregados em secre- 
tarias e repartições como contínuos e 
serventes. 

Também d'antes appareciam alguns 
baibeiros com veia poética: o mais illus- 
tre desta espécie foi o nosso Quita, de 
arcadica memoria. 

Proseguindo afanosamente na tarefa, 
levando coiro e cabello, ou deixando o 
cabcllo e levando o coiro, como do seu 
barbeiro dizia Nicolau Tolentino, che- 
gava o momento do mestre-escama pro- 
ceder á ultima operação da barba: a la- 
vagem da cara ao freguez, com o dorso 
dos dedos molhados em agua fria, na ba- 
cia de meia lua. 

Vinha certamente do ceu essa ligeira 
ablução refrigerante, para acalmar o in- 
cêndio das faces irritadas. 



Nem borla de amido, nem irrigador 
de agua de Colónia, nem pedra de alú- 
men; tudo isso veio com o tempo, a 
pouco e pouco. 

Havia um vocabulário de classe, por 
exemplo: escama?^ um besugo era fazer 
uma barba difficil. 

Mas cada barbeiro tinha expressões 
propriamente suas, para se distinguir 
como bem fallante. 

No Porto havia um, afreguesado com 
estudantes, que costumava perguntar: 

— Deseja á contra? 

Era um circumloquio para não dizer 
se queria escanhoado ao arrepio. 

Durante séculos, e ainda hoje succede 
algumas vezes, o barbeiro accumulou 
com as funcções do seu officio as de ci- 
rurgião sangrador e de tira-dentes. 

N'esta triplice qualidade era uma pes- 
soa altamente cotada na parochia. 

Trabalhada a cara, passava o nosso 
Figaro a operar na cabeça do freguez. 
Raspava-a com o «pente dos bichos», 
pente miúdo, feito de chifre; raras vezes 
o padecente deixava de estremecer sac- 
cudido pelo violento raspão d'essa espé- 
cie de almofaça. 

Depois seguia-se o penteado. Os cos- 
méticos em uzo eram o óleo de macas- 
sar e a banha de cheiro, feita de sebo 
de carneiro e tutano de vacca, levemente 
aromatisada de espirito de lima e car- 
minada pela cochonilha. 

As caixinhas de cartão para conter a 
banha constituíam uma industria muito 
generalisada no paiz; os presos da Rela- 
ção do Porto fabricavam todos os mezes 
grozas d'ellas. 

Quando o freguez sahia, finalmente, 
das mãos do barbeiro, sentia-se alfor- 
riado de uma escravidão terrível. Res- 
pirava a plenos pulmões, satisfeito. E es- 
portulava um vintém ou trinta reis, se 
não estava contratado a seis vinténs ao 
mez, na rasão de quatro barbas por se- 
mana. 

Hoje o arsenal do barbeiro está com- 
pletamente transformado nos grandes 
centros de população e já em algumas 



A TRADIÇÃO 



151 



villas mais importantes. Os dedos foram 
substituídos na ensaboadella pelo macio 
pincel, que depois de humedecido se 
embebe em pó de sabão. A' bacia de meia 
lua succedeu o lavatório de mármore. A 
navalha é polida com esmeril e desinfe- 
ctada Qom acido phenico. Os assentado- 
res de correa, que substituíram o pau de 
piteira, teem sido quanto possível aperfei- 
çoados no extrnngeiro. Ha jornaes que os 
freguezes vão lendo emquanto esperam: 
o Século é de rigor. As lojas estão mon-- 
tadas com decência; algumas com luxo. 
Abundam os gr;indes espelhos e cande- 
labros e sobre a prateleira de mogno, 
corrida ao longo da parede, agglome- 
ram-se os pentes de massa, marfim e 
tartaruga, as escovas, os sabonetes, os 
cosméticos e elixires. Não faltam pentea- 
dores e toalhas, algumas de renda. Ha 
ferro para frisar o bigode e brilhantina 
para o lustrar; machina para cortar o 
cabello; lâmpada de álcool e bico de gaz 
para aquecer a agua e o ferro. Também 
ha navalhas mecânicas, de origem ame- 
ricana, que substituem o barbeiro. 

O próprio barbeiro deixou de cha- 
mar- se assim. E' cabelleireiro ou coiffeur. 
Mas ainda subsiste o costume de tratal-o 
por «mestre» : único vestígio do passado 
que a evolução não apagou. 

As barbas subiram de cotação — a 6o 
réis cada uma; foram subindo á medida 
que os fundos públicos desceram. 



(Lisboa) 



Alberto PIMENTEL. 



corrida da vacca das cordas em Ponte de Lima 



(Conclusão) 



A vereação de 1884 suspendeu e poz 
termo a essa velhíssima usança; mas 
n'esse mesmo anno houve um particular 
que, embirrando com usos, costumes, 
leis e moças novas, obtida a previa li- 
cença camarária poz em scena publica, 
á sua custa, a mesmíssima corrida. 



E foi-se de uma vez tal espectá- 
culo. 

— Mas, pergunta toda a gente, qual 
foi a origem, quando iniciado e que si- 
gnificação tinha ? 

— Hoc opus^ hic labor est. Não ha ne- 
nhuma memoria, não corre nenhuma tra- 
dição. Arriscamos, porém, uma opinião, 
que é só nossa. 

Segundo a mvthologia, Io, íilhn do rei 
Iraclio e de hmene — po?- formosa c mei- 
ga, — veio a ser requestada por Júpiter. 

Juno., irmã e mulher deste apaixonado 
pae dos deuses, que lia no coração e 
pensamentos do sublime adultero e ve- 
lava sempre sobre tudo quanto elle me- 
ditava e fazia, resolvera perseguir e des- 
fazer-se da comborça que lhe trazia a 
cabeça n'uma dobadoura. F^lle, para sal- 
var da vigilância de Juno a sua apaixo- 
nada, metamorfoseou-se em vacca : — 
mas aquella mandou do ceu á terra um 
moscardo ou tavão, incumbido de affer- 
roar incessantemente a infeliz /o, feita 
vacca e de forçal-a a não ter quietação 
e vaguear por toda a parte, — o que tudo 
lhe arrancara rios de lagrymas, rios que, 
reunidos, formavam o Nilo, segundo as 
lendas devotas dos eg3'pcios, Nilo que 
por estes era chamado mar fianmá^ ióm)^ 
segundo G. Maspcro, Cap. I, «Hist. anc. 
des peuples de FOrient». 

/o, assim perseguida e em tão deses- 
perada situação, atravessou o Mediter- 
râneo e penetrou no Egypto : ahí, resti- 
tuída por Júpiter á forma natural e 
primitiva, houve doeste um filho, Epaje- 
lio e, seguidamente, o privilegio da im- 
mortalidade e Osiris por marido, que 
veio a ter adoração sob o nome de Spis. 

Os egypcios levantaram altares a Io 
debaixo do nome de Isis (*) e sacrifica- 



(*) Isis e Osiris foram duas divindades per- 
tencentes ao grupo dos deuses votados á prote- 
cção dos mortos, junctamente com os deuses 
Sckari^ Anubis e Nephtys, todos três venerados 
como deuses dos elementos (segundo grupo), os 
deuses dos lares (3.° grupo). G. Maspero. cap. I. 
f. 26. 



ir>2 



A TRADIÇÃO 



vam-lhe um pato por intermédio de seus 
sacerdotes e sacerdotisas: e parece na- 
tural que, não desprezando o facto da 
metamorfose, exhibissem nas solemnida- 
des da sua predilecta divindade, como 
seu symbolo, mna j'acca aguilhoada e 
errante, con'iiiJ. 

Afigura-se-nos que sim e, portanto, que 
a corrida da vacca^ especialmente quanto 
á primeira parte, as três voltas em roda 
da Egreja Matriz de Ponte de Lima, se- 
ria uma reliquia dos uzos da religião 
eg}'pcia, — como o hoi bento^ na procis- 
são de Corpus Christi^ é considerado 
symbolo do Deus Osiris ou Apis (o boi 
Hapi de Memphis, a Osiris idem qui 
Apis», Luc. 1. q. V. I6O1. Essa religião, 
foi, por sem duvida, com todos os seus 
symbolos introduzida na península his- 
pânica pelos phenicios, acceita pelos ro- 
manos que a dominaram, seguida pelos 
suevos («Pars Guevorum et Isidi sacri- 
ficat», Tacit, de Germ. c. q), e pelos 
christãos tolerada em alguns usos, para 
não encontrarem em absoluto as enrai- 
zadas crenças e costumes populares. 

E que essa Io ou Isis^ a vacca de Jú- 
piter^ a deusa da fecundidade, teve culto 
especial precisamente na região Callai- 
co-Braccaria, na área de Entre Douro e 
Minho, no Convento 'T^racarangiistano^ 
ou Relação Jurídica dos Bracarangusta- 
nos (por os particulares de Braga), de 
que era uma pequeníssima dependência 
administrativo-judicial o districto dos liu- 
ricos e que a mesma deusa teve dentro 
dos muros de Braga um sitio próximo da 
Sé, prova-o o cippo encravado na face 
externa dos fundos d'aquelle vetusto e 
venerando edifício, — cippo que abaixo 
transcrevemos inteirado conforme a in- 
terpretação que em parte nos ensinou e 
em parte nos approvou o eruditíssimo 
professor Dr. Pereira Caldas: 

LVc RtTI A nm SACIERB/.5/ TEW/ct^/T/oj.^U} 
llOM;<.ni/ET*AVG/«.«/ 



Interpretação 



Sendo l.ucrecia Fida 
sacerdotiza perpetua do 
Povo Romano e de Au- 
gusto, o Convento dos 
bracarangustanos dedi- 
ca a Isis Augusta, ou 
á deusa Isis este monu- 
mento sagrado. 



Lucrécia Fida, sacer- 
dotiza perpetua do Po- 
vo Romano e de Augus- 
to, e o convento dos bra- 
carangustanos dedicam 
a Isis ugusta, ou á deu- 
sa Isis este monumento 
sagrado. 



A pontuação é representada por cora- 
ções^ — uzo nas inscripções sagradas. O 
G grande final de Bracarang representa 
plural. 

(Gap. XXV, posthumo, do livro <i Pon- 
te de Limai).) 

Miguel dk LEMOS. 



O IMPERADOR DE EIRAS 



Eiras é uma pequena povoação situa- 
da a uma légua de distancia, ao norte 
da cidade de Coimbra. 

Quando a peste, ha não sei quantos 
séculos, invadiu esta ultima, onde fez 
centenas de victimas, Eiras, na pessoa 
dos seus habitantes, tudo boa gente, 
muito cheia de crença, vendo as barbas 
do vizinho a arder, começou desde logo, 
com o seu parocho á frente, a implorar 
o auxilio celeste. 

Foi remédio santo. 

Como, porém, aquellas preces fervo- 
rosas e instantes dos bons dos eirenses 
fossem por elles dirigidas principalmen- 
te, se não exclusivamente, ao Espirito 
Santo, coube á divina pomba por isso 
mesmo attendel-as, e o caso é que a 
peste não entrou no logar, que então era 
villa e tinha honras de concelho. 

De semelhante successo, de tantissi- 
mo bem, que colheram de seus rogos ao 
Espirito Santo, resolveram os eirenses, 
por voto sagrado, que logo fizeram, ele- 
ger todos os annos de entre os seus nu- 
merosos patrícios um homem dos me- 
lhores em todo o sentido, com o qual, 
tributando-lhe as offertas dos seus fru- 



A TRADIÇÃO 



158 




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154 



A TRADIÇÃO 



ctos e dando-lhe ainda o cognome de 
«imperador de Eiras», isto é, arvoran- 
do-(i em juiz, festejassem a divina pom- 
ba nos dias de Paschoa, Resurreiçao e 
Pentecostes. 

Três dias de pandega ! 

A eleição do imperador, cousa tão im- 
portante em Eiras, como n'uma repu- 
blica a eleição do respectivo presidente, 
era feita pela camará do concelho, a qual 
lhe entregava n'essa mesma occasião 
vinte e seis mil réis em dinheiro, cin- 
coenta alqueires de trigo e oito almudes 
de vinho. 

Feito isto, que dá bem a barateza de 
tal imperador, apezar de n'esse tempo 
vinte e seis mil réis serem quasi uma 
fortuna, ia sua magestadc, acompanhado 
da camará, da nobreza da villa, de dois 
pagens e dois creados, tudo precedido 
de uma bandeira de damasco encarnado 
e de muito povinho, tomar posse do seu 
cargo importante na primeira oitava do 
Espirito Santo. 

A posse era-lhe dada pelo parocho e 
tinha logar na egreja matriz. 

Muito interessante ! 

O padre, aparamentado e assistido do 
juiz da egreja, o qual comparecia de cruz 
alçada e entre duas tochas, esperava o 
imperador respeitosamente no arco da 
capella-mór. 

Era o preludio da grande cerimonia. 

Sua magestade entrava por alli dentro 
com toda a imponência de que podia 
arrogar-se, e logo ajoelhava onde o es- 
perava o representante da egreja, aos 
pés deste mesmo. 

Toda a comitiva ajoelhava também. 

Acto continuo, o sacerdote, o parocho, 
punha na cabeça do imperador, sobre 
um casquete vermelho, a coroa de pra- 
ta, que ao imperador pertencia e a qual 
um dos pagens ministrava ao padre, 
que, ao pôl-a no toutiço do homem, ex- 
clamava com solemnidade : 

— Eu vos constituo imperador de Ei- 
ras. 

Dava-se então uma scena alguma cou- 
sa parecida com aquella da Grã-Tni 



que:{a de Gerolstein, em que esta diz isto 
a Fritz: 

Acceita o sabre de meu pae! 
Heroes aos mil prostrou. . • venceu! 
D'um bravo ao lado eu sei que vae 
Se a guerra for ao lado teu ! 
Cobre-o poeira que não sae, 
Antigo brilho já perdeu; 
Mas quem te dá o que ahi vae 
Já foi assim que o recebeu ! 

O imperador recebia, pois, em tal mo- 
mento, e ainda das mãos do seu paro- 
cho, um sabre antiquissimo, velhissimo, 
um estafermo de um terçado ferrugento, 
que logo beijava e passava em seguida a 
um dos dois pagens, como ainda na ope- 
ra bui"lesca da carta adorada^ passa o 
general o chanfalho a Wanda. 

Com o mesmo acompanhamento, que 
ao templo o levava, agora augmentado 
pelo parocho e juiz da egreja, que, com 
a cruz alçada e mais as duas tochas, se 
encorporavam n'aquelle cortejo, dirigia- 
se então o imperador á capella do Santo 
Christo da localidade, onde ajoelhava 
para o parocho lhe tirar a coroa e cas- 
quete, e assim começava magestosa- 
mente a percorrer as ruas do seu es- 
tado. 

Cumprida esta formalidade tão reina- 
dia como todas as outras, saltava a ma- 
gestade mais toda a sua gente, todo 
aquelle cortejo, cada qual para cima de 
um solipede, ajaezado com mais ou me- 
nos luxo, e elles lá iam em luzida caval- 
gata, com a sua bandeira á frente e mu- 
sica na rectaguarda, a caminho do con- 
vento de Cellas. 

Cellas é um outro logar mais pequeno 
que Eiras e que tomou o seu nome de 
esse mesmo convento, mosteiro de em- 
paredadas, encelladas ou reduzas, que 
a infanta D. Sancha, filha do rei povoa- 
dor, alli edificou. 

O imperador da villa de Eiras mais a 
sua comitiva, que não era pequena, mor- 
mente se contarmos com os solipedes, 
entravam na egreja do referido mosteiro 
ao som do repique dos sinos. 



A TRADIÇÃO 



155 



Era dia grande. 

E feita por todos a respectiva oração 
em frente do altar-mor, tinha logar um 
Tc-^Dcum celebrado com pompa, ao qual 
se seguia uma nova coroação de sua 
magesiade imperial pelo obezo capellão 
do convento e parece que em homena- 
gem ás sorores. 

Terminada mais esta cerimonia ia o 
homem de coroa na cabeça e todo so- 
lemne na importância da sua jerarchia, 
sentar-se junto ás grades do coro, onde 
tinha de cumprir ainda mais uma praxe, 
qual era a de conversar com a abba- 
dessa e as outras freiras. 

Que conversariam ? 

Farto de dar á lingua ou não, mas no 
grave cumprimento de mais outra usan- 
ça, recolhia-se em seguida o bom do im- 
perador á casa da hospedaria monástica 
a fim de descansar e tomar alguns re- 
frescos ou vinhos, offerta da madre ab- 
badessa, que também o mimoseava com 

Doces, gratuitas tijellas 
do famozo manjar branco, 

como diz Nicolau Tolcntino, elogiando 
o celebrado manjar, que era a especiali- 
dade de doçaria do mosteiro. 

A abbadessa e as freiras, pedindo en- 
tão a coroa a sua magestade, a qual 
coroa consideravam milagroza, entreti- 
nham-se a beijocal-a, uma agora outra 
logo, cada qual por sua vez e todas com 
uncção, emquanto, por seu lado, o pos- 
suidor de tal jóia se entretinha a comer 
e a beber, acto final da sua visita ao 
convento. 

De Cellas seguia tudo, também de ca- 
valgata, a caminho de Santo António dos 
Olivaes. 

N'este outro logar, que é um dos ar- 
rabaldes mais bellos de Coimbra e em 
cuja capella do Espirito Santo era parte 
obrigada penetrar o imperador com to- 
dos que o seguiam, continuavam as festas 
com grande arraial, corridas de éguas, 
luctas de homens e um lauto banquete 
por fim. 



Um pagode imperial ! 

Como, porém, com o rodar dos tem- 
pos, principalmente com a entrada de 
este século, surgisse má quadra para as 
frontes coroadas, o bom do imperador, 
que /;/ illo tempore só homenagens rece- 
bia de toda aquella gente, começou a ser 
alvo das maiores zombarias por parte 
dos garotos e dos espiritos fortes, duros 
como massa de patacos, voltaireanos, 
trocistas, incrédulos. 

Uns lhe atavam ao rabicho da cabel- 
leira um cordel, uma guita, um fio, que 
puxado lhe atirava por terra com aquella 
belleza da cabelleira postiça, casquete 
vermelho e coroa milagrosa, ficando de 
tal arte á mostra a mais imperial ca- 
reca, outros o apertavam de maneira dif- 
ferente, atirando-lhe dichotes e fazendo-o 
ii" á serra. 

Tão grandes desacatos a uma mages- 
tade e um raio de boa luz, que este sé- 
culo das ditas dardejou no bestunto dos 
simples eirenses, acabaram com tal tra- 
dição. . . e era uma vez um imperador, 
que fez as delicias da villa de Pairas. 



iCoimbra) 



Alfredo de PRATT. 



THERAPEUTICA MYSTICA 



A PESTE 



O recente apparecimento da peste na 
cidade do Porto, que tão profundamente 
tem emocionado os espiritos, trazendo ao 
mesmo tempo graves perturbações eco- 
nómicas, principalmente ás provincias do 
norte, veiu provar-nos a toda a luz dos 
factos o enorme pavor que ainda hoje 
domina as populações em presença do 
terriiK'l contagio. 

A peste constitue com a fome e a 
guerra a trilogia sinistra d'horriveis fla- 
gellos que, segundo a crença popular, 
caem sobre os homens como castigos de 
Deus. Ora, sendo a peste considerada 



156 



A TRADIÇÃO 



d'origem divina, nada é para surprehen- 
der que o povo, em horas afflictivas, in- 
voque cheio de fé os santos advogados 
da mencionada enfermidade. 

Nesta região, são tutelares dos infeli- 
zes pestiferos: S. Roque e S. Sebastião. 
Para as imagens destes santos conver- 
gem, pois, as instantes supplicas dos de- 
votos. . 

A palavra peste não c adoptada na lin- 
guagem popular unicamente para desi- 
gnar a moléstia perigosa conhecida pelo 
nome de jiesíc bubouica. Peste é um ter- 
mo que o vulgo applica a qualquer epi- 
demia exótica, como o cholera morbus, 
a febre amarella, etc. 

Numa povoação, quando em qualquer 
bairro, rua ou mesmo casa, se manifesta 
uma doença grave, costuma o povo di- 
zer: «Parece que foi ramo de peste que 
aqui entrou, ou que por aqui passou». 
Sempre que uma pessoa passa junto dum 
local donde emanam gazes mefiticos, aos 
lábios dessa pessoa acode immcdiatamen- 
te a frase: «Isto é uma peste, ou c capaz 
de gerar peste». Quando atravez duma 
porta aberta se sente passar um ar frio 
e incommodo, também se diz que «é uma 
peste I. 

Emfim, peste serve ainda para desi- 
gnar uma pessoa fraca e enferma, ou de 
ruins qualidades; bem como qualquer 
fructo mal saboroso ou amargo. 



* * 



Vejamos agora quaes as orações a que 
o publico ingénuo e crente costuma re- 
correr, para se livrar da horrorosa peste. 



I- 



Oração a Santa Martha 



«Em louvor do Santíssimo Sacramen- 
to, estas palavras vou lomear — p'ró con- 
tagio aplacar. Eu sou Martha que a Deus 



hoje pedi. Quem confiar em mim, não 
morrerá de córrela-mór (cholera-mor- 
bus) (i) nem d'epidemia.)) 

Esta oração deve ser proferida todos 
os dias ao levantar, e, escrita num papel, 
coUoca-se interiormente, por cima do 
arco da porta da rua, porque diz o po- 
vo : «E' pela porta que entra a peste.» 



II 



tS. Roque de Deus amado, — Virgem- 
Mãe da Guadalupe, lá fora, — e S. Pe- 
dro mais desviado; — Mart}^ S. Sebas- 
tião, que fica entre vinhas e olivaes, — e 
Mãe da Saúde, que ao pé dos francisca- 
nos ficaes.» (-) 

Esta oração, ou melhor, invocação, de- 
ve também dizer-se todos os dias ao le- 
vantar, accrescentando-se-lhe cinco Pa- 
dre-Nossos offerecidos a S. Roque e ao 
Mart}^ S. Sebastião. 

Digamos ainda, para terminar, que 
outr'ora, quando a população se via sob 
a ameaça ou a braços com um sério con- 
tagio, havia o costume d'accender nas 
ruas, grandes fogueiras d'alecrim e outras 
hervas cheirosas, fazendo-se também tran- 
sitar pelo interior da povoação o gado 
vaccum. 

Este systema de desinfecção publica, 
em verdade bem pittoresco e alegre, é 
conservado apenas na memoria do povo, 
porque na pratica deixou ha muito de 
existir. 



(Serpa) 



Ladisf^u piçarra. 



(i) O povo toma a palavra córrela-mór como 
synonymo de peste. 

(2) As ermidas de S. Roque, Senhora da Gua- 
dalupe, de S. Pedro, de S. Sebastião e da Se- 
nhora da Saúde, acham-se todas situadas fora da 
villa de Serpa, embora - pequena distancia, á 
excepção da ermida de S. Roque que actual- 
mente já está ligada á povoação. A ermida da 
Senhora da Saúde encontra-se dentro do cemi- 
tério da villa, muito próximo das ruinas dum 
convento pertencente em tempos idos aos frades 
franciscanos. 



A TRADIÇÃO 



157 



LFNDAS 8c ROMANCES 

fRecolhiJos Ja traJiç.io oral na provincialdo c4iemtejo) 

V 

O<'i*iii»ilclo 

(3* variante do romance n." III) 



— Gerinaldo, Gerinaldo, 
Pagem de el-rei mais querido, 
Bem podias, Gerinaldo, 
Dormir 'ma noite comigo. 
— Se eu sou vosso vil criado, 
Senhora, não zombeis comigo. 
— Não é zombar, Cíerinaldo, 
E' deveras que t'o digo. 
— Dizei me vós, ó Senhora, 
A que horas qVeis que vá. 
— Entre as dez, e entre as onze, 
Quando meu pae está dormindo. 
Foi-se d'ali Gerinaldo, 
Dando mil ais e suspiros. 
— Cala, cala, (jerinaldo, 
Entra por este postigo — . 
Toda a noite têm brincado, 
P'la manhã se ham dormido; 
Brada el-rei por Gerinaldo, 
E elle não lhe ha acudido; 
Vae ao quarto da infanta 
Com ella o achou dormindo. 
Voltados um para o outro. 
Como mulher com o marido; 
Puxou pelo seu punhal. 
Que á cinta o ha trazido : 
Os copos para a infanta 
E o bico para Gerinaldo. 
Gerinaldo deu uma volta, 
Logo se sentiu ferido. 
— Acordae, o bella infanta. 
Que já fomos presentidos! 
O punhal do vosso pae 
Entre nós está mettido. 
— Cala, cala Gerinaldo, 
Cala, não sejas sentido, 
Que meu pae é generoso, 
E me ha de casar comtigo — . 
Foi á presença de el-rei 
Dando mil ais e suspiros. 
— D'onde vindes, Gerinaldo, 
Que assim vindes esclarecido ^ 
Que é das tuas cores de rosa, 
Com quem as tens perdido? 
Em dormires com a infanta. 
Como mulher com o marido ? 
— E' verdade, ó bello rei. 
Grande castigo mereço. 
— Como queres que te castigue, 
Se eu te criei de menino? 
Toma a ella por mulher, 
E ella a ti por marido. 



— Mil annos viva, meu rei. 
Sempre no vosso reinado ; 
Quem serve a ião bom amo, 
Sempre recebe bom pago. 

(Elvas). 

A. Thomaz pires. 



O S. JOÃO EM SERPA 



(Conclusfio) 



De caracter económico, temos a regis- 
trar duas experiências : uma que se elVei- 
túa por meio da /aj>a e outra cuja base 
é pão e agoa. 

Depositam-se, ao deitar, debaixo do 
travesseiro três sementes da referida le- 
guminosa, sendo uma vestida de toda a 
epiderme, outra meio vestida, e comple- 
tamente núa a restante. Após o primeiro 
somno, retira-se a esmo uma das semen- 
tes: A' pessoa, homem ou mulher, que 
fez a experiência tica desde então pro- 
gnosticado — vestir bem, vestir mal, ou 
chegar á extrema pobreza da nudez, con- 
soante houver sido, na ordem por que 
as mencionámos, a primeira, segunda ou 
terceira semente, aquella que veio á mão. 

Um copo d'agoa e mais um pão e 
uma metade foram postos d'antemão so- 
bre uma mesa. Três raparigas, de olhos 
vendados, são conduzidas até junto do 
movei; e rapidamente, cada uma delias 
procura apossar-se de seu objecto. Vi- 
verá sempre na abundância aquella que 
pegou no pão inteiro; a que tomou a 
metade, ora sim ora não, terá com que 
alimcntar-se ; e á desventurada moça que 
o copo d'agoa alcançou, tão só miséria e 
lagrimas o destino lhe impõe. 

Com uma bacia d'agoa muito limpi- 
da, alumiada pelo ciarão da fogueira 
dalecrim, se executa a mais trivial e po- 
pular de todas as experimentações, qual 
é a de vida ou morte próxima. 

Pessoas animosas^ a quem o conheci- 
mento dos successos futuros não preoc- 
cupa nem intimida, se assomam crédulas 
(cada uma por seu turno i á virtuosa ba- 
cia: Aquellas cuja imagem o espelho da 
agoa reriecte ficam seguras de não falle- 



158 



A TRADIÇÃO 



cer durante o anno que decorre; as ou- 
tras teem morte certa, dentro de curto 
lapso de tempo. 

No intuito de saber quaes os mezes 
de chuvas, usa o povo deixar ao relento 
doze montanitos de sal, em forma de 
pvramide, correspondentes aos doze me- 
zes do anno. Os montanitos que, de ma 
nhã, se apresentam achatados, rasos, o 
sal quasi desfeito, indicam os mezes em 
que deve cahir a agoa pluvial. 

E temos dito, a respeito de experiên- 
cias. 



Na tradição popular, o santo de que 
nos occupàmos é advogado contra nu- 
merosas enfermidades; e dahi o empre- 
go d' alguns remédios, e a manipulação 
a outros, já na véspera já no dia em que 
se commemora o Precursor. 

A sangria, geralmente aberta no dorso 
da mão esquerda, é adoptad i aqui, entre 
a classe camponeza, por velhos e novos 
de ambos os sexos. Os barbeiros-sangra- 
dores da localidade vêem-se abarbados 
para attender, n'uma mesma noite, os 
seus duzentos a trezentos freguezes an- 
nuaes, que lhes pedem extracção de san- 
gue, na razão de duas onças por individuo. 

Estas sangrias, que na imaginação popu- 
lar «fazem crear sangue novo» (sicj, são 
usadas, umas vezes, como simples medida 
prophylatica, e outras vezes como meio 
therapeutico nas doenças de olhos, fíga- 
do O, pelle e cabeça; nas cargas de san- 
gue ífluxões), anginas, impaludismo chro- 
nico, etc, etc. 

E preparado um bálsamo para a cura 
de feridas, no qual entram como elemen- 
tos a flor da herj^a de S. João (^), azeite 



(') O povo chama Jigado ás blepharites cilia- 
res, e acertas doenças de pelle, taes como: ecze- 
mas, erythêmas, etc, etc. 

I*) Xhervade S João, a que também se dáo no- 
me de mj7/urjia, é o Hypericumperfuratum deL. 
Esta planta, bem como algumas outras do modes- 
to herbario regional que vimos organisando, foi- 
nos obsequiosamente classificada pelo eminente 
escriptor e sábio lente cathedratico da Escola Po- 
lytechnica de Lisboa, o Senhor Conde de Ficalho. 



crú, mel e balsaminas. E mais se pre- 
para um milagroso xarope, composto de 
cardasoi em pó, mel e canella, que a 
gente do povo costuma empregar nas 
affecções do peito. 

Uma porção d'agoa proveniente de 
sete poços, e por egual o cosimento de 
restolho de trigo, servem para combater 
inflammaçÕes d'olhos. 

Para tratamento de fígado, crê-se re- 
médio efficaz beber agua fresquinha, tra- 
zida para casa antes do sol nado. Ainda 
para o mesmo mal, ha quem aconselhe 
lançar para dentro d'um poço, á meia- 
noite, cinco sementes de fava. . . 

A junca, colhida e recolhida pela fes- 
tividade do Santo, faz subitamente des- 
appareCer as dores de cabeça, desde que 
uma haste da planta seja passada em re- 
dor d'aquella parte do corpo. 

Eis quanto nos consta acerca de me- 
dicamentos e medicamentações. 

Agora, como remate d'estc ligeiro arti- 
go, escripto muito ao correr da penna, 
ahi vão dois prt)Vcrbios e um punhado 
mais de praticas e crenças populares re- 
lativas ao assumpto: 

— «Agoa no mez de S. João tira vinho, 
azeite, e não dá pão.» 

— «Guarda pão para Março, lenha para 
Abril, algum cavaquinho p'ró mez que 
hade vir, e um tição p'ró mez de S. João.» 

Em noite de S. João : 

— Afím de afugentar as pulgas de 
qualquer casa, um grupo de raparigas 
empunhando foices, e ás escuras, fazem 
menção de segar, dentro da casa onde 
os insectos abundam, cantando em altas 
vozes as cantigas do Baptista. 

— A agoa salobre torna-se doce mistu- 
rando-se-lhe três mãochinhas de sál. 

— Quando uma roseira está longo tem- 
po sem florescer, dá-se-lhe uma sova com 
uma vara muito flexível. A florescência, 
depois, vem como por encanto. 

— Rapariga que ambicione avigorar e 
alongar o cabello, corta-lhe as extremi- 
dades e lança-as na fogueira, proferindo 
as seguintes palavras: «Em louvor do 
Senhor S. João, que o meu cabello 



A TRADIÇÃO 



ir)9 



cresça e engrosse e chegue até ao 
chãov. 

— Nos Cl avos de cor lisa, obtcm-se o 
matiz verde enxertando em couves os 
respectivos craveiros. 

«No dia de S. João nasce o sol bu- 
lhando. « — 

M. Dias NUNES. 



CONTOS AL(iA]!VÍ()S 
II 

o principe-diabo 

Havia um rei que maltratava a rainha 
por ella não lhe dar um filho. Em certo 
dia, viu-se a rainha tão ofTendida das in- 
jurias do rei, que exclamou do lundo da 
sua alma : 

— Quem me dera um filho, ainda que 
fosse o próprio diabo ! 

Appareceu-lhc momentos depois um 
cavalleiro e disse : 

— Se queres um filho, tira do teu bra- 
ço três pingas de sangue, e com o san- 
gue, em vez de tinta, assigna o teu no- 
me n'este papel. 

A rainha sob a impressão das injurias 
do marido, feriu o braço com um alfine- 
te, e nas três pingas de sangue molhou 
a ponta do alfinete, com o qual escreveu 
o seu nome num papel que o cavalleiro 
lhe apresentou. Em seguida o cavalleiro 
guardou o papel e desappareceu. 

Mezes depois sentiu-se a rainha peja- 
da e deu, em tempo competente, á luz 
um príncipe. Houve por esse facto gran- 
des festas. 

Manifestou-se a creança desde a hora 
do seu nascimento muito má. Chorava 
constantemente, e a sua maior satisfação 
consistia em cortar com as pequeninas 
gingivas os bicos dos peitos das amas. 
Quando já crescido, todos o temiam. Ven- 
do o rei que toda a corte fugia do prin- 
cipe e que todo o reino murmurava delle, 
desejou consagrai o por um acto publico 
á Mãe de Deus. Desde que o príncipe foi 
informado da resolução do rei, accentua- 



ram-se mais e mais os seus actos ranco- 
rosos e maus. 

A rainha consumia- se de desgosto, mas 
não se atrevia a contar ao rei, o encontro 

3ue tivera com o cavalleiro desconheci- 
o. Em um dia que o príncipe fez ver- 
dadeiras diabruras, chamou-o a rainha e 
disse-lhe : 

— Es um desgraçado, meu filho; vendi 
tua alma ao diabo por um documento 
que elle conserva em seu poder. 

Ora o príncipe, depois das castumfdas 
diabruras, parecia entrar nuns momen- 
tos de arrependimento; era talvez o seu 
principio bom contra o mau principio. 
Ouviu as palavras de sua mãe e disse: 

— Vou ao inferno buscar esse docu- 
mento. Montou num cavallo c desappa- 
receu. Andou, andou e foi descançar no 
meio de uma camp'na. Ali appareceu-lhe 
uma velhinha, que lhe perguntou amavel- 
mente aonde ia. 

O príncipe contou-lhe a historia que 
sua mãi lhe contara e concluiu por dizer 
que se dirigia ao inferno. 

— Má caminhada! se seguir, porém, o 
meu conselho pode ir e voltar — obser- 
vou a velhinha. 

— O que devo fazer? 

— O menino segue esta estrada que o 
leva a uma ribeira, onde, em vez de 
agua, corre sangue. Apêa-se do cavallo, 
ajoelha e pede a Deus o perdão dos seus 
peccados, por forma que as suas lagri- 
mas se vão confundir com o sangue da 
ribeira. Km seguida atravessa a ribeira. 
Mais adiante encontrará outra ribeira por 
onde corre leite : faça o mesmo que fez 
junto da ribeira de sangue. Logo mais 
adiante encontrará outra de agua pura, 
e faça o que fez junto da primeira e da 
segunda. Caminhe sempre montado no 
seu cavallo e chegará a uma grande porta 
aberta; entre e peça a Satanaz o seu do- 
cumento. Elle não lh'o pode entregar 
porque o perdeu, mas mande reunir to- 
dos os diabos e apparecer-lhe-á um dia- 
bo coxo, que tem o tal documento nos 
bolsos. Aproxime-se d elle e faça-lhe uma 
cruz nas costas. Elle cairá ímmedíata- 



160 



A TRADIÇÃO 



mente, e tire-lhe o documento. Então 
saia iinmediatamente. 

O príncipe agradeceu o conselho e 
partiu montado no seu cavallo. Tudo lhe 
succedeu como a velhinha lhe tinha dito. 
Logo que entrou no inferno appareceu- 
Ihe Satanaz. 

— ^'enho buscar o documento que mi- 
nha mãi assignou com as três pingas de 
sangue e tu guardaste — disse o pnncipe. 

— Perdi-o. 

— Alguém o achou. Chama os teus 
súbditos. 

Satanaz embocou uma trombeta que 
produziu o som de trovão, e todos os dia- 
bos appareceram num momento. 

— Quem tem o documento assignado 
pela rainha? — perguntou Satanaz. 

— Eu, — respondeu o diabo coxo. 

— Entrega-o a este mancebo. 

— Não o entrego — replicou o diabo 
coxo. 

O príncipe fez-lhe uma cruz nas cos- 
tas, o coxo caiu, e o príncipe tirou-lhe 
o documento. 

Estabeleceu-se logo um grande baru- 
lho no inferno, mas nenhum diabo se 
atrevia a lançar as unhas ao príncipe, 
cujo tato ainda conservava algumas pin- 
gas de sangue, leite e agua das ribeiras, 
que tinha atravessado. No meio deste 
barulho ouviu-se a voz de Satanaz, que 
gritava: 

— Fechem a porta, porque as almas 
vão-se escapando. 

Já a este tempo o príncipe estava fora 
do inferno, e viu elle adiante de si uns 
trapinhos muito velhos que ligeiramente 
se moviam. 

Mais adiante encontrou o príncipe a 
mesma velhinha que lavava na ribeira de 
agua pura os trapinhos sujos. A' propor- 
ção que eram lavados, subiam ao ceu e 
desappareciam. 

— Que trapinhos são aquelles, que de- 
pois de lavados, sobem ao ceu, minha 
boa velhinha? 

— São as alminhas que se poderam 
escapar do inferno, quando os diabos 
queriam arrancar-te o documento. 



— E o que significam as três ribeiras, 
que atravessei ã vinda e agora terei de 
passar? 

— O sangue da ribeira representa o 
sangue que o Salvador derramou pelos 
nossos peccados; o leite significa o que 
a Virgem deu de mamar ao seu Bemdito 
Filho; e a agua pura as lagrimas da Vir- 
gem junto da cruz. 

A velhinha desappareceu e o príncipe 
foi dar ao seu palácio, onde o rei e a 
rainha já o não esperavam. Então o prín- 
cipe entregou o documento á rainha. 
Esta queimou-o ímmediatamente. Logo 
que o vento espalhou as cinzas do docu- 
mento, olhou a rainha para o braço, e 
já não viu a cicatriz das três pingas de 
sangue. Tinham desapparecido com as 
cinzas do documento maldito. 

D'ahi em diante foi o príncipe um mo- 
delo de todas as virtudes e tornou-se um 
homem amado de tod^^s os seus súbdi- 
tos. Casou e foi muito feliz. 



Bemdito e inuvado 
Meu conto celebrado. 



(Da tradição oral) 

(Loulé.) 



Athaide d'OLIVEIRA. 



PEOVEEBIOS E DICTOS 



(Continuação) 

LXVI 

Dia de S. Lourenço — vae á vinha e 
enche o lenço. 

LXVII 

Agoa quente adivinha outra. 

LXVIII 

Agosto amadura, Setembro derruba. 

LXIX 

Até ás Neves, que é a 5 d' Agosto. 

(Da tradição oral) 

(ConíinúaJ 
Serpa. 

CASTOR. 



A.UI10 I — N.» 11 



SERPA, Novembro de 1899 



8«rie I 



Editor-administrador, Jote Jeronymo da Coita Bravo de Segreirvi, Rua Larga, 3*4 — SERPA 
Typocraphia de Adolpko de Mendonça, Kua do Corpo Sanio, 46 e 4a — LISBOA 



A TRADIÇÃO 

> 

REVISTA MENSAL D'ETHNOGRAPHIA PORTUGUEZA 



Directores. — LADISLAU PIÇARRA e M. DIAS NUNLS 



ESTATINCA ESTANTÍCA? 



Já viram U'uotans Heer? das willcnde 
Hecr ? o exercito bravio, na forma atte- 
nuada em que a velha concepção da my- 
thologia germânica, meiodissolvida, e com 
infiltração de pormenores estranhos, per 
siste na peninsula ? 

O cortejo lugubremente phantastico 
desfila sempre a horas mortas, nas tre- 
vas e no silencio da noite, emquanto os 
sinos vão repetindo monótonos as doze 
badaladas. 

Ou então nas horas crepusculares, ao 
toque d' almas (ás Trindades ou Ave- Ma- 
r/'7sy, quando os mochos começam a piar 
e o morcego atravessa os ares, adejando 
em torno de ermidas solitárias e torres 
deegreja.Não só no adro, nos cemitérios, 
mas também em olivedos e pinheiraes, nos 
montes e nas eiras dos lavradores é on- 
de surge com mais frequência. 

Sitios ha por onde passa cada noite, 
mas estes são raros e depressa se tor- 
nam deshabitados. Em outras partes so- 
brevem regularmente na solemne vigilia 
de todos os finados (^i quando — mundo 
patente —os manes voltam á terra. Mas 
em geral a apparição é completamente 
imprevista. 

Compóe-se de vultos muito altos e 
muito magros, vestidos de branco, — ver- 
dadeiras avejãs i^) ou abantesmas^ — entre 
os quaes de longe em longe se destacam 
uns vultos pequeninos e vacillantes. 

Ora são sete, ora nove, mas por via 



de regra infinitos: uma turbamulta de 
phantasmas vaporosos que deslizam, mal 
tocando no chão. 

Todos seguram, nas mãos que nin- 
guém lhes avista, luzes acesas: tochas, 
brandões ou candeias. Algumas vezes a 
illuminação é de ossos aidentes. 

Quem os podesse mirar de perto re- 
conheceria que nada teem de corpóreos, 
sendo meras sombras. 

A Morte, em forma de esqueleto, ca- 
pitaneia (nem sempre), essas hostes silen- 
ciosas: os muitos — oir.UioviS^ (^)como di- 
ziam os Gregos, discretamente. 

Entre os defuntos vae sempre um vi- 
vo. Isto é a imagem, a visão, a estatua^ 
iiò'J.ov^ de uma pessoa ainda não falle- 
cida, mas já sentenciada a morrer, com- 
quanto o sinistro agouro em certos casos 
se realize tarde. O termo mais prolon- 
gado é de sete annos. 

Os que marcham á frente, levam a figu- 
ra do condemnado n'um esquife. 

Pouquíssimos são os que chegam a 
distinguir-lhe as feições. Segundo uns, so 
as lubriga quem os mortos querem que 
as veja. Segundo outros, esse privilegio 
pertence a pessoas predestinadas, «que 
teem uma palavra de menos no baptis- 
mo» (sic.) 

Ai de quem encontrar o fúnebre prés- 
tito no seu caminho, ou o vir passar dean- 
te da sua janella ! Ha quem affirme que 
o aspecto por si só é prenuncio de fim, 
ou mesmo acarreta morte instantânea. 
«São os mortos que o chamam.» No en- 
tender de outros, para que o prognostico 



162 



A TRADIÇÃO 



se realize é preciso que se extinga uma 
das luzes, ou que os da procisssão ba- 
tam á pona da pessoa que querem avi- 
sar. 

Cada um sabe como cumpre proceder 
ao encontrarmos uma pobre alma, perdi- 
da e penada, que anda só e scnhewa. C*) 
Embora ella se introduza na nossa casa 
pelos sótãos e se apresente nas formas 
mais assustadoras, arrastando grilhões e 
arremessando pela chaminé pernas, braços 
e caveiras de corpos humanos, basta en- 
cararmos afoitamente esse Medo^ e per- 
guntar-lhe, vencendo o nosso tremor : a Da 
parte de Deus te requeiro, digas o que 
queres, porque far-se-ha, se poder ser.» 
Ou então: «Da parte de Deus e da Vir- 
ge-.Maria, se és alma do outro mundo, 
dize o que queres.» 

Mas em frente dos miiiíus, este meio 
não é valido. Os mortos são sagrados. 
E' preciso acatá-los com muito respeito. 
Senão elles vingam-se. Não é prudente 
dirigir-lhes alguma palavra <'m, nem mes- 
mo respondendo a qualquer das suas 
perguntas. Antes, virar costas e deixar 
passar, sem olhar para trás, cedendo á 
nossa natural curiosidaae. De resto, é 
muito raro fallarem ou cantarem. Só se 
alguém, sem querer, de distrahido ou il- 
ludido, se juntar á procissão, entrando 
na egreja ou no campo-santo onde cele- 
bram os seus ofhcios. Porque então le- 
vantar-se-ha do meio d'elles uma voz, gri 
tando (como oogre do conto :) «aqui chei- 
ra a fôlego vivo.» 

Ignoro qual a penitencia que nessa 
conjunctura se impõe ao incauto visto 
que a innocente a que tal aventura acon- 
teceu, se salvou por ter ajoelhado, re- 
zando, ao pé da campa de sua madri- 
nha. Um único espectador ouviu — não 
sei se bem ou mal — os phantasmas psal- 
modiarem uns versos sem poesia, im- 
próprios da triste e sobrenatural compa- 
nha. iVi 

Mais natural seri? se lhes perten- 
cessem algumas rimas que é praxe re- 
citar quando se quer metíer medo a al- 
guém : 



Quando éramos vivos 
andávamos pelos caminhos. 
Agora que somos mortos 
andamos pelos barrocos. . .(''). 

Ou outras semelhantes. 

Na bella Galliza, famosa pela paixão 
e pela arte com que as suas filhas culti- 
vam a musica e a dança, os mortos for- 
mam rondas e enfileiram-se nas choreias 
nocturnas ias bruxas, meigas, lurpias e 
chiichouas. Pela companhia, suspeito não 
serem mortos, mas antes mortas^ essas 
aéreas bailadeiras. 

Em terrenos pantanosos (os barrocos 
e baiócos de que falia a cantiga,) assim 
como em carreiros muito estreitos e som- 
brios que nunca seccam, vincados pelos 
profundos e encharcados cortes das rodas 
pesadonhas do patriarcal carro de bois, 
em vez de vultos divisam-se muitas luzi- 
nhas que correm e saltam n'um rodopiar 
doido de fogueirinhas, fogachos ou can- 
deinhas. 

E' quanto sei. — Mas não! ainda ha 
mais. Quem passar o verão no campo po- 
de mesmo de dia presenciar espectácu- 
los parecidos, está claro que muito me- 
nos phantasticos e aterradores. 

Empinando o sol, nas horas abertas, 
quando o grande Pan está a dormir, le- 
vanta-se ás vezes inopinadamente — de 
preferencia nas enciuzilhadas — um for- 
te redemoinho de vento: balborinho^bor- 
boriuho^ berbrinho, besbrinho. N'esse ca- 
so, benzendo-nos, e depois de uma devo- 
ta e benéfica conjuração: Santo Nome de 
Jesus ! Credo ! Abrenuncio ! Vae-te para 
quem te comeu as leiras ! devemos se- 
guil-o com a vista, observando onde as 
palhinhas e folhas acarretadas pelo ven- 
to forem cahir, na certeza que é lá que 
se cometteu qualquer maleficio agrário, 
que incumbe sanar, — está bem visto em 
caso que resolvamos remir a alma ator- 
mentada do malfeitor que assim nos falia 
e impiora. <") 

Ainda não ouvi contar que a Morte e 
o seu exercito apparecessem na penínsu- 
la montados em corseis, quer brancos, 
quer negros; nem que os acompanhas- 



A TRADIÇÃO 



168 




6/lLERM BE TVPOS POPIIL^RES 



^P 




X 1 



16i 



A TRADIÇÃO 



sem matilhas de cães uivantes. (') Taes 
accrescimos de terror serão próprios ape- 
nas das nebulosidades nórdicas ? Nas es- 
pessas florestas da Germânia e da Rús- 
sia, os etTeitos de luz são quasi sempre 
reforçados por efteitos acústicos, haven- 
do tumulto de ruidos: cstropeada de ca- 
vallos, ladrar de cães, buzinas de caça- 
dores, e vozes sobrehumanas. Uma ca- 
çada infernal — die ivilde Jagd — em vez 
de uma pi ocissão com tochas, cantochão 
e bailados. ('") 



F'oi em \'alença, Ponte de Lima, Gui- 
marães, Briteiros e Vizella (" ); em Lavado- 
res e S. Christovam de Mafamude, em 
^'illa Nova de Anços, em Mondim da 
Beira, ^^idaes e Cadaval; em Urros e 
Freixo dcNumãoonde se colheram notas 
portuguesas sobre apparições de defun- 
tos, fogos fátuos e balborinhos; e é pro- 
vável que ainda em outras localidades não 
exploradas haja rica messe. As hispâni- 
cas de que disponho, são todas provenien- 
tes da Galliza e das Astúrias. Nos pla- 
naltos desertos de Gastella apenas se 
lembram vagamente das multidões de al- 
mas que também por lá andaram em dias 
do Cid e do Conde Fernam Gonçalez; 
mas a memoria está tão obliterada que 
o nome antigo do exercito nocturno só 
se emprega em sentido figurado, para in- 
juriar qualquer estafermo alto e sotur- 
no, geralmente do sexo feminino. 

E" pois nas zonas septentrionaes e oc- 
cidentaesda península, em geral as mais 
ricas em restos de vetustas crenças e su- 
perstições bellas ou características, quese 
conservam e contam casos reaes, tradi- 
ções e lendas relativas ás crenças a que 
álludo. ('2; 



As avejãs^ os fogachos e os balborinlios 
são, como disse, almas do outro mundo^ 
almas perdidas^ almas penadas^ almas 
errantes: as larvas e lemures da Roma 
gentílica. Espíritos «desinfelizes» de pe- 



cadores (imschge Geistcr) que não podem 
entrar no ceo, nem são admittidos ao 
purgatório. C^) Uns porque não foram 
levados á egreja com acompanhamento 
de um padre; outros porque não se lhes 
rezaram missas. Os mais devem restitui- 
ção aos Vivos. Alguns deixaram de cum- 
prir promessas. Outros não confessaram 
os seus delictos, ou deixaram de alcan- 
çar perdão dos que offenderam, appare- 
cendo por este motivo nos próprios lo- 
gares onde causaram faltas, e perto das 
pessoas ás quaes são devedoras, ou que 
lhes devem indulto. O seu fadário é va- 
guear entre a terra e o ceu, annuncian- 
do a morte aos vivos, para castigo dos 
maus e admoestação dos bons, mas 
principalmente para que esses, por obras 
redemptoras, lhes proporcionem requiem 
aeteriiam. 

As almas que apparecem nos balbo- 
rinhos são de campesinos, que commet- 
teram delictos agrários. ('*) 

Os fogachos e os vultos pequeninos 
representam criancinhas que morrem sem 
baptismo. 

Onde apparecem dão-se quasi sempre 
scenas deveras enternecedoras. ('■') A 
serdes pães, e se um d'elles vier um dia 
ao vosso encontro, lentamente, com pas- 
sos incertos, a mostrar- vos a sua morta- 
Ihazinha húmida e a sua luzinha apaga- 
da pelas muitas lagrimas que chorastes, — 
enxugando os vossos olhos, aconchegai-o 
contra o vosso coração, sem nada dizer, 
para que o calor do vosso seio o aquen- 
te e não mais lhe amargureis a sua me- 
laneholica sina. ("^j 



O leitor pergunta, de certo, porque e 
para quê lhe fallo de crenças tão conhe- 
cidas entre nós, e de que correm con- 
tos e tradições sem numero, embora ex- 
tremamente monótonas e «desmusicas» 
(para empregar o termo predilecto do 
Miguel Angelo português,)— crenças das 
quaes os melhores folkloristas nacionaes 
já se occuparam ('") em livros que todo 



A TRADIÇÃO 



165 



O estudante de eihno^raphia deve ma- 
nusear, aíim de ficar inteirado dos ma- 
teriaes colhidos, das explicações tenta- 
das e dos problemas que importa resol- 
ver. 

Primeiramente, não tallo das alnus pc- 
tidiicis em geral, mas apenas das feições 
menos vulgares cmais significativas. De- 
pois, ninguém, que eu saiba, se referiu 
ás superstições parallelas da (lalliza e 
das Astúrias. E em terceiro logar, o meu 
intento não é registar novidades. De en- 
contro ao uso, pretendo, patenteando a 
minha ignorância, provocar os que tive- 
rem investigado mais aprofundadamente 
a litteratura e a tradição oral, a que me 
elucidem a respeito de um pormenor im- 
portante que desconheço. 

O caso é que em nenhum dos estudos 
que consultei, se acha consignado o vo- 
cábulo com que os antigos denominavam 
a procissão dos /i)iados. Nem o descobri 
na bocca do povo. Apenas o conheço — 
mal e indirectamente — de uma obra tar- 
dia, belletristica : um romance de poeta 
incógnito. 

Variante da expressão indigena que em- 
pregam nas provincias do Norte de Hes- 
panha, e também empregaram no centro, 
a palavra estatinga que serve de epigra- 
phe a estas paginas, é de importância par- 
ticular, porque mostra as relações intimas 
de parentesco em que as apparições no- 
cturnas de almas de finados na peninsula 
estão com o exercito de Wuotan: das wii- 
tendc Heer da mythologia germânica. 
Translúcida a meu ver, embora a palavra 
fosse reduzida e talvez deturpada, a sua 
etymologia deu margem a discussões en- 
tre alguns sábios estrangeiros, a que dese- 
jaria pôr ponto final. 

Os vocabulários vernáculos, sem exce- 
pção do Novo Diccionario da Lingua Por- 
tuguesa^ não encerram estatinga nem es- 
tantiga. Apenas no lexicon do Padre 
D. Raphael Bluteau (171 6) achei no vol. 
V, a p. i96.*,s. V. lubisnomem a seguinte 
passagem, dirigida não sei a que entida- 
de, real ou imaginaria : 



De noite qual lubishomem 
correi o fndario embora 
ou andai como Estatinf^a 
que n'essas parles s'encontra. 

Ninguém vos veja de dia, 
pois senão sois cousa boa, 
apparecerem de dia 
as cousas más, é má coisa. 

(]i'rln pf>i'l,i fin :nn rum mrr l") 

A graphia Estatinga^ com l\ maiús- 
culo, o facto de o próprio Bluteau a dei- 
xar ir sem explicação alguma, e mais 
ainda o não incluí-la na sua obra, mos- 
tra bem que estatinga lhe soava como no- 
me próprio peregrino, sem significação 
clara. 

Na falta de mais documentos, é im- 
possível determinar se estatinga c mero 
erro de imprensa, ou deturpação usual 
portuguesa de estantiga^ inventada incon- 
scientemente por quem pensava nas 
estátuas ou imagens, sob cuja forma as 
almas podem tornar a este mundo; <") 
ou na estatua que no cortejo vimos figu- 
rando o individuo, predestinado a mor- 
rer em breve; ou ainda na estadea dos 
Gallegos, de que mais abaixo di?-ei duas 
palavras. 

Em todo o caso estatinga^ de est anti- 
ga é variante do castelhano estantigua^ 
que provém de hueste antigua e significa 
exercitus antiquus. Para estabelecer esta 
equação tanto monta o auctor do romance 
ter sido algum hispanizante do tempo dos 
Felippes, que adoptou o estrangeirismo, 
nacionalizando-o: ou então que o termo 
fosse colhido por um versejador semi-po- 
pular directamente na tradição oral. 



Estantigua^ explicado no Diccionario 
da Academia Hespanhola por «visão ou 
phantasma que se offerece á vista pela 
noite, causando pavor e espanto,» e no 
sentido figurado «pessoa muito alta,sec- 
ca e mal vestida.» não conservou em 
Castella o seu sentido primitivo, sendo 



166 



A TRADIÇÃO 



como é, applicado unicamente a um só 
individuo, exactamente como no romance 
português. 

Os exemplos de que disponho mos- 
tram que tal evolução do significado já 
se dera antes de i5oo, não somente com 
relação á palavra composta, (^°) mas pro- 
priamente com a expressão hueste autí- 
gua. «'') 

F." preciso retrocedermos até ao sec. 
XIII para encontrarmos documentado o 
sentido original. O monge do mosteiro 
de S. Pedro de Arlanza (tO) Burgos) que 
escreveu, perto de 1240, o poema épico 
de Fernan Gonçález, ainda o conhecia. 

Os companheiros do heroe, abysma- 
dos de fadiga, protestam contra as mar- 
chas violentas e as lides ininterruptas a 
que o Conde os obrigava : 

Los vassallos dei conde teniense por errados, 
eran contra el conde fuertemente yrados, 
eran de su sennor todos muy despagados, 
porque avyan por fuerza syempre de andar armados. 

Folgar non les dexa nin estar asegurados, 
diçien: non es esta vyda sy non para los pecados 
quê andan de noche e de dia e nunca son cansados. 

Asemeia a Satanás e nos a los sus pecados. (^Z) 

Porque lidiar queremos e tanto lo amamos, 
nunca folpira tenemos sy non quando almaé saquamos, (23) 
A los de la veste antygua, aquellos semeiamos, 
ca todas cosas cansan e nos nunca cansamos. 

(Estr. 33 1 -333) 



Como se este trecho não fosse suffi- 
ciente para provar que a primeira parte 
de estantigiia é realmente iiesta^ hueste^ 
/losf IS, a moderna litteraturadas Astúrias, 
onde a crença na apparição collectiva de 
almas é vivíssima, emprega para a deno- 
minar o simples substantivo, com omis- 
são do epitheto. Hueste^ giieste^ giiestia e 
guestiga são as formas dialectaes mais 
usada.s ^"i, prevalecendo giiestia. ^") 

Não para a documentar, mas unicamen- 
te para dar ideia do modo como, allu- 
dindo á entidade mythica de que nos oc- 



cupamos, também em Astúrias se tem em 
vista sobretudo a apparição da tnorte^ 
extractarei alguns exemplos das gracio- 
sas poesias do maestro Teodoro Ciicsta. 
Uma vez é um marinheiro que apos- 
tropha a borrasca, dizendo-lhe entre ou- 
tras cousas : 

pos sabe que tu y la giiestia 

seis (=sois) de la mesma baraxa, 

y mas grande ye Tantroxu (entrudo) ('^) 

si mas siega la gadana.— (p. 3g) 

com referencia á alfaia de que a coma- 
dre morte costuma ir armada. 

Cheio de admiração pelas Doloi^as e 
os Contos de Campoamor, o Asturiano 
gostaria que essa voz nunca se calasse, e 
reza por isso í^que nunca toque la giiestia 
esgargolada (?) a tal xigante» (p. 69). 

Ora é n'uma carta de amores que Pe- 
rico confessa a Pepa,sua namorada: 

Flacu, perflacu quede; 
non te digo más, mió reina, 
q^iie los nirímos ai vème 
juxen comv de la giiestia (p. 70), 

simile que se repete ainda em outra 
composição: 

fuxamos dei pecáo conio'1 nehu de la giiestia l 
(p. 14.) 

Para dizer «evita os presagios da mor- 
te» já outro Asturiano empregara, de res- 
to, o mesmo termo n'um vilhancico do Na- 
tal de 1676, onde diz: 

buelvet'acá, rapaza, 

buelvet'acá, donceya, 

y fugi de lia gueste 

que anda n'aquesa tierra (2'') 

Na obra, a cujo benemérito auctor se 
deve a ultima citação, ha descripções de 
costumes e crenças locaes, bastante va- 
gas, em que também se menciona a 
hueste: 

«Para las eternas veladas de inverno 
en torno dei liar relumbrante hay cola- 



A TRADIÇÃO 



167 



ciones y juegos y cuentos maravillosos 
de la hermosLira y poder de las Xanas, 
(diminutas siltides que brotando dei ma- 
nancial cristalino de las luenies secan a 
los rayos de la luna sus delicados cenda- 
les), )■ de los sinicsíros prL'SJii;i<ts de aquel- 
las misteriosas luces llamadas hucstcs 
que callada y letitamente ai traves de 
las sombras van desfilando como precur- 
soras de muerte )' de iiifortiniio.i) 



Na Galliza o tliema aprcsenta-se com 
alguma divergência. O único termo usa- 
do para designar a procissão é o de 
companha. Se estautiga existiu, ou se 
ainda existe, deve ser em recantos mui- 
to escondidos. Posso completar as defi- 
nições dos diccionaristas apenas com um 
punhado de notas soltas, espalhadas pelos 
versos da inspirada auctora dos Cantares 
Gallegos^ perfeita encarnação moderna 
do génio lyrico gallaíco-portugués. 

Cuveiro-Pinol (28) nos ensina que as 
companhas em que o vulgo acredita, não 
são outra cousa senão fogos fátuos; e 
que a hiieste é uma procissão de bruxas 
que andam de noite, allumiando-se com 
ossos de mortos, batendo nas portas pa- 
ra que as acompanhem as pessoas, que 
querem ver morrer em breve «con una 
porcion de disparates a cual mas absur- 
dos y misteriosos.» Infelizmente não os 
archiva. 

Rosália Castro de Murguia, dando a 
mesma definição nominal, narra que es- 
sas luzes-bruxas que apparecem em fi- 
leira, em eiras, caminhos, bosques e mon- 
tes, correndo de um lado a outro, costu- 
mam ser sete; econta ainda que o apagar- 
se uma d'ellas é considerado como signa! 
de morte e referido ao dono da respe- 
ctiva herdade. C''^) 

Descrevendo uma noite de tempestade, 
ella canta : 

Tod'era sombra no ceo, 
tod'era loito na terra 
e parece qu'a compana 



bailah' antr'as arboredas 
c'as chuchonas enemigas 
e c'as estricadas meii;:is 

(Gant. (íall. p. io3| 

documentando assim que na sua phanta- 
sia e na dos seus conterrâneos, as appa- 
•riçõesda/i//c's/e e as reuniões das bruxas 
se confundiram, ('") resultando nova es- 
pécie de dança macabra. cm substituição 
daquella onívd chore a Machabaeorum — 
des Iodes Relhentan^ — que tantas vezes 
serviu de assumpto ao pincel, ao esco- 
pro e aos rhythmos dos artistas medie- 
vaes, emquanto a arte vivia á sombra dos 
mosteiros. 

E' ainda a gentil poetisa que, á frente 
ou ao lado da companha ^qvocíx a estadea 
ou estadafnha a que já me referi '"k 
a Morte na figura de um esqueleto en- 
volto em mortalha. 1") Leia-se por exem- 
plo a composição das Folhas Novas em 
que, tenta affastar do caminho da dcs- 
honra uma dona aventureira que sahe de 
casa a deshoras, introduzindo a voz da 
consciência que lhe segreda : 

E si atopas a compana ? 
e si vos say a estadea ? 

para no fim rematar o romance com a 
quadra seguinte: 

Adios adios, dama hermosa ! 
darvos a tan maios modos ! 
Non vos levou a compana, 
mais o enemigo levouvos. (") 

Outra prova antiga de que em tempos 
remotos a apparição de multidões de al- 
mas tinha caracter bellico, annuncian- 
do não a morte de um só individuo mas 
aguerra e omorticinio de muitos, confor- 
me o faz presumir tanto o substantivo 
hueste i^*) como a passagem do poema épi- 
co, é nos fornecida por um auctor estran- 
geiro medieval. 

O chanceller Guilherme de Alvernia — 
Guillaume d' Auvergne, chamado também 
de Paris, (fali. em 1 248) — trata em um dos 



168 



A TRADIÇÃO 



seus escriptos theologicos (^^) da conce- 
pção mythologica que nos occupa. Como 
Francês allega o curioso e obscuro nome 
vulgai" hellequiu [In ffwsticc tic Hellequhi) 
que na sua pátria designava a hucstc an- 
tiíiiui. traduzindo a denominação original 
hispânica por excrcitus nutiquus. 

Éis os trechos prjncipaes : De equiti- 
bus vero nocturnis, qui vulgari gallicano 
Hellequni^ et vulgari hispânico exercitus 
aniiquus vocantur, nondum tibi satisfe- 
ci quia nondum declarare intendo qui 
sint; nec tamen certum est eos malignos 
spiritus esse ip. 1037.) P) Nec te remo- 
veat aut conturbet ullatenus vulgaris ília 
Hispauorum nomiiiatio^ qua malignos spi- 
ritus qui in armis ludere ac pugnare ri- 
Jeri consucrermit. exercitum antiquum 
nominant. magis enim anilis et deliran- 
tium vetularum nominatio est quam ve- 
ritatis ! (p. 1073.) 

De outros paragraphos resulta igual- 
mente que o tal exercito se compunha 
então, na opinião do vulgo, de innume- 
raveis cavalleiros armados. E resulta ain- 
da que o viandante, que encontrando-o, 
se refugiava num campo, sahindoda via 
publica, ficava salvo e immune P'), por- 
que as terras lavradas gozam da pro- 
tecção especial do creador, sendo inaces- 
síveis aos espíritos malignos, que não 
têem a faculdade de fazer mal a quem 
nellas estiver '^^•. 

Estas passagens levaram naturalmente 
o grande Jakob Grimm, a cuja Mytholo- 
gia Germânica (^^) as pedi emprestadas, 
a assentar que em Hespanha chamavam 
exercito antigo á apparição aérea dos 
bandos militantes de Wuotan. Conhe- 
cendo nós hoje a expressão vernácula 
hueste antigua^'ç^t\oXt\xo archaico fquasi 
coevo de Guilherme de Paris) que tran- 
screvi, teremos de suppôr que ao latinista 
francês repugnava servir-se do vulgaris- 
mo peninsular hostis por exercitus, mas 
que era aquelle o termo que realmente 
havia em mente. Exercito é vocábulo 
erudito, desconhecido nos sec. XIII e 
XIV (*"). Na litteratura archaíca castelha- 
na o único termo usado era neste (escrito 



veste ou uueste (*'); oste nos textos gal- 
laíco-portugueses (^^). 

A favor da identidade originaria das 
lendas asturiano-gallaicas e das germâ- 
nicas só darei alguns rápidos aponta- 
mentos. Quem desejar instruir-se, deve 
consultar em primeiro lugar a obra fun- 
damental de Grimm, nos capítulos dedi- 
cados á Morte (XXVII) e ás ApparicÕes 
(XXXI) («). 

A expressão neste antigua corresponde 
de um modo surprehendente a outras 
germânicas, como der alte haufen^ (em- 
pregado na phrase den altem haufen 
\uschicken = remetter áoste antiga); das 
oldcheer er isi -{iim grossen fíeer gegan- 
gen i. é. elle passou para a grande arma- 
da i^'^). Em ambas se pensa nas mesna- 
das do velho Deus das batalhas e da vi- 
ctoria (der alte Heervater) que montado 
num cavallo branco conduz as almas dos 
guerreiros finados ('''■'). 

Em algumas partes da Allemanha ca- 
tholica (Baviera), a estantígua chama-se 
como em Portugal procissão noctur)ia= 
Na chtgela it - Na chtgeja id. 

Se Wuotan capitaneia o cortejo ou a 
caçada dos homens, sua esposa Holda, 
Berhta ou Perchtha, vestida de branco, 
guia o préstito dos pequeninos que mor- 
reram antes do baptismo. Estes, não lus- 
trados pela agua sacramental, estão con- 
demnados a vaguearem sobre a terra 
como fogachos (Jrr-licher= fogos erran- 
tes; Irr-jvische= fachos vagantes)^ ou a 
atravessarem o ar, em bandos (in gan:^en 
Haufen), num tumulto e estrépito que 
causa pavor (*^). 

Em todo aquelle paiz vigora entre o 
povo a crença que as almas não admittidas 
no ceo apparecem como aves noctívagas, 
ou em figura de luz, affastando o viandan- 
te do seu caminho. E vigora, como em Por- 
tugal, a fé que é preciso não só respeitar 
essas visõesmas temê-las. A vingança das 
almas não se fará esperar, se algum des- 
temido lhes mostrar menos considera- 
ção {''). 

Os agrimensores deshonestos e os 



A TRADIÇÃO 



169 



W 




X I 

Tinhas-me tanta amizade 
(CHORFOr.RAPHICAi 





•^ 




170 



A TRADIÇÃO 



aldeãos que se apropriaram nesgas de 
campos alheios limitrophes, no acto de 
lavrarem o seu terreno, ou os que frau- 
dulentamente mudaram o lugar dos mar- 
cos que separam as propriedades, estão 
igualmente sentenciados a pairarem sem 
sossego, brandindo varas de fogo, sobre 
as leiras que danificaram. 



Consiglieri Pedroso, o qual ha mui- 
to deixara assente, numa nota, que a 
procissão dos defunctos é variante da 
lenda do watetiJes Heer (") (remettendo 
á obra fundamental de Grimm (*^) e ao 
livro do russo Afanasíev) compara com 
ambas as concepções mjthologicas a ex- 
pressão latina feralis exercttus^ empre- 
gada por Tácito, cingindo-se neste par- 
ticular ás duas auctoridades citadas. Para 
evitar um emprego erróneo d'essa indica- 
ção, concluirei estabelecendo que no capi- 
tulo 43 da Germânia^ onde o historiador 
se serve daquella expressão, não ha allu- 
são ás multidões celestes e sobrenaturaes, 
mas simplesmente aos exércitos muito po- 
sitivos ecarnaes de uma tribu germânica, 
de excepcional bravura. 

Os Harios, nas margens do Vistula, 
realçavam a impressão, produzida pela 
sua natural fereza, por efeitos exterio- 
res, tingindo de preto os escudos e pin- 
tando os seus corpos. «Para os combates 
escolhem as trevas mais densas da noi- 
te \atras ad proelia iioctes legunt); pela 
terribilidade e negridão do lúgubre e mor- 
tífero exercito incutem terror tal (ipsa- 
que formidine atque límbra feralis exer- 
citiis t errarem iufei^mitjquQ ninguém atu- 
ra o inusitado e infernal aspecto do ini- 
migo ínullo hostium sustinente novum ac 
velut infermim adspectum). 



Três et}'mologias de estantigua teem 
sido tentadas. 

i."; Est ^atiiaj antigua, por Paul Foers- 
ter na sua Grammatica hespanhola,( 1 880 j 



§ 347. O auctor lembrava-se. de certo, 
de outros substantivos compostos, nos 
quaes de duas syllabas idênticas, ou qua- 
si homophonas, a protonica se perdeu 
ce(ji)junto^ li(ga)garnba, mo{gi)gato^ mo 
(gDgãJiga)^ mira (ma) molin^ mal {va) 
visco, o {lio) libano. Mas o caso é bem 
diverso. 

2.") Stantifica^ por Gottfried Baist, na 
Zeitschrifty ^ 243 (1881). Como se a pre- 
existência de um verbo staiitificare^ (de 
formação modelada sobre santijicare^ ies- 
tificare,mortiJicare^pacificare^verificare 
que deram santiguar, atestiguar, amorti- 
giiar, apa:{igiiar, averiguar) fosse prová- 
vel {''). 

3.° Hostis antiqua, por °Ake W:son 
Munthe na Zeitsch^ft XV 228 ( 1 889). Es- 
te auctor, sem demonstração phonetica, 
allegava os exemplos quinhentistas de es- 
tantigua e hueste antigua^ communica- 
dos na minha nota 20 e 21, assim como 
as formas dialectaes asturianas. 

Esta ultima etymologia foi apoiada 
por A. Morei. Fatio na Romania, XXII, 
482; (1893) e pela auctora na l^ev. Lus. 
III 159,(1894.) Em ambas as partes se 
citava a passagem do poema de Fernan 
Gonçalez. 

Ultimamente, o eminente cathredatico 
de Freiburg desistiu da etymologia stan- 
tifíca^ (só phoneticamente sufhciente, mas 
pouco satisfactoria quanto á morphologia 
e ideologia. Applaudiu a que advoguei e 
advogo; mas não incondicionalmente, sup- 
' pondo que na primeira parte da palavra 
haja algum malentendido. (^') 

Não o creio. A evolução pode muito 
bem ter sido meramente phonetica. Nas 
Astúrias onde a crença subsiste mais vi- 
vaz, hueste conservou-se inalterado. (''^) 
Em Castella onde a clara noção dos ele- 
mentos constitutivos se perdeu juntamen- 
te com a superstição, no sec. XIVou XV, 
é que ueste foi reduzido a est.Qut mara- 
vilha se n'uma palavra composta, a vogal 
que de tónica passara a seratona foi altera- 
da e reduzida o maispossivel? Se não co- 
meçasse com s impuro (•'^^), z/í, reconduzi- 
do a o, segundo a regra, perdia-se prova- 



A TRADIÇÃO 



171 



velmente de lodo, engrossando assim a 
já longa serie de vocábulos privados, por 
apheresc,de o (resp. hu) inicial, nos terri- 
tórios de que trato ("). 

Mas também é possivel que, uma vez 
formada a expressão estantipia fgal. port. 
esíaiitií^a\^ a lembrança da estátua da 
Morte se infiltrasse nella, creando por 
ventura a deturpação cstatiti^a que nes- 
se caso mereceria ser contada entre as 
etymologias populares. 

Já vimos que estátua, no sentido vul- 
gar de imagem corpórea, ou pelo menos 
visivel, de um ente humano, mais vezes 
morto do que vivo, anda positivamente 
ligada ás lendas da hueste antiqua. Re- 
cordem-se do esquife e também dos ver- 
sos gallegos. E' verdade que D. Rosália 
apresenta a forma estadca^ (,em rima com 
cea lostregueaj accentuando o íí; e só 
esta se acha registada nos diccionarios. 
Outros relatores escrevem porém esta- 
dia ("). Será estádia? ou estadia? 

F^aham-me porora os elementos neces- 
sários para esclarecer as relações muito 
prováveis entre estadéa^ figura da morte; 
e estátua imagem de um morto i'-'^). 

Lm estudo critico e comparativo de 
todos os usos e costumes, todas as 
crenças e superstições, todas as praticas 
e ritos relacionados com a morte, os 
mortos, e suas almas, seria, parece-me, 
extremamente curioso e conduziria a 
pontos de vista bastante elevados, alar- 
gando o horizonte intellectual de quem o 
realizasse despreoccupadamente. E' de 
crer que também resolveria os problemas 
philologicos que deixo indicados. 

Carolina MICHAELIS de VASCONCELLOS. 



(') I a 2 de Novembro. 

(2) Visiones et abusiones. — Sobre a historia 
da palavra veja-se '7^^'. Lus. III 129. 

(^) Tlures mortui^ quia ii majore numero 
sunt quam vivi. 

(•*) Senheira = singularia. 

(^) P. ex. pedindo-ihes lume ! 

(*) Oh'alma dientera 

Toca-me n'essa caldera. . . (sic l) 

Consiglieri Pedroso XIV p. 35. 



(•) Leite de Vasconcellos, Tradi<,'ies p 2q5. — 
Colhidas no lugar de Gonditellos (Famalicão.) 

(•) Se esta crença fosse simples variante de ou- 
tra germânica, a que mais abaixo me retiro, se- 
ria mais natural o conjuro Vae te pjra onde co- 
meste leiras, com allusão a roubos de terra, pra- 
ticados pelo defunto. 

(') Occorre todavia que uma alma penada ap- 
parece na figura de cão preto (f^alf^o neffroj. 

('") Os nuberos das Astúrias, {nuveiros na 
Galliza,! são redores e agentes das trovoadas 
e correspondem aos tempestarii das Gallias. 
Em Portugal acredila-se que a alma do cxcom- 
mun^ado não vae para o ceu nem para o mfer- 
no, hcando a pairar n'uma nuvem. Onde ella pas- 
sar, o ar ruim do excommungado causa dores de 
cabeça (Cf. Leite § I20 e 36o). 

(>') Os materiaes minhotos foram quasi to- 
dos colhidos pelo Celebre descubridor da Cita- 
nia de Briteiros, cuja morte nos consternou ulti- 
mamente. 

("1 Não será extemporâneo recordar que já 
Slrabon affirmou ser wna a maneira de viver dos 
Lusitanos, Gallaicos, Asiures e Canlabros. — E' 
todavia nas .Astúrias onde a persistência de 
costumes antigos é mais sensivtJ. 

('^) Dos que morreram em peccado mortal, 
de morte violenta (por mão alheia ou como sui- 
cidas), não sendo enterrados em sagrado, o povo 
narra contos bem diversos. — Cf. Nota 10. 

('*) Em Tras-os-Montes ouvi óizer pu/v'rinho. 
São almas penadas^ bruxas, feiticeiras, que iTel- 
les faliam, ás vezes o diabo, ou o Medo. — Ve- 
ja-se p. ex. o Tifimance do Soldadinho tm T^ev. 
Lus. II 22j-23o — Leite S 104: Pedroso X. 

('^) Tanto em Portugal como na Allemanha 
ha lendas e contos muito poéticos sobre o mes- 
mo assumpto e sobre os anjinhos. — V. Consi- 
glieri Pedroso XIV, 18. — Com as nossas lagri- 
mas molhamo:» as azas dos anjinhos que por is- 
so não podem voar para o ceu. — As nossas lagri- 
mas salgadas são recolhidas pelos anjinhos n'uma 
cantarinha, com cujo peso não podem, e que trans- 
bordando lhes molham as suas vestiduras. — V. 
Grimm Kinder und Haus-Maehrchen e Deutsche 
Mythologie II 777-778. 

C^l Ib. Ach wie warm'isi Mutter-arm I — .Ach 
wie warm sind Mutterhánde ! 

('") 1881 — F. A. Coelho^ na Revista d'Ethnolo- 
gia e de Gtotíologia, fase. IV 5$ 213,237,252. 

1882 — J. Leite V asconcellos, 'Tradições popula- 
res de Portugal. No § 104, 120, 143. 3õ6, ^7^, 374. 

i883 — Consiglieri Pedroso, Tradições popu- 
lares portuguesas na Revista Positivismo, vol. IV; 
— especialmente na monographia sobre Almas do 
outro mundo, as p. ih 19, com duas contribuições 
finaes de Leite de Vasconcellos. 

i883 — Th. Braga, Contos Tradicionaes do 
Povo Portugue^ — vol 1 148. 

188Ó — Id. O Povo Portugue^ vol. I p. 221- 
226, ou todo o cap. IV: D05 Ritos Funerários em 
Portugal, de p. 177 a 228. 



172 



A TRADIÇÃO 



(") No 1$ 34Ó das suas Tmdições que trata 
dos Lobishimiens, Leite de Vasconcellos trans- 
creveu a primeira quadra, sem a interpretar. 

('*( Pedroso N." 58S : Quando uma pessoa 
morre, o seu carncil não volta mais, mas pode 
apparecer uma sombra ou uma estatua {v.?ím!^ov) 
— Eidolon corresponde exactamente ao germâ- 
nico gespenst (revenant) : anima rediens aut re- 
diviva. 

t^") Em três casos estantigua designa (em 
novelas dramáticas do Cyclo da Celestina) a 
uma velha picara e niiocherniegay» que cuida de 
negócios pouco limpos. 

i5c>o — Celestina, Acto VII: Valala el diablo a 
esta vieja! con que viene como estantigua a tal 
hora! (Bihl. Aut. Esp p. 34.) 

i52i — Seraphina p. 3So: la vista como ídolo 
dei tiemvo antiguo. el andar y vision de estanti- 
gua y fantasma de la noche (Col. Lihr. Esp. Ra- 
ros o Curiosos, V). 

1554 — Selvagia, p. i36: Quien es esta fantas- 
ma ó estantigua? (Ib ) 

(") i544 Francisco de Villalobos, Tractado de 
calor natural, Çaragoça. f. XXIX" : No sabemos 
si es alguna fantasma que aparece a unos y no 
a otros como t rasgo o como la hueste antigua f 

{^\ Repare-se na curiosa personificação dos 

fyecados, que acompanham a Satanás como aco- 
ytos seus. São outras companhas, mas essas 
infernaes: die hbllischen Heerschaaren. 

(}^) A respeito dos que sacam almas lam- 
bem haveria que dizer. 

('^) A. Gumersindo Laverde Ruiz, Aponta- 
mentos lexicográphicos sobre ima rama dei dia- 
lecto asturiana em Ttev. de Astúrias 1879-80. 

D. Fermin Canella, Estudos Asturianos — 
Oviedo i88h (p. i33.) 

Ç^') No Vocabulário de las Palabras y Frases 
Bables de D. Apolinar Rato de Arguellès (Madr. 
1892) somente esta ultima se regista, com a expli- 
cação seguinte: \." procesion nocturna de finados 
que forma parte de la mitologia popular asturia- 
na; 2." la aparicion de los muertos. — Marcelino 
Menéndez y Pelayo emprega na sua Historia de 
Heterodoxos (T, p. 238) outra designação curio- 
sa como synonyma de hueste: o euphemismo 
buena-gente que supponho privativo da região 
das Montaíías. 

(**) Poesias Asturianas — Oviedo iSgS. 

(^) D. José M. Quadrado, Astúrias y Leon 
(p. 354.), Barcel. i885. — Forma parte da publica- 
ção Espana. Sus Monumentos y Artes^ su Na- 
turaleja y Historia. 

(*) Diccionario Gallego p. 74. 

(*') Cantares Gallegos, Madrid. 1872. — v. p. 
219 (Glosario.) 

('") Também em Portugal os contos de bru- 
xas confundem-se com as das almas do outro 
mundo. — Nos fogos-fatuos p. ex. o povo reco- 
nhece óra umas, óra outras. — V. Nota 14. 

(^') A' dança macabra também presidia um 
esqueleto, coroado. 



(^■■') Estadéa, esqueleto ó figura de Ia Muer- 
te (Cuveiro Piiiol e Valladares Nunez.) 

(33) Folias Novas^ Madr. e Habana 1880; p. 
108. 

(34) Hueste = exercito em campana. 
p) De Universo, Part. II c. 12. 

(36) Não tenho ao meu dispor as obras d'esse 
erudito, sobre as quaes ha algumas indicações 
na PZncyclopedia de Groeber 11." 207, 2i2, 235. 

(3'') P. io6> e 1067. Cf. Du Cange, Glossarium 
Mediae et Infimae Latinitatis s. v. Hellequinus. 

(3**) Propter quod opinio inolevit apud mui- 
tos agros gaudere protectione creatoris propta 
utilitatem hominum ethac de causa non esse ac- 
cessum malignis spiritibus ad eos neque potes- 
tatem nocendi propter hanc causam hominibus 
existentibus in eis. 

(39) Ed. 4.", Berlin 1877, p. 785. 

('"') O povo nunca o adoptou e serve-se de 
preferencia do vocábulo tropa, mais caracteris- 
tico e pittoresco. 

('') Poema dei Cid, 234b ; Poema de Alex. 
3q6, 436, 440, 1859, 2102; Fern. Gonç. 473; Gonq. 
IJltr. p. 429. 

C^) Caiic. Vat. 1 59, 420, 1 168 (na oste por el 
rei servir I; Cant. Mar. i5, 3: sacar oste; 28, 2 05- 
te de pagãos; i65, 4; 21 1, 3, 233,7: grand'oste. Na 
Cantiga 182,8 Como S. Maria livrou un ladron 
da mão dos diabos que o levavan encontramo-nos 
até com uma oste de espíritos malignos (de de- 
mões oste.) 

^3) Grimm, Deutsche Myth., Vol. II 700-713, 
761-793,111 245 e 277-284. 

(") Ib. 706 e 785. 

(''•') A via láctea {galáxia lembrava Galileia), 
na mythologia germânica a estrada dos deuses ou 
de Wuotan (Grimm í 106-280, III 296), e é tam- 
bém entre nós, como entre os gregos, o caminho 
pelo qual as almas sobem ao ceo. Recordarei a 
principal lenda sobre a estrada de Santiago — que 
a alma do peninsular que em vida não foi a San- 
tiago de Compostela tem de ir lá, depois da 
morte, antes do corpo ser levado á egreja — para 
lembrar que em Galliza ha outro sanctuario que 
é obrigação de cada natural visitar pelo menos 
uma vez : Sant' André de Teixído. No dia da 
grande romaria ninguém mata lagartixa, cobra, 
ou outro qualquer reptil, que encontre no ca- 
minho, porque é crença viva que os defuntos 
vão em aquella forma a cumprir a romagem que 
não fiz3ram. 

C*^) Grimm I 765. 

(*■) Ib. 77^J- 

(«) Ib. 792. 

('•9) Ib. I 725 e III 244, Poetiicheskia vozzrie- 
niia slavian na prirodu (ideias poéticas dos Sla- 
vos acerca da natureza.) 

f'") V. Koerting, Lateinisch-Romanisches Wtir- 
terbuch N." 7447 (texto e supplemento.) 

(5') Kritischer Jahresbericht IV 314: Im er- 
ten Theil der zusammensetzung diirfte bei alle- 
dem ein Missverstándniss stecken. 



A TRADIÇÃO 



178 



i 



I ■'-) Com isso não quero dizer c^ue o povoastu- 
riano saiba da significação primitiva de hueste. 
Muito pelo contrario. C) desconhecimento d'ella, 
e as formas dialectaes com g até levaram philo- 
lopos indif;enas a derivar ^ueste do inf;lez ^hos- 
lall, em allemão. G"t'í.s7 f.v/iir/7(/.l'ara os conven- 
cer da verdadeira origem da palavra hastará as- 
sentar que o bable nãu admitte que uma palavra 
rincipie com o dithongo iie. Quer provenha de 
'zo primário ou secundário; quer ande precedi- 
do de u consoante, ou da labial b (que nas re- 
giões septentrionaes e occidentaes da penínsu- 
la confundem com vy, o asturiano pronuncia ffiie. 
Ao pí\r á<j ^úierto,- lniert(>Jiurto:guespedL\- hties- 
pcd hospede; ^iievo. - hiievo, ovo; f;uesu^ hiieso^ 
ossu; ffueyii oio. olho oclo temos ^^ucsa liuessii^ 
fossa; guelta vuelta, volta; guela vuela votat; 
gueno Inteno, bono; gue viie, bue bove; 
giiesca iniesca, osca. — A substituição de e final 
por ia é também um dos característicos do as- 
turiano, como do gallepo e português, p. ex. em 
gólpia por golpe^ resultante da preferencia dada 
aos vernos em lar e adj. em \u ia alterar^ guardar, 
pulsíar, encuríiar; curtiu, blandin etc. Para ex- 
plicar a variante guésíiga — outro testemunho 
da predilecção dYsses povos por esdrúxulos por 
elles creados — lembrarei apenas mústigo gail. 
muscho^ port. murcho: lóstrego lustruvi; crobe- 
ga cobra colubra; pérdega perda de perdita. 

(■'■') Cí. hespitalero, (^onq. 420, e em portu- 
guês espital estau, espicio, escuro. 

(^') fcis alguns casos gallaícos-portugueses de 
alijamento doo; chavo; chumba de buncha, opun- 
tia: leado; juenagevi; penião, punião; reptar, ar- 
repiar; ruginal /original): variíuj; Tranto; Vaya 
(ôvaya Baya Eulália) 

(''•'•) Heterodoxos I 235. 

(■"''') O povo português pronuncia estátua, mz^á 
também )à ouvi dizer estádua. Conf. estatelado. 

M. V. 



IWodas-estFibilhos alemtejanas 

Tinhas-me tanta amisade 

Tiuhas-me tanta amisade 
Qiie me querias sustentara . . . 
Abalaste para Lisboa 
E eu cá fiquei a chorara! 

Eu cá Jiquei a chorara, 
Chorava d' uma paixão . . . 
Abalaste para Lisboa 
Lindo amor do coração 1 

> 

M. Dias NUNES. 



Danças |io|)IiIíhts iIu ItiiiMi-Alciiilcin 

(Continuado de pa^. .13) 

Os bailes aos pares começam pela for- 
mação de dois circulos concêntricos, de 
rapazes um e outro de raparigas, cm nu- 
mero egual, e collocados frente a frente; 
sendo peculiar d(; sexo forte o circulo ex- 
terior. 

Ao elevar-se a voz, que entoa a pri- 
meira s^llaba da primeira quadra, cada 
um dos rapazes se acerca, lado a lado, 
da sua rapariga e enlaçam as mãos, des- 
tra com destra, sinistra eom sinistra. De 
seguida, todos os pares, uns após ou- 
tros, se põem cm movimento, caminhan- 
do para a direita. 

Quando a cantiga, em coro, linalisa e 
a moda-estribilho principiai*), dcsenla- 
çam-se as mãos, e a roda estacou. Kntão 
tornam os bailadores á primitiva nosição 
de frente a frente, e cada um faz balance 
com o seu par, arrastando os pés, ar- 
queando os braços, e dando castanholas 
com os dedos pollegar e máximo de am- 
bas as mãos. 

Mal que a moda acabou, ouve-se logo 
uma nova cantiga, ao som da qual volta 
a formar-se, e a movimentar-se, a dupla 
roda. Vem depois, uma vez mais, a mo- 
da-estribilho, obrigada á paragem pis-à- 
vis^ balance, castanholas, etc. H sempre 
assim, continuadamente. 

A mudança de pares é coisa obrigató- 
ria ao começar de cada nova quadra: O 
circulo feminino avança um passo, em- 
quanto o circulo dos homens se conserva 
no mesmo logar ; e deste modo, o novo 
par de cada rapariga é o mancebo im- 
mediato ao seu par anterior. 

Devo notar que, hoje em dia, as rapa- 
rigas vão usando dar o braço aos rapa- 
zes, em vez das mãos, como era de an- 
tiquíssimo costume. 



(*) Se a moda não tem resquebre (lettrai. em 
logar d'este repete-se a cantiga. 



174 



A TRADIÇÃO 



Particularidade curiosa, de que várias 
pessoas me informam: a mocidade de ha 
sessenta annos dava-se as mãos, não de 
frente, mas pelas costas, torcendo os bra- 
ços e martvrisando o corpo. 

Nos bailes aos pares^ o andamento, 
em regra, é paulatino e moroso, em har- 
monia com as musicas adoptadas neste 
género de dança — puros e simples «des- 
cantes». 



* * 



Reservando para mais tarde a descrip- 
ção de certas variantes dos bailes de 
roda, tae-: como as que se observam no 
cPaspalhão», «Triste viuvinha», «Senho- 
ra quintaneira», etc, etc, passamos a 
registrar diversas praxes e rimas popu- 
lares, interessantissimas, que são com- 
muns aos bailes em geral. 

Fallemos primeiramente do velho e 
svmpathico tocador da viola nacional, 
que — mal de nós! — está sendo eclipsa- 
do pelo moderno tangedor do estrangei- 
rissimo harmonium. 

Creatura indispensável em todos os 
bailes, quer públicos, quer de feição par- 
ticular e familiar, o tocador de viola go- 
sou em todos os tempos, e ainda hoje 
gosa, das finezas mais caras e gentis por 
parte do bello sexo. Ora veja o leitor 
estas lindas cantigas, repassadas de gra- 
ça e bom humor, que as raparigas se 
permittem dirigir, entre sorrisos brejei- 
ros, ao maganão do violista: 

O tocador da viola 
Merece uma bóa ceia : 
Uma data de pasadas, 
Trinta dias de cadeia ! 

O tocador da viola 
Merece uma gravata; 
Hei-de mandar fazer-lhe uma 
Do rabo da minha gata ! 

O tocador da viola 
Merece uma gallinha. . . 
Mastigada co'os meus dentes, 
Cá p'rá minha barriguinha ! 



O tocador da viola 
E' feio . . mas toca bem 1 
Se não casar pela prenda. . . 
Formosura não a tem 1 

O tocador da viola, 
Oh moças! tratem-n'o bem, 
Que elle é de fora da terra, 
Não conhece aqui ninguém. 

O tocador da viola 
Merece levar pasadas : 
A viola não é sua. 
As cordas são emprestadas ! 

O tocador da viola 
Tem dedos de marafim ; 
Tem olhos d'enganador. . . 
Não me ha-de enganar a mim 1 

A viola tem um S 
Por baixo do cavalete ; 
O tocador que a toca 
E' um lindo ramalhete ! 

O tocador da viola 
Tem dedos de papel pardo. . . ; 
Tem olhos d'enganador. . . 
Ha-de enganar o diabo ! 

E que não esqueça est'outra quadra, 
muito favorita d'um afamado tocador, já 
fallecido : 

Aqui me vejo apertado. 

Sem me poder resolver, 

Com esta viola a peitos. . . 

Ai! Jesus! Que hei-de eu fazer?! 



(Continua.) 



M. Dias NUNES 



THERAPEUTICA MÍSTICA 



(Continuado de pag. 143) 

VII 

Benzedura da dôr de cabeça 

«Jesus, santo nome de Jesus, etc, etc.» 

Continua a benzedeira : 

«Onde eu ponho minha mão, ponha o 
Senhor a sua divina vontade. Quando 
S. Pedro pelo mundo andou, encontrou 
o seu divino mestre. O Senhor lhe per- 



A TRADIÇÃO 



175 



guntou : — Onde vaes, Pedro ? — Eu, Se- 
nhor? vou para o monte forte. — Anda, 
Pedro. — Não posso, Senhor — Pois o 
que tens? — Dôr de cabeça.» 

«Jesus, Jesus, Jesus — Credo em cruz.» 

N. B. — F!mquanto a benzedeira diz 
aquella oração, conserva a mão sobre a 
cabeça do paciente, mas sem lhe tocar 
nem fazer cruzes. 

VIII 

Benzedura do fogo 

a Jesus, santo nome de Jesus, etc, etc.» 
«Santa Cecilia tinha três filhas: uma 
lavava, outra estendia, e outra no fogo 
caía. Com que se curou ? com que se cu- 
raria ? — Com o unto do porco e com o 
pó do dia.» 

«Em louvor de Deus etc, etc, etc. t 

N. B. — Prepara-se um bocado de unto 
de porco e uma porção de pó da estrada. 
Emquanto a benzedeira diz a oração, 
ella se encarrega de ensopar o unto no 
pó e com este esfrega os pontos quei- 
mados pelo fogo. 

'IX 

Benzedura do cobro 

«Jesus, santo nome de Jesus, etc, etc.» 

Diz a benzedeira : 

«Se fores alvorinho, eu te corto o fo- 
cinho, se fores negral eu te corto o cris- 
tal.» 

«Em louvor de Deus etc, etc, etc.» 

N. B. — A benzedeira finge cortar com 
uma faca e reza um P. N. e uma A. M. 



X 

Benzedura da calma 

«Jesus, santo nome de Jesus, etc, etc.» 

«Sexta feira da luz subiu o Senhor á 

cruz. Perguntou Pilatos a Jesus: — quem 



treme ? tremo eu ou a cruz ?» Respondeu 
o Senhor: — Não tremo eu nem a cruz. 
«Não treme, nem tremerá, que eu sou o 
Senhor sacramentado, pelo mundo te- 
nho andado, calmas e calmarias apanha- 
do.» — Pois como se tiraria? — Com a 
rama da oliva talhada e dobrada duas 
vezes e com pingas d'agua fria.» 
«Em louvor de Deus etc, etc, etc." 

Nota íinal 

Todas as pessoas que benzerem de- 
vem pôr um pedacinho de pão no seio, 
e depois de concluída a benzedura de- 
vem deital-o a um animal, porque, se não 
fazem isto, podem adquirir a doença, 
de que benzeram. 'Iodas as pessoas que 
padeçam dos dentes ou dos nervos teem 
de rezar nove vezes o credo, offerecen- 
do-o á Senhora das Dores. 



(Loulé) 



AiHAiDfc bt)LIVKIRA 



JOGOS POPULARES 



vil 



Eisíconclílfêloei (*) 

Este jogo, dorigem antiquíssima, ain- 
da hoje se vê adoptado entre a rapazia- 
da, que o pratica em todas as estações 
do anno, tanto de dia como de noite. 
Vejamos como elle se realisa. 

Juntam-se diversos rapazes em qual- 
quer sitio, perto do qual haja esconderi- 
jos. Dentre os mesmos rapazes, escolhe- 
se um para mãe^ cuja missão é dirigir o 
jogo, conforme veremos d'aqui a pouco. 
Quanto aos demais jogadores, um delles 
tem de ser vendado pela mãe. emquanto 
os outros se vão esconder. Aquelle que 
ha de ser vendado, é tirado á sorte pelo 



(*) O povo pronuncia: escondarélos. 



176 



A TRADIÇÃO 



processo da pedrinha, já anteriormente 
descrito. 

Isto feito, senta-se a mãe no chão, ou 
em cima dum poial, e, entre os seus 
membros inferiores, senta-se também o 
rapaz indicado pela sorte para receber a 
venda. 

A mãe, então, tapa-lhe os olhos com 
as mãos, e manda os outros rapazes a 
esconderem-se, ao mesmo tempo que vai 
proferindo em voz alta: «lá vai um, lá vão 
dois, lá vão três, etc». Entretanto vão 
os rapazes escondendo-se, o melhor que 
podem, até que a mãe grita: «Esconder 
bem, que lá vai Maria a ver!w Ditas 
estas palavras, a mãe^ levantando as 
mãos, destapa os olhos do rapaz que 
está sentado junto de si, e deixa o ir á 
busca dos companheiros, os quaes, ape- 
nas presentem que vão ser descobertos, 
correm immediatamente para a mãe. 
Cada um dos jogadores procura ganhar 
a dianteira aos outros, porque o rapaz, 
que mais se atraza na carreira, é preci- 
samente aquelle que tem d'ir sentar-se 
ao pé da mãe, para, a seu turno, ser 
vendado da mesma forma que o anterior. 
E assim successivamente. 

O jogo, que ahi deixamos descrito, é, 
como se vê, muito simples, mas nem 
porisso elle deixa de ser bastante alegre, 
e tem a sua utilidade sob o ponto de vista 
hygienico. 



(Brinches) 



Ladisi^u piçarra. 



As feslas dn Sarramonlo em Beja 



(continuado de pag. i34l 

Os presos nunca excedem o numero 
de dez ou doze; pois, apesar d'isso, o 
jantar que lhes é destinado toma propor- 
ções taes, que dá bem para duzentas ou 
trezentas pessoas. Com isto lucram os 
pobres, porque por elles são distribuídos 
os sobejos. Este jantar é conduzido pro- 
cessionalmente pelas irmandades de to- 
das as freguezias, auxiliadas por soldados 



do regimento 17, ou quaesquer homens 
do povo, que se apresentam mesmo sem 
opa nem distinctivo algum. 

O jantar, ao mesmo tempo abundante 
e variado, consta de sopa fervida, cosido 
de vacca, couve e carne de porco; arroz 
tostado, carneiro assado, carneiro guisa- 
do {ensopado).! azeitonas, queijinho, fru- 
cta, arroz doce, trouxas d'ovos e vinho. 
A cada ração corresponde ainda uma 
onça de tabaco e um livro de papel de 
fumar. Todas as iguarias, que acabamos 
de mencionar, introduzem-se em alcofas 
d'esparto, sendo cada alcofa transporta- 
da por dois homens. N'este acto figura 
também o respectivo talher de prata, cu- 
jas peças são conduzidas pelos reitores 
das differentes freguezias. Ao thesoureiro 
pertence levar uma salva de prata con- 
tendo o tabaco e o papel de fumar. 

Na ultima festividade, adoptou-se um 
novo processo de conduzir o jantar, mui- 
to preferível ao antigo, porque dá mais 
rfcalce ao cortejo e evita que n'elle to- 
mem parte indivíduos desprovidos d'opa. 
Parte do jantar caminhou sobre dois car- 
ros alemtejanos artisticamente ornamen- 
tados, simulando centros de mesa ou 
fructeiros. Produziam um effeito surpre- 
hendente e davam ao préstito o tom 
d'um cortejo civico. O jantar dos presos 
percorre um trajecto curto. Em geral, 
sae da freguezia da festa e dirige-se 
logo á cadeia. Após a distribuição do 
jantar, ha um intervallo de uma ou duas 
horas, no fim do qual sahe a chamada 
procissão da festa. E' n'esta procissão 
que figuram os três famosos andores de 
prata, primorosamente burilados e mar- 
chetados de pedras pseudo preciosas, 
collocadas ali, segundo consta, em vez 
das primitivas, que eram as verdadeiras. 

Os ricos andores, que vimos de no- 
mear, eram propriedade do extincto Con- 
vento da Conceição d'esta cidade, mas 
hoje pertencem á mitra. 



(Continua) 



Alves TAVARES. 



Autlo T — ^.' lâ 



SESPA, Dezem\3ro de 1899 



8«We I 



Editor-administrador, José Jfronymu da Cotia Uravo Je Nffirfirut, Rua l.arga, a e 4 — SlíRPA 
Typ. de ÁJolpIto de Mendonça tí ituarte, Kua do Corpo Santo, ^li e 4.S — LISBOA 



A TRADIÇÃO 



REVISTA MENSAL DETHNOGRAPHIA PORTUGUEZA 



DIRECTORES: — Z.^DZSLylZ7P/Ç^i?R^ e M. DIAS NUNES 



Daiiras |)n|iiilan's do Ilaixo-.llciiiíejo 



(Continuado de paç;. 173) 



Realisam-se, de ordinário, os bailes 
populares na casa de fora, ou da entrada, 
que é por via de regra o melhor e mais 
espaçoso compartimento das pobies ha- 
bitações térreas dos camponezes. 

As raparigas, unicamente, são convi- 
dadas para estes bailes; os rapazes, es- 
ses apresentam-se alli sem nenhuma es- 
pécie de convite. 

A' porta da rua, o dono ou a dona 
da casa — mais vulgarmente a mulher — 
recebe prasenteira o bello sexo e vae 
parlamcniando com os mancebos que 
chegam. 

— Dá licença que veja o seu balho ? — 
é a pergunta sacramental de todos os 
rapazes, ao pisarem garbosos o limiar. 

A dona de casa : 

— Se é p'ra balhar, entre ; agora se é 
só p'ra ver e fazer pouco, — não senhor, 
— rua ! 

— E' p'ra balhar. . . 

— Então, entre. 

Quando o baile é ao meio^ o recem- 
chegado pede licença a qualquer dos in- 
dividuos que formam a cadeia e n'ella 
se incorpora sem mais cerimonias. Ago- 
ra se o baile é aos pares a coisa não vae 
tão facilmente, pois se faz mister que 
algum dos cavalheiros dançantes esteja 
disposto, ou se disponha, a ceder a sua 
da)}ia. 



— O' amigo, dá licença que eu balhe 
um poucochinho? — interroga o rccem- 
vindo, opportunamentc (*), dirigindose 
ao mais próximo par c collocando, ao 
de leve, a mão direita sobre a espádua 
do varão. Desde que este seja realmente 
amif(o, ou mesmo simples conhecido, de 
quem solicita a permissão de balhar, a 
cedência da rapariga é quasi certa ; mas 
do contrario, é bem vulgar a resposta : 
«n'este instante mesmo eu entrei», equi- 
valente á recusa. K tal recusa, embora 
entre desconhecidos, constitue sempre 
uma grave otíensa, da qual não raro de- 
rivam grandes questões e sérios confli- 
ctos. 

Dos bailes populares, o máximo at- 
tractivo, por sem duvida, consiste nas 
variadíssimas quadras, de variadíssimo 
objecto, que a mocidade canta com pro- 
fundo enthusiasmo, alegre e luidosa. 

Que nos permitta, pois, a benevolên- 
cia do leitor estamparmos aqui uns pe- 
quenos trechos, inherentes ás diversões 
choreographicas, do nosso vasto e opu- 
lento cancioneiro regional. 

E' do estylo bailarem em cabello, tan- 
to os homens como as mulheres ; e se 
porventura alguém se esquece de obser- 
var similhante preceito, ha logo quem 
advirta, n'alguma d'estas cantigas : 



i (*) A opportunidade, dá-se no momento em 
I que a moda-estribilho findou e nova cantiga vae 
I principiar. 



178 



A TRADIÇÃO 



Disse-me a dona da casa 

(Assim eu tivera o «.eu I) : 
«Quem quizer aqui balhar 
Ha-de tirar o chapéu». 

Disse-me a dona da casa 
(Em louvor de S^-n Lourenço): 
tiQuem quizer aqui ha'hnr 
Ha-de lirar o seu lenço». 

Cantam as raparigas quando os res- 
pectivos namorados estão ausentes: 

O meu bem não e.stá aqui, 
Mas 'stá quem lh'o vá contar : 
Eu, na sua ausência d"eHe, 
O meu allivio é chorar. 

O meu bem não está aqui, 
Mas 'stá quem lh'o vá dizer : 
Eu, na sua ausência d'elle, 
O meu allivio é morrer ! 

Onde estará o meu bem, 
Que ha dias que o não vejo ? 
Qual será o dia alegre 
Que eu matarei meu desejo!... 

Onde estará o meu bem, 
Que me vem tanto ao sentido ? 
Se estará na obrigação. 
Ou se terá já morrido ?. . . 

Onde estará o meu bem, 
Qu'inda o não vi esta tarde ? 
E' muito certo que esteja 
N'alguma sociedade. . . 

Onde estará o meu bem ? 
Com quem andará brincando ? 
Se eu serei lembrada d'elle 
Como elle me está lembrando ! . . . 

Meu amor ficou de vir, 
Mas, porém. . . inda não tarda ! 
O caminho é muito longe. 
Tem que dar muita passada. 

Este halho está bom b.ilho, 
Agradeço lhe o favor ! 
Mas não 'stá aqui balhando 
Quem estimo por amor. 

Todos vêem ver 
O nosso baJhinho . . 
Só o meu amor 
Não sabe o caminho! 



Se o meu lindo amor 
Viesse aqui dar, 
Um rosário ás almas 
Havia eu rezar ! 

Cantam ainda as raparigas á chegada 
dos seus derriços : 

Graças a Deus que chegou 
Seja muito bem parecido ! 
O rigor da sua ausência 
Só eu o tenho sentido. 

Graças a Deus que chegou 
Quem eu desejava ver ; 
A' palavra não taitou : 
Assim é que ha de fazer ! 

Graças a Deus que chegou 
A alegria da minh'alma : 
Olhos de branca açucena. 
Raminho de verde palma! 

Graças a Deus que chegou, 
E' chegado não sei quem . . 
Chegaram dois olhos pretos 
A quem os meus querem bem! 

Graças a Deus que já chovem 
Pingas d'agua no jardim ! 
Graças a Deus que já tenho 
Meu amor ao pé de mim ! 

Nos bailes aos pares^ ao enlaçarem as 
mãos dois namorados, é muito usual 
qualquer das seguintes quadras: 

Aqui me tens ao teu lado, 
A's tuas disposições ! 
Vamos a unir se queres. 
Os nossos dois corações. 

Aqui me tens ao teu lado, 
Meu amor, haja prazer ! 
Sem comer posso passar ; 
Sem li não posso viver 1 

Aqui me tens ao teu lado, 
Meu amor, haja alegria ! 
Sem comer posso passar ; 
Sem te ver. . .nem só um dia ! 

Aperta-me a minha mão 
Té que m'estalem os dedos ! 
Como queres que t'eu ame, 
Se eu não sei os teus segredos ?! 



A TRADIÇÃO 



179 




e^LERI^ ])E TVp08 POPdL^RES 




XII 





Camponez, de çafces e çamarro i Serpa) 




180 



A TRADIÇÃO 



Aperta-me a minha mão 
Té que eu diga .- — deixa, amor ! 
Quem mais aperta, mais quer, 
Quem mais quer, mais sente a dor. 

Aperta me a minha mão, 
A)unta palma com palma ; 
Aqui tens meu coração, 
Toma posse da minh'alma ! 

Aperta-me a minha mão 
Té que eu diga : — deixa ! deixa ! 
Quem mais aperta, mais quer, 
Quem mais quer, menos se queixa. 



Quando as tuas mãos estreito 
E aperto com saudade, 
Sinto dizer em meu peito : 
— 'Stá firme a nossa amizade ! 



— Dá-me as tuas mãos de firme, 
Dou-te as minhas de leal ; 
São cartas que ficam feitas 
Se algum de nós se ausentar. 

— Ausente mas sempre firme, 
Resolvido a não deixar-te ; 
Quanto mais ausente cu vivo, 
Mais firme sou em amar-te ! 



Aos donos de casa : 



Esta casa está bem feita, 
Picadinha ao picão; 
A' dona, que n'ella mora. 
Deus lhe dê a salvação. 

Esta casa está bem feita, 
Muito bem emmadeirada. 
Muito gói>to eu de balhar 
Em casa de gente honrada 1 

Viva o dono d'esta casa 
Mais a sua companheira ! 
Deus lhe dê muita saúde, 
Muita libra na algibeira. 

Esta casa está juncada 
Com junquilhos da ribeira. 
Viva o dono d'esta casa 
Mais a sua companheira ! 

Lá no alto da Marreira 
'Stá um calvário e três cruzes. 
Viva o dono d'esta casa, 
Que o balho tem nove luzes ! 



Para acalmar a vozeria que ás vezes 
se estabelece : 

Senhores ! Haja silencio ! 
Não mando caiar ninguém. . . 
Disse-me a dona da casa : 
«Silencio parece bem». 

Despedidas : 

Adeus, que me vou embora ! 
Adeus, que me quero ir 1 
Dá-me, amor esses teus braços, 
Que me quero despedir. 

Dize-me, amor : Até quando 
Ha-de ser a nossa ausência ? 
Se ha-de ser por muito tempo 
Peço a Deus paciência. 

Vou-me embora. . e tu cá ficas ! 
Quem te podesse levar ! . . . 
Se podesses vir commigo, 
Não havias cá ficar ! 



Vou-me embora, que nem tanto 
M'eu havia demorar. 
Que tenho o caminho longe 
E amanhã que trabalhar. 

Vou-me embora, vou-me embora, 
Já tenho a roupa no barco. 
'Stá chegada a triste hora. 
Que eu de ti, amor, me aparto. 

Vou me a dar a despedida, 

Já não canto senão esta : 

O pouco parece bem. 

Tudo o que é de mais não presta. 

Despedida, despedida ! 
Sabe Deus quem se despede ! 
Eu, para não ir chorando, 
Faço despedida alegre. 



f 



Várias 



'Stás de fora e não balhas. 
Qual é o teu superior ? 
Quero-lhe ir pedir licença 
PVa balhar comtigo, amor 1 

Os senhores que aqui estão, 
Uns sentaflo', outros de pé, 
Não vêem cá por balhar, 
Vêem só por darem fé. 



A TRADIÇÃO 



181 



Se me amares a mim só, 
Mais do que a rocha sou firme ! 
Em sabendo que amas oulrem. . . 
Sou um raio a despedirme! 

O nosso balhinho 
'Stá papa, 'slíi peixe ; 
Quem não postar d'elle 
\^á-se embora, deixe. 

No nosso balhinho 
'Stão pares epuaes. 
Fechem là a porta, 
Não quVemos cá mais. 

Gosto muito de quem gosta 
O mesmo pôí.to que eu tenho. 
Se tu em mim fazes gosto. 
Eu em ti dobrado empenho ! 

Venho d'aqui tantas léguas 
Por te vèr, oh meu amor ! 
Nem de rastos que tu andes 
Me pagas este favor. 

Vamos lá cantando bem, 
Para o baiho ter valor. 
Quem chegou agora aqui 
F"oi um grande cantador. 

M. Dias NUNES. 



THERAPEUTICA MYSTÍCA 



o quebranto 

Toda a gente sabe, que o povo attri- 
bue a certas pessoas o triste privilegio 
de molestar outras, com a simples pro- 
jecção dum olhar. A' doença assim pro- 
duzida, por modo tão fácil quão mys- 
terioso, dá-se o nome vulgar de que- 
branto, e aos raios visuaes pathogenicos 
da supposta enfermidade, chama-se mau 
olhado 

Quando qualquer sujeito, do sexo 
masculino ou feminino, gozando na ap- 
parencia de boa saúde, é atacado repen- 
tinamente de náuseas, vómitos, dores de 
cabeça e do ventre, trata-se provavel- 
mente, no entender do publico, d'um ca- 
so de quebranto. E, para haver a certe- 
za, se sim ou não a referida pessoa foi 



aquebrantada, costuma fazer-sc a se- 
guinte experiência: deita-sc aííua numa 
tijéla, e benze-sc essa agua, o dizendo 
ires vezes o credo em cruz» (•), e em 
seguida lançam se algumas gottas d'azei- 
te dentro da mesma tijcla. Sc o azeite 
desapparece, diluindo-se completamen- 
te, não resta a menor duvida de que a 
creatura suspeita está aquebrantada ; o 
contrario succede, quando o citado óleo 
se conserva, bem distincto, á ílôr da 
agua. 

Um dos effeitos que o quebranto or- 
dinariamente produz nos indivíduos em 
que elle se manifesta, é a queda extem- 
porânea do cabello. Neste caso, é de 
boa praxe ir recolhendo todo o cabello 
que cae, guardando-o cuidadosamente, 
para ser queimado na noite de S. João. 
Piocedendo assim, o dono ou a dona do 
cabello caido, livra-se de todo e qual- 
quer malefício. 

O mau olhado não affecta unicamente 
o género humano; a sua malévola acção 
faz-se sentir numa área mais larga. Sob 
a influencia perniciosa do mau olhado — 
crê o vulgo — adoecem também os ani- 
maes, seccam-se as plantas e damnifi- 
cam-se diversos objectos, taes como o 
pão, os bolos, etc. Conhece-se que o 
pão, ou um bôlo qualquer, foi alvo de 
olhar mau, quando transportados esses 
alimentos ao forno, para ali serem co- 
sidos, se nota que elles, em vez de le- 
vantarem sob a acção intensa do calor, 
ficam, ao inverso, chatos e mal passa- 
dos, desagregando-se em fios a sua mas- 
sa interior. 

São innumeros os episódios que a fan- 
tasia popular tem bordado em torno do 
quebranto. Quem tiver paciência para 
investigar, na grande e ingénua massa 
do povo, tudo quanto se conta acerca do 
mau olhado, ficará de certo estupefacto 
perante a immensidade de casos, muitos 



(*) Dizer uma oração em cruz, consiste em pro- 
ferir essa oração ao mesmo tempo que se pra- 
tica o signal da cruz. 



182 



A TRADIÇÃO 



dos quaes são em verdade bem extra- 
vagantes. Assim, narremos um pequeno 
facto, que não deixa de ser pittoresco e 
até picaresco. 

Numa noite d" inverno, em volta duma 
confortável e poética lareira alemtejana, 
achavam-se sentadas varias pessoas, cn- 
tretendo-se a conversar. Por cima do 
lume, dentro da chaminé, existia urn 
pau de hellos chouriços, que estavam ali 
a defumar-se, conforme o costume do 
Alemtejo. Um dos circumst antes, ao que 
parece, pouco distrahido com a palestra, 
entendeu que devia fitar os alludidos 
chouriços, mirando-os e remirando-os 
minuciosamente. Mais tarde, depois dessa 
pessoa se haver retirado, assistiuse ao 
curioso espectáculo de ver cahir, um a 
um, todos os chouriços que se achavam 
dependurados. Tão extranho fenómeno, 
não podia explicar-se, segundo a inter- 
pretação da lenda, senão por effcito de 
um mau olhado, que necessariamente 
emanara da pessoa supramencionada. 
E casos como este, encontram os leito- 
res quantos queiram, deide que se dis- 
ponham a procurá-los no vastíssimo cam- 
po da tradição. 



A crença ou, para melhor dizer, su- 
perstição, que ao de leve ahi deixamos 
esboçada, apesar de ter a sua origem em 
remotas eras, ainda hoje s'encontra mui- 
to espalhada entre as camadas popula- 
res. Resulta naturalmente d'aqui, ser a 
benzedeira assaz procurada, pois qu^ a 
ella costumam recorrer todos aquelles 
que se julgam victimas do mau olhado. 



Benzedura contra o quebranto 

A benzedeira sustenta na mão direita 
um rosário, e acenando para o rosto do 
enfermo com a cruz do mesmo rosário, 
vai fazendo cruzes, ao mesmo tempo 
que profere a seguinte oração : 

— «Em nome de Deus e da Virgem 
Maria, a mão de Deus vá adiante, que a 
minha não tem valia. José! íse é este o 



nome no doente) Deus te fez e Deus te 
creou. Perdoe Deus áquelle que mal te 
olhou. Se é da cabeça, S. João Baptista; 
se é dos olhos, santa Luzia ; se é do 
pescoço, Senhor do Horto ; se é dos 
dentes, Santa Apolónia; se é dos bra- 
ços. Senhor S. Marcos ; se é da barri- 
ga, Santa Margarida ; se é do estôma- 
go, Santo Ignacio ; se é das pernas. San- 
to Amaro ; se é dos pés, Santo André ; 
se é das costas, Senhora das Brotas; se 
é das guelas. Senhor S. Braz ; se é da 
cara. Senhora Santa Clara ; se é do pei- 
to. Senhor do Leito. Em louvor de Deus 
e da Virgem Maria: Padre Nosso e Ave 
Maria». (Reza-se um Padre Nosso e uma 
Ave Maria). 

Toda a reza precedente deve ser pro- 
ferida durante nove dias, e cm cada dia 
nove vezes. No fim de cada sessão, of- 
ferece-se a mesma reza á Sagrada Mor- 
te e Paixão de Nosso Senhor Jesus 
Christo e aos Santos e Santas que en- 
tram na benzedura, «para que sejam ser- 
vidos de tirar aquelle mau olhado». 

Serpa. 

Ladislau piçarra. 



LENDAS & ROMANCES 



(Recolhidos da tradição oral na provinda do (Vllemtejo) 



VI 
BeiTial Franeez 

Era meia noite em ponto, 
A uma porta batiam. 

— Se é Bernardo Francez, 
A porta lhe vou abrir ; 

Se é algum dos seus criados, 
Todos já se podem ir. 

— Sou eu, sim, minha senhora, 
A porta me queira :ibrir — . 

O' descer da sua cama 
Lhe cahíra o ananguil, 
O' abrir da sua porta 
Se apagara o candeil. 
Pegara-lhe pela mão 
E o levara ao seu jardim, 
E mui bem o lavara 
Em agua de alecrim. 
Para a sua cama o levara 
E o deitara a par de si. 

— Que tendes, Bernardo Francez, 
Que tanto pensas em ti. 



A TRADIÇÃO 



183 



Que meia hora é passada 

E sem te virares para mim ? 

Se tens medo aos mouros, 

Elles não te combatem aqui ; 

Se tens medo aos meus irmãos, 

Elles não estão por aqui ; 

Se tens medo ao meu marido, 

Elle longe está de ti ; 

Mil facadas o matem, 

Miís novas me tragam d'elle, 

E boas m'as tragam de ti. 

— Eu não tenho medo aos mouros, 
Que elles longe estão de mim, 
Nem tenho medo a teus irmãos, 
Que cunhados são de mim, 

Nem tão pouco a teu marido 
Que o tens a par de ti. 
— Ai I desgraçada de mim, 
Foi um sonho que sonhei. 
Que tinha meu amor nos braços, 
Sem saber que o tinha aqui. 

— Socega. que indn é de noite, 
Deixa vir a manhã sim, 
Vestir.-ís saia de niiilha. 
Roupinha de carmelim. 

— Peco-te que me enterres 
No adro de S. Chrispim. 

— Onde vaes, Bernardo Francez, 
Tão pensativo em ti ? 

— Vou vêr a minha dama, 
Que ha dias que a não vi. 

— A tua dama já é morta, 
E morta foi por mim ; 

As facadas que dei n'ella 
Quem m'as dera dar em ti ! 

— Eu hei de ir áquelle outeiro, 
Aonde costumava a ir, 
Tanto lhe hei de bradar, 

Que ella me ha de accudir. 

— Adeus, Bernardo Francez, 
Vive tu, que eu já vivi : 
Olhos com que te olhava. 

Já de teria os cobri ; 
Bocca com que te beijava, 
Jà não tem sabor em si ; 
Braços com que te abraçava, 
Já não tem vigor em si. 
Se chegares a ter filhas, 
Ensina-as melhor que a mim, 
P'ra que se não percam mulheres. 
Como eu me perdi por ti. 

VII 
Bernal Fi^ancez 

(Varante do romance anterior) 

— Quem bate á minha porta. 
Quem bate quem está ahi ? 

— E' Bernaldo Francez, 
Sua porta venha abrir — . 
Ao abrir da minha porta 



Se apagou o meu candil ; 
Ella me pegou na mão, 
Me levou ao seu jardim, 
E l:i me lavou os pés 
Em agua de alecrim ; 
l,evou-me para o seu quarto, 
Me deitou ao pé de si. 
— Que tens Bernaldo Francez, 
Que te disseram de mim !* 
Que é meia-noite dada 
Sem te virares para mim; 
Se tu tens medo dos mouros 
Elles não vêem aqui ; 
Se tens medo da justiça, 
Ella não virá aqui ; 
Se receias meus irmãos, 
Tam pouco virão aqui ; 
Se receias meu mando. 
Más novas me tragam d'elle. 
Más novas venham a mi. 

— Não receio á justiça. 
Porque nunca a temi ; 
Não temo a teus irmãos, 
Que cunhados são de mi ; 
Nem receio a teu marido. 
Porque o tens agora aqui. 

— Ora bem que isso assim fora. 
Que te q'ria mais que a mim! 

— Não me enganas já, tyranna, 
Não me enganas tu a mi. 
Deixa vir a manhãsinha 

Que eu te darei que vestir, 
Darei-te saia de lan. 
Roupinha de carmezi, 
Gargantilha encarnada, 
Porque a quizeste assi. 
Brada por tuas damas, 
P'ra que te venham vestir ; 
Brada por Bernal Francez, 
PVa que te venha acudir. 

VIII 

Bella Inílanta 

Estando D. Adriana 
No seu jardim assentada, 
Deitou os olhos ao largo 
E viu vir 'ma grande armada. 
Cavalleiro que vem n'ella 
Traz 'ma estrella bem guiada. 
Palavras não eram dadas, 
O cavalleiro que chegava : 

— Bons dias, minha Senhora, 
Dè-me, dè-me um copo d'agua. 

— Dá-me noticia, Senhor, 
Do patrão d'esta casa? 

— Diga-me, minha Senhora. 
Os signaes que elle levava. 

— Levava cavallo branco, 
A sélla sobredoirada, 

Na ponta da sua lança 



184 



A TRADIÇÃO 



Um Christo de oiro levava. 

— Debaixo da Ivrio roxo 
Sete facadas levava. 

— Ai de mim, triste viuva, 
Ai de mim, tão desgraçada ! 
Já me vou por esse mundo 
Triste viuva malfadada ! 

— O que dareis vos. Senhora, 
A quem vo-lo traga aqui ? 

— De três moinhos que tenho 
Te darei o mais gentil ; 

Um móe cravo, outro canela, 
Para o rei e mais para mim. 

— Vossos moinhos, Senhora, 
Não me são dados a mim, 
Eu sou capitão da armada, 
Amanhã marcho d'aqui. 

— Das três Hlhas que tenho 
Uma te darei a ti. 

— As vossas filhas. Senhora, 
Não me são dadas a mim. 
Eu sou capitão da armada, 
Amanhã marcho d'aqui. 

— Não tenho mais que vos dar. 
Nem vos mais que me pedir. 

— Tendes sim, minha Senhora, 
O vosso corpo gentil. 

— Cavalleiro que tal pede. 
Que tal ousa pedir, 
Precisava posto fora 

Do meu formoso jardim. 
Andem, andem, meus criados, 
Venham buscal-o aqui 1 

— Alto, alto, ó criados. 
Que criados sois de mim, 
Palácios e carruagens 
Todos me pertencem, sim. 

Que é do nosso annel de núpcias, 
Que á meia noite te dei, 
Ao entrarmos na egreja 
Acompanhados de el-rei ? 

— Se tu eras meu marido 
P'ra que me fazias sotfrer ? 

— Porque ao longe tinha ouvido 
Que te deixaste vencer 

Por um moço fidalguinho 
Que a corte te vinha fnzer, 
E te vestiras de encarnado 
Por eu 'star quasi a morrer. 

— Oh que vozes tão infames ! 
Oh que fama sem proveito ! 
Não devias duvidar 

Do sentir d'este meu peito. 

— Perdoa-me, esposa mmha, 
Se te estava expVimentando, 
Pois é coisa bem cruel 
Viver no mundo enganado. 

— Perdóo-te, esposo meu. 
De todo o meu coração. 
Deus livre as minhas filhas 
Dos enganos da traição. 



(Elvas). 



A. Thomaz PIRES. 



As feslas do SacranKiiiln em Beja 



(Conclusão) 



Tomam parte na procissão, além de 
todas as irmandades, anjos ricamente 
vestidos, uma força de capitão, todas as 
auctoridades, diversas pessoas das mais 
gradas da terra e todas as philarmonicas 
expressamente convidadas para abrilhan- 
tar os festejos. 

Esta procissão é o verdadeiro c/oz/ das 
festas, e a ella ninguém deixa d'assistir, 
tanto da cidade como dos arredores. 

E' digno d'observar-se, nas ruas por 
onde passa o solemne cortejo, o bello 
effeito que produzem milhares de pes- 
soas, na sua quasi totalidade pertencen- 
tes ao madamismo, debruçadas das janel- 
las, de muitas das quaes pendem riquís- 
simas colchas de seda. 

N'esse mesmo dia, ás nove horas da 
noite, tem logar a procissão da posse^ 
que é a parte mais original de toda a 
festa. N'esta procissão tomam parte os 
reitores de todas as freguezias acompa- 
nhados da respectiva cruz de prata, a 
qual é conduzida por um homem esco- 
lhido ãd hoc^ vigoroso e de pulso rijo, ca- 
paz d'entrar tnumphante e com perfeita 
galhardia na egreja da freguezia, onde 
se vae dar a posse da festa do anno se- 
guinte. 

A' entrada da egreja trava se uma lu- 
cta ardente, conforme d'aqui a pouco re- 
fci"iremos. 

A procissão da posse, constituída, 
além dos mencionados reitores, pela ir- 
mandade da festa, sai da própria egreja 
da festa e, acompanhada da competente 
philarmonica, caminha com as suas cru- 
zes de prata e o andor de S. Sizinando 
á frente. Nas ruas do trajecto, aos la 
dos, acham-se collocadas bastas giran- 
dolas de foguetes, que vão ardendo á 
medida que passa o cortejo. No adro da 
egreja da posse, são as girandolas ainda 
em maior numero, e representam verda- 
deiros baluartes de fogo. 



A TUAUIÇAO 



185 




186 



A TRADIÇÃO 



E' interessante ver esse préstito mar- 
char impávido, por entre o esfusiar dos 
foguetes e o estalar das bombas. Os vi- 
vas e morras atroadores, levantados ás 
irmandades das ditTerentes freguezias, 
repetem-se constantemente, no meio de 
uma gritaria infernal. 

As mesmas freguezias são n'esta oc- 
casião designadas pelos nomes tradicio- 
naes e jocosos de cjt\ia^ tripa, escama e 
pelados, correspondendo estas designa- 
ções, por sua ordem, ás freguezias de 
S. João, S. Thiago, Santa Maria e Sal- 
vador. 

A applicação dos três primeiros ter- 
mos ás freguezias citadas, deriva, segun- 
do a tradição popular, dos antigos m.o- 
radores dessas freguezias exercerem res- 
pectivamente a profissão de cardadores 
de lã, vendedores de carnes verdes e 
vendedores de peixe. A designação de 
pelados resulta, como é obvio, de predo- 
minar a calvicie, entre os habitantes da 
freguezia do Salvador. 

Mas, continuando a descripção de tão 
singular cortejo, convém notar que a vo- 
zearia vai crescendo á proporção que a 
procissão se aproxima do seu termo. O 
andamento e a gravidade, próprios das 
procissões religiosas, faltam aqui por 
completo. Em certos momentos, rompe 
o préstito até n'uma carreira de tal mo- 
do desabrida, que já tem acontecido 
chegar a imagem de S. Sizinando, que é 
de pequenas dimensões, á egreja, com o 
rosto voltado para traz. O que não é 
muito para admirar, se nos lembrarmos 
que a cabeça da referida imagem, por mal 
segura, gira facilmente em torno do seu 
eixo. 

Ao terminar da procissão, cada cruci- 
ferario procura introduzir no templo a 
sua cruz, primeiro que os outros, esta- 
belecendo-se por isso n'esse momento 
uma tal confusão e violência, que não é 
raro ficarem as cruzes partidas. Em se- 
guida canta-se um Te-'T)eitm^ a grande 
instrumental, findo o qual sobem ao ar 
as ultimas girandolas de foguetes. 

A maior parte da população da cida- 



de, contenta-se em ver simplesmente 
a chuva de fogo multicor, proveniente 
de milhares de foguetes de lagrimas. 
Durante meia hora, pelo menos, man- 
teem-se os espectadores a contemplar, 
embevecidos, aquella luminosa e iriada 
chuva, destacando-se no fundo negro da 
noite. 

Depois d'esta manifestação, nada mais 
existe digno de menção, a não ser as 
luminárias, que os irmãos da festa e os 
da posse collocam ás suas janellas, e a 
illuminação resplandecendo na fachada 
da egreja da posse. 

Na 2.* feira immediata ainda se reali- 
sa uma outra procissão, formada unica- 
mente pela irmandade da posse, e que 
tem por fim levar a cada preso a esmo- 
la de Soo reis. N'este dia, a philarmoni- 
ca contratada pela irmandade da posse, 
vai visitar todos os membros que com- 
põem a mesma irmandade, tocando-lhes 
á porta, por algum tempo. Cada musico 
recebe n'essa occasião a gratificação ha- 
bitual de 5oo reis. Esta prática tem 
igualmente logar nos dias de sabbado e 
domingo anteriores, mas a irmandade que 
figura então, é a da festa e não a da 
posse. 

E assim termina a bem conhecida e 
tradicional festa do Sacramento, em Be- 
ja, festa essencialmente religiosa e cari- 
tativa, da qual procurámos dar aos lei- 
tores da «Tradição» uma ideia aproxi- 
mada, embora muito summaria. 

Alves TAVARES. 



RIMAS POPULARES 



Eram três horas da tarde : 
Quando andava passeando 
Ouvi uma voz a dizer 
Que me fosse approximando. 
Eu por mim fui-me chegando 
Aond'essa voz me bradava ; 
Cheguei a uma porta da entrada, 
Dei-lhe só uma pancadinha: 
Appareceu-me uma florzinha, 
Que de mim se namorava. 



A TRADIÇÃO 



187 



— A primeira vez que o vi 
Quando andava passeando, 
Do senhor fiquei ^os^alldo ; 
Por isso é que lhe bradei. 

— Essa sim I é bem lembrada ! 
Senhora, de mim pretende? 
I*"ique certa para sempre 

Que ha de S';r a minha amada — . 
Como liça vonsolada 
Cuidando que isto é assim ! 
Pelo menos sempre usei 
Com todas boas palavras ; 
A todas trago enganadas, 
A tudas digo que sim. 

— O senhor já est;i dizendo 
Que eu mesmo me otVereci . . . 
Eu sempre suppuz assmi, 
Que o não tazia por menos ! 
Alraz do senhor vem outro. 
Dinheiro tenho dez contos. 
Fora este estabelecimento. 
Vè que tenho valimento. 
Você, se não é parvo é louco. 

— Inda que tenha dinheiro, 
Tenha tudo o que tiver, 
Nunca passa de mulher, 
Namorada d'um estrangeiro. 
Da rtór só se goza o cheiro : 
Foi o mesmo que eu gozei. 
A senhora disse a mim 
P'ra que fosse seu amor: 
Isso lá, será o que lôr. . . 
Eu nunca me retratei. 

— Já vou para meu palácio. 
Minha vida a governar; 
Não pretendo de cazar 

Com \im senhor que me é falso. 
Pode seguir os seus passos 
Onde tenha acceitaçáo, 
Porque d'esta hora em diante 
Sempre lhe direi que não. 

— Venha cá, fnça tavor 
De me dar uma palavra. 
Juro lhe na liora sagiada 
Que não sabe o meu interior: 
Serei sempre o seu amor 

Da mais mimosa feição. 
F>u já d'ouira não pretendo. 
Aqui tem a minha mão. 

— Já nos temos carteado, 
Fm tudo estamos eguaes. 
Vá-me pedir a meus pães 
Para ticar descançado. 
Quando á porta Íòp chegado. 
Eu lhe farei algum signal; 
Peça-me um copo d'agua 

E eu o convido para entrar. 



— Dirigi-me a sua casa. 
Sua filha venho pedir 
Para ser a minha espoza. 



bis 



Juro-lhe n'uma hora boa, 
Que em tudo será ditosa 
Egual á sua pessoa. 

— O senhor que vem aqui 
A' minha filha rogar se, 
'Inda mesmo não gostasse, 
Sempre lhe dizia que sim. 
O senhor ma pediu a mim 
N'uma tão boa amizade. . . 
Eu não acho desegualdade, 
Se ella de si pretender. 

Eu não desmancho vontades. 

— Oh ! meu pae, lhe vou dizer 
Que este sennor é meu espozo ! 
Por ser bonito e formoso, 

De mim está a pretender. 
Por tantas fazendas ter, 
l^ossuir tanto dinheiro. 
Ser tão firme e verdadeiro 
Que ainda me não ofFendeu, 
Lh'otfereço tudo que é meu. 
Por ser meu amor primeiro ! 

— Mmha senhora, eu agradeço, 
Esse seu ofíerecimento. 

De seu pae casa a contento : 
E' porque bem a mereço ! 
Para seu esposo me ofíVeço 
Já, d'esta hora por diante ; 
Darei parte á minha gente, 
Que me venha acompanhar, 
Que a minha mão lhe vou dar, 
Fica ligada p'ra sempre. 



(Da tradição oral). 
(Serpa.) 



Joio VARELLA. 



CKENÇAS & SUPERSTIÇÕES 

Penitencias nocturnas 

No concelho da Vidigueira, principal- 
mente nas aldeias de Selmes e Alçaria, 
existe uma curiosa superstição, originada 
naturalmente no arrependimento de se 
haver praticado algum acto menos con- 
veniente, ou criminoso. Eis em que con- 
siste a referida superstição : 

Juntnm-se três ou quatro mulheres em 
casa d'um adiriíihão ou inrtiioso, a quem 
as ditas-mulhercs confiam o segredo das 
suas faltas. 

O astuto confessor, depois de as ouvir 
attentamente, prescreve-lhes a seguinte 
penalidade, que ellas cumprem religiosa- 



188 



A TRADIÇÃO 



mente: Em as noites tempestuosas d'in- 
verno, é preciso que cada uma das pe- 
nitentes vá ás extremidades da povoação, 
correspondentes aos quatros pontos car- 
deaes, escolhendo de preferencia algu- 
ma esquina mais afastada e escusa, e ali 
reze um Padre-Nosso e uma Ave-Maria 
pelo eterno descanço das almas. No rim 
desta pratica devem as mulheres reunir- 
se de novo, mas á porta do cemitério, 
para ahi fazerem as suas rezas. O que 
ellas effectivamente executam no meio 
de lamentações em voz alta. 

Nesta occasião, se do interior do ce- 
mitério lhes respondem: «ide-vos, que a 
vossa penitencia está cumprida», as pe- 
nitentes retiram-se logo para suas ca- 
sas, tendo o cuidado de não olharem 
para traz, porque se olharem, caem no 
chão fulminadas por um profundo terror. 
Mas, se após as rezas e lamentações a 
tal voz mysteriosa não responde, teem 
as penitencias nocturnas de repetir-.se, 
até ouvirem-se as sacramentaes palavras 
acima citadas. Estas palavras, segundo 
affirmam varias pessoas que julgo bem 
informadas, são proferidas pelo próprio 
adivinho, que occultamente se introduz 
no cemitério para também tomar parte 
na interessante scena, que acabamos de 
expor. 

FAZENDA Júnior. 



CONTOS ALGARVIOS 
III 

Os três cãe3 



Havia um rei e uma rainha, que não 
tinham filhos e por cuja razão não viviam 
felizes. Em uma noite que a rainha no 
seu oratório pedia a Deus um filho, ou- 
viu uma voz : 

— Has de ter um filho, que será de- 
vorado por uma serpente, quando elle 
tiver vinte annos. 

Foi a rainha contar ao rei o que ouvira, 
e o rei respondeu: — paciência! 



Passados nove mezes a rainha deu á 
luz um principe e desde a primeira hora 
do seu nascimento o consagrou á Vir- 
gem. 

Quando o principe chegou aos deze- 
nove annos começou a notar que o rei e 
a rainha andavam constantemente tristes 
e por vezes os encontrava a chorar. Tanto 
inquiriu que chegou a saber de sua mãe 
o motivo das suas lagrimas. 

Para não presenciar os desgostos de 
seus pães e evitar-lhes o grande desgosto 
da sua morte, conseguiu, a muito custo, 
licença de ir correr mundo. Quando, pró- 
ximo dos vinte annos, atravessava uma 
campina encontrou uma velhinha: 
-Para onde vai, meu menino? 

O principe simpathisou tanto com a 
velhinha que lhe contou a sua historia. 

— Bem sabia a tua historia. Uma fada 
má quer vingar-se de teu pai. Essa fada 
no dia em que fizeres vinte annos e du- 
rante mais nove dias ha de empregar to- 
dos os meios de acabar com tua vida. 

— E eu não poderei matar essa má 
mulher? 

— Não. Mais adiante e em diversos lo- 
gares encontrarás três cães, que te acom- 
panharão sempre. Pára onde elles para- 
rem, e não faças senão o que elles qui- 
zerem. Por maiores que te pareçam as 
tropelias que elles façam não te oppo- 
nhas. Elles são os teus guias. 

O principe pediu a benção á velhinha 
e continuou o seu caminho. Lá adiante 
encontrou um cão muito gordo, ao qual 
poz o nome de Pe\ão^ mais adiante en- 
controu outro, grande corredor, que foi 
batisado com o nome de Ligeiro^ e logo 
mais adiante outro, a que poz o nome de 
(yldivinhão. 

Seguido dos três cães entrou o principe 
numa estrada muito arborisada em dia de 
grande calor e de nftuita tristeza para elle : 
fazia n'esse dia vinte annos. 

No meio da estrada encontrou o prin- 
cipe uma formosa menina, que o convi- 
dou a descansar á sombra de uma arvore. 
Os três cães pararam e o principe accei- 
tou o convite. Dois cães pozeram-se a 



A TRADIÇÃO 



189 



brincar, o T*e:;ão foi deitar-se sob uma 
arvore próxima d'aquella a cuja sombra 
o príncipe e a joven se acolheram. O 
principe reclinou a cabeça sobre o collo 
da joven, que se sentara, e deixou se 
adormecer. Quando o príncipe acordou 
não viu a menina, mas viu o ildiviuhão 
e o Ligeiro deitados ao seu lado; o l^e- 
\ão conservou- se deitado sob a arvore 
próxima. 

Montou-se o príncipe no seu cavallo e 
logo os três cães o seguiram. Foram dar 
a uma estalagem. A estalajadeira era bo- 
nita, e tinha uma filha ainda mais bonita. 
Logo que o príncipe viu esta, conheceu 
ser a mesma que encontrara na estrada, 
mas fingiu não a conhecer. 

A estalajadeira quiz oppor-se á entra- 
da dos cães na estalagem, mas o prínci- 
pe declarou lhe que os seus cães o acom- 
panhavam de dia e de noite e comiam 
com ellc á meza. 

A estalajadeira calousc. * 

Nessa noite dormiu o principe no seu 
quarto, acompanhado dos seus cães : o 
Pe^ão foi deitarse sobre um bahú; o 
didivinhão e o Ligeiro ao lado do seu 
dono. 

No dia seguinte dizia a estalajadeira 
para a filha : 

— Passei a noite muito incommodada. 
Estive mettida no bahú, no quarto do 
principe, e não me foi possível sair d'ali, 
porque o Pe-ão tem o pezo do mundo. 
Já na estrada, não sei porque, elle se 
deitara sob a arvore, mesmo em cima da 
tampa que eu tinha de erguer para ac- 
cometter o principe, deitado no teu collo. 

— E que tempo tem para matar o 
príncipe ? 

— Apenas nove dias. 

' — E qual o motivo do seu ódio contra 
um príncipe tão bello e novo? 

— Porque o pae doeste principe pro- 
metteu-me casamento e foi depois casar 
com a minha rival. Hei-de matar o filho 
não obstante os três cães. 

D'ahi a pouco ergueu-se o príncipe da 
cama e a estalajadeira dísse-lhe que o 
cavallo estava sem beber por que os cria- 



dos não se atreviam a aproximar-se-!he 
por ser muito respingão. 

O principe desceu á cavallariça acom- 
panhado dos três cães; o Q/Liiritihão 
aproxímou-se do Pe^ão e poz-se a chei- 
ral-o; logo este foi deitar-se a um canto 
da cavallariça. 

O principe deu agua e feno ao cavallo 
e subiu á estalagem acompanhado dos 
cães. 

A estalajadeira estava fula : pretendia 
atacar o príncipe na cavallariça, mas o 
Te:{ão deitára-se sobre a tampa do alça- 
pão, que ella não poderá erguer. Dirigiu- 
se á filha e disse: 

— E necessário envenenar o príncipe; 
de outro modo não lhe dou fim. Envene- 
na-lhe a comida. 

As horas da comida sentou-se o prín- 
cipe á meza, e logo os três cães saltaram 
sobre a meza e partiram, os pratos, que 
continham o jantar. A criada fugiu com 
medo dos cães, e a estalajadeira poz-se 
a ralhar com o principe. 

— Os meus cães são muito dóceis, e 
elles que inuiílísaram a comida, alguma 
razão tiveram. 

Nesta occasião entrou um cão de certo 
forasteiro, pozse a lamber os restos da 
comida espalhados pelo chão, e logo 
morreu envenenado. Então foi que o prín- 
cipe conheceu que a comida estava en- 
venenada. Calou-se e fingiu não perceber. 

Nessa tarde saiu a estalajadeira e o 
príncipe disse á filha: 

— Tua mãe, por qualquer motivo, quer 
matar-me. V^ejo-me obrigado a matal-a. 

— Minha mãe não morre : é como fada 
quasí ímmortal. 

— Todos morrem. Não sabes de onde 
depende a morte de tua mãe ? 

— Não sei, e se soubesse não o diria. 

— Tenho a minha vida em perigo, e 
eu queria viver e casar comtigo. 

— Teu pae prometteu o mesmo a mi- 
nha mãe e faltou. 

— Eu não te faltarei porque te fico 
devendo a minha vida. 

A filha da estalajadeira pensou por al- 
gum tempo e respondeu: 



190 



A TRADIÇÃO 



— Eu tentarei saber de onde depende 
a morte de minha mãe. 

Logo que a estalajadeira chegou, foi a 
filha dizer-lhe que o príncipe a queria 
matar. 

A estalajadeira riu-se e respondeu: 

— Não tenhas medo: elle não conhece 
a causa de que a minha morte depende. 

— E eu não o poderei saber? 

— Podes. A minha morte depende da 
morte de uma bicha, que existe num ovo 
de uma pomba, que está escondido no ar- 
mário do nosso quarto escuro. Para ma- 
tar a bicha tem de ser corta ao meio num 
so golpe. 

— Aonde foi minha mãe esta tarde? 

— Fui invocar o auxilio de duas grandes 
fadas para conseguir a morte do príncipe 
e dos três cães. 

Logo que a estalajadeira se ausentou 
foi a filha informar o príncipe. Este, acom- 
panhado da rapariga e dos três cães, en- 
trou no quarto escuro e matou a pomba. 
Dentro da pomba havia um ovo, que ca- 
hiu no chão. Do ovo sahiu uma bicha 
enorme, mas o Pe^ão carregou sobre a 
bicha e o príncipe a cortou ao meio com 
a sua espada. Ouviu-se então um grito 
longínquo: era a estalajadeira que mor- 
ria. 

Os três cães desappareceram e não 
mais foram vistos; eram três anjos. 

O príncipe então dirigiu-se para o pa- 
lácio de seu pae, levando na sua com- 
panhia a filha da estalajadeira. O palácio 
estava vestido de lucto; suppunha-se que 
o príncipe tivesse morrido. A' entrada do 
palácio encontrou o príncipe a velhinha 
que tinha encontrado na campina. 

A velhinha beijou o príncipe e desappa- 
receu. 

O rei e a rainha abraçaram e beijaram 
o filho e deram o seu consentimento no 
casamento, logo que o príncipe lhes con- 
tou a sua historia. Houve grandes festas 
em todo o reino. 

Fui lá e não me deram nada. 



CONTOS POPULARES ALEMTEJANOS 

X 

Três gallegos querendo falar à politica (*) 



(Loulé.) 



Athaidb d'OLIVEIRA. 



Era duma vez três gallegos, que re- 
solveram vir ao Alemtejo, para aprender 
a falar á politica. No dia combinado, 
marcharam os homens. Encontrando uma 
cidade e passando perto d'um jardim, 
viram nesse jardim três indivíduos de 
chapéu pinante (chapéu alto) a passear. 
Diz logo um dos gallegos: «C rapazjes, 
nós bâmos comesçar já por aqui: porque 
no Alemtejo sção poucos osquesçabem, 
mas os que sçabem... sçabem como 
aquelles que sçabem! E estes débem 
sçaber. Pois bóscês não bêem como el- 
les andam bestidos?!» 

Os outros dois gallegos concordaram, 
e o que teve a lembrança entrou logo 
para o jardim e foi esconder-se detraz 
do taróco (tronco) duma arvore, á espera 
que os taes três indivíduos passassem, a 
ver se lhes ouvia dizer alguma coisa. Ef- 
fectivamente, quando os indivíduos pas- 
saram ao pé daquella arvore, disse um 
delles: «Nós todos três». O gallego, as- 
sim que ouviu estas palavras, não espe- 
rou por mais nada, marchou a correr 
para o logar onde estavam os compa- 
nheiros e disse-lhes,endíreítando-se todo: 

— «O' rapazjes, eu já scêi díszer uma 
coisja.» 

— «Einton o que é, camarada?» — per- 
guntaram-lhe os dois companheiros. 

— «Nós todos três» — respondeu elle. 
Como este gallego já sabia dizer uma 

coisa, foi um dos outros coUocar-se por 
traz da mesma arvore, e ouviu dizer a 
um dos mesmos indivíduos que anda- 
vam passeando no jardim: «Por três al- 
queires de sal». O gallego, ouvindo isto, 
partiu immediatamente para junto dos 
companheiros e disse-lhes: 



(*) Falar á politica, é uma expressão vulgar , 
que significa: falar correctamente. 



A TRADIÇÃO 



191 



— lEu também já scêi dizjcr uma 
coisja, é: Por trcs alqueires de sçal.t 

O terceiro gallego, então, querendo 
também aprender alguma coisa, foi pòr- 
se atraz da arvore; e, quando os taes in- 
divíduos por ali passaram, disse um del- 
les: «Tem razão, senhores!». O gallego, 
mal ouviu estas palavras, foi logo ter 
com os seus companheiros e disse-Ihes: 
«Eu já scéi muito mais que bóscês!» Os 
outros, muito admirados, perguntaram- 
Ihc porque? K elle respondeu-lhes: «Scéi 
muito mais que bóscés, porque já scci 
dizjer: Nós todos três, por três alqueires 
de sçal, tem rasjão, scenhores!» 

O primeiro gailego, que tinha ido es- 
cutar dentro do jardim, ouvindo isto, es- 
tava já resolvido a ir pôr-se no mesmo 
sitio, mas como nesta occasião saissem 
do jardim os três indivíduos, disse um 
dos outros gallegos: 

— «Bem. Nos aqui já nun fazjêmos 
nada, e por consceguinte. o melhor é ir- 
mos para oitra terra.» Os homens elTe- 
ctivamente marcharam, mas com tão 
pouca sorte que, na estrada por onde 
iam, estava um homem morto, e, ain- 
da para mais pouca sorte, chegaram ao 
pé delle quasi ao mesmo tempo que a 
justiça. Um dos da justiça mandou logo 
aos gallegos fazer alto e perguntou lhes: 

— «Vocês sabem quem era este ho- 
mem? e sabem quem o matou?» 

Ora, como na justiça vinham dois in- 
divíduos de chapéu pinanie, c os meus 
gallegos queriam mostrar que também 
sabiam falar á politica, disse logo um 
delles: 

— «Nós todos três». Continua o outro: 
aE por três alqueires de sçal». Accrescen- 
ta o terceiro: «Tem rasjão, scenhores!». 

E' claro que a justiça, em vista des- 
tas declarações, metteu-os a todos numa 
cadeia, e, ainda a esta hora, elles lá es- 
tarão amaldiçoando a hora em que se 
lhes metteu na cabeça o aprender a «fa- 
lar á politica». 

(Da tradição oral) 

Brinches 

António ALEXANDRINO. 



PKOWJiBIOS E DICTOS 



(Continuação) 

LXX 

— A como vendes os capachos? 

— Conforme parvos acho. 

LXXI 
Caroço d'Agosto, dá gosto. 

LXX II 

Pela manhã é oiro, ao meio-dia prata, 
e á noite mata (a laranja). 

LXXIII 
Pé de gallinha não mata pinto. 

1.XX1V 

Gallinha gorda a pastores... choca 
vae ellal 

LXXV 

Se é p'ra bem, que augmente; se é 
pVa mal, que arrebente! 

LXXVI 

Se d'esta vos espantaes, aguardae, que 
lá vae mais! 

LXXVII 

Maio, é o mez em que canta o cuco. 

LXXVIII 

Primeiro d'Agosto, primeiro d'inverno. 

LXXIX 

Rindojse vae Fevereiro, porque lhe juam 
(jejuam) no seu dia primeiro (véspera da 
Sr.* da Encarnação). 



192 



A TRADIÇÃO 



LXXX 

Quem compra e mente, na bolsa o 
sente. 

LXXXl 

Em o cuco não vindo entre Março e 
Abril, ou o cuco é morto ou a má fim 
quer vir. 

LXXXII 

Em Fevereiro, vae acima ao outeiro : 
se vires verdejar, põe-te a chorar; se vi- 
res terrear, põe-te a cantar. 

LXXXIII 

EUe a dar-lhe e a burra a pender. 
LXXXIV 

— Ai, que penas! 

— Quem faz pelas coisas, tem-n'as. 

LXXXV 

Trindades na aldeia é hora de ceia. 

LXXX VI 
Quem vae com Deus vae na tumba. 

LXXXVII 

O que se não faz em dia de Santa 
Maria, faz-se no outro dia. 

LXXX VIII 

O que se vê não precisa candeia. 

LXXXIX 

Pelo S. Pedro vae ao arvoredo : se 
vires uma, conta um cento. 

XC 

o que faz bem ao bofe faz mal ao fí- 
gado. 



XCI 

o mal e o bem á face vêm. 

XCII 
o boi solto, lambe-se todo. 

XCIII 

Meio-dia, barriga vasia ; panella ao 
lume, é o nosso costume. 

XCIV 

Manhã de névoa (em) recolhe-te á bal- ■ 
sa, — se não te recolheres a casa. 

xcv 

Não ha fome que não venha dar em 
fartura. 

XCVI 

Uns morrem com gafeira, outros com 
inveja d'ella. 

XCVII 

Hoje por mim, amanhã por ti. 

-' m r. xcviii 



Aguas passadas (com) não moem moi- 
nhos. 

XCIX 

Fevereiro afogou a mãe no ribeiro. 

C 

Quem dá o que tem, a pedir vem. 

Cl 

Quem dá o que tem, mostra o que de- 
seja. 

(Da tru.ição oral). 

(Serpa). 

G\3T0 R . 



A TRADIÇÃO 



/Â TT? 7\: 




Revista nner>sal <d'eth»riographiia portugLJOza, 

illustraciâ 



Directores: IiADISliAU PIÇARRA e IVI. DIAS NUNES 




"A XRADIQÃO, de Sorpa, paio 

ppogpamma qua sa Impoz a pala dlserata dillganola oom 
qua ppooupa dasampanhar assa ppogramma, pappaaanta 
o mau vap, o mais bailo axamplo patplotiao da aduaafko 
publioo axapclda pala imppansa.» 

Raroalhio Ortigão. 



* 



Segurjdo anrjo 
7900 



COLLABORADO POR: 

Alberto Rinneotel, filho (Dr.), Alfredo de F=>ratt, Alvares 

F=»ir»-co, Ar»tor»io Alexandrino, 

A. de IVIelio Sreyr»er, Arronches Junciueiro, 

Athtaide d'Oliveira (Dr.), 

Conde de F"icalho, Dias ISJunes, F^azenda Júnior, 

Gonçalves F>ereira, -íoão Varella (Dr.), 

L-adislau F>icparra (Dr.), D. IVTargarida de Sequeira, F»edro 

A. d'Azevedo, í^edro Covas, R., 

Sovjza Viterbo (ZI>r.), 

Thomas, Thomaz Feires, "Trindade Coelho, (Dr.) 



Collaboração arti.stica de M. Baptista Salta 

CoUaboração musical de F. Villas-Boas e G. Valladaa 
Clichés de A. de rvlelio Breyner, F. MontRiro, F. Vilias-Boas, 
J. Monteiro c J. V. Pessoa 



f 



LISBOA 
Typ. Adolp!->o d© [S/l©odor^<?a 

J.6. R. do Corpo Sanín, 4.S 

ICOO 



^11114» II 



SERPA. Janeiro de lC-00 



>'oliii 



II 



Editor-adminiilrador, Joie Jeronymo Ja Cotia Orjpo Je Stfireirot, Rua l^irsa, 3 « ^ — SKRPA 
lyp. de AJotpho de Mcnãonça & bujrle. Kua do Corpo Santo, 46 c 4S — LISBOA 




tumm 

Itevista iiinisal il hlliii()i{ra{iliiii Pi)rlii(|iii7.a, illiislraila 



Directores :-LA:)ISLãU PIt^AE:RA e M. DIAS IV::VA^ 



NOTAS HISTÓRICAS ACERCA DE SERPA ' 



Sp II. AlTonsfl lleiíríqiips \m a Serpa 110 aiiiin ilo 1 1 ili 



Y»ii^KRPA, Moura e os seus campos, 
•^^-^ em geral esta pequena parte 
do território portuguez, situada na 
margem esquerda do (juadiana, pa- 
rece tei" ficado sob o dominio perma- 
nente dos moiros durante quatro sé- 
culos e meio. Tomada sem duvida 
logo depois do anno de 711, quando 
o amir d'Africa, iMuça-ibn-Noceir, 
conquistada Sevilha, se dirigiu para 
estes nossos lados occidentaes e se 
apoderou de Mertola e de Beja', 
esta parte do território só voltou á 



• N'estas simples notas, escriptas expres- 
samente para a Tradição, não pode haver 
a mais leve ideia de esclarecer pontos obs- 
curos ou citar documentos e factos novos. 
Sendo tiradas de livros conhecidos, unica- 
mente tendem a grupar de uma maneira 
mais comprehensivel alguns acontecimentos 
sabidos, que se relacionam com a nossa ter- 
ra : e mais ou menos directamente com as 
origens do povo d'estas provincias do sul, 
com os seus hábitos e as suas tradições. 

- A occupação d'estas nossas terras teve 
logar entre os annos de 71 1 e 71.% e por Muça 
ou por seu tiiho Abd-al-Aziz. Digo occupa- 
ção e não conquista, porque as povoações 
godas se entregaram na maior parte por ca- 
pitulação e sem combate. 



posse dos christãos no de IHKJ, e 
ainda então provisoriamente. 

No decurso d'este longo periodo, 
alguns príncipes christãos, AlVonso o 
Casto, Aftbnso o Magno e outros, 
desceram varias vezes das regiões do 
norte em dilatadas correrias pelas 
terras de moiros ; mas sem nunca 
chegarem tanto ao sul. Noticias va- 
gas de conquistas christans n'estas 
partes meridionaes, que encontramos 
em escriptores relativamete recentes, 
não devem passar de simples phan- 
tasia. Ordonho de Leão, por exem- 
plo, em uma das mais profundas en- 
tradas que se fizeram, transpoz o 
Tejo superior e chegou ao Guadia- 
na; mas não veio alem de Merida, 
donde voltou aos seus estados, K é 
bem sabido, como muito depois o 
grande rei de Castella e Leão, Affbnso 
VI, conquistou Santarém, Lisboa e 
Cintra, e fixou por algum tempo as 
sujis fronteiras por este nosso lado 
Occidental no curso inferior do Tejo. 
Para o sul d'este rio, porem, tudo 
quanto hoje pertence a Portugal, as 
vastas planicies do Alemtejo, as ser- 
ras e littoral do Algarve, tudo ficou 
sendo terra de moiros, incontestada 
e quasi não inquietada. 

Assim o sentiam e diziam os es- 
criptores do tempo. A Chrmnca Go- 
thoriim^ dando conta da expedição 
de AlTonso Henriques no anno de 
ll3íJaté/l////c(Ouriquej,accrescenta: 



A TRADIÇÃO 



tunc cor terre Sat racenorum, que 
então era o coração, o centro, o âmago 
das terras dos sarracenos. Esta mesma 
expedição de Ourique não leve, nem 
podia ter de momento resultados ma- 
teriaes sensiveis. Sem discutirmos 
agora a importância da celebre ba- 
talha, tão acremente debatida em 
tempos modernos, é licito julgar que 
foi moralmente muito grande. A ex- 
pedição havia sido levada com uma 
rapidez fulminante e uma audácia 
inaudita até ao coração da terra dos 
moiros. Por um lado, dava aos ca- 
valleiros e homens darmas portu- 
guezes uma grande confiança em si 
e no seu chefe. Por outro, firmava 
entre os mussulmanos a reputação 
do terrivel filho do conde D. Hen- 
rique, aquelle Ibn-Errink, cujo nome 
os encheu depois de profundo terror. 
O effeito moral foi grande ; mas os 
resultados materiaes não podiam dei- 
xar de ser quasi nullos. 

A expedição não passava de uma 
correria por terras dos inimigos, como 
então christãos e moiros faziam pe- 
riodicamente, quasi annualmente. Os 
moiros chamavam-lhes algaras^ os 
portuguezes fossados ; e fossado cha- 
mou a esta o próprio D. Affonso Hen- 
riques em um documento official. * 
Dada a batalha, e mesmo brilhante- 
mente ganha como foi, o príncipe 
portuguez era obrigado a voltar aos 
seus estados e á sua corte de Coim- 
bra. Não tinha nos campos abertos 
do Alemteio um único apoio, que lhe 
permittisse fixar-se, ou mesmo de- 
morar-se. As povoações fortificadas 
dos moiros, Mertola, Beja, Évora, a 
celebre Alcácer, ficavam intactas e 
ameaçavam-no de todos os lados. Vol- 
tou, pois, deixando as coisas no es- 
tado em que antes estavam. As ter- 
ras de alem Guadiana nem foram in- 
quietadas : apenas das populações 
mussulmanas de Serpa e Moura, os 
alcaides com a gente armada dos seus 



* Citado por Viterbo, Elucidário, I, 478 
e II, 74. 



districtos viriam encorporar-se nas fi- 
leiras do Islam, derrotadas na bata- 
lha. Por algum tempo ainda os cam- 
pos do Alemtejo ficaram sendo o co- 
ração das terras dos sarracenos, so- 
mente um coração já ferido. 

Poucos annos depois, no de 1145, 
D. Atfonso Henriques, segundo st diz, 
voltou ás proximidades de Serpa ; e 
d'esta vez em circumstancias singu- 
lares — a pedido e como alliado de 
um chefe mussulmano. 

Ahmed-ibn-Cassi \ nascido em uma 
aldeia dos campos de Silves, perten- 
cia, dizem, a uma família de antiga 
origem chistan ; mas tornada inteira- 
mente moira pela religião e pela adop- 
tada nacionalidade.' Meio sectário re- 
ligioso, meio agitador politico, como 
é frequente encontrar entre islamitas, 
conseguio obter uma importância con- 
siderável n'este canto sud-occidental 
da Hespanha mussulmana. Revoltou- 
se contra o poder central dos Almo- 
ravides, e apoderou-se por surpreza 
do Castello de Mertola, considerado 
então um dos pontos mais importan- 
tes e bem fortificados d'esta nossa 
região. Senhor de Mertola, e augmen- 



1 Adopto a forma, dada por Slane na sua 
versão de Ibn-Khaldum. D. José Conde es- 
creve este nome Aben Cosai ; e Alexandre 
Herculano, seguindo 13. Pascoal de Gayan- 
gos, Ibn Kasi. Conheço as regras de trans- 
cripção portugueza, propostas pelo sr. David 
Lopes ( Textos de Aljanúa portuguesa, p. 
XVIII) : mas essas regras, de íacil applicação 
para quem lida com os textos em caracte- 
res arábicos, são impraticáveis para quem, 
como eu, tem de se contentar com tradu- 
cçÕes. Não sendo infelizmente arabista tenho 
de me servir das formas que encontro, pre- 
ferindo naturalmente as que me inspiram 
mais confiança. 

2 A origem christan da familia de Ibn-Cassi 
é atlirmada pelos escriptores árabes, apon- 
tados por Gayangos, The hist. of the Mah. 
Dyn. of Spain^ II, 5 18; e pelo Snr. F. Co- 
dera, Decad. y desap. de los Almoravides^ 
livro que não consultei, e de que devo a in- 
dicação ao Snr. David Lopes. — Sendo exa- 
cta a noticia confirmaria a phrase de Con- 
de, que serve de fundamento a toda esta 
nota, pois explicaria melhor o facto de aquel- 
le moiro ter procurado o auxilio de um rei 
chistão. 



A 1 RADIÇAO 




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GjlLERP DE TYPOS POPIÍL^IRES 












Camponezã em trajo de gala (Serpa) 




^mx^ 



-t^n^ 






«fiv; 



A TRADIÇÃO 



tando o numero dos seus partidários, 
estendeu o seu domínio a todo o Al- 
garve ' ; e, no anno de 1144, pas- 
sou o Guadiana, foi tomar Huclba e 
Niebla, e chegou ás portas de Sevilha. 

Embora no anno seguinte elle ja 
tivesse sotírido alguns revezes, os seus 
dominios, se domínios se lhe podem 
chamar, ainda deviam ser grandes. 
Tendo como centro Mertola, deve- 
riam estender-se ás duas margens do 
Guadiana, tanto para baixo, como 
para cima d"aquelle castello. Na mar- 
gem direita obedecia-lhe o Algarve 
oriental, porque a parte occidental 
seguio o governador de Silves, que 
antes fora sua creatura e agora se 
rebellara contra elle ; e obedecia-lhe 
uma parte do Alemtejo, na qual, no 
emtanto, se não incluia Beja. Na mar- 
gem esquerda governava em uma fa- 
xa mais ou menos larga da actual 
província hespanhola de Huelba, 
desde o mar ao longo do Guadiana 
até ao Chança — e que então seria 
pouco menos de um deserto^ e, pa- 
ra cima do Chança, nas terras de 
Serpa e Moura até talvez ao Ar- 
dilla. 

Claríssimo está, que não pretende- 
mos marcar os limites dos dominios 
de Ibn-Cassi ; nem para isso temos 
elementos, nem realmente existiam 
taes limites. Afora uma ou outra po- 
voação fortificada, e deviam ser raras, 
tudo o mais era vago, Huctuante, va- 
riando mez a mez, ou dia a dia, á 
mercê de repetidas correrias e alga- 
ras. Quanto a Serpa, é necessário 
dizer, que não possuímos uma única 
prova de que lhe pertencesse ; c sim- 
plesmente este facto nos parece na- 
tural. Ahmed-ibn-Cassi era um chefe 
de bastante importância para que da 
Africa o novo imperador dos Almo- 
hades, Abd-al-Mumen, lhe mandasse 
a nomeação de walí do (jharb, e por 
esta palavra não se entendia o Al- 



1 Tomamos sempre a palavra Algarve, 
escripta por este modo, no sentido actual ; 
o Al-Gharb dos árabes era coisa muito di- 



garve, mas todo o Occidente ; e de 
bastante importância para que D. 
AtTonso Henriques acceitasse a sua 
allíança, como já vamos ver. D'elle 
diziam os escriptores árabes (versão 
de Conde) ; que estaba apoderado de 
oran parle de aquella tierra \ obe- 
deciendo-le todos sus pueblos. Sendo 
isto assim, e reparando na proximi- 
dade em que Serpa e mesmo Mou- 
ra estão de Mertola, que foi sem- 
pre o seu centro de operações, jia- 
rece-nos uma conjectura bastante 
plausível c fundamentada, a de que 
estas povoações mussulmanas reco- 
nhecessem a sua auctoridade no an- 
no de 1145. 

As discórdias constantes dos che- 
fes mussulmanos entre si aggrava- 
vam-se no período de que vamos 
fallando pela lucta do poder agoni- 
sante dos Almoravídes com o poder 
crescente dos Almohades, dos quaes 
Ahmed-ibn-Cassi foi um partidário 
decidido. E em virtude de manejos, 
rivalidades e ciúmes, que seria longo 
contar, este achava-se em hostilidade 
aberta com o governador de Silves, 
e — caso mais serio — com o pode- 
roso governador de Badajoz e de Be- 
ja, Seddrai-ibn-Uézir. Ambos o ha- 
viam auxiliado na revolta do anno an- 
terior, e ambos marcharam agora con- 
tra elle. 

Vendo-se em circumstancias apu- 
radas, Ibn-Cassi lembrou-se de ap- 
pellar para o auxilio do grande ini- 
migo dos mussulmanos, o temido Se- 
nhor de Coimbra, como elles ainda 
chamavam ao novo rei de Portugal. 
E D. Affonso Henriques, impelíido 
provavelmente pelo unico desejo de 
levar mais uma vez a devastação ás 
terras dos moiros, embora fosse como 
alliado de um d'elles, passou ao Alem- 
tejo e marchou para Mertola em seu 
soccorro. ^ Não nos pode surprehen- 



1 Em volta de Calat Mertiila\ o castello 
de Mertola. 

2 D. José António Conde, Hist. de. la dom. 
de los árabes en Espana., II, 'io~ ; Alexandre 
Herculano, Hist. de Porluyal.,\, 3fj6. E' neces- 



A TRADIÇÃO 



der esta liga do rei christão com 
o chefe mussulmano, porque na his- 
toria da Hcspanha d'aqLiclles séculos 
temos Irequentissiinos exL-inplos de 
semelhantes allianças. 

Juntos em Mertola, os dois novos 
alliados entraram nas terras dos ini- 
migos: »• c)ih'iifoti juntos Li (icr}-aJc 
fícja y de '^Icrida^ hacionio los ciwis- 
tiaiios hartos estragos eu aqucllas í ter- 
ras. Esta phrase, extrahida por Cc^nde 
dos livros árabes, dii a entender que 
fizeram não uma mas varias entra- 
das, tanto mais, que depois falia no 
plural de sangrieiítas escaramuças ha- 
vidas com as tropas dos governado- 
res de Bada)Oz c de Silves. Accresce 
a isto, que devendo a expedição, ou 
serie de expedições, começar no ve- 
rão de 114;") como era habito quasi 
constante, só terminou na lua de Cha- 
ban do anno 540 da Hégira, que vi- 
nha a cair já em pleno inverno no 
principio do anno de 114<>, prolon- 
gando-se, pois, bastantes mezes. 

Uma ou mais d'estas entradas fo- 
ram em tierra de Merida \ não de- 
certo até aquella cidade, que lhes tí- 
cava muito distante e era demasiado 
poderosa, mas na parte da actual Ex- 
tremadura hespanhola, para as ban- 
das onde hoje vemos as povoações 
do Frejenal, de Jerez de los caballe- 
ros, ou de Zafra. Sendo isto assim, 
o caminho natural, quasi obrigado, 
era pelos campos de Serpa. Os ca- 
valleiros portuguezes e moiros reu- 
nidos, partindo de Mertola, passa- 



sario advertir que A. Herculano segue a au- 
ctoridade de Conde; e que a fidelidade das 
versões arábicas d'este é muito duvidosa, 
como tem notado todos os arabistas. No em- 
tanto somos obrigados a seguil-o quando 
não encontramos melhor; mas sempre com 
muitas reservas. — Ibn-Khaldun, que Hercu- 
lano cita pelas versões parciaes de Gayanyos, 
mas hoje está integralmente traduzido (Hist. 
des Berberes, tr. de Tarabe par le Baron de 
Slane) falia da lucta de Ibn-Cassi com Ibn- 
Uézir (II, 184) sem mencionar a intervenção 
dos portuguezes ; mas i^to não infirma o dito 
de Conde, porque Ibn Khaldun, escrevendo 
ao longe e posteriormente, pode bem não 
ter conhecido aquella circumstancia. 



riam nos vaus do Guadiana, que são 
numerosos para cima d'aquella po- 
voação; e atravessariam de sudoeste 
a nordeste esta nossa região. 

E', pois, perfeitamente admissível, 
que D. Afíonso Henriques passasse 
junto de Serpa, ou mesiiKj entrasse 
ein Serpa n'aquelle anno de 114õ. 
Entraria pacificamente, se — como te- 
mos por muito provável — Serpa obe- 
decia já antes ao seu momentâneo al- 
jiado, Ibn-Cassi. 

Procuraremos talvez em outra nota 
dizer o pouquíssimo que se pode apu- 
rar ou simplesmente conjecturar em 
relação ao estado de Serpa n'aquelle 
tempo, deixando apenas indicado des- 
de já que deveria ter algumas fortifi- 
cações, posto que provavelmente fra- 
cas. Mas, fortificada ou não, o olhar 
experimentado de D. AlTonso Henri- 
ques via bem quanto seria fácil C(j11o- 
car Serpa em estado de boa deleza. 

A povoação assentava em uma col- 
lina bastante elevada, apenas domi- 
nada a distancia por outras collinas 
mais altas, o que para a arte da guer- 
ra daquclles tempos nenhum perigo 
otíerecia. De sobre os muros de Ser- 
pa, se acaso então alli entrou, AíTonso 
Henriques poude ver em volta uma 
vastissima extensão de terreno. Pelo 
norte, para alem do Guadiana, cor- 
riam as terras altas da serra de Por- 
tel até á actual Villa de Frades. De- 
pois, a occidente, recortada mesmo 
na linha do horisonte, via-se a famosa 
Paca, como lhe chamavam os que 
ainda se lembravam do velho nome 
de Pax Júlia, a famosa Beja como 
lhe chamavam os moiros. Depois, 
pelo sul, appareciam as serras de Al- 
çaria e os outeiros mais e mais dis- 
tantes a ligar com as montanhas do 
Al Faghar, o nosso Algarve. Depois 
ainda, a oriente, por detraz da serra 
de Ficalho, os montes azulados, es- 
fumados, apenas distinctos, na direc- 
ção da remota e grande Sevilha. Tudo 
em volta terra de moiros. 

E' fácil conceber o que então pen- 
saria aquelle rei moço, que andava 
talhando o seu reino com o fio da sua 



A TRADIÇÃO 



espada. Por certo os seus planos já 
estavam formulados de longa data ; 
mas alli, de pé sobre as fracas mu- 
ralhas de Serpa, ao lado do seu amipo 
Ahmed-ibn-Cassi, olhando em volta 
e vendo tantas e tão boas terras de 
inticis, aquelles planos tornavam-se 
palpáveis, tomavam corpo e vida. E 
se o wali moiro poude penetrar o que 
se passava sob a fronte carregada do 
seu gigantesco companheiro, segura- 
mente se arrependeu de ter pedido 
o auxilio do perigoso Ibn-Errink. 

A alliança do rei portuguez com 
o chefe mussulmano durou pouco, 
tendo tido como único resultado prá- 
ctico o deixar mais devastadas as ter- 
ras já devastadas dos moiros. Em 
virtude, segundo parece, de alguns 
revezes, voltaram a Mertola já no in- 
verno, e alli se separaram. Ibn-Cassi 
estava ancioso por se libertar do seu 
imcommodo alliado. Os seus sequa- 
zes, islamitas fanáticos, viam com 
muito desagrado aquella união com 
os christãos malditos. E Aífonso Hen- 
riques era por tal modo duro e im- 
perioso, que o wali, apezar de todas 
as suas prosapias, nem pestanejava 
diante d'elle: havia-se na sua presen- 
ça, dizem os escriptores árabes, co- 
mo un siervo que movia sus pestanas 
por las insimiaciones dei otro. Se- 
pararam-se, pois, dando Ibn-Cassi 
presentes de armas e cavallos aos 
fidalgos portuguezes. 

D. Affonso Henriques retirou para 
o norte, d'onde só voltou a Serpa pas- 
sados vinte annos. * 

CONDE DE FICAXHO 



* Depois de escripto e impresso o artigo 
veio-me ás mãos o livro recente do Snr. F. 
Codera. Fundado em noticias árabes, con- 
firma a alliança do rei de Portugal com Ibn- 
Cassi; ip, 5i) mas colloca-a em periodo um 
pouco diverso, e não falia da vinda dos por- 
tuguezes ao Alemtejo. Se esta noticia é di- 
finitiva, estaria Conde em erro, o que não 
pode surprehender ; e já antes me levara a 
collocar n'esta nota vários pontos de inter- 
rogação. 



flrtes & Industrias tradieionaes 



A OLLARIA EM SERPA 

/^ NTRE as diversas artes indus- 
Vl^ triaes exercidas na vasta e ubér- 
rima provincia do Alemtejo, occupa 
a ollaria o mais distincto logar, mer- 
cê da captivante belleza aprimorada 
e suggestiva de seus variadissimos 
productos, todos marcados com o ve- 
nerando sello da tradição nacional. 

A descripção completa e minuciosa, 
pela palavra e pela imagem, da olla- 
ria alemtejana — alem de preciosa 
fonte de inspiração artística, consti- 
tuiria um largo cabedal de inestimá- 
veis subsídios para a historia geral 
da cerâmica, e não menos para o es- 
tudo dos usos e costumes do povo 
portuguez, visto como a cerâmica se 
liga estreitamente á vida da humani- 
dade. 

Contribuiria, ainda, a completa des- 
cripção da ollaria no Alemtejo, para 
enriquecer de numerosos vocábulos 
o pátrio lexicon e quiçá para revi- 
gorar a própria ollaria i — uma das 
tradicionaes industrias populares cu- 
jo definhamento nós vimos lamen- 
tando com o Mestre glorioso que bu- 
rilou as paginas doiro do Culto da 
Arte em Portugal. 

O singello esboço da ollaria em 
Serpa, que nos propomos tracejar, as- 
pira a ser um pequenino trecho d'esse 
largo e benemérito trabalho descrip- 
tivo, que bem desejaríamos ver rea- 
lisado na integra, em muito prol e 
para gloria e lustre da nossa bella e 
desditosa Pátria. 

* * 

Depois de Estremoz, a terra clás- 
sica das formosas camarinhas de fi- 



1 E' nossa convicção intima que, a venda 
de certos objectos da ollaria alemtejana, au- 
gmentaria consideravelmente desde que taes 
objectos se tornassem conhecidos a fora da 
região onde são fabricados. 



A TRADIÇÃO 



EIG^ 



^roductos (Ia {pifaria Bfcmtcjana 




QunrTo 



(SERPA) 




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-§^^(gÇ^- 



r^ 



A TRADIÇÃO 



nissima argilla, é Serpa — ao que nos 
consta — apovoação transtagana onde 
mais e melhor se tem cultivado o 
ramo inicial da arte cerâmica. 

Ha mesmo um afamado producto 
da oUaria local, que nunca se fabri- 
cou, segundo creio, na tiorescente 
villa de Estremoz, e Serpa tem ex- 
portado cm grande escala para um 
sem numero de terras não só d'esta 
provincia como também da provincia 
do Algarve. Quero fallar das excel- 
lentes "talhas para vinho e azeite, cuja 
fabricação, de importante que era, 
chegou a formar uma secção especial 
da ollaria serpense. 

De resto, elaboram-se aqui ao tor- 
no do olleiro, com perfeição e mes- 
tria, todas as vasilhas de uso com- 
mum e domestico, desde a infusa e 
o tinor grosso e bojudo até ao mais 
delicado e gracioso cucharrinho. 

E o mais importante material de 
construcções, a telha e o tijolo, quan- 
to se emprega nas obras concelhias, 
aqui se manufactura, também, muito 
habilmente. 

A"s talhas, louçaria commum e ma- 
terial de construcções (telha e tijollo) 
correspondem, na ollaria local, três 
classes distinctas de productos. 

Vamos occupar-nos de cada uma 
dessas classes. 

Antes, porém, trasladaremos, a ti- 
tulo de nota histórica, um interessan- 
te e curioso artigo das antigas «Pos- 
turas municipaes da notável 3 villa 
de Serpa w (1686), artigo que reza 
assim ("textualmente) : 
■ > tOleiros & officiais de telha & tijol- 
lo*. «Todos os oleiros e oficiais de 
telha e tijollo serão examinados com 
juramento de fazerem verdade em 
seus oficios e não desenfornarão sua 
loussa sem ser vista pellos juizes de 



1 Como é sabido, o Infante D. Pedro? 
quando regente e governador de Portugal, 
concedeu a Serpa os «privilégios de Villa 
notável» , por carta patente de 20 d'Agosto 
de 1674. 

fWáe a Memoria Historico-economica do 
Concelho de Serpa^ pelo Doutor Graça AíTrei- 
xo.) 



seus oficios que achando esta bem 
cosida e capas de se vender ao povo 
lhe darão suas licensas por escrito 
para venderem, e os ditos oleiros não 
mesturarão sinza com o barro de sua 
loussa e os cântaros e talhas que fi- 
zerem não serão de menos medida 
que de almudc cada pcssa de cânta- 
ro e talha ^ e os quartos de meio al- 
mude, a obra que venderem assim de 
loussa como de tijollo ou telha não 
será por mais da tacha que pella ca- 
mará lhe for posta e o tijollo que se 
fizer para obras terá de meio covado 
de comprido e hua quarta de largo e 
meia sesma de vara de grosso tudo de 
medida da craveira^ e a telha será 
do comprimento de duas sextas de 
craveira, para o que terão suas mar- 
cas providas e feridas pelo aferidor 
do conselho que nellas porá a marca 
das medidas de pao, do que tirarão 
seus registos ao principio da safra 
de cada anno e os officiais de telha 
e tijollo sob penna de uns e ou- 
tros pagarem por qualquer d'estas 
cousas não compridas quinhentos réis, 
e só poderão os oficiaes de telha e 
tijollo fazer da marca mais pequena 
somente para as pessoas que assim 
lho encomendarem, não usando d'elle 
para venderem senão a quem o qui- 
zer comprar, e assim mandarão se 
comprisse.» 



A talha — na definição de Moraes, 
e conforme a gravura que n'outro 
logar publicamos, — é um «vaso de 
barro de grande bojo, bocca estreita 
e fundo cónico». 

Ha, porem, entre nós outros va- 
sos, com a mesma configuração, a 
que se dá o nome de potes. A diíFe- 
rença de nome está simplesmente 



1 As talhas, de medida não inferior a um 
almude, a que a postura se refere, seriam 
as mesmas vasilhas que hoje conhecemos 
pelo nome de potes? Ou, acaso, a palavra 
otalha» estará alli empregada como synoni- 
mo de «infusa» ? 



A TRADIÇÃO 



nas dimensões do vaso : se este com- 
porta vinte almudes, ou mais, desi- 
gna-se por «talha»; se a capacidade 
é inferior áquella medida, denomi- 
na-se «potei. 

As talhas são usadas para guar- 
dar vinho, azeite, aguardente e vi- 
nagre. 

Havia outrora, c ha hoje ainda, 
grandes adegas, tanto de vinho como 
d'azeite, guarnecidas de numerosas 
talhas, maiores e menores, dispostas 
em lílas ao longo das paredes. 

Foram estas vasilhas, sempre, mui- 
tissimo apreciadas para depositar o 
vinho, especialmente, em razão do 
magnifico sabor e agradável frescura 
que ao liquido communicam. 

Em Serpa, e penso que em toda 
a margem esquerda do Guadiana, o 
público manifesta decidida predilec- 
ção pelo vinho «creado no barro». 

Modernamente, a talha vae sendo 
substituída pelo tonel de madeira, 
para o vinho, e pelo pote de lata para 
o azeite. 

Infeliz substituição I 

Podem, as novas vasilhas, ser de 
maior duração e porventura mais eco- 
nómicas do que as antigas; mas a 
verdade é que, com isso, a arte per- 
de e perde immenso. Sob o ponto de 
vista csthetico, a talha de barro, de 
formas curvilíneas, elegante e ma- 
gestosa, vale incomparavelmente mais 
do que o pote de lata, prosaico e 
charro, ou o tonel de madeira dis- 
forme e brutal. 

Tcem os potes de barro mui va- 
riado préstimo e serventia. 

Aquelles de maior lotação são usa- 
dos, assim como as talhas, para guar- 
dar vinho, azeite, vinagre, aguarden- 
te, e também farinha; outros, mais pe- 
quenos, servem para mel, agua, cal, 
azeitonas de conserva, etc, etc. 

Aos potes e talhas andam annexas 
mais três espécies de vasilhas: quar 
'os, tinos e salgadeiras. Tudo isto é 
classificado de «obra grossa» na ter- 
minologia do oUeiro. 

Os quartos são destinados a rece- 
ber vinho, exclusivamente, e ha-os de 



medidas diversas, entre um c quinze 
almudes. 

(^ada um dos cjuartos costuma ser 
montado sobie um banco aJ //oc", de 
quatro pés, a que se chama a burra». 

O tino movei de barro «, já quasi 
desapparecido, era muito adoptado 
nas pequenas distillações d'alcool. 
Hoje em dia, os tinos, íixos, são con- 
struídos de tijolo, cal e cimento. 

Quanto ás salgadeiras, ainda cm 
plena usança, são elias tidas em alto 
apreçfj para depositar carnes salga- 
das, nomeadamente presuntos e brêas^ 
de toucinho. 

Pertencemegualmente á aobra gros- 
sa» os alguidares de quatro e seis al- 
queires, empregadas nas chacinas, 
na trasfega dos vinhos e nas grandes 
amassarias das herdades. 



(Continua.) 



M. DIAS NUNES. 



APPARIÇÔES 



BOI a leitura do magistral artigo 
rtF>statinga — EsTantiga», recen- 
temente inserto nesta revista, e devido 
á penna auctorisada da erudita escri- 
tora D. Carolina Michaelis de Vas- 
concellos, que nos despertou o desejo 
de publicar desde já alguns casos 
d'apparições, que ha muito colhemos 
directamente. Essas historias, como 
o leitor verá, referem-se todas a fa- 
ctos passados nesta região, onde a 
crença no apparecimento de medos 



' A continuação d'este artigo será acom- 
panhada de vários desenhos elucidativos, 
entre os quaes, os desenhos do tino, da sal- 
gadeira e do alguidar. E como appendice 
indispensável ao nosso modesto estudo, pu- 
blicaremos um mappa de todos os objectos 
que mencionarmos, com as respectivas di- 
mensões. 

2 Brêa = grande talhada. Somente se usa 
o vocábulo, e com esta significação única, 
no caso sujeito. 



10 



A TRADIÇÃO 



e almas do outro mundo se acha ainda 
muito espalhada. 

Apesar das appariçÕes se repetirem 
entre nós com extraordinária frequên- 
cia, e poderem por conseguinte con- 
siderar-se como coisas banaes, a ver- 
dade é que em volta de cada caso se 
faz sempre enorme ruido, acompa- 
nhado dum grande pânico. E' de no- 
tar também, que raramente se dá um 
facto isolado; em geral, uma appari- 
ção provoca outras apparições, e mui- 
tas vezes até no mesmo local da pri- 
meira. Deste modo s^explica, eviden- 
temente, o haver em cada povoação 
certos sitios onde «apparecern me- 
dos». 

As apparições representam ainda 
hoje, para a grande massa do publi- 
co, um fundo e negro mysterio ; são, 
por assim dizer, a lúgubre manifes- 
tação dum poder occulto, que todos 
temem e respeitam. O fenómeno, 
deveras interessante e curioso, dá-se 
realmente, mas o vulgo é que não 
sabe interpretá-lo. 

Toda a apparição constitue indubi- 
tavelmente uma allucinação, e, como 
tal. o seu estudo pertence propria- 
mente á pathologia mental. Parece- 
nos, todavia, que o assumpto em 
questão não é descabido numa revis- 
ta d"ethnografia, pois que se trata 
duma crença popular profundamente 
arreigada, transmittindo-se atravez 
das gerações, desde tempos imme- 
moriaes. E alem d'isso, surge-nos, a 
propósito de cada apparição, um tal 
numero de circumstancias e praticas, 
que bem merecem ser registadas, 
como documentos vivos para a his- 
toria do povo. Ainda mais : trazendo 
a lume estas scenas intimas da vida 
vulgar, em que o espirito da multidão 
se encontra perfeitamente fotografado, 
pomos' em relevo muitos erros e pre- 
juisos, que é preciso destruírem nome 
duma boa hygiene psychica. 

Eis porque entendemos ser útil 
consignar aqui os alludidos casos, 
que passámos a descrever. 



I 



A pequena historia que vamos nar- 
rar, primeira da nossa série, refere- 
se a uma mulher de Brinches, que 
designaremos por X. Esta mulher, 
de 2;') annos d'edade, casada, nada 
accusa dimportante sob o ponto de 
vista hereditário. Mas o mesmo se 
se não pôde já dizer com respeito á 
sua própria pessoa, pois é de consti- 
tuição pouco robusta e soffre de tris- 
tezas c ate d'ataqucs nervosos. Estes 
ataques declaram-se principalmente 
por occasião d'algum desgosto grande. 

Conta X. que, ha proximamente 
seis annos, havendo-lhe fallecido um 
tio, Y., com quem vivia, experimen- 
tou em consequência desse triste acon- 
tecimento um grande desgosto. De- 
corridos uns seis mezes, começou a 
apparecer-ihe o dito tio, de noite e 
quando ella se achava deitada. 

Uma noite, pouco mais ou menos 
pela uma hora da madrugada, encon- 
trando-se no leito com seu marido, 
pediu a este que acendesse um fós- 
foro ; e, sentando-se em seguida na 
cama, viu repentinamente diante de 
si Y., revelando-se com o seu natu- 
ral aspecto. Neste momento, X., to- 
mada d'enormissimo susto, soltou um 
grito c perdeu os sentidos. O marido, 
então, afflicto, correu a chamar uma 
tia da enferma, viuva do finado, que 
estava também deitada noutro quarto 
da mesma casa. Essa tia veiu imme- 
diatamente em soccorro da sobrinha 
e requereu o morto nos seguintes ter- 
mos : «Se és alma do outro mundo, 
da parte de Deus te requeiro : Dize 
o que queres!». Ao mesmo tempo 
apertaram o dedo minimo da mão 
direita a X., a qual ouviu distincta- 
mente o tio proferir estas palavras : 
«Mandem dizer dezaseis mil réis em 
missas, pelas santas almas». Este pe- 
dido, assim tão categoricamente for- 
mulado pela própria boca do morto, 
foi religiosamente cumprido, á custa 
de não pequeno sacrifício pecuniário. 

Com eífeito, o parocho da fregue- 
zia foi solicitado a rezar, pelas san- 



A TRADIÇÃO 



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C^J^CIOJÍETl^O j^ílISIC^L 



De noite batem â porta 





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12 



A TRADIÇÃO 



tas almas, dois trintarios de missas, 
mediante a retribuição de lGc?00(.) 
rs., conforme ordenara Y. na occa- 
sião de ser requerido. 

O prior, reconhecendo as precárias 
circumsiancias daquella familia, ainda 
ponderou, «que era escusado dispen- 
derem tanto dinheiro em missas, que 
bastava mandarem rezar um trinta- 
rio: que não pensassem mais no ap- 
parecimento da alma do fallecido, 
porque se ella lhes apparecera, foi 
devido á fraqueza do sentido». Estas 
justas reflexões foram, porém, bal- 
dadas, porque a viuva insistiu nos 
dois trintarios, visto ter sido essa a 
vontade claramente expressa pelo 
mono. 

Passaram, portanto, a dizer-se na 
parochial egreja de Brinches as re- 
feridas missas, até que, chegando-se 
á ultima, X. foi avisada — segundo 
é de preceito — para assistir a ella. 
Quando estava a celebrar-se a missa, 
diz X. que, olhando para a capella 
da Senhora do Rosário, que fica á 
esquerda da capella mór, ahi se lhe 
deparou novamente o tio, o qual, 
apenas findou o acto religioso, se diri- 
giu para ella a agradecer-lhe. O agra- 
decimento fez-se pela forma seguin- 
te : Y., apertando com força a mão 
direita da sobrinha, disse-lhe ao ou- 
vido, por três vezes : «Deus te pague; 
seja pelo amor de Deus». 

Ouvidas estas fúnebres palavras, 
X. desmaiou logo. deixando profun- 
damente emocionadas todas as pes- 
soas, que acabavam de presenciar 
aquella trágica scena. Depois, X. re- 
cuperou os sentidos e regressou a 
casa com o espirito perfeitamente 
tranquillo, na intima convicção de 
que o tio não lhe reappareceria. 

Effectivamente, ella própria me de- 
clarou que nunca mais viu Y., mas 
que anda sempre com muito medo 
dalguma nova apparição. 



* 
* * 



O caso que singelamente ahi fica 
descrito, representa, creio, nitida- 



mente o typo duma nevrotica com 
allucinaçÕes da vista e do ouvido. A 
forma religiosa das suas allucinaçÕes 
explica-se admiravelmente, se nos lem- 
bra!"mos que a doente foi creada 
numa atmosfera de completa beatice, 
visto que tanto o tio como a tia, com 
quem ella sempre viveu, eram extre- 
mamente devotos. Y., então, sentia 
pela confraria das almas, em Brin- 
ches, uma extraordinária svmpathia : 
além de ser o seu thesoureiro perpe- 
tuo, curava dos interesses delia com 
o mais fervoroso zelo. Circumstancia 
esta, que vem elucidar-nos sobrema- 
neira acerca da allucinação verbal de 
X., no momento em que Y. foi re- 
querido pela sua viuva. 

Convém ainda tomar nota de cer- 
tas particularidades que, em nosso 
humilde parecer, tornam este caso 
verdadeiramente interessante. Em 
primeiro logar, a manifestação simul- 
tânea na mesma pessoa de duas es- 
pécies d'allucinaçÕes — verbaes e vi- 
suaes. Em segundo logar, terem-se 
dado egualmente essas allucinaçÕes 
na egreja — em plena luz do dia e 
perante varias pessoas. E finalmente, 
o poder sugestivo que a celebração 
das missas exerceu na doente, cu- 
rando-a da sua insão. 

E' necessário advertir, comtudo, 
que a acção curativa dos dois trinta- 
rios foi bastante restricta, pois que 
o nevrosismo de X. ficou subsistindo, 
e continua a traduzir-se nos mesmos 
symptomas anteriormente apontados, 
isto é, tristezas, ataques nervosos e 
receio de novas apparições. Fixemos 
bem este facto, para que se não con- 
fie demasiadamente na therapeutica 
mystica das nevroses. 

XAI>ISI.AU FIÇARBA. 




A TRADIÇÃO 



13 



lIODAS-tSTKlItlLIlOS \LEJITU\\\S 



DE NOITE BATEM Á PORTA 

De noite batem á porta : 
U' lilha, vae \cr cjiiem c! 
Se íòr teu amor primeiro, 
\'ae aquecer o cate. 

Vae aquecer o café, 
Vae aquecer o ch'colate. 
De noite batem á porta : 
O' filha, vae vèr quem bate ! 

M. DIAS NUNES. 



A caça no concellio de Serpa 



Os terrenos do concelho de Ser- 
pa foram sempie muito abun- 
dantes em caça de ditíerentes espé- 
cies. 

Tanto na grande serra do conce- 
lho, onde se encontravam os veados, 
os javalis, os corços, os lobos, os 
«galos cravos» ou lynces, os coelhos 
e as perdizes, como nos terrenos maib 
ou menos limpos de matto e moitas, 
que constituíam as dilVerentes herda- 
des, annualmente lavradas e semea- 
das, e onde se vêem as lebres, as 
perdizes e os coelhos, a caça — ex- 
cepto as rezes ou gado cervum (vea- 
dos, cervas e corços), que desap- 
pareceu de todo — a caça abunda- 
va e ainda hoje abunda apesar do 
uso e abuso das varias armadilhas c 
outras causas de destruição. Kntre 
estas causas, que são diversas, ha 
duas principaes. A primeira é o enor- 
me vandalismo com que se queimam 
a eito, immensas extensões de mat- 
tagaes, na serra, morrendo assim, ou 
queimados ou asphyxiados, milhares 
de coelhos e perdizes, e extinguindo 



os acoihciíes da caça grossa nas gran- 
des umbrias c manchas, devastadas 
peio fogo. A segunda causa — não 
menos prejudicial, embora so alVecie 
a caça miúda — está no emprego de 
armadilhas e mais» formas de caçar 
com chamariz, e bem assim no cul- 
tivo aperfeiçoado dos cereaes, com 
especialidade nas mondas, que se la- 
zem com esmero em todos os terre- 
nos semeados. Mulher nenhuma, mon- 
dadeira ou ceifeira, resiste á tentação 
de tirar dos ninhos ou os ovos ou os 
caçapos. 

Paliarei das dilVerentes armadilhas 
quando tratar da caça em cada uma 
das suas espécies. 

Como já disse, os terrenos mais 
férteis em caça eram, e ainda são, 
os da serra grande d'e_ste concelho. 
Fica esta serra ao sul da villa de Ser- 
pa, n'uma facha que, doeste para este 
se prolonga desde o (Guadiana até á 
raia de Hespanha, próximo ao Ro- 
zal de Chnstina e Ficalho, pegando 
alli com as serras do concelho de 
Moura, numa extensão de mais de 
35 kilometros, e com uma largura 
não inferior a 2õ. Pelo lado sul con- 
fina a serra de Serpa com a de Mer- 
tola e com a ribeira de Chança, raia 
de Portugal com Hespanha, e onde 
tem principio a serra Morena, do 
reino visinho. 

A serra de Serpa, extensíssimo 
baldio muito accidentado e matta- 
goso, é de longe em longe habitada 
por algum casal que vive na malha- 
da '. Os oiterios são muito altos e 
contínuos e por isso. os córregos ou 
corgos (como aqui dizem; muito fun- 
dos. 

Os valles, alguns, são deveras ex- 
tensos. Aos corgos mais extensos cha- 
mam córu;as^ e quando formam cor- 
rente continua e mais funda, barran- 
cos, ou barrancadas^ se as ladeiras 



' — Malhada — casa edificada na serra 
de Serpa, em meio de certa área de terreno 
onde existem cercas de colmeias. As malha- 
das denominavam-se antigamente «fabricas 
de cera e mel». 



14 



A TRADIÇÃO 



são fragosas, como acontece nas bar- 
rancadàs de Beiçudos e Alfamar, onde 
ha sitios de admirável braveza. 

Quando a caça grossa começou a 
escassear entre nós, os caçadores, 
tanto os d'este concelho como os de 
Moura, costumavam ir caçar a Hes- 
panha, onde a caça é abundante de- 
vido á existência dos coitos. Para rea- 
lisar a caçada no paiz visinho obti- 
nha-se previamente uma licença ou 
tolerância das auctoridades respecti- 
vas, bem como a permissão dos pro- 
prietários dos terrenos. D'estes, os 
mais frequentados eram a Casa do 
Duque, serra do Granado, serra de 
Santa Barbara, Serrador, Penhas 
Mouras e Sirios. A Casa do Duque, 
principalmente, era d'uma fertilidade 
extraordinária em coelhos e perdizes, 
como tivemos o prazer de algumas 
vezes verificar. No Granado vimos 
nós rebanhos de javalis, e veados. 
Na serra de Santa Barbara houve, 
em tempos, muitas rezes, e consta- 
nos que é o único sitio onde se en- 
contram ainda corços. As Penhas e 
os Sirios, as serras mais fragosas e 
accidentadas que se conhecem n'es- 
tes arredores, são muito abundantes 
em caça grossa. 

Os caçadores teem nomes apro- 
priados com que designam as diver- 
sas formas e accidentes do terreno. 
Ao prolongamento dos outeiros, cha- 
mam pontal, e quando o pontal tem 
as ladeiras de um ou ambos os lados 
muito a pique, esguilhão. 

A" depressão do pontal formando 
como sella, isto é, ao sitio onde o 
pontal abaixa para depois levantar, 
chama-se portella, por ser logar ade- 
quado para collocar porta ou espera 
nas batidas de caça grossa ; pois que 
naturalmente esta caça, quando foge 
espantada ou acossada pelos cães, 
procura os referidos sitios, por mais 
fáceis de transpor. 

(Continua., 

A. de MELLO BR£TN£R. 



MMW^%mm.M.m> 



o livro 



Sou de longe, longe venho, 
Não sou feio nem bonito, 
Tudo quanto tenho dou, 
Com tudo que tenho, fico. 

O morcego 

Diga, senhor secretario, 
Que está na secretaria : 
Qual o pássaro que vôa 
E dá leite quando cria ? 

A luzerna 

Nem vara vareta, 
Nem verde, nem secca, 
Nem do ar colhida, 
Nem do chão nascida. 

À quaresma 

Sete irmãs são, 
Uma é santa 
E seis não. 

Um jogo cl'agulhas de meia 

Somos cinco irmanzinhas, 
E todas somos eguaes; * 

Anda uma sempre nua 
P'ra vestir as outras mais. 

O figo {colhido da figueira) 

Se não passasse quem passou, 
Passava quem não passou. 

O moleiro 

Quando não tenho agua, bebo agua; 
Quando tenho agua, bebo vinho. 

A laranja 

Egrejinha vermelha 
Sem porta nem telha. 

O ôvo 

Egrejinha branca 
Sem porta nem tranca. 

A luz da candeia 

O que é aquillo, que do tamanho d'uma 
bolota, — enche a casa até á porta .'' 

(Da tradição oral, Brínches.) 
(Contínua.) 

ANTÓNIO ALEXANDRINO. 



A TRADIÇÃO 



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BlBIsI0GRftPI4Ift 



Esta pequena secção, que por motivos 
alheios á nossa vontade, tivemos de sus- 
pender logo nos primeiros números do anno 
iindo, será d'or "avante mantida, ininterrup- 
tamente, nas paginas da Tradii;ão. 

Aqui faremos referencia ás diversas obras 
já recebidas e a todas as novas publicações 
que forem chegando a esta redacção. 

Obras do Doutor Stanislau Prato. — Ao 
laureado publicista e professor italiano Se- 
nhor Doutor Stanislau Prato, dev(?mos a 
otlerta gentil, que infinitamente nos penho- 
ra, dos seus notáveis trabalhos : 

Le dodici piírnle delia veritã; Sonne, 
Q^íond iind Stcrne; Zwei Episodcn aiis pvrei 
tibctanisclwti JWovellen : 11 caratlere denionia- 
co dei porco e dei cin^hiale ncll 'inferno 
dantesco, neWegipo e nella tradipone popo- 
lare ; II Sole, la L una, le Slelle — imtnaiji- 
ni sinboliche di belle^^a nelle lin^ite orienta- 
li ; Sag^io sopra gli érrori popolari degli 
antichi, di Giacomo Leopardi ; Inceputul 
Cintecelor pnpulart roíninesti ; La scène de 
1'avocat et dii berger; La beauté des femmes; 
Le menuisier, le tailleur e le soplita ; Biblio- 
graphie des variantes de trois contes (les 
nnisiciens de Brenie, les fleiís bossiis tO /e'5 
nains, psychéj; Vergleicliende Mitheilungen 
pi Hans Sachs Fastnach htspiel. 

D'entre as obras mencionadas, todas ellas 
do mais subido valor scientitico. despertou 
em nós, a primeira, um interesse muito par- 
ticular, não só pela natureza do assumpto, 
sobremaneira interessante, mas também por- 
que nos falia de coisas portuguezas. 

BULLETIN POUR LtTRANGER 



%_M^ WKADITIOIf 



DIRECTEUBS 

Ladislau Tiçarra et T)ias VSjifies 

REDACTION ET ADMINISTRATION 

À SERPA iPORTUOAL) 

Le Bulletin^ que nous avons le plaisir de 
publier aujourd'hui pour la première fois, 
est destine tout simplement à creér et res- 
serrer les relations inteliectuelies des folklo- 
ristes et ethnographes portugais avec nos 
collègues dí: rétranger. 

Tous ceux qui se consacrent au genre 
d'ouvrage, auquel la Tradition s'adonne, re- 
reconnaissent certainement, sans plus d'ex- 
plications, Timportance de ces relations. 



"I.e dodici parole delia veritá», «As doze 
palavras da verdade», é uma lenda popular 
Italiana (por signal bem engraçada) que o 
I)outor Prato nos apresenta de par com nu- 
merosas variantes, de procedências e nacio- 
nalidades diversas, entre as quaes a reza lu- 
sitana "Oração do Anjo Custodio» (dialogo 
d'um Anjo e do Dial)o). Km todo um lar- 
go volume de cerca de 200 paginas, são es- 
sas curiosas versões examinada;, compara- 
das, annotadas e interpretadas com supe- 
rior critério e profunda erudição, concluin- 
do o sábio etnnologista e phillologo ita- 
liano por lhes determinar a sua remota e 
comnium origem. 

Litterature orale de VAuverp^ue por Paul 
Sébillot. — O incançavel investigador das 
tradições populares da França, Mr. Paul Sé- 
billot, prosador e poeta festejado, publicou 
ha tempo um elegante volume, com cuja 
ollerta nos distinguiu, subordinado á epigra- 
^■\\Q^- Litterature orale de 1'Auverf^ne. 

Divide-se em duas partes o precioso livro. 
Comprchende a primeira cincoenta e quatro 
lendas e quinze deliciosos contos infantis, 
vibrantes de cõr local ; e a segunda contem 
doze canções e algumas adivinhas. 

Todo este copioso material ethnographi- 
co foi recolhido e coordenado com inteira 
proficiência, e constitue uma verdadeira jóia 
da litteratura popular tranceza. 

A Mr. Sébillot, o ^scriptor illustre que nos 
deu os Contes des oAíarins e os Contes Es- 
pagnols, os mais Íntimos agradecimentos 
por tão mimosa e delicada oflerta. 



(Continua.) 



M. DIAS NUNES. 






*»»»*«*»» 



lOiifmsm 



BULLETIN FOR ABROAD 

MoDílily lliiísiraied revlew ol poriuguese eihnograptiy 

DIRECTORS 

Ladislau Tiçarra and ^Dias V^u?ies 

OFFICES 

SERPA (PORTUCAL) 

The Bulletin, which we have the pleasure 
of publishing to day for the first time is ex- 
pressly meant to promote the intellectual 
relations between the portuguese ethnogra- 
phers and folklorers and our colleagues of 
other nations. 

Ali who dedicate tehmselves to this kind 
of work to which the Tradition is consecra- 
ted recognise the importance of these rela- 
tions, without further explanations. 



IG 



A TRADIÇÃO 



Pour atleindre le but que nous avons en 
vue, nous puhlierons réj;uliòrement dans 
cetle section : 

1." Le sonimaiie de notre revue et notes 
explicatives ; 

2." Conipie rendu du mouvement ethno- 
graphique portut;ais ; renseignements plus 
au moins développés selon Tespace dont 
nous pourrons disposer. 

soinmaire de le preseni numero de la Tradiílon 

Texte : — Notes historiques sur Serpa. (') 
D. AtVonso Henriques (•) est-il venu à 
Serpa en ii4'>? par le Comte de Ficallio\ 

Arts ec industries tradictionnelles: La Po- 
terie à Serpa, par M. Dias Nunes ; 

Revenants, par Ladislau Piçarra (Dr.) ; 

La chasse dans le district de Serpa, par A. 
de Mello Breyner ; 

Chansons et rêtrains populaires de TAlem- 
tejo (^) : La nuit on frappe à la porte, par 
.\/ Dias Nunes; 

Devinetes, par António Alexandrino ; 

Bibliographie, par M. Dias Nunes. 

niustrations : — Galerie de costumes popu- 
laires : Paysanne en habits de tete. Pro- 
duits de la poterie de TAlenitejo. Recueil 
de chansons : La nuit on frappe à la por- 
te (musique). 

MOIVEMEM ETinOGRAPlllQlE PORTIGAIS 

Nous devons parler de la publication de 
quatre ouvrages importants otTerts Tannée 
dernière à cette rédaction. Le dernier pu- 
blié. Bobéme de Coimbra, nous fait lire 
une description parfaite de la vie académique 
à Coimbra, viile célebre, siege de TUniver- 
sité portugaise. Cet ouvrage est dú à la plu- 
me brillante d'un de nos modernes écrivains 
de granJ talent, M. Alfred Piatt. 

Les autres sont : 

Chansons populaires de Beira : ma- 
gnifique recueil de chansons et refrains po- 
pulaires. recueillis et reunis par Tillustre 
folkloriste M. Pedro. Fernandes Thomaz. 

Les manres enchantées etlesencban- 
tements en Algarve: ouvrage appréciable, 
d'une importance toute particulière pour les 
études ethnographiques, par notre distingue 
collaborateur M. le Dr. Athaide d'01iveira. 

Portugália: luxueuse revue trimestrelle 
de caractere archéologique et ethnographi- 
que, publiée soas la direction de MM. Ri- 
cardo Severo, Rocha Peixoto, Fonseca Car- 
doso. Seul le premier numero est publié. 



'!> Serpa, ou est publieé notre revue, est une des plus 
ancien >es et oes plus importantes v.lles du Portugal. 

<i> D. Artonso Henriques, surnomme le Conquérant, a 
été le premirr roí du Portnpal 

fí* AUmtcjo — vaste et riche province du sud du Por- 
tugal. 



Obeying therefore the aim we have in view 
we wiíi publish regularly in this section : 

i.!-' The surnmary of our review accom- 
panied with expiicative notes ; 

•2."J An account of the portuguese ethno- 
graphical movement, more or less ample, 
according to the space which we can dispo- 
se of. 



SiiiiiiiKiry ol ilie preseiii niimlier oí ttie Trafliiioii 

Text : — Histórica! notes on Serpa, (i) If 
D. Alfonso Henriques (■^) visited Serpa in 
the year 1 145 ? by Conde de Ficalho ; 

Traditionnel arts and industries: The potte- 
ry in Serpa, by M. Dias Nunes ; 

Apparitions, by Ladislau Piçarra (Dr.) ; 

The shooting in the Serpa district, by A. de 
Mello Breyner ; 

Popular songs from Alemtejo: (3) At night 
they knock at the door, by M. Dias Nu- 
nes ; 

Riddies, bv António Alexandrino ; 

Bibliography, by M. Dias Nunes. 

niustrations : — Cialery of popular costu- 
mes : Peasant woman in sunday costume. 
Products from the pottery of Alemtejo. 
Musical collection : At night they knock 
at the door (Refrain). 

TIIE PORTljGLlESE ETIl^OCRAPIllCAL MOVEMENT 

We have to register the publishing of 
four importam volumes, that last year were 
offered to this office. The last published en- 
titled Bobemia of Coimbra contains a per- 
fect description of the academic life of 
Coimbra, celebrated town where is the por- 
tuguese University. The book in question 
was written by a nevv author of great ta- 
lent M. Alfredo' de Pratt 

The other volumes nre: 

Popular songs of Beira, a splendid col- 
lection of popular songs and refrains, com- 
piled by the celebrated folklorer M. Pedro 
Fernandes Thomaz. 

The enchanted moors and the enchan- 
tements of Algarve, litterary work to be 
greatly appreciated by those interested in the 
study of ethnography by one of ours distin- 
guisíied collaborators Dr. Athaide d'01iveira. 

Portugália, magnificent quarterly review 
of an archeological and ethnographical cha- 
racter published under the direction of M.t^srs 
Ricardo Severo, Rocha Peixoto and Fonseca 
Cordoso. Up to the present date only the 
first number has been issued. 



<') Serpa, the birth-place of this review, is one of the 
oldest and most importam of poriupuese towns. 

(■■i) iJ. Afionso Henriques, surn.imed the Conqueror, 
was the first King ofPortug.il- 

(3) Alemtejo, a vast and rich province in the soutli of 
Portugal. 



^V II lio II — íN. \£ 



SERPA. Fevereiro de ISOO 



^'ol lllll«' II 



Kditor-adintniktrador, Jotf Jeronrmo da Coita tíravo de Sefsreirot, Kua Larsa, 3 e 4 — SERI*A 
lyp. <Jf Adolpho de Mendonça & I uarle, Kua do Corpo Saiiio, 46 e 48 — I.ISHOA 



TumcÃo 

llmisla iiiciisiil ilhliiiiii|rii{ilii;i Porliii|ii(>/;i. !lliislr;iil;i 



Directores :-LÃl)lSLÃU Plt^ÃHHA e li. DIAS NUIIKS 




O SANDEU DA RETORTA 

(Capitulo para a historia da dançai 

EM I 190 a cidade de Kvora, uma 
das mais prezadas e frequenta- 
das pelos reis da segunda dvnastia, as- 
sistia a um espectáculo deslumbrante 
como outro tão apparatoso jamais tor- 
naria a ver. Realisavam-se as bodas 
do principe D. AíTonso com a prince- 
sa D. Isabel de Castella, e D. João II 
quiz dar á solemnidade do casamen- 
to de seu filho a maior pompa e lu- 
zimento possível. Foram estraordina- 
rios os gastos que então se fizeram 
por conta da fazenda real, sendo tal- 
vez escassos os cem mil cruzados que 
os três estados do reino, pouco antes 
convocados, haviam generosamente 
concedido para este etVeito. El-rei fez 
grandes apercebimentos, tanto no rei- 
no como no extrangeiro, das mais va- 
riadas mercadorias, mandando vir da 
Itália, das Flandres, de Inglaterra, de 
França, das feiras de Castella, tape- 
çarias, sedas, pannos, armas, cavai- 
los, prata em barra e outia infinidade 
de objectos, que haviam de servir de 
adereço. E apesar d'el-rei repartir da- 
divosamente d'estas cousas pela no- 
bresa da sua corte, ainda assim não 
foram poucos os fidalgos que se ar- 
ruinaram para competir em gentile- 
sa e galhardia com os mais opulen- 
tos. 



l ma infinidade de cxtrangeiros 
allluiu á histoiica cidade do Alemtc- 
jo, onde as tradições da grandesa ro- 
mana ostentavam, a esse tempo, uma 
formosa veiustez monumental- Muitos 
d"esses forasteiros vinham simples- 
mente por especulação mercantil, 
outros para mero recreio da vista, a 
fim de assistir ás festas; outros para 
tomarem parte n'ellas, attrahidos pelo 
espirito de curiosidade e de aventu- 
ra, desejosos de mostrar a sua perí- 
cia e a riqueza das suas armas e tra- 
jos nos torneios que promettiam ser 
tão solemncb. Os artistas e artífices, 
empregados na azáfama de tantas 
obras concorreram em abundância e 
até a culinária exótica forneceu os 
officiaes mais hábeis na arte de Va- 
tel. Os banquetes pantagruelicos ef- 
fectuaram-se ao som da musica, en- 
tre cantos e danças, entremeados de 
momos e de representações appara- 
tosas e grotescas, e por isso não 
admira que viessem também de fora 
muitos charamellas e menestréis para 
envolve'- numa fascinação artística, 
os alvoroçados convivas. 

Foi no domingo 27 de novembro 
que a princeza entrou em Évora e 
desde então, durante uns poucos de 
dias, as festas succederam-se e enca- 
dearam-se como pérolas e joias nas 
tranças d'uma sultana. Os banquetes, 
os serões, os momos, as danças, as 
justas, não deixavam um momento de 



18 



A TRADIÇÃO 



descanço. Garcia de Rezende danos 
na sua Chrouica de '/). João :;." a 
lente atravez da qual podemos obser- 
var, gostosa e deslumbradamente, to- 
do este ciclorama real. 

Logo na terça feira á noite se rea- 
lisou uma ceia opipara, em que ha- 
via regalos para todos os sentidos. Se 
na mesa appareciam os pratos mais 
phantasticos e graciosos, em volta 
delia não eram menos engenhosas as 
invenções, que enchiam de pasmo os 
alegres convivas. A grande salla de 
madeira, expressamente edificada pa- 
ra este fim, ricamente adornada de 
lambeis e tapeçarias, fazia lembrar o 
scenario de um palácio encantado. A 
imaginação dos poetas não seria mais 
fértil e por certo se confessaria ven- 
cida deante da frequência e abundân- 
cia das galas e artificios. 

Ha todavia um episodio do banque- 
te que é o que mais particularmen- 
te nos interessa agora. A par duma 
representação figurando um rei gen- 
tio, acompanhado de três gigantes de 
quarenta palmos de altura, «entrou 
uma muv grande e rica mourisca re- 
torta^ em que vinham duzentos ho- 
mens tintos de negro, muito grandes 
bailadores, todos cheios de grossas 
manilhas pellos braços e pernas, dou- 
radas, que cuidavão que erão douro, 
e cheios de cascavéis dourados, e 
muito bem concertados, cousa muito 
bem feita e de muito custo por seren 
tantos e em que se gastou muita seda 
e ouro e fazião tamanho roido com 
os muitos cascavéis que trazião, que 
se não ouvião com elles, e assi houve 
outras representações e depois da cea 
muitas danças e outras muitas festas, 
que quasi toda a noute durarão, cou- 
sa certa para vêr.» 

Transcrevemos este quadrosinho, 
tão cheio de movimento, como se 
nelle revolteassem ao vivo as dan- 
ças, da respectiva Chronica^ onde es- 
tá pendente do final do capitulo 124. 

Que maravilhoso corpo de bailei 
Quem havia de dizer que D. João II, 
o homem, o taciturno, o assassino do 
duque de Vizeu, o perseguido, nas 



suas insomnias e allucinaçÕes, pelos 
espectros das suas victimas, dava um 
tão surprchendente emprezario de 
festas ! Que bello director para uma 
Grande-Opera ou para o theatro w^a- 
gneriano de Beyruth I 

Garcia de Resende, na descripção 
d'estas festas é bastante minucioso 
e se elle julgou que se tornaria en 
tadonho, descendo a mais meudos 
pormenores, enganouse, pois podia 
miniaturar á vontade, que muito agra- 
decidos lhe ficariamos por isso. Que 
matéria vasta não tinha a reporta- 
gem moderna e como ella nos des- 
creveria, com supérfluos accessorios, 
todos os recantos do scenario, todos 
os movimentos dos actores, por mais 
insignificantes que fossem! No en- 
tanto é de justiça dizer que o painel 
de Garcia de Resende é traçado por 
mão de mestre e se ha n'elle muita 
cousa ligeiramente esboçada, a nossa 
phantasia, fortemente suggestionada, 
não lhe custa a completar o resto. 

A maior lacuna que sentimos em 
Garcia de Resende é de não ter apon- 
tado o nome dos artistas e artifices 
— dos principaes ao menos— que col- 
laboram em todas as obras executa- 
das, algumas d'ellas com pouco vul- 
gar magnificência, e que tanto coope- 
raram para o brilhantismo das festas. 
Que falta para a historia da arte e 
dos artistas em Portugal ! Como nós 
lhe ficaríamos hoje agradecidos se 
elle tivesse tido a lembrança de nos 
fornecer esses preciosos elementos, 
que tão anciosamente procuramos e 
que muito parcellarmente vamos en- 
contrando, fragmentos d'um collar, 
que seria a mais rica jóia d'um Mu- 
seu archeologico e artístico ! 

Do sandeu, isto é, do bobo ou do 
gracioso da retorta, tivemos nós a fe- 
licidade de encontrar os vestígios his- 
tóricos em mais de um documento 
oíficial. Chamava-se elle Guilhelme 
Thomaz e era creado de Briobris de 
Basto. D. João II, em 7 de novembro 
de i4()0, o nomeou requeredor dos 
paços da madeira de Lisboa, em at- 
tenção aos serviços que elle prestava 



A TRADIÇÃO 



19 




— ^^oX^-^^— 



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6/lLE^m DE TVPOS POPlÍLfl^ES 




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li^Çí 




Campaniço 'tralsalbador mral do termo de Uertola) 



<^1'?J^^ 







20 



A TRADIÇÃO 



como sandeu da mourisca que ora se 
fa^ )iesías feslas do casamejito do 
priticipe^ meu sobre todos muito pre- 
gado e amado filho. 

VÃS o interessante documento na 
sua integra: 

«Dom J." etc. A quantos esta nosa 
carta virem fazemos saber que cofia- 
do nos da bondade e discrição de 
Gilelme Tomas, criado de Briobris, 
sandeu da mourisca que se ora faz 
nestas festas do casamento do prin- 
cipe meu sobre todos muito prezado 
e amado filho, e que nos servira bem 
e como a noso serviço cõpre, e que- 
rédolhe fazer graça mercê, temos por 
bem e ho damos por requeredor do 
paço da madeira da nosa cidade de 
Lisboa, asy e pela gisa que ho ate quy 
foy J.° Velho, que o dito oficio de nos 
por nosa carta tynha e se ora finou, 
com ho quall oficio (falta terá) mill 
bij' rs de mãtimento por anno a reza 
de cem rs por mercees (sic). 

E porem mandamos &c em forma. 
Dada em Évora a bij dias do mes de 
novébro ElRey ho mandou por dom 
Martinho de Castell branco do sseu 
conselho e veador de sua fazenda — 
Pêro da Mota e fez anno do nasci- 
méto de noso Sor Jhuu x.** de mil e 
iiii'^ e noventa.» > 

Quem era este Gilhelme ou Gui- 
Ihelme Thomaz ': Pelo documento que 
acabamos de transcrever ficamos sa- 
bendo apenas duas particularidades 
da sua vida — que era criado de Brio- 
bris de Basto e sandeu da retorta. 
Seria acaso mouro forro ou indigena 
africano, forro também ? O nome de 
Guilhelme, n'aquella época designa 
vulgarmente procedência estrangeira 
e o nome do patrão, Briobis, parece 
também não ter cunho nacional. 

Chegando ao reinado de D. Ma- 
nuel achamos outra vez novas do nos- 



• T. do Tombo, chro. de D. João 2.°, L. 16, 
fl. iio. Parece que o copista que registou o 
documento se enganou, pois o ordenado a 
cem rs por mez, devia dar por anno mil xij 
(mil e duzentos) e não mil e bjj' (mil e sete- 
centos). 



so sandeu. Havia-se elle embarcado pa- 
ra a Guiné, e segundo constava, lança- 
ra-se com os negros da terra. Era en- 
tão um costume frequente. Os portu- 
guezes, ou talvez antes os escravos 
forros e descendentes d'elles, tinham 
uma grande tendência para se fami- 
liarisar com o gentio africano, toman- 
do os seus costumes, n'um atavismo 
selvagem, n'uma regressão á vida 
primitiva. Os factos eram nume osos 
e tanto que se legislara sobre o caso. 
D. Manuel, como o Guilhelme havia 
dous annos que não voltara, lhe tirou 
o logar de requeredor dos paços da 
madeira e o deu a Gonçalo Ferreira, 
morador na cidade de Lisboa. A res- 
pectiva carta, de 3o de agosto de 
i5oo, é do theor seguinte: 

«Dom Manuell &c A quamtos esta 
nosa carta virem ffazemos saber que 
a nos disseram ora que huu Gu3'lhell- 
me, criado de Brecbrys do Basto e 
requeredor que era do nosso paço da 
madeira desta cidade, passava de 
dous annos que fora pêra Guyne e 
se lançara com os negros sem num- 
qua mais tornar a servir o dito oficio 
e que por ello o perdia e o podíamos 
dar a quem nossa mercê fosse, polia 
quall razam, se asy he como a nos dis- 
seram, querendo fazer graça e merçe 
a Gonçallo Ferreira, morador na dita 
cidade, temos por bem e lhe fazemos 
mercê do dito oficio de requeredor 
da cassa do dito paço da madeira 
quanto a nos de direito pertence e lho 
dar podemos. E porem mandamos ao 
nosso comtador. . . . Dada em a nos- 
sa cidade de Lixboa aos xxx dias da- 
gosto — EllRey o mandou per dom 
Martinho de Gastei Branco senhor 
de Villa Nova de Portimaão, do seu 
conselho e veador da sua fazenda — 
Francisco de Matos a fez — anno do 
nascimento de nosso Sõr Ihuu xpo de 
mill e quinhentos annos.»* 

Resta-nos agora dizer duas pala- 
vras acerca de Briobis de Basto. Era 



1 T. do Tombo, chanc. de D. Manuel, L.° 
12, folh. 45. 



A 'IKAhlCAo 



21 



cavalleiro da casa real e bom caval- 
leiro, ao que parece. Acompanhou l). 
Atíonso \' em todas as suas campa- 
nhas e trabalhos bellicos e íoi por 
certo um dos combatentes da batalha 
de (Lastro Queimado, mais conhecida 
pelo nome de Touxo. Foi n'esta cida- 
de, a 1? de março de i47() que I). 
AlVonso V assignou a carta, pela 
qual, em satisfação de seus serviços 
e casamento, lhe tazia mercê da ten- 
ça de 2 2 mil reaes brancos. Em i4<,<'), 
em carta de 12 de março, passada em 
Montemór-o-Novo, D. Manuel lhe 
confirmara o cargo de escrivão da 
portagem de Lisboa, que D. João II, 
lhe tinha dado. 

I.ibboa 27 de Fevereiro de njuo. 

SOUSA VITERBO. 



Crenças, superstições e usos tradicionaes 



I 

LOBIS-HOMENS E BRUXAS 

*-f^ A vastíssima cohorte de seres 
À- C mysteriosos que povoam a ima- 
ginação do vulgo, estão em primeiro 
logar os lobis-homens e bruxas. 

Sendo geral, por assim dizer, esta 
crença, varia comtudo na forma, 
d'uma para outra localidade. 

Descrevo-a portanto tal como aqui 
se crê e conta, na ideia de que, em- 
bora repise qualquer outra tradição, 
sempre haja alguma particularidade 
interessante e inédita. 

Isto dito, entremos nas regiões ma- 
ravilhosas e nevoentas da crença po- 
pular. 

* * 

Quando um casal tem sete filhos 
do mesnio sexo, o ultimo que nasceu 
é lobis-homem ou bruxa, conforme a 
serie é de rapazes ou de raparigas; 



e só poderá livrar-se do triste con- 
dão, se o primogénito fôr padrinho 
do baptismo do seu inleliz irmão, ao 
qual tratará sempre por afilhado. 

Se a criança fôr baptisada sem esta 
cerimonia, nada já pode obstar a que 
siga o seu destino, ale que alguma 
alma corajosa, lhe quebre o fado fa- 
:{eudo-llic saiifriie. 

Digamos em que consiste esse fado 
na imaginação dos crentes. 

O lobis-homem vive de dia como 
qualquer alma christã^ e so se dilVe- 
rença dos homens em ter uma callosi- 
dade na palma das mãos, vestígio in- 
delével das suas excursões nocturnas. 

Quando são horas de repouso, co- 
meça elle o seu fadário. 

Sae de casa debaixo de chuvas e 
ventos (porque quanto mais tempes- 
tuosa é a noite mais (j fado o impelle 
a sairi. 

Tma vez na rua, vae em busca de 
um espojadouvo onde se espoja até 
adquirir a forma de jumento de côr 
preta; e n'essa nova phase investe 
contra tudo o que encontra, pisa as 
searas, e, corrido pelo canto dos gal- 
los, percorre, em vertiginosa carrei- 
ra, sete jnlas acasteladas^ até ao rom- 
per da aurora, que é quando torna ao 
espojadouvo para readquirir a forma 
humana, e na outra noite tornar a 
percorrer o cyclo do seu fadário. 

Se durante as desordenadas car- 
reiras (porque corre como o pensa- 
mento) (sic) algum mortal o ferir, 
ainda que ligeiramente, retoma logo 
a forma humana e acaba o fado. 

E' crença, porém, que vive pouco 
tempo depois de liberto. 

No dia seguinte á correria o indivi- 
duo que é lobis-homem, sente um 
grande cançasso, do qual não conhe- 
ce a causa. 

O maior inimigo do lobis homem é 
o gallo. 

Presente-o e denuncia-o immedia- 
tamente. 



1 Assim chamam no campo aos seres hu- 
manos. 



A TRADIÇÃO 



Quando se ouve um gallo cantar 
fora das horas habituaes, isto é, antes 
da meia noite, é certo que nas proxi- 
midades anda retouçando algum lo- 
bis-homem ou bruxa, que so fugirá 
dali ao seu terceiro canto. 

A côr do gallo iníiue poderosa- 
mente no poder esconjurativo do ani- 
mal. 

E' preferido em primeiro lugar o 
de còr preta; todos os outros lhe são 
inferiores cm virtude, sendo o branco 
o que menos poder possue, chegando 
muitas vezes a não ter força para 
afastar do sitio o lobis-homem. 



As bruxas tendo a mesma origem, 
como tica dito, a sua missão é outra, 
não tão violenta e agitada, mas mais 
perniciosa e fatal. 

Logo depois do pôr-de-sol, quando 
a Noite começa a descer sobre a 
Terra que adormece, as bruxas tran- 
sformam-se nuns seres invisíveis e 
começam as suas depredações. 

Entram nas casas pelo buraco da 
fechadura^ sujam as creanças e adul- 
tos, reduzindo-os a quasi esqueletos, 
e tão tristes, que nunca mais a luz 
d um riso vem purpurear-lhe os lá- 
bios. 

E' bruxedo^ diz o povo ingénuo e 
crente. 

Pelas noites sombrias reunem-se as 
bruxas nas encruzilhadas das ruas ou 
das estradas, para ahi fazerem as suas 
sessões. 

Ouvem-se então gritos sinistros, 
gargalhadas fatídicas, e outras coisas 
tétricas e lúgubres. 

Outras vezes entretêm-se a des- 
nortear o aldeão que anda toda a 
santa noite perdido pelas serras que 
elle conhece pedra a pedra, moita a 
moita, e ao vel-o assim as bruxas sol- 
tam gargalhadas dcscarneo! 

Eis a bruxa da crença popular, que 
reina por estes sitios. 

Uma espécie de tigre que óra lambe 
a preza, óra a despedaça nas garras. 



Para muitos a bruxa é synonymo 
de feiticeira. 

Aqui, porém, parece fazer-se dis- 
tinção. 

A feiticeira é uma mulher que dis- 
põe de mau olhado e está iniciada nas 
praticas misteriosas dos quebrantos. 

A bruxa, como acabámos de ver, 
é um ser impalpável e invisível, nem 
sempre de funestas consequências 
como o attesta a narração popular. 

Ha varias receitas e operações 
para afastar as bruxas, assim como 
para curar os seus malefícios. 

A persignação é tida como um dos 
melhores remédios. 

Quando uma criança boceja, ouve- 
se logo a mãe ou qualquer outra pes- 
soa aconselhar: 

— «Faze uma cruz na boquinha por 
causa das bruxas» — . 

Também quando nos succede qual- 
quer coisa desagradável, é costume 
dizer: — «Parece que não me benzi 
hoj e ! » 

Como preservativos usa-se a figa^ 
o comicho., e outros objectos de que 
faremos descripção, quando tratar- 
mos dos amuletos populares. 

ARRONCHES JUNQUEIRO. 




A caça no coiiGellio de Serpa 



(Continuado de pag. 14) 



QUANDO alguém passa d'um corgo 
para outro, atravez das portei- 
las, díz-se que aportilhou. A' depres- 
são que se oberva no extremo do pon- 
tal, ou focinho., dá-se o nome de «por- 
ta baixa», e dá-se egualmente este no- 
me á depressão existente entre dois 
outeiros de pequenas dimensões. 

Umbria é a ladeira mais sombria, 
por ficar virada ao norte ou a este, 
e onde o matto cresce com enorme 



A IK. A DICA o 



23 



vigor: chamnndo-se á ladeira oppos- 
ta soalheira. Ha umbrias de matto 
tão velho e tão espesso e alto, que é 
quasi impossivel atravessar. As bar- 
rancadas, essas então não é possível 
atravessal-as, nem mesmo os mais 
experimentados. Até os cães dillicil- 
mente alli podem caçar. 

Os valles, largos e limpos de mat- 
to na sua maior parte, são, como to- 
dos sabem., o leito ou berço d'estes 
terrenos. Miilhadal é o sitio quasi 
plano ao lado dos pontaes ou outei- 
ros, em ponto elevado, onde os guar- 
dadores de gado fazem malhada ou 
dormida, ao abrigo dos ventos tem- 
pestuosos. Nestes logares deixa de 
crescer o matto; e em consequência 
dos estrumes que o gado alli depo- 
sita, cresce a erva, que os coelhos 
depois vêem comer. 

Os outeiros, que sobresáem d ou- 
tros que os cercam, denominam-se 
atalaias ; e quando havia rezes, ser- 
viam elles para atalaiar^ como ao 
diante se dirá quando tratarmos da 
caça grossa. Algumas d'estas atalaias 
foram escolhidas para a collocação 
de pyramides no levantamento da 
carta geodésica. 

Chama-se mancha a uma porção 
de terreno formado de umbrias e 
córgas, ordinariamente cobertas de 
matto, basto e crescido, onde a caça 
costuma acolher-se. E' á mancha que 
os caçadores circumscrevem a batida. 

Quando a caça se abriga em mat- 
to, que melhor a defende do caçador 
e dos cães, diz-se que se emmanchou. 

'Verdi/f^al é o nome dado ao mat- 
to delgado, crescido, basto e muito 
verde. 

Machiciros são moitas de urze 
branca — tirso^ como aqui lhe cha- 
mam todos os homens do campo e 
os caçadores. 

(lilgarejos : pequenos algares ou 
furnas onde o matto cresce muito. 
São geralmente formados pelas fra- 
gas e depressões bruscas do terreno. 
Manantio é o mesmo que manancial 
Os javalis procuram, para se rebo- 
carem, os manantios sempre cheios 



de juncos, matto crescido, machici- 
ros e carrasqueiros. 

Os mattos, que mais se encontram 
na serra de Serpa, são os seguintes : 
estevas, sargaços, medronheiros, len- 
tiscos, carrasqueiros de azinho e so- 
bro, adérnos. sanu;n{nhos (arbusto, 
cuja madeira, d'um amarello vivo. 
dá tinta da côr do sanguej, tojos, ale- 
crim, rosmaninhos, o chamado malto 
do ar% e a erva arcai, muito usada 
pela gente do campo para medica- 
meniações. 

Nos terrenos de caça miúda, como 
charnecas, o matto é curto. Nos bar- 
ros ou herdades vêem-se moitas, pou- 
cas, de piorno, rosella e outras er- 
vas; e nos montados, alguns carras- 
queiros, rosellas e sargaços. 



Noutros tempos, caçava se mais e 
melhor. A caça era o exercicio e dis- 
tracção dos remediados da fortuna, 
dos ricos, (como o povo aqui designa 
os que vivem dos seus rendimentos) e 
constituia a diversão dos que trabalha- 
vam ou viviam do seu trabalho. Para 
outros era um dever do cargo que exer- 
ciam e neste caso estavam os coiteiros, 
os malhadeiros e os guardas ruraes. 

Hoje também se caça, mas d'outro 
feitio. 

Toda a gente tem espingarda e vae 
caçar, umas vezes por outras; mas 
quem mais caça são os pobres, que 
fazem d'isso, alguns, modo de vida. 

O que é rarissimo, hoje, é fazerem- 
se as boas e luzidas caçadas doutros 
tempos, e ajuntarem-se regularmente 
todos os sabbadoí, para irem caçar, 
as grandes joldas ou ranchos de ca- 
çadores. Antigamente realisavam-se, 
em diversas epochas do anno, caça- 
rias á caça grossa e á caça miúda, 
as quaes eram organisadas com espe- 
cial feição, conforme ao depois direi. 

As herdades d'este concelho, na 
sua maior parte, conheci-as ainda 
cheias de carrascaes e piornaes onde 
a caca ia acoitar-se. E a serra estava 



•24 



A TRADIÇÃO 



coberta de cerrados matagaes, for- 
mando compridas manchas, muito 
férteis em caça grossa. Hoje, as her- 
dades estão inteiramente linipas de 
matios e moitas, e a serra devastada 
pelas queimas. Esta circumstancia, 
mas talvez mais a facilidade das via- 
gens e várias outras distracções ac- 
cessiveis aos que podem dispor de 
meios de fortuna, é certamente a 
causa de não se organisarem já,.como 
outr ora, as esplendidas caçadas, em 
que durante dias e semanas os caça- 
dores se divertiam. 

Aquellas boas e grandes caçadas 
que eu conheci, e de que tantas sau- 
dades tenho, enrijavam os músculos 
no exercício de longas marchas e da- 
vam a promptidão e a destreza no 
manejo da espingarda, que se dispa- 
rava com a certeza de attingir o alvo. 

O caçador tem geralmente bons 
pulmões e perna rija; é sóbrio; go- 
sa saúde ; e habitua-se a soffrer a 
fome e a sede, por longas horas, e a 
dormir em qualquer parte. Respiran- 
do, á farta, o magnifico ar puro dos 
campos, tão cheio do aroma das Ho- 
res e dos arbustos, o caçador come 
bem, e digere optimamente devido ás 
finíssimas aguas da serra, muitas das 
quaes são férreas. 

Com a espingarda, em que plena- 
mente confia, posta ao hombro, — 
polvarinhos bem aprovisionados, — 
um pouco de pão com qualquer con- 
ducto dentro da mochila, — e acom- 
panhado do seu cão, fiel companhei- 
ro, — o caçador não teme nada! Per- 
corre sem medo as grandes serranias, 
parecendo-lhe ser o rei doestas para- 
gens, e dorme sem a mais leve preoc- 
cupação em qualquer ponto dos ex- 
tensos mattagaes. 

N'estes sitios, onde não havia nem 
ainda ha escolas de gymnastica, nem 
de tiro, a caça substituía esses exer- 
cícios e creio que com vantagem, 
principalmente na mocidade, sendo 
aliás muito proveitosa para a saúde 
em todas as edades. 



GS lYEJOSS 



(Contínua.) 



A. de Mi:i.I.O BREfNSR. 



ESTAMOS chegados á época do an- 
no em que elles apparecem, os 
avejões. . . Em que elles apparecem é 
um modo de dizer, porque os ave- 
jÕes, conforme o povo os imagina, 
nunca apparecem, nem apparecerão 
jamais. No entanto ha sempre quem 
os ve]a^ quem lhes fuja, quem suc- 
cumba ouvindo os seus rugidos mys- 
teriosos, quem fique Q\lé.cúco perante 
os lampejos da sua chamma, outras 
vezes perante o seu aspecto horrendo 
e trágico ; — mas tudo isso, resultado 
d'uma illusão ruim, d'uma espécie 
d'insania devida ao meio imbecilisa- 
dor em que essa pobre gente vive . . . 
— Aqui é um bando de cretinos, 
estarrecidos de medo porque todas 
as noites, á mesma hora, vêem pas- 
sar uma enorme figura alvejante, que 
arremessa pedregulhos como uma 
funda ; além é um bairro inteiro alar- 
mado porque todas as noites passam 
gemendo, sobre os telhados das ca- 
sas, duas brancas figuras esguias... 
talvez dois homens gigantescos e ma- 
gros, vestidos de branco, ou em rou- 
pas menores; acolá é uma família in- 
teira, afflictissima, por fim definhada 
e cadavérica, porque todas as noites 
o prédio lhe abana como em occa- 
síão de terramoto, ameaçando cahir, 
submergindo a todos debaixo das suas 
temerosas ruinas... E muitos casos 
mais, que não vale a pena enumerar 
— sombra espessa da tradição ins- 
ciente, resquícios d'uma educação cri- 
minosa, producto venenoso d um pas- 
sado sombrio! 

E vejam isto, que é o que mais 
espanta : Pessoas engravatadas e de- 
centes frequentam estas diversões, 
quero dizer, accorrem a estes espec- 
táculos tristíssimos e symptomaticos, 
não aconselhando juízo aos ludibria- 
dos, mas incorporando-se como au- 
xiliares sinceros — aqui para evitarem 
as pedradas da funda... que nunca 
existiu ; além para darem á prisão os 
homens — phantasmas que passeiam. 



A TRADIÇÃO 



2õ 







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'^^^£: 



c^j^eioj^Ei^o yitu^^h 



II 

Carmesita, Carmesita 



Ok/wô*"^ 




(DESCANTE) 



^(d1í>J[(5^' 





f 



26 



A TRADIÇÃO 



gemendo, sobre os tectos das casas . . . 
sem quebra duma única telha ; acolá 
para ampararem os prédios sacudi- 
dos por mão desconhecida. . . e tão 
desconhecida que ninguém jamais a 
sentiu ou a enxergou ; finalmente 
«para rercm com os seus próprios 
olhos» dizem elles. . . que tanto pode 
a acção deletéria do meio I 

O' tradição, tradição ! com que pre- 
ciso cuidado tem de ser feita a tua 
escripia (ja não digo — escolha) — 
mescla de trigo e joio que dá vida, e 
mata, conforme o exemplo é levan- 
tado ou baixo, verdadeiro ou falso, 
decoroso ou vil I Mineiros deste mi- 
nério que se não cava; beneméritos 
desta campanha intellectual que tem 
por fim resuscitar o passado para o 
comparar com o presente : muito cui- 
dado, pois I Não occulteis nada... 

Saber, saber — eis o grande anceio 
das almas! Portanto — critério, opi- 
nião individualista, isto é, a consciên- 
cia do escriptor — que não fique no 
fundo do tinteiro... E na maneira 
de dizer é que está, muitas vezes, 
tudo : a luz ou a treva, o bem ou o 
mal, a verdade ou o erro. 

Quando eu era rapaz e que fre- 
quentava de noite a rua em pergunta 
d'amôres. . . tantas vezes apenas ima- 
ginados! um modesto chale-manta 
que eu tinha, claro como a tradicio- 
nal vestidura dos avcjões, fez-me pro- 
tagonista de scenas hilariantes, e al- 
guns sustos me acarretou também, a 
pobre cobertura inoífensiva, quasi 
tão branca como a consciência cl'um 
justo: Umas vezes eram os habitan- 
tes do sitio, amedrontados, fechando 
estrepitosamente as portas, ou os pos- 
tigos, das respectivas casas dhabita- 
ção; outras, gente fugindo e gritan- 
do : lAIém vem ellel além vem elle !»; 
muitas outras, sentindo que corriam 
para mim alguns homens armados, 
com espingardas ou espadas em po- 
sições ameaçadoras, bradando roucos 
de cólera e medo : — que fizesse alto, 
que fizesse alio I Recordo o seguinte 
caso cómico, succedido comigo ha 



annos, que dá bem a idéa do que 
por aqui vai ainda, ácêrca da tal pa- 
tacoáda dos avejões : 

Era meia noite. . . {e o sói vaiava^ 
não ! ) e a lua, deslisando no azul do 
ceu, espalhava uma doce claridade 
toda cheia de mysterio, que até, 
parece, fazia sonhar a gente. . . Noite 
d'amores ! Por isto talvez, por ódio 
talvez, cães ladravam e mordiam-se, 
de pêllo hirsuto e dentadura hostil, 
produzindo um d'esses sussurros de 
tom sinistro, que, a horas mortas, 
faz sobresaltar as almas dos maus e 
dos ingénuos. Eu passava ; e como 
nunca, até hoje, a minha consciência 
me mandou precaver contra o des- 
conhecido, passava, como sempre, 
sem arma de fogo para aggredir, sem 
um pedaço de ferro para me defen- 
der ; por outra — como ia munido, 
apenas, da minha bengalita e me vi 
diante d'aquella canzoada de quei- 
xo á solta, recorri a um pedregulho 
qualquer em que topei, e arremessei- 
o ao primeiro digitigrado que, furio- 
samente, se me atirou ás pernas... 

Que fui eu fazer ? 

Era em uma praça da povoação, 
extensa e arborisada. Uma das suas 
faces lateraes era constituída pela 
frontaria d'enorme prédio, e respec- 
tivo quintal ; e, adiante das paredes 
d'este, como que pondo uma nódoa 
de demarcação no bello recinto da 
praça, um velho alpendre de ferra- 
dor. Em o primeiro andar do prédio 
fora installada uma sociedade philar- 
monica. Pois foi rente da porta d'en- 
trada d'este edificio, que passou, zum- 
bindo e aos galões pela calçada, o 
pedregulho atraz referido. Estávamos 
então no apogeu d'uma ridicula ne- 
vróse do medo dos avejões. . . E pa- 
rece que vinha a sair um dos mú- 
sicos que, possuido de susto precon- 
cebido, e também da realidade pal- 
pável da pedra faiscante, recuou e 
fugiu pela escada acima, alarmando 
15 ou 20 sócios com os seus gritos 
sinceros e mais ainda com a pallidez 
do seu rosto apavorado. Não havia 
dúvida : doesta vez era elle ! 



A TRADIÇÃO 



27 



Correram todos as jancllas para 
se desenganarem. «Lá 'stá, Ia 'stá !» 
diziam. Depois fechavam estrepito- 
samente I tornavam a abrir I torna- 
vam a fechar. . . Doidos varridos ! -- 
Notc-se : eu ainda não tinha compre- 
hendido. Kspcrei mais uns segundos, 
e marchei ao meu destino, sem sa- 
ber explicar a mim mesmo, é certo, 
o alvoroço que notara e os gritos 
abafados que ouvira. . . 

— Ao outro dia. . . era um faliató- 
rio de mil diabos ! Numa repartição 
publica, em que entrei, fui lecebido 
por estas exclamações triíimplhvitcs: 
u Então, não lhe diziamos nós ? Ainda 
negará ? ainda duvidará ? Viu-se hon- 
tem ! Muita gente o viu I Ninguém 
se atreva a negal-o, agora ! Kra meia 
noite em ponto. . . As pedras ferviam 
naquellas janellas da sociedade. Ha 
la buracos que lhe cabem punhos ! 
E sumiu-se como por encanto ! Pa- 
rece que se abriu o chão com ellc». 

f^u nem pestanejava. 

Mais calmos, contaram-me então 
que o velho continuo, á frente da 
mocidade frequentadora da qssocia- 
ção — aquelle de clavina, e estes mu- 
nidos de toda a sorte darmas, desde 
a pistola mais ferrugenta até á es- 
pada mais inglória — se dirigiram ao 
sitio onde eu estivera, gastando quar- 
tos dhora nessa arriscada pesquisa, 
e acabando por assaltar o alpendre, 
onde suppunham o avejão deitado ao 
comprido atraz do banco de ferra- 
dor. . . Ainda se lhes arrepiavam os 
cabellos ao contarem isto I 



\'idigueira. 



(Conclue.) 



FEDRO COVAS. 



P.IMAS J^OPULAI^ES 



— Licença peço, menina, 
Licença vos peço inteira 
Para colher uma rosa 
l)'essa tão fresca roseira. 



— A licença, eu vol-a dou 
Mais a Scnh<fra da Guia. 
l)izci-mc, senhor mancebo, 
Veio por alguma via ? 

— A via por que aqui venho 
Eu lh'a digo na verdade : 
Venho para p.issar tempo, 
Que é coisa da mocidade. 

— Se c coisa da mocidade, 
l)i/ei-me, amor do bem quVer 
Sabe cantar ou tocar? 

Sabe ler ou escrever? 



— Não sei ler nem escrever, 
K nem sei tocar viola, 
Mas espero de apprender, 
Menina, na vossa escola. 



— Escola, se é qu'eu a tenho, 
N'ella não ha-de apprender* 
Não tem senso nem memoria 
Para n'ella saber ler. 



— Eu cuidei, minha menina, 
Que vós me quizesseis mais. , 

— Muito vos quero, m;incebo, 
Mas é bom que já marchais. 



— Tenho-vos querido immenso, 
Com alma e do coração, 
Mas a rosa que aqui está 
Não lhe haveis de pol-a mão. 



— Se lhe não pozer a mão 
Não hei-de viver comvosco; 
Mas em 'star á vossa vista, 
Menina, tenho bom gosto ! 

— Se tendes esse bom gosto, 
Desgostai, por vida nossa; 
Esta rosa que aqui esta 

E' d'outro, que não e vossa. 



— Se é d'outro, que não é minha, 
Talvez não tenha de o ser. . . 
. . Menina, diga a seus pães 
Que a mandem arreceber. 



— Isso é que eu lhe não direi, 
Eram razões escusadas ; 
Meninas de quinze annos 
Não sabem governar casa. 



— Meninas de quinze annos 
Governam casa e marido. 
Assim fareis vós, menina. 
Quando casares commigo- 



— 'Stá bem dita essa razão. 
Vós, mancebo, a dissesteis; 
Mas alem 'slá o caminho, 
Voltae pelo que viesteis. 

— O caminho que atem 'stá, 
Bem o estou vendo d"aqui, 
Mas por elle nunca irei 
Sem a rosa a par de mim. 



— A rosa não levará 
Porque ella não quererá; 
Mas vinde cá outra vez, 
Que a resposta levará. 

— Outra vez é que eu não venho 
A gastar solas de balde; 

Não quero amores á força 
Nem contra a sua vontade. 



— Vinde, amorinhos humanos: 
Namorei os vossos olhos 

Da edade de quinze annos. 

— Vinde, amor da caridade : 
Namorei os vossos olhos 
Sendo elles da mesma edade. 

(Da tradição oral, em Serpa). 

JOÃO VAREIíXiA. 




MODAS-ESTRlIilLlIOS ALEIITEJANAS 



Carmesita, Carmesita, 
Carmesita da lembrança! 
Anda, vem dançar ao meio 
Uma linda contradança ! 

Uma linda contradança, 
Anda, vem dançar ao meio ! 
Carmesita, Carmesita, 
Dança, não tenhas receio. 

M. DIAS NUN£S. 



LENDAS & ROMANCES 

(Recolhidos da tradiçSo oral na província do AlemtejoJ 



D. LEONARDA 
(I.* v.Triante do romance Bella Infanta) * 

Estando D. Leonarda, 
No seu jardim assentada. 
Penteando o seu cabello 
Com pentes d'ouro e prata, 
Deitou os olhos ao mar 
E viu vir uma grande armada. 
O capitão que vem n'ella 
Tral-a muito bem guiada. 

— Dizei-me lá, capitanos, 
Dizei-me pela vossa alma, 

Se esses amores que eu tinha 
Vêem lá na vossa armada. 

— Esses amores, senhora, 
La os vi morrer na guerra, 
A mais pequena facada 
Era a cabeça cortada. 

— Ai de mim ! triste viuva ! 
Triste viuva, coitada ! 

— O que deras, vós, senhora, 
A quem vTo trouxera aqui ? 

— As telhas do meu telhado 
Que são de ouro e marfim. 

— Não quero as vossas telhas, 
Não as pretendo p'ra mim, 
Sou soldado, vou á guerra. 
Não pretendo o estar aqui. 

— De três moinhos que tenho 
Dar-vos-hei o mais gentil: 
Um móe cravo, outro cannela. 
Outro moe trigo anafil. 

— Não quero os vossos moinhos, 
Não os pretendo pVa mim, 

Sou soldado, vou á guerra. 
Não pretendo estar aqui. 
O que deras vós, senhora, 
A quem vTo trouxera aqui ? 

— De três filhas que tenho 
Dar-vos-hei a mais gentil, 
Uma metterei-a freira, 
Outra fica para mim. 

— Não quero aí vossas filhas, 
Não as pretendo p'ra mim, 
Sou soldado, vou á guerra. 
Não pretendo o estar aqui. 

O que deras, vós, senhora, 
A quem vTo trouxera aqui .'' 

— Não tenho mais que vos dar, 
Nem vós mais que me pedir. 

— Senhora, podieis dar 
Esse corpo tão gentil. 

— Cavalleiro que isso pede 
Precisa ser arrastado 

Ao rabo do meu cavallo, 
Em redor do meu jardim ; 



1 O romance Hella Infanta foi publicado no ultimo 
numero da Tradição de yy. 



A TRADIÇÃO 



2y 



Desçiim criailos abaixo, 
Venham fa/el-o assim. 
— Dcixcm-se estar lá, criados, 
Não sejam tão bem mandados, 
Que esse pão que estão comendo 
Eu bem lh'o tenho ganhado, 
l.embrae-vos ó vos, senhora, 
Quem comvosco repartiu 
Um annel de sete pedras ? 
Mostrae-me a vossa ametade, 
Que a minha, eil-a aqui. 

Villa tíoim. 



AI, TRISTE DE MIM, VIUVA 



(2 • variante do romance 'Uella Infanta) 

— Onde vaes, ó Isabel, 
Onde vaes assim, viuvada ? 

— Vou contar á Viriíem Santa 
Minha vida malfadada ; 

Ai, triste de mim, viuva. 
Ai, triste de mim, coitada ! 
Com ires tilhas que eu tenho, 
Sem nenhuma ser casada ! 
Virgem Santa, Virgem Santa, 
Gavião que appareceu, 
As três hlhas me roubou, 
As ires rilhas me perdeu... 
Ai, triste de mim, viuva, 
Ai, triste de mim, coitada! 
De ires filhas que eu lenho, 
E nenhuma bem casada ! 
O marido me abalou, 
E na guerra me morreu. . . 
Estas noticias me trouxe 
Um compadre d'elle e meu. 
Ai, triste de mim, viuva. 
Ai, triste de mim, coitada ! 
Marido e rilhas que linha, 
Agora estou desamparada ! 

— Ouça lá, comadre minha, 
Ouça lá, minha comadre, 
Desamparada não está, 
Acceite a mão do seu compadre ; 
Ai, triste de ti, viuva, 

Ai, triste de li, coitada ! 
Inda tão nova e tão linda, 
E por todos desprezada. 

— Vae-te d'aqui tentador, 
Vae-te ávem de mau agoiro. 
Zunes em redor de mim, 
Como se fosses um besoiro. 
Ai, triste de mim, viuva, 
Ai, triste de mim, coitada! 
Nem ao pé da Virgem Santa 
Por este homem sou respeitada ! 

— Esse homem hade-le respeitar! 
O' minha mulher querida, 
Trago-ie aqui tuas filhas 

A quem deste alma e vida ; 
Eu nas guerras não morri. 
Esse homem é que mentiu, 
P'ra te render a ser d'elle 



Com tuas filhas fugiu. 
— Bemdita e louvada seja 
A Virgem Sania Maria, 
Que me dá os meus amores 
E me enche d*alegria ; 
Bemdita e louvada seja 
A Virgem Santa Maria. 



lilvas, 



A. THOMAZ PIRES. 



CONTOS ALENTEJANOS 



o Ze-Valent9 

ERA uma vez uma viuva, que tinha 
um filho tão corajo.so que con- 
tando já dczasctc annos d'edade, ain- 
da não tinha encontrado coisa nenhu- 
ma que lhe mettesse medo. Por isso, 
na aldeia só era conhecido peio nome 
de Zé-Valente. 

Este rapaz era afilhado dum pa- 
dre, a quem elle ajudava ú. missa. 
Além disso tocava os sinos e fazia 
outros serviços. 

O padre e padrinho, d'uma occa- 
sião, querendo experimentar até onde 
chegava a valentia do afilhado, ar- 
ranjou dois bonecos de palha de cen- 
teio, vestiu-os de branco e poz um 
na torre da egreja, agarrado ao ba- 
dalo do sino, fingindo que eslava to- 
cando ás almas •, o outro, no meio 
da escada da torre. \í elle, embrulha- 
do num lençol, poz-se á porta da 
egreja, mas do lado de dentro. 

O rapaz quando viu que eram ho- 
ras d'ir tocar ás almas, foi para a 
egreja ; e assim que abriu a porta 
viu logo um vulto branco. Olhou 
para o vulto branco e disse-lhe : «O' 
amigo! desvia-te para o lado, que eu 
quero passar, para ir tocar ás almas.» 



' Toque d'almas: consiste em nove bada- 
ladas, dadas no sino da freguezia, ás 8 ho- 
ras da noite, d'inverno, e ás 9 horas da noite, 
de verão. 



30 



A TRADIÇÃO 



O vulto não respondeu nem se me- 
cheu. O rapaz tornou a dizer-lhe que 
se disviasse, para elle passar; mas o 
vulto continuou na mesma. O rapaz 
então, pregoulhe uma valente cachei- 
rada, com uma cacheira de ferro, 
que elle nunca deixava, deitando o 
vulto a terra. Depois de derrubar o 
vulto, subiu pela torre. Quando che- 
gou ao meio das escadas, viu outro 
vulto branco, e, cuidando que era o 
mesmo que elle tinha derrubado á 
porta da egreja, disse-lhe: «O' ladrão ! 
já tu aqui estás ri» E immediatamente 
deu-lhe outra cacheirada. Depois con- 
tinuou a subir até chegar ao cimo da 
escada. Ahi, vendo um outro vulto, 
e suppondo que era ainda o mesmo, 
já não lhe disse nada : pegou-lhe nas 
pernas e deitou-o da torre para baixo. 
Em seguida, tocou ás almas e vol- 
tou para casa. No outro dia foi a casa 
do padrinho para ira algum mandado, 
mas o padre assim que o viu, disse- 
lhe : «põe-te na rua, tratante, e não 
tornes mais a esta casa». O rapaz 
ficou muito admirado, e, desconfian- 
do que tinha sido o padrinho que lhe 
tinha querido metter medo, foi para 
casa e contou á mãe tudo o que lhe 
tinha acontecido. Depois disse: «Mãe, 
eu vou correr mundo e só volto quan- 
do tiver encontrado uma coisa, que 
me metta medo». E antes que a mãe 
dissesse qualquer coisa, pegou na ca- 
cheira e saiu. 

Havia já uns poucos de dias que 
elle tinha saido de casa, quando 
uma tarde, quasi ao pôr do sol, che- 
gou a um monte onde pediu agasa- 
lho. Mas o lavrador, como não lh'o 
podia dar, disse-lhe : 

— «O' rapaz! tu vés aquelle monte, 
que está naquella altura, no meio 
das brenhas r» 

— «Vejo, sim senhor» — respondeu 
o rapaz. 

— «Pois bem, eu não posso darte 
o que me pedes, e se não queres 
dormir ao frio, vai para além». Mas 
acautela-te, porque dizem, que quem 
lá vai, não torna.» 

— «Pois fez bem em me dizer isso. 



porque agora, ainda que me deixasse 
aqui ficar, já eu não queria.» O la- 
vrador disse depois á mulher, que 
desse ao rapaz um pão, um pedaço 
de toucinho, uma linguiça e uma ti- 
gela de fogo, para elle fazer a ceia. 
A mulher do lavrador assim fez, e o 
Zé Valente, logo que chegou ao mon- 
te, arranjou um braçado de lenha, 
acendeu o lume, e tratou de fazer 
uma friginada (fritada) com a carne 
que levava. Assim que poz a ceia ao 
lume, quando elle ouve uma voz vin- 
da de cima da chaminé, dizendo : 
«ái que caio... ái que caio. .. » Zé 
Valente, ouvindo isto, pegou logo na 
cacheira \ olhou para cima e disse : 
«cái á vontade, mas não me caias 
em cima da friginada.» Assim que 
estas palavras foram ditas, caiu um 
par de pernas, a que Zé Valente não 
deu cavaco, continuando a dar voltas 
á carne, que estava dentro da tigela. 
D'ahi a bocadinho, ouviu a mesma 
voz dizendo outra vez : « ái que caio . . . 
ái que caio...» Deu a mesma res- 
posta, e viu cair um corpo sem ca- 
beça (tronco), que se uniu ás pernas. 
Zé Valente, então, disse : «Ora se 
tu has de cair todo, porque não cães 
logo duma vez?» Dito isto, caiu a 
cabeça, que foi unir-se ao corpo, trans- 
formando-se este num gigante ! 

O gigante, encostando os cotovêl- 
los aos joelhos e a cabeça ás mãos, 
disse para o Zé Valente: «Olha, eu 
sou uma alma penada^ que só tinha 
entrada no ceu, quando encontrasse 
uma pessoa que não tivesse medo de 
mim ; e como tu és essa pessoa, que- 
ro recompensar-te o serviço que me 
fizeste. Além, naquelle canto, está 
enterrado um azado cheio de peças 
de dez mil reis ; cava com esse en- 
xadão e leva-o.» 

(Contínua.) 
iDa tradição oral — Hrinches) 

ANTÓNIO AIíEXANDRINO. 




A TRADIÇÃO 



31 



BIBhlOGKAPHIA 



Bohemia de Coimbra^ por Alfredo d' 
Prait. — De ha muito que a vida academic.i 
coimbrã deveria ter sido estudada e descri- 
pta, sobietudo no seu aspecto bohemio, tão 
original e tão portuguez. 

Parece incrivel, até, que similhante traba- 
lho estivesse por lazer, depois do extraor- 
dinário incremento que em toda a parte to- 
mou, no ultimo quartel do século XIX, a 
pormenorisada investigação dos velhos usos 
e costumes tradicionaes subsistentes, e quan- 
do é certo haverem cruzado a 'Porta Jerrea 
centenas e centenas de bacharéis torma- 
dos! 

Foi o nosso bom amigo Alfredo de Pratt — 
que não é bacharel, mas que é um distincto 
escriptor da plêiade dos novos — quem, ati- 
nai, veio preencher tão extranhavel lacuna, 
avolumando os materiaes da ethnographia 
nacional com a publicação da Bohemia de 
Coimbra. 

Em quasi tresentas laudas d'uma prosa 
fluente e castiça, adorável de simplicidade, 
descrevenos Altrcdo de Pratt o meio coim- 
brão e a vida académica com todas as suas 
engraçadas peripécias, os seus casos burles 
cos, os seus episódios divertidos e as suas 
remotas praxes escolásticas. 

A Bohemia de (loii)ibra é, a todos os res- 
peitos, um livro apreciabilissimo, que se lè 
do principio ao Hm com o maior agrado. 

Um atlectuoío aperto de mão ao seu auc- 
Tor, o poeta gentil das Orvalhadas. 

Schwei^erisches Archiv Jiir Uoleskskunde. 
— Temos recebido com toda a regularidade 
esta importante revista trimestral, superior- 
mente dirigida pelo notável professor da 
Universidade de Zurich, o Senhor Doutor 
Ed. Hollmann-Krayer, a quem endereçá- 
mos a expressão cordial do nosso agradeci- 
mento. 

Revue des traditions populaires. — Assim 
se intitula o órgão da Société des traditions 
populaires, de Paris, estabelecida no gran- 
dioso Museu d'ethnographia do Trocadéro. 

A esplendida revista, por cuja recepção 
nos confessámos muito gratos, publica-se 
mensalmente e tem como director o insigne 
homem de lettras iMr. Paul Sébillot. 

The Journal of American Folk-lore. — 
Graças á amabilidade de Mr. William Wells 
Newell, reputado ethnologo norte-ameri- 
cano, secretario perpetuo da American- Folk- 
lore Society^ somos lambem visitados pela 
excellente publicação cujo titulo encima es- 
tas linhas. 

Mil agradecimentos. 

Bulletin de Folk-lore. — Becebémos, no 
anno findo, um fascículo do interessante bo- 
letim publicado pela Société belge de Folk- 
lore e sob a conspícua direcção do erudito 
professor da Universidade de Bruxellas, o 
Senhor Doutor Eugène Monseur. 



Agradecendo, ficámos esperando, com ver- 
dadeiro interesse, nova visita de tão brilhan- 
te archivo de tradições populares. 

Le '^Pays 'Poitevin. — W a mais bella e a 
mais completa de todas as revistas ethno- 
graphicas que chegam á nossa mão. 

Nitidamente impresso em óptimo papel 
assetinado, Le Pays^Poitevin insere substan 
ciosos artigos sobre usos, costumes, archeo 
logia, historia, litteratura e arte popular; in- 
tercalando no texto, que occupa 24 paginas 
de grande formato, Hnibsimas estampas e tre- 
chos musicaes. 

Acceite Mr. Gustave Bouchcr, preclaro 
director da encantadora revista, enthusias- 
ticos emboras, d'envolta com o testemunho 
da nossa admiração. 

Wallonia. — Desde 05 principios do anno 
pretérito que vimos trrjcando a nossa hu- 
milde revista com a revista belga Wallonia. 

Das publicações ethnographicas de maior 
apreço, foi Wallonia., a que primeiro nos 
honrou com a sua visita. 

Todo o nosso reconhecimento para o seu 
illustrado director, Mr. O Colson. 

Jadis. — A Mr. Ame Demeuldre, eminente 
publicista e homem de sciencia belga, agra- 
decemos muito penhorados a fineza que nos 
dispensa permutando com a Tradição o seu 
instructivo Jadis., valioso mensario d'archeo- 
logia e historia. 

Mélusine. — Julgamos ser esta uma das 
mais antigas revistas d'ethnographia, pois 
já hoje conta 23 annos de existência. 

A SVIélusine., fundada por Mrs. H. Gaidoz 
e E. Rolland, dois ethnologos de grande re- 
putação, occupa-se em especial de assum- 
ptos mythologicos, litteratura popular, tra- 
dições e usos. E vè a luz em Paris, tendo por 
director Mr. Henri Gaidoz, professor na 
«Ecole Libre des Sciences Politiques» e di- 
rector da «Ecole des Hautes Etudes». 

M. DIAS NUNES. 



Ami^W^Lmm^JkB 



Uma cabeça d'alho 

O que é aquillo, que tem dentes e não 
come, e tem barbas e não é homem? 

Uma estrada 

Qual é a coisa que sobe e desce oiteiros, 
e está sempre no mesmo sitio r 

Um buraco 

O que é aquillo, que quanto maior é, me- 
nos pesa ? 

(Da tradição oral, Brinches. ) 

ANTÓNIO AI.EXANDRINO. 



32 



A TRADIÇÃO 



BULLETIN POUR LtTRANGER I BULLETIN FOR ABROAD 



X,A TRADITIOÍÍ 

Reme mensudle íUustiíe deitinograptiie poriuQaise 

DIRECTECRS 

Ljdtslau Piçarra et 'Duis 'iSjnies 

REDACTION ET ADMINISTRATION 

À SERPA (PORTUGAL) 
Sonimaire du prfsrni numero df la Tradilíon 

Texte : — Le fou de la cornue, par Sousa 
Viterbo Dr.J: Setúbal — Croyances, su- 
perstitions et usaees : loups-garons et 
sourcières, par Arronches Junqueiro; La 
chasse dans le district de Serpa (suite), 
par -4. de Mello Breyner; Les fantômes, 
pnr Pedro Covas; FÍimes populaires, par 
João Vjrella fDr.j; Chansons, refrains 
de rAlemtejo : Carmesita, Carmesita, par 
M. Dias Nunes: Legendes et romnns, par 
.4. Thoma- Pires: Histoires de rAlemte- 
jo : o Zé-Valente, par António Alexandri- 
no : Bibliographie. par M. Dias Nunes. 

ninstrations : — Galerie de coutumes popu- 
laires : Campanico (ouvrier rural des alen- 
lours de Mertoia). — Recueil de chansons: 
Carmesita, Carmesita (musique). 

yOlVEMENT ETH^O(iiíU'HIÍJLE PORTLGAIS 

Histoire du culte de Notre-Dame en 
Portugal, par Alberto Pimentel. — La Tra- 
dition est très-heureuse de pouvoir faire 
part de la publication du Culte de Notre- 
Dame en Portugal., ouvrage grandiose — 
tout ethnographique — du célebre écrivain 
Mr. Mberto Pimentel, homme de lettres três 
renommé. L'ouvrage, dont nous parlons, 
profondement investigateur, — ouvrage éten- 
du et complexe, ouvrage de longue halei- 
ne, ouvrage de Maitre — est, selon ce que 
son auteur lui même a dit, «rhistoire du 
pavs dans ses rapports avec les croyances 
naíionales. Cest Tétude de Tàme portugai- 
se, à partir de la formation de la nationalilé 
jusqu'à nos jours, dans son aspiration vers 
cet iJéal de chasteté et suavité suprêmes, 
personifiées dans la Sainte Vierge, comme 
c'etait tout naturel chez un peuple si aven- 
turier et entrepreneur, si habitue aux ma- 
Iheurs, si éprouvé par de terribles et péni- 
bles coups.» 

IJ Histoire du Culte de Notre-Dame en 
Portugal est en train d'être édité par les 
importants éditeurs Mrs. Guimarães, Liba- 
nio & C.'% de Lisbonne. 



MODiliiy illustraied review ol ponuguese etliiiography 

DIRECTORS 

Ladislau Piçarra and 'Dias V^unes 

ÒFFICES 

SERPA (PORTUGAL) 
SummarT nf lhe prcsenl mimber of lhe Tradilíon 

Text : — The fool of the retori, by Sousa 
Viterbo (Dr.); Setúbal — Legends, su- 
perstitions and traditional usages : Were- 
wolves and witches, by Arronches Jun- 
queiro; The shooting in the Serpa district 
(continuation), by A. de Mello Breyner; 
The ghosts, by Pedro Covas; Popular 
rhvmes, by João Varella (Dr.); Songs 
refrains from the Alemtejo : Carmesita,, 
Carmesita, by M. Dias Nvnes ; Legends 
and romances, by A. Thoma:^ Pires; Ta- 
les from the Alemtejo : O Zé-Valente, by 
António Alexandrino; Bibiiography, by 
M. Dias Nunes. 

niustrations : — Campanico (rural worker of 
the district of Mertoia). — Musical collec- 
tion : Carmesita, Carmesita (music). 

THE PORTKilESE ETII\OGIiAPIIiCAL H0VEÍ1E^T 

History of the worship of the Blessed 
Virgen Mary in Portugal, by Alberto Pi- 
mentel. — The Tradition regards with the 
greatest pleasure the publishing of the His- 
tory of the worship of the Blessed Virgen 
Mary in Portugal^ a new and grand work 
— essentially ethnographical — by the cele- 
brated writer Alberto Pimentel, remarkable 
ornement of the portuguese litterature. The 
work, of which \ve speak, is a profound in- 
vestigation, — long and complex, of great 
importance, work of a Master, — being as 
its author has written ; «the hystory of the 
country relative to its national faith. It is 
the study of the ponuguese soul, since the 
formation of the nation up to the present 
day, in aspiring to this ideal of supreme 
chastity and siweetness, which are perso- 
nificai in the Blessed Virgen Mary, as would 
naturally happen to such an adventurous 
and enterprising people, so visited by mis- 
fortune and terrible hardships.» 

The History of the worship of the Bles- 
sed Virgen Mary is being edited by the im- 
portant Firm of M.''" Guimarães, Libanio 
and C", at Lisbon. 



^iiii«> II — TV.' 3 



SERPA. Março do 1000 



VolllIlM' II 



Ed 




idilor-adminiolriídor, Joie Jeronrmo Ja Couta tiravo Je Seareirot, Ku« LtrgM, 7 e a — SKKI'A 
Typ. de AJolpho Je Slenãonca u- l)uarte, Kii« do Corpo Santo, 46 e 48 — LISBOA 

Kcvisln iiinisiil (rE(liiiii(|r:i|iliiii hirliiijiie/ii. Illiisliaila 



Directores :-LÃI)ISLÃU PICÃHHA e li. DIAS IIUITXH 



NOTAS HISTÓRICAS ACERCA DE SERPA 



A primeira conquista de Serpa 

I I UANDO D. Alíonso Henriques 
^■^ voltou a esta nossa parte do 
Alemtejo, as circumstancias eram 
bem diversas do que haviam sido 
nos já velhos tempos do fossado de 
Ourique, ou da passageira alliança 
com o moiro Ahmed-ibn-Gassi. Os 
vinte annos decorridos tinham sido 
bem aproveitados. 

Pouco a pouco, passo a passo, 
mas firmando cuidadosamente cada 
um dos seus passos, elle alargara 
constantemente as suas fronteiras 
para o sul. Havia tomado Santarém, 
no anno de 1 147, por um assalto no- 
cturno de tal maneira atrevido, que 
poderia parecer uma creação da len- 
da se algumas fontes hisioricas não 
viessem abonar as suas circumstan- 
cias; e havia no mesmo anno cerca- 
do e tomado Lisboa, com o auxilio 
dos Cruzados do norte. Tomada Lis- 
boa, e rendida Cintra sem combate, 
ficava senhor de toda a margem di- 
reita do Tejo; restabelecia as fron- 
teiras, que já muitos annos antes, 
mas provisoriamente, estabelecera o 
seu avô, Affonso VL 

Do outro lado do Tejo, Almada e 
Palmella entregaram-se com facili 
dade. Alcácer resistiu mais. Era uma 



povoação celebre entre os moiros 
desde tempos antigos pela sua rique- 
za, pela fertilidade dos seus campos, 
pelo seu commercio, pela força do 
seu castello, e tanto que lhe cha- 
mavam o castello por excellencia, 
Al-Caçr. Como tal estava bem guar- 
dada. Resistiu a um golpe de mão 
similhante ao de Santarém ; mas mal 
succedido, e no qual D. Afíonso Hen- 
riques foi ferido e correu um grande 
risco pessoal. Resistiu a dois cercos, 
nos quaes, como no de Lisboa, to- 
maram parte os cavalleiros cruzados. 
Mas a final rendeu-se aos portugue- 
zes no anno de 1 158. 

Rendida Alcácer, Aflbnso Henri- 
ques não parou, nem isso estava nos 
seus hábitos. Parece, que logo no 
anno seguinte avançou para o sul e 
foi tomar Kvora e Beja. Havia con- 
tado demasiado com as suas forças; 
e não só as guarnições que ali dei- 
xou foram obrigadas a retirar passa- 
do pouco tempo, como elle próprio 
soflVeu nos campos do Alemtejo, e 
ás mãos dos cavalleiros almohades, 
um dos maiores revezes de toda a 
sua longa existência militar. 

Apezar da batalha perdida no anno 
de I i()i, o impulso estava dado, e as 
conquistas continuaram. Circumstan- 
cia notável, não eram unicamente o 
rei com os seus costumados e aguer- 
ridos companheiros de armas que 
proseguiam n'estas conquistas; todas 



34 



A TRADIÇÃO 



as classes tomavam agora parte na 
expansão do novo reino christão. No 
anno de 1162 e na noite de Santo 
André apostolo, um tal Fernando 
Gonçalves, seguido por um corpo de 
burgueses e homens do povo, Fcr- 
tunio í^ims^iluis et quibusdam ah is 
picheis militibus^ assaltou e valente- 
mente tomou Beja aos moiros. No 
anno de i lóô, um capitão de ladroes 
com a sua quadrilha, et liiíj-onibus 
sociis t'///s, tomou Évora também por 
surpreza. Não é talvez justo chamar 
a Geraldo Sempavor um simples ca- 
pitão de ladrões. Seria o chefe de 
uma companhia franca, formada de 
gente sem muitos escrúpulos, viven- 
do fora da lei, oiitlaivs como tantos 
havia por toda essa Europa da Ida- 
de-media; mas conservando não só a 
valentia, como o brio de verdadeiros 
homens de armas. As circumstancias 
da tomada de Évora devem perten- 
cer á lenda; mas o facto de haver 
sido realisada por Geraldo Sempavor 
é histórico, e assim o considerou Ale- 
xandre Herculano, tão escrupuloso 
em taes assumptos.* 

Estas conquistas mudavam com- 
pletamente a situação, como antes 
dissemos, e tornavam possível o que 
nos tempos de Ourique teria sido 
irrealisavel. O Alemtejo já não era o 
coração da terra dos Sarracenos. 

As armas christans podiam expan- 



* Alexandre Herculano acceitou a façanha 
de Geraldo Sempavor com certa reluctancia 
(Hist. de Port.^ I, 424), e na fé unicamente 
da Chronica Gothorum. Não conhecia a men- 
ção de Geraldo pelos escriptores arábicos, 
porque a versão de Gayangos, única de que 
se podia servir, estava deploravelmente er- 
rada n'esta parte. Ibn-Khaldun diz, que no 
cerco posterior de Badajoz, quando Ibn-er- 
Renk. (Affonso Henriques) foi preso. Ibn- 
Djeranda o gallego fie galicien) fugiu para 
o seu castello (Hist. des Berberes^ II, 198). 
O f-aductor, De Slane (1. c), identifica com 
muita perspicácia este Ibn-Djeranda com 
Geraldo : a palavra galicien significava sim- 
plesmente portuguez, porque os árabes cha- 
maram sempre Galicia ao Portugal do nor- 
te. Esta identificação de Slane e o dito de 
Ibn-Khaldun são plenamente confirmados 
por duas menções dos nossos velhos Chro- 



dir-se com mais desafogo; e eftecti- 
vamente no mesmo anno em que 
Évora foi tomada, Serpa e Moura 
caíram nas mãos do próprio D. Af- 
fonso Henriques. Esta conquista te- 
ve se decerto na conta de importan- 
te, pois todos os nossos mais antigos 
monumentos históricos, o Livro de 
Noa, a Chronica dos Godos, o pe- 
quenino Chronicon de Lamego, todos 
a mencionam; e não esqueceu tam- 
bém no Livro chamado do Conde 
D. Ped'o, onde se diz: «Na era de 
mill.e duzentos e quatro annos (anno 
de II 6(3) filhou (tomou) a cidade 
d'Evora e Moura e Serpa.» 

Mas, se aquelles antigos registos 
dos mais impoitantes successos são 
concordes no facto e na data, são 
também deploravelmente lacónicos. 
A Chronica dos (iodos, a mais ex- 
plicita, depois de mencionar a toma- 
da de Évora por Geraldo Sempavor, 
continua: et post paululum ipse Rex 
cepit Maiiram^ Serpam^ et Alcon- 
cliel, et Coluchi castrum mandauit 
reedificari. . . — e o próprio Rei to- 
mou Moura, Serpa e Alconchel, e 
mandou restaurar o castello de Co- 
ruche: de feito Coruche já fora to- 
mado alguns annos antes. Entregues 
unicamente a este texto, deveríamos 
suppor, que AtTonso Henriques mar- 
chou a travez do Alemtejo, passou o 
Guadiana e tomou aquellas povoa- 



nicons, que até hoje escaparam — creio — á 
attenção de todos os investigadores. O Chro- 
nicon conimbricense diz : Jn era MCCVI. 
quinto nonas maii intrauit alcaide giraldus 
badaloup. O Chronicon lamecense diz : Ge- 
raldus alcaide intrauit badalloucium VI no- 
nas t7iaii. Era MCCVIJ. Ha apenas uma 
leve discrepância de data ; e o cerco parece 
ter sido no anno de 1169, como diz o Lame- 
cense — Temos pois, pelas fontes christans e 
mussulmanas concordes : que Geraldo é um 
personagem real e hi.storico : que era alcai- 
de, seguramente de Évora, o que já diziam 
os velhos historiadores portuguezes : que 
foi a Badajoz com D. Afíbnso Henriques, 
facto até agora não indicado. Seria interes- 
sante discutir este ponto, e a luz que pode 
lançar sobre o cerco de Badajoz; mas fica 
apenas apontado, pois não diz respeito a 
Serpa. 



A TRADIÇÃO 



86 




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36 



A TRADIÇÃO 



ções. Os livros árabes, já habilmente 
interpretados por Alexandre Hercu- 
lano, lançam, porém, outra luz sobre 
o successo. 

Ibn-Çahibi ç-Çalat, escriptor árabe 
contemporâneo ou quasi, diz que o 
rei de Portugal surprchendeu Tru- 
xillo em abril ou maio do anno de 
ii6b\ Évora em setembro ou outu- 
bro do mesmo anno^ Cáceres em 
janeiro de 1166; e depois o castello 
de Muntajech, e as povoações de 
Shebenna e Jelmanyah durante a 
primavera, sendo Sheberina tomada 
na entrada do mez de abril.' 

Ibn-Khaldum confirma em globo es- 
tas noticias. Segundo elle conta, o 
khalifa Abu-Yacub'' recebeu em Afri- 
ca novas assustadoras da Hespanha; 
avisaram-n'o de que o ininiif^o mal- 
dito tinha surprehendido successiva- 
mente as povoações de Truxillo, Évo- 
ra, a fortaleza de Chebrina, a de 
Djelmania em face de Badajoz, e a 
própria Badajoz. Depois explica, que 
a noticia era falsa em relação a Ba- 
dajoz, pois apenas fora cercada, mas 
não tomada. ^ Como se vê, os dois 
escriptores árabes concordam nos fa- 
ctos principaes; e devem ser exactos, 
advirtindo, que elles conheciam a to- 
mada de Évora, mas não as suas cir- 
cumstancias, e portanto a attribuiam 
ao próprio rei, como era natural. Ve- 
jamos agora o que seriam as outras 
povoações. 

Truxillo e Cáceres são bem conhe- 
cidas, e nenhuma explicação é neces- 
sária a seu respeito. Jelmanyah ou 
Djelmania * identifica-se seguramente 



i ( 



* Versão de Gayangos em The hist. of the 
Mohaniedam dynasties of Spain, II, 522; 
veja-se também Herculano, Hist. de Portu- 
gal. I, 425. 

* Abd-al-Mumen, o primeiro khalifa al- 
mohade, tinha morrido poucos annos antes, 
e succedera-lhe seu Hlho Yucef-Abu-Yacub. 

í Hist. des Berberes., II, 198. 

* Estas diversas formas não significam, 
que os nomes estivessem diversamente es- 
criplos nos dois livros árabes; mas podem 
unicamente provir de o systema de trans- 
litteração dos dois traductores ser diverso, e 
preferimos o de Slane ao de Gayangos. 



com Juromenha; pois o nome Juris- 
menia tomaria esta forma na bocca 
dos moiros; e a phrase de Ibn-Khal- 
dum «em face de Badajoz» se expli- 
ca bem, no sentido de ficar no lado 
opposto do Guadiana, embora um 
pouco para baixo. Muntajech identi- 
fica-se também com toda a certeza 
com o castello de Montanches, entre 
Cáceres e o Guadiana. ' E Sheberina 
ou Chebrina identifica-se satisfacto- 
riamente com Serpa. A tomada de 
Serpa, segundo os documentos chris- 
tãos, concorda plenamente com a de 
Chebrina segundo os árabes; e os 
dois nomes não são tão diversos como 
á primeira vista poderia parecer.'^ Da- 
remos, pois, como assente, que a for- 
taleza de Chebrina era Serpa. 

Posto isto, podemos, apoiados em 
documentos christãos e mussulmanos, 
reconstruir com um certo grau de 
clareza a campanha de D. AlVonso 
Henriques, que foi muitissimo mais 
importante do que deixariam suspei- 
tar as lacónicas referencias das nos- 
sas velhas historias. 

Passando pelo alto Alemtejo, ao 
norte de Badajoz, a hoste poriugueza 
fez uma profundíssima entrada até 
Truxillo, pelas terras de entre Tejo 
e Guadiana. Truxillo era uma povoa- 



^ Alexandre Herculano parece identificar 
Muntajech com Alconchel (I, 426) o que é 
um simples lapso, porque a identificação 
com Montanches é segura, e de resto já ti- 
nha sido feita por Gayangos. 

- A palavra Serpa., adoptada pelos árabes, 
dava naturalmente Cherba : primeiro por- 
que o s inicial é frequentes vezes repre- 
sentado pelo chin., como em Chantarin de 
Santarém, em Chant-iacub de Sant-Iago ; 
segundo, porque o p falta no alphabeto árabe 
e é substituido pelo b. De Cherba teriamos 
Chebra por uma simples transposição de 
consoantes, habitual entre moiros pouco let- 
trados. Nos tempos antigos, a palavra to- 
mava muitas vezes entre os christãos a for- 
ma Serpia, que encontramos por exemplo 
na inscripção do Marmelal do principio do 
XIV século, e em vários documentos ante- 
riores; e esta forma daria em árabe Che- 
bria., bem próximo já de Chebrina. Indica- 
mos apenas as semelhanças, deixando aos 
arabistas o cuidado de resolver mais scienti- 
ficamente este ponto. 



A TRADIÇÃO 



37 



ção forte, cercada de boas muralhas, 
e habitada por gente pérfida mas va- 
lente, vivendo principalmente de rou- 
bos c algaras em terras dos chris- 
tãos '. Koi tomada, e occiípada du- 
rante alguns mezes ^ I)'ali, seguiram 
a Cáceres, cujos moradores não go- 
savam He muito melhor reputação, e 
que teve a mesma sorte. Km Cáceres 
a demora foi pequena; e D. Alíonso 
Henriques, descendo para o sul e to- 
mando no caminho o castello de 
Montanches, veiu, segundo parece, 
passar atrevidamente o Cuadiana en- 
tre Badajoz e Merida. (>aminhando 
agora mais na direcção sudoeste, to- 
mou Alconchel, Moura e depois Ser- 
pa, ponto extremo meridional da sua 
expedição. K' possível, que os emis- 
sários de Geraldo Sempavor lhe vies- 
sem sair ao caminho, dizendo lhe 
como Kvora ficava tomada e posta á 
sua obediência, e pedindo-lhe ao mes- 
mo tempo perdão das passadas cul- 
pas. Isto completava o triumpho do 
rei, e dava-lhe mais segurança por 
aquelle lado. Passando, pois, de no- 
vo o Guadiana, veiu um pouco ao 
norte tomar Juromenha ou Djelma- 
nía, que segundo uma das narrativas 
árabes parece ter sido a ultima con- 
quista. 

Truxillo, Cáceres e Montanches fo- 
ram sem duvida abandonadas depois 
de tomadas, nem era possivel pensar 
em as conservar a tanta distancia; 
mas Alconchel, Moura, Serpa e Ju- 
romenha ficaram por então na posse 
dos portugueses. 

Tomando a expedição em globo, 
vê-se que traçou um enorme semi- 
círculo em volta de Badajoz. K' licito 
imaginar, que o plano de se apode- 
rar d'aquella praça já estava delinea- 



* Informações de Edrisi na sua Geogra- 
phia. D'esta Geographia, e das versões que 
existem ao diante falaremos detidamente. 

2 Isto deduz-se das datas: tomada de 
Truxillo em abril-maio, de Cáceres em ja- 
neiro do anno seguinte. E, como as duas lo- 
calidades são bastante próximas, segue-se 
que houve na primeira uma demora de me- 
zes. 



do no animo do rei ; e que esta cam- 
panha foi como um reconhecimento 
em força, uma tentativa para de 
algum modo isolar a poderosa ca- 
pital do Gharb mussulmano. 

Procurámos dar ideia das opera- 
ções de guerra, em que foi envolvida 
a conquista de Serpa. O que se pode 
ter como certo, é que no anno de 
IH»»!, logo em abril segundo os ára- 
bes, o pendão do fundador da Mo- 
narchia foi hasteado sobre os mu- 
ros da fortaleza de Serpa ou Che- 
brína '. 

Quanto tempo esteve Serpa na pos- 
se dos portugueses, c ponto sobre o 
qual não temos — ou pelo menos eu 
não conheço — noticia alguma segu- 
ra. Persuadem-nos, porém, os aconte- 
cimentos posteriores, que esse perío- 
do foi curto — provavelmente alguns 
annos, mas poucos *, 

Três annos depois da tomada de 
Serpa leve logar o desgraçado cerco 
de Badajoz, no qual, como todos sa- 
bem, Atíonso Henriques quebrou a 
perna e ficou prisioneiro de seu gen- 
ro, Fernando II de Leão. Kste desas- 
tre physico e moral abateu profunda- 
mente o grande homem. Dillicilmente 
depois podia montar a cavallo; e o 



' As datas árabes e chrisians podem sus- 
citar algumas duvidas. Assim o escriptor 
árabe coiloca a tomada de Évora no anno 
de iMO, e os nossos unanimemente no de 
1 i66. Alexandre Herculano propoz um sys- 
tema de conciliação que me não parece pro- 
vável, e preHro suppor n'esta parte um erro 
do árabe. Quanto á tomada de Serpa em 
abril e depois da de Évora, parece-me o fa- 
cto acceitavel. Desconhecemos a data exac- 
cta da tomada de Évora, e apenas por um 
documento particular (citado no Fllucidario) 
se sabe, que já estava na posse dos chris- 
tãos em maio de i i6ô. Admittindo que teve 
logar em janeiro ou fevereiro, seria a de 
Serpa pouco depois, post paululum como 
diz a Chronica dos Godos. 

- Em alguns livros modernos se diz, que 
Serpa foi tomada, e logo abandonada; mas 
não sei em que auctoridade esta noticia se 
funda. Pelo contrario, sabendo nós que Al- 
conchel estava ainda na posse dos christãos 
no anno de 1171; é natural q-e estes con- 
servassem também Moura e Serpa, pelo me- 
nos durante aquelles cinco annos. 



38 



A TRADIÇÃO 



seu animoso espirito não recuperou 
o vigor e elasticidade dos tempos an- 
teriores. Faltou, pois, aos portugue- 
ses a tirme vontade que os guiava, 
e o braço forte que lhes deu sempre 
o exemplo nas occasiões de maior 
risco. De outro lado, o poder dos 
mussulmanos augmentou. A auctori- 
dade dos khalifas da seita almohade 
havia sopeado um pouco a anarchia 
e indisciplina dos moiros da Hes- 
panha, dando-lhes mais unidade de 
acção. De ambos os factos resultou, 
que nos últimos annos do reinado de 
D. Alíonso Henriques as fronteiras 
de Portugal no Alemtejo não só se 
não alargaram, como se restringiram 
sensivelmente. 

Houve, na verdade, um glorioso 
clarão — a expedição, mais brilhante 
talvez que útil, mas incontestavel- 
mente muito brilhante, do herdeiro 
do throno até Sevilha. No anno de 
1178, o moço D. Sancho atravessou 
a Hespanha, cortou pelos desfiladei- 
ros da Serra Morena, e foi ás portas 
de Sevilha tomar o arrabalde então, 
e ainda hoje, chamado Triana. Dali, 
não sendo possivel nem tentar a en- 
trada de Sevilha, parece ter voltado 
por Niebla, vindo passar aos vaus 
do Guadiana em direcção a Beja\ 
Passou, pois, não longe de Serpa, 
que então ainda seria de christãos ', 
ou talvez já tivesse voltado á posse 
dos moiros. 

De facto, antes da expedição do 
infante D. Sancho, houve uma gran- 
de entrada de moiros nas terras de 



' Terceira parte da Monarchia Lusitana^ 
L." XI, cap. 27." 

- Díl;o expressamente de christãos, e não 
de portugueses, porque sobre isto po-Je ha- 
ver algumas duvidas. No concerto celebra- 
do, depois do desastre de Badajoz, entre 
AtTonso I de Portugal e Fernando II de 
Lefio, foram restituidos a este alguns castel- 
los do norte ; e alguns dos tomados ultima- 
mente na margem esquerda do Guadiana. 
Isto é claro relativamente a Alconchel, pois 
Fernando II e sua mulher D. Urraca (a filha 
de Affonso Henriques) doaram aquelle cas- 
tello á ordem de Santiago e ao seu mestre 
D. Pedro Fernandes no anno de 1171. (A. 



Portugal. No anno de 1 171,0 kha- 
lifa Abu-Yacub veiu pôr cerco a San- 
tarém, onde estava o velho D. Af- 
fonso Henriques, e para onde mar- 
chou em seu soccorro o rei de Leão, 
obrigando os moiros a retirar \ E' 
perfeitamente possivel que logo n'es- 
te anno, na marcha do exercito mus- 
sulmano a travez do Alemteio, alguns 
dos castellos e povoações ultimamen- 
te tomados pelos portugueses, entre 
elles talvez Serpa, voltassem ao po- 
der dos moiros. 

No de 1180', estando o khalifa 
em Africa, um dos seus generaes, 
chamado Mohammed-ibn-Yucef-ibn- 
Uanudin, veiu de Sevilha cercar 
Évora. Esta praça resistiu pela for- 
ça das suas muralhas e da sua alcá- 
çova; e ainda mais talvez pela va- 
lentia dos freires de Évora — depois 
chamados de Aviz — -que a guarne- 
ciam. Os moiros retiraram, tendo 
devastado os campos em volta, «e to- 
mado de assalto alguns castellos da 
visinhança» '\ E' n"este anno, que, a 
meu ver, se pode collocar com mais 
segurança a perda de Serpa Aquel- 
les castellos seriam alguns dos ulti- 
mamente conquistados, Juromenha, 
Moura, Serpa, talvez Beja, que esta- 
vam em condições muito diversas de 
Évora, mal fort^ificarlos, mal guarne- 
cidos, e incapazes de grande resis- 
tência. Relativamente a Moura e Ser- 
pa o facto torna-se fanto mais prová- 
vel, quanto estas povoações estavam 
exactamente no caminho de Sevilha 
para Eivora; e quanto os moiros se 



Herculano, Hist. de Porttuf;al^ I, 436 ; Sala" 
zar y Castro, Hist. de la casa de Lara, ly 
XVI, cap, 2). Teria Serpa a mesma sorte e 
passaria também para Leáo ? Persuado-me 
que não, por motivos que talvez ao deante 
tenham cabimento n'estas notas. Em todo o 
caso a duvida ahi tica exposta. 

' Este facto consta sobretudo das histo- 
rias christans ; veja-se A. Herculano, Hist. 
de Portugal^ 1, 4J39. 

^ Ou de 1179; o escriptor árabe só diz, 
que isto se passou pouco antes de 1181. 

•' Palavras de Ibn-Khaldun, Hist. des Ber- 
beres., II, 204. 



A TRADIÇÃO 



89 



haviam então solidamente estabeleci- 
do nas proximidades '. 

Finalmente, no anno de 11X4, o 
kiialifa voltou á Hcspanha com um 
colossal exercito africano; juntou lhe 
em Sevilha as tropas andaluzas; e 
foi segunda vez passar o Tejo e cer- 
car Santarém, onde morreu, como é 
sabido. Se alguma pequena povoação 
ficava ainda na posse dos portugue- 
ses por e^^te nosso lado, seguiameute 
se perd^^ria então. 

Km resumo, devemos collocar a 
perda de Serpa n'aquelle periodo 
(1 171-1 184), e com mais probabilida- 
de no anno de iiíSo. Tomada por 
AlVonso Henriques no de i 1 <)('), e re- 
conquistada passados quatorze an- 
nos por Ibn-l^anudin, ou talvez mes- 
mo antes, a nossa villa apenas passou 
pelas mãos dos portugueses, que mal 
teriam tempo para a modificar. 

Torna se assim pouco acceitavel a 
opinião corrente, de que o primeiro 
rei de Portugal mandasse construir 
alguma parte das muralhas actuaes. 
Como ao deante veremos, essas mu- 
ralhas, mesmo a parte mais antiga 
d'ellas, devem ser bastante posterio- 
res. 

CONDE DE FICAI.HO. 



O SENHOR SETE 

COMEÇO a dar hoje n'estas do- 
ces paginas da Tradição tudo 
quanto a minha paciência para coisas 
do povo tem colligido, — aqui, alem, 
acolá — em que entre o algarismo 7, que 
é, como se sabe, muito do agrado po- 
pular. Começarei pelas quadras que 
estão n'esse caso, incluindo, está bem 



' O castello de Mertola, que já antes era 
muito forte, foi augmentado com uma gran- 
de torre por este tempo, acabando-se a obra 
no anno de 1171, sob a direcção do alcaide 
Abu-Bekr, e por ordem de Abu-Hafs; Con- 
de, Parte III, cap, 48.» 



de ver, as que se referem ao setestrel- 
lo; — passarei depois aos díctados, ri- 
fões, parlendas e phrases feitas, em 
que esse algarismo ligure também; — 
aos responsos, esconjuros, orações e 
adivinhas, em que o mesmo se dê; 
e por ultimo (e quem sabe lá se o 
mundo se não acanará primeiro!) ao 
que também respiguei de setes na lit- 
teratura popular já colligida : — xaca- 
ras, romances, soláos, contos, etc, 
etc. 

Vamos lá, pois, com Deus, que te- 
mos muito que andar, — e o que vale 
é que não pode o caminho ser mais 
bonito I 

Comecemos pelas quadras: 

i.á te mandei um raniinlio 
De sete rosas iguaes, 
No meio ia um suspiro 
Do muito que me Icmbraes. 



Escrevi-te sete cartas 
(^om letra miúda e grave,' 
Para que os nossos intentos 
Se aviem com brevidade. 



Passei rente ao alecrim, 
Sete folhas lhe colhi. 
Eram os sete sentidos^ 
Que eu tinha postos em ti. 



Abana, casaca, abana. 
Abana, não tenhas dó ; 
Sele casacas eu tenho 
Em casa da minha avó. 



I Letra firove, quer dizer letr.n fina, delicada, bem fei- 
ta. Na minha terra, que é Mogadouro na província de 
Traz-os-.Montes, diz-se de um homem bem trajado — 
«um senhor prave»: 

— Esta ali um senhor crave ! 

F, também ha o «fallar g^avc»,— que é como quem 
d z, o f ilUr a muda das cidades: 

— Falia prave I 

Opposto a "fallar cliarron — que é o fallar cerrado e 
grosseiro de certas aldeias La a palavra cAarro também 
significa simples, fácil, comesinho : 

— Isso é charro ! Isso mette-se peloii olhos ! 

2 A's vezes, como aqui, o Senhor Sete costa de metter 
a sua foice em ceara alheia . . Os sentidos toda a cente 
sabe que são cinco : ver, ouvir, cheirar, gostar e apalpar. 
Ha quem tenha um se.vio — o Jo belto — mas isso é raro. 
Também as obras ác Misericórdia diz a Cartilha que são 
quatorze (duas vezes sete: sete corporaes e sete espiri- 
tuaesr. mas f i .lulio Diniz, se me i ão engano, que disse 
que havia mais uma: — Casar os que se amam. 

... E essa então, é a rainha das Obras de Misericór- 
dia ! 



40 



A TRADIÇÃO 



Eu tenho sete casacas, 
Todas ellas de filó, 
Fechadas a sete chaves 
Em casa da minha avó. 



Eu tenho sete casacas 
Em casa da minha avó ; 
Abana, casaca, abana. 
Abana não tenhas dó. 



Quatro com mais tres são sete, 
Meu amor, já sei contar, 
Já me enganaste uma vez, 
Não me tornas a enganar. 



Sete silvas em meu peito 
Fizeram 'ma sociedade. 
Todas sete me prenderam, 
Só uma foi de vontade. 



Eu tenho sete lencinhos. 
Todos sete são de linho ; 
Eu possuo sete amores. 
Mas só um é o meu bemsinho. 



Algum dia por te vêr 
Saltava sete quintaes. 
Agora por te não vêr 
Salto vinte, que são mais. 



Eu tenho sete coletes 
Todos elles bem talhados. 
Eu possuo sete amores 
E trago seis enganados. 



Sete e sete são quatorze, 
São duas contas iguaes, 
As mocinhas de servir 
São tão boas como as mais. 



Marianna diz que tem 
Sete saias de balão, 
Que lhe deu um caixeirinho 
Da gaveta do patrão. 



Marianna diz que tem 
Sete saias de cambraia, 
Marianna mentirosa 
Que não tem nenhuma saia! 



Marianna diz que tem 
Sete saias de velludo, 
Rompe, rompe, Marianna, 
Que o dinheiro paga tudo. 



Marianna diz que tem 
Sete saias de hló, 
Marianna mentirosa 
Que não tens nenhuma só ! 



Marianna diz que tem 
Sete saias de setim. 
Que lh'ns deu um caixeirinho 
A' saida do jardim. 



Sete palavras me deste, 
Outras sete me quer's dar ; 
Com ellas tu me enganaste. 
Com ellas me quer's enganar. 



Tres vezes nove vinte-sete, 
Mais amores tenho eu, 
Se mais quizesse mais tmha. 
Foi fado que Deus me deu. 



Algum dia por te ver 
Saltava sete quintaes, 
Agora nem um nem dois. 
Nem uma passada a mais. 



E's sete vezes ingrato, 
Ingrato e enganador. 
Sete vezes me enganaste 
Com palavrinhas d'amor. 



Sete raios tem o sol, 
Heide-me lá ir sentar, 
Para de lá perceber 
A quem tu queres amar. 



Eu tenho no meu jardim 
Sete rosas em botão. 
Para dar ao meu amor 
Quando fôr ao dar da mão. 



Em sete pontas do céo 
Hei-de mandar escrever : 
Só ás estrellas confio 
Amisade e bem-querer. 



A morte tem sete anneis. 
Que a todo o mundo brindou, 
E foi sempre tão cruel, 
Que até a Christo matou. 



Fui a sete juramentos, 
Sempre jurei a verdade, 
Se eu te quero bem ou não, 
Deus do céo é quem no sabe. 



A TRADIÇÃO 



41 



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(CHOr<EOGRAPHICA) 



42 



A TRADIÇÃO 



Não te quero para mim, 
D'ahi podes descançar. 
Nem que tu dos sete voltas 
Comido has-de casar. 



Sou a mãe de sete rosas 
Que tenho no meu caixão ; 
Escolhe entre ellas todas, 
Tens aqora occasião. 



Kv. tenho sete laranjas 
F.scondidas n'um bahu. 
Para dar ao meu amor, 
Queira Deus não sejas tu. 



Sete rtor's de qualidade 
Eu tenho no meu jardim, 
A mais linda d'ellas todas 
Tenho-a guardada p'ra ti. 



Sete penas, doce encanto. 
Por ti softre o meu degredo, 
Ainda que a morte venha 
Hei-de-te amar sem ter medo. 



Dizeis que não pode ser 
Ter o amor repartido. 
Eu bebo em sete fontes, 
Só n'uma tenho o sentido. 



As grades do limoeiro 
São sete, que eu as contei, 
Três de ferro, três de bronze 
E uma d'oiro, que é do rei. 



Sete vezes fui casado. 
Sete mulher's conheci ; 
Pois, amor da minha alma, 
Inda estou como nasci. 



Quem me dera vêr meu bem, 
Trinta dias cada mez, 
Sete dias na semana, 
A cada instante uma vez. 



lá me davam dez moedas 
E sete almudes d'azeite, 
P'ra casar com uma donzella 
Que ha dez annos que dá leite. 



AS BOAS-F ESTAS 



(Contini!.-) 



TRINDADE COELHO. 



Hs festividades do Natal e Pas- 
choa foram as únicas entre 
nós que receberam o qualificativo de 
boas^ de que se conserva ainda hoje 
um resto na phrase boas-fcsías^ não 
só no sentido de as desejar ou dar 
mas também na denominação dos 
presentes que se ofterecem naquelles 
dois periodos do anno Não pode, 
ser precisado donde veiu aquella de- 
nominação, que é innegavelmente an- 
tiga, no emtanto a sexta feira de pai- 
xão e o sabbado de alleluia são ex- 
pressos nalguns documentos não-por- 
tuguezes respectivamente por: /ena 
botia sexta e feria bona scpíima '. 

2. Dar boas-festas é uma expres- 
são similar á de dar as janeiras, os 
reis ou as feiras; assim como se dão 
ou desejam simplesmente as boas- 
festas por occasião das celebrações 
annuaes do nascimento e morte de 
Christo {festa paschalia)^ também no 
i.° de janeiro se dão a?, janeiras^ em 
6 do mesmo mez os reis^ e por oc- 
casião de certos mercados annuaes 
dão os padrinhos aos seus afilhados 
as feiras. E quando ha esquecimento, 
os pretendentes fazem se muitas ve- 
zes lembrar. E' o que se diz pedir 
as janeiras, os reis, as feiras e, prin- 
cipalmente nas cidades, as boas-fes- 
tas. 

Modernamente e nos grandes cen- 
tros é o uso de dar boas-festas uma 
convenção graciosa. A pessoa que 
pretende obsequiar outra com uma 
otíerta por qualquer razão, espera 
até estes tempos para, acobertada 
pelo costume corrente, agradecer as- 
sim um favor ou insinuar-se no ani- 
mo de alguém mais ou menos insen- 
sivelmente. Quando não ha razão de 
maior peso para olíerecimcnto re- 



1 Também se denomina o novo anno Anno 
b'>m e se desejam bons-annos e dão, mas 
n'este ultimo caso c- de uso não lhes juntar 
presente. Está popularmente contundido com 
as janeiras. 



A TRADIÇÃO 



4â 



corre-sc ao .symbolismo de um bi- 
lhete, muitas vezes chromoliihogra- 
phado, mormente entre senhoras e 
creanças. 

."». Tanto pelo natal como paschoa 
peicorrem as ruas de Lisboa bandos 
famélicos de perus guardados por 
indivíduos vindos de dezenas de lé- 
guas unicamente para olíereccr á ven- 
da publica nos largos algum casal 
d'aquellas aves, K' este habitualmente 
o presente de boas-festas que ma- 
nos estorço do pensamento exige. 
OlVerecer perus pelas festas mencio- 
nadas não é uso contemporâneo, já 
no século XVIII e talvez no X\'II exis- 
tia como adeante veremos. 

4. E' nestas epochas que ha no 
nosso povo, especialmente das cida- 
des, uma explosão terrível do seu vi- 
cio fundamental, o da mendicidade 
mais ou menos elegante. Não ha 
meio que não empregue qualquer 
classe trabalhadora para obter um 
qiíãnitnn de espórtulas. Os barbeiros 
adquirem caixas de musica com que 
destemperam os tympanos dos pa- 
cientes a quem vão desbravando as 
faces, os distribuidores dos jornaes 
envião versos lamuriosos impressos 
em papel de côr, e os carteiros, tele- 
graphisias e guardas-nocturnosegual- 
mente se não esquecem tanto de en- 
tregar o seu próprio cartão desejando 
muito respeitosamente boas-festas, co- 
mo também de pedir insistentemente 
a conveniente resposta. 

b. No pouco que vou referindo en- 
contram se elementos de origem mui- 
to diversa e de differcnles períodos 
chronologícos. Destrinçar estes ele- 
mentos e determinar a proveniência 
respectiva delles a íim de encontrar 
o mais primitivo é tarefa interessante 
e árdua. O melhor methodo seria 
classificar em diversas rubricas os 
usos e os costumes observados ainda 
hoje nestas festas e por meio de do- 
cumentos antigos chegar-lhes quanto 
possivel á origem. O resultado desse 
trabalho deveria ser um tomo volu- 
moso, motivo pelo que o leitor po- 
derá prever não encontrar neste ar- 



tigo mais do que alguns apontamen- 
tos lançados no ar. 

6. Km dia dos Reis (6 de janeiro: 
era de uso o monarcha conceder 
mercês. 

Assim succedeu em HÍ73 (A/o;/s- 
trTosi^iiiJcs do tempo e da forlvua. 
diário. — ... divulgado por Graça 
Barreio^ pag, 206)^ 

No dies iitduli^cnhac (»'(.» fciía de 
paixão ou de enduenças conforme a 
elymologia da sr.* D. Carolina M. 
de \'asconcelIos na Rev. Lusitana 
III, ibo) o mo archa perdoava aos 
criminosos e perdoa « em memoria 
das sacratíssimas paixão e morte de 
Nosso Senhor Jesus Christo, solem- 
nisadas pela igreja n'este dia de Sexta 
Feira Maior», conformando-se o rei 
com a «antiga pratica seguida n'es- 
tes reinos, de usar da minha clemên- 
cia por occasião da Semana Santa». 
O que fica transcripto vem no de- 
creto de i3 de abril de 1900, que 
está publicado no Diário do Governo 
do dia seguinte, sabbado de alleluia. 

7. Pelas quatro paschoas do anno ' 
é costume inalterável o fabrico, com- 
pra ou troca de bolos que variam de 
nome e talvez de composição de ter- 
ra para terra. Seria interessante for- 
mar um Índice geographico da distri- 
buição destes nomes. O Natal tem as 
broas, as filhoses e os coscorões, a 
Paschoa os cabritos, as amêndoas 
con- feitas (confeitos é o termo empre- 
gado) e os bolos com um ovo no in- 
terior, emparelhando com o bolo de 
dia dos Reis de origem extranha pro- 
vavelmente. 

8. E' costume nas aldeias o paro- 
cho pela paschoa correr as habita 
ções das suas ovelhas recebendo por 
as abençoar um ovo, ou o que a ri- 
queza do proprietário permittir dar 
de folar. E' costume, pois, este an- 
tigo. O dr. João Pedro Ribeiro, al- 



I Havia 4 paschoas : a propriamente di- 
ta, a do Pentecoste, a da Epiphania (Reis), 
e a do nntal. Ofr. '£Mappa de Tortugal de 
Castro III, lÕQ, (anno 1/63), n." i5 da Des- 
cripção da Capella Real. 



44 



A TRADIÇÃO 



cunhado pelo padre José Agosti- 
nho de Macedo, o Doutor Caruncho 
ou o Pcrf^amiriJio rclho^ inclue nas 
suas Dissertações I, 3o5 (i."'' edição) 
um documento do anno de i3?7 em 
que se demonstra a prepotência dos 
raçoeiros (beneficiados'^ de S. Tiago 
de Coimbra, que andavam na ju- 
daria ou judiaria daquella cidade com 
cruz e agua benta a pedir ovos aos 
judeus. Na Allemanha (assim como 
em lodo o norte) é muito popuhir o 
Ostcrei (ovo da paschoa). 



(Continua.) 



PEDRO A. I>'AZEV£DO, 



A caça no concellio de Serpa 



(Continuado de pag. 24) 



O trajo do caçador é, alem da rou- 
pa que habitualmente veste, — a 
jaqueta (se de ordinário a não usa), 
sapatos grossos com polainas de coi- 
ro, ou então botas altas e cardadas, 
çafões de pelle de cabra cortida em 
casca de sobro ou d'azinho, polvari- 
nhos e mochila. 

Os polvarinhos vão suspensos de 
correias, postas a tiracoUo. O da pól- 
vora é feito de um chifre de boi ou 
vacca, vasado e cortado, tendo na 
parte mais larga uma tampa de ma- 
deira ou cortiça, e na mais estreita, 
da grossura de um lápis, approxima- 
damente, um pequeno espicho, que 
serve para dar saída á pólvora. 

Da mesma correia do polvarinho, 
e presos por outras correias muito 
delgadas, pendem um sacatrapo de 
arame, uma agulheta, e mais a carga 
com que se mede a pólvora, de chi- 
fre ou de madeira e trabalhada a tor- 
no ou a canivete. 

O chumbeiro, comprehendido na 
designação de polvarinhos, é uma 
bolsa de coiro, ou pelle cortida de 
qualquer animal, ás vezes de texugo, 



na qual vae o chumbo miúdo, dentro 
de um saquinho, e á solta algumas 
balas e cortadillios^ as buchas e a 
caixa das escorvas ou fulminantes. 

As buchas são feitas de fazenda 
de lan já usada, como de calças ou 
jaquetas velhas, que se cortam ou 
rasgam em bocaditos adequados. Es- 
tas buchas de lan teem, sobre as de 
cartão, a vantagem da elasticidade; 
pelo que nunca produzem o attrito no 
cano da espingarda, evitando assim 
as explosões e os incêndios. 

O caçador também tem os seus 
agoiros, e um delles é, que, se a bu- 
cha fôr de fazenda, que serviu em 
vestido de mulher, o enguiço fará 
com que não acerte na caça. 

As mochilas — uns saccos quadri- 
longos, á medida ou um pouco maio- 
res do que as costas do caçador — 
são feitas em geral de panno de es- 
topa ou de linho; as dos cabreiros, 
porém, são todas de pelle de cabra. 
Aos quatro cantos de cada mochila 
estão cosidas umas correias que pas- 
sam, duas, por cima dos hombros e 
duas por baixo dos braços, indo cru- 
zar-se no peito do caçador, que d'este 
modo conserva toda a liberdade de 
movimentos para manejar a espingar- 
da. Na mochila, que é melhor do que 
as bolsas de rede usadas em quasi 
todo o paiz, se conduz o farnel, um 
copo de lata ou caldeirinha para be- 
ber, e a caça que se mata. 

No tempo em que havia na serra 
mais caça grossa, e também algumas 
guerrilhas, usava-se muito a cartu- 
cheira com cartuchos de pólvora em- 
balados em papel. Rasgavam-se estes 
cartuchos numa das extremidades, 
derramando-se a pólvora no cano da 
espingarda e empregando-se o papel 
como bucha junto da bala. Era um 
processo rápido de atacar. 

As balas trazidas á solta na bolsa 
do chumbo, servem, em caso de ne- 
cessidade, para correr (uma ou duas) 
á espingarda, mesmo por cima do 
chumbo miúdo. E quando a coisa é 
urgente e não ha tempo de metter 
bucha que segure as balas, molham- 



A TRADIÇÃO 



45 



se estas na bocca a fim de que, pela 
humidade, vão pegar-se á bucha do 
chumbo. Ksla operação, executada á 
pressa e sem cuidado, é sempre mui- 
to arriscada; porque, se as balas não 
ficam bem assentes uma sobre a ou- 
tra, e ambas sobre a bucha do clium- 
bo, é mais do que certo rebentar a 
espingarda. 



(Contínua.) 



A. de MEI.I.O BREYNEH. 



,^.^r 



111)11 IS-ESTItlllILliOS UEIITEJ.W.IS 

MARIAN'MTA \U mimO 

iMariannita vem commigo 
A' egrcja a dar a mão! 
A' egreja a dar a mão, 
A' egreja a dar o sim. . . 
iMariannita vem commigo 
Passear ao meu jardim! 

Passear ao meu jardim, 
Passear ao meu quintal. . . 
Mariannita vem commigo! 
É mentira^ não ha tal ! 

91. BIAS NUNES. 



COHTOS ALEMTEJANOS 

O Zé-Valenta 



(Continuado de pag. 3o— Conclusão) 



é-Valente depois d'ouvir isto, 
levantou a cacheira e disse: «O' 
amigo ! cava lá tu, que tens muito 
melhor corpo do que eu.» O gigante, 
em vista desta ameaça, pegou no 



enxadão e desatou a cavar até des- 
cobrir o azado. O Zé Valente, assim 
que viu o azado, disse para o gigan- 
te : «Bom, agora já te podes ir em- 
bora, que já não me fazes falta». O 
gigante desappareceu, e o Zé \'alente 
deitou-se a dormir muito descança- 
damente. 

No outro dia, de madrugada, como 
era costume, o padre, o sacristão e 
mais quatro homens que levavam a 
tumba, foram buscar o defuncio da 
«alma penada». Mas o padre, assim 
que entrou, levou uma valente ca- 
cheirada, e o sacristão e os homens 
que levavam a tumba fugiram, ima- 
ginando que tinha sido a «alma do 
outro mundo» que tinha batido no 
padre. 

Nesse mesmo dia, quando o Zé 
Valente viu que eram horas, mar- 
chou, e á tarde encontrou no meio 
duma serra muito fragosa, um palá- 
cio com a porta aberta. Bradou, e, 
como ninguém lhe respondesse, en- 
trou, indo dar a uma sala, onde es- 
tava uma mesa posta com três talhe- 
res, três copos, três garrafas com 
vinho e três guardanapos. Como elle 
estava farto dandar, chegou se á me- 
sa e bebeu um copo de vinho de 
cada garrafa. E disse depois com- 
sigo : «Deixa-me ver se encontro para 
aqui alguma cama para descançar 
um pedaço». E, desaldrabando uma 
porta, viu um quarto com três camas 
e três lavatórios, e cada lavatório 
com a sua toalha. As bacias eram 
muito finas e as toalhas muito bran- 
cas. 

Zé Valente lavou as mãos nas três 
bacias e limpou-se a todas as toalhas, 
e deitou-se também nas três camas. 

Ao fim de pouco tempo do Zé 
Valente se ter deitado, entraram três 
individuos no palácio, e chegando a 
casa do jantar, diz um delles: «Na 
minha garrafa falta um copo de vi- 
nho!» Diz outro: «Na minha, falta 
outro copo I» Diz o terceiro : «E na 
minha, também falta !» Foram depois 
para o quarto, e diz um : «Na minha 
bacia lavou-se gente!» Diz logo ou- 



46 



A TRADIÇÃO 



tro: «Na minha também se lavou 
gente !»< Diz o terceiro : «E na minha, 
também I« Quando foram deitarse, 
diz um delles : »Na minha cama es- 
teve gente deitada!» Diz outro: «Na 
minha, também ! » Respondeu então 
o Zé ^'alente : «E nesta cá estou eu. 
Se alguém quizer dormir commigo, 
durma, porque eu é que já daqui me 
não levanto. " 

Os homens, admirados de tanta 
ousadia, perguntaram-lhe quem era 
eile. Zé Valente respondeu simples- 
mente, que andava a ver se encon- 
trava alguma coisa, neste mundo, 
que lhe mettesse medo. Os indivi- 
duos depois disseram-lhe que elles 
eram três principes, que andavam 
em guerra e que matavam muita gen- 
te, mas quando voltavam, já encon- 
travam tudo vivo, outra vez ! Zé Va- 
lente, ouvindo isto, respondeu : «Pois 
bem. Amanhã também eu vou para 
ver o que isso é !» 

No outro dia quizeram dar-lhe uma 
espada, mas èlle não a acceitou, di- 
zendo, que tinha bastante com a sua 
cacheirinha. E marcharam todos para 
o sitio da guerra. Assim que lá che- 
garam, começaram a peleja. Nesse 
dia mataram muita gente, e voltaram 
os quatro muito mais cedo para o 
palácio. 

No outro dia, levantaram-se e fo- 
ram outra vez para a guerra, e quan- 
do lá chegaram não viram ninguém 
morto! Diz, então, o Zé Valente: 
tOlhem, eu hoje não vou para o pa- 
lácio, quero ver o que isto e ! . . . » 
Depois da peleja e do inimigo fugir, 
fizeram uma meda de cadáveres, e 
Zé Valente ficou de guarda, em ob- 
servação. Ahi por volta das dez ou on- 
ze horas da noite, viu elle aproximar-se 
uma velha com uma panella na mão. 
Avelha chegou-se á meda, puxou por 
um cadáver, untou-lhe o pescoço com 
o que levava dentro da panella e uniu 
a cabeça ao corpo, e o corpo poz-se 
de pé. Zé Valente deixou a velha fa- 
zer esta operação a mais dois ou três 
cadáveres, depois deu-lhe uma valen- 
te pancada, matou-a e pegou na pa- 



nella. E voltou para o palácio, che- 
gando lá ainda antes de romper a 
manhã. 

No outro dia os principes ainda 
queriam ir para a guerra, mas o Zé 
Valente disse-lhes: «Não é preciso, 
porque está tudo morto. Quem dava 
vida aos cadáveres era a velhaca 
duma velha, que lhes untava os pes- 
coços com o unto que está aqui nes- 
ta panella. E para verem se é ou 
não verdade, cortem-me lá as gué- 
las». Os principes não queriam, mas 
elle teimou tanto, que por fim fize- 
ram-lhe a vontade. Mas, depois, quan- 
do lhe foram untar o pescoço, com a 
atrapalhação em que estavam, em 
logar de lhe porem a cara para a 
frente, puzeram-lh'a para traz. Quan- 
do elle se viu assim, disse: «Bem. 
Agora já encontrei uma coisa de que 
tenho medo ; por conseguinte, po- 
nham-me lá a cara ás direitas, para 
ir para casa da minha mãe, porque 
fiquei de voltar logo que encontras- 
se uma coisa de que eu tivesse medo». 

Os principes puzeram-lhe a cara 
ás direitas, e Zé Valente voltou para 
casa da mãe, passando pelo monte 
onde lhe apparecera a alma penada^ 
para levar o dinheiro que estava den- 
tro do azado. 

(Da tradição oral— Brinches) 

ANTÓNIO AI.EXANDRINO. 




^®1^1M«^S 



Uma rede 

O que é aquillo que quanto mais roto está, 
menos buracos tem ? 

Uma trempe 

O que c aquillo que tem coroa e não diz 
missa, e tem pernas e não anda ? 

(Da tradição oral — Brinches) 

ANTÓNIO AI.EXANDRINO. 



A TRADIÇÃO 



47 



BIBI1I0&RAPHIA 



La Trjdition. — Com este titulo vc a luz 
cm Paris uma importante revista mensal Je 
iblklore e sciencias correlativas. Kundador- 
director — Mr. Henry Carnoy, erudito homem 
de lettras e notável ethnoíogt) francez, que 
e tambcm o director dos «cirandes diccio- 
narios encyclopedicos internacionaes, illus- 
trados» e da «Collecção internacional da 
Tradição^. 

Outro ethnologo francez, não menos dis- 
tincto, Mr. de Beaurepaire-Froment, é quem 
está á frente da redacção da famosa revista, 
que ha já 14 annos se publica com o valio- 
so concurso dos principaes folkloristas dos 
Dois iMundos. 

Os quatro números da Tradition que nos 
foram enviados, relativos aos mezes de Ja- 
neiro a Abril do corrente anno, inserem 
curiosos artigos sobre diversos ramos da 
cthnographia. E n'uma interessante secção 
intitulíida «Galeria tradicionista», dá-nos o 
esplendido mensario os retratos, com as res- 
pectivas notas biographicas, dos eminen- 
tes cthnologos senhores Frederico Ortoli, 
Thomaz Davidson, Doutor Estanislau Prato 
e Augusto Hoch. 

A Tradição portugueza saúda affectuosa- 
mente a Tradition de Paris. 

Revista de Educação e Ensino. — Vae já 
no XV anno da sua existência esta excel- 
lente e bem conhecida publicação scientifi- 
ca, de caracter pedagógico, que tem presta- 
do os mais relevantes serviços a causa da 
instrucção em Portugal. 

Oxalá a benemérita revista continue por 
dilatados annos na gloriosa missão civilisa- 
dora que vem desempenhando sob a profi- 
ciente direcção do abalizado professor e pu- 
blicista senhor Doutor Ferreira Deusdado. 

Ao nosso illustre amigo Senhor Doutor 
Bethencourt Ferreira agradecemos a honro- 
sa permuta da Revista, de cuja redacção é 
secretario este distincto medico e naturalis- 
ta habilissimo. 

Eolklore de Constantinople, por Henry 
Carnov e Jean Nicolaídes. — Faz parte da 
«Collecção internacional da Tradição» a 
elegante brochura Eolklore de Constantino- 
ple, que ha tempo recebemos de Paris com 
amável dedicatória. N'esta obra, especial- 
mente consagrada ás lendas de Constanti- 
nopla, continuam os seus auctores a publi- 
cação de ricos materiaes ethnographicos, 
recolhidos n'um aturado inquérito aos ve- 
lhos usos, costumes, crenças e superstições 
do império ottomano. Ao longo de 20G pa- 
ginas in-16.''. impressas em óptimo papel, 
se desdobra a narração de 55 lendas bysan- 
tinas, características, qual d'ellas mais sin- 
gular e divertida. 

Profundos agradecimentos e parabéns ao 
insigne litterato e folklorista eximio que é 
Mr. Henry Carnoy. 



Violettes éparses (versos), por Madame 
Louise Vassal. — Violetas dtspursas \ Que 
lindo nome ! e que deliciosos versos são 
essas douces Jleurettes bien aintécs que con- 
stituem o formoso livro I 

Madame Louise Vassal nossue um talen- 
to poelicf) de rara malleanilidade, brilhan- 
te e superior. Quer ella celebre as galas da 
natureza, ou cante da vida os ásperos abro- 
lhos ; divinisando o amor maternal ou exal- 
tando a memoria dos grandes génios, — a sua 
lyra harmoniosa e doce vibra sempre, nos 
mais variados accordes, com a mesma es- 
pontaneidade, a mesma graça, o mesmo 
encanto, o mesmo sentimento delicado e 
communicativo. 

Foi esta, em synthese, a impressão que 
nos deixou uma rápida leitura das Violettes 
éparses^ em cujas mimosas composições se 
allia radiosamente á elevação dos conceitos 
a belleza impeccavel da forma. 

Madame Louise Vassal — uma poetisa de 
raça, a quem os escriptores do Norte con- 
feriram unanimemente os dois primeiros 
prémios de poesia no concurso litterario 
dos Rosati, em França — Madame Vassal é 
a festejada auctora de Ma Goute d' Eau. ou- 
tro volume de perfumados cantos, que obte- 
ve em Paris um verdadeiro successo. 

As Violettes éparses são acompanhadas 
de uma carta-prefacio do nosso illustre col- 
lega da Tradition, Mr. Henry Carnoy, a 
quem devemos a captivante oílerta do exem- 
plar recebido. 

Mittheilungen iind Umfragen ^ur baye- 
rischen Volkskunde. — Tal é a denominação 
de uma revista, magistralmente redigida, 
que se publica em Wurzburg sob a consni- 
cua direcção do sábio professor Doutor Os- 
car Brenner. Occupa-se exclusivamente de 
communicaçóes e perguntas sobre a ethno- 
logia da Baviera. Os números que recebe- 
mos, correspondentes aos annos de 95 a 99, 
encerram substanciosos artigos firmados pe- 
los Doutores Oscar Brenner, Robert Pets- 
ch, J. Schmidkontz, Anton Englorl, R. Sprie- 
gel, etc. 

Eõrdert die baverische Volkskunde ! (Ab- 
druk und Verbreitung erwunscht.) — São as 
instrucçóes, fornecidas pela «Sociedade ba- 
vara das tradições populares», para os estu- 
dos tradicionistas na Baviera. 

Da sociedade a que alludi, e que hoje 
conta 33o sócios, é presidente o Doutor Os- 
car Brenner, lente da Universidade de Wurz- 
burg, e secretario geral o Doutor Robert 
Petsch. A este laureado ethnologo allemão, 
que teve a gentileza de endereçar ao nosso 
companheiro Doutor Piçarra uma larga carta 
de felicitação, escripta em portuguez, pro- 
testamos o mais vivo reconhecimento pelos 
altos favores dispensados á Tradição. 

M. DIAS NUNES. 



48 



A TRADIÇÃO 



BULLETIN POUR LtTRANGER 



I. A TRADITIOK 

,. ilí ílliísiree d'eiliDograpr 

DIRECTEURS 

[..kíísIjiu Tiçarva et T>i<is V^unes 

KKDACTION ET ADMINISTRATION 

 SERPA (PORTUOAL) 
Snnmairf du present numero (ic ia Tradilion 

Texte : — Notes historiques sur Serpa: La 
première conquète de Serpa, par le Com- 
te de Ficalho; iMonsieur Sept, par Trin- 
dade Coelho (Dr.)\ Les Bonnes-tetes, par 
Pedro A. d' Azevedo; La chasse dansledis 
trici de Serpa (suite), par A. de Alello 
Breyn-^r; Chansons, retrains de TAlem- 
lejo : Marianette viens avec moi, par M. 
Dijs Sunes; Histoire de rAlemtejo : o Zé- 
Valente (conclusion), par António Alexan- 
drino; Bibliographie, par M. Dias Nunes. 

Illustrations : — Galerie de costumes popu- 
laires : Porteur d'eau, de TAlerritejo. — Re- 
cueil de chansons : Marianette viens avec 
moi, (Danse). 

UOl\EMEM ETII\OGRAI'lll(ilE PORTIGAIS 

La Tradition (1899) — Nous venons de 
publier en dcuxicme édition la première an- 
née de notre revue. Cest un beau volume 
de plus de 2f)Ó pages, in-i.", imprime sur de 
magnirique papier satiné, illustré de três 
bonnes gravures de costumes populaires et 
enrichi de chansons avec musique. 

La partie littéraire se compose de: 

La morte et rhiver, par Adolpho Coelho 
(Dr.). 

Andar ás vozes *, par Alberto Pimentel. 

L'empereur d 'Eiras, par Alfredo de Pratt. 

Legendes — La procession de cendres, par 
Álvaro de Castro. 

Nouvelles de Minho, par Álvaro Pinheiro. 

La fête du Sacrement, par Alves Tavares. 

Histoires de TAlemtejo. par António Ale- 
xandrino. 

Histoire*» de l'Algarve — Prières supersti- 
tieuses, par Athaide d'Oliveira (Dr.). 

Divinettes — Proverbes et locutions, par 
Castor. 

L'élement árabe dans le langage des ber- 
gers de TAlemiejo, par le Comte de Ficalho. 

Antiquités portugaises, par C. Cabral. 

f.Y conclurei. 



' La locution «Andar ás vozes» se rapporte á une 

ficrsonne qui se promène dans les rues écoutant ce que 
es autres disent, pour tirer augure de ce que Ton dira. 
Kt, selon ce qu'elle entendra, elle échouera ou réussira 
dans Talfaire qui lui occupe la pensée. 



BULLETIN FOR ABROAD 



iMODilily illusirated revíew ol portiiguese ettiiiograptiy 

DIRECTORS 

Ladislau l^içarra and Ttias VSjutes 

OFFICES 

SERPA (PORTUOAL) 
Sunimary «f lho prcsciil iiiimlipr of lhe Tradilinn 

Text: — Histórica! notes about Serpa: The 
first conquest of Serpa, by Conde de Fi- 
calho; Mister Seven, by Trindade Coelho 
(Dr.); Happy Christmas, by Pedro A. 
d' Azevedo; The shooting in the Serpa dis- 
trict (continuation), by A. de Mello Brey- 
ner ; Songs and refrains from the Alemte- 
jo : Mariannita, come with me, by M. Dias 
Nunes; Tales from the Aiemtejo : o Zé- 
Valente (conclusion), by António Alexan- 
drino ; Bibliography, by M. Dias Nunes. 

Illustrations : — Gallery of popular costu- 
mes : Water carrier from the Aiemtejo. — 
Musical collection : Mariannita, come whit 
me (dance). 

THE PORTUGIESE ETinOGRAPIIICAL MOVEJIEJiT 

The Tradition (1899).— We have pu- 
blished in second edition, the first year of 
our review. It is a splendid volume of more 
than 200 pages, in-4.0, printed in magnific 
satin paper and profusely illustrated with 
very good cngravings from popular costu- 
mes and musical songs. 

The text is what follows : 

The death and the winter, by Adolpho 
Coelho (Dr.). 

Andar ás vozes ^ by Alberto Pimentel. 

The emperor of Eiras, by Alfredo de Pratt. 

Legends — On ash-wednesday, by Álvaro 
de Castro. 

Novéis from the Minho, by Alva7-o Pi- 
nheiro. 

The Sacrnment feast, by Alves Tavares. 

Tales from the Aiemtejo, by António Ale- 
xandrino. 

Tales from the Algarve — Superstitions 
prayers, by Athaide d'Oliveira (Dr.). , 

Proverbs and words — Riddles, by Castor. 

The arabian element in the language of 
the shepherds from the Aiemtejo, by the 
Conde de Ficalho. 

Portuguese antiquitcs, by C. Cabral. 

(To be ftnished). 



1 The plirase «Andar ás vozes» is said from a person 
■who walks in the streets to hear what the othcrs said. 
And, accordinp by to what he hear, he will siicccd or not 
in the thing he has the intciition to do 



A.U110 II — IV ."-4: 



SERPA, Abril de 1900 



\'«»liiiii 



II 



Editor-admini&trador, Jote Jeronvmo da Coila Bravo de Secreirui, Kua Larsii, 3 e ^ — SKRI'A 
Typ. de Adolpko de Mendonça & Uuarte, Kua do Corpo Santo, 46 e 4S — LISBOA 




nmm 

Revista mensal il Llliiio(|ra|il)ia Porhii|iii7a, llliislraila 



- (^ «O—Wwt-O— >- 






NOTAS HISTÓRICAS ACERCA DE SERPA 
III 

Silaação de Serpa 
nas circumscripçóes da llespanh.i niussulmana 

GENDO visio, na nota precedente, 
a occasião e circumstancias em 
que teve logara primeira conquista de 
Serpa pelos portuguezes, seria interes- 
sante procurar qual era o estado e im- 
portância d'esta nossa villa n'aquelle 
momento. Há, porém, uma falta abso- 
luta de noticias directas a tal respeito; 
e unicamente é licito fazer algumas 
conjecturas, fundadas em informa- 
ções muito geraes, e relativas a toda 
a região em que Serpa se acha col- 
locada. 

A occupação da Hespanha pelos 
mussulmanos foi extraordinariamente 
rápida. Em poucos annos todo este 
grande paiz estava nas suas mãos ; 
tinham desapparecido quasi por com- 
pleto os vestígios da monarchia Go- 
da que durara séculos ^ e os ante- 
riores habitantes achavam-se, ou re- 
duzidos á condição de mosarabes, 
vivendo sob o governo dos conquis- 
tadores, ou reprezentados por um 
punhado de valentes, acolhido a um 
canto das Astúrias. 

A' sua rica e fácil conquista cha- 
maram os árabes o Paiz Andalús, ou 
a Península do Andalús, porque alar- 



garam a toda a Hespanha o nome 
da parte onde desembarcaram ao 
chegarem da Africa, e primeiro co- 
nheceram. ' 

No Andalús começaram desde logo 
a distinguir a região para o lado do 
oriente, Ach-Charc, d aquella que fi- 
cava para o occidente, Al-(jharb. Se- 
ria, porém, um erro imaginarmos, 
que estas divisões abrangiam toda a 
Península, e entre ellas existia fron- 
teira ou coisa parecida. Pelo contra- 
rio, havia vastos territórios intermé- 
dios, que não pertenciam propria- 
mente, nem a uma, nem á outra. 
Ach-Charc e AlGharb eram expres- 
sões um tanto vagas, como quando 
hoje dizemos o lado oriental e o lado 
Occidental da Península. 

O Gharb, ou Al-Gharb, que uni 
camente nos interessa agora, corria 
ao longo do Atlântico, desde o Al- 
garve a que o nome ficou, por tudo 
quanto hoje é Portugal e Galliza, até 
ás costas do norte. Não queremos 
com isto dizer, que os limites orien- 
taes do Gharb coincidissem com os 
de Portugal ; a expressão era, como 
já dissemos, lata e muito mais vasta; 
e Badajoz, MeriJa, outras terras do in- 



1 Sobre este nome Andalús, ou Andalos, 
que parece prender-se ao dos antigos Vân- 
dalos, veja-se R. Dozv, Recherches sur 
l'Hist. et la Litt. de l'Éspagne, I., 340, 2.''' 
édition. 



A TRADIÇÃO 



terior, consideraram-sc sempre como 
pertencendo ao Gharb. 

Diz-se, que alguns annos depois 
da conquista, um amir da Hespanha, 
um certo Yucef-ibn-Abd-ar-Rhaman, 
dividiu toda a Peninsula para fins 
administrativos e militares em cinco 
grandes provindas, realmente qua- 
tro, porque a quinta caia já em terras 
de França. • Estas províncias coinci- 
diam até certo ponto nos limites, e 
até certo ponto também ainda nos no- 
mes, com as antigas divisões roma- 
nas. Vagamente conservadas pelos 
godos, * aquellas divisões foram ain- 
da conservadas em globo pelos árabes 
dos primeiros tempos. Das quatro 
províncias árabes, duas apenas te- 
mos a mencionar. Uma delias pare- 
ce ter ainda conservado ás vezes en- 
tre os árabes o nome de Lusitânia ; 
mas chamava-se mais frequentemen- 
te a província de Merida, sua capi- 
tal. Partindo do actual Algarve, e li- 
mitada ali pelo Guadiana, abrangia 
toda a Lusitânia antiga, mas não ter- 
minava no Douro, incluia lambem 
toda a Galliza até á costa do norte. 
Do mesmo modo que a Lusitânia, 
alargava-se acima de Badajoz muito 
para o interior. Se por ali os limites 
da província de xMerida dos árabes 
coincidiam com os da Lusitânia dos 
romanos é o que não saberemos di- 
zer, porque nem uns nem outros são 
bem conhecidos. 



' Conde, Parte I, cap. Sy." — Já sabemos 
quanto as affirmações de Conde merecem 
pouca fé. No emtanto parece-me demasiado 
radical a opinião do sr. Cedera, de que, os 
que não são arabistas 720 deben hacer uso de 
tal obra. Continuaremos, pois, a cital-a ; 
mas com todas as devides reservas. 

2 Acerca da conservação das divisões 
romanas em tempo dos godos, e do conhe- 
cimento que d'ellas havia no primeiro pe- 
riodo da restauração christan, principal- 
mente na sua relação com as circumscri- 
pções ecclesiasticas. pode ver-se o Chroni- 
côn do monge de Silos : ou melhor o curioso 
Chrotiicon Émilianense, também chamado 
oAbeldense. — Cito por Berganza, Antigueda- 
de de Espana; mas foram também depois 
publicados na Espana sagrada. 



A outra província árabe, que nos 
interessa, chamava-se propriamente 
Andalusia; teve por capital umas ve- 
zes Córdova e outras Sevilha ; e cor- 
respondia pouco mais ou menos á 
Betica dos romanos. Limitada ao 
norte pelo fio da Serra Morena, abran- 
gia todo o valle do Guadalquivir, e 
vinha até ao Guadiana, que lhe for- 
mava a linha de fronteira por occi- 
dente, desde um pouco abaixo de Ba- 
dajoz até ao mar. 

Deve notar-se uma circumstancia 
interessante, porque iníiuiu depois em 
vários factos históricos, e é, que es- 
tas províncias dividiam muito des- 
igualmente o território que actual- 
mente constitue o nosso paiz. A sua 
quasi totalidade pertencia á provín- 
cia de Merida; e apenas a pequena 
região onde hoje vemos Mourão, Bar- 
rancos, Moura, Serpa e Ficalho fazia 
parte da Andalusia. 

Com o andar dos tempos vieram 
a subdividir-se as grandes províncias 
em mais pequenas regiões, tendo no- 
mes especiaes ; ou que tal divisão 
fosse superiormente determinada, ou, 
o que parece mais provável, que pou- 
co a pouco se introduzisse no uso 
corrente dos povos. Devemos o co- 
nhecimento d'estas regiões principal- 
mente ao geographo árabe Edrisi, 
cujo livro é interessantíssimo, porque 
nos dá o estado da Hespanha mus- 
sulmana nos tempos de D. Aftbnso 
Henriques, de quem elle foi contem- 
porâneo. ' 

Começando pelo sul, havia a re- 
gião de Al-Faghar, correspondendo 
ao nosso Algarve; mas um pouco 
maior, porque chegava a Mertola. No 
AlFaghar ou Chenchir, "^ Edrisi enu- 



1 Géographie d' Edrisi., trad. de Tarabe 
par Amedée Jaubert. Sirvo-me d'esta edição 
que possuo, comquanto conheça a versão 
posterior de R. Dozy e J. de Goeje, muito 
mais correcta e á qual recorrerei por vezes. 
Em geral a de Jaubert é sufficiente para o 
nosso assumpto. 

2 Em algumas phrases de Edrisi, Al-Fa- 
ghar e Chenchir podem parecer dois nomes 
da mesma região ; mas de outras passagens 



A TRADIÇÃO 



51 




Ç)..-. 







Õ2 



A TRADIÇÃO 



mera, entre outras, as povoações de 
Chanl-Maria ibn-Harun i^Santa Maria 
de Faro), ' de Chelb (Silves) e de 
Mcriola, notável pelo seu forte cas- 
tello. Toda a zona do Chcnchir pa- 
rece ter sido já então densamente 
povoada e bem cultivada, sendo co- 
nhecida pelo muito e bom tigo, c pela 
muita e boa uva que produzia. Esten- 
dia-se da foz do Tad-Iana ou rio lana 
( Guadiana) até á igreja chamada al- 
Ghorab (dos Corvos), situada no pro- 
montório estremo (o cabo S. ^'icen- 
te). Era uma igreja de christãos, res- 
peitada pelos roussulmanos, e sobre 
a qual se dizia estarem sempre dez 
corvos poisados. * 

Ao norte do Ai-Faghar começava 
a grande região de Al-Caçr, ou Al- 
Caçr Abu-Danes (Alcácer), na qual 
Edrisi enumera labora (Évora), ' Ba- 
dajoz, Chericha (Jerez de los ca- 
baíleros:), Merida, Alcântara e Co- 
ria. Como se vê, era vasta, alarga- 
va se muito para o oriente, e pelo 
norte chegava ao Tejo. 

Além do Tejo, na região de Bela- 
tha, ticavam as cidades ' de Lisboa 
e Santarém, e o castello de Chintra 
(Cintra). Mais para o norte era já 
terra de christãos no tempo de Edri- 



parece deduzir-se, que Al-Faghar era o no- 
me de toda a região, incluindo a serra, e 
Chenchir maia propriamente o do littoral. 

' Os árabes conservaram-lhe o nome 
christão de Santa Maria, que tinha no tem- 
po dos Godos : e para a distinguir da outra 
Santa Maria no centro da Hespanha, accres- 
ceniaram-lhe o de um dos seus reis ou che- 
fes, Ibn-Harun. Depois, os portuguezes, mu- 
dando o h aspirado em /, disseram, como 
encontramos em um documento de D. Af- 
fonso III, S. Mariam de Faraon, d'ahi Fa- 
rão e Faro. 

' E' muito interessante esta confirmação, 
dada por um hvro mussulmano ao que di- 
zem os nossos velhos documentos; veja-se 
fr. António Brandão, Mon. Lusitana; e me- 
lhor Translatio et Miracula S. Vicenti, nos 
Port. mon. hist.^ Scriptores, p.g5. 

3 E' notável, que Edrisi se esqueça de 
Beja, mencionando povoações menos im- 
portantes. 

* E' claro, que estas expressões cidade 
ou villa são empregadas por simples facili- 
dade de redacção, sem nenhuma referencia 



si, e nem elle continua por ali a sua 
enumeração, nem que o fizesse nos 
interessava. 

Voltemos ao sul, e á parte mais 
do nosso assumpto. Ao occidcntc de 
Sevilha e do Guadalquivir, Edrisi col- 
loca uma região, chamada Ach-Charf, 
cujo nome parece derivar-se de ser 
formada de terras altas e montanho- 
sas. Começava perto e para cá de 
Sevilha, vinha ao sul pelo mar, e in- 
cluía Hicn-al-Caçr (Hasnalcasar), ' 
Lebla (Niebla) no rio Tinto, o porto 
de Uelba (Huelba) na coníiuencia do 
Tinto com o Odiei, a ilha de Saltis, 
e Djcbel-Oiun ou o monte das nas- 
centes (Gibraleon). Edrisi é pouco 
explicito e um tanto confuso quanto 
aos limites occidentaes do Charf; mas 
este devia chegar à foz do Guadiana, 
onde entestava com o Al-Faghar, e, 
subindo sempre pelo rio, incluir a 
parte da Serra Morena por Aracena 
e Arôche, e as terras hoje portugue- 
zas de Serpa e Moura. Leva-nos a 
crer isto, o facto de se não mencio- 
nar nenhuma outra região por estes 
lados, e de o Ach Charf ser uma sub- 
divisão da Andalusia, que eviden- 
temente incluia as nossas terras. 

Quanto ao limite entre a parte do 
Al-Caçr á esquerda do Guadiana e 
o Ach-Charf, é muito difficil de fixar, 
e tanto mais, quanto a Serra More- 
na, que o formava, diminue e se 
perde ao chegar ao valle do Guadia- 
na. E' possivel, que Serpa e ainda 
Moura, com Arôche e Aracena, per- 
tencessem ao Ach-Charf; e Mourão 
com Jerez )á ao Al-Caçr. " 



á sua importância n'aquelle tempo. Lisboa, 
por exemplo, era menos importante que 
Santarém, e muito menos talvez que Silves. 

1 Na tradução de Jaubert, Hçn-el-Caçr 
identifica-se com Castro Marim o que é 
um erro manifesto. Castro Marim fica no 
Al-Faghar e muito longe de Sevilha; alem 
d'isso parece ser de fundação mais moder- 
na. Hasnalcasar é nos campos de Sevilha, a 
baixo de S. Lucar la mayor, como já ad- 
vertiram Dozy e Goeje, na sua versão do 
Edrisi. 

2 Alex. Herculano (Hist. de Port., I, 322), 
em uma rápida enumeração, colloca Juro- 



A TRADIÇÃO 



58 



Sendo da Andaluzia, o aue é in- 
contestável, c do Ach-Chari, o que é 
provável, Serpa foi mais ou menos 
em tempo dos moiros uma dependên- 
cia de Sevilha, e isto decerto inlluiu 
na sua historia. 

Basta reparar na sua situação geo- 
graphica, para ver que deveria man- 
ter as suas relações principalmentL- 
com as terras do lado oriental. O (iua- 
diana formava não só uma fronteira 
natural, como uma linha de deleza, 
boa em todos o^- tempos, excellente 
em tempo de inverno e de aguas 
altas, linha que a sepaiava do Al- 
Caçr. Poderia excepcionalmente estar 
sujeita aos senhores de Beja, ou, 
como já vimos, aos senhores de Mer- 
tola; mas em regra estaria ligada a 
Sevilha ao nascente, ou a Badajoz ao 
norte ; a uma ou a outra conforme 
uma ou outra preponderava. 

Deixando de parte as questões de 
ter sido fundada pelos turdulos, como 
diz mestre André de Resende, ou de 
ali ter sido enterrada a romana Fabia 
Prisca, questões mais ou menos co- 
nhecidas, e mais ou menos nebulo- 
sas, fica o facto seguro, de que Ser- 
pa existia e tinha o nome que ainda 
hoje tem, quando sobreveiu a invasão 
mussulmana. Os árabes não lhe de- 
ram um nome novo, tirado da sua 
lingua, como fizeram com tantas po- 
voações por elles fundadas no Alem- 
tejo, com as Alcáçovas por exemplo, 
com Almodovar, ou com a aldeia de 
Safara na nossa margem esquerda; 
conservaram-lhe o mesmo nome, ape- 



menha e Serpa no Al-Caçr; a collocação é 
segura quanto a Juromenha, mas muito du- 
vidosa quanto a Serpa. — O nome do Ach- 
Charf foi conhecido dos nossos portuguezes 
em tempos antigos. Um documento de Ta- 
rouca (Mon. Lus., L. XI, cap. 27), dando 
conta da ida de um fr. Bernardo com o in- 
fante D. Sancho á expedição de Sevilha, 
diz, que o infante teve uma victoria no 
Anaxjr.iphe. No tempo de Felipe II ainda 
se empregava a palavra na forma Axar/e 
(D. Pablo Espinosa, Hisí. y grand. de Se- 
villa, II, 100 v.o) ; mas limitava-se então ás 
serras perto de Sevilha, e distinguia-se das 
serras de Aracena e de Arôche. 



nas modificado em ("Jiebrina pelas 
exigências da sua pronuncia e da sua 
escripta. K os mais velhos dhtonicotis 
portuguezes dáolhe sem hesitar o 
nome de Serpa, como tendo ficado 
bem conhecido. 

Na invasão geral da Hespanha em 
princípios do \'1II século, os moiros 
toinai am esta antiga povoação ; e, 
com o andar dos tempos, foriifica- 
ramna, ou concertando algumas mu- 
ralhas antigas, porventura de origem 
lomana, ou construindo-as de novo. 
Que era fortificada, resulta claramente 
de Ibn Khaldun lhe chamar fortaleza. ' 
Que não era de grande valor militar, 
pode inferir-se de Kdrisi a não men- 
cionar, fallando repetidas vezes do 
forte castello de Mertola nas visinhan- 
ças, e mesmo de outros muito menos 
importantes, como o de Cacella na 
costa do Algarve. Que não era tam- 
bém muito insignificante, deduzse de 
que logo os moiros mandaram noti- 
cia para Africa da sua perda, como 
diz Ibn-Khaldun; e deduzse egual- 
mente da unanimidade e apparente 
satisfação com que os velhos Clironi- 
cons portugueses registam a sua con- 
quista. Seria, pois, uma povoação 
mediana, cercada de muralhas capa- 
zes de resistirem a um golpe de mão; 
e rodeada ao longe das pequenas 
torres de vigia, a que os moiros e 
depois os christãos chamaram ata- 
layas. ^ 

Estaria sujeita a um Cáid ou Al- 
caide, que governava em volta toda 



' Hiçn Chebnna ; la forteresse de Che- 
brma, traduziu de Slane, Hist. des Tierbères, 
II, 108. 

'■' Os moiros chamavam propriamente at- 
talia aos homens de guarda ; depois o no- 
me passou ás torres isoladas onde esta- 
vam de vigia — Ha nos campos de Serpa um 
grande numero de atalayas, que, pelo me- 
nos nas fundações, devem ser dos moiros. 
E' especialmente interessante a linha de ata- 
lavas, de S. Gens ou Sr.' de Guadalupe, do 
Pexoto e de S. Braz. Estavam á vista umas 
das outras, e claramente di; postas para vi- 
giar as passagens do Guadiana na curva que 
faz das Melrinas até aos Bogalhos ; e toda a 
depressão de terreno desde os Barretos, pela 



54 



A tradk;ao 



a taifa ou districto ; ' e tinha sob o seu 
mando a pequena guarnição moira do 
Castello e das atalayas; e os habitan- 
tes da vilhi, das aldeias, e de algumas 
casas dispersas pelos campos, que, at- 
tentando na pouca segurança d'aquel- 
les tempos, não seriam muito nume- 
rosas. 

Esta população devia ser bastante 
complexa, e o seu exame pode con- 
stituir o assumpto de uma Nota á 
parte. 

CONDE DE FICAI.HO 




SETÚBAL^ 

Crenças, superstições e usos tradicionaes 



II 
SONHOS E AGOUROS 

"Y^ A imaginação ainda embryona- 
J— C ria do homem doutros tem- 
pos, devia produzir-se uma impressão 
forte, ao recordar as diversas peripé- 
cias de um sonho. 

Depois das rudes fadigas a que o 
homem primitivo se entregava, ia re- 
pousar; e dormindo, sabia que tinha 
cortadas todas as relações com a vi- 
da usual, e com o mundo exterior. 

Era então que vinha o sonho. 

Coisas phantasticas, mas na apa- 
rência tão reaes, lhe povoavam o cé- 
rebro, que era com verdadeiro as- 
sombro que via, depois de acordado, 
a falsidade d'essas scenas. 

Então sentiu em si duas vidas; a 
do Dia e a da Noite. 



Junqueira, Val-queimado, e Carreira, que 
era um dos caminhos naturaes para Serpa. 
— A atalaya da Torre c mais moderna; e 
deve ter sido construída ou reconstruída ao 
mesmo tempo que as actuaes muralhas. 

' Cáid era o governador de uma taha ou 
pequeno districto ; adoptada a palavra pelos 
christãos, Alcaide passou a designar mais 
especialmente o governador de um Castello. 



A primeira julgava elle subordinar 
á sua vontade; a segunda não. 

Este facto levou-o a crer que a vi- 
da nocturna lhe era imposta e dirigi- 
da por um ser extranho a si; e como 
sentia não poder inHuir nos sonhos 
d'outrem, calculou que nenhum lio- 
7uem inlluiría nos seus; portanto esse 
ser era invisível e tão poderoso que 
elle, destro e forte na lucta pela vi- 
da, sentia se impotente e completa- 
mente desarmado para reagir. 

Creado o ser sobrenatural e pode- 
roso a dirigir-lhe a vida nocturna, é 
lógico que tomasse os sonhos por 
preságios, e tentasse estudar a sua 
linguagem mysteriosa, nas phantasti- 
cas e caprichosas evoluções do so- 
nho. 

E séculos não bastaram para des- 
fazer essa crença que ainda vive en- 
tre nós, e tem crentes em todas as 
classes sociaes. 

Sc o sonho não tem hoje a impor- 
tância que tinha n'essas épocas longi- 
quas, comcudo ha quem fique incom- 
modado, e á espera de dissabores, 
porque sonhou com uma ave qual- 
quer. 

Sonhar com pcnuas tra^ desgosto. 

Ha tantos e tão acérrimos crentes, 
que ainda hoje, ao desabar o século 
dezenove, se publicam diccionávios 
de sonhos. 

A linguagem dos sonhos é figura- 
da, é como um enygma que o indivi- 
duo p'"etende decifrar. 

Podem dividir-se em três espécies; 
a inversa, a dedutiva e a convencio- 
nai. 

Sonhai^ com riquezas é miséria. So- 
nhar com imundicies, rique\a. Sonhar 
com a tnorte^ signal de vida., etc, 
pertencem á forma inversa. 

No sentido dedutivo temos : So- 
nhar com agua — lagrimas. Sonhar 
com pennas — pezares (penas). Com 
agulhas — intrigas. 

E é pensamento convencional quan- 
do se diz: 

Sonhar que se tira um dente é mor- 
te de parente. 

Quando se sonha com uma pessoa 



A TRADIÇÃO 



56 






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^MÀii]i iJh i' i^POS F()PllL|lRKS 




O ganhão (Serpa) 






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^§^-^<iíKg5^- 



56 



A TRADIÇÃO 



já fallecida, é signal de que a sua 
alma não está na gloria, e anda a pe- 
dir orações aos seus parentes e co- 
nhecidos d"outrora. 

E' mister resar, logo que se acor- 
de, um Padre Nosso e uma Ave Ma- 
ria por ífitenção do morto. 

A lista das decifrações é extensís- 
sima, como todos sabem pelos livros 
que tratam da especialidade, e para 
o presente caso, nenhum interesse 
otTerccem, pois todos teem por base 
a classificação já apontada. 



Filia-se nos sonhos a crença nos 
agouros. Tiveram a mesma origem e 
juntas atravessaram séculos até nos- 
sos dias. 

Ao ver algumas vezes transporta- 
dos para a luz do sol vários episódios 
observados durante o sonho, nada 
mais natural do que attribuir-lhes a 
mesma origem, e crèl-os também ver- 
dadeiros vaticínios. 

São vulgares e numerosos os agou- 
ros, e também atingem todas as clas- 
ses. 

A ierça e sexta são dias aziagos 
para muita gente: e ha quem n'esses 
dias não encete trabalho nem negocio 
algum. 

O azeite entornado, um vidro que 
se parta, um bezoiro que entra zum- 
bindo pela janela, são maus presá- 
gios. 

A entrada em qualquer parte deve 
efectuar-se com o pé direito, sob pe- 
na de mau êxito. 

A vista, em jejum, de um estrabi- 
co, é também um mau agouro. 

Lavar-se na mesma agua, prenun- 
cia desavenças. 

Ha um verdadeiro horror pelo nu- 
mero treze. 

Um jantar de treze talheres é fatí- 
dico, pois crêse que essas pessoas 
nunca mais se juntarão, em memoria 
da ceia de Christo. 

Um cão a uivar, uma coruja pian- 
do, são funestos preságios. 



Galinha que canta como o galo pe- 
de a morte para o dono, e só se des- 
faz o agouro matando-a e . . . comcn- 
do-al 

Quando se sente uma orelha mais 
quente é indicio de que estão a falar 
da pessoa. 

Se é a orelha direita estão a í,Tf/;^fr 
wa/, se c a esquerda estão a di:{er 
bem. 

Quando acontece cahir qualquer 
coisa que se vá comer, é signal de que 
alguém nos quer falar e não pôde. 

Varrer as casas á noite é tido como 
um mau habito; e deitar o lixo fora, 
crê-se que é o mais pernicioso possí- 
vel porque se deita a fortuna pela 
porta fora. . 

A andorinha ninguém aqui perse- 
gue de qualquer forma. Respeiíam- 
Ihes os ninhos, e chegam até a abrir 
buracos nas portas, ou deíxal-as aber- 
tas até noite fechada para as andori- 
nhas terem ocasião de recolher-se. 

E' a ave consagrada á Virgem. Não 
pôde ser feliz quem matar uma an- 
dorinha. 

Ha também a crença de que quem 
mata um gato anda sete ânuos para 
íra^. Esta crença, muito conhecida 
aqui, não é tão respeitada como a das 
andorinhas. 

A entrada da mosca varejei) a (sar- 
cophaga carnaria h) é signal de pró- 
xima visita ou presente. 

O algarismo sete tem na imagina- 
ção supersticiosa do povo o seu tanto 
ou quanto de mysterioso. 

O raio enterra-se 7 braças e re- 
aparece á superfície da terra ao fim 
de 7 annos. 

Havendo 7 filhos, o ultimo é lobis- 
homem. 

Emquanto houver arco-iris (arco 
da velha ou da aliança)., ha ainda 7 
annos de mundo. 

O que mata um gato anda 7 annos 
para tra^. 

Eis em resumo os principaes agou- 
ros que povoam os cérebros, ator- 
mentando os espíritos mais ou menos 
esclarecidos que lhes dão credito. 

ARRONCHES JUNQUEIRO. 



A TRADIÇÃO 



57 



O GANHÃO 



GO í^allucho, o soldado raso da 
campanha agrícola. De «moço 
do monte» passou a ganhão — ahi 
pelos I b annos, 

Klle leva a semana inteira no monte 
ou na herdade dt) amo ; e emquanto 
trabalha, atraz do arado, vae-se exer- 
citando na moda-nova e nas cantigas 
que, ao sabbado n noite, quando vier 
á villa, ha-de cantar pela rua onde 
mora a namorada Rlia também — 
nas aceifas, nas mondas, ou no apa- 
nho da azeitona — suspira de vez em 
quando 

Tomara já cá 
Sabbado á noite 
Para vêr meu bem 
Que ha-de vir do monte. 

Quando, ao sabbado, o feitor dá o 
louvado^ o ganhão solta depressa a 
junta, arruma em logar certo a apei- 
ragem, e de manta ás costas, e bor- 
dão, elle ahi vêm a caminho da villa. 
E nessa noite é certo o mancebo 
rondar a casa da sua namorada, can- 
tando-lhe em altas vozes, ao som da 
moda-nova^ as lindas quadras que 
aprendeu durante a semana. 

EUa, por seu lado, no rancho onde 
trabalha, não deixa de entoar 

Mais vale um ganhão 
Sem manta nem nada, 
Que trinta sovinas 
De bota engraxada. 

Mais vale um ganhão 
Roto e sem camisa, 
Que trinta sovinas 
De marrafa lisa. 

No domingo á tarde, vestida a rou- 
pa lavada, e convenientemente arre- 
mendado, lá volta o nosso heroe para 
«a sua obrigação». 



(Serpa.) 



A. de MEIíXO BREITNER. 



OS AYI^MMI^lS 



i(^oiilinu.icl<i de paf-. S7) 

CAUE aqui uma observação. 
K* verdadeiro o que tenho 
relatado; mas não vá ninguém sup- 
pòr que a \'idigueira c uma terra de 
supersticiosos, que nisso engana-se 
redondamente. A \'idigueira — apar- 
te alguns ingénuos crentes no sobre- 
natural—é uma das terras que eu 
conheço mais livres de prejuizos. Hn- 
tre o povo mais simples é que ainda 
se crê em : almas do outro mundo^ 
virtuosos, avejõcs, encommendas ao 
homem morto a ferro ^ he)i:;eduras^ 
bruxedos^ feitiços^ lobis-íiomeus, etc. 
Mas os incrédulos, que constituem o 
grande numero, não raro matam pelo 
ridiculo a imaginação creadora dos 
allucinados, descobrindo a causa da 
illusão que faz temer e vêr phantas- 
mas; pois que nem sempre é pura 
invenção a scena dos avejóes. 
Duvidam? Ouçam este caso: 
Fma noite. . . noite silenciosa e de 
luar (sempre o luar!j seria uma para 
duas horas, comecei de ouvir, cor- 
tando estridulamente o silencio no- 
cturno, uns gritos de mulher, imper- 
tinentes e quasi ininterruptos, que, á 
primeira audição, nada tinham d'ex- 
traordinario, mas que me desperta- 
ram curiosidade pela insistência e 
por um c^rto tremor de voz que, 
mesmo a distancia, julguei notar. 

A mulher bradava: «O' mano An- 
tónio! O' mano António I» E este 
brado, bem simples, arinal, ouvi eu, 
centos de vezes repetido, a ponto de 
me fazer marchar para o sitio d'onde 
o brado partia, aguilhoado pela cu- 
riosidade. No caminho juntou-se a 
mim um outro curioso e fomos os 
dois ver o que aquillo era. . . Os gri- 
tos partiam d'uma casa situada quasi 
no extremo norte da povoação — o 
largo de S. Francisco. O mano An- 
tónio^ a que a voz se referia, pernoi- 
tara em umas eiras pouco distantes, 
e não dava parte de si, o dorminho- 
co. Nós chegámos ao largo, e, pouco 



ÒS 



A TRADIÇÃO 



depois, abriu-se um postigo e outro 
e outro, e pudemos emfim saber o 
que se passava. 

Passava-se isto: Todas as noites 
aquella gente, estando a gosar o fres- 
co ás portas, como é d'uso para aqui, 
tinha de se recolher precipitadamente 
e morta de susto porque lhe surgia 
inopinadamente, e vindo do adro mu- 
rado da próxima egrcja, uma figura 
que se arrastava, uma a espécie de 
enorme gafanhoto» diziam, que per- 
corria o largo silenciosamente, vaga- 
rosamente, e que, passados alguns 
minutos, tornava ao mesmo adro, 
desapparecendo como por encanto... 
l'm homem são c forte, um traba- 
lhador dos campos, estava a contar- 
nos isto, tremulo de medo, e ao pos- 
tigo da porta que ainda se não atre- 
vera a abrir, quando a dos brados 
ao mc77/o António — a mais foita de 
toda aquella gente, porque ao menos 
CO servava energias na voz, veio ao 
nosso encontro a dizer-nos: «que lá es- 
lava, ainda, elle ! que lá estava elle!» 

Olhámos, e pareceu-nos distinguir 
um vulto, junto á porta da egreja, 
estendido no chão. Avançámos para 
o adro, que tem duas entradas, eu 
pela mais próxima e o meu compa- 
nheiro pela outra. O desventurado 
pfijintasma^ não vendo outro remé- 
dio, pois que era um phantasma inof- 
fensivo, atirou-se para o lado do meu 
companheiro antes deste lhe tomar 
a sahida, e precipitou-se numa car- 
reira vertiginosa, dando ás de Villa 
Diogo em direcção a uma azinhaga 
próxima, como um ligeiro phantas- 
ma que era. Corremos os dois, tam- 
bém, e coube a gloria ao meu com- 
panheiro de ser o primeiro que pou- 
de dcitar-lhe a mão. 

Pobre phantasma . . . mettia dó ! 
Em ceroulas e com ellas regaçadas, 
descalço, e com um gabanito ás cos- 
tas, tremulo, indignado, e gaguejan- 
te, tartamudeava, entre medroso e 
fulo: «que era porque elle q'ria! que 
era porque elle qVia!» 

Do largo da egreja — isso simi nin- 
guém se atrevera a seguir-nos. 



Nós voltámos lá, depois do pa- 
cifico ajuste de contas com o desas- 
trado, a descançar aquella pobre 
gente. 

A coisa era esta: O homem che- 
gava ao adro pela entrada por onde 
nos fugira : do largo esta abertura é 
pouco visivel. Prepai'ava-se^ como 
atraz fica dito, e avançava com os 
dois cotovellos e os dois joelhos em 
terra, fazendo salientar os braços e 
as pernas de modo que dava, segun- 
do os medrosos, a idea do tal enor- 
me gafanhoto caminhando mysterio- 
samente. Passeava assim, triumphante 
e sinistro, o tempo que elle entendia, 
e recolhia-se depois a bastidores para, 
na seguinte noite, continuar a singu- 
lar penitencia. . . Que era uma peni- 
tencia, aquillol E porquê, santo Deus? 
Porque um inimigo (e era um parente 
próximo!) cujos pães queriam passar 
por pimpões, não conseguira, ape- 
sar dos empenhos^ livrar-se do servi- 
ço activo do exercito ! 

A penitencia foi, até certo ponto, 
cumprida religiosamente (pobre reli- 
gião, em que tão mal se comprehen- 
de Ueusl); mas o resto, isto é — o 
rabo é que foi peor d'esfolar... Sou- 
be-se do caso, e o avejão apanhou, 
do primo soldado e dos irmãos d'es- 
te, uma bôa data de marmelleiro 
que, dizem, lhe soube a tâmaras! 



Por estes factos já podem avaliar 
que a tradição dos avejões tem por 
aqui os seus adeptos, e que, sem to- 
dos acreditarmos na parte sobrena- 
tural do assumpto, se crê geralmente 
que este é digno da attenção dos Vi- 
digueirenses. . . apesar de fazer dor 
mir — e bem hajam! — os ajuizados 
leitores da sympathica revista «A 
Tradição». 



Vidigueira. 



FEDRO COVAS. 




A TRADIÇÃO 



59 







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A TRADIÇÃO 



H0II\S4;STIIIIIILII0S.\LEJITEJA\AS 

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Li-olé, toma lá pintiões! 
Li-olé. toma lá pinhões! 
Poucochinhos. que elles dão sezões. . . 
PoBcochinhos, qne elles dão sezões . . . 

M. BIAS NUNES. 



A caça no concelíio cie Serpa 



(Continuado de pag, 45) 

a CAMA do caçador varia com as 
condições d'este. A dos ricos 
consiste numa sacca de linhagem, 
grande, que se enche de palha ou 
rama de matto, no próprio logar onde 
se dorme, mettendo-se do lado da 
cabeceira e por baixo do improvisado 
colchão, uma pedra ou um madeiro, 
o que primeiro se encontra. Duas 
mantas alemtejanas, que se põem 
uma por baixo e outra por cima do 
corpo, servem de cobertura e abrigo 
ao caçador rico. 

Esta é a cama tradicional, porque 
hoje em dia \áo-se adoptando as mo- 
dernas camas portáteis. 

Os homens do campo fazem a ca- 
ma exclusivamente de matto, colhido 
em grande abundância, e tapam-se 
com a manta de lan que sempre le- 
vam sobre a mochila. 

Quando, no verão ou na primave- 
ra, algum rancho é surprehendido 
por trovoadas em descampado, usa 
fazer-se o seguinte : Procuram-se 
umas seis ou oito varas, compridas, 
de medronheiro, esteva, ou outro 
qualquer arbusto, (o que não é diffi- 
cil de encontrar) e tancham-se no 
chão, ao longo da cama, d'um e 
doutro lado. As extremidades livres 



das varas que ficam d'um lado, são 
unidas ás do lado opposto, formando 
arcos, que depois são cobertos por 
uma ou duas mantas, bem esticadas, 
á maneira d'um toldo de carro. Para 
que a cama não seja encharcada pela 
agua, colloca-se a sacca sobre uma 
bôa camada de matto. 

Ha quem, em vez do toldo descri- 
pto, adopte barracas especiaes. 



Os caçadores, principalmente ho- 
mens do campo, usam ainda as es- 
pingardas d'um só cano, por serem 
mais baratas. Todavia ha quem po- 
dendo usar espingardas de dois ca- 
nos, prefere as primeiras. Por exem- 
plo, o meu particular amigo e mestre 
Francisco Louzeiro, que tendo meios 
e possuindo boas espingardas de dois 
canos, caçava sempre com as d'um 
só cano quando se tratava de caça' 
grossa. 

Havia várips espécies de canos: 
uns compridos a que chamavam fran- 
cezes; outros (mas poucos) curtos 
d'origem ingleza, chamados rifles; 
os canos de três setes — 777 — , cuja 
procedência ignoro, e ainda outros 
sem marca nem distinctivo. 

A' medida que as espingardas de 
dois canos foram apparecendo no 
mercado, e o seu preço barateando, 
começou a diminuir o uso de espin- 
gardas d'um cano, sem que, como já 
disse, desapparecessem de todo. 

Vieram ultimamente as espingar- 
das de fogo central, mas estas não 
se teem generalisado tanto, porque, 
além de serem muito mais caras, não 
são tão certeiras, sobretudo nos tiros 
de chumbo e quando se desfecha a 
grandes distancias. 

As espingardas do novo systema 
teem ainda, para os caçadores, o in- 
conveniente de que os seus canos es- 
trangulados não servem para bala; e 
os de bala não servem para chumbo. 
E o caçador não pôde trazer atraz 
de si um creado com differentes mo- 



A TRADIÇÃO 



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delos de espingardas para se servir 
d'aquelle que precise a cada momen- 
to. Occorre-me ainda outro inconve- 
niente das espingaidas em questão, 
e vem a ser que, disparandose mui- 
tos tiros na caça miúda, e especial- 
mente no verão, é preciso diminuir 
a pouco e pouco a carga de pólvora 
e o aperto das buxas, o que somente 
pode lazerse com as espingardas de 
atacar pela bocca. 

E' pena que assim succeda, pois 
que, a par dos inconvenientes apon- 
tados, teem as espingardas de fogo 
central vantagens muito apreciáveis, 
como são o aceio e a promptidão no 
desfechar e na mudança de cartu- 
xos. 

Ao caçador a valer, o que lhe con- 
vém é uma arma bôa, que elle co- 
nheça e saiba bem o que vale ; é ella 
a sua companheira de todas as horas, 
na qual contia para se defender e 
matar a caca. 



Ha duab epochas em que, princi- 
palmente, todos os caçadores sahem 
a campo: são as semanas que prece- 
dem o Natal e o Carnaval (semana 
de comadres). N'esta ultima, costu- 
mam os caçadores, organisados em 
ranchos ou joldas^ ir caçar para a 
serra ou nos arredores da villa e das 
aldeias. N outros tempos mais do que 
hoje. 

Havia também, antigamente, o cos- 
tume — que hoje se conserva, apenas, 
nas aldeias — de, todos os sabbados, 
se reunirem em jolda os caçadores 
para caçarem nesse dia. 



(Continua.) 



A DX raEI.1.0 BREYNER. 




CONTOS ALGARVIOS 



o REI SÁBIO E CEGO 

"p^AviA um rei e tinha uma filha. 
X-- C Ksta andava de amores com 
um rico negociante, rapaz solteiro. O 
rei foi avisado destes amores e esprei- 
tou a lilha. Succedeu que o negocian- 
te, tendo de ausentar-se, subiu por 
uma escada de seda e foi falar á prin- 
ceza. O rei esteve de espreita e ou- 
viu toda a conversação de ambos, de- 
duzindo que a filha estava pejada. 
Ora o negociante dirigiase ao seu 
destino por mar. 

Nessa noite o rei deu ordem que 
fosse preparado um navio com alguns 
marinheiros, dando se a estes as de- 
vidas instrucções. Assim foi resolvi- 
do. No dia seguinte disse o rei á fi- 
lha: 

— Falou comigo o teu namorado 
e confessou-me que eslavas pejada. 
Resolvi que o acompanhasses no seu 
barco e lá fora se casassem. Prepa- 
ra, pois, os bahus e leva toda a tua 
roupa e valores que te pertençam. 

A princeza ficou surprehendida e 
fez o que o pai lhe mandou fazer. 
Dirigiu-se para a praia, e logo encon- 
trou uns homens, que pegaram n'ella 
e a metteram no navio. Então se con- 
venceu de que o pai lhe destinava 
algum castigo. Chegando o navio a 
uma ilha que os marinheiros julgaram 
deserta, desembarcaram a princeza 
na praia e os seus bahus, e levanta- 
ram ferro, não obstante as lagrimas 
da exilada. Conservou-se por algum 
tempo na praia até perder de vista o 
navio. Era noite, e foi-se acolher a 
uma lapa próxima, onde não havia 
feras. No dia seguinte, comeu fructos 
silvestres e bebeu agua das fontes. E 
assim se conservou por alguns mezes 
até que deu á luz uma creança do 
sexo masculino. O menino cresceu a 
olhos vistos : quando tinha um rnez 
parecia ter um anno. Era de uma 
pasmosa agilidade e quasi apanhava 
a caça na carreira. Em uma occasiao 
foi o menino surprehendido com a 



62 



A TRADIÇÃO 



presença de um homem; poz-se a cor- 
rer e veiu esconder-se junto da mãi 
na lapa. O homem approximou-se e 
chamou pelo menino ; ninguém lhe 
respondeu. 

— Não me respondem, vou dar fo- 
go á lapa — disse em voz alta. 

Então sairam mãi e filho da lapa, 
disendo aquella que seu filho estava 
por batisar, occultando porém a sua 
qualidade de tilha de um rei. O ho- 
mem instou que deixasse ella ir o 
menino com elle para ser batisado, e 
afinal a mãi cedeu 

A criança tinha então oito annos e 
parecia ter vinte. Era reforçado e 
muito ágil. Acompanhou pois o ho- 
mem e foi batisado, sendo seu padri- 
nho o desconhecido. Depois pediu li- 
cença ao padrinho para ir onde es- 
tava sua mãi, mas o padrinho pediu- 
Ihe que ficasse até ao dia seguinte, 
pois havia na terra uma feira. O me- 
nino ficou. As informações que o pa- 
drinho deu acerca do modo por que 
tinha encontrado a criança, fizeram 
que todos o conhecessem pelo meni- 
no da lapa. 

Na feira viu o menino um cavallo 
muito bravo e que ninguém ousava 
montar. 

— Compre-me aquelle cavallo — 
disse para o padrinho. 

— E' um cavallo muito bravo, ain- 
da não foi montado. Tu não o pode- 
rás montar, mas se a tanto ousas, 
compro-t"o. 

O menino da lapa deu um salto 
sobre o cavallo, e n'uma correria che- 
gou ao logar onde sua mãi anciosa- 
mente o esperava. D'ahi em deante 
saia todos os dias á caça montado 
no cavallo bravo. Em um dia foi dar 
a uns palácios arruinados, onde en- 
controu um gigante que se atirou a 
elle no intuito de o matar. O meni- 
no, porém, deu-lhe tamanha panca- 
da, que o gigante caiu com uma fe- 
rida enorme. 

— Deus prometteu-me que se al- 
guém me ferisse, não me matasse, 
mas me prendesse no alçapão do pa- 
lácio — disse o gigante. 



Então foi o gigante levado para o 
alçapão, sendo ali fechado á chave, 
que o menino guardou. Foi elle ver 
as diversas salas do palácio e pas- 
mou de ver reunidas tão grandes ri- 
quezas. Montou logo no cavallo e foi 
buscar sua mãi. Ora a mãi pensou 
que a sua fraqueza, cedendo ao seu 
amante, era causa da sua desgraça, 
e por isso já não tratava o filho com 
o carinho de mãi. Logo que se viu 
possuidora de tantas riquezas ficou 
satisfeita. 

— Minha mãe pode servir-se de to- 
das as chaves do palácio e abrir to- 
das as portas, menos da chave que 
está no meu quarto e que abre um 
alçapão, onde minha mãi nunca deve 
entrar— disse-lhe o filho. 

A mãi assim prometteu. 

No dia seguinte, quando o filho foi 
para a caça, dirigiu-se ao quarto do 
filho, tirou a chave e foi abrir o alça- 
pão. Então chegaram aos seus ouvi- 
dos uns gemidos. Aproximou-se e viu 
o gigante. Taes lamurias fez, e tão 
boas palavras lhe deu, que a mulher, 
por conselhos do gigante, foi a um 
armário buscar um frasco de óleo, 
esfregou-o com elle, e o gigante ficou 
completamente curado. Não ficou po- 
rém só aqui: apaixonaram-se um do 
outro. O gigante subiu aos aposentos 
superiores e ali com ella combinaram 
descartar-se do menino. 

— Só ha um meio — disse o gigante. 

— Qual? interrogou ella. 

— Fingir-se doente de uma dor e 
dizer ao seu filho que passou por 
aqui um medico que a aconselhou a 
lavar-se com a agua de uma fonte 
no bico do serro, a duas léguas de 
aqui. Elle vai buscar a agua á fonte, 
sempre cercada de enormes bichos, 
que promptamente o devoram. 

E assim succedeu. Logo que o fi- 
lho viu a mãi doente e soube que só 
podia ser curada com a agua da tal 
fonte, montou no seu cavallo e para 
lá se dirigiu. 

A certa distancia do serro rinchou 
o cavallo e logo viu próximo um pa- 
lácio e á janella um velho. 



A TRADIÇÃO 



63 



— Vem ali o menino da lapa — 
disse o velho para as suas três filhas 
— a mais nova trata-lhe do cavallo, 
a do meio prepara-lhe a comida e a 
mais velha arranja-lhe a cama. 



(Continua. 
(I.oule.) 



ATHAIDE DOLIVEIRA 



Questionário sobre as crenças relativas 
aos animaes' 



EMINENTE sclentísta Mr. N. W. Tho- 

maz tem em preparação uma obra 

de extraordinária importância, qual 

é o estudo comparado de todas as crenças 

relativas aos animaes nos diversos paizes da 

Europa. 

Para levar a cabo o seu trabalho colos- 
sal, dirigiu-se o sábio ethnologo allemão a 
vários tradicionistas europeus pedindo ins- 
tantemente que o secundassem n'uma em- 
preza tão arrojada e árdua. 

Pela nossa parte accedèmos da melhor bôa 
vontade ao honroso convite que. em lison- 
geira carta, foi endereçado á Tradição. E as- 
sim, temos o prazer de inserir abaixo — livre- 
mente traduzido — o questionário ou base 
de inquérito que Mr. Thomaz nos mandou. 

Aos nossos distinctos collaboradores rogá- 
mos, com o mais vivo empenho, a incompa- 
rável fineza de enviarem para esta redacção 
todas as informações que possam ministrar- 
nos sobre o assumpto de que se trata. 

As respostas a um ou mais números do 
questionário irão sendo publicadas na Tra- 
dição pela ordem por que as formos rece- 
bendo. E' indispensável que os nossos pre- 
sados collaboradores se não esqueçam de 
mencionar a proveniência de cada uma das 
crenças ou superstições que se dignarem re- 
ferir-nos. As respostas aos n."' 14 e 22 do 
questionário devem vir acompanhadas (sen- 
do possivel) de photographias ou desenhos 
elucidativos dos objectos a que nos mesmos 
números se allude. 

1. — Quaes são, na crença popular, os 
animaes (^aves, insectos, etc.) que trazem ou 
felicidade ou desgraça a quem os vê ? 

2. — Quaes são, na crença popular, os 
animaes que trazem ou felicidade ou des- 
graça á casa onde vivem ? 

3. — Quaes são, na crença popular, os ani- 
maes que presagiam a morte ? 

4. — Quaes são, na crença popular, os 
animaes que presagiam as colheitas ? 



1 Para dar publicidade ao presente artigo somos obri- 
gados a retirar a 'Bibliographia. 



5. — Conhecem-sc as ultimas espigas pelo 
nome d'algum animal.-' Diz-se que algum ani- 
mal atravessa os campos quando o trigo se 
inclina á mercc d'alguma rajada de vento? 

"f». — Crê alguém poder assegurar-se da fe- 
licidade jt^uardando em casa animaes, aves, 
etc. ? Cre alguém dever agarrar ou saudar o 
primeiro anmial, ave, etc, de cada espécie, 
quando se vêem pela primeira vez napii 
mavera ? 

7. — Que importância tem a cór dos ani- 
maes (na super>tição) r 

S. — Ha animaes que gosam d'uma santi- 
dade local, isto é, que ninguém quer matar, 
nem comer, nem mesmo vêr, e cujo nome 
ordinário não se emprega ás vezes ? 

y. — Ha animaes que apenas se comem 
uma vez por anno, ou que se comem uma 
vez por anno ritualmente i 

10. — Ha animaes que são caçados uma 
vez por anno ou que são mortos por occa- 
sião de festas populares ? 

11. — Exhibem-se animaes, arcaboiços de 
forma animal, ou homens vestidos de pelles 
d'animaes para fazerem peditórios ;* 

12. — Crê alguém poder ganhar o poder 
magico de curar as doenças comendo a car- 
ne de certos animaes, deixando-os morrer 
na mão, ou tocandolhes ? 

i3. — Que animaes são usados na medici- 
na popular, 011 na magia, e com que intenção - 
Crc-se que os poderes mágicos variam con 
soante a estação em que o animal é morto? 

14. —Pelo Natal, etc, fazem-se bolos aos 
quaes se dá o nome ou a forma d'algum ani- 
mal ? 

i5. — Acredita-se que os mortos appare- 
cem em forma d'animal ? 

16. — Acredita-se que as feiticeiras teem 
o poder de se transformar em animal ? 

17. — Quaes sãs os animaes que se julga 
comprehenderem a linguagem humana ? 

18. — Que animaes se julga que sejam 
homens n'outros paizes ? 

19. — Segundo a crença popular, quaes 
são os animaes que levam as creancinhas í 

20. — Contam -se lendas de raparigas (ou 
rapazes) que apparecem ordinariamente sob 
a forma d'um animal, e que para casarem é 
necessário que se lhes arranque a pelle ? 

21. — Ha cerimonias por occasião do nas- 
cimento, do casamento e da morte nas quaes 
se faz uso d'um animal, da sua pelle, etc. .-* 

22. — São as casas, as medas, etc, encima- 
das por um craneo, uma cabeça d'animal (de 
madeira ou d'outra natureza), ou encontram- 
se aquelles objectos ao redor dos campos ? 

23. — Que animaes são usados como si- 
gnal de estalagem ? 

24. — Ha jogos de creanças ou cerimo- 
nias nas quaes se imita os animaes ou se 
põe uma mascara, ou aos quaes jogos se dá 
um nome d'animal ? 

25. — Ha animaes que são enterrados por 
causas supersticiosas ? 

A RXDACÇÃO. 



64 



A TRADIÇÃO 



BULLETIN POUR LITRANGER 



Revue raensueiie íllusii-ee (l'eilinograpliie poriugaíse 

DIRECTEURS 

LjJíslau T^içarra et 'Dias õ^wies 

REDACTION ET ADMINISTRATION 

à SERPA iPORTUOAL) 
Sflmmairp du presoni imiiiuto df la Tradilioii 

Te\ie : — Notes historiqucs sur Serpa ; La siiuation de 
Serpa dans les circonscriptions de l'Espa{íne musiil- 
mane. par le Comte de Ficalho; Setúbal— croyances, 
siipi-rstitions et usares (siiitr), par cArronches Jun- 
queiro; Le •ganhão» (garcon de charruei, p;ir c4. de 
íMeilo "hreyiter: Les faniômes (conclusion), par Pedro 
('.ovas: Chansons. rcfrains de rAkmteio: Lcs pommes 
de pin, par z\í. bias C\i"ies; La chasse dans le dis- 
trict de Serpa (suite), par A. de Mello Breyiier; His- 
mire de 1 'Algarve: Le roi savant et aveugie, par Atliai- 
de d Oliveira iDr.i; Questionnaire sur le> croyances 
rrlatives aux animaux, par la Redaction. 

llliisiralloiis: — La rrtnarquable ville de Serpa, vue 
dl' nordoucst.— Galerie de costumes popuiaires : Le 
• ganhão* (garçon de charrue).— R-icueil de chansons: 
Les pcmmcs de pin (musique). 

\|1IIVEÍ1F,NT FJIINO(.lt\l'lliniE PORTLGAIS 

La Tradition, de 1899 (conclusion). — 
Noèl, Nouvelle-Année, Jour de Róis — Danses 
popuiaires — Chansons, refrains — En Carê- 
me — La fète de la Guadeloupe — La proces- 
sion tie Corpus Christi — Le jour de Saint- 
Jean ã Serpa — Les tables de Moise — Biblio- 
graphie, par M. Dias Nunes. 

Vidigueira et ses traditions — La Mi-Ca- 
rême — Le taureau de Sainl Marc — Péniten- 
ces nocturnes, par Fazenda Júnior. 

Vers utérins — Féeset sorcières — Sorcières 
et ensorcellement, par Filomatico. 

Rimes popuiaires, par João Varella (Dr.) 

Jeux popuiaires — Le bain de ràme--Le 
Carnaval — Prières superstitieuses — Médeci 
ne empirique, par Ladislau 'Piçarra {Dr.). 

Habitations, par Lopes Piçarra. 

Estr.tinga-Estantiga, par (£Madame <£\íi- 
chaélis de "Vasconcellos. 

La course de la vache aux cordes à Ponte 
de Lima, par Miguel de Lemos. 

Recuei! de chansons popuiaires — Les ha 
bitants de la peninsule iberique, par Paulo 
Osório. 

Les superstitions des crimineis — Les fêtes 
de Saint-Marc prés de Serpa, par Pedro A. 
d'Q4^evedo. 

Les charlatans, par Pedro Covas. 

La Tradition, par T^amalho Ortigão. 

Botanique populaire, par M.^He Sophia da 
Silva {T)r.}. 

Le médecin de la moule russe, par Sou^a 
Viterbo (Dr.). 

La Mi-Caréme. par Theophilo Braga {Dr.) 

Legendes et romans, par Thomaj Pires. 



Prix du volume broche, 5 fr. 



BULLETIN FOR ABROAD 



wmm WMrMm^Mim 



ii; 

DIRECTORS 

Ladislau T^içarra and ^ias U^unes 

OFFICES 

SERPA (PORTUOAL) 
Suiumary of lhe presenl nuiuber of Iht^ Tradilion 

Wxt : — Hisiorca! notes aboiít Serpa: Serp's situation 
in the circumscriptions ot Musulman Snain, by Conde 
de Fica lho; Setúbal l,eL'ends, superstitions and tra- 
ditional usages (continuation), by Arronches Junquei- 
ro; The «ganháoii (farm servant), by A de Mello 
"Breyney; The gliast (conclusion) by fedro Covas; 
Songs, refrains from Alemtejo: The kt-riids, by M. 
tnas Nunes; 1 he shootiní.- n the Serpa district iconti- 
nuation), bv c4 de Mello Breyner; Tales from lhe 
Algarve: The wise and blind King, by Athaide d'Oli- 
veira {Dr i; Questionary about the bcliefs relative to 
animais, by lhe Ediíors. 

■Ilustralions:— Tne remarkable Serpa secn from north- 
west.— Galery of popular costumes: O «ganhão» ifarm 
servant) — Musical collection: The kcrnels (dince). 

THE PORTltílESE ETII^OGRAPHICAL MOVEIIIEKT 

The Tradition, of 1899 (conclusion)— 
Christmas, New-Year and the day of Kings 

— Popular dances — Songs, refrains — On 
Lent — The feast of the Guadalupe — The 
procession of Corpus-Christi — The St. Jo- 
hn day in Serpa — The tables from Moses 

— Bibíiography, by Dias Nunes. 
Vidigueira and its traditions — Mi Carê- 

me — The buli of St. Marcus — Nocturn pe- 
nitences, by Fazenda Júnior. 

Uterin vermins — Witches and hags — 
Witches and soresies, by Filomatico. 

Popular rhymes, by João Varella (Dr.) 

Popular games — The bath of the soul — 
The Carnival — Superstitions prayers — Em- 
pirical medicine, by Ladislau Piçarra (Dr.). 

Habitations, by Lopes Piçarra. 

Estatinga-Estantiga, by À/.'' Michaelis de 
Vasconcellos. 

The course of the cow with the ropes at 
Ponte de Lima, by oMtguel de Lemos. 

Colletionjof popular songs — Habitants of 
Ibéria, by Paulo Osório. 

Superstitions from the criminouses — The 
feast of St. Marcus near Serpa, by Pedro A. 
d'A^evedo. 

The charlatans, by Pedro Covas. 

The Tradition, by Ramalho Ortigão. 

Popular Botany, by Miss Sophia da Silva. 

The doctor with the reddish mule, by 
Sowfa "Viterbo (DrA. 

Mi-Carême, by Theophilo TBraga (Dr.). 

Legends and romances, by Thoma^ Pi- 
res. 



Price of the volume stitched — 5 fr. 



.A.iiiit> II — IN." r> 



SERPA. Maio de 1900 



VollIilK' II 



Editor-adminislrador, Jote Jeronymo da Cotia Bravo Je Sífireirus, Kua l.area, 3 e 4 — Si£KI'A 
Typ. áe Adolpho dt Mettdonfa, Kua do Corpo Nanio, 46 e 4M — LISHOA 




nmm 

Revisla iiiciisal il hlliiifi({rii{iliia Piniiiijiic/a. Illiislraila 



Directores :-r.AI):s:.ÃU PICAHHA e Li. DIAS ITUITES 



Os proverDios e a medicina 



I 



{Pancadinhas d'amor não fa^em doer . . Ma- 
te-me Deus com os meus . As senões 
vêem a cavallo e rão-se embora a pé . . . 
Uma pílula a tempo poupa nove. . . Ao 
menino e ao borracho pôe-lhes Deus a 
mão por baixo ■ . .) 

O POVO tem uma intuição medica 
de primeira ordem, o que não 
importa estranheza. Uma das phases 
da medicina, a primeira, foi popular 
e só depois de tíxada pelo insiincto, 
a arte de curar passou dos caminhos 
para os templos^ então monopolisada 
por classes mais illustradas. 

Ha verdades scientificas crystalli- 
sadas toscamente em provérbios e lo- 
cuções populares, as quaes, se hou- 
véssemos de trocal-as em meudos, 
encherião grossos volumes. VJ a ex- 
plicação medica de alguns provérbios 
e locuções populares que me propo- 
nho dar, neste e em subsequentes arti- 
gos, caso V. ex.^' estejam de pachor- 
ra para aturar as caturreiras de um 
pobre clinico d'aldéia. 

Não ponho ordem no meu traba- 
lho, que não me parece merecel-a. 
Escolherei ao acaso e irei desfiando 
a philosophia medica de alguns pro- 
vérbios, consoante me venham á me- 
moria. 



Seja o primeiro este: pancadinhas 
d' amor não fa^em doer. . . 

Toda uma psychopathia sexual a 
resaltar deste provérbio. Não fazem 
doer as pancadinhas d'amor, não: 
que o digam os masochistas. . ■ 

Estam hoje em moda as psvcho- 
pathias sexuaes. Estudou as iCrafft- 
Ebing, o famoso psychiatra de Vien- 
na. Fl, todavia, o povo já de ha muito 
condensara uma delias no provérbio 
citado. As perversões sexuaes melhor 
estudadas são três: o sadismo, o fe- 
tichismo, e o masochismo^ sendo esta 
ultima que importa para o nosso caso. 

No masochismo^ as sensações volu- 
ptuosas são despertadas pela ideia 
de rebaixamento perante o ente ama- 
do, ou pelos solírimentos physicos 
que esse mesmo ente possa inHigir a 
quem o ama. P7 uma impulsão a que 
taes doentes não podem resistir, por 
preverem com voluptuosidade essa 
situação. 

Sem já fallarmos do rebaixamento 
sexual a que alguns se sujeitam, im- 
pei lidos pelo niasochismo^ mesmo por- 
que esse facto não entra na verdade 
esboçada no provérbio que ora des- 
trinço, certo é havei os que precisam 
ser Jlagellados por aquelles a quem 
amam. 

Umas vezes, essa Hagellação con- 



6R 



A TRADIÇÃO 



stitue um meio preparatório para o 
acto capital do amor; outras, um 
adjuvante para o accentuar, podendo 
ainda chegar, o que é mais curioso, 
a equivaler o próprio acto sexual. 
Para os masochistas não ha amor 
sem maus tratos, sem humilhações. 
Gostam de ser açoutados, numa pa- 
lavra . . . 

Quer-me parecer esta a verdade 
scieniitica que o provérbio encerra. 
Começou o povo por observal-a: pas- 
sou depois a dizel-a maliciosamente. 



E já outro me ocorre: ynate-me 
Deus com os meus . . . 

Ora ahi está uma locução a que 
podemos precisar a época de sua ori- 
gem: data de 1D69. 

Não contém, propriamente, a essên- 
cia de algum facto medico, mas re- 
fere-se a uma das paginas de epide- 
miologia portugueza. Por isso encerra 
a sua philosophia medica. 

iDÔg! Anno tenebroso, devastador, 
o anno da peste grande! Só em Lis- 
boa, orçou o numero das victimas 
por sessenta mil. 

Ficou-nos noticia do quadro tene- 
broso que a capital então oíferecia, 
desolada pela peste e pela fome — 
irmã gémea da primeira. Bastam as 
palavras que seguem, escriptas pelo 
padre Balihasar Telles, para nol-o fa- 
zerem vér : «... as ruas estavam 
cheyas de erva crescida, mais pare- 
ciam campos desertos, que estradas 
seguidas. . . » 

Do receio então infundido, dão-nos 
ideia as medidas adoptadas. El-rei 
D. Sebastião, o desejado — com mais 
razão devera dizer-se o degenerado^ 
— lembrou-se de mandar vir para Lis- 
boa alguns médicos de Sevilha, por 



' A prova scieniifica da degenerescência 
de D. Sebastião, deu-a brilhantemente o 
professor Manuel Bento de Souza. Foi um 
irresponsável, aquelle pobre monarcha. Quos 
Deus vult perdere. prius dementai. 



mais educados na proph3daxia do 
morbo. 

Offereceu-!hes larga retribuição. 
Vieram, com effeito; e ainda hoje nos 
são conhecidos os seus nomes : Tho- 
maz Alvares e Garcia de Salzedo 
Coronel. Fez-se então a primeira 
edição da junta consultiva de saú- 
de.'.. 

Trabalharam os médicos de Sevi- 
lha d'accordo com os de Lisboa, mas 
como a discussão das medidas a ado- 
ptar fosse demorada, a epidemia gal- 
gou. O povo aterrorisou-se, pegou a 
desconfiar da sciencia dos sábios de 
Sevilha e desandou a gritar: male-me 
Deus com os meus. . . médicos. 

E a coisa pegou. E tanto pegou, 
que a repetimos mais tarde, em 1640, 
se bem que por motivos diversos. . . 



Salta-me outro provérbio já dos bi- 
cos da penna: as se:^ões vêem a cavallo 
e vão- se embora a pé. 

Lma grande verdade, afinal. Vêem 
a cavallo, as sezões, porque pouco 
basta para as termos. Atravessan- 
do uma região pantanosa, podemos 
agarra-las.) se bem que a inhalação 
do hemato^^oario de Laveran, seja a 
maneira menos commum de ter )na- 
leitas. Perigo verdadeiro, o da inges- 
tão do hematozoario. Em egualdade 
de circumstancia se, de dois indivi- 
duos, um tiver respirado apenas os 
effluvios de um pântano e o outro ti- 
ver bebido, sem prévia fervura, a 
agua do mesmo pântano, o segundo 
terá quasi com certeza as sezões, ao 
passo que o primeiro pôde deixar de 
tel-as. 

E a propósito de sezões, e por não 
ir fora da Índole do jornal para que 
tenho a honra de escrever, vou abrir 
um parenthesis. Revoltava-se o gran- 
de Souza Martins contra o uso que 
se faz da palavra malária, como sy- 
nonima de febres intermittentes palus- 
tres ou de sezões. Ha aqui uma con- 
fusão flagrante. Em italiano, chama- 



A TRADIÇÃO 



67 




â 



-?1 



e^LERI^ DE TVPOS P0P11L|1RES 






Tamborileiro alemtejano (do concelho de Serpa) 



Solicite' 




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«í< 



A TRADIÇÃO 



se malart^i aos effliivios provenientes 
das maretthis. Vem o vocábulo do la- 
tim mala, que significa lama ou o 
que se refere á lama. Não se pode 
rubricar com o termo malária a doen- 
ça que os eflluvios dos pântanos pro- 
duzem: o que é causa da doença, 
não pôde servir para designar a pró- 
pria doença. Dever-se-hia, portanto, 
dizer: febre Je malária. 

Já que estou com. as mãos na mas- 
sa, vá lá outra observação, curta tam- 
bém e também frisada por Souza 
Martins. Na nossa linguagem medica 
corre a expressão área cattiva., na 
acepção do que se evolve de um pân- 
tano. De modo algum. Área caltiva 
é para os italianos, doutorados em 
sezões pela campina de Roma, todo 
o território que está sujeito ás ema- 
nações de um pântano, toda a área 
onde che^a a malária. 

E, fechado o parêntesis, volvamos 
ao provérbio. Podemos, pois, alcan- 
çar sezões quer ingerindo o seu agen- 
te especifico d'ellas,quer inhalando-o, 
seja pelos effluvios de um pântano 
ou pelo revolver de terrenos abando- 
nados c incultos, aonde se haja acan- 
tonado o miasma tellurico de Colliu. 

O tudo está em nos vermos livres 
das sezões. São teimosas, de facto. 
Depois, os typos das febres intermit- 
tentes palustres ou telluricas, tian- 
sformam-se com uma velhacaria inau- 
dita. Uma quotidiana passa com faci- 
lidade a dupla terçã, e por fim, a 
terçã perfeita. A terçã demuda, ás 
vezes, para quarta ou para quotidia- 
na e a própria quarta pôde transfor- 
mar-se em terçã. Um circulo vicio- 



so. 



A quarta! Teimosa até ali. . . Por 
isso, os latinos lançavam em rosto 
aos seus inimigos, a celebre impreca- 
ção: Quartana te teneat. Quarta te 
dê... 

Entre nós, a imprecação refere-se 
á terçã: terçã te dé. . . 

A propósito de sezões vem a pello 
outro dictado : uma pilula a tempo., 
poupa nove. Quem tiver algum dia 
exercido clinica rural, sabel-o-ha bem. 



O camponio, assaltado pelas malei- 
tas, começa por ensaiar remédios ca- 
seiros, aconselhados pelas comadres 
ou pelo mostre ferrador: aguaidente 
com canella, o cosimento d'eucaly- 
pto, as pilulas de teia d'aranha, o 
buxo, etc, e quejandas coisas. Mas 
as sezões vam ficando. Recorre então 
ao boticairo que, é de vêr, lhe co- 
meça a metter a quinina no corpo, 
estouvadamente, sem nexo. E, toda- 
via, uma pilula a tempo poupa nove: 
tudo está na maneira de a ministrar. 

E' que o camponio desconhece a 
vida do hematozoario. . . 

Ministrava Torti a quinina em do- 
se suíficiente, immediatamente antes 
do acccsso. £" o meíhodo romano. 

Dava-a Sydenham o mais ionge 
possível do acceso a vir, isto c, logo 
depois do acceso que passou. P7 o 
meíJiodo ingle^. 

Aconselham na os francezes 4 a 5 
horas antes do accesso. £" o methodo 
francCy. 

Alguns, dam a dose fraccionada em 
duas. A primeira, logo depois do 
accesso que passou ; a segunda, 4 a 
6 horas antes do accesso que ha de 
vir. E' o methodo mixto. O melhor, 
para mim. Que por esta forma, a 
primeira dose vae ainda dar caça aos 
hematozoarios que fiquem no sangue, 
após o accesso ; a segunda, vae im- 
pregnar o sangue, para que, quando 
os parasitas hajam de invadil-o, en- 
contrem meio hostil. E' uma guerra 
ao mesmo tempo offensiva e defen- 
siva. Medicus sujjiciens ad mor bum 
cognoscendum., sujficiens ad curan- 
dum. 



Ao menino e ao borracho põe-lhes 
Deus a mão por baixo. . . 

Estamol-o vendo, a cada momen- 
to. Bebeu um homem a «sua conta». 
Sae da taberna, o olhar incendiado, 
a face congestionada. Alegre ou triste, 
se tem bom vinho; provocador ou 
colérico, se tem mau vinho. Pouco a 
pouco, por muito que queira apru- 



A TRADIÇÃO 



69 



mar-se, as pernas negam-se-Ihe, ver- 
gam e ahi começa o borracho a an- 
dar aos honios^ ás synalcphas^ como 
vulgarmente se diz, talvez porque, 
por comparação com a figura ortho- 
graphica, haja supressão de passos: o 
borracho quer andar e logo recua... 

Insensivelmente, a alegria ou a có- 
lera esbatem-se. Ao afogueado da 
face succede a pallidez; o suor es- 
corre em gottas frias, empasiando-se 
nas têmporas; o andar torna-se cada 
vez mais embrulhado. K assim, cheio 
de anciãs, lá vae aos tropeções, ca- 
hindo aqui, tornando a cahir acolá. 

Mas, coisa curiosa, as quedas dos 
ébrios não teem, em geral, sérias con- 
sequências. E por uma lazão muito 
simples. Passado o periodo da exci- 
tação alcoólica, vem a depressão. A 
anesthesia é então completa e com- 
pleta a resolução muscular. Relaxa- 
dos em extremo os músculos, os 
ossos á vontade fogem da causa vul- 
nerante, acommodam-se a qualquer 
attitiide do corpo, por mais extrava- 
gante que seja a queda do bêbado. 
Poz-lhe Deus a mão por baixo. 

Cahem as crianças em seus folgue- 
dos vezes e vezes, durante o dia, 
mas também não é muito frequente 
que sejam de maior gravidade essas 
quedas. As carnes Hacidas das crian- 
ças, a sua pouca energia muscular, a 
sua acanhada estatura, attenuam de 
algum modo o traumatismo. 

E' que Deus lhes põe a mão... 
no mesmo local dos borrachos. 



Bucellas, ;-6-90o. 



AUBERTO FIMENT£Xi. 

iFilhoy 



O SENHOR SETE 

(Continuado de pag. 42) 

COMECEMOS agora com as quadras 
ao «setestrello», palavra que eu 
prefiro ortographar assim, a decom- 
pôl-a como faz o 'Dicciouario Con- 
temporâneo: — «Sete-estrello». 



If De resto, rasão dá o ficcionaria^ 

com a sua ortographia etymologica, 
a entendermos que c ainda o Senhor 
Sete que improvisa em casa do Povo 
essas taes quadras. . . 

E útil recordar a algum leitt^r mais 
novo, que u setestrello» c o nome vul- 
gar da constellação, ou melhor, do 
grupo das Plêiades, visinhas, na geo- 
graphia celeste, de ^Indromeda e de 
"Persen. 

As Plêiades eram as sele filhas 
d" Atlas, a saber: Maia, Electra, Tay- 
geta, Asterope, Merope, Alcione e 
Celeno. A' excepção de Merope, que 
casou com Sisypho, as demais ou ca- 
saram com deuses, ou viveram com 
elles... en faux ménaf^e, como di- 
zem os francezes! Depois de mortas, 
as sete irmãs foram metamorphosea- 
das em estrellas, e teem no céo, como 
já disse, o nome de Plêiades, deri- 
vado de Pleione, uma das Oceani- 
des, mamã das sete manas. 

Outros dizem que a palavra vem 
do grego pléó, (se não havia de vir 
do grego!) que quer dizer «aw^^-ar, 
— porque semelhante grupo c visí- 
vel numa epocha favorável á nave- 
gação — no mez de maio. 

Mas isso é lá com os sábios, e d'isso 
não quer saber o Senhoi Sete. 

Elle que começa. . . 



O setestrello vae alto, 
Mais alto vae o luar, 
Mais alta vae a ventura 
Que Deus tem para me dar. 



Os setestrellos cahiram 
No espelho da viola, 
Lembre-se, minha menina, 
D'este coração que a adora. 



Os setestrellos vão altos, 

A lua já embarcou, 

Abra-me a porta, menina, 

Que ha sete horas que aqui estou. ' 



1 ... Bem diz o dictado que o Setestrello é maga- 
não I. . . 



70 



A TRADIÇÃO 



Os setestrellos vão altos, 

\'ão direitos á trindade, 

Oh quem dormira um somninho, 

No teu colo á liberdade I 



Os setestrellos nasceram 
Virados para o poente, 
Oh quem dormira um somninho, 
Comti^o. rosa innocente 1 



Os setestrellos cahiram 
No meio do meu regaço, 
Não faças caso de mim. 
Que eu de ti já o não faço. 



Setestrello que rondaes 
Pelo céo a toda a hora, 
Recolhei-vos, setestrellos, 
Que eu quero rondar agora. 



Os setestrellos vão altos 
Na cobertura do céo, 
Em tudo és do meu gosto. 
Até no pôr do chapéu. 



O' setestrello que andaes 
De noite n'essas alturas. 
Dae-me novas do meu bem. 
Que eu d'elle não sei nenhumas. 



Os setestrellos vão altos. 
Vão altos, eu bem os vi, 
Quando me fór d'esta terra 
Não me despeço de ti. 



Eu hei-de me ir assentar 
Nos setestrellos da lua, 
Ella mesma vae dizendo : 
Descança, amor, já sou tua. 



Os setestrellos vão altos, 
Menina, vá-se deitar, 
Que eu já vou fazer o mesmo. 
Pois temos que madrugar. 



Setestrello vae em pino, 
A lua já vae tombada; 
As ovelhas do meu amo 
Não querem tomar malhada. 



O setestrello cahiu 
Mesmo á beirinha do tanque, 
Quem veio aqui p'ra te ver 
Já te tem amor bastante. 



Setestrello vae em pino, 
E a lua já empinou : 
Diga-me lá. ó menina, 
A que horas se deitou. 



Setestrello vae em pino, 
A lua de banda em banda, 
Quem me dera adivmhar 
Quem no teu sentido anda. 



O setestrello gabou-se 
Que me havia de enganar 
Nas noites de mais escuro 
Ou nas noites de luar. 



O setestrello cahiu 
No espelho do taboado, 
Desengane o seu amor, 
Não o traga enganado. 



Setestrello, -setestrello, 
Que passeias lá no céo, 
Se te escondes, setestrello. 
De paixão me mato eu. 



Já o céo não tem estrellas. 
Só tem sete a um cantinho : 
E' a estrada do amor 
Que não tem outro caminho. 



Setestrello que rondaes 
Lá por esse Douro fora, 
Recolhe-te, ó setestrello, 
Que eu quero rondar agora. 



O setestrello gabou-se 
Que me enganou uma vez, 
De noite pelo escuro: 
Olha o milagre que fez ! 



O setestrello cahiu 
No espelho da viola : 
Compadeça se, menina, 
D'este rapaz que a adora. 



A TRADIÇÃO 



71 



Perguntae ao setestrello 
Que c magano e sabe lêr. 
Km que pontos vae a lua 
Quando quer amanhecer. 



O setestrello tem sete. 
Vós, menina, tendes duas, 
Alumiam mais as vossas 
Que o setestrello as suas. ' 



O setestrello cahiu 
Na açucena do jardim, 
Compadeça-se, menina, 
De quem está ao pé de si. 



O setestrello gabou-se 
Que me havia-de enganar. 
Logo que elle me avisou,'^ 
Bem me posso acautelar. 



Alto vae o setestrello 
Mais alto vae o luar, 
Mais alta vae a ventura 
Que Deus tem para me dar. 



Setestrello, vai em pino, 
E o cajado vae virando, 
As ovelhinhas de Deus, 
A volta que vão levando. 



Perguntae ao setestrello. 
Que é magano e sabe tudo, 
Em que pontos vae a lua 
Quando quer fazer escuro. 



O setestrello cahiu 
N"uma folha de giesta. 
Cada vez te quero mais, 
Olha que cegueira esta. 



O setestrello cahiu 
N'uma pedra, ticou coxo, 
O lírio com saudade 
Logo se vestiu de roxo. 



' Nunca se viu maneira mais ingénua de chamar aos 
olhos da rapariga duas estrellas... 

í Logo que, expressão muito vulgar no sentido de — 
visto que: poi: que; uma ve^ que; ia que. 

3 E' uma bellesal O caiado está bem de vêr que é a lua; 
as ovelhinhas de Deus são as estrellas. D'esta quadra 
disse João de Deus que era "linda como a cabeça de uma 
creança, simples como a vida dos campos, melancholica 
como as planícies do céo». 



O' setestrello que andaes 
Lá no céo n'essas alturas, 
Dai-me novas do meu bem, 
Que eu d'ellas não sei nenhumas, 



Setestrello setestrello. 
Quem olha para ti cega ; 
Quando estou ao pé de ti 
Não me lembra céo nem terra. 



Hei de amar o setestrello, 
Deixar o teu coração, 
Setestrello não me deixa, 
Deixas-me tu sem razão. 



(í>intiniia 



TRINDADE COELHO. 







O HOMEM que toca tamboril e gaita, 
em todas as festas religiosas 
de arraial (cirios), chama-se tambo- 
rileiro. 

Assim como n'outras partes do nos- 
so paiz apparecem sempre, n'aquellas 
festividades, os tocadores de gaita de 
folies, e de sanfona, no Alemtejo é 
indispensável o tamborileiro. 

Creio que, n'alguns sitios, a musica 
do tamboril e gaita tem sido substi- 
tuida pela dos clarinetes e trombo- 
nes das philarmonicas, que hoje ha 
em toda a parte. Aqui, porém, ainda 
mesmo com a presença da philarmo- 
nica, o tamborileiro faz-se ouvir em 
todos os cirios, ou festas d'arraial, e 
romarias aos santos. (lanha «um quar- 
tinho e collete cheio», isto é: mil e 
duzentos réis e de comer — o mesmo 
que sempre ganhou. E' honesto o 
tamborileiro, porque não se tem vali- 
do das differenças de cambio, nem 
da carestia dos géneros, para exigir 
augmento de salário ; ou então tem 
receado a concorrência das philarmo- 
nicas. . . 

Os instrumentos que toca, como 



72 



A TRADIÇÃO 



se vê da gravura, são : o tamboril, 
fabricado por elle próprio, e a frauta 
doce, ou tibia, que elle também fa- 
brica e que é, não do sonoro buxo, 
mas do sabugueiro, cujas hastes com- 
pridas e sem miolo se facilitam a esse 
rim. Sopra se a frauta por uma bocca, 
como a dos assobios e pifanos, aberta 
n'uma das extremidades. Na outra 
extremidade tem três buracos para 
os dedos annuUar, médio e index, e 
um outro buraco ainda, por baixo, 
para o pollegar ; o dedo minimo se- 
gura o instrumento. 

E' o mais rudimentar e primitivo 
de todos os instrumentos que conheço, 
a flauta — cantada por Virgilio e Ca- 
mões, nas suas éclogas, e quiçá por 
muitos outros poetas. Por alguns é 
ella classiricada de invento pastoril ; 
e a sua musica, aprazer agreste do 
camponez», «som grato aos ouvidos 
dos Faunos e que desafia os amores 
pastoris». 

Ser tamborileiro foi sempre de ex- 
clusiva competência dos cabreiros. 

Hoje são raros os tocadores de tão 
primitivos instrumentos, que decerto 
vão desapparecer dentro de breve tem- 
po. O tamborileiro é um typo original 
que daqui a pouco acaba, mas que, 
mercê da Tradição, não será con- 
siderado como o mytho do deus 
Pan, ou como uma lenda phantasiada 
por poetas bucólicos. 

Noutro tempo não se encontrava 
rebanho algum de cabras, nas exten- 
sas serranias d'este concelho, cujo 
pastor não tangesse uma dessas 
frautas 

«do pastoril rebanho doce allivio»; 

hoje, nem um só pastor continua a 
tradição. 

O repertório, aliás pequeno, do 
tamborileiro vae ser publicado nas 
paginas desta revista, devido á obse- 
quiosa deferência do meu amigo e 
distincto musico compositor, o Snr. 
Manuel de Jesus Gentil-Homem Val- 
ladas. O qual — apesar da vaidosa 
opinião dum tamborileiro, de que 
nenhum musico tinha capacidade para 



imitar as suas variações (sic) — reco- 
lheu, n'uma rhapsodia de musicas 
populares d'aqui, os diversos toques 
da frauta, acompanhados a tamboril, 
que breve serão estampados na Tra- 
dição. 



iSerpa). 



A. DE raEI.1.0 BREITNER. 






A LENDA DAS ARMAS DE ELVAS 



O POVO é useiro e vezeiro em de- 
turpar muita cousa. Está-lhe 
na massa do sangue. Todavia, e tal- 
vez por isso mesmo, por que rejeita 
as origens vulgares, elle é depositário, 
o melhor depositário até, das cousas 
mais bellas e lindas. Amigo entranha- 
do do maravilhoso, claro está que em 
tudo que cria na sua tão poética ima- 
ginação, põe sempre o romanesco, 
se não o fabuloso, accommodado com 
a simplicidade. 

A lenda das armas de Elvas é de 
estas criações engenhosas. Algo ro- 
manesca, com seu quê de tocante, 
ella conta, pelo menos, uns cinco sé- 
culos de existência, e ainda não pôde 
derrubal-a a historia. E' que ás ve- 
zes, nas tradições populares, também 
ahi ha mais força de rasão que em 
velhos pergaminhos de certos histo- 
riadores. São cousas. 

Ora, rezam as chronicas que quem 
deu a Elvas, ao tempo ainda villa, o 
brazão que possue, e que consta, 
como sabem ou podem saber, de um 
fidalgo a cavallo, empunhando um 
estandarte tremulante, foi D. Sancho 
II, o Capello, conquistador de essa 
terra aos mouros. Os próprios elven- 
ses o pediram ao rei, á imitaçL<o de 
vários outros habitantes de muitas 
mais villas e cidades até. Nada mais 
natural. Também elles queriam illus- 
trar sua terra com o luzimento de 
umas armas só suas. Por isso, D. 
Sancho, não só como em prova, que 
podemos chamar uma prova rç.al^ da 



A TRADIÇÃO 



73 







_.Jí->»<<~íLé. 



C^píGIOpíEI^O jMIÍSIG^L 



O toureiro novo 




•"VH-y 



(CHOREOGRAPHICA) 








Mv 




A TRADIÇÃO 



muita attenção que ligara a tal pedi- 
do, mas ainda em evidente signal de 
entranhada svmpathia para com a 
villa de Elvas, que lhe custara a ga- 
nhar, respondeu de este modo áquel- 
les supplicantes. apresentando-se-lhes 
bellamenle a cavallo e com a ban- 
deira dos seus estados na mão : 

— Por armas aqui me tendes a 
mim. 

Veiam que requinte de galanteria! 
Se o marido de D. Anna Lopes de Ila- 
lo e amante de Maria Paes merecia es- 
sa ameaça de feroz excommunhão que 
o IX Gregório, representante de S. 
Pedro, ousou dirigir-lhe, sem dez réis 
de cortezial Temos conversado. O 
que sua magestade quiz dar a enten- 
der bem alto e em bom som, foi que, 
além de se dignar dizer que sim ao 
pedido, até se ofTerecia, equipado e 
armado, para o modelo do referido 
brazão. Muito cortez ! Pois se elle 
bem o disse e o deu a entender, os 
de Elvas melhor o fizeram. 

Isto é um facto, é histórico, real, 
mas a boa da tradição popular narra 
o caso de maneira differente. Quem 
conta um conto, accrescenta-lhe um 
ponto. Diz ella que em certa occasiao 
um esforçado cavalleiro, cujo nome 
se perdeu, apostara com outros que 
no dia da procissão do Corpo de 
Deus. iria de Elvas á cidade de Ba- 
dajoz arrebatar das mãos de quem 
quer que o levasse na procissão, o 
estandarte hespanhol, e que o traria 
para Elvas. Uma aposta dos diabos. 
Fosse, no emtanto, porque o hou- 
vesse jurado pela honra da sua linda 
dama, ou porque quizesse de tal 
arte proceder por amor da gloria, ou 
do premio, se o havia na aposta ; o 
que é ceito é que no dia marcado o 
esforçado cavalleiro, incapaz de fal- 
tar, montou o seu possante ginete, e 
partiu como um raio a caminho de 
Badajoz. Antes, porém de largar 
nesse louco gallope acenou amoroso 
para um alto balcão, como quem se 
despede d alguém. E alguém estava 
lá, com effeito, que de lá lhe respon- 
deu, não menos amorosa, uma mão 



alva e bem torneada, agitando um 
lenço branco por entre as gelosias. 
Devia ser de manhã. Na antiga mu- 
ralha de Elvas, espalharam-se bas- 
tantes curiosos attrahidos por aquelle 
successo. O audaz cavalleiro lá ia. 
Elles viram-no desapparecer total- 
mente, e ficaram-se a esperal-o n'uma 
grande impaciência. O caso não era 
para menos. Mas uma hora decorreu 
arrastada, depois outra hora, três ho- 
ras SC foram, e não havia novas, nem 
mandados do heroe. Claro está que 
começavam a desesperar, duvidando- 
se até do bom êxito da empreza. 
Quem espera, desespera. N'isto, fe- 
lizmente, como não pequeno calmante 
para aquelles corações impacientes, 
distinguiu-se no azul do horisonte 
uma nuvem de poeira, nem grande 
nem pequena. Era um prenuncio de 
que alguma cousa vinha lá. Vinha. 
Todos os olhares se fixaram n'esse 
ponto, anciosos como peitos namora- 
dos, muito febris como almas nostál- 
gicas; e não tardou muito que alguém 
affirmasse que era um guerreiro, um 
cavalleiro que lá vinha, por que á luz 
coruscante do sol se via dardejar-lhe 
a armadura polida. Tudo se agitou 
ainda mais. Foi um reboliço, um per- 
feito pandemonium. Mas d'ahi a pe- 
daço, quando aquella multidão houve 
do facto a completa certeza, e viu 
toda ella, ainda que muito a distan- 
cia, não só o guerreiro, o cavalleiro 
portuguez, mas também o estandarte 
de Castella, que este trazia, conforme 
a aposta, então é que o tumulto to- 
cou o seu auge. De todos os lados 
retumbaram vibrantes as acclamações 
de alegria e triumpho, e logo soaram 
atabales e trompas. Até as gelosias 
de aquelle balcão para onde o caval- 
leiro, cu)o nome se perdeu, dissera o 
adeus amoroso, se entreabriram de 
novo nevroticamente, e a mesma mão 
alva e bem torneada agitou outra vez 
o seu lenço côr de neve. 



(Continua) 



AI.FREDO DE PRATT. 



A TRADIÇÃO 



AS BOAS-FESTAS 



iContinuudo de pag. 44) 



OLNTRUDO (introituo) com os seus 
três dias gordos (domingo, se- 
gunda e terça) c o período livre que 
tica antes da quaresma, (quadragé- 
sima) após os quarentas dias da qual 
começa a semana dos perdões {hebdo- 
mada indul^entiae)^ um dos nomes 
porque é conhecida a semana santa. 
O periodo quadragesimal com o seu 
tabu polynesio applicado pela igreia 
á carne e seus derivados era na ver- 
dade para os crentes íroiirmets tem- 
po amargo de expiação. Não facil- 
mente se illudiam os preceitos eccle- 
siasticos, porque, alem do que a in- 
triga e o escrúpulo religioso bolsavam 
nos confessionários, que vinham a 
ser os melhores fornecedores do tri- 
bunal do santo otiicio, os contractos 
dos açougues públicos principiavam 
em dia de paschoa e terminavam em 
terça feira gorda do anno seguinte. 
Pelo que os nossos antepassados fa- 
ziam provisão dos prazeres da carne 
que lhes havia de faltar durante 40 
largos dias. Verdade é que os enter- 
ros do gallo e do bacalhau e a serra- 
ção da velha não passavao e em parte 
não passam de uma continuação das 
loucuras do entrudo ou carnaval i car- 
ne vale :). 

Hoje o entrudo tem aspecto um 
pouco diverso do que antes era em 
virtude do augmento de diversões. As 
laranjadas, prohibidas severamente 
por decretos reaes, ainda hoje teem 
raizes, as farelladas ou sujar o fato 
com pós (farinha), representando um 
rito primitivo, ainda não terminaram. 
A estas diabruras usadas no entru- 
do tem successivamente acrescido 
o emprego de mascaras, danças, car- 
ros enfeitados e outras cousas usa- 
das em festas populares religiosas, e 
que tem vindo abrigar-se gradual- 
mente debaixo do estandarte do car- 
naval. Demorei-me a considerar o en- 
trudo unicamente para demonstrar 



superficialmente que elie c uma testa 
popular produzida como reacção con- 
tra as severidadcs quaresmaes; e, co- 
mo tal reacção, o uso do alimento tor- 
nava se immoderado perfilhando cer- 
tos typos de comida aue ainda hoje 
são conservados nas ooas festas. O 
sr. Adolfo Coelho na Rev. dKthnol. 
e de (jlott., pag. 5;, transcreve um 
soneto attribuido a Serrão de Castro 
(ainda vivo em ió83) donde pode- 
mos aproveitar o seguinte : 

Filhos, fatias, sonhos, mal assadas 
Gallinhas, porco, vacca e mais carneiro, 
Os perus em poder do pasteleiro, 
Esguichar, deitar pulhas, laranjadas; 



Não perdoar arroz, nem cuscuz quente, 
Despejar pratos, e alimpar tijellas. 
Estas as testas são do gordo entrudo. 

10. Os aforamentos em prazos de 
três vidas impunham aos emphvteutas 
a obrigação de etfectuarem os paga- 
mentos em certos dias. A escolha 
desses dias não era arbitraria, pois 
os mais notáveis na igreja recebiam 
ao mesmo tempo consagração nos 
actos civis. Como os senhorios dire- 
ctos dos prédios erão na maior par- 
te das vezes as communidades ou di- 
gnidades ecclesiasticas que para com- 
modo seu tinham perfilhado aquelle 
systema económico, que as dispen- 
sava dos mil cuidados de que a agri- 
cultura carece, não é de extrannar 
que os dias festivos do calendário 
catholico fossem os preferidos e ado- 
ptados nos usos seculares. Quem sa- 
be, porém, quantas festas não forão 
impostas á igreja? O natal de Christo 
foi escolhido em 24 de dezembro (á 
meia-noite) para occultar festas pa- 
gans, festas substituídas não só pela 
serie do dia de natal ao dia dos Reis 
(dodecameyon., 12 dias^ mas também 
pelas especiaes de S. Nicolau (6 de 
dezembro), S. Gregório (^24 de dezem- 
bro^ S. Estevão, festejado com a elei- 
ção dum bispo a 26 de dezembro, (se- 
gundo documentos que ainda não pu- 



A TRADIÇÃO 



bliquei"^ e dos Innocentes ' (28 de de- 
zembro). Tudo isto são festas infantis 
que svmbolisão tanto o augmento dos 
dias como o definhamento das noites. 
A noite do natal era chamada, pelo 
seu tamanho e pelo facto que recor- 
dava, mater jwctium. \'oltando, po- 
rem, ao nosso ponto de vista temos 
entre outros dias principaes para o 
pagamento das pensões os seguintes: 
S. João (24 de junho), S. Maria de 
agosto (i5), S. Miguel de setembro 
(20), S. Martinho (i 1 de novembro), 
natal e finalmente a paschoa'. 

Com o intuito de mostrar a ana- 
logia dos actuaes presentes das boas 
festas com o que se dava de pensão 
antigamente, transcrevo aqui na or- 
thographia corrente (conservando as 
formas da lingua), parte dum docu- 
mento de 6 de setembro de 1371, 
pertencente ao cartório de S. Vicente 
de Fora de Lisboa e que hoje se con- 
serva no Archivo Nacional, Caixa 100 
da Collecção Especial. «Dedes a nós 
de renda e pensam em cada um anno 
por o dito Casal, dous moios de pam 
meiado de dez e seis alqueires o quar- 
teiro, bÕo pam, recebondo, limpo da 
paa e da vasoira, em na eira do dito 
casal, por dia de santa Maria dagosto. 
E outrosi dardes em cada um anno 
de foro um carneiro e um par de 
cabritos e uma dúzia dovos e uma 
dúzia de bollos alvos e uma dúzia de 
queixadas (queijadas) por dia de pas- 
choa de Resurreiçom, e fazerdes as 
pagas de todo por esta guisa convém 
a saber : o pam por dia de santa Ma- 
ria dagosto, esta primeira que vem, 
e os cabritos e carneiros e bollos e 
queixadas e ovos por dia de páscoa 
de Resurreiçom logo seguinte, e assi 
d"ahi em deante em cada um dos ou- 
tros annos por os ditos dias, como 
dito é.» 

(G>ncluej 

PXDRO A. D'AZ£V£DO. 



1 E' o que se chamava episcf>p3tus puero- 
rum. 



A caça no concellio de Serpa 



(Continuado de pag. (ii) 

O CAÇADOR precisa do cão. O cão 
foi sempre o amigo fiel do ho- 
mem ; e para o caçaaor, alem de 
amigo e fiel companheiro, é de abso- 
luta necessidade. 

Procura-lhe a caça, levantando-a 
dos seus acolheitcs; cobra-a quan- 
do vae ferida, e traz-lh'a á mão 
muito satisfeito, se conseguiu apa- 
nhal-a ; ou. quando se trata de caça 
grossa, chama o caçador com repeti- 
dos ladros para que venha acabar 
de matar o animal perseguido e afi- 
nal acuado. 

E' o cão o animal mais amigo de 
seu dono: segue o e defende-o em 
todas as occasiões, e quando o perde 
de vista, procura-o pelo rasto até en- 
contrai o; e se por qualquer circums- 
tancia o não encontra, lamenta-se ui- 
vando. Anima o caçador dando-lhe 
signaes certos da proximidade da 
caca: arrisca-se a tudo, quando seu 
dono o manda e o incita a acommet- 
ter, c volta humilde e alegre quando 
é chamado. 

Ha cães com o olfacto apuradissi- 
mo. O grande caçador alemtejano 
Senhor José Paulo de Mira, no seu 
folheto sobre a caça ao javali, im- 
presso na typographia do Governo 
Civil d' Évora em 1874, diz, a pag. 
20: '«Ha cães mestres com tanta 
precisão e olfato que chegam a ir 
cobrar de ferido de um até três 
dias. O cão mestre, quando se dei- 
ta um guizo ou chocalho, já conhece 
o fim da caçada a que vae; já tenho 
visto caçador tendo um só cão, e 
com elle caçar a toda a qualidade 
de caça ; andando pois na caça miú- 
da e encontrando qualquer rasto de 
porco que o dono queira seguir, logo 
que pega no chocalho para lh'o pôr 
ao pescoço, empina-se o cão ao do- 
no, dando lhe todos os signaes de 
contentamento e segue logo no ras- 
to do porco sem mais se lhe im- 



A TRADIÇÃO 



7? 



portar a caça miúda, se esta por acaso 
lhe salta adiante.» 

Isto mesmo, todos os caçadores 
que tenham frequentado a caça terão 
observado. Os meus cães, bastava 
ouvirem mexer nos chocalhos, Á sa- 
bida para a caça grossa, para desde 
logo darem signaes de contentamento 
e não se lhes importar a caça miúda. 

Como as ditíerentes espécies de 
caça se encontram simultaneamente 
em quasi todos os terrenos do con- 
celho, resulta, que os caçadores, que 
na maioria não podem sustentar mui- 
tos cães, preterem os que servem 
para todos os terrenos e espécies de 
caça. Por esta rasão, não se apuram 
as castas e preferem-se os mestiços 
de raças diversas. 

Na caça miúda, a gente do campo 
emprega muito os cães pequenos — 
gósos de vários feitios, mestiços de 
qualquer espécie ; procurando toda- 
via que sejam filhos de cães bons, 
em obediência á máxima de que — 
quem quer bons cães de caça, busca- 
llic a raça. 

Neste género, os malhadeiros e os 
coiteiros teem cães de muito mereci- 
mento. Quando eu comecei a caçar 
— ha uns cincoenta annos — conheci 
aqui uma raça de cães que se tornou 
celebre por sahirem todos bons. Eram 
baixos, de pernas curtas e um tanto 
arqueadas, e tinham o corpo despro- 
porcionalmente comprido. Esta raça 
tornou-se notável, e aindahojesefalla _ 
nella. N'uma das malhadas do con 
celho habitou um casal de velhos que? 
por sua avançada edade, não podiam 
já trabalhar activamente para anga- 
riarem os meios de subsistência. A 
providencia, porém, deparou-lhes uma 
cadella, que elles tinham creado sem 
o intuito da caça, mas que sahiu tão 
bôa, que os ajudou a viver por mui- 
tos annos. Quando precisavam de 
comprar qualquer coisa, a velha, com 
a sua roca á cintura e um boccado 
de pão no regaço, chamava a cadella 
e dirigia-se aqualquer eminência mais 
próxima da malhada. Chegada lá, ati- 
rava com uma pedra para o matto e 



afcridava^ a cadella, que logo ia pro- 
curar os coelhos, apanhando todos os 
que se lhe levantavam e levando os 
em seguida á dona, a qual retribuía 
o animal com um pouco de pão, le- 
vado para esse fim. 

Isto repelia se tantas vezes quantas 
a malhadeira considerava necessárias 
para, com o producto da venda dos 
coelhos, occorrer ás suas precisões. 

Divulgadas as qualidades da ca- 
della, todos os caçadores quizeram 
possuir cães d'aquella raça; disputa- 
vase a posse de quantos filhos a ca- 
della tinha, pagandoos logo á nas- 
cença por um pinto ou cruzado novo 
— 480 réis — e ainda com a circumstan- 
cia de ser preciso ama para os crear. 

Muitos outros cães conheci depois, 
com qualidades apreciáveis, tanto 
para a caça grossa como para a caça 
miúda. Uma cadella tive eu, tão boa 
e tão amiga de caçar, que, d'uma 
vez, e apesar de recentemente parida, 
não foi possivel obstar a que ella me 
seguisse numa caçada, reajisada du- 
rante a semana de comadres, aqui na 
serra. Eu mandara-a fechar n'uma 
casa, antes da partida; mas logo que 
a soltaram, muito tempí? depois, a 
cadella procurou o rasto dos outros 
cães e ainda foi juntar-se-nos antes 
de havermos chegado ao nosso des- 
tino, que ficava a três ou quatro lé- 
guas de distancia. E todos os dias, 
invariavelmente, á hora em que co- 
meçávamos a caçar lá se achava a 
cadella ao lado dos outros cães. 

Por isto julgava eu que os ca- 
chorros tivessem morrido de fome, 
abandonados pela mãe. Mas não. Ao 
regressar, soubemos com grande es- 
panto que a cadella, percorrendo 
uma distancia immensa, vinha todas 
as noites ao monte e alli se conser- 
vava até de madrugada amamentando 
os filhos; retirando-se a tempo de 
se achar sempre no seu posto á hora 
precisa! 



^ Aferi d ar — dar com certa intimativa a 
voz de — fe-ri-do ! 



78 



A TRADIÇÃO 



A vários malhadeiros conheci go- 
sos, que apanliavam todos os coelhos 
que se lhes levantavam, perseguin- 
do-os até se renderem. 

Alguns caçadores teem tido perdi- 
gueiros bons e podengos de apuradas 
castas, como ao diante direi. Também 
sempre aqui tem havido quem pos- 
sua galgos, mas não para fazer as 
caçadas próprias d'estes cães — caça- 
das a cavallo com bons cavallos, sal- 
tando valias e barrancos, como n'ou- 
tras partes se faz. Ha quem se sirva 
delles para levantarem as lebres, que 
depois são mortas á espingarda. O 
Ex.'"" Conde de Ficalho sempre tem 
tido na sua casa de Serpa alguns gal- 
gos bons, especialisando um galgo 
preto com que nós muito caçámos 
quando ainda não tinhamos licença 
de usar espingarda. 

Para a caça grossa, e principal- 
mente para a dos javalis, nem todos 
os cães pegam; os melhores são os 
rafeiros alemtejanos ou os mestiços 
de rafeiro e podengo, e ainda os sa- 
bujos (cruzamento de diversas raças). 
Os cães pequenos, poucos sahem bons 
para esta caça ; entretanto, alguns 
conheci de' primeira ordem. 



'Continua.) 



A. de M£I.I.O BRElfNXn. 




HOIIAS-ESTRIBILHOS ALEJITEJANAS 

o TOUREIRO NOVO 

O' toureiro novo 
Lá de Montemor ! 
Dizem n'os de Beja 
Que o nosso é melhor. 

Que o nosso é melhor, 
Sempre tem ganhado; 
Vá o touro á praça 
Para ser picado ! 



Para ser picado 
Sem pena nem dor. 
Dizem n'os de Beja 
— Viv'ó picador! 



M. OIAS NUNES. 




CONTOS ALGARVIOS 



o REI SÁBIO E CEGO 

(Continuado de pag. 63) 

BOGo que o menino se approximou 
do palácio, sairam-lhe ao encon- 
tro as três meninas e pozeram-se ás 
suas ordens. Neste momento chegou 
um velho cego, que lhe falou amavel- 
mente. Contou-lhe o menino o moti- 
vo da sua jornada, e então o velho 
aconselhou-o que ficasse alli todo o 
dia, e só no dia seguinte entre as 
onze e doze horas fosse buscar a 
agua em duas garrafas, que elle lhe 
offereceu. 

No dia seguinte, á hora designada 
pelo velho, foi o mancebo buscar a 
agoa nas duas garrafas, com tanta 
felicidade que os bichos tinham des- 
apparecido, correndo depois atraz 
d'elle, mas não o alcançando. O ve- 
lho, logo que sentiu o trotar do ca- 
vallo, disse para as filhas: 

— Troquem, sem elle perceber, as 
duas garrafas de agua, por outras 
com agua commum. 

E assim succedeu. 

Quando o menino saiu, disse-lhe o 
velho — «se em algum dia fôr ferido 
de morte, peça em nome de Deus, 
que depois de morto o dividam em 
quatro quartos e que os ponham so- 
bre o seu cavallo, mandando-o par- 
tir.» Estavam, o gigante e a princeza, 
á janella do palácio, quando aquelle 
avistou o mancebo no seu cavallo. 

— Lá vem elle, vou esconder-me 
no alçapão. 



A TRADIÇÃO 



79 



— H' o diabo que o traz, respon- 
deu ella, deitando-se na cama e fin- 
gindo-se com a dòr. 

(Concluc.) 



ATHAIDE D OLIVEIRA. 



BIBIiieôRAPMIft 



'liejlexos (poesias), por J. R;imos Coelho. 

— aó hoje — devido á exiguidade do espaço 
a que lemos de limitar o registro bihliogra- 
phico — podemos fazer menção do precioso 
volume cujo titulo nos serve de epigraphe, 
e com o qual distinguiu a Tradição^ ha já 
longo tempo, o seu iliustre auctor. 

O novo livro de versos do Senhor Ramos 
Coelho — versos lyricos, muito doces, muito 
sentidos, e d'um agradabilissimo sabor clás- 
sico — compõe-í.e de 55 peças, finamente cin- 
zeladas, afora uma rica collecção de bonitas 
quadras imitando as populares. 

Com a publicação dos 'liejlexos comple- 
tou o laureado académico — que foi dis- 
cipulo querido do grande Castilho — a lumi- 
nosa trilogia iniciada com os Lampejos e 
depois continuada nos Cíimbiantes. 

Profundos agradecimentos. 

.n/i.svr/\7.v da carne^ por Júlio de Lemos. 

— O primoroso estylista da (£Myosoti$, e das 
Campesinas, Júlio de Lemos, deu ultima- 
mente á estampa, em gracioso opúsculo, um 
conto realista — (yV/Lfcr/t?,"» da carne anato- 
mia social). E' um esplendido trabalho de 
observação e analyse, bem pensado, bem ur- 
dido, e admiravelmente escripto n'aquella 
linguagem aprimorada e vernácula que ca- 
racterisa todas as composições do elegante 
prosador. 

Parabéns ao Júlio de Lemos. 

Subsidias pára um diccionário geográphico, 
pelo Doutor Cândido de P"'igueiredo. — Lemos 
attentamente o valioso opúsculo em que o 
Senhor Doutor Cândido de Figueiredo col- 
ligiu — extrahidos do seu monumental Novo 
Diccionário da Linfjua Portuguesa — nume- 
merosos vocábulos «que andam adulterados 
ou incorrectamente reproduzidos na lingua- 
gem oral e escripta e ainda outros, cuja for- 
ma otíerece variantes mais ou menos admis- 
siveis». 

Dada a superior competência do auctor, 
e o seu nome justamente aureolado, desne- 
cessário se torna encarecer o mérito de tão 
útil livrinho, que muito penhoradamente 
agradecemos. 

Aproveito o ensejo para testemunhar ao 
erudito philologo, e infatigável cultor das 
lettras pátrias, o meu reconhecimento pela 
antiga ofFerta do seu mimoso e captivante 
(í-irminho. 

Tratado pratico de therapeutica moderna^ 
pelos Doutores Oliveira Castro e Cárdia Pi- 



res. — Dos abalisados clinicos c talentosos 
escriptores Senhores Doutores Oliveira Cas- 
tro e Cárdia Pires, recebemos um exemplar 
do seu livro Tratado pratico de therapeutica 
moderna, que tantos e tão rasgados elogKis 
tem merecido da imprensa e das mais consi- 
deradas auctoridades medicas do nosso paiz. 

O substanci<jso volume, que contém perto 
de Híxj paginas in-H.", foi distinctamente edi- 
tado pela acreditada «Empreza litteraria e 
typographica» do Porto, e custa i^5ooréis. 

Em nome do nosso collega de redacção, 
o Doutor Ladislau i-*içarra, agradecemos re- 
conhecidos a gentileza do otlerecimento. 

LThiniamle Nouvelle. — Honrou-nos com 
a sua visita esta conhecida revista interna- 
cional, illustrada, de sciencias, artes e let- 
tras, que se publica em Paris sob a direcção 
scientifica do Doutor Hamon, o celebre pro- 
Éessor da Universidade Livre de Bruxellas, e 
sob a direcção litteraria de Mr. V. Emile- 
Michelet — dois insignes publicistas, univer- 
salmente conhecidos e apreciados, cujos no- 
mes constituem segura garantia do altissimo 
valor de i Humanité Nouvelle. 

Como é Sabido, a esplendorosa revista 
apparece mensalmente em volumes de cerca 
de i5o paginas cada um, in-8.", inserindo 
conceituosos artigos — firmados por notabi- 
lissimos escriptores de todos os paizes — so- 
bre assumptos diversos: sciencias mathe- 
maticas, physicas, geo^raphicas e biologi 
cas; lettras; artes; sociologia; philosophia, 
religião etc, etc. 

Em troca do afamado mensario enviamos, 
com muitos agradecimentos, a nossa mo- 
desta Tradição. 

Para as creanças. — Prosegue brilhante- 
mente em sua gloriosa carreira a magnifica 
publicação Para as creanças que, com toda 
a proficiência, a Senhora D. Anna de Castro 
Osório redige. O próximo numero 7, rela- 
tivo ao mez de maio do presente anno, ini- 
cia já a 7." série d'esses mimosos iivrinhos 
de contos e historias, que são o maior e mais 
vivo encanto dos ingénuos espíritos infantis. 

Nós que professámos pelas tradições po- 
pulares da nossa terra, a mais funda venera- 
ção e o mais fervoroso afiecto, e que, por 
isso, fomos dos primeiros a applaudir com 
enthusiasmo, na imprensa, ha ja três ou qua- 
tro annos, a arrojada iniciativa da scintil- 
lante escriptora, — congratulamo-nos muito 
intimamente pelo êxito extraordinário da 
benemérita publicação, que não tem rival na 
peninsula. 

Infinitos emboras á inspirada contista da 
Alma Infantil. 

Société scientijique de Chevtchenko. — A 
esta iliustre sociedade austriaca, de Lem- 
berg, devemos a remessa, em permuta com 
a Tradição., de vários tomos do seu impor- 
tante boletim, contendo apreciáveis estudos, 
realisados pela secção ethnographica d'aquel- 
la academia. 

M. DIAS NUNES. 



hO 



A TRADIÇÃO 



BULLETIN POUR L'ÈTRANGER 



LA TRADITIOH 

ReYoe meDsiieile lllQsiree d'6iliDograptile poriugalse 

DIRECTEfRS 

Lh.íisLtií T^içurra et T>ias V\imes 

KKDACTION ET ADMINISTRATION 

À SERPA ^PORTUGAL) 



Som[n.iirf du présml numero de la Tradition 

T6XtG ; — L^'s proverbes et la 
medecine, par oAlberto Pimentel^ 
íVilio (Dr.); 

Monsieur Sept (suite), par Trin- 
dade Cotlho (Dr.); 

Lc tambourineur, par (yí. de 
Mello Breyner; 

La legende des armes d^Elvas, 
par QÂlfredo de Pratt; 

Les Bonnes-fôtes (suite), par Pe- 
dro ZA. d'QÂiepedo; 

La chasse dans le district de 
Serpa (suite), par A. de oMello 
Breyner; 

Chansons, refrains de l'Alem- 
tejo : Le «toureiro» (combattant 
des taureaux) nouveau, par oM. 
Dias \unes; 

Histoires de TAlgarve: Le roi 
savant et aveugle (suite), par 
Athaide d' Oliveira (Dr.) ; 

Bibliographie, par oM. T)ias 
C\^unes. 

IllUSlraliCrS : — Galerie de cos- 
tumes populaires : Tambourineur 
de TAlemtejo. 

Recueil de chansons: «Le tou- 
reiro» * combattant de taureaux) 
nouveau í^musique). 

Ti. 



BULLETIN FOR ABROAD 



Honttily lllustraied revjew of ponuguese eiliiiograpliy 

DIRECTORS 

Ladisliiu '^Piçarra and 'Dias V^iines 

OFFICES 

SERPA (PORTUGAL) 



Summary of lhe prtsptit nunibfr of the Tradilion 

TeXt ; — The proverbs and the 
medicine, by (lAlberto ^Pimentel, 
filho (Dr.); 

Mister Seven (continuation), 
by Trindade Coelho (Dr.); 

Tre tabourer, by QÂ. de oMello 
^rtjner; 

The Elvas' legend of arms, by 
Alfredo de Pratt; 

Happy Christmas (continua- 
tion), by 'Pedro A. d' Azevedo. 

The sohoting in the Serpa dis- 
trict (continuation), by A. de Mello 
breyner; 

Songs and refrains from the 
Alemtejo : The new bull-íighter, 
by M. Dias U^unes ; 

Tales from the Alemtejo : The 
wise and the blind king (conti- 
nuation), by Athaide d' Oliveira 
(Dr.); 

Bibliography, by M. Dias Nu- 
nes ; 

lllUSlraUonS :- Galleryof po- 
pular costumes : Tabourer from 
the Alemtejo. 

Musical collection : The new 
bull-fighter (dancej. 



A.nuo II — N." <5 



SERPA, Junho de 1900 



^'t»! IIIII4' II 




Editor-adminlstrudor, Joif Jeronymo da Coita Bravo de Sei:reirns, Kiia l.arga, 304 — SKRI'A 
Typ. de Adolpho de Mendonça, Hum do Corpo Santo, 4b e 48 — LISBOA 



nmm 

Itevishi nioiisal il hlliii(i({rii|iliiii Poiiiiijiicza, llliislraila 



ir»rt iiT^-a ft-Q 



Directores :-LÃl)ISIiÃU PIÇARRA e IL DIAS irviII^lS 



NOTAS HISTÓRICAS ACERCA DE SERPA 

IV 
População de Serpa em lenipo dos moiros 

•^íjl o momento da invasão mussul- 
-i— C mana, Serpa — como toda a Pe- 
nínsula — era habitada pelos hispano- 
godos. Haveria talvez entre estes al- 
gumas familias mais nobres, nas 
quaes predominava o sangue godo 
ou germânico; e havia a gente do 
povo de sangue hispano-romano, se 
por esta expressão designarmos o 
producto da fusão de todas as ve- 
lhas raças, unidas e caldeadas sob o 
dominio dos romanos. 

Nobres e povo seguiam egualmcnte 
a religião christan e catholica. K' bem 
sabido,comooChristianismoteveuma 
larga expansão na Hespanha, logo nos 
primeiros séculos da Igreja e durante 
te o dominio romano ' ; e por ou- 
tro lado, os visigodos haviam aban- 



* Vem a propósito recordar uma tradi- 
ção, relativa á christandade de Serpa em 
tempos romanos. Diz-se. que S. Proculo, e 
S.'o Hilanão seu sobrinho, habitavam umas 
casas térreas e pobres no bairro do Castello 
Velho, quer dizer, na parte alta da villa, en- 
tre o que é hoje o adro de S.^a Maria, e o 
que é hoje a Porta Nova, porque o castello 
agora chamado Castello Velho evidente- 
mente não existia. Eram ambos catholicos 
zelosos, e em tempo do imperador Trajano, 
governando n'esta parte da Península Marco 



donado a heresia ariana e adoptado 
o catholicismo pouco antes da entrada 
dos moiros. Serpa era, pois, uma 
povoação christan e catholica, tanto 
nas altas como nas baixas classes. 

No principio do VIII século, os 
mussulmanos, vindos da Africa, oc- 
cuparam toda a Andalusia e portanto 
Serpa. E' provável, que algumas das 
familias principaes c mais ricas da 
povoação fugissem deante da invasão ; 
mas é certo, que uma grande parte 
do povo ficou, acceitando o dominio 
dos moiros, contra o qual, em conse- 
quência da sua humildade e pobreza, 
não podia protestar, nem pelas ar- 
mas, nem mesmo pela fuga. Ficou 
assim uma base da antiga população 
christan, subordinada aos moiros, pri- 
vada das suas propriedades, que fo- 
ram distribuídas aos soldados dos 
exércitos invasores, e constituída por 
simples operários ou trabalhadores 
ruraes — estes eram os chamados mo- 



Aurelio Máximo, solTreram martyrio pela 
fé em um sitio fora da villa, junto á horta, 
hoje chamada Horta dos Banhos. Toda a 
historia vem longamente contada por D. 
António Caetano de Sousa, no seu Agiologio 
Lusitano^ IV, p. 128 a i33. — E' necessário 
advirtir. que outros auctorescollocam muito 
longe d'aqui o sitio da naturalidade e do 
martyrio d'estes santos, o que contradiz o 
mencionado Caetano de Sousa com a sua 
habitual erudição. Seja como fôr, a tradi- 
ção fica mencionada. 



82 



A TRADIÇÃO 



sarahes. ' Sujeitos aos moiros, mistu- 
rados com elles, obrigados a apprcn- 
der o bastante da lingua árabe para 
se entenderem com os seus senho- 
res, adoptaram uma grande parte 
dos hábitos mussulmanos. Podemos 
calcular quanto aquelle trabalho de 
assimilação seria completo, se pen- 
sarmos que durou nesta nossa região 
perto de cinco séculos, e se fez pelo 
contacto, pela educação, e pelos casa- 
mentos.- O que nos pode surprehen- 
der, é que a assimilação não fosse 
mais completa do que realmente foi. 

EtTectivamente, não se fez em dois 
campos, ambos essencialissimos. Lm 
d'elles foi a lingua. Adoptaram-se 
dezenasecentenasdepalavras árabes; 
mas a grammatica e a generalidade do 
vocabulário ficaram sendo latino-rus- 
ticas. Esta lingua de origem latina, em 
que estamos escrevendo, resistiu aos 
ires séculos de dominação germânica 
e aos quatro ou cinco de dominação 
árabe. Vê-se, pois, que os pobres e 
humildes mosarabes continuaram sem- 
pre a usar entre si, e no interior das 
suas familias, o velho, rude, e imper- 
feito dialecto romance, derivado do 
latim. 

O outro campo, foi o da religião. 
E' certo, que alguns hispano-godos, 
mesmo de familias nobres, adopta- 
ram o islamismo, e este exemplo se- 
ria seguido no povo. ^ Em regra, po- 



i ; 



* Corrupção de mostarib^ nome dado pe- 
los árabes aos estrangeiros que viviam en- 
tre elles. 

* Quando os maiores principes, como Af- 
fonso VI, casavam com moiras, ou — o que 
é mais — não hesitavam em darem as suas 
filhas em casamento ao hajib Al-Mansur, é 
certo que as uniões legitimas ou illegiti- 
mas entre as duas raças, deviam ser muito 
frequentes no povo. 

' Ahmed-ibn-Gassi, de quem falíamos na 
primeira nota, pertencia a uma familia 
christan, tornada moira. No Aragão havia 
uns Beni-Casi, muito poderosos, que per- 
tenciam também a uma nobre familia goda, 
a qual abjurara o christianismo (Dozy, 9^6- 
cherches). Se entre os Beni-Casi do Aragão 
e os Beni-Cassi do Algarve existia algum 
parentesco, é o que não saberei dizer. Pode- 
riamos dar mais exemplos. 



rém, os mosarabes ficaram fieis ás 
suas crenças christans ; e praticaram 
a religião catholica, mais ou menos 
occultamente, mais ou menos aberta- 
mente, conforme a intolerância dos 
seus chefes e senhores augmentava 
ou diminuia. Deve-se dizer cm abono 
dos moiros, que, á parte alguns pe- 
ríodos especiaes, elles foram menos 
intolerantes do que deixariam suppor 
as lamentações das Chronicas chris- 
tans. Sabemos de varias igrejas que 
ficaram abertas e tacitamente con- 
sentidas. * E' possível, que mesmo 
na pequena Serpa, alguma igreja hu- 
milde, alguma capella modesta servis- 
se de ponto de reunião aos chrisiáos; 
e o alcaide moiro fechasse os olhos. 
Pobres, reduzidos ás condições de 
simples trabalhadores, sem nenhuma 
iníiuencia politica, mas tendo a sua 
lingua e a sua religião, os mosara- 
bes conservavam os dois mais pode- 
rosos laços que podem unir um povo. 
Assim, elles foram dominados, nun- 
ca completamente absorvidos pelos 
moiros. 

Pelo seu lado, os moiros estavam 
bem longe de constituir um todo ho- 
mogéneo. Nos exércitos e nas immi- 
grações, que passaram o Estreito e 
se fixaram na Península, vieram ra- 
ças muito diversas. Vieram árabes da 
própria Arábia; veiu gente da Pérsia, 
da Syria, da Palestina e do Egypto; 
veiu uma multidão das tribus africa- 
nas, conhecidas em globo pelo nome 
de berberes. Os christãos da Penín- 
sula chamaram-lhes sem distincção 
sarracenos, que parece ser a corrup- 
ção de uma palavra árabe, significan- 
do orientaes ; ou moiros, que era o 
antigo nome latino, mauri^ mauros, 
dos habitantes da Africa septemtrio- 
nal. Os mais cultos, por exemplo os 



• Uma das mais conhecidas ficava junto 
a Granada, fora da porta de Elvira ; cons- 
truida antes da conquista, ao que parece 
por um nobre godo chamado Gudila, só foi 
destruida séculos depois, no anno de 1099. 
Da egreja christan do Cabo de S. Vicente 
jã antes falámos ; e é claro que havia mui- 
tas mais. 



A TRADIÇÃO 



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Pescador (de Cezimbra) 




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A TRADIÇÃO 



frades que nos conventos do norte 
escreviam anno a anno os seus Chro- 
?/íto;;s, usaram com frequência a ex- 
pressão sarracenos ; mas o nome mais 
geral foi o de mouros ou moiros, o 
único que se fixou e ainda vive na 
memoria do nosso povo. ' 

Knire estes moiros, os árabes exer- 
ceram um certo predomínio intellec- 
tual e, nos primeiros séculos, politico, 
porque eram os mais civilisados, so- 
bretudo porque a sua lingua, mais 
culta, acabou por absorver todas as 
outras e ser a única usada pelos mus- 
sulmanos da Hespanha. Mas, por ou- 
tro lado, os berberes tiveram sempre 
um grande predominio numérico. For- 
mavam a maioria do exercito de Ta- 
rik, e depois dos successivos exérci- 
tos e levas de immigrantcs, que foram 
entrando na Península. E com o an- 
dar dos tempos, passaram também a 
ter um grande predominio politico. 

Ent!"e estas raças variadas houve 
sempre rivalidades, e muitas vezes 
guerra aberta, sendo esta uma das 
causas da anarchia, que constante- 
mente perturbou e enfraqueceu a 
Hespanha mussulmana. Para as aquie- 
tar, tentaram-se por vezes distribui- 
ções de terras, nas quaes se estabe 
leceram colónias dos difterentes povos. 
D. José Conde — que citamos sem- 
pre CDm muitas reservas, mas não 
podemos deixar de citar algumas ve- 
zes — dá-nos noticia de uma d'estas 
tentativas, noticia que aproveitaremos 
na parte relativa ao nosso assumpto. 
Diz-nos, que o amir Huçam-ibn-Dhi- 
raral-Kelebi deu terras no Al-Faghar 
e no districto de Beja aos arabes- 
proprios (árabes da Arabiaj^ e a al- 
guns egypcios. Isto é confirmado 



* Ninguém no povo sabe hoje que houve 
árabes ou sarracenos ; mas todos sabem va- 
gamente que houve moiros ; e ha ruinas e 
muros do tempo dos moiros ; e ha covas de 
moiras encantadas. A tendência mesmo é 
para lhes attribuir todos os restos do passado 
— os dolmen são geralmente chamados ca- 
sas de moiros : 

^ A expressão de Conde é «Árabes Vele- 
dies u, e esta ultima palavra corresponde a 



quanto ao Algarve por Edrisi, o qual 
séculos depois assegura, que cm Silves 
e seus campos havia uma colónia de 
árabes do Yémen, e ali se fallava a 
lingua com muita pureza e boa pro- 
nuncia. ' Pela mesma occasião, o 
amir Huçam deu terras na comar- 
ca de Se\ilha e na de Niebla á gente 
de Eméssa, a famosa cidade da Sy- 
ria, situada entre Aleppo e Damasco. 
Estes syrios eram considerados tão 
importantes como os puros árabes, e 
tidos na conta de muito nobres. Ser- 
pa deve ter sido incluida nas conces- 
sões feitas em Beja, ou, o que nos 
parece muito mais provável por tudo 
quanto temos dito, nas feitas em Se- 
vilha e Niebla. ^ 

Poderemos talvez agora, sem pro- 
vas nem documentos, mas por con- 
jecturas bastante plausíveis, recons- 
truir a população de Serpa: constava 
de alguns nobres senhores da Syria, 
proprietários e influentes, os quaes 
recebiam o pesado imposto pago pe- 
los christãos, e, com as suas famílias, 
constituíam a aristocracia da terra ; 
constava de bastantes berberes, por- 
que eram tão numerosos que os ha- 
via por toda a parte, e pelo andar 
dos tempos foram sempre augmen- 
tando ; e constava dos christãos mo- 
sarabes de que já falámos. Tal deve 
ter sido a mistura de raças e de san- 
gues, de que descende este nosso povo 
do Alemtejo ; e se revela ainda em 
vários traços moraes e physicos — na 
altivez despreoccupada e fatalista, e 
na physionomia, mais berbere, a meu 
ver, do que puramente semítica.^ 



baladi, que significa do próprio paiz., em op- 
posição a estrangeiro : oArabes Veledies» 
quer dizer árabes da Arábia. 

1 Géographie^ II, 21. 

2 Conde, Part. I, cap. 33." — O escriptor 
árabe, Ibn-al-Khatib, confirma plenamente 
esta noticia de Conde, quanto á localisação 
dos syrios de Eméssa em terras de Sevilha, 
e dos egypcios em terras de Beja (Dozy, 
Rechérches^ I, p. 83 e 86). — Estes senhores 
syrios recebiam o terço do que produziam as 
terras, cultivadas pelos christãos mosarabes. 

^ O que se explica perfeitamente. Não só 
os berberes eram muitissimo mais numero- 



A TRADIÇÃO 



85 



Occupando Serpa, os miissulma- 
nos, e os mosarabes que lhes esta- 
vam subordinados, occupavom tam- 
bém e cultivavam os campos em 
volta, nos ciuaes deixaram a sua longa 
permanência marcada em varias de- 
signações de localidades. ' 

Quando hoje pensamos nas guerras 
de devastação entre christãose mussul- 
manos; nas luctas civis entre os pró- 
prios moiros ; nas continuas algaras e 
fossados de lado alado, somos levados 
a imaginar uma Península assolada, 
talada, queimada, roubada e quasi 
deserta. Esta primeira impressão, pro- 
va se, porém, ser falsa. Quanto ás 
guerras com os christãos, devemos 
reparar em que os seus effeitos foram 
sobretudo sensiveis nas terras por mui- 
to tempo fronteiriças, na Beira meri 
dional, ou na Estremadura, por exem- 
plo. Mas para estes lados do sul, o Al- 
garve, Serpa e Moura, toda a região de 
Sevilha, ficaram por muito tem4'>o lon- 
ge de taes invasões. Do VIII ao XII sé- 
culo estiveram na posse incontestada 
dos moiros, p] as algaras d'estes em ter- 
ras uns dos outros eram menos de- 
vastadoras, e intercaladas de periodos 
mais ou menos longos de repouso. 
Em taes periodos, moiros e chris- 
tãos trabalhavam e cultivavam assi- 



ses, como occupavam em regra posições mo- 
destas, pertenciam propriamente ao povo, 
e se misturaram livremente com os mosa- 
rabes. Os nobres semitas, da Arábia ou da 
Syria, conservavam-se mais afastados, e al- 
liávam-se geralmente entre si. — As palavras 
adoptadas na nossa lingua são árabes, pela 
simples rasão, de que os próprios berberes 
falavam árabe, e acabaram por esquecer a 
sua lingua. No emtanto algumas há berbe- 
res, por exemplo zambugeiro, zambujo, que 
não é árabe e sim o berbere jambudj. 

' O próprio nome do Guadiana é árabe, 
pelo menos na primeira parte. O nome da 
ribeira de Enxoé deve ser árabe ; e o da ri- 
beira de Alfamar tem claramente esta ori- 
gem. Depois ha o sitio de Alçaria, nome ára- 
be vulgarissimo por todas as nossas provín- 
cias ; há os olivaes do Algodor ; há as terras 
das Arôchas ; ha as Azenhas no rio, a Aze- 
nha da Barca e a Azenha d'Ordem ; ha a 
herdade de Benracão. que deve vir da for- 
ma Benràcan ou Beni-rácan ; e vários ou- 
tros. 



duamente e com pericia. As noticias 
de Ediisi, escrevendo em tempo de 
D. Aftonso Henriques, dcixam-nos 
entrever uma certa prosperidade agri- 
cola em terras hoje portuguezas. 

Diz-nos ellc, que os campos de 
Bclat entre Lisboa e Santarém, as 
actuaes lezirias pelos lados de Val- 
lada, creavam o trigo em quarenta 
dias, e a sua produção era ás vezes 
de cento por um. ' Dando o des- 
conto a alguma exageração oriental, 
vê se que aquellas terras, alem de 
férteis, deviam estar bem cultivadas. 
Em volta de Alcácer creava-sc muito 
gado, e havia abundância de leite, de 
manteiga e de carne. ^ Nos campos 
de Évora faziam-se muitas culturas 
de trigo e outras plantas, e também 
muitas creações de gado. ' O Al- 
garve, como já dissemos, estava co- 
berto de figueiraes e vinhas. Para os 
lados de Sevilha, a zona oriental do 
Charf até Niebla era um olival pe- 
gado ; e o azeite constituia uma das 
principaes riquezas d'aquella parte da 
Andalusia. * 

Melhor do que por estas succintas 
noticias de Edrisi, podemos calcular 
qual era a riqueza da Andalusia em 
volta de Sevilha, pela distribuição das 
terras dos moiros, que ali fez D. 
AlTonso o Sábio, depois de tomada 
aquella cidade por seu pae D. Fer- 
nando o Santo. Deram-se terras a 
todos os principes, '" ás ordens re- 
ligiosas militares, a vários bispos, a 
um sobrinho do papa, a innumeros 
fidalgos, aos antigos creados de D. 
Fernando, a todos os soldados que 
serviram no cerco, besteiros, almo- 
gavares e outros. E estas doações fo- 
ram largas e riquíssimas. Compre- 
hendiam hortas e pomares ás portas 
de Sevilha e ao longo do Guadalqui- 



* Edrisi, Géogr.. II, 29. 
^Edrisi, Géogr.^ II, 16. 
^ Edrisi, Géogr ; II, 1. c. 

* Edrisi, Géogr. TI, 19. 

'Um d'estes principes era D. Pedro, filho 
de D. Sancho I de Portugal. Teve á sua par- 
te uma herdade com dez mil pés de olival 
e figueiral ; e muitas terras de semeadura. 



86 



A TRADIÇÃO 



vir; grandes vinhas; extensas terras 
de pão, divididas agora em muitas 
)'//i,MÍJS cft' JÍio y rc'í; enormes tí- 
giieiraes, produzindo innumeras cei- 
ras de tigos ; e sobretudo olivaes com 
os seus moinhos e lagares, e nos quaes 
os pés se contavam por muitas cen- 
tenas de milhares. Todo o extenso 
e interessantissimo documento • nos 
mostra um alto grau de prosperidade 
agriccia. 

Claro está, que a nossa Serpa, 
muitíssimo mais modesta, arredada 
para um canto remoto do Charf, as- 
sente em solo menos rico, não teria 
um grau de prosperidade egual, nem 
mesmo parecido. E' certo, porém, 
que os seus campos seriam bem cul- 
tivados em tempo dos moiros, muito 
melhor provavelmente do que depois 
foram durante séculos em tempo dos 
portuguezes. Os proprietários, oriun- 
dos da Svria, vinham de regiões pros- 
peras e férteis ; sabiam aproveitar as 
aguas ; encontravam um clima e uma 
vegetação similhantes aos da sua terra 
natal ; podiam plantar as arvores fru- 
ctiferas, que conheciam dos pomares 
e jardins em volta de Eméssa ou de 
Damasco. Alguns berberes das mon- 
tanhas da Africa uo norte eram bons 
trabalhor^s, tinham a energia e o 
amor á terra, que ainda hoje distingue 
os KabjMas da Algéria, seus irmãos 
em raça. 2 

A agricultura rudimentar dos his- 
pano-godos transformou-se. Grearam- 
se hortas, onde a agua dos poços, 
tirada pelos alcatrui^es das noras^ re- 
gava as almastigas ^ de plantas no- 



• ^epartimiento que hi^o el-Rey Don Alon- 
so el sábio etc, tirado de los Archivos dei Ca- 
bildo desta muy noble y leal Ciudad\ publi- 
cado por D. Fablo Espinosa, De la hist. y 
grandezas de la gran Ciudad de Sevilla, 
Parte II, foi. 1 a foi. 2G. 

' Elisée Reclus, Nouv. Géogr. Cniverselle, 
XI, p. 45o e seguintes. 

^ Todas as palavras sublinhadas, ainda hoje 
de uso corrente, são de origem árabe — al- 
mastiga é a forma alemtejana de almacega 
e parece \'\v át al-mascaba^ nome que se dava 
a um pequeno canteiro de terra, frequente- 
mente regado ; os outros nomes são bem co- 
hecidos. 



vas. Construiram-se no Guadiana e 
nas ribeiras açudes^ que levavam a 
agua aos moinhos ou atenhas. Trata- 
ram-se melhor os gados, approvei- 
tando-se o le'te e almece dos alavões. 
Lavraram-se e alqucivaramse as ter- 
ras, fazendo-se regularmente as ceifas 
ou aceifas. Enxertaram-se os :{ambu- 
geiros^ e construiram-se lagares com 
os seus ãlguergucs para o fabrico do 
a\eite. 

Podemos mesmo admittir que ainda 
existam restos dos olivaes d'aquel- 
les tempos. O que sabemos de physio- 
logia vegetal, não se oppõe a acredi- 
tarmos, que algumas das actuaes e 
velhíssimas oliveiras da Carreira ou 
das encostas da Guadalupe fossem 
enxertadas por mãos dos moiros, e 
já dessem fructo quando D. Affonso 
Henriques tomou Serpa. 

Tal, em resumo, nos parece ter 
sido o estado d'esta nossa villa du- 
rante o período do domínio moirísco 
— uma povoação de mediana impor- 
tância, situada na parte mais occiden- 
tal da Andalusia e do Charf, fortifi- 
cada mas sem grande valor militar, 
relativamente prospera e rodeada de 
campos bem cultivados. 

condi: de FICAI.HO. 



O SENHOR SETE 

(Continuado de pag. 71) 



O setestrello cahiu 
Em cima da Hor da giesta, 
Cada vez te quero mais, 
Olha que cegueira esta. 



O setestrello cahiu 
Em cima da ílor do tO)0, 
Se algum dia te quiz bem 
Agora mettes-me nojo. 



Setestrello vae em pino, 
Eu bem no vi empinar, 
De cima da minha cama 
Quando me estava a deitar. 



A TRADIÇÃO 



87 



Perguntae ao setestrello 
Que é magano c* sabe tuilo 
Em que pomos vae a lua 
Quando quer fazer escuro. 



O setestrello cahiu 
N'uma folha de giesta, 
Cada vez te quero mais, 
Olha que cegueira esta. 



Perguntae ao setestrello, 
Bem no deve de saber. 
Em que alturas vae a lua 
Quando quer amanhecer. 



O' setestrello airosinho. 
Cortejado de Cupido, 
Perguntae áquelle ingrato, 
Porque não falia comigo. 



O setestrello cahiu 
N'uma pedra, Hcou couxo, 
O lirio com sentimento. 
Logo se vestiu de roxo. 



Agora, mais estas, que não são ao 
Setestrello, mas que são muito do 
Senhor Sete : 



Set'annos antes que eu morra, 
Hei de me ir passsear no adro, 
Para ver a sepultura 
Onde hei-de ser enterrado. 



Sete com cinco são doze, 
Para quinze faltam três. 
Se te faltei algum dia 
Aqui me tens outra vez. 



Annel de sete pedrinhas 
Ninguém no tem senão eu. 
Trouxe amor, foi se o amor, 
Torna annel a quem te deu. 



Sete dias levou Deus 
A fazer o mundo inteiro, 
Tem de escolher sete annos 
Quem quizer amor certeiro. 



Já não ha estrellns no céo 
Senão sete arj pé da lua, 
Já não ha nem pode haver 
Cara mais linda que a tua. 



Sete estrellas no eco correm, 
Todas n'uma carreirinha, 
Também os amores correm 
Da tua mão para a minha. 



Sete e sete são quatroze, 
Com mais quatro são desoito. 
Todos teem os seus amores, 
Só eu fíquei ás vint'oito. ' 



Sele e sete são quatorze, 
Cada junta tem dois bois, 
Quem me dera uns olhos negros 
Como são aquelles dois 



Lá te mandei um raminho 
De sete amoras, que é luto, 
A do meio ia dizendo : 
— Meu amor, quero-te muito. 



Levantei -me de manhã 
A varrer o meu balcão. 
Encontrei Nossa Senhora 
Com sete ramos na mão. 



Sete mil vezes te eu quero, 
Setecentas eu te adoro, 
Setenta mil te venero, 
Setecentas por ti morro. 



Ha três dias que não janto, 
Ha cinco que não almoço. 
Ha sete que te não fallo. 
Meu amor, porque não posso. 



Meu annel de sete pedras, 
Salta fora do meu dedo, 
Que tu foste o causador. 
De eu ter amores tão cedo. 



(1) l-icar ás vinfoito, auer dizer. • . a zero I 
E' expressão muito uzual. 



.s^ 



A TRADIÇÃO 



Nnnel de sete pedrinhas 
Ao meu dedo não ha-de ir, 
Que eu já ando difamada 
Das creadas de servir. 



Eu tenho sete coletes, 
Todos sete bem forrados, 
Tenho também sete amores, 
Todos sete bem formados. 



Eu tenho sete navios. 
Todos sete com varandas, 
Mei-de subir á mais alta 
Para ver onde tu andas. 



.Meu annel de sete pedras, 
Meu annel de pedraria, 
Onde o amor póe o ramo, 
Não pode haver cobardia. 



Sete voltas dei ao mundo 
Para ir casar comtigo, 
Lá ao fim das sete voltas 
Dei um ai, dei um suspiro. ' 



Vão pelo céo sete nuvens. 
Eu bem as vejo d'aqui, 
Não te vejo ha sete annos 
E ainda hontem te vi. 



(Continua.) 



TRINDADE COXI.HO. 




A LENDA I)AS ARMS DE ELYAS 



íContinuado de pag. 74) 



"^Ç\ O entretanto, o audaz cavalleiro 
M- C nunca affrouxando o desenfrea- 
do gallope, vinha já nas alturas de Caia. 
Mais longe, porém, ahi pelo mesn:io 
sitio, pouco mais, pouco menos, onde 



1 Este, vê-se que é reminiscência da xacara do Gene- 
rardo, que a teu tempo darei com outras ; 



.Sete voltas deu á torre, 
Outras tantas ao postigo, 
Lá ao fim das sete voltas, 
Deu um ai, deu um suspiro. 



Nós veremos isso. 



primeiro se enxergara o heróico por- 
tador do estandarte, via-se ago a ou- 
tra nuvem de poeira, mais espessa e 
maior que a que este produzia com 
o seu bravo corcel, e que dava a per- 
ceber sem equivoco nenhum, que 
também de lá vinha na piugada do 
heroe um troço de cavallaria com as 
suas armas a scintillarem ao sol. 
Eram os castelhanos que queriam a 
sua bandeira. Mal se viu e percebeu 
tudo isto, tocou-se a rebate na praça 
de Elvas, os besteiros correram ás 
ameias, e a municipalidade, tal qual 
como em pé de guerra, mandou le- 
vantar as pontes e fechar logo todas 
as portas. De sorte que o esforçado 
cavalleiro conseguindo finalmente che- 
gar ás muralhas da sua terra, adoptiva 
ou natal, não pôde infelizmente trans 
pôl-as, e veiu a ser victima do seu 
heroísmo. Chegara a Roma e não 
vira o papa! O pêor era achar-se per- 
dido. Ainda assim, volteou por três 
vezes em redondo das muralhas da 
villa, na esperança de que lhe abris- 
sem uma porta pelo menos. Debalde. 
EUe, então, quasi ao alcance dos hes- 
panhoes, mercê de tanto tempo per- 
dido, parou o ginete arquejante, e 
alevantando a viseira de guerra, tudo 
isto n'um ápice, arremessou o estan- 
darte por sobre as muralhas, ao mes- 
mo tempo que exclamou para os de 
Elvas : 

— Ahi o tendes, cobardes! 

E tornou a calar a viseira. Acto 
continuo, e novamente a gallope, mas 
agora ao encontro dos que o perse- 
guiam, desprendeu a sua acha de ar- 
mas, que era talvez das mais alenta- 
das. Audaz como sempre, heroe até 
alli, empunhou-a iracundo, fremente, 
e gritou de este modo aos do troço: 

— Para vós esta, perros de Cas- 
tella. 

Palavras não eram ditas já elle com 
tal sanha a tinha regeitado á cara do 
cavalleiro castelhano que primeiro se 
lhe deparou, que o pobre diabo ficou 
logo por terra. 

Feito isto, deu de esporas ao ca- 
vallo e partiu em direitura de Extre- 



A TRADIÇÃO 



89 




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(CHOREOGRAPHICA) 



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A TRADIÇÃO 



moz. Os outros, em idêntico gallope, 
largaram sobre elle, ainda mais furi- 
bundos. Não gallopavam, voavam. 
Em menos de meia hora, portanto, 
chegaram a um lugar onde está actual- 
mente o antigo convento de S. Fran- 
cisco. Ahi, vendo-se ainda outra vez 
muito prestes a ser alcançado pelo 
troço inimigo, o cavalleiro portuguez, 
que não queria render-se, porque era 
valente, porque era portuguez, des- 
embainhou a sua espada com o mais 
alto denodo, e tornou a fazer frente 
aos seus perseguidores. Deu-se então 
uma lucta renhida, um combate des- 
egual de um só contra um bando de 
doze, que este era o numero dos ca- 
valleiros de Badajoz, e essa lucta re- 
nhida, esse combate desegual, pre- 
senccaram-no os elvenses das mura- 
lhas da praça. 

O audaz cavalleiro combatia trium- 
phante. Súbito, porém, o seu pulso 
de ferro, que tão de alma brandia 
uma espada de heroe, descahiu-lhe 
sem forças, quebrado de todo e logo 
a cabeça como se o elmo redobrasse 
de pezo e a fizesse por isso vergar, 
se lhe pendeu alquebrada sobre o 
pescoço do ginete I Era o reverso da 
medalha. Neste comenos, um dos ca- 
valleiros castelhanos, descarregando 
o montante com toda a sua gana so- 
bre os costados do heróico portuguez, 
deitou-o por terra e mais ao cavallo. 
Aquillo é que foi uma pranchada hes- 
panhola I Em Elvas, viu-se isto, como 
se em Elvas succedera, e um grito 
agudissimo de prompto se ouviu, um 
ai doloroso se escoou tremulante, por 
detraz das gelosias do mysterioso 
balcão. A este ai pungentíssimo, tão 
do intimo vibrado, o audaz cavalleiro, 
cujo nome se perdeu, ergueu-se de 
um Ímpeto, como se o houvesse sen- 
tido, e, alem de sentido, fosse por 
elle impellido, tal como o Lazaro 
prostrado ao ouvir o «surge et am- 
bula» não menos magnético. Em se- 
guida, agarrando a meio corpo o perro 
de; Castella, que acabara de derru- 
bal-o, deu com elle tão irado de ven- 
tas em terra, e em lucta tão feroz se 



envolveram alli, arca por arca, peito 
a peito, que nem um nem outro nun- 
ca mais se levantaram. 

Foi assim que succumbiu o valente. 
Já era tempo. A lenda, porém, é que 
não fica por aqui, por que é muito 
prolixa, tão minuciosa, que até para 
remate, ou, seja, para fecho, tem ella 
nada menos que duas chaves de ouro. 
São duas versões diametralmente op- 
postas. Diz uma, de ictrica memoria, 
que os furibundos e damnados hes- 
panhoes levaram para terras de Hes- 
panha o moço cavalleiro ainda com 
alguma vida, e que lá o fritaram 
n'uma caldeira de azeite. A outra, 
muito menos lacónica, aflirma com 
auctoridade, que elles o deixaram 
onde deram cabo d'elle, ahi por esse 
sitio do convento de S. Francisco, e 
que horas depois, ao parde)ar de essa 
tarde de sangue, quando de Elvas se 
foi recolher o cadáver do heroe, o 
acharam agarrado ao do perro de 
Castella com quem succumbira, se- 
gurando também ainda o cabo de um 
punhal, que com sanha lhe cravara 
na gorja. Mas não estava ahi alta- 
mente comprovado o bellico valor do 
exforçado cavalleiro. Mais sete cadá- 
veres o attestavam ainda, para eterna 
memoria do seu pulso de ferro. 

Elvas, de facto, nunca isto esque- 
ceu. Tanto assim que para bem per- 
petuar tão soberba façanha, pura- 
mente portugueza, para nunca olvi- 
dar este feito glorioso, tomou por 
brazão essa effigie de fidalgo caval- 
leiro armado dos pés á cabeça e com 
a sobrecarga de um estandarte na 
mão. 

Tal é a lenda, a tradição popular, 
que não anda, afinal, muito longe da 
historia, no tocante á façanha do ex- 
forçado cavalleiro. 

Vamos a desfiar a meada. 



(Conclue.) 



ALFREDO DE FR ATT. 



A TRADIÇÃO 



ín 



AS BOAS-FESTAS 

(Continuado de pag. 76) 

^Y^ ARKi agoi íi aqui uma noticia algu 
'Ky ma cousa extensa dos presentes 
que os fiades de S. Agostinho de 
Lisboa, residentes no seu convento 
da Graça, costumavam olVerecer em 
certos dias; noticia que é formada 
das verbas despendidas com a acqui- 
sição das cousas empregadas para o 
elVeito acima dito. E' na verdade lei- 
tura curiosa o que se contem nos li- 
vros da receita e despeza. São ape- 
nas trcs os existentes no Archivo Na- 
cional relativíjs aos annos que vão de 
1743 a i83o, pouco mais ou menos, 
e tem a seguinte collocação B — 44 
— 4 e 3 e B — 4!) — 3. 

a.) Km 1806 gastou a provincia 
2.860 reis na compra de 600 bilhetes 
de boas festas. Quando a provincia 
fazia esta orgia não é para admirar 
que o ex-graciano, o turbulento e ir- 
rcspeitoso José Agostinho de Macedo 
cm 24 de dezembro de 1828 na car- 
ta dirigida a F>ei Joaquim da Cruz 
do mosteiro de Alcobaça diga o se- 
guinte : «Ora ahi vão umas boas fes- 
tas que se devem ler cm casa do 
jjl mo p e Geral, a quem as desejo, e 
a todos esses senhores» ' Pelo natal 
do anno seguinte escreve José Agos- 
tinho no meio de solfrimentos intole- 
ráveis ao mesmo frade o seguinte : 
"Beijo a mão a V. Sr.* e lhe ante- 
cipo as boas festas, ao 111.'"" Ksmo- 
ler-mor, e ao P.^ Fr. Álvaro eu as 
não tenho para mim, e por isso es- 
tas que lhe annuncio não são dadas, 
são desejadas» 2. José Agostinho doen- 
te e cheio de cuidados pecuniários 
não podia celebrar as festas do na- 
tal, o que não obstava, porem, que 
as desejasse aos seus amigos. 



* A paschoa, festa de origem hebraica ado- 
ptada pelo christianismo veiu a substituir 
outra qualquer indígena da primavera. Cfr. 
a etymologia da traducção allemã de pas- 
choa Ostern. 

2 Obras inéditas de J. oA. de Macedo^ 
1900, pag. 14. 



b.) No natal de 1743 dcrão-se 480 
reis (um pinto) aos criados do nún- 
cio para apagar a mancha», e a mes- 
ma quantia se entrecou de conçoadas 
aos três moços da provincia. Lm 
porco que se entregou n'esta occa- 
sião ao (jucifiia /Respostas impoiiou 
em 6000 reis. Km 1747 em mancha 
dn U^afiil c J\iscoa do criado líraue 
do (íliidilor se despenderam 21Ô0 
reis. Dêmos agoia um salto e \ amos 
cair em 1807. Na propina (já se não 
diz mancha) dos criados do núncio : 
iCh)() reis; a quem dá as cartas no 
(torreio: 480; a mesma quantia aos 
creados da província e ao guarda- 
portão do núncio ; aos correios da 
Secretaria de Kstado : 1200 reis; e 
finalmente para vários convites que 
o R."^'^ (Provincial) fez pelo Natal 
2400 reis de presente. Fim 1808 im- 
portaram três porcos para as pro- 
pinas do natal do Letrado, Thesou- 
reiro e Escrivão dos juros reacs em 
54.700 réis. Km 181 3 custou um casal 
de piruns (sic) para o Lara ()ooo reis! 
Km 1817 o creado de certo Barbosa 
Araújo recebeu pelas festas do Natal 
480 reis. Dois casaes de piruns que 
receberão por este natal o Lara (do 
PIrario) e o Letrado Barbosa Araújo 
importaram só em ()2oo. Km 1822 re- 
ceberam os creados da provincia de 
consoada do Natal 600 reis, e no da 
1829 os correios do Secretario 32oo 
reis. 

c.) O guarda-portão do núncio re- 
cebeu na paschoa de 1807 480 reis, 
e os correios do Secretario de Kstado 
guardaram 1200 reis. O letrado nesta 
mesma occasião foi presenteado com 
seis galinhas que ao preço de 700 
reis custaram 4200. Km 181 2 recebeu 
o Lara um casal de perus que tinham 
importado em 6400'. K no anno se- 
guinte as 6 galinhas que recebeu o 
o Letrado importaram em 4320. 

d.) Por occasião da festa de S. 
Agostinho em 1743 dispendeu-se a 
quantia de 24.200 em Presentes ao 



Ud. 



53. 



92 



A TRADIÇÃO 



letrado, ao almoxarife e outras íÍl'- 
pefdcticias. Uma bancja pela mesma 
festa para o Procurador da Coroa 
importou em (1400 reis. Em 1744 foi 
adoçado o letrado pela festa do dito 
Padre com um prato de manjar branco 
que custou á provincia 2000 reis. 
Nesta mesma festa receberam o Guar- 
da Respostas, o escrivão do Guarda- 
Respostas, um desembargador qual- 
quer e José Pinheiro de Azevedo, 
otficial do Conselho da Fazenda por 
fazer um benehcio á Provincia, cada 
um, seu prato de ovos a 2400 reis. 
Fm 1745 foram entregues ao Guar- 
da-Respostas uma vitella que tinha 
custado 43oo e quatro perus que ao 
preço de 62b montam a 2D00 reis. 
Pela mesma festa receberam pratos 
de ovos que tinham custado cada um 
1920 reis o desembargador Dionisio 
Esteves Negrão e o Corregedor do 
Civil António Ferreira de Mendonça 
de quem temos dependências. Em 1 8 1 1 
um prato de manjar real para o nún- 
cio importou em 38õo reis. Logo 
no anno immcdiato um prato de do- 
ces para o núncio e dois de arroz 
com fios de ovos para o Thesoureiro 
dos Ordenados e o Lara custaram 
OQ70 reis. Meia dúzia de caixas de 
escorcioneira • recebeu o secretario 
de Estado na festa de S. Agostinho 
no anno de 1817, no valor de i5:ooo 
reis. 

e.i Os creados do paço e do nún- 
cio receberam de propinas em 1806 
por occasião da elleição do Provin- 
cial a somma total de 37.600 reis. 

f.j O mosteiro da Graça teve uma 
demanda demorada com o mosteiro 
das Monicas, e para cair nas graças 
das pessoas que intervinhão no pro 
cesso presenteava-as quer pelas fes- 
tas, quer independente delles. Em 
181 7 foram dadas ao escrivão da 
causa das monicas seis galinhas ao 
preço de Goo réis cada uma, e as 
pessoas que intervierão ou concorre- 



' Escorcioneira é uma planta de que se 
faz doce. Alemtejo. 



ram para se receberem os embargos 
da causa das Monicas, forão presen- 
teadas com 12 arrobas de presuntos 
cada uma ao preço de 6^400 réis, 
na totalidade de 76^5)800. No anno 
anterior de 1816 recebeu o fiel da 
causa das Monicas para não pedir os 
autos ao letrado por ser preciso de- 
morar por elles 2;j?56oo réis. 

g). O correio da secretaria que 
trouxe a noticia do parto de sua Al- 
teza Real (D. Carlota Joaquina) de 
23 de dezembro de 1806 recebeu 
5íí)400 réis (meia-moeda). 

h). Em 1823 gastaram se b^bio 
réis em sejes para o Provincial ir ao 
Beija-mão e dar as boas-fcstas. 

12. O anno romano começava nas 
Kalendas Januarii ou como hoje di- 
zemos no i.° de janeiro. Neste dia 
davão-se strenas, palavra que corres- 
ponde phoneticamente á portugueza 
estreias. Ignoramos se algum dia es- 
treias teve a significação que ainda 
hoje tem em França étrennes. Nalguns 
documentos medievaes ao primeiro 
domingo depois do i." de janeiro 
chamava-se Dominica post Strenas. 
Como acabei de dizer era costume 
entre os romanos distribuir presentes 
no dia das calendas de janeiro. De 
aqui muito facilmente passaram os 
povos a pedir as Kalendas januarii. 
Os castelhanos transformaram calen- 
da em aguinaldo conforme a etymo- 
logia de Schuchardt. Na Provença o 
dia de natal, segundo alguns, também 
se chamava festum Calendarum., les 
Calènes, lou Calendau. 

i3. Quando o hespanhol diz agui- 
naldo! pede e canta o portuguez as 
janeiras. Estes dois termos fazem 
parte d'uma phrase. De aguinaldo já 
se fallou no § anterior, resta-me ex- 
plicar a palavra janeiras. No latim 
da edade-media empregavam-se mui- 
tas vezes em logar de kalendas ja- 
nuarii., fabruarii., maii., etc. as for- 
mas kalendas jaiiuarias., februarias., 
maias., etc. O portuguez adoptou o 
segundo termo da phrase e ficou com 
janeiras e maias. As calendas de ja- 
neiro começavam a ser contadas 19 



A TRADIÇÃO 



í»3 



diajj antes do primeiro de janeiro, 
isto é desde 14 de dezembro. A igreja 
ainda com as suas novenas oitavas, 
etc, continua a usar este sysiema, 
que tem por base o desejo de conhe- 
cer quantos dias faltam para chegar 
a determinada festa '. 

P£DRO A. I>'AZ£V£DO. 



lIOII.lS-tSTIlllllLIIOS.lLFlITEJ.WAS 



Eu hei-de ir colher raacella,)^^-^ 
Da macella a inacellínha, \ 
Lá nos campos, verdes campos, /^^-^ 
D"âquella mais miudinha. ) 

D'aquella mais miudinha, 1^^. 
D'aquella mais amarella, \ 
Lá nos campos, verdes campos, \^- 
Eu hei-de ir colher macella. \ 



M. DIAS NUNES. 



A caça no concelíio de Serpa 

(Continuado de pag, 78) 

y-x A caçadores e caçarreías^ atira 
A- C dores e marlelieiros. Chama-se 
caçador, bom caçador, o que sabe ca- 
çar, o que conhece os usos da caça, 
bem como os terrenos e as fugidas 
da caça e as suas crenças ou sitios 
preferidos. Caçarreta é o que não 
sabe, ou pouco sabe caçar. Atirador 
é o certeiro, o que erra pouco, e se 
denomina aqui «uma bôa espingar- 



1 Sobre a maior parte dos nomes latinos 
aqui empregados consulte-se D'art de véri- 
fier les dates, I p. 52 a 60. 

' O povo pronuncia marcella. 



da». Martelleiro é aqueile que raras 
vezes acerta. 

O bom caçador é o mais compe- 
tente para dirigir uma caçada, em- 
bora nem sempre essa qualidade se 
ache reunida com a de bom atira- 
dor. 

Km geral, o homem que vive sem- 
pre no campo, e principalmente na 
serra, possue uma vista e um ouvido 
apuradissimos. Ku tenho obsL-rvado, 
immensas vezes, alguns d'estes ca- 
çadores a seguirem o rasto d'um 
porco ou d' um veado por grandes 
distancias e em terrenos, como são 
os da nossa serra, duros e schisto- 
sos, parecendo impossível conhecer- 
se qualquer vestígio ou pegada. Só o 
conhecemos quando elles nos indi- 
cam os pequenos schistos voltados, 
uma hervasinha mal pisada, uma fo- 
lha de arbusto recentemente cabida, 
e outros differentes mas quasi im- 
perccptiveis indícios da passagem do 
animal que se procura. 

Conheci muitos e bons atiradores e 
caçadores, e d*outros sei por tradi- 
ção que o foram. 

Se bem que eu tenha dito e me 
proponha dizer o que ainda sei so- 
bre a caça no concelho de Serpa, se- 
ja-me permittido mencionar aqui al- 
guns caçadores de fora d'este conce- 
lho, os quaes merecem occupar um 
logar de honra na breve noticia que 
venho redigindo. Deixaram elles tal 
fama de si, que a tradição os ha-de 
memorar por muito tempo. 

Entre todos os caçadores destes 
concelhos mais próximos, teve o pri- 
meiro logar — sem contestação algu- 
ma — o mestre Guerreiro, do Sobral 
da Adiça (concelho de Mouraj; foi o 
mestre dos mestres, o caçador, que 
matava a caça egualmente bem, fosse 
com chumbo ou fosse com bala. Con- 
ta se delle, que foi uma vez procu- 
rado por um bom atirador hespanhol 
e por este convidado para caçarem 
ao desafio. Mestre Guerreiro accei- 
tou. No fim do dia, o hespanhol ti- 
nha atirado 20 tiros, matando 23 per- 
dizes ; e o mestre Guerreiro apenas 



94 



A TRADIÇÃO 



tinha matado 22 perdizes, com 24 ti- 
ros que disparara. Quando, porem, 
em vista d'isto, o hespanhol se van- 
gloriava da sua superioridade, mes- 
tre Guerreiro fez examinar a caça 
d'um e a caça d'outro, notando-se 
então que as perdizes do hespanhol 
haviam sido mortas a chumbo, e as 
do nosso patrício, todas, á bala ! 

Por esse rncsmo tempo viveu, tam- 
bém no Sobral, o João F^araústo, 
atirador de primeira ordem. Na Ve- 
ra-Cruz houve o José António, um 
dos bons atiradores da sua epocha. 
Foram muito conhecidos, e ainda hoje 
são muito lembrados, o Joaquim Ba- 
talha e mais o José Ordem, óptimos 
caçadores, de Portel. José Paulo de 
Mira, de Évora, foi um excellente 
atirador, bom caçador, e um dos ho- 
mens mais afeiçoados, que mais ca- 
çadas fez e dirigiu. Este snr., que 
muitos dos actuaes caçadores haviam 
de conhecer, escreveu uns folhetos 
interessantes sobre a caça. Um, a 
que já me referi, descreve a caçada 
aos javalis, outro descreve a caçada 
aos pombos; e outro ainda, que é um 
brado contra o cerco dos lobos — 
contra o cerco, pelo modo como cos- 
tuma ser feito. O folheto da caçada 
aos pom.bos, acompanhado duma 
carta do meu amigo Snr. José Groot 
Pombo, tem muito boas noções para 
se exercer este divertimento, e é 
muito útil para os que quizerem ca- 
çar d esta forma. 

N'este concelho houve sempre ex- 
cellentes espingardas e muito bons 
caçadores. Já não conheci, mas sei 
por tradição que houve, em Ficalho, 
um João Valente e o tio Matheus ; 
em Aldeia Nova de S. Bento, o João 
dos Reis ; em Brinches um José Ber- 
nardo e Bento Janeiro; e em Serpa, 
o tio Luiz da Neta, Matheus de Val- 
da-Casca, o tio Simão de Mideiros, 
o Vaz, e o velho Casaca — todos 
muito boas espingardas. Pessoalmen- 
te, conheci, de Brinches: Joaquim 
Poupinha, José Clemente, Manuel 
d'Ascenção, António Ferreira, José 
Poupinha, e João Lopes Barbosa. 



í\ 



De Ficalho : Sebastião Dias de Car- 
valho, que já não caçava, mas que 
todos diziam ter sido a melhor es- 
pingarda do seu tempo. Com o filho 
deste, Francisco Dias de Carvalho, 
cacei eu muita vez. Conheci também 
o velho Estevens, excellente espin- 
garda e intelligente caçador, e mais 
os filhos, um dos quaes ficou em 
Évora quando ai li foi levar um cão 
que o Snr. Mira comprara em Fica- 
lho. Aquelle Snr. gostou tanto do ra- 
paz, e reconheceu-lhe tanta intelli- 
gencia para a caça, que lá o deixou 
ficar ao seu serviço. 

Conheci ainda o Francisco Grillo, 
o José António Sargento (de quem 
fui muito amigo) e o Lourenço José 
d'01iveira, caçador tão hábil quanto 
martelleiro. 

D'Aldeia Nova de S. Bento, co- 
nheci : Francisco Laneiro, o Moraes, 
e o Valente Caçador — um colosso, 
que se acontecia matar um estaqueiro 
(veado d'anno), esfolava-o, limpava-o 
das tripas, empiolava-o^ mettía-o den- 
tro da pelle, e em seguida punha o 
animal ás costas e continuava a ca- 
çar ! 

Conheci egualmente e com elle ca- 
cei, o Manuel Dyonisio, da Córte-do- 
Pinto, e mais o velho Segurado, o 
Manuel do Cerro, os dois Calhegas, 
Diogo e Manuel, e o filho d'este, Se- 
bastião, que chegou a matar 3o coe- 
lhos sem errar um só ! 

Foram muito das minhas relações : 
o meu mestre e particular amigo 
Francisco Manuel Louzeiro, atirador 
de primeira ordem (principalmente 
com bala e nas grandes distancias) 
e de vista tão apurada, que depois 
de disparar dizia com precisão o si- 
tio do animal onde a bala tinha en- 
trado. Francisco Rijo, um dos caça- 
dores mais certeiros, também com 
bala ; o mestre Domingos Rijo, com 
quem immensas vezes cacei, bom ca- 
çador e, ao mesmo tempo, contador 
de uma infinidade de historias de ca- 
ça, de lobos, e de acontecimentos ex- 
traordinários, passados na Serra de 
Serpa, a qual elle conhecia tão bem, 



A THADIÇAO 



95 



que poderia descrevel-a sem a maior 
exactidão, sem esquecer nenhum cor- 
go, nem vereda, nem oiteiro. 

Outros muitos e bons caçadores 
conheci ainda, entre os quaes: Antó- 
nio de Pádua, João e Manuel d'Arau- 
jo, Jeronymo \'ieira Oago de Ne- 
greiros, José Gomes Hydaigo, ele, 
etc. 



iContinúa.) 



A. de MEI.I.O BBEYNXR. 



J^IMAS foPULAF^^ES 



Decimas 



Lá nos vnlles da Amoreira, 
Ou monte do Alvarrão, 
Abalou um rapaí^ão 
A tallar a uma roseira. 
Disse de certa maneira, 
E ella respondeu assim, 
Mesmo lá no seu jardim : 
«Eu não posso. . . porque estou, 
Porque loi, porque tornou, 
Porque tal e porque sim. o 

O senhora Leonor, 
Quer-me p'ra seu jardineiro? 
Não venha algum passageiro 
Que lhe offenda alguma tlór I 

— Você sabe armar lavor ? 
E uma horta sabe regar ? 

— Eu de tudo sei usar, 
Eu sou um rapaz robusto ; 
Nem nós tratámos de ajusto : 
O que a senhora quizer dar. 

Vivo suspenso no mundo ! 
Não sei quem será culpado 
De eu viver agonisado, 
. . .Paciência, será tença. . . 
Oh, meu i^eus I oh, luz immensa 
Tende compaixão de mim I . . . 
Já foi tempo em que eu gosi 
Instantes afortunados; 
Agora, por meus peccados, 
Separado estou de ti I 

Abalei de Santo Antão, 
Fui dar ao Convento-novo ; 
Não vi convento nem povo 
Onde haja tal devoção I 
No altar de San João 
Estão oitenta e uma luz, 
Virgem-Mãe d'Ao-pé-da-Cruz, 
E a Senhora do conforto, 
Que em seus braços tinha morto 
Seu altíssimo Jesus. 



Virgem-Mãe da Conceição, 
Padroeira da Salvada, 
Virgem pur;i, immaculada, 
Livre da culpa de Adão; 
Virgem-Mãe da Kedempção, 
Fim que temos toda a cspVança l 
Quem espera, sempre alcança 
Aquillo que Deus quizer. . 
Viva a casa de liragança ! 
E viva El-rei Don Miguel ! 

(Continua ) 

(Da tradição oral, cm Serpa.) 

JOÃO VAREXXA. 



Os mandamentos do amor 



Vou-me a cantar uma cantiga 
Toda pelos mandamentos. 
Depois que os teus olhos vi 
Tive vários pensamentos. 



O primeiro é amar. 
Não te amo como devo ; 
Depois que os teus olhos vi 
Nunca mais tive socego. 



O segundo é não jurar 
O seu santo nome em vão. 
Jurei de te não deixar : 
Essa é a minha tenção. 



O terceiro é guardar 
Em teu peito minhas leis. 
Deixa memorias passadas, 
Que eu também )á as deixei. 



O quarto pertence á honra. 
A honra é de quem n'a tem. 
Faze tu da tua banda, 
Não se te dê de ninguém. 



O quinto é não matar. . . 
Eu por ti é que ando morto ! 
Olha as delicias d'amor 
Em que estado me tem posto ! 

(Continua.) 

(Da tradição oral em Serpa.) 

M. DIAS NUBTES. 



y6 



A TRADIÇÃO 



BULLETIN POUR L'ETRANGER 



TA TRADITIOJÍ 

ReTue measuelie luusiree (l'6iliDograplile portugase 



DIRECTEURS 



Lj.Í!sLiii "Viçjrra et 1)ías V^ioies 

líEDACTION ET ADMINISTRATION 

Á SERPA ^PORTUGAL) 



SiiDiDijire du préscnl numero àe la Tradilioii 

T9Xu3 '. —Notes historiques sur 
Serpa : La population de Serpa 
au temps des maures, par le 
Comte de Ficalho ; Monsieur Sept 
(suite), par Trindade Coelho (Dr.); 

La legende des armes d'Elvas 
(suite), par oAlfredo de Trali; 

Les Bonnes-fètes (conclusion), 
par Pedro QÂ. d'Aievedo; 

Chansons, refrains de TAlem- 
tejo : La camomille, par oM. Dias 
Xunes. 

La chasse dans le district de 
Serpa ísuite)^ par QÂ. de ({Mello 
Breyner ; 

Himes populaires : Dizains, par 
João \arella (Dr.) ; les comman- 
dements de Tamour, par M. Dias 
Nunes. 

IlIUSlPaliOriE! — Galerie de cos- 
tumes populaires : POcheur. 

Recueil de chansons : La ca- 
monile (musique). 



BULLETIN FOR ABROAD 



m^m%m% 



DIKECTORS 

Ladislaii Tiçarra and 'Dias 'iNjíues 

OFFICKS 

SERPA (PORTUGAL) 



Suiuniaiy (if tlie prisenl niiiiilier of tlie Tradilion 

T6Xt '. — Historical notes about 
Serpa : Serpa's population in time 
of moors, by Conde de Ficalho ; 

Mister Seven (continuation), by 
Trindade Coelho (Dr.) ; 

The Elvas^legend of arms (con- 
tinuation), by oAlfredo de Praít; 

Happy Christmas (conclusion), 
by Pedro A. de Azeredo; 

Songs and refrains from the 
Alemtejo : The camomile, by M. 
Dias Nunes; 

T\\Q shooting in the Serpa dis- 
trict (continuation), by A. de 
cMello Breyner; 

Popular rhymes «Decimas» : 
(strophes of ten verses), by João 
Uarella (Dr.) ; the command- 
ments of love, by M. ^Dias Nu- 
nes. 

IllUStraUORS:- Galleryof po- 
pular costumes : Fisherman. 

Musical collection : Hie camo- 
mile (dance). 



^ 11 lio II I\." 



SERPA. Julho de ISOO 



>' ol llltl«' I I 



Edílor-adminifttrador, Jo$f Jeroiiymo Ja Cogla fír,ivu Je Scareirui, Kua l-arsa, 3 « 4 — SliKI'A 
Typ. df AJolpho de Mendonça, Kua <Ju Corpo Sanio, 46 e 48 — LISBOA 




nmm 

Revislii iiinisal il tlliiiiii{rii{iliKi Poriíiiiiiczii, illiislraila 



-tf"«fl-íí«*Q-0"-»- 



Directores :-I.AI)I8LÃU PIÇARRA e M. DIAS NUNS8 



O SENHOR SETE 

(Continuudo de pag. 88| 



Setestrello que vaes alti 
Por essas serras d'além, 
Leva -me ao céo onde lenho 
A alma do minha mát:. 



Sou um triste marinheiro, 
Nas ondas ando a lutar. 
Vou pedir ao setestrello 
Se elle me pode guiar. 



Setestrello, vae andando, 
Vae andando, que eu já vou, 
Vae deitando a tua luz, 
Que o luar já se acabou. 



Você a mim não me leva ' 
A contar-me maravilhas; 
Foi você quem engnou 
Sete mães, quatorze filhas. 



As nuvens no céo se tingem 
N'um arco de sete cores. 
São sete as dores de Maria 2, 
São setenta as minhas dores. 



1 Não me convence; náo me seduz; não me illude: não 
me engrola; náo me engrampa. . . 

2 Sáo sete, com effeito. Nós as contaremos a seu 
tempo. 



A hortelã já nasceu, 
A salsa está p'ra nascer, 
N'estes setes que te eu faço 
Bem me podes entender '. 



O nome do meu amor 
Com sele letras se escreve, 
A primeira é um A, 
As outras Hcam cm breve '^. 



Meu annel de sete pedras 
Ninguém no tem senão eu. 
Antes que meu pae me mate ' 
Hei-de amar a quem m'o deu. 



Na cantiga das ruas, Mariawia Cos- 
tureira^ a estrofe do Senhor Sete é 
esta : 

Marianna diz que tem 
Sete saias de balão 
Que lhe deu um caixeirinho 
A occultas do patrão. 

Oh ai, oh ai. 

Oh ai, amor, 
Das ligas da Marianna 
Nunca ninguém viu a côr. 



Na cantarola Oh fresca da ramalha- 
da^ lá temos também o Senhor Sete : 

Puz-me a contar pela lei 
As pedras d'uma columna ; 



' Veremos quando fòr lempo o que vem a ser isso 
de faxer o sete. 
2 Qnando Deus quer, era .\ntonio! 
■* Antes que = ainda que. 



98 



A TRADIÇÃO 



Oh fresca da ramalhiida, 
As pedras d'uma columna ; 

Nove, oito, sete e seis 

Cinco, quatro, três, dois, uma. 
Oh fresca da ramaihadas 
Cinco, quatro três, dois, uma. 



E na passeata do Ziiic pi'}ic jnne^ 
o temos também : 

Já dou de caras a Hespanha, 
Já volto pVa Portugal, 
As mulheres teém mais manha 
Que sete zorras n'um vai'. 



E na cantiga das ruas, O lagarto^ 
elle cá está : 

O lagarto, coitadinho, 
Pó-pó-pó, ti-ro li-ro-li-ro-ló, 
Já lá vae a enterrar, 
Pó-pó-po, pó-pó ; 
Quatro cães e sete gatos 
Pó-pó-pó, ti-ro-li-ro-li-ro-ló 
O foram acompanhar. 



E na chula da Gallinha^ que se 
canta muito nos Açores : 

Tenho uma gallinha pinta 

Que põe sete ovos ao dia, 

Que põe sete ovos ao dia. 

Ainda assim não me contento, 
Cho pVa fora, cho p'ra dentro, 
Cho gallinha pVo convento, 
etc. 

Faz-me lembrar isto a quadra de cá: 

Tenho uma gallinha pinta 
Que põe três ovos ao dia. 
Se ella me posera quatro 
Melhor conta me faria. 

Como quem diz: outro gallo me 
cantaria. . . 

Mas já agora, vá lá mais isto, que 
ainda pertence á Gallinha pinla — 
mas á nossa : 

A minha gallinha pinta 
Põe três ovos ao dia ; 
Se ella puzera quatro, 
Que dinheiro não fazia 1 



Já me davam pela cabeça 
Uma vaquinha moresca : 
Já me davam pela crista 
Uma vaquinha moirisca; 
Já me davam pelo bico 
A renda do senhor bispo ; 
Já me davam pela lingua 
A cidade de Coimbra ; 
Já me davam pelo pescoço 
Uma dama com seu moço ; 
Já me davam pelo papo 
Raza e meia de tabaco; 
Já me davam pela moela 
Uma vaquinha moirela; 
Já me davam pelo coração 
A renda de S. João; 
Já me davam pelas tripas 
Duas faixadas de fitas; 
Já me davam pelo rabo 
Um cavallo enfreiado ; 
Já me davam pelas azas 
Na ribeira umas casas ; 
Já me davam pelas pennas 
Duas vaquinhas morenas ; 
Já me davam pelas pernas 
Umas meias amarellas ; 
Já me davam pelas unhas 
Cento e meio de agulhas; 
Já me davam pelo corpo 
Toda a cidade do Porto ; 
Já me davam pelo ril (rim) 
Um porrão de sahil. 

Gallinha que vale tanto 

Vae-se levar ao convento. 

Para que as freiras digam ; 

«Chô pr'a fora. . . chô para dentro.» 



Mas aqui estou eu agora sem sa- 
ber para onde me hei-de virar! Des- 
fiado o rosário das quadras, mais o 
das cantigas ao Setestrello, que darei 
eu agora? Adivinhas ? Jogos de pren- 
das? Esconjuros ? Philtros ? Parlen- 
das ? Sentenças e provérbios ? Ro- 
mances? Xacaras? Contos em pro- 
sa? Anecdotas? Armadilhas? Res- 
ponsos ? Orações ? Crendices e su 
perstições ? Phrases-feitas ? Onoma- 
topéas ? 

Que hei-de eu dar agora, pois que 
de tudo está fornecido o meu celeiri- 
nho?I 

De tal modo tem esse querido Se- 
nhor Sete usado da hospitalidade do 
Povo, entretendo-lhe, sentado á larei- 
ra, os longos serões do inverno, que 



A TRADIÇÃO 



99 



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ejíLEKI^ DE TVPOS POPlÍLfIRES 





Peixeira (de Estarreja) 




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100 



A TRADIÇÃO 



não sei agora o que lhes deva refe- 
rir dessas conversas! 

Vamos lã com Deus ! Não darei 
por emquanto nada d"aquillo. Por 
agora, vamos a esse respigo avulso, 
quasi inclassificável, de pequeninas 
coisas muito curiosas, — dispersas, ve- 
rão, pela nossa memoria, mas que 
vão emfim encontrar-se junctas, for- 
mar serie — creio que pela primeira 
vez. 

A ellas, a ellas I Vamos a isto ! 



— Sete cardadores para um saraviago. 

Saramago, é uma planta da famí- 
lia das cruciferas. O rábano é da fa- 
mília. Quererá dizer que eram 7 car- 
dadores para comer um rábano ? Ou 
haverá n'isto alguma analogia^ e que- 
rerá antes dizer que os cardadores, 
como os alfaiates, são fracos homens 
para o trabalho, e pouco desemba- 
raçados ? Esta interpretação pode pa- 
recer abonada pela seguinte quadra : 

Setecentos alfaiates, 
Outros tantos cardadores 
Para matarem a aranha 
Foram chamar os pastores. 

Gostaria que algum leitor me dis- 
sesse o que pensa a este respeito. 



— Sete alfaiates para matar uma aranha. 

Em verso são setecentos : 

Setecentos alfaiates 
Todos postos em campanha 
Com agulhas e alfinetes 
P'ra matarem uma aranha. 

Esta embirração do povo pelo al- 
faiate, virá de não gostar de vêr um 
homem trabalhar de agulha ? Creio 
que sim, mais de serem dados os al- 
faiates, pelo officio, um pouco á bes- 
bilhotice, — pois nas aldeias, lá cima, 
trabalham á geira em casa dos fre- 
guezes, e levam o tempo, elles e o 
mulherio da familia, a murmurar das 
vidas alheias . . 



Isso deve iníluir, — que não é nada 
viril, por certo, vêr um homem no 
meio de mulheres, puxando a agu- 
lha como ellas. . . 

Mas será assim ? ' 

De resto, as próprias mulheres pa- 
rece que não engraçam também com 
os alfaiates ! E' ouvir a cantiga do 
Ldrão morreu '^ : 

O iadrão morreu 
A comer tomates, 
Meninas bonitas 
Não são p'r' alfaiates. 

Ai ai que me pica, 
Ai ai que me arranha, 
Ai ai que me ferra ^ 
Aquella aranha ■* 

O ladrão morreu 
A comer castanhas, 
Meninas bonitas 
Não são pV aranhas. 



^ Eu escrevi alfaiate com-;-e não com y-e 
d'isso peço desculpa aos alfaites! Tenho no- 
tado que com os progressos da chamada 
Democracia (com D grande) a nomenclatura 
das artes e oííàcios, e das industrias, tende . . . 
a aristocratisar-se ! Assim, o typographo já 
não é typographo : é ^raphico\ o padeiro 
mudou de nome : é manipulador de pão ; o 
sapateiro, idem : é manipulador de calçado ; 
o caixeiro, esse não ha já maneira de ser 
caixeiro : é empregado do commercio ; o ta- 
berneiro, vendedor de vinho a retalho ; o 
informador de jornaes, é repórter e até^or- 
nalista ; o mercieiío, é vendedor de viveres ; 
o barbeiro, esse é tudo menos barbeiro : coif- 
feur., peluquero., raseur.^ cabelleireiro ; — e o 
alfaiate, nao tendo modo de se aristocrati- 
sar d'outra forma, pregou com um-j^- no 
officio : Q/llfayte ! 

Já se não apanha distico ou taboleta sem 
o t.il-j^-que sempre é letra grega, patricia 
de Homero. . 

Entretanto, a origem da palavra é árabe : 
ai Khaiath ; do verbo Khaiata, coser. 

. . . Ora tomem os alfaiates, que aliás já 
deram o nome a um soco e a uma manha : 
ao soco d'alfaite, que é a pancada que se dá 
para o lado ; e á manha de alfaiate., que é 
prometter e faltar-, — e figuram em alguns 
anexins : Alfaiate de encruplhada põe as li- 
nhas de sua casa ; — Q/llfaiate mal vertido., 
sapateiro mal calçado, equivalente áquell' 
outro: (lasa de ferreiro., espeto de pau; etc. 

2 A musica d'esta cantiga foi applicada 
por Castilho. . ao seu methodo repentino 
de aprender a lêr! 

' Perra = morde. 

* Aranha, isto é . . alfaiate ! 



A TRADIÇÃO 



101 



O ladrão morreu 
Em comes e bebes, 
Meninas bonitas 
Não são p'r' algibebes ' 

E ainda cá tcnlio mais estas 



Setecentos alfaiates 
Para matar uma aranha : 
Fortes são os alfaiates 
Que nem isso apanham 1 

Vinte cinco mil alfaiates 
Todos postos em campanha, 
Com as tesoiras abertas 
Para matar uma aranha. 

Setecentos alfaiates 
E' tudo: — fítrei, farei: 
Para matar uma aranha 
Gritam : — aqui d'el-rei! 

Aqui d'el rei quem acode 
Ao fogo de Santarém, 
Acudam os alfaiates 
Emquanto os homens não vem ! 

Bem digo eu que as mulheres nem 
reputam homens os alfaiates I 



— Fechar a sete chaves. 

E" O mesmo que fechar bem, fe- 
char com cuidado e segurança, com 
propósito de esconder ou não deixar 
fugir: — «O pae tem-na fechada a sete 
chaves!» diz-se de alguns pães que 
aperreiam as filhas. O mesmo de ai 
guns maridos com as mulheres. 

Mas a mulher, nem fechada a sete 
chaves está segura ! E' ocaso do ou- 
tro, (conta o Senhor Sete) que por 
ter de ir viajar fechou a mulher em 
sete caixas, umas dentro das outras, 
pregou a chave na tampa de cada 
uma, e atirou depois a caixa ao mar. 
Pois nem assim ! A caixa foi dar a 
uma praia, foi aberta por D. Joáo, 
foram abertas as interiores, — e . . . « ar- 
deu Trova!», como dizia Camillo 
n' estes lances. . . 



I 



* Nos meus sitios, o alfaiate remendão chama-se 
chastre.— «Vae ao chaste que te arremende .'» 



— As sete badaladas do parto. 

Lá cima, quando uma mulher está 
prestes a dar á luz, c ha receio de 
parto didicij, ou já se está debatendo 
n'elle, ha o costume de ir á torre ou 
ao campanário, e tocar sete badala- 
das, espaçadas... Sabe-se logo que 
é mulher de parto, — e cada qual en- 
commenda-a como sabe aos santos e 
santas da sua devoção : á Senhora 
do Bom Successo, á Senhora da Boa 
Hora, a Nossa Senhora do Livra- 
mento. 

Ha terras onde isto refina de piíto- 
resco, porque quem vae tocar o sino são 
sete xMarias, c puxam a corda. . . com 
os dentes ! N'este particular, porém, 
não sei dizer se se exige nas sete 
Marias, como n'outros casos, o es- 
tado physiologico, real ou presumido, 
da virgindade. . . 



— Sete cães a um osso. 

Diz-sc quando são muitos os pre- 
tendentes a uma coisa, disputando-a 
como sete cães se disputariam um osso. 

No Porto, quando lá estudei, lem- 
bro-me que quando se via um ho- 
mem atraz d'uma mulher, ou aferra- 
do a ella a «dar-lhe paleio», havia 
sempre um que ladrava de longe : 

— «Larga o osso!» 

O que não queria dizer que as mu- 
lheres não fossem ás vezes umas ma- 
tronaças, parece que só feitas de 
carne ! 



— Fallar com sete pedras na mão. 

Diz-se do que falia arrenegado, 
com maus modos, — com palavras 
que parecem pedradas. — «Paliou me 
com sete pedras na mão I Pouco fal- 
tou para correr comigo, e p'ra me 
impontar p'la porta fora!» Desposti- 
çar, lá cima, significa também a mes- 
ma ideia : despedir com violência, ar- 
renegado, e ocom cara de poucos 
amigos», ou «com más ventas». E' 
o que se chama «correr com alguém». 



1(>2 



A TRADIÇÃO 



— Os sete buracos que tentos >m cjra. 

K etíeciivamente : dois olhos, dois 
ouvidoi»; duas ventas, e então a bôc- 
ca. Sete. — a Não é mais que eu. Na 
cara temos ambos sete buracos ; e 
d'ahi p'ra baixo, por dentro e por 
fora, põe lá que somos iguaes !» Uma 
razão phvsiologica. . . de igualdade ! 



— Os sete fôlegos de gato. 

Acho que ainda ninguém lh'os con- 
tou. Mas porque resistem a toda a 
avaria, e parecem feitos da pelle do 
diabo, entendeu o Senhor Sete, e 
muito bem, que deviam ser dotados 
d'aquelle numero de fôlegos ! Um já 
eu vi cahir d'uma torre, ficar de pé 
como se nada fosse com elle, e orien- 
tado em menos de um segundo, lar- 
gar a fugir que nem uma lebre ! 

Em Coimbra, na caça que os es- 
tudantes fazem aos gatos, de noite, 
alguns só por impostura se fazem 
atordoados ; e lembro-me que para 
matar uma vez o da D. Amélia Jan- 
ny, que repontara com os atacantes, 
foi preciso o Eloy, tenente de enge- 
nheria, rapar da espada, e furál-o de 
lado a ladc ! 

Furado, ainda bufava ! 



— Estar com sete olhos ■ . ■ 

E' como quem diz cubicar'. E ou- 
tras vezes, estar attenío \ mas então 
é estar com sete ouvidos. 

— olhl estava com sete olhos, que 
até parecia que lhe queriam estou- 
rar ! O invejoso ! Nunca o invejoso 
medrou, nem quem ao pé d'elle mo- 
rouln — «Estava ali que parecia en- 
cantado, com sele olhos pregados 
nelle, e sete ouvidos, a escutál-o.» 

. . . Algum petiz a ouvir uma his- 
toria., que na minha terra se chama 
uma couta. No feminino, que é mais 
docinho. Também riso não é riso : é 
rtsa : 

— «Ai que risa !» 

Quando os sete olhos se vão n'al- 



gum bocado de comida, dá-se um 
cibo (um bocadito) ao rapaz, não vá 
elle ougar (aguar) : 

— Toma, não ougucs ! 

E alguns ha, coitaditos, que andam 
mesmo com cara de ougados ! Mas 
a esses dá-se lhes atraz da porta 
um pouco de pão amassado em azei- 
te, e entram logo a medrar e a ter 
boas cores. 

Podéra, se tinham fome . . . 



— Sete e sete são quator^^e, sete p'ra 
deante e sete p'ra tra:^., feirem um alforge. 

Qiiator'{e. . . alforge. . . Isto parece 
que quer ser em verso : 

Sete e sele são quatorze : 
Sete p'ra deante, 
Sete p'ra traz. 
Fazem um alforge. 

Talvez assim. Mas o que eu não 
sei é o que isso quer dizer ! Dá-me 
apenas uma ideia vaga de symetria., 
e outras vezes, não sei porquê, de 
indifferença., mas não ausculto a phra- 
se como desejava, e não sei, verda- 
deiramente, em que casos se mette 
na conversa. . . O leitor sabe ? 

Lá cima, a palavra alforge (e não 
alforja) nunca se uza no singular, 
e não é masculina. E' feminina e 
vae no plural. Já n'um livro que eu 
escrevi, o José Grillo diz p'r'a mulher : 

— «Mette-me qualquer coisa uas 
alforges, que vou jáaperelhara égua.» 



— ly uma formiguinha .1 um formigão; dhim 
formigão, um carapetão; d'um carapetão, sete 
poucas-vergonhas. 

E' uma variante «aperfeiçoada» do 
«Quem conta um conto acrescenta 
um ponto.» — «D'um argueiro, um 
cavalleiro !» diz também o povo, dos 
que são dados ao exaggero : — «Faz 
d'um argueiro um cavalleiro!» 

O Senhor Sete vae, porém, um 
pouco mais longe. . . 



(Ojntinúa). 



TRINDADi: COXIiHO. 



A IRAiJlÇAO 



103 



A I.ENDA DAS ARMAS DF. ELVAS 

((^«inclusão) 

ESSE caso, ainda hoje apicfíoado, 
c um facto real, muito cheio de 
verdade. Succedeu. O que não acon- 
teceu, em boa hora o digamos, foi per- 
der-se o bcllu nome do heroe. Chama- 
va-sc João Paes (lago. Ao que consta, 
era gago só de nome e nobre dos qua- 
tro costados, pois, além de cavalleiro 
de Christo, tinha ainda o titulo sobre- 
modo pomposo ác Jiiialfjço tf a par do 
rei. A sua gloriosa façanha devia ter 
tido lugar ahi por meiados do século 
XV, o século das innovações. Por 
esse tempo, como em nenhuma outra 
epocha, a crença christã na peninsula 
ibérica, era tão extensa, tão cheia de 
fervor, que as festividades de carac- 
ter religioso se exhibiam com a má- 
xima pompa. Tanto luxo queria dizer 
devoção. Mas de entre taes festas, a 
que mais deslumbrava pelo seu luzi- 
mento e conjuncto espectaculoso, era, 
sem dúvida, a de Corpo de Deus. 
Corpus Clinsti se chamava em latim. 
Esperava-se por ella, com viva ancie- 
dade, e a ella se alliavam duas festas 
distinctas, quaes eram a propriamente 
da egreja e a profana que muitissimo 
variava em cada província e até em 
cada terra. 

Na visinha Hespanha. em Badajoz, 
por exemplo, consistia esta ultima 
festa n'uma espécie de concurso en- 
tre vários cavalleiros, tanto de lá 
como do nosso paiz, a vêr qual d'el- 
les, todos moços de uma canna, daria 
maior numero de voltas em certo 
circuito de não pequena extensão, 
com o pesado estandarte do municí- 
pio em punho. 

Pelos modos, esta celebre bandeira 
era um traste que pezava quintaes. 
João Paes Gago tomou-lhe bem o 
pezo. Logo, o estandarte por elle ar- 
rebatado aos hespauhoes, não foi o 
de Castella, como a lenda nol-o diz, 
mas tão somente, veridicamente, o do 
municipio de Badajoz. Isto faz sua 
differença. 

Também o que moveu o esforçado 



cavalleiro a semelhante façanha, não 
foi nem o amor da gloria, nem, se- 
quer, o de premio nenhum. Foi 
aquella accesa rivalidade que então 
existia entre Portugal e Castella, ri- 
validade instigada sobremodo no ani- 
mo bellicoso de Joãí) Paes por um 
repto que lhe fizeram, sem mais quê, 
nem para quê, outros moços de pro- 
vado valor. Não se pode dizer que 
isso fosse uma aposta. Desafio é 
que lhe devemos chamar, lua ir de 
Klvas até liadajoz no dia d i festa do 
Corpo de Deus, empunhar o estan- 
darte como para dar as tacs voltas 
no circuito marcado; e, em vez de 
avançar uma pííllegada, sequer, na 
arena do torneio, chegar os acicates 
ao corcel e trazer o estandarte para 
Elvas. Assim foi. Ora, os perros de 
Castella, ante audácia tamanha, não 
se ficaram, nem podiam licai-se, de 
braços cruzados, como quaesquer co- 
bardões. Seria demasiada fraqueza. 
Juraram, portanto, desde logo vin- 
gança, desafVronta, perseguição, e, 
juntando o seu dito ao seu feito, par- 
tiram á desfilada em possantes gine- 
tes, na piugada de João Paes (iago. 
Heróico João Paes! Se elles mais 
gallopavam, mais este voava. Era 
um furacão. Por isso, muito longe 
ainda se viam os hespanhoes, quando 
o perseguido chegou aos muros de 
Elvas. Elle vinha triumphante. Diri- 
ge-sc, porém, a uma das portas da 
praça, e encontra essa porta fecha- 
da I V^ae á segunda. Fechada tam- 
bém! Estavam todas fechadas e as 
pontes erguidas! Tal contratempo 
inesperado e traiçoeiro, deveu-o o ca- 
valleiro de Christo e fidalgo dapar 
do rei a um cobarde receio do gover- 
nador de Elvas, D. Álvaro da Silva, 
chamado, mestre de campo e gentil- 
homem da camará de sua real senho- 
ria, o qual «ordenara o encerramento 
das portas para evitar qualquer ag- 
gressão». Para evitar qualquer ag- 
gressão 1 Semelhante contraste de tão 
supina cobardia de tal governador, 
com o heroísmo do esforçado caval- 
leiro, também deve ficar immorial. 



Iw4 



A TRADIÇÃO 



R giste-se, pois. Quanto a João Paes 
Giigo, não era elle homem capaz de 
desanimo. Isso sim! Vendo-se ao al- 
cance dos que o perseguiam e não 
podendo dar entrada em Elvas, arro- 
jou o estandarte para dentro da pra- 
ça, por de cima das altas muralhas, 
e soltou estas celebres palavras: 

— Morra o homem e tique a fama. 

A origem de este dito, provêm de 
tal facto. Em seguida o audaz caval- 
leiro esperou de peito feito as lanças 
hespanholas; mas, sendo lhe impos- 
sível vencer nessa lucta desegual, 
pelejou quanto pôde e morreu como 
quem era, como um heroe. 

Se os de Castella o frigiram ou 
não, isso agora é que está por apu- 
rar. Todavia, o que é certo e bem 
certo, é que ainda ha poucos annos, 
em dia de Corpo de Deus, tremulava 
nas muralhas elvenses, com vista aos 
habitantes de Badajoz, o pezado es- 
tandarte de aquelle município; e de 
lá, como em replica, mostravam aos 
de Elvas a decantada caldeira que 
fritara João Paes em azeite hespa- 
nhol. 

Ai.rni:DO de fratt. 



lliJl).l^-tMIIII{|LIION.\LEllTEJA\AS 



mus. MAKIANMTA. ADEUS! 

Âdeas, MariaDDita, adeus! 
Já me despeço de ti, 
Que ea vou p'ra Lourenço Marques, 
Mo sei que será de mim ! . . . 

Não sei que será de mim, 
De mim não sei que ha-de ser! 
Adeus, Mariaunita, adens! 
Saudinha, ate mais vér ! 

n. DIAS NUNES. 



A caça no concellio de Serpa 



(Continuado de pag, g5) 

CHAMA-SE caça grossa, a que é 
morta á bala, como os java- 
lis e os veados, e caça-se de difle- 
rentes maneiras. 

A caçada de batida, ou ás man- 
chas, era a mais usada e fazia- se pela 
forma que passo a descrever. Quan- 
do, na serra de Serpa, havia mattos 
crescidos onde a caça tinha os seus 
acolheites mais seguros, abundava a 
caça grossa, principalmente veados e 
cervas ; e então realisavam-se fre- 
quentemente boas e luzidas caçadas, 
organisadas não só pelos abastados, 
mas também pelos homens do campo 
e malhadeiros, caçadores. Nas does- 
tes últimos, cada um levava de casa 
o que podia e lhe era necessário para 
comer durante os dias que por lá an- 
dava. Os abastados tomavam as pro- 
videncias necessárias para que nada 
faltasse aos caçadores. 

Quando havia noticia de que appa- 
reciam rezes ou porcos em qualquer 
sitio da serra, organisava se logo a 
caçada. Chamava-se um ou mais ca- 
çadores, dos bons, e com elles se 
combinava o sitio onde se devia assen- 
tar o rancho, e os homens que eram 
precisos para se «fazer bem a terra», 
isto é — para occupar as portas ou 
esperas, cercando as manchas, e para 
bater estas devidamente. Assim era 
necessário para o bom êxito das 
caçadas d'outros tempos. Porém, 
quando se tinha bons cães bastava 
que um homem, conhecedor do ter- 
reno, fosse bater, pondo-se ires ou 
quatro portas na frente e fazendo-se 
as manchas mais curtas, ou então 
collocando-se as portas em sitios 
d'onde podessem defender mais de 
uma sabida da caça \ Mas, para isto 



• Cacei muita vez assim, porque tinha um 
excellente caçador por meu creado, o meu 
velho e amigo Casaca, e bons cães, que, bas- 
tava leval-os pelas raias da comedias (siiios 



A TKAUIÇAO 



105 



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C^J^CIOJÍEI^O jVlllSICjElL 



Adeus, MariaiiDita, adeus ! 




(CHOREOGRAPHICA) 



-í;. 




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106 



A TRADIÇÃO 



se etíeciuar com bom resultado era 
preciso que todos soubessem bem o 
que tinham a fazer, conhecessem bem 
o terreno, e fossem desembaraçados, 
para opportunamente correrem aonde 
se fizesse mister. 

Assentado o dia e o ponto de reu- 
nião, avisavam-se as pessoas que ti- 
nham de ir, incluindo n'esse nume- 
ro os caçadores de mais confiança 
e os que tivessem cães bons, se os 
organisadores da caçada os não pos- 
suíam. 

Quando a caçada era promovida 
por um só individuo, dava este as 
providencias para que não taltasse o 
que fosse necessário para comer e 
beber; pagava aos caçadores que re- 
cebiam salário ; e convidava os seus 
amigos e mais pessoas, que deviam 
tomar parte na caçada. Quando a 
caçada era promovida por um grupo 
de caçadores, com meios de fortuna, 
um ou dois d'entre elles se encarre- 
gavam de tomar as providencias já 
mencionadas, sendo a despeza ge- 
ral rateada por todos os promoto- 
res. Em qualquer dos casos, marcha- 
va-se em grupo, no dia e hora com- 
binados, para o sitio escolhido, ou 
lá se reuniam todos, conforme o ajus- 
tado. 

Se a reunião era a hora, que per- 
mittia ainda caçar n'esse mesmo dia, 
formava-se logo conselho, decidin- 
do-se, em vista das informações dos 
malhadeiros — por onde devia come- 
çar a caçada, que manchas' se ha- 
viam de fazer e de que lado convinha 
bater (conforme o vento estivesse), e 
por ultimo, o local das portas. 



(Continua.) 



A. de BIEI.I.O BBEYNER. 



onde os javalis comem de noite) para, lo- 
go que atravessavam o rasto, darem um la- 
dro, de aviso de uns para outros, e salta- 
rem a correr, obrigando a caça a sahir ás 
portas. 

» Todas as manchas teem nome por que 
se designam e são geralmente conhecidas. 



LENDA8 & ROMANCES 

{Recolhidas da tradição oral na província do AlemtBjo) 



D. T-EONARDA 

(3.* variante do romance Bella Infanta) 

Estando a bella princeza 
No seu jardim assentada, 
Com pentes de marajitn 
Seus cabellos penteava ; 
Deitando os olhos ao largo, 
Vendo o que bem descobria, 
Descobriu 'ma t^rande armada. 
Capitão que n'ella vinha 
Tral-a muilo bem guiada. 

— Diz-me lá, ó capitão, 
Diz-me lá, pela tua alma, 

Se o marido que Deus me deu 
be o viste na grande armada. 

— Senhora, eu não o vi, 
Nem sei que signaes levava. 

— Levava espada d'oiro, 
Seu escudo de prata. 
Na ponta da sua lança 
JesusChristo levava. 

— Senhora, eu lá o vi. 
Com cento e uma estocada, 
A mais pequena de todas 
Era a cabeça cortada. 

— Ai de mim, triste viuvai 
Ai de mim, triste coitada! 
Que de três filhas que tenho 
Sem nenhuma ser casada 1 

— O que daes, vós, senhora 
A quem vol-o traga aqui ? 

— Dou-vos os meus três moinhos, 
Que são d'oiro e marajitn. 

— Não quero os vossos moinhos, 
Que me não são dados a mim, 
Sou capitão da guerra armada, 
Não resido nem paro aqui ; 

O que daes, vós, senhora, 
A quem vol-o traga aqui? 

— Dou-vos a minha amètade. 
Toda t'a dou a ti. 

— Não quero a vossa amêtade^ 
Que me não é dada a mim ; 
Sou capitão de guerra armada, 
Não rebido por aqui. 

— Dou vos as minhas três filhas. 
Todas te dou a ti. 

— Eu não quero as vossas filhas, 
Que me não são dadas a mim; 
Sou capitão de guerra armada, 
Não resido por aqui. 

— Não tenho mais que vos dar, 
Nem vós mais que me pedir. 

— Tendes sim, minha senhora, 
O vosso corpo gentil. 

— Capitão que tal pede, 
Que tal ouza pedir, 
Precisa ser arrastado 

A' roda do meu jardim 1 
Andem, andem, meus criados, 
Venham prendel-o aqui 1 



A TRADIÇÃO 



107 



— Alto, alto, meus criados, 
Que vós criados s.lo de mim ; 
Que é do annel de sete pedras, 
Que eu comti^o reparti 
I.á na noite de Natal 
Quando eu te recebi ? 
'Presenta a tua metade. 
Pois a minha eila aqui. 



Elvas 



A. THOMAZ FIR£S. 




5.^/^ 



fi.1 MAS pOPULAP^ES 



Os mandamentos do amor 

(Conclusão) 

O sexto eu não declaro, 
Bem me podes entender. . . 
Acaba já de ser minha 
Para mais allivio ter ! 



O sétimo é não furtar. 
O furtar não é peccado. 
Eu, em furtar uma rosa. 
Fico mais alliviado. 



Oitavo, é não levantar 
Nenhum testemunho falso. 
Eu a ti não t'os levanto, 
Só te desejo em meus braços. 



O nono é não desejar. . . 
Uma só coisa eu desejo^: 
Desejo lograr os olhos 
Que diante de mim vejo. 



Decimo, é não cubicar 
Os olhos d'uma menina. 
Quem é mestre também erra, 
Quem erra também se ensina. 



Amor, os dez mandamentos 
Em dois os vou encerrar : 
Na praia d'esse teu peito 
Inda espero navegar. 

(Da tradição oral, em Serpa.) 

M. DIAS NUNES. 



CONTOS ALEMTEJANOS 

Anlinaes fugindo à morte 

EWA uma vez um gallo; e como 
cllc .sabia que estava em qum- 
la-feira de comadres, receava não 
chegar á quarta íeira de cinza. Por- 
isso deixou os companheiros, sem 
lhes dizer nada, e metteu-se por um 
caminho, para ver se assim se livra- 
va da faca. Perto do caminho que o 
gallo levava, havia um monte (casa 
de campo), e ao pé desse monte an- 
dava um rebanho de patos. Um dos 
patos perguntou ao gallo: 

— «O compadre gallo, então para 
onde vai vocc, sósinno?» 

Respondeulhe o gallo; 

— «Oh! oh! então você não sabe 
em que altuta do anno a gente está?« 

— «Espere,» — disse o pato — «dei- 
xe-me cá fazer bem as contas. . . » 

Depois de ter pensado um pedaço, 
olhou para o gallo e disse-lhe: 

— «Kstâmos em quinta-feira de co- 
madres!» 

— «Exacto,» — respondeu o gallo — 
«e como eu tenho muita vontade de 
cantar na quaresma, vou-me safan- 
do, ainda assim algum diabo não se 
lembre de me cortar as guélas.» 

— «E eu vou com você, compadre, 
porque agora, no entrudo, também 
costuma morrer muita gente da mi- 
nha familia.» 

O gallo, contente com a resolução 
do pato, disse-lhe : 

— «Pois venha, compadre, que a 
união faz a força.» 

E marcharam ambos. 

No outro dia, pela rr:anhã, passa- 
ram por outro monte, onde andava 
um rebanho de perus, e um destes 
perguntou-lhes: 

— «O' compadre gallo e compadre 
pato, então para onde vão logo de 
amanhecida?» 

Respondeu o gallo: 

— «Não ha que ver, isto para aqui 
está tudo parvo. Então você também 
não sabe em que altura do anno a 
gente está ?» 



108 



A TRADIÇÃO 



O peru lá fez as suas contas, c 
respondeu : 

— «Kstàmos em sexta-feira de co- 
madres ! • 

— • Exactamente,» —disse o gallo 
— «e eu mais aqui o compadre pato, 
como queremos chegar á quaresma, 
vamos fugindo com as gíjélas áfaca.» 

— «E eu também vou, ainda as- 
sim. . . B — respondeu o peru. 

E lá continuaram os três a sua jor- 
nada. Mais adiante, encontraram ou- 
tro monte, e, no monturo, estava um 
cão, que lhes perguntou : 

— «O' compadre gallo, compadre 
pato e compadre peru, então para 
onde vão perdidos?» 

— a Nós não vamos perdidos, com- 
padre, nós o que vamos é fugindo 
com as gíiélas á faca, porque depois 
d'amanhã é domingo gordo.» 

— oE eu também vou com vocês» 
— disse o cão — oporque ainda agora 
roubei um pão, e o pateiro ' disse 
que me havia de partir o lombo com 
um cacete.» 

Os outros, é claro, ficaram muito 
contentes, porque já levavam na com- 
panhia um defensor muito mais va- 
lente. 

Mais adiante, encontraram um re- 
banho de carneiros, e um dos que 
andava de ponta perguntou : 

— tO' compadre gallo, compadre 
pato, compadre peru e compadre cão, 
o que andam vocês fazendo aqui por 
estes campos ?»• 

Responde o gallo: 

— «Olhe, eu, o compadre pato e o 
compadre peru, vamos fugindo com 
as gtlélas á faca, e o compadre cão 
com o lombo a um cacete.» 

— «Pois olhem,» — diz o carneiro — 
«como na segunda-feira ha um ca- 
samento e eu não quero lá ir, quer 
dizer que vou com vocês, ainda assim 
não me obriguem a ir á funcção.» 

E, juntando se o carneiro aos ou- 
tros animaes, puzei am-se de novo a 
caminho. 



* Pateiro = caseiro de monte. 



No dia seguinte, viram num outro 
monte um gato deitado á soalheira. 
O gato, apenas viu o cão, ouriçou- 
se todo, mas o gallo acudiu logo di- 
zendo:. 

— «O' compadre gato, não tenha 
medo que o compadre cão não lhe 
faz mal. Bem basta o trabalho em 
que elle e nós estamos mettidos ! 
Olhe, eu, o compadre pato, o com- 
padre peru e o compadre carneiro, 
vamos fugindo com as gtiélas á fa- 
ca ; e elle com o lombo a um ca- 
cete.» 

— «Se eu soubesse» — diz o gato — 
«q.ue o compadre cão não me fazia 
nada, também ia, porque hontem rou- 
bei a carne do jantar, e o pateiro 
disse que havia de dar-me um tiro.» 

O cão, ouvindo isto, disse para o 
gato: 

— O' compadre, visto isso, pôde 
vir foito, que não lhe faço mal.» 

O gato, ouvindo falar o cão com 
tanta franqueza, metteu-se também 
na companhia, e lá continuaram to- 
dos a sua jornada. 

Mais adiante, encontraram no ca- 
minho um alforge, e o gallo disse: 

— «Oh diabo! como havemos nós 
agora de levar este alforge?» 

Responde o carneiro : 

— «Como eu sou o que tem mais 
força, ponham-no lá ás minhas cos- 
tas, que eu o levo.» 

Mais adiante encontraram uma ca- 
beça de lobo, e diz o cão : 

— oO' compadre carneiro! deixe lá 
metter esta cabeça ahi numa enxá- 
ca, porque isto pôde servir-nos de 
muito.» 

Effectivamente, ao chegarem a uma 
altura, viram uma matilha de lobos 
no meio dum valle. O carneiro, assim 
que avistou os lobos, ficou com muito 
medo, mas o cão, que era valente e 
esperto, disse-lhe : 

— «O' compadre! não tenha medo. 
Você quer ver como elles fogem por 
essas chapadas (ladeiras) acima?» 

Tirou a cabeça do alforge, deu 
dois latidos e mostrou-a aos lobos. 
Estes logo que viram a cabeça dum 



A TRAUIÇAO 



108 



seu similhanie, desataram a correr, 
e desappareceram immediaiamcnte. 
Nesse dia, poz-se o sol, estando 
elles perto dum monte (casai de la- 
drões; e, como não viram ninguém 
por ali, diz o gato: 

— «O' compadres, isto é d'inver- 
no, e como eu não estou acostumado 
a dormii" ao relento, o melhor c en- 
traimos neste monte». 

A proposta do gato foi approva- 
da, e os animaes resolveram-se todos 
a entrar. Diz logo o gato: 

— «Eu deito-me além na borralhei- 
ra." Diz o carneiro: «K eu fico aqui 
atraz da porta, n Diz o gallo: «E eu 
vou além para aquelle puleiro.» 

— «Nesse caso," —disse o cão— «eu 
mais o compadre pato e o compadre 
peru vamos para aquella casa.» 

Mal elles tinham acabado d'occu- 
par os seus logares, sentiram chegar 
uma data dhomcns a porta. E ouvi- 
ram dizer a um delles: «Eu vou ver 
se ainda ha para ali alguma brasa.» 

E, dizendo isto, dirigiu-se logo 
para a lareira. O gato, assim que o 
ladrão lhe chegou ao pé, deitou-se a 
elle e arranhou-lhe a cara toda. 

O ladrão, sentindo se ferido, prin- 
cipiou a andar ás apalpadelas, a ver 
se encontrava alguma coisa com que 
podesse defender-se; mas como sen- 
tia nos olhos uns algueiros (arguei- 
ros), começou a esfregá-los. E o car- 
neiro, vendo que elle não saía dali, 
deitou se a elle ás marrocadas (mar- 
radas). O ladrão ainda conseguiu sa- 
far-se, mas depois de bem moido. Os 
outros ladrões, quando viram o com- 
panheiro todo ensanguentado, fica- 
ram admirados, e o capitão pergun- 
tou lhe: 

— «Então o que foi isso?!» 

— «Ih! Jesus! foi um ladrão dum 
cardador que me deu com as cardas 
na cara, deixando-me a escorrer san- 
gue; e quando eu andava á busca 
dalguma coisa com que podesse de- 
fender-me, um diabo, dum ahanéo 
(pedreiro) deitou me uma colherada^ 
de cal para os olhos, que me ia ce- 
gando, e ainda não contentes com 



isto, salta de lá um malhador. . . e 
já o diabo malhava bem! Se não en- 
contro a porta tão depressa, mata- 
vam-me com certeza, porque estão 
lá uns poucos, e a um diabo dum 
hespanhol, só o que eu lhe entendia, 
era: grú grú grú. . . grú grú grú. . . 
Mas ainda assim, do que eu tinha 
mais medo, era d'outro diabo, que só 
o que dizia, era: tragam-m'o cá, tra- 
gam-m'o cá. . . j» 

(I»a tradição oral — tírinclicíl 

ANTÓNIO ALEXANDRINO. 




CONTOS ALGARVIOS 



o REI SÁBIO E CEGO 



(Continuado de pag. 79 — Conclusão) 

CHEGOU o filho, lavou a parte doen- 
te com a agua, e logo a mãe dis- 
se que estava boa. Ella nunca tinha 
estado com tal dor!. . . 

No dia seguinte, foi o mancebo 
para a caça. Logo sua mãi desceu o 
alçapão. O gigante combinou com 
ella fingir-se novamente enferma e 
dizer ao filho que o medico a acon- 
selhou a untar-se com a banha de um 
porco espinho, muito bravo, que pas- 
ta n'um serro. 

Logo que o mancebo chegou, viu a 
mãi doente, e ouviu o que o medico 
aconselhara, montou no seu cavallo 
e partiu a galope. Ao rinchar do ca- 
vallo, appareceu o velho, e mandou 
as três filhas receber o mancebo, a 
mais nova para tratar do cavallo, a 
do meio preparar-lhe a comida, e a 
mais velha fazer-lhe a cama. 

O menino foi estar com o velho e 
disse-lhe que ia em procura do porco 
espinho. 

O velho aconselhou-o a que no dia 
seguinte pozesse um par de alforges 
ás costas e seguisse um certo cami- 



110 



A TRADIÇÃO 



nho até dar com uma casa, onde ao 
seu dono se otTerecesse para guardar 
bois. 

O rapaz isso fez. Olíereceu-se ao 
dono da casa por criado dos bois, e 
foi recebido. 

— .^."manhã de manhã vai guardar 
os bois, mas não passes além de um 
sêsmo, pois que um porco espinho 
o guarda e é capaz de te matar e de 
comer os bois — ordenou-lhe o pa- 
trão. 

No dia seguinte, saiu o mancebo 
com os bois e logo viu o sêsmo, bem 
como as pastagens abundantes, que 
estavam alem do mesmo sêsmo. To- 
cou nos bois e entrou dentro. Appa- 
receu-lhe o porco espinho que luctou 
com o mancebo por muito tempo, fi- 
cando ambos muito cançados e feri- 
dos. Disse o porco : 

— Ah pessoa humana, pessoa hu- 
mana, se agarrasse aqui um refresco, 
eu te mataria pessoa humana!. . . 

Respondeu o mancebo — por con- 
selhos do velho : 

— Ah porco espinho, porco espi- 
nho, se agora apanhasse um abraço, 
um beijo de uma donzella e um copo 
de vinho, eu te matava, porco espi- 
nho!... 

E depois o rapaz saiu com os bois 
para casa do patrão. Nessa noite pe- 
diu elle á filhinha do patrão, menina 
de dez annos, uma tigela de vinagre. 
A pequena foi buscar o vinagre e foi 
espreitar o mancebo. Pelo buraco da 
fechadura viu que elle levava o corpo 
ensanguentado e notou que os bois 
estavam muito fartos. Foi contar o 
que vira ao pai, e este poz-se de ata- 
laia. 

No dia seguinte succedeu o mesmo 
que succedeu no dia antecedente, ten- 
do o patrão avistado a lucta, escon- 
dido por detraz de uma arvore. 

Ali chegaram as palavras do porco 
espinho e do criado. Nessa noite pe- 
diu o rapaz vinagre á filha do patrão. 
No dia seguinte, foi o mancebo com 
os bois para a pastagem. De longe ca- 
minhou o patrão e sua filhinha per- 
feitamente industriada. Logo que o 



porco e o rapaz entraram na lucta, 
terminando com as palavras do pri- 
meiro dia, a menina correu para elle, 
deu-lhe um abraço, um beijo e offe- 
receu-lhe um copo de vinho. Então o 
rapaz matou o porco e arrancou-lhe 
as banhas. 

— Adeus, patrão e minha menina, 
vou curar minha mãe; tomem posse 
dessas ricas pastagens e de todos es- 
tes terrenos. 

E partiu para casa do velho. O ca- 
vallo sentiu os passos do dono e rin- 
chou. 

— Troquem as banhas por outras, 
e guardem as que elle traz — ordenou 
o velho ás filhas. 

E assim fizeram. 

No dia seguinte disse o velho: 

— Quando te ferirem de morte, 
pede que dividam o teu cadáver em 
quatro partes e que as coUoquem 
sobre o leu cavallo e o ponham a 
partir. 

O gigante avistou o mancebo e dis- 
se para a princeza : 

— Ahi vem, vou-me metter no al- 
çapão, z tu finge-te doente. 

— E' o diabo que o traz — respon- 
deu ella. 

Chegou o filho, untou os pontos em 
que a mãi disse sentir as dores, e fi- 
cou logo curada. 

No dia seguinte, logo que o rapaz 
saiu para a caça, disse o gigante: 

— Teu filho não morre ás unhas 
das feras, mas podes causar-lhe a 
morte. A sua força depende de um 
fio de cabello que lhe nasceu do um- 
bigo e se enrosca muitas vezes á sua 
cintura. Não o deixes ir amanhã á 
caça, amima-o, adormece-o no teu 
collo, e corta-lhe de um golpe o ca- 
bello. Eu estarei de espreita e o ma- 
tarei. 

A mãi seguiu á risca os conse- 
lhos do amante e o mancebo caiu no 
laço. 

Quando o rapaz acordou ao golpe 
da thesoura, deu um grito e disse : 
— ai, minha mãe, que me matou! 

A mãi deu uma gargalhada, o gi- 
gante appareceu e deu sobre o man- 



A TRADIÇÃO 



111 



cebo uma grande pancada que quasi 
o matou. 

— Por Deus te peço que depois 
de me matares me dividas cm qua- 
tro parles, colloques lodos os meus 
membros sobre o meu cavallo e o 
deites a partir. 

Por commiscração, o gigante fez o 
que o mancebo lhe pediía. 

Logo que o cavallo se sentiu á sol- 
ta toinou a direcção do palácio do 
velho cego, pois que era ali sempre 
bem tratado. Quando se approximou 
da casa, deu um rincho. O velho ou- 
viu e disse: 

— \'amos acudir ao tULmino da lapa. 

O velho e suas filhas tiraram de ci- 
ma do cavallo a golpelha onde vinha 
o cadáver do mancebo dividido em 
quatro partes. 

— Vão buscar as duas garrafas de 
agua e as banhas do porco espinho 
— ordenou o velho ás filhas. 

Appareceram as garrafas e as ba 
nhãs, emquanto o velho tinha collo- 
cado todos os membros nos seus de- 
vidos logares. Em seguida lavou tudo 
com a agua das garrafas, untou as 
cicatrizes com as banhas e cobriu o 
cadáver com um lençol. Minutos de- 
pois estava o mancebo são e escor- 
reito como d'antes era. 

— Vou matar aquelle infame, gri- 
tou o rapaz erguendo-se da cama. 

— Não, não vás. O gigante é mui- 
to forte. Eu sei qual é a sua força, 
pois me roubou as três peras de ouro 
das minhas filhas e levou me os olhos 
que elle tem comsigo. Espera que te 
cresça novamente o cabello e vai 
exercitando as tuas forças em aquella 
mó, que está defronte da minha ca- 
sa, e de que elle se servira em tem- 
pos nos seus brinquedos de forças. 

O mancebo respeitou os conselhos 
do velho, e todos os dias ia brincar 
com a mó. Em um dia reconheceu 
que tinha recuperado todas as suas 
forças e pediu licença ao velho para 
ir luctar com o gigante. 

— Vai, e, quando ferido de morte, 
te peço que o não mates, mas o tor- 
nes a metter no alçapão. Dize-lhe 



que o não matas sem te entregar 
as três peras de ouro de minhas fi- 
lhas. Elle te dirá que sim, c dar-te- 
ha três peras parecidas, não as accei- 
tes, não são as mesmas. I^ o mesmo 
com respeito aos meus olhos. Depois 
de o matares, dá fogo ao palácio, de 
modo que não fique pedra sobre pe- 
dra, aproveitando-te somente das ri- 
quezas, que elle roubou a toda a 
gente. 

E assim succedeu, sem augmento 
de uma palavra. 

O palácio foi queimado, e ali mor- 
reu a mãi, que para elle fora uma 
fera. 

Eicou o velho com os seus olhos e 
as filhas com as suas peras, legados 
de sua mãe. O menino casou com a 
filha mais nova do velho, porisso que 
o bom tratamento do seu cavallo, fi- 
zera que este voltasse a casa do ve- 
lho, quando levou a golpelha com o 
seu cadáver. 

Casaram e tiveram muitos filhos. 

ATHAIX>£ X>'OI.IVEIRA. 




^Bivis^a^s 



 esouridão 

O que é aquiilo que quanto maior é me- 
nos se vê? 

A dobadoira 

O que é aquiilo que anda á roda e não dis- 
põe ? 

O 7arejão 

O que é aquiilo que se aperta numa mão 
e não cabe num caixão? 

ANTÓNIO ALEXANDRINO. 



112 



A TRADIÇÃO 



BULLETIN POUR L'ETRANGER 

HA TRADITIOH 

ReYue ineasu:;lle íllusii^ee deiDaograpliie poriugaise 

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Somoaire du preseni numero df la Tradition 

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La legende des armes d^Elvas 
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tumes populaires: Poissonnière. 

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Musical collection : Good-bye, 
Mariannita, Good-bye ! (music). 

Pt. 



^IIIIO II — ?<. M 



SERPA. AscEto de 1200 



V<>lll■ll«^ II 



Editor-adminiklrador, Jote Jeronrmo Ja Conta Bravo de Nefsreimi. Rua l.arsa, 3 e 4 — SHRI'A 
Typ. de Adolpho de Mendonça, Kua do Corpo Saiiio, 46 c 4K — LISBOA 




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DirecLores:-LAl):SLÃU PIÇARRA e M. DIAS irjIííJS 



NOTAS HISTÓRICAS ACERCA DE SERPA 

V 

Serpa no Lhalifado de Córdova e no reino 
de Setilha 

Claríssimo está, que não pode- 
mos ter a ideia de recordar a 
historia da Hespanha mussulmana a 
propósito da pequeníssima Serpa. No 
emtanto, a primeira conquista de 
Serpa pelos portuguezes, a que já 
nos referimos, a segunda a que nos 
referiremos ao deante, e em geral a 
marcha das armas portuguezas no 
Alemtejo, de um e outro lado do 
Guadiana, mal se podem compre- 
hender não tendo em vista os acon- 
tecimentos capitães d'aquella histo- 
ria. Indicaremos, pois, alguns muito 
brevemente ; e só na parte que inte- 
ressa esta nossa região de um modo 
mais ou menos directo. 

A partir da conquista pelos árabes 
até ao meiado do VIII século, a Hes- 
panha ficou sendo uma dependência 
do enorme Khalifado do Oriente, go- 
vernada por amires, nomeados e 
mandados pelo khalifa. N'este curto 
periodo de pouco mais de quarenta 
annos, os laços de disciplina afroixa- 
ram, porém, de tal modo, que nem 
já os amires obedeciam ao khalifa, 
nem os alcaides e governadores das 
provindas obedeciam ao amir. O es- 



tado de anarchia tornou-se intolerá- 
vel, e alguns senhores moiros, dos 
mais poderosos e influentes, reuni- 
ram-se secretamente em Córdova 
para se concertarem sobre o modo 
de lhe pôr termo. Diz-se, que entra- 
vam n'esta conjuração os principacs 
chefes da gente vinda da Svria, al- 
guns de Damasco, outros de fiméssa, 
quer dizer, os que occupavam terras 
de Granada, e também - como já vi- 
mos — terras de Sevilha, Niebla e 
parte do Charf em que ficava Serpa. 
Combinaram declarar a Hespanha 
independente do khalifado do Orien- 
te, e procurar para chefe um homem, 
que reunisse aos dotes pessoaes a 
auctoridade do nome e da raça.' 

Andava então refugiado entre as 
tribus berberes da Africa, um rapaz 
chamado Abd-ar-Rhaman, da familia 
de Omeya, a que pertenciam os an- 
teriores khalifas, ultimamente des- 
thronados. Mandaram-lhe emissários, 
Abd-ar-Rhaman acceitou as propos- 



' Mesmo n'estes acontecimentos mais im- 
portantes não é possivel ter a certeza de ser 
exacto; mas pode talvez dar-se uma im- 
pressão geral, que se aproxime da verdade. 
Sobre a impossibilidade de escrever hoje 
qualquer coisa definitiva a propósito dos 
mussulmanos da Hespanha, veja-se a Intro- 
ducção do illustre cathedratico. o sr. Fran- 
cisco Codera, ao seu livro recente; Dec. y 
desap. de los Ahnoravides en Espana, Zara- 
goza, 1899. 



lU 



A TRADIÇÃO 



tas. passou o Estreito com algLins 
corpos de cavalleiros berberes, uni- 
ram-se-lhe na Hespanha os seus par- 
tidários, e ao cabo de poucos annos 
de lucta estava senhor de todo o paiz, 
assentando a sua capital em Córdova. 

Fundou se assim o reino ou ami- 
rado — depois khalifado — de Córdo- 
va. Ksie período da Hespanha mus- 
siHmana, independente e unida, du- 
rou perto de trez séculos, desde pro- 
ximamente o anno de 760 até proxi- 
mamente o de io3o. O ponto culmi- 
nante do governo dos Omeyades no 
throno de Córdova foi, como é sabi- 
do, o longo e glorioso reinado de 
Abd ar-Rhaman III. Foi este príncipe, 
quem primeiro na Peninsula tomou 
os titulos de khalifa e de Amir-al- 
Mumenim ou chefe dos crentes^ nome 
que os nossos velhos escriptores por- 
tuguezes mencionam varias vezes na 
forma xMiramamolim ou Miramolim. 
O brilho da corte de Córdova nos 
reinados de Abd ar-Rhaman e de seu 
filho Al-Hakem, o modo porque ali 
e em todo o paiz foram cultivadas 
artes, lettras e sciencias, são coisas 
tão geralmente conhecidas, que chega 
a ser impertinente mesmo só o re- 
cordal-as. 

Sem que as guerras civis cessas- 
sem, porque nunca cessaram, sem 
que deixassem de se dar revoltas 
em varias cidades e frequentíssimas 
sublevações em varias províncias, o 
período do governo de Córdova foi 
de relativo socego. Nas incertas e 
variáveis fronteiras dos estados chris- 
tãos com o mussulmano a guerra 
continuava: mas no interior das ter- 
ras dos moiros havia o que -com- 
parado com outras épocas — se podia 
quasi chamar paz e ordem. A Anda- 
lusia e o Al Gharb obedeceram mais 
ou menos fielmente ao governo cen- 
tral de Córdova, e Serpa seguiu a 
sorte da região a que pertencia. 

Pela morte do khalifa Al-Hakem, 
sucoedeu-lhe o filho, que era uma 
creança, e alem d'isso de fraca in- 
telligencia e vontade, ficando todo o 
poder real nas mãos do hajib ou pri- 



meiro ministro, celebre na historia 
pela sua alcunha de Al-Mansur. Pa- 
rece ter sido um homem falso, per- 
verso e cruel; mas dotado de gran- 
des qualidades de governo e de um 
brilhantíssimo valor militar. Nunca os 
reinos, christãos da Peninsula tive- 
ram, nem mais hábil, nem mais activo 
inimigo. Em expedições repetidas e 
sempre victoríosas reduziu-os ao ul- 
timo apuro. Muitas terras do norte, 
que depois da primeira conquista ha- 
viam sido pouco a pouco recupera- 
das pelos christãos, caíram de novo 
nas mãos dos moiros, e foram cruel- 
mente arrazadas. Para citarmos ape- 
nas um exemplo, Coimbra foi to- 
mada pelo hajib, e ficou de tal modo 
destruída, que permaneceu deserta 
durante sete annos. O escriptor, que 
mencionou o facto na Chionica dos 
Godos, ainda o ouvira contar aos ve- 
lhos que d'isso se lembravam: siciit 
á multis senihi/s audivinuis. 

A final Al-Mansur morreu, de 
doença dizem os escriptores árabes, 
das feridas recebidas na batalha de 
Calataííazor dizem os christãos. O 
ódio, que elle inspirava a estes, re- 
vela-se de uma maneira engraçada 
na phrase de um velho Chronicon da 
cathedral de Burgos, onde se dá 
conta da sua morte : Era MXL^ 
mortuus est Almaii^yOr, et sepultus 
esí in inferno. Fosse ou não fosse 
sepultado no inferno, como diz o 
frade, o certo é que a sua morte foi 
o signal da decadência do khalifado 
de Córdova. Agonisou ainda vinte ou 
trinta annos em sangrentas peripé- 
cias ; e a final terminou, deixando a 
Hespanha dos moiros em um cahos 
politico difficil de conceber. Todos os 
governadores das províncias, das 
grandes e mesmo das pequenas ci- 
dades, se declararam independentes 
e soberanos. Muitos tomaram o titulo 
de reis. Ninguém obedecia a nin- 
guém. Pouco a pouco este cahos or- 
ganisou-se ligeiramente -- se é per- 
mtttida a expressão — e formaram se 
com os fragmentos do khalifado de 
Córdova vários reinos, dos quaes 



A TRADIÇÃO 



116 




B/ilíE^II Bi TYPOS POPÍÍL/IRES 






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Caçador mstico (de Serpa) 



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lló 



A TRADIÇÃO 



dois nos interessam mais particular- 
mente, como logo veremos. 

A este período da Hespanha divi- 
dida chamam alguns escriptores o 
período do governo das Taifas ' ; e 
a esta divisão, que enfraqueceu os 
moiros, correspondeu naturalmente 
um glorioso impulso das armas chris- 
tãs. O grande rei Fernando I, que 
governava por estes tempos Leão 
(io36 a io6S), alargou então muito 
os seus estados, tomando aos moiros, 
entre outras, as povoações de Vizeu, 
Lamego e Coimbra. E' quasi inútil 
observar, que estas nossas terras de 
Serpa ficavam muito longe e muito 
a coberto d'aquellas invasões dos 
christãos, e se conservaram quieta- 
mente na posse dos moiros. 

Quietamente, é claro, quanto a 
ameaças dos leonezes; mas nada 
quietamente quanto a luctas dos moi- 
ros uns com outros. Ao terminar o 
khalifado, governava Sevilha em no- 
me do khalifa de Córdova um certo 
Mohammed-ibn -Ismail-ibn - Abbad, 
homem hábil, rico, e muito nobre, 
pois descendia — diziam — das pri- 
meiras familias, vindas de Eméssa 
na Svria. Declarou-se independente; 
e succedeu-lhe o filho e depois o ne- 
to, usando ambos o mesmo nome de 
Ibn-Abbad, e o titulo de reis de Se- 
vilha. 

Estes Beni-Abbad souberam con- 
stituir um dos mais fortes e mais 
vastos reinos da Hespanha dividida. 
Governavam naturalmente em Sevi- 
lha, que era a sua capital, e gover- 
navam para o lado de lá em Car- 
mona e em Córdova. Para este nosso 
lado tinham Niebla, Huelba com to- 
dos os seus campos até ao Guadia- 
na; e diz-se, que também lhes per- 
tencia Beja, e parte do Algarve até 
Silves *. Acceitando estas noticias. 



' Da palavra árabe íaha^ que significa dis- 
tricto, região. 

* O escriptòr árabe Al-Maccari diz, que 
Beja pertenceu ao reino de Sevilha em tem- 
po dos Beni Abbad; veja-se a versão de 
Gayangos (1. c, I, 6o) — Conde diz, que ti- 



torna-se bem evidente, que Serpa, 
situada entre Niebla e Beja, devia 
igualmente fazer parte do reino de 
Sevilha durante a dynastia dos Beni- 
Abbad. Não é, porém, absolutamente 
seguro, que lhe pertencesse sem al- 
guma interrupção. 

Ao norte de Serpa havia-se for- 
mado outro reino, também poderoso. 
No momento da desmembração do 
khalifado de Córdova, o governador 
de Badajoz, um africano de Mequi- 
nez, chamado Abd-Allah-ibn-al-Aftas, 
havia-se declarado independente e 
rei. E este reino de Badajoz, sujeito 
aos Beni-1-Aftas, abrangia quasi todo 

Al-Caçr, quer dizer, uma grande 
parte do que é hoje a Extrema- 
dura hespanhola, e uma parte do 
nosso Alemtejo, por Évora, Elvas 
e Alcácer até ao Tejo. Como estes 
pequenos reis das Taifas andavam 
quasi constantemente em guerra uns 
com os outros, e as suas fronteiras 
variavam segundo a sorte das armas, 
é perfeitamente possível, que' Serpa 
pertencesse por algum tempo ao rei- 
no de Badajoz, comquanto seja mais 
provave. que durante todo aquelle 
período, ou pelo menos a maior parte 
d'elle, obedecesse a Sevilha. 

No entretanto, o progresso das ar- 
mas chrístans continuava. Fernando 

1 tinha morrido; e seu filho Alfonso, 
depois das contendas com os irmãos, 
bem conhecidas e que não vem ao 
nosso caso, havia succedido nos es- 
tados de seu pae, de Gallíza, Leão e 
Castella, tomando mesmo o titulo de 
imperador. O poderoso Affonso VI, 
avô do nosso D. Affonso Henriques, 
alargou muito as conquistas chris- 
tans, e entre estas avultou a da ci- 
dade de Toledo, tomada ao príncipe 
mussulmano, Yahia-ibn-Dín-Nun. To- 
ledo tinha, alem da sua importância 



nham Oxanoba (sic) e Xilbe no Algarve 
(Parte III, cap. 5."). E estas noticias de 
Conde, sempre duvidosas, parecem confir- 
mar-se pelas relações de Niebla com o nosso 
Algarve, que se conservaram até muito de- 
pois. 



A TRADIÇÃO 



117 



real, a aureola de que a rodeava o 
facto de tor sido a capiíal da antiga 
monarchia visigothica. Quando os 
christãos a viram de novo capital dos 
seus estados, julgaram lavada a af- 
fronta, recebida séculos antes no 
tempo do rei Rodrigo. Alguns chro- 
nistas, ao fallarem de AlTonso, aceres 
centam simplesmente «o que tomou 
Toledo», como se este só facto resu- 
misse em si toda a sua historia. 

Pelo seu lado, os reis moiros sen- 
tiram dolorosamente aquella perda'; 
assustaram se com os lapidos pro- 
gressos de Alíonso M; comprehen- 
dcram, que desunidos e sem auxilio 
estranho lhe não podiam resistir, e 
assim a causa do Islam na Península 
se perdia sem lemissão. 

Tomou a iniciativa de os congre- 
gar o rei de Sevilha, que então era 
Mohammed-al-Mutamed -ibn-Abbad. 
Kste rei de Sevilha havia sido du- 
rante annos um intimo amigo e um 
fiel alliado dt AlVonso \'I — mais 
mesmo que alliado politico, pois lhe 
dera a sua filha Zaida, a qual o im- 
perador christão, apezar de já casado 
com D. Constança de Borgonha, to- 
mou por mulher ou quasi por mu- 
lher, quasi pro uxore como diz Lu- 
cas de Tuy^ Mas agora, o interesse 
e as affinidades de religião poderam 
mais que os vinculos de familia e 
elle collocou-se á frente dos peque- 
nos reinos mussulmanos. A seu con- 
vite, reuniram-se os enviados d'aquel- 
les reinos em Sevilha, os de Bada- 
joz, os de Granada, os de Almeria e 
outros; e assentaram que, mesmo 



* Um escriptor árabe do tempo chama a 
Toledo : «a parola collocada no meio do 
colar », a «torre mais alta do império na 
Península.» 

- Mulher ou quasi mulher, o certo é que 
a bella Zaida foi a mãe do infante D. San- 
cho, único filho varão do imperador e con- 
siderado por elle seu herdeiro. Se o filho 
da moira Zaida não tivesse morrido em vida 
de seu pae na batalha de Uclés, teria succe- 
dido nas coroas de Caslella e de Leão ; e 
Portugal não se teria provavelmente consti- 
tuído. 



unidos, mal poderiam resistir ás for- 
ças christans, e lhes convinha pedir 
para Africa o auxilio do chefe dos 
Almoravides. O rei de Badajoz es- 
creveu-lhe ; e o rei de Sevilha passou 
o Ivstreito para se ir entender pes- 
soalmente com elle.' 

O enorme poder, que então tinham 
na Africa do norte os Almoravides, 
era de data muito recente. A tribu 
obscura de Lamtuna, do mais puro 
sangue berbere, d'aquellas que usa- 
vam o lilham^ ' levava uma vida pu- 
ramente nómada nos confins do Sa- 
hará e nos próprios oásis daquelle 
deserto. Sob a inHuencia de um re- 
formador religioso, chamado Ibn Ya- 
cin, formou se entre os lamtunitas, 
meio selvagens e convertidos pouco 
antes ao islamismo, uma associação 
de ascetas ou eremitas, a que o che- 
fe denominou Al-morabetin, ' nome 
corrompido depois em Almoravides. 

O seu numero augmentou ; toma- 
ram as armas, porque os mussulma- 
nos só assim comprehendem o pro- 
selyiismo ; e em um periodo estraor- 
dinariamente curto— trinta ou qua- 
renta annos — estavam senhores de 
toda a Africa septcmtrional, consti- 
tuindo um forte império sob o mando 
de lucef-ibn-Tachefin. 

A este lucef foram pedir auxilio os 
reis da Hespanha ; e elle — limitan- 
do-nos a mencionar apenas os acon- 
tecimentos capitães — passou o Es- 
treito com um grande exercito de 



' Sem aflirmar a exactidão de todas as 
circumstancias, as coisas devem-se ter pas- 
sado pouco mais ou menos assim. Além de 
Conde, Part., III, cap. 9 e seguintes, pode 
ver-se o Cartas, na versão poriugueza, de 
p. \i~ em deante ; Ibn-Khaldum, versão 
de Slane, II, p. 07 e seguintes; e Dozy no 
ensaio sobre a historia dos Beni-Çomadih 
de Almeria. 

2 O litham é um veu escuro, que cobre 
toda a parte inferior da cara. Adoptado sem 
duvida pelas tribus do deserto como defeza 
contra a reverberaçãs do sol nas areias, pas- 
sou a ser um distinctivo de raça. Os tuareg 
ainda hoje o usam. 

^ Signilicava propriamente eremitas reli- 
giosos, veja-se Ibn-Khaldun, I. 83. 



118 



A TRADIÇÃO 



africanos, e veiu unir-se ás tropas 
andaluzas de Ibn-Ahbad, Ibn-al-Aftas 
e outros. Reunidas as forças mussul- 
manas, enconiraram-se com o exer- 
cito christão de Atíonso W nas pro- 
ximidades de Badajoz, nos campos, 
que os moiros cliamaram de Zallaca, 
e os christãos de Sacialias. 

Ali se travou no dia 2'ò de outu- 
bro de io8ó, uma das mais memorá- 
veis batalhas, que se deram na Pe- 
ninsula entre os soldados da Cruz e 
os do Crescente. Alíonso VI foi der 
rotado, e a causa do Islam, antes 
quasi agonisante, ficou segura por 
mais alguns séculos. 

Tal foi a occasião e o motivo da 
primeira entrada dos Almoravides em 
terras d'Hespanha. Como se fixaram 
n'estas nossas terras, e que resultados 
teve a sua vinda para os reinos chris- 
tãos por um lado, para os pequenos 
reinos mussulmanos por outro, é o 
que examinaremos em outra nota. O 
que nos convém apontar desde já, é 
a coincidência da sua entrada com 
as primeiras, incertas e vagas origens 
de Portugal. Estabelecei am-se na Pe- 
ninsula nos fins do século XI e prin- 
cípios do XII, quando morria o velho 
Affonso M, e os seus estados ficavam 
entregues a uma mulher, D. Urraca, 
enfraquecida ainda mais pelas con- 
tendas com o seu segundo marido, 
Atíonso o Batalhador; e quando o 
conde D. Henrique procurava for- 
mar um reino independente com a 
herança pouco clara e pouco definida 
de sua mulher, D. Thereza. 

CONDE DE FICAI.HO. 



O SENHOR SETE 

(Continuado de pag. io2| 

— Fa^er o sete. 

Não sabem o que isto quer dizer ! 
Pois quer dizer yiamorar. Mas na- 
morar — piscando o olho. E agora já 
percebem aquella quadra : 



i\ 



A hortelã já nasceu, 
A salsa está p'ra nascer, 
N'estes setes que te eu faço 
Bem me podes entender. 

Ora isto vem de certos jogos, como 
a bisca, o chincalhão, etc , em que é 
costume os parceiros fazerem as car- 
tas por signaes... Assim, uma pis- 
cadela do olho esquerdo, é signal de 
sete d'o