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Full text of "Trovador : collecção de modinhas, recitativos, árias, lundús, etc"

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NOVA ECIÇÃO, COiíPÍCTA 



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RIO l.H: .TANKIUO 

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LIVRARIA POPDLAR DE CRUZ COUTINHO 



aUA DE S. JOSÉ, li - RIO DE JANEIEO 



A. Herculano — O bobo, novo ro- 
mance. — O Eurico. — O monge 
de Ciatcr. 2 v. — Lendas o nar- 
rativas. 2 V. — Historia da in- 
quisição cm Portugal. 3 v. — 
Historia de Portugal. 4 v. — 
Estudos sobre o casamento ci- 
vil. 5 folhetos. — A reacção ul- 
ti:amontana em Portugal. — A 
voz do propheta. — Ao partido 
liberal. — -Poesias. — Opuaculos. 
2 V. 

Pinheiro Chagas — Poema da mo- 
cidade, o o poemeto O anjo do 
lar. 1 V. — A flor secca, roman- 
ce. — A corte de D. Joào v. — 
Tristezas á beira-mar. — En- 
saios críticos. — Novos ensaios 
oritico.-í. — A Judia, drama. — A 
morgadinha de VaJ.-flór, drama. 

— Portuguezes illustres. — Ma- 
drid, scenas de viagem. — Du- 
rante o combate, pretexto n'ura 
acto. — A vingança do sargen- 
to, por Landelle, trad. 3 v.— 
Em rodor da minha secretaria, 
po» Disforges, trad. — A fada 
de Auteuil, por P. du Terrail, 
trad. — A San Felice, por A. 
Dumas, trad. — Amigas e pec- 
eadoras, por M.»»*' Giraud, trad. 

— O juramento da duqueza. — 
O testamento do conde, trad. — 
A virgem Guaraciaba. — Con- 
tos e descri pçoes. — O major 
Napoleão. — O segredo da vis- 
condessa. 1 V. — Os guerrilhei- 
ros da morto. 1 v. — Historia 
da com muna de Paris. 2 gr. v. 
•om estampas. — Ministros, pa- 
dres e reis. 1 v. — Histoi^a da 
^erra entro a França e a Prús- 
sia. 1 V. — A conspiração de 
Pernambuco. 1 v. — A mascara 
vermelha. 1 v. — Astúcias de 
namorada. 1 v. — O filho de 
Marat, trad. 4 v. — Historia de 
Portugal. 8 V. — Lenda da meia 
noite. 1 V. — O terremoto de 
Lisboa. 1 V. — A varanda de 



Julieta. 1 V. — Dramas do po- 
vo. 
RnBELLO DA Silva — Fastos da 
Igreja, historia da vidadqs san- 
tos. 2 V. — A mocidade de D. 
João V, romance. 3 v. — Ódio 
velho nào cança. 2 v. — Histo- 
ria de Portugal. 5 v. — Vida e 
escriptos de Martinez de la Ro- 
sa. — Lagrimas e thesouros. l 
V. — Varões illustres das três 
épocas condtitucionaes, com re- 
tratos. — De noite todos os g^a- 
tos sào pardos, romance. — Con- 
tos o Lendas, l v. — Compen- 
dio de economia industrial e 
commercial. 1 v. — Economia 
politica. 1 V. — ílconomia ruriil. 
1 V. 

JuLio Diniz — As apprehensoes de 
uma mài. 

JuLio C. Macuado — Contos ao 
luar. — Historias para gente 
moça. — Pa.ssoTos e phantasias. 

— Em Hospanha, scenas de via- 
gem. —Rocordaçues do Parirt e 
Londres. — Scenas da minha 
terra. — Contos s^ vapor. — Do 
Chiado a Veneza. — Quadros do 
campo e da cidade. — Da loucu- 
ra e das manias em Portugal. 

— Lisboa na rua. 1 v. — Os 
theatros de Lisboa. — Estevão. 
1 V. — A vida em Lisboa. 2 v. 
— Cláudio, 1 V. — Manhas e noi- 
tes. 1 V. 

Camillo C. Branco — Agulha em 
palheiro. — Amor de perdiçTio. * 
— Amor de salvação. — Os amo- 
res do Diabo, ti-ad. — Anathc- 
ma. — Annos de prosa. — Aven- 
turas de Banilio Fernandes En- 
xertado. — O bem e o mal. — 
Os brilhantes do brazileiro. — 
A bruxa do monte Córdova. — 
Carlota Angela. — O carrasco* 
de Victor Hugo. — Cavar cm 
minas. — Cousas leves e pesa- 
das. — Cousas espantosas. — 
Coraç&o, cabeça o estômago. — 



^^tmt^am^m^i^»» 



TROVADOR 



COULECÇÃO 



DE 



IDINHIS, RECITIlTIlfOS, MIAS, lUNOOS, ETC. 



NOVA EDIÇXO, CORRECTA 



TOLUHE I 



RIO DE JANEIRO 

Ha mm POPOUB dl A. i da at02 COUTINHO— Editor 

76, RmdoS. Joaé, 76 



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tvp. SB ájnrano jobA da silva 
. 6f » Rim 4a CcmeèUa Têlkà, 62 



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8 TROVADOR 

DoB amigos hypocritas ilSo quero 
Publicas provas de affeiçSo fingida; 
Deixem-me morto só, como deixaram-me 
Luctar só contra a sorte toda a vida. 

• 

Outros prantos nSo quero que nSo sejam 
Esses prantos de fel amargurado 
De minha companheira de infortúnio. 
Que me adora, apesar de desgraçado. 

O pranto, açucena de minh'almAy 

Do coraçSo sincero, d'alma sS, 

De um anjo que também sente os meus miales, 

De uma virgem que adoro como irmS. 

• Tenho um joyen amigo, também quero 
Que junte em minha eça os prantos «eus 
Aos de um pobre anciSo, que perfilhou-me 
Quando a filha entregou-me aos pés de Deus. 

Dos meus todos, eu sei que terei preces, 
Saudades e lagrimas também, 
Que nSo tenho lembrança de offendel-os, 
E sei quanta amizade elles me tem. 

E tranquillo, meu Deus, a vós me entrego, 
Pepcador de mil culpas carregado; 
Mas os prantos dos meus perdSo vos pedem 
E o muito que também tenho chorado. 



1 
i 



TtOrAUM 



o 



RISO E MORTB 



Quando en deixar de chorar, 
Quando en contente me rir, 
NBo ae enganeoii — deBconfifoi 
Qoe nSo tardo a sncçnmbir. 

Quando a alma ao infortúnio 
Aarim Hgada se tem, 
Como termo da desgraça 
A morte nlo longe vem. 

Eu vim ao mundo chorando, * 
É chorar o meu yiyer; 
Quando eu deixar de chorar 
EiStou prestes a morrer. 

Vem, ó morte ! — de meu pranto 
Nlo reotiies; podes TÍr: 
CShoro nos bvaços da vida, 
NoB teus braços me hei-de rir* 

Muitas vezes um momento 
Que parece de ventura, 
NSo é mais que um ris(f d^alma, 
Vendo perto a sepultura, 

O feliz ri-se da vida, 
Por vâr n'eUa seu jardim ; 
O desgraçado na morte. 
For vâr da desgraça o fim« 



10 nOTADOR 



RECITATIVO 



TEU DOCE AMOR 



Da hm sublimei que te inunda 00 olhos, 
Vem dar-me um raio de eternal fulgw; 
E no nleu peito a suspirar amante 
DJUme as delidas do teu d6ee amor. 

Quero-te muito^ matutina estrella, 
Celeste musa, peregrina flor; 
Por ti velando, suspirei saudoso. 
Chorando a £alta do teu doce amor. 

As auras brandas do correr da tarde, 
O ether puro de asulada c6r 
N80 tem perfumes como tens nos lalnos. 
Nos temos be\jos do teu dõce amor. 

O oéo e os astros, a prateada lua, 
O fogo ethereo que nos dá calor 
Nlo tem império ho meu sêr inteiro. 
Como os perfumes do teu doce amor. 

Nlo era um sonho que eu guardava n^alma. 
Nas vivas chammas de um sentido ardor; 
Eram as rosas de um affecto immenso. 
Eram saudades do teu doce amor. 

Mas hoje sinto que acordei de novo, 
Que ás faces volta o juvenil rubor, 
Noya existência no teu seio encontro. 
Nos teus afisigos, no teu doce amôr. 

« 

Bettencourt da Silva. 



r 



TBOVADOB 



11 



CANÇÍO 



O ARTISTA 

• 



(bomakob) 



Moaiea do iH.^^ sor. António Luiz de Moura 

Curvado em lacta eouBtante 
Da vida eo^as inoertesas, 
Soffire o artista desgraçado 
Da sorte as duras cruezas. 



í 



Chorando — coitado ! 
Da sorte ao rigor, 
Seus bens sSo o pranto, 
Seus gosos a dôr. 

Apenas desponta o dia 
Corre yelos ao trabalho, 
A noite longa já vai, 
NSo basca doce agasalho. 

Chorando — ^ etc. 

Quando — quebradas as forças 
Dorido — quer repousar, 
Cuidados mil que o anceiam 
Seu somno yem perturbar. 

Chorando — etc. 



I 



12 TROVADOR 

Vê sua esposa e os filhinhos 
* Ás Teses faltos de pio ; 

Sem meios p'ra adqoiril-o 
Fagir-lhe sente a razSo. 

Chorando — etc. 

No leito da dôr ^ rezes 
De tudo vô-se privado, 
Que em vSo procura o artista 
Mudar o rigor do fado. 

Chorando — etc. 

Estranho vive -— ooitado I 

Do mundo aos gozos mesquinhos; 

O pobre artista por bens 

Só tem acerbos espinhos. 

Chorando — etc 

Até que em oampa esquecida 
Das lides acha o repouso, 
Soffreu do mundo os desprezos, 
As dores teye por goao. 

J7Io mais do destino 
Tem nada a temer; 
O artista repousa 
Somente ao morrer! 



A. J. d$ JSfcuM, 



TROVADOR 13 



lundCs 



I 



A CÕR MORENA 

Paxs Bor cantado oom a masioa do kmdú — A JHòremh&a 

Cdr morena delicada, 

Apreciada 
Eb por muitos com razSo; 
Pois por ti também eu sinto, 

Ah! nZo minto, 
Quanto pdde uma paix3o« 

Tem tal côr tanta gracinha, 

Sinhizinha, 
Que só por gracinha prende ; 
£, seguro em tal prisão. 



I O coração 

Inda mais culto lhe rende. 

É gentil a moreninha, 
Engsaeadinha, 

Muito TÍva e ardilosa ; 

E se mais travessa é ella 
£ nuns bella, 

É mil Yeees mais formosa. 

Mas eu^ ^iie estes Tersos fiifò, 

Dou um passo 
Que parece mangaçSo; 
E aposto que a sinhá, 

linda y&jáj 
Cr&-me um bello mocetSoI 



i4 TROYAlXm 

PoÍ8 nBo sou, minha senhora, 
E sem demora 

Desfiiço este enganosinho; 

Amo, sim, a vossa cÕr, 
E com ardor, 

Mas por ser de meu 



Ea gosto d'um rapazinho 

Moreninho, 
Também cheio de gracinha; 
N3o lhe ganha em trayessuras, 

Diabroras, 
 mais viva moreninha. 

É a eôr mais feiticeira, 

Candongaeira, 
Que creoa a natoresa; 
E a ti, que tens tal oftr, 

Meu amor, 
Jaro amar*te com firmeza. 

Por uma ji>vên fiwnimnm. 



BORBOLETA 

Meninas ha qoe me chamam 
Borboleta e beija-flõr, 
Porque dizem que eu a todas 
Faço protestos de amor* 

Como se enganam 
Em tal pensari 
Jonia que diga 
Se eu sei amar. 



TROVADOR i5 

Porque eu olhe com temiura 
Às vezes para uma bell^i 
Me julgam sem mais nem menos 
Apaixonado por ella I 

Como se enganam — ete« 

Dizendo que as moças todas 
Meus mimos e graças tem| 
Decidiram em seu jury 
Que eu nSo adoro a ninguém* 

Como se enganam — ote. 

Passa por certo entre ellas 
Que a minha forte paizio 
DesjEu-se toda na lingua^ 
Sem ohegar ao coraçBo. 

Como fie enganam — eto. 



MODINHAS 



01 SORTE HIRHA CRQBL I 

Oh sorte minha cruel, 
Vem meus dias terminar, 
J&qu0 Jonia, poi; quem morro, 
Nlo nie quer £élis tomar. 



t6 movADOii 

Só o deMjo 
De ag^MT 
Maatom-me a vida 
Sempre a penar. 

Um momento de prazer 
Bem merece o trabidor. 
Que BÓ tem por ti soflfrido 
Tantos tensenlov e dôr. 

S4 o desejo 
De a gozar 
MantemHue a vida 
Sempre a penar. 

Céos I oh eioa I por piedade 
Arrancai meu coração. 
Que Bumiu-se a minha estrella 
Nas nuvens da ingratidSo I 

Só o desejo 
De a gozar 
Hantem-me a vida 
Sempre a penar. 



ROSTO D'ANJO 



Besto d'anjo, formos* donzeUa, 
Que as cadêas de amor me poxeste, 
Ahl nSo f^jas^-^nSo leves-me a vida^ 
Nlo me roubes úm bem que me deste. 



nOTADOR t7 



ITBIMLBO 



Ji nSo pôde meu peito ner d'<mtra, 
Ji nlo posso existir sem te amar; 
Só comtigo entendi a existência, 
Qparo á campa comtigo baixar. 

Slo ligados os meus aos teus dias 
Como o ealix da foUia da âfir ! • . • 
NSo c<msintas que a flor se desfolhe, 
Ah ! nlo quebres os laços, de amor ! 

■8imrBU.H0 

Já nlo pôde meu peito ser d^outra, 
Ji dIo posso existir sem te amar; 
Só oomtigo entendi a existeorfa, 
Quero á campa oomtigo baixar. 



RECITATIVOS 



BRAZn., ACORDAI... 



(bscitativo hbboioo) 



Brasil, acorda do dormir profundo, 
O Tdho mundo — te contempla a furto, 
Vendo tolher-te — da moUeza o laço — 
Da gloria o passo — para ti tSo curto. 



18 TROTADOU 

Gigante immenso pelo céo roiado 
A mareio fado — de brilhantes loarofl, 
Porque, fremente qual bramir das vagas, 
Já nSo esmagas — quem te trae desdouros? !•• 

Em sonho, ao menos, meu Brazil, nSo vfis, 
NSo entrevês — essa cohorte ousada, 
Que — ^traiçoeira — do teu somno á sombra 
 honra assombra — sob a dextra armada? I... 

E tu dormitas !••• quem dormir te £ab?..« 
Que mSo audaz — o teu valor reprime? ! . . • 
Aht... tens razBo... que do passado os guia» 
Foram harpias a vender-te ao crime ! . . • 

Porém qu'importa ! . . . do lethargo acorda ! • • • 
Esmaga a horda — que voraz — servil — 
Ousou tocar, o teu emblema santo, 
Manchar-te o manto — traiçoeira e vil!... 

Vâ de teus filhos como jorra o sangue!... 
Um povo exangue — já descrido dama!... ^ 
Eiat... em teus olhos, meu Brazil valente, 
Brilhe fremente — do valor a chamma!.*. 

Tens elementos que os inveja o mundo; 
És sem segundo — a cobardia pune; 
Ergue terrivel esse busto — e mostra 
Que nSo se arrostra — teu fiiror impune!. • • 

Ah!... estremeces, meu Brazil querido?!... 
Emfim ! . • • ouvido foi da pátria o grito ? ! . . • 
Moves os membros do torpor escravos, 
Ao som dos bravos — do teu povo afflicto!..» 



1 O povo de Mattc^GroBso. 



nOTADOR 19 

Ergueste o ooUo, e ten alhar eerleiro 
O qoadro — inteiro — devassoa — terrivel; 
A fronte enragas — tea olhar é chamma 
Qae o raio inflaouna — de TÍngança hontrel ! . . • 

Hosanal... hosana I... povo-rei, hosana !••• 
Do céo dimana — nossa gloria certa!... 
Em mar€Ío fiogo, mea Brazil, já ardes I . • • 
Tremei, cobardes I meu Brasil desperta I • . • 

1865. 

A, «7. dê Sousa. 



ELVIRA 



Serenos threnos de alande rade, 
Da juventude, venho aqui depor ; 
Sonhaiíllo, amando teus encantos santos, 
Virgem, meus cantos pedem só amer ! ' 

Formosas rosas n'esse rosto, posto. 
Ha, só por gosto, da natura a mSo ; 
Teu seio, cheio de ternura pura. 
Tem na brancura virginal condSol 

NSo minto. Sinto que minh'alma a palma 
Sonha da calma tivesse teu sorrir. •• 
Tristonhos sonhos do futuro, eu juro, 
Teu riso puro poderá banir ! 

Florida a vida se tomara, e eara, 
Se pouco avara fosses tu no amar; 
De amores dores nlo carpira a lyra, 
Se alento, Elvira, me quizesses dar I 



« 



4-' 



b.. 



20 TMTADOR 

DiyinoB hjmnoey — nSo lamentoi lentos, 
Soltint aos centos teu fiel cantor, 
Se anhelos bellos, perfumosos goaos, 
Dias ditosos lhe troaxesse amorl 

Men peito, leito de amargteas duras. 
De crenças puras se nutrira um dia, 
Se Elyira dirá a meus amenos threnos 
Dissesse ao menos que yalor daria! 

J. F. N. 



ARU 



A CORDA SEHSIVEL 



Tradncç&o de F. P. Brito, da comedia do mesmo título 



Da sorte aos acasos nada é i 
B tudo de amor se dere esperari 
Porque das mulheres a — corda êênaivel 
Mais tarde ou mãiB cedo se sente Tibrar. 

É sempre a hwreira em tudo aocossivel 
A todos aquelles que bem podòm dar; 
O fraco lhe movem, a — corda mntwel, 
O cano, o vestido, o brinco, o ooUar. 



nOTADOE 21 

A grata iurgueta é mais susceptiyel, 
Com certa reserva te fas respeitar; 
Se dIo4he, porém, na — etn^da êêmivêl, 
ÁBsim como vive se deixa levar. 



A nobre fidalga se mostra inflezirel 
BrazSes e grandezas querendo mostrar, 
Mas cede ao vibrado da — corda êemivêl, 
Se ha mSo amestrada que a saiba tocar. 

Sagaz baiUarina é tal combnstivel 
Que o fogo de amor faz logo atear, 
Mas d^ella é o fraco, a — corda ##nf»ti#2. 
Folia, brinqnedo, passeio oa jantar* 

A bella criada, se está disponível, 
Na casa dos amos quer brios mostrar; 
As toque, porém, da — corda êênêivel, 
Por dadiva simples se deixa levar. 

A sonsa beaia, na igreja infallivel, 
Que em Deus só parece rezando pensar. 
Ao nmples vibrado da — corda ^mrnvel, 
Nem mais um momento se occupa em rezar, 

A pura innocencia, empresa é temível 
Fazel-a de amores nas luctas entrar. 
Porque ninguém sabe da — corda êênêivel 
No peito innocente onde é o lugar. 

Comtndo na terra nada é impossivel 
E tudo de amor se deve esperar, 
Porque das mulheres a — corda setuivel 
Mais tarde ou mais cedo se sente vibrar.. 



22 TAOYABOR 



LUNDUS 



PONTO FINAL 
Poesia de F. P. Brito, e muaics do aor/J. J. Goyaimo 

Tive por certa menina 
Uma paixSo sem igual, 
Que escapou de dar commigo 
Dos doados no hospital. 

Porém agora 
Meu coraçSo 
Poz na oraçBo 

Amei com pontos e virgulas, 
DivisSes e reticencias. • • 
Tiradas as consequências, 
Tudo era artificial I 

Porém agora 
Meu coração 
Poz na oraçSo 
Ponio final. 

O que ella por mim fazia 
Fazia a outros também ; 
NSo ter amor a ninguém 
E seu timbre natural. 



TBOTABOR 

• 

Por iseo agora 
Meu ooraçlo 
Poa na oraçSo 
P<jWto fimal. 



S8 



A HARREQUINHA 
Poesia de F. P. Brito, e musica do anr. F. M. da Silva 

Os olhos namoradores 
Da engraçada yá-yázinha, 
Logo me fazem lembrar 
^ua bella marrequinha. 

Yá-yá, não teime, 
Solte a marreca, 
SenSo eu morro, 
Leya-me a breca. 

Se dançando a brafílUira 
Quebra o corpo a yi-yázinha. 
Com ella brinca pulando 
Sua bella marrequinha. 

Yá-yá, nSo teime, 
Solte a marreca. 
Senão eu m<nrro, 
Leva-me a breca* 

(^uem a yê terna e mimosa 
Pequenina e redondinha. 
Não diz que conserva presa 
Soa bella marrequinha. 



24 TMTAIK» 

Yá^já, nSo tdme, 
Solte a mttrreeâ^ 
Senio eu morro, 
Leva-me a brçoa. 

Na margem da Caqaeirada 
NSo ha BÓ bagre e tainha, 
Alli foi que ella creou 
Soa bella marrequinha. 

Yá-yá, nSo teime, 
Solte a marreca, 
SenSo eu morro, 
Lera-me a breca. 

Tanto tempo sem beber, 
Tio jumrú... coitadinha... 
Qoasi qae morre de sede 
Soa bdia marrequinha. 

Yá-yá, nSo teime, 
Solte a marreca, 
SenSo eu morro, 
Leya-me a breca. 



fMYAMH i5 



MODINHAS 



SlO CIUMBB DE UMA DlftllATA 

Sinto no peito ama dAr 
Que me conaome e maltrata; 
A dOr que sente minh'alma 
88o ciumê9 de umã ingraêm. 

Tenho no peito um amor 
Q;ae meu Bocego arrebata; 
Ob tormentos por qae passo 
88o eiwMê ãé uma ingrata^ 

Porque perto já da eampa 
A agonia se dilata? 
NSo sSo saudades do mundo, 
88o eiwMs de uma ingrata. 



A AVSEHCIA 

Poesia do tSíj^ sor. dr. D. J. G. Magalh&es, e musica 
do SDT. Raphael G. Machado 

Se os meos suspiros voassem 
Cos meus tristes pensamentos, 
E naxiaado os meus tormentos, 
lio teu coraçSo vibrassem ; 
Fiearia oommoyida, 
Okl minlia Urania querida t 



26 TROVADOR 

Leyaiy ó céos, 
AoB seofl ouvidoti 
Meus ais saudosoB 
E meus gemidos. 

Ausente de ti, ó bella, 
Só tristeasa me rodeia; 
NSo vAs a noite tSo feia, 
Sem lua, sem uma estrella? 
Assim tenho esfaima agora, 
£st'alma que por ti chora. 

Levai, ó céos — eto. 

Que de vezes passeando 
N'esta horrenda soledade, 
Consumido de saudade, 
Adormeço em ti pensando I 
Sonho entio, e assim só viro 
Com esse praaser esquivo. 

Levú, ó oéos — eto. 



RECITATIVO 



dA-me um sorriso 

Porque me ibges? teu desprezo mata, 
Maltrata o seio que se abraza em chamma, 
Com teu rigor, foge-me a razSo, 
E o coraçSo mais a mais se inflamma. 



mOTÀDOR 27 

£ 86 de longe, para mim aamndo, 
Além fbgindo, tea zombar ocmheço, 
Tratos do inferno me acabrunham alma, ^ 
Da yida a calma a tea amor ofTreço I 

Naa lindas pregas doesse teu vestidoí 
Yego tolbido mea prazer futuro; 
Ahl nlote volyas, quero vâr tea rosto, 
Di-me um só gosto no teu riso paio. 

Ah! nlo me fojas, yem ser minha am dia, 
Sacra magia para mim desprende, 
Tem ser o anjo a me guiar na vida, 
Louca, pordida, que a ti só me prende I 

Olha • mea peito succumbindo á dôr, 
Lâ santo amor nos meus rubros olhos, 
Labça^me — boa — n'um caminho liso, 
D&-me o p'raÍ8o n'am trilhar de abrolhos. 

Eis-me currado p'ra beijar*te as plantas. 
Pois me Bupplantas n'um penar tSo forte ; 
More estes lábios doce — sim — , me dando. 
Cedo mudando minha fera sorte. 

DA-me um só gesto, te darei a yida. 
Louca, perdida, que a ti só me prende, , 

Jonta-te ao seio de um fervente amar. 
Sente o pulsar que de si desprende. 

Dar-te-hei um beijo, morrerei contente. 
Crente da vida que em ti bebi; 
Embora eu morto, sem calor na artéria. 
Torpe matéria — pensarei em ti I — 

Rodrigues Proença. 



POIQUEHEFITASI 

Forqae me fitas esaes olhos languidos? 
Porque interrogas a minh'alma assim? 
NZo Tês que soffiro — que padeço tanto, 
Que de ti fkyo por fugir de mim? 

Ave oanyada de pairar no especo, 
Buscas a sombra? que fidlaa miragem 1 
Oh! nSo te iilndas... porque em yes d'oisÍB 
Talyez encontres a fSfttal voragenu 

Vir de tSo alto procurar na tenm 

Um ramo verde para ao sol peosar I 

Ai I volye prompta. . . nZo te arrisques. • • treme, 

NSo é um lago o que tu Tês. . • é o mar I 

Tens tu coragem d'afirontar as ondas 
Que além se alteiam em feroz tropel, 
E á tempestade confiar afouta 
De teu destino o festival baixel ? 

Se tens, escuta : caminbemos juntos, 
Embora eu sinta vacillar-me o pé; 
Serás o fieu^ho dispersando as trevas 
Em que eu já via abandonar-me a fé I 

Estreito abraço nos enlaça as vidas 
Presas, bem presas pelo gozo e odor; 
Quando tu gemas, gemerei comtigo; 
Quando sor/ires, sorrirei d'amorI 

Iremos ambos aos confins do mundo 
Pedir ao ermo a solidSo capaz; 
Vagar i tarde na lagÔa amena, 
Cantar dos astros ao luzir fugaz ! 



mOTAMR 29 



Mblb b6 o tufio acoommettèr bramiiido 
O lenlio frágil da amorosa nau, 
Perdidos ambos entre as vagas doudas, 
Onde eneontrar da salvaçSo o yaa ? 

Entre os extremos de tSo viria sorte 
Lacto, mesqoinhoi a procurar a luz 
Que nos aponta da ventura a senda, 
Ou dar os braços á espinhosa cruz ! 



ROMANCE 



JÁ NÃO VIVE DÉUA 

Poeda do snr. F. d*A. Pereira Castro, e masiea 
do «ur. Elias Alvares Lobo 

Sinto a morte no meu peito, 
Sinto a febre da agonia; 
Já nSo vive Delia — virgem 
Fdt quem minh'alma vivia* 

Vou vêl-a, vou procural-a, 
A virgem dos sonhos meus; 
Se n3o achal-a nas tumbas, 
Hei-de encontral*a nos ofios* 

Âil nXo chores, mSi querida, 
Nlo augmentes minha d$r; 
Já n3o soffiro, — na agonia 
Ouço as dulias ao Senhor. 



30 TROTADOt 

Querida fl6r de miiih'aliiia, 
Minha mSi, eu parto • • • adeus ! 
Adormeço nos teus braços. 
Acordarei lá nos oéos. 



LUNDfiS 



FEITIÇOS DA MULATA 

Quando vejo da mulata 
Um reverendo braçSo, 
Cabello liso e bem negro. 
Largo, chato cadeirão; 

Eis-me já todo rendido, 
Já captivo da paixSo, 
Perco os sentidos de todo, 
KSo fico mais gente, nSo. 

Se brilham dentes de prata 
Enti^e um beiço arrebitado, 
E se este tem bigodinho 
Bem compacto e azulado; 

Eis-me já todo rendido — etc. 

Sd um naris arrebitado, 
E um olhar desdenhoso. 
Se seus gestos dSo symptomas 
De ter um peito amoroso; 

.Eis-me já todo rendido ^- etc. 



j 



TROVADOR SI 



Se vejo pomos de Yenus 
Entre as vestes empurrar, 
Se tem pulso feito a tomo, 
Cintuiinha de matar; 

Eis-me já todo rendido — etc. 

Mais que o corpo, escnrecido, 
Se o soTaqainho diviso, 
Todo bom, todo cheiroso, 
Bem côr do céo, por bem liso; 

Eis-me já todo rendido — eto. 

Se acaso o vento estampa 
Kas vestes certo retrato, 
Por quem suspiro morrendo, 
Por quem morrendo me mato ; 

Eis-me já todo rendido — etc. 

Com andar meigo — gingando. 
Se me &z certos tremidos, 
Aformoseando o rodaque 
Com compassados bulidos ; 

Eis-me já todo rendido — etc. 

Se á final a gozar venbo 
TSo subida formosura, 
Me tomo divinisado. 
Deixo de ser creatura; 

Eis-me entSo mais que rendido^ 
Mais captivo da paixSo, 
Entre soluços expiro, 
NSo fico mais gente, nSo. 



SI TROVADOR 

NiO POSSO COM MAIS NINGUÉM 

% 

Para B«r cantado pela miudca do landú — Sk* poêêo com maU aiguem 

E mentira quem lhe disse 
Que moitas me querem bem, . 
Tenho apenas uma amante, 
NSo posso com mais ninguém. 

Pois já trago esfrangalhado 

O meu pobre ooraç2lo, 

Me deixem por piedade, , 

NSo posso com ninguém, nSo« 

f 

Esta amante, que possuo, £ . 

Verdade é — me quer bem, - ^ 
Mas creiam, já me aborrece. •• 
NSo posso com mais ninguém» 

c Se por falso ou inconstante » 
Alguma outra me tem, 
Paciência — uma é bastante, 
NSo posse com mais ninguém* 

Eu bem sei que as mocinhas 
Me julgarSo toleirSo, 
Mas por modéstia é que eu digo : 
NSo posso com ninguém, nSo. 



TROTADOR 33 



MODINHAS 



AMOR PERFEITO 

(hova modeiha) 
Para ser cantada pela musica da modinha — Roxa saudade 

Amor perfeito. 
Tema florinHa, 
Tu és a cópia 
Da vida minha. 

Tu 60 conheces 
O que é paixSo, 
Pois que do amor 
Tens a expressão. 

Tua côr iinda, 
£ delicada, 
É p'lps amantes 
Apreciada» 

Cada folhinha, 
Que em ti se prende, 
Nas almas ternas 
Amor accend^. 

Vives, fiorinha, 
Tal como eu viro, 
De amor ardendo 
Em fogo acliyo. 

3. 



34 TROVADOR 

Só tu exprimes 
Perfeito amor : 
PaixSo igual 
Dá-me calor. 

Adeus, mimosa. 
Galante flor; 
Deus te conserve 
Symb'lo de amor. 

• 

P'ra mim só peço 
Um terno peito, 
Que me consagre 
Amor perfeito. 



Por uma joven fluminense. 



DESALENTO 

Poesia do fallccido dr. Laurindo Kebelio, e musica de ««* 

Quando eu morrer, minha morte 
Não lamentes, caro amigo; 
O sepulchro é um jazigo 
Onde eu devo descançar; 
A minha triste existência 
É tão pesada, é tSo dura. 
Que a pedra da sepultura 
Já não me pôde pesar. 

Uma lagrima, um suspiro. 
Eis quanto custa o morrer; 
Custa-nos sempre o viver 
Prantos, suspiros sem fim: 



TROVADOR 85 

Que tormento fora a vida 
Se nSo fosse transitória! 
NSo me risques da memoriai 
Porém nSo chores por mim. 

Enchem trevas o septtlchrOy 
Mas ninguém d'elle se queixa; 
Quando o morto os olhos fecha 
Não quer luz — quer descançar; 
Aquelle* fundo silencio, 
Aquelle extremo abandono, 
DSo-lhe tão tranquillo BomnO| 
Que nZo pôde despertar. 

Já tive medo da morte, 
Agora tenho-0 da vida ; 
Sinto minh'alma abatida, 
Sem yigor o coraçSo; 
Já cançado de Tiver 
Para a morte os olhos lanço. 
Vejo n'ella o meu descanço, 
A minha consolaçSo. 



A DESPEDIA 



Musica de « • • 



A herva nasce no prado, 
Dá-lhe impulso a natureza, 
Florece, murcha, se extingue, 
— Esta vida é sem firmeza. 



36 TROYADOI 

Linda ro0a desabrocha^ 
Ostenta gentil belleza. 
Logo após perde o perfume, 

— Esta vida é sem firmesa. 

Nada no mundo se exime 
D'e8ta lei a tal fereza, 
Tal é dos mortaes a sorte, 

-^ Esta vida é sem firmeaa. 

• 

Às delicias de um só dia 

Suocede logo a tristeza, 

Aos prazeres succedem prantos, 

— Esta yida é sem firmeza* 

Infância, sonhos dourados, 
Brilhantes de gentileza. 
Tudo passa vindo a morte, 

— Esta yida é sem firmeza. 

Alegre busco teu canto. 
Em ti louvo a natureza, 
ÁmanhSl tudo é mudado, 

— Esta vida é sem firmeza. 

Eu parto com a saudade. 
No peito levo a tristeza. 
Tu ficas, logo te esqueces, 

— Esta vida é sem firmeza. 

S. Paulo— Setembro, 1862. 



TROVADOR • VI 



RECITATIVOS 



I 



O CASTO DA VIRGEM 

Eu sou qual rosa, na manhS serena, 
Áo sol rompendo o coralino encanto; 
Se a briza passa, na singela aragem 
Aos céos envio meu sincero canto. • • 

No liso espelho de azuladas aguas, 
Ea miro ás vezes meu gentil «eBiMafite; 
E as estrellas de meus olhos liados 
ÂUi retratam seu luzir brilhante. 

■ 

Das meigas flores que no prado colho 
NSo ha nenluusia, eomo eu, tSo bella. • t 
Mas aos perfumes eu lhe ajunto be^os 
E d'ellas teço vii;ginar capella. 

À claridade de um luar ameno, 
Nas verdes jpihas de meus louros annosi. 
Eu passo a vida descuidosa e pum. 
Do mundo longe, dos mortaes enganos. 

Se as avesinhas, ao alvor d'aurora, 
Nos seus gorgeios vem saudar o dia, 
Eu rezo á noite uma oraçSo de amores, 
Gratos perfumes d'immortal poesia. 

Feliz, ditosa, só em Deus pensando, 
Caricias gozo de uma mSi querida; 
No seu regaço dôce amor me enleia 
E aos seus afagos eu entrego a vida. 



« , 



/ • 



Bettencourt da 8Qwt^ 



40 TROVADOR 

A lua já vai bem alta. 
Não ge escuta um b6 rumor, 
A briza manda oa queixumes 
De teu desgraçado amor. 

Canta, e corre sobre as aguas, 
Que abrandarás tuas maguás. 



LUNDC 



DIBERNIZATE, ENGRAXATE, A LA MODE DE PARIS 

(voto lundu) 
Poesia do snr. M. M., e musica do snr. V. A. B. 

Que maldita é esta vida, ^ 
Soes e chuvas supportar, 
Escovas, graxas em potes, 
Eu sósinho a carregar! 

NSo sabem? Já meu retrato 
Ko caíxSo mandei pregar. 
Para vêr se com tal luxo 
AttençSo vou despertar. 

Porém se eu vejo um freguez, 
Com força o coUega diz: 
Inibemizate, engraxate, 
A la mods de Paris. 

EntSo fico a vêr navios, 
N'um mar de graxa atolados, 
Quando os pés dos taes fireguezes 
Pedem ser assim c&amados. 



TROVADM 41 



Ma0 ao0 inalaB tSo cruéis 
Que sente meu coraçSo, 
Elncontro meosBamoricos 
Por tema oompensaçlo. 

Namoro toda a cfeoula/ 
Seus olhos tem attraeçSo; 
Das brancas nem mesmo a cdr 
Me causa mais sensaçSo. 

Que casamento feliz 
Dentro em pouco irei gozar, 
Indo* abrir co'a creoulinha 
Uma casa de engraxar I 

Sereaos muito felizes, 
O meu coraglo me diz, 
A ella unido p'ra sempire 
A Ia mods ds Paris. 



MODINHAS 



TROVADOR 



(agocmçIo) 



Trorador, o que tens? o que soffires? 
Porque choras com tanta afflicçlo?... 
O teu pranto demais me compunge, 
Trorador, ahl nSo diores mais, nSol 



4St TROVADOR 

Qae Be acaso a mulher que tu amas 
Te tratou com acerbo rigor, 
Trovador, ah! por isso nSo chores, 
Ah ! nSo creias, fpr Deus, em amor* 

O amor da mulher é qual nuvem 
Quando o vento a sacode no ar; 
Q amor da mulher é volúvel 
E tSo vario qual onda do mar« 

O amor da mulher é qual frágil, 
Pequenino, adoudádo batel, 
Que vaguêa sem norte — sem rumo, 
Té quebrar-se n'um fraco parcel. 

O amor da mulher é qual facho 
N'uma noite de inverno a luzir; 
É estrella do céo, entre as nuvens, 
Quando a espaços se vê transluzir. 

A mulher tem o dom da belleza. 
Tem maneiras de mais p'ra enlevar; 
Mas, no meio de seus attractivos, 
A mulher tem o dom de enganar. 

Um exemplo tu tens em Helena 
Que os muros de Troja abateu. 
Que — infida — deixando o consorte 
Para os braços do amante correu* 

A mulher tem feitiço nos olhos 
£ nos lábios veneno lethal ; 
A mulher nos illude chorando 
£ — sorrindo — nos crava o punhal. 

O amor da mulher é qual rosa. 
Desabrocha, mas logo fenece, 
O que hoje a mulher idolatra 
AmanhS menospreza, aborrece. 



jp_i 



TROVADOR 43 



TroYador, ah! esquece essa ingrata, 
N3o mendigues a soa affeiçSo ; 
Ahl nSo queiras a quem te maltrata, 
Trovador, ah I nSo chores mais, nSo ! 



DÁ-ME UM SORRISO 



Poesia do sor. J. J. Bernardo, e muaica do sor. J. F. das Cliagas 



Diai-me ó bella, sd me adoras, 
Escuta com attençSo, 
Di-me um riso de teus lábios. 
Consola meu coraçSo. 

Se teti ajSecto é volurel, 
Porque me illudes em vSo? 
Pede a teu anjo um punhal 
E me crava o ooraçSo. 

Ah! como sou infeliz, 
Amar e nSo ser amado ! 
Ser pelo anjo que adoro 
Pouco a pouco desprezado ! 

Ptudencia, tu és a mBi 
D^um infeliz como eu ; 
Já gozei horas felizes, 
lífia coraçSo já bateu. 



44 TBOYADOR 



JÁ PASSEI DIAS FEUZSS 



Já passei dias felizes, 
Minha dita foi sem par; 
Já gozei com Liiia bella 
lindas noites de loar. 

A minha yida hoje é triste, 
NSo é vida, é um penar; 
Porém eu ainda espero 
Felizes dias passar. 

Quantas vezes vi seu rosto 
Tinto de brando carmim ! 
Os seus olhos, amorosos, 
NSo se volviam de mim. 

A minha vida hoje é triste — etc. 

Quantas vezes no meu coUo 
Docemente adormecia! 
Quantas veses me fallava 
D'amor e de sympathia! 

A minha vida hoje é triste — etc. 

Saudade tenho do tempo, 
D'aquelle tempo passado j 
Saudades, por ter perdido '. 
O meu anjo idolatrado» 

A minha vida hoje é triste — etc* 



TROVADOR 45 



RECITATIVOS 



A PENSATIVA 

Qaal Hagdalena Bobre a cruz pendida, 
Vi-a embebida noa scismares seus ; 
Talvez pensasse nos affectos idos, 
Oa ais sentidos enviasse a Deus. 

Eu vi-a triste, qual marmórea imagem 
Exposta á aragem d 'uma noite bella; 
Tendo as madeixas de côr negra — soltas — 
N'ellas envoltas — virginal capella. 

Vi-a tão triste, qual a rola, quando 
No ramo brando entoar vai queixas ; 
D'aquella alma, pela dôr magoada, 
Ella — coitada — desprendia endeixas. 

Tinha no rosto pallidez patente. 

Era fervente seu orar de virgem ; 

— Talvez nas px:eces perguntasse a Deus 

Dos males seus a primitiva origem. • l 

TSo pensativa I e na flor da idade ! 

A inflieidade ella tem por norte ; 

Em vez de affectos lhe gHardarem n'alma^ 

Deram-lhe a palma de sinistra sorte. 

Busca prazeres innocentes, virgem, 
Qu'essa vertigem passará veloz ; 
Procura o templo, e com fervor — no altar, 
Vai segredar com o Senhor — a sós. 
1865. 

Qualòerto Peçanha. 



46 nOTADOII 



OLHAR DE VIRGEM 



Poeâa do snr. Eduardo Villas-Boas, e manca do snr. Raphael Goelbo 

O olhar de virgem — é tio puro e lindo 
Qaal raio infindo de celeste luz; 
Reflecte a santa candidez da alma 
E a doce calma que lh'a banha a flux. 

O olhar de virgem — santamente amada, 
E 'madrugada de gentil luar; 
É a innocencia transcolando odores, 
Briza que ás flores vai frescura dar. 

. O olhar de "virgem — é o lago ameno 
Que o céo sereno retratou gentil ; 
É livro d'alma — que por Deus aberto 
NSo tem incerto um pensamento vil. 

O olhar de virgem fulgurante brilha 

Se ella trilha — da candura a senda ; 

Mas,* transviada pelo amor immundo. 

Quem ha no mundo que o fulgor lhe accenda? 

Ninguém : que ao fogo d'esse olhar tSo temo. 
Foi o Eterno quem pureza deu : 
Perdida ella — n'um &tal delírio, 
MurchaHie o lyrio que o candor perdeu. 



TROVADOR 47 



ROMANCE 



CONnSSiO E DESENGANO 



Poeria e musica de H. A. de Mesquita. Compoeto em Paris 
pelo auihor, e reoentemente publicado n*esta corte 



Tu és bella, teu rosto é tSo lindo 
Como um astro de noite a luzir; 
SSo tens lábios a rosa entre-abrindo, 
E de am anjo teu mago sorrir. 

Maa qne importa qtie sejas um nnme, 
Se és iim'alma de aíFectos descrida, 
Uma rosa de amor sem perfume, 
Uma estatua formosa sem vida? 

Ta serias de amor minha estrella, 
Dos meus sonhos o puro ideal ; 
Foras tu, ai^o meu, menos bella, 
Mas teu peito mais firme e leall 

Esses cantos de outr'ora acabaram, 
Para ti minha muea findou. 
Teus desprezos as cordas quebraram 
D'esta lyra que a ti se votou. 



4S TBOYADOR 



LUNDUS 



EU JÁ nVE UMA 



n-íji 



EjU já tiye uma menina 
A quem amei mais que a ti ; 
Ausentou-se, foi-se embora, 
Eu fiquei, mas nSo morri. 

• 

Menina traidora, 
Que falta á promessa, 
NSo fique em lembrança, 
Melhor é que esqueça* 

Antes quero vêr-me 
Queimado do lume, 
Do que andar soffrendo 
O negro ciúme.. 

Comprei para a cuja 

Um lindo retrato, 

De um génio inconstante, 

Volúvel, ingrato. 

• 

Gastar a gente 
Os seus cabedaes, 
Em fitas bonitas 
E outras cousas mais; 

Andar a gente 
Feito gato ladrão. 
Em risco de achar 
Pedrada ou bordSo; 



TROfilDOR 49 



Passar pela ma, 
Parar na esquina, 
Julgando que ouyia 
A voz da menina; 

Olhando p'ra lá, 
Se chega á janella, 
Como a noite é escura 
N8o sabe se é ella ! 

Acoender o charuto 
P'ra dar o signal, 
£ ella namorando 
Outro no quintal; 

Sósinho n'um canto 
Com ares de tolo, 
£ ella com outro 
Fazendo tyolo; 

Estar sempre ao canto 
Sósinho ou em pé. 
Chocando c'o8 olhos 
Como o jacaré; 

Gostar da menina. 
Dar a pioholeta. 
Sem ao menos poder 
Fallar com a preta: 

Trabalhos cruéis. 
Que já foram meus, 
N8o £Edlem-me n^elles 
Pek) amor de Deus. 



50 TROTADOR 



■ULATINHA DO CABAÇO 

Eu goBto da côr morena. 

Sempre amena, 
Que mimosa me arrebata; 
Essa côr é da faceira, 

F^ticeira, 
Molatinha que me mata. 

Eu gosto dos olhos d'ella, 

Quando ella 
Para mim os quer volver; 
Esses olhos melindrosos, 

Tfto formosos, 
Dizem — sim — até morrer. 

NSo gosto da côr do lyrio, 

Que delirio 
Vi causar já de repente; 
Nem também da côr nocturna, 

Que da fuma 
O sepulchro traz patente. 

Amo a côr que se colloca 

Na pipoca, 
Na parte que nlo rebentai; 
Essa côr assim querida, 

Conhecida 
Noe bolinhos da mSi Benta. 

Oh I que sim, por em» côr 

De meu amor, 
Me derreto, me espatife; 
Tenho febre, tenho frios, 

Calefrios, 
Tenho gosma, tenho typho. 



TROYADOR 51 

Mulatinha do caroço 

No pescoço, 
Eis aqui o teu cambSo; 
Hette o ferro cl'agcdlliada, 

Minha amada, 
No teu dengae cachorrSo* 

« 

Fora, fora, minha bella, 

Na costella 
De teu grato camaphea; 
Dar-te-hei o que puder, 

Se és mulher, 
Meu amor de ti nasceu. 

Dar-te-hei o que quiseres, 

Se fizeres 
Quanto trago em minha mente*. • 
Nos meus braços, meus cuidados 

Oh! peccados! 
Vai-te embora, que Tem gente t. • . 



MODINHAS 



TROVADOR 

m 

Trovador, tudo isso d rerdade : 
A mulher é tjranna — é emel; 
A mulher, com ternura nos olhos, 
Voe embebe noe lábios o fel. 



5S TROVADOR 

Porém, YÓB, ó tTraxmos, nSo yêdes 
Que BoU eauaa de todo o seu mal ? 
Que sem pena, sem dó, sem piedade, 
Sem cessar lhe crayaeB o punhal? 

Podeis Yós, por ventara, negar 
Ser com ella em tudo tjrannos? 
Vossas leis sSo tornais uma escrava, 
Ou mantel-a com vossos enganos. 

Podereis, por ventura, negar 
Que, senhores de sua fraqueza, 
Abusaes d'essa força que tendes. 
Para bem rebaixar vossa presa? !••• 

A mulher é um ente sublime. 
Porém vós n8o amaes as fieis; 
Com o exemplo de vossos enganos 
As fazeis igualmente cruéis. 

NSo amaes, certamente, a mulher 
Que, sincera, por vós dá a vida; 
Abusaes d'um amor extremoso. 
Com excesso amaes a infida. 

Porque ^itSo &llaes, ó infames. 
No geral, insultando a mulher. 
Se, depois de roubar-lhe o socego, 
D'ellas gozos o homem só quer? 

Se a mulher, em astúcia, vos vence. 
Se, sensível, por vós é pisada; 
NSo amaes a doçura — os excessos. 
Só astúcia por vós é prezada. 

Quereis, inda, ó monslros, negar 
Ser verdade o que digo de vós? 
Que, sem pejo de serdes malvadoS| 
InfiEimaates sois sempre de nós I 



« 



( 



TROVADOR &8 



Se soabesseis prezar a virtade 
Da mulher que vos sabe adorar j 
PoderieiSi entSo, conhecer 
Qae a mulher só nasceu para amar. 



SB EU FORA da noite O ASTRO F0BH080 
Foaria do ma. F. H. A., e mtuioa do snr. José Bufinod^Oliveira Costa 

Se eu ftra da noite o astro formoso, 
Em teus lindos olhos quizera brilhar; 
Teus negros cabellos soltara aos ares, 
Se ftra das praias a briza a rolar. 

Se eu ftra da noite o eoko sentidoí 
^la £il]a — inspirado — quizera imitar; 
Se eu ftra das aves a ave mais linda, 
No brago de neve iria pousar. 

Se eu ftra das flores — a flor predilecta, 
De teus meigos olhos quizera um olhar; 
Se eu ftra uma pomba — ou rola innocente. 
Teus dSeea afagos quizera gozar. 

Se eu ftra uma trova — ou verso singelo, 

fin teus dtees lábios quizera pousar ; 

Se eu ftia uma lyra de cordas douradas, * 

Por teuB débeis dedos quizera passar. 

Mas eu nSo sou astro, nem lyra, nem eoho, 
Kem .Te, nem trav., nem bri» áo m»; 
Sou homem que sente, que soffire, que geme, 
Qae canta na terra, o que pôde amar. 



51 nOVADOR 



ANJO 



Poma de Caaimiro de Abrea, e musica do sor. Hi^go Buasoou^fer 

Eu era sombrio e triste. •• 
Contente minh'alma é. 
Eu duvidava sorrir, 
E ji no amar tenho fé. 

Um anjo veio — e deu vida 
Ao peito de amores nú, 
Minh'alma, agora remida, 
Adora um asgo — que és tu. 



REOTATIVOS 



A VIRGEM DOS MEUS SONHOS 

Poesia de A. L. Ferras Castro, e musiea de «•* 

Nas horas tristes da mudez da noite » 
Eu velo, eu soísmo — sem poder dormir; 
Vejo — entre sombras — a gentil donaelk, 
Por quem meu peito sabe só sentir 1 

E se adormeço -—nos meus sonhos passa 
Sua tSo linda e divinal visZo ! 
Busco fidlar-lhe, e esmoreço a medo, 
E embalde intento lhe beijar a udtol 



CMTAIKm S5 



Que BÍiia a minha! — que cruel tapplioiol 
Tel-a a mea lado — aem um gosto ter^ 
Qoe geoio é esM que o temor me iniptra, 
Que em taataa dores me fará morrer? 



E quando acordo — delirante sempre — 
Choro esse eonho que passou-se entZoi 
Emhora eu saiba que é mentido tudO| 
Loueas insomnias de fiel paiz2oJ 

Ail quanto soAne ii'csto amor que nutro] 
Quanto tormento por amar sem fim I • •« 
E quantas scismas — que cruéis d el i ri ai 
Nlo sinto sempre se^passar em miml 



PERDOA 

Perdfia, ó yirgem, se em momento louco 
Calquei aos pés de tua c'rÔa as flores; 
Perdfia ao joven que to amou com anda, 
PerdSa ao crente a quem só désto dores. 

Perdtai ó aigo, o desvairar -de um moço, 
Qae envolto em mágoa se atirou á orgia; 
Perdoa ao naufrago de escrabosa senda, 
Perdoa áquelle que to amára um dia. 

Perdoa, archanjo, ao atrevido nauta 
Que, sobre as vagas, seu batel partiu. 
Perdoa ao peito do descrente moço, 
Qoe acerbas dores só por ti oortiu. 



:i:x 



TROVADOR 

Perdte, densa — me horrorisa a morte, 
E eu já me vejo do abjamo ás bordas; 
PerdBa ao vate que cantou-te n'harpa, 
Tendo4he o tempo carcomido as cordas. 

Molher, perdda mens impuros beijos 
Que sobre a £ftce te imprimi com anda; 
Mulher perjura, me roubaste as flores 
De minha c'r6a, no sorrir da infancia. 



Perdda víbora, ao marinheiro ousado, 
A quem murchaste sua verde palma; 
Perdoa, e vê como eu vivo triste, 
Condemna o corpo, mas perdfta á ahna. 



«7. M. Mancebo* 



ROMANCE 



AYIDA 

(tbb8 piiabvs) 
Poena do sqr. ▲. J. âe Sonsa, e miudca do snr. A. L. Moura 

MANHA 

Ao primo alvor 
Da vida em flor, 
É tudo odores. 
Tudo primores. 






TROVADOR 57 

O céo é paro, 
Bello o fatnro, 
Sempre folgança, 
No peito esperança» 

£ a yida um céo de amores 
Hatisado de mil flftreu, 
E nm ledo paraiso 
De eterno riso. 

Doce ilIusSo, 
Bafejo d^alma, 
Do coraçSo 
Transpira a calma. 

Ê a manhS 
Leda e lonçl 
Da primavera 
Que n'alma. impera. 

TABDE 

Ao meio dia, 
Sem harmonia, 
Da. existência 
Muda a essência. 

Kto é a Tida 
Já tSo florida, 
O céo tSo puro, 
Ledo o futoro. 

Nossa estrella empallidece. 
Nosso céo se obscurece. 
Nossas flores matizadas 
Tombam crestadas. 



58 noTÁMm 

VadUa a crença, 
Duvida immenaa 
No ooraylo 
Soada a raeSo. 

Taidtt da vida, 
Meio descrida, 
A nuvem d'ouro 
Muda em agoura. 

NOITB 

À noite o céo 
De umbroso véo, 
Tnya os negrores 
Cheio de horrorea* 

Soluça a alma 
Perdida a calmai; 
Foge o futuro 
N'um cahos escuro, 

É a vida um céo de homres 
Semeado de mil dôres, 
Negra copia do inferno, 
De pranto eterno. 

Morre o sorriso 
Perdido o siso; 
Da dõr no cumulo 
Só resta o tumulo. 

Crenças e flores, 
Perfume, amores. 
Tudo se esvaí 
Da morte ao ai« 



tBoyáJxm 89 



lundCs 



MENINA TOSSfi KE OIGA 

Menina yoesê me diga 
Para qae é tSo ingrata? 
Se conhece os meus agrados, 
Porque tanto me maltrata? 

A amizade que me tinha 
Ê poedyel que perdesse? 
Assim é que yossô paga?«.« 
Qnem mais faz menos merece* 

Nlo zombe tanto de mim, 
Attenda i minha expressio; 
Os meus lábios só exprimem 
O que sente o coraçlo. 

Se seguir a maltratar-me, 
Tem de vêr-me exasperar; 
Eu já nSo posso viver 
Tsnto tempo a suspirar ! 



A8 CLARINHAS E AS MORENINHAS 

Babo-me todo, 
Vendo mocinhas 
Quer sejam claras, 
Quer moreninhas. 



M TROVADOR 

Gosto das claras, 
Fallo a verdade, 
Mas nSo lhes tenho 
Grande amizade. 

Amolas por gosto. 
Brinco — namoro, 
Mas, seriamente, 
N8o as adoro. 

Jamais por claras 
Sinto paixSo; 
Eu nunca amei-as 
Do coraçKo. 

Brinco com ellas 
Por divertir, 
Matar o tempo, 
Zombar e rir. 

Mas as morenas I 
Jesus I d^aqijiellas 
Que sKo da gema. 
Morro por ellas! 

Ao ydl-«s, fico 
De amor acceso, 
E pelo beiço 
Me sinto preso. 

As moreninhas 
Fazem-me tolo; 
Ellas me tiram 
Todo o miolo. 

Desmaio, choro. 
Se chego a yêl-as; 
E meu destino 
Morrer por ellas. 



TROVADOR 61 



MODINHAS 



TROVADOR 



(neuxDA dbfbsa) 



Trovador, eu lastimo comtigo 
D'e88a ingrata o insano rigor; 
£ do pranto qoe vertes — tão triste — 
Ea bem vqo o cruel dissabor. 

Eo detesto a mulher que do peito 
Te cravara o espinho da dôr; 
Ahl esquece a perjura qae adoras, 
Mas, por Deus I acredita em amor t 

O amor da mulher é sublime, 
Ms do céo qual lampejo divino; 
£ estrella brilhante e serena, 
Que precede ao clarão matutino. 

O amor da mulher é qual bríza 
Quando á tarde suspisa saudosa; 
É a fonte que, doce, murmura 
N'uma praia deserta — arenosa. 

A mulher é um ei^te infeliz, 
O seu fiado é soffireiç e amar; 
Quando os homens as tomam esoravas, 
Inda os ferros vBojoàeigas beijar. 



U TilOTAIKIll 

 coitada, illadida, BÍncera, 
Qtiiz no homem firmeza encontrar; 
NSo prevê qtte quando elle jura, 
à mulher só procura enganar. 

A mulher é ludibrio da sorte 
Quando é firme, constante e fiel; 
Mas os homens o culto lhe rendem, 
Quando é feJsa, perjui;a e cruel. 

Para exemplo tu tens essa Helena, 
Que o consorte, trahindo, deixou; 
Pois por ella ser falsa e perjura^ 
Foi que Paris tSo cego ficou. 

O amor da mulher é perfume 
Que se exhala de niveo jasmim; 
O amor da mulher é constante, 
N8o conhece limites nem fim. 

E porque uma quebrara os seus votos, 
Todas ellas perjuras nSo são; 
No amor da mulher acredita. •• 
Trovador, ahl nSo chores mais, nSo! 



LEMBRANÇAS BO NOSSO AMOR 

Qual quebra a vaga do mar 
Carcomendo as duras fragM^ 
Assim da saudade as vaga« 
O meu peito vem quebrar: 
O meu destino é pensar. 
Ingrata, no teu rigor; 
Ve que contraste de horror: 
Tu na minh'alma gravada, 
Da tua mente apagada 
Lembranças do nosso amor» 



TROVADOR 



13 



8e o 8ol desponta, eu lamento; 
Se Q 0ol se deepede, eu ehoro; 
Se a brisa passa, eu imploro 
CompaizSo p'ra meu tormento : 
Como nlo gozo am momento 
Do scnnno o doce favor, 
Alta noite, com fervor, 
Em ti minh'alma se inspira, 
Canto ao som da minha Ijra 
Lembranças do nosso amor. 

Mnlber, a lei do meu fado 
E o destino em que vivo. 
Depois de ficar captivo 
D'am gesto, d'um teu agrado : 
Sinto meu corpo vergado 
Ao peso do dissabor; 
Vai-mefogindoocalor... 
Ai qae me matam, querida. 
Saudades da nossa vida. 
Lembranças do nosso amor« 

O a^jo da morte pousa 
Ka minba fronte já fria; 
Vai passear algum dia 
Onde mea oorpo repousa : 
Da sepultura — na lousa 
QiM barde abafSEur minha dôr — 
Por piedade, por favor 
Planta um goivo, uma saudade, 
Signal da nossa amizade, 
Lembranças do nosso amor. 



M TROYADOB 



A SAUDADE KE FLA6ELLA 



A saudade me flagellai 
Mais zilo poflso em ti fallar; 
O motÍTO por que peno 

Devo sempre em mim guardar. 

* 

Mas se a sorte melhorar 
O sensível peito meu, 
Hei-de v6r-te no» meus braços, 
E depois voar a^ céo. 



Eu adoro a uma ingrata 
E nBo posso aborrecel-4ij 
E tio cruel minha estrella, 
Que estou sempre a suspirar. 



.• 



Has se a sorte — ete. 

Recordando que teu nome 
N'um verde tronco escrevi, 
Fui beijal-o, e, quasi louco, 
Julguei- dar um beijo eia ti. 



Mas se a sorte — etc. 



Salvador Fabregas, 



* 



.♦ 



H 



s 






TROVADOR 65 



RECITATIVOS 



HÃO SEI QUE snrro 

NIo sei que sinto, quando junto a ti 
Momentos passo de prazer immenso; 
KSo sei que sinto, se a teu lado gozo 
Delicias puras d'um amor intenso. 

Nlo sei que sinto, a minh'alma tema|. • 
De dita infinda se embriaga entSo; 
£ n'6Bsas horas, que se passam rápidas, 
Eaqaeço dores que pezar me dSo. 

Nlo sei que sinto, se um instante buscas 
A minha mZo para á tua unir; 
Do encanto dõce, que me prende a ti, 
EntSo quizera m'esquiyar. • • fiigir ! 

KSo sei que sinto, — um tremor convulso 
Me agita o corpo como o vento á flor; . 
£, como ella, eu me curvo ao poso 
De teus extremos e — constante amor. 

Nko sei que sinto, quando te nSo vejo. 
Pena infinita me consome e rala; 
Se te contemplo, meu penar olvido. 
Meu peito exulta, — meu soffrer se cala. 

Mas... ah! bem sei! este fogo intenso 
Que o peito abraza, devorando a mente, 
Estes transportes que me offuscam — sSo 
BeliríoB d'alin»-é om amor ardente! 



Por uma javen fluminense. 

5 



66 TROVADOft 



A BRUMA 

Bruma cinérea de invernosa vida, 
Onde, pendida, vaes esquiva assim?. •• 
Ai! nSo me fujas, que este céo te mente, 
Que elle nSo sente quanto eu sinto em mim. 

Qaeres amores tu gozai* no enleio 

D'um triste seio, no harpejar da d$r?,.. 

NSo corras tanto, que o tufSo te cança.^. 

Ail da bonança no cançado ardor. •• 

• 

Vês no infinito qual azul se ostenta?*. • 

Vês suarenta, meiga nuve'alli?. . • 

O sol requeima-a: — triste sorte dura! 

Fora tSo pura, como és pura aqui. 

Vês tanto azul de que se tinge agora 
A meiga aurora n'essa negra cor? 
Vês mais a nuvem junto ao sol Mnda? 
Eii-a que finda no tormento a dôr. 

Bouco trovão a estalar de irado. 
Esse enrubado — e assustador fíizil, 
NSo vês, louquinha, este mentir perjuro?... 
Ai ! tanto escuro no teu céo de anil ! . • • 

Ail que sumidas na procella as cores 
Das tristes flores da esperança eu vi I 
Hoje só restam resequidas crenças, 
.Trevas immensas, minha Bruma, a ti I • • • 

NSo corras tanto, que o tufSo te*cança. 
Ai! que a esperança te fistrásoffr^... 
Quebra a anciedade, no parcel da vida. 
Se a tens perdida — vem aqui morrer. 



Jvlio da Oama. 



TROVADOR 67 



LUNDU 



ESPANTA O GRANDE PROGRESSO 

Espanta o grande progresso 
D'esta nossa capital, 
Decresce o bem por momento, 
Cresce a desgraça e o mal. 
A carestia de tndo, 
De grande já nSo tem nome, 
O pobre morre de fome, 
De miséria e de traballios. 

Em bellos carros 
O rico corre, 
O pobre morre. 
Sem que comer; 
Tudo é soffrer 
Para a pobreza; 
Só a riqueza 
Vive contente : 
Mortal que vive 
De seu trabalho, 
N3o tem um canto 
Para agasalho. 

Sinbi, nSo me peça dinheiro, 
Q\^e eu nSo tenho para lhe dar; 
Quando nSo estou de guarda. 
Paia folga, eu vou rondar. 

A carne secca tSo caral 
Cada vez o preço cresce, 
O monopolista á custa 
Da pobreza 8'enriqueoe* 



68 TROYÂBOft 

No8 açougaes carne podre, 
Kas roas leite com agua, 
Cansa dõr e causa magoa 
O pSo de tSo pequenino. 

A dez tostSes 
^into gosmento, 
Fe^Xo bichento 
A peso d'ouro; 
Toucinho couro 
E já tocado, 
Café torrado 
Com milho podre; 
Todos os mezes, 
For alugueis. 
Quatro paredes, 
Trinta mil reis. 

Sinhi, nSo me peça dinheiro, 
Que eu nSo tenho para lhe dar; 
Quando nSo estou de guarda. 
Para folga^ eu vou rondar. 

Pejam as ruas mendigos. 
Ha ladrSes por toda a parte. 
Em breve nos darSo leis 
A fiica e o bacamarte. 
Por altas horas da noite 
Inyadem nossos poleiros, 
E nos leyam, ratoneiros, 
A creaçSo dos quintaes. 

Té as torneiras 
Já nSo escapam. 
Pois tudo rapam 
De mn modo estranho; 



nOYADOK ^ 

Pretos do ganho 
SBo espreitados, 
Apâs roubados 
Pelos gatunos. 
Em grandes festas, 
Bailes, passeios, 
Sempre acham meios 
De ratonar. 



Sinhá, nSo me peça dinheiro, 
Que eu nZo tenho cara lhe dar; 
Quando nSo estoa de guarda. 
Para folga, eu tou rondar. 

FeijSo, milho e assucar, 
CSame e peixe já cozidos 
NoB vem das terra dHSuropa, 
Vem dos Estados-Unidos; 
Em quanto o monopolista 
O seu negocio equilibra. 
Vendendo a pataca a libra, 
Vai o pobre á carne secca. 



Quatro pimentas 
Por um vintém. 
Só quem o tem 
Pôde gozar; 
Quem quer comprar 
Alguns limSes, 
Dá douB tostSes 
Por um somente: 
Viva quem vive. 
Morra o regresso, 
Viva a naçXo, 
Viva o progresso 1 



70 TROTIDOR 



Sinhi, nSo me peça dixdieiro, 
Qae ea nSo tenho para lhe dar; 
Quando nSo estou de guarda, 
Para folga, eu tou rondar. 



MODINHAS 



LEMBRANÇAS BO NOSSO AKOR 

(bbbposta) 

Se 08 sentimentos de outr'ora 
Inda ezÍ3tem no teu peito, 
Doesse passado desfeito 
NSo posso lembrar-me agora: 
Meu ooraçSo outro adora, 
Hoje nSo tenho-te amor; 
Se é fraqueza, ou se é rigor, 
PerdSo imploro clemente, 
NSo posso guardar na mente 
Lembranças do nosso amor. 

Este peito nSo é meu, 
Já o dei a outro amante; 
Porque buscas, inconstante, 
O que nSo pôde ser teu? 
Jurei-lhe á &ce do céo 
Amal-o com firme ardor; 
Yè o contraste de horror: 
De minha mente exclui, 
E nem me restam de ti 
Lembranças do nosso amor. 



nOYADOR 11 



O tempo desfas a ma^oái 
I>e8troe humana grandeza) 
Da vida, gloria e riqueza 
Até a esperança se apaga; 
Talvez que o tempo te traga 
Bemedio p'ra a tua dôr; 
Só eu mereço um favor: 
Se inda me tens amizade, 
Klo conserves — por piedade 
Lembranças do nosso amor. 

N2o suspires e não chores, 
NSo me magoes est'alma, 
Vai amar outra -^ e acalma 
Teu sofrer n'estes amores; 
Quando cadáver já fores, 
NZo me pedes, trovador. 
Que vá plantar uma flor?.*. 
Pois ella deve morrer, 
E nunca mais ha-de ter 
Lembranças do nosso amor. 



SDPPLICA 



(VOYA MODIUHa) 



Para aer cantada pela musica da modinha — Nào te esqueças, Marília, 

de mim 



mo te esqueças de mim, ó donzella, 
Odiando alegre gozares amores ; 
TSÍMo te esqueças de mim, quando triste, 
Só, me vires luctando entre dores! 



n TBOTADCHI 

NSo te esqueças de mim, qtutndo i noite 
Escatares o triste descrido; 
NSo te esqueças de mim, quando & lua 
Um suspiro escapar-me sentido. 

NSo te esqueças de mim, quando, 6 bella, 
Reclinada sonhares na ventura; 
Pois que o pobre, n'um leito d'espinlios, 
liba o caliz de negra amargura. 

NSo te esqueças de mim, quando a lua 
Fôr, contente, teus lábios beijar; 
Vem ouvir os pungentes lamentos 
De quem vive saudoso a chorar ! 

NSo te esqueças de mim, ó meu anjo, 
Que padeço sem ter mais ventura; 
Corre a dar-me um sorriso dos teus, 
Emanado d'ess'alma tSo pura. 

NSo te esqueças de mim, quando ouvires 
Os tangeres dos sinos da sorte; 
Lembra aquelle que amou-te na vida. 
Que hoje dorme no leito da morte. 

Adeodato Sócrates dê Méllom 



novAMR 78 



RECITATIVOS 



ESFERAirÇA MORTA 

• 

Qae me importam dliarpa sonorosos cantíoos, 
Qae me importam graças, da manhS o alvor; 
QoB me importam olhos cliammejantes, viridos, 
Se nXo tenko crença, se nSo tenho amor?* 

Que me importam bailes em salSes esplendidos, 
Que me importam Tozes do melhor caútor; 
Qae me importam galas d'este mondo fol^daa, 
Se nSo tenho cr^aça, se nSo tenho amor? 

Que me importam os lares que deixei na infância, 
Qne me importa o aroma da mais bella fl6r; 
Que me importam gozos dos mens dias plácidos, 
Se nSo tenho crença, se nlo tenho apaor? 

Que me importam lábios, ou sorrisos cândidos. 
Que me importam faces de porpnrea c8r; 
Que me importam phrases, ou suspiros languidos. 
Se nSo tenho crença, se nSo tenho amor? 

D. Maria J. Martinê de Carvalho» 



VBMk E PROCEDE 

Pensei, quando te dei de amores flores, 
Qae de tu'alma a palma obteria; 
"È aoÊresr o prazer, descrença a crença. • • 
DepsI quanto senti por ti, Maria I 



lê nOUiMNI 

Do paraiso am riso achavas, dayas, 
A quem no peito um leito te sagrou ! 
Mas hoje foge, vai-se, esvú-se o sonho 
Tio lindo, infibdo, que a paixSo matou I 

Desperto, e perto, nevoeiro inteiro 
Âo pobre encobre festival porvir! 
D'outr'ora, agora, o desespero austero 
Renovo, provo n'um cruel sentir! 

A fSe^la amada, de cabellos bellos, 
Morena,* amena, no gentil fallar, 
Jura, perjura, vai mentindo, rindo. 
Dando, tira&do traiçoeiro amar!... 

• 

Separa... pára!. .. Vaes caminho asinhol 
Concede, oede a paz ao teu viver! 
Ai! tanto encanto dá contento, augmento, 
A calma â'alma que nSo faz sofFrer! 

Revive, Tive nos teus passos lassos... 
Mas olha — ahtolha-se a mortalha fria! 
Ent^ perdSo irás, contrita, afflicta^ 
Dos males teus a Deus pedir, Maria! 



i\ a Tertige' de um tormento lento 
Betira, atira a virgindade ao chSo ! 
Pensa na crença que á menina ensina 
O anjo archanjo, maternal condSo. 

Ainda és linda ! Tio criança, laoiga 
A vista á lista das perdidas Lais ! 
Nos factos gratos da materna, etoma, 
Bude virtude, uma liçSo terás t 



L.IVÍX. 



TROVADOR 75 



lundC 



ESTAMOS NO SÉCULO DAS LUZES 

'StMiíios no 0ec'lo das lazeSi 
Já nSo ha que duvidar; 
Temos gaz por toda a parte 
Para nos alumiar I 

A, E, I, O, U, 
Vamos todos aprender, 
Já se ensina de»repente 
. Sem as letras conhecer. 

Temoa estradas de ferro 
Para- mais depressa andar, 
Todos Uknde correr tanto 
Que por fim hSo^de cangar. 

BA| be^ bi, bo, bu — ete. 

Já com noTO calçamento 
Vejo as ruas se calçar, 
Defino ft^pato e meia 
Já se pôde pa£»ear. 

Çai ce, ci, ço, çu — etc. 

Jà^ie alacgam as mas, 
A da Qano é a primeira, 
Hoje tudo sSo progressos 
De funosa ladroeira. 

Da, de, di, do, du — etc. 



76 TROYADM 

Âgtui Biija, cisco e iaclo 
Já se nSo deve ajuntar, 
Ê ró Unç«r-M n» i«t 
Que as carroças Y^n buscar* 

Fa, fe, fi, fo, & — elo. 

Já se segaram as TÍdas, 
Já se nSo deve morrer, 
Quem tem sua creoulinba 
NSo tem medo de a perder* 

Ga, gue, gui go, gu— etc. 

Temos agua pelos cantos, 
Que sempre estSo a correr. 
Sujo já por falta d'agna 
IHiiguem mais deve morzer* 

Ja» j«j }h JOj j'* — ^^ 

Já temos grandes tkeatros, 
E a empresa quer crescer; 
Estamos n'um céo aberto, 
Isto, sim — é que é viver! 

La, le, li, lo In— eto. 

Quando ha fogo na «ndade 
S. Francisco dá o avisoj 
O castello corresponde 
Com três tiros á Oabiso. 

Ma, me, mi, mo, mu — eto* 

Os estrangeiros se empi^gam 
N'essa nova exploraçlo; 
Nada tondo de fortuna, 
Vem ganhar um 



Na, ne, ni, no au — ete« 



3MTAD0R ^^ 



Natíonaes de bocca aberta^ 
Nada trado que comer, 
jComo boi de canga ás cOflias 
Caladinlio . até morrer. 



P*> P®i Vh P^i P^ — ®*®' 

Co'â carestia dos géneros 
Como o pobre ba-de viver? 
Com um pequeno salário 
Como bonrado pôde ser? 

Ba, re, ri, ro, ru— etc* 

Os poderosos nSo querem 
Com os pobres se importar ; 
O pobre cbeira a defunto, 
Pois só sabe Importunar. 

Sa, se, si, so, su— etc* 

Eis o que é o paiz natal 
Dos filhos que viu nascer; 
Qualquer estrangeiro á tôa 
Vem aqui enriquecer. 

Ta, te, ti, to, tu— etc. 

Ji temos, por f licidade, 
Helbor colcmisação; 
Felizmente se acabou 
A fèsgra espeeulaçSo. 

Va, ve, vi, vo, vu — etc. 

Os transportes sXo immensos, 
Quer por terra, quer por mar ; 
Até se pôde seguro 
Já navegar pelo ar. 

Xa, xe, xi, xo, xu— etc. 



78 TBOTASm 



Emfim, lUBgaem pdde j4 
Duvidar da perfeíçZo; 
Que nSo ha eeçlo, oomo arte|% 
De maior iUnstraçIo. 

Za^ ze, zi, zp, m, 
Já podemos aprender,. 
Já se ensina de repente 
Sem as letras conhecer. 



MODINHAS 



QUANTO ÉS BELLA!... 

(ffOYA modinha) 

Para sor cantada pela musica da modinha— âMke» com mU fiôres 

Amor, enraivado 
Um dia se achava, 
Por vêr que só d'dUe 
Armania zombava. 

De seus áttractívoB 
EntSo se esquecendo, 
A setta prepara, 
Mais nada prevendo* 

Celeste beldade 

Eis que lhe apparece. • • 

A setta reprime, 

A Veniui conhaoe I • • • 



TMTAOOR TO 

c Em vÓB nlo qoiíera », 
Lhe diz o menino, 
c Agora moBtrar-me 
Tio duro e ferino. 

c Tomei-Yos por ella. • • 
Por cópia da ingrata, 
Que zomba de Amor, 
Que tanto o maltrata. » 

«7. M» Mourão. 



unir ALMA É TRISTE 

Poeda de Casimiro de Abreu, e muflica de ««« 

Minh'ahDa é triste como a rola afflicta 
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora, 
E em doce arrulho, que o soluço imita, 
O morto esposo gemedora chora. 

E, como a rola que perdeu o esposo, 
Minb'alma chora as Alusões perdidas, 
E no seu liyro de fanado gozo 
Belê as folhas que já foram lidas. 

E como notas de ehoroea endeiza 
Seu pobre canto com a dôr desmaia, 
E seus gemidos sZo iguaes á queixa 
Que a yaga solta quando be^a a praia. 

Como a criança que banhada em prantos 
Procura o brinco que leyou4he o rio, 
]finh'alma quer reeuscitar noie cantos 
Um 8Ó dos lyrioB que murdieu o estio. 



80 TROYABOl 

Dizem que ha gozos nas mandanaB galas, 
Mas eu nSo sei em qae o prazer oonsiste, 
Ott só no campo, ou no rumor das salas, 
NSo Bei por qae, mas a minh'alma è triste ! 



TIVEHDO DE TI DISTASTE 

Poesia de uma nitheroyhenae, e musiea de J. J. Bernardes 

Vivendo de ti distante 
E sempre em grande afflicçSo, 
De saudades tenho oppresso 
O ineu leal coraçSo, 

Se tu de mim 
NSo te esqueceres, 
Ainda terei 
Divos prazeres. 

Se inda em teu peito existe 
Aqudia mesma paixSo, 
Vem, que ancioso t'espera 
Um saudoso ooraç2o. 

Se tu de mim 
KSo te esqueceres, 
HSo-de ter fim 
Os meus lazeres. 

Juraste — eu também jurei 
Por Deus, que entSo nos ouvia. 
Que findaria esse amor 
Ko fímdo da campa fria. 

Ojuramento 
NSo quebres — nlO, 
Que ainda é constante 
Métt eoraçSo* 



j 



TROVADOR 81 

GEMO NA DURA PRISiO 

Qaando de Analia eu reparo 
A sublime perfeição, 
Caio nos laços de amor^ 
Gemo na dará prisão. 

De Analia vencer não posso 
A menor contemplação, 
Cadêas, ferros arrasto. 
Gemo na dura prisão. 

• 

Se a linda Analia qaizesse 
Socegar meu coração. . • 
Mas não quer, sou desgraçado. 
Gemo na dura prisão. 



RECITATIVOS 



k LUA 



(^tíb fases, risonha, mirando estes mares. 
Suspensa nos ares — vagando nos céos? 
Quem és? que mysterio ! revela o segredo, 
Bevela, que é cedo — se és filha de Deus! 

O dôoe cortejo de estrellas mimosas, 
Grentis, luminosas — te seguem p'ra aléml 
— Expande, não temas — teus languidos ri 
£ ii'e88es desmaios — me falia também! 



se TROViiBOR 

Se fallaS) conversas — conversas sósinha? 
Caminha... caminha — mas diz-me o que és: 
Es mundo perdido no céo purpurino, 
Ou throno divino — da Virgem aos pés? 

Espera! não fojas, nSo fujas do dia, 
Celeste magia — nSo cances, derrama! 
Eu amo-te os meigos — os ternos palores 
No laivo de amores — que o peito m'inflamma f 

As 'flores te adoram, que orvalhas sahindo, 
Das nuvens fugindo — ligeira a brilhai*, 
O lago alvacento nas aguas do prata 
Teu porte retrata no seu soluçar! 

Os montes altivos e serras tu beijas, 
A relva vicejas — do campo a morrer ! 
És astro de amores — vagando nos ares, 
Tombando nos mares — rolando a correr! 

Ah! dize, nSo cales, se és praga de fada. 
Ou alma penada — no espaço perdida. 
Ou noiva de um santo — tSo alto emb&lada, 
Ou prece sagrada — de um ai\jo cahida? 

Se foste da terra, que sina é a tua?. • • 
NSo fujas, oh lua — não fujas do dia; 
Eu conto-te os transes — e as magoas do seio, 
E o férvido anceio — qu'est'alma angustia. 

As paginas soltas do livro da vida 
Soletra, querida — se foste da terra! 
Porém, vagabunda — se foges errante. 
Na luz vacillante teu manto descerrai 



r 



i 



TROVADOR 83 

SSo horas propicias — que dôcos momentos 1 
Aplaca 08 tormentos — que eu soffro comtigol 
— Espera! do vento no plácido açoite, 
Princeza da iv>ite — conyersa commigo! 

Pelo fallecido João Rodrigues Proença. 



AO SOL 



Que fazes — possante — no ar dominando, 
Teu fogo espalliando — por montes e vallés?. . 
Sevela quem deu-te tamanho poder, 
Bevela o teu ser — revela, nâo cales. 

O mundo se agita apenas despontas, 
Apenas apontas — ao longe fulgindo; 
Mil hymnos da terra ao céo se levantam 
Das aves que cantam — aos ninhos fugindo. 

Do prado as florinhas esperam contentes 
Teus beijos ardentes, repletos de amor; 
A relva mimosa, de orvalho banhada. 
Espera curvada — teu doce calor. 

Em toda a natura renasce alegria, 
Apenas o dia — em teu carro se mostra; 
Até do deserto o selvagem feroz, , 
Correndo veloz — contrito se prostra. 

Que mago deleite, que doce langor 
Teu vivo calor — nos lança dos ares, 
Nas horas da sesta, lá quando dominas 
As Vttrdes camninas — o leito dos mares ! . • • 



^ 



81 TROVADOR 

I 

EntSo ta imperas da briza aos bafejos, 
Mil loucos desejos — fazendo sonhar; 
Porém — sobranceiro — »ao mundo soriindo, 
Tu yaes pros^guindo — no teu*caminliar. 

E quando completas teu giro no espaço, 
E yaes no regaço — do mar t^indinando; 
Que santo mysterio! que doce magia, 
Que meiga poesia yaes tu espalhando ! • • • ' 

Do prado os cantores te mandam do seio, 
Em doce gorgeio, cançSes sonorosas ; 
Nas azas da briza te mandam as flores 
Suaves odores — das pet'las mimosas. 

Oh sol I • • • quem és tu, que lá d^essa altura 
A toda a natura — dás tanto esplendor?. . . 
És rei do universo, do céo habitante. 
Ou £ekcho brilhante — nas mãos do Senhor?. . • 

» 
Âh ! • • . diz-me o segredo de tua existência, 

Bevela a essência — que encerras comtigo ; 

A* luz de teus raios, em basta floresta. 

Nas horas d^ sesta — conversa commigo. 

A, J. de 8<nh$a. 



HA60A E SAUDADE 



Pallido o rosto, sobre a mSo mimosa, 

Vejo-a saudosa, succUmbindo á dõr; 

Sua alma apraz-se na agonia lenta, 

Que mais lhe augmenta um desgraçado amor< 



TROVADOR 85 



Longe, bem longe, no scismar ancioBO, 
Busca o ditoso, a quem oatr'ora amoa, 
£ que, sem alma, desprezando prantos, 
Laços t2o santos, sem pezar quebrou* 



Porque, sem dó, espedaçaste os sonhos 
H^gos, risonhos, de tSo puro amor? 
Porque trouxeste em apparencia calma, 
A morte dUma i mwis bdla fidrí 

Dize-me : acaso nSo choraste ao vêl-a 
Tio triste e bella na fatal mudez? 
£ sem piedade a tSo leaes extremos, 
Disseste: amemos, a sorrir, talvez? 

Dize-me : acaso mel*eceste a chamma 
Que ainda inflamma o sen ardente olhar? 
IMze-me: acaso mereceste os prantos 
E 00 lindos cantos de quem soube amar? 

Maldito aquelle que murchou a rosa, 
Pura, mimosa, de celeste alvor 1 
Maldito aquelle que zombou da (arença 
Única, immensa, do mais santo amor ! 



Por um nitheroj/hente» 



86 TROVADOR 



LUNDU 



É PENEIRA NOS OLHOS QUE TEM 

As peneiras no mundo só servem 
Para riso, vergonha e desdém, 
E os homens os mais intruidos 
Tem peneira nos olhos também. 

Toda a moça que vai p'ra a janella 
Esperar o amante que vem, 
Quando a mãi vem a ser sabedora, 
Tem peneira nos olhos também. 

Toda a moça que gosta de bailes, 
É porque n'isso interesse ellas tem, 
Quasi sempre por estes lugares 
Ha peneira nos olhos também. 

 mamã que deixa suas filhas 

Com seus primos — por homens de bem, 

E depois arrependem-se e casam, 

Ê peneira nos olhos que tem. 

Certos velhos com falta de tino, 
Que inda tentam casar-se mui bem, 
Quando pensam que os filhos sSo d^elles 
É peneira nos olhos que tem. 

Toda a moça que cose por machina 
E que julga coser muito bem, 
Dando pontos de légua e meia 
Tem peneira nos olhos também. 



TROVADOR 87 



MODINHAS 



VEM, DONZELU, NA HORA EXTREMA 

(iCOVÂ modiuha) 

Vem, donzella, na hora extrema 
Cinge ao meu teu casto seio, 
E corando em mago enleio^ 
y«m dizer um triste adeus. 

Adeus, rosa d'ÍDnocenciay 
O virgem dos sonhos meus ! 

N'am sorriso teu divino 
Unge o raio de esperança, 
E qual astro de bonança 
 minha noite illumina. 

Adeus, Ijrio de candura, 
Adeus, fada peregrina. 

Dá-me um só beijo. .. com elle 
Mitiga da ausência as dores; 
E bem tsomo a aurora ás flores, 
Me orvalha o sonho amoroso. 

AdeuB, flor, celeste virgem, 

Minha fada, anjo formoso. 

« 

Cândido José de Araújo Vianna, 



•8 TROVADOR 



A DESPEDIDA 



Poesia do falleoldo dr. Laurindo Eebollo, e musica do snr. J. L, 

de Almeida Cunha 



AdeuBi adôUB, é chegada 
A hora da despedida; 
Vouj que importa, se te deixo 
N'este adeus a minha vida? 

Foste ingrata aos meus extremos, 
Nto te peço gratidSo; 
PerdSo para os meus carinhos, 
Aos meus amores perdSo. 

Eu era um ente na terra. 
Tu eras um cherubim ; 
Deus tirou-te dos seus anjos, 
N8o nasceste para mim. 

Perdoa ao louco d'amor 
Esta estulta elevaçSo; 
PerdSo para os meus carinhos, 
Aos meus amores perdSo. 

O crime que commetti 
Foi muito punido já ; 
Castigou-me o teudes prezo. 
Maior castigo nXo ha. 

Castigado, reconheço 
Quanto é justa a puniçSo; 
Perdão para os meus carinhos. 
Aos meus amores perdSo. 



I 

A 



TROVADOR 



89 



Poaca vida já me resta ; 
Ea sinto qae esta amargara 
TSo intensa — muito cedo 
Ha^e abrir-me a sepultura. 

Do crime que fiz de amar-te 
Vem dar-me absolviçSo; 
FerdSo para os meus carinhos, 
Aos meus amores perdSo. 



ALÉM DE MEUS HALBS 



Além de meus males 
Vêr Mareia infiel| 
Zombar de meus prantos, 
Ser sempre cruel. 

Ê tSo caprichosa, 
E tSo fementida, 
NSo sabe essa ingrata 
Que me rouba a vida ! 
Oh Mareia, adeus. 
Eu morro, adeus. 

Da sorte os caprichos 
NSo me tributavam. 
Quando os lábios d'ella 
Um riso me davam. 

É tSo caprichosa — etc< 



90 TROVADOR 

E agora se uniram 
A ingrata e a sorte, 
Para gota a gota 
Me darem a morte. 



É tâo caprichosl^— etc. 



ADEUS, MEU ANJO 

Adetu9, meu anjo, que eu parto, 
P'ra longe de ti me ausento; 
Vou soffrer saudosas dores, 
Vou passar cruel tormento. 

Adora a triste saudade. 
Emblema do meu amor; 
Gravadas eu tonho n'alma 
Seu padecer, sua dôr. 



Oenuíno José Tavares, 



RECITATIVOS 



O SONHO 

Eu tive um sonho era que vi — senti 
Lucinda, linda, para mim partir; 
E 09 lábios bellos entreabrindo — rindo, 
Ditoso gozo demonstrar friur. 



TROVADOR 



91 



!Era seu rosto de encantos tantoe, 
Sereno, amenO| de morena côr; 
Pedi-lhe um beijo, e n'um engano lhano, 
Delirei| manchei seu Juvenil pudor. 

£lla, anciosa, n'e3se enredo ledo 
Furtivo, 'squivo um olhar lançou-me; 
Jalguei estar n'esse instante, ante 
Estrella bella que o céo fadou-me. 

Foi d'esses sonhos que a mente %ente. . • 
Dourado fado ao perpassar da vida. • . 
Sonho que indica mil venturas puras, 
Elstreito preito de existência fida. 

£ngano d'alma que existe triste, 
SofPrendo, crendo em ideaes primores. . . 
IllusSo fictícia que n'um momento lento. 
Contente sente quem sonhar amores. 

Mas despertando do risonho sonho, 
Liucinda, linda, jamais pude achar! 
N2o pude vêl-a ! mas. . . embora. • . agora 
Desperto certo de que a devo amar. 

Ricardo Francisco de Almeida. 



A NEBULOSA 



Poeaia do snr. Tito Livio, e musica do sur. José de Souaa e Aragào 

Já lâstes a Nebulosa 
Do fluminense cantor? 
NSo vistes a peregrina 
Que matou ao trovador?! 



92 TBOYÂDOR 

Assinii xnulheri tu me matas 
Com teus desprezos sem fim ; 
NSo tenhas tal isençSo, 
' Meu anjO| tem dó de mim. 

A flor de minha esperança 
Assim ta queres murchar? 
NSo te commove meu pranto, 
Inda queres me matar? 

Queres que faça em pedaços 
A minha Ijra querida, 
Que te diga eterno adeus, 
Ao depois termine a vida? 

Que eu morra porque te amo, 
NSo consintas, lindo archanjo; 
Mulher, acolhe os meus ais. 
Tem pena de mim, meu anjo. 



CANÇÃO 



O MARUJO 

Triste vida a do marujo, 
Qual d'ellas a mais cançada, 
Por 'mor da triste soldada 
Passa tormentos. 

Andar á chura e aos yentos, 
Quer de verSo, quer de inTomo, 
Que .parece o próprio inferno. 
Com tempestades. 



TROVADOR 



93 



As nossas necessidades 
Nos forçam a navegar, 
E passar tempos no mar 
Em aguaceiros. 

Paasam-se dias inteiros 
Sem se poder cozinhar. 
Nem tZo pouco mal assar 
Nossa comida. 

Arrenego eu' d'esta vida 
Que nos dá tanta canceira; 
Sem a nossa bebedeira 
NSo, não passamos. 

Quando descansados 'stamos 
No rancho a socegar, 
EntUo ouvimos gritar : 
— Oh I leva arriba I 



LUNDC 



O BANQUEIRO 



Musica do snr. J. L. de Akneida Cuaha 



O diabo da menina 
Commigo se enrabichou 
De tal modo, que por mim 
Um banqueiro abandonou; 



94 TROVADOR 



Daya-lhe o rico banqueiro 

Seiscentos mil reis mensaes, 
Ea por dia dou-lhe cinco, 
A menina pede mais. 

Pede maÍ8| mas nSo me deixa, 
Gosta mais do meu dinheiro. 
Acha mais gosto nas minhas 
Que nas notas do banqueiro. 

Trata as minhas com apreço, 
Trata as d'elle com desdém; 
Eu não sei, ella é quem sabe 
As minhas que gosto tem, 

O banqueiro é um labrego, 
Grosseiro por natureza, 
Talvez que as notas nem saiba 
Dar-lhe com delicadeza, 

Elle di notas mensaes, 
Eu dou as minhas por dia 
Com toda a delicadeza, 
Com toda a diplomacia. 

Ás vezes eu dou-lhe as notas 
Com geitos e modos taes. 
Que em suspiros, dá-me em troca 
Temas notas musicaes. 

Feito o troco, diz tomando 
A bolsa do meu dinheiro : 
Quem é que troca esta bolsa 
Pelo banco, de um banqueiro? 



TROVADOR 



95 



MODINHAS 



SE ÉS ANJO NO GESTO E BELLEZA 

Masica do snr. José Leite 

Se és anjo no gesto e belleza, 
Tens no |)eito de fera o rigor ! . . . 
Ai ! nSo temo tens feios enganos ! 
Já nSo sinto por ti temo amor! 

Desfolharam a flor de meus dias, 
Como o vento desfolha uma flori 
NSo quizeste que a flor fosse minha, 
Já nSo sinto por ti terno amor ! • • • 

De teus olhos n'am terno desmaio 
Vi escripta a traiçSo e furor ! . . • 
Enganaya-me a luz de teus olhos, 
Já não sinto por ti terno amor ! . • . 

Desfolharam a flôr de meus dias — etc. 



NAS HORAS QUE PASSO TiO TRISTB 



(hoya modihha) 



Para ser cantada na musica da modinha — O descrido 



Nas horas qae passo tão triste 
Bem recordo meus doces amores, 
Esses «onhos dourados de oxitr'ora, 
Esses prados cobertos de flores; 



96 TROVADOR 

Esses tempos tSo beUcs, tSo paroB| 
De floridas manhãs de arrebol, 
Onde ea, em palmares yirentesi 
NSo sentia os ardores do sol; 

Esses tempos... nSo quero lembrar-me! 
Morre o riso nos campos da dor; 
Soffire o peito, de magoa tranzido, 
Ao lembrar-me da quadra de amor. 

Da saudade o abutre voraz 
E só hoje meu doce prazer. . . 
A pensar só nos dias de outr'oraí 
Eu só peço, — só quero morrer ! 

Corra em faces doridas o pranto 
Da tristeza cruel a mim dado; 
Finde o cálix das fezes amargas 
Junto sempre do meu negro fGido. ' 

Tudo é findo p'ra mim, só as gotas 
D'esse pranto que corre-me forte 
Faz qu'eu triste — de tudo esquecido. 
Queira, rindo, abraçar-me eo'a morte. 

Adeodato 8oeraièê$ dê MMo. 



RÓSEAS FLORES D*ALTORADA 

Boseas flores d'alyorada^ 
Teus perfumes causam dôr; 
Essa imagem que recorda» 
E' meu puro e santo amor. 



i 



TROTABOR IOi 



Me chamaip TSgo, eê ccsUra e tal, 
Té animal disem j& qu'ea sou ; 
Pouco me importa qa'eUe3 tBo fallaado, 
Mesmo vagando — bem vivendo vou. 



QuaJòerto Peçanha. 



ROMANCE 



AHOR DE mi 



do snr. Elias Alves Lobo 



Sob as azas plumosas da rôla 
O âUlinbo piando se acolhe. 
Como em seio de mSi carinhosa 
Temo infante mil beijos recolhe. 

Sabe a rôla, arroubada de affecto, 
O seu filho contente a&gar; 
E a mSi, com extremo e enlevo, 
Doce somno d'infaneia embalar. 

Nossa mSi é o anjo inspirado 
Que na dôr ou prazer resplandece; 
Tudo acaba e destróe-se na vida. 
Só de mSi o amor nSo fenece. 

Se elle chora, ella chora com elle. 
Se elle ri, ella exulta também; 
Nossa mSi é um anjo sublime, 
Outro igual este mundo nSo tem. 



TRGfADOR 

Pôde o crime manehar a exirteneÍA 
D'am seu filho nos seios criado ; 
 mSi tema lamenta a desgraça, 
Mas nSo deixa seu filho isolado. 

Nossa mSi é om anjo inspirado. 
Que na dõr ou prazer resplandece ; 
Tudo acaba e destróe-se na vida, 
Só de mSi o amor nSo fenece. 



LUNDC 



A GÕR MORENA 

(■OTO Linn>{) 

* 

Resposta ao londú do mesmo titulo pabliosdo no n.« 1 do Troyádob 
por uma joTen fluminense. Para ser oantado pela mosica do Icm- 
dú — Mulatinha do caroço. 

Eu bem sei que é delicada, 

Apreciada, 
Da morena a viva oôr; 
Eu por ella também sinto, 

E nSo minto, 
O mais puro e santo amor. 

E' a côr mais delicada. 

Enfeitiçada, 
Que captiva o coração; 
Eu por ella sinto n'alma 

Dôoe calma 
Da mais ardente paizio. 



J 



TBOTASM 101 



E' mimosa, engraçadinha 

A moreninha. 
Me sedns a todo instante ; 
Puxo amor ea lhe jorei, 

Viverei, 
Qoal leal e fido amante. 

Ea serei, e hei-de ser, 

Ai% morrer, 
Da morena bem constante; 
Só o fado, a negra sorte^ 

Só a morte 
He fiurá ser inconstante. 

Eu gosto da moreninha, 

Firmezinha, 
Bem sincera e bem bondosa; 
Nlo é só a linda c6r. 

Meu amor, 
Qne a &z ser assim mimosa. 

Ea aposto ser a côr. 

Meu amor, 
Qne mais agrados inspira; 
É por eUa que os oantoves, 

TroTadoreUy 
As cordas vibram da lyra. 



Adeodato SacrcOeê dê MMo. 



t04 TROVADOR 



MODINHAS 



A VIRGEM DO MEU AMOR 

(hoya modxhha.) 
Para ser cantada na musica da modinha — Bôxa êoudade 

Quando te vejo, 
Mimosa flor, 
Louco — por ti 
Morro de amor. 

Um teu sorriso 
E' meu viver; 
Longe de ti 
Vivo a soflBrer. 

Tuas madeixas, 
De negra oõr. 
Me ateiam n'alma 
Voraz amor. 

Olhinhos ternos, 
TSo seductores, 
SSo pyrilampos 
Por entre as flores. 

Tu és, ó virgem, 
O meu condSo; 
' Trago-te sempre 
No coraçSo. 



TROYABOR 



91 



Ail quem respira 
Os teoB odores, 
Fenece triste, 

Morre de amores. 

i 

NSo pôde gozar yenturas 
Qaem de amor aoffire afflicçXo, 
NSo pôde, afeito aos gemidos, 
Ter prazer meu coraçto. 

Ai ! quem respira — eto. 

Sem os sonhos de ventura 
Murchou-se a flor do desejo; 
Que m'importam outras flores. 
Se a minha bella eu nSo vejo. 

Ai I qaem respira — eto. 

Deixai que eu viva <íq penas. 
De saudade e de lembrança, 
Já que sequer me nSo reata 
Nem uma só esperança. 

Ai ! quem respira 
Os teus odores, 
Fenece triste, 
Morre de amores. 



MARIUA, ESCUTA 



k, escuta, 
Ouve os queixumes, 
Nlo ha quem ame 
Sem ter ciúmes. 



M TEOTÀDOR 

ICftrilia, «ioata 
Meu ooniçlo, 
Tem dó, traa pma 
^D'QtU afflieçlo. 

DA-me mu rival; 
Craya em mea peito 
Duvo puiihAl. 

Dá-mOy 6 Marilia, 
Teu coraçSo, 
Ou dá-ine a morte 
Com tua mSo. 

O desgraçado 
Suspira e chorai 
E delirante 
Amor te implora. 



RECHATIVOS 



ALVA 



ÀBtro divino, que rompendo as trevas 
O mundo inundas de esplendor brilhante ; 
'Virtude aoordas, e a crença elevas 
Ao mortal triste que vagueia errante. 

Se longas horas te contempla attento 
Ó ente triste, de soffirer cançado; 
Seu mal esquece, e um novo alento 
Sente no peito, pela dôr magoado. 



j 



TROYADOR 



90 



Ka soidBo da noite, «e am soiBmar ardmta 
Abysma o homem que, pensando — yela; 
Teos brandoB raios dlo-llie calma á mento, 
Qae se extasia de te vâr tSo bella* 

Fogo sagrado, tea celeste encanto 
I7o mundo impera com poder immenso; 
Só tu inspiras o amor mais santo, 

sublime d'um afifecto intenso. 



Teu doce brillxo que no ar fulgura, 
E' qual anjinho a doudejar sereno; 
Tranquillo corre, sua idóa é pura... 
Assim tu corres pelo céo ameno. 

Astro dÍTÍno, que rompendo as trevas 
O mundo inundas de esplendor brilhante : 
As almas puras que na terra enlevas 
Meigo illumina, dá-Ihe luz constante. 

Por uma joven fluminense^ 



O TA60 



NBo tenho bago no meu bolso — é &cto : 
O meu sapato já roido é todo ; 
Ando calçado, mas dos pés os dedos 
liâem segredos que só ha no lodo. 

Os cotovelos da oasaoa usada, 
Uma risada também dSo, se encolho 
Qualquer dos braços, p'ra chamar alguém 
Que vejo além tt me piscar o olho. 



100 TROVADOR 

A minhA calça, nos seus doas joelhos 
Tem espelhos p'ra mirar-se o home' 
Qae só procora pervertidos guias, 
E nas orgias seu vivor consome. 

Chapéo nSo tenho, a cachola minha, 
Ail coitadinha! trago sempre núa; 
Os meus cabellos (meu prazer !), .coitados, 
Arripiados, pavor tem da lua. 

• 

Minha camisa, que também foi nova, 
Qae grande sova tem levado — sei ; 
Porém nSo lembro se á lavadeira, 
Oa á caseira p'ra lavar eu dei. 

As minhas meias, se algaem as visse, 
Talvez sentisse... (mas sSo meias finas) 
... Porque exhalam (sem ser lisonjeiro) 
O bdlo cheiro de um frescal de Minas. 

E no entanto, que namoro ás bellas 
Que p'las janeilas — ao passar eu vejo ! 
Algumas deixam escapar o riso, 
Que de improviso fugir deixa o pejo. 

E assim vivo — ora rio e canto^ 
Se a tanto chega meu prazer no dia ; 
Também ás vezes amanheço ardido, 
Se hei dormido com cruel azia. 

Se acaso peço com voz suppUcante 

A um passante, — pouca cousa — ^um bago; 

O tal me lança um olhar feroz. 

Muda de voz e me diz : sahe —7 vago. 



À 



TROVADOR 



408 



RECITATIVOS 



SAUDABE 



Era mentira quando o seio ardente 
Inda tremente sobre o meu senti I 
Ohl qae loucora n'e8se rSo desejo, 
K'aqaeile beijo que ao te dar morri I 

Lembra-me ainda o clarear da loa 
Quando na tua minha mão tremeu ; 
Inda imagino teu vestido aéreo 
N'e88e mysterio que me enlouqueceu. 

Húmida nuyem de uma luz saudosa 
A face rosa te cobriu . . • passou ; 
Como de orvalho esse véo nitente 
Que o lyrio algente de pudor curvou. 

Oh ! que alegrias, noa jardins, nas salas. 
As doces falias do te ouvir sonhei ! 
Entre as roseiras, do luar queridas, 
Hoje esqueèidas a memoria achei. 

Ficou-me apenas n'esta curta idade 
Murcha saudade do sonhar fagueiro: 
E' flor que exprime, quando passas linda, 
A vida finda do amor primeiro. 



B. Paalo, 185. . 



Conselheiro J. Bonifácio. 



410 TROYADOit 



EHLEYO 

A meia noite, silenciosa a terra, 
£a quero a vida reviver comtigo ; 
Nova existência de dourado enleio 
De amor ditosa, vem sonhar commigo. 

Sobre o meu peito enrubecida, anciofla 
Eu quero vâr-te de meus — ais — rendida, 
De amor oaptiva, perfumados beijos 
Minh'alma triste colherá na vida. 

£ tu em gozos de mn sentir profundo 
Caricias ternas, meu amor fruindo, 
Sempre a meu lado, divinaes prazeres. 
Celestes sonhos, gozi^ráa sorrindo. 

Assim da vida as esmaltadas flores 
De nossas almas nascerXo formosas ; 
Aéreo mundo habitaremos ambos. 
Amante império, que existir de rosas ! 

E entSo comtigo, em anhelante abraço 
Vendo-te bella, a palpitar tremendo. 
Sobre o teu coUo de volúpia cheio 
Quero o meu rosto reclinar morrendo* 

F. J. Bettencourt da Silva» 



I 

1 



TMVAlKm IH 



ROMANCE 



VEM TE VI 

do 8iir. Bettenoourt Sampaio, o musica do snr. £. Alvaree Lobo. 

Debaixo d'este arvoredo 
Para te olhar me escondi, 
Tu passavas em segredo, 
Cantei baixinho com medo : 

{Indtando o poêêaro) 
Bem te vi. 

Quiz dizer-te, atras oorrendo, 
Morro de amores por ti ; 
Mas nSo sei porque tremendo 
Fiquei parado dizendo : 

(Imitando o poBêaro) 
Bem te vi. 

Junto a fonte crystallina 
Scismando chegaste aUi; 
Sopra a briza a casualina 
* Doce nome Cipladina : 

(Imitando o paêsaro) 
Bem te vi. 

E tu voltaste cantando ! 
Que voz tSo meiga que oaví ; 
Fui entSo te acompanhando, 
Foste andando, 

(Imitando o pauaro) 
Bem te vi. 



lit TROVADOR 



BARCAROLA 



BARCA BELLA 



Pescador da barca Bella, 
Onde vaes pescar com ella, 

Que é tSo bella, 

O pescador? 

NSo YÔ8 que a ultima estrella 
No céo nublado se vela? 

Colhe a vela, 

Ó pescador! 

Pescador da barca Bella, 
Inda é tempo, foge d'ella; 

Foge d'ella, 

O pescador I 

NSo se enrede a rede n'ella, 
Que perdido é o remo e vela 

Só de vêl-a, 

Ó pescador ! 

Deita o lanço com cautela 
Que a serêa canta bella, 

Mas cautela, 

Ó pescador I 



nOTADOR 165 

Aceita as provas 
Do teu cantor, 
Que BÓ em vèr-te 
Morre de amor. 

AdeodcUo Sócrates de MeUo. 



QUE QUERES MAIS? 



Poesia do falleoiâo ^. Laurindo Rebello, o manca 
do snr. J. L. de A. Cunha 



Que maia desejas 7^ 
Tudo te deiy 
De tudo, em troca 
Nada alcancei. 

Dci-te meu peito 
Em pranto e ais ; 
Dei-te minh'alma, 
Que queres mais? 

Juraste eterna 
FideUdade : 
Segoin-se á jura 
A falsidade. 

Em toda a parte 
Vejo rivaes; 
Aféperdi-te, 
NSo creio mais. 

Se nSo me queres, 
Se nSo me adcuras, 
Quando me queixo 
Que tens, que choras? 



lOS TROVABQfl 



Ah I nSo me {Hrendas 
No pranto tea ; 
NSo qaero um pranto 
Qae nlo é men. 

Mas ahy perdoa. •• 
Foi illasSo; 
Dos meos transportes 
Tem compaizBo* 

Perdoa! esaaeee 
O mea rigor; 
NSo fere offensa 
( Que yem de amor. 



QUANDO NO TUmiLG 



Quando no tumulo 
Dormires um dia 
Da morte o somno, 
Na lousa fria; 

. OuvírSo meu pó, 
Gemer e oarpir, 
Sô o nome da beUa 
Alguém proferir. 

Será indeleTol 
A minha ternura; 
Jurei adoral-a 
'Té na sepultura. 



TROTADOR 



107 



Porém se primeiro 
Morreres, Armia, 
Regará meu pranto 
Tua loojsa fria. 

Se guavdas constância, 
Amor e fé pura, 
Serei sempre teu, 
'Té na sepultura. 

Nos rogos e preces, 
Na dôr e gemido, 
De Armia o nome 
Será proferido. 



A DESCRENTE 

Foi ditosa e feliz minha infância 
Toda cheia de crença e de amor, 
O porvir qu'eu amara com anciã, 
Que mais tarde deyia transpor. 

QnSò mentida me foi a esperança! 
Muito cedo perdi a illusSo ! 
Ai dé mim, que inda sendo criança. 
Vi morrer este meu coraçSo! 



E morrer sem gozar um instante 
O porvir* que no berço sonhei ! . . . 
Inda moça, e do crime distante, 
Bem depressa no crime acordei. 



109 TROVADOR 

Acordei. •• qaiz voltar. •• era tarde. •• 
Já nSo pude á desgraça fugir ! 
Só me reata hoje triste e cobarde, 
O meu negro destino carpir. 

Essa crença de amores que eu tive, 
Ai! p'ra sempre, p'ra sempre perdi; 
Em vez d'ella o cjnismo revive 
Junto ao fel qa'inda moça bebi. 

Que mlmporta que nada me reste 
D 'essa idade de crença e prazer; 
Que m'importa que o mundo deteste 
Este pranto que a dôr faz verter?. . • 

« 

Que m'importa a indiff 'rença do mondo, 
Se p'ra o mundo indiff 'rente já sou?. • . 
De meu crime o remorso profundo 
Já a esperança e a fé me roubou ! 

Só me resta o socego da campa 
Onde em breve eu irei repousar! 
Esta nódoa, que o crime m'estampa. 
Só co'a morte eu a posso apagar. 

D. Josephina Pitanga. 



TROYáiyOR 113 



lundCs 



COHTIGO SÕ POSSO EU 

{hovo lukdó) 
Para aer cantado pela musica do lundu — Eu posso com maia alguém 

Porque duvidas de mim? 
' D'am amor qae é todo teu? 
Apre lá, com teu8 ciúmes ! 
Comtigo só posso eu. 

Quem tSp pouca confiança 
Na cabeça te metteu? 
Teus amuos nSo mereçOi^ 
Comtigo só posso eu. 

Taes duvidas mortificam 
O sincero peito meu ; 
Só eu posèo supportar-te, 
Comtigo só posso eu. 

Diz-me pois, meu amuado, 
Esse zelos, quem t'os deu?. • . 
Taes ciúmes são denguices, 
Comtigo só posso eu. 

Confia, meu bem, em mim, 
N'um peito que é todo teu; 
Amor, ternura e constância, 
.Quem te consagra — sou eu. 

« 

Por uma joven fluminense* 

8 



114 TROVADOR 



LÁ NO LARGO DA SÉ 



Lá no largo da Sé Velha 
'Stá vivo um longo tútú 
N^ama gaiola de ferro, 
Chamado surticãcá. 

Cobra feroz 
Qae tudo ataca; 
'Té d'algibeira 
Tira a pataca. 

Bravo ! da especulaçSO 
SSo progressos da naçlo. 

Elephantes beberrSes, 
Cavallos em rodo^os, 
N'am ourro perto d'Ajada 
Com macacos e bugios* 

Tudo se vô, 
Misericórdia ! 
Só por dinheiro 
Ha tal mixordia. 

Bravo I da especulaçSo — etc. 

Garatujas mal cortadas, 
Cosmoramas triplicados. 
Fazem vermos toda a Europa 
Por vidrinhos mal pintados. 

Boma, Veneza, 
Londres, Paris, 
Tudo se chega 
Ao nosso nariz. 

Bravo ! da especulaçSo — etc, 



TROV/IDOU 115 

Os OBtrangeiroft dXo bailes 
P'ra regalar o Brasil ; 
Mas a rua do Ouvidor 
E' de dinheiro um foniL 

Lindas modinhas 
Vindas de França, 
Nossos vinténs 
Lá vSo na dança. 

Bravo ! da especulaçSo — ete. 

Água em pedra vem do norte 
PVa sorvetes fabricar ; 
De que nos serve os oobrinhos 
Sem a gente refrescar? 

A pitanguinha 
Cajá, cajá, 
Na guela fazem 
Taratatá ! 

Bravo I da especulação — etc. 

Condido Jgnaçio da SUva. 



MODINHAS 



VmaEH SANTA 

Virgem santa e meiga a quem eu amo 
Mais do que se ama a vida, a pátria, os oéos; 
Deixa que em teu coUo eu deite a fronte. 
Durma e sonhe com os amores meus. 



116 TROVADOR 

Assim quero gosar tranqnillo somno, 

Sonhar comtigo e te abraçar sonhando; 

Tuas mSos sentir unidas ás minhas, 

Um beijo tòu, um beijo meu de quando em quando. 

Bella virgem de amor, meu sêr conforta, 
Tu és a flor que me embriagas com perfume ; 
Quero vêr-me feliz, no céo julgar-me. 
Ter esperança, ter fé, nSo mais ciúme. 

Escuta, ó virgem minha — quando á noite, 
Nas horas do silencio e do pranto. 
Surgir a lua clareando os montes, 
Recorda-te de mim, que te amo tanto. 



SICaiANA 

Musica de Jo&o Baptista Cimbres 

Nas horas da tarde rubentes do outono, 
O doce Busurro da lympha fugaz 
Desperta em meu peito saudade voraz 
De quem, bem o sabes, meu anjo — do ti. 

Quem sabe se ainda te lembras de mim 
Que trago indelével, na mente gravada, 
A tua imagem de tanto fulgor^ 
Teus olhos brilhantes, a face rosada. 

No brilho dos raios do astro da noite, 
No lindo horisonte em noite estrellada; 
A luz que scintilla nSo é comparada 
Aquella que brilha em teu casto semblante. 



i 
TROVADOR 117 



Mas ali ! que bem penso, é triste pensar ! 
NSo sei o motivo porque a natureza, 
A tantos encantos, enlevos, bolieza. 
Um coraçSo firme deixou de ceder-te. 



NASCE RISONHA A AURORA 

Poesia de M. P. de Ulhôa Cintra, o musica de Franoiseo de Bailes Couto 

Nasce risonha a aurora. 
Para todos ha prazer; 
Só eu triste, desgraçado. 
Vivo sempre a padecer. 

Canta o terno passarinho, 
Vejo Q campo florescer; 
Para mim nSo ha ventura, 
Vivo sempre a padecer. 



SE A ESPERANÇA JÁ NÃO TENHO 
L Poesia de M. P. de Ulhôa Cintra, e musica de Francisco de Salles Conto 

Se a esperança já nSo tenho, 
Para que, ó céos, viver? 
Se Lisia de mim s'esquece. 
Meu allivio é só morrer. 

Gomo é cruel 
* A sorte dura. 

Que me condemna 
. À sepultura! 



118 TROVADOR 



O oéo castigue 
O teu rigor, 
Já que desprezas 
Meu terno amor. 



A TIDA E A MORTE 

Olha, Mareia, aquelles campos 
De sopulchros alinhados; 
Alli dormirão bem cedo 
Os meus ossos descarnados. 

Suspende o pranto de amor, 
NSo chores, prenda querida, 
Porque a morte nos liberta 
Das desgraças doesta vida* 

Qual amamos sobre a terra, 

— Já da vida roto véo — 

Co'o mesmo extremo se pôde • 

Também amar lá no céo. 

Suspende o pranto de amor — etc. 



Noronha, 



TROVADOR 119 



RECITÀnVOS 



TENnS 



Vem, rainha estrella, que te espero ancioBO, 
Astro garboso a irradiar no céo; 
Vem, rutilante, a desparzir yenturas, 
Lá nas alturas a fulgir sem yéo. 

Amo-te ao yâr-te, encantadora e bella, 
O minha estrella, corpo que 'seduz ; 
Contemplativo olho-te, mimosa, 
Qual mariposa que procura a luz. 

Vénus esbelta que no espaço infindo, 
De aspecto lindo yens amor saudar; 
Ohl como ao yêr-te tSo feliz me sinto, 
Qnandoci^resinto tua luz brilhar! 

ígnea âdsca, que minh'alma inflamma 
Com esta chamma magnetisadora ; 
No azul celeste quando te namoro 
De prazer choro, minha seductora. 

Tu és a imagem do objecto amado, 
Qne captiyado tem minh'a1ma afflicta... 
Parece, ao yêr-te, que a meu seio aperto 
Sen corpo esbelto, de belleza infinita. 

Sea lindo rosto, sua tez mimosa, 
Bocca graciosa de um gentil sorrir; ■ 
Negros cabellos, elegante porte. 
Que n'imi transporte faz amor sentir. 



490 TROVADOR 

Temo carinho que de amor captíya, 
Que ao ente priva ao coraçSo da calma; 
Quem páde vêl-a sem sentir d^amores 
Suaves dores que nos pungem n'alma? 



Qtçhò. 



RECORDAÇÃO 

Triste lembrança de um passado ameno, 
Que tSo sereno me sorria outr'ora; 
A vida era para mim delicias. . . 
Essas caricias — almejava agora. . • 

Mas hoje, dura me tem sido a sorte, 
Porém seu norte seguirei ao fim; 
Suspiros tristes, magoados prantos,. 
SSo os encantos de um viver assim. 

Se da vida os gozos desfrutar podéra, 
EntSo quizera te offertar um canto; 
Os tristes ais se tornariam beijos, 
Loucos desejos que almejava tanto. 

• 

NSo pôde o tempo despertar n'est'alma 
A doce calma de um viver de flores; 
Não pôde o tempo apagar da mente 
Aquelle ente que me deu amores% 

Se um dia a vida me offertar venturas, 
Q-ozos, ternuras, sem cruentas dores; 
Serei feliz, despertará n'est'alma 
A doce calma de um viver de amores. 



o 



J 



TROVADOR 121 



Porém 86 a sorte nSo qaizer poupar-me, 
E offertar-me em vez de gozos — dores, 
Co'a fironte baixa, entregarei meus braços 
Ao6 doces laços da prisão de amores. 



I » 



CANÇÃO 



O AMOR PERFEITO 

Poeôa do anr. dr. D. J. Gonçalves de Magalhftes, e mosíea do snr. 

Baphael Coelho 

És um discurso eloquente, 

Mimosa flor! 
Tu promettes mudamente 

Perfeito amor. 

Por ti, sem que ella m'o diga, 

Deve suppõr 
Que a ter-me sempre se obriga 

Perfeito amor. 

Teu nome, que tanto exprime, 

Augmenta o ardor 
Do meu eterno e sublime 

Perfeito amor. 

Eu grato e amante te aoeito 

Como um penhor 
De que ha por mim em seu peito 

Perfeito amor. 



123 TROVADOR 



ROMANCES 



A FLOR uSAUDADEb 

Poesia do snr. dr. D. J. GU>nçalveB de Magalhies, e musica do snr. 

Raphael Coelho 

Saadade, tema saudade, 
Flor tSo triste e t%o mimosa; 
Tu és a imagem dest'alma, 
Dest'alma de amor anciosa^ 

Tua forma e côr retratam 
Meu coraçSo magoado; 
Teu nome o affecto exprime 
Em que aqui yíyq engol£Etdo. 

linda mSo roubou-te o vaso 
Do qual eras ornamento; 
Mas yens morar em meu peito, 
Vens acalmar meu tormento. 

O que me dizes tSo tema 
E um doce lenitivo 
Para as anciãs de minli'alma, 
Na solidSo em que yíto. 



TROVADOR i23 



EU VI O ANJO DA MORTE 
Poeú do snr. dr. A. J. de Araújo, e musica do sor. Elias Alvarw Lobo 

Eu yi o ai\jo da morte 
Ferir minha mSi querida; 
Eu também morri com ella, 
Vivia com soa vida. 

Yi morrer depois meu filho, 
Metade de meu Tirer; 
A esposa, uma filha mais, 
Senti-me inteiro moAer. 

N3d é Tida a Tida morta, 
Nem a sombra é realidade; 
Busco em ySo a minha Tida 
Na minha morta metade. 



LUNDU 



EU POSSO COM MAIS ALGUÉM 

£ &\bOj meu bem, quem diz 
Que uma só me quer bem; 
Eu tenho quatro amantes 
E posso com mais alguém. 

Tenho uma que me é dôce, 
Tenho outra que me quer bem; 
Eu amo a uma e a outra 
E posso com mais alguém. 



iU TROVADOR 

Ao templo de amor jurei 
N8o amar a mais ninguém ; 
Mas o amor a amar me obriga 
E posso com mais alguém. 

Se por falso ou inconstante 
Alguma d'ellas me tem, 
Eu as convenço o contrario, 
E posso com mais alguém. 

• 

Elias amam como eu amo 
A mil amantes também; 
Elias dizem como eft digo 
E posso com mais alguém. 



MODINHAS 



UMA CHAGA ME ABRISTE NO PEITO 

Musica de J. S. ArveUos 

Uma chaga me abriste no peito 
Que jamais nSo se pôde curar; 
E coitado de mim, sem ventura, 
Sinto a vida querer-se findar. 

Foste louca em me dar juramento 
Que jamais tu podias cumprir; 
Foi tormento que tu me engendraste 
Para agora eu viver a carpir. 



j 



TROVADOR i25 



Eu tSo crédulo, pensando commigo 
Que era amado por ti, bella ingrata, 
Só achei p'ra meu mal um tormento 
Que enlouquece, que fere, que mata. 



O DESCRIDO 

Que m'importam prazeres da terra, 
D'eB8e8 raios o louco furor; 
Que m'importa o rugir da tormenta, 
D'e8sas yagas faiscas de horror? 

Que m^importa que o mundo se acabe, 
Que na terra só eu fique rei; 
Que m'importa, se o mundo eu detesto. 
Se desprezo e rancor lhe yotei? 

Venha embora coriscos e raios 
Boubar doce esperança de amor, 
Que este peito de mármore e gelo 
Só tem fé no tormento e na dôr. 

Tive fé, muita fé, n'esta vida. 
Crenças mil n^este meu coraçSo; 
Mas qu'importa se seccas, mirrhadas, 
£il-as todas perdidas no chSo? 

Já nSo tenho uma esperança n'est'alma 
Que o cynismo varou-me de fel; 
Além sim, que só podem caveiras, 
K'esta fronte cingir jim laurel. 

Eia, avante, meu peito, eia, avante. 
Solta um brado de temo estampido; 
Que soando, soando nos ares, 
lÁ repita bradando — descrido. 



ÍS6 TBOTADOR 



NOSSA Mil 

Nossa mSíy dom oelestOi precioso, 
É um anjo piedoso 
DoB céoB á terra mandado 
Para ter de nós cuidado: 
Quando a primeira luz 
Sobre nossos olhos desce, 
Qnem comnosco ri e folga, 
Qaem comnosco se entristece? 
Nossa mSi t 

Nossa mSi boa ou mi, sempre nos ama, 
Traz-nos no sen coração; 
NSo ha amor nem amizade • 
Que iguale á sua affeiçSo: 
Quando no termo da vida 
A morte já nos espera 
Com a sua fouce erguida. 
Quem por nós morrer quizera? 
Nossa mSi! 

Francisco António de Carvalho* 



RECITATIVO 



flOresjdalma 

As flores dUma que se alteiam bellas, 
Puras, singelas, orvalhadas, yiyas, 
Teem mais aromas, e sSo mais formosas 
Que as pobres rosas, n'ttm jardim captiyas, 






TROVAJDOR iSl 

SqI bemfazejo lhes aquece a rama, 
Ladda cixamma, sem ardor que mata ; 
Banham-lhe as hastes, retratando as frontes, 
limpidas fontes em ramaes de «prata. 

Qne amenidade ! nos vergéis suaves, 
Cantam as aves, sem cessar, amores ; 
Se ha céo na terra, se ventura ha n'ella, 
B^alma singela se achará nas flores. 

Filhas das crenças, como as crenças puras, 
De mil venturas mensageiras bellas. 
Se o vento um dia lhes soprar e as oórte. 
Deus! — dá-me a sorte de morrer com ellas. 

Ao ermo embora, a divagar sósinho. 
Corra o mesquinho, por amor trahido. 
Quando o remorso lhe não turbe a calma. 
Nas flores d'alma encontrará olvido. 

Naufrago lasso a sossobrar nas vagas, 
San vêr as plagas em que almeja um porto, 
limbora o matem cruciantas dores, 
D'ahna nas flores achará conforto. 

O pobre monge, que, de pé descalço, 
D W mundo falso os areaes percorre. 
Quando lhe entregam do martyrio a palma, 
Às flores d'alma se encommenda, e morre. 



1 



iS8 TROVADOR 



BÀRGÀR0L4 



A BORDA DO MAR 

Poesia do snr. dr. D. J. Gk)iiçalYe8 do Magalhfteg, e moBioa do anr. 

Raphftel Coolho 

De noite, o véo cinzento 
Enyolye a natureza, 
E cobre de tristeza ' 

O céo, a terra, e o mar. 



Ligeira barca ao longe 
Apenas se annuncia 
No trilho de ardentia 
Que deixa em seu passar. 

Oaço bater o remo 
Monótono e pausado, 
É o canto do coitado 
Que alli vai a remar. 

Da briza nas refregas 
Que vem aos meus ouyidos 
Em echos repetidos 
Amor! — ouço exclamar. 



E como solitário 
E triste este lamento 
Ao suSíUrrar do vento 
Nas ondas, e ao luarl 



TROVADOR 



129 



E eu, qae aqui sósiulio 
Escuto o mesmo canto, 
Reter nSo posso o pranto 
Que sinto borbulhar. 

É que essa voz chorosa 
Que sôa sobre as aguas 
Ás minhas próprias maguas 
Parece relatar. 

Como este peito anciado 
O mesmo affecto exprimo; 
E gemo, e me lastimo 
No meu yago scismar. 



ROMANCE 



A TRISTEZA 

Poesia do bdt. dr. D. J. Gonçalves Magalhães, e musica do ísar. 

Raphael Coelho 



Porque o céo de repente 
Perdeu a sua belleza? 
B'onde vem esta tristeza 
Que me envolve o coração? 

Como o pano mortuário 
Que sobre o tumulo s'estende 
Ou como a nuvem que pende 
Peja<ia de atro bulcão; 



130 TROVADOR 

Eu nSo seiy oh minha amada, 
Eu nSo sei porque suspiro; 
NSo sei mesmo se deliro 
No meu excessivo amor. 

Mas agora estou iSo triste 
Como o misero proscripto. 
Duvidoso, incerto e afflicto. 
Do seu destino no horror. 

Temendo assim me definho 
Como o arbusto sequioso, 
Exposto ao sol rigoroso 
Que morre sem florescer. 

Falia, minha amada, £Eilla I 
De tua voz á magia 
Renasce minha alegria, 
Extingue-se o meu soffrer. 



LUNDt 



ESTES MOCINHOS FAGORA 

Estes mocinhos d'agora 
Já nSo sabem mais amar; 
Fazem tudo quanto podem 
Para as moças enganar. 

Bandoleiros, inconstantes, 
Só querem pagodear; 
Namoram a todas ellas 
Para o seu tempo passar. 



úi;**:* 



nOVADOR 431 



Estes mocinhos d'agora 
Só desejam 'specular; 
Procuram só moças ricas 
Para mi vida lhes dar. 

Estes mocinhos d'agora 
Sentimentos já nSo tem ; 
Fazem mil promessas falsas, 
Dizendo que querem bem^. 

Estes mocinhos d'agora 
Só nos querem enganar; 
Façamos nós outro tanto, 
Para taboa a todos dar. 

Estes mocinhos d'agora 
O seu prazer é mentir ; 
Fingem tudo quanto podem 
Para melhor conseguir. 

Estes mocinhos d'agora 
A yergonha já perderam; 
Da ronha e da maldade 
Muito sueco já beberam. 

Estes mocinhos d'agora 
NSo merecem compaizSo; 
Entes sSo mui abjectos, 
t>eyem ir p'ra a correcçSo. 



132 TROVADOR 



MODINHAS 



SE DISFARÇO QUANTO SIMTO 

Se diBfkrço quanto sinto 
O teu crael proceder, 
E justo que tu conheças 
Quanto me custa soffirer. 

N'alma se accende 
Ódio e vinganças; 
Tornam-se amargas 
As esperanças. 

N'esta afflicçSo, 
Nem mesmo amor 
Di lenitivo 
Á minha dõr. 

Mas se conheces 
O que é paixSo, 
NSo mais aflijas 
Meu coraçSo. 



Foste perjura, 
Foste cruel; 
Quebraste a jura, 
Foste infiel. 



TROVADOR 133 



PMlQIlE SOU TRISTE 

(nota modihha) 

ser cantada na musioa da modinha — Quando eu morrer ninguém 

chore a minha morte 

Oh! queres tu saber porque bou triste, 
Porque vivo em constante soluçar!? 
É porque na miuh'alma um sentimento 
Na desgraça cruel faz-me pensar. 

É porque n^esta vida o desengano 
De tudo quanto existe, em mim pousou; 
£ a descrença gelada e positiva 
Negro leito em minh'alma já ormou. 

Dirás tu que sou moço e que é fingido 
O tétrico suspiro que assim dou? 
£ que onde um coraçSo bate com vida, 
A descrença nem sequer jamais passou. 

Ahl como és iUudida. • • o meu peito 
Âo do yelho se assemelha, está rugoso; 
£ de moço as minhas faces desbotadas 
^So sentem da mocidade o doce gozo. 

O que p(}de esperar um pobre orphSo 
Qqo as delicias de uma mái cedo perdeu? 
£ 9ue 08 prazeres do mundo, n'um só dia 
"«» sempre em seu peito elle escondeu?! 

^tH. . . qtte me importa de quem goza 
^ oaaj^do mil prazeres com riqueza? 
p . ^*^^ejo essa sorte ficticia, 

^^contro mais prazeres na tristeza. 

Adeodato Sócrates de Mello. 



13t TROVADOR 



ÁCAB0U4U Á MDIIâ eURÇA 

Acabou-se a minha crença. 
Sem crença devo morrer; 
Quando deixei de crãr n^ella. 
Em quem mais poderei crer? 

Onde a verdade 
Pôde fulgir, 
Se até um anjo 
Sabe mentir? 

Como um anjo me fallou, 
Como um anjo me sorriu ; 
Como um anjo me jurou, 
Quebrou a jura, mentiu. 

Onde a verdade 
Pôde fulgir? — etc. 

No olhar e nas palavras, 
Onde a innocencia respira, 
Em tudo — que diz verdade. 
Só eu encontrei mentira. 

Onde a verdade 
Pôde fulgir?— etc. 



iJ 



TROVADOR i 35 



RECITATIVO 



ESCUTA, VIRGEM I 

• 

Anjo d^encantoB, porqa'és muda e triste? 
Acaso existe em teu peito — dôr? 
Porque teu rosto, tão risonho outr'ora, 
So mostra agora de marmórea c5r? 

Dize, meu anjo, porqu'és triste assim? 
Porque ao jasmim subtrahiste a côr? 
Dize, meu anjo — o teu peito inflamma 
Celeste chamma appellidada — amor? 

Es qual criança que nascida ha pouco, 
Do mundo louco desconhece as falias. . . 
Ai nSo te deixes enlevar por cantos, 
Nem por encantos de appar entes galas. 

Lembra-te sempre que a pureza é flôr. 
De tanto odor e perfeição dotada, 
Que mão impura se a tocar de leve, 
Eil-a mui breye para o chSo tombada* 

Ama, donzella, com amor immenso. 
Ardente, intenso, — a tua mSi querida; 
Entre teus braços com amor a aperta, 
— Sublime offerta p'ra quem deu-te a vida. 

IrmZ dos anjos, tu o és, donzella, 
Nivea capella te engrinalda a frente; 
Ainda ha pouco eu te vi no templo 
Dando um exemplo de uma fé fervente. 



Í86 TROVADOR 

Deixa que o bardo, em cujo peito triste, 

Somente existem cruciantes dores; 

Fraco conselho te offereça, virgem, 

— Louca vertigem de um scismar de amores. 

Esquece tudo, p'ra adorar somente 
Aquelle ente que te deu a vida; 
Quando o mau fado te offertar seus laços, 
Lança-te aos braços de tua mãi querida ! 

Ghicdberto Peçanha, 



C4NÇÂ0 



O ESCRAVO 



N'uma alta e frondosa 
Brazilea floresta, 
Que o sol açoutava 
Em cálida sesta; 

Ao som compassado 
Da fouce pesada 
Que os troncos derruba, 
Prepara a queimada; 

Com voz rude e triste 
Que ao longe echoava. 
Um pobre captivo 
Taes queixas soltava: 



À 



•j 



TROVADOn i 37 

n Em simples palhoça 
Eu livre nasci, 
Mas preso e vendido 
Captivo me vi. 

O filho, a mulher, 
Forçado deixei, 
A pobre familia 
NSo mais avistei. 

SSo livres os brancos, 
Nao soffrem rigor; 
Mas, eu por ser negro, 

Eu tenho — um senhor. 

ff 

Com elles nem devo 
Co'a8 dores chorar ; 
Mas devo, soffrendo, 
Chorando cantar. 

A dôr, o prazer 
Em mim crimes s%o; 
Castigos por isso 
No corpo me dSo. 

À chuva e ao sol 
Sempre a trabalhar, 
De pouco descanço 
Eu posso gozar. 

Os fructoB da terra- 
Que cavo a suar, 
N3o são p'ra meus filhos 
Que vejo penar. 



I 138 TROVADOR 



\ 



O oaro qae ganho 
Me nSo faz ser rioo, 
Por maito que dê. 
Eu forro nSo fico. 



O mesmo sustento 
Que dSo-me, grosseiro, 
Me dão porque temem 
Perder sêu dinheiro. 

De um tal captiveiro 
Soffirendo os rigores, 
Minha mocidade 
Gastou-se entre dores* 

Ao peso dos annos 
Já hoje curvado, 
P'ra todo o serviço 
Sou inda chamado. 

Ao branco, se é relho, 
Teem todos respeito; 
Eu inda ao chicote 
Vivo hoje sujeito ! 

De que serve a vida 
A quem, como eu, 
Sem ter liberdade 
Já tudo perdeu? 

Sé uma esperança 
Eu sempre hei-de ter: 
Morrendo, outra vez 
Eu livre hei-de ser. 



i 



TROVADOR 139 

Meu bom Pai do eéo, 
Ah ! tende clemência ! 
Oavi minhas yoases, 
Findai-me a existência i » 

Aqui o captivo 
Cançado parou, 
E co'a mSo calloBa 
O pranto enxugou. 

E o echo passado, 
Que a Toz repetia, 
— Fi^íidaume a exietenciaf 
Ao longe dizia. 

Pirei Ferrão. 



LUNDUS 



A CLARA 

(novo LUHDé) 

Para ser cantado pela masica do lundu — Mulatinha do caroço 

Todos fidlam com paixSo, 

E teem razSo, 
Da morena e linda cOr; 
Mas também a c6r que é clara 

N3o é rara, 
Tem encantos, tem amor. 



140 TROYADOR 

A que é clara e bem rosada, 

Idolatrada, 
Tem dengoices* . . tem carinhos ; 
Seus encantos sempre exaltam, 

Arrebatam 
Seus feitiços mimosinhos. 

Eu por ella dou a vida 

Tão querida, 
Meu amor, meu coração; 
A que é clara e tSo mimosa. 

Melindrosa, 
Faz-me perder a razSo! « 

linda côr de casta alvura, 

Que tSo pura. 
Tem dos anjos semelhança; 
Se as faces lhe cobre o pejo. 
Que desejo 
. Alimente minha esp-rança ! 

A que é clara e bonitinha. 

Jovenzinha, 
Tem de archanjo a perfeição ; 
A morena nSo é tanto, 

No encanto. 
Cá na minha opiniSo. 

Mas se acaso eu m'enganei 

Ou errei 
No que digo com razSo, 
Moças claras e morenas. 

Sempre amenas. . . 
A vós eu peço perdão. 



S. «7. S, 



TROVADOR 



141 



TÁTÁZINHA V0S8Ê MESMO 

ITáyázinha voasê mesmo 
"Foi a cansa de meu mal, 
Hanca pensei que vossê 
Me fizesse cousa tal. 
(Arranjou bem o seu papel) ^ 

m 

Sempre é moça I 
Benego eu d'ellal 
Com t^es sujeitas 
Muita cautela. 

Todo o tempo m'enganOu, 
Fez de mim seu bobosinho ; 
^Quando me yia chorar 
Me dizia: Coitadinho ! 
(Que cabecinha tão leve!) 

Sempre é moça! 
Renego eu d'ella I 
Com taes sujeitas 

« 

Muita cautela. 



Que me amava com ternura, 

Trinta vezes me jurou ; 

Quando me quiz ser ingrata, 

De uma só tudo negou. 

(lyande não e* espera, d*aki é que vem), 

Sempre é moça! 
Benego eu d^ella ! 
Com taes sujeitas 
Muita cautela. 



142 



rnovADoR 



MODINHAS 



ADEUS, LTRA MALFADADA 

N'estes troncos pendurada 
Ficará a minha lyra, 
Té que o vento as cordas fira, 
Te faça lembrar — amor. 

« 

Adeus, lyra 
Malfadada, 
Cionsagrada 
A meu — amor. 

LeSes, tigres e rochedos 
Tens movido com ternura; 
Mas de Lilia sempre dura 
Tu nSo moves o rigor. 

Adeus, lyra 
Malfadada, 
Consagrada 
A meu — amor. 

Vai, ó lilia, doeste mundo, 
Vai viver na solidSo; 
Lá mesmo receberás 
A minha triste cançSo. 

Adeus, lyra 
Mal&dada, 
Consummai 
Esta paixSo. 



j 



TROVADOR i43 



O TEU AHOR, PURA VraGEM 

t 

\ 

O teu amor, pura virgem, 
Muito me faz padecer; 
Mas eu deixar de te amar, 
Isso nSo, inão pôde ser. 

O nobre porque é rico. 
Me comprar nSo tem poder; 
Mas separar-me de ti. 
Isso sim, sim pôde ser. 

Pôde o céo baixar i terra, 
£ a terra em fogo arder; 
Mas eu deixar de te amar. 
Isso não, não pôde ser. 



w 

Chovam raios e coriscos, 
A terra fique a tremw; 
Para te vôr em meus braços. 
Isso sim, sim pôde ser. 

Eu quero estar a teu lado 
Para contente viver; 
Has vêr-te nos braços d'outro, 
Isso não, não pôde ser. 

Fiel ao meu juramento^ 
Nunca me hei-de esquecer; 
Mas tu quebrares o teu. 
Isso sim, sim pôde B6r« 



144 TROVADOR 

■ 

BTESTAS PRAIAS DE LÍMPIDAS ARÊAS 

N^estas praias de límpidas arêas 
Prateadas á noite pela lua, 
Passo as horas, scismando nos amores 
Que perdido bebi na imagem tua. 

Quando o sorpelos montes declinando 
Vai ao mar sepultar os seus ardores, 
Uma lagrima me rola pelas faces, 
Recordando sósinho esses amores. 

O campinas ! ó praias seduetoras I 
O montanhas ! ó valles de saudade ! 
Meus segredos guardai em vossos peitos 
D'esses tempos de tanta flicidade! 

Do recinto não passe d'esses mares 
Os votos que a ella dediquei ; 
Guardem praias, campinas e montanhas 
Quantos ais e suspiros lhe enviei. 



PRAZERES QUE EU NÃO SONHAVA 



Prazeres que eu nSo sonhava 
Teu amor me fez gozar; 
Bella Armia, tu não queiras 
 minha vida acabar. 

Careço de ti, meu anjo, 
Careço do teu amor. 
Como uma gota de orvalho 
Carece do prado a flor. 



i 



íl 



no?AiM»t 146 



EU SOFFRO AN6USTUS ME SUFFOCAR 

Eu soffro angufttuiB 
Me Buffocar, 
Meu lenitivo 
É BÓ chorar. 

Eia, choremos^ 
Comeoe o canto; 
Também cantando 
Se verte o pianto. 

a 

O pranto ás vezes 
Ê briza d^ahca 
Que a dôr mitiga 
E o pranto acalma. 

EntSo o canto * 
Nos céoB «e isola ; 
Penetra os ares 
E Dens consola. 

O canto é prece 
Que v6a a Deus, 
Se o triste canta 
Os males seus. 

Em cada nota 
Que o canto dÍ9i| 
A àôr traduz-se 
Do infeliz. 

Depois que a ingrata 
Feritt<>me tanto, 
âjue de mim fôra 
este canto; 



10 



144 TMWABM 

Talvez as dores 
Fossen mortaes, 
Se as nlo curasse 
Com estes ais. 



RECITATIVO 



<> 



ELISA 



Poesia do sor. Bnlhfto Pato, e musica do aar. IkaíMo Goéllio 



Era no outono, quando 4 imagem toa 
A lu2 da lua, seductorA^ vif 
Lembras-te ainda d'essa. noite, Elisa? 
Que doce briza si^spiray^ idli ! • ..• 

Toda de branco, em tua fronte bellâ 
Rosa singela se enlaçava entSo; 
Vi-te, e perdido de te yêr, ^buscfira 
Se me apartava da gentil 



Oh! que era embalde! quanto mais te Tia, 
Mais me perdia deHrwte amorl< 
Magicas falias proferiste incerta^ 
Toda coberta d'infantil rabõr. , 

Tremulo, anciqso,. quiz pedir-te um beijo, 
Louco desejo, que fugir-te vi« •,« 
Viste-me triste, para mim voltasÉa^ 
NBo me fisUaste, mas eu bem oikvL 



I 



Tlbia^ «mmVadA de perAaM, • briM, 
Ijembras-te, EImb, «mpiniT» enllo* . • 

E meiguiente me Jl M i w a te — ttlo ! . • • 



ROMANCE 



OS OLHOS HE DRAMU 



FíOMia do flBT. cb. D. J. a. ck M^galliigt^ <e mvnca 

do BDT. Eaphael Coelho 



OmIo de Tdr os tens olhds 
Quando paareces penoar; 
Meio^bertOB, asaombradoa, 
Sem moita luss denramAr. 

Ghxto de Têt-es fadlantes, 
Espargindo almo falgor; 
E noB peitoB embebendo 
Alegria, vida e amor. 

Também gosto quando ex prim e m 
A ternura^ a oompaizRò; 
E qualquer ligeiro affsele 
De innooenMr eoraçlo. 

Maa quando os Tolyes fintiroa 
Para mim, è apda aos oêoa; 
Bntlo é que nada iguala 
graças dos ^kos tcMis. 



« 



Ii8 ffMVAAM 

Nfto tMn 4UUÍ' <4bM liniAéss * 
Ottftftdd AsuflL dii Amor fl& JTiiimihBi 
EntSo é que gQ0» uMÍa. 



LUNDU . 



DÚ BRAZn. A MULATINHA 

Do Brazil a mulatinha 
É do céo doce maná; 
Aiioeicada 'frtitinha, 
Saboroso cambucá. 

É quitute^, i^petltoiOy 
É melhor qoa vatapá; 
É néctar dalioioBo^ 
E boa oomo nSo ha* 

É manjar bem delicado, 
É melado com cará; 
Agradarei b^m bocado, 
Gostoso maracujá* 

É cajá asaiuuM^adQ, 
E tem de maçiga o «abfiir ; . 
É qoibêbe apiunentado 
Pelas mSosinhas de amos. . 

E dôc» fioSr de xqsa, 
Ê melhor do que melado; 
Delicada e melindrosa, 
Vinho velho OQg«Jxa&da* 



j 



TR(y?JiMk 



1M 



'*! 



É nuutgttrahA da Beiam, 
E àtUstí fiivo de mel ; 
MSo é dá» como d dia, 
Nem alra eomo o papdí. - 

A mulatínlia mimoaa, 
(Ro0 d'oTw com eanoik) 
É morwã o6r de raw, 
Tem wtta eôr mittto bellab 



É fiMseira, tem candura, 
Tem do coco o paladar; 
Tem.meiguioe, tom texaott, 
Tem quindins de enfeitiçar. 

Quando, leitor, tc^ «lia 
Tio tema, tio morainh^ 
Logo ezclaou»: Como é bella 
Do Brazil a muIiiiBlMiI 

Oi olhoe sabe Tolrer, 
Também sabe namorar; 
Ok I quem me d«ra podar 
Junto d'ella sempre estar t 



MODINHAS 



POI CRUEL O HBO UaTD» 



Foi enHi o meu destino. 
Foi sonho minha ^«ntwa; 
Kada penhora A uma ingrata, 
Só me restar A sefruHftra. 



150 «WAMR 

Ji foi i^Miite mui toKpOi 
E querido oomodoçu»; 
Hoje si ttnlio ionnwlni, 
Só me Mrtft • aepaltu»* 

Por rir n^gn ing»tídl0| 
Nlo bi^ igual d^Teatvre; 
De tio c^ e £aro golpe^ 
Só mê veita • BepuUusu*^^ 



 flOr do HEIT CDLTO 

A flor de Hieor culto, 
A roHi que ha poaoo 
Tio cbeia de encantos 
Se via oetentar; 
De chofre o tufSo 
Levou-a xmm asas, 
Ab petUaa coaram, 
Dispenàe 00 ar. 

Qae fldré aquella? 
Que triste coitada ! 
O crepe de luto 

Parece «fesiiir; 
Ê flâr de saudade, 
Que ausente da rosa 
CoBimigo chorosa, 
Buteoe sentir. 

Vem, flftr de miah^aliM^ 
nnir«4e ae meu seio. 
Pois quefo eomtigo 
Meu pwsAe rerter; 



J 



núnmm 



Ifit 



O meu ooraçlo 
Itelído ficou, 
ÂB harpas não podem, 
Nlo pg^bom gemer. 



ANJO DO CÉO, TU ME MATiUS 



N^ene «te» rosto onde aoaias 
O pimdozior e o riso, 
Onde mil graças diviso, 
Anjo do céo, ta me matas ; 
Men peito tudo dilata 
No mais completo prazer ; 
Qnúera, «len anjo, ser ^ i 
O ten bem idolatrado ; 
CSom ternuras e agrados. 
Tu me matas sem querer. 

Se Tolres um riso a mim, 
Ohl que dita, oh! que ventura! 
Se me adoras, virgem pum. 
De teus lábios quero um êim: 
Mftis leve, o$r de oarmim 
Fas teu roeto enrubeoer ; 
Nada tenhas a temer 
Em me £Edlar a verdade, 
Pfi» minha felicidade 
Quero um-^sim — dep^ inorrer. 



19t TROTABOR 



H070S ABES, NOTOS CUHAS «El LOaâE^RESPIRAB 

NoTOB ares, novos climas 
Irei longe respirar, 
, Lá mesmo serei ditoso 
Se meu bem nunca mudar. 

Esseis mares solitários 
Vou chorando transitar. 
Mas depob Têr-me*hSo alegro 
Se meu bem nunca mudar* 



RECITATIVOS 



. *j 



SEGREDO 

* 

Quando eu ás vezes teu olhar sarpr'dnda • 
Languido e temo sobre mim pMrar, 
Em cada golpe d^esèe olhar compreendo 
O que me queres talvez perguntar* 

E sempre finjo que ignoro tudol 
Que nem sei mesmo quem tu és, quem soaf 
E me conserro mdifiérente e mudo 
Como criança que a visSo pasmou. 

Talvez tu penses que evitar pretendo 
Essas promessas de um amor por vir, 
Perdoa á folha que arrcbata-a o vento, 
EUa nSo sabe aonde vai cahir. 



i 



f 



TROVAMII 

■ 

Queres ourir-me que a razão me ensma 
A qve me faça-Jbadifferente aasimf 
E que nXo quero me curvar á sina 
K&i que do berço ae engraçou de mip. 

NSo devo rir-me quando sinto dôres 
Nem iOudir-me de esperanças mais; 
Kinha alma esyaÍHBe, como murcham flores, 
Oemendo agora seus doridos ais* 

Perd6te, wyevi» ess€^ xuodo ousadOf 
Por que eu erito teu iugenuo amer, 
£a cumpro apenas um dever sagradoí 
Fagpbida aos gases p'ra viver na dâr» 

Ta és estreUa, no fulgor princesa, 
Que » losm inundas de tio meiga Ins ; 
Ea sou o C7TÍ0 que só diz tristeza 
Qoando atttDsia mortuária crua. 

Ta és rainhai e de teu throoo a» galis 
Eu nlo ptdera contemplar sem medo-^ 
Be longe escuto tuas meigas falias, 
E se tal Í199 é por ser meu segveée^ 



Oh! Bs ta aoi^f ecnu amor tSo «mie, 
Que nZo poésra-to áiaer jamais 1 
Porém se fajq de tamanho encanto 
K fae reeèii> que o contar qumaes. 

» 
£ Mtbe agoM quei esse amor de hmim 
Q^ por ti. antre n'utn fatal segreda, ' 
^ acho ainda para ti mui pouco, 
Ift* irfto o reviales porque tenho medo. 



Dr. Climaeo A. B. Oliveira» 



1 



154 noTAfioa 



A GâRLU Dâ THUIBK 

Qoa é feito dás flftres da branca oapella 
Que amaytt-te, oh bella, da fronto a pnresa? 
Qae ó feito do riso com qae descuidosai 
Froiaa gogtoaa tio meiga belieaà? 

Que é feito das cores qne o lyrio inrejshray 
Que a rosa almejava — também possuir? 
Que é feito da pai que morara em left ptíto| 
Jamais contrafeito — a pensar no 



Qne ó feito doe brincos com qa^inda iuMoento 
GoiaTas contente — dos annos a flor? 
Que é feito do fbgto dos olhos galanteS| 
Tio negros^ bilhantes, tSo cheios de amov? 

Que é feito da graga com qne tio ftMMÍr% 
Qaal corça ligeira — no prado saltaras? 
Qne é finto dos cantos de doce magia, 
De tanta harmonia — que alegre s<^ras? 

Ai tristol — que é finto de todo o passacfe, 
Tio bello, donrado — tio cheio de fldres? 
Ai i triste i trooasAe-o, com tua insphidieneia^ 
Por triste eaásten<Sia, tio cheia de>ddMi!.«. 

A branca capella jas murcha ^^ f>sfolhada| 
Por terra lançada — p'ra mais nlo B'erguer; 
Ai, triste I senetta que rale o ser beUa? 
Sem branca ci^^eUa — que rale o riter? 



B.9. 



mOVAM» 



tos 



ROMANCE 



08 OLHOS CHOROSOS 



do snr. ár. D. J. GonçftlyeB MagalUes, e mniioa 
do inr. Baphael Coelho 



Porque ohoraes, tristes ollios, 
Ho cançadoe de chorar? 
Q^ein Tosae pranto motiva, 
Ahl nlo 00 lia-de enxugar. 

Em tIo lagrimas de sangue, 
Naaddas do coraçlo, 
Mostrassem sobre o mea rosto 
A minha interna aflioçSo. 

Suspendei asaaigo pranto, 
Snspendd, que a vossa dOr 
Nlo pôde n'am peito írio 
Inspirar paixlo e amer. 

Mas se nm destine de ferre 
Vos obriga que choreis, 
EntSo chorai, tristes olhos. 
Até que em fim estaleis. 



/ 



IM TMTAMtt 



LUNBti 



QUANDO EU ERA ÇRIAIfCniEA 



.♦ 



Quando eu era criaiiciíiha 

Engraçadinha, 
Moças bellas me adoravam ; 
Me beijavam dôeementei 

E tSo contenta, 
Só de amor a miai^ faUavêou 

Hoje ea vivo de0|Nreaado, 

Isolado; 
Sem beijinhos, sem doçonai 
Já nSo tenho mais praser^ 

Que viver ! • • . 
Mudou tudo de figcura. 

Sé ^o berço em que eu ^amtnk 

Me embalava 
D'amor a sorte clemeatAi , 
Hoje tudo mudo ç triste, 

Só resiste 
Ao negro fado imponente. , 

Já nSo sou mais criandnlia 

Innocentinha, 
Já nSo tenho mais candura; 
Já nSo tenho mais carinhos. 

Nem beijinhos, 
Mudou tudo a desventura I 



Adeod(xto Sócrates de MeUo. 



i 



Í57 



MODINHAS 



IHORBEMil 



QaSo e]AeiDeros que bSò 
Ob gOBoa da nosea vida ! • • • 
Q«Id trabálliOBOS e tristeB 
Ob dias de tanta lida ! 



Custa muito a Bupportar 
Tantos vaivéns d'e8to mundo, 
Tanta esperança perdida. 
Tanto dissabor profundo ! 

A saudade é sobre tudo 
MariTrio do eoraçXo, 
Quando soflEremoB d 'um ÍUho 
Eterna separaçSo ! . . • 

D. A. Soêinha de 8* (Portuense) • 



LAGRIMAS DA DÕR 



Paia Ber eaíxtada com o tom da modinha — Qiwmdo o céójiá 

em teu9 lábios 



Quando em torno aos (lhos meus 
Virem nódoas azuladas, 
— SBo as lagrimas da dõr 
Ao infeliz ofertadas. 



tS6 TMTAMi 



[i o tíço dos anxiot 
N'aiirora da mocidade^t 
Hoje só tfago no peit0 
Grata lembrança e saadade* 

Quando Tirem eu verter 
Um pranto qne nSe tem êàt^ 
NSo zombem, por piedade, 
Tenham compaixSo de mim» 

Perdi o vi{o dos aaiios-^ete. 

Perdi meu guia da vida, 
Vlyo no mondo isolado, 
Qual baixel singrando í tâa, 
à merca do rento irado» 

Perdi o yiço dos annos — etc. 

Só terá fim minha d6t^ . 
Só findará a saudade . 
Quando eu, junto ao meu guia» 
na eternidade* 



Lá entSo serei ditoso» •• 
Findará minha agonia, 
Junto áquella, que no mundo. 
Me serviu de firme gui*-- 

Ouàlberto Peçonha. 



TROTâBOl 



4M 



EU AMEI mu DfcomrrAnTB 

Ea amd uma inconstante 

Que foi lagiata e perjura; 

Troeoa os dias ditosos 

S6 por éiãB de amargura; 
Sb pois como ella pagou 
Minha tio grande tamoral 

Mas inda um dia yirá 
Que o inferno, doToraado 
Monstro tal de ingratidle,. 
Seus orimes iri -pêgfmio. 

Sen praeer é só lograr, 

Ser ingrata, ser perjura; 

Maltntfar oom sens^ ciúmes, 

Carar. fiuido a sepultura; 
Abusar da sympathia, 
D6ces mimos de ternura I 

Ma» inda um dia tíjí-— etOi 

Quando, em fim, de ti gostei^ 
Que eras assim nSo sabia; 
Monstro tal d^ ingratidio, 
Sjmb^^ da tjnuamia; 

Eis pois oomo ella pagou 

Tio sincera STmpathiai 



Mas inda um dia vicá«-*ela* 



ItO TROVADOR 



REcnmyo 



DH NAMORADO DA Ê^OCA 

Passeia á tarde, qaando o sol é posto, 
P'ra vâr seu rosto, men<1igar*llie um riso; 
Porâm, se avista a seu lado, o Mho, 
Fica vermelho — quàsi perde o siso I 

Volta a esifuiiia, Aima sen ohanxio, 
Qual o matuto que á cidade vem! 
Ahi espera «p«r algum esoripto, 
E fica afflicto se nSo vem ninguém. 

MiraHBe todo — limpa seu calçado — 
Queji rasgado, tinha posto ao lado; 
Mesmo os tacSes .elle nlo dispensa* • • 
Somente pensa em feser-se amado! 

£zp8e-se i chuva, se expSe á lama, 
P'ra ter á fama de a conquistar t 
Mas se reflecte, marcha direitinho, 
— Mui caladinho-^ para o Alcaaar* 

Aiii dis&rça da paixSo as mágoas, 
Com certas aguas de diveinas cftres; 
Bebe cognac — eapilé composto — 
Tudo por gosto d'esqueoer ansoresi 

E quandb aeaba d« uma tal folia, 
De poeêia se lh'escalcla a mente. • • 
Caminha, aceeso qual ardente braza, 
E chega a casa por demais contente I 

B. F. d'Ahmda. 



J 



TROVADOR 



m 



lundC 



 TIDA DO FRADE 



Triste vida é a do frade, 
bidá peor que a da {reira, 
Andar de noite á carreira, 
Na penitencia. 

É preciso paciência 
Com nosso noviciado; 
Andar um anno encerrado, 
Eu nSo sabia. 



Eu bem disse — nSo queria 
Ser frade n'este convento — 
Porque tSo grande tormento 
Experimentei, 

A força eu professei, 
Por meu pai assim querer, 
Sou defunto sem moirer, 
Amortalhado. 



Vivo n'um fogo abrazado 
Com este burel vestido. 
Quando me vejo despido 
Estou contente. 



11 



19S TROVADOR 

Qaando me vejo doente, 
Deitado na enfermaria, 
E quando tenho alegria 
Pelo descanço. 

Se algama licença alcanço 
De meoB pães ir visitar, 
Se vSo outros passear, 
Eu também vou. 

Assim que o canto yoltoa. • • 
O meu leal companheiro 
Fh>cura a rua^ — primeiro 
^ De seus amores. 



Se é doente, nSo tem dores 
Porque solto assim se vê; 
Inda que a gota lhe dê, 
NBo é tSo forte. 



Cuido ir buscar a morte 
Quando subo esta ladeirft; 
Eu desço-a toda á carreira, 
A toda a pressa. 

Da missas uma remessa '^- 
O guardiSo sempre tem; 
Oanhar um frade um vintém, 
Ora... essa é boa!..'. 



Se morre alguma pessoa 
Que officio vamos rezar, 
Todos juntos a cantar 
Eu quero TÔl-4t. 



TROVADOR 



163 



De luute á porta ãm eella 
Certas matracas tooando, 
Vamo-nos já levantando 
Orar p'ra o oôro. 

E« oom isso qnasi morrOi , 
Ás Tezes samnambolindo; 
Se estou sonhando ou dormindo, 
Também nSo sei. 

Acordado dormirm. • • 
Toca o officio d'agonia| 
Vamos para a enfermaria • 

Versos cantar, 

O frade, perto, a expirar, 
Sem acabar de morrer; 
Quando o-dia amanhecer 
'Stá estendido. 



Já morreu arrependido 
O nosso frade doente, 
Ponha-se isso bem patente 
Que officio temoa. 

Graças a Deus já rezemos, 
Toca o sino — a refeitório, 
P'ra tomar um vomitório 
De arroz cozido. 



Se algum, mm conhecido 
Frade quizeiD^e metter, 
Antes se exponha a morrer 
Do 9»; ser frad^. 



(04 TROYABOa 



/ 
I 



Do m^Bino se queixa a madre 
Por nSo acompanhar o frad^..* 
Por nSo ter mais liberdade. . • 
E nada mais* 



AO PARA6UAY 

Brilha a estrella tSo formosa) 

'Luminosa, 
Do Brazil gtande poder; 
Eia l braros, oom valor. 

Sem teTt&ty 
Mas ás armas sem temer! 

De Lopez e a sua gente, 

Que valente 
Quer a custo a nós vencer, 
N8o temaes, oh brazileiroa 

Verdadeiros; 
A gloria nossa ha-de ser! 

O Brazil j&mais da guerra 

Não se aterra, 
Tem valor e tem nobreza; 
É muralha rija e forte, . 

Quem á morte 
Se arroja com gran firmeza! 

De Santo Borja expulsai-os, 

Mergulhai-os 
Em sangue, tSo vis tyrannos, 
Que só sabem affrontar . 

B desgraçar. 
Dar a morte^ oausar damnosl 



\ 



TROVAMH 



469 



Nomo pai tio carinhoso 

E amoroso, ' 

Nossos mares já sulooa, 

Soa coragem a amor, 
Com ardor 

Nossos brios ayivoa I 

Augusto Eugénio da 8iha Santiago, 



MODINHAS 



DÁ-ME UM BEUQ 



Poeôa do át, Laorindo, a mufilca de A. Cunha 



Se ma adoras, ó me qtteraíi, 
Como dizes com ardor, 
Di-me um beijo tSo somente 
Em proT» do teu amor». • 

A paixSo em qne me abraso, 
Dilacera o peito meu; 
Di-me ptazer, dá-ma "vida, 
Di-ma, dá^me um beijo teu. 

Amor anima e acoende 
Em chammas, do céo nascidas, 
DouB corações n'um abraço, ' 
Em ui^ beijo duas vidas* 



166 1MYA1MMI 

Uma vida qa« m% falta. • • 
A metade do mea s6r, 
Quero um beijo amoroea 
Dos teus labio0 reoeber. 



ESCUTA, DONZELLA 

Foeídm de H. Machado, musica de Vizgiiie 

Eflcuta, donzella, escuta 
O meu continuo penar; 
Ausente de ti. • • distantOi 
Paaao a vida a suspirar. 

Ao vôr-te logo jurei 
Ser somente teu amante; 
Dar-to-hei a própria yida 
Se tu me fôres constante. 

I 

Porám a sorte infiel 
Quiz de ti me separar, 
Ma« nlo pôde de meu peito 
Tua lembrança risoar I 

Tsago gntyado na mente 
O teu mimoso semblantei 
E jamais te esquecerei 
Se tu me fôres constante. 

Escuta, donsella, escuta 
Do bardo triste cantar, 
Até que a morte dê fim 
Ao meu continuo penar I 



nOTADOft 167 



K'e8te rdtiro em qne víto^ 
Bem longe de ti distant6| 
Juro am&r-te até morrer 
Se ta me fores constante* 



DORME, DORME, Õ MORENA 



Dorme, dorme, ó morensi 
O Bomno da eternidadei 
Qae só deixaste ao esposo 
A triste flor da saudade. 

Botibou-me a parca tyranna 
O meu mais caro penhor; 
Com elle a ãôr dos meus diasi 
Kinha yida, meu amor. 

Que sorte desventurada 
Traz meu pranto em amargiUraf 
Dorme, dorme ó morena, 
Lá na fria sepultura. 

Se tu meu pranto eseutateB, 
Envolto com j meu soffrer 
Passarei contente a vida. 
Até findar meu viver. 

Se 08 meus lamentos ouvires^ 
Bepassados de ternura. • • 
Dorme, dorme, ó morena. 
Lá na fria' «epultUra. 



i 



} 



168 TROVADOB 

Aàeojêj 6 bella morena, 
Descançada doeste inundo; 
Fico 8Ó em cruel lucta, 
Com ^te ardor tão profimdo» 



O CEGO 



Pensam que vejo e não vejo, 
NSo yejo, que cego estou; 
De que me servem os olhos 

Se a minha luz se apagou? 

» 

Âh I não deixes que eu me pe>rca 
N'esta immensa escuridão; 
Oh anjo que me cegaste, 
Vem ao menos dar-me a mão ! 



Deixe passar o mendigo 
Quem a vista não perdeu; 
Só me pôde dar esmolas 
Quem fôr cego como eu. 

Ah t não deixes — etc. 

Ao avifltar-te, meu anjo, 
A luz divina senti ; 
Mas ao perder-te «ie vista, 
A minha vista perdi. 

Ah! não deixes — etc» 



i 

j 



THOTABM 4W 



Se eu cahiry dá-me teus braçoB, 
Dá-m'o0y ]pe}o amor de Deus; 
Talvez que receba a vista - 
Caliidò noB braços teus ! 

Ah! nSo deixes — etc. 



ULUL BELLA, O TRISTE FRANTO 



LdUn bella, o triste pranto 
Que me fizeste verter, 
É gmol sámente a causa 
Do tem fidso proceder. 

. Vinde, ó farias do Avensoi 
Depressa me ajudar; 
Ho|e semente procuro 
D'easa ingrata me vingar* 

KSo é.bem que um peito fira 
Quem desconhece o amor, 
Zombando da cruel sorte 
Do meu; peito abrazador. 

Moira essa ingrata, 
Essa tyranna 
Que entre nós vive, 
£m fÒmia humana. 

M<ttTa a perjura, 
Ji que assim quer ; 
Çottio nlo ama, 
Klo é mulher. 



fW fROTÂDOl 



REOTATIVOS 



QO£R0 FD6IR-TÊ 



Quero fogir-te, mas nSo posso, Yirgem| 
Pois sott capti^o de um poder sublime; 
Queiro fogir-te, mas fatal vertigem 
Me dobra o oorpo, oomo a briaa • fiíaamm 

Do Éden de amor és meu redado peom^ 
Ninguém no mundo miaba dâr oompr'ebd%I 
Quero fiogir-te, quero, sim, mas como, 
Se um teu mríso me sedus, me prende ? 

Para enganar-me digo muitas reeat 

Que és mi, qm» és Ma, que é louoom amair-te; 

EntSo deliro, bebo até ás fezes 

A taça amarga que o soffror reparte. 

Quero fugir<*te, na floresta vago, 
Colho uma rosa, teu retrato é eUa ; 
Contemplo o céo, e li teu rosto mago 
Inda adndro em cada nivea eate^eUa* 



Se mais te fujo, mais a ti me preadi^ 
NSo aobo ausência que de ti me ausente ; 
Se 08 olhos gozam quando te estou TendO| 
Em te nZo vendo gozo-te na mealel 

Tu és o iman que me attrahes a Tida, 
Qual mariposa em teu olhar me abraio; 
Quero fíigir-to, que imponente Udal 
Da minha sombra fugir posso acaso I ? 



J 



nOVABM 171 

Fugir nSo poMo; bIo se foge á sinai 
Mio fege o corpo quando é pr»sa a idéa; 
Soa tea escravo; sobre mim d<HDaina, 
ISs os meus pulsos, laaça^me a oadêa I 



N 
\ 



ROMANeE 



A DESPEDIDA 

Poesia de Bettenoonxt Sampaio, e musica de fi. A. Lobo 

Adeos, teita dos amores^ 
PaoUcea, adeus, adeus; 
Da saudade acerbas dtna 
NSo findarSo dias meus. 

E to^ virgem peregrina, 
Anjo do céo que adorei; 
Quem sabe, ternf Angelina, 
Se AlgttQi dia te verei I 

N'este estado de incertesa^ 
Qne magoa sinto de amor I 
Até mesmo a natoresa 
Pareoe chorar de dôrl / 

Ah I que saadade 
Ma scdidSo! 
N'este meu canto 
Deixo alma e pranto 
£ coraçSo* 



^^% TROVABOR 

Felicidade, felieidade, 
A ti, aos teus; 
Ai]Jo dos céos, 
Adeus, adeus. 



LUNDU 



KENINA, PORQUE RAZiO 

Menina, porque razSò 
Passo, e foge da janella? 
— Ê porque vou á cozinha 
'Botar fogo na panoUa* 

Castiga, castiga, 
Seu bem aqui está; • • 
Quem d^elle hSo gosta^ 
De quem gostará? 

Menina, porque motivo 
Quando eu passo nfto dis^-^ entre? 
— Ora senhor, vá andando, 
De o^ompostas 'stou sdente* 

Castiga — etc* 

* 

NSo fujas, que eu nSo sou biehO) 
Eu sou creatura humana; 
— Ora senhor, vá andando, 
Com compostas nSo me engana. 

Castiga — etc* 



J 



TROVADOR 173 



Menina, esses seus dentinhos 
Ê que me faz repellir; 
— Ora senhor, vá andando. 
For Deas,^n2lo me faça rir. . 

Castiga — etc. 



MODINHAS 



VEXnSI CABAIAS 



Deixei eabanas, 
Deixef meus gados 
P*ra vôr Analia 
Dos meus cuidados. 

ELia finrtana 
Que ea tenho achado: 
Amar constante, 
Sem ser amado, 

Amar constante 
Sem ser amado, 
Por otttro amante 
Ser despiesa^o. 

Um infelie 
Deve morrer 
Fiara uma ingrata 
Muaoa mâts vâr. 



iU TROYAIKA 



Ea vf Analia 
N8o sei aonde, 
Chapio por elia, 
NSo me responde. , 

Ahl yem, Analia, 
Entra em meu peito, 
Yem vêr o estrago 
Que ma tens feito* 



OS CIÚMES 

Por outros lábios passados 
NSo posso seu nome ouvir; 
De todos tenho ciúmes 
Quando te vejo sorrir. 

Tenho ciúmes das 46zes 
Que a teus pés rejo abrir^ 

Aborreço os olhos todos 
Que ousam teus olhos mirar; 
Aborreço a aragem mansa 
Que vem teus labiòs 



E' loucura ter ciúmes, '■ 
Mas sSo esses de matar. 

NSo me lances esses (4hòs, 
Que ^u já nSo posso Bofírer; 
Tenho medo de mim mesmo, 
De um amor como eu sei tar. 

Ha na vida mil tormeatos 
P'ra uma hera de prasar. 



TROYABOII ilS 



ROLA 



Des qii'o amor me deu qn'ea lesse 
Nos teus olhos minha sina. 
Ando como a peregrina 
Bola que o esposo perdeu ; 
Seja noite ou seja dia 
Eu te procuro constante; 
Vem, ohl vem, querido amante, 
Toa sou e tu és meu. 

w 

Vem, oh! yem, que por ti clamo, 
Vem contentar meus desejos, 
Vem fitrtar-me com teus beijos, 
— Vem saciar-me de amor! 
Amo-te, quero-te, adoro-te, 
Abrazo-me quando em ti penso, 
E em fogo yoraz, extenso 
Anceio louco de ardôr! 

Vem, que te chamo e te aguardo, 
Vem apertar^síie em teus braços, 
Estreitar-me em doces laços, 
Vem pousar no peito meu; 
Que se o amor me deu que eu lesse 
Nos teus ollioa uvinha sina^ 
Ando como a peregrina 
Bola que o esposo perdeu* 



maamk dos olhos mboboí 

Meninu dos olhos negros 
Morro por ti de paixSo; 
Menina dos olhos negros. 
Queres tu meu coraçSo? 



lUi Tftoi^oa 

Como ta nSo ha na terra 
TSo linda, tSo bell& âôr; 
Menina dos olhos negros, 
Queres ta o mea amor? 

Da capella de um archai^o 
£s luzinha desprendida; 
Menina dos olhos negros. 
Queres tu a minha yida? 

Podes vèr que sSo já tuas 
^ Estrellas do firmamento; 

Menina ãos olhos negros, 
Queres tu meu pensamento? 

Quero ser teu e tu minha 
Por uma doce uniSo, 
Dou-te todo o pensamento, 
Alma, yida e coraçSo. 



REOTATIYO 



80HH0 DE VIR&BM 

ESil-a tSo bella — sobre o leito — immersa 
No somno ameno da estaçSo gentil!* • • 
Branca açucena que entreabre o cálix, 
Amor lhe alenta o melindroso hastilt*.. 

Amor de rola, que inda ha pouco o ninho 
Qnardaya implume a' pipilar medrosa; 
Mede o espaço, e ensaiando o yôo. 
As tenras azas experimenta airosa. 






TROVADOR 



m 



Bã-a tSo beOa I . • • mal cerrados oilios, 
Lábios purpúreos — um sorrir d'ai]jiiiho, 
Madeizas d'ouro sobre o leito esparsas, 
Seio de neve a se agitar mansinho. 

Sonha e sorri-se; que horisonte azul 
K'ahna lhe esparge de esperança as flores ! 
Sonha e sorrinse; que dourada nuvem 
Lhe occttita aos olhos da descrença as dores ! 

Dorme, donzella, teu dormir sereno. • • 

Oh! nSo despertes 4^ illusSo dourada I • • • 

Qne bSo fisdlazeB doesta vida os gozos, 

O Bonho — um mundo — o despertar — um nada. 

Teu leito é templo que a innocencia guarda; 

Tecem os anjos as grinaldas tuas; 

Baste-te o gozo das virgineas flores, 

Outros perfumes. • • ah I por Deus. • . nSo fruas! 



LUNDU 



sinho jucá 



Sinhd Jucá, yár-se embora, 
NZo me conte historias, n3o; 
Ji se esqueceu do que fez.. . 
Na noite de S. JoSo? 



12 



178 TROVADOR 

Ai, meu DeuB, sinhô Jaquinha, 
VoMê é 08 meus peooados t 
Vi-BO embora, já lhe dÍBfle, 
NSo me queira dar ouidadoB. 
As artes do sinhõ moço 
SSo mesmo artes do demónio, 
Para vêr-me livre d'elle 
Vou rezar a Santo António* 
Santo António, meu santinho, 
Valei-me n'esta afflicçSo, 
Fazei com que sinhôzinhô 
NSo me faça tentaçSo* 
Santo António^ Santo António, 
Que tentação do demónio! 

Sinhõ Jucá, é forte teima ! 
NSo bula commigo, nSo: 
NSo brinque como brincou 
Na noite de S. JoSo. 

Ai, meu Deus — etc. 

Sinhd Jucá, arre de lá, 
SenSo leva um bofetSo; 
Eu nSo quero mais gracinhas 
Da noite de S. JoSo. 

« 

Ai, meu Deus — etc* 

Sinhõ Jucá, vooê chwa? 
Já se viu tal tentaçSo? 
NSo se vá, que já nSo ralho 
Da noite de S. JoBo. 



Ai, meu Deus, sinhÕ 
VoBsê é os meus peccados; 



J 



TBOYADOR i 79 



Eis aqui mais outra vez 
Os meus protestos quebrados ; 
Ás artes do smkô Jucá 
SSo mesmo artes do demónio, 
NSo me posso livrar d'e]le 
Nem rezando a Santo António. 
Santo António, meu santinho, 
Já nSo vales nada, não, 
O chorar de sinhôsinho 
Derreteu-me o coração. 
Santo António, Santo António, 
Que tentaçSo do demónio ! 



MODINHAS 



BETEM NOS LÁBIOS INGBATOS 
Poesia do anr. Perdra Sousa, e muaiea do mt. Baphael Coelho, 

Betem nos lábios ingratos, 
Betem tanta crueldade; 
Em ti perdoo a mentira, 
Em ti detesto a verdade. 

Essa verdade 
Pôde matar, ' 
Esta mentira 
Pôde animar. 



i80 TROVADOR 

- # 

Se despreflas meu amor, 
NSo n'o digas, por piedade, 
Cala no peito o que sentesi 
Em ti detesto a verdade. 

Esse silencio 
Pôde animar, 
Essa verdade 
Me vai matar. 



QUE NOITES QU^EU PASSO AQUI NO ROCHEDO ' 
Poesia do snr. dr. Viliela Tavares, musica do snr. A. J. S. Mootoito. 

Que noites qa'eu passo aqui no rochedo 

A borda do mar, 
Inquieto e afflicto, com susto e com medo, 

E sempre a cuidar I 

Se chove ligeiro, as aguaa correndo 

A choça humedece ; 
Viuva nSo bebas, na gruta gemendo, 

Minh'alma entristece. 

Se o cume do pico a lua prateia. 

Ao seu clarear 
Meu peito infeliz suspira e anceia, 

Começo a chorar. 



^ A mosioa doesta modiplia acha-se á venda na ma de Gkinçal- 
ves Dias n.o 61, estabelecimento musical do snr. Nioasso Garcia. 



TROVADOR i81 

Passadas yentnras me vem á lembrança, 

Que doce painel I • . • 
Ckmtemplo depois da sorte a mudança 

P'ra mim tSo cruel. 



Sem forças, em tSo, deitado no leito 

Eu quero dormir; 
Saudade que fere, que rala-me o peito 

Eu entro a sentir. 



Saudade da terra que longe deixei, 

E onde nasci; 
Saudade do poTO, da gente que amei, 

Mas que eu já perdi. 

Saudade da matta do meu sabiá. 

Dos plumeos cantores; 
Dos firuotos tSo bellos, tSo bons que alli ha, 

Saudade das flores. 

Saudades das ruas, e rios o fontes 

Que ha na cidade; 
Saudade do prado, dos yalles e montes. 

De tudo, saudade! 

Que noites eu passo aqui no rochedo 

A borda do mar. 
Inquieto e afflicto, com susto e com medo 

E sempre a cuidar ! 

Se durmo cançado de tax^to lidar. 

De tanto soffirer. 
Vampiros dispersos pairando no ar 

Em sonhos tou yâr. 



18Í ' TROVADOtl 

Idéasy imagens, cruéis pensamentos 

Se avivam entSo ; 
Desperto, meus males, martjrios, tormentos 

Mais graves me sSo. 

Taes sSo minhas noites, que noites de^ horror, 

Tal é minha sorte; 
SSo noites eternas de mágoas e dôr, 

SSo noites de morte. 



POR ENTRE AS TREVAS DA NOITE 



For entre as trevas da poite 
Que cercam minha existência, 
Brilha um astro de innooencia 
Que é minha estrella polar. 
Nos abysmos de minh'alma 
Só ella pôde brilhar. 

O clarSo frouxo da lua 

Já desmaia no horisonte, . 

E o d'ella na minha fronte 

Inda nSo veio pousar. 

Ide, 6 sons de minha lyra 
Em torno d'eila adejar. 

Apenas n'este silencio 
Ouço o cahir de uma fonte 
Que vem descendo do monte 
Com sonoro crepitar, 

Eu ajunto ás vozes d'ella 
Os echos do meu cantar. 



TROVADOR 



183 



Vem, flor dos jardins cetesteB, 
Vem, meu anjo, sem receio, 
Entornar dentro em meu seio 
Toa perfome e teu olhar; 

Por ta'alma innocentinha 
Minh'alma quero trocar* 

Mas talvez que adormecida, 
Recostada a seu postigo, 
Sonhando, ó virgem, commigo 
Vlo meãs cantos te ac(»rdar : 

Adens, ó virgem, que o bardo 
Nlo quer teu somno turbar. 

Olha que a noite é bem negra, 

Faz frio de inyemo e gelo. 

Já sinto no meu cabello 

O sereno a gotejar ; 

ftto erra estrella no eéo. 
Nem ouço o mocho piar. 



RECITATIVOS 



FADA nC SRGAlltOS 



Fada de eneaatos qae eu adoro e amo, 
Por quem me inflammo sem yeataniB tor, 
Deixas que o pobre, suspirando amores, 
Sinta os rigores d'am oruel soffirer? 



184 TROVADOR 

Deixas, ó virgem, que o meu negro fado, 
Que me ha ligado á desventura assim, 
Longe dos gozos, como a flor pendida, 
É minha vida um suspirar s^n fim? 

E tu, flor bella no tapiz dos prados, 
Doces, bordados de mimosas oôres, 
NSo Tês o pobre que por ti clamando 
Vive chorando n'um viver de dores? 

Oh I se eu nunca disse, te direi agora, 
Minh'alma chora por teu doce amor; 
Vem dar ao triste, que nlo tem abrigo. 
Um peito amigo a mitígar-lhe a dôr. 

Vem tu, ó virgem, doce irmS dos risos, 
Dar-me os sorrisos de uma vida para; 
Ai I doce anjo, minha vida abrazas, 
Boça-me as azas de feliz ventura. 

NSo temas nunca que eu te olvide, nSo I 
Meu coraçSo e meu amor s8o teus ; 
Se me desprezas vagarei perdido 
Como o descrido nos desertos seus ! 






Adeodato Sócrates dê MMo. * 



DESPREZA O Minmo 

Despreza o mundo que caminha errante. 
Que, ignorante, jamais crê — virtude ! . . • 
Despreza o mundo que a acçSo mais pura 
Se lhe figura — sentimento rude! . • • 



TROTADOn 185 



I>e8preza quem no lodaçal do mando 
Vegeta immnndo, sem virtudes ter ; 
I>espreza aqaelle que o crime abraça, 
Sorvendo a taça do agro so£Erer ! 

Os que te accasam de leviandades, 
SSo nnllidades — só inspiram dó ! • • • 
Sem se lembrarem que serSo um dia 
Pia morte impia, reduzidos a pó. 

Altiva e nobre tua fronte ergue, 
ES firme segue da virtude o trilho ; 
Bi-te d'aquelleB que com falso agrado 
Tem procurado te offuscar o brilho. . . 

CoraçSo de anjo, formas de mulher, 
C bem cruel quem te impSe soffi-er ! 
Que desprezando todo teu encanto 
Vertendo o pranto te fará morrer ! • • • 

£u te admiro, e comprehendo tanto 
Quanto teu pranto me traduz — delirio ! • • • 
Que com puro afifecto — serena calma 
Te offiarto a palma do cruel martyrio ! . • • 

Despreza o mundo que caminha errante, 
Que, ignorante, jamais cr6 — virtude !••• 
Despreza o mundo que a acçSo mais pura 
Se lhe figura — sentimento rudel... 



Sm J, S, 



186 ' TROVADOR 



LUNDC 



NÃO MB AHOnNE 

^ • 

Arre lá, nSo me amofine 
Com tamanha impertinência; 
NSo goza mais meu amor, 
Tenha santa paciência. 

Eu gosto de quem nSo tem 
CoraçSo p'ra muita gente; 
Gosto de quem quando falia 
NSo é fingida — nSo mente. 

NSo avive esses olhinlvos 
Para vêr se me captiva ; 
Uma vez já me enganou, 
Pois sem mim, agora viva. 

Eu gosto de quem nSo tem — etc. 

Se vossa nSo me queria, 
Dissesse logo á primeira; 
Agora nSo tem café, 
NSo o&io na ratoeira. 

Eu gosto de quem nSo tem — etc. 



TROVADOR 187 



MODINHAS 



PERDEU A FLOR DE MEUS DIAS 

Peordea a flor de meãs dias 
Todo o perfume de amor; 
Ramos seccos pendem d'ha8te, 
Já nSo YÍye a minha flor. 

O tempo que tudo muda 
NSo minora a minha dôr; 
Já nSo tenho primavera, 
Já nSo vive a minha flôr. 

Só encontro no deserto 
Bafejo consolador; 
Fechai-Tos, jardins do mundo, 
Já nSo vive a minha flor. 



NO SEMBLANTE TENS IMPRESSO 

No semblante tens impresso 
 constância, a lealdade; 
Ta és um a^jo de amor. 
Tens belleza e tens bondade. 

Tens uns olhos scintillantes, 
Que bem exprimem — amor; 
Quem os vê, deixar nSo pôde 
De adoral-os com fervor. 



188 TROVADOR 

Ob teoB dotes diyinaes 
* Deiza-me só contemplar, 

Já que a sorte acerba, ÍDJusta, 
NSo nos deixa amor gozar. 



JUSTOS CÉOS, COMO £ POSSÍVEL 



Justos céos, como é possível 
Que seja a ternura um crime, 
Se tudo quanto é vivente 
Da, lei de amor nSo se exime? 

Se é delicto ser amante, 
Suspirar — morrer de dôr, 
Crime é da natureza 
Que ensina a ter amor. 

Té o próprio deus do Âvemo 
Que os condemnados opprime. 
Se chegar a yôr teus olhos 
Da lei de amor nSo se exime. 



OS HAHDAMBHTOS 



Eu confesso .minhas culpas 
Todas pelos mandamentos; 
Depois que eu vi a Marilia 
Trago vários pensamentos. 



TROYADOR 189 



O primeiro amar a Deus: 
Eu amo o mea bem qaerer; 
Se Marília f6r constante 
Hei-de amal-a até morrer. 

Segando é nSo jurar 
Pelo santo nome em vlo; 
Eu jurei amar Marília 
De todo o mea oora$8o. 

O terceiro ouvir missa 
Nos dias de santa guarda; 
Eu cem missas ouvirei 
'Stando a par de minha amada. 

O quarto honrar pai e mSi| 
Pai e mSi respeitarei; 
Só por ti, Marília amada, 
Pai e mSi eu deixarei. 

O quinto nSo furtarás 
Mesmo tendo precisSo ; 
Eu só fiz ainda um fhrtor 
De Marilia o coraçSo. 

Sexto guardar castidade 
Qae é virtude apreciada; 
Ea serei sempre mui casto 
'Stando a par da minha amada. 

O sétimo é nSo matar, 

Su nunca matei ninguém ; 

Eu só mato as saudades 
Que sinto por ti, meu bem. 



i90 TBOVADOR 

Oitavo é nSo levantar 
Namoa, falsos a ninguém ; 
Eu só disse qne Marília 
Era BÓ minha e meu bem. 

O nono é nSo desejar 
Do próximo a mnlher; 
Eu só desejo a Marília 
Porque eu quero e ella quer. 

Decimo é nXo cubicar 
Nunca as cousas de ninguém ; 

Eu só cubico a Marília 
Porque ella é o meu bem. 

Estes dez mandamentos 
Só em dous é que s'encerra: 
Amar a Deus no céo, 
E a Marília oá na terra. 



til 



:j 



RECnATIVO 



EU VI-TE, VIRGEM 

Eu vi-tC; virgem, sobre o coUo a fronte 
Curvada á fonte a segredar queixumes ! 
Eu vi-te triste, qual pendida rosa 
Hontem mimosa a exhalar perfumes! 



TMTADOR IM 

CSabelloB negioi, no cabir espftraos, 
FormoBOB traços egta pa vam n'agiia! 
Assim eu vi-te a eztfmhir da harpa 
Acerba fiupa do pungente mágoa I 

Biuqnei-te ! Aeheí-te! Em macia relva 
Além da selTa, recostei-te a mim I 
cPor mim definhas? » — pergantei corando 
E to, chorando me disseste — %n I 



Depois, a sorte resequiu-me as flores I 
Espinhos, dores, entomou-me n'almal 
Mas inda espero n'am recente espaço 
Prender-te ao laço de amorosa palma. 



Virginio Martins dê Carvalho. 



LDNDC 



o TODO DE SINHÁZINHA 



Quem qtdzer venha escutar 
Como é bella esta letrinha, 
Como eu voa retratar 
O todo de sinhizinha. 



193 



TROVADOR 



SeuB cabellos pretos, finos, 
A cabeça redondinha, 
Sua testa bem formada. 
Como é bella a sinházinha 1 

Seu»^ olhos pardos e vivos, 
Soa bocca bem feitinha, 
Sea nariz bem afilado 
Como é bella a sinházinha I 

Seus bracinhos torneados, 
Sua mão bem talhadinha. 
De cintura muito airosa 
Como é bella a sinházinha ! 



i 



Brilha um sorriso em seus lábios 
Como brilha uma estrellinha; 
É joven, é bello e meigo 
O todo de sinházinha. 



I 



É um anjiiiho Je amor, 
E formosa e galantinha, 
A natureza esmerounse 
No todo de sinházinha. 



1 



I 



í: 



NSo pôde deixar de amar 
Quem ouvir esta letrinha; 
Que a natureza esmerou-se 
No todo de sinházinha. 



TROVADOR > i93 



MODINHAS 



COMO SE AMA A DEUS NO CÉO 



Como 86 ama a Deus no céo 
Te adorou minh'alma pura, 
Mas tu desprezaste, ingrata, 
^Meus extremos de ternura. 

Se desprezar tu podeste 
Quem soube tanto adorar-te, 
, NSo devo amar quem me odeia, 
Deyo também desprezar-te. 

Porque se é crime o desprezo 
£m paga d'uma affeicSo, 
Também é loucura amar-se 
Quem pratica ingratidão. 

Se desprezar tu podeste — ete. 



QUEM SABEI?.. . 



TSo longe de mim, distante. 
Onde irá teu pensamento? 
Quizera saber agora 
Se esqueceste o juramento. 



18 



194 TROVADOR 

Quem sabe se tu és oonatante, 
Se indA é mea teu pensamento? 
Minh'alma toda devora 
Da saudade agro tormento. 

Vivendo de ti distante, 

Ai, meu Deus, que amargo pranto I 

Suspiros, angustias, dôres 

SSo as yozes do mea canto. 

Quem sabe — etc. 

Quem sabe, pomba innocente, 
Se também te corre o pranto I 
Minha alma cbeia de amores 
Te entreguei ji n'este canto. 

Quem sabe — etc. 



HARILU, TEUS OLHOS TÃO TRISTES 



Poesia de J. Verisaimo da Silva, o musica de José Martins 

de Santa Rosa 



Marília, teus olhos tSo tristes 
Se volvem magoados p'ra mim; 
Diviso o pezar derramado 
Na face de neve e carmim. 

Desejo saber o que opprime 
Tua alma tSo virgem, tSo pura; 
Marília, tu soffires, mas eu 
Também soffiro horrível tortura* 



TROVADOR 195 



AffliiT 



Ília, tea longo soiflinar ; 

O pranto rebenta em teus oUios, 
Eu quero oomtigo chorar. 



Desejo saber — etc. 



EU SOHHBI QUE NOS HEU8 BRAÇOS 



Eu sonhei que nos meus braços 
Docemente te apertava; ^ 

Nos teus lábios, minha bella, 
Toda inteira a vida achava. 

Oh I que prazer tSo celeste 
Tivera nWe sonhar I 
Se tal sonho fora eterno, 
Quisera nunca acordar. 

Antes fosse o sonho a vida 
Que entio teria praser, 
Pois acordado, só tenho 
Um continuo padecer. 

Ohl que prazer tSo celeste — etc. 






^ 



RECITATIVOS 



PERFVIfES D'ALIU 



Mancebo, escata o que eu tí ao mondo. 
Sentir profondo, soSrifflento, d$rw; 
XUbos de gelo, bem amargo pranto, 
Lagnbre canto em maosolóo de amores. 

Amor nSo vi no fallar da virgem, 
Nem na vertigem de voraa paizSo; 
Só vi enganoB, mentirosoB sonhos, 
Echos medonhos de cruel traiçUo ! . . . 

Poisar nSo vi um eoraçSo somente, 
Nem ternamente murmurar amor I , . . 
Só vi desprezo, a mentira impara, 
 desventura no gemer da dCr. 

NSo vi um riao, nem um casto beijo, 
Temo desejo de om coração amante; 
Só os sorrisos de infernal traiçSo, 
A ingratidSo a se ostentar constante, 

O Tido ea vi — bem veloz correr, 
E se perder no turbilhSo das salas ; 
Eu vi coroas lá no cbSo tombadas, 
E j& manchadas da donzella as galas. 

Pasmei ao vdr, no aloouce, ellaa. 
Mulheres bellas, a vender amor; 
Yi suas faces com a côr da morte, 
Pungente sorte que lhe deu a dôr. 



J 



i 



TROVADOR 197 

Chorei ao yêr dma virgem linda, 
De dõr infinda, praguejar, descrida ! . • . 
Vendo qne era por seu pai mandada, 
Era arrastada ao altar, vendida ! 

Amor nSo queiras, porque amor é morte, 
Começo forte de um gemer profundo ; 
Amor nSo queiras porque amor nSo ha, 
Nem ella o dá a ninguém, no mundo I • • • 

Veríssimo José do Bomsuccesso Júnior. 



O ESTUDANTE 



Hoje 1^ quinze do meu mez de aulista. 
Ando com a crista para o chSo cahida; 
Em 08 meus bolsos de estudante pobre 
Dez reis em cobre já nSo tem guarida. 

Aonde pára a infeliz mezada 
A mim mandada peía mãi querida? 
Talvez na bolsa de qualquer jurista 
N'esta hora exista, bem e bem cosida. 

• 

Ai ! ai I meu Deus, que existência agra ! 
Parece praga sobre mim rogada ! 
Ando nas ruas qual Judeu-Errante, 
Sujo, pingante, sem vintém — sem íMda. 

Esoabriado qual um cão damnado, 
£ meu estado quando vou p'las ruas ; 
Porque s'encontro com credor audaz, 
Elle é capaz de me fazer das sitas. 



lOS TROVADOR 

£u devo a casa onde moro ha um mes, 
Âo meu freguês do reãtauranie dero, 
Ao araiarinho do José Manoel 
Devo o papel que a sabbatina esorevo. 

Do importuno alfskiate a conta 
Creio já monta a bem puxados cobres; 
Que quer que faça? oh que impertinentes ! 
Os meus parentes também sSo mui pobres. • • 

Credito, foi-se I minha lavadeira, 
A engommadeira, té meu sapateiro, 
Por seus cobrínhos mui 2sangados clamam 
E já me chamam de vil caloteiro. 

Que amarga vida passa o estudante 
Sempre oscillante nos desejos seus I 
Passa tormentos que só elle sabe, 
Pois só lhe cabe o furor de Deus ! 

Pois nSo! se adora a uma moça bella, 

Votando a ella um amor eterno, 

EUa depois de o mirar mui bem 

Diz com desdém : Ê escolar! que inferno! 

Inda nSo é tudo, o estudante estuda, 
De cores muda, de cançado tomba; 
Os seus exames vai fazer na escola. 
Por uma bola chupa ás vezes bomba* 

Fica sem credito, perde o anno, a amante, 
Dá em vagante — o que quer que faça? 
Começa então a frequentar orgias, 
E vai seus dias terminar na praça. 

Oualberto Peçonha. 



J 



TROVADOR 190 



LUNDU 



O CARANGUEJO 

Caranguejo anda ao atá 
Procurando a sua entrada, 
Veio seu mestre titio 
Fez dos c'ranguejos cambada. 

Depois das cambadas feitas 
Sahiu p'ra a rua a gritar: 
— Chega, chega a freguezia! 
^ Vai caranguejo, sinhá? 

Moças pobres que yê chamam, 
E vSo logo a perguntar : 
— Quanto custa os caranguejos? 
— Meia pataca, sinhá ! 

—Mestre titio me diga 

O seu nome como é? 

— Sinhá, p'ra que quer saber? 

Eu me chaqio pai Manoé. 

— Pms pai Manoel, vossê 
Vai dar passeio ligeiro, 
E quando vier de vblta 
Venha buscar seu dinheiro* 

— Moça, leva os caranguejos 
E deita-os a cozinhar. 
Que mestre titio nSo tarda 
O seu dinheiro buscar. 



202 TROVADOR 

Basta, para oastigar-te, 
O tocar no que toquei; 
O lembrar que estes carinhos 
SSo restos que eu ji deixei. 

Pelo que gozas agora 
Imagina o que gozei ! 
O que bebes tSo sedento 
• SSo restos que eu já deixei. 

A flor, o fructo de amor, 
Intactos n'elle encontrei'; 
Tudo o mais que der aos outros 
SSo restos que eu ji deixei. 



RECITATIVOS 



SONHA 

Sonha, donzella, a mocidade é bella, 
P'ra quem só teve desde o berço fl6res ; 
A yida é triste para mim, coitado. 
Que yivo cheio de cruentas dores t 

Sonha, nSo penses no cantor perdido. 
Amante e crente do candor dos iTrios; 
Sonha, nSo queiras partilhar commigo, 
Do mundo falso seus cruéis martyrios. 

Sonha, nSo olhes a impureaa d'aliiia 
De um poeta que te amou com anbia; 



i 



TROVADOR 208 

Atira ao fogo esses loucos cantos 
De quem na orgia mareou a iuÍAnoia. 

Sonha, que ps anjos sonharBo comtigo, 
A virgem pura guardará teus cantos; 
Mas nio maldigas n^esse sonho puro 
A quem da lyra arrancou só prantos. 

Sonha, nSo chores por me vêr perdido, 
Louco, descrendo da cruenta sorte; 
NSo queiras rêr-me navegando afouto 
Por sobra as vagas da tremenda morte. 

Sonha, que o pobre chorará sósinho. 
Sorvendo a taça d'amafgosa lida ; 
E quando a morte me riscar do mundo, 
Mesmo cadáver — te amarei, querida. 

Sonha, não penses, é loucura a vida, 
E falso e negro teu viver dourado ; 
Só^nSo é falso o poema immenso 
Que sobre a campa deixarei gravado I 

«7. M. Mancebo, 



JOVITA 



A bella, valente, guerreira Jovita 
O pasmo hoje excita com seu proceder ; 
Quem é que diria que um peito tSo frágil 
Teria a coragem d'aquella mulher?! 

Deixando a familia, deixando seus lares. 
Da guerra os azares vai ella arrostar! 
NSo quer (que coragem !) servir d'enfermeira. 
Quer, sim, per guerreira p'ra muito$ matai: ! 



904 TROVADOR 

Javita nSo teme pisar 00 espinhos 
De horriveis caminhos oo'a planta mimosa; 
NSo teme trocar esse clima do Norte 
Pio frio tSo forte da plaga arenosa. 

Que exemplo"Bnblime ! Que facto gigante 
Se dá n'este instante no nosso Brazil ! 
O mando hoje pasma, todo elle s^inclina, 
Porque a mão divina nos guia o fuzil. 

• 
Permitte, heroina, que o bardo obscuro 

Te augure um futuro risonho, feliz ; 

Que voltes da guerra coberta de gloria, 

Que illustres a h^toria do nosso paiz. 

Qreycrio ChrisHno da Silva. 



LUNDC 



A CASA UAL ASSOMBRADA 

Vê-se a cidade abalada, 
Todas as velhas rezando, 
Ás criancinhas chorando, 
E a policia agitada : 
— A casa mal assombrada! — 
Grita em coro a multicl|io; 
Ê tSo grande a confusSo 
Que a folhinha postergou-se, 
E a Quaresma mostrounse ^ 
Depois da BesurreiçSo ! 



j 



TROVADOR 205 



Mas Tamos do caao ao fondo; 
Diz, Quaresma, o que é isto? 
É um caso nunca visto, 
É um'alma do outro mundo, 
Reina um mysterio profundo 
N'e8ta mísera casinha? 
Porque mal chega a noitinha, 
Logo um defunto brejeiro 
Bate como um leiloeiro 
Lá na porta da covinha. 

Um gato preto já vi 

Que era tudo, menos gato; 

Vi arrastar um sapato 

Que eu nSo calcei nem buli; 

Andando d'aqui p'ra alli 

Encontrei uma tripeça. 

Vi um caixão e uma eça. 

Um gallo cacarejando, 

E lá no quinUl .rinchando , 

Um cavallo s^n cabeça. 

Safa! o caso fjus terror! 
Estou com medo, nEo nego! 
Uma alma que bate o prego 
Contra ás ordens do inspector!? 
Diz o tal martellador: 
Como bate? e com que som? 
Faz assim: tem, tam, tom, tom; 
Esta agora é diabólica ! 
Com tal pancada symbolica. 
Só se é alma de maçon. 

Acode a policia ousada, 
Dous pedestres com archote 



306 TROVADOR 

InTadem anoftando a morte 
A casa mal aasombrada : 
A tropa disciplinada 
Divide-se em pelotSes, 
Ouye-se proclamaçSes 
D'eB8eB modenuMs soayoB, 
Firmes, intrépidos, bravos, 
Molham oomtudo os calçSes. 

Porta, janelU e telhado, 
Sala, cozinha e quintal, 
Tado em bloqueio infernal 
Ficou dous dias cercado. 
O povo aterrorieado 
De noite uma sombra viu. 
As três pancadas se ouviu, 
Era a hora tSo sinistra 
Que o pedestre de mais crista 
De cambalhotas cahiu. 

Màs a visSo 'stá filada, 
A tal alma do outro mundo ; 
De immenso gosto profundo 
Fica a cidade banhada* •• 
A alma achou-se trepada 
Em um velho paredSo : 
Era um bello, um maganSo*.. 
Por zombar dos assombrados 
Foi pagar os seus peccados 
Na casa da correcção* • • 



Fm DO VOLUME I 



I 

j 



I 



Pag. 

A aaseneta 25 

^Á borda do mar 128 

'A brama ^ 66 

Acaboa-se a minha orença. . 134 

A capella da virgem 154 

A easa mal assombrada. . . . 204 

A ciara 139 

A corda sensível 20 

A eÔT morena 13 

A eôr morena 102 

A descrente 107 

A despedida 35 

A despedida 88 

A despedida 171 

Adeas^ lyra malfadada 142 

Adens, mea anjo 90 

A fiôr do men cnlto 150 

A flor tSandade» 122 

Além de meos males 89 

Alua 81 

Alua 98 

A marrequinha. 23 

Amor de mãi 101 

Amor de ml.\ 157 

Amor perfeito 33 

A nebulosa 91 

Anjo.... 54 

Anjo do oéo, ta me matas. . . 151 

Ao Paragnay 164 

Ao sol 83 

A pensativa 45 

A saudade me flagella 64 

As olarinhas e as moreninhas 59 

A tr-Istera 129 

Ávida 56 

A TÍda dofrade 161 

A Tida e a morte 118 

A virgem do meu amor. . . . 104 

A virgem dos mens sonhos . 54 

Barca Bella 112 

Bem te vi 111 

Borboleta 14 



Pag. 

Bradl, acorda 1 17 

domo se ama a Deas no céo 193 

Comtigo Bó posso eu 113 

Ck>nfiss&o e desengano 47 

Dá-me um beijo 165 

Dá-me um sorriso 26 

Dá-me um sorriso 43 

Deixei cabanas 173 

Desalento 34 

Despreza o mundo 184 

Do Brasil a mulatinha 148 

Dorme, dorme, ó morena. . . 167 

Elisa 146 

Elvira 19 

Enlevo 110 

£ peneira nos olhos que tem 86 

Escuta, donzella. 166 

Escuta, virgem ! 135 

Espanta o grande progpresso 67 

Esperança morta 73 

Estamos no século das luzes 75 

Estes mocinhos d*agora 130 

Eu amei uma inconstante . . . 159 

Eu já tive uma menina 48 

Eu posso com mais algaem . 123 
Eu soffiro angustias me sufFo- 

car 145 

Eu sonhei que nos meus bra- 
ços 195 

Eki vi o anjo da morte 123 

Eu vi-te, virgem 190. 

Fada de encantos 183 

Feitiços da mulata 30 

Flores d^alma 126 

Foi cruel o meu destíno. . . . 149 

Gemo na dura prisão 81 

Imbemizate, engrazate, a la 

mode de Paris 40 

Já não vive Delia 29 

Já passei dias felizes 44 

Jovita. 203 

Justos céos, como é possivel 188 



Pag. 

L&gritaasda ddr l&T 

Lã no largo da Sé lU 

Lambrançae do nosso amor. 62 

Lembrunçaa do noMO amor. 70 

Lílía bella, o triste pranto. . 169 

Magoa e saudade 84 

Marília, escuta 97 

Marilia, teusollioB tristea. . . 194 

HenioEt doB olhos negros. . . 175 

Menina vossê me diga 59 

Menina, porque razíLo 172 

Minh"alnia é triste ■ 79 

Mulatinha do oaroço âO 

Nio me amofine . 1™ 

Não pouo com mais ninguém 33 

Ni« sei que sinto ^ 

Nasce risonha a aororft 117 

NsB horaa qaepasaotiotris- 



126 I 



N'eBtae praias de límpidas 

arêu 

No semblante tens impresso 

Nossa mfti 

Notou ares, novos oUmas irei 

hjage respirar 162 

O amorT>erfoito 121 

O artista 11 

O banqueiro 93 

O canto do cysne 7 

O canto da virgem 37 

O caranguejo 199 

Ooogo 168 

Odesorido 125 

136 



O estudante 

O gondoleiro 

Oh I que bom se en 

Oh sorte minha cntel! 1& 

Olbar de virgem 46 

O marujo 92 

OsoiuDies IW 

,0s olhos, chorosos 1&& 

Os olhos de Unuúa 147 

Os mandamentos, < 188 



O teu amor, pura virgem . . . 
O todo de unhiúnha 

Pensa «procede 

Petden a flor de mens dias. 



143 



Perdoa tA 

Perfumes d'aLma 191 

Ponto final a 

Por ontre as trevas da noita 1% 

Porqoe me fitas? Si 

Porqne soa triste 133 

Prazeres que eu nio sonhava 144 

Quando eu era criancinha. . 15C 

Quando no tumulo lOC 

Quanto és bella ! 7G 

Quem sabei? 193 

Que noites qn'en passo aqui 

no rochedo 180 

Que queres mais? i^^ 

Quorofugir-to 'iW 

Recordaç&o IST 

Remorsos * 

Retém noa lábios ingratos . . 17 

Riso e morte ' 

^8 n 

Róseas flores d'alTOrada.... 96 

Kosto d'ai\jo 16 

Saudade 108 

iíão ciúmes de uma ingrata. 36 

São restos que cu j& deixei. SOI 

Se a esperança jA n&o tenho ^17 

Se disfarço quanto sinto.. :. ^38 
Se és anjo no gesto e belle- 

la M 

Se eu fâra da noite o astro 

formoso b3 

Segredo. 16Í 

Siciliana 116 

SinhôJuca 117 

Sonha 202 

Sonho de virgem.. ...'. 116 

Suppliea 71 

Teu doce amor 10 

Írovador 41 

rovador 61 

Trovador 61 

Um namorado da época .... 160 
' Uma chaga me abriste no 

peite 124 

Vem, donzella, na hora ex- 
trema ST 

Vénus 119 

Virgem santa 1I5 

Vivendo de ti distante 80 

Y&7&iinha voseê mesmo. ... 141 



~\Ui^ 



m. 



LIVRARIA POPULAR DE CRUZ COUTINHO 



douda do Candal. — Doze ca- 
inento.-í felizes. — Dua* horas 
de leitura. — Engcitada. — O 
eequoleto. — Estreílas funestas. 

— Kst-ella;i projicias. — Fanny. 

— A fillia do arcediago. — A fi- 
lha do doutor nogro. — A filha 
do regicida. — (» demónio do 
OUTO. 2 V. — A freira no «ubtor- 
raneo. — Judeu. 2 v — Lagri- 
ma.s íibcnçoadaíJ. — O livro ne- 
gro do padre Diniz. — Livro do 
consolação. — Lucta do gigan- 
U^B. — Memorias do cárcere. 2 
V. — Meinonaa de Guilherme do 
Amaral. — Memorias dffr. Jofio 
do S. J. Queiroz. — Myfitorios 
de Lisboa. 2 v. — O mortaico. — 
A neta do arcediago. — No Bom 
IedU3 do Monte. — Noites de in- 
fcomnia, publicação mensal. 12 
vol. — Noites de Lamego. — 
Aonde estí a felicidade ? — O 
olho do vidro. — O que fazem 
malhcrea. — Quatro horaa inno- 
oentcs. — A queda de um anjo. 

— O Regicida. 1 v. — Romance 
de um homem rico. — Romance 
de um rapaz pobre. —O retrato 
de Ricardina. — O sangue. — 

— Sceuas contemporâneas. — 

— Scenaa da Foz. — Scenas in- 
noccntes da comedia • humana. 

— O senhor do paço do Ninàes. 

— A serêa. — O santo da mon- 
tanha. — Aa três irmàs. — A 
mulher fatal. — Um homem de 
brios. — Vingança. — Vinte ho- 
ras do liteira. — Virtudes anti- 
gas. 

Obbas ditkbsab do mesmo autuob 
— Divindade do Jesus. — Horas 
de paz. — Os martyres. 2 v.'tr. 

— O génio do fibrisfeiànismo. 2 
V. trad. — A imraõrlalidade, a 
morte e 4 vida, tx^d. — Jesus 

iChristo perante o século, trad. 

— Apreciações litterarías. — O 
muivdo elegante, coUecção do 
romances, poesias, musicas o es- 
tampas. — Vaidades irritadas e 
irritantes. — D. António Alves 
Martins, bispo de Vizeu, biogra- 
phia. — A espada de Alexandre. 



DuAMAs DO MKSMo — Abonçoadas 
lagrimas. — Como os anjos se 
vingam. — O condenmado. — Es- 
pinhos e flores. — Agostinho de 
Ceuta. — O marquez do Torres 
Novart. — Jus^^iça. — O morgado 
de Fafe cm Lisboa. — O morga- 
do de Fafe amoroso. — Poesia ou 
dinheiro? — Purgatório e paraí- 
so. — O ultimo acto. 

Mendks Lf.al — Os primeiros amo- 
res de Bocage, comedia. — Can- 
tico.s, poesias. — Os mosquetei- 
ros d 'Africa. 1 v. — Infaustas 
aventuras de me^itre Marçal Es- 
touro, victima de uma paixão 

1 vol. -O pavilhão negro, poe- 
meto. —•Os bandeirantes (chro- 
nicji do ultramar). 3 v. — O ca- 
labar, historia brazileira. 4. v. 

— Guerra do Nizam, trad. — A 
afilhada do barão, comedia. — 
Pedro, drama. — Pobreza enver- 
gonhada, drama. — Egas Moniz, 
drama. — A pobre das ruiuas 
ou o corsário vermelho, di-ama 
e outros. 

JuLio Diniz — A morgadinha dos 
cannaviacs, chronica da aldêa. 

2 v. 

Almeida Garret — Viagens na mi- 
nha terra. 2 v. — Arco de Sant'- 
Anna. 2 v. — Flores sem fru- 
cto ; Lyrica, poesias. — Fabu- 
las, folhas cabidas. — D. Bran- 
ca, poema. — Romanceiro. 3 v. 

— Camões, poema. — Catào, tra- 
gedia. — Meropo e Gil Vicente. 

— Frei Luiz do Sousa. — D. Phi- 
lippa do Vilhena. — Sobrinha do 
marquez. — O Alfageme de San- 
tarém. — Tratado de educação. 

— Portugal na balança da Eu- 
ropa. — O retrato de Vénus. — 
Discursos parlamentares. 1 v. 

— Helena, romance. 1 v. 
Conselheiro Bastos — Collecçâo 

de pensam cílios, máximas e pró-* 
verbiòs. 2 v. — O medico do de- 
serto. — A virgem da Polónia. 
— ^Dou3 artistas, ou Albano c 
Virgiuia. — Meditações ou dis- 
cursos religiosos. 1 v. 
Castilho — Noites do castello, os 



f 



V 



X 






t' 



LIVIiARIA VOrULAR DE CRUZ COlJTrcUO 



ror^c )H tio I*í)ríi'i'-.il. 1 V. coTi 
o -' nu;>a-i. - -Tratiulo d-* in.-'ri- 
ti.' •' ;íO .>0'*t". _'.ie/,M, - - O OUtoiU). 

ilt' l^-'u) o Xiri'i-.o. - Tríit-i'! > 
d-' niut':ri.):.M*-i. - - A ;»ri'ii.ivr/:i. 
- K-^tM \ .r-r» »s ni)"t\' >^. -- Am 
Ví"<t izic*;'^ d<' \ i .rili.), t'";Hl.- - 
') Li\ ;ir'':".i'>. t.r.«d. -O !ii»h1Íco :'• 
f»>-.;'l. — 'i':ivf':ru. --- Ar; Tn,'tt- 
.i;i) ',)li()i'.'-; d", O\l.llo. l V. - 

*^ V. --A-A •^nl)ic'iMil:'s, f-V'd. - 

Af<'l'i«)ii(» i-o"t'r»ii«" < \i -^r".)'!,). - - 
<^ .-pMo'"!'-. d» <>,-i lio, tiMll. — A 
!v;l do A.i.'c'i.'1'o' *•«;», t''.;d. -O 
l''.;;»>to, t":Ml. O \?%s-t.if-';"OM... 
. t Mil I ;\>» - - r,'.\ I':j-'-í. - !r.-*.(- 
ri IS r-í'" d'' ■•»• i'i . — M'->t'^"io>. (.1 ' 
Pv. -.id i dl* í'int'-;i. — A-^ l'n' >n-,. 

d;i ai i"' i. tr.:d. 

• 'iiHiK 'i' iw iT). lio i>*A:«Airrnv — O 

f«'li/. ii^ l-' 1.' >d "'nti* d) ii!,;;tdo o 

d.i i'ort»rn. :í v. co^i «»;' r ; > «.r*. 

- K •i'r(";.*:'i > ^'liio.^o )}'U"í. Í'J v. 

- (';irt;i'^ '»') /-^ii^M-nritli ''ii.ific/is. 
•S V. 

127 V. S"-id<> : S«M'i:iM('H. — ÍVr-f ^. 

- - í li-^tovii d)) fiit'iro. — A»*t"». d '. 
íwt i\\ —1 ^b'-i^ v;iri;is?. — Oh<-.'i^ 
i'n-dit..rt o. a vida d») p.id'^; Aii- 
ti)'.Mo Vi-'ir'i. 

!*a:>íi:: Jo-,j'i \. di: Ma^t'-'*"» — Mo- 
ti II lir.f' r:Tío. 1 V. — A b'\^*a 
c^ft»l'd>. 1 V, — (^;i"f'.-;. 4 V. — 
O d'»^'';'_:aiH). Mfriodwv) •(oiif-ico. 
V. mo "'d. — O t ■4'> Híriídor 'vn-fr,- 
^•i *z. 4. V. — Os h.irro.>, ;v»ivi-.i. 
--( Mí'"!r«\ p(><'MiM. — A 'ti. d fi- 
(líio, iu»i»!n.'i — A íiniMi'»".'' , poo- 
ni.i, — A vi*> r"!n rxtí*."iM ao 
tMn')]o d;t S;'bfd')rii, po." ifi. — 
Newton. no'^-M}i.— A vc d-d ». 
oa '.)'''í = ':;i'-ntos phiinso dro.M 
»;ob"»> or- ob'<'cr(H in.'ii-í iinjcjrt-iii- 
t\'A á r.-' :i •>, o ao f^t.ulo. 1 v. 

— C« n-^iia do.-í TiU>.i.)dir*. 2 v. 

— O !5'^fedo rtivelfido ou inani- 



f'rtt íçào do r}y<t'"?!'ia i\n^ pt*i3rei- 
ro> livriM c iiluini j;;»!»)'^, «• «%ua 
iiit'( i Míc: i na f;ir:il r»-volu»;ã~» 
tVaMcv.a. .") V. — O hoin*Mn ou 
o.-í liii,it<w da r;i it>. --Cartits 
n'ui:o-.o »luo:i^ a Attjco. 1 v. — 
T;.'i',tt.i ;\o di>"4 i>rl:.i'' lii)^ ir.fta- 
n^ix - ico>^, O i>^oi--< -A dos }>v*lre:- 
r.»s liv^•'^í ill".;inÍM:idos. 1 v. — 
<\;itiíi a fti riMlrn A. Cavroê. 
«» outi-(M ioPi,'íO'*. 1 Y. — i.M se- 
ba:^ti;!llist:l■^, r»'fiiíav,';io h in 'í^iLía 
obra j)<^ios i\'d u'íori'.» do (.'í>rreio 
d.i l\':il..Miia. 2 V, — O uovo Jir- 

- '::•). lauta, puiMiiu. 

A. riMí.xrr.L - K<^b ».'o^ e opific^v- 
dios. 1 V.- - VnvXo> ao coTor da 
!) '.Mia. - Idvllio^á b.''ira(V:»,::un. 
1 V. -í> t<'Stiaifiiío iiv <:i:iiruo. 
-- O ann '1 jii\ >t rrio-io. -A |>c>rfa 
do paraíso. - Do iu>''tal á cla- 
r ib. »ia. — - roT^írrÍTKK.-ò» dl iia al- 
dra. — O livro d-is L:ir'iina3. — 
O livi-í) d;i!^ i\«*)r«'s. — Mvíiterios 
da iriinha rua. — XtrvosOíi. l\-ni- 
pbar".('i)^ o s;:niriiii<«>r»'^. — Kutre 
o et"' o o ooi: lac — A virtude 
d'í I!o<i:i,i, trai. — O d«"»ií're-d:.- 
do, tr.id. — M'"»inori;d de famí- 
lia, tr.id.---(> do.St-obrimcuto do 
l>r;'/il. voidiiiC'!, 

' >S PTUl/VN.íS DK IVVR!!>, pOr Paulo 

d(* l>i)i*."rt^ o V. 

r'n.a l^i i/. i»k Soi:- v-- Historia de 
S, DoadníTO^. t> v. — Vida d^ 
J>. fnM Baitholonn^H dos Mar- 
tvrc'^. 2 V. — Auiia.^s d»» el-re: 
D. Joàí) in. 1 V. — Vidadelien- 
vioue dl' Sti.sa. 1 V. 

i^Ki.Ni -O tr-Mio da liniriui portu- 
tru'\'a. 2 V. — Kstiub/ sobre os 
Lusi!«d:-S. 1 T. — Liv;òi"55 •*loTnt»n« 
taro^ d" noetica. 1 v. — Li^oos 
ol<»iiitMitar(.H de rii«'to.*ic:i. 1 v. 

Uu a' la^u ■ -Tratado «'b'nu'ntar de 
_£r!'Oírr'\pbia astronómica, phvsi- 
ca, liistoriea \\ politica, n:iti£>%e 
iriodv.rna. ^^ v. — O c;iteoi?jTno da 
doutrina chri;<ta explicado ou 
ex »lieai;õeí5 do Catecismo de Ae- 



4 



PortT 1876 — Typ. .de Antouio José da Siha Teixeira, CimccUa Vclh*, ÇG 



ninimiiiiiinniii»wT«wTWTrw»«^»^.iiy«.».^ fi n'"iiMn i7V"Tvn 




BBBBEBSSP 



TROVADOR 



COLLECÇÃO 




t 



DE 




HS. HECITITIVOS, MÍ IUNDOS. etc, 






NOVA EDIÇÃO, CORRECTA 



J-N 



St 



YOLVSIE II 




RTO DE JANETRO 

Ha Lr/EAHIA POPuIAR de í L da CHUI CIT::;HJ 

75, Rua de S. José, 75 

IH70 



— E^ 



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I . 



"1"*^ MfiiiyiiT S Wwr iHMiiiiLiikiiJiimiillffW^ »<9 




LI\fRARlA POPULAR DE CRUZ COUTINHO 



RUA DE S. JOSÉ, 75 — RIO DE JANEIRO 



A Arrf.pendida, romance por J. 

A. d'Orncllaft. 
S. Pkheiua — Horas do campo. 1 

vol. 
EsTAcío DA Veiga — Romanceiro 

do Alc:arvc. 1 v. 
Dn. 'J' 10 F. «Almi-ida — O Bra- 

zil c a Inc:l:it'M-r i, ou o trafico 

áo^ africaiioH. 1 v. 

A. li\sT — M ravilhas do fr<^nio 
do liomcm. 2 v. — A cortcza. do 
Paria, 

Janet — A família. 

Freire dh Carvamio — EnMnios so- 
bre a historia littornria d(í Por- 
tuíca . 1 "• . — Kerttv.òoíi sobre a 
liiiQ^iia portniíiK* a. 1 v. 

Mon.v — Quadros da historia por- 
tuírno/a. 1 v. 

B. PiNur.iRO — Arzilla. — Sombras 
c Ln/.. — Ainorps dinn visioná- 
rio. romancT' hl->torieo. 2 v. 

Isnr.LLA por Foriuin(l«'S dn T7ocha. 

AxPRvnr: Feurtira — 'rrndií.oiM e 
phimtisias. 1 v. — A familia do 
josuita. 1 V. — Últimos innmou- 
tos do D. Podro v. — Littcratii- 
ra, musica e bi^lla^-artfs. 2 v. 

Mo«;ql riu\ — A inarr]Uo/.a do Cam- 
bia . 2 V. 

O. J*' ciLLKr — Historia dn Sibvlla, 
1 V. — A cond-^-^inha d*» ll«"«;-»'s. 

— Flor do liz. 5 V. — Pí^man- 
co do um ranaz ]iobre. --0 con- 
do do (.'amour. 2 v. — Júlia do 
Trocnour. 1 v. 

AuGisTO r, Or.vMPiA, por F. da Po- 
cha. 2.-'^ 0(1 i 'MO. 

W. d'Izoo — Maria, ou a filha do 
um jonialriro. 7 v. — A m:ir- 
quo/.a do Jji^lla-^ôr. 8 v. — I^- 
br<M o ricos, ou a bruxa dȒ Ma- 
drid. O V. 

TKREssrnnA. — O? hypocritas. 9 V. 

— A J d i a E rr n n t o . 1 ,v . 
FrRXAxprz Y (ioyzw.vz — D. João 

Tenório. 2 V. com o?t. — O rei 
maldito. 5 v. com est. — Casa- 



da e vircrcm. 2 v. — Lucrécia 
Borgia. — Memorias de Satanaz. 
2 V. 

Lriz Parrénf. — A inquisÍQão c o 
roi. 2 V. com est. — A inquisi- 
ção do rei c o Novo Mundo. 3 v. 
com ost. 

Dias Mora — Florinda, ou o palá- 
cio encantado. 2 v. com est. — 
Prliyo,ou o restaurador de Ileg- 
panha. 2 v. com est. 

Tarrvhoy Mateos — Ódio de Bour- 
l)ons, niomorias escriptas com 
Hantruo. o v. com est. — Tem- 
pest.idos da vida. 2 v. com oat. 

— Os ciúmes de uma rainha. 9 
vol. 

Ilíada de Homero, trad. de M. 

Odorieo Mendos. 
Pailo Fr.vAL — Os companheiros 

do silencio. 4 v. — A loba, 8 v. 

— As du.ns mulheres do rei. 1 
V. — As filhas dos reis. 1 v. — 
Saldo do contMs. 1 v. — João 
Diabo. 4 v. — O lobo branco. I 
V. — Os valentops del-rei. 1 v. 

filho do diabo. 1 v. — Uni 
drama da roíroncia. 1 v. — O rei 
dos mendiíTOs. 4 v. — Aduqueza 
do Nnmour. 2 v. — A cruz da 
espíula, ou o emigrado. 1 v. — 
A croonla. 1 v. — O joíro da 
morto. () V. — O matador de ti- 
ccro^. 2 V. — A pt-ccndora. 1 v. 

— Floresta do Pennos ou o lobo 
branco. 1 v. — O voluntário. 1 
V. — A torre do diabo. 1 v. — 
A fada dos Arcnos. 1 v. — A 
fonto dns Pérolas. 1 v. — Os ca- 
saoas pratas. 1 V. — O paraíso 
das mulheres. 2 v. — O corcun- 
da. G V. 

I.iri;: d^Araujo — Contos c histo- 
rias. 1 V. — (,^ousas portucrue/.as. 

1 V. — Novo almocreve das pe- 
tas, livro alocrre e foiorazà».», no 
po^to do antigo Abnocreve dai 
prtas. 2 V. 



j 











^ 



L 



LIVRARIA POPULAR DE CRUZ COUTINHO 



RUA DE S. JOSÉ, 75 — RIO DE JANEniO ' 



4 



* ^ 



f;i 



Camillo C. Bsahco — Doze casa- 
mentoB felizes. — Duas horas de 
leitora. — A Ençeítada. — O 
esqueleto. — EstreTlas funestas. 
— ^EstreUas propicias. — Fanny. 
— A filha do arcediago. — A fi- 
lha do doutor negro. — A filha 
do regicida. — O demónio do 
ouro. 2 V. — A freira no subter- 
râneo. — Judeu. 2 V. — Lagri- 
mas abençoadas. — O livro ne- 
gro do padre Diniz. — Livro de 
consolação. «^ Lucta de gigan- 
tes. — Memorias do cárcere. 2 
V. — Memorias de Guilherme do 
Amaral. — Memorias de fr. Jo&o 
de S. J. Queiroz. — Mysterios 
de Lisboa. 2 v. — O mosaico. — 
A neta do arcediago. — No Bom 
Jesus do Monte. — Noites de in- 
somnia, publicação mensal. 12 
vol. — Noites de Lamego. — 
Aonde está a felicidade? — O 
olho de vidro. — O que fazem 
mulheres. — Quatro horas inno- 
centes. — A queda de um anjo. 

— O Regicida. 1 v. — Homance 
de um homem rico. — Romance 
de um rapaz pobre. — O retrato 
de Ricardina. — O sangue. — 

— Scenar contemporâneas. — 

— Scenas da Foz. — Scenas in- 
nocentes da comedia humana. 

— O senhor do paço de Ninftes. 

— A serêa. — O santo da mon- 
tanha. — As três irm&s. — A 
mulher fatal. — Um homem de 
brios. — Vingança. — Vinte ho- 
ras de liteira. — Virtudes anti- 
gas. — A douda do .Candal. 

Obras divkrsas do msssio authos 
— Divindade de Jesus. — Horas 
de paz. — Os martyres. 2 v. tr. 
— O ^enio do christianismo. 2 
V. trad. — A immortalidade, a 
morte e a vida, trad. — Jesus 
Christo perante o século, trad. 
— Apreciações litterarias. — O 



mundo elegante, colleoç&o de 
romances, poesias, musicas e es- 
tampas. — Vaidades irritadas e 
irritantes. — D. António Alvei 
Martins, bispo de Vizeu, biom- 
phia. — A espada de Alexanare. 

Dbamas do mesmo — Abençoadas 
lagrimas. — Como os anjos se 
vingam. —O condemnado.— Es- 
pinhos e flores. — Agostinho de 
Ceuta. — O marquez de Torres 
Novas. — Justiça. — O morgado 
de Fafe em Lisboa. — O morga- 
do de Fafe amoroso. — Poesia oa 
dinheiro ? — Purgatório e paraí- 
so. — O ultimo acto. 

Mendes Leai. — Os primeiros amo- 
res de Boc*ge, comedia. — Can- j 
ticos, poesias. — Os mosquetei- 
ros d* Africa. 1 V. — Infaustas 
aventuras de mestre Marçal Es- 
touro, victima de uma paixio. 

1 vol. — O pavilhão negro, poe- 
meto. — Os bandeirantes (chro- 

. nica do ultramar). 3 v. — O ca- 
labar, historia brazileira. 4. v. 

— Guerra do Nizam, trad.— A 
afilhada do bar&o, comedia.^ 
Pedro, drama. — Pobreza enve^ 

Sonhada, drama. — Egas Moniif 
rama. — A pobre das roisss 
ou o corsário vermelho, drama 
e outros. 
JuLio DiKiz — A morgadinha doi 
cannaviaes, chronica da aldéa. 

2 V. 

Almeida Garret — Viagens na mi- 
nha terra. 2 v. — Arco de Sant* 
Anna. 2 v. — Flores sem fror 
cto; Lvrica, poesias. — Fabu- 
las, folhas cabidas. — D. Bran- 
ca, poema. — Romanceiro. 3 v. 

— Camões, poema. — Cat&o, tra- 
gedia. — Merope e Gil "Viceote. 
— Frei Luiz de Sousa. — D. Phi- 
lippa de Vilhena. — Sobrinha do 
marquez. — O Alfaçeme de San- 
tarém. — Tratado de educaçAo. 



J 



TROVADOR 



COLLECÇÃO 



DE 



MOOINHiS, RECITITIVOS, iRliS, LUNDOS, EE. 



NOVA EDiÇXO, CORRECTA 



TOLOIE II 



RIO DE JANEIRO 

H« mm POPULAR de A. A, da CROZ COUTINHO — Editor 

75, Roa de 8. José, 75 



1S70 



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TTP. DE ARTOmO JOSÉ DA SILVA TSIXBIBA 

ef, Bua da CaneêUa Velha, 62 
4«76 



TB.@¥ÃB 





MODINHAS 



QUANDO TUDO ME ABANDONA 

r 

Quando tudo me abandonai 
Quando vou deixar a vida^ 
Ouve ao menos, por piedade. 
Minha triste despedida. 

Adeus, Felina, 
TSo i?uâgra sorte 
O anjo da morte 
Vem terminar. 

E rai Bomir-se 
Na campa fria, 
Quem só vivia 
P'ra te adorar. 



Á 



6 TROVADOR 



DE TI BEM LONGE 



Poesia de J. A. Barros, e moBÍca do mesmo 

De ti bem longe, 
Meu doce encanto, 
Sinto minh'alma 
Envolta em pranto. 

Meu Deus, que dores, 
Que febre ardente 
Me abraza o peito, 
Me faz demente I 

Adeus, meu anjo, 
Morro te amando. 
No pensamento 
Só te abraçando. 

Teima constante 
N'um pobre louco. 
Que 08 tens amores 
Gozou tSo pouco. ' 

B8TRXBILB0 

Ai, que nSo posso 
Nos braços teus 
N'esta hora extrema 
Dizer-te — adeus ! 



V 



TROTADOR 



O DESTinO 



Quer o fado que te adore, 
Que por ti viva a Bo£frer ! 
Cumprirei o meu destino, 
Hei-de amar-te até morrer. 



Tu és um anjo 
Sempre lembrado, 
Em qualquer tempo 
Sempre adorado*. 

És meu bem, és minba vida, 
Meu thesouro, meu prazer ; 
Eu jurei-te ser constantè, 
Hei-de amar-te até morrer. 



Tu és um anjo — ele. 

Desdenhosa — se tu folgas 
Com meu triste paAeoer, 
Não importa, bella Mareia, 
Hei-de amar-te até morrer. 

^ 

Tu és um anjo — etc. 



9 TROVADO! 



COM AS LAGRIMAS NOS OLHOS 



Com as lagrimas nos olhos, 
Com a dôr no coração, 
Voa soltar da pobre iyra 
A minha triste cançSo ; 
É singela e :tSo sentida 
Como os ais na solidSo, 
Mas ardente e abrasada 
Como a dôr no coraçSo. 

Dentro d'alma foi nascida, 
Foi a dôr que m'a inspirou,, 
Foi a férvida saudade 
Que no meu peito a gerou ; 
Foi a benção derradeira 
Que minha mãi me lançou, 
Foi a dôr, a dÔr immensa 
Que este meu peito inspirou* 

Minha mSi ! primeiro nome 
Que a sorrir balbuciei; 
Minha mSi — dôoe harmonia 
Que jamais olvidarei; 
Espero na santa crença 
Que no peito alimentei, 
Tal nome levar a Deus 
Que a sorrir balbuciei. 

Minha mSi e doce amiga, 
Meu primeiro e santo amor, 
Para mim foste na vida 
Qual um arfjo do Senhor; 



TROVADOR 

Quantas yezes em teu peito 
Escondias toa dôr I 
MSi ! oh ! mSi t Tu foste sempre 
Meu primeiro e santo amor. 

Sempre meiga e carinhosa 
Vi o teu pranto correr, ' 
— Doce pranto que soltaras 
Ayoz do meu padecer; 
Como niSi só tu podias 
Minhas magoas comprehenderi 
E mil yezes com meu pranto 
Vi o teu pranto correr. 

Amor de mXi, puro e santo, 
Ai de mim, já o perdi, 
TSo ardente, tSo sagrado, 
Niínca, nunca conheci; 
Ha muito amor n'esta Tida, 
Mas tSo puro, nunca vi ; . 
O amor de mãi conheço 
Depois que o d'ella perdi. 

Eu. a perdi, — só no mundo, 
Ao desamparo fiquei; 
Foram lagrimas de sangue 
Lagrimas que entSo chorei; 
De joelhos, junto á campa. 
Minha mãi por ti chamei, 
Mas debalde. . . nSo me ouyiatf , 
Ao desamparo fiquei. 



10 TROVADOR 



RECITATIVO 



PERDÃO 



Perdoa, virgem, se inãammei-te o pejo 
Dando-te um beijo na yirginea &ce| 
Foi um instante de loucura ardente 
Que pela mente me passou fugace. • • 

Perdoa, virgem, se n'um dôce enleio 
Beijei-te o seio a palpitar de amor. 
Eu n2o sabia que esse beijo santo^ - 
Podease taoto enrubecer-te a o6r. • • 



Perdoa, virgem, se no meu delirio, 
Mimoso lyrio, te beijei então; 
Vi que fugiste vergonhosa, esquiva, 
Qual senntiva no tocar-se a mSo. 

Perdoa, virgem, se no teu regaço, 
N'am terno abraço desmaei por fim; 
Pois bem me viste nos teus pés cabido, 
Louco, perdido, sem saber de mim, • • 

Perdoa, 6 virgem, se de amor captivo, 
£\ii-te expressivo o coraçSo mostrar. • • 
Sou criminoso por te haver beijado, 
Eis-me prostrado* • . vem perdSo me dar • • • 



TROYADOB li 

PerdZo te peço, pois n^aquelle instonte 
Febre inflammante me abrazar senti ! • • . 
Enlouquecido por te ver corando, 
Fui desmaiando, e nos teus pés cahi • • • 

Perdoa, ó virgem, que de dó careço. . • 
Pequei, conheço; nSo me][ culpes, njlo. . . 
Já estou punido, ji conheço o crime. • . 
Arrependi-me. . • por quem és, perdSo. 



C* Sarafim Alvês. 



LUNDU 



AGRADOS DE NHÂ-CHIQUINHA 

Ha-de harer grande parada 
Com toda a tropa de linha. 
Somente p'ra todos verem 
Agrados de nhâ-Chiquinha. 

Tem mais valor, sSo mais doces 
Que a mais doce bolachinha, 
SSo feitos de arroz de leite 
Agrados de nhâ-Chiquinha. 

Valem mais que um bom presunto. 
Mais do que um queijo de pinha ; 



L- 



12 TROYADOB 

SSo boQB pasteis, bSo de nate^ 
Agrados de nhâ-Chiquinlia. 

Servem elles muitas vezes 
De tempero na cozinha ; 
Bebidos, também refrescam 
Agrados de nh&-Chiqainlui. 

Cruel fado enganador 
Poz-me no peito uma espinha, 
Fazendo que eu nSo desfirute 
Agrados de nhâ-Chiquinha. 

'Stou pateta, 'stou perdido; 
Vou chorar na camarinha: 
No peito me fazem cócegas 
Agrados de nhâ-Chiquinha. 

NSo quero saber de primas, 
Nem de outra camaradinha; 
Quero gozar tão somente 
Agrados de nhâ-Chiquinha. 



F. Pmda Bniga. 



TROVADOR 13 



MODINHAS 



rOxa saudade 



'^ 



Bôza saudade, 
Mimosa. flÔr, 
És o emblema 
Do meu amor. 

Tu bSo conheces 
O que é paixSo, 
Nem os martyrios 
Da ingratidSo. 

Teu viver triste 
Ê apparente; 
O meu é copia 
Do que alma sente. 

Finges viver 
Tal como eu vivo, 
Tu és isenta, 
Eu sou captivo. 

« 

Cada follirnha 
Que eon ti se encerra, 
Move em meu peito 
Cruenta guerra. 



i i TROVADOR 

Ea trago sempre 
Alegre o rosto, 
Mas tenho n'alma 
Cruel desgosto. 

Adeus, saudade, 
Mimosa flor, 
Deus te conserve 
Livre de amor. 

Eu já nSo peço 
Aos céos — ventura. 
Peço o descanço 
Da sepultura. 



ACEITA, Õ LUCINDA 



Aceita, ó Lucinda, 
Rosinha tSo linda, 
Que orvalha-se ainda 
De meigo frescor. 
EUa é primorosa, 
Fragrante, cheirosai 
Nascida, mimosa, 
No valle de amor. 



Tem tema lindeza. 
Tem dôc» belleza. 
Do valle a princesa^ 
Rainha das flores: 



J 



TROVADOR i5 

Toda ella é perfame, 
NSo nutre ciúme, 
Pois tudo presume 
S&r deusa de amores* 



No valle, vistoso, 
Mui lindo e formoso, 
Surgiu gracioso 
Da rosa o botSo; 
Depois foi abrindo, 
Perfume espargindo, 
Mas sempre sorrindo 
Com doce affeição. 

NSo vês, 6 donzella, 
Sorrindo-se — ella, 
T8o pura e tfto bella 
No seu desabrfr? 
Tu és mais formosa. 
Teus lábios, mimosa, 
Só sabem á rosa 
De affecto — sorrir. 



Tu és muito linda, 
Formosa Lucinda, 
Qual rosa que /linda 
Desabre o botSo: 
« ÉB casta e formosa, 
Qual âôr amorosa 
Que vive saudosa 
Na casta isençSo. 



Aceita, 6 lindinha, 
 linda rosinha. 



16 TROVADOR 

Gentil, galantinha, 
Do seio das flores; 
EUa é primorosa, 
Fragrante, obeirosa, 
Nascida, mimosa, 
No yalle de amores. 



O ESPECTRO 

Espectro horrível que surges 
Janto á minha cabeceira I 
Toa voz brada meu crime, 
Tenho horror d'68ta caveira. 

Com este punhal 
Que apertas, convulso, 
' Eu fiz este sangue 
Que tinge meu pulso. 

Foge, espectro! — este tormento « 

Que os do inferno inda é mais forte. •• 
Sobre meu rosto diviso 
Este teu bafo de morte. 

Com este punhal 
Que apertas, convulso^^ 
Eu fiz este sangue 
Que tinge meu pulso. 

Ergue o pulso, e teu punhal 
Buido enterra n'este peito! 
Âi! mais forte, espectro, calca. 
Tinge de sangue meu leito. 



TROVADOR 17 

Com este punhal 
Que apertas, tSo forte, 
Se a morte te dei 
De ti quero a morte. 

Eil-o. . • alli. . . com o mesmo ferro ; 
Que terror ! oh ! que tortura I 
Cavando junto a meu leito, 
Vai-me abrindo a sepultura. 

Oh! sombra, piedade, 
Kão calques assim, 
Eu dei-te um só golpe, 
Tu mil sobre mim.* 

• 
Sumiu-se. . . mas inda escuto 

Seus gemidos — que afflicçSoI 

E esta mancha de sangue 

NSo se apaga — oh ! maldição t . . . 

Espectro, descança, 
Que ao triste homicida 
As dores do inferno 
Começam na yida. 



RECITATIVOS 



A VIRGEM HOREHA 

Quizera, virgem, n'esta terna hora 
Que a dôr minora os tormentos meus, 



18 TROTADOR 

Polflando a lyra, descantar contente, 
Mui dOcementei os encantos teus. 

Morena, amo-te com fervor tSo forte, 
Que perco o norte só pensando em ti; 
Teus attractivos me enfeitiçam tanto,- 
Que yerto pranto que jamais verti. 

Âmo-te muito, occultar nSo devo. 
Mas nSo me atrevo meu soffirer dizer; 
Sinto no peito tão ardente chamma 
Que me inflamma — sem allivio ter. 

Quizera mesmo, sem pensar na vida, 
TSo fementida, elevar-te um dia; 
Porém debalde, desafina a Ijra, 
E nem me inspira a doce poesia ! • • • 



DONZELLA 

Donzella bella que a terra encerra. 
Qual anjo archanjo, eu sonhei, amei; 
Só cria e via no profundo mundo. 
Amores, flores que eu não gozei. 

 esperança mansa qae me viu, fugiu, 
Deixando, dando por amores, dores; 
O vento lento que acalma a alma. 
Quebrou, pbou as tenrinhas flores. 



TROVADOS i9 

Bisonhoe sonho? de innooente, crente, 
Profondo o mnndo nSo o ori» e via, 
Pa desgraça a taça nos amargos tragOB| 
Consiste, existe o que nSo previa. 

Foi tanto o pranto, que enlutou, niatou, 
Immensas crenças do meu eito peito, 
Descrida vida, que inâamma a chamma. 
No peito a eito de soffirer desfeito. 

A immensa crença do passado amado 
Findou, deixou só por sim, um ai... 
Da campa a tampa se desprende, fende. 
Da morte o corte ji ferindo vai. 



LUNDU 



O TESTAMEHTO 

Nada de graças, nada de dicterios, 

Que eu vou tratur de negócios muito sérios*: 

Â8 mocinhas do tom quando eu morrer, 
PassarSo cinco dias sem comer. 

Pois um morto que causa tanta magoa 
Requer um jejum de pSo e agua/ 

NSo quero meu corpo puxado por cavallos, 
E nem se ouçam dos sinos os badalos. 



I 



90 «OVADOB 

Cmcoenta yettias i>em feiae e careoas 
ÂtrasK irSo a tocar «nas rabecas. 

Outras tantas sem geito — des jentadas 
IrSo dançando as soas galopadas. 

Muitas outras, formadas em piquetes, 
Ii4U> também atacando seus' fogueteo» 

Trinta moças bonitas e gorduchas 

IrSo dançando suas valsas e cachuchas^ . 

Outras tantas yestidas de touquim 
TocarSo do outro lado seu flautimi 

■ 

Quatro donzellas que façam bem crochel 
Irlo cantando o meu Liberormé. 

Um velho oalvo — que sqa bem pansmlé 
Irá na frente soprando em um canudo. 

O meu caixão irá escancarado 
Para ser visto pelo sexo amado. 

Levarei lindas palmas e capellas 
Offerecidas por velhas e donzellas. 

Irei de botas — em fralda de camisa, 
Pois um defunto de luxo nJLo precisa. 

Quando á porta eu chegar do cemitério 
Tudo se cale e fique muito serio. 

HSo-de todos pegar no meu caixSo 
P'ra meu corpo lançar no frio chSo. 

Quarenta vdhas que sejam bem veBunfaas 
CantarXo na minha cova as ladainhas. 

E quando o padre me estiver encommendando 
As moças todas devem 'star sempre chorando* 

Qitando acabar e ihaer — AmenJetn^, 
HSo-de todos fazer — aignal da cruz. 

E qvando se' pozer a capa r6xa. 
Cada moça pegará na sua tocha. 



fBOTAOOB 21 

Em torno á cova dftnçarlo a gajjppads 
Até que a terra fique bem socada. 

Pois eu n!o aei para qi|e se dioer dere 
A un jDorto — A terra Ihê 4^a hv^ 



MODINHAS 



AaVORKDO, TU U TJSTE 



Aryoyedo, tu já viste 
A minha Jonia mimosa, 
Tir-se mt>strar saudosa 
Com seu rosto encaxrtador. 

!DeiKa eákir- tuas feUiaa, '-( 

Sente também minha dôr» 

Joaia ás vezea me dizia 
Com amante singeleza : 
— Aonio, tem a certeza 
Que eu te amo com ardor. 

Mudao^e os; tempos 
Doesta v<eiítnra, 
Jènky perjwã, 
UB» tem-me mmt* 



TROVADOS 



QUAMDO BD MOBRER. . . 

Qaando eu morrer ninguém chore minha morte. 
Esqueçam meu oadaver em seu leito; 
Mas levem-na bem triste, as tranças soltas, 
E deixem-na chorar sobre o meu peito. 

Nada mais quero do que um cyrio acoeso; 
Ninguém junto a meu leito de finado; 
Só ella a soluçar, pallida e louca, 
Reclinada em meu peito enregelado. 

Consolem minha mSi — que talvez morra, 
ÂÍAStem-na de tudo quanto amei f 
Pela rua onde passar o meu enterro 
NBo lhe mostrem o retrato que lhe áeL 

• 

A meu pai nunca fallem em meu njome, 
Deixem-no mudo, combater a sua dôr; 
Mas se o virem chorar, ohl nSo lhe fallem, 
Bespeitem— «que me tinha muito amor. 

« 

E tranquillo, meu Deus, a vós entrego 
A frágil vida de minha casta irmS; 
Cândida flOr — que o pranto da saudade 
Será orvalho que nBo tem manhS. 

Nada mais quero;— e que ninguém chore. 
Esqueçam meu oadaver em seu leito; 
Mas levem-na bc^n triste, imi traças soltas, 
E deizem-na ehonur sobre meu peito. 



TROVADOR 23 



ACABA DE ASSASSINAR-MB 

Acaba de assassinar-me, 
Satisfaz tua maldade: 
Dei-te metade da vida. 
Tira, poÍB| outra metade. 

Quando cadáver 
Já fôr mudo e finO| 
Âtira-o ao rio 
Que geme a teus pés; 
Dá-lhe um sorriso 
D'amor, expressiva, 
EHnge-te compassiva 
De mim — uma vez. 

Dava-te o meu coraçSo 
Se o podesse arrancar; 
Arrancando-o sei que morro, 
Morto nSo posso te amar* 

Quando cadáver 
Já fôr mudo e frio, 
Atira-o ao rio 
Que geme a teus pés; 
Dá-lhe um sorriso 
D'amor, expressiva, 
Finge-te compassiva 
De mim — uma vez. 



i4 TROVADOR 



MEU NOITE, HORA TERfilVEL 

Meia noite, hora terrivel, 
Silencio reina profundo. 
Só ea vivo n'este mundo 
Meditando no amor, 
Que por ser tão desditoso 
Me fará morrer de dôr. 

• 

A lua lá vem surgindo, 
TSo bella como uma rosa; 
Bella lua, tSo mimosa. 
Mais augmentas meu amor, 
Que por ser tZo desditoso 
Me &rá morrer de dôr. 

Mas, ingrata, me nSo ama. 
Porque sou mui desgraçado, 
Porque sinto apaixonado 
Por ella — somente amor. 
Que por ser tSo desditoso 
Me ís^i morrer de dÔr. 



RECITATIVOS 



A MINHA IRMl 

Se eu f5sBe do céo archanjo mimoso, 
Que Ijra divina fizesse vibrar. 
Em sons maviosos, irmS, eu quizera 
Hoje, contente, teus annos cantar. 



THOTÁDOB S5 

Se ea íasse do prado mui bella flormha, 
De aiximA saaTO e galante cSr; 
Quizera vaidosa ornar teus cabelloB, 
E n^elles murchar — perder mea odor. 

Se thesonros immensos nó mnndo eu tiyesBe 
Que mil ricas prendas podesse offertar, 
Quizera vêr-te hoje de jóias cercada, 
Riquezas sem conta far-te-hia gozar. 

Mas archanjo nSo sou, nem bella florínha, 
Thesouros n3o tenho que possa offertar-tSi 
Só posso mostrar-te em meu pobre canta 
A amizade mais pura que sei consagrar^e. 

, 26 de agosto. 

Cândida hahd de Pinho Cotrím. 



NÃO SEI, MAS SEI 

NSo sei dizer-te quanto tenho n'alma, 
Nem sei contar-te quanto soffro e sinto; 
Mas sei que vivo, que te prezo e muito, 
Sei que em meus sonhos teu amor presinto. 

NSo sei fallar-te n'um fidlar de amores, 
Nem sei expor- te o anhelar do "peito; 
Mas sei mostrar-te meus lauréis de gloria, 
Sei que aos teus rogos viverei sujeito. 

NSo sei te a serte madari meu fiido, 
Nem sei se a vida m0 «erá rÍ0enha| 



26 TBOVADOR 

Mas mí que embora do ponrir descraa 
Minh'alma é linda se comtígo sonha* 

Nío sei se a bríza me trará perfínnes, 
Nem sei se a lua do meu cóo nSo dista; 
Mas sei que aurora para mim desponta 
Quando mÍDh'alma teu semblante avista. 

Nlo sei se ha flores no existir de infante. 
Nem sei se ha fructos na estação de amores; 
Mas sei que existem sobre um chSo d'espinhoa 
Meus cinco lustros de continuas dõres. 

NSo sei se ha risos quando um peito eoffire. 
Nem sei se ha prantos quando amor se gosa; 
Mas sei que ás vezes, de prazer vestidO| 
Meu peito o luto sem querer desposa. 

NSo sei dizer-te o que tenho n'alma, 
Nem sei contar-te, quanto soffiro e sinto; 
Mas sei que yirO| que te prezo e muito, 
Sei que em meus sonhos teu amor presinto. 

F. lAitítO. 



lundC 



PAI JOÃO 

Quando iõ taya na minha teia 
{d idiadiata capitSo, 



TROVADOR Í7 



Chega na terá dim baranoo, 
lô mi chama — Pai João* 

Qaand». iô tara na minha terá 
Comia minha garinha, 
Chega na terá dim baranoQ^ 
Cine saca oo farinha* 

Quando iô tara na minha terá 
16 chamava generá, 
Chega na terá dim baranoo 
Pega o tòio vai ganha. 

Dissofôro dim baranco 

Nõ ai póri atura, 

Ti comendo, ti. • . drumindo, 

Manda ^egro trabaii. 

Baranco — dise quando mfire 
Jeanichmto que levou, 
£ o pretinho quando more 
Foi Qa4Aaxa que matou. 

Quando baranco vai na i^nda 
Logo di2i ti 'aquentiro, 
Noaso preto vai na venda, 
Acha copO| ti viriro. 

Baranco dÍ2Í — piéto fruia. 
Preto fruta oo rásSo,. 
SinhO baraaco também tíUiã 
Quando panha casiSo. '- 

Noaao preto firuta garinha, 
Fruta aaoeo da inJgSo, 



28 TROVAM R 

Sinhd baranco quando fimta 
Frata prata e pataolo^ 

Nomo preto quando frnta 
Vai para aa oorrecçSo^ 
SinbA baranoo quando frota 
Logo sai ainhô barlo. 



MODINHAS 



GRATO VTSTERIO 

€bato ayateno 
Que e8i'alma sentoi 
Yida de amprea 
Qoa a ú me prende* 

8e ee meus praseres 
NSo desfallecem, 
Os tnetis gemidos 
NSo emmudeeeoi. • 



-Se doe jaffdins 
Vejo o primor, 
.Ta és das fldres 
A meUior flâr« 

Se es aetros ybjol 
No teu samUánte, 



•r • 



nOVAMR 



Lançam tens tihtíB 
Jjiz mais brilhante. 



Esgota o mundo 
Os dotes seus, 
Todos — no dia 
DoB annos teas« 



Kão queima o frio, 
O sol não arde, 
É pomo de onro 
Mas mãos da tarde. 



Oh ! njmpha bella, 
Em toda a era 
Sejam teus dias 
De primavera. 



Um anjo sejas 
Pela ventura, 
Como és um anjo 
De formosura. 



RO VERDOR DOS TEUS AHNOS 



No meotier dos teus annoe — amei-te, 
Pequeniaa ta eras antftò; 
Innocente, finrmosa, tSo linda, 
Como é Hndo da rosa o botlo. 



90 TROVAMH 



Mas cresceste, e comtig^ também 
Da riqueza a vil ambiçlo; 
Esquecendo as juras tSo santas, 
Só me deste rigor e traiçZo. 

Mas permitta este Deva que nos oave, 
Testemunha do meu padecer, 
Que feliz um só dia nSo sejas, 
Que o hymeneu nSo te traga prazer. 

Este homem por quem me abandonas, 
E que o amor nSo te sabe entender, 
Que te vote o mais fero desprezo. 
Que de pena te faça morrer. 



TENHO SORRISO N0$ LÁBIOS 



Tenho sorriso nos lábios 
E a dôr no coraçlLo, 
Minh'alma hoje padece 
 mais intensa paixSo. 

Soffi*er eu já nSo posso 
Esta mSo tSo homicida; 
Se teu prazer é este, 
Tira-me a triste vida. 



Quando o céo em recompensa 
Minha innocencia mostrar, 
Saberás entSo knorrer, 
Sabendo também amar. 



i 



TROYADOB 31 

Sofirer ea já nSo posso — ete« 

Percorrendo esses lares, 
Entre sepalchros volvendo 
Acharás o nome escripto 
De quem por ti viveu soffirendo. 

SoflBrer eu já nSo posso — ete. 



O pranto que eu hoje verto 
Ê qual tributo de amor; 
Só terSo fim minhas lagrimas 
Quando cessar minha dôr. 



Soffrer eu já nSo posso — etc. 



AVELIHA 



Para ser ca n tada pela mosica da modinha — Mal te vi eu te amei 



Teu semblante gentil, sednctor, 
De teus olhos o terno brilhar, 
Nas cadôas me prende de amor, 
NSo mais posso senSo te adorar. 

Vem^ ó bella, das bellas rainha, 
Vem, õ flor de celeste jardim ; 
Vem, formosa e gentil moreninha, 
Dar-me vida ou matar-me, vem..« sim, 



82 faOTADOR 

Morrerei se desprezas a ciiainma 
Que arde dentro de meu coraçSo; 
Morrerei se a paixSo que me infiamma 
NSo merece de ti compaixSo. 

Vem, ó bella^ das bellas rainha — etc. 

Morrerei se com ar desdenhoso 
Os tens olhos fitares em mim; 
Morrerei se do peito amoroso 
Desprezares meus cantos sem fim. 

Vem, ó bella, das bellas rainha — etc. 

Mas se aceitas o amor temo e puro 
Que te vota o meu peito, Avelina I 
Dá-me um — sim — de teua lábios^ e juro 
Que adorar-te será minha sina. • • 

Vem, ó bella, das bellas rainha — etc. 

Ignacio. 



RECITATirOS 



QUIQUITA 



diser-te que dura e pungente 
Saudade indemente meu peito trucida ; 



i 



TROVADOR 33 

Porém qae minha alma de ti mesmo ausente 
Amor mais fervente te guardai ó querida I 



Quizera beijar-te coi£ tal castidade, 
Que só da saudade tirasse a tortura I 
Quisera em teus braços depois, ó deidade, 
Fallar-te á vontade de amor e ventura I 

Quizera fidlar-te dos nossos amores, 
Dos quadros de fldres que juntos fizemos ! 
Lembrar-te esses tempos tio faellos, sem d6res 
E os mil amargares ^ne em trooa tivemos. 

Porém de que servem lembranças, desejos, 
Que valem os beijos e gozos de outr'ora 
Se o aajp das dores, nos triites adejos 
Com feios motejos de nós zomba agora!? 

Quiquita, esperemos; um Deus ha bondoso 
Que ao triste, piedoso, concede carioiasl 
TalveB que elle mude este fiido horroroso 
N'um mar venturoso de eternas delicias ! 

Manoel de Macedo» 



O HDIIDO É Tio 

O mundo é vSo, se o passado, ó virgem, 
Imprime n'alma do soffirer a dôr; 
O mundo é vSo, se afagamos, loucos, 
Lembranças loucas de mentido amor. 

VOL. u. 



34 TROVADOR 

Ao aTÍsiiir-te tio fonnosa e belU 
Quis mea futuro a teus pés depor; 
Tu desdenhaste da offerenda minha, 
Pois era pobre, só te dava amor! 

Ameirte, virgem, dediquei-te outr'ora 
Trovas BineenuB de sincero ardôr; 
E tu, vaidosa, desprezaste, ingrata, 
Os carmea trifltes d'e8te teu cantor. 

A primavera de ditosos goeos, 
Brotou de flores no meu pdto amor; 
Mas veio o inverno de descrença agreste. 
Tombou a0 hastes e murchou a flor I 

Nada me resta d'esse amor tio puro, 
Nem do passado a lembrança agora; 
Foi breve sonho, illusSo nocturna. 
Que s'esvaiu ao despontar d'aurora« 

O mundo é v8o, se o passado, ó virgem, 
Imprime n'alma do softer a dôr ; 
O mundo é vão, se afagamos, loucos, 
Lembranças loucas de mentido amor. 

Hlmrique Machado, 



MOVMKm 85 



LUNDU 



CRÊ E AMA COMa EU 

/ 

Para ser cantado na musica áo lundu — HAdatinha do earoço 

Ouve òs lí^nB votos, donzdliEÍ, 

Minha esbrella, 
Uuve attenta o canto meu; 
E 86 queres ser amada^ 

Adorada, 
Crê e ama. como eu* , . 



NSo duviáes, bella rosa, 

T3o formosa, 
D'am amor que é todo teu; 
Nlk) ^uTÍdes, sê constante, 

Minha amante, 
Crê e ama como eu. 

Tttdo cede ao deus d'amor, 

Mii;^ iêri 
Tudo cédd ao Ju^ seu ; 
NIo serás exceptuada, 

Minha amada, 
Crê e ama como eu. 

» # 

Êteu sorriso d'um anjo, 

É d'archanjo, 
E diyiiKi o olhar teu; . 
NSo d«M8 ser ineonstentet, 

Minha amante, 
Crê e nua eomo eu. . . 



'I- 



86 TROYADOR 



Eu confesso qae te adoro. 

Que imploro, 
E só qaero o amor tea; 
Dis-me também qae te ofiuias, 

Que me amas, 
Crê e ama como eu. 

O teu olhar ezpressiTO, 

Tio lasoiyo, 
Já d'amor me enlouqueoeii ; 
Em paga d'isto, donzella, 

Minha beUa, * 
Cr6 e ama como eu* 

Aceita, pois, beOa rosa, 

TSo formosa, 
O sincero culto meu; 
Que sempre te pedirei, 

E direi. 
Crê e ama como eu. 



M. J. dê Almeida, 



MODINHAS 



■BV DESTINO É DDIUDâTBL 

Hea destino é immndaTel, 
Minha desgraça é constante; 
Ea choro todos os dias. 
Eu suspiro a cada instante* 



j 



TROVADOR 37 

Perdi de Lilia a belleza, 
Murchou-lhe a morte o semblante ; 
Por Lilia, sempre chorando, 
Ea suspiro a cada instante. 

Vem, ó morte piedosa, 
Vem findar de um triste amante 
Um destino irresistível, 
Uma desgraça oonstânte. 



ADOBEI UMA ALMA IMPURA 

Adorei ama afana impura, 
NSo devo adorar assim ; 
Devo morrer por quem mostra 
Que também morre por mim. 

Desprezos pagam 
IngratidSo ; 
Pagam ternuras 
Firme paixSo. 

Firme adoro a Lilia bella, 
E devo adoirar assim ; 
Tenuts provas me asseguram 
Que também morre por mi». 

■ 

Desprezos pagam — etc. 



3S TROVADOR 



alo PEDAÇOS DE liniH'ALIf4 

Silo pôdaços de xninh^alnia 
Ob Buspiros qae aqui dou; 
Oahem aoB pé§ 4'ufDa iagrata 
Que alma vida me roubos. 

Quão fdUa ou sfio soria 
Se ella eBtiyesse aonde estou, 
EsBa ingrata e deshumana 
Que alma e yida me roubou ! 



0E8VBDIDA 

• r 

Já jir^orosa a manhft .. / , 
Ab trevas, vai diflsipando;. 
Ligeiro batel de amor 
A terra vai demandando. 

Chega o momento fafal, 
Bate a hora da parti(}a; 
Ah ! quanto custa a minh'alma 
TSo saudosa despedida ! 

Arminda, fimnosa Anttinda, 
K80 chorae, yem abraçar-ine, 
Na<y pètiÉBB ^ue a dura aosetíoia 
Possa de ti separar-me. 

Chega o momento fatal — etc. 



TROVADOR 



39 



PAIXÕES QUE EU EXTIHGUI 

PaixSes que ea extiogai, 
Dias, noites que ostentei, 
Vendo que tu nSo me amavas 
Meus snspiros snffoquei. 

Tu me fizeste esquscer, 
Bella, outra bella que amei; 
Vendo que tu nSo me amavas 
MeuB suspiros suffoquei. • 



OS TEUS OLHOS ANILADOS 



Em teus olhos anilados 
Amor feriu meu coraçZo; 
Quis fugir, mm já sem forças 
Suecumbiu minha razSo* 

Por ti gemendo 
Agrilhoado, 
Mudar nSo posso 
Meu triste fado. 

Que remova o fado meu 
Suspirando, rogo a Amor, 
Mas, o pérfido sorrindo. 
Mais augmenta minha dôr. 

Fogo Toras 
Sinto no peito. 
De ingratidlp 
Cruel effeito. 



40 TROVADOR 

Foi meu amor excessivo 
Que fez minha desventura ; 
Ó quanto melhor me fôra 
Ter de amor menos ternura I 

Vem a meus braços, 
Morte ditosa, 
Tirar-me a vida 
Já tSo penosa. 



1j • * • •Cti 



RECITATIVOS 



AOS HIOU^S BB RUCmiSLO 

Um feito assombroso das armas braziloas, 
Bem mostra a bravura dos homens do mar ; 
Por entre a metralha da força inimiga, 
Da gloria a coroa souberam ganhar! 

No meio das bombas, ao golpe dos sabres. 
Que scenas de sangue I Que immenso revez ! 
Os vultos homéricos surgiam do fumo, 
Batendo os escravos do infame Lopezl 

Os bravos da armada, leSes do oceano. 
Destroçam as naves sem pena, nem dó : 
O. forte Amasionas se arroja sobre ellas, 
Fazendo-as pedaços, toroando-as em pó ! 



■ 



TROVABOR ** 

A gloria brazilea sorri-se esplendente. 
Mostrando aos caudilhos da esorava ÂBãwnpqão 
Qae o povo que é livre nSo teme os pelouros 
Lançados da bocca de imigo canUo I 

Em breve a bandeira que Avante se espelha 
Nas aguas do manso gentil Paraná, 
Irá triumphante plantar*se á muralha, 
Que forma a defesa da imbelle 



EntSo, brazileiros, valentes soldados, 
Quaes outros romanos de cota e de ames, 
Vereis o cacique do sul abatido, 
Sem pátria, sem gloria, sem vida, talvez ! 



AfUhero Lopéê. 



AMOR E CREHÇA 

Anjo celeste que entrevi n'um sonho. 
Tu foste a esperança que dourou-me a vida. 
Que deu alento, que avivou a crença, 
Enfiraquecida por continua lida ! 

E como o orvalho da manhS serena 
Que gota a gota vai dar vida á flfir, 
Tu foste, oh virgem, quem n'um peito frio 
Lanoiste a chamma do primeiro amor. 

Sem fé, sem crença, vagueava incerto 
Qual viajante sem pharol, sem norte; 
Tu foste a estreita que vivace e bella 
Hostrou-me o trilho da risonha sorte I 



41 TROVAIK>R 

Entre metis rifos, virginal te rejo 
Em ama auréola de divino encanto: 
Se eu me lamento, ciciando, a brin 
Vem n'am suspiro diluir meu pranto. 

Por isso amei a tua imagem bella 
N'atro delirio d'uma febre ardente ; 
Agora peço teu amor tSo casto, 
Já que, donaella, me tomaste orente. 

Março, 1864. 

F. H. da Costa Júnior^ 



LUNDC 



QUANDO EU ERA PEQUEHINO ^ 

Quando eu era pequenino, 

Que diabinho 
Mais travesso havia entSo? 
Quando as moças me beijavam, 

Me abraçavam. 
Já lhes dava beliscSo • . • 



E brincava co'a priminha 
Mariquinhas, 

Escondidos no quintal; 

Era tSo bom o brinquedo, 
Em segredo, 

Á sombra do laranjal. • . 

^ Este lundu tem musica própria. 



TKOVAMII 



43 



Já beijaTa-lke a boqnii^^ 

Feohadinhft, 
Como da rom o botSo ; 
E se ao abnl«4i aoiria, 

Eu sentia ' 

Palpitar-4ne o eoraçBo. • 

Mas hoje como soa grandoí 

E se expande 
Em meu peitp mais aidor, 
Já nSo acho ^uem me beije, 

Qnem deseje, 
Ou aceite meu amor. 



Se a furto beijo a priminha, 

Brejeirinha, 
Vai diaer tudo a vAtó; 
Ouço logo ama raspait^. . . 

Que mudÂnfa I 
Âté failattHBie enjt eip6! 

Assim ^ emboia eu ^e, 

E T«^iire, 
De nSo dar mais beUacSo) 
Se peço nm beijo á priminha, 

Velfaaquinha, 
Me responde: — Ora! poisnlol 



■ 

Quando penso no passado, 

Mal gozado, 
Lembra-me um canto qne ouvi ; 
E pura moralidade, 

E verdade, 
Nanca mais o esqueci : 



41 TKOVÂDm 



c o gaUo, em quanto criança 

Tem pitança 
Qne lhe dá mimosa mSo; 
Depois de velho, -coitado, 

Alquebrado, 
Bate oo'o Moo no chio. » 



V 



MODINHAS 



Rio MB OUVES SnSPIRART 

Até onde as nnvens giram 
Vlo meus suspires pafar; 
E ta tSo peHo de mim 
Kio me oayes snqpiíai'? 

O motiro, ingrata Elisa, 
Que isso me fae l^nèrar, 
É porqne, com craeldade 
Klo me ouves snspirar. 

Dás ingratas que ha no mundo 
Tu és ii^rata sem par; 
És tu só que entre os viventes 
KSo me ouves suspirar. 



j 



TMTAMR 45 



BD AHâf â TERHAMBITE 



Eu Amava ternamente 
Um anjo qae o céo creou, 
Esae anjo era tSo bello 
Qne minha yida alentou* 

Mas a Borte que pen^ae 
O mea* triste ooraçSo, 
Fez que ella desprezasse 
Minha ternura e paixSo. 

Infeliz qae só viTÍa, 
Enlevada n^esse amor; 
Illndida, incauta, cede, 
Quanto lhe pede o traidor I 

E depois ^ que seu engano 
Começou a conhecer, 
Coitadinha, desgraçada, 
Succnmbiu a padecer. 



■AL TE TI 



Mal te vi, «I te amei, disse, é esta, 
Ê só esta a quem devo adorar; 
E nenhuma esperança me resta, 
Que o teu poro affeoto gozar. 



46 TBO¥AMR 

Vem, ó fada gentil de meiu Bonhos, 
Vem ao meiu» gorrir para mim; 
Vem dourar ob meus dias tristonhos, 
Vem amar-me, alentar«-me| vem, sim I 

É por ti, 0Ó por ti que eu respiro, 
É por ti que me apraz o viver j 
Áh I mil vezes a morte prefiro, 
Se te devo, meu anjo, perder. 

Vem, ó fiada gentil — etc. 

Bem podias, ó sol, no horisonte 

O teu orbe de fogo occultar; 

Que outro sol mais que tu resplandece. 

Que meus dias cruéis vem dourar. 

Vem, ó fada gentil — etc. 



O MEU PASSADO E O MED PRESENTE 



^m casta, eu já fiii como tu, 
Já vivi como os anjos no céo; 
Esta fronte que Tês humildada. 
Foi coberta com cândido véo. 

Eu tambeoi como tu tive fldrss. 
Tive tanta grinalda singola 1 
Tive beijos de um pai carinhoso^ 
Eu também como tu já fiai b^aé 



noykom 



il 



Como tu eu já tive esperança, 
Já gozei d'eB8a vida sagrada : 
Hoje vivo a lactar com as dores, 
Que fulmina a mulher desgraçada. 

Tive mSi, como tu inda tens, 
Que velava por minha ventura; 
Que tornava meus dias ditosos. 
De selis lábios me dava a doçura. 

Mas bem cedo, donzella, essa gloria, 
Qual um «omho depressa passou. 
Essas fldres sagradas que tí^e, 
Foi um beijo infernal que as munshou» 



Esse véo innocente que tive, 
M'o tiraram sem pena nem dó ; 
ímpia mSo m'o rasgou com deBjNreao, 
Nem as cinsas se encontram no pó» 



Me desculpa, donzella, este canto. 
Repassado de dâr e de fel : 
Omve as queixas da triste perdida, 
Que sSo eohM da sorte cruel. 



48 TROTADOB 



RECITATITOS 



É CURTA A VIDA 



E' corta a yida ao mortal 
Que venturoso gosa alegre o mando; 
É oorta a yida se jámab sentiu^ 
Se nunca o feriu um pezar profuxido. 

E' curta a yida se ha n'eUa goaos, 
Ternos, mimosos, d'am yiver de amores ; 
£' curta a yida se oorve serena, 
Ddce e amena, qual yiver de flores. 

E' curta a vida se' um amor eterno 
K'um peito tomo bem vozaa se aooeade; 
E' curta a vida, se goaa eoatoate 
O meigo ente que seduz e prende. 

E' curta a vida quando ha n'ella encantos 
Praaeres tantos que á mente assaltam; 
E' (mrta a vida se n'ella gozamos. 
Se desfrutamos delicias que matam. 

P'ra mim que gozo a suprema dita 
Grande, infinita, de viver comtigo; 
E' curta a vida e mais curta ainda 
A ventura infinda que gozas commigo. 



TROVADOR 



49 



E' corta a vida — e só peço a Deus 
CarixihoB tens para sempre gozar; 
Longe o desgosto — que nSo venha a d$r 
Tto puro amor jamais pertorbar. 

Cândida Isabel de Pinho Cotrim ^. 



COMO EU TE AMO 

^mo-te, virgem, como ama o naata 
A plaga amiga que divisa além, 
Quando depois de um viajar sem fim 
Encontra aquelles que buscando vem. 

Amo-te, virgem, como o louco ama 
Em suas noites — a visão fugaz 
Que á sua ment^ — perturbada — ás "^^zfíA 
Um pensamento radiante traz. 

Amo-te, virgem, como a noiva ama 
A nivea c'r6a que lhe adorna a frente, 
E que o riso virginal nos lábios 
Nas mSos do esposo vai depor contente. 



Amo»te, virgem, como ama a flor 
Ao rodo puro das manhBs de abril, 
Quando enviado pela mSò de Deus 
Vem humectar-lhe seu mimoso hastil. 

Afl modinhas, reeitatioos e lundus, que se publicaram em algu- 
paginaii do l.<> volune do Tboyadob, assignados— -Po)* timajoven 

1 — pertencem a esta mesma senhora. 
Voe», u. 4 



50 TROVADOR 

Amo-te, viji^emi oomo ama a rola 
A matta virgem, ao romper do dia... 
Qoaado o esposo, em saave arrolho 
CançSo sonora ao Stemo envia. 

Amo-te, virgem, como o avaro ama 
O seu thesooro que lhe offosca a vista, 
NSo oomprehendendo que um outro amor 
Mais do que aquelle que oontempla — exista. 

Amo-te tanto, que explioar — nSo sei, 
KSo tenho phrases p'ra exprímil-o, virgem.. • 
Só sei dizer-te que te adoro muito. . . 
Que teus encantos sSo d'amor a origem. 

Somente em troca d'este amor te pede, 
Dos teus encantos o fiel cantor, 
Que em vez de um riso de desprezo, ao menos 
Lança sobre elle um olhar de amor ! . . . 



LUNDfi 



08 OLHOS DE TÁTÁZDIHA 



Nunca vi olhos tBo bellos 
Como 08 da minha visinha, 
DSo a morte n'um instante 
Os olhos de yáyáiinha. 



TROVADOR 51 



NSo tem a cdr da saphira, 
Nem a côr da vitivinha, 
Porém bSo da côr da noite 
Os olhos de yáyázinha. 

EUes sSo muito galantes 
Como sSo 08 da vizinha^ 
Nos requebros faliam tanto 
Os olhos de yáy&zinha. ' \ 

Também tem olhos formosos 
A minha cara priminha, 
Mas nSo faliam, como faliam 
Os olhos de yáy&zinha. 

Eu encontrei no passeio 
Uma gentil moreninha, 
Era bella, mas nSo tinha 
Os olhos de yájázinha. 

Fiquei tSo apaixonado 
Que disse a minha madrinha : 
— 'Stou doente porque vi 
Os olhos de yáy&zinha. 

Ando agora como anda 
No yerSo bella andorinha. 
Tudo por vêr um momento 
Os olhos de yáy&zinha. 

NSo sei se sSo olhos d'aigO, 
De princeza, ou de rainha, 
Só sei que matam de amor 
Os olhos de yáy&zinha. 



52 TROVADOR 



BBTRtBILHO 



SSo olhoB lindos 
De negra cõr, 
Os olhos d'ella 
Cheios de amor I • • • 



Oualbêrto Pêçanha. 



MODINHAS 



NiO TENHO TANTA VENTURA 



O meu bem diz que ha-de am^r-me 
Inda além da sepultulra; 
Mas apesar de seus votos 
NSo tenho tanta ventura. 

O seu rosto tem belleza, 
 su'alma tem candura, 
P'ra mim nSo sSo tantos bens, 
Não tenho tanta ventura. 

Se eu podesse noite e dia 
Gozar sua formosura. • • 
De que servem meus desejos? 
NSo tenho tanta ventura. 



TROVADOR 53 

I 



DE AMOR LIÇOES PROVEITOSAS 



De amor liçSes proveitosas 
Em teus olhos aprendi; 
Teu discipalo, teu amante, 
KBo posso viver sem ti. 

Os meus e teus sentimentos 
N'am instante os compr'endi; 
Padeço se tu padeces, 
NSo posso viver sem ti. 

Gentil Hermania, em teus olhos 
Um segredo de amor li; 
Depois d'aqaelle momento 
NSo posso viver sem ti. 

Se teus passos, minha bella, 
Desde entSo logo segui; 
E depois d'esse momento 
NBo posso viver sem ti. 

• Muito tempo sem proveito 
Minha paixSo oombati; 
Hoje estou desenganado, 
NSo posso viver sem ti. 



54 TROVADOR 



FLORINHA BRANCA 



Vi surgir florínha branca, 
De f algente e nivea côr, 
Vi-a sorrir alva e franca, 
NSo lhe pude rir de amor. 

Cegaei-me na sua alvura, 
Bespirei-a, estremeci! 
Quiz colhêl-a. • • era tSo pura ! 
Ao tocal-a endoudeci I 

Vi-a depois, doudejando, 
Nas azas da viração ; 
E junto ao tronco — scismando 
Lá ficou meu ooraçSo ! 

AfiEigada em doce enleio 
Ao hastil nSo mais voltou, 
Das galas deram-lhe o seio 
Pelos lares que habitou. 

A saudade, á desventura. 
Nem sei como resisti ! 
Adeus, florinha, alva e pura, 
Vou morrer longe de ti. 

Se a scismar — o teu captivo 
Te lembrou alguma vez; 
Pelos ais que te deu vivo. 
Morto, é bem que um ai lhe dês, 

E os sonhos que eu tinha 
Senti-OB morrer, 
E a branca florinha 
NSo mais hei-de vêr. 



TROTADOR 55 



JÁ PERDI TODA A ALEGRU 



Pensando no meu destino 
Passo a noite, passo o dia; 
Tudo que me cerca é triste, 
Já perdi toda a alegria. 

Âh I nSo me negnes 
Minha paixSo; 
Foge do crime 
Da ingratidSo. 

De mim foge o prazer todo, 
Voa baixar á campa firia; 
Nenhuma espVança me anima, 
J& perdi toda a alegria. 

Ah I nSo me ' negues — eto. 



RECITATIVOS 



nmiEIRAHOTA 

Prefiro a vida, a contemplar a morte; 
Antes a sorte de eternal sofi^r, 
Do que tto moço vêr finar-se as flores, 
Santos amores de infantil yÍTer ! 



\ 



56 TROVADOR 

Da javentude a estaçSo querida 

Vejo descrida, mas nSo restam ais! 

Que importa a Ijra? jaz lançada a um canto, 

NSo pede pranto, nem suspira mais. • • 

• 

NSo ama as formas de gentil donzdla, 
Meiga, singela, nem a iguala á flôr I 
KSo quero os beijos de seus lábios bellos, 
Que sSo 08 zelos de infeliz amor! 

NSo tive um anjo que me desse gozos, 
Dias ditosos da estaçSo florida; 
NSo penso triste no mentir dos sonhos 
Que sSo medonhos no frescor da vida. 

• 

Agora quero, n'um descrer profundo. 
Olhar o mundo sem pudor, sem pejo ; 
NSo curvo a fironte do destino á sorte, 
NSo quero a morte, mas viver desejo ! 

M. P. LeUOo. 



ULTIUA NOTA 

» 

NSo quero a vida; eu prefiro a morte 
Á dura sorte de eternal soffi^er; 
TSo moço ainda! mas infindas dôres 
Mirraram as flores de infantil viver. 

Da juventude, a estaçSo florida. 
Tenho perdida, só me restam ais ; 
Compulso a lyra p'ra compor um canto, 
Quebrada, em pranto, já nSo geme mais. 



TROVADOR 



57 



Amei as formas de gentil donzella, 
Meiga, singela, qual do campo a flor ; 
Ardentes beijos em seus lábios bellos 
Ligaram os elos de infeliz amor. 

Perdi o anjo que me dava gozos ! 
Dias saudosos da estaçSo florida I 
Morren a Ijra no esvair dos sonhos 
Que tSo risonhos me embalaram a vida. 

Agora geme n'um soismar profundo, 
Do tredo mundo nem prazer almejo ; 
Curvai a fronte ao negrejar da sorte, 
Além — a morte a convidar-me vejo. 

É 

F. M. Carvalho. 



LINDÚ 



UNS OLHOS QUE TI 



Fiquei preso a certos olhos 
De uma morena que vi; 
Quiz desprender-me, era tarde, 
Seu captivo me senti. 



Pedi-lhe me desse amor, 
Consentiu no que pedi. 



58 TROVADOR 

Eram negros, odr da noite, 
Os negros olhos que vi; 
E tinham tal attracgSo 
Que me prenderam a si. 



Eram cadêas d'amor, 
Pois captiyo me senti. 

Na terra nlo ha ignaes, 
Digo eu... pois nunca os yi; 
Eram olhos que fallavam, 
Palavras que traduzi. 

Que constante elles me fossem 
Foi só isso que pedi. 

Já nBo tenho outro Deus 
'Depois qu'esses olhos vi; 
Rendi-lhes culto d'amores 
E quasi que me perdi. 

E2ram olhos feiticeiros, 
Os negros olhos que vi. 

Desprendeu-me das cadâas 
Que me ligavam a si, 
Apesar de me vôr solto* 
Dos olhos nSo me esqueci. 

Eram olhos feitioeiros 
Os negros olhos que vi, 
Quizeram por fim matar-me 
E não sei como fugi! 

Henriques Machado, 



trotâbor 59 



HODINHAS 



SOLTA UM «AI» MEU COBAÇlO 



Qaando de Jonia recebo 
De amor a doce expressSo, 
Exalta todo o meu peito, 
Solta um — ai — mea coraçSo. 

Quando eu te vejo, ó bella, 
Sinto ama viva emoçSo ; 
Minh'alma fica contente, 
Solta um — ai — meu coraçSo. 



AMOR ME VIU, NÃO FEZ CASO 



Amor me yin, nSo fez caso. 
Zombou, cruel fementida; 
Tendo um rival a seu lado, 
Ingrata, roubou-me a vida. 

Por Deui, que a vida é um sonho 
Quando ellas nos sabe'amar; 
Mulher que tanto adorei 
Hoje me quer desprezar. 



60 TROVADOR 

Mulher, por Deus eu te juro 
Que ainda te tenho amor; 
Se tu me £5res constante, 
Eu serei teu trovador. 

Por Deus, que a vida é um sonho — etc. 

Mulher, por Deus eu te peço 
Que nSo me dês um rival; 
Tu és um anjo da terra, 
És um anjo divinal. 

Por Deus, que a vida é um sonho — etc. 



SOLIDÃO 



Para ser cantada oom a musica da modinha — Quando morrer, ningtíem 

chore a minha morte 



Ê triste a soiidSo como nas mattas 
Da casta pomba o solitário arrulho; 
Como do céo as rotas cataractas 
Ao som do mar em hórrido marulho. 

Sentado como em face de agonias 
Tenho minh'alma a desfolhar lembranças; 
NSo sei que sorte vem coar meus dias 
*Por tantas dores e por taes provanças. 



J 



TROVADOR 61 

Mli da triflieza, sócia das insomnias, 
Noite e dia me segue a solidSo; 
E em soas difficeis acrimonias 
Me cança o peito e azeda o ooraçSo. 

Aqui de imagens bellas se povÔa, 
Alli de faxas negras se atavia; 
E em vozes sepulcliraes pávida echda 
Como assopros do vento em noite fria. 

Se as portas matutinas vSo-se abrindo 
A roxa aurora no horisonte em fogo, 
Quem velou no silencio, a sós sorrindo, 
Vai recebel-o ao nascimento logo. 

Mas o silencio e a solidSo que dura 
Vem sempre o riso suspender-lhe em meio ; 
E o dia é triste como a noite escufla, 
Mesmo daç rosas matinaes no seio. 

O vôo altivo d'aguia, e icareas azas 
Quizera eu ter para transpor espaços; . 
Por que este peito que me arde em brasas 
Fora acalmado nos paternos braços. 

A. C. Q. Peçanha. 



62 TROTÁBOR 



BÀLUDA 



A ararn. carouna 



A gentil Carolina era bella 
Como é bella nos campos a flor; 
Em seus olhos brilhava a innocencia, 
Em seu peito o fogo de amor. 

Aos encantos de lindo mancebo 
Coraçlo, alma e vida entreeou; 
Era d'elle, e somente por elle, 
Que seu peito de amor se abrazou. 

Meia ndte no bronze da torre 
Graremente o silencio occultou; 
Pelos ares a briza rolando 
De echo em echo o zunido levou. 

Carolina, que as horas contava, 
Meia noite! e murmura, estremece; 
Lança os olhos além da janella, 
Branca lua no céo apparece. 

De improviso se ergue, abre a porta, 
Sahe de casa tremendo medrosa; 
Entre os vastos arbustos sósinha. 
Move os passos, subtil, cautelosa. 



i 



TROVADOR 08 

Eíb que indo a passar os canteiros 
De repente, assustada, parou ; 
Um presagio siidstro de morte 
Á sua alma opprimida fallou. 

No jardim entre o basto arvoredo 
Branca sombra suppSe a vôr além; 
Quer fugir, mas &lleoem-Ihe as forças, 
Mio gelada seus passos detém. 

Quer gritar, morre a voz em seu peito, 
Nem sequer soltar pôde um gemido; 
 ílnal, dando passos, tropeça 
N'um cadáver no chSo estendido I 

Grito horrível lhe escapa do peito, 
N'esse rosto que a morte embranquecOé • . 
N'esse corpo de sangue banhado, « 
Carolina o amante conhece ! 

# 

A aurora raiando mais tarde 
D'esse quadro de horror teve medo ; 
Dous amantes jaziam sem vida 
No quintal entre o basto arvoredo. 

E a gentil Carolina era bella 
Como é bdla nos campos a flor; 
Em seus olhos brilhava a innocencia, 
Em «eu peito o fogo de amor. 



64 TROTADOR 



RECITATIVO 



O AHJO DA PÁTRIA 

t 



Monarcha excelso que no Bolio és pai, , 
Astro {algente, de teu poyo gaia; 
Ante teu brilho que deslumbra o dia 
O barbarismo titubia — cái. 

A teu exemplo — que admira o mundo, 
Erguem-se altivos do Brasil os bravos; 
Treme ò bandido que domina escravos 
Com leis de ferro no seu antro immundo. 

P'ra compensar-te nXo bastara o povo 
Correr intrépido — affrontar a morte, 
Morrer mil vezes — resurgir mais forte, 
Por ti mil vezes succumbir de novo?... 

Sim, que ó monarcha que os carinhos seus. 
Bouba i fiamilia — vem ao povo dál-os, 
É mais que um rei a dominar vassallos, 
É mais que César — só iguala a Deus. 

Tu és um anjo pelo céo mandado 
A esta terra do Senhor bemdita^ 
És divindade que o Brazil habita 
P'ra preserval-o de maligno fado. 



TROVADOR 65 

Recolhe as bençSos que o Brazil inteiro 
Dos seios d'alma sobre ti derrama, 
Que este povo, que seu pai te chama, 
Vai demonstrar-te quanto é guerreiro. 

E quando houvermos recolhido o louro 
Que nos aguarda no sorrir da gloria, 
Em áureas letras fulgirá na historia 
Teu nome augusto, do Brazil thesouro. 

» 

A. J. de Soma. 



LUNDt 



CONSELHOS ÁS MOÇAS 



Menina solteira 
Que almeja casar 
Não caia em amar 
A homem algum; 
Não seja notável 
Por sua esquivança, 
Nlo tenha esperança 
De amante algum. 



68 TEOYADOR 

Quizera mostrar-te quanto 
O meu peito sabe amar; 
Em duna da mesma pedra 
Eu te queria abraçar. 

Abraçar-te, sim, queria 
Sobre e meu peito — dizendo: 
Querido anjo, hei-de amar-te 
Em quanto estiver vivendo I 

O amor que te jurei 
E' constante, é fé mui pura; 
Este amor ha-de ir commigo 
Descançar na sepultura. 

Para mim, querido anjo, 
Um só momento gozar-te, 
ThronoB, coroas daria, 
Se um throno podesse dar-te. 

?orém daria a minh^alma 
Que mais do que um throno v»l', 
Dar-te-hia minha lyra 
Que teu um som perennal. 



SONHOS FAGUEIROS 

(guando dormires, sonha commigo 
Sonhos {agueiros, sonhos d'amor; 
Se assim sonhares commigo, ó virgem. 
Sonharei ooi^tígo^ 6 linda flor I 



TROVADOR 69 



Sonha oommigo sonhos de amor, 
Que eu sonharei «omtigOf ó flor. 



Lembra-te, ó virgem, de quem te adora 
Na dura ausenoia do teu amor; 
Sonhai commigo, pois se sonhares, 
Sonharei oomtigo, ó linda flôr ! 

Sonha commigo — ete. 

Quando sósinha ta meditares 
Nas doces provas do nosso amor. 
Sonha oommigo, pois se sonhares 
Sonharei oomtigo, ó linda flôr! 

Sonha commigo-etc. 

Um olhar temo, om riso meigo. 
Em paga di-me de tanto amor; 
Qae ea, ji rendido p'lo8 teoa carinhos^ 
Sonharei oomtigo, ó linda flAr! 

Sonha commigo — etc. 



70 TMYADm 



CANÇÃO 



O BARDO 



Frio manto d'e8trellas bordado 
Vai a noite trajando no céo ; 
Cahe o orvalho nas aaaa da brisa. 
Que gelado entre as felhas morrea. 

Na manslo doe finados divaga 
Triste bardo oom a Ijra na mio; 
Aoha a oampa que busca, Bentado, 
E diifere esta triste oançlo : 

Tantos raios de Ina li ne ofo 
E nenhom de eq^erança ea aehei! 
O ojpreste e o goivo da campa 
Foram restos de um bem que adorai 

Entretanto, aqui venho, debalde, 
Alta noite teu nome invocar ; 
€!hamam isto loucura na terra, 
Mas eu chamo constante adorar. 

Uns tem pranto chorado dos olhos, 
Dentro d'alma chorado é o meu; 
Pois nlo ha quem o venha enxugar, 
Pois quem sabe é só Deus e sou eu. 



TROVADOR 71 



Erm cinza gelada por fórtf, 
E no centro valcSo a escaldar; 
O oceano tranqoillo na face 
E no fando revolto a bramar. 



Em roupagem de neve abafado ^ 
Deace um anjo da etherea mansSo; 
Se é ella, foi Deus que a mandou 
He valer n'esta negra afflicç8o« 

Li fle vai a visBo com a nuvem, 
86 nlo vai este meu padecer ! 
Ju«t08 oéos I se meu mal nSo abranda, 
Veies mil eu prefiro morrer I • • • 

E 08 eobos saudoeoB ao longe 
Bqietiam por veses — morrer; 
Era o verbo final de seus lábios 
N'e8ta noite de horrível soffirer. 

E o 8ol da manhS descortina 
Triste sceha que íaz compungir : 
Um cadáver com a Ijra no peito. • • 
Era o bardo p'ra sempre a dormir!. . • 



72 TROVADOR 



RECITATIVO 



QUE VALE A VIDA? 



Que vale a vida n'am viver d'enganoBy 
Crenças perdidas de porvir fistllaz; 
Que vale o inundo, se desdita amarga, 
Saudades, prantos, o prazer nos trás? 

Que valem risos, animadas falias. 
Que valem festas e prazeres ruidosos; 
Se os tristes eehoB, amargor só dizem, 
Se a alma esvai-se n'esses sons dolosos? 

Que vale a vida se a existência é peso, 
Se as chagas d'alma só nos pungem dôresj; 
Se a esperança ás vezes nos afaga ainda, 
Que vale amar-se sem gozar amores? 

Que vale ao orphSo que abandonado estava. 
Uma opulenta habitaçSo aberta; 
Se o pobre albergue de seus pães, perdendo, 
Tudo o que goza a caridade offerta? 

Nobre soldado que defende a pátria, 
Porém na lucta vê a acç%o perdida; 
E que forçado p'ra salvar-se... foge. 
Perde a nobreza — de que vale a vidtf? 



TROVADOR 



73 



Ao oriíilinoBO que jazendo em ferros, 
Dormindo Bonfaia liberdade infinda; 
Que vale o sonho, se ao despertar conhece 
Que captiveiro continua ainda?! 

Que Tale a rida n'um yiver d^enganos. 
Crenças perdidas de porvir fallaz ; 
Que vale o mundo, se desdita amaina 
Saudades, prantos, o prazer nos traz? 

Henrique McLchado. 



lundCs 



TENHO UH BICHO CÁ POR DEITRO 



Tenho um bicho cá por dentro 
Que me róe e está roendo; 
Quanto mais afago o bicho, 
Mais o bicho vai comendo. 



SSo cousinhas doces 
Que fazem chorar, 
NSo mates o bicho 
Que me quer matar. 



74 TE0TADOB 

Tenho «m bidbo c& por dentro 
Que fiuB artes do diabo; 
Qiuuito mais a&go o bicho, 
l£aÍB o faioho encreepa o rabo. 

Slo oonunhas dòooB — eto. 

Tenho um bicho cá por dentro 
QaefiuB um tá tá tá tá; 
Quanto mais afago o bicho, 
l£aÍB o láoho poios dá. 

Slo ooosinhas doces — etc 



■il BEMT A 



Coitadinho, como é tolo 
Sn eoidar qoe eu o adorol , 
Por me vêr andar chorando, 
Sabe Deus por quem eu choro t 

MSi Benta me fia nm bolo. 

Minhas candongas, 
KSo posso, senhor tenente, 

Minhas candongas, 
Qae os bolos sSo de yá-yá, 

Minhas candongas, 
Nlo se fiam a toda a gentQ, 

Minhas candongas, 



nOTADOR ^^ 

Porque tem muitos temperos, 

Minhas candongas, 
ÂssQcar, numteiga e cravo, 

Minhtiff candongas, 
E outras cousinhas mais, 

Minhas candongas. 
Bolinhos de qui-lê-lê, 

Minhas candongas, ^ 
Ponto de admiraçKo, 

Minhas candongas, 
O gente Manoé, 

Minhas candongas, 
Está quente, sinhá, bem quente. 

VoBsê se anda gabando 
Q«e fioi o que me deixou; 
Pôde ficar na certessa 
Que muita cinza leyou« 

Mli Benta me fia um bolo — etc. 



aheus, arhia 

Adeus, Armia, 
Pk^nda querida,' 
Deixo-te a alma, 
Entrego-te a vida. 

De ti me aparto 
Triste, saudoso, 
-Sou ii^elix, 
Sou desditoso. 



76 TROVADOR 



I 



I 



Antes qaizera 
Perder a vida, 
Do que detxar-te, 
Prenda querida. 



De ti me aparto — etc. 



VAI, SUSPIRO, CHEGA AOS LARES 



Vai, ereuipiro, chega aos lares 
Da habitaçSo mais ditosa, 
Onde existe minha bella, 
Minha Germana mimosa. 



Assim que a vires 
Volta apressado, 
Vem dar alento 
A um desgraçado. 



A HORA QUE TE NÃO VEJO 



A hora que te nlo vejo 
E p'ra mim hora perdida; 
Se vivo só a teu lado, 
Como é curta a minha vida I 



TROVADOR 



17 



Que vida, que instantes, 
Que breve existência, 
Qtte vida d 'angustias 
Passada n'aasencia ! 



COMO ÉS BELLA 

Tu és bella como é bello 
O despontar da manhã ; 
És linda como a bonina 
Do jardim a mais louçã. 

Tu és bella como é bella 
Uma criança a sorrir; 
Tu és linda como a rosa 
Chrysalina, quasi a abrir. 

Tu és bella ooino é bello 
O roxo lyrio do vaV; 
Do jasmim tens a brancura, 
Da oecem és a rival. 

Tu és bella como é hélio 
O céo azul estrellado; 
És linda qual a florinba, 
Kascida em florido prado. 



Tu és bella eofsxo é bello 
O matutino arrebol; 
És bella como são bellos 
Os resplendores do sol. 



I 



78 TROVADOR 

Ta és bella como é bella 
Uma noite de luar; 
És linda qual bella amante 
Em seu temo delirar. 

Das £EidaB tens os encantos, « 
Dos anjos tens a candnra; 
Tu és o ente mais bello 
Que tem creado a natura. 



M. J. de Almeida. 



ANJO DE AMOR 



Quando teus lábios desprendem 
Terno riso encantador, 
Sinto quSo dôce é^me a vida, 
N'um teu riso, aigo de amor. 

Sem ti sSo tristes meus dias. 
Duro e penoso viver ; 
Junto a ti, preso em tens bragos, 
Gozar quero até morrer. 

E' meu destino adorar-te. 
Embora sejas perjura; 
O meu amor não esmaga 
A pedra da s^ultura. 



TROYAIXm 



79 



Ob laços com qae me prendeB 
Ainda mais quero apertar, 
Nlo 6 crime, antee virtade 
sempre te adorar. 



Bode o gelo do sepulchro 
Tirar da vida o calor ; 
Mas d'am peito, firme amante, 
Apagar nto pôde amor. 

▼enha a morte embora nm dia 
Sobre mim com sen furor, 
Horto, extincto, em nm sepnlehro 
Este peito terá amor. 



REOTATIVOS 



AMOR E MBDO 



Quando te fujo e me desvio cauto, 
Da lu2 de fogo que te cerca, ó bella, 
Comtigo dizes, suspirando amores : 
Meu Deus! que gelol que frieza aquella! 



80 TROVADOR 

Como te enganas I meu amor é chamma 
Que ae alimenta no voraz segredo; 
E se te fojo é que te adoro louco: 
És bella, eu moço, tens amor, eu medo. 

Tenho medo de min, de ti, de tudo, 
Da luz, da sombra, do silencio ou Yozes, 
Das folhas seccas, do chorar das fontes, 
Das horas longas a correr velozes. 

O véo da noite me atormenta em dôres, 
A luz da aurora me entumece os seios; 
E ao vento fresco do cahir das tardes 
Eu me estremeço de cruéis receios. 

E que este vento que na várzea ao longe 
Do oolmo o fumo caprichoso ondêa, 
Soprando um dia tornaria incêndio 
A chamma viva que teu riso atêa. 

Ah! se abrazado crepitasse o cedro, 
Cedendo ao raio que a tormenta envia. 
Diz: que seria da plantinha humilde 
Que á sombra d'elle tSo feliz crescia? 

A labareda que se enrosca ao tronco 
Tomara a planta qual queimara o galho, 
E a pobre nunca reviver podéra, 
Chovesse embora paternal orvalho. 

Ail se te visse no calor da sesta, 
A mSo tremente no calor das tuas, 
Amava todo o teu vestido branco, 
Soltos cabellos nas espáduas nuas!,. 

Coêimiro de Abreu. 



TROVADOR 81 



A MORENIHHA 



Vem, moreninha, com teu bardo ao lado, 
Vâr o dourado firmamento além ; 
Vem divagar por este mundo, cheio 
De puro enleio e flicidade — vem. 

Vem, moreninha, nSo receies — nSo, 
Que a soIidSo nos servirá de véo; 
Quero em teu seio reclinado, virgem, 
Contar-te a origem doeste amor do céo. 

Caminha, virgem, porque tremes? calas? 
Porque nSo falias — gentil moreninha? 
Dissipa o enleio que te faz medrosa, 
E carinhosa vem dizer — q^ue és minha. 

Queres saber porque te amei, donzella, 
Por entre aquella multidSo que eu vi? 
Foi porque ao vêr o teu semblante bello 
Suave ánhelo dentro em mim senti. 

Trajavas galas, caminhando ovante, 
NSo mui distante do teu bardo, amei-te, 
Gravei teu nome no meu pensamento, 
E om tal momento meu amor sagrei-te. 

Dize que és minha n'um sorriso puro, 
Dá-me um futuro de prazer — d'encantos; 
Que ás tuas plantas me verás curvado, 
Eoebriado por teus votos santos. 

Qwdberto Peçanha. 
▼of>. n. 6 



82 TROVADOR 



LUNDU 



O NARIZ DE TÁTÁZINHA 



Menina, faça o favor 
De me dizer que lhe fiz? 
EntSo porque quando eu passo 
Voseê me torce o nariz? 

Pois julga que sou 
Algum hadamécof 
Yáyá do meu peito 
Eu sou seu boneco, 
Gosto de vossè, 
Por isso não pecco» 

Eu sei que vossê namora 
O seu priminho Luiz, 
Mas isso não é razSo 
P'ra me torcer o nariz. 

Pois julga — etc. 

Desde o domingo que foi 
Ouvir missa na matriz, 
Eu lhe adorei, mas nSo vi 
Vossê torcer o nariz. 

Pois julga — etc. 



TROYADOR 83 



Pois 86 acaso o meu rosto 
E feio, tem côr de giz, 
Tenha dó de mim, j&y&y 
N8o torça tanto o nariz. 

Pois julga — e^. 

Já tenho ataqaes de nervos, 
E também um pleuriz, 
Me cure — quebre o resguardo 
No torcer do seu nariz. 

Pois julga — etc. 

Por tanto, minha jáyá, 
Já que mal nenhum lhe fiz, 
Me quebre os olhos com graça, 
Mas sem torcer o nariz. 

Pois julga — etc. 



Gualbet^o Peçanka. 



84 TROVADOR 



MODINHAS 



ERA 01ITR*0RA A HIIIHA VDA 



Era oatr'ora a 
Vida inteira que eu gozava; 
Era o fresco alvor da aurora 
Que no horisonte apontava. 

Minha vida hoje se aparta 
Da vereda da paixSo ; 
Que nos mostra um só abysmo, 
Que nos queima qual vuIcSo. 

Que vida goza quem vive 
Sem ser de amor dominado! 
É feliz porque não traz 
Alma e peito apaixonado. 

Vive entSo como no céo 
Os anjos, juntos de Deus, 
Que nSo soffrem como eu soffiro 
Os tristes gemidos meus* 

Como gemidos que sahem 
De dentro do peito meu, 
Como um triste, que nSo acha 
Lenitivo ao pranto seu. 



I 



TROVADOR 

Perde a rosa o seu alento, 
Também perde o sea candor ; 
Das flores a mais qnerida 
Qne se di ao temo amor. 

Qual Venesa que se banha 
No Adriatioo gentil ; 
E' cidade da montai^lia, 
E' prinoeza do BraaiL 

Vinde, ó meu Deus, dar allivio 
Ao meâ triste ooraçlo; 
O teu — sim — a minha rida, 
A minha morte o ten — nSo. 



1 



COBO Ê PURO O DOCE 0R7ALH0 

(■OTA MOSIBRá) 

Para ser cantada na musica da modinha — Attsencia 

Como é pnro o dôoe oryalho 
Que dá yida ao temo galho 
Da mimosa e pura flõr I 
Como é puro o passarinho, 
Que perdendo o caro ninho 
Sente o peso do rigor ! 

Como é pura a vira estrella 
Que no eéo brilhando, bella, 
Mostra graças e primor I 



86 THOYADOR 

Como é pura a branca loa, 
Desenhando a fitioe nda, 
Nos trazendo só amor I 

Como é pura a virgemzinha 
Que sorri, imiocentinha, 
Nos braços de sua irmS! 
Como é puro os passarinhos 
Despertarem nos seuB ninhos, 
Saudando a luz da manhã 1 

Como é puro esses anjinhos 
Lá no cóo, iSLo queridinhos^ 
Juntinhos do CreadorI 
Como é puro — da donzeila. 
Virginal linda capella, 
O mais santo e dôoe amor! 



Adêodato Sócrates de Mello. 



EU QUIZERA SER ETERNO 



Eu quizera ser eterno 
Para teu amante ser; 
Como eterno ser nSo posso, 
Hei-de amar-te até morrer» 

Menina, se eu nSo te amo, 
Um passo nSo ch^e a dAr; 
A própria terra em que piso 
Pôde mesmo me faltar» 



TROVADOR 81 

Ah! meu bem, se eu uSo te amo, 
O Deus do céo não me escute, 
Nem o sol me alumie, 
Nem a terra me sepulte* 

Ainda depois de morto, 
Debaixo do frio chSo, 
Acharás teu nome escripto 
No meu terno coração. 



UM TERNO SORRISO 



Um terno sorriso 
De amor e saudade 
Ainda te offerta 
Quem tem-te amizade. 

Que dores, que angustias, 
Que pranto exhaurido ! 
São lagrimas tristes 
Que eu verto sentido. 

Lá quando nos astros 
O sol vem raiando, 
Desperto no leito 
Teu nome chamando. 



Que dôrçs, que angustias — etc« 



88 TROVADOR 

De todo o passado 
Me vem a lembrança, 
Contemplo esta sorte, 
Me resta a esperança. 



Qae dores, que angastias — ete. 

Mea anjo do oéo, 
Attende a clemência, 
OuTÍ minha voz, 
Findai-me a existência. 

Qae dores, qne angastias — etci 



RECITÀTIVOS 



PENSO EH TI * 

Penso em ti com ardor intenso. 
Tua lembrança minh'alma encerra; 
Penso em ti, minha rida és tu. 
Meu doce bem, meu amor na terra.* 

Penso em ti como pensa afflicta 
A pobre mSi que do filho ausente 
Verte o pranto da saudade amarga, 
Que su'alma opprime, que no peito sente« 



TROVADOR 89 

Penso em ti como o rico avaro 
Pensando vela nos thesooroe seus ; 
Bem como elle receio perd^-te, 
Temo qne xonbem-me ós carinhos teus. 

Penso em ti como misero enfermo 
Em triste leito pela dôr prostrado, 
Pensa ancioso no suave allivio 
Que gozar espera de soffrer cançado. 

Penso em ti, como pensa em Deus 

O desditoso que seus males chora ; 

Penso em ti com sublime affecto, 

Com fervor constante de quem firme adora. 

Penso em ti e esquecer nSo posso 
Um só momento quem adoro tanto; 
Penso em ti com paizSo ardente, 
Com extremos puros do amor mais santo. 

Cândida Isabel de Pinho Cotrim. 



AGORA 



Outr'ora da vida encantos gozei. 
Vivi embalado em maga illusSo, 
Do escameo ao amor difTrença nlo via; 
Oostoso perdia a luz da razSo I 



90 TROVADOR 

Momentos felizes passei ye^taroBOs, 
Do céo divisei celeste visSo, 
Jalgaei-me ditoso, amei com ardor, 
E em paga a perjura me dava traiçXo. 



Cedeu a meus rogos^ fingiu mil promessas, 
Esperanças fagueiras senti eu entSo : 
Nas falias mentidas que amor me jurava 
Pensei impossível que houvesse traiç&o. 



Julguei-a sincera, ludibrio enganoso I 
Zombava de mim sem ter compaixão: 
Se amor lhe jurava, traidora sorria, 
Gostoso perdia a luz da razSo. 



Mas hoje descrente nSo penso mais n'eUa, 
D'amor dôoe enleio perdi a illusSo; 
Conheço a dijSerença d'amor ao escameo, 
Procuro socego p'ra meu coraçSo# 

Oermano da Co9ta. 



J 



N 



TIM>VAI>OR ^* 



lundC 



\ 



AS BEATAS 



Yôyôzinlu), vá-se embora 
Que eu nSo gosto de brincar; 
NSo venha, com boub carinhos, 
Minha reza atrapalhar. 

Vossê quer perder minh*alma, 
Vossê quer só m'enganar, 

Vá-BQ embora, yôyôzinho, 
Kão me Venha já tentar ; 
As boquinhas que me pede 
Tenho medo de lhe dar. 

Voflsê quer perder minha'alma, 
VoBSÔ quer só m^enganar. 

NSo venha com seus abraços 
Meus amores despertar; 
Guarde tudo para logo, 
Quando acabar de rezar. 

Vossê quer perder minh*alma, 
Vossê quer só m'en|anar. 



92 TROTADO» 

Tenho medo, jòjòzmho^ 
Basta já de me abraçar ; 
NSo me dê tanta boquinha. 
Que me pôde atarantar. 

VoBsê quer perder minh'alma, 
Vofisê quer só m'enganar. 



MODINHAS 



PORQUE, Ú JIORTE CRIISL 

Porque, ó morte cruel, 
Minha alegria roubaste? 
Porque do filho que amava 
Os tenros dias cortaste? 

Sua innooencia 
Nlo te moreu? 
Ai! como é triste 
O fado meu ! 

Oabriêl Femandeê da Trindade. 



■ 



TROVADOR 93 



TROVADOR 



(TBBCEIBA DBFE2A) 



Trovadori o qne tens? tu nSo soffrea, 
Bem fingida é a tna afflicçSo; 
N'e88e pranto que as faces te orvalha 
Eu só yejo um signal de traição. 

Se a mulher, a quem dizes que amavas, 
Te tratou com acerbo rigor, 
Foi por ter' conhecido que amava 
Um infame, um cruel seductor. 

Se o amor da mulher é uma nuvem. 
Qual o vento que a faz agitar ?•• .. 
NSo será o amor d'um ingrato 
Que esta nuvem procura arrastar? 

Se o amor da mulher é luzerna 
Para o homem que a não sabe amar, 
O amor da mulher é estrella 
Porque firme ha-de sempre brilhar. 

O amor da mulher nSo é firagil, 
Pequenino, adoudado batel ; 
O amor da mulher é constante. 
Mesmo achando um amante infiel. 

O amor da mulher é qual rosa 
Que insensatos procuram colher; 
Vis insectos que trazem veneno 
Para a pobre da flor fenecer. 



94 TROTADOR 

A mulher que promette, nSo falta; 
Se ella jura, ha-de a jura cumprir; 
A mulher é fiel, é sincera, 
A mulher nSo precisa mentir. 

Um exemplo só não, porém muitos, 
Eu aqui poderia mostrar, 
\ De que só a mulher sente amor, 
Pe que só a mulher sabe amar. 

Quando meiga se mostra a mulher 
Com agrados, com ternos carinhos. 
Um futuro lhe mostram de flores 
Doestas flores que occi^ltam espinhos. 

A mulher tem o dom da belleza, 
Tem maneiras que sabem captar, 
A mulher é um todo perfeito, 
Se dinheiro ella tem a fartar. 

A mulher tem feitiço nos olhos. 
Diz o infame, cruel lisonjeiro!. •• 
A mulher é um anjo no mundo, 
Se elle vê que a mulher tem dinheiro! 

O amor da mulher é tSo firme 
Quanto é firme o rochedo gigante; 
O amor da mulher não se vende: 
Ella, só, é quem ama constante. 



TROTADOR 95 



UHA INGRATA, UMA INCONSTANTE 



Uma ingrata, uma inconstante 
Que en amei mais do qne a mim, 
Uniu o ciúme á saudade 
Para aos meus dias dar fim. 

Já que não posso 
Nunca esquecel-a, 
Mesmo trahido 
Desejo vôl-a. 

Cruel destino! 
Céos, compaixSo 
P'ra um desgraçado, 
Morte ou perdão ! 

Para amar somente a ella 
Infeliz ao mundo yim, 
Ao mundo veio a tyranna 
Para aos meus dias dar fim. 

Já que nSo posso — etc. 

Anjo na voz e apparencia 
Também a julgava assim, 
Mas ella tomou-se fera 
Para aos meus dias dar fim. 

E que nSo seja 
Meu peito igual, 
Ainda suspiro 
Por monstro tal. 






96 TROVilDOR 



RECITATIVO 



BSCDTA. . • 



Se para amar-te f8r mister martTrio, 
Com que delírio saberei soffirerl... 
Se d^altas glorias fôr mister a pajbna, 
Talf^eas minh'alma possa além colher. 

Quebrar cadèasi conquistar um nome 
Que nSo consome o pei^passar das eras I 
Arcar co^as farias de iracundos nortes, 
Scfffirer mil mortes sem morrer deTéras!... 

Nas próprias carnes apertar oilicios, 
Nos sacrificio8| ter bereno rosto; 
Pisar descalço sobre espinhos duros 
Com pés seguros, com signaes de gosto ! • • • 

Longe da pátria, no paiz mais feio, 
Do tédio em meio por amar-te irei ; 
Viver, embora, sob a zona ardente, 
E alli contente por te amar serei! 

■ 

E a ser amado, se fôr mister o inoenso 
Que sobe denso dos salSes aos tectos. 
Serei altivo ! • . • NZo irei de rastos, 
Com lábios castos, mendigar affectos. 



J 



TROVADOR 97 

£ 86 me odeias por nSo ir ás salas 
Dizer-te as fitllas de immortal paixSo; 
E aos olhos de outrem^ profanando extremos, 
Dizer-te — amemos — , apertar-te a mio; 

Dá-me tea ódio, que eu nSo quero, escuta, 
Beber cicuta procurando mel ! . . • , 

Dá-me teu ódio, mas em grau subido, 
Embora ungido de amargoso fel ! • • • 

Dá-me teu ódio, por fatal sentença, 

A indifferença me será peor ; 

Que um sentimento por mim sintas n'alma, 

Dá-me essa palma de soffrer melhor ! • • • 

Dr. Pedro de Calazan». 



LUNDU 



A QUEBRA DOS BANCOS 



Para ser can t ad o pela musica do limdú — Espanta o grande progresso 



Tudo anda em reboliço 
Cá pela nosf>ia cidade. 
Ha cousinhas que amedrontam, 
Temos grande novidade: 
iroft. n- 



98 XROYÁDOR 

Corre ahi de bocca em bocca 
Que o nosso grande banqudro 
Fez sciente a seus credores 
Que nlo tinha mais dinheiro. 



Todos lastimam 
Em cada canto. 
Vertendo pranto 
Amargurado: 
Por ter guardado 
O seu dinheiro 
Com o banqueiro 
TSo conhecido, 
Vivem agora 
Em agonias, 
Chorando suas 
Economias. 



Tenham calma e paciência, 
O medo desvanecendo. 
Forque se vai proceder 
A um total dividendo. 



Apenas se divulgou 
Tal noticia na cidade, 
Ficou quasi que maluca 
Da população — metade: 
Viu-se grandes e pequenos 
Andar em passo de cSo, 
Tudo fallava e gritava. 
Houve grande confhslo. 



Todos lastimam — eto« 



TROYADOR 



99 



Tenham calma e paciência^ 
O medo desvanecendo, 
Porque se vai proceder 
A um total dividendo. 



Via-se na ma Direita, 
Em frente á casa bancaria, 
Gente bem e mal vestida, 
Podendo chamar-se vária ; 
Os soldados da policia 
D'es{$adas desembainhadas, 
Ican dispersando o povo . 
A poder de cutiladas. 



Todos lastimam — etc. 



Tenham calma e paciência, 
O medo desvanecendo, 
Porque se vai proceder 
A om total dividendo. 



Chorava o pobre carreiro, 
Chorava o negociante. 
Grande alarido fazia 
Das mas o mendicante; 
Pois até mesmo os mendigos 
Sem que comer — ezhanridos. 
Diziam, para se oavir. 
Que tinham vales perdidos. 



Todos lastimam — etc. 



l 100 TROVADOR 



Tenham calma e paciência, 
O medo desvaneoendo, 
Forque se vai proceder 
A um total dividendo. 



Já se deixa vêr entSo 
Que no mundo nSo ha pobres^ 
Pois os mais necessitados. 
Tinham junto bem bons cobres; 
Mudaram-se entSo as scenas^ 
Os ricos ficaram pobres. 
Os pobres sSo ricos hoje, 
Pois trazem comsigo os cobres. 



Todos lastimam — etc. 



Tenham calma e paciência, 
O medo desvanecendo, 
Porque se vai proceder 
A um total dividendo. 



Oualberto Peçonha. 



TROTADOS 



iOi 



MODINHAS 



HiO TE ESQUEÇAS, MARÍLIA, DE MIM 



Chega a hora da minha partida, 
Adens, anjo, adeus, cherabim; 
Em minh'alma ta vaes retratada, 
NXo te esqueças, Marília, de mim. 

NSo te esqueças de mim, quando a lua 
Clarear no celeste jardim ; 
Quando as trevas da noite ofioscarem, 
NSo te esqueças, Marilia, de mim« 

NSo te esqueças de mim, quando a rosa 
Desabrochada, murchar no jardim ; 
Quando a rola no bosque cantar, 
NSo te esqueças, Márilia, de mim. 

NSo te esqueças de mim, quando yires 
A açucena e o bello jasmim ; 
Quando o triste cypreste enoontrares, 
NSo te esqueças, Marilia, de rnún. 



NSo te esqueças de mim, quando a aurora 
Vem tingir-se ãe «branco e carmim; 
Quando o sol expirar no occaso, 
NSo te esqueças, Marilia, de mim. 



102 TROVADOR 

N8o te esqueças de mim, quando, ao longe, 
Escutares lamentos sem fim; 
Quando á lyra algum triste chorar, 
NSo te esqueças, Marilia, de mim. 

N2o te esqueças de mim, que te adoro. 
Que padeço tormentos sem fim; 
Já que a sorte nos quer separar, 
NSo te esqueças, Marília, de mim» 



MEUS GEMIDOS SOLTO EH VÃO 

Modinha tirada da opera Leêtooq, arranjada por J. M. S. &. 

Meus gemidos solto em vBo, 
Meus olhos sSo doas fontes, 
Os meus ais rompem os ares, 
Mas respondem só os montes. 

Minha Analia já nKo yiye, 
Ai I que dôr, ai I que tormento ! 
Vem, 6 morte^ fini^isa 
Minha vida n'um momento* 

Desde que os temos afagos 
De Analia roubou-me a impía, 
Meus dias foram votados 
A cruel melancolia. 

Minha Analia já nSo vive — etc. 



TROYADOR 



103 



De seu trato os sSos prazeres 
Em ySo minh'alma procura. 
Só um tumulo me responde : 
«Aqui jaz tua ventura. » 

Minha Analia já nÍo yiye — etc. 



DESEJO A VIDA ACABAR 



Muitas vezes eu procuro 
A saudade disfarçar. 
Mas como allivio nSo tenho 
Desejo a vida acabar» 

Eu procuro a solidSo 
P'ra allivio do meu penar; 
Mas como allivio não tenho 
Desejo a vida acabar. 



QUAMDO AS GLORIAS QUE GOZEI 



Quando as glorias que gozei 
Vou na idéa revolver, 
Sinto i força da saudade 
Meu triste pranto correr. 



104 TROYAIK» . 

Os que já tive, 
Dôoes momentoB, 
SSo hoje a causa 
DoB meus tormentos* 

Encantos que já nZo góso, 
Mas que nSo posso esquecer, 
Fazem dos meus olhos tristes 
Meu triste pranto correr. 

Os que já tive — etc. 

Eu bem sei para que amor 
Me quiz ditoso fazer: 
Foi para vêr de continuo 
Meu triste pranto correr* 

Os que jáf tive — etc. 



DEPOIS QUE TE DEI MI1!H*ALHA 

Depois que te dei minh'alma 
Só vivo um 'hora no dia; 
Mas^ hoje nem gozar pude 
De um momento de alegria. . 

Só| 6 lilia, nos teus braços, 
Do mundo todo esquecido, 
Poderei gozar, um'hora, 
D'ausencia o tempo perdido. 



i 



TROVADOR 105 



RECITATIYOS 



VÃO TE LAMENTO 



Lamentem outros muito embora, virgem, 
Na fria campa que teu corpo encerra, 
Eu nSo, nSo choro tou perdido amor, 
Porque minh'alma nSo se prende á terra ! 

D^immensos gozos que na terra existem, 
Soffiri immensas, cruciantes dôres; 
Da primavera em juventude amena 
Brotaram murchas na minh'alma as flores. 

Yi uma a uma desfolhar-se todas. 
Sem que da vida as bafejasse o sol I 
Foi manhS triste, despontou sem aura, 
Tomando escuro o vivido arrebol ! 

Vi-te na senda de minha vida escura, 
Senti o iman que me attrahia a ti ; 
Quiz de teus olhos receber a luz, 
Tomei-me alegre de prazer — sorri. 



Déste-me luz, ainda mais, amores, 
Dias fSEigueiros de porvir ditosos ; 
Porém a morte te roubou, tyranna I 
Quando da vida começava os gozos. 



» 



406 TROTáDOR 

Era forçoso, era a sorte minhai 
NZo gozar nunca da existência as fl&res ; 
Na senda immensa de minha vida escura 
Trilhar espinhos, e perder amores ! 

£ desde entSo a minha alma triste, 
Longe da terra, na regilo immensa, 
Vaga sósinha, solitária e louca, 
Esquece a vida de soffrer intensa. 

Lamentem outros muito embora, virgem, 
Na fria campa que teu corpo encerra, 
Eu nSo, n8o choro teu perdido amor. 
Porque minh'alma nlo se prende á terral 

Sènrijuê Mackaão. 



ÂTTENDE, Õ YIRGEHI 



Attende, ó virgem, de minh'alma as fiJlas, 
Meus rudes cantos, sem expressSo, sem cfir; 
Elles exprimem um sentir immenso, 
Soflfrer intenso d'extremoso amor! 



Se amor é chamma que devora e queima. 
Loucos nos toma nos matando em fim, 
E' pura chamma o que sinto n'alma, 
Attende, ó virgem, eu te amo assim. 



TROVADOR 107 



Se crês mentidas as palavras minhaSi 
Slnda tSo joven tu já és descrente ; 
Soa desgraçado, pois frustradas vejo 
Crenças {agueiras que minli'alma sente. 



Attendoí virgem, meu amor é puro. 
Temo, sincero, como nunca amei; 
Digas embora n'um sorrir descrente 
Que amando tanto inda nSo jurei. 

N8o juro, virgem, perjurar nSo quero, 
A santa crença que minh'alma inflamma ; 
Temo que um dia ao teu rigor vencido 
Venha a descrença eztinguir-me a chamma. 



Escuta, pois, de minha alma as fiUlas, 
Meus rudes cantos de tristeza e dôr ; 
Toma meus dias de porvir ditosos, 
Vem dar-me a palma de teu puro amor. 

Chrmano da Coita. 



\> 



108 TROVADOR 



LUNDU 



O TELLES CARAPIHTEmO 



Sabes o que aconteceu 
Âo Telles Carapinteiro? 
Para Santa Philomena 
Dispôz-se a pedir dinheiro I 

E sem tirar a licença 
Da camará municipal, 
Se yiu bem apertadinho 
Pelos guardas do fiscal. 

O Telles tanto envolvidoí 
Oom ópa e bolsa na mSo, 
O fiscal disse a seus guardas : 
f Tragam cá esse ermitSo.» 

O Telles assim que ouviu, 
No coração sente dôr; 
Apressando mais os passos 
Metteu-se n'um corredor* 

 ópa logo tirou 
E com a Santa envolveU| 
Embrulhou tudo n'um lenço ; " 
Quem vai-se embora sou eu. 



TROVADOR 



109 



Nada, nada, senhor Sousa, 
N'outra nSo tomo a cahir, 
Que sem tirar a licença 
P'ra Santa nSo vou pedir. 



*v 



Puxando pela boceta 
O Telles toma tabaco; 
Olhando para dous guardas, 
Oh! que caras de macaco! 

Milagre que a Santa fez 
Pela minha devoção, 
livrou-me de eu ser preso, 
De pagar condemnaçSo. 

Triste cousa é ser-se pobre, 
Viver sujeito, enganando; 
Quando mal se nSo precata 
'Stá na cadêa brincando. 



Esta Sakita Philomena 
£ uma Santa mui bella; 
Mas sem tirar a licença 
NSo tomo a pedir p'ra ella. 



110 TROYADOlt 



MODINHAS 



JÁ NÃO POSSO TIV^R HAIS NO MUNDO! 

Musica da modinha — Lá n^aqueUe gigante de pedra 

Já nSo poBsso viver mais no mundo! 
SSo meus dias de pranto e de dôr; 
Vem, ó parca, cortar-me a existene^, 
Vem pôr termo da sorte — ao rigor! 

Tive infância feliz e ditosa, 
Foi-me leda, bem n'ella gozei; 
Depois, entes qae muito prezava. 
Deus chamou-os! Oh! muito chorei! 

Âi de mim, tão sósinho que sou! 
Já nSo posso viver mais no mundo; 
Vem, ó parca, ceifar os meus' dias, 
Deixarei de viver gemebundo! 

Quero eu vêr se terei lenitivo 

P'ra meus males — da tumba no fundo; 

Que me serve viver afflictivo? 

Já nSo posso viver mais nc mundo! 



F.P. 



TROVADOR lli 



FOSTE FALSA HONTEMANOITE 

Bem sabia eu que vivia 
N'este mundo só por ti; 
Era tua a minha vida 
Desde o dia em que te vi. 

Foste £Eilsa hontem a noite, 
Meu riyai eu conheci, 
Que conversavas com elle 
NSo me negues, eu bem vi! 

Bem sabias que eu vivia 
Dia e noite a suspirar, 
Esperando aquella hora 
De te vèr e te fitUar. 

Foste fSedsa hontem a noite — etc. 

Eu bem sei que tu tens outro 
A quem tu tens mais amor. 
Mas eu sempre vou bebendo 
Negro cálix de amargor. 

Foste falsa hontem a noite — eto.^ 

Arrastando estas correntes 
Pelas ruas da cidade 
Nunca achei tamanho peso 
Como a tua falsidade. 

Foste falsa hontem a noite — etc. 

F. P. Ç!fM4. 



lis TROYABOR 



RECITATIVO 



BSGDTA 1 



Escutai donzellai a voz do cantor 
Que louco de amores só chama por ti; 
Escuta, donzella, escuta, eu te peço, 
Nlo fujas, nSo 'negues, coraste, bem yi.« 

Eu vi, eu bem vi, nlo negues, donzellai 
Eu yi tuas faces cobertas de pejo; 
Ficaste tSo bella qual rosa no prado 
Recebe das brizas o cândido beijo. 

NSo figas, donzella, do pobre cantor . 
Que ébrio de amorei só geme e suspira; 
NSo fujas, meu axgo, ao menos escuta 
As pobres estrophes que solta esta lyra. 

As negras madeixas de finos cabellos 
Nas costas cabiam da virgem esquiva» 
E ella corria sem mesmo lembrar-se 
Que aqui a minli'alma ficava captiva* 

EntSo já cançada de tanto correr 
Parou e sentou-se bem junto da fonte, 
Depois, feiticeira, sorrindo eu bem vi 
Nas niveas mSosinhas pousares a fronte. 



J 



TMVAMR 118 



Nas níveas rnSoeinhas a fronte pousaste, 
Nos lábios um riso te veio brincar, 
Arqueja-te o ooUo, e eu, em delírio, 
Teus lábios não cesso sequer de beijar. 



Escuta, donzella, a voz do cantor, 
Que louco de amores só chama por ti ; 
N2b) fujas, te peço, ó virgem esquiva. 
Ao furto de um beijo coraste — eu bem vi. 



Oarcia Mascarenhas* 



CANÇÃO 



MINHA HÃI! 



Minha mSi, hontem no baile 
Um poeta me tirou, 
Me chamou seu branco lyrio, 
Açucena me chamou; 
Disse cousas tão bonitas 
N'essas falias que failou. . • 
▼oxi. n. 8 



414 TROYADOE 



Diga, diga, mamasinha, 
Quando ao baile voltará? 
Mude em pasta minlias tranças, 
Minha mSi, consentirá ? 
Eu já tenho treze annos. 
Já nBo posso ser yáyá. 

Eu já bordo, marco, canto, 
E eu já danço também, 
Os foiy^edos infantis 
P*ra mim nenhum prazer tem ; 
Já nío quero vestir calças. 
Leio versos muito bem. 

Estes meus vestidos curtos 
Pôde dál-os á^ sinhá, 
Qu'ea já 'stou muito crescida. 
Já entendo o sabiá; 
Eu já tenho treze annos, 

Já nSo posso ser yáyi. 

* 

Quando ouço o primo Jucá 
A gemer no violSo, 
Como a folha do coqueiro 
No cahir na viração; 
Eu n&o sei que sinto n'alma, 
Dóe-me tanto o coraçSo ! • • • 



TROVADOR 115 



RECITATIVO 



NiO TE POSSO AMAR 

Perdto, donzella, se te amei com anciã, 
Se ousei na infância meu amor te dar : 
Nasci na plebe, ta nasceste nol>re, 
Tu — rica, eu — pobre: nSo te posso amar! 

Vi-te tSo bella no sophá cahida, 
Cheia de yida, palpitante o seio: 
Louco, adorei-te por te vêr, querida, 
Co'a mSo pendida do regaço ao meio. 

Vi-te dormindo; teu vestido solto, 
Branco, revolto, descobria a meia : 
De amor ardendo, quÍ2 beijar-te,Jedo: 
Mas. • • tive medo da gentil sereia ! 

Quero adorar-te, te sagrar um culto 
Inda que occulto no febril desejo: 
Quero estreitar-me nos teus niveos braços, 
Por entre abraços te imprimir um beijo. 

Pequei, donzdila, por te amar, perdido: 
A meu gemido teu desprezo deste : 
Nlo te envergonhes de alentar o pobre ; 
Qae o pobre é nobre na mansSo celeste. 



il6 TROVADOR 



Plebeu ousadoí me esqueci, archaujo, 
Que para o anjo nSo devera olhar: 
NSo me condemnes; meu arrojo encobre; 
És rica, eu pobre : nSo te posso amar! 



Oenuino Mancebo, 



MODINHA 



SOBRE AS AGUAS DO MAR 



Musica da modinha — MáL te vi eu te nmei 



Eu já yi sobre as aguas do mar 
Balançar-se uma rosa em botSO| 
Vi-lhe abrir o mimoso embrjSo, 
Poucas horas depois desfolhar. 



Uma a uma as folhinhas cahindo 
Lá se foram nas aguas boiando; 
OrphZsinha a roseira viçando, 
Pouco a pouco se foi consumindo. 



TROYÂBOR 117 



E ao cabo d'um anno voltei. 
Já estava a roseira viçosa, 
Já pendia outra vez uma rosa. 
Que também no botSo enxerguei. 



Eis que morre, ella vem renascer 
Cada flor sem que mude d'essencia ; 
Só a rosa de humana existência 
Duas vidas não pôde viver. 



Cada fblha, que ao pego cabir, 
Caia ao menos sem mancha e viçosa, 
E nadando na vaga espumosa 
NSo se possa jamais submergir. 



E o perfume que assim se exhalar 
D'essas puras folhinhas da vida. 
Vá, deixando a terrestre guarida. 
Nossas almas no céo aguardar. 



118 TROVADOR 

I 



LUNDU 



O CAFUNÉ 



Manca de J. L. de Almeida Ganha 



Eu adoro a uma j&f&y 
Que quando está de maré. 
Me chama muito em socego 
P'ra me dar seu cafuné. 



Que geitinho que ella tem 
No revivar dos dedinhos! 
Fecho os olhos e suspiro 
Quando sinto os estalinhos. 

ICas quando zangada está, 
Raivosa me bate o pé, 
Me chinga, ralha commigo 
E nSo me dá cafuné. 

Nto sei entSo o que faça, 
Mesmo &zendo carinhos 
Ella entre meus cabellos 
NBo passa mais seus dedinhos. 

Um dia zangou-se toda 
Por vir cheirando a rapé; 
Me chamou de valho e velho, 
E nSo me deu cafuné. 



j 



TAOVABOR 



149 



Brígoa cominigo deyéras; 
Mas passada a raivasinha, 
Me offertou cheia de encantos 
Uma linha bocetinha. 

Qae 'boceta tSo mimosa! 
Dos pares emblema é; 
Quando sorvi a pitada 
Deu-me ella um cafuné. 

Àh ! que gosto que eu senti 
Na boceta do rapé I 
iBncontrei o melhor meio 
De gaxihar meu cafuné. 



E. Villas-Bom. 



MODINHA 



PELO CIMO D'AQUELLA ALTA SERRA 

Musica da modinha — Gigante de pedra 

Pelo cima d'aquella alta serra 
Que se diz da Tijuca chamar, 
Para allivio da dôr que me aterra 
Vivo só por alli a vagar! 






110 ntmjMm 

Testemnnlia, oito montOi tii és. 
Dos meus ais e sentidas endeixas, 
Quando ahi d'essafi ardores aos pés, 
Sento-me e £eiço ouvir minlias queixas ! 



Pela ingrata, que ousou desprezar 
Os meus brios d'amante fiel, 
E da taça me faz esgotar 
Té a Atima partícula de fel. 

Oh! nSo posso sofirer jamais, nlo; 
Soffrer tanto no mundo agras dôres! 
Jaz oppresso este meu eoraçSo, 
S8o meus dias de magoa e de horrores ! 



Qiíero aqui, ó Tijuca, fit^lar, 
N'este ehSo para sempre cahir; 
Aqui só é que a deyo acabar, ^ 
Só aqui, deixarei de existir! 

Jamais deves contar minha lyiorte 
à ingrata, por quem padeci, 
Que, no mundo, por ella sem norte, 
Já vaguei, e acabar vim aqui f 

Só a aurora, quando no Oriente 
N'altas nuvens, risonha mostrar-se, 
Testemunha será d'este ente 
Que de amores, quiz cedo finar-se. 



Pelo^cimo d'aqueila alta serra 
Que se diz da Tijuca chamar. 



1 



TROVADOn 12i 



Para allivio da dôr que lae «terra, 
Vivo BÓ por alli a Tagar. 



F. P. Lisboa. 



RECITATIVO 



PERBiOl 



Tu foste a rcísa purpurina e bella, 
Eu foi prooella que do inferno vim ; 
Bojei-te as folhas p^ chSo cabida», 
Que hoje, erguidas, rem aorrir de mim I 



Era n'am baile, — inda bem criança, 
Cheia d'e8p 'rança lá te vi folgar; 
E logo mn riso de teu lábio puro, 
Eu qniz perjuro, para mim roubar.. 



Eras tio linda I teu olhar de virgem, 
Louca^ vertigem me causou d'amor; 
Mas eu, cobarde, te feri com calma, 
Boubeinte d'alma a candorosa flor ! • • • 



t2S TROVADOR 

Pobre criança 1 teu amor primeiro, 
Vieste inteiro me offertar novel; 
E nem previas que na taça para 
Minh'alma impara te lançava o fel ! 

Cynioo, infame, a victimar afeito, 
Da flor do peito te roubei o olor ! • • • • 
E nem pensava que mais tarde, um dia. 
Chorar viria de remorso e dôr! 



Meu vil cynismo no teu riso insonte, 
Viu o horisonte da mais bella tarde; 
Hoje minh'alma de chorar s'inflamma 
Na dura chamma que em meu peito arde ! 



Quantos phantasmasl que tíbSo errante 
A todo instante me ^erãegue, oh I simi! • • • 
O' Deus I livrai-me da tyranna lida, 
Tirai-me a vida que jamais tem fim ! 

r • 
T 

c * ■ 

PerdSo, meu anjo, se roubei-te a calma. 
Se as flôre$ d'alma te rojei ao chSo; 
Perd2o, meu anjo, se fui louco um dia. 
Perdão, Elmira, para mim, perdSo! 



Tu foste a rosa purpurina e bella. 
Eu fui procella que do inferno vim; 
Bojei-te as folhas pelo chSo cabidas, 
Que hoje erguidas vem sorrir de mim ! 



O. a. MMò. 



i 



TBOYADOR i23 



MODINHAS 



UNS OLHOS Tio MATADORES 1 



Uns olhos tSo matadores 
Inda nSo yi em ninguém, 
Como aqaelles que volviam 
No rosto de um temo bem. 

Eram tSo bellos, tSo vivos 
Nos eixos sempre a mover, 
Que por elles n'este mundo 
Eu só quizera viver ! 

No rosto temo, risonho 
Tio buliçosos, tSo bellos t 
Que já captivo eu sentia 
Me vendo preso em seus elos. 

Minh'alma presa e captiva 
Somente os queria amar, 
Eram tSo yivos, tSo bellos 
Sempre a mover sem cessar. 

Sorria, que riso santo 
D'esses seus lábios fugia I 
Olhava, que olhares temos 
Me lançar, sorrindo eu vi-a. 



124 TROVADOR 

Eram tSo bellos, tSo tíyob 
Nos eixos sempre a mover. 
Que por ellta ii'aste mvndo 
Eu só quizera viver! 



Oliveira FemanÓM. 



DE TEU ROSTO UH GESTO BEUO 



\ 



De teu rosto um gesto bello, 
N'um teu olhar, doce riso, 
E' p'rá mim a fiôr mimosa, 
Tem no céo o paraíso! 



As roseiras vSo seccando. 
Soas folhas yXo cahindo. 
Assim £st2 o triste amante 
Quando ausente está doraândo ! 



Eu te peço, ó minha bella, 
Qne não deixes de mô amar. 
Tendo dó d'este cadáver • 

Que nSo pôde te deixar. 



A dôr que meu peito sente 
Só tu podes acabar. 
Teus lindos olhos defendam 
Se algum me quissor matar I 



TROTÂDOR 125 



RECITATIVO 



PEREGRINA IMAGEM 



Porque me foges, peregrina imagem? 
Porque torturas a minh'alma afflicta? 
NSo Tês que choro de soffirer teu odío 
Que mais ardente meu amor incita? I 

Porque desvias esses olhos languidos 
Dos meus que anceiam se royêr nos teus ? 
Porque emmudeces quando fallo e peço 
Perd2o, descxilpa dos delirioe meus ? ! 

Porque constante'' teu olhar furtivo, 
SurprehendO| ás vezes, a fixar-se além? 
Porque reclinas pensadora a fronte? 
Porque suspiras, sem amar ninguém ? 

Porque recusas ao piaiid| oh Diva, 
Que volte as folhas do Nocturno ou Canto, 
Dixendo altiva : — « NS9 lhe dê cuidado, 
cNSo se incouunode; nio mereço tanto?» 

Ou se eu insisto no almejado intetito, 
Mordendo os lábios, a córar-te o rosto. 
Porque murmuras ao vohar-me as costas; 
— c Sinto viesse a me massar disposto? !> 



126 TROTADOS 

Depois. • . deitando-me am olKar d^aquelles 
Que enleiam, matam um feliz mortal, 
Sorrindo dizes m'e8tendenâo a mio : 
— c NSo se amofine, que nSo fiz por mal ? > 



Se persistires n'esta forma excêntrica 
De torturares a minli'alma ardente, 

« 

Hei-de hnmilha^-te, revelando a todos 
Que o teu orgulho meu amor consente I 



Octaviano Hudsom, 



GANCÂO 



EULDfA 



Eolina, pedes que ea conte 
O segredo de minli'alma? 
Queres tu ,que eu te aponte 

Minha dôr? 
E podes tu, Ineiga flAr, 
Dar-me de ti — dOce calma?! 



TROVADOR 127 



Poíb ouve, Eulina, querida: 
E' bem triste o meu viver : 
Em contínua e crua lida 

N^este mundo, 
Sempre vivo gemebundo. 
Sem alegre jamais ser. 

Dir-me-has: cQual é a causa?» 
Dir-te-hei : « Tu saberás», 
Não faço minima pausa, 

Responderei ; 
Mui fiel eu te serei. 
Lealdade em mim verás. 



Pôde vir, Eulina, um anjo 
Os meus males terminar ; 
Pôde, sim, vir um archanjo 

Dar conforto 
A quem se julga já morto, 
Prestes na campa a tombar 1 

Serás, pois, o anjo, Eulina, 
Meu coração é quem dÍ2; 
Quem dera vâr-te, menina, 

A meu lado, 
Ficaria eu consolado, 
Meu viver era feliz I 



, ,. F. P. Lisboa. 



128 nOYÀDOR 



lUNDÚ 



PERBED-SE A Cfi&VEl 



Perdeu-se a chav^ ! 
Quem havia tal dizer 1 
Uma chaTe como aquella 
Nunca maiu eu hei-de ter. 

PerdeuHse a chare! 
Como hei-de contas dar 
A meu bem, quando de noite 
Me pedir para lh'a dar? 

Perdeu-se a chave ! 
Ah! meu Deus, que canfuBSp! 
Annunciei no «/ortioZ/ 
Mas noticiaa nSo me d&o. 

Perdeu-se a chave! 
NSo me fazem outra igual; 
Era chave de segredo 
Com certa mola real. 

Perdeú-se a chave 
Que trazia na cintura; 
Seu Mané quando vier 
Pintará a — saracura. 



TROVADOR 1S9 

PerdeuHse a ohare 

Já gastei um dia inteiro 

A procurar pela sala, 

Pio quintal, pio gallinlieiro t 

Perdeu-se a ohare 
Que fechava o gavetSo I 
Tenho o puff lá trancado, 
Oh que grande entalaçSo ! 

Perdeu-se a chave 
Quando vim de Cascadura; 
Para entrar dentro de casa 
Arrombei a fechadura. 

Perdeu-se a chave 
Lá na rua do Aterro ; 
Quero outra semelhante, 
USo fazem do mesmo ferro. 

Perdeu-se a chave, 
Chavinha como nSo ha ! 
Dava duas e três voltas, 
Ao sahir feuzia : — tá ! * 

Perdeu-se a chave I 

Outra igual: nXo ha quem faça : 

Em MilSo, na Noruega 

No JapSo, mesmo em Mombaça. 

Perdeu-se a chave ! 
Chprarei por ella um anno ; 
Foi forjada pelos Cyclopes, 
Por mando do deus Vulcano. 

1*. P. Litboa. 

TOXi. n. 9 



190 TROVADOR 



MODINHAS 



A MOÇA SOLTEIRA 

Toda a moça solteira que cora 
Quando os moços lhe querem fallar, 
E' signal evidente que a cuja. 
Acreditem, leitor — quer casar. 

■ 

Quando virem qualquer uma moça 

De manhS o cabello enfeitar 

Com trancinhas, pôr fldres no coque. 

Acreditem, leitor — ^uer casar» i 

Quando virem & tarde uma belia 
A' janella se ir reclinar. 
Dando risos a todos que passam. 
Acreditem, leitor — quer casar. 



Quando virem a mesma &'um canto 
Sem motivos haver a chorar, 
NSo procurem saber qual a «oaosa, 
Pois a mesma o quer é casar. 

Quando virem qualquer uma d'ellas 
De qualquer um rapa2s desdenhar, 
E' signal que ella gosta do cujo 
E desdenha porque quer casar. 



TaOVÂJ)OR 



'Quando yirem na roa uma moça 
Procurando affeetar o andar, 
D'68te modo mostrando-se airosa, 
igam logo: — can,,« axu*« quer casar.» 



m 



Quando yirem qualquer uma mo^ 
Pós de arroz no semblante lançar, 
Occultando com elles mil sardaSy 
A razão pela qual. • . é casar^ 

Quando vitem n'um baile uma moça 
Ck>m um moço somente dançar, 
Podem crêir que é namoro ferrado, 
Cujo £m, realmente, é casar. 



Qoalquer um movimento da moça 
Isto é (no meu fraco pensar). 
Eu traduzo, queridos leitoreé. 
Por desejo tSo só de casar. 

Quando yirem co^i olhos quebrados 
Mil suspiros deixando escapar, 
£ dizer : — « Eu estou mui doentes, 
Tudo é falso, leitor, quer casar. 



João Ouaiberto de K^k€wA% Péçanha* 



132 TROVADOR 



RECORDAÇÕES DO PASSADO 

MuBÍoa dA modinha — Por entre cu trevas da noiU 

Vai além, men pensameDto, 
Divagando sempre incerto, 
Qual divaga sem ter ramo 
O viajor no deserto. 

Assim meu peito em delírio * 

Soffre cruel desventura : 
Por penhor tem a tormenta, 
Por descanço a sepultura ! 

Hoje, eis-me sempre so&endo 
Da avara sorte as torturas ; 
Por fanal tenho o martírio, 
Por penhor as amarguras I 

Assim, meu peito em* desdita 

Tem desde o«berço só dores; 

Soffrendo sempre na vida 

Os mais cruéis dissabores. . ' 

Sempre a lidar n'este mundo 
Curtindo tantos rigores. 
Ao luotar co'a dura sorte 
Vê-se o mortal entre dores. 

Acabou-se o tempo amigo 
D'e8sa idade florescente. 
Em que brincando sorria 
Sem ter pezares na mente. 

. A. (7. d'Ol%i>eira Femandeê. 



1 



TROVADOR 433 



CANÇÃO 



OSOMNO 

O' somno I ó noivo pallido 
Das noites perfumosas, 
Que um chão de nebulostu 
Trilhas pela amplidão ! 
Eip vez de verdes pâmpanos^ 
Na branca fronte enrolas 
As languidas papoulas, 
Que agita a viração. 

Nas horas solitárias, 
Em que yagueia a lua, 
E laya a planta nua 
Na onda azul do mar, 
Cum dedo sobre os lábios 
No vôo silencioso, 
Vejo-te cauteloso 
No espaço yii^ar I 

Deus do infeliz, do núsero ! 
Consolação do afflicto I 
Descanço do precito, 
Que sonho a vida em ti ! 
Quando a cidade tétrica 
De angustia e dôr não geme* « • 
E' tu|t mão que espreme 
A dormideira^ aUi. 



^ 



431 TROVADOn 

Em tua branca túnica 
Envolves meio mundo. • • 
E' teu seio fecundo 
De sonhos e visSes, 
Dos templos aos prostibulos, 
Desde o tugúrio ao paço, 
Tu lanças lá do espaço 
Punhados de illusSes ! • . • 



Da vida o somno r&hidó, 
Do hatcchiz a essência, 
O ópio, que a indolência 
Derrama em nosso sêr, 
NSo valem, génio magico, 
Teu seio, onde repousa 
A placidez da lousa 
E o goflso dó viver.. • ' 

• 

O' somno I Unge-me as pálpebras. . 
Entorna o esquecimento 
Na luz do pensamento, 
Que abrasa o craneo meu: 
Como o pastor da Arcádia, 
Que uma ave err&nte aninha. •• 
Minh'alma é uttia andorinha. . . 
Abre-lhe o seio teu. 

Tu, que fechaste as pétalas 
Do Ijrio, que pendia, 
Chorando i luz do dia 
Cos raios do arrebol. 
Também feoha-me as pálpebras. . . 
Sem ella o que é a vida?. . . 
Eu sou a fldr pendida 
Que espera a luz do soh 



TROVADOR 435 



O leito das euphorbias 
P^ra mim nSo é veneno. • • 
Oave-me, ó Deus sereno! 
O' Deus consolador 
Com teu diyino bálsamo 
Cala^me a anciedade ! 
Mata-^me esta saudade, 
Apaga-me egta dõr. 

Mas quando, ao brilho rutilo 
Do dia deslumbrante, 
Vires a minlia amante 
Que volve para mim, 
EntSo ergue-me súbito. •• 
E' minha aurora linda. •• 
Meu ax^o,., mais ainda.». 

E' minha amante emfim! 



O' somno ! O' deus noctívago ! 
Doce influencia amiga I 
Génio que a Grécia antigi^ 
Chamava de Morpheu. 
Ouve I • • • e se minhas supplic^ 
Em breve realisares.** 
Voto nos teus altares 
Minha lyra de Orpheu ! 



Cattro Ahe$. 






i 86 TROVADOR 



RECHATIVOS 



LÁ NOS PAUURES 



Junto aoB palmares no correr da tarde 
Eu te vi bella e seductora ahi ! 
Já nSo te lembras d'esse tempo findo, 
Quando teu rosto me sorria alli? 

Quanta belleza nSo te ornava a fronte 
Que ao contemplal-a me canson paixSo ! 
Louco em mirar-te me perdi am dia, 
Eu quis fídlar-te e me disseste — nSo ! 

— NSo é possível, minha mâi nos vê : 
Se eu aqui fosse vos failar acaso I 
Deizai-me só e por favor nest^hora, 
Antes que venha pôrnse tudo em raso. • • 

Meu Deus ! que é Isto que acabei de ouvir 
N^este momento que o prazer dilata? 
Tive em resposta que me fosse embora. • . 
Talvez que a visse a pertinaz barata I 

Quem sabe, acaso, se nSo houve arrufos 
Por minha causa co'a menina, hein?. • , 
Louco, ancioso por saber que é isto, 
Quasi que estalo de paixão tamb^n ! 



TROVADOR 437 

Talvez que o velho de rabugem cheio 
Tivesse liguem que lhe contasse o caso!. • • 
E minha amada temerosa agora 
Teme que o cujo ponha tado em raso ! • . • 



A noite é bella, mas a arage' é forte, 
Ea já tirito, mas d'aqai nSo fujo ! . • . 
Hei-de apanhal-a no meu geito, e entSo 
EUa dirá o que souber do cujo L • • 



Lá nos palmares no correr da tarde 
Eu a vi bella e seductora ahi ! 
Sempre a esperava impaciente á sombra 
D'es0e8 olmeiros que florescem alU! 



A. C. d' Oliveira Fernandes. 



valo 



Era de noite, despontava a lua, 
De face nua, a derramar fulgores ; 
Vi-*a Bcismando lá na várzea, a medo, 
O seu segredo confiando ás flores. 



Timida onda a se quebrar desmaia, 
Ka branca praia a soluçar defronte; 
£ a doce briza a respirar saudosa. 
Vinha medrosa bafejar-lhe a fronte ! 



t 



138 TROVADOR 

Era tristonho oomo a flôr sem vida, 
Murchai perdida do hastii mimoso; 
Nas brancas yestes^ o seu niyeo seio. 
Em doce enleio palpitava ancioso. • • 



Louco, em delírio, quis beijar-lbe as plantas, 
E phrases santas lhe fallar a medo ; 
Mas ella esquiva, para os céos voando 
Foi, me deixando aen fatal segredo 1 



Tudo apagoú-se ! • . • foi um meigo sonho, 
Doce, risonho, que eu sonhei, d'amor ; 
Era a neblina que pairava airosa. 
Sobre uma rosa que se abria em flôr» 



O. B. Mello. 



IRDA BOVÍDASI 



Tu, hontem, virgem, perguntaste, tremula, 
Muito baixinho : — se te tinha amor ; 
Depois coraste. • * abaixaste os olhos. . • 
Inda mais bella tu ficaste, ó fltr t • • • 



Ao vèr-te linda, enrubecida e tremula. 

Eu senti logo uma febril vertigem. .. - 

E exclamei com divinal transporte : 

— cTume perguntas se te amo, virgem?!..*» 



J 



TBOVABOR 



139 



Pois ta nSo sentes, minha flor mimosa, 
Não yês meu peito palpitar constante? 
NSo. ouves falias de um amor ardente? 
Não ouves votos a cada um instante ? 

NSo comprehendes meus olhares temos? 
Âs minhas phrases a teus pés cabidas ? 
Tu bem conheces que o que eu t£«go n'alma 
£' este amor; e... inda tu duvidas? !... 

Inda duvidas doeste amor tSo puro 
Que eu te dedico, minha joven bella?... 
Pois nSo te disse eu, que o meu desejo 
Era levar-te á divinal capella? 



QUAL SEMFREVITA 

Qual sempreviva que se ostenta bella, 
Tu és, donzella, d^essa flÔr — retrato; 
Como é tSo bello o teu porte altivo 
E como é vivo teu olhar tSo grato I • . . 

Tu és tSo linda como a fresca rosa 
Toda cheirosa por manhS d^âbril ; 
Ou, qual o lyrio, que se pende airoso, 
Mui perfumoso, lá do seu hastil ! 



Eu sou agora o lyrio sossobrado ! 
Tufão ousado fez-me ao ohSo volver ; 
Quero ter vida, e de ti careço, 
Ohl desfalleço I Yem-me soccorrer!... 



i40 TROVADOR 

Dá-me o perfome d^essa linda rosa, 
O reflcender do mais mimoso lyrío ; 
Garboso porte da sempreviva airosa, 
E, yem, piedosa, tírar-me o delirio. 

Se isso fizeres^ se me acalentares, 
Se me fallares, eu direi: — que tívo; 
Mas, se cruel, tu me desprezares, 
Eu, d;e pezares, para a tumba sigo I 

Qual sempreyiva, que se ostenta bella, 
Tu és^ donzella, d'essa flor — retrato ; 
Como é tSo bello o teu porte altivo, 
E como é yíyo teu olhar tSo grato ! • . • 



F. P. Litboa. 



MODINHAS 



OIMFEUZ 



Musica da modinha — Um temo wrriio 



Arara sorte, 
Cruel tormento. 
Sempre devora 
Meu pensamento. 



TROVADOR 141 

I 

£ o peito oppresao 
Pia dôr pungente, 
Soffire 08 rigores 
Que o fado tente. 

Da taça amarga 
Sorvendo o fel. 
Meu peito sente 
NSo ter quartel. 

Assim, soffrendo, 
Sempre constante, 
Tenho martyrios 
A oada instante. 

O vicilino, 
Temo, mimoso, 
Da rosa o néctar 
Frue, ditoso. 

O infeliz 
A' sorte exposto. 
Tem por divisa 
Agro desgosto! 

A borboleta 
De vivas côres, 
Sobre a campina 
Qoza de 'amores. 

Mas o meu peito, 

Sempre tristonho, 

Soffire da sorte 

Golpe medonho! . 

i 

A. C. d'OUv$ira FerruÊndee. 



142 TfiOVADOR 



RECITATIVOS 



ESQ1IECER-TE71 



Quero esquecer-te, mas debalde tento, 
MSo de ferro me prendea a alma; 
Quero esquecer-te, mas prefere o peito 
Soffrer e amar-te, sem a dCce oalma ! 

Oh! eu te amo, com fervor insano, 
E gemo e choro, porque não és minha; 
Oh ! eu te amo, elevei-te um throno 
N^este meu peito, aonde és rainha. 

Ouve, 6 Diva: — meu gemer é triste, 
E' melodia do sagrado templo; 
Longe, eu lamento; perto, eu m^estremeço; 
E nSo és minha, e eu nSo te contemplo I 

Quero esquecer-me de teu rosto amado, 
D'eBses teus olhos divinaes, fulgentes. •• 
Mas ai I *minh'alma a teus pés curvada. 
Chora, coitada, lagrimas ardentes! 

Porque assim o teu amor pesou-me. 
Branca pombinha que suspira á tarde? 
Tu qu'és tSo pura, ateaste o incendia 
No qual minh'aliaa innocente arde ! 



TROVADOR 



1«S 



Eu sou qual Ijrrio do hastil t<»nbado 
Que morto embora, — yê soprar o sul ; 
Perdido nauta que navega a esmo, 
Cravando 08 olhos lá no oéo azull 



Tu és a briza que fiigueira, á tarde. 
Sopra de manso, agitando as flores ; 
Serena estrella sob um céo d'anil, 
Cheia d'enoantos, de gentis fulgores. 



Ouve, ó Diva : — meu gemer é triste, 
E'- melodia do sagrado templo; 
Longe, eu lamento ; perto, eu m'estremeço ; 
E nSo és minha, e eu nSo te contemplo! 



JT. £r. da C<39ta Sobrinho, 



KDLHER, AMEI-TEl 



Mulher, amei-te t no delírio insano. 
Nunca um engano nos teus olhos vi.I*.« 
Amei teus risos virginaes, pensando. 
Sempre sonhando muito amor em ti. 



Amei teus risos, teu olhar ardente : 
Por ti, contente, minha vida eu déral 
Amei as vozes de teu canto impuro, 
Amei-te, e juro, por te vêr sincera. 



144 TROYABOR 

Amei as crenças que ao romper da aurora 
Tinha, e que agora sSo pVa mim — desgostos ! 
Amei das auras a cançSo serena, 
A oôr morena de teu bello rosto. 

Amei a relva que o pésinho breve 
Pisava leve, sem dobrar ao menos t 
Amei teus lábios, palpitar do seio, 

■ 

Pensando, cbeio de amorosos threnosl 

Amei-te, e louco, te adorara um dia. 

Alma que eu cria, dos affectos santos ! 

Amei-te, e louco te cedera est'alma, 

A crença, a calma, mesmo até... meus prantos ! 

Mas tu, que apenas no calor das salas 
Amas as falias de mentida crença ; 
Oh I nSo podeste comprehender meu peito. 
Sublime leito de paixSo immensa ! 

Mas, diz : se á sombra de dourados tectos 
Crês nos affectos que a teus pés rastejam? 
Se meigas vozes só to pedem risos. 
Se meigos risos teu amor desejam? 

P'ra que quizeste do mancebo honesto, 
'Eiso modesto merecer impura?! 
Para que os risos de teus lábios bellos 
Tentam, singelos, inspirar ternura?! 

Que eu seja hoje teu ludibrio — é justo ; 
Já que sem custo inclinei-me a ti ! 
E, se te amando maculei minh'alma, 
Do gozo a palma, aonde esti ? — perdi« — 

m * m 



i 



TROVADOR 145 



O QUE En SOU 

Eu soa qaal lyrio que oa sepulcbroa ornam 
B ás vezes tomam somnolenta a lua ; 
Qual caminhante que cançado pára 
Quando depara co'a choupana sua... 

Eu soa qual rosa que yaga á tôa 
Lá na lagÕa crystallina e pura, 
E quando esquecida da tyraxma lida 
Peorde a vida, a salvação futura. 

Qual açucena que em desertos prados 
Jaz sem cuidados, soSredora e só. • . 
Assim ^supporto do martjrio as ddres 
Sofitendo amores. • . mas ninguém tem dó. 



Por isso triste,. de viver cançado, 
Soa desprezado como o próprio pó ! 
Ai ! quem diria, que minh'alma triste. 
Já nSo resiste. • • reservada é só. . • 



O mundo é um sonho d'illus3es douradas 
Por nós oreadas... na imaginaçlo, 
Nós, pobres loucos, de correr cançados. 
Somos atirados para a perdiçSo I 



D. Comurgo. 



voi.. n. ' • * 10 



146 TROVADOR 



kfmník 



{Bacodia á Judia) 

 noite estava em meio ; a loa. • • repousava 
Em torno da fazenda ; — escoro, como breu I 
Lá dentro, no poleiro, o gallo... nem cantava I 
Silencio sepalohral e triste — como ea ! 

Mas n'isto, de repente, um cSo da Terra Nova 
Latindo com furor, pSe tudo em confosSo ! 
Os grillos a tremer, encolhem-se na cova ! 
Beone-se o pavor á c negra » escuridSo ! 

Oh I tardes da Pampolha t oh dias ventoroaos ! 
Noites em qae sonhei ! manhSs em que vivi I 
Cartas do meu amor ! suspiros dolorosos ! 
Árvore a cuja sombra. . • a amar eu aprendi ! 

Se acaso meu tutor nSo fosse tão perversOi 
E eu podesse um dia unir-me ao meu Luiz, 
Levando quanto ha de grande no universo, 
Vivera na Pampulha alegre é bem feliz ! . . . 

A noite estava fria : envolta no meu chalé, 
Fui vêr se resoiiava o preto Serafim, 
Porém voltei atraz t na cerca, junto ao vsHe 
Um vulto lobriguei : cantava, — e era assim : 

Ouves meu canto, minha voz plangente, 
Pomba innocente, divinal mulher? 
Olha, nSo posso caminhar avante, 
Esse tratante d'esse cXo. • • nSo quer ! • .\ 



TROVADOR 147 

Dormes ? pois donne : ficarei relando 

E em ti pensando... oomo penso em mim! 

Dorme 1 repoasa ! recupera alenio 

Que eu conto ao vento quanto sinto emfim 1 

Anjo doB anjos I resplendente norte ! 
Em quanto a morte me deixar viver. •• 
Hei-de segoir-te como um cSo de fila, 
Bica pupilla. — NSo tem mais que vêr 1 

D'onde vieste, em que paiz andaste? 

Onde deixaste teu querido pai ? 

Ko Porto? em Braga? em Macacu? na China? 

Pobre menina! que tormento ! ai 1 ai ! 

Harpa sem corda que no mundo vagas 
lionge das plagas onde viste a lu2, 
Ave sem niáho, suspirosa pomba 
Sobre quem tomba tSo pesada cru^ ! . • • 

Herdeira rica de um pecúlio immenso, 
Ko qual eu penso — quando penso em ti. 
Foge commigo ; vamos vêr o mundo I 

Deixa o profundo lodaçal d'aqui I 

• 

Porque motivo has-de ficar solteii»> 
Ta, que és herdeira da pecúlio tal ? 
Casa commigo, divinal donzella, 
J)eixA • tutella, que parece mal ! 

Meu cavaquinho! pcnrqiie choras tanto? 
Canto I meu canto! — vou perdendo a voz i. • • 
£' praga, é praga, companheiro, vamos, 
Prestes fujamos doesse cSo feros. 



148 * TROTADOR 

Ladra, maldito ladrador do inferno I 
Trifiiace eterno acorrentado ahi ! 
Ladra, barreira que me impede um goso I 
Ladra, tinhoao I que eu nBo fioo aqui. 



GANÇiO 



OPESCADOR 

Baroo ao mar, ó pescador, 
Solta as velas ao fresoor 
Da brica que geme e chora : 
Lança teu baroo ligeiro 
Sobre este mar tSo fagueiro, 
i pesca, sem demora! 



Bonançoso está o mar 
Para os segredos guardar 
De tuas cançSes de amor ! 
 lua no oéo mimosa, 
Befleetd siléncioBa 
Sobre ti, ó pescador t 

Ji vai o gentil barquinho 
Por sobre as ondas sósinho. 
Garboso, alegre a coirer; 
Mais de um peito jaz s^itido 
De saudade entristecido, 
Leviuita o véo do s(^er. ' 



i 



TROYADOR 149 



linda, uma yirgem chorando 
Na praia, está murmurando 
Pia e fervente oraçSo I 
E o amante pescador, 
Lembra-se n^eate amor 
Myvterio do coraçSo! 

O tSo lindo pescador 
Vê na praia seu amor 
Por elle triste a chorar! 
Empunha sua viola, 
E pungente barcarola 
Começa triste a cantar: 

Adeus anjo, 
Adeus amor. 
Lembra-te sempre 
Do pescador; 



Que vai tristonho 
Em ti pensando 
E seus gemidos 
Vid-te offertando. 



Eu te prometto 
Quando voltar, 
Oh! minha virgem 
Mais te adorar ! 



Se ouço a vaga 
Triste gemer. 
Teu lindo nome 
Vem me diser! 



1(0 TROVADOR 

Se a briza passa 
Dando o frescor, 
Por ella envio 
Meu triste amor. 

Lembra-te sempre 
Do pescador, 
. Adeus, meu anjo, 
Meu pobre amor ! 



LUNDU 



MEU CORAÇÃO ESTÁ VAZIO 

Meu coraçSo está vasio, 
Vou pôr escriptOB agora ; 
Se m'o quizer alugar 
Dou preferencia á senhora. 

Tem salas, quartos, saletas, 
Gabinete e corredor; 
O aluguer é barato 
Mas exige fiador. 

N'elle já tem habitado 
Moças todas bonitinhas, 
Altas, baixas, gordas, magras. 
Claras, louras, moreninhas.^ 



TROVADOR 151 



' De algamas levei calotes 
For n'eUaa me haver fiado; 
Agora o ajuste é outro: 
Um beijinho adiantado. 

Tem um formoso jardim 
Todo enfeitado de grades. 
Com suspiros, nSo-me-deixes, 
Amor-perfeito e saudades. 

Em cada compartimento 
EstSo retratos diversos 
E no papel das paredes 
Uma enfiada de versos. 



Quem 'n'aUe morar ag<»a 
N8o precisa de folhinha, 
Que o* nome alli ha-de achar 
De toda e qualquer santinha. 

Entre, pois, mitiha senhora, 
Tome posse da morada, 
Que depois de éstàr lá dentro 
NSo se lembra de mais nada. 



^. 



152 TROVADOR • 



RECITATIVOS 



flOs iffimnriíiu 



Flôr de minhUma perfumosa e linda, 
Busca n'alyura doesse seio abrigo ; 
Conta-Ihe as falias que eu te digo a sós. 
Vai, flôr querida, que eu serei oomtigo. 

Ah I nSo consintas que esse amor de anjo 
Seja levado p'lo soprar de Deus..; 
Ah ! nSo consintas, minha flôr, te peço ; 
Sim, velai sempre pios amores ineus. 



Quando tristonho declinar o dia, » 
Em mim lhe falia, minha pobre flôr ; 
Lembra-lhe os prantos que yerti por ella, 
Lembra-lhe as horas do saudoso amor ! • • . 



Pinta-lhe o manto de minh'alma triste, 
De côr tSo negra, pela dôr manchado; 
Pinta-lhe as chammas doesse amor ardente, 
Que no meu peito já se tem creado. 

Beija-lhe a fironte divinal e santa. 
Como se eu fôra, dá^lhe amor também ; 
Di-lhe teus cantos, bafeja-lhe a vida, 
Di-lhe o perfume que o teu seio tem. 



TROVADOR 153 



Porém 86 om dia, minha flor, tu yires 
Que a lyra esquece do seu bom cantor, * 
Võa aos braços de minli'alma triste. 
Entoando um hyn^no ao infeliz amor t. • • 



O. 8. Mello. 



HOITTEM NO BAILE 
* Foeda do dr. J. Tito Nabnco d'Araujo, e mosioa de B. £. Graça Bastos 



Hontem no baile*, do teu seio lindo. 
Meiga e sorrindo, me offertaste a flôr ; 
Beijei^a tremulo, e meu sêr captivo, 
Do porte altivo, suspirou de amor. 

Tema me olhaste, e nos teus olhos bellos, 
Qaantos anhelos, quantos sonhos li ! 
Lagrima triste deslisou no rosto. 
Fundo desgosto por te amar senti. 

 flôr querida, coneheguei ao peito, 
E o amor-perfeito emmurcheceu de dôr; 
Lá, no teu ooUo, era lindo, amado. 
Aqui nevada, desfolhou no alvor. 

Então aos olhos, de soffirer batidos 
Sempre abatidos, a verdade veio. 
Quadro de sombras, infernal, horrível, 
O impossível, a se erguer permeio. 



154 TROYADOR 

A luz dn vida me roabamm rindo, 
Vivo oarpmdo, meu amor proscrípto, 
Foge, nSo yenhaa, eu só tenho dôrea, 
E' 8Ó de horroroB, o meu &do escripto, 

Ergae tens olhos para a luz da aurora, 
Ella desflora do oriente o véo, 
Da prinftiYera nSo desfolha as flores, 
Os teus amores devem ser p'ra o céo. 



CANÇÃO 



INDA DIZEST 



Resposta i caaçio — Jlliiifta m&i 

Inda dizes, ó lambida, 
Que um poeta te tirou, 
E, inda mui derretida, 
Que açucena te chamou? ! 
Que te disse certa cousa? 1.. 
Âh! nSo sei como ji estou**. 

■ 

E pedes p'ra ao baile eu ir, 
Hein, senhora descarada?! 
Âs pastas que vossê quer 
E' a cabeça rapada. 



TPOTADOR 



1«5 



Tu já contas treze annoa? ! 
Jesus I que cara estanhada ! • • • 

Que tal acham a minha cuja? 
KSo quer ser mais yáyásinha ! • • 
Pois, d'ora avante mui suja, 
Andará lá na oossinha, 
Socará milho p'ra pintos, 
Verá o ovo da gallinha. 



Se bordas, marcas, espantas 
A gente, e sabes pular, 
Inda faltam cousas tantas 
Que convém eu te ensinar : 
Irea lavar tua roupa, 
t^egar no ferro, engomar. 

A tal folha do coqueiro 
Ao cahir da viraçSo, 
T'a darei c'um marmeleiro 
Té te vêr fazer vergSo ! 
E teu primo nSo mais entra 
Em casa, nSo quero, nSo ! 



F. P. Lisboa. 



t56 



TROVÂDQR 



LUNDU 



A HOREHIMHA 0'AQUI 



(RB8F08TA I KITLATINHA DE ci) 



MoBÍca do Itmdú — Do BrcaU a mulaUnha 



Tem no rosto — ineoi^primivel 
Bellezá, como nSo yi; 
Tem um gesto mui — semivel 
A moreninha d* aqui/ 

Mais clara que o chocokOe, 
Menos bella do que hoori ; 
Mas tem valor de quilate 
A moreninha d^aqui! 

Nem vatapá da Bahia, 
Nem o doce abacachy 
Vencerão em primazia 
A moreninha d* aqui ! 

E' qual melado em doçura. • • 
Outra igual inda nSo vi ; 
Tem no seu todo a primura 
A moreninha d' aqui! 

Requebra e fica engradada 
Quando avista o seu dandy; 
Toma a gente eclipsada 
A moreninha d' aqui ! 



TAOVADOR 167 

Se os olhos revira ella 
Praguejando, nos diz — ih!... 
Corando após, se faz bella 
A moreninha d'(iqui ! 

Corvando-se com tal derriço, 
No requebro ella sorri; 
E c'iim olhar £az feitiço 
A moreninha d^aqui l 

Se fedlardes em folia 
Vel-a-heis pulando ahi... 
Sempre com dôoe alegria 
A moreninha d' aqui I 

é 

NSo ha outra oomo ella, 
Nem aqoi, nem acolá. . . 
Que cause prazer ao veJra 
Sorrindo-se: — ahl áht ahl ahl 

A. C. dê Oliveira Fernandes. 



MODINHA 



PASSEANDO NA FLORESTA 

Passeando na floresta 

Pela sesta, 
Deparei com lindo anjo ! 
Tem nos olhos formosiira, 

Tem candura 
No seu rosto, que é d^ArchanjoI 



158 TROTÁDOR 

A contemplar o tal rosto, 
Eu com gosto 

Mil veses me extasiei ! . • • 

E' do céo anjo cabido, 
E erguido 

Cá na terra, a nos dar lei t 

Oh ! quem me dera viver, 

Sempre ser 
A tal anjo obediente ! 
Minha vida era de rosaa 

Perfomosas, 
Meu viver bem florescente I • • 

Eia, pois — ouve-me, 6 anjo, 

O Archanjo, 
Minha homilde narraçio : 
Se és anjo do En^pyreo, 

Casto lyrio, 
De ti — qaero protecçSo. 



ra •• 



F. P. LUboa. 



PIM DO VOLUME II 



Pag, 

Acaba de astassinar-me .... 23 

Acdta, 6 Titteinda 14 

^ Adeua, Annia 75 

' Adorei uma alma impara ... 37 

A gentil Gasolina 62 

Agora 89 

AmdoB de nhâ*Chiq«dnha. . 11 

A nora qae te n&o vejo 76 

A minha irmã 24 

A moça aolteira 130 

. Amor e crença 41 

Amor e medo 79 

A moreninha 81 

A moreninha d*aqui 156 

Amor me viu, nab fez caso. 59 

Anjo de amor 78 

AuOB heroee de Biachuelo. ... 40 

A pnpilla. 146 

A quebra dos bancos • . 97 

Arvoredo, ta já viste 21 

Ab beatas 91 

Attende, ó virgem * 106 

Avelina 31 

A virgem morena 17 

Com as lagrimas nos olhos . . 8 

Como é puro o doce orvalho. 85 

Comoésbella , 77 

Como eu te amo ' 49 

Conselhos ás moças 65 

Cré e ama como eu 35 

]>e amor lições proveitosas. 53 

Depois qae te dei minh^alma 104 



Desejo a vida acabar 103 

Despedida 38 

De teu rosto um gesto béllo. 124 

De ti bem longe 6 

gonzella 18 

curta a vida 48 

Era outr*ora a minha vida. . 84 

Escuta 96 

Escutai 112 

£squecer-te ? ! 142 

Eu amava ternamente 46 

EuUna 126 

Eu quizera ser eterno 86 

Flor de minh*alma 152 

Florinha branca 54 

Foste falsa hontom á noite. . 111 

Grato mysterio 28 

Hontem no baile 153 

Inda dizes? 154 

Inda duvidas? 138 

Já n&o posso viver mais no 

mundo 110 

Já perdi toda a alegria .... 55 

Lá nos palmares 136 

Mâi Benta 74 

Mal te vi 45 

Meia noite, hora terrível. ... 24 

Meu coração está vazio 150 

Meu destino é immudavel. . . 36 

Meus gemidos solto em v&o. 102 

Minham&i! 113 

Mulher, amei-te ! 143 



iGO 



INDIGB 



Nfto mo ouves soBpirar ? . ... 44 

N&o sei, maB sei 2Õ 

Não te esqueças, Maxilia, de 

mim 101 

N&o te lamento 105 

Não tenho tanta ventura ... 52 

Nfto te posso amar 115 

No verdor dos teus annos. . . 29 

O anjo da pátria 64 

O bardo 70 

O cafuné 118 

O destino 7 

O espectro 16 

Oiníeliz 140 

O meu passado e o meu pre- 
sente 46 

O mundo é vãq 33 

O nariz de yáyásinha 98 

O pescador 148 

O que eu sou 145 

Os olhos de yáyázinha . . ^ . 20 

O sonmo 133 

Qs teus olhos anilados 39 

O Telles carapinteiro 108 

O testamento 19 

Pai Jo&o 26 

Paixões que ^u extingui 39 

Passeando na floresta 157 

Pelo cimo d'aquella alta ser- 
ra 119 

Penso em ti 88 

Perdão 10 

Perdão! 121 



Pag. 

Perdeu-se a chave ! 128 

Peregrina imagem 125 

Porque, ó morte cruel 92 

Primeira nota 55 

Qual sempreviva 139 

Quando as glorias que go- 
zei 103 

Quando eu era pequenino. . . 42 

Quando eu morrer 22 

Quando tudo me abandona. 5 

Que vale a vida ? 72 

Quiquita 82 

Recordações do passado .... 132 

Bôxa saudade 13 

S&o pedaços de minh'alma. . 38 

Sentado sobre uma pedra ... 67 

Sobre as aguas do mar 116 

Solidão 60 

Solta um c ai * meu ooraçfto. 59 

Sonhos fagueiros 68 

Tenho um bicho cá por den- 
tro 73 

Tenho sorriso nos lábios. ... 30 

Trovador (3.» defesa) 93 

Ultima nota 56 

Uma ingrata, uma inconstan- 
te 95 

Um temo sorriso 87 

Uns olhos que vi 57 

Uns olhos t&o matadores ! . . 123 
Vai, suspiro, chega aos la- 
res 76 

Visão 187 



LlVRJftllA POPULAR DK CMVZ COUTINHO 



Duas mulheres, romanco do A. 
Belot. 

JuLio DíKiz — Os íidiilf^ofí da cnsi 
mouriáca. 2 v. — A ino^-c^/uUnhí» 
dos Cannaviaíííí, clironic.i d;i al- 
deã. 2 V. — Ah ]->u;)ill!M do snr. 
Keitor. — Uma familin inu*'-'''n. 

— O» POvOlIos da tia riiilojnolM 
e o espolio do snr. Cypri:!!)»), 
com o ri't:-ato do autlinr. — A-i 
Epprohf»TH'"o.-í (V*. uma miii o uma 
flor d 'entre o ;r'^lo. — Pof^JK. 

MvsTKRios DO Alcazar, por Santo<4 
Leal . 

Teixkira e SorsA — Tard«^s de um 
pintor, ou aH lutri^rns de um je- 
fluita. .'> V. — ^ÍMii;». ou a me:^i')a 
roubada. — A Provideufl/i. 5 v. 
— Ah fat*ílidndí'íí d" dou< Jovfim. 
4 V. — O lilho do ji^-iondor. 1 v. 

A iifr)F.PKNni:xrí.\ do 1»kvzii.. poe- 
ma em 12 cautos. :) v. — Os ti-^s 
dia 3 de um noivado. po<^vn:i. 

F. X. PR Novaes — Mnnta d'^ re- 
talhos. 1 V. em pro-;.'i ev''v-;o. -- 
CartMsdeum roíM-iro. — í*t)''si.iH. 

— Nov:i»po(»-*ins. — Poc-^Íms no^- 
thumas, com rotrnfo. --0 fntu- 
TO um ffrnndí* e ír!'o-<^o v. com 
romanc^H, poímíms, mM^icns í> es- 
tampas. — Sccnas da Fo/^. come- 
dia. 

O AMNRL PRETO, hi?itoria de uma 

infeliz. 2 v. 
Dr. IVvRROSA KonRiorF.3 — (''ontofl 

nocturnoí*. — O livro de Orliua, 

pa trinas intimna. 

Pr.BXAVPKS DA TíofTTA AuiTUsfO C 

Olvmnia, 2."^ edicao Mi-.L^inenta- 
da. - Tftbella, romnuc<\ - ('<>.]- 
fifíiòes do uma froira. — O r >;i)e- 
ctro de Helona em ^^onlmsnolio- 
mícida. — afaria da Concflerio, 
a vi c ti ma do d ^^scmbargador Pon- 
toa Vcsprueiro. 

VrEiHA DE Castro — Diâcurf»03 par- 
lamoTitarert. — Uma pa«rii\a da 
unireraidade. — A republica. — 
Bioí2:i*a"bia de Camillo C Bran- 
co. — Procef<<to de Vieira de Cas- 
tro, com 2 ret^*ato=*. 

TiNvrDRo — O libcUo do povo, 3.^ 
cdiçTio. 

Casimiro dk Abreu — Primaveras, 



I 



nova edioao aufrmentada com 
poo^iag, biographia c retrato do 
antlior. 

(\\RT.n^, romance do dr. Adolpbo 
11. da Silva. 

Ji.sn dt: Alkncvu — A expiação, 
comodia. — As a/ns de um aujo, 
comedia. — U..ia tlwt^^' constitu- 
cio!';il. — Di^^cur.sos. 1 V. — Ao 
correr da ])f'ir.i;i. 

ZAT.rvu Cop.tus dn roí;a. 2 v. — 
P<»v.l'n''"'>''S, pn"sl;is.— Pei ef^ri- 
n"«:n) p »la pro\i;!(la de S. Pau- 
lo. - - l)n;-es (í tlií.on, ]i()esi:is. — • 

Sírios illii^*^r<M: l>io^rai)hia do 
('■r.istovào Colombo. 

O í.ivRO DO dcmocuata, por Aj'CC- 
s^Imo. 

Er<;rN-io Sn: — Matliild^^, mcmo- 
rins de uma jovími. «^ v. — Os 
IIImo-; do ípnor. 2 v. — O aven- 
tnrí-i''o. o v. — Afrir^iin, o ens"^^!- 
trdo. T) V. — O T*;:('.h:i d»' J:mina. 
1 V. — r)'»'"tli'i uePioiicrinel.2 V. 
--A i»r"ditv;"io. 4 V. — ííorculeíí 

• Ví'i. '••!.'. 12 V. — O in:i"qiu'z de 
S.»rvlj"*. 2 V. — A f;nniri.'i .Touf- 
fiv.v. r» V. — A vi"-!;! d^ Kont- 
ven. 1 V. At:r'-Í»''il. 1 v.--^Tifl3 
M;irv. *» v. - O Joio CMvalleiro. 
4 V. - -l'h"Te/'i ]);nioitM*.2 v. — 
A ft:d:>'n:MidrM. ?i \ . - -A I>>i'ma- 
I)ieii:i. — f>s í5»'f(» pi'ee."dos n^or- 
t.i'M. 12 v. - Tln-it o dn vida 
hiniiíiiia. 5 v. — O-t iVi^io-^-fami- 
lii. .•> V.--0 co»'>!iii'iKl-idoT de 
i\^iUa. 2 V. — () .Ttitl-Mi Krvívnte. 
]í) v. — O-t mv^t.^iio4 dl' Paris. 
10 V.--0 se^'-'-('d.) d<> f";'ave<?S'n- 
ro. A V. — O vatici-.no. 2 v. — 
O abnlrnuf.^ T/'vacii'M'. 1 v.- — 
Os my.^fono:s do povo. 9 v. com 
est. 

Es^riRÓs — Processo do primeiro 
martyr da libfM-dndf brazileira 
J. J. da Silva Xavier, por an- 
tonomásia o Tirn-f-hv.f^a. 1 v. 

Leo Juntou — A.s mulheres perdi- 
das, tynos coTifemporareos. 3 V. 
— Os libertinos e tartufos. — As 
precioj^y ci'^"'»'"<vs e rs irterca- 
dov-is íli ;<''■;(.•. — A Qvv.'. do 
fofo. — O Iv/io do sopulciíro. — 
Luiza^ a resuscit-vla. 






LIVilAPilA l*OPL'LAU m CilliZ COUTINIJO 



RUA DF, S. JOSÍ:, 7.') - \\U) \.\:. ,lAXEH;,i! 



iniii:r*rcs. — A fa iillia (L»-; jv>r- ^ j«co-», o:'tro (.4í«;.í: ^olh'•.•l^':':, 

^i'!<. 2 V. — (ír^ draiii,'s dí) in;iv. V'iiir^'li. d<niii:i(», ^rainào. d-r ':»s, 

- \. O C"tVo de jjiaia. — D.? i x:'di>'/.. ••íc. 

Tavi.! a ('-1.117.. ti V.- i)i' Cadi/ b\ (''jí)I"..í —O C'»i>-irio v tí.i-.-Ii];.». 

a. '!';.!■■_■'".•. t> V. -A d\Mia da,-5 .*) v. --(> c-í.ii u> d'> cm: m i-c-..- 

I)<'i""".;í^. .') V. —A iii;l') ( o» :':.■•:- ' t"0. -1 v. -í.) cirra-i*"*. :^ v.-- 

do. - U chihU» dl! ^•llIlr''-^ :ii'Ím- ()-; \>\)í'-í do mar. *j v. -O 'iv- 

tC). \ \.- As daa^ l'i.,'ia^.'.) v. ' didor d-'. í '.rrciíin. 4 v. — (í •>:- 

- A t.''>',-4i',".,'i ria. .'» V. Uscorn- Idío. -í- v.- -O d'_»rradt';-;o Moiâ- 
;>;!.ili''MMs d ' .(aii'1. li V. — O ca- cino. 1 \'.--<U p:'.:''t'nos -In. 
\í l'it''u-i» d) ií riMUM'í.;i. i> V. — Aia.-.-ic'. 1 v. 

A ca ^•' 'i ' '_"'•!. ). .*) V. — A-cajiio :'ii:,.::Ar- -A í.-iticdra ii ", .M. 1 v. 

ou :i (! 'lii' dt' Fi'a:K"*.-,C't 1. -l- v. Aijtk"'» í'T,\^^^t•l:I• — iS* ;ii't.h--=^ 

- ['-.ia í"aii\ii'a, cn.-rA. — AíMÍ- (W. ^V''t; "a;in. 5 v. — ^' r<.'i ui-. 
iiiia >iarj'i.-iiia. ,') v.- (?-;<(iia- i íiaiia. '2 v. cuiii cst.a'.i:-' .s. 
r»ai'-i •' (.•:"..■<>. .") v. — A daaia Smmint- l*icci<»la. 1 v. 

d<' Moii.>''r» 11. »i V.- -r.'1'dna. ^K Jíin.NCA i».. Cakvai.iio- — (.) pro- 

iJ V. l'.'r:i:j:da. '2 v. - iM '.ar- <;t» da f'd'oid:ido. 1 v. 

do III. 2 V. - A li !i.: d ) T-'-LLcaí.i. ■ Jj\':o\'i..\\r.- -O ívirtido libci";:!. ^o-u 

4. V. —Historia dcs Suiaias, 2 jiri-L:i';i'a.ina c futuro. — J^.arisii;i 

V.- Coiaic^-a do ^. li,;')iirv. 2 Aiiicrica. - - <_> }U"i:icIpo Cao do 

V. — (*"'ciil;i ou o V":-' '-lo dt' n-ii- AiTiia. 

vaiio. ',' V. --<) c: «Iiao i'au".o. ]'rií::i'iv u:: A/.ra \iía -- AvrL^clin.i 

il V.- Aiaan"y. '•'> v. -Cr.tlia- oa d')u^ rv^^^sos i-mí-:"'^;. - - (.'oiuci- 

vina I5!u;n. 2 v. A^ i^iMicuá (lv'i'ci;i-< fatin-s. voinanoc. 

dl' Macliocoul. '1 V.- -A tulipa A ('■tM'i<^v t>v: MoN.K-l^rursTo, 

ii»-_--a. .•• V. — Sylvauilira. 2 v, i ])or J )u líoys. 

- -<).-, cri.iii.D c -l"!;!-"',?. ■) y.—- .T. < >-''.i!o -- \'ida o f<'it'j^ dc el-r-^i 
]>i'ii.7 d\^ t^-'. 2 V. -A ru-na do ]>. ^|;^l(l(l. .'> v. 

i-jiVr.:(). -O ca\a]iu'iro da v.i- Vi'a:.\:i-. l'. lu: (\\í-ru,) — '^ lio- 
HU \ i'rni''l]ia. - -.' "oi.';». 1 v. — , luM-: d' ^: ruU-^. f^-u o- -^jàrimoii- 
Apmitai uMif'>á d.' .AiUiiUV. l Y. i'0^ da c-c/a.vidào. 2 v. — Myíí- 
— -O l)a>t'ii'do Mauiccjii. 1 v. — tíMào.s da mça-. -1 V. — Mi:?ori:ifl 
(«'a'.)-iid La-:d)rrt. 1 v. -Vm ' da aclualidado. -1 v. 
i:.orto a co'^tar sua hi-^to.-ia. 1 TaroruiLO ii'i\(i v — -Visão út>à toiu- 
V. — J-í'!)'! dl' l»i\"i<'ra. o v. --- j^d-í. -— 'rtMi"ine--tn.do..-j aor.or.-is. — 
Jor.inia do X.-nn/nH. l v. — A On-uua do lasro. — To-.-iaintos, 
inar('Ui'/a diM> •iuvilli<TS, — PaM- I pne.si-i-;. - - J-^-^ih.-i^ v-.-al^í^, [M>o- 
eal Druuo. 1 v.- A pouiba. 1 i sia-^. - ■'"iorv'-3Ía do roin;:r.c.'"'b, — 
V.- -Or. tr*'S i]"io- iU"Nàros. 4 v. Canto.-^ po^pularosdo !i"c"hí'pol:igo 
-- A'iuto auuos d,'p( is. 5 v, — , fi(^'oriaTio. — Caucionoiro c ro- 
Viscondc d'! liraLciouiio. 10 v. maucciro peral portii^uez. 1 v. 

- (> lilho do Marat. 5 v. — lutroduccào á historia da lit- 
Vn.oK ou o mcniu.o da ««dva. ; tcratura portuí^ueza. 1 v. — Mia- 
OjavKiRA — JoMi K^t"T;io, csboí;n I toria doB quinhentistas. 3 v. — 

bio^i-a])lnco, coui o retraio. Iliritoria do thontro portu^rne;: 

Araiuiu — Diccionario dos joíTOH. 1 , no século xvr. 1 v. — liia:oi"ia 



j 









i 



LIVRAIIIA ['OPULAll bí i:ill'Z COIIJXIJÔ 



KIIA DH S. J;tóK, 7.') - ll!t) !-ií JANKliií} 



Ai^TON^ir: I)i'.Mvs — -A crnorra dvis 
in';lh •••('.-5. -A i/ii iii;: Jos Dor- 
tri.!^. *J V.- < >.- d •;iin:i.^ do iivtv. 
:2 V. — <> i'<.t':\í de p.aíii. ~ L>tí 
^.•l:■i^ a ( 'idi.'.. h V.— 1/0 Ciidi/ 
a Tai';:**".'. »> v. — A da aia ila.s 
;)(N-c'.ar^. M V. - A nià'> di> l'.; a- 
dn. -() cíhdii di' M'»aie-( ■^a•i^- 
to. 1 V. /v ^ da;.-^ IKaíir-s.'.) V. 
- - A ctr.Hi^.ici.cia. •) V. ( )s C'>m- 
ii;!!'.'!» i'-()i d ' ,1 ''ia. "J V. —O ca- 
\ar'-'ii'(i u.) I i iniu". tal. 2 v. — 
A L':i-^a d ' LI'' l">. '<> V. — A^c*: ;d<) 
uu a r.r-.r ii>- l''r;ií;c" ;L"<» i. 4 V. 
1'm a í';: n-Ta civ-':! . --- A laii- 



p.a;; N-ii-^- • «ti . :) v 
r'-:;'a o ri. -o. õ v. 






d" Mun'ia-\''a, »> v. - -l'aa'i.i;i. 
li V. - I'.Ti;:iiid i. 2 V. -J'M'iar- 
do iir. "J V. - A li h.! li) V"L;t'iiti"í. 
'1. V. -Ili.turia dus Siu.rtí^. *J 

V.— ('(Hair^-í-L do '^:.lÍ.,'jIll'V. 2 

V. — (\'(.*iiia ou o \a':^;idu diMi-i- 
v;ido. l! V. -n c;. )iíao r.'ia'o. 
'J V. — - A-inaurv. •> v. - -Catlia- 
viua iMuni, "2 v. -A.-) i.T'uh';\3 
áy\ ."\í:',''i--coul. 1 V.— -A tn.l:[ia 
lii-Lfra. .*» V, — í^v.v.-nndra. li v. 

— -O-^ ci-i.MH o.i'l -br»'.-^. .'> V. — 
J)'*;iH d".-;»^'. 'J V. - A lur;ta do 
ii:i"tM-ao. -(í cavalo.'i-'o da oa- 
i-.a ^■ ■.■iiicrii.i. -/,]':)".. :i. L V. -- 
Aon!;t:ii'i'Mir'>á d ' .\ii(.'ii:v. 1 v. 
--() })ad;i.-(ii) ^!aiil''0;i. 4 v. — 
ííah'-i(d Lioidjvrt. 1 v. — Um 
n.(;rlij a cordar -aia lii-toria. 1 
V. — Js^.l) '.l d"' l).'! viera, o v. — 
Joauua do Xani/,c.-. 1 v. — A 
niar(|ii''/.:i ilc !> -iiivillifax. - 1'aH- 
cal ruaiiio. 1 V.- A poaiba. 1 
Y. -—()-; trt'S ino-oK"t''irOf?, 4 v. 

— A'iuto M'nn)-i df'|tnis. o V, — 
Vi-^iMindo do J 'ra^íoloniio. 10 V. 

— O íillio áv Mar;if. õ v. 
Vn-iuR ou o Tíoaiiuo da Sidva. 
OjaviaiiA — J(>>(] I^^it-Tno, <'sbo(;o 

bio£:ra.ohico, com o retrato. 
Ajuiuur — Diccionario doH ioiroa. 1 



l^r.w.^o V. C'>!lt'"ildo urii:-, dií li ■ 
j-;J'i,-;. oufi' clitN: V<dt U' "l» . 
V. ni-tli, ^'» iadii<'t, ^i'^iMo, d i" •;".■?, 
\"-.«i 'V.:. <-ti',. 

l'\ ( '- .lia i: O ('Or.-u^-io v< y. v». 

n V. —O e-;,ri;LO do Cimuo i^:',.- 
t-.'0. 1 V.- -O cr.!-:-n.-oo. li v. — 
( >,-í U'^n'i do mar. li v. - - O t v- 
dMor do tí^.vrcuo-. 4 V.--0 i>i- 
lo!o. 4 V. - O d?rr;í(l.'i:-o i.ioi j- 
(M^a). 1 v.--^M -aur": rio-; ,.- 
.■\iMr.'i,ta. ! V. 

:»a).a.\L- A fatie, ira :;'"»'.a"a. 1 v. 

.rVi.'-: ura l.a. \N-^':"a' -- «.^ ? ;. r ./f.s 
ui> A^-*:i : lav. 5 v.--0 v. i /,.«. 
ít\lia. J, V. e.oiu o-tarir-a-í. 

'^\iMiNr, -i'lec'i^la. 1 v. 

I.>. loiVNCA :r,: Cakvaluj — O pro- 
ro d'i í'.']u'id;al»j. 1 V. 

l.Ar.orr, \vi; -O piirtido liboral. -x /.u 
p,-o<j;i'aituiia o íiiiuro. — J^•lrihllu 
A-ai^riea. — O nri:u'ipo (ato do 
A^^iia. 

Piar. i;iA m: A:um\UA — Ar.crrdina 
ou dou-i r.e'i-«)^ loii.a'.-?. — Coiíici- 
dfaaaf- •'.-.taí.M. ron.ai.ce. 

]M)r iHi i)0>.<. 
J. ( ^-i'iao - - Vid.i O foito^ do ol-roi 
D. A-aaOfd. :; V. 

Vl"-Nli: r. mi: (•ASIKO O.-i ]^j- 

':: ^L ) il. r;: ...au^ r.u O-, ríohriír.t"»!!- 
to.'j da o.-c/a vidão. - v.--^jyíí- 
fario.i da roça. 4- v. — Mi^orijXR 
da actualidade. 4: v. 
TiiKoiauLO linAo V - — Vif^au dos t«Mn- 
1)04. — Tom'-veritad'\=\ sovor-i». — 
Oudiíia do líiíro. — Torro:it«'í?, 
r>0(í^i'"-i. --Foraí.-i YO'.'d-.M. poc- 
i;i;i ^. - '-^loro^*::! do rOTnr:]c*,o-=^. — 
( 'auto.-i 'oopularos do archÍMolr? nr^ 
{i(,'ori;iuo, -- Cancioneiro c fo- 
maucciro crcnl "[>ortuguí>z. 1 v. 
— lutrofbicialo á bi^toria d"\ lit- 
t^ratura portiisraeza. 1 v. — Ilis- 
t.()riíi doH rpiiuhcntistas. 3 v. — 
líi-^toria do thcatro portii£^ni»7 
no socLilo XVI. 1 V. — íliatoria 



J 



LIVRARIA POPULAR DE CRUZ COUTINHO 



KUÀ DE S. SOS&, 75 — KIO DE JAHEIBO 



Almeida G-árbbtt — Portagal na 
balança da Europa. — O retra- 
to de VenuB. — DiscarsoB par- 
lamentares. 1 y. — Helena. 1 y. 

COHSSLHEIBO Ba.8T08 — ColleOÇflO 

de pensamentos, máximas e pro- 
yen>ios. 2 y. — O medico do de- 
serto. — A yirgem da Polónia. 

— Dous artistas, oa Albano e 
Virgínia. — Meditações ou dis- 
cursos religiosos. 1 y. 

Castilho — Noites do oastello. os 
eiumes do bardo. — Quadros his- 
toiioes de Portugal. 1 y. com 
estampas. — Tratado de metri- 
ficação portuguesa. — O outono, 
coUeoçto de poesias. — Cartas 
de £<mo e Narciso. — Tratado 
de mnemónica. — A primayera. 

— Escavações poéticas. — As 
G^rgicas de Virgílio, trad. — 
O avarento, trad. — O medico á 
força. — Tartufo. — As meta- 
morphoses de Ovidio. 1 y. — 
Amor e melancolia. — Camões. 
3 y. — As sabichonas, trad. — 
Methodo português Castilho. — 
Os amores de Ovidio, trad. — A 
Wra de Anachreonte, trad. — O 
Fausto, trad. — O Misanthropo. 

B. ObtiqIo — Em Paris. — Histo- 
rias côr de rosa. — Mjsterios da 
estrada de Cintra. — As Farpas, 
oollecç&o completa. — Hygiene 
da alma, trad. 

PaDBB TmBODORO D'ALlfBIDA — O 

felis independente do mundo e 

da fortuna. 2 y. com estampas. 

— Beoreaç&ophilosophica. 10 y. 

— Cartas physico-mathematícas. 

8y. . 

Padbb Ahtovio Vieira — Obras. 
* 27 y . sendo : Sermões. — Cartas. 

— Historia do futuro. — Arte de 
furtar . — Obras varias. — Obras 
inéditas e a vida do padre An- 
tónio Vieira. 

Padre JosA A. de Macedo — Mo- 



tim litterario. 1 v. — A besta 
esfolada. 1 y. — Cartas. 4 v.— 

desengano, periódico politico, 
e moral. — O espectador porte- 
guez. 4 v. — Os burros, poema. 
— Oriente, poema. — A medita- 
ção, poema. — A natureaa, poe- 
ma. — A viagem extática ao 
templo da Sabedoria, poema. — 
Newton^ poema. — A verdade, 
ou pensamentos philosophioofl 
sobre os objectos mais importan- 
tes á religião, e ao estado. 1 v. 
— Censura dos Lusíadas. 3 v. 
— O segredo revelado ou mani- 
festaj^ do svstema dos pedrei- 
ros livres e (iluminados, e soa 
influencia na fatal revcdução 
franceza. õ v. — O homem oa 
08 limites da razão. — Cartas 
philoBophicas a Attíco. 1 v. — 
Hefutação dos principios meta- 
phjsicos, e moraes dos pedrei- 
ros livres illuminados. 1 v.— 
Cartas a frei Pedro A. Cavroé, 
e outros folhetos. I v. — Os se- 
bastianistas, refutação á mesma 
obra pelos redactores do Correio 
da Península. 2 v. — O novo ar- 
gonauta, poema. 

A. PiMBHTBL — Esboços O cpiso* 
dios. 1 V. — Contos ao correr di 
penna. — Idyllios á beira d*agaa. 

1 y. — O testamento de sangue. 
— O annel misterioso. — ^A porta 
do paraiso. — Do portal a cla- 
rabóia. — Peregrinações na al- 
deã. — O livro das lagrimas. " 
O livro das flores. — Mysterk» 
da minha rua. — Nervosos, lym- 
phaticos e sang^uineos. — Entiv 
o café e o cognac. — A virtude 
de Bosina, trad. — O degreda- 
do, trad. — Memorial de famí- 
lia, trad. — O descobrimento do 
Brazil, romanoe. 

Os PURITAROS DE PAXI8| pOT PMlto 

de Bocage. 3 y. 



TROVADOR 



COLLECÇÃO 



DB 



MODINHAS, RECITIITIVOS, HllillS, LUNDfiS, ETC. 



NOVA EDIÇXO, CORRECTA 



YOLVME m 



RIO DE JANEIRO 

Na LIVllM POPDUE iil L da GBDZCOIINHO.- Editor 

76, Boa úe 8. Jcaê, T6 



I8T« 



ttW» DB AKTOMIO JOtA DA BOàVA 

62, nua âa. Càn^jBlia TêUm» 9i 



â87d 



rmwMm 



MODINHAS 



NO HEO ROSTO mHGUBI Vfi 



No meu rofio ningaem vê 
Nenhum signal d'afflicçSo; 
Meu desgosto, minha d6r 
Eu guardei no ooraçSo. 

E^ oconito o quanto pesso 
O que soffre o coraçSo, 
Soffire muito, mas nSo mostra 
Nenhum signal d'afflic$ao. 

Nas festas também m^enoontram 
Fingindo satisfaçSo, 
Porque a magoa bem cruel 
Eu guardo no coracSo. 



6 TROVADOR 



QUANDO EU MORRER, HÃO QUEUO EM MINHA CAMPA 



(VOYA MODOBis) 



Para ser cantada pda miunoa da modinha— Quandaeu morrer, fiM^iiesi 

chore a minha morte 



Quando eu morrer, nSo quero em minha campa 
Lindas, perfumadas, brancas flores; 
Deixem dormir ttanqaiQo eiti f9fr terra 
Quem apenas só na vida colheu dores. 

Dispensa funeraes, pompas á morte, 
Gomo eu, desditosa creatura; 
Que deve apenas ter humildemente 
Uma cruz que lhe marque a sepultura. 

Li^mas fingidas nSo as quero; 
Quero o pranto sentido da amizade; 
E que lancem no meu jazigo pobre 
Como emblema da ddr, uma saudade! 

Eu sinto que e^ta vida, em flõr ainda. 
Parece de improviso emmurchecer ; 
Um sentimento tenho que me diz 
Que joven, muito joven hei morrer I 

E tu mesmo a quem amo e por quem choro, 
Se eu morressse amanhã, abandonado, 
Talvez que chorosa assim dissesses : 
— Eil-o morto, findou-se o desgraçado ! 

ta 
I 

AdMdato Soerão de MeUo. 



TaavÀDaR «7 



VIVO SÕ PARA TE AMAR 



Em qualquer parte que esteja 
Eu arai ti nSo posso estar; 
Nada no inundo me interessa, 
Vivo só para te amar. 

Os dias de minha yida 
Sá tu podes prolongar, 
Teu amor me faz ditoso, 
Vivo só para te amar. 

Eu só desejo a teu lado 
Noites e dias passar, 
Minha vida não é minhaj 
Vivo só para te amar. 

. Para onde quer que fôres 
Eu te quero acompanhar; 
NSo vivo senSo porque 
Vivo só para te amar. 

Não vivo para os prazeres 
Que tu não podes gozar; 
Vivo para vêr-te alegre. 
Vivo só para te amar. 

Distante de tua viata 
Nada me pôde agradar; 
Eu nZo vivo para o mundo, 
Vivo só para te amar. 



8 TROVADOR 

O mesmo ar que respiras 
Quero, meu bem, respirar; 
Só tea alento me alenta. 
Vivo só para te amar. 



Quando o somno me accmimette 
Entro comtigo a sonhar; 
On acordado on dormindo, 
Vivo só para te amar. 

Os amorosos excessos 

Te devem capadtar 

Qne nSo minto, quando digo: 

Vivo só para te amar. 

Minhas firmeis expressSes 
Tu deves acompanhar; 
Âh ! dize, dize commigo : 
Vivo só para te amar. 



4 

I 
J 

• I 



A STHPATHIi 



Muito embora ausente viva 
De quem jurei adorar, 
Minha fé, minha constância 
NSo pôde o tempo mudar. 

De uma simples amizade, 
Quantas vezes, sem querer. 
Vai crescendo a sympathia 
Que d'amor nos faz morrer! 






TROVADOR 9 



RECITATIVOS 



A TRANSVIADA 



Trajando galas, nos encantos bella, 
Caminha ella sem saudar-lhe alguém; 
Passeia em carros, no theatro ostenta 
Tado qne inventa, que lhe fique bem ! 



Porém qual flôr que no calor da festa 
As peflas cresta, p'ra depois murchar,* 
Ou mariposa que a voar s'inflamma. 
Em tomo á chamma que a vai queimar; 

Assim foi elIa, essa yil mundana. 
Na orgi|i insana, se atirou, perdeu ! • • • 
Foi mariposa que queimando as azas 
Do ardor das brazas nunca mais se ergueu. 

E essa infame, desprezando o esposo. 
Que eterno gozo lhe &zia ter. 
Prestes se atira — que fatal loucura! 
Ka vida impura, que lhe dá prazer. 

Amou-a elle, oomò amar no mundo 
Jamais profundo, pôde amar alguém ! 
D'amor tSo puro, deslembrou-se a ingrata 
Que o affecto o mata, no alcouce — além! 



10 TROTAMR 

Tudo mais nobre que sentiu no peito 
L& jaz desfeito pelo atros afio, 
Matou-lhe as crenças infernaes orgias, 
Noites sombrias que nSo te;m mimhS ! 

Hoje apontada pelo audaz cynismo, 
Mede o abysmp, quer fíigir-lhe em ySo ! 
Que a turba aponta-lhe uma bolsa infame 
E em face brame — já nSo ha perdão ! 

Marcou-a. o mundo com fatal sinete I 
Este ferrete que tSo negro é ! • • • 
E em represálias, a mulher pedida 
V ive uma vida sem moral, sem fé ! ! 

Maldiz o mundo, que a supporta ainda! 
Se é bella ou linda, tem vassallos seus! 
Mas nSo se lembra, desgraçada errante, 
Da fulminante maldiçSo de Deus. 

Qual águia altiva de voar cançada 
Mais apressada na descida vai! 
Assim aquella que perdeu a calma 
Corpo sem alma — na miséria cái! 

Mulher perdida, de que servem galas, 
Ou meigas falias, que fingidas sSo? 
. Se n'esses olhos, em que affeetaó calma, 
Lê-se a tu'alma, que só diz — traiçSo? 

Que valem sedas, deslumbrantes modas, 
Mercadas todas com tSo vil moeda? 
Vendes o corpo p'ra comprar enfeites, 
Gbzar deleites que a moral te réda! 



TROTADOR li 



Desenfreadas nã» paixBes insanas, 
As yis mundanas atírar-se ySo; 
Todo o seu ouro gastam em cogutêtica 
E na velhice, nem sequer p^ra pSo!. • • 

Altivos paços habitar pretendemi 
Elias que vendem seu fingido amor, 
Rubras se mostram, virginaes, fogaoes, 
Mas n'As^s fiioes já nSo ha pudor I 

Cynioas vivem, na miBeria morrem! 
Nem as soccorre bemfazeja mSo!. • • 
Bem penitentes ao sepulchro baixam 
E lá nem acham uma cruz no chSo ! 



FESTAS DE DÕR 

■ 

Tu queres que eu te dã magos encantos. 
Canto» santos d'uma harpa que morreu? 
Negro crepe envolvera minha vida, 
Ida, lida das dores no escarcéu? 

Do f emplo de meu sâr na branca nave. 
Ave grave, funérea se aninhou ! 
Eu senti da esperança, então fugindo. 
Indo, findo, o sonhar que acalentou. 

De meus seios morrendo a dôee calma, 
Alma á palma correu da solidXo ; 
De meus brincos da infância só me resta 
Esta festa de dâr, que os pra&tos dSo. 



It TROYAOOR 

Arrancado bem cedo de meus lares, 
ÂreS) mares diff^rentes avistei ] 
E pisando do mundo o trilho incerto, 
Certo, perto da campa me prostrei. 

D^assas negras, funéreo, vaticina 
Sina f rina, o atchango, aos dias areus ; 
De saudades assim, no extremo alento. 
Lento vento erguerá mính'alma a Deusl 



ê 



V. de Carvalho* 



LUNDU 



CHÁ PRETO, SDfBÃ 

Sínhásinha, hontem de tarde 
Perdeu as côres mimosas; 
Âi I quanto mais o sol arde,^ 
Mais se desbotam as rosas. 

Sinh&sinha, meu amor. 
Vale a pena, regue a fiôr. 

ÂM tem rosca fina, 
Chár preto aqui está { 
Receia a mofina ? 
"Stio tome, sinhá ! 






TROVADOR IS 

Â8 flores da madrugada 
SerSo eatrellas do dia; 
Da noite, fiôr eerá &da 
De dôceLioalancolia. 

SinhAflinha, meu amor^ 
Vale a pena, regae a flôr, 

Ahi tem rosca fina— *eto» 

Já a noite solta o seu manto 
E coram as fÍEices bellas* • • 
Sinhá, meu tímido encanto, 
Oh ! rosa, gémea de estrdlas ! 

Sinhásinha, dê-me a fiôr, 
Dou-lhe em paga meu amor I 

E dou roscas finas^ 
E dou-lhe bpm chá! 
NSo creia em mofinas, 
Âil tome... sinhá... 



MODINHAS 



SONpEt QVE MIL FLOBBS 

Sonhei que mil flfires 
N'um prado bolhia, 
E sobre o teu coUo, 
Anoania, espargia. 



U' TKOTADOR 

Que &u grinalda 
EntSa te oflfertaTa I 
Qoa beijos sem oonta 
A farto te daTal... 

• 

Sonhei que constante 
Juravas de ser-me^ 
Em quanto da vida ' 
' O sepio aqveoeMiie. 

EntSoy minha Armania, 
Feliz me jtdgaya, 
Em rêr a meu lado 
Aqadla qve amava. 

Mas tanta ventura 
Tomon-se illtisoria, 
E d'ella conservo 
Apenas memoria. 

Oapellas e fldres, 
Os prados e jura. 
Foi sonho enganoso, 
Foi tudo amargara ! 

Assim, * Díft ^ # Aimaoiai 

Voa triste passando, 
Em sonhos somente 
Venturas gozando... 

Aéè que eu ma dia^ ~ 
Feliz e ditoso. 
Me toma cotttigo 
Assas ventun^sol • • « 



«7. Jf* Mourão^ 



TROVAnOR 15 



AESTREUA 



(sota uojombá) 



Para ser cantada na mnsiea da modinha ^^oorckíi mèiha qatrida 

% 



Vem vêr, 6 virgem formosa, 
Lá tio oéo brilhante estrella; 
Como se mostra garbosa, 
Butilante, pura e bella I 

Contempla, virgem, o astro 
Pousado no firmamento. 
Esquece do mundo as dores, 
P8e n^elle o teu pensamento. 

És donzella, e no teu peito 
Tens sensível coraçSo, 
Nem sequer pensas que o mundo 
E' morada da illusSo! 



Te oonserra sempre punti 
Faceira, galante e bella, 
Segue o exemplo, menina, 
D'aquella brilhante estrella. 

■ 

QtkaiUeirào 



16 TROVADOR 



X£IIBRAIf CAS DA PÁTRIA 

Lá quando a noite já se aproxima 
No monte envolto de negra oôr, 
Por entre nuvens surgindo a loa 
Ao pensamento nos trás amor. 

EntSo quizera, sulcando os mares, 
Ir vèr a pátria, meu doce encanto, 
Sentir minli'alma gozar venturas. 
Ir vêr esse anjo que adoro tanto. 

Lá quando á noite d'almo luar 
Ouço na rocha o mar bater, w 

E quando a lua já vai bem longe 
Harpas sonoras ouço tanger; 

Cruéis saudades entSo eu sinto 
Doesse meu anjo que adoro tanto. 
Sentir minii'alma gozar venturas. 
Ir vêr a pátria, meu doce encanto. 

Aqui eu vejo também bellezas, 
Virgens amáveis de meigo olhar; 
Vejo florestas sempre virentes,* 
Que aos céos parece que vSo chegar. 

Uas ahl que tudo vem recordar 
Esse meu anjo que adoro tanto; 
Sentir minh' alma gozar venturas. 
Ir vêr a pátria, meu dêce encanto. 



TROVADOR 11 



AS MULHERES DE HARMORE 



Amas tu, Marco formosa, 
Em oa 8al5es deslumbrantes, 
A sjmphonia ruidosa 
Que saltar faz os daiiçantes? 
Amas* tu em noite escura 
O ligeiro murmurar 
Da ramagem na espessura 
Como o yento a sibilar ? • • . 



KSoI nSo! nSo! nSol 
Marco, que amas entSo ? 1 

Nem da raga o murmurar, 
Nem da tutinegra o canto. 
Nem da calhandra o gritar, 
Nem do bardo o triste pranto. 

« 

Amas o alegre cantar. 
Da orgia o vivo signal. 
Quando a razSo se afifar 
Vai em copos de crjstal? 
Amas o divino accento 
Que parte do orgSo sagrado, 
£ que parece um lamento 
Pelo incenso ao céo lotado?» • • 



NSoI nSo! nSo! nSo! 
Marco, que amas entZo? ! 



Nem da vaga o murmurar — etc. 

TOEi. ui. 2 



It tBOTADOB 

£ gostas ta, quando errante 
Em negro bosque cerrado, 
Dos sons da trompa vibrante 
A perseguir o veado? 
E gOBtas ao anoitecer 
D'oavir os sinos tocar, 
Qhamando a se recolher 

O gado' que foi pastar?. • • 

• 

Nlot nlol nSot nlo! 
Maroo, que amas entio? f 

Nem da vaga o murmurar. 
Nem da tutinègra o canto, 
Nem da calhandra o gritar, 
Nem do bardo o triste pranto. 

De Marco vede o encanAo! 



RECITATIVOS 



MULHERES E FLORES 



Aos hymnes da hriza, que vem susurrante 
Da noite o sudário n'aurora apartar, 
Dissipam-se as brumas, e a luz cambiante 
Na &6e da terra se vem Mtratar. 



1 



TROVADOS 10 

• 

Dourada cortina n'am ohSo de turquezas 
Além resplandece nos cimos dos montes, 
E a relva mimosa nas lindas devezas 
Se cobre de per*ias que saltam das fontes. 

Grinaldas de raios s^encapam dos ares, 
De gratos aromas transborda a floresta ; 
E um doce concerto nos verdes palmares 
Ao mimdo desperta nos bjmnos de festa. 

E tndo floresce no mar de folhagem, 
Que brilha, quo avulta nas vivas campinas ; 
£ o astro dos astros em sua passagem 
De louros esmaltes adorna as coUinas. 



Nas faxas cientes palpitam as flores, 
E as folhas nevadas desprendem a luz. 
Mostrando nas formas, nas graças, nas cSres 
Um quadro pomposo que os olhos seduz. 

E aos echos sonoros assim despertados 
Os campos enchendo de tema alegria, . 
SSo virgens dormidas nas longas noitadas 
Que aos be\jos acordam dos raios do dia; 

• 

SSo nymphas aéreas, formosas donzellas^ 
Que á noite se velam nos ricos sendaes, 
Azues borboletas que giram singelas 
Aos cantos das aves. aos sons matinaes* 

D'orvalho e perfume formaram-se as flores, 
Fez Deus as mulheres de luz e poesia ; 
£m umas realçam fragrantes vapores, 
Besumem as outras «^ belleza e harmonia. 



90 TROVADOR 

• 

Na terra as mnlheroB sSo astros brilhantes, 
Dos sonhos a crença mais pura e sagrada; 
SSo lindos poemas, s3o anjos errantes 
Qae a vida perfumam com dedos de fada. 

E tudo que brilha, que falia de amores, 
Que graças revela do sol a pureza. 
Repete sorrindo : — Mulheres e flores ! 
Excelsa homenagem prestando á belleza. 



Cicero Pontes» 



UH SÕ SORRISO 

Amo-te, virgem, com amor profundo, 
Sem ti o mundo é sofirer sem fim. 
Amando eu louco e com amor tSo crente, 
Teu peito sente tanto amor assim?» •• 

Ao soffrer continuo de continua dôr, 
Ao infrene amor que me cega assim, 
Pagar me podes com um sorrir fugace 
Que na tUa face se deslize emnml.^.. 

Noites dlnsomnia, e de pensar infindo. 
Sempre sentindo só ^ngustia e dôr, 
A dôr tSo nobre, podes dar um fim. 
Responde emfim que ji me tens amor. • . 

Um só sorriso que constante almejo 
E em casto ensejo me fugisse a vida. 
Findar a crença que me afaga a alma, 
Sentir com calma terminar-se a lida! 



\ 1 

\ 

V 



\ 



\ 

\ 



TROVADOR 21 



\ 



Pois n^esse riso um divinal sentir 
Pôde exprimir ao transmigrar a alma, 
Ao que tSo crente só deseja amor, 
Tendo da dõr a cmciante palma ! • . . 



Um só sorriso que matar me venha, 
Que perdSo tenha, pois que já diviso 
Ser louco e ousado o meu audaz transporte, 
Ou mereço a morte. • • ou um só sorriso. 



Germano da Costa. 



LUNDt 



PURA VIRGEM MORENINHA 



(novo luhdú) 
Para ser cantado na musica do landú — Ea gosto da côr morena 

Pura virgem moreninha, 

Bonitinha, 
Vem correndo ante meus braços; 
Vem, nSo tardes^ minha flor. 

Meu amor. 
Quero unir-me em doces laços. 



a TROVADOR 

O teu roéto tão mimoso, 
Bem formoflOi 

N'elle impera bó pador ; 

Eu quizera sempre assim, 
Seraphim, 

Vâr-te linda, meu amor. 



Teu olhar tão seduetor, 

Diz amor, 
Gentil, faceira donzella; 
Enlouqueço em contemplar-te, 

Adorar-te, 
Moreninha, minha estrella. 

Eu quando passo e te vejo, 

Que desejo 
Em te vêr assim tão bella, 
Na mais pura singeleza 

E firmeza, 
TSo tristonha na janella ! 

Poucas vezes me appareoes, 

E t'esqueces. 
Moreninha, meus cuidados; 
NSo me queiras illudir. 

Me fugir. 
Que tu és os meus peccados. 

Tento ás vezes em chegar * 

A declarar 
Este fogo abrazador; 
E dizer-te bem baixinho. 

Meu anjinho, 
Eu sé quero teu amor. 



TROVADOR 28 



Mas nSo posso, tenho medo, 

E' segredo 
Que oceulto no coraçSo t 
Se ea o contar, soa traidor, 

Fallador, 
Que nSo guardo uma paixão. 

N'uma noite em que te vi, 

Junto ahi 
Vestidinha de branquinho, 
TSo risonha só dançando 

E brincando. 
Moreninha, meu anjinho* 



ALTA KOITE 

Alta noite, tudo dorme, 
Tado é silencio na terra; 
Nem sequer' nos ares erra 
Negro mocho gemedor; 
Oh! que horas tSo propicias 
Para quem morre de amori 

Já se abre a gelosia 

De seu bem, caro, adorado, 

Ancioso — o prazo dado, 

Espera o seu amador ; 

Vem, saudosa e grata amante. 

Que por ti suspira amor ! 

Ije<m(M:, meu doce anjo. 
Vem, que bate hora primeira, 
. Vem pela vez derradeira 



24 TBOTADOR 

Abraçar o teu cantor ! 
Nos teus braços ache vida 
Quem por ti morre de amor. 

Só por. ti affronto a sorte, 
Qiie a yida, de ti amada, 
A cruel golpe de espada 
Vou por ti contente expor; 
Oh I por mim seja o triumpho, 
Que por ti é meu amor. 

A gelosia se abre, 
E' hora da despedida, 
Podesse aqui minha vida 
Findar da saudade a d6r ; 
Vem, saudosa e grata amante, 
Tua porta abrir a amor. 



EU AMO AS FLORES 

Ifosica de M. A. de Sousa Queiroz, e poesia de Magalh&OB 

Eu amo as flores que mudamente 
Paix5es explicam que o peito sente; 
Amo a saudade, o amor-perfeito. 
Mas o suspiro trago no peito. 

A forma esbelta termina em ponta 
Como uma lança que ao céo remonta; 
Assim, minh'alma, suspiros geras 
Que ferir podem as mesmas feras. 



j 



TROVADOR 25 



UM HTSTERIO 



Poeflia do snr. Albano Cordeiro, e musioa do snr. Baphael 

é 

Em noite medonha, 
Que 08 raios cruzavam, 
Que 08 ventos lactavam 
Co'as ondas do mar; 

Meu peito saudoso 

Cum rosto formoso 

Buscaya sonhar. 



A lua tranquillai 

Das ondas se erguendo, 

E 08 raios detendo 

.Cum meigo volver; 

Calmou da tormenta 
A fúria cruenta, 
Mas fez-me gemer ! 



Senti na bonança 

Cruel desventura, 

Provei a amargura. 

Que amor recordei; 

Mas foi por aquella 
Que outr'ora tSo bella 
Gostoso adorei. 



r 
I 



A lua piedosa, 
A face cobrindo. 
Ao oéo foi subindo 
.Com doce langor; 



26 



TROVADOR 



E O céo puro e santo 
Juntou-Be a mea pranto, 
Calmou minha dôr. 



DUETO 



O MEnunHO E A POBRE 



MEIRINHO 



01á| vamos sem demora 
F'ra a casa da correcçSo ; 
Tantos pobres na cidade. . . 
NSo está má vadiação ! 



POBRE 



Vej& bem, senhor meirinho, 
D'este lado estou 'squecida, 
Esta mSo p'ra nada serve, 
Doeste olho estou perdida. 



MEIRINHO 



Minha pobre, não m'anbaça8. 
Podes muito bem servir, 
Inda és moça, reforçada, 
Deixa a vida de pedir^ 



TROVADOR 



POBBE 



Como poderei viver 
Sem esmolas dos fieis? 
Senhor meirinho, vá-se embora, 
E me dê alguns dez reis. 



MEIBINHO 



Marche já, minha devota. 
Tenho ordens apertadas. 
Velhas, tontas, mancas, tortas, 
IrSo todas amarradas. 



POBBE 



Se-me leva, senhorzinho. 
Muita gente sentirá ; 
Dos meninos que eu educo. 
Coitadinhos, que será ? 



MEIBINHO 



Oh mulher, nío sei que dia I 
Vamos já para a prisSo, 



'• • • 



POBBE 



Ah ! me deixe, senhorzinho, 
Qu'eu lhe dou meu coraçSo. 

Eu sou pobre, isso 6 verdade, 
Mas sou pobre mui fagueira, 
Sei dançar o miudinho, 
Sei. puxar minha fieira. 



47 



28 TROVADOR 



MEIRINHO 



Também tem esta cidade 
Pobresinhas com dendê; 
EUas fazem traquinadas 
Com artes nSo sei de quê. 



POBRE 



O Brazil tem seus meirinhos 
Que nos prendem com ternura, 
Forque os moços brazileiros 
Tem feitiços, tem doçura ! 



MEIRINHO 



Da justiça official 
Nem por isso sou marreco, 
Quando estendo a minha gambía 
Sou mais leve que um boneoo. 

AMBOS 

Já que amor assim nos prende, 
Da policia nos livremos, 
Pois se d'esta nós zombamos, 
Com amor nós nSo podemos. 

Vamos viver sempre juntos 
Mendigando com pobreza; 
Pois amor quando nos prende 
NSo se importa com riqueza. 



TROVADOB 



29 



RECITATIVOS 



NO MAR 

Lembras-te quando te beijei o seio 
N'aqaelle enldo que de amor prorém? 
Aqnellas falias que trocamos rindo, 
Gozos sentindo — quem ouvia? — ninguém. 

Lembras-te, virgem, quando além — no mar, 
Triste, a scismar — adormeci aos cantos 
Que desprendias, contemplando a Ina, 
Que a forma tua desnudava encantos? 



Lembras-te quando ao despertar fitei-te, 
Depois beijei-te a nacarada face? 
Que tu coraste? mas porque coraste? 
Virgem, julgaste meu enlevo audace? 

ff 

Lembras-te quando meu batel singrando 
O pego brando, tu p'ra mim sorrias? 
ll'aquelle riso que é de amor a origem, 
Me dize, virgens, o que então dirias? 



Lembras-te quando se mostrou no céo 
Alva sem véo — a matutina estrella, 
Que tu disseste com fetllar de fada : 
c Oh I luz sagrada — como tu és bella! » 



30 TBOTADOE 

Se par acaso te recordas -^flfir, 
Do nosso amor, d'aqaella noite emfim; 
Fita 08 teus olhos nos meus olhos — rindo, 
Um g0£0 infindo me fiiz ter n'nm — sim. 



Oualberto Peçonha. 



PERDiO 



Ousei amar-^te muito, quando plácida 
Sonhara possuir-te inda algom dia, 
Manchei nos rersos meus teu nome cândido, 
A illusSo já passou : perdSo, Maria. 

Pequei I Fugir nSo pude ao fogo virido 
De teus olhos formosos, sem rívaes; 
Perdôa-me, por Deus! meu rosto pallido 
Bem te diz que soffirer nSo posso mais. 

Fui um louco I Olvidei a negra túnica 
Da pobreza em que a sorte me envolreu; 
Esqueci que do mundo as galas fulgidas 
NSo eram para os pobres como eu. 

Tu eras meu fiinal I na yida insipida 
Era minha ambiçSo o teu amor; 
Os dias de ventura foram rápidos, 
A esperança morreu, morreu em flor* 



TROVADOR 31 



1 
1 



Fui um louco em Bonhar gozos purisdimoB, 
EVi um louco porque nSo te evitei ; 
Mas quem podéra vêr teu rosto angelioo 
Sem deixarHse prender, qual me deixei? 

Agora é tudo findo, é tudo mármore 
N^este peito em que tinhas um altar: 
Se a natura nSo fosse minha cúmplice, 
Eu, de certo frigira de te amar. 

Sendo pobre devera $fii mais timido, 
Que amar o pobre ao rico é ousadia; 
Mas agora meu peito é todo gélido, 
A illusSo já se foi; — perdSo, Maria. 



LUNDU 



F.N. 



MABILIA, MEU DOCE BEM 

Marília, meu ddce bem, 
Âpenaa tens oUiM vi, 
Cessoa ^a mínlia eziatenda, 
Ji nSo TÍTO, já morrí. 

Ai lê lê lê, certamente 
Olhos taes queimam a gente. 



f 



32 TROYÂDOR 

Despedem raios divinos 
Que ateiam ii'alma a paixSo; 
N'e9te fogo é que abrazou-se 
De todo meu coraçSo. 

Ai lê lô lê, certamente 
Olhos taes queimam a gente. 

Porém se os teus olhos matam, 
Sabem dar vida também 
Por um certo requebrado 
Que tudo pôde, meu bem. 

Ai lè lê lê, certamente 
Olhos taes queimam a gente. 



MODINHAS 



EU VI TEU ROSTO 

Eu vi teu rosto, 
Que me indicava 
Seres sensível 
A quem te amava. 

Logo em te amar 
Então pensei, 
E fido amor 
Te consagrei. 



TROVADOR 38 

Quando minli'alma 
Em ti pensava, 
Em mil delicias 
Se mergulhava. 



Agora vejo 
Que a natureza 
Não te deu mais 
Do que belleza. 



N^esses teus lábios 
D 'alma ternura, 
Vi no teu riso 
Bir-se a ventura. 



Quanto enganei-me ! 
Que o riso, então, 
Da falsidade 
Era expressão. 



A mão tomei-te, 
Corou-té o pejo, 
Voltajite^a face, 
Furtei-te um beijo. 



O dôoe néctar 
Que então bebi. 
Que era veneno 
Depois senti. 

-roXé. xn. 3 



Magica roaa, 
Mos teuB carinhos 
Só tí as coras, 
Nunca os espinhos. 



Forma e perfume 
Foi illasSo, 
Trago 08 espinhos 
Ko coração. 



Mesmo na terra 
Julguei ea v6l-a, 
Astjro divino, 
A minha estrella. 



Fallar no brilho, 
Ma claridade, 
Marcava um ponto 
De tempestade. 



N'am olhar puro 
Belajnpejante, 
O céo mostroa-me 
Por um instante. 



A tíbSo teve 
Cruel desmaio; 
Foi-se o relâmpago, 
Feriu-me o raio. 



TROVADOR 35 



DE DMA PASTORA OS OLHOS BELLOS 



De uma pastora 
Ob olhos bellos 
Me tem causado 
Amor, desvelos. 

Morro por ella 
A todo o instante, 
Mas ella ignora 
Meu peito amante. 



Agro receio 
Me embaraça. 
Fico indeciso, 
NSo sei que faça. 

Emfim, amor, 
Bege meus passos, 
 vêr se encontro 
Fagueiros laços. 

Chego-me á bdla 
Mas com pudor, 
Apenas faHo 
No meu amor. 



Confusa fica, 
Os olhos volve, 
Levanta a voz 
E assim.resolve : 



36 TROVADOR j 

I 

( 



Vivamos aempre 
Em doces laços, 
Depois me aperta 
Entre seus braços. 



Pensem amantes 
A sensaçXo 
Que sentiria 
Meu ooraçSol 



Cândido Ignaeio da Silva, 



SE EU FORA a criança HAIS LINDA E FORHOSA 



(vovÁ modinha) 



Para ser cantada na nnuica da modinha <->-iSe tufõra da noite o atiro 

fovfnoêo 



Se eu fôra a criança mais linda e iiirmosa, 
Quizera, ó belleza ! constante te olhar ; 
Se eu f(5ra dos caaitos a nota suave, 
Quisera contente a teu lado soar ! 



Se eu fôra uma rosa de vivo perfome, 
Quizera em teu peito ditosa moinar; 
Se eu fôra das tardes a niais linda e pura, 
Quizera, sorrindo, fazer-4e primar. 



TROVADOR . 37 

Se eu fora das ares a are mais linda, 
Quizera em teu collo constante potisar ; 
Se ea fôra dos entes o mais verdadeiro, 
Qnizera, ó meu anjo, sósinbo te amar. 

• 

Has eu sou um triste que vivo penando, 
Sen! t^ os prazeres da doce ventura; 
Por isso nSo posso, nem mesmo que queira, 
Amar-te, donseila, gentil creatura. 

Àdeodato Sócrates de Mello. 



aNÇÂo 



O CANTO DO SABIÁ 
Poesia do dr. D. J. G. de Magalh&es, e musica do snr. Raphael Coelho 

Urania, não ouves 
Um temo reclamo 
Que soa no ramo 
Do teu manacá? 
Se queres ouvil-o 
O passo apressemos, 
De perto escutemos. 
Que é um sabiá. 



38 TROVADOR 

Sentemo-noB juntoB 
Aqui no bosquete, 
Sobre este tapete 
De verde capim : 
NSo vás para longe, 
Que fico enfadado; 
Âqni, a meu lado, 
Bem perto de mim. 



Fállemos de manso 
Em quanto elle canta; 
Se a voz o espanta, 
B'aqui fugirá : 
Ah ! diz-me ao ouvido 
Se aquelle gor^geio 
De amar, em teu seio. 
Desejos não dá? 



Eu creio que entendo 
Aquella cantiga; 
Se queres que o diga 
Besponde que sim: 
No seu estribilho 
Diz elle: — mortaes. 
De amor não temaes, 
Ainai-yoB sem fim. 



TROVADOR 39 



RECITATIVOS 



O POBRE 



Ao som das vozes' doa tristonhos filhos 
Qae i mingoa pedem pVa comer um pSo, 
Sahe da choupana mui tristonho o pobre 
C!p'o sacco á cinta, co'o bordSo na mSo. 



« 

Então tremendo de vergonha e fome, 
Estende ao povo a mirrada mao, 
P'ra todos olha, se encaminLa á porta 
Do rico avaro que lhe brada: — Não! 



Coitado, humilde vai seguindo sempre 
Com fé no peito que gemendo chora, 
E vendo as turbas com desdém passando, 
Ao céo e á terra uma esmola implora*. 



Ninguém o attende ; elle já cançado 
De tantas vezes suas mãos erguer, 
Soluça e geme, qual no galho a rola 
Afflicta e triste sem o esposo vêr« 

Com passos lentos vai depois sentar-se 
Do templo santo nas escadas frias, 
Ahi descança por um pouco e dorme 
Ao som dos gritos de venaes orgias. 



40 TROVADOR 

Desponta negra como crepe a noite, 

A loa nasce matizando o espaço; 

E o pobre tremulo, todo entregue á mágoa, 

'Por entre as trevas busca o lar escaco. 



Contempla, entrando, sobre rota esteira, 
Seus filhos, tristes, lamentando em vao, 
Parece dizem : De soccorro á mingoa 
E' já cadáver nosso pobre irmSo ! 



Meus filhos, diz-lhes, mergulhado em pranto, 
D'aqui a pouco morrereis também. 
Pedi chorando, e vosso pai, coitado, 
Sustento agora p'ra vos dar não tem. 



Na dôr arranca suas cZs com anciã. 
Nos olhos baços já vê fusco o brilho, 
E louco andando para tudo exclama : 
Esmola ao menos p'ra enterrar meu filho ! 



Na porta pára, vê sahir de um carro 
Trajando galas ricamente o nobre, 
Esmola pede ! E qual a um cão leproso 
Repelle o rico bruscamente ao pobre ! 



Debalde grita, e estalando á fome. 
Sobre a calçada tiritando cái : 
E ao vento fresco da risonha aurora 
Coitado, morre, desprendendo um ai I 



TROTADOR 41 

Depois enrolto n'am andrajo immundo 
Inerte o corpo se conduz seili gala^ 
E em quanto o rico tem vaidosa tumba, 
Se lança o pobre com desdém na valia ! 

Cândido José Ferreira Leal. 



UH PEDIDO 



M ulber, és bella qual nSo sei pintar-te, 
Só sei amar-te e como eu sei ninguém; 
Typo sublime de apurado gosto, 
N'alma e no rosto, e no sorrir também, 

D'e8sa cadêa em que se liga o bello, 
Tu foste o élo mais perfeito, sim; 
Como que em prova do requinte d'arte 
Quiz Deus formar-te tSo formosa assim. 



Húmidos lábios de accender desejos 
Provocam beijos dè paíxSo infinda; 
Que amenidade de expressão tem ella ! 
Oh! como é bella, se^uctora e lindai 

Na sala ostenta ém caprichosas Ondas 
Formas redondas do corpinho leve. 
Quanta nobreza ! que pisar sereno ! 
Que pé pequeno I que cintura breve ! 



42 



TROYilDOR 



E as mSos macias, setinosas, puras, 
Tranças escaras, fronte veneranda, 
CoUo de cjsne, voz sonora e doce 
Como se fosse nma harmonia branda« 



E aquelle agrado que por si resume 
Todo o perfume da mulher moral, 
E' oomo o iman que seduz a gente, 
Philtro innocente que nSLo tem igual. 



Eu que a idolatro com fervor sincero, 
Nada mais quero que em silencio a amar; 
No tabernáculo de meu peito occulto 
Votei-lhe um culto, um verdadeiro altar. 



E por ventura se a ambição cegar-me 
N8o vou prestar-me a importunal-a, nSo; 
J& peço muito se disser: — desejo 
Depôr-te um *beijo na mimosa mSo. 



TROVADOR 43 



LUNDC 



ESTA NOITE, OH CÉOSI QUE DITA! 



Esta noite, oh céos ! que dita I 
Com meu bemzinho fallei, 
Das cousinhas que me disse 
Nunca mais m'esquecerei. / 



Deu-me um certo guisadinho 
Que comi, muito gostei ! 
Do ardor das pimentinhas 
Nunca mais m'esquecerei. 



Ao olhar para a janella 
Na calçada tropecei, 
Da tremenda cabeçada 
Nunca mais m'esquecerei. 



U TROTADOR 



MODINHAS 



ACORDA, UNHA QUERIDA 



Acordai minlia qaerida, 
Acorda, foge do leito. 
Vem ouTÍr a voz do peito 
Do teu triste trovador. 



Oh céos ! que silencio, 
Que dõr, que penar, 
Que grato luar, 
Que noite de amor ! 



Vem ver, Diana formosa, 
Dos amantes protectora. 
Vem abraçar como outr'ora 
Teu constante trovador» 



Oh céos! que silencio — etc. 

4 

Troca os sonhos que te illudem 
Pela verdade ditosa, 
.Vem consolar amorosa 
Teu saudoso trovador. 

Oh céos! que silencio — etc. 



TROTADOR 45 



K^este 8Ítío onde ditoso , 
J& gozei o teu carinho^ 
NSo deixes gemer sósinho 
Teu amante trovador. 



Oh céos! que silencio — etc. 

Mas ah ! debalde te chamo. • • 
Só me escuta a natureza, 
Já do somno és feliz presa, 
NSo ouves teu trovador. 

Oh céos I que silencio — etc. 



Bella lua além fulgura 
Em mimoso céo de anil, 
Mas aqui nem um ceitil 
Alumia o trovador. « 



Oh céos ! que silencio — etc. 



Acorda, virgem formosa, 
D'esse teu meigo dormir, 
Vein escutar o carpir 
Do teu triste trovador. 



Oh oéoB I que silencio-*- etc. 



46 TROTADOIt 



MINHA SORTE, CARA ELVIRA 

Minha sorte, cara Elvira, 
E' tristonha, al^orrecida; * 
A mais cruel e pungente 
De todas as que ha na vida. 

Mas se me deres 
Um riso teu, 
Será mudayel 
O fado meu. 

Ah! não, nSo negues, 
Presta um sorriso ; 
Dá-me as delicias 
Do paraíso. 

Minhas faces já perderam 
Sjmpatkias, brilho e côr; 
Meus lábios n£o tem doçura. 
Nem mais exprimem amor. 

Mas se me deres — etc. 
Ahl não, nSo negues — etc. 

Minha Elvira, os teus encantos 
Levam gente á sepultura; 
És cruel, porque me n^as 
Um instante de ventura. 

Mas se me deres — etc. 
Ah I nSo, nSo n^ués — etc. 



I 



TROVADOR 47 



ROMANCE 



[. 



QUEIXAS 



Poesia do snr. dr. D. J. G. de Magalh&es, e musica 

do snr. Raphael Coelho 



Sem doce esperança^ 
Ph minha querida, 
Amor nSo é vida, 
£' morte sem fim : 
De amor outros gozam 
Suaves momentos ; 
Porém 08 tormentos 
SSo só para mim. 

Qu'importa qu'eu veja 
Teu rosto engraçado, 
De um riso animado, 
Ao longe brilhar; 
Se a magoa que sinto, 
Amor, não adoço, 
E posso, 9 nSo posso 
Teus olhos beijar ? 

Qu'impprta que eu pense 
Que tu serás minha? 
Quem é que adivinha 
O teu^coraçSo? 



i 



ÕO TROVADOR 



CAMÉLIA 



Nas veigas meigas de encantado prado, 
Vi-te| enlevado, n'am sonhar de amores ; 
Infinda ^ linda, qual mimosa rosa 
Eras formosa ^obre as outras flores. 



Celestes vestes da mais pura alvura, 
Tua estatura divinal cobriam ; 
Immensos, densos, teus cabellos bellos. 
Em negros elos a teus pés cabiam. 

Da infância n'ancia, com enredo e medo, . 
O meu segredo revelei-te então ; 
Ein susto, a custo, com receio, enltíe... 
Disseste — creio -^nSo te lembras? — Nlo? 



Insano engano, minha mente crente. 
Fusca, demente. .. tresvairou-se emflm; 
Insano engano, que fingida, infida, 
A alma rendida — me disseste : — Sim. 



Mentias ! . . . rias. , • que teu peito afeito 
A ser o leito de volúpia — ardor; 
Sobre a cratera de fogosos gozos. 
Que venenosos vão beber amor. 



Mentias.. • rias... n'esse gesto honesto, 
N'es8e protesto, que fizeste ahi, 
Malvina, indina, tu mirraste, erraste, 
A flor que a^^haste vicejar por ti. 



TROVADOn 



&t 



Sonhei-ie. • • amei^to. • • dtlirante, enrinite, 
Loaoo um ixutantà — devoroa-me amor, 
Hab hoje.,, foge,., flor inoasta, gaata».. 
— Camélia... iMurta-^qne te roto horror 1 



LUNDli 



O PADECEHTE « 



Poesia do sor. A. J. de Soasa, q mwoa do m^Xf A. L. de Hoora 

Mulata, tu ée a eaosa 
De ea andar aos trambolh8eS| 
Levo cholipa — sopapo, 
Cachdeta — ^coçSee. 

Ando cego — atoleimado, 
Doa nas portas narígadaa, 
Babo-me todo, me esfolo, 
Me arra^ — dou cawUftdaa. 



Tenho os olhos inflaqipiados, 
A cara toda papnda| 
Bebo.agm^ cbeea oom biohos, 
Como batatfj^ ça^cudat 



52 TROVADOR 



Mulata, ta és a causa 
De eu toraar-me um lambasZo, 
Lambo o rauho do nanz, 
Dou cambalhotas no ch2o. 



TuBso, espirro, escarro, cuspo, 
Mas me falta n&o sei qu8 ; 
Bebo cana, masco, fumo. 
Só de amores por vossè. 



Mulata, minha mulata, 
' De teu bem tem piedade, ^ 

ft ^5 Fazer bem a quem padece ^ a , 

E' virtude — è caridade. f # ^ 






Mulata, morrer por ti 
E' agora o toeu oflScio; / 4 
Ou dá allivio.a meus malesj ^ 
Ou me manda p'ra o hospioio. 



MODINB/^S 



Ê Tio FORMOSA MAIULU BEUA 



E' tSo formosa 
Marília bella, 
Qu'eu de continuo 
Morfo por ella. 



j 



TROVADOR 



53 



Apenas vi 
O seu semblante 
Tomei-me em outro 
No mesmo instante. 

No seu semblante 
De fina côr, 
Diviso, abertas, 
Rosas d'amor. 

Se me coneedes 
Um terno beijo,* 
Do céo da terra 
Nada desejo. 

Morena bella 
Por piedade, 
Guarda bem firme 
Nossa amizade. 

Confusa fica, 
Os olhos volve, 
Levanta a voz 
E assim resolve: 

Vivamos juntos 
Em doces laços. 
Depois me aperta 
Entre seus braços. 



EntSo lhe digo*: 
Bella pastora, 
Tu és mais linda 
Que a própria Aurora. 



54 TROVADOR 

Suspira a bella 
E emmaddòe, 
Volye B611B olhos 
E desfalleoe. 

Vejam, amantes, 
Qae sensaçSo 
NSo sentiria 
Meu ooraçSo! 



UM TEU SUSPIRAR 



Poesia do snr. J. M. Mourfto, o mosioa do snr. dr. ClarimuiMlo 



Amor querendo 
De mim síombar, 
Teus olhos, Lisia, 
Me quiz mostrar. 

Suave effeito 
EntSo senti •• • 
D'elles escraro 
Logo me vi ! 

* 
Agora, Lisia, 

Sinto paixSo, 

Por tí só geme 

Meu eoraçSo. 



TROVADOR 



S'e8teB affeetos 
Intentas pagar, 
Lism, me basta 
Um teu suspirar ! 



• • • 



b5 



AINDA ELU?... 

(mota modihba) 
Poesia e musioa do snr. J. O. Pinto Pereira 

No peito sinto uma dor, 
Que me leva á sepultura ; 
Por me terem desprezado, 
Atirado á desventura. 



Para que nasci então ? . . . 

Para ser sujeito á sorte? 

Eu amei, nSo fui amado? 

Ah ! meu Senhor, dai-me a morte ! 



Houve um dia que eu ouvi 
lânda morena dizer : 
« Eu te adoro, amo-te muito, 
< Serei tua até morrer. » 



Po];ém hoje, Deus d^axpor, 
Que malquVença'8 tens de mim ? 
Porque negas esse amor. 
Porque me foges assim? 



56 TROVADOR 






Âh I • • • já sei. • . eu foi ingrato, 
Dis-lbe asBÍm o coraçSo ; 
N8o importa, que eu espero 
Algum dia o teu perdfio. 



ÁRIA 



o CAPITÃO HATA MOUROS 



Aqui yenlio, mquB senhores, 
Certo de vossas bondades, 
Contar-Tos mil novidades, 
De meu. posto altos penhores. 
Ficai sendo sabedores 
Do que é este capitSo, 
Amoroso e valentSo 
Como ninguém pôde ser ; 
Emfim, pVa tudo dÍ2ser,v 

Boiique lá o rabecSo. 

» 

No jóguinho do bilhar 
Sou fallado em todo o mundo, 
Porque o sei tanto ao fundo 
Que a dormir o vou jogar ; 
£u posso carambolar 
Em 6em bolas de uma ves. 
Posso formar um xadrez 
Na volta da carambola, 
Formo emfim uma gaiola 
Coilio ninguém jamais fez. 



TROVADOR 57 



Soa Bublime na caçada^ 
Pois mato araras a eroqup, 
Mato lobos a badoqae, 
Gafanhotos & estocada^ 
£ camelos & pedrada; 
Quando me di cá na veia, 
Com um punhado de areia 
Mato meros e robalos, 
E até com estes estalos 
J& pesquei uma baleia. 

Eu já tive por bastSo 
O tronco d'umà mangeira, 
Já tive por cabelleira 
Um enchimento de colchSo ; 
Por ter firme o coraySo 
E ser no amor afeito, 
A uma dama de geito, 
Com paixSo como nSo vi, 
Dez annos eu trouxe aqui... 
Como alfinete debito. 

Tudo quanto tenho exposto 
Passará por caçoada. 
Assim nSo direi mais nada 
Para nSo vos dar desgosto : 
Vou cumprir d'e6te meu posto 
O que n'elle muito abunda, 
Com figura tSo jocunda 
NSo me posso demorar, 
Pois vou patrulhas rondar 
Da ArmaçSo ao Quebrabunda. 



58 TROVADOR 



RECITATIVOS 



O TEU SEMBLANTE 



O teu semblante captivoa-me a alma 
Pois d'ella a palma só a ti eu dei, 
Viyer eu quero sempre escravo teu 
Que é fado meu que só de ti serei. 

Quando da vida abòrrecer-me quero 
E só espero a prematura morte, 
Becebo animo aa pensar em ti 
E me sorri a desejada sorte. 

t 

Sem ti nXo posso supportar a vida, 
Pois tu, querida, és o meu encanto ; 
Teus negros olhos tSo gentis, tSo bellos, 
S3o fortes elos que me prendem tanto. 

Se por ti nSo posso ser um dia amado 
E já cançado estiver com a sorte, 
Nunca reveles a cruel verdade, 
Por piedade nSo me dês a morte. 

Maa tu és boa^ formosa, és bella. 
Gentil donzella, a quem tanto amo. 
Volve esses olhos que seduzem tanto 
E enxuga o pranto que por ti derramo. 



\ 



TROVADOR 59 



Ahl fiJla ! apaga a ai^ctente ohamma 
Que o peito inflamma do teu trovador ! 
Diz-me ao ouvido Be 6 receio teu, 
— Que será meu o teu eai^to amor. 



A JOVEN MORENA 



PoesML do sor. Gtotulio de Mendoaça, e musica do snr. J. S. ArvelloB 



Morena, eu amo-te com fatal loucura 

» 

Na vida impura, que me dá prazer; 
Morena, eu amo-te, meigamente fallo. 
Suspiro ezhalo n'um cruel soffrer. 



Amor é fogo que s^ateia n'alma 
Na pura calma d'um ditoso sonho ; 
Amor é vida que se esvai ligeira, 
Aura &gueira de um pervir risonlio. 

• 
Vi-te n'nm baile n'um salSo dourado 

E fui, curvado, te adorat, meu anjo ! 

Estavas bella, tSo gentil, serena, 

Eras, morena, meu celeste archanjo. 

r 

Depois que yi-te, n'um valsar ifrdente 
Busquei demente protestar-te amores, 
£ quando um dia te pedi carinbos 
Ai! tive espinhos de cruentas dÔres ! 



eO TROVADOR 

Fitei meus olhos no teu rosto virgem, 
Senti vertigem perpassar por mim ; 
Porém nlo pude desviar-me loaco, 
Ai t pouoo a pouco, me fugiste emfimi 

Amei-te muito com fiital delirio 
Que o meu martjrio, abandonaste emfim, 
Foste ingrata, desprezaste a sorte, 
Buscaste a morte, e me entregaste aifim. 



Que importa a vida no illusorio mundo. 
Se é tSo profundo meu soffrer e sorte. 
Se desprezado viverei, carpindo, 
Cherando ou rindo buscarei a morte? 



LUNDU 



EU QUERO-HE CASAR 



Poena do snr. dr. J. M. de Macedo, e rnasíca do sor. Franciíeo 

António de Carvalho 



Eu já nSo sou criança, 
Ji tenho bem juizo, 
Ji sei que me é preciso 
Para viver, amar : 
BíamZ, fiz treze annos, 
Eu quero me casar. 



TROVADOR 61 



Darei minbas bonecas 
Á Dona Carolina, 
Ê. ainda peqaenina, * 

N8o sabe o que é amar ; 
MamS, eu ji sei tudo, 

Eu quero me casar. 

• 

No coraçSo das moças 
Ha um certo bichinho, 
Que róe devagarinho 
Até fazer iimar ; 
MamS, isto é sabido, 
Eu quero me casar, 

MamS ralhar nSo pôde, 
Papá também amou. 
Do céo foi que baixou 
A lei qoe ensina a amar ; 
MamS, Deus é quem manda, 
Eu quero me casar. 



MODINHAS 



DE TI nQUBI TÃO ESCRAVO 

De ti fiquei tSo escravo 
Dq^is que teus olhos vi. 
Que vivo só p'ra teus olhos, 
NIo posso viver sem ti. 



62 TBaVAMIt 

ContempUi&âo teu gembUnte 
Sinto a vida m'osc^^i 
N^ttm teu olbar peroo a tícU} 
Besoaoíto n'oiitrQ plbar. 



Mar é tSo doce 
Viver assim, 
lilia, nlo deixes 
De olhar p'ra uim. 



N'am raio de teus olhares 

Minh'alma inteira prendi. 

Se tens minh'alma em teus olhos, 

NSo posso viver sem ti» 

A qualquer parte que os volvas 

Minh'alma sluto voar, 

Inda que livre nas azasi^ 

Presa só em toa olhar. 



Mas é tio doce — etc. 



Que era meu &io ser teu 
Ao vêr-te reconheci, 
NSo se muda a lei do fado, 
NSo posso viver sem ti. 
Por nSo ser inda òompleta 
Kipba dOee e6erafn4SO| 
Se me ferem teus' olhares, 
Choro sobre o meu grilbSo* 



Ma9 f& tjUo 4$90— ^% 



TROVAMH 63 



A PSaOU DE PAQUETA 

Morena, ea temio medo 
DoB jteoB olhos iSo formocm, 
Dos teus olhoB tSo farilhantei, 
Como os astros InminosoB; 
Tenho meáo que me firam, 
Que me possam ser perigosos.' 

Morena, eu tenho medo 
Dos teus lábios purpurinos, 
D'e6se8 lábios tSo ingénuos 
Que despertam doces hymnos ; 
Teínho medo que me matem 
Com sorrisos tSo divinos. 

Morena, eu tenho medo 
Do teu coUo palpitante, 
D'esse coUo melindroso, 
T2o gentil e deslumbrante ; 
Tenho medo de perder-me 
N'um momento delirante. 

Morena, eu tenho medo 
Do tw temo coração, 
D^essas fibras delicadas 
Que me rojam na paixSo ; 
Tenho medo, muito medo, 
D'esse anK»*, d'essa affeiçSo. ' 

Morena, eu tonho medo 
D'esses traços de belleza. 
Que brilb^n i^'esse0 t^us Ubbios, 
Que te ám a.wtw^ezii; 



64 TROVADOR 

Tenho medo que nSo ames 
Qaem te ama com firmesa. 

Morena, eu tenno medo 
D'ewe andar tSo seductor ; 
D^eese porte mageatoso 
Para mim £a8einador; 
Tenho medo do perder-tOi 
Moreninha, • • meu amor t 



M. Ignaeio Mendes, 



CANÇÃO 



A TIVANDEIRA 

Mnnoa do snr. J, 8. Arvdloe 

Âí I qae vida qae passa na terra 
Quem nBo ouve o rafar do tambor, 
Qaem nXo canta na força da gaerra : 
Âi amor, a^amor, ai amori 



Qaem a vida qaiaer verdadeira 
Ê £user-Be uma ves vivaadeim. 



Tm)YA0OII 65 



Só na guerra se matam saadadea^ 
Só na guenra se sente o viver )' 
Só na guerra se acabam vaidades, 
Só na guerra nto oueta a morrer. 

Âi que vida, que vida, qne vida, 
Ai que sorte tão bem escolhida ! 

Âi que vida que passa na guerra 
^uem pequena na guerra viveu, 
Quem sósinha passando na terra 
Nem o pai, nem a mSi conheceu. 



Quem a vida quizer verdadeira 
E' fazer^se nma vez vivandeira. 



Ai que vida esta vida qu'eu passo 
Com tão lindo e gentil mocetão ! 
Se eu depois da batalha o abraço; 
Ai que gosto pVa meu coração ! 



Que ternura cantando ao tambor 
Ai amor, ai amor, ai amori 



Que harmonia não tem a metralha 
Derrubando fileifas sem fim, 
E depois, só depois da batalha 
V61-0 salvo, cantandò-me assim : 



Entre aa marohaa fazendo trincheira, 
Mais te amo, gentil vivandeira; 

VOL. lU. 5 



86 TAOYADOR 

Não me assustam trabalhos da lida 
Nem as baias me fazem chorar; 
Ai que vida, que rida, que yida. 
Esta vida passada a cantar I 



Qu'eu lá sinto no campo o tambor 
A fallar-me meiguices de amor. 



Mas deixemos os cantos sentidos, 
Estes cantos do meu ooraçSo, 
E prestemos attentos ouvidos 
Ao taplSo, rataplSo, rataplSo. 



Ao tapl2o, rataplBo, que o tambor 
Vai cadente fallando de amor. 



RECITATIVOS 



ODTR'ORA, AGORA 



Encantos santos que gozaste e amaste 
O mundo outr'ora, com desdém mordaz. 
Roubou, lançou no profundo, immundo 
Abysmo infrene da paixSo audaz. 



i 



TROVADOR 67 



Em quanto o encanto realçou, brilhou 
Tu foste a fada dos salões da orgia, 
Sorrias, vias a teu lado amado 
A mão do rico te apertar tSo fria. 

Gozada, olhada pela gente ardente 
Tremente ouvias murmurarem falias, 
Tem louro o ouro te affrontou, comprou ; 
Até nos templos ostentaste as galas. 

Mundana, insana tua crença immensa 
Mulher vendeste por um beijo impuro. 
Sereia cheia de candor, de amor 
Trocaste a vida por infernal futuro. 

D'outr'ora agora teus fprmosos gozos 
SSo dores lentas te matando a alma. 
Cercada olhada com horror a flor 
Seu viço perde deslumbrante calma. 

Funérea a ethérea candidez da tez 
Em vez da nympha um cadáver mostra, 
E a lamentar, chorar o desgraçado fado 
Já tarde a louca com horror se prostra. 

De véo labéo que a affironta aponta 
Nem mesmo as cinzas se avistou no pó, 
Lasciva, altiva, a pudibunda, immunda 
Mulher perdida não arranca um dó. 

D'outr'orá, a aurora já nSo ri p'ra ti, 
Teu corpo cobre nauseabunda chaga. 
Atrozes vozes te proclamam, chamam 
Perversa louca que a innocencia traga. 



» 



« 



68 TROVADOR 

Perjura, impura, soluçando, andando 
Mendiga triste, mas ninguém lhe aeode, 
Afflicgka grita, pois que tarde ardo 
Sagrada chamma que a remir nXo pôde. 



Doente sente sua desdita afflicta 
E vê angustia que somente resta, 
Lamentos lentos da perdida Vida 
A' rosa linda ^ue murchou na festa. 



Implora, chora no coraçSo perdSo 
E n'uma enxerga sçu suspiro èxhala. 
Só chora a aurora — no cemitério o império 
Acaba, morre sepultando a gala. 



E q archanjo ou anjo que nasceu no céo 
Roçando as azas nos paúes da terra 
Fenece, desce ji sombrio e frio 
A' cova rasa que a miséria encerra. 



Risonhos sonhos, tim oapella bella. 
Vaidade, gozos que tiveste outr'ora. 
Amores, âôres, teus encantos santos 
E' á saudade tudo entregue agora. 



Caiidido José Ferreira Leal. 



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TROVABOR 69 



DESPEDIDA 



Adeus, meu anjo, vou partir, deixar-te, 
Soou a hora da fatal partida, 
A longea terras vou carpir saudoso - 
A triste ausência d^essa imitem querida. 



Não podem phrases revelar4e o quanto 
Minh'alma sente n^este extremo adeup ; 
Só sei dizer-te que de dõr succumbe 
Ao separar-se dos carinhos teus. 



Que de saudades eu não vou soffrei: 
Ao vêr-me ausente d'este amor tão puro, 
Os d6ce& gozoB do feliz passado 
Bem amargosos vão ser no futuro. 



Oh! a saudade, essa dôr pungente 
Em outras eras já por mim sentida, 
Agudo espinho que se entraliha n'alma, 
Que a dilacera e nos rouba a vida ! 



Não chores, virgem, não te afflijas tanto, 
Enxuga o pranto d'esses olhos teus ; 
Não vês, querida, que esse pranto amargo 
Vem augmentar os soffirimentos meus? 



Não chores, virgem, não succumbas triste. 
Que grata esp'rança eu conservo ainda 
De ser ditoso e de viver comtigo * 
Dias felizes d' alegria infinda. 



70 TROVADOR 

Adeus, meu anjo, vou partir, deixar-te, 

Soou a hora da fatal partida; 

A longes terras vou carpir saudoso 

A triste ausência d^essa imagem qu'rida. 



M. J. de Almeida, 



LUNDU 



QUALQUER MULHER QUE ENCONTRARES 



Qualquer mulher que'encontrares, 
Seja bella, seja feia, 
Gritai logo á bocca cheia : 
Jesus ! nome de Jesus ! 



Fugi d'ella, filhos meus. 
Como o. diabo da crus. 



Se a encontrares de tarde 
Passeando muito airosa. 
Té que a lua vagarosa 
Apresente a sua luz ; 



Fugi d'ella, filhos meus — etc« 



TROVADOR 71 



Se olhares para t»az 
E ella olhar tambein, 
Mostrando sem pejo a quem 
Só quer vâr os hombros nús ; 

fSigi d'ella) filhos meus — etc. 



MODINHAS 



MINHA TERRA TEM LOUREIROS 

Minha terra tem loureiros 
Onde canta o rouxinol, 
Canto triste e solitário • 
Que se esconde ao pôr do sol. 

Quem m'o dera ouvir de novo 
N'essa terra que eu deixei ! 

Minha terra tem campinas 
Que tapizam lindas flores, 
Trinam lá melhor as aves. 
Sabem mais cantar amores. , 

Quem me dera ouvir seu canto, 
Se o seu sol eu sempre amei ! 



72 TROVADOR 

Oh ! falsârio prazer n3% me sigas, 
•Eu comtigo nSo quero alliaQça; 
Que ao sepulohro me deve — promette 
Essa idéa da prova — Esperança. 



Oh I quem me dera gozar 
O doce ar que gozei ! 



QUANDO OS TEUS OLHOS 



Quando os teus olhos 
Quebram langor, 
São iodos graças, 
És toda amor. 
Os olhos d^outra, 
Faça o que for, 
São sim os olhos, 
Mas nSo d'amor. 



E' tua bocca 
Mimosa âôr, 
Vedam tocaia 
Graças d'amor. 
Nos lábios d'outra 
Posso os meus pôi^ 
Sem que no peito 
Palpite amor. 

Quando do pejo 
Brilha o rubor, 



■ 



TROVADOR 73 

Nas facoB tuas 
Adeja amor* 
Se as faces d'outra 
Mudam de cor, 
O pejo é outro, 
NSo vejo atúor. 



Se dás um gosto 
Ou lima dôr, 
Em uma,, em outra 
Conheço amor. 
Dados por outra 
O gosto é dôr, 
E' dôr ou gosto, 
Mas nSo d'amor. 



Quem de Marília 
Teve um favor, 
D'outra não queira, 
Qué insulta amor. 
Amor comtigo 
E' vivo ardor, 
Nos braços d'outra 
E' gelo amor. 



74 TROVADOR 



AMA 



Q BOLEEIRO 



Tríflto vida é bolear 
Todos os dias e noites, 
Montado n'um borro magro, 
Com esporas e açoites. 



Levar tafulas bonitas, 
Na sege bem recostadas, 
De passeio, aos tramboIhSes, 
Pias mas esburacadas. 



Mas ellas sempre me pagam 
Sem nuiica faser careta ; 
E no fim sempre me dXo 
Qualquer cousa de gorgeta. 

Que triste sqtte é a minha, 
Que me fez ser boleeiro, 
Para servir a vadios 
E ganhar pouco dinheiro! 

Mas ai ! que agora me lembro. . . 
Esta idéa ninguém vence... 
Vou m'empenhar para ser 
De uma gôndola fluminense. 



TROVADOR 75 






Mas assim nSo me succede, 
Pois a sorte me depara 
A servir a um pelintrinha 
Que me prega meia-cara. 

Passo já a governar 
Um d'esses velhos caixSes 
Que leva a gente arrastada 
E também aos trambolhões. 



E' verdade que a gente 
Do serviço já cançada, 
Vai arrumando sem dó, 
Uma forte clucotada. 



E entSo com o diabo, 
E a nossa tentação, 
Em lugar de dar nas bestas 
Quebramos um lampeSo. 

E até mesmo sem querer, 
Começa o mundo inteiro : 
€ Pega, agarra esse tratante, 
E' um patife, um brejeiro, lí» 

De sorte que por descuido 
Não se ganha quasi nada; 
Pôde o pobre boleeiro 
Chupar uma bengalada. . . 

Um homen atrapalhado 
Sem saber o que fskzer 
Vai vingando«se nas bestas, 
Dá-lhe forte e a valer. 



76 TROVADOR 

Eu nasci para ser tua, 
Tu nasceste p'ra ser meu, 
C^ amor, amor se paga, 
Meu amor é todo teu. 



Constança. • • eu morro, 
NSo morre, nSo, 
'Stá aqui seu bem, 
Seu coraçSo. 



Quem me desata 
Esta gravata. 
Que me machuca, 
O' senhor Jucá! 



Sinhá, quem foi que disse 
Qu'eu nSo gostava de schotisse? 



RECITATIVOS 



O PERDiO 



Perdoa, oh virgem, se te amei sonhando, 
Se, despertando, m^ndiguei-te um riso; 
Perdoa, oh virgem, se nos meus amores, 
Bem como as flôros desmaiei conciso. . . 



TROVADOR 17 

Perdoa, oh deusa, se nos meus delírios, 
Á Ittz dos círios pro£Giiiei4e o pejo ; 
Perdoa, ok deusa, se n^imi louco anceio 
Beijei-te o seio, supplíquei^te um beijo I 

Perdoa, oh santa, se por ti convulsa, 
No peito pulsa destemida veia ; 
Perdoa, oh santa, quanto mais s'inflamma 
De amor^ chamma mais voraz se ateia I 

Perdoa, archanjo, se te foi ousado. 
Em ter fallado n'esse amor tSk> cedo ; 
Perdoa, archanjo — por tuaft virgeoB c'rõas, 
Se me perdoas — guardarei segredo ! 

PerdSo, senhora! — teus olhares sérios 

Só tem mysterioS; que me causam damno ; 

PerdSo, senhora ! se me vires triste, . . 

A dôr consiste n'um fatal engano. 
i • 

L 

i 

I Deixa, donzella, reparar meu erro, 

N'este desterro derramar taeu pranto ; 
Deixa que ao menos em queixosa endeixa. 
Lamente a queixa, que me opprime tanto. « • 

Consente, yirgém, q^e na pyra ardente, 
Eu yá demente me queimar em vida ; 
Então na tumbi^, já depois de morto, 
Terei conforto da tyranna Uda t 

E ]i sósinho, passarei oontente,^ 

E etemamente«esquQoerei o mundo: 
I Meu pobre peito de te amar cançado, 

^ L& sem cuidado dormirá ^fundvl... 



78 TROVADOR 

Eu 8Ó te peço que me vis um dia, 
Na lousa fria desfolhar-me um cravo, 
E lá, meu a;njp| murmur%r cunrado : 
Morreu, coitado, de meu peito eicravo! 



SUPPUCA 



Gentil morena, a quem adoro e amo 
No fogo ardente do amor mais santo, 
Conserva sempre em teus lábios virgens 
Leal sorriso a mitigar meu praAto. 

Ah I nunca olvides este amor tSo puro 
Por outro affecto que nSo seja o meu ; 
Pois quero ainda te beijando um dia 
ligar ditoso meu destino ao teu. 

Perdoa acaso se te offendo, ó virgem, 
Pois eu j&mais te julgarft perjura; 
Bem sei qae és firme, por demais constante 
Para que esqueças tão sagrada jura. 

« 

Ah ! como é bello, ao .cahir das tardes. 
Pensar em ti, e me julgar feliz ! 
Sentir no peito o coração fallar-me 
Em doces falias que o porvir me diz ! 

Ah ! como é bello ao chegar das noites 
Yêr em minh'alma a dôce imagetn tua, 
Julgar-te um anjo de sublime encanto, 
Aos frouxos raidí^ que desprende a lua 1 



TROVADOR 79 



Bem pôde a Borte caprichosa^ um dia, 
A minha vida dar o finai corte ; 
Ainda assim, eu te amarei constante 
Além do tumulo, affirontando a morte. 



Gentil morena, serei feliz te amando, 
Víyo e alento-me dos sonrisos teus ; 
Consenra sempre em teu peito, virgem, 
O fogo santo dos amores meus. 



Piíiío Pereira. 



lundC 



UMA PEQUENA BREJEIRA 



Uma pequena brejeira 
Commigo yive em amores ; 
Quando passo á sua porta 
M'embriaga com mil flores. 

Menina que offerta 
Ao seu namorado 
Boquinhas, abraços, 
NSo é desagrado. 



80 TBOVADOR 

NSo me larga sen) qtt'ea dâ 
Na sua fetce mimoaa 
Um OBColo de paro amor, 
Tornaado^iBe aflaim formoaa* 



Menioa que offerta 
Ao aea namorado — etc« 



Sempre espera qáando eu passo 
Na janeila a tal pequena ; 
E quando me avista ao longe 
Com seu lencinho m'acena. 



Menina que offerta 
Ao seu namorado — etc. 



Tem delgada cinturinha, 
JS' bem feita a minha querida ; 
Quando vou beijar-lhe as tranças 
Fica quasi sem ter vida. 



Menina que offerta 
Ao seu namorado — etc. 



* TIIOVADOR 81 



MODINHAS 



BEUO A MJ^O QUE ME CONDEMNA 



Poeôa do dr. J. M. Nunes Gardá, e mosioa do snr. B. S. P. M. 



Beijo a mSo que m^ condenma 
A ser sempre desgraçado, 
Obedeço ao meu destino, 
Bespeito o poder do £ftdo. 



Que eu ame tanto 
Sem ser amado, 
Sou infeliz, 
Sou desgraçado. 



KEU SCI8HAR 



NSo creias, lilia, nSo creias 
Que eu deixei de te adorar ; 
NSo creias em yotos d'oatro, 
Crê somente em meu scismar. 
vos*- ni. 



8Í TROYADOB * 

Aperta de amor os laços, 
Da sorte quebra o ri^r, 
Vem felis ser em meus braços, 
Vem, meu anjo e meu amor. 

Se alguém com yob tremente 
Junto a ti de amor fallar, 
Nfto creias em suas juras, 
Mas escuta' o meu sdsmar. 

Aperta de amor os laços — etc. 

i 

NSo consintas nos teus lábios 
Vá mil doçuras libar. 
Foge d'esse que nSo vive 
Como eu em doce scismar. 

Aperta de amor os laços — etc. 

Foge a todos, vem a mim, 
Vem ouvir meu palpitar^ 
E deixa que no teu collo 
Tome em veras meu scisma^. 

Aperta de amor os laços — etc. 

Delicias sem fim concede 
A quem sabe tanto amar, 
Vem a meus braços depressa 
Ouvir meu terno scismar. 

Aperta de amor os laços — etc. 



Braulio Cláudio. 



TROVADOR 83 



QUANDO A AVE DA NOITE 



Quando a ave da noite 
Pavoroso esvoaçar 
Na pedra de minha lousa 
O meu somno despertar; 
Nlo cuides que o^ isolamento 
Tudo pôde consummar. 

Quando ouvires de noite 

Gemidos tristes de dor, 

Lembra-te do teu poeta 

Que dorme em campa de horror; 

O tempo tudo destróe 

Mas não destróe meu amon 



Qaando os áridos sons 
Te emlmagar no dormir, 
NSo cuides que a fria ausência 
Tudo pôde consumir; 
Meu amor foi verdadeiro, 
Jamais pôde se extinguir. 

Quando o funéreo cantor 

A noite negra apontar 

Nos desertos pavorosos 

Com medofiho suspirar; 

NSo cuides que a dura auseneia 

Pôde de ti me apartar. 



8i TROVADOR 



CANÇiO 



O FILHO FBODIOO 



Poesia do sor. Mello Moraes Filho, e musica do snr. J. S. ArvéUoe 



Delinqni, manchei na vida 
 fiôr de minlia ventara, 
E com a fironte abatida 
Busco a firia sepultura; 
Ai ! meu Deus, que negros 
Passei ao sol das orgias, 
Ao lado dos lupanares ! 
Agora minh'almA affliota 
Como a lua tZõ contrita 
\lve só de seus pezares. 



Ah! Senhor, porque tiraste 
O homem do frágil pó, 
E depois o desprezaste 
Deixando-o no mundo só? 
Sem mesmo ter um abrigo 
SenSo a morte, o jazigo, 
N^essa viagem de um dia... 
E depois, ó Deus eterno, 
Talvez, quem sabe ? o inferno 
Quando a fronte se resfria* 

Ai, meu pai I se tu souberas 
Os meus tormentos d'agora. 



TROYAiyOR 85 



Lenitivo, oh a^m, me deras 
Á magoa que me devora! 
Se já nSo tenho innocencia 
Sinto, sinto, muita ardência 
Me queimar o sangue, o peito: 
Ah! eu devo no revés 
Banhar de pranto os teus pés 
Sem phrases ao muito affecto. 

Sim, perdSo, perdfto te peço. 
Meu bom pai... Me arrependi; 
Se d'eUe eu hoje careço 
De todo me nSo perdi. 
Fui apesar um momento 
Desbotado ao desalento 
D'es6a8 paixSes de matar. .. 
Mas... não quero, pai, benigno 
Conheço, já nSo sou digno 
D'em tua morada entrar. 



RECITATIVOS 



DEVANEIO 



Amar-te é a sina doeste peito ardente 
Qae almeja crente teu amor também ; 
Amar-te é a vida que me infiltra n'alma 
A doce calma que venturas tem. 



86 TROVADOR 

Embora a sorte me comprima o peito, 
Em duro leito de bem agras dores, 
Quero adorar-te assim mesmo, -virgem, 
N'eBta vertigem de um soffror de amores. 



Mas ai, eu sei que em vBo procuro 
No meu futuro descobrir esperanças, 
Hoje meu peito de sofrer cançado, 
Somno passado, vai colher lembranças. 



D'es8as lembranças do viver d'oQtr'ora, 
Bem triste chora quem por ti suspira. 
Hoje offuscadas, só me restam dores, 
Mirrhadas flores no vibrar a Ijra. 



Quem sabe? aiada voltarSo risonhos 
Os lindos sonhos da eetaçfto florida? 
Oh ! quSo ditosa me seria a sorte 
N'este transporte? respirando a vida! 



Oh! quanto é doce a esperança linda 
Que vive ainda entre o meu aoffirer ; 
N'ella sorri-me tua imagem querida 
E dá-me a vida para amar^te e crer. 



22. da SUva. 



I 



TROVADOR 87 



O ARTISTA 



Eram ias artes, . n'ontro tempo, a base 
Que a sociedade sustentava em pé ; 
Elias traziam o socego aos povos, 
Eram dos reis a redempçSo — a fé. 



Âs artes eram necessárias — ateis, 
A bem do aso e. protecção do mundo; 
Sem ella nunca a sociedade imbelle 
Se ergueria do dormir profundo. 



N'aquelle tempo era o artista grande, 
Amavam-o muito --^ por amor das artes; 
Da fama a tuba se fazendo ouvir 
Soava — artista — por diversas partes. 



Nos régios paços onde ha só pompas. 
Onde etiquetas* por demais se avista. 
Entrava altivo, com seguros pitssos. 
Era p'los nobres rodeado o artista. 



Hoje o artista é no mundo o ente 
A quem se vota indifferença çó; 
E' semelhante ao ignoto insecto 
Que vive e morre envolvido em pó. 



Que vale o artista n'este mundo — onde 
As artes morrem por não ter cultor? 
Que vale o artista — talentoso mesmo, 
Se a sociedade não lhe dá valor?... 



88 TROVADOR 

EUa o repelle indifferente e calma, • 
Despreza o génio se o artista é pobre ; 
E oom sorriso derisor — satanioo 
Abre seus braços ao potente — ao nobre. 



NSo entendendo qne o artista é grande, 
Que, sem as artes findaria o mnndo; 
Que a sociedade viveria immersa 
N^um labjrintho por demais profundo. 



Caminha, artista, e o perdSo offerta 
A quem teu génio de ludibrio cobre ; 
Esta que hoje te repelle — um dia 
Conhecerá que o artista é nobre. 



Oualberto Peçonha. 



LUNDU 



QUEM É POBRE NÃO TEM TICIOS 



Quem é pobre nSo tem vicies, 
Deixe-se de namorar,' 
Se as moças cantam assim 
Como ]>óde o pobre amar? 



TROVADOR 89 

Fora — lhe dizem 
Âs moças todaa^ 
Ninguém comtigo 
Quer fazer bodas. 



Mas, seja o que fôr, 
Já nSo m 'embaraça, 
Agora jurei 
Amar por pirraça. 



MODINHAS 



VAI-TE, RECEIO 



Vai-te, receio, 
Pçr um momento; 
Vai-te, tormento 
Consumidor ! 



Brilha a verdade 
Entre os arcanos, 
Fujam enganos, 
Falle o amor. 



Armia, escuta 
O desgraçado, 
Apaixonado 
Meu coraçSo. 



90 TROVADOR 

« 

Tado quanto 
Emprehende, 
Hoje depende 
D'am 9Ím ou não. 



Oh! bella Armia, 
Ama constante 
Ao temo amante, 
Que falia assim. 

Anjo do céo, 
Muda-me a sorte, 
Ou dá-me a morte, 
Ou diz*me sim. 



ASTRO BO CÉO 

m 

Astro do céo, 
Rara belleza, < 
Acaso és dom 
Da natureza? 

Da naturesa* 
E's perfeiçSo, 
Aceita, oh bella, 
Meu coraçSo. 

Meu coraçSo 
A ti pertence. 
Tua candura 
A mim só vence. 



TBOYABOR 91 

A mim só vence 

r 

Teu mago olhar, 
TSo penetrante 
Faz-me expirar. 

Faz-me expirar 
Somente ao yèr-te, 
Mas quero a vida 
A pertencer-te. 

P'ra pertencer-te, 
P'ra ser ditoso, 
Quizera um sim 
Esperançoso. 

Esperançoso, 
De ti almejo 
Dos lábios teus 
Um doce beijo. 

Um dfice beijo 
Seria a paga, 
Seria a cura 
Fra a minha chaga. 

P'ra a minha cha|;a 
Inda sangrenta. 
Mas! que é isto?.*. 
Ella se ausenta! 

EUa se ausenta. . • 
Porque, cruel? 
Queres ainda 
Que eu sorva fel ? 



92 TROVADOR 

Que eu sorra fel? 
Eu te enganei. • • 
E'8 iUudida, 
Muito te amei. 

Muito te amei 
E adivinha, 
Inda te amo, 
Oh bella minha ! 



RONDINO 



a.p. 



OSOMHO 



Poeria do dr. D. J. Gk>nçalvefl de Magalh&es, e mosica 

do anr. Raphael Coelho 



Que bello sonho 
Eu hoje tive 1 
Também sonhando 
O homem vive. 

• 

Era meu leito 
O teu regaço; 
Mea travesseiro 
Teu lindo braço. ^ 



TROVADOR 



Contra o teu peito 
Ta me apertavas, 
E com teus dedos 
Me penteavas. 



93 



i 






Teu lindos olhos 
Que ratilavam, 
Celestes cbammas 
Aos meus vijbravam. 

Ás nossas almas 
N'esse momento 
Só se nutriam 
De um pensamento. 

Eu n'esse arroubo 
N8o reflectia; 
No céo pairava, 
No céo vivia. 



Porém acordo... 
Oh ! que amargura ! 
Foi mero sonho 
Minha ventura. 



Antes, sim, antes 
Nunca acordasse. 
Antes jv ou sempre 
Assim sonhasse. 



9i TROVADOR 



RECITATIVOS 



O 9010 LTRIO 



O roxo lyrío que s^inclina á boira 
L& da ribeira^ solitário e triste; 
Ai I nSo recebe, coitadinho, alento^ 
Nem já do vento seu fhror resiste. 



A philomela que no bosque undoso, 
De seu esposo lhe pranteia a morte, 
De galho enqi galho, loucamente o chora, 
Debalde implora compaixão da sorte** 



Sou como o lyrio que lhe falta a araggsm 
N'esta romagem que se chama vida I 
Bem como o lyrio me balouça o vento. 
Do sofiQrimedto, na mundana- lida I 



E qual nos bosques rouxinol plumoso 
Que desditoso, seu amor perdeu: 
Assim-410 mundo vagueando, errante. 
Busco o semblante paternal do céo. 



Assim minh'alma n'este alvÔr da vida 
Jaz envolvida n'um pezar secreto : 
Assim meu peito de descrença infinda 
Esvái-se e finda por fatal decreto. 



TROVADOR 95 

I 

O mundo ! o mondo I de baldSoB me cobre. 
Despreza o pobre qué mendiga um riso I 
Triste, coitado, sem gozar ventoras, 
Sente amargaras de um viver conoÍBol 



DEVANEIOS 

Eu quero yêr-te de esplendor cercada, 
A fronte ornada de mimosas flôtes, 
No ardor de um baile me £Edlar mansinho 
Murmurar baixinho segredando amores. 

Nos salSes da moda nSo desejo vêr-te 
Toda embeber-te em pensamentos vSos, 
Nem vêr um outro receber sorrindo 
O ramo lindo de tuas níveas mSos. 

Na valsa, oh beUa, quero vêr*-te exangue 
Curvada e langue sobre o peito m^u, ^ 
Arqueando tremula de febril cansaço, 
Qomprimir-me o braço sobre o peito teu. 

No ardor da valsa perpassar ligeira 
Voar faceira eu não te vejA, ai, nSo ! 
Sobre outro peito .descançi»ndo a fronte 
Qual flor do monte que pendeu p'ra o chSo. 

Quando o, baile em meio mais prazer encerra 
Vêr-te quizera abandonar as salas, 
E a sós commigo te isolar contente ^ 
Prendendo a mente em au^orosãs fallaa. 



96 



TROVADOR 



Eu qaero yêr-te de esplendor cercada, 
A fronte ornada de mimoBas ^ôres, 
No ardor de am baile me fallar mansinho, 
Murmurar baixinho segredando amores. 



C, da Rocha, 



LUNDO 



o SÉCULO DO PROGRESSO 



(voto luidó) 



Para ser cantado péla musica do landú —Sitounoê no êteulo doa Itaet 



Hoje tudo n'este mundo, 
Faz a gente admii^r. 
Cousas novas que agparecem 
Que nem sei vos explicar I 



A, E, I, O, U, 
Queiram todos conhecer. 
Essas cousas que appareoem, 
Para o povo se entreter. 



TROVADOR 97 



Temos bailes sem cessar, 
Para o povo galopar, 
E ruas novas se abrem 
Para o povo gassear. 

^ Ba^ be, bi, bo, bu — etc. 

Cada dia só se vê 
Novas mas se calçar; 
E baixado o ministério 
Eis as ruas a chorar. 

Ça, ce, ci, ço, çu — etc. 

A pedirem, coitadinhas, 
Que nSo estejam só paradas, 
Que assim entre o ministério 
Para serem bem calçadas. 

Da, de, di, do, du — etc. 

* 
Tantos entes pelas ruas, 
Com caixSes a carregar, 
A gritareín que atormenta : 
Ohl Preguez, quer engraxar? 

Pa, fe, fi, fo, fii — etc. 

Uma rua tSo antiga, 
Bem gravada na memoria; 
Matacavallos já chamada 
Biachuelo é hoje á gloria I 

Ga, gue, gui, go, gu— etc. 
VOL. m. 



98 TROVADOR 

Hoje tudo é caso ^oyo, 
Faz a gente admirar, 
Ha também soas couainhas 
Qae nos ím bem espantar. 

• 
Ja> je» ih JOi ju— etc. 

Como seja a dura ordem, 
Que se dea sem olvidar, 
A nosso povo, coitadinho, 
Para a guerra já marchar. 

La, le, li, lo, lu — etc. 

Tudo isto só por causa 
Do tjranno do Lopez; 
Que anda o povo tristemente 
A chorar o seu revez. 

Ma, me, mi, mo, mu — etc. 

Deixa estar que este brinquedo, 
Bem depressa ha-de acabar; 
Hei-de ter meu gostosinho 
De vâr o Lopez a chorar ! 

Na, ne, ni, no, nu — eto. 

Ji nSo pôde a humanidade. 
Seu passeio desfrutar ! 
Pois encontra quem lhes diga 
Tenha a bondade de eseutar : 

• 
Pa, pe, pi, po, pu — etc. 



TROVADOR 99 



O senhor traz seu documento, 
Que elle Urre assim da praça? 
Se nSo traz responda já, 
Pois nos serve bem a caça. 

Ra, re ri, ro, ru — eto. 

Diz o pobre, coitadinhO| 
Eu só vim a passear, 
Não sabia se os senhores 
Tinham ordem de caçar ! 

Sa, se, si, so, su — 'Otc. 

Pois então, meu amiguinho. 
Me desculpe o proceder; 
Acompanhe-o, oh camarada, 
Queira já o recolher. 

Ta, te, ti, to, tu — etc. 

O governo assim me manda. 
Vá cumprir o seu dever, 
Recrutando os probresinhos 
Que nSo tem de quem valer. 

Va, ve, vi, vo, vu — etc. 

Cá 08 ricos eu nSo mexo, 
Tenho medo de sojSrer 
De seus pães atrevimentos 
Que me podem offender I 

Xa, xe, xi, xo, xu — etc. 



100 TROVADOR 

I 

Tudo isto a quem devemos? 
Eu pergunto — me diz nSo sei, 
Os ricos nSo soffrem penas, 
Os pobres tem dura lei ! 



Za, ze, zi| ZO) zu, 
Corram todos a venceri 
Em geral corram ás armas 
Quero o Lope^ a tremer! 



Adsodato Sócrates de Mello. 



MODINHAS 



DE Tio LONGE OUVIR NÃO PODES 



De tSo longe ouvir nSo podes 
O meu triste suspirar ! 
Quanto eu soffro n'esta ausência 
NSo sabes avaliar. 



Sim, tu nSo podes 

Avaliar, 

O quanto é triste 

O meu penar. 



Por um bahiano. 



TROVADOR 101 



quá!ndo em meu peito rebentar-se a fibra 



Poesia do snr. Alvares de Azevedo, e musica do snr. J. Bufino 

de O. Costa. 



Quando em meu peito rebentar-se a fibra 
Que o espirito enlaça á dôr yehemente, 
HSo derramem por mim em tristes pálpebras 
Uma só lagrima de paixSo demente. 



E nem desfolhem na matéria impara 
A flor do valle, em que adormece o vento; 
Não quero que uma só nota de alegria 
Se cale por meu triste passamento. 



Eu deixo a vida como deixa o tédio 
Do deserto o poente caminheiro, 
Como as horas de um longo pesadelo, 
Que se desfaz com o dobre de um sineiro. 



Como um deserto de minh'alma errante, 
Onde um fogo insensato a consumia; 
Só levo uma saudade d^esses tempos 
Que amorosa illusão me embellecia. 



Só tenho uma saudade d^essa sombra, 
Que eu sentia velar nas noites minhas, 
É de ti, minha mSi, pobre coitada, 
Que por minha tristeza te definhas. 



i02 TROVADOR 

De meu pai, e de meus únicos amigos, 
Poucos, bem poucos, e que nZo zombavam, 
Qqando em noites de febre doudecido 
Minhas pallidas crenças duvidavam. 

Só tu, ob mocidade sonhadora, 
Ao pallido poeta doestas flores. 
Se viveu foi por ti, e d'esperanças, 
De na vida gozar de teus amores. 

Se uma lagrima as pálpebras me inundam, 
Se um suspiro no seio treme ainda, 
É pela virgem que sonhei, que nunca, 
Nos lábios me encostou a face linda. 

Beijarei a verdade santa e nua, 
Verei crystallisar-se sonho amigo ! 
O' minha virgem dos errantes sonhos, 
Filha do céo, eu vou amar comtigo ! 

9 

Mas desvanece o meu leito solitário 
Na floresta dos homens esquecida ; 
E á sombra de uma cruz escrevam n'ella: 
Foi poeta, sonhou, e amou na vida. 

Sombra do valle, noites das montanhas 
Que minha alma cantara e amara tanto, 
Protegei o meu corpo, abandonado, 

E no silencio derramai-lhe um canto. 

« 

« 

Mas quando preludia a ave da aurora 
E quando á meia noite o céo repousa, 
Arvoredo do bosque, abri os ramos, 
Deixai-me a lua pratear*me a lousa. 



tROVADOft 



103 



CANÇÃO 



O Exnjo 

t 

Poesia do snr. A. Gonçalvee Dias, e musica de »»« 

Minha terra tem palmeiras 
Onde canta o sabiá ; 
ÂB aves que aqai gorgeiam 
Não gorgeiam como lá. 

Nosso céo tem mais estrellas. 
Nossas várzeas tem mais âôres; 
Nossos bosques tem mais vida, 
NoBsa vida tem amoles. 



Em sciamar — sósinho — á noite, 
Mais praser encontro eu lá ; 
Minha terra tem palmeiras 
Onde canta o sabiá. 



Minha terra tem palmeiras 
Que taes nSo encontro eu cá; 
Em scismar — sósinho — á noite, 
Mais prazer encontro eu lá; 
Minha terra tem palmeiras 
Onde canta o sabiá. 



KSo permitta Deus que eu morra 
Sem que ea volte para lá, 



10 i TROVADOR 

Sem que eu desfrute os primores 
Que eu nSo encontro cá, 
Sem que inda aviste as palmeiras 
Onde canta o sabiá. 



RECITATIVOS 



AO VÊL-A 

Ao vêl-a — gelou-se-me o sangue nas veias! 
Prenderam-me os passos, immovel fiquei ! 
NSo era mais eu — nSo era — quem via... 
Sem luz, sem sentidos, sem alma me achei ! 

Tal era a pureza das faces mimosas ! 
Tal era dos olhos o doce fulgor ! 
Tal era o sorriso dos lábios de rosa! 
Tal era a candura da virgem de amor. 

Quizera dizer-lhe, baixinho, em segredo : 
Tu, fada d^encantos, vieste doa céos? 
Mas tremulo, a susto, meu sêr emmudece. 
Nem animo tive de olhal-a, meu Deus ! 

TSo cândida, e linda, de tantos encantos, 
Excede as estrellas no intenso brilhar! 
NSo é creatura nascida na terra, 
E' Vénus sahindo da espuma do mar. 



f 



TROVADOR 105 

Um ai de surpreza do labio escapou-lhe 
Ao yêr-me, ao olhar-me tSo perto de si ! 
Qae — ai — qae harmonia, que nota divina! 
Meu Deus, H^este instante, porque nSó morri? 



Depois... como aquelle que salie d'um delírio, 
Meus trémulos olhos desvio do chSo, 
Embalde a procuro no espaço infinito... 
Já tinha de todo fugido a visSo ! . • • 



JoȎ Luiz Caetano da Silva. 



A. • • 



Meu peito soffire, sufibcando dores, 
Cândidas flores que *definham n'alma ! . . 
Meu peito sojBTre em cruel martyrio 
Atroz delírio que jamais tem calina ! • • . 



Do amor extremo eu frui delicias. 
Doces caricias de celeste Archanjo. • • 
Transportes d'alma se ateavam bellos, 
Puros, singelos, qual sorrisos de anjo ! 



UlusSes perdidas do perdido amor ! . • . 
Murchou a flor que me prendia á vida I 
Sonhos dourados de um porvir immenso, 
Em Bo£frer intenso reverteu a infida. •• 



106 TROVADOR 



Hoje descrido — sem vigor meoft braços, 
Desfaz os laços que amor prendea ! • • • 
Do sentir puro a intensa dôr 
DesfiiUia a flfir que também — morren ! • . 



Mas ah t • . • nSo fujas, que por ti a vida 
Vejo perdida sossobrando 4 dôr!... 
NSo fujas, — n3o — que sem ti minValma 
Jamais é calma de tSo santo amorl... 



Este amor puro foi por Deus dictado 
Ao ente amado que me faz soffrer ! . . . 
Mas ah!... por ella tudo sSo encantos, 
Amargos prantos que me faz morrer ! . . . 

Meu peito soffre, sufFoeando dores, 
Cândidas flores que definham n'alma ! •'. . 
Meu peito soffre em cruel martyrio 
Atro delirío que jamais tem calma ! . • • 



S. Jm S, 



ià 



r- 



TROVADOR lOT 



LUNDU 



A UVADEIRA 



Poesia do snr. M. M., e musica do sor. Aryellos 



N'e8te mando a lavadeira 
NSo podo ter coração, 
Seus amores devem ser 
A gamela e o sabSo. 



Yôyô me desculpe, 
NSo seja teimoso, 
Quem é que recusa 
Namoro rendoso? 



O meu lindo estudantinho 
Se nSo tem roupa lavada, 
• Diz que fui ver freguezia 
Por entre a rapaziada. 



Yôyô me desculpe — etc. 

Mas se ás vezes eu encontro 
Mocinhos apacatados, 



108 TROVàDOR 

NSo lhes hei-de dar com gosto 
Os botões mais bem pregados? 

Yôyô me desculpe — etc. 

EntSo sim, lá mesmo a casa 
A roupa lhe vou buscar; 
Elles dSo-me, em troca d'isso, 
O dobro, se a fôr levar. 

Yôyô me desculpe — etc. 

Âflsim vou passando a vida 
Suave como ninguém, 
Pois d^esses moços assim 
A roupa nem suja tem. 

Yôyô me desculpe — etc. 

E affirmo que apesar 

De nSo ser má lavadeirai^ 

Vale mais o meu sabSo 

Que a gomma da engommadeira. 

Yôyô me desculpe — etc. 



TROVADOR 109 






MODINHAS 



EU VIVO, MAS OH I NÃO VIVOJ 



Eu viyo, maa oh ! nSo títo 
Com quem qaizera viver, 
Vivo só, vivo penando, 
Víto sempre a padecer. 

A padecer 
E a penar, 
Ai! ai! não posso 
Tal supportar! 

Meu Deus, se viyer nSo hei-de 
Com quem quizera viver, 
Matai-me por piedade. 
Que assim vivo a morrer! 



A morrer vivo. 
Por nSo poder 
Com quem desejo 
Junto viver I 



H2 TROVADOR 

Pôde o frio da mortalha 
Os meus affeotos em dôr ; 
Mas ha-de ser sempre firme 
Na minh'alma o teu amor* 

Sem ti eu yíyo chorando — etc. 

AdeuS) oh ! anjo formoso, 
Meu amor, minha illusBo; 
Do bardo pleno de amores 
Aceita-lhe o coraçSo. 

Sem ti eu yíyo chorando — etc. 

Adeodato Sócrates de Metlo* 



ROMANCE 



CANTEHOS UM SIM 



(SCHEHZZO) 



Poesia do snr. dr. D. J. Gronçalves Magalh&es, e musica 

do snr. Baphael Coelho 



Oh anjo que inspiraa 
Palavras de amor, 



' 



TROVADOR 1 1 3 



E abrazas o peito 
Dô amante cantor, . 
Da espkera celeste 
Ah yem, vem a mim, 
Cantemos, oh anjo, 
Cantemos um sim. 



Um sim em seos lábios 
Ouvi murmurar, 
TSo doce, tão meigo. 
Qual brando vilirar 
De uma harpa tocada 
Por um seraphim. 
Cantemos, oh anjo. 
Cantemos um sim. 



Desde esse momento 
O meu coraçSo 
Tranquillo palpita 
Sem mais oppressSo. 
De Urania a pi^layra 
Áos Santos poz fim, 
Cantemos, oh ai\jo. 
Cantemos um sim. 



Oh anjo, teu canto 
1^0 pôde exprimir 
O enlevo divino 
Que um sim faz sentir! 
Debalde te invoco; 
Mas ah ! mesmo assim 
Cantemos, oh anjo. 
Cantemos um sim. 



Toi.. m. 8 



114 TROVADOR 



BEGITATIYOS 



SDPPUCA 

(bscxtatito bacbo) 

Jesus, attende ás ardentes preces 
Que ao céo t'envio n'e8te santo dia. 
Perdão, Senhor, para mim, culpada, 
Que á teus pés supplico por tua agonia. 

■ 

PerdSo Jesus, para a triste afflicta 
Que hoje chora com pèzar profundo, 
Perdão p'ra ella que em ti confia 
Porque és, Senhor, o Salvador do mundo. 

Sei que mereço tua santaira. 
Que sou indigna de tua bondade. 
Porém contrita de te haver magoado 
Eis os meus rogos — tem de mim piedade. 

Perdoa, Senhor, os duros aggravos 
Com que na vida te tenho offendido, 
Perdoa, Senhor, se meu peito ingrato 
Teu. santo amor tenha até esquecido. 

■ 

Jesus, perdoa, pela Santa Virgem, 
Pelos martyrios da tua Paixão, 
Perdoa, á misera que de angustia cheia 
Com fervor supplíca — Jesus, compaixão. 






TROVADOR 115 



Perdão espero e perdSo terei. 
Benigno Pai, que por nds morrendo, 
AsBáfl proraste que a toa miaaSo 
No mondo era — perdoar soffirendo! 



' 
t 



Candiida habd de Pinko Cotrim. 



I 

■ 



DEUSI... 



P'ra qualquer parte qu'eu revolva os olhos 
Yejo myiterioB e preceitos seus; 
Na flor, no prado, no perfume — em tudo 
£u reconheço teu poder — meu Deus ! 

Pela manhS, no alvorecer do dia. 
Se do sol vejo radiante luz, 
Minh'alma se enche de prazer e jubilo 
Beconhecendo teu poder — Jesus! 

Se á noite vejo no Empjreo a lua 
Campeando envolta em mortal palor, 
Hinh'alma é triste ao contcmplal-a assim 
Uas reconheço tBU.podier — Senhor! 

Ao vâr o brilho da soentelfaA honriyel 
Esclarecer o nebuloso céo^ , \ 

^ j^go vêr a tua imagem — Deus 
Aquém de um negro,, condensado véo* 



116 TROVADOR 

Ku recoxiheço toa poder no embate 
Das espumantes e continuas vagas, 
Que lactam rijas n'um cruel gemer 
Em nossas bellas, arenosas plagas. 

Eu reconheço teu poder em tudo 
Que chegar pôde aos sentidos meus, 
E de joelhos a teus pés, eu juro 
Que reconheço teu poder — meu Deus! 

Quem ha que possa duvidar que exista 
Um Deus potente, caridoso e grande? 
Que lá no templo em oraç3es ferventes 
O seu poder e magestade expande? 



Gualbêrto Peçonha, 



LUNDC 



mo TE RIAS, OH MENINA 
Lundu brasileiro pdo snr. dr. J. M. M. Gaveia 

N8o te rias, oh menina, 
Que teu riso é venenoso, 
O amor dos teus agrados 
Me foi sempre suspeitoso. 




TROVADOR 117 



Vai-te, oh menina, 
NSo te lamentes, 
Qae bem conheço 
Como tu mentes. 



Em qnanto por ti chorei 
Cmel foste p'ra commigo, 
Cançado d'an)or sem fracto 
No silencio achei abrigo. 

Vai-te, oh menina — etc. 

E' amor tSo transitório 
Que achei loacnra amar, 
Pois se hoje amor dá risos, 
Amanhã nos faz chorar. 

Vai-te, oh menina — etc. 

Nlo procurei a ventura 
Mas emfim sou venturoso. 
Rejeitando teus agrados 
Eu me vejo mui ditoso. 

Vai-te, oh menina — etc. 

E' das bellas rejeitado 
Quem lhes nSo captiva a alma. 
Mas eu qu^as bellas rejeito 
De amante nSo quero a palma. 

Vai-te, oh menina — etc. 



118 TROVADOR 



MODINHA 



MORENA 



Eu adoro unfl olhos pretos, 
O4 olhos de uma morena; 
Mas esta mulher ingrata 
De meu yiyer não tem pena. 

Tem pena, meu anjo, 
De um triste amante 
Que por ti suspira 
A todo o instante. 



Vem, Emilia, nSo tardes, 
Abrandar esta paixão ; 
Vém yêr quanto é triste 
As mágoas de um coração ! 



Só tu, meu anjo. 
Com teu amor 
Dás allivio 
Á minha dôr. 



Sê me nSo amas, ingrata, 
Dá-me já a sepultura, 
JPois já basta de soffrer 
Esta pobre creatura. 



TROVADOR 119 



Áttende, Emília, 
A minha dôr, 
Escuta o pranto 
De teu amor. 



Esquece, mulher ingrata, 
De quem tanto te amou, 
NSo poBsb mais esquecer-me 
De quem a vida me roubou. 



Tem pena, meu anjo, 
De um coração. 
Morena tem dó, 
Tem compaixSo. 



B, Júlio Tavares. 



RECITATIVO 



OHI QUE VIDAI 



Que triste vida ! sem gozar ventura 
Quanta tortura, amolaçSo, príyança I 
Que dôr d^estomago meu viver consome, 
Ah quanta fome me devora a pansa ! 



ÍÍ0 TROTADOR 

E nem sequer — ao remexer no bolso 
Encontrar posso um desgarrado bago I 
NSo ter um nickel p'ra comprar* . . empada 
E um camarada nSo dizer-me. • • pago ! 

Ser estudante! que desejo informe, 
Sonho disforme que nos faz tremer! 
Ter ao seu lado um c Lacroix » famoso, 
livro horroroso... e obrigado a lêr ! 

Vèr um c Ganot » a nos fazer caretas 
E nSo ter petas p'ra contar ao lente ! 
Vêr um Guilmin a nos massar insano 
E o fim do anuo a apavorar a gente i 

Vâr a mezada evaporar-se inteira 
Logo á primeira esbodegada empresa; 
Passar com fome d'um hotel á frente 
E c olhar » sóm«nte p'ra tSo lauta mesa. • . 

Seguir c tinindo», caminhar calado 
Sem ter jantado, nem café tomar. • . 
Ouvir bem perto uma « sanfona > ingrata 
Que nos maltrata, que nos vem massar. 

JSÍSo comprar velas por nSo ter dinheiro 
E o mez inteiro vâr — em frente ainda ; 
Passar as noites a formar. castellos 
Nos sonhos bellos d'uma esperança infinda. 



E de repente ouvir bater á porta, 
Oh! quem se importa co 'este -pobre invalido? 
' Mandar entrar a quem nos quer tâo cedo 
E olhar com medo, o que é « cadáver » pallido ! 






TROVADOR 121 

c Cadaror > lirido d 'um € sepolchro » á beira 
Sabem « que cheira ? » o aluguer do ràess. 
Inda se atreve a 1103 pedir dinheiro ! 
Pobre sendeiro!... lá perdeu o fregnez. 

Sentir desejo de beber cerveja 
E sem que veja quem nos pague a dita ! 
Ter saca-rôlhas e nSo dar-lhe emprego ! 
Vou p6l-a ao « prego » — inspiração bemdita f 

Passar revista a quanto em bolso existe, 
Cigarros. •• viste! nem sequer um só! 
Oh ! digam todos que o cigarro adoram 
Se entSo não choram que até mette dó. 

Ter por mobilia — uma cadeira velha, 
Por tecto — a telha d'uma casa suja; 
Sentir — na cama — de gozar desejos...' 

Ter persevejos em lugar da c cuja. . . » 

• 

Lêr ao luar e ao lampeSo da esquina I 
Que triste sina ! que viver ingrato ! 
E a fomej... a fome a nos trazer tristeza, 
NSo ter na mesa nem sequer um prato ! . . • 

Que triste vida o estudante passa ! 

NSo é c chalaça 9, é peor que a morte I 

Oh me respondam que poder resiste 

Ao império triste de tSo triste sorte ! ? • 

NSo ter mais livros p'ra levar ao^« sebo! » 
(Que 08 que recebo — a e^te amigo entrego;) 
NSo ter ao menos u :i relógio usado 
Para apressado pendurar no prego. «^ 



122 TROVADOR 

Dormir pensando n'ama rirgem bella, 
Sonhar com ella. • . conseguir. . . desejos. . • 
Depois desperto. .. o que o amigo julga? 
Era orna pulga que me dava beijos. 

Emfim. . • eu amo este viver errante. • . 
Ser estudante para ser — doutor! 
Depois dar couces na sciencia, em tudo ! 
E' grande estudo, se me faz £Etvor ! 

Lograr aos lentes, ao bedel comprar, 
Sempre < coar » a sabbatina inteira, 
Crê, meu amigo, a approvaçSo é certa : 
Ninguém se aperta quando tem c parteira. » 

E viva, viva o pandegar constante ! 
Viva o estudante que nSo leva ponto ! 
E quando eu — velbo me chamar um dia 
Esta alegria com pezar desconto ! 

A noite chega — e eunSo tenho vela ! : 
. Forte mazella ! que &zer ? « rezar ? » 
Valha-me isto, que a nSo ser assim 
NBo sei que fim, a estes versos dar. 



TROVADOR 123 



LUNDU 



É TARDE 

Musica de J. N. Monteiro 

É tarde, pois sim, bem sei 
Que Yotoês sSo mui falsarias, 
Mil protestos todas juram 
. E por fim tomamHse varias. 

Todas vossês sSo assim, 
. EstSo. sempre a n^o querer, 
E depois do laço armado 
N'elle logo se vSo metter. 

A mulher é bicho frágil 
E fácil de convencer ; 
Só nSo é fácil fazel-as 
O seu orgulho abater. 

Todas vossas sSo assim — etc. 

. Eu renego de tal bicho 
Por trazer sal na moleira, 
Fujo d'ellas por ter medo 
De cahir na ratoeira. 

Todas vossês sSo assim — etc. 



124 TROVADOR 

Tado no mondo se esrai, 
Até a própria razSo, 
Só nXo 86 esvai a lembrança 
Qae eu trago no coraçSo. 

Todaa vossès eSo assim — etc* 



• ■ 



A. C. de Oliveira Femandee, 



MODINHA 



LÁ ir AQUELLE DESERTO 



Musica da modinha — Gigante de pedra 



l n^aqneHe deserto tristonho 
Onde ouço o gemido do mar, ^ 
Oceoltando traiç5es que me ferem, 
Quero só minhas mágoas chorar. 



L& mesmo irei osquecer-me 
Da perjura, da impia e da ingrata, 
Da donzella que aasim me despreza, 
Da mulher que o sorriso me mata. 



1 



i 



TROVABOK 125 



Minhas queixas, meus ais e suspiros 
Subirão á etherea mansSo ; 
Pois na terra nSo acho um vivente 
Que console esse meu coraçSo. 

Se desejas, oh Mareia, saber 
Este sitio de tanta doçura, 
Na sombria morada dos mortos 
Acharás a minha sepultura. 

• 

Se acaso tu por mim chorares 
Lá da canSpa te reaponderSo, 
Ai nSo chores, que existo mesmo 
Sepultado lá na escuridSo. 

Ferdoai-me, meu Deus, se blasphemo, 
Já nSo posso esta vida conter, 
Se pedindo a morte é peccado 
Eu Boffirendo nSo ^ero viver. 



Adeus pátria, adeus mundo, adeus tudo, 
Vivam todos a quem amo na terra, 
Becebei essas trovas sentidas 
De um soldado que veio da guerra. 



126 TROVADOR 



RECnATIVOS 



AMEII 



Amei as flores que me ornavam o berço, 
Amei 00 cantos de uma mSi querida, 
Amei a virgem que aqueceu-m^ o culto, 
Amei o anjo que me deu a vida. 

Amei do lirio a candidez tSo pura, 
Amei da harpa o sentido harpejo, 
Amei as flores que se inclinam tristes, 
Amei da virgem o ardente beijo. 

Amei da rola a tristonha queixa. 
Amei sorrindo o nascer da aurora, 
Amei o lago todo crespo ao venio, 
Amei a bocca que beijei outr'ora. 

Amei das salas o trajar e galas. 
Amei os risos, os festSes, as flores, 
Amei a orchestra que morria em ais. 
Amei da morte seus cruéis horrores. 



Amei a gloria com loucura e anciã, 
Amei da taça o calor do vinho. 
Amei o collo que aqueceu-me a fronte. 
Amei das matas o gentil pombinho. 



TROVADOR 1S7 



Amei do piano o correr dos dedos, 
Amei da estrada o anciSo curvado, - 
Amei da vida o sorrir fingido, 
Amei do jogo o cahir do dado. 

Amei do orphSo a sentida prece, 
Amei da noiva o coroa pura. 
Amei dos bailes o rodar da valsa, 
Amei as letras de uma sepultura. 

Amei a tocha accendida ao morto, 
Amei dos lábios o palor da morte, 
Amei do morto o contrahir das faces, 
Amei do preso o carpir da sorte. 

Amei do pobre o esfarrapado manto, 
Amei da lua a brilhante luz, 
Amei a flauta que em trinados morre. 
Amei o martyr que morreu na cruz. 

Amei das vagas o chorar sentido, 
Aínei de. Deus o poder tão forte. 
Amei o lirio debruçado ao longe. 
Amei a virgem que me deu a morte* 



FLORES DO CORACiO 

A aurora assoma — e a terra doma 
Co'a extensa coma de rubra côr, 
N'esta hora maga suspira a vaga, 
E a briza afaga no ramo a flor. 



It8 TROVADOR 

Hora de encantos que só tem cantos, 
Ternos qaebrantos'que amor produz, 
Além serpeia argêntea veia, 
E a ave gorgeia saudando, a luz. 

• 

Que primavera !•• . — ai! quem me dera 
Qual doce hera que se une á flor, 
*Vêr-me em teus braços, preso em teus laços 
E em teus regaços yiyer de' — amor... 

Foge a belleza, passa a nobreza. 
Fica a pobreza se a parca vem ! . . • 
Mas terna chamma que amor iniSamma 
Vai com quem ama surgir além. 

A aurora assoma e a terra doma 
Co'a a extensa coma de rubra côr, 
N^esta hora maga suspira a vaga, 
E a briza afaga no ramo a flõr. 

Vem pois, donzella^ que amor nos yela 
E a briza é bella e é manso o mar, 
Nosso barquinho alli sósinho. . . 
Parece um ninho que aguarda o par. 

Lá n'essas aguas dir-te*hei as firagoas, 
A dôr e as mágoas que sinto em mim, 
E aos rumorejos dos meus harpejos 
Quero 6m teus beijos da vida o fim. 

Hora de encantos que só tem cantos, 
Temos quebrantos que amor produz, 
Além serpeia argêntea vòia, 
E a ave gorgeia saudando a luz. 



TROVADOR r29 



Teus olhos bellos cansam anhelos. 
Sim I . . • quero vêl-os cheios de amor. 
Vibrar um raio solto a soslaio, 
Temo desmaio de luz de — amor!... 



Na face pura, que formosura... 
Quanta doçura tens no fallar, 
Que morbideza, que singeleza. 
Quanta nobreza no teu amar ! 



Que primavera ! . • . ai ! . . • quem me dera 
Qual doce hera que se une á fiôr, 
Vêr-me em teus braços, preso em teus laços, 
Em teus regaços viver de — amor. 

No doce riso mais indeciso 

Que paraíso se vê brilhar ! 

Que moreninha I . . . como ella vinha; . . 

Era a rainha do meu pensar ! 

Como se agita tua alma afflicta, 
Porque palpita teu seio em ãôr? 
Tiveste medo que o segredo 
Bompesse tredo do nosso amor?... 






(7. Abreu, 



VOL. lU. 



130 TROVADOR 



CANÇÃO 



A MULATA 



Eu sou mulata yaidosa, 
Linda, faceira, mimosa, 
Qaaes muitas brancas nSo sSo; 
Tenho requebros mais bellos ; 
Se a noite sSo meus cabellos, 
O dia é meu coraçSo. 



Sob a camisa bordada, 
Fina, tSo alva, arrendada, 
Me treme o. seio moreno; 
E' como o jambo cheiroso 
Que pende ao galho formoso 
Coberto pelo sereno. 



Nos bicos da chinelinha. 
Quem vôa mais levezinha, 
Mais levezinha do que eu? 
Eu sou mulata tafula, 
No samba rompendo a chula 
Jamais ninguém me yenceu. 



TROVADOR 131 



Ao afinar da viola, 
Qnando estala a castanliola, 
Ferve a dança e o desafio, 
Peneiro n'um moUe anceio, 
Vou mansa n'um bambaleio 
Qual vai a garça no rio. 



Aos moços todos esqniva, 
Sendo de todos captiva, 
Demoro os olhares mens: 
Mas, se murmuram i maldita! 
Bravo, mulata bonita ! 
Adeus, meu yôyô, adeus. . . 



Minhas yáyás de janella 
Me atiram cada olhadella, 
Ai dá-se! mortas assim... 
E eu sigo mais orgulhosa, 
Como se a cara raivosa 
NSo fosse feita p'ra mim* 

Na fronte ainda que baça, 
Me assenta o troço de cassa. 
Melhor que c'rôa gentil; 
E eu posso dizer ufana. 
Que qual mulata bahiana 
Outra não ha no Brazil. 



Kos meus pulsos delicados 
Trago coraes engrazados - 
Em contas d'ouro divinas; 
Prendo o meu pano & cintura,. 
Que rola pela brancura 
Das saias de rendas finas. 



s 



132 TROVADOR 

Se arde um desejo agora, 
De meiíB affectoa senhora, 
Sei enoontral-o no amor; 
Minh'alma é qual borboleta, 
Que YÔa e vôa inquieta 
Pousando de flor em flor. 



Meus brincos de pedraria 
Tombam, £Eizendo harmonia 
Com meu cordSo reluzente; 
Na carrentinha de prata, 
Tem sempre e sempre a mulata 
Figuinhoê de boa gente. 



Eu gosto bem doesta vida, 
Que assim se passa esquecida 
De tudo que é triste e vSo; 
Um dito repinicado, 
Um mimo, um riso, um agrado 
Captivam meu poraçSo. 

Nos presepes da Lapinha 
Só a/nulata é rainha, 
Meiga a mostrar-se de novo^ 
Da sua face ao encanto 
Vai-se o fervor pelo Santo, 
P'ra o danto nSo olha o povo ! 

Minha existência é de flores. 
De sonhos, de luz, de amores. 
De amores que nSo tem fim; 
Escrava, na terra um dono. 
Outro no céo sobre um throno, 
Qu'é meu Senhor do Bomfim. 



I 



• 



TROVADOR 133 



Na fronte, ainda que baça. 
Me assenta o troço de cassa, 
Melhor qne c'rÔa gentil ; 
E eu posso dizer ufana, 
Que qual mulata bahiana 
Outra nSo ha no Brazil. 



Mello Moraes. 



RECITATIVO 



ELOAH DO AMOR 



Linda, mais linda que o sorrir d'aurora. 
Doce, mais doce que o fulgor dos céos. 
Pura, mais pura que o scisjnar dos anjos. 
Cândida pomba do pomar de Deus ! 

Branca, mais branca que a nitente espuma,' 
Langue*, mais langue que o langor da lua ; 
Pérola fina a^ resvalar no espaço, 
Gotta de luz que n'amplidão fluctúa ! 

VisSo das noites encantadas, ledas, 
Risonha e santa, de sonhares magos ; 
Crença que alenta, fascinante estrella. 
Que beija flores, se reflecte em lagos ! 



134 TROVADOR 

Quem deu-te os risos das travessas fadas, 
Falias e cantos das gentis sereias? 
Peio de rosa tSo medroso e casto. 

Quem deu^-te encantos divinaes, sublimes, 
Dons tSo mimosos, tSo tremido seio? 
Voz doce e meiga qual cahir d 'orvalhos 
Que excita o peito a palpitar d'enleio? 

Dá-me essas flores que teus lábios brotam. 
Quando se abrem á modular o canto ! 
Dá-me essas pérolas que teus olhos vertem, 
Quando rebenta crystallino pranto. 

« 

Quero guardal-as n'uma urna santa, 
Quero guardal-as n'um secreto altar, 
• Formar diademas p'ra cingir a fronte, 
Presa das febres de penoso amar ! 

Âh! rola insonte das campinas verdes, 
Dá-me essas flores que atiraes ao chão; 
Quero aquecel-as no calor dos lábios, 
Cobrir as chagas da voraz paixão ! 

Ah ! lirio verde do regato á beira 
Pendido á briza, á viração do norte, 
Banha minh^alma de esperança e crenças, 
Antes que tombe ao vendaval da sorte ! 

Linda sereia que tem mel na voz, 
Archanjo louro de cerúleos olhos, 
Ampara o lenho do tufòo medonho,. 
Antes que o lancem sobre o mar d^escolhos. 



TROVADOR 135 



Doce Eloah ! dos meus amores falia 
Á tarde amena, quando o sol s'enyolve; 
No manto escuro que desdobra a noite, 
A meiga estrella que no céo se move. 



Tenho um abysmo no trevoso peito ! 
Se olhares, anjo, luz terás no fundo ! 
Ah! brilha, brilha, incarnação do bello. 
Jorra scentelhas n'este cabos profundo! 

Palpita a torra... a natureza anceia... 
Astros palpitam sob os céos azues ! • . • 
Sorris — as harpas nas espheras tremem! 
Sorris — o espaço mais derrama luz ! 



LUNDC 



A MULATA CÕR DE JAMBO 



Derreto-me, babo-me todo 
Pela mulata. c6r de jambo; 
Se a vejo, nSo me acoommodo. 
Té fieo das pernas bambo ! 

t 

E, se entSo ella me ousa 

Um temo olhar despedir, 



1 36 TROVADOR 

Fico eu qual maripoBa, 
Estou em chammas a cahir ! 



Tem tal feitiço. a mulata, 
£' tSo grata a sua côr, 
Qu'ao vêl-a, fica em cascata 
Minha testa, com o suor I . . . 



Se ella diz-me: — «yôyô, 
« Gosto munto di vossê ; » — 
Enlevado ás nuvens vou, 
Caio na terra de pé ! 



Se arrasta o chinellnho 
Da cidade, pelas ruas, 
NSo Bocégo um instantinho, 
L& anda nas aguas suas ! 



Inda, se vejo ella ir 
Se mexendo, e a gingar ; 
Fico eu quasi a dormir, 
Vou p'ra casa me deitar. 



Um dia, como, nSo sei; 
EUa cahiu-me nas unhas. 
Gritou logo: — Aqui d'el-rei, 
Tomou suas testemunhas ! 



Tive por fim de largal-a 
P'ra não ir para o chilindró ; 
Mas vivo sempre a choral-a. 
Pela mulata tenho dó ! 



TROVADOR 137 



Derreto-me, babo-me todo 
Pela mulata cor de jambo ; 
Se a yejo, n2o me accommodo, 
Té fico das pernas bambo ! 



F. P. Lisboa. 



MODINHAS 



HERVA MIMOSA DO CAMPO 

« 

Herva mimosa do campo 
Tu és o retrato meu, 
Se a vida perdes em breve 
Eu sigo o destino teu. 

EBTSIBILHO 

Eu na serie dos humanos, 
Tu no reino vegetal, 
Ambos soffremos o golpe 
Que extingue o triste mortal. 

Mas na perda da existência 
Sua vida é fortunosa, 
Tu nSo guardas, não conservas 
Terna paixão amorosa. 

Eu na serie dos humanos — etc. 



138 TROVADOR 



COMO O ORVALHO DA NOITE 

Como o orvalho da noite 
Basca o carinho da flor, < 

Assim minh'alma em delírio 
Suspira por teu amor. 

E8TSIBILH0 

Mas tu qual uma insensata 
Com teus desprezos me matas. 

Mas se eu podesse encontrar 
Nos teus lábios um sorrir, 
Seria minha ventura 
E também o meu porvir. 

Mas com tanta crueldade 
Nem sequer tens-me amizade. 

Permitta os céos que algum dia 
Mais feliz eu possa ser, 
Se continuar n'esta .iorte 
Antes prefiro morrer. 

A morte é um sonho dourado 
Para quem é desprezado. 



TROVADOR 139 



RECITATIYOS 



ADEUS ! 



Sobre esta terra, onde feliz outr'ora . 
Sequer uma hoi^a deslisou sem calma, 
A vida em sonhos, divagou a mente 
Na fó fui crente, não chorou minh^alma. 

Nunca em meu peito se ralaram dores, 
Pallidas flores do jardim da vida ; 
Nunca em meus sonhos a mulher tSo pura 
ímpia, perjura, foi na fé descrida. 

Hoje perdido na avidez do mundo 
Louco profundo meu amor existe ; 
Planta mimosa de vendaval batida, 
Quasi sem vida a desfolhar resiste. 



Louca esperança que sorriu- me um dia 
Quando já cria n^um amor mentido, 
Leve perdeu-se, estremeceu meu peito 
Mudo despeito ás illusoes perdido ! 

Soluça a briza que me secca o pranto 
No débil canto que se eleva aos céos, 
Âh! que era um sonho de visão dourada 
Hoje murchado fia mentira — Adeus ! 



140 TROVADOR 



AMARTE É CRIME 



^mar-te é crime, bem o sinto ii'alma, 
A doce calma que ventara dá, 
Amar-te é honra que em meu peito brilha, 
Em ardente pilha, carcomida já ! 

Querendo amar-te commetti um crime 
N^esse amor firme que eu a ti votei, 
E tu, ingrata, te mostraste esquiva, 
Com a fronte altiva caminhaste além. 



Caminha, ingrata, cançaráfl um dia, 
Na cainpa fria acharás o gozo, 

• 

Tu és criança ! eu desculpo a falta, 
A dôr nSo mata: também dá repouso. 

Repouso eterno para mim desejo. 
Pelo ensejo de um amor sagrado, 
Eu só te lembro o passado tempo. 
Que tão cruento foi abandonado. 

Mulher sem alma, sem um sentimento ; 
N'esse momento eu te lembro tudo, 
Talvez que digas, que o passado é pouco, 
Que sendo louco para ti fui mudo. 

Louco e bem louco por deixar na vida. 
Triste abatida a mimosa flor, 
Mas é destino de uma sorte impura. . . 
Na sepultura findará a dôr ! ! 

Alfredo Chiappe da Cunha, 






TROVADOR 141 



O TEU SORRISO 



Donzella eu amo-te, com amor tSo puro, 
Ámo-te, juro, com intenso amor, 
l|eu peito pulsa, e por ti palpita, 
Minh'alma afflicta, te compara á flor. 

Ah ! quem dera, de meu peito amante, 
Sentir constante, outro junto ao meu : 
Ah! quem dera, n^uma hora' ao menos. 
Eu vêr-te, Vénus, um — sorriso — teu. 

Feliz seria, se a sorrir te visse, 
Sim, se sentisse, um — sorriso — teu, 
EntSo poeta, me faria um dia, 
E tu verias*, o — sorriso — meu. 

Se não mereço, o que tanto almejo, 
Dá-me um lampejo, no -sonhar comtigo ; 
Esse segredo que ha muito sinto. 
Sim, eu não minto, morrerá commigo. 

E' meu desejo, o ser feliz um dia. 
Sentir alegria, despertar minh'alma ; 
Queixar na lyra, cantar a trova, 
E dar-te em prova, do martyrio a palma. 

Mas se não posso tal ventura ter, 
Se meu querer é uma idéa vã ; 
Consente, oh ! anjo, se algum, dia vêr-te^ 
Possa querer-te como minha — irmã. 



M, A. Bé CunJia* 



142 TROVADOR 



LUNDUS 



A MULATINHA 

Para ser cantada oom a musica da — Mulatinha do caroço 

A mulatinha é garbosa 

E dengosa 
NoB requebros que ella tem, 
No andar é tão ligeira 

E faceira, 
Oh ! quanto lhe assenta bem ! 

 sua côr é tão bella. 

Tão singela 
E por isso mais amada ; 
NSo fallecia a natureza. 

P'ra belleza 
Basta sua côr prezada. 

Em seus olhos a ternura 

Tem doçura 
Que só descrevem amor, 
Tem o alvor da innocencia 

Que a decência 
No volver deu-lhe pudor. 

Sua falia tem encantos 
Que a tantos 
Não pôde a branca igualar ; 



TROVADOR 



U3 



Ella sabe ser constante 

Ao amante, 
Sem o saber enganar. 

Seus pésinhos delicados 
Bem formados 

DSo pulinhos no pisar, 

Vai calçando os coraçSes, 
(TentaçSes) 

Quem pôde ver sem te amar 1 

A mulatinha é garbosa * 

Ê dengosa, 
Tem affectos para mim ! 
Este dote de candura 

E ventura 
Foi Deus quem te fez assim • • . 



Honorato Lopes» 



A MORENINHA FLUMINENSE 



Para ser cantada pela musica — Quando eu era pequeno 



Quando a bella moreninha 
Enfeitadinha', 

Na janella se apresenta, 

Toma o triste mui contente^ 
E de repente, 

Os seus males afugenta. 



144 TROVADOR 

Todos volvôm para ella 
Com cautela 

Um olliar de BeducçSo ; 

Mas travessa ella s'esqaiya 
Sempre viva, 

Dando assim a decisSo.. 



Moreninha encantadora 
E seduotora, 

Minha sina é te adorar ; 

Dou-te, pois, meu coração 
Em adoraçSo ; 

Nada mais posso offertar. 



Contemplando os olhos teus 
Sinto nos meus 

Uma celeste claridade : 

Em uns olhos tão brilhantes, 
Por instantes 

Julguei ver a Divindade ! . • . 

Vem, ó virgem de meus sonhos 

TSo risonhos, 
Vem dourar minha existência ; 
NSo me occultes um segredo, 

E diz-me cedo 
Se mereço a preferencia. 

Sultana bella e fagueira 
E companheira 

Dos anjos e da ventura, 

Deixa que m.eu pensamento 
N'um momento 

Te admire a formosura. 



TROVADOR 145 



\ 



Como ta outra n8o vejo 
(Nem doBejo) 

Que me possa captivar, 

És um typo especial, 

Que sem igual 

Só o Brazil pôde ostentar. 



NSo me negues teu amor, 

Doce favor, 
Que te peço supplicante; 
Quando mesmo me aborreças 

Não esqueças 
Que serei firme e constante. 



Se te faço essa promessa, 
E tenho pressa 

Que me dês um desengano, 

É porque tenho receio 

Que em teu seio 

Um rival me cause damno. 



Meu destino a ti prendendo, 
Irei rendendo 

Muitas graças ao Senhor, 

De tXo bella assim formar-te, 
Primor d'arte, 

DoB jardins mais linda flôr. 



João Pinto de Soma Masearenhaa. 



voL. m. • 10 



146 TROVADOR 



FADINHO 



Chega-te cá para mim, 
Cheiro de roupa lavada ; 
Chega-te bem chegadinho, 
Que uma noite nao é nada. 



Fui ao mar pòr vêr as aguas, 
Ao jardim por vêr as flores ; 
Ao céo por vêr as estrellas, 
Aqui por vêr meus amores. 



Toda esta noite eu andei 
Volta ao mar e volta á terra ; 
Para vêr se dava fundo 
Ao pé da tua janella. 



Se eu fôra o sol que subira, 
Dava na tua janella ; 
Fôra-te fallar á cama. 
Raios da manhS te dera. 



Estrellinha do nordeste, 
Que me andaes alumiando, 
Alumiai-me de" noite. 
Que eu de dia vou andando. 



TROVADOR 147 



Depois que os meoa olhos viram 
A graça que os tens tem, 
Nanca mais foram senhores 
De olhar para mais ninguém. 



O mar é vivo, nSo falia, 
O rio corre e não cança; 
Desejava de saber 
Se me tinhas na lembrança. 



RECITATIVO 



A PROSTITUTA . 



Trajando galas, nos encantos bella, 
Caminhava ella, sem saudal-a alguém ; 
Passeia em carros, no theatro ostenta 
Tudo o qu'inyenta, que lhe fique bem I 



Porém qual flôr, que no calor da festa 
As peflas cresta, p'ra depois murchar; 
Ou mariposa, ^e a voar s^inâamma, 
Em torno á chamma, que busca beijar ; 



S 



* 
i 148 TAOVÀDOR 

Assim foi ella; como vil mundana, 
Na orgia insana se atirou — perdeu! 
Foi mariposa, que queimando as aza£, 

Do ardor das brazas nunca mais 8'orgueu! 

• 

E essa infame desprezando o esposo, 
Qu'eterno gozo lhe faria ter, 
Prestes se atira — que fatal loucura! 
Na vida impura, que lhe dá prazer ! 

Amou-a elie, como amar no mundo 
Jamais profundo pôde amar alguém ! 
D'extremos tantos deslembrou-se a ingrata. 
Que o affecto mata, no alcouce — além ! 

Tudo mais nobre, que sentiu seu peito 
Lá jaz desfeito por atroz afSo ! 
Matou-lhe as crenças infernal orgia. 
Noite sombria, que nSo tem manhS ! 

Hoje apontada pelo audaz cynismo 
Mede o abysmo, quer fugir-lhe em vSo ! 
Que a turba aponta-lhe uma bolsa infame 
E em face brame — já nSo ha perdZo! 

Karcou-a o mundo com fatal sinete! 
Esse ferrete, — que tSo negro é I ' 
E em represália, — já mulher perdida 
Vive uma vida — sem moral, sem fé I 

Maldiz o mundo, que a supporta ainda : 
Se é bella ou linda, tem vassallos seus ! • • • 
Mas não se lembra, — desgraçada enrante, 
Da fulminante maldição de Deus ! • • • 



TROVADOR * 149 



Qual águia altiva de voar cançada, 
Mais apressada na descida vai ; 
Assim aquella, que perdeu a calma, 
Corpo sem alma na miséria cái! 

Mulher perdida, de que servem galas, 
Ou meigas falias, que fíngidas sSo, 
Se d'esses olhos em que affectos calma, 
LS-se a tu'alma que só diz — traiçSo?! 

• 
Que valem sedas, deslumbrantes modas. 

Mercadas todas com tão vil moeda ?... 

Vendes o corpo p'ra comprar enfeites, 

Gozar deleites, que a moral te veda ! 

Desenfreada e nas paixSes insana, 
EUa, mundana, nada vale, não; 
Gasta o seu ouro na fatal ledice, 
P'ra na velhice — mendigar um pSo! 

Altivos paços habitar pretende 
Ella, que vende seu fíngido amor ; 
Bubra se mostra nos ardis fugaces. 
Mas n'e8saB faces. • • já nSo ha pudor ! 

Cynica vive, nã miséria morre; 
Nem a soccorre bemfazeja mão! 
E impenitente, á sepultura baixa 
E lá nem acha — uma só cruz no chSo! 



E. Villas-Bôas. 



150 TROVADOR 



MODINHA 



QUANDO A VIDA 



Quando a vida passava entre sonhos 
N'esta idade de meiga illusâo, 
Foi entSo que amei uma virgem 
Que era o idolo de meu coração. 



ESTRIBILHO 



Em um olhar eu lhe disse — eu te amo, 
N'outro olhar respondeu-me : és amado ! 
Traiçoeiro espelho de meu peito, 
Que mysterio eu não tenho revelado. 

No bulício importuno do baile 
Onde a taça é o rigor da folia, 
Tua imagem era linda e tão bella 
Como um ralo do céo parecia. 

B8TBIBILH0 

Quiz fugir, mas fugir p'ra bem longe 
Para ver se podia esquecel-a, 
Era embalde, onde quer qu^estivesse 
Nunca, nunca eu deixava de vêl-a. 



TROVADOR 151 \ 



Mas a custo se calaram nos lábios 
As palavras ardentes do amor; 
Não fiz jura, nem quiz ser perjuro, 
Nem quiz ser alcunhado traidor. 



ESTBIBILHO 



Quiz nos braços de uma noya amante 
Esquecer este meu pensamento, 
Deixar uma entregue ao desprezo, 
Seguir outra, um amor de momento* 



RECITATIVO 



EU VI-TE, VIRGEM 

Eu yi-te, virgem, sobre o coUo a fronte 
Curvada á fonte a segredar queixumes ! 
Eu,vi-te triste, qual pendida rosa 
Hontem mimosa a exhalar perfumes ! 

Cabellos negros no cahir esparsos. 

Formosos traços estampavam n'agua! 

» 

Assim eu vi^te a extrahir da harpa 
Acerba fsEurpa de pungente magua. 



152 TROYÁDOR 

BoBqaei-te ! achei-te ! Em mada relva 
Além da Belva, recostei-te a mim I 
cPor mim definhas?» — perguntei corando, 
E ta chorando, me disseste — simi 

Depois a sorte reseqoia-me as flores ! . • . 
Espinhos, dores, entornou-me n'alma ! 
Mas inda espero n'am recente espaço 
Prender*t6 ao laço de amorosa palma. 



FADINHO 



TENHO RAIVA A GENTE GORDA 

Tenho raiya á gente gorda, 
O meu amor é magrinho ; 
Quando yai para a igreja 
Parece um ramalhetinho. 

Triste vida tem quem ama, 
Se o amor é lisonjeiro: 
Tanto mais bonita dama. 
Tanto peor captiveiro. 

Oh Maria, lava a louça, 
Deiza-te de namorar, 
Que o amor aperta a mSo, 
E fica a louça por lavar. 



TROVADOR 153 



Oh Maria, ta nSo sabes, 
Meus olhos morrem por ti ; 
Tu queres saber de quando ? 
Foi do aia em que te vi. 

Oh Maria, oh Maria, 
Para te amar ando louco ; 
Passo frio, passo fome, 

Levo má yida, ^da roto. 

• 

O amor nasce do dar, 
Meu amor que te darei? 
O amor que n&o despende, 
E' certo que nSo tem lei. 

Coitado quem tem amores 
E se deita sem os vêr; 
Toda a noite está sonhando 
Quando ha-de amanhecer. 

 ribeira quando corre, 
No meio faz a zoada ; . 
Quem tem amores nSo dorme 
O somno da madrugada. 

• 

A pombinha chega o bico 
Áo pombinho rolador ; 
SSo signaes que symbolísam 
A doce união d'amor. 



Noite escura, noite escura, . 
Quem ama nSo arreceia. 
Quem quer bem ao seu amor 
Pela porta lhe passeia. 



454 TROVADOR 

Rapariga, dá-me um beijo, 
Um beijo pela tua alma; 
Tu não sabea quanto gosto 
De sombra quando faz calma. 

Esta noite cboyeu ouro, 
Diamantes orvalhou; 
Lá vem o sol com seus raios 
Enxugar quem se alagou. 

Eu dei-te o meu coração. 
Eu não t'o dei por libello; 

Eu dei-te amor por amor, 

• 

Amor te dei, amor quero. 

• 

Tendes amorzinhos novos, 
Que te faça bom proveito; 
Deus vol-os deixe gozar 
Que nem sereno no feto. 



RECITATIVO 



É ELLAI 



Sc ás vezes triste, meditando passo 
Nas longas horas de uma noite bella, 
Em vendo a lua lá no denso espaço, 
EntSo exclamo com prazer — é ella! 



TROVADOR 455 



Se lá nos bosques, me sorrinho as flores, 
Uma diviso, d^entre as mais singelas ; 
Nos attractivos em que leio amores 
Ainda eu digo com prazer — é ella! 



No temo canto que de além se escuta. 
Da pobre freira na prisão da cella, 
Durido e creio, no flnal da lucta 
A mesma idéa vem dizer-me — é ella! 



Quando nos mares, a gentil barquinha 
Toda garbosa vai correndo á vela, 
N^essa fugida que alli faz sósinha 
Ainda eu juro que por Deus — é ella ! 



Na mesma estrella que no céo diviso, 
Brilhante, pura, reflectindo bella ; 
Em suas faces, traduzido um riso 
Protesto, affifmo ainda mais — é ella ! 



Por mais que busque distracç3es na vida. 
Atroz lembrança minha mente gela. 
Quer nos prazeres, na cruenta lida 
Que mais me inspira, bem conheço — é.ella! 



No mar, na terra, lá no eéo, nas flores. 
Por toda a parte minha mente vela. 
Se em tudo eu leio divinaes amores, 
E' porque tudo vem dizer-me — é ella! 



• A. i. G. de Castro, 



156 TROVÀDOU 



lundC 



os SETE SACRAMEliTOS 



Oh menina^ eu te peço 
Que sigas os meãs intentos; 
Olha que te proponho 
Estes sete sacramentos : 



O primeiro é o baptismo, 
NSo sei se sou baptisado ; 
Creio em tudo o que Deus disse, 
Não sei se sou confirmado. 



Segundo é confirmação, 
Confirma amor na verdade ; 
Se te eu quero bem ou nSo, 
Deus do oéo é quem o sabe. 

O terceiro é commungar, 
Quem communga confessou; 
Para uns começa o mundo, 
Para outit>s se acabou. 



O quarto é penitencia, 
Penitencia tenho tido; 
Quando me ausento de ti 
NKo sei se morro^ se vivo. 



I 



TROVADOR 157 



O quinto é extrema-unçSo, 
SXo palavras em latim : 
Fostes uma linda rosa 
Que creei no meu jardim. 



O âexto é a ordem, 
Que eu tenho de te prender; 
Na cadea dos teus braços, 
É que eu m» queria vêr. 



O sétimo é matrimonio, 
Quando é o dar da mSo ; 
Nunca se pôde apartar 
Uma rosa de um botSo. 



Estes sete sacramentos . 
SSo da santa madre igreja, 
Anda o mundo ás avessas. 
Ninguém logra o que deseja, 



MODINHA 



.■J 



a» 



QUANDO OS CÉOS DiO EH TEUS LÁBIOS 

Quando os oéos dSo em teus lábios 
Temo riso encantador, 
Sinto quSo doce é-me a vida, 
Em teu riso, anjo de amor. 



158 TROVálKNl 

Sem ti são tristes os meus dias. 
Duro e penoso meu viver, 
Junto a ti preso em teus braçc» 
Viver, quero até morrer. 

Os laços com que me prendes < 
Ainda mais quero apertar, 
Nãô é crime antes virtude 
Sempre amando até acabar. 

E' minha sina adorar-te 
Embora sejas perjura, 
Que meu amor nSo esmaga 
A pedra da sepultura. 

Venha a morte embora um' dia 
Sobre mim seu furor parte; 
Morto, extincto, no sepulchro 
Este peito inda ha-de amar-te. 

^ Pôde o gelo do sepulchro 
Tirar da vida o calor. 
Mas d'um peito firme amante 
Apagar não pôde amor. 



FIM DO VOLUME in 



lltTIDICrB 



Pag. 

Acorda, minha querida. ... 94 

Adeufl! 134 

Adeus, pura virgem de meus 

sonhos 111 

A estrella 15 

Ainda ella ? õõ 

A joven morena 59 

A lavadeira 107 

Alta noite 23 

Amar-te é crime 140 

Amei!...: 126 

A moreninha fluminense .... 143 

A mulata 130 

A mulata cor de jambo. . . ^ 135 

A mulatinha 142 

Ao vêl-a 104 

A pérola de Paqueta 63 

A prostituta 147 

As mulheres de mármore. ... L7 

Astro do céo 90 

A sympathiá 8 

A transviada 9 

A vivandeira 64 

Beijo a mao que me condem- 

na 81 

Camélia 50 

Cantemos um sim. 112 

Chá preto, sinhá 12 

Como o orvalho da noite. . . 138 

Desde o dia em que te vi . . . 110 

Despedida 69 

De tão longe ouvir não podes 100 

De ti fiquei t&o escravo 61 



Pag, 

Deus!...,. 115 

Devaneio 85 

Devaneios 85 

D 'uma pastora os olhos bel- 

los ' 35 

E 105 

Eeila! 154 

Eloah do amor 133 

Esta noite, oh céos! que di- 

, ta! 43 

1^ tão formosa Marilia bella 52 

E tarde 123 

Eu amo as flores 24 

Eu quero-me casar 60 

Eu vi-te, vii-gem 151 

Eu vi teu rosto . . . i. 32 

Eu vivo, mas oh ! não vivo ! 109 

Fadinho 146 

Festas de dôr 11 

Flores do coração 127 * 

Herva mimosa do campo. . . 137 

Lá n^aquelie deserto 124 

Lembranças da pátria 16 

Marilia, meu doce bem 31 

Meu scismar 81 

Minh^alma é triste 48 

Minha sorte, cara Elvira. . . 46 

Minha terra tem loureiros. . 71 

Morena 118 

Mulheres e flores 18 

Não te rias, oh menina. *.. . . 116 

No mar 29 

No meu rosto ninguém vê. . 5 



160 



IKDIGS 



O artiflta 87 

O boleeiro 74 

O canto do sabiá 38 

O capitiU) mata-moaro6 56 

O exiUo 103 

O filho pródigo 84 

Oh! que vida! ;....". H9 ' 

O meirinho e a pobre 26 ^ 

O padecente 51 

Operdào 76 : 

O pobre 39 | 

O roxo lyrio 84 ' 

O século do progreMO 96 

Os sete sacramentos 156 

O sonho 82 

O teu semblante 58 

O teu sorriso 141 

Outr'ora, agora 66 

Perdão 30 

Pura virgem moreninha. . . 21 
Qualquer mulher que encon- 
trares 70 

Quando a ave da noite 83 



Quando a vida 150 

Quando em meu peito reben- 

tar-se a fibra 101 

Quando eu morrer, n&o que- 
ro em minha campa 6 

Quando os céos dão em tens 

lábios 157 

Quando os teus olhos 72 

Queixas 47 

Quem é pobre n2o tom vioios S8 
Se eu fora a criança mais lin- 
da e formosa ^ 36 

Sonhei que mil flores lá 

Supplica 78 

Supplica 114 

Tenho raiva á gente gorda . . 152 

Uma pequena brejeira 79 

Um mysterio #> . . . 35 

Um pedido 44 

Um 8Ó sorriiw 21 

Um teu suspirar 50 

Vai-te, recdo 89 

Vivo &(5 para te amar .....' 7 



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&.1 t.inlf. 1 V. -ÍTv;wi"lla, triid. 
--Lu ^'l'^llU■f'■M. trad. 
A FAMH.iA 1)1) .ri ,1 ifA, 1'nr AiulrP- 
<je l''<'rr. ira, 

JOí<''- ^- K'lHr:U(J-- A!líUll^^ f."UC*í>S 
dil l^M^ur.-l (^ il"t ('X')iMMíMlCÍil. 2 

V. -- ^^-^íii.l-') " ov.ú o [M>litlco í«0- 
br'í <■»-* í.u>í:ida=^. 1 v, — Priniei- 



Yú^ trai;n.-; do uin.-i i'('>onhji do 
littoríitui-.'i. 1 V. 1 >^ LiHÍad;i.-^ 
t' o (\).->"n<H. í)U ( 'aiiM.M'-^ iMni->ido- 
i"adg por líii i.n.-liic, curiio um 
[>i:'t«)r da iril.urc/.a . 1 y.—-]lv- 
sinHi-r-i-H do coiis mIio (U; «.'srado. 
11 v'. 
A N'':{ \i>!; — í.'ai'l:(- csití nta-^ d'i 1ti- 
d'-L o da <."nÍMa. :.' v. ou a cstani- 

ti' ^.'. i\ i>i-; {\ :it;u; -Da u:dru) 

iít.''i\'a. 1 \'. 
X\\. K '-A SiLVA — ^'íi.mI •()•< :;atu- 

r."-":.. 1 V. - • > ' -r ■iiciiri) (!o 

tVadf, 1 V. -- l"r;''-i-.- , VtMl' .* ; 

v'i-;t"->; d''-^t'i'i )f .M'.-i t' iii'i'sÍMS. 

1 V. ' 
('. i '. A''.y-\\:T*')- -A \[r.- !"'^i'-5, vor- 

^..-. 1 V. 
'V ii> i-r. N(pK' ■> 'A 'vli-iroiâa - d(; 

u> "i ri ;i rto. - r.i <- :(.-> i» di- 

1'a; i.i» .:i: Is"( :í - ( i -n \ ( Iidublaiic 
} 'Mi:..:'-a. do ^ii" ii;"':»-;-. - A 
ii. ''>:"ra d.a- ívr< <, \.\a. { ) s:i,-. 
( '!i •:•;'■ i. L' V. riiin • I:';'ím:i-. - 
As iT.diiia-"'.'^, r» '!■;.>.)<' o \inliO. 
A Vfvda ri 1-4 aiiiiáx."-.. A 
dai'ia. d"<ti">'- <''iia/íi !i<>^.- (); 
Ft'l !• ba':').- (l'.'\ a . ■ l);!iior<|UC 
;.<.'-i o'í i' c» a ' ''■■'! '' <.' 'i!''";a . - 
A M I ri .; i' ..-1 I >' i_";i -.viT. --1).ii-m- 
fi'-í-i»i- l'"i '";,••.'.■! r.i'.- A iii"ai:ia 
bnii'i :• do a iT.i !i ialt;. ( í-, ])C- 
i.ii' a.'.- ^•"^•' 'iO< tnr:M'iii L:'*a,'dt'rí 
rin ht,-. ( ) ■111 a"(i (it> -;a'*. .Mar- 
ti !'•>. — n Iv , ( j i»> < H<)> a;ni. li 
V. v" '. c-;! i;.! a ^. - -- l''i(a' ':.r:na.. 
. — ( ) 11. -to d'" < 'tr'! u(*lii\ A \ iii- 
va Ta 'ia!.-- A- ■ • iiia- da ai,iia 
fa rini.-i . r.ii liM 11. M arrii)M- 
I: lo. — Liii iiafi lo d * .,iu'ii\ ^0 
zi.ialja. — n nnrf.-iro d.i rua da 
líarca. — Zi/iua. 'J v. «'.»ia ca- 
tariijVs.s. — Vr\)â >.<L;'rn. - ()4 
Co'nivaiili(^ii-(),-, (hiA íulnM'as. ".' v. 
com (vt:ll^pa^;. — O (Iii^tavo ou 
;i boa iuH;a. 4 v. - - Paulo ti í) í<(Mi 
cào. .S V. — A iruiTi Amai. — O 
ninaidc da Iuh. li v. - O meu 
visinho líaymundo. - O bavb(»i' 
ro d«' Parirt. rm.'i nudlnH* de 
tvi^-^ caraH. -A (íariíi bi"anea. — 
A biíTÔa d'Aut.<'uil. -AdonzellA 



uviiAiHA 3^oi>i;lah i>k cuvz cociinho 



d«í U^r^n illc. O lioiiKMri dos 
tr*'s tMli;"i.'-» — Ainlró. l v 
A fa.: iíia (''«'íl''. -1 V. Fm iir- 
lm"'ii». '2 V t •.'■i>:-Lr'"tM . 4 v. - 
O ^i^•ll).1 a í|U: t"<i. -1 \". - ^ísíJ.' 1 l- 
l''-i;i. l V. rin riioVíiqji do lin- 
iii«'ii; c:i->-:'l(>. ■ Nrni Sfiii are n<Ma 
T.ir ca. 1 V. Jo:íu. l v. Mii- 
Ih -r. Ill irido r íiKiaii^f. [ y , 
C) llllio d?' ííihilri nuiilí-M-. "J y. 
--A in Miiiia Lis-i. () ai.^iu-ó 
ritVard n i';i tiix in\--^í"rin-;o 
da 1'^ mi ir.. -A rai.iiiia KvaiJ- 
lard. 'J V. — A ^'íi-. " d-' Mi'Mliaii- 
quiii. '2 V. -— Fin na morado i*.a- 
louru. 2 V. O niiiOi' farc.ir-da. 

— Nfin eiri;(,i:< . IMMn -soltei |-;i, 

iicn viiis'a. — l'iii inii'""dt» -i »-dÍ- 
do. - Ar; t',ii\-i'ii\iH -A l<':t<'i"a 
do ^í()l {íVi-ji>'-il. 1 ^--^"11110- 
Vrii riiv'ant;. lior. 1 V. - í > ^--m 
gra\aía. ! v. -- I'ol)"ni('au c l''i- 
li ia. 4 V. A pv.HMíra d"ui.ia 
iHMíhiT. -1 V. — O lio"!i''.ii da na- 
tn.iava. 1 V. - - A univa de l''o!!- 
t>'nay-dw-ros:i.-;. 1 v. — (^'^'lr''ta. 
2 V. - () l)i;x<n]('.. -1 V. - - l-ott». át'- 
plio»-. 4 V. ctc. 

O iiit.\:rM KA r\( A. po^' lMai('-ito Ivol- 
l.'t.. o V. 

Fahit-^ t^ a-iol-^-ic-Míto. oduraflo 
jia Ix^-idadc. -í(*.i.''OÍa (• iii(ui>.h'ia. 
1 V. A-i ',")''i'f",io4.is C"l'"l>r.'^ í» 
íi!^ iií-^ioiidoras do ainor. ty^os 
Coiitc'Ti;)oi'ar.iH)<. 

Ri:vNoi,'.- ( '-i dr iiioiH d.» Lon- 
d •,■-;. Tl» V. 

G.\N""i' IFi-toi-ia iniivfrsal 12 v. 
Com c-ií-ani iK. — Mari:,Mi-ida l*iH- 
tt^rla, rom.ii;(''í. 

rA'^rr\i. - -A navto Tiio'-a!. -1 v. — 
I'^,-^ío-;a <» miilhv^r. - - Kinaio c"i- 
tico r^ol)'.-,! a vlaLrcm ao lira.-U 
em l>r>L'. 2 V. 

Fran' is ■•) M \\oi:l i».v Sn va Comi- 
Ijo/idi»» d'> musica . 

O. AiMVHi) --Ari í^uiM-rillns do 
.íoarc/.. 1 V. 

Jo\.(íi'iM M, m: M A<-r.D() • O r()"a-<- 
tciro. 3 V. — (K-4 ([iiatro poiítod 



cai-dt'a>-'?í. 1 V. — T'i'i n(o\'o a 
d líí.- 1 oir is. ') V. -- A iiainoíVL- 
d--'i'a. ."• V. — Niiia. t? v. ■ A3 
nv.il!i''.'o- (].> mM')ri'l]a. 2 v. - A 
luiíiMíi '\:\:\'i. 2 V. A-^ \'iv-";- 
iiias :;l.:'õ'''i. "2 v. — A iiíorc.n- 
7ilia, 1 V. — A ii-dv.do4:i. 1 v. - - 
('nlN> do d 'vr. 1 v. - Mo-iiorirxs 
do soVr-iíii.t» d" inoii tio. 2 \. — 
Mo';o loaro. '^ V. - ''N dons amo- 
rcn. 1? V.- Komaiicfs da s(^ iin- 
11a. ]?.'^a 'J V. \'ic'"'nfiiia- .'í 
V. O '):'Í!MO d.í (^alifoniia, c»'»- 
inodia í ai u\v. ac.tn. - Tíoinis-ào 
d'> P"('cad'><. coai' dia . - Poiíiaii- 
c d"ii:aa \-ollia , c.otk dia . - ITm 
: pas-ifio pela c''d-'do do 17io á*?, 
.íanrl''0. 2 v. ct>Mi o^tam'•aí^. — 
No;''^-o>dr- eliro''<\Li"í'adna do }>ríi- 
zil. 2 \. 

Fxnr.í.T.ns, oóo.fo^ f'i''0.tr'c<~*A. 

Mv.r S-.\ii — n.-^Hoa. f) V.— Co- 
rina ou :i l*;ilia. 4 \\ 

!\TAO\Li!'\rs íaM^ - - Mi M:ít'.ira.^ ro- 
mântica 1 V. c'.^''t'*".^do: Mar- 
twio d'nm m\jo ; I'ia d"aiiia Í7i- 
tiaií) ; Vu\ lia d'- iioiv.-nlo. 

PiairnsA T)\ Srt.vk -líisToria da 
fmidacàn do im'v'-'o h^-a/.ili^^.iro. 
7 V. Maooid d'» ■\TfM*:"M., r]iL*o- 
irca ílo <.■(• d-i XVI. 1 v. - ,Iia"o- 
nvi>u) cr.-ío I^\ll. - (>3 varrprt 
illiwt-,!'(v-i do iJrdl d\ii-a'itc 03 

t''MinoS Co'oui;0 S. "_^ V. — Si'Cr''''\- 

■ df) nt>rio(lo ilo reinado do D. IV'- 

, d"o 1 d.o ]>'-,»'ii. na'rativa bi:4to- 

rica 1 V, <n)rr'i littoraria.s e 

l^olirica^ 2 v. 

l"i\^r'.-i — r.i itM-í do ndnha .lava. 

Ti. í 'oN-íí 11 N.- V - o unha 'o-cidii. 

(4"i.-T\ - l'!>bo"(t-. bioLrraphioori dorí 

t)'-ii.c:i Kic.-i i»iuto:"í'-t itali.aroá. 1 

vol. 

C Io'nriu A ]>oiit'"' nova. 3 v. 

— (>s m'^;;di:ro4 ilo Pari-^.-l v — 

! O trihaii:;! S"C"''to. 1 v - - l'o- 

I vosovoi- '>v. - Servos o bi'\":ir- 

doíi ou a o>i'-a\ iiiío^ na líus-^ia. 

I 4 V. „ i) s;.dr'';!dor do montt tl'>. 

Borto. - V. O poota da raiidia. 



PorU : IHTO— T>p. do " António Jcst' da Silva Tiàvt iro, < .111- dia Vcltia, B2 



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LIVRARIA POP ULAR DE CRUZ COUTINHO 



RUA DE S. JOSÉ, 76 — WO DE JANEIRO 



A Abihpeitdida, romance por J. 

Â. d'0mella8. 
8. Pereira — Horas do campo. 1 

vol. 
EsTAcio DÁ Veioa — Romanceiro 

do Algarve. 1 v. 
Da. Tito P. d' Almeida — O Bra- 

zil e a Inglaterra, ou o trafico 

dos africanos. 1 v. 

A. Bast — Maravilhas do génio 
do homem. 2 v. — A cortezâ de 
Paris. 

Javbt — A familia. 

Freire de Carvalho — Ensaios so- 
bie a historia litteraria de Por- 
tugal. 1 y. — Reflexões sobro % 
lingua portugueza. 1 v. 

MoTTA — Quadros da historia por- 
tugueza. 1 Y. 

B. Pinheiro — Arzilla. — Sombras 
e Luz. — Amores d 'um visioná- 
rio, romance histórico. 2 v. 

IsBELLA, por Fernandes da Rocha. 

Andrade Ferreira — Tradições e 
phantasias. 1 v. — - A familia do 
jesuita. 1 V. — Últimos momen- 
tos de D. Pedro v. — Litteratu- 
ra, mu^ca e bellas-artes. 2 v. 

Mosqueira — A marqueza de Cam- 
ba. 2 V. 

O , Fbuillbt — Historia da Sibylla , 
1 y. — A condessinha de flores. 

— Flor de liz. 5 v. — Roman- 
ce de um rapaz pobre. — O con- 
de de Camour. 2 y. — Júlia de 
Trecoeur. 1 v. 

AnansTO b Olympia, por F. da Ro- 
cha. 2.^ ediç&o. 

W. D*Izco — Maria, ou a filha de 
um jornaleiro. 7 v. — A mar- 
queza de Bella-flôr. 8 v. — Po- 
bres e ricos, ou a bruxa de Ma- 
drid. 9 V. 

Tbrebserra — Os hypocritas. 9 v. 

— A Judia Errante. 10 v. 
Ferhandez y Gonzalez — D. João 

Tenório. 2 v. com ost. — O rei 
maldito. 5 v. com ost. — Casa- 



da e virgem. 2 v. — Laerecia 
Borgia. — Memorias de Satanás. 
2 V. 

Luiz Parrbkb — A inquisiçfio e o 
rei. 2 V. com est. — A inquisi- 
çâo do rei e o Novo Mundo. 3 v. 
com est. 

Dias Mora — Florinda, ou o paia- 
cio encantado. 2 v. com est. — 
• Pelayo, ou o restaurador de Hea- 
panha. 2 y. com est. 

Taer&go T Mateos — Ódio de Bour- 
bons, memorias escriptaa com 
' sangue. 3 y. com est. — Tem- 
pestades da vida. 2 v. com est. 

— Os ciúmes de uma rainha. 9 
vol. - 

Ilíada de Homero, trad. de M. 

Odorico Mendes. 
Paulo Feval — Os companheixoa 

do silencio. 4 v. — A loba. 3 v. 

— As duas mulheres do rú. 1 
y. — As filhas dos reis. 1 v. — 
Saldo de contas. 1 v. — Joio 
Diabo. 4 v. — O lobo branco. 1 
v. — Os valentões d'el-rei. 1 v. 

filho do diabo. 1 v. — Um 
drama da regência. 1 y. — Orei 
dos mendigos. 4 v. — Adaqneia 
de Namour. 2 v. — A cruz da 
espada, ou o emigrado. 1 y. — 
A oreoula. 1 y. — O jogo da 
morte. 6 v. — O matador de ti- 
gres. 2 y. — A peccadora. 1 v. 
— Floresta de Reúnes oa o lobo 
branco. 1 v. — O voluntário. 1 
V. — A torre do diabo. 1 v. — 
A fada dos Arcaes. 1 v. — A 
fonte das Pérolas. 1 v. — Os ca- 
sacas pretas.. 1 v. — O paraíso 

• das mulheres. 2 v. — O oorouu» 
da. 6 v. 

Luiz d^Araujo — Contos e histo- 
rias. 1 V. — Cousas portuguems. 

1 V. — Novo almocreve daa pe- 
tas^ livro alegre o folgazão, no 
gosto do antigo Almocreve doã 
jyetoi. 2 v. 



TROVADOR 



GOLLECÇÃO 



DS 



MODINHiS, RECITiTIVOS, ARIIS, lUNDIJS, ETC. 



NOVA EDIÇXO, CORRECTA 



VOLUME rv 



RIO DE3 JANEIRO 

Na LIVMBI& POPDL&R è â. A. da CROZ G0D7INH0— Editor 

75, Rua de S. José, 75 



i87e 



POETO 

TTPOaiÀPHIA Dl AHTOXXO JOSé DA SILYA 

62, Rua da CaneeUa Velha, OK 



1876 



EO¥M@E 



MODINHAS 



QUEM NÃO AMA E NÃO ADORA 



Os prazeres que nos domam 
Da existenciíi dôce aurora, 
Gozar nSo pode na Vida 
Quem nSo ama e nSo adora. 



Quem nSo rende affectuoso 
Terno culto á formosura, 
Existe envolto em tristeza, 
Vivo está na sepultura. 



No universo não descubro 
Quem d'amor á lei se esquive ; 
Pois que amor é mais que a vida, 
Só amando é que se vive ! 



I 



TROVADOR 



Pois BO O amor é que adoça 
Nossos dias de amargura, 
Sem prazer a vida é morte, 
Sem amor nSo ha yiintura. 



DEIXA, DAHLIA 



Deixa, daUia, flor mimosa 
Ostentfl^ toa ballefea, 
Toa imagem respeitosa 
E' o emblema* da tristeza. 



Nas roxas folhas 
Tens o padrão 
De qtranto sofire 
Meu coraçSo ! 

Teu centro, duro, exaspera 
Minh'alma, em zelos acQesa, 
Flôr que assim paíxSo exprime 
E' o emblema da tristeza. 



Nas roxas folhas 
Tens o padrão ^ 
De quanto soffre 
Meu coraçSo! 



TROVADOR 



DUETO 



o MESTRE DE MUSICA 



DAMA 



Dá licença, senhor mestfe? 



KESTBE 



Pôde entrar, minha senhora. 



DAMA 

Como passa, senhor mestre? 

MESTBE * 

Vou passando menos mal; 
Ora vamos, méu amor, 
Venha dar saa liçSo ; 
Cante bem a£nadinUo, 
Faça o compasso co'a mSo. 

DAMA 

Sim, senhor, já estou prompta, 
Mas precisa desculpar. . . 



MESTRE 



Oh ! pois nSU>.*. . 



8 TROVADOR 



DAMA 



Porque estou bastante rouca, 
NSo poderei bem cantar. 

MRSTRE 

Ora vamos, meu amor — etc. 
NSo importa, eu lhe desculpo, 
Vamos, dô-me attençSo. 
Dó, ré, mi, £&, sol, lá, si : 
Entendeis, minha menina, 
ESsta minha afinaçSo ? 



DAMA 



Sim, senhor, entendo bem. 

MESTRE 

Ora agora principie 
Com justiça e promptidSo. 

DAMA 

Fá, mi, dó, ré, £&, dó. 

Dó, dó, dó. 

Na deixa, está perdida, 

E nSo sei qual a razSo 

• 

Ha tanto tempo que ensino. • . 
Cada vez peor liçSo.*. . 
Olhe, a bocca bem aberta. 
Compasso bem prolongado, 
O nariz bem perfilado, 
Veja a minha posiçfto. * 



TROVADOR 9 



DAMA 



,Sim, senhor, eu principio, 

En careço solfejar 

Mi, ré, fá, dó, fá, dó, lá. 

MESTRE 

• 

Qoal, fá, dó nem fá, dó, mi ! 
Vá outra cousa estudar. 
Para a musica nSo tem geito, 
Outro officio vá buscar. 

DAMA 

• 

Sim, senhor, querido mestte, 
Eu lhe prometto estudar, 
E se fôr do seu agrado 
Um lundu eu vou dançar. 

IfESTBE 

Oh diabo, ella ahi yem 
Com aquella tentação. 
Pois sabe que^nSo resiste 
Meu sensível coraçSo. 

LUNDU 



DAMA 



Ora diga, senhor mestre, 
K3o lhe agrada mais dançar 
Com geitinhos e requebros 
Que até oe céos faz chorar? 



10 TROVADOR 



MESTBE 



E' tSo bom, é tSo gostoso 
Qae se eu tivera pataca, 
Toda a vida eu te daria 
Corta, jaca, corta, jaca. ^ 

AMBOS 

Bravo, meu bem, está de tremer/ 

Queijadas de côco, 

Pasteis de melado, 

Suspií^s e ais 

Do meu bem amado. 

Sim, é engraçado. 
Gostoso é morrer 
Ligado a teus braços^ 
A vida perder. 

Bravo, meubem^ está de tremer — etc, 

Oh ! sinhá Maria olé 
Olhe os porcos na canoella. 
Se os porcos forem teimosos 
Dê com elles na panela. 

DAMA 

Dó, ré, mi, £&, sol, 1&, si. 
Até quando eu cá vditar. 

MESTBE 

Adeusinho, nSo 8'esqneça 
Da liçSo bem estudar, i 



THOVADÇR 11 

AHB08 

Brayo, mea bem, está de tremer — etc. 
Oh! sinhá Maria olé — eto. 



RECITATIVOS 



ESTATUA DA VIDA 

Estatua inerte, insensível, calma, 
Mimoso corpo,. nBo conhece a vida, 
Pallida estrella que biUhar não sabes, 
Pérola santa, para os céos perdida. 

» 

Jardim sem flores, dem perfume, secco, 
Lodosa argilla, desprezivel pó, 
Orgulho inútil, sentimento morto, 
Gelado peito, não conserva dó. 

Formosa e linda, alabastrina Vénus 
E' muda e fria, e nem um riso tem. 
Alma de mármore, sem fé, sacrílega. 
Aos céos prendel-a nem um sonhp vem, 

• 
Altar sem cultos, sem amor, sem idolos, 
BeligiSo sem crentes, muda já está. 
Sacrário augusto, esperança morta. 
Nem um suspiro o coraçSo lhe di. 



12 TROVADOR 

Vaso esculpido de valor sublime 
Que doce orvalho não colheu do céo,' 
Bello horisonte, mas sem luz, sem brilho 
Sempre escondido. por funéreo véo. 



Adormecido, sepulchral archanjo 
Celeste aroma *-^ nem â Deus orou, 
Apenas folhas — desbotada rosa, 
Sem ter amor seu coraçSo ficou. 



Bettencourt da Silwi. 



O QUE EU SENTI 



Senti no corpo um tremor convulso, 
Senti minh'alma desfazer-se em prantos, 
Senti que breve me fugia o pulso. 
Senti do peito já fugir-me os cantos. 



Oh ! • • . eu so£Pria ! . • . sim, soffria immenso, 
Amores loucos me abrazava o peito: 
Hoje, cançado de um soffirer intenso 
E' meu martyrío o já passado preito. 

Senti saudades quando já distante ^ 
De ti, ó bella, tão tristonho vi-me; 
Queria ao menos contemplar constante 
O rosto puro pelo qual perdi-me. 



TROVADOR 13 



Pois caminhava faturando anòiòres 
Qa^em breve iriam junto a ti pairar; 
Senti que via n'am jardim mil flores, 
E qne as mais bellas te podia dar. 

Oh ! essas flores que em delirio via, 
Eram mil beijos que almejara dar-te; 
Eram desejos qne jamais eu cria 
Que em vio fizesse o meu peito amar-te. 

Mui feliz fui n'e8se instante, virgem, 
Julgara a vida mais alento ter ! • . . 
Mas hoje, longe, só tu és a origem. 
Do pranto amargo que me £Etz descrer. 



Monte^Real. 



LUNDt 



UM JOGO 



Manca do sor. Noronha 



Com gentil, formosa dama 
Ha muito tempo joguei, 
Furo jogo em qué perdendo 
Com essa perda ga;ihei. 



i4 TROVADOR 

Comecei por um sorriso, 
Ella um olkar me lançou, 
Com esse olhar fiquei doudo, 
Quasi oom elle ganhou* 

Insiste, dei-lhe um suspiro, 
Ella um ai me desprendeu, 
Ouvindo soltar segundo 
Catou*Be e quasi perdeu. 

Deu-lhe um sentir de minh'alma, 
Deu-me um sorrir de paixSo, 
Quiz vencer, fiquei vencido, 
Lá perdi meu coraçto. 

Perdi tudo, mas que importa 
Se em breve me resarci, 
Se ganhei a affeiçSo d'ella 
E^ troca do que perdi? 

Ha muito tempo, ha mmto, 
Comtigo, Isbella, joguei : 
Perdesse embora no jogo, 
N'essa perda alfim ganhei. 



í 

A 






TROVADOR 45 



MODINHAS 



MARILU. SE HE NiO AMAS 

Poesia e moBÍca do fallecido padre-mestre José Mauricio Nunes Garcia 

Marília, se me nSo amas, 
NSo me digas a verdade, 
Finge amor, tem compaixão. 
Mente, ingrata, por piedade. 

Dize que longe de mim 
Sentes penosa saudade, 
Dá-me esta doce illuslb. 
Mente, ingrata, por piedade. 



A VIRGEM MELANCOUCA 



(nova hooisha) 



Para ser cantada na musica da modinha — Sonhei qtie mil flores 



Eu amo essa virgem 
TSo pura e tSo bella,. 
Morena formosa, 
TSo casta donzella. 



i6 TROVADOR 

Imagem tão lindai 
Exemplo de amor, 
Das flores mais bellas 
E' ella essa flor. . 

E' mais que coxistante, 
E' mui virtuosa; 
Dos anjos é copia 
E mui carinhosa. 

Por ella sou rei, 
Sou grande cantor ; 
Foi ella quem dea-me 
Soberbo valor. 

Oatr'ora eu carpia 
Vivendo a cborar, 
Sem ter lenitivo 
Meu duro penar! 

Foi bastante v61-a 
D'amor a sorrir, 
Meu £ftdo cruel 
Fez ella fugir. 

Morena formosa 
És meu pensamento; 
Se hoje tu tens 
Cruel. sofiErimento ! 

Virá esse f*"ft 
De tanta espprança, 
Que em vez de ter dores 
Terás a bonança. 



Adeodato Sócrates 'de Mello. 



TROVADOR i 7 



O MEU PENAR 



Basco camiàiia serena 

Para livre snspirar, 

Cresce o mal que me atormenta, 

Âugmenta-se o meu penar. 

Se ao brando rio procuro 
As minhas penas contar, 
O rio foge de ouvir-me, 
Augmenta-se o meu penar. 

Se ao temo canto de uma ave 
Vou meus gemidos juntar, 
Emmudece o passarinho, 
Augmenta-se o meu penar. 



CANGiO 



O DIA NUPCIAL 

(CAXTICO DO E8FOSO) 

Poesia do snr. dr. D. J. GU^nçalves Magalh&es, e musioa 

do snr. Baphael Coelho 

* £il-a de branco vestida 
Qual bella estatua de neve, 

VOL. IV. • 



18 TROVADOR 

Que á terra do céo descida 
Ninguém, nem mesmo de leTO, 
A por-ihe os dedos se atreve 
Por não vêl-a polloida l 



y 



Nunca tSo pura, 
Nunca tSo bella, 
Brilhou estrella 
No azul do céo. 
Nunca roseira 
A amor sorrindo, 
Assim tão lindo 
BotSo ergueu. 

Em lago argênteo 
Cjsne garboso, 
TSo gracioso 
Jamais pairou. 
Sublime artista 
iDe amor dilecto 
TSo puro objecto 
Nunca ideou. 



TSo sublime e primorosa 
Como o arroubo da poesia, 
Como a imagem graciosa 
Que a mente do vate cria. 
Quando vaga a phantasia 
Na enlevaçSo primorosa. 



Em seu semblante 
Tudo é ventura, 



TROVADOR 19 

Tudo é candura. 
Tudo é pudor. 
Alma celeatõ 
Lhe aaima o rosto, 
Que é um composto 
Que inspira amor. 

Ai de quem lhe ouve 
A Yoz canora, 
Que se evapora 
Em brandos sons ! 
livre esoutando-a 
Ninguém persiste, 
Ninguém resiste 
A tantos dons. 

Oh lua, oh estrellas. 
Oh céos, ah ! sabei, 
Que ella é minha esposa, 
Que esta alma lhe dei I 
Na vida e na morte 
Só d'ella lerei. 



RUITATIVOS 



FALLA 

Falia, meu anjol Que tuas vozes cândidas 
Aos meus ouvidos venham ter bem ternas ! 
Ah ! falia, falia ! De teus lábios trémulos 
Solta essas notas divinaes, eternas ! 



20 TROTiU)OR 

Deixa em mea peito vir cahir dulcissimas, 
Oscillando uma a uma entre o receio, 
As tuas phrases que em minh'alma gélida 
Mudam-se em chammas me «brazando o seio ! 



Falta ao canário um harpejar tSo magico, 
£ falta i 1 jra um proferir tSo dino I 
Nada te iguala no £allar angélico. •• 
Slo tuas ÍEdlas sacrosanto hjmno. 



Quando tu dizes < Eu te amo» e pudica 
O rosto escondes com ternura e medo, 
Sem ti no céo não se desprende um cântico 
Assim vibrado, tfto sublime e ledo ! 



Se em alta noite entristecida, pávida, 
Gemer a flauta na soidSo é bello. 
Mais bella ainda é proferida syllaba 
Pelos teus lábios c'o in£eintil desvelo! 



Na mata umbrosa o sabiá extático 
Cala seu quebro que vencido fica! 
Tudo emmudece á tua vo^, e o misero 
Na mágoa immerso seu sofirer deifica! 



Falia, meu ai^o ! Tua voz é bálsamo 
Que suavisa do pezar a chaga i 
Com tuas falias doesta vida lúgubre, 
Mata a descrença que meu peito esmaga ! 



M. P. Leitão. 



i 



TROVADOR il 



AMOR E delírio 



Vem vêr, ó virgem, como esta alma sente, 
E nSo te mente no jorar-te amor ! 
Vem vêr que adoro teu cabello louro 
Que é meu thesouro de maior yalor ! . • • 



Vem yâr que sinto n'este peito em anciã 
Muita constância que terei por ti ! • . • 
Vem vêr que choro por te vêr chorar 
Ao dedilhar d'esta minha harpa aqui. 

Eu amo, ó virgem, teu olhar quebrado, 
E o assombrado d'esses olhos bellos ! 
Eu amo a neve de teu coUo virgem, 
Amo a vertigem, meu sonhar, d'anhelos ! 

Amo teu peito, divinal sacrário. 
Que é meu erário, meu altar d'amor ! 
Amo-te o riso que dá luz ao triste, 
Que n2o resiste ao sofPnmento, á dôr ! • . • 

Amo teus olhos que me accendem n'alma 
Amor sem calma, divinal paisIU)! 
Amo-te a face, tSo rosada, bella. 
Amo, donzella, teu fanal condão !... 



E quando ás vezes um murmúrio vago 
Vem n'um só trago acordar minh'alma, 
EntSo eu sinto tua imagem qu'rida 
Abrir-me a frida d'este amor sem calma ! . . . 



ii TROVADOR 

E BÍnto em sonhos tua imagem qa'rida 
Chamar-me á vida, attenuar-me a dôr ! 
E doa-te em paga ix'esta minha lyra, 
Quando delira, um suspirar d'amor ! . . . 



V. M. 3. M. 



LUNDfi 



BBRNABÉ CANGICA 



Mulata, tu és a causa 
D'eU andar sempre a tinir. 
Todo o dinheiro que ganho 
E' pouoo pVa me vestir. 



Todo á moda, qual janota 
Ando sempre a passear : 
Todas as vezes que saio 
Vou as botas engraxar. 



Alegre por tua porta 
Passo o dia, a noite passo, 
Miro todo este corpinho, 
Eu mesmo nSo sei que faço. 



TROVADOR 



23 



Se te yejo debruçada 
Contente só na janella, 
Tado em mim é confusSo, 
Sinto dores na canella. 



Quando eu tiver oerteza 
Que me adoras a mim só 
Vãr-me-has atraz de ti 
Humilde qual um totó. 



Mulata, eu vou-me embora, 
Mas meu nome aqui te fica, 
I^unca te esqueças, meu bem, 
Do teu — Bwmabé Cangica. 



MODINHAS 



QUANDO SEU BEM VAI-SE EMBORA 



Cresce amor de dia em dia, 
Cresce amor de hora em hora, 
Cresce também a saudade 
Quando seu bem vai-se embora. 



24 " TROVADOR 

Temos ciameB 
Causam saudade, 
Nada mais firme 
Que uma amizade. 

Tudo no mundo fenece, 
O mesmo amor se minora, 
Só quem nSo ama nSo sente 
Quando seu bem vai-se embora. 

Ternos ciúmes — etc. 

Grandes tormentos padece 
Um peito que firme adora. 
Só quem ama é que sente 
Quando seu bem vai-se embora. 

Ternos ciúmes — etc. 

Sente a alma espedaçarnse, 
Suspira, lamenta e chora, 
Quem ama está presente 
Quando seu bem yai-se embora. 

Ternos ciúmes — etc. 

Ainda que os lábios nSo fallem 
Da despedida na hora, 
Os olhos pedem que fiquem 
Quando seu bem vai-se embora 

Ternos ciúmes — etc. 






TROVADOR S5 



PARA Mm É O MUNDO UM DESERTO 



(noya. modihha) 



Para ser cantada com a musica da modinha — Mal te vi eu te amei 



Para mim é o mando um deserto, 
Passo a vida em continuo soíFrer, 
Nada yejo qne possa alegrar-me 
Nem oessar este meu. padecer. 

Vem, oh ! morte, visão de meus sonhos, 
Vem, nSlo tardes feliz me tomar! 
X)uve o — brado, — do triste que chora, 
Vem, nSo tardes, meu pranto enxugar ! 

N'este mundo nSo tenho um amigo 
Qae me possa um suspiro colher, 
N^este mundo encontrei só tormentos 
Que me fazem mil vezes soffrer ! 

Vem, oh! morte, visSo de meus sonhos — etc. 

Todos gozam na vida prazeres 
Só eu vivo no mundo a penar, * 
Se existindo, só tive pezares, 
Devo morto delicias gozar. 

Vem, oh! morte, visão de meus sonhos — etc. 



26 TROVADOR 

Ea amei no verdor de meus annos 
A belleza que o mundo invejava! 
Foram poucos os gozos que tive 
D'e8se amor que meu peito animava. 

Vem, oh! morte, visSo de meus sonhos — etc 



« 
D'esse amor que meu peito nutria 

NSo existe sequer uma flor, 

. Este mundo p'ra mim é cruel, 

Dá-me prantos, tormentos e dôr ! 



Vem, oh! morte, visSo de meus sonhos r-etc. 

NSo aspiro as riquezas do mundo 

Nem tSo pouco delicias gozar ; * 

Só desejo o silencio dos tumules. 

Onde breve eu irei repousar. 

Vem, oh! morte, visSo de meus sonhos — etc. 

Hoje triste no mundo, sósinho. 
Tento embalde meu pranto occultar. 
Que os gemidos que estalam-me o peito 
Só a morte é que os pôde acabar ! 

Vem, oh ! morte, visSo de meus sonhos — etc. 

Mdlo e Oliveira Júnior, 



TROVADOR 21 



POLACA 



AMOR ETERNO 



Poesia do snr. dr. D. J. Gonçalves MagaMes, e musica 
* do snr. Raphael Coelho 



Vi, minha Urania, 
Tea lindo rosto ! 
' MÍD]i'alma absorta 
Tremeu de gosto. 



Dentro do peito 
O coraçSo 
Sentia o ejSeito 
D 'essa visSo. 



De um poder novo 
Todo o attractivo 
Soprou-me n'alma 
Um fogo vivo. 



Fiquei sabendo 
Porque nasci, 
Alegre vendo 
Mentem em ti. 



S8 TROVADOR 

O amor eterno 
Qae tudo cria, 
Se amor nSo fosse, 
NSo noB faria. 

Nossa existência 
E' toda amor, 
Qual é a essência 
Do Creador. 



NSo, nSo, a morte 
Não nos separa; 
Âlém dos mandos 
Ha luz mais clara. 

A ella accesso 
E' o morrer, 
.E' um processo 
Do renascer. 

Os qae no mondo 
SSo mais amantes 
SerSo anidos, 
Mas radiantes. 

Amor mais forte 
Lá irá ter, 
Sem já da morte 
Nada temer. 

Tal é, ohl bella, 
Nosso destino ! 
O céo me inspira 
Qoanto imagino? 



TROVADOR 29 

Do amor no estudo 
Consiste o bem ; 
O mal é tado 
Que amor nSo tem. 



O bem só amo, 
O bem desejo, 
O bem agora 
Em ti só yejo. 



Quero a teu lado 
O bem gozar 
E ser amado, 
E sempre amar. 



8e tu desejas 
Ser venturosa, 
Ama a quem te ama, 
E est'alma esposa : 



E temo unamos 
Teu sêr e o meu. 
Dos dous façamos 
Como um só Eu. 



L. 



80 TROVADOR 



RECITATIVOS 



UM TEU DOCE agrado 



Eu amo a^ flores em manhS serena, 
FrescaSi viçosas, perfumando o prado, 
Porém adoro, amo mais ainda 
Um teu sorriso, um teu ddoe agrado. 

Eu amo os cantos maviosos, puros, 
Gorgeios brandos de mimoso alado, . 
Mas. • . ah ! que amo, muito mais eu amo 
Um teu sorriso, um teu doce agrado ! 

Eu amo vêr em deserta praia 
O mar sereno qual leSo domado, 
Porém mais amo, mais prazer me d& . 
Um teu sorriso, um teu doce agrado. 

Eu amo as meigas e temas carícias 
Da mSi querida ao filhinho amado. 
Mas mais eu amo um carinho teu, 
Um teu sorriso, um teu doce agrado. 

Eu amo ouvir os accordes santos 
D^orgSo divino em templo sagrado, 
Mas amo. . . adoro com fervor maior 
Um teu sorriso, um teu doce agrado. 



TROVADOR 81 



Eu amo os brincos d^iiifantil menino 
Que folga isento do menor caidadO) 
Porém ea amo muito mais que tudo 
Um teu 8orris0| um teu doce agrado. 



Condida lêobel dé Pinto Chtrím* 



A VIRGEM DP LOTO 



Trajava vestes que o sofirer exige, 
Mesmo de luto se ostentava bella, 
— Era qual anjo a vigiar sepulchros 
Da noite em meio — em faneral capella. 

N'aquellas &ces onde outr^ora a rosa 
CoUocar vinha suas lindas cores, 
Eu vi 08 traços salientes — vivos 
Das nutis atrozes, cruciantes dores. 



Quizera parte d'esta dôr tSo forte 
Sofifrer sósinho — mui feliz seria; 
P'ra contemplar-te mui risonha, sempre 
Parte d'est'alma eu a ti daria. 



Quizera vêr-te, como outr'ora — alegre, 
Pixando a lua no seu céo de anií, 
Quizera vêr-te, como outr'ara vi-te. 
Cheia de encantos, de attractivos mil. 






32 TROVADOR 

Qaizera a face te oscular um dia, 
Entre meus braços te estreitar uma hora, 
Mesmo que a morte me roubasse a vida 
Entre mil tratos — morreria — embora. 



E'8 minha sombVa a me guiar os passos, 
Dos sonhos meus — celestial visSo; 
E's a mulher a quem venero e amo, 
Se esta franqueza te ofifender — perdSo ! 



Oualberto Peçonha. 



LUNDU 



O PROGRESSO DO PAIZ 



Para ser cantado com a musioa do londú — O TeUes carafiMro 



O progresso *âo pais 
Cada vez augmenta mais, 
Temos por toda a cidade 
Encanamento p'ra fecaes. 



Já a Praça do Mercado 
Está no século das lanUmoBj 
Pois abriu nos quatro cantos 
Um botequim e três tabernas» 



J 



TROVADOR 33 



Também na Praia do Feixe 
Tem o negocio augmentado ; 
Com dous yintens de re&esco 
O poYO fica gelado. 

Já a ma do Catette 
Está-se pondo em grande gala, 
Té mesmo a Uruguayana 
Madou-ae p'ra a rua da Valia. 

Também o grande Rocio 
Tem-se posto em grande luxo; 
Pois sustenta em cada canto 
Um formidável repuxo. 

O Campo andou cercado 
Por mais de um batalhSlo ; 
No centro tomando — ares — 
Os presos da Correcção. 

A guarda nacional 
Anda toda aquartelada, 
Fazendo rondas e guardas, 
Tem-se visto atrapalhada. 

Também se vâ pelas ruas 
Macacos a tocar pratos, 
E o Bouleyard-Carceler 
Arrendado aos — engraxátos. 

Temos em todos os cantos 
Cambistas de loterias^ 
Temos tocadores de harpas, 
Pandeiros e cantorias. 

VOZt- IV. 



34 TROVADOR 

Também temos um invento 
P'ra allÍTÍar algibeiras, 
E' descaidar-se nas festas, 
Dos — bif adores de carteircu. 

Temos guerra lá no sul 
Qué nos veio arripiar ; 
Portanto faço aqui ponto 
Té à guerra terminar. 



Augugto Rodrigues Duarte. 



MODINHAS 



O ADEUS DO VOLUNTÁRIO 



Minha mSi, eu parto, adeus, 
Vou imigos combater, 
Pela pátria, por meu rei 
O meu sangue vou verter. 



Não chores, querida mSi, 
Por teu filho tSo querido. 
Eu parto, mas voltarei 
Quando o tredo £5r vencido. 



TROVADOR 3j 



Ouço a voz de meus irmãos 
Qae me chamam ao combate, 
Voa comprar com o meu sangue 
Dos meus irmãos o rôagate. 

Occultarás, por piedade, 
Minha mãi^ o pranto teu, 
Porque elle desfallece 
O triste coração meu. 

Voltarei cheio de gloria 
A este querido solo, 
— Minha fronte laureada 
Reclinarei em teu coUo. 

Quando passares um dia 
Por meio do tropel vario, 
De prazer — elle dirá 
Eis a mãi do voluntário. 

Voltarei. . • porque as balas 
A mim não alcançarão, 
Porque teu retrato — mãi 
Levo no meu coração. 

Porótn se Deus fôr servido 

m 

Levar-me p'ra o reino seu, 
Paciência, minha mãi. 
Dá ao filho o pranto teu. 

E quando te perguntarem 
Pelo teu filho — soldado. 
Responde — morreu na Incta 
Com valor mui denodado. 



; 



36 troyàdor 

Minha mSi, ea parto, adeas, 
Voa imigofl combater, 
Pela pátria, e por meu rei 
O meu sangue vou yerter. 



TEUS LINDOS 0LE08 



TeuB lindos olhos 
Pretos, formosos, 
Mais luminosos 
Que os astros sSo, 
Quando se yolvem 
Temos, brilhantes, 
DSo aos amantes 
ConsolaçSo. 



Bocoa pequena, 
Virgem e grave, 
Amor suave 
Faz libaçSo. 
Ah I se eu podesse 
Beijal-a um dia, 
EntSo teria 

ConsolaçSo, 

r 

Os alvos dentes 
Da côr da neve. 
Da bocca breve 
Ornatos s2o. 



— B— »W^S_ 



TROVADOR 37 



Os torneados, 
Braços hem feitos 
Parecem feitos 
à proporçSo. 



Cintura airosa 
E das melhores^ 
Por onde amores, 
Prender nos vSo. 
Por isso agora 
Amor sagrado 
Nos tem formado 
Doce prisão. 



Pretos cabellos 
Soltos nop hombros 
Causam assombros 
Âo coração: 
Os pés descalços 
Formam passadas : 
Flores sagradas 

Nascem do chão. 



Ah I lilia bella, 
Te retratei, 
Se n'isto errei 
Peço perdão. 
Solta um sorriso. 
Presta um soiccorro. 
Senão eu morro 
Doesta a£9icção. 



38 TROVADOH 



O MEU FIEL JURAMENTO 

MoBÍca do snr. Noronha 



Ary're que embalas teus ramos 
N&s brandas azas do vento, 
Deixa gravar em teu tronco 
O meu fiel juramento. 



Se aqui passar algum dia 
O motor do meu tormento, 
Leia ao menos uma vez 
O meu fiel juramento. 

E se sobre estas palavras 
Meditar um só momento, 
Saiba que fida ainda' guarda 
O meu fiel juramento. 



RECITATIVOS 



SONHEI-A 

Sonhei-a ! dormia co^as mSios sobre os seios 
Talvez nos anceios d'um vago sonhar ! 
E vinham-lhe ao rosto quebrar-se em desmaios 
Os pallidos raios de um tibio luar. 



TROVADOR 39 

Qae noite ! que ar puro ! que bagico effeito 
Nas fibras do peito senti palpitar, 
Qae sustos, que angustias ! por vêl-a abatida 
Por yêl-a dormida tão perto do mar ! 

E a noite ia alta ! e a briza gemia 
E o mar parecia querêl-a beijar: 
Dormia tão perto que os alvos vestidos 
Julguei confundidos co'a espuma do mar ! 

Assim que avistei-a de longe correndo 
Cheguei-me tremendo já quasi a tocal-a. • • 
Propicia era a hora, da noite o ensejo 
E louco n'um beijo fui quasi acordal-a« 

Mas antes do beijo depôr-lhe na fronte, 
No largo horisonte eis surge-me o dia; 
O engano desfez-se ; a sombra fugiu-me, 
Fugiu-me! e entre as neyoas da noite a perdia. 



A iniLHER PERDIDA 

Nem sempre a misera se arroja ao lago, 
Sem um afago, sensual, impuro, 
Concebido sempre por nefando gozo 
Do mentiroso, que nSo tem futuro. 

A misera vendo offerecer-lhe galas. 
Ou temas falias que mentidas são. 
Té olvida o leito da infância bella 
E caminha ella para a laxidSo ! 



40 TROVADOR 

Vai Boryer o gozo do voraz mandaBO, 
Qaa tão ufano, não lhe punge n'alma, 
Arrostar um crime deshonrando aquella 
Que a florte d'ella, colheria a palma. 

Decorrido tempo v$-se a pobre exhausta 
Da vida fausta que já foi senhora ; 
Nem vendo aquelle que cortou-Ihe os elos 
Dos dias bellofl que gozara outr'ora 1 

Se remonta então no painel do crime, 
Porque a opprime da miséria o manto, 
Trocando beijos pela vil moeda 
Que o crime a veda de gozar encanto ! 

Nas orgias busca mitigar as mágoas, 
Mas acha fraguas de acceso horror ! ! 
Acha veneno que n'um hospital 
Vai afinal succumbir de dôr ! 



A 



Succumbe alfim ! ao rigor da borte 
Quanda a morte lhe fenece a vida ! 
Sem ter quem diga apontando a lousa 
AUi repousa — A mulher perdida ! — 



A VIRGEM DA NOITE 



A yirgem da noite no azul transparente 
Do lago tremente reflecte o perfil : 
E o manto de estrellas sorrindo desata 
Em ondas de prata no ether subtil! 



TROVADOR 41 

A terra abrazada palpita em desejos, 
Nas selvas os beijos se escutam d'amor: 
Ás auras travessas brincando nas ramas 
Abrazam em chammas o coUo da flor! 

Trepidam regatos por entre a verdura 
De branca espessura em dôoe gemer ;* 
£m vago, amoroso, celeste abandono 
Parece que ao somno convida, ao prazer ! 

A mystica sombra dos bosques frondosos 
Nos campos saudosos, phantasmas produz ! 
Eterna, incessante, suave harmonia. 
Nos diz — Poesia — nos raios da luz!... 

Que noite, que immensa e profunda tristeza 
Do céo na pureza, nos astros, no ar ! . . • 
Saudade infinita que as almas devora 
Sentimos n'esta hora, pungir, abrazar! 

Poeta, silencio ! curvemos a fronte 
Ao vivo horisonte d'ignoto arrebol ! 
No seio da noite fecundo estremece 
E surge, apparece, em breve outro sol ! 

Extático e mudo adoro e contemplo! 
Nas aras do templo me prosto ante Deus ! 
Mas tu, cujos cantos o génio illumina. 
Na harpa divina remoata-te aos céos ! 

« 
' E. Zaluar. 



** TROVADOn 



LUNDU 



MESMO DA CAMA PÔDE ESCUTAR 



Mesmo da cama 
Pôde escutar 
Esta modinha 
Que vou cantar. 



NSo se levante, 
NSo quero, nío, 
Pôde apanhar 
tJonstipaçao. 



Amo a uma bella 
Que é moreninha, 
E engraçada, 
E bonitinha. 



Tem lindos olhos 
De negra c6r, 
Elles exprimem 
Amor. . . amor. . . 



TROVADOR 



43 



Âs suas faces 
Vertem carmim, 
Tem lindos dentes 
Cor de marfim. 



Ella é minh'alma, 
É vida minha, 
É o meu Deus 
A moreninha. 



Ella castiga 
Com sua côr, 
'[todo o seu talhe 
Exprime amor. 



Quero comtigo 
Mui docemente, 
Dar em teus lábios 
Um beijo ardente. 



Beijo de amor 
E de amizade, 
Com que suave 
Faz a saudade. 



u 



TROVADOR 



MODINnÁS 



A Til 

Musica do snr. Noronha 

Feliz a briza que teus lábios roça, 
Feliz a flor que no teu coUo expira, 
É mais feliz quem ii'um sorrir te sorve 

Sôfrego beijo. 

» 

Se te diviso, o ar e a luz me foge, 
Mil pulsaçSes meu coração constrangem. 
Louco titubo e o rubro humor nas veias 

Gélido pira. 

Mas se te escuto as namoradas falias. 
Se em brando amor os olhos teus removes, 
Se a doce bocca de coraes entre-abre 

Languido riso. 



Oh ! que delirio comparar-se pôde 
Ao que minh'alma a ignotos céos arrouba? 
Sem côr, sem voz, sem esperança, sem alma 

Tremulo morro. ' * 



THOYÂDOR 45 



LAGRIMAS DO VOLUNTÁRIO 



Poecáa do snr. V. J. Bom Suoeesso Júnior, e musica do snr. Arvellos 



Bofa a caixa, á guerra, á guerra I • « 
Eis o brado da naç&o ; 
Sou brazileiro e com anciã 
Voa defender meu pendSo. 

Adeus, esposa querida, 
Alijo que sempre adorei; 
Cala o- pranto, a dôr mitiga, 
Que breve te abraçarei. 

Vou libar, sei, gota a gota 
O cálix do sojQTrimento, 
Mas serei feliz yencendo, 
Te tendo no pensamento. 

Adeus, meus queridos filhos, 
Abraçai o vosso pai. 
Que para vos dar um *nome 
Defender a pátria vai. 

Meus filhos I . • • querida esposa, 
Coragem I • . . tende valor : 
O Brazil é nossa pátria, 
Pedro é nosso imperador. 

Virgem Santa, eu vos entrego 
Os únicos penhores meus, 
Por minha mulher e filhos 
Velai sempre, oh! Senhor Deusl 



46 TROVADOR 



POR UM SÕ AI 



Se me queres vêr rendido 
De joelhos, a teus pés, 
Por um olhar que me lances, 
Por um só ai que me dês ; 

m 

Se queres vêr o meu peito 
Rugindo como um vuIcSo, 
Estourar, arder em ohammas, 
Ferver de amor e paixSo ; 

Se me queres vêr sujeito, 
Curvado e preso a tua lei. 
Mais humilde que um escravo, 
Mais orgulhoso que um rei; 

Meus olhos sobre os teus olhos 
Meu coração a teus pés ; 
Por um olhar que me lances 
Por um b6 ai que me dês. 

Veja eu sobre os teus lábios 
Esta só palavra — amor. 
Estrella, cortando os ares, 
Abelha, sobre uma flor. 

9 

EntSo verás dos meue olhos 
Que o pezar me não cegou. 
Rebentarem de alegria 
Prantos que a dõr estancou. 



TROVADOR 47 



EntSo verás o meu peito 
Como outra vez se incendia, 
Era folha verde e fresca 
Onde o sol sé reflectia. 

Murcha e triste pende agora, 
Cahiu, jaz solta, está só ; 
Exposta ao fogo, arde em chamma, 
Deixal-a, desfis^z-se em pó I 

Ha-de sentir outra vida 
Outra vez meu coraçSo, 
Escutarei palpitando 
De amor, de fogo e paixSo. 

Lascado tronco sem graça 
Tal fui, tal me vês agora! 
Mas venha o orvalho celeste, 
Venha o bafejo da aurora. 

Venha um raio de alegria 
Dar-lhe ás raizes calor ; 
Revive de novo e brota 
Folhas, galhos e verdor. 

• NSo quero palavras falsas, 
NSo quero um olhar que minta, 
Nem um suspiro fingido. 
Nem voz que o peito nSo sinta. 

Basta^me um gesto, um aceno. 
Uma só prova — e verás, 
Minh'alma presa em teus lábios 
Como de amor se desfaz I 



48 TROVADOR 

Vêr-me-has rendido e sujeito, 
Captiyo e preso á tua lei ; 
Mais humilde que um escravo, 
Mais orgulhoso que um rei I 



DESEJO 



Musica do sor. Noronha 



Qh ! quem nos teus braços 
Podéra ditoso 
No mundo viver, 
Do mundo esquecido 
No languido gozo 
Do infindo prazer t 

Senhora, teus olhos 
Serenos em calma, 
Paliando d'além, 
D'além de uma vida 
Que sonha minh'alma 
Que a terra nBo tem. 

Eu dera este mundo 
Com tudo que encerra, 
Por esse condSo; 
Thesouros e glorias, 
Os thronos da terra 
Que valem, que sSo ! 



TROVADOR M 



A vida, essa mesma 
Daria contente 
Sem pena, sem dôr, 
Se um dia embalasse, 
Um dia somente, 
Meu sonho de amor. 



RECITATIVOS 



OUTR^ORA 



Afagos magos e venturas paras, 
Donzella, outr'ora já gozei por ti, 
Immensas crenças na perdida yida 
Dentro em meu peito com prazer senti. 



De enleio o seio palpitante, amante, 
Ai ! muitas vezes palpitou de amor ; 
Miiili'alma a palma da magia via 
Do0 teus amores na primeira flôr. 



Inunerso em f)erço de risonhos sonhos 
Meu pensamento vagueou no céo; 
Sereia cheia dos augures puros. 
Porque rasgaste o pudibundo véo? 

VOL. IV, 



50 TROVADOR 

Âmei-to. Dei-te do meu peito a eito 
Toda a esperança, todo o am(»r e fé ; 
NSo via, cria que a donzella belia 
Só ergaeria meu amor de pé. , 

Vira da lyra nos divinos hyninoB 
Uma esperança a desabrochar em flor; 
Nas scismas — prismas, nos amores — flores, 
Nas crenças — vida, e n'essa vida — amor. . 

» 

Da lyra ouvira nos amenos ihrenos 
A tua doce o embriagante voz : 
Sonhando, amando, no meu seio veio 
Lançar as garras um ciúme atroz. 

Trahiste; riste dos encantos — tantos, 
Que promettiam divinal porvir ; 
Mataste, eivaste uma ventura pura 
No venenoso d'esse teu sorrir. 



Outr'oxa — a aurora de ditosos gozos. •• 
Hoje — amargura que p'ra mim sorrir 
Outr'ora — a aurora de risonhos sonhos... 
Hpje — a saudade d'esse amor por ti. 



OafAeu 



TaovAO(m 51 



A TARDE 

NSo imaginaa como é bella a tarde I 
O peito arde com saudades mil. 
Ao doce aroma d'es8as flores bellas, 
Lindas, singelas, sob um céo de anil. 

Além murmura na folhage' a briza, 
E após desliza do riacho ao leito, 
E a meiga rola no laranjal florido 
Solta um gemido ao soluçar do peito. 

O orvalho desce em crystallinas gotas, 
— Pérolas soltas esmaltando as flores — 
Quando talvez... bem palpitam os seios 
N'esiiea anceios de virginaes amores. 

Triste suspira a jurity saudosa, 
Bella e formosa da coUina á margem, 
E sobre a rosa .o colibri mimoso 
Balouça airoso ao perpassar da aragem. 

Lá no occaso descambando ardente, * 
Morre fulgente o bello rei dos astros; 
Como o navio que n^horisonte louco, 
Vai pouco a pouco escondendo^ os mastros, 

£' — uma idéa d^esses sonhos bellos, 
D 'esses anhelos que ao coraçAo pulsou! 
E' a imagem de um amor primeiro. 
Sonho fageiro-que morreu. •• passou... 



Benjamin LaboUilre. 



5S TROVADOR 



LUNDC 



GENTIL ANAUA 



Lundu brasileiro por J. M. N. Garcia 



Gentil Ânalia^ a belleza, 
Graças, meiguices, candura, 
Só na tua formosura 
Esgotou a natureza; 
Do céo toda a gentileza 
Bespira teu ar fagueiro, . 
Teu corpinho fieiticeiro 
Que accende, que inspira amor ; 
Inda para mais primor 
Teu corpinho brasileiro. 



E' tal tua perfeição, 

SSo taes teus dotes divinos, 

Que 08 mesmos brutos fexiinos 

Te rendem adoraçSo^ 

Jove co'a fulminante mSo 

Com que abraza o mundo inteiro, 

Suspende com ar sobranceiro 

Quando vê em ti, meu bem. 



TROVADOR 53 



Brilhar os dotes que tem 
Teu corpinho brazileiro. 



A par d'eB8a Divindade 
MSi das graças e dos amores, 
A quem sublimes louvores 
Tributa a humanidade; 
Nos quindins, na gravidade, 
Tu tens o lugar primeiro : 
Tudo quanto ha lisonjeiro, 
Que attrahe, captiva e rende. 
Em ti, meu bem, comprehende 
Teu corpinho brazileiro. 



Mil bens que a fortuna cria, 
Pesados cofres de ouro, 
O mais sublime thesouro, 
O mesmo tbrono, a monarchia. 
Tudo, tudo eu deixaria. 
Deixaria o mundo inteiro. 
Se meu amor verdadeiro 
Desse ouvido ao seu bem. 
Desse tudo que em si tem 
Teu corpinho brazileiro. 



>• 
/ 



54 TROTADOR 



MODINHAS 



CORAÇÃO DE BRONZE 



Nem um ai, nem um suspiro 
Já te causam sensaçâOi 
A tudo és insensível, 
Tens de bronze o coraçSo. 

■ 

Minhas lagrimas nSo te movem, 
Nem minha tema paixFío ; 
SSo baldados meus extremos, 
Tens de bronze o coração ! 



ADEUS Á PÁTRIA 

« 

(noya modthba) 
Para ser cantada pela ihaslca da modinha — Dá-me um beijo 

Adeus, cidade do Porto, 
Pátria de minha paixílo, 
Saudades que n'alma sinto 
N&ncamais me esquecerão. 



TROVADOR 



55 



Para loBges terras voa 
Já que a sorte assim o qniz, 
Eu espero vêr-te ainda 
Se tim dia fôr feliz. 



Da infância aquelles tempos 
Que em minha pátria passei, 
Tão alegres, tSo felizes 
Nunca mais os gozarei* 

Vai-se acabar esse tempo 
Outro pois começará, 
Se o presente é tSo tristonho 
O porvir melhor será. 

Esses dias venturosos ' 
Que tSo depressa voaram, 
Já morreram para mim. 
Já para mim se acabaram. 

Esses tempos que folgava 
Em frente do Hio Douro, 
Para .vir inda a gozal-os 
Daria um grande thesonro. 

Mas esse grande thesooro 
Que te posso offerecer, 
£' um coraçSo verdadeiro 
Que te ama até morrer. 

Adeus, dd^e do Porto, 
Onde foi meu nascimento,. 
Deus me leve e aqui me traga 
 vêr-te com salvamento. 



Í*L£.«..*^ 



66 TROVADOR 

Oh I minha mSi carinhosa 
De minh'alnia tSo quorida, 
Nossos corações se partem 
N'este adeus de despedida. 

Adeus mSi, adens amigos, 
Adeus minha habitaçfto, 
De ti levo mil saudades, 
Em ti deixo o coraçSo. 

Adeus tudo quanto adoro, 
Adeus tudo quanto amei, 
Tenho esperança q'inda um dia 
A minha pátria voltarei. 

Adeus, cidade do Porto, 
Encantos da vida, adeus. 
Que a TÔr>te torne um dia 
Oxidi permitta Deus. 

Por uma aeíihora portuense ao deixar Portugal, 



TEM, Õ BRIZA, FIEL COMPANHEIRA 



Lá no topo erguido da serra 
Quero ser pela briza afagado, 
Já que outras caricias não gozo 
Que compensem o meu triste &do'. 



TROVAt>OR 57 



Vem^ ó briza, fiel companheira, 
NSo te queiras de mim afastar, 
Acompanha o meu triste fado, 
Harmonisa meu rude cantar. 

Desprezado eu fui pela ingrata, 
Sou dos entes o mais infeliz, 
Para' que merecesse tal sorte 
NSo me lembra nem sei o que fiz. 

Vem, ó briza — etc. 

Se algum dia contrita esta ingrata 
Seu perdão me vier supplicar, 
Hei-de então com doçura e bondade, 
Porque amo... saber perdoar. 

Vera, ó briza — etc. 



RECITATIVOS 



recordaOão da tristeza 

Sombria noite me recorda em dores 
Loucos amores que frui comtigo, 
Anhelos, crenças, d'essa quadra ida 
Pttngem-m^e a vida no porvir imigo. 



58 TnOYAI>OR 

Choro esse tempo de íllusorios sonhos 
Que tSo risonhos me douravam os dias, 
Choro a esperança que brotou-míe n'alrDa 
Ka doce calma de gentis delicias. 

• 

Sim, que dos gozos perfumosas flores 
Restam-me as dores que ligou uma sorte, 
Hoje meus lábios no soffrer crestados 
Em ais magoados só murmuram a morte. 

Fanou-se a estrella que fulgia pura, 
A desventura. d'um penar sem fim, • 
Perdi o anjo que inspirou-me as crenças, 
Santas, immensas, a sorrir p'ra mim» 

Que espero agora a soluçar descrente 
No pranto ardente de cruel saudade? 
Que espero agora no perder dos risos, 
Falsos sorrisos do florir da idade? 

Triste e sósinho n'um pungir de dôres 
Lembra-me amores que gozei comtigo, 
Embora a sorte nos rompesse os laços, 
Sigo os teus passos, tua sombra sigo. 



sòhhos, amores 

Sonhos, amores, illusSes desfeitas, 
Crenças, anhelos, já nSo sinto mais; 
O peito exangue, na descrença immerso, 
lamenta as flores que não vê jamais ! * 



TROVADOR ' . 59 



E quanto brilho lobrigava ao longe, 
Quanta esperança n'um futuro lindo ; 
Hoje me vejo sobre um lar d'espinhos, 
No qual outr'ora perpassei sorrindo. 

Áh I se podesse me esquecer do mundo, 
Viver tranquillo n'um lugar ameno, 
Sentir a briza bafejar meu rosto, 
Ouvir a lympha no passar sereno; 

Ah ! se podesse na mimosa relva, 
Sentado á sombra de gentil mangueira, 
Visar a lua no seguir das nuvens, 
E vêr a estrella na veloz carreira; 



Ah! se podesse n'um cantar de amores 
Chamar a virgem que me faz descrente; 
E recostado sobre o seio... amado, 
Ouvir as vozes de seu peito crente; 

Eu dera a vida juvenil que gozo, 
Toda a existência que meu sêr encerra. . • 
E abraçando com transporte a lousa. 
Cantando amores deixaria a terra. 



Sonhos, amores, illusSes desfeitas, 
Crenças, anhelos, já não sinto mais; 
O peito exangue, na descrença immerso, 
Lamenta aô flores que não vê jamais. 



M, P, Leitão, 



60 TROVADOR 



O SOLDADO 

Ai guerra! só guerra eu ouço bradar, 
Ao longe gritar a pátria offendída, 
Lá corro contente, vou bravo, valente, 
Com fé bem ardente entregar minha vida. 

Vingar os meus brios, tSo nobres, tão puros, 
Cpm passos seguroa levar meu pendão; 
Calcar com justiça os feros tyrannos 
Bem vis, desbumanos, que deu-nos traiçSo. 

Ardente minh'alma com firme valor. 
Pulando de amor qual bravo sem par, 
Mostrando aos tyrannos brazilea coragem, 
Nto teme a romagem que viu-lhe acenar. 

Só quero ter glorias, voltar Tenturoso, 
Ao seio ditoso, meu dôce viver, 
Gozar as caricas que outr'ora gozei, , 
De ti, que deixei, minha mSi ! meu prazer ! 

Ha tempos já tive as doçuras da vida, . 
De vêr-se rendida Urugitayna afamada. 
Sem sangue, nem lagrimas, a justiça vencer, 

A fome, o poder; que gloria avivada! 

» 

Foi Pedro esse heroe valente guerreiro, 
Fiel justiceiro quç lhes deu a Iiç2o; 
Fazendo só vêr esse ingrato, atrevido, 
O quanto sentido se pune a traição! 

'Adeodató Sócrates de MeUo. 



TROVADOR 61 



LUNDU 



O GATINHO 

Era um gatinho que eu tive 
Um gatinho folgasâo, 
Quereis saber o seu nome? 
Eu o chamava Turrão. 
Quereis sabel-o porque? 
Eu já vos digo a^razSo : 



Era da côr de azeviche, 

Tinha coUoira amarella, 

Quem m'o deu, nSo sei se o conte... 

Eu o furtei d 'urna bella!.,. 

cE mentira, tenho zelos, 

O gatinho deu-t'o ella ! » 



Se te* arrufas já commigo 
EntSo nSo quero contar ; 
Vai ouvindo a minha historia, 
Escuta, que has-de gostar: 
Eu o chamava TurrSo 
Porque era bravo no brincar» 



Quando me via tristonho 
Lamber vinha-me a mão, 
Quando me via contente 
Dava pulinhos no chSo : 



63 TaOYADOR 

Assim tomava o gatinho 
De prazer um bom fartSo* 



Mas um dia, oh I que ventura, 
O gatinho era brejeiro, 
Viu uma moça dançando, 
Foi-se a ella surrateiro; * 
Furtou-lhe a liga da meia 
E fugiu com eila ligeiro ! 



«Que foi feito do gatinho?» 
A moça logo que o via 
Lembrando-se da graçola 
De prazer gostosa ria; 
Té que por descuido meu . 
M'o furtou n'um certo dia ! 



MODINHAS 



A MINHA LILIA HOBRED 



N'aquella8 altas montanhas 
Aonde Lilia nasceu. 
Veio o rigor do inverno, 
A minha Lilia morreu. 



TROVADOR 63 



ÂBsim como as 'flores nascem 
 minha Lilia nasceu, 
Assim como as flores morresn 
A minha Lilia morren. 

Do monte veio xim pastor 
A minha porta bateu. 
Somente dar-me a noticia 
Que a miniia Lilia morreu. 

O.céo cohriu-se de nuvens, 
A própria terra tremeu, 
Ouvindo a triste noticia 
Que a minha .Lilia morreu» 

O morte, que mataste Lilia, 
Mata-me a mim, que sou teu, 
Fere-me com o mesmo ferr^ 
Com que minha Lilia morreu. 



OA INNOCENCIA O DOCE ESTADO 



Na minha pobre cabana 

Eu vivia descançado. 

Mas, oh céos! tão pouco dura 

Da innoeencia o doce estado! 

• 

A pastora mais gentil. 
Doestes campos, d'este prado, 
Boubou-me sem eu sentir 
Da innoeencia o dôce estado. 



64 TROVADOR 

Na porta da minha gruta* 
Me paz entSo assentado, 
Invejando a quem gozava 
Da innocencia o doce estado. 



Suspiros mil arrancava 
Do meu peito amargurado ; 
Felizes todos que gozam 
Da í jLno^eneia o dõee estado. 



N^estes campos eu vivia 
A apascentar o meu gado. 
Sem idéas de perder 
Da innocencia o doce estado. 



Pastor de amor sou todo. 
Já estou desenganado. 
Por gosto tenliO perdido 
Da innocencia o doce estado» 



Dou-te tudo quanto tenho 
Por gosto tudo te hei dado, 
Até dei-te sem sentir 
Da innocencia o doce estado, 

Francina, vivo a pensaTi 
D'esta aldêa separado. 
Suspirando po; achar 
Da innocencia o dôce estado. 



t 



TnOVADOá 6& 



PEZARES 



Tal como a nuvem 
Rubra-dourada, 
Qae co'alyorada 
Foge, se esyai; 
E' a minli'alma ! 
A mão do pranto 
Bouboa-lhe o encanto, 
Deixou-lhe um ai ! 



Por isBO eu triste, 
Desalentado, 
Busco no canto 
Ser consolado. 



Amei qual loucO; 
Doce vertigem 
Por uma virgem 
Senti ! • . • que amor ! • 
E d^essa bella, 
Gentil criança, 
Só a lembrança 
Me resta, e dôr. 



• • 



Por isso eu triste — etc. 

Sonhos de gloria 
Se dissiparam ; 
D'elles ficaram 
Feroz saudade : 

VOIí. IV. Ô 



f 



66 TROVADOR 

Fngia^me o estro ! 
Sim, eu nSo minto ; 
Moço, me sinto 
Sem mocidade! 



Por isso eu triste — etc. 



Os meus penates. •• 
Tudo o que amei^ 
Onde 08 deixei, 
Onde é que estSo? 
Tudo f ugiu-me ! • • • 
Âté o berço! 
Vejo-me immerso 
Na solidão ! 



Por isso eu triste — etc. 



RECITATIVOS 



PUJO SE VÊR-TE 



Fujo de vèr-te, e no encaínto d'aima 
G-ozo as delicias se te y^o alfim, 
Fujo de yêr-te, e no encanto, a calma 
Perco se deií^o de te vêr, oÍi ! sim ! 



j 



TROVADOR 67 



Fajo de vêr-te, pois teus olhos bdlos 
Matar-me podem sem pezar sentir, 
Embora eu sinta só por ti desvelos, 
NSo posso yâr-te, ciem sequer te ouvir. 

Fujo de vêr-te, mas cruel tormento 
NSo pôde amante supportar a dor, 
E no entanto só te vêr intento. 
Sem que me peças nSo te digo amor. 

Fujo de vâr-te, e dos passados gozos 
Vai a lembrança te .pedir perdão, 
Mas esse orgulho que nos fez ditosos 
Bojar nSo quero a teus pés, oh ! nSo! 

Fujo de vêr-te, e se me vês tristonho 
Vejo em teus olhos reflectir-se a dor, 
Fujo de vêr-te, e se me vês risonho. 
Quanto me alegra teu sorrir d 'amor! 

Fujo de vêr-te, mas se alegre ou triste, 
Lugar n'e8ta alma caprichosa tens, 
Se a copia tua no meu peito existe, 
Porque a meus braços te lançar nSo vens? 



GEKIDOS B'AL1IA 



DonzeUa bella, ^ue incensei e amei, 
Qual ama a chamma a mariposa airosa : 
Mou peito, afeito a delicioso gozo, 
Foi. . . teu morreu como a min^psa rosa ! 



68 TROVADOR * 

Dilecto afiecto te votava e dava 
Minh'alma em calma, meu amor em flor: 
Desprezo acceso bem audaz, mordaz, 
Me deste ! encheste o trovador de dôr ! 



Ingrata I mata pouco a pouco o louco 
Que triste viste te jurar — amar I 
E| má, me dá eàses desdéns que tens. 
Severos, feroS| a me dar penar I • • • 



4 

Embora agora tu me estales, falles 
Segredos tredos de cantor e amor : 
Oh! diis, feliz: — És venturado e amado.. • 
Engana ! sana-me o travor de dôr ! 



Desejo um beijo de candura pura, 
De um riso e viso, de delphim, p'ra mim.. 
Um lasso abraço a murmurar sem par 
Paix&o. . • que entSo és seraphim assim. • • 



Porém, que tem meu coração? . . • Em vXo 
Em tudo illudo 1 Eis-te a fugir e a rir. 
Do vulto estulto que em risonho sonho, 
N'um oéo sem véo te viu fulgir. . . sorrir 1 



Âi hoje... foge! Oh minha endeixa... deixa 
Serena arena em que crepita a dita. • . 
Que o pranto tanto, dos jneus cantos santos, 
Ai são cançSo de uma desdita afflicta I • . • 



TROVADOR 69 



Gemidos fidos da minh^alma em calma 
Sedentos, lentos a viver sem qu'rer! 
Nó mundb immundo me esvaindo, p lindo 
Amor em flor a fenecer... morrer !... 



«7. Pereita dt Almeida. 



LUNDU 



MUITO A HINH'ALMA SOFFREU 

Amei de uma bella os olhos. 
Uns olhos da côr do céo; 
Por causa d'esses olhinhos 
Muito a minh'alma sofieu. 

Feitiço, escuta, 
Olha teu dengue, 
NSo mais me chamei^ 
Cacherenguêngue. 

Tenho visto olhares ternos. 
Porém nenhum como o teu ; 
Por causa d 'esses olhares 
Muito a minh^alma soffireu. 

Feitiço, escuta — etc. 



« 



70 TROVADOR 

Dei-lhe um mimo feito d'ouro, 
Um formoso camapheu; 
Porém antes d'ella aceitar 
M^ito a minh'alma soffrea. 

FeitiçOi escuta — etc. 



Quando fallei-lhe em amor 
Toda ella estremeceu, 
Ao vêl-a tremula de susto 

m 

Muito a minh'alma soffireu* 



Feitiço^ escuta — etc. 



Tomei-lhe as mSos sem pedil-as, 
Uni-as ao peito meu, 
Mas ao sentii-a raivosa 
Muito a minh^alma sofi&eu. 



Feitiço, escuta — etc. 



Meus carinhos, meus affectos, 
Tudo ella aboi^eceu; : 
D'essa ingrata que mentiu-me, 
Muito a minh'alma soffi^u. 



Feitiço, escuta — etc. 



Esse anjinho tão formoso, 
Nunca o amor concebeu, 



TROVADOR 71 



Todo O tempo que adorei-a 
Muito a mixili'alma soffireu. 



Feitiço, escnta — etc. 



MeUo e Oliveira Junicr. 



MODINHAS 



ESCUTA, OH TIR6EH 



Para ser cantada na musica da modinha — Virgem Saanta 



Virgem santa e meiga a quem adoro 
Mais do que o proseripto ao lar querido, 
Escuta, oh virgem, o que sinto n'e8te peito, 
Attende ao menos ao meu pranto, ao meu gemido. 

Escuta, oh virgem, ao trovador que louco 
Por ti vive só de amor já delirante; 
Por Deus, nSo tenhas oh! tanto rancor d^elle 
Que ha soffrido de mais por ser amante. 

Deixa que n'e8Ba)s faces de carmim 
Sorva um beijo de amot* em meti delírio, 
Ah ! nSo sejas cruel, tem dó de mim, 
Attende ao menos a este meu martyrio. 



72 TROVADOR 

Deixa que n^eàsas tranças de azeviche 
Pouse um beijo com lábios resequidos, 
Que sentindo d'aki grato perfume 
Possa então acalmar os meus gemidos. 

Se ouvires branda lyra por deshoras 
Das cordas tristes sons só d'ais ferir, 
Sente amor, sente amor, abre a janella, 
Vem ouvir, o ieu bardo entSo carpir. 



OS INSTAIITES QUE NOS RESTAM 

Os instantes que nos restam. 
Linda Mareia, aproveitemos! 
Instantes tão venturosos 
Sabe o céo quando teremos. 

» 

Mareia, se os nossos destinos, 
Curtos dias nos protestam. 
Para que desperdiçamos 
Os instantes que nos restam? 

Ah! nSo percamos. 
Minha querida, 
Doces momentos 

r 

Da nossa vida. 

Se a risonha primavera 
De nossos annos já vemos. 
Da idade os bellos dias. 
Linda Mareia, aproveitemos ! 



TROVADOR 73 

Vem, minha bella, 
Entra em meu peito, 
De amor nos una 
Vincalo estreito. 

NSo percamod um instante 
Dos nossos dias gostosos, 
Antes que a morte no| roube 
Instantes t2|p venturosos, 

•Vem, minha Mareia, 
Que o tempo «orre, 
N^umliora o homem 
Se nasce, morre. 

 gozar tSo bellòs dias 
Sabe Deus se tornaremos, 
O prazer que temos hoje 
Sabe o céo quando teremos. 

Vem, une á tua 
^ A minha sorte, 
Vivamos juntos 
Até a morte. 



A RECORDAÇÃO 



Adorei na minha infância 
Bella joven seductora, 
Foi feliz minl^ ventura, 
Nossa sorte encantadora. 



74 TROVADOR 

Mimosa flor 
D'ha8te pendida, 
Vem reeordar 
Minha qnerída. 

De amores aa delicias 
Em nossos peitos jazeram, 
As sabias leis de Cupido 
Ás nossas alinas pi^nderam. 

Mimosa flor — etc. * 

• 

Da nossa jura de amor 
O hjmenea se apossou, 
O doce laço da vida 
Té por fim se consunimou. 

Mimosa flor — etc. 

Correu o tempo toIoz, 
Seguiu-se a sorte fatal, 
Mas em breye yi findado 
O nosso amor conjugal. 

Mimosa flor — etc. 

Pois a morte impia e fára 
Roubar veio a minha amada^ 
Deixando em meu temo «peito 
Sua imagem retratada. 

Mimosa flor — etc. 



TROVADOR lã 



Como prova de lemtrançA 
Da nossa antiga ventura, 
Fui plantar uma saudade 
Junto á sua sepultura. 

Mimosa flor — etc. 

Cresce commigo a saudade, 
A lembrança do passado, 
£ assim a penar vivo 
Carpindo o meu duro fado. 

Mimosa flor — etc. 

Bem juntinho da saudade 
Mimosa rosa nasceu, 
Recordando o nosso amor 
Da débil haste pendeu. 

Mimosa flôr — etc. 



.76 TROVADOR 



RECITATIVOS 



NEGRA SORTE 



Âi, negra sorte! que cruel martyrio! 
Na luz de um cirio se findou a lida! 
Veio o cypreste me plantar saudade, 
Qu'infelicidade nos vergéis da vida! 

' Arca sagrada— r tu, infeliz mancebo, 
No monte Nebo te ^escondeste só, 
NSo mais teus cantos ouvirei no mundo, 
Gemer profundo se yolveu no pó. 

Flores coitadas que na terra outr'ora 
Tinham na aurora o bafejar do orvalho, 
Murchas agora com horror pendidas 
Choram sentidas — resequido o galho. 

As flores choram .porque triste o céo 
Lançara um véo sobre a manhã mais linda, 
Carpindo a tarde se divisa lenta 
A dôr cruenta que só n'alma finda. 

Vate descrido no bercinho ameno 
Cantou seu threno mas depois morreu, 
Ave ligeira pelo sol queimada 
Cahiu cançada — nunca mais se ergueu! 



Foi qoal a águia qae batendo as az&B 
K'um chão de biazas s'e8queceu do rSo, 
Foi qual o cjene que a cantar nas aguas 
Descanço áa magoas a chorar baseou t 

Harpa arrojada, atirada a tim d&nto 
Só qner o pranto, a oração doe anjos, 
Quebrada a corda — que Ibe resta agora 
Dos BonB d'oatr'ora — dirinaes arcbanjoB? 

Besta a saudade, resta a agonia t 
Prazer de um dia Í6i lembrança ou luto ! 
Pobre mancebo — no jardim ceifada 
Arvore oòítada que morreu sem frocto! 

A mágoa, o pranto só ficou na terra, 
N'eUa Be encerra fraternal o laço ; 
Assim foi pássaro — na prisão captivo, 
KSo mais altivo esvoaçou no espaço! 

Lyra encantada — uma manbit sem tarde 
Ko fogo arde da paixão mais quente, 
Depois a noite vem nublar impura. 
Tornar escura — a vocaçSo do crente ! 

Artista, génio — coração tSo quente 
Já não se sente, já não bate mais. 
Vate na vida de gemer cangado 
Foi apressado desprender seus aia ! 

Cheio de amores na feliz memoria 
Tentava a gloria só erguer de pé ! 
Mas negra parca sepultar lá veio 
O artista cheio de esperança e fé 1 — 



7S TROTADOS 

Foi-8e O passado a se toldar de escoro 
E o fiado impuro lhe surgia medonho ! 
Mas foi sublime, governando a vista 
Na terra artista — Baphael no sonho I 



De Deus a imagem sobi^e ti pendida 
Deixaste a vida é abraçaste a luz! 
Meu Deus, disseste — para mim sorriste, 
Em quanto triste te apontava a oruz i 



Assim o martyr conduzindo a palma 
Depoz 8u*alma lá nos céos um dia ! 
Âo Christo unido na final vertigem 

A santa virgem Ihtí serviu de guia ! 

• 

Ai, negra sorte! que cruel martyrio! 
Na luz de um cirio se findou a lida! 
Veio o cjpreste me plantar saudade, 
Qu'infelicidade nos vergéis da vida ! 

E tudo o esquece — só na teiTa existe 
O amigo triste nos lamentos seus, 
Também se finda a descantar ternura 
Da sepultura no prezado adeus I 

Cândido José Ferrwa Led. 



I 

1 



TROVADOR 79 



SONHEI-TE 



Sonhei-te da paz no retiro profundo 
Dos males do mundo fugindo ao baldSo ; 
Sonhei-te nos dias de tema amizade, 
N'amarga saudade de meu coraçSõ. 

Sonhei-te, anjo puro, nos céos existente, 
Quand'inda innocente no berço dormia. 
Teu rosto divino d'archanjo n'um riso 
Com temo sorriso p'ra mim se sorria. 

Sonhei-te nas noites serenas d'estio, 
Âs aguas do rio sentindo oorrer; 
E vendo da praia nas rochas sentado 
O sol namorado no mar s'esconder. 



Sonhei-te de noite revendo as estrellas, 
As luzes tSo bellas dos astros dos céos ; 
Sonhei-te do nflindo enganoso apartado, 
De rojo prostrado no templo de Deus. 

E quando mil votos traidores, mentidos, 
Protestos fingidos no mundo encontrei ; 
Lá mesmo entre os braços diamante enganosa, ^ 
Imagem formosai comtigo sonhei. 



80 TROVADOR 



LUNDU 



GENTIS, VOSSÊ JÁ VIU, JÁ? 



Lundu brazileiro, composto pelo curioíio B. B.,e posto cm musica pelo 

professor Dorison 



Gentis, TOSsê já viu, já, 
lôyô maiB sidotô?* 
Que deixa o peito dá gentis 
Fazendo tatá sem dô ? 



Qui ladrão que faz a gentis 
Sentir por elle um bithinho, 
Boendo no coraçSo 
Lhe pinicando mansinho. 

Vossê, gentis, nSo tem, não. 
Também seu camondonguinho, 
NSo tem amor, n%o quer bem 
 algum iôyôsinho ? 

Pois é doce, é bem gostoso 
Ter a gentis seu ladrão. 
Para alliviar as mágoas 
De seu triste coração. 



TROVADOR 81 



Não ha gentis de bom gosto, 
Do grande tom rigoroso, 
Que não tenha seu Adónis, 
Seu trambolhinho amoroso. 



O querer bem e amar 
£ o gostar, do que é bom. 
Não offende, não é crime, 
E não é peccado, não. 



MODINHAS 



,1 



A CONCHA E A VIRGEIL 



Linda concha que passava 
Boiando por sobre o mar, 
Junto a uma rocha onde estava 
Triste donzella a pensar; 



Porguntou-Uie : Virgem bella, 
Que fazes no teu scismar? 
* E tu? pergunta a donzellaj 
Que fazes no teu vagar? 



VOI*. IV. 



82 TROVADOR 

Responde a concha : Forma4<^ 
Por estas aguas do nw» 
Sou pelas aguas levada. 
Não sei onde vou parar. 



Diz-lhe a virgem sentida, 
Que estava triste a pensar: 
Eu também vago na vida 
Como tu vagas no mar. 



Vaes de uma a outra das vagas, 
Eu de um a outro scismar, 
Tu indolente divagas, 
Eu vivo triste a cantar. 



Vaes onde te leva a sorte, 
Eu aonde me leva a Deus, 
Buscas a vida, eu a morte. 
Buscas a terra, eu os céos. 



j 



SE O FADO ASSIM TE ORDENA 



Se o fado assim te ordena 
Cumpre-o e sê-me constante. 
Que no lugar mais remoto 
Saberei ser tua amante. 



TROVADOR 88 



I 

1 



Mesmo distante 
Te gaardarei 
O fido amor 
Que te jurei. 

Inda mil braças 
Na sepultura. 
Te serei firme 
Na minha jura« 

A cruel sorte 
Com seu rigor 
Quebrar n2lo pôde 
Meu firme amor. 

Ah! sê constante, 
Guarda-me amor, 
Ah! Tí%o me sejas 
Falso e traidor ! 



D. Preciosa Q. P. Duarte. 



A MARINA 



Para ser cantada na musica da modinha — Q^ando eu morr^ 

não chorem minha morte 



Quando um dia me vires vaoillante 
Percorrendo esse trilho de amarguras, 
NSo me dês um olhar, nSo me maldigas, 
Nem sorrias das minhas desventuras. 



84 TROVADOR 

NSo sorrias, mulher, pois nSo soubeste 
Dar vida ao infeliz que agonisava, 
Foste o vento maldito que assoprando 
ÂB pétalas da florinha desfolhava. 



r 

Vampiro feminino que sugaste 
O alento d'esta alma enfebrecida, 
Insecto venenoso quç perpassa 
E rápido como a setta rouba a vida. 



Sem dó, sem compaixSo aniquilaste 
Um futuro tSo ledo que sonhei, 
Mulher, tu me illudiste, nSo me falles, 
Nem digas que eu tSo louco te adorei. 



Tu não és a visSo que eu contemplava 
Em meus sonhos de amor junto ao seu leito, 
Que essa tinha, ó mulher, um coração 
Palpitando de leve no meu peito. 



Tu nSo és a visSo de vestes alvas 
Que tão pura e gentil me apparecia, 
Sua voz era meiga como a rola 
Soltando pura endeixa de harmonia. 



Quando um dia me vires sobre a estrada 
Succumbindo infeliz ao desalento, 
NSo me dês um olhar, nSo quero ouvir-te, 
Não venhas avivar o meu tormento. 






TROVADOR 85 



Se as turbas curiosas perguntarem 
O nome de quem jaz agonisando, 
Responde desdenhosa á populaça: 
Um louco por amor, um miserando ! 



Alvarenga Netto. 



DESDE O DU EM QUE TE VI 



Desde o dia em que te vi 
Ainda em botSo, bella flor, 
Vi-te e guardei em meu peito 
Amizade e puro amor. 

Mas se algum dia eu podesse 
Desfrutar amores teus, 
EntSo sorrindo eu diria: 
Tu és minha, encantos meus. 

Por mando da flor 
,De minha affeiçBo, 
Vieram três rosas 
Ainda em botSo 
Plantar em meu peito 
Amor e paixfio. 

N'essas pétalas de carmim 
Que retratam formosura, 
Ficou minh'alma gravada, 
Mas gravada sem ventura. 



86 TROVADOR - 

Porém quando a morte ímpia 
Meus tristos dias findar. 
Vai, oh flor de meus encantos, 
Lá na campa vegetar. 

Lá d'entre 00 sepolcbros 
De orvalho banhada, 
Revela teu cheiro 
Na triste morada, 
Que aksim é minValma 
Ao Empjreo levada. 



RECITATIVOS 



CARHINIA 



Carminia em trajes, que a manhS consente 
E reclinada n'um divan — sósinha. 
Espera a noite pVa tornar-se bella 
E do seu baile se fazer rainha. 



Tem ella o peito de paixSes eivado. 
No pensamento só possae amores, 
Pensa em delicias, não sabendo ella 
Que após os gozos se succedem dores. 



TROVADOR 87 

Esquece tudo, p'ra lembrar-se apenas 
Que é moça e linda — que possue grandezas ; 
Só de seus lábios se desatam risos 
Se em dextra alheia ella vê riquezas. 



E' uma d^essas cortez&s da época 
Que tudo exprimem n'um olhar somente. 
Recebe em troca dos amantes, seus 
MontSes de ouro por um be\jo ardente. 



Dé Margarida Gautier é copia, 
Despreza o homem que a yenera tanto, 
Sorri de jubilo se nas &ces d'eUe 
Enxerga os sulcos de amargoso pranto. 



SSo estes entes o retrato yiyo 
Da fl6r garbosa — de manhã nascida, 
Que apenas chega o tufXo da tarde 
£il-a sem folhas — pelo chSo cahida. 



E aquelles mesmos que no hastil a viram. 
Que a contemplaram tSo garbosa e bella, 
Nem se recordam da manhB passada 
E vSo passando sem olhar p'ra ella. 



E a pobre rosa pelo chSo rojada 
Beflecte como a felicidade corre; 
£ impellida pelo vento — a flor — 
Vai ter ao oeno que a recebe — e mor];^I 



Gualberio Peçanha. 



88 TROVADOR 



A MORENINHA 



Ttt pedes mu verso, gentil moreninha? 

Se queres meu canto tristonho te dou, 

NSo sintas que eu chore, que o choro é meu canto, 

Morreram meus gostos, poeta' não sou. 



Tu pedes um verso, gentil moreninha? 
Vem preste sentar-te bem junto de mim... 
Escuta uma historia dos tempos passados. . . 
Mas olha... Nâo chores ! nSo chores assim... 



Escuta uma historia dos tempos passados. 
Historia tão triste que eu temo contar-te : 
Amei uma virgem, seu nome era Rosa, 
Morena, tu coras?... Não quero en£adar-te.. 

Amei uma virgem, seu nome era Rosa, 
Morena, tu sabes, que vida eu gozava? 
Amaste algum dia, responde? ó morena, 
A vida era um sonho, sonhando a passava. 

m 

I 

Amaste algum dia? responde, ó morena. 
Sentiste no peito doçuras de amor? 
Trocaste algum beijo nos fervidos votos. 
Cercada da briza, dos céos e da flor? 

Trocaste a\jgum beijo nos fervidos votos. 
Morena, trocaste na jura sagrada ? . 
E' prece divina que os anjos entoam. 
Se jura tão santa presiste guardada. 



TROYABOR 89 

E' prece divina que os anjos entoam 
E ella jurava — jurava constante, 
Na pátria querida sorrindo aos prazeres, 
Com fé protestava nas juras do amante. 

Na pátria querida sorrindo aos prazeres 
Eu tinha esperanças de um dÔce porvir, 
Um dia, p'ra longe dos lares paternos, 
Jamais eu pensara tão cedo sahir. 

Um dia p'ra longe dos lares paternos 
A sorte imprevista meus passos guiou; 
Morena, eu nSo digo. . . meu peito se parte,^ 
Mas, ouve. . • Qssa virgem taes juras quebrou. 

^ • 

Morena, eu nSo digo... meu peito se parte... 
Distante da pátria dous annos passei. 
Voltava eu contente, correndo a caamal-a. 
Nadava em prazeres, quando ella avistei. 

Voltava eu contente correndo a chamal-a, • 
Mas vejo... que um outro beijava-lhe a mSo. .. 
Não sou eu teu noivo ? . . . Kisonho lhe digo : 
A Ímpia, sorrindo, responde-me: — Nâo!... 



90 TROVADOR 



LUNDU 



O RETRATO DE SmHÁSIHHA 



ELicutom bem 
Qae von cantar, 
Uma menina 
Vou retratar. 



Cabeça immunda, 
Cheia de caspa, 
Tira aos alqueires 
Quando se raspa. 

N8o tem orelhas 
Por seus peccados, 
Tem 08 lugares 
Esburacados. 

Os olhos vesgos 
E agathados, 
'Té sem pestanas 
Sapirocados. 

Nariz en^pme 
E acachapado, 
Toma-lhe a cara 
De lado a lado. 



j 



TROVADOR 91 



A bocca é grande, 
Dentes compridoB, 
Cheios de sopas 
£ alguns cabidos. 



Os seus peitinhos 
São de borracha, 
E 08 biquinhos 
SSo de tarracha. 



Os seus bracinhos 
De orango-tango, 
Suas perninhas 
De magro frango. 

Cintura fina, 
Banda nSo tem. 
O mais não digo, 
Eu sei mui bem. 



Quem apanhar 
Bichinho, igual, 
Deve-o guardar 
Para signal. 



92 TROVADOR 



MODINHAS 



A NOIVA DO SEPULCHRO 



Poesia do snr. J. Norberto de Sousa e Silva, e manca 

do snr. F. de S. Nonmha 



Uma cruz e bronca pedra 
Eis a Bua sepultura; 
Âh! por minha desventura, 
Aqui jaz, silencio, amor! 
Minlias lagiimas somente 
Denum^iem minha dôr! 

Infeliz I . . . EUe saudoso 
O praz(t dado aguardava; 
Sente passos. . . me julgava, 
Mas o fere vil traidor ! 
Oh cruel, podeste tanto ? 
Como é dura a noiinha dôr ! 



Tosca cruz... pedra sagr%|la, 
Becebei meu triste pranto ! 
Recebei em penhor tanto 
Minha dextra, e meu amor ! 
Oh! console este consorcio 
Da saudade a minha dôr ! 



TROVADOR 93 



SEM A TUA COMPANHU 



Como quem vive nas trevas 
Privado da luz do dia, 
Assim eu sinto minh'alma 
Sem a tua companhia. 

Sou uma harpa já quebrada 
Que sôa sem melodia, 
Sou uma flor desfolhada 
Sem a tua companhia. 

NSo sinto o menor prazer, 
NSo pousa em mim alegria, . 
Sou uma estatua sem vida 
Sem a tua companhia. 

Sou um cadáver, meu anjo, 
Deitado na. campa fria; 
](7So posso ter existência 
Sem a tua companhia. 



• t/. B, S» 



I 



96 TROVADOR 

Oh ! yem, morena, nSo vacUles, vem, 
Quero em meus braços t'e8treitaf — fremente, 
Seráa a minha Malibran formosa, 
Por quem a vida offertarei contente. 



Vem. • . que me importa doeste mundo as falias 
Se tu me adoras, se eu também te adoro, 
Se aoaso folgas, sou contente ao yêr-te. 
Se tu padeces também ^offro — choro. 



Oh! yem, morena, esqueçamos tudo, 
HLabitaremos da florestra em meio ; 
Quando dormires velarei teu somno, 
De lindas flores cobrirei teu seio. 



Lá viveremos qual no céo os anjos, 
Frondentes arv'res nos darSo abrigo; 
E quando a aurora despontar risonha 
O sabiá conversará comtigo. 



Oh I vem, morena, na soidSo das matas 
Olvidaremos d'este mundo as galas; 
Existiremos um p'ra o outro ^—apenas 
Trocando mutuas — amorosas fsdlas. 



Nada receies, vem fruir commigo, ' 
Que te idolatro — um existir de flores, 
Longe das turbas — tudo são delicias, 
Longe das turbas — nSo existem dores. 



X 



TROVADOR 97 



Oh ! vem, morena, gozaremos juntos 
Este amor santo, abençoado, paro; 
Serás meu anjo tutelar na vida, 
Mesmo além-tumulo te amarei — eu juro. 



Qualberto Peçanha, 



GEMIDOS DAUIA 



Feliz eu fôra, se tivesse agora 
Lyra ^onora, p'ra cantar fiilgôres ; 
Feliz evL fôra, se minha alma louca, 
Cançada e rouca, nSo sentisse dores 



Feliz eu fôra, sè minha'alma triste 
Que tu feriste, fatal crença ingrata; 
Me desse amor, mas desse amor constante, 
Que docemente, nossa vida mata. 



Feliz eu fôra, se em sonhar d^amores 
Mimosas flores, junto a mim tiresse ; 
EntSo qnizera que seu lindo rosto. 
Ao mw desgosto, outra vida desse. 

VOL. IV. 



L 



r 



98 TROYADOR 

Feliz eu fora, se meu pobre peito, 
Sentisse o effeito de gentil amor ; 
EntSo veria o meu archanjo lindo 
P'ra mim sorrindo, desterrar-me a dSr. 



Feliz eu f5ra, se podesse agora. 
Como out'ora, nSo sentir paixSo; 
Por esses olhos de belleza cheios 
Que a seus enleies me arrastando tSo. 



Feliz eu fÔra, se a mente inquieta 
Com Yoz dilecta, me dissesse... amai... 
A joven bella, de teus sonhos queridos, 
Os teus gemidos escutando vai. 



Feliz eu fora, se o fatal destino 
Me desse um hymno de gentil esp'rança, 
Depois da infausta illusSo perdida, 
Me desse á vida o que a vida cança. 



Feliz eu fôra, se gozasse tanto ; 
Mas tal encanto para mim n2o ha; 
Cruel tristeza me escurece a alma, 
Me rouba a calma que o prazer me dá» 



i 



TROVADOR 99 



LUNDfi 



LUNDU DAS MOÇAS 



Para o dia de Santo António 



Santo António, men santinho, 
Âttendei minha oraçSo, 
Eu prometto ter-vos sempre 
Junto do meu coraçSo. 

Liyrai-me do laço, 
Oh meu Santo António, 
Para que o demónio 
NSo Tenha tentar, 
A dar-voB um banho 
No fundo do mar. 

Daí-me um noivo, me^ santinho, 
Um noivo gordo ou bem magro, 
Que me adore, e recompense 

O amor que lhe consagro. 

» 



livrai-me do laço, 

Oh meu Santo António — etc. 



100 TROVADOR 

KSo O quero doe que faliam 
Em bailes, fancç3es somente, 
Qae esses tirados d'ahi 
A forma só tem de gente. 



livrai-me do laço, 

Oh meu Santo António — etc. 



NSo me dês d'e8tes que fisJlam 
Com modos de santarrto, 
Que oochicham segredinhos 
Limpando as unhas da mSo. 



liyrai-me do laço, 

Oh meu Santo António — etc. 



Dos que olham com tregeitos, 
Com artes nSo sei de quê, 
Paliando sempre em amores, 
Meu santinho, nSo me dê. 



Liyrai-me do laço, 

Oh meu Santo António — etc« 



Dos que andam farejando 
Casamentos com dinheiro, 
D'esses nZo, porque só querem 
Escrava no captiveiro. 



Liyrai-me do laço. 

Oh meu Santo António — etc. 



TROVADOR 101 



DoB 1[>eat08 moraliatas 
Que a tado ohamam indecente, 
Cruz, demónio ! Agua salgada I 
Deus me livre de tal gente ! 



liyrai-me do laço, 

Oh mea Santo António — etc< 



MODINHAS 



QUANDO MARIUA BELLA 

Quando Marília bella 
De algum pastor se agrada, 
Treme de susto e de zelo 
A minh'alma apaixonada. 

Ah! coraçSes insensireis, 
Que amor ancioso brada, 
Sirva de exemplo a todos 
A minh'alma apaixonada. 



L 



102 TROVADO» 



OESPEniDA 



Quando, Marília bella, 
Teus mimos eu gozava, 
E mais absortp estava 
Na gloria de te vêr, 
Invejoso o destino 
I)o meu contentamento, 
No mais cruel tormento 
Tornou nosso prazer. 

m 

Deereta rigoroso 
Que eu gema toda a vida, 
Nem um 'hora de alegria 
Se atreve a conceder. 
Dos braços teus me aparta. 
Da pátria me desterra, 
Vagar de terra em terra 
Me ordena até morrer. 



Cumprir me foi forçoso, 
Oara, os decretos seus, 
E nem um terno adeus 
Te pude, ó céos ! dizer. 
Chorai, meus tristes olhos. 
Chorai tSLo dura sorte, 
Até que o véo da morte 
Vos venha escurecer. 



TaOTÁiNKR 108 



JUNTO AO CEMITÉRIO 



Poesia do snr. José Viotoríno, e musica do anr. Elias Alvares Lobo 



De que valem grandezas da terra, 
SeuB orgulhos despidos de amor, 
Se as grandezas tão fofas que encerra 
Se sepultam da campa no horror?... 



De que valem sorrisos fagueiros 
Desprendidos sem alma ou ardor, 
Se os sorrisos voando ligeiros 
V8o sumir-se da campa no horror?... 



De que valem bellezas na vida 
Sem o brilho do meigo puder, 
Se a belleza, qual flor já pendida. 
Perde o viço da campa no horror?... 



De que valem na vida os prazeres, 
Temas phrases, do ouro o fulgor, 
Se taes l>rilhos, encantos, poderes 
Lá se esconde da campa no horror?.. 



Esta vida é votada á tristeza. 
As misérias, aos prantos e a d$r ! 
N'ella a gloria, o poder, a belleza, 
Tudo foge da campa nó horror ! • • . 



iOl TROVADOR 

Venha embora nma falsa doçora 
D'esta vida occultar o amargor, 
Tado acaba ! somente a alma^pnra 
NSo succumbe da campa no horror. 



CANÇÃO 



A DESPEDIDA DO TULDHTARIO 



Compofliç&o do Bor. Joaé Rufino de Oliveira Gosta 



Adeus, terra^de meu berço, 
Pátria minha tSo querida, 
Em defeza de taus brios 
Vou arriscar minha vida. 



Adeus, minha mSi sagrada, 
A quem devo tanto e tanto ! 
Roga a Deus p'ra que eu nSo morra, 
E volte a enxugar teu pranto. 

Adeus, querida maninha, 
Anjo do céo, flor da terra. . \ ' 
Já ouço o som da trombeta 
Que me chama para a guerra. 



TROVADOR 405 



Adeus, mulher adorada, 
Meiga, tema, dôce amante ; 
O osculo da despedida, 
Âh! vem dar-me n'este instante. 



Adeus, terra de meu berço. 
Adeus, minha mSi sagrada. 
Adeus, querida maninha, - 
Adeus, mulher adorada. 



Adeus, excelso monaroha 
D'aureo torrSo brazileiro, 
Abençoa o teu soldado, * 
Aperta a mSo do guerreiro. 

Lá nas campinas dò sul, 
Sempre em memoria terei- 
Pátria, mSi, irmS, amante. 
Meus deveres e o meu rei. 



RECITATIVOS 



KOnrAIMk É TRISTE 

Minh'alma é triste como a voz do aino 
Carpindo o morto sobre a lagé firia; 
Ê dôce e grave qual no templo um hymno. 
Ou como a prece ao desmaiar do dia. 



106 TBOTADOR 

Se passa um bote cofii as velas soltas 
Minh'alina o segue n'amplidio dos maros^ 
E longas horas* acompanha as voltas 
Das andorinhas recortando ok ares. 



Ás vezes, louca, n'um scismar perdida, 
Minh'alma triste vai vagando á toa,^ 
Bem como a folha que do sul batida 
Bóia nas aguas de gentil lagôi^ ! 



E como a rola que em sentida queixa 
O bosque acorda desde o alvor da aurora, 
Minh'alma em notas de chorosa endeiza 
Lamenta os sonhos que já tive outr'ora. 



Dizem que ha gozos no CQrrer dos annos ! . 
Só eu nZo sei em que o prazer consiste, 
— Pobre ludibrio de cruéis enganos, 
Perdi os risos — a minh'alma é triste ! 



Minh'alma é triste como a flor que morre 
Perdida á beira do riacho ingrato ; 
Nem beijos di-lhe a viraçSo que corre, 
I^em doce canto o sabiá do mato ! 



E como a flor que solitária pende 
Sem ter caricias no voar da briza, 
Minh'alma murcha, mas ninguém a entende, 
Que a pobreainha só de amor precisa! 



TROVADOR , 107 



Amei outr'ora com amor bem santo 
Os negros olhoB de gentil donzella, 
Mas d'essa fronte de sublime encanto 
Outro tirou a rirginal capella. 



Oh I quantas rezes a prendi nos braços ! 
Que o diga e falle o laranjal florido ! 
Se mSo de ferro espedaçou dous laços^ 
Ambos choramos mas n*um só gemido ! 



Dizem que ha gozos no viver d'amores, 
Só eu n2o sei em que o prazer \^nsiste ! 
— Eu vejo o mundo na estaçSo das flores. •• 
Tudo sorri — mas a minh'alma é triste! 



Minh'alma é trbte como o grito agudo 
Das arapongas no sertSo deserto ; 
£ como o nauta sobre o mar sanhudo, 
Loqge da praia que julgou tSo perto ! 



A mocidade no sonhar florida 
Em mim foi beijo de lasciva virgem : 
— Pulava o sangue e me fervia a vida, 
Ardendo a fronte em bacchanal vertigem. 



De tanto fogo tinha a mente cheia ! • • . 
No afSo da gloria me atirôi com aneia. . • 
E, Terto ou longe, quiz beijar a serêa 
Que em doce canto me attrahiu na infância. 



108 tROVAOOR 

Ai ! loucos sonhos de mancebo ardente ! 
Esp'ran{as altas... Eil-as já tão rasas!... 
— Pombo selvagem, qiiiz voar oontente... 
Feríu-me a bala no bater das azas ! 



Dizem que ha gozos no correr da Tida... 
Só eu nSo sei em que o prazer consiste! 
— No amor, na gloria, na mundana lida 
Foram-se as flores — a minh'alma é triste! 



Cofimiro de Abrtu, 



HÃO POSSO ESQUECEL-A 



NSo posso esquecel-a que é muito formosa, 
TSo meiga, tSo linda, de £aces rosadas ; 
Que olhos tSo ternos, que olhar penetrante, 
Que louros cabellos em tranças largadas! 



NSo posso esquecel-a que é um anjo na terra, 
E fada gentil, tem tanta ternura* . . 
Me chamem de louco, que importa que o sejs? 
Eu quero ser louco por tal creatura. 



NSo posso esquecel-a, desejo adoral-a, 
Embora que o fado nos' tente apartar, 
Que importa soffirer da sorte os dictames 
Se lá na mansSo a pretendo abraçar? 



TROVADOR 109 



Qae importa que eu soffra tormentos horríveis 
Amando essa joven de tanta belleza ? 
NZo posso esquecel-a, nSo devo, nSo quero, 
NSo pecco em amal-a com tanta firmeza. 



LUNDC 



HiO HA TROCOS MIÚDOS 



Para ser cantado pela mnBica do lundu — Eu go9to da côr morena 



Anda o povo em multidão, 

Que oonfasSo I 
Lastimando o duro fado, 
Sem poder comprar mais nada, 

Ail caçoada, 
Ter dinheiro aesprezado. 



Quer seus dôoes bons comer 

E beber, 

» 

O deus Baccho queridinho, 
Ha-de só os adorar. 

Sem tocar, 
Pois nSo ha mais trocoeinho. 



110 TROVADOR 

Quanto é triste ii'eBta vida, 

Esta lida, 
De confusa andar as leis, 
Sem saberem sustentar, 

Bem mandar, 
Haver troco aos pontapés. 

Só U querem aceitar, 

Destrocar, 
Nota grande aos moçosinhos 
Bem janotas e trajados. 

Afamados, 
Do Thesouro empregadinhos. 

Estes sSo bem garantidos, 
S3o servidos « 

De mittdos a fartar, 

Só n2o tem os pobresinhos, 
Coitadinhos, 

Que ha-de a nota cambiar ! 



Tudo isto a qnem devemos, 

Nem sabemos, 
Se á Justiça, se ao Poder ; 
Queira o povo lastimar, 

Esperar, 
Mundo novo apparecer. 



Adeodato Sócrates de Mello, 



•• 



TftOYADOR 111 



MODINHAS 



BASTA, AMOR, MED TERNO PEITO 



Basta, amor, meu temo peito 
Assas penado já tem, 
Para stea desventura 
Foi bastante querer bem. 



Amor, escuta 
Tão justa queixa, 
Amor, piedade, 
Vai-te, me deixa. 

O pranto me inunda a faoe, 
Nos olhos nSo se detém, 
Quem quer chorar, como eu choro, 
Custa pouco, queira bem. 



Amor, escuta — etc. 

Contra os delirios de amor 
A r^zSo for^a' não tem. 
Que a razão é só chimera 
Se se oppSe ao querer bem. 



112 TROVADOR 



irUHAS DESERTAS PRAUS 

N'iima8 desertas praias 
Abandonoà-me Armia, 
Inda me lembra um dia 
TSo triste para mim. 



Fiquei sobre o rochedo 
De todas abandonado, 
Entreguei-me á lei do fiulo. 
Os meus gostos deram fim. 

• 

Echo saudoso 
Chega ao baixel, 
Tras-me noticias 
D'esta infiel. 



Ciúmes e saudades. 
Tormentos e dores, 
Slo estes os prémios 
Que tire de amores.. 



O fado tjranno, 
A barbara sorte, 
Acaba com a morte 
T8o duro rigor. 



# 



j 



TROVADOR H3 



UMA VISÃO 



Poerâa do snr. Gonçalves Dias, e musica do snr. José Amat 



Quando o somno me pesa nos olhos 
Revoar sihto em torno de mim, ' 
Vaga sombra que ameiga os meus sonhos, 
Talvez forma de algum seraphim. 

Toda a noite um adejo suave 
Me acalenta com meigo frescor, 
Vem, meu anjo, dos cílios retintos 
Vem levar-me nas azas de amor. 

Passo a noite se acaso repouso, 
Sempre a vêr-te nos meus sonhos d'ourof 
Alva a tez, breve a bocca rosada 
Sob o véo escondido um thesouro* 

w 

N'uma rede de encantos me prendes 
Com grinaldas de mystico odor. 
Vem, meu anjo, dos cílios retintos 
Vem levar-me nas azas de amor. 

Bella fada que douras meus sonhos 
Que sympathica a vida me fez ! 
Já nSo és illusSo mentirosa. 
Eu te vejo acordando talvez ! 

Bello anjo d 'uma alma celeste 

Seu doce olhar de graça e pudor. 

Vem, meu anjo, dos cílios retintos 

Vem-me arroubar d'extremos d'amor. 
voi.. rr. 8 



114 TROYADOK 



COMO AD0RAR-TE7... 

PerdSo, mulher, se te adorei um dia, 
Se loucas phrases desprendi sorrindo; 
Disse: ceu te adoro» no £EiIlar, mentindo 
Balbuciei o qu'eu entSo sentia* 

Como adorar-te, se nSo tenho amores, 
Gomo verdade te fallar, .se minto? 
Como adorar-te, se nest'alma sinto 
Cruéis tormentos — infinitas dores? 



Como adorar-te, se gastei meus dias 
Nos attractivos da mulher perdida? 
Como adorar-te, se gastei a vida 
Com as Bacchantes — nas venaes or^as? 

Como adorar-te, se não tenho crença, 
Se vivo errando n'e8te mundo á toa. 
Se de mancebo virginal coroa 
Eu desfolhei-a com angustia immensa? 

Como adorar-te, se me vejo só 
Dentro do peito acalentando a dôr? 
Como, donzella, te offertar amor 
Quem só implora compaixão e dó? 

Guarda de virgem, este casto amor. 
Penhor sagrado de quem é criança, 
Qu'este meu peito que não tem esperança 
Só guardará o soffrimento — a dôr. 



Gualberto Peçanhai 



i 



TROVADOR 115 



9 \ 






# 






TRISTES HARPEJOS ^ | 






NSo chores, mancebo, nos sonhos da vida, « 

Na triste gaarida de amor e soffrer ! - % 

Não chores, teus prantos de dores partidos 
NSo pagam gemidos de amargo yiver ! 



■K. 



. > ■ • ,•* 



NSo chores, teu peito dç magoas coberto vrv^ 

Bem pôde, deserto de gozos, marchar ! 

NSo chores, que a senda dos tristeê Ttarpejos '':' 4 

Te rouba os adejos colhidos no lar ! . . • 



'< lf *-^ 

NSo chores, Quiquita, tirada dos braços, 1^1 

Dos doces abraços de ti, feneceu! t""'^^ 

NSo chores, su^alma da lamina indina. . '"'j^-^ C' 

Lá foi-se divina, p'ra o grémio do cóo. ' \:^:k 

NSo chores, que a vida de acerbas torturas ' ''^^i 

Em tantas doçuras ás vezes se faz ! ' ^ 

NSo chores, que o anjo dos teus amargores ' x^ 

Te guarda os amores, que um dia terás I... ' "^^ 



'1 



r4 



NSo chores, mancebo,- nos cardos da vida, j, ^ 

Na triste guarida de amor e penar I . ^;^ 

Quiquita era virgem — morreu innocentet '.'§ 

NSo resta inclemente — por ella — chorar! -/^ 






Casimiro Ramalho. • > irt' 



u 












116 TROVADOR 



LUNDU 



CONSELHOS AOS HOMENS 



Amar a moça formosa 
E' muito bom, é gostoso, 
Em quanto ella nos tributa 
Amor sincero, extremoso. 



Mas se ella nos finge 
O que a alma nSo sente, 
Se de outro os carinhos 
Afaga e consente. •• 



EntSo é tolice 
Ser d'ella amador, 
Então, meus amigos, 
Fujamos de amor* 



Amar a moça que é feia 
Ás vezes também é bom, 
Se ella tem alguma graça, 
Se é rica, ou do grande tom! 



I 



TROYADOR il7 

Mas se ella sem graça 
Seu corpo atavia, 
Se é pobre e ser tola 
Em tudo annuncia. • • 



EntSo é tolice — etc. 



Amar a moça faceira 
Ás Tezes tem cabimento 
Se no olhar, se no riso, 
Revela discernimento. 



Mas se ella é louquinha 
No riso, no olhar, 
Se a todos namora 
Para vêl-os penar ••• 



EntSo é tolice — etc» 



Amar a moça que é fria, 
Nem sempre é um grande mal^ 
Se com pressa ella repelle 
Os planos d'aadaz rival. 



Mas se ella sem alma 
O amor desconhece, 
Se nossos protestos 
Despreza ou esquece •• 



EntSo é tolice — etc. 



* 



120 TROVADOR 

Davam-me os céos 
O bem maior, 
Os céos n^ valem 
Um teu fevor. 



TIDA E MORTE 



Poesia de Mello Moraes Filho, e musica de Calado Jamor 



linda flor, como és mimosa 
Na tua manhã primeira ; 
Es oomo a virgem formosa 
Cantando de amor fagueira. 



E que côr tu tens suave, 
Como realças no monte ! 
Semelhas á branca neve 
Que se balouça na fonte. 



São teus cantos os da briza 
Que te beijou ao nascer, 
O teu véo a nuvem lisa 
Que pelo ar vai descer. 



Mas. . . que vejo ! emmurchecida 
Aos silvos d'atro tufão... 
Não tens perfumes? perdida 
Tu jazes no frio chão? ! 



i 



TROVADOR i2l 



Revive, bella florinhaj 
Que quero te dar um canto, 
Serás p'ra sempre a rainha 
D'e3ta alma que te quer tanto. 

Mas qual assim é a vida 
N^este viver de amargura, 
Ao principio embellecida 
De pensamento e ventura. 

E depois, um vento frio 
Desbota as flores do peito, 
E da morte o calefrio 
Nos atormenta em seu leito. 



TÃO LONGE DE MIM DISTANTE 

Tão longe de mim distante 
Onde irá teu pensamento? 
Quizera saber agora 
Se esqueceste o juramento. 

Quem sabe se és constante, 
Se ainda é meu teu pensamento? 
Minba alma toda devora 
Da saudade agro tormento. 

Vivente de ti ausente, 

Ah ! meu Deus, que amargo pranto ! 

Suspiros, angustias, dôres, 

São as vozes de meu canto. 






121 TROVADOR 

Qaem sabe, pomba innooente, 
Se também te corre o pranto ! 
Minh'alma cbeía de amores 
Te entreguei já n'eate canto. 



RECITATIVO 



CRENÇA E MORTE 



NSo tenho lyra para decantar-te, 
Só para amar-te vim aqoi^ oh virgem; 
Ta és o anjo que me deste alento 
Ao soffiimento de que foste origem; 



Tu és tSo linda, tSo formosa e pura, 
Tua candura, enlaçou minh'alma. 
Louco corri. •• e para mim sorrindo 
Disseste rindo: — nSo te dou a palma. 



Eu vi-te, bella, a me fallar de amores 
Por entre as flôreS| de um jardim mimoso; 
O sol nó occaso desmaiava — além 
Na côr que tem^ nosso céo formoso. 



i 



Na branda aragem do soprar da briza 
Qne 80 deeliza sobre um mar tSo quedo; 
Ouvi a queixa sonorosa — triste 
Di^er que ezúte, bem iatal degredo. 



Sntre HoismaB a divagar tristonho 
Sempre nsonbo tea semblante vi, 
£ entre qneixas de sentido pranto 
Sentí o encanto que me prende a tí. 



E ae algum dia nos vaí-vens da sorte 
Vier a morte regelar meu peito ; 
Vú ao sepolchro de teu pobre noÍ70 
Deitar um goivo, de amizade em preito. 



Eugénio Pastoi. 



LUNDU 

JÁ Mio HA TROCOS MIÚDOS 

Pant ser cantado pala monoB do Inodú -^Estamos no aeculo dat Ime» 

Já nXo ha trocos iniudos 
K'eflta nossa capital, 
Os cambistas são. os grandes 
N'eeta época fatal. . 



124 TROVADOR 



Os pobres é que se vêem 
Em assados e aparos, 
Pois desejando miúdos 
HSo-de pagar grandes juros. 

Um gasto de ires mil reis 
Kâo é nada, ainda é pouco, 
P'ra uma nota de dez 
Dizem logo : — Não ha troco. 

Até nas casas de pasto 
As listas tem um letreiro, 
Dizendo que p'ra comer 
Lerem trocado dinheiro* 

Já se vê pelas vidraças 
Letreiros sobre papeis 
Dizendo não haver troco 
Mesmcí p'ra cinco mil reis. 

De maneira que o pobre, 
Mesmo tendo algum dinheiro, 
NSo trazendo os taes miúdos 
Passará por caloteiro. 

Correm annuncios com letras 
De palmo de comprimento 
Dizendo que os taes miúdos 
Vendem-se a doze por cento. 

E não sabemos té onde 
Tudo isso irá parar, 
O certo é que o pobre 
Ha-de — soffer e calar. 



TROVADOR 



125 



Houve ha pouco uma assembléa 
Já B6 sabe, de graúdos, 
Para vêr se decidiam 
 questflo dos taes miúdos. 



Ainda agora se espera 
•Pela tal resolução, 
N8o admira pois tudo 
É assim n'esta nação. 



As cousas estão mudadas, 
Já se despreza os graúdos. 
Pois agora só imperam 
Como é sabido, os miúdos. 

E quem ha-de nos valer 
Em momento tão sinistro ? . . . 
Ah ! já sei, corramos todos 
Ao palácio do ministro. 



Oualberto Peçanha. 



126 TROVADOR 



FADINHO 



O CRAVO, DEPOIS DE SECCO 

O cravo, depois de secco, 
Bota-se por ahi além ; 
A rosa, quanto mai6 secca, 
Tanto mais préstimo tem. 

Que lindo botSo de roea 
Que aquella roseira tem ! 
Debaixo ninguém lhe ohegai 
Acima nSo vai ninguém. 

A rosa que é bem nascida, 
Tem acções de bem criada; 
Ainda que se ache offendida 
NSo se mostra apaixonada. 

A rosa muito aberta 
Qualquer vento a desfolha; 
A moça muito garrida 
Qualquer rapaz a namora. 

Brilha, rosa que nasceste 
Na mais linda primavera; 
Foste nada entre os espinhos 
Para mais brilhares na terra. 



TROVADOR 127 



Aqui d'onde estou bem yejo 
Uma rosa gisgular; 
Tenho gosto de a rèr, 
Pena de nBo a gossar. 

Rosa branca na silveira, 
Cravo rosado do monte: 
Quem quer vêr a rosa alegre 
Ponha-lhe o cravo defronte. 

A rosa muito aberta 
Nenhuma valia tem; 
Ao botSosinho fechado 
Todo o mundo lhe quer bem. 

Perde a rosa o cheiro fresco, 
Também perde a linda côr; 
Tudo tem sua mudança, 
Só nSo deixo o meu amor. 

Oh ! rapaz que vendes rosas, 
Vem cá que eu tenho dinheiro; 
Vende-me das fechadinhas, 
Que as abertas nSo tem cheiro. 

Aqui d'onde estou bem vejo 
Uma rosa para abrir ; 
Quem me dera. ser sereno, 
Que n'ella fôra cahir ! 

Minha rosa mui brilhante, 
Todo o mundo te cubica; 
Ao doiyingo na igrerja 
Quem te vê nBo ouve missa. 



j 



1 



128 TROVADOR 

Eu não te adoro, janella, 
Pois não tens merecimento ; 
Adoro aquella rosa, 
Que está da banda de dentro. 



A rosa quer-se apanhada 
Antes do sahir do sol ; 
O cravo ao meio dia, 
P'ra seu cheiro ser melhor. 



MODINHAS 



JÁ HÃO SINTO POR TI TANTO AMOR 



Se és anjo no rosto e belleza, 
Tens no peito de fera o rigor, 
Aij nSo temo teus feros enganos, 
Já*nSo sinto por ti tanto amor. 



Desligaram-se os teus dos meus dias 
Como o vento desfolha ama flôr, 
NSo quiseste que a âôr Jfosse minha. 
Já nSo sinto por ti tanto amor. 



TROVADOR 129 

De teu olhar no ternotf esmaio 
Vejo escripto a traiçSo e o furor, 
Me enganaste a laz de meus olhos, 
Já nSo sinto por ti tanto amor. 

i 

Desligaram-se os teus dos meus dias \ 

Como o vento desfolha uma flor. 
NSo quizeste que a flor fosse minha, 
Já nSo sinto por ti tanto amor. 



TOIi. !▼ 



ROMANCE 



XOI» SESmORA 

— Deus esteja com as tias 
Todas três a costurar, 
c Deus yenha Qom o sobrinho 
Que yem de passar o mar. 

— Que é do cavallo branco 
Que eU deixei aqui ficar? 
c Vosso cavallo, metiino^ 
Lá nas guerras ha-de andar» 

— Que é do meu annel de ouro 
Que eu deixei aqui ficar? 
c O vosso annel, menino^ 
No dedo da prima ha-de andar. 



4 



130 TROVADOR 

— Qae 6 da%iinha rica prima 
Que ea deixei aqui ficar? 
c A yoBsa prihia, menino, 
Já comnoBco nSo quiz estar; 
Esti hoje cozendo pSo 
Para ámanhS se casar. 

— Digam-me as senhoras tias 
Ella onde yai morar ? 
Quero ir a sua casa, 
Qaero com ella fallar. 

c Menino, nSo vades 1&, 
Que elles podem-yos matar. 
— Matarem-me, jenhores, nSo, 
Que eu também sei praticar; 
Nas terras por onde andei 
Aprendi a conversar. 

Quando l\ye bateu á porta 
Já estavam pVa jantar ; 
Arrearam-se as cadeiras 
Para o senhor se assentar. 

— Deus esteja com os folgantes, 
Pois bem sabem que é brincar; 
NSo se arrojem as cadeiras, 
NSo me quero assentar, 
NSo me quero assentar, nSo, 
Nem nadi^ quero gastar; 
Se o noivo dá licença 
Á noiva quero £allar. 

— c Licença, senhor, a tem, 
Se ella lh'a quiaer dar. 



i 



TROVADOR 131 



— Toma lá este vestido 
Para levares a casar; 
Outros melhores que eu tinha 
NZo os quiseste ganhar. 

c Aqni d'el-rei quem me acode, 

Justiça a este lugar ! 

Os meus primeiros amores 

No coraçSo tem lugar, 

Vá o noivo para a rua, 

Fique este no seu lugar. 



CANÇONETA 



TIYA O 2£ PEREIRAI 

Poesia do sflr< FtaiMiaoo Corrêa Vaaqaw 

CORO 

« 

E viva o Zé Pereiral 
Fob que a lúnguem &z mal, 
E vira a bebedeira 
Nos dias de carnaval ! 
Zim, balala I Zim balala I 
E tiva o carnaval \ 



182 TROVADOR 

Uma tarde passeando 
Lá na rua do SabSo, 
Eu fiquei sem meu chapéo 
Por causa da viração. 
Eu nSo sinto o meu chapéo 
Nem qu'isto me aconteça, 
Sinto 8Ó deixar com elle 
A minta pobre cabeça. 



E viva o Zé Pereira — eto. 



Uma yes brincava eu 

Com douB caroços de manga» 

E em casa sem querer. 

De vidro, parti as mangas. 

Fujo p'ra a rua, que a velha 

Queria escovar-me o pó, 

E uma manga ^'agua ensopa-me 

As manga» do paletot. 



E viva o Zé Pereira — etc. 



Uma vez em certo hotel 
Uma tainha eu comia 
Que o sujeito afiançava 
Ser pescada n^esse dia; 
Caqa o dinheiro da gente 
Com elle faz sua dita 
Sendo ás veze^ estas cobom 
Escassa» varas de chita. 



E viva o Zé Pereira — etc, 




TROVADOR 133 

Pois bem, meu pai, eu fioo 
Da sua fazenda guarda. 
Mas como eu ademenistro 
Quero já ter uma /orcía. 
Isso até nSo se pregunta 
Tendo 6 negocio na mSo 
Eu havia de ter pasta 
Da fazenda de argodão. 

E viva o Zé Pereira — eto. 

Vossês sSo uns idiotas 
ifm pensar qu'eu subo a serra. 
Mas eu vou então provar-Ihes, 
Como dou com tudo em terra ! 
Hei-de dançar um can-can 
Qu'ha-de levar tudo a breca ! 
Embora que vossas gritem 
— Perereca! oh! Perereca I 

E viva a Perereca 
Pois que a ninguém faz mal,. 
Sem agua na caneca, 
Nos dias de carnaval! 

O Zé Pereira no carnaval 

Pôde o zabumba rebentar. 

Mas depois d'e8ta folia 

Outros lhe tomam 6 lugar! 

Seín rruucaraê percorrem elleê * 

As ruas d'e8ta cidade, 

Ârrelbentando sem malho 

 peUe da humanidade I 

E viva o Zé Pereira — etc. 



^i^ TROTADOR 

o author manda pedir 
Um pouco de paciência, 
Mais do que nunca predsa 
Toda voBsa indulgência! 
Dêem palmaB e desoulpem 
Este trabalho grutesco ■ 
Que devãra »e chamar 
— Les Pompiera de Kantorre, 

E viva o Zé Pereira — etc, 



LUNDt 



EU jA tive uma menina 

Eu ja tive uma menina 
A quem amei mais que a ti, 
Ausentou-se, foirse embora, 
Eu fiquei, mas nSo morri. 

Menina traidoii^ 
Que &lta á promessa 
KSo fique em lembrançai 
Melhor é que esqueça. 

Antes quero ser 
Queimado do lume, 
Que andar soffrendo 
O negro ciúme. 



TROVADOR 185 

Comprei para a cuja 
Um lindo retrato, 
De génio inconstante, 
De um génio ingrato. 

Gastar a gente 
Os seus cabedaes 
Em fitas bonitas 
E outras cousas mais ; 

Andar a gente 
Feito um ladrão 
Em risco de acliar 
Pedrada ou bordSo; 

Andar a gente 
Feito um corropio, 
Por lamas e chuvas 
Em noite de frio; 

Passar pela rua, 
Parar na esquina,. 
Julgando que ouvia 
A voz da menina; 

• 

Olhando para li 
Se chega a janella, 
Como a noite é escura 
NSo sabe se é ella; 

Acender o chifruto 
Para dar signal, 
E ella namorando 
Outro no quintal; 



136 TROVADOR 

Sósinlio no canto 
Como um tolo 
Eila oom outro 
Fazendo tijolo; 



Estar sempre no canto 
Sóèinho, em pé^ 
Chocando oom os olhos 
Como jacaré ; 



Gostar da menina, 
Dar a pioholeta, 
Sem ao menos poder 
Fallâr com a preta. 



Trabalhos cruéis 
Que ji foram meus 
NSo fifJlem-me. n^elies 
Pelo amor de Deus. 



• 



TROVADOR 137 



CANÇÃO 



PARLENDAS CARNAVALESCAS 



Ámanlift é' domingo 
De pé do cachimbo. 
Toca na gaita, . 
Repica no sino, 
O sino é d^onro, 
Repica no touro; 
O touro é bravo, 
Mata fidalgo; 
Fidalgo é valente, 
Enterra o menino 
Na cova de um dente. 



Pico, pico, me piquei, 
Um grSo de milho achei ; 
Um moinho me moeu, 
Um ratinho ine comeu. 
Eu chamei por S. Tfaiago, 
S. Thiago nSo me ouviu, 
Ouviram-me dous iadrSes, 
Âpalparam-me os calçSes; 



18S TROVADOR 

Eu cuidei que era graça. 
Bebi vinho da cabaça. 



Era 6 nSo era 
No tempo da hera, 
Meu pai era vivo, 
Minha mãi por naacer, 
Que lhe havia de fazer? 
Deitei as pernas ás costas 
£ puz-me a correr. 
Subi por escada abaixo, 
Desci por ella acima, 
Encontrei um pecegueiro 
Carregado de maçb, 
Fui-me a elle 
E comi avellSs. 
Veio o seu dono 
E deu-me com um pau, 
Bateu-me n'um olho, 
Magoou-me um joelho. 



Ora vamos e venhamos 
Pela terra dos ciganos, 
Um burrinho compraremos, 
O folar quQ.elle fizer 
Será para o primeiro 
Que aqui fallalr quiaer. 
Fora eu que sou juiz, 



TROVADOU 1S9 



Como perna de perais, 
Fora eu que sou capitSo, 
Como perna de leitSo. 



c Cabra cega, d'onde vens? 

— De Castella. 
cQue me trases? 

— PSo e coBtella. 
c Dás-me d'ella? 

— 'NSo, que é para mim 
E p'ra a minha yelha 
Comer d'ella. 



Bei e rainha, 

Condessa, cestinha, 

Vamos a dar 

Uma tarefinha. 

S. Pedro me leve, 

Me queira leyar, 

Se alguma menina 

Me fizer olhar, 

Rir, conversar. 

— Agora o Senhor S. Pedro 

Dá licença de eu olhar? 

— c N8o te deixo olhar 

Sem essa agulha acabada, 

E a outra começada. 

— Já acabei, já comecei, 

Já tomei a começar. 



i40 TROVADOR 

Agora o Senhor S. Pedro 
Deu licença de eu olhar. 



€ Truz traz ; 

— Quem é ? 

c O velho das contas. 
— EUe o que quer? 
c Vender contas. 

— Nío ha' dinheiro 
c Fia até Janeiro. 



Sorrobico, 
MassaricO) 
Quem te deu 
Tamanho bico? 
Foi Nosso Senhor 
Jesus Christo. 
Bicho vai. 
Bicho Vem, 
 ganhar 
O seu vintém. 
Piolho na lama, 
Pulga na cama, 
Dá um pincho, 
P3e-se em França. . • 






TROVADOR 141 



• MODINHAS 



QUEH ÉS TUt 



Poeâa do ma. Mello Moraee, Filho, e moaioa do sor. 8. Bosa 



Qaem és tu, qae vens á noite, 
TriBtesinhd aqui scismar, 
Fagindo de tantas galas 
Que o mundo pôde offertar ! 



Serás nota harmoniosa 
D'uma lyra de orystal, 
Transformada n'um aiginho 
Dormindo n'um tremedal? 



És fada que no silencio 
A tempestade domina, 
Trajando nas azas brancas 
A meiga luz matutina? 



Ou dos meus sonhos ardentes 
És o sdr encantador, 
Que vens dourar meu futuro 
Aos beijos do teu amor? 



/ 



142 TROVADOR 

NSo! és orphSo! no BÍlencio 
Bascas aqui te abrigari 
Quando nos finda a ventura 
É noBso allivio chorar! 

Es a crença! és a saudade, 
A muda ezpressSo da dôr ! 
Jinda perla descravada 
Do ihrono azul do Senhor I 



PUI DO YOLUIÍE IV 






nsnDioE 



A eoncha e a TÍrgem 81 

Á despedida do voluntário. . 104 

Adeas á pátria. . * 54 

A marina '. 83 

A minha Lilia mçrreu 62 

Amor e delírio 21 

A moreninha. ; . . . 88 

Amor eterno 27 

A noiya do sepulchro 92 

A mulher perdida 39 

Arecordaçao 73 

A tarde 51 

• Ati! 44 

'. A yirgem da noite 40 

A -virgem de ínto. . . » 31 

^ A TÍrgem melancólica 15 

' Basta, amor, meu terno peito 111' 

' Bemabé Oangiea 22 

'Carminia 86 

% Como adorar-te?. 114 

* Conselhos aos homens. ...... 116 

Coraçfto de bronze 54 

' Crença e morte 122 

Da innocencia o doce çstado 63 

Deixa, Dahlia 6 

^Desde o dia em que te vi. . . 85 

'Desejo 48 

despedida 102 

suta, oh virgem 71 

itua^ da vida 11 

Sa j& tive uma menina 134 

Íalla 19 

iQO de vèr-te 66 




Pag, 

Gemidos d*alma 67 

Gemidos d*alma 97 

Gentil Analia 52 

Gentis, vosso j& viu, já ? . . . 80 

Já não ha trocos miuaos 123 

Já n&o sinto por ti tanto amor 128 

Junto ao cemitério 103 

Lagrimas do voluntário 45 

Lundu das moças 99 

Marilia, se me n&o amas. ... 15 
Mesmo da cama pôde escu- 
tar 42 

Minh*alma é triste 105 

Muito a minh 'alma soffireu.. 69 

Nào ha trocos miúdos 109 

Nâo polkas? , 94 

N&o posso esquecel-a 108 

Negra sorte 73 

Noiva desertora 129 

N'uma8 desertas praias 112 

O adeus do voluntário 34 

O cravo, depois de secco. . . . 126 

O dia nupcial 17 

O gatinho 61 

O mestre de musica 7 

O meu filei juramento » 38 

O meu penar 17 

O progresso do pais 32 

O que eu senti 12 

O retrato* do sinhásinha 90 

Os instantes que nos restam 72 

Osoldado 60 

Outr'ora 49 



lU 



INDIGB 



Pag. 

Para mim é o mando um 

deserto 25 

Parlendas oamavalescaa — ISZ 

Pesares 65 

Por um só ai t 46 

Quando Mariiia bella 101 

Quando seu bem Tai-se em- 
bora 23 

Quem és tu? 141 

Quem n&o ama e nfto adora 5 

Recordaç&o da tristeza 57 

Se a ohamma activa 119 

Sem a tua companhia 98 

Se o fado assim te ordena. . 82 



8onhei-a 38 

Sonhei-te 79 

Sonhos, amores 58 

Táo longe, de mim distante 121 

Teus lindos olhos 36 

Tristes harpejos IIS 

Uma tíb&o 113 

Um jogo 13 

Um teu dôee agrado 30 

Vem... morena! 95 

Vem, 6 brisa, fiel companhei- 
ra .. 56 

Vida e morte 120 

Viva o Zé Pereira 1 13á 



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■(■ : MK di> consulado c do in-.juv 

1 .'i »"r 'i h'u»--i. 1 1 V. 

' * í' ,».!' •%. 1 .IS om Africa, Ásia, 
A* i'm;í.'i. « O» r.inia, obra cladsi- 
\.'\ "^ V., C'Mn o-t •■n>^ 13. 

• \^ .«fA du d.-i',ourlu f.ito c oon- 
^;i --i «li Imiia ])'-l(>s portMu^uc- 
■"s. Fi 1 Frrnuo 1j. d«í L'.iíiT.uihc- 
l;i 'S V. 

í' ", ; \'i^ '\:i t•^iv^T*^i^^ado. d '(.\jiin- 
t' i. ',\ V. - -- ir'-t«»ria da <»rij»Mn, 
i>-. 'ri'4,í) c d 'cidíMicia da*^ di- 
. '•<»< t.JivnfH í^nc agitaram íl 
. • './i J.'mIí^ li do. jullio do 
'. í '.) :.*/• á al)*lÍcav^'ào do NajfO- 
1. -.o. :í V. 
'■: ...N-f d ■ rriíunpo D. João, por 

' '.-. ' ..I (lo W^mM. 1 V, 
V ''.»\s '. -^ua.i.FAs de IV FraiH'i«C') 

■i", .^. 1^.1., c» d' ai pat'i'^ij'"a 

1 í : .-. 1 V 
y : v..-.- ..* 1 .s 'míkIi ,s dt^ P^-^-tiiir'.!, 

'.,>'• J 1 ' I.liT'». 1 V. 

'•1, i.» U) d'i iiic do Urnt^aiivM. 

2 V. 

Ml-" •' T* ju: INuíriMVTi, i)or Alcxun- 

.].(• í ' . •'.•ai.r.io. 4 V. 
M\y.M\s r. iMJNSAiM v-Tíig do mar- 

qii'V. d" M'ivic.{. 1 V. 
íJHj ^ \ <1 L >ii a'sa (i infidizOla- 

rí\ ! .ar^i^v»'. l<) v. 
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1 1 1 T . ouiA da rov i'i :\o d ' ? I " , i? - - 

íi r- i''.s cm \^^'k. 1 V 
.Tllkí ou ti c-'-'i pat'-\a. 1 \ 

JOANSINIIA ou a •'•»,_"•'.: id i »','-"- 

ro=a . 
Ji 1 IA oa o subterrâneo, ií \ . 
Ln. nu 1X03 o couspirador-;s - % 

1n\(m i:xrK E CLLPADO ou H á-*^UlKÍ' 

íillio do uma família. 2 v. 

J\n!)íM DO rovo — Ucin^iiioos pu- 
blicados: O laço dtí fn-re-i. 1 v 
— Hico e pohro. 1 v. — '"^s b<- 
laoiM do mar, por Vlc*^ »- Kuz- 
iJ V. — Memorias da i:i«vi.Íad' . 
1 V. — Pedro e Launi.. 1 v. — 
O-j anioros d^ArtOíTuan. 5 v - 
MiraLTeiifl de felicidsíd?. 1 v. 
A íilha do homicida. '-> v. — Ac- 
to uiella, por Lamartine. 1 v — 
A loba, por P, FeVíil. 3 v. — d 
('onde dt*. (Jamord. "2 v. -'-f:íor:*> 
veva, por Karr. 1 v. — Tr:iipeí- 
tades do coração. 2 v. - <^s in- 
ctMidiíirioB da índia. 2 v. — A 
família do IVnarvan. *J v. — «' 
puia dí) dfS»n-to. f) v. -- O yç: - 
da morto. <> v. — O brinc»» t-t- 
dido. 2 Y. — Joaquim l>ick õv 
"-0 m.>r.".ior de tigr.^s. *> v - 
O n<'d\o vo.rmelho. Ti v. - i' 
píHf.» d»í .^r.nirue. í^ v. - « ; f^'.- 
l'^"<tor di> monte do>.vrti> "2 t 
O lilho d»^. Marat. 4 v. 

loirou 'NAM«» ri 'í JOGOS. 1 V. 'OT 
ir- is ('!.> 2i>íí jopcos. 

O latKvu i>A rr.i.icir>AnE. 1 v. 

C\mA'í o outras obras do ín';rquf-' 
do P.w-^.d. 2 \. 

ir'M';r ,, (l-^ ^larai•j o '' 






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TílOVADOli 



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í.:-,* FDlçílo, CORRECTA 



VOLl'»rE V 



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RIO DE JANEIRO 

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viiiciii ÒO Ma-ai/í.»*- p l :i' i • 
V. - Albiiiii U" ,*-i" i'-' r^yrsrh: 
j><>rt«;', iiez no l^i'i «lo Juiu.r^. 
V. com oa retratos àf H«<;C'-* 



I - »'. 't'- 














V. 



LIVRARIA POPULAR DE CRUZ COUTINHO 



RUA DE S. JOSÉ, 75 — RIO DE JANEIRO 



Albxamdrb Dumas — A guerra das 
malheres. — A família dos Bor- 

r'a8. 2 V. — ós dramas do mar. 
V. — O cofre de prata. — De 
Paris a Cadiz. 6 y. — De Cadiz 
a Tanger. 6 v. — A dama das 

Sereias. 3 v. — A mâo do fina- 
0. — O conde de Monte-Chris- 
to. 4 V. — As duas Dianas. 9 v. 

— A consciência. 3 v. — Os com- 
panheiros de Jahu. 2 v. — O ca- 
valheiro do Harmontal. 2 v. — 
A casa de ^elo. 3 v. — Ascanio 

'ou a corte de Francisco i. 4 v. 

— Uma família corsa. — A rai- 
nha Margarida. 5 v. — Os qua- 
renta e cinco, õ v. — A dama 
de Monsereau. 6 v. — Paulina. 
2 V. —Fernanda. 2 v. — Eduar- 
do in. 2 Y. — A fílha do regente. 
4. V. — Historia dos Stuarts. 2 
V. — Condessa de Salisbury. 2 
V. — Cecília ou o vestido de noi- 
vado. 2 V. — O capit&o Paulo. 
2 V. — Amaury. 3 v. — Catba- 
rina Blum. 2 v. — As gémeas 
de Machecoul. 4 v. — A tulipa 
negra. 3 v. — Sylvandira. 2 v. 
— Os crimes célebres. 3 v. — 
Deus dispõe. 2 v. — A furna do 
inferno. — O cavalheiro da ca- 
sa vermelha. — Albina. 1 v. — 
Apontamentos de Antony. 1 v. 

— O bastardo Mauleon. 4 v. — 
Gabriel Lambert. 1 v. — Um 
morto a contar sua historia. 1 
V. — Isabel de Baviera. 3 v. — 
Joanna de Nápoles. 1 v. — A 
marqueza de Brinvilliers. — Pas- 
cal Bruno. 1 v. — A pomba. 1 
V. — Os três mosqueteiros. 4 v. 

— Vinte annos depois. 5 v. — 
Viseondo de Bragelonne. 10 v. 
—O filho de Marat. 5 v. 

Victor ou o menino da selva. 
Oliveira — José Estevão, esboço 

biographico, com o retrato. 
Arabiri — Diccionario dos jogos. 1 



grosso V. contendo mais de SOO 
jogos, entre elles: voltarete, 
whisth, dominó, gamSo, danuu, 
xadrez, etc. 

F. CooPER — O corsário vermeOio. 
3 V. — O espião do campo neu- 
tro. 4 V. — O carrasco. 2 v.— 
Os leões do mar. 2 v. — O me- 
didor de terrenos. 4 v. — O pi- 
loto. 4 V. — O derradeiro moi- 
cano. 4 V. — Os puritanos da 
America. 4 v. 

Bréhàt — A feiticeira negra. 1 v. 

Alberto Blánq^^bt — Os amONê 
^ Artagnan. õ v. — O rd de 
fttlia. 2 V. com estampas. 

Saihtiiíb — Pícciola. 1 v. 

D. Branca de Carvalho — O pre- 
ço da felicídacke.' 1 v. 

LABonLAYB — O partido liberal, aea 
programma e futuro. — Paris na 
America. — O príncipe G&o de 
Agua. 

Pereira de Azurara — Ângdíni 
ou dous acasos felizes. — Goinei- 
dencias fataes, romance. 

A Condessa de Montb-Chusto, 
por Du BojB. 

J. Osório — Vida e feitos de d-rei 
D.. Manoel. 3 v. 

Vicemte F. db Castro — Os hí>- 
mens de sangue ou os ao&imcsr 
tos da eacravid&o. 2 v. — Mis- 
térios da roça. 4 v.— Miseríts 
da actualidaae. 4 v. 

Theophilo Braga — Visio doe tem- 
pos. — Tempestades sonoras.— 
Ondina do lago. — Torrentes, 
poesias. — Folhas verdes, poe- 
sias. — Flocesta de romances. — 
Cantos populares do arehipeUgo 
açoriano. — Cancioneiro e ro- 
manceiro geral português. 1 v. 
— Introducçâo á historia da ht- 
teratura portuguesa. 1 v. — His- 
toria dos quiimcntistas. 1 v — 
Historia do theatro portogues 
no século zvi. 1 v. 



■J 



TROVADOR 



COLLECÇÃO 



DE 



MODINHIIS, RECITATIVOS, ARIIS, LUNDUS, ETC. 



NOVA EDIÇAO, CORRECTA 



VOLUME V 



RIO DE JANEIRO 

Na LIVBMIA POPULAR de A. A. da*CROZ COUTINHO - ídilor 

75, Rna de S. José, 75 



« 

IH'?!» 



TTP. ra AHTOmO 909â DA 0ILVA TBIXKlU 

6f, Bua da Cancella VOha, 6t 
1876 



TE@.l 




MODINHAS 



LUZ E KTSTERIO 
Poeõa de Mello Moraes Filho, e mnaica de Enj^enio OmihA 

Quando a loa no oéo vai percorrendo 
Prateando o setim azul do espaço, 
Quando o pranto do orphSo dolorido 
O Senhor o recebe em seu regaço; 

Quando o sopro da briza na palmeira 
Parece suspirar tSo docemente, 
Quando descanta o pobre sertanejo 
Um idyllio de amor todo innocente; 

Então, eu vou sósinho com meu pranto 
Esconder-me do mundo fementido, < 

Procuro a serrania mais espessa 
Para n'elia occultar o meu gemido. 



I 

À 



6 ' TROVADOR 



E lá ea julgo não sentir da vida 
O sol abrasador queimar-me o seio, 
Só, conversa com Deus extasiada 
 minh'alma prendida n'este enleio. 



N'um morno dia perfumoso e lindo • 
EUa grata respira o mago incenso, 
E banhada de luz entoa os hymnos 
Gom os anjos gentis aos pés do Immenso, 



E n'este delirar da mente afflicta 
Eu quizera passar a flor dos annos. 
Embora mesmo sem gozar do mundo 
Sonhos, delicias, infernaes enganos. 

E depois. •• os seus olhos derramando 
No meu triste viver infortunado, 
Pranteio a minha sorte delirante, 
Meu eterno soffrer, meu duro fado. 

Arrancai, .ó meu Deus, minha existência 
N'esses ternos momentos de ventura. 
Porque minh^alma das paixSes despida 
Aos vossos olhos sorrirá mais pura. 



TROVADOR 



NINGUÉM 



Poesia dó dr. D. J. G. M., e musion de R. Coelho 



Quando estoa c'o a minha amada, 

Quer a veja passeando, 

Quer em pé, quer assentada, 

Quer sorrindo, ou quer^fallando, 

Minh'alma magnetisada 

A vai sempre acompanhando. 

Âmago influxo 
Obediente 
Ao seu capricho 
Só pensa e sente. 

Vós, que sobre a terra amaes, 

Mortaes ; 
Vós, anjos, que amaes nos céos 

A Deus; 
Vós, que de amor entendeis, 

Sabeis 
Se eu posso amar inda mais? 
Se eu nSo posso, póde-o alguém? 

— Ninguém ! 

Quando ella ao som do piano, 
Que ao toque suave geme, 
Das harmonias o arcano 
Revela na voz estreme, 
Minh'alma como o oceano 
Se espraia a ouvil-a e treme. 



TROVADOR 

De cada nota 
Que vai fugindo 
E]cho é ininh'alma 
Que a vai seguindo. 

Vós, que sobre a terra amaes, 

Mortaes; 
Vós, anjos, que amaes nos céos 

A Deus; 
Vós, que de amor entendeis. 

Sabeis 
Se eu posso amar inda mais? 
Se eu nXo posso, póde-o alguém? 

— Ninguém ! 



ÁRIA 



O CABELLEIREIRO 

Tive um pai tSo estouvado, 
Que temendo a diabrura, 
Fez de minha creatura 
Cabelleireiro gigante: 
Porém no hXsí instante 
Que o pentesinho empunhava, 
Vi que o peito se inflammava, 
£ para o fogo se aoalmar 
Hei-de com agua as pentear. 



TROVADOR 

Uma d^ellas penteando 
Presumida e impertinente, 
Vi que OB m«uB dedos sujava 
Com certo ingrediente. 

O pente largo . eqpantado • 
Gritando: — porque se pinta? 
Para me sujar-me os dedos 
Tem na bola tanta tinta! 

Desmaiou envergonhada 
Oahindo com a caipira, 
£ me deixando nas unhas 
A mui tinta cabelleira. 

N'isto entra um figurSo 
Marido da perereca, 
Um grito solta de horror : 
Minha mulher é careca ! . . . 



O tal marido 
Com tal desgosto, 
Perdeu o riso 
Tapando o rosto. 



Com muita justiça, 
Com muita razão, 
Esposa careca ! 
Cruz... tentaçlo! 

Pois uma mulher careca 
Nâo queiram por um milhão, 
Ter a morte á cabeceira, 
Cruz, demónio,- tentaçSo!... 



I ^ 



10 TROVADOR 

P'ra ser beoco sem sabida, 
Como costomam dizer, 
Primeiro reja nSo Calie 
O que eu lhes yoa dixer : 

Primo, nSo seja careca, 
Segando, nSo ser idosa, 
Tercio, ter oontos de reis, 
Quarto, nSo uei furiosa. 

Ah ! se eu poderá 
O pente largar, 
Ea só procar&ra 
Mulher p'ra casar* 

£ nSo sendo assim 
NSo caiam em tal, 
Com este conselho 
NSo irSo mui mal. 

Se alguma vier 
Com tal condiçSo, 
Só para fallur-lhes 
De amor uniSo; 

Amigos, lhes peço 
Se lembrem de mim, 
E sem escutal-a 
Só gritem assim : 

Vai-te, demónio, 
Vai-te, tentaçSo... 
Se insistir gritem : 
— Pega, ladrSo! . 



J 



TROVADOR 11 



RECITATIVOS 



ADEUA 



Adélia, meu anjo, escata um segredo, 

Que é isto? tens medo? Meu Deus! porque coras? 

NSo tenhas receio, attende, faceira, 

Escuta, ligeira, que passam-sè as horas. 

Não fujas, Adélia, terás tanto medo 
De ouvir um segredo, que tremas assim?... 
Escuta, meu anjo, teus olhos tSo lindos, 
DSo gozos infindos — ah! Tolve-os p'ra mim! 

Escuta, meu anjo, nBo tenhas receio. 
Ainda este enleio?... porque, linda flor? 
Porque me fugiste, tremeste, coraste. 
Jamais escutaste — segredo de amor? 

Jamais te disseram que eras formosa 
Qual rosa librada nas azas da briza? 
Ou nunca sentiste ferir teus ouvidos 
Lamentos sentados — és muda? indecisa? 



Escuta o segredo — segredo innocento... 
Ainda és tremente? ílocega... te imploro, 
Assim^.. socegaste... me attende serena, > 
Qalante morena: c Ha muito eu te adoro >• 



12 TROVADOR 

Perdôa-me, Adélia, mas tu me perdeste, 
Com risos soubeste minh'álina prender; 
Como ha-de o poeta, vergado á vertigem, 
Distante da yirgem que adora, viver? 



Oualberto Peçonha. 



LEMBRANÇAS 

Nas horas tristonhas que tudo escurece, 
Que a alma apparece mostrando seu manto, 
São horas que eu teço canções de amizade 
De triste saudade, de dôr e de pranto. 



Aqui no retiro da minha orphandade 
Aonde a saudade me tem dado dores, 
Eu vi em teus olhos um fim de bonanças, 
Um céo d'espemnças, um mundo de amorea. 



Se escuto o gemido da rola em seu ninho, 
Chorando o filhinho que cedo perdeu, 
Se a briza fagueira nos bosques suspira, 
Ao som d'esta lyra também choro eu. 



Me lembro do tempo que junto passáinos, 
Que alegres cantámos n'um 'mundo de flores; 
Da linda estrellinha que então nos seguia, 
Que nos presidia nas juras do amores. 



THOVÁDOR 13 

Me lembro dos campos, dos cantos saudosos, ^ 

Dos sons maviosos qae além eu ouvi; 
Do seio materno, do pai extremoso. 
Do irmSo carinhoso — me lembro de ti. 



Se escuto alta noite gentil trovador 
Cantando o amor com voz de alegria, 
Eu tenho saudades do nosso passado, 
De quando a teu lado contente eu vivia. 



LUNDU 



DE QUE HE SERVE ESTA VIDA 



De que me serye esta vida 
De tormento agro e sem fim? 
Quando não estou de guarda 
Toca a rebate o clarim. 



De que me servem as folgas 
Se nSo as posso gozar? 
Quando n3o 'stou de piquete 
De noite saio a rondar. 



14 TROTADOR 

NSo tenho soo^gol... 
Me diz o tenente : 
Vá para o seiriço 
Pois falta-me gente. 



O que he!Í-4e faser? 
Eu TÍsto a fiardiídia, 
Betando as eorreas 
Eu Tou p'ra a gnardinha. 



Porém se um .dia 
Ea n'isto seismar, 
Faço uma trôza 
E ponho-me a andar. 



Com^ esta me raspo 
Oh! rapaziada, 
Pois esta vidinha 
E' mui desgraçada. 



ViUarinho. 



TROVADOR 15 



L 



MODINHAS 



ROUBASTE, TTRANNA t^ARCA 



Roubaste, tyranna parca, 
Men paij meu doce amor, 
Céos, pieSade, dai-me a morte, 
Tirai-me a cruenta dôr. 



De que me serre esta vida 
N'este mundo de amargura? 
Tema mSi que eu tanto amava 
Hoje jaz na sepultura ! 



ESCUTA 



Como o orvalho da noite 
Busca o carinho da flor, 
Assim minh'alma em delírios 
Suspira por teu amor; 
E tu qual uma insensata 
Com teu desprezo me mata. 



16 TROVADOR 



Oh ! se èu podesse encontrar 
Em teus lábios um sorrir, 
Seria a minha yentura 
E também o meu porvir; 
Mas com toa crueldade, 
Nem se quer tens-me amizade. 



Permitta o céo que algum dia 
Mais feliz possa eu ser, 
Se continuar d'eBta sorte 
Prefiro antes morrer; 
A morte é um somno dourado 
Para quem é desprezado. 



I 



Manoel Ferrtira. 



AMARGOS DUS PASSEI 



Amargos dias passei 
Pensando na sorte austera, 
Hoje me rejo em desgraça, 
Já nSo sou quem d'anteB era. 



Mas quanto é triste 
Viver ausente! 
Eu prefiro a morte 
Do que ser vivente. 



. 



TROVADOR • 17 



Pentòndo na sorte austera 
De continuo a suspirar, 
Por não te vêr, Mareia bella, 
O meu destino é só chorar. 



Mas quanto & triste 
Meu padecer! 
Eu prefiro a morte, 
Desejo morrer. 



IlECITATIVOS 



O JANOTA 



Ando na moda p'ra agradar ás bellas 
Que nas janellas ao passar eu rejo; 
Tomo-me d'ellas — de terreiro um gallo 
Verdade fallo, é o que desejo. 



« For isso nso as derradeiras modas, 
Quaeísquer ou todas que Paris nos dá; 
Julgam chaUiça o que digo? — Entto 
Muita attençSo^^-YSo ouyindo lá: 






i6 ' TROYADOR 

Calça na moda — a balão chamada, 
Mui bem talhada por franceza mBo, 
Alva camisa de cambraia fina. 
Linda botina de fino tac&o; 

Chapéo mui fino — de castor, patente, 
Cabello rente — á duqae de Saxe, 
Coliete ornado de botSes brilhantes, 
Pois dos tunantes é o luxo, é praxe; 

Gravata chique — de uma côr mimosa. 
Tendo uma rosa por um alfinete, 
Luvas, bengala, mexican bem feito 
Tomam perfeito meu gentil toiUete. 

Com primoroso pince^nez de gosto 
Se fito o rosto de qualquer menina, 
Ella ao principio quer mostrar-se esquiva, 
Depois captiva cahe no laço — é sina. 

O meu bigode com torcidas pontas 
Ás moças tontas faz dar mil saltinhos. 
Com os olhos faço um tal pisca^isca 
— Segura isca para os taes peixinhos. 

E qual moça que ao meu vêr tSo chique 
Presa nSo fique pelo beiço? — Hein? 
Só desejando qu'eu com tom &ceiro 
Diga primeiro: « — Quer casar, meu bem?» 

As próprias velhas — sazonados pomos, 
Chupados gomos de um fructo azedo, 
Dizem qúe anhelam me adorar também, 
Eu com desdém, entSo digo: — <Ê oedo!> 



TROVADOR 19 

Fermittam ellas qa'este amor rejeite, 
Amas de leite, — nSo preciso, juro; 
Se bem que tenha rijos dentes — sei, 

Jamais gostei de mastigar -pão duro. 

• 

Folgada vida, mui alegre, passo 
Se bem que escasso seja o cobre. — Ora 
Se ellas me adoram.. • e com preferencia 
Pela apparencia que só vêem por fora. 

Como deixar de idolatrar as bellas 
Se eu sou d'ellas um fiel debuxo? 
Mesmo esbagado, sim senhor, quer quer? 
Pois a mulher o que quer vôr é luxo. 



Qualberto Peçonha. 



O CANTO DO DESCRIDO 



Que rale a vida para' o desgraçado, 
Soffirendo o fado, sem allivio achar? 
Antes na campa esse somno duro 
Que prematuro pôde a morte dar. 

Só entre os mortos o socego impera, 
Que sorte austera tSo cruel negou; 
Ante 08 oyprestes e os chorSes crescidos 
Morrem gemidoa que essa dôr levou. 



20 TROVADOR 

Ahi, na lousa do martyrio a palma, 
Em santa calma só pezares gozou! 
Quando da yida a cadêa dura 
Que a desventura lhe prender deixou. 

Ninguém derrame sobre o triste, o pranto 
Que nunca um canto de prazer soltou! 
Que o réo da morte, — essa noite escura, 
Da sepultura o seu mal findou! 

Quando da lua o clarSo dirino 
Vier benigno lhe trazer a luz; 
O sacro emblema mostrará brilhante 
De insinuante — respeitosa cruz... 

« 

J. de Araújo e SUva. 



LUNDU 



TÕTÕ, VOSSÊ É O BEMOmO 



Yôyô, vossê é o demónio 
Que me está enfeitiçando, 
Deixe-me que sou captiva, 
NSo me esteja namorando. 



TROVADOR 21 



Leye o demónio a teutaçSo 
De um yôyô tSo feiticeiro; 
Vá-se, deixe-me sósinha, 
Cumprir o meu captiveiro* 

Será acaso muita trunfa 
Que lhe faz tanta influencia? 
•^^9 J^J^y ^^o Beja assim^ 
Veja bem, tome tenencia. 

NSo queira pela mulata 
P'ra sempre ficar perdido ; 
Que a muito moço bonito 
Isso tem acontecido. 

Se sou cará com melado, 
Tire-me do captiveiro, 
Que a mulata do Brazil, 
Se é boá, vale dinheiro» 

Se sou fructo saboroso. 
Ou do céo doce maná, 
Yôyô, traga o seu dinheiro 
Pta comprar o cambucá. 

Se sou manga da Bahia, 
Ou saboroso cajui, 
Yôyô, traga seu dinheiro 
Se me quizer para si. • 

Se Tossâ gosta de mim, 
Se isto tudoȎ verdade. 
Vá ter com o meu senhor 
Comprar minha liberdade. 



i 



22 TROVADOR 

Se a mulata do Brazil 
Lhe captiva o coraçSo, 
Também é de muita gente 
 única consolaçSo. 

Que a mulata do Brazil 
Sempre grata a seu senhor, 
Não quer ficar perdida 
Por causa do seu amor. 



Araújo Pinheiro Júnior. 



MODINHAS 



FOI EH MANHÃ FESTIO 

Poesia de Laurindo Bebello, e musica de JoSo A. Canha 

Foi em manhS d^estio 
D'um prado entre os rerdores, 
Q'eu vi os meus amores 
Sósinho a cogitar. 

Cheguei-me a ella, 
Tremeu de pejo, 
Furtei-Ihe um beijo, 
Põs-se a chorar. 



TROVADOR 33 

Eram-lhe aquellaa lagrimas 
Na face nacarada, 
Per'ias da madrugada 
Nas rosas da manhfi. 



Santificada 
N^aquelle instante, 
Não era amante, 
Era uma irm3« 



Curvados os joelhos 
Os braços lhe estendia, 
Nos olhos me luzia 
Meu innocente amor. 



Assoma a virgem, 
Deu-se quebranto, 
Secca^se o pranto, 
Cresce o rubor. 



DONZELLA, POR PIEDADE 



Donzella, por piedade, nSo perturbes 
A paz que se abrigou nó peito meu; 
Ah I nSo venhas com teus cantos de illusSes 
Recordar um amor que já foi teu. 



L 



M TROVADOR 

Eu amei-te, sim, ingrata, eu amei-te, 
Quanto o meu coraçSo amar podia; 
No yerdor de meus annos adorei-te 
Só a ti, BÓ a ti no mundo via. 

Faço timbre hoje emfím de aborrecer-tOi 
Mil rezes faço timbre em adorar-to; 
Tuas falias de amor mandam deixar-te, 
Minha yiyfi paixSo manda querer-te. 

Se eu procuro, ingrata, deixar de vêr-te, 
A tristeza me acompanha a toda a parte, 
Se para allivio meu busquei fallar-te, 
Arrependo-me, emfim de conhecer*te. 



QUANDO TE VI 

Musica do snr. Koronha 

Quando te vi tão formosa 
Não sabes o que eu senti? 
NSo sabes, não, que o respeito 
Suffocou meu morno peito 
Por til por til 

Teus olhos cheios de fogo 
Jíe cravaste — eu yacillei; 
Est'alma em que chammaa ardoí 
Porque foi entSo cobarde? 
Nio sei... nSo sei. 



TROVADOR 25 



Mas ta lôste no mea peito. 
Conheceste o affecto mea, 
Porém yendo-me indeciso, 
Nem tu soltaste arnsorriao, 
Nem eu, nem eu. 

Mas vi-te um dia curvada 
Ao peso de intensa dôr, 
Choraras, chorei, po]:ém 
Bemdito pranto de amor. 



A SER INGRATA TA] 



Se me virem ser ingrata 
NSto se admire ninguém, 
Um ingrato me ensinou 
A ser ingrata também. 



Quem é sincera no mundo 
Corre risco em querer bem; 
Eu o fui — mas me ensinaram 
A ser ingrata também. 



Melhor é gostar de todos, 
NSo querer bem a ninguém; 
Já que o ingrato me ensinou 
A ser ingrata também. 



26 TROVADOR 



Vossê me chama seu beih? 
Eu nSo sou bem de mngaem; 
Um ingrato me ensinou 
A ser ingrata também* 



ROMANCE 



SONHO DE VENTURâ 

(PBHBAIIAHTO FUaillYO) 

Melodia do Bnr. S. Luiz Castro, e palavras do snr. S. L. de O. C. 

Eu a vi como sempre tão bella, 
Reclinada a sorrir-se p'ra mim, 
A feliz e ditosa donzella 
Me dizia palavras sem fim. - 

Fui feUz, eu também lhe fallei 
D'este fogo sagrado — o amor, 
E a dextra tomando a beijei * 
Lhe roubando da tez seu primor. 

Tu me amas, formosa deidade? 
Diz depressa, que eu quero saber. 
Se de mim queres ter piedade 
Ou de gozos eu renha a morrer. 



TROVADOR S7 



A sorrir^se me diz eeta diva : 
« Eu aceito este teu puro amor I » 
E não mais para mim foi esquiva^ 
E fiquei sendo d'ella o senhor. 



RECITATIVOS 



MORTE D'AL1IA 



Âmei-te, oh yirgem, no silencio d'alma, 
Colhi a palma d^nm mentido amor; 
E essas crenças que libei comtigo, 
Eil-as commigo no gemer da dôr. 

Amei-te, oh virgem, e qual flor mimosa 
Que desóuidosa com o tufSo pendeu; 
Assim minh'alma que aprendeu amores 
Hoje entre dores por ti só morreu, 

A linda estrèlla que adorei na vida 
Nuvem perdida sua luz finou; 
Ai de agonia soletrou tormentos, 
Teus pensamentos no horror lançou. 



28 TROYÂixm 

Mancebo infame, te saudou o encanto, 
Falsario canto to enrolyeu no pó ; 
Alma de mármore te escondeu o yéO| 
Surdo é-te o céo, tu mereces dó. 

Sorriu-te o mundo, Ih^escutaste as fidlas, 
Trajaste as galas que vestia o crime; 
Somno do inferno te tornou mulher, 
Dores requer, teu soffrer me opprime* 

Libaste sôfrega o lícôr da morte 
Que deu-te a sorte na fatal vertigem; 
Pura buscaste de amor um beijo, 
Viste o lampejo de tu'alma virgem. 

Tudo acabou-se e teus tristes dias 
Cavam agonias -d'uma fé sem luz; 
P'ra ti, ai triste !«.. já nSo ha perdSo, 
A redempçSo só acharás na cruz ! 

Porque, donzella, nSo afogou-to o pranto 
No sentir tanto tua inútil vida?... 
Altar sem culto te maldiz o Eterno, 
Bi-se o inferno, és mulher perdida. 

F. J. Bom Sucee$90 Jfàmor. 



TROVADOR 29 



SLMAIA 



Ta me chamaste de infiel, morena 
Porque, tyranna, me offendeste assim? 
Eu já faUei-te, já te foi perjuro. 
Pois já tens queixas que £ftzer de mim ? 

Talyes tu sejas inoonstante e vária, 
E por teu génio, tu me julgues tal I 
Porém eu juro que te amo e muito». • 
£ tu, Elmaia, tens^me amor igual? 

N'aquelle baile em que dançamos juntos, 
Tu me provaste que eras muito mál 
A sós deixavas muitas vez^, muitas. 
Quem vida e alma, eterno amor te dá 1 

E' assim que provas que também me amas? 
E' d'essa forma que se pôde amar? 
Não, minha virgem, quem amor tem jSrme, 
Só junto d'elle pôde bem gozar. • . 

Porém, perdoa; sSo transportes d'alma! 
Estou vencido, já te beyo os pés 1 
E se me aftas com amor bem puro, 
Deixa esses modos, que me sSo cruéis. 

Manoel ie Macedo» 



Jm. 



30 TROyAIK)R 



LUNDfi 



OS VADIOS 

Ghraças aos céos, de vadioB 
As mas limpas estSo, 
'Stá cheia d'elles a casa 
Chamada de oorrecçSo. 



Já foi-se o tempo 
De mendigar, 
Fora, vadios, 
VSo trabalhar. 



Senhor chefe da policia. 
Tem a nossa gratidSo 
Por mandar esses vadios 
P'ra a casa de oorrecçSo» 



Já foi-se o tempo 
De mendigar. 
Fora vadios, 
VSo trabalhar. 



Bem exacto sois, senhor, 
Por essa deliberaçSo, 
Pois muita gente merece 
A casa de correcçSo. 



A 



TROVADOR 31 



MODINHA 



AO DERRADEIRO CANTAR DO CTSNE. 

Poesia de M. M., e musica de J. Leite 

A meiga virgem 
Dos sonhos teus. 
Ora na terra 
For ti, a Deus. 

Anjo perdido 
Na BolidSo, 
Ouve os saspiros 
D'am coraçSol 

Sopro de morte 
Gelon-te o peito^ 
Tombaste cedo 
N'am frio leito. 

Ango perdido — etc. 

Se ta na vida 
Me deste os cantos, 
Na morte escuta 
Meus tristes prantos. 

Anjo perdido — etc. 



32 



TROYADOR 

Adens, ó bardo, ~ 
Sonha commigo, 
Na ^oite eterna 
Do teu jazigo. 

Aiyo perdido — etc, 



RECITATIYOS 



AKAR-TE 



Amar-te é a acisma d'este peito ardente 
Que almeja crente, ten amor também ; 
Amar-te é a vida que m'infiltra n'alma 
A doce cahna que yentoras tem. 

Embora a*8orte me comprima o peito, 
Em duro leito de bem agras dôres; 
Quero adorar-te, assim mesmo, virgem, 
K'e8ta vertigem, de um sentir de amores. 



Mas úl eu sei que em ySo procuro 
No meu futuro descobrir esp 'ranças; 
Hoje meu peito, de soffrer oançado. 
Só no passado vai colher lembranças. 



TROVADOR 33 



Lembranças queridas, no verdor d'oatr'ora| 
Bem triste chora, quem por ti suspira; 
Hoje, o£Fu8cada8, só me restam dores, 
Mirrhadas flores no vibrar da lyra. 

Qaem sabe s'inda voltarSo risonhos 
Os bellos sonhos da estaçSo florida I 
Oh! qoSo ditosa me seria a sorte, 
N'este transporte, respirando vida ! 

Ohl quanto é doce a esperança linda 
Que vive ainda entre o meu sofi&er; 
N'ella sorri-me tua imagem querida, 
£ dá-me a vida para amar-te e crer. 



O HARTTRIO 



Minh'alma geme n'um atroz delirío, 
Cruel martjrio que meu peito encerra; 
Foi h'esta lueta de soffirer cançada 
Que minha amada me arrojou á terra. 

P<yr essa virgem de meus sonhos, linda, 
PaixSo infinda me devora o peito ; 
Se ii'ella sonho, quando estou dormindo, 
Sinto sorrindo a ventura ao leito. 



8 



»^ - 



34 TR07AMR 

. Porém aoordo! e com ãòr immenfii^, 
Amor 6 crença vejo ter perdi4o: 

. Carpindo soffro da desgraça o corte 
Té vir a morte me leyar comsigo. 

De que me serve o viver no mvndo? 
Sentir profundo, oocoitando n^alma: 
Feliz lembrança que sonhei oatr'ora 
P'ra achar agora do martyrio a palma. 

Vem dar-me, virgem, tua mSo ao leito, 
Que ao teu, meu peito, nunca foi traidor : 
Tanta esperança que sonhei, sem orime.. 
Só me deprime teu perdido amor. 

Oht nSo desprezes meu sentido canto, 
Nem este pranto que derramo em vSo... 
Perdoa, virgem. •. meu soffrer nZo vès? 
Eis-me a teus pés a te pedir perdSo. 



Mi:ih'alma geme n'um atroz delirio, 
Cruel martyrio que meu peito encara; 
Foi n*eBta lucta de soffirer cançada 
Que minha amada me arrojoo. á terra. 



\ 



» 



TROYÀIXm 35 



LUNDU 



AS 50TAS DO THESOURO OU OS TROCOS UUSOS 

Poe0ia do snr. J. M. C. Tapinambá, e mneica do mr. AryeÚos 

Fngiram doesta cidade 
As notas de dez tostSes, 
Com medo dos parag^ayos I 
A culpa tem-a os mandSes. 

Velhos, tortos, aleijados^ 
Judeu, christão e mouro, 
Tem maná de frigideira 
Nas notas do thesouro. 

Lá se foram os miúdos, 
Baban, senhor ministro, 
É preciso remediar-nos 
N'este caso tSo sinistro. 

Velhos, tortos — eto« 

Fedesse de porta em porta 
Qual esmola pede o pobre, 
NSo ha miúdos para cinco, 
O que ha é muito cobre. 

Velhos, tortos — etc. 



L 



36 TROVADOR 

NSo ha troco nas boticas, 
Nas tabernas, sapateiros. 
Nos açougaes e logistas, 
Nem na mZo dos boleeiros* 

Velhos, tortos — etc. 

Qaem quizer ir ao thesonro 
Sen papelinho sellar, 
Vá munido de miados 
Se os tiyer para levar. 

Velhos, tortos — etc. 

N'esta casa do dinheiro 
NZo ha trocos- miados. 
Assim como a mim faltam " 
Os peqaenos e graados. 

Velhos, tortos — etc. 

Com letras c6r das escriptas 
As notas do thesoaro estSo, 
Nos annancios do Jomol 
Servindo de especidaçSo. 

Velhos, tortos — eto. 

A nossa Dona Policia 
Soa vista já perdea, 
E cega no seu cantinho 
Esses annancios nSo lea. 

Velhosi tortos — etc. 



TROVADOR 37 



O rico nSo dá cavaco, 
Tem credito, coroe fiado, 
lias o pobre, coitadinho, 
É quem fica atropellado. 

Velhos, tortoa— etc. 

Eu já vi uma excellenoia, 
Que tem muito dinheiro. 
Vendendo notas miúdas 
Na casa d'um banqueiro. 

Velhos, tortos — eto. 

Excellentissimos senhores 
Bepresentantes da nagSo, 
Tende piedade de nós, 
Para o .povo compaizSo. 

Velhos, tortos — etc* 

Já vai cheirando mal 
A tal historia de miúdos, 
A culpa é do mesmo povo 
Sustentar certos pançudos. 

Velhos, tortos — etc. 

Choremos, povo, choremos 
A miséria de nossa tenra, 
Que até as notas miadas 
Voluntárias foram á guerra. 

« 

Velhos, tortos — etc. 



38 T&OYAPOR 

« 

Vou mandar imprimir 
Quinhentos mil cariSes, 
Qae tenham o meemo valor 
Das notas de dez 40Bt3es« 

Velhos, tortOB — eto. 

Com elles eu voa abrir 
Uma casa de baaqnmro, 
Com premio bem pequeno 
Heinle ganhar inxdto dinheiro* 

4 

Velhos, tortos — eto. 

Esta t9k> feliz idéa, 
Parto da imaginaçSo^ 
Ha-de ter em outubro 
Um premio na exposiçSo. 

Velhos, tortoB — etc. 

O governo agradecido 
Com este serviço prestado, 
He ha-de dar ama teteya 
E uma pensSo de cruzado. 

Velhos, tortos — eto. 

Fico rico, mtiito nobre: 
O commercio penhoradoí 
Com este grande serviço 
Me faz logo deputado. 

Velhos, tortos, — eto. 



tftt^àBOIt 



89 • 



E tendo uma cadeira 
No seio da representaçBo, 
KSo custa ser senador, * 
Sou logo senhor barSo. ' 

Velhos, tortos — etc. 

Viva, Viva o progresso 
Da no8í8a civiiisaçSo, 
Que um banco de miúdos 
Já &z — Senador — BarSo. 

Velhos, tortos — etc. 



MODINHAS 



AHEUA 



Para ser cantada pek musica da modinlia— Trovador 



Ha três annòs, donzella formosa, 
Qae meu peito por ti geme ardente ! 
Ha três annos que soffro torturas 
Com sorriso nos lábios que mente! 



J! ^ . •_ B- "f 



40 TROTÀDOR 

Ha três annoB, perdida a esperança» 
Vejo a yida tristonha e tZo fria ! 
Men futuro parece um espectro 
He apontando uma campa vasia ! 

£ nas horas de triste abandono . 
O passado contemplo risonho, 
Procurando esquecer, pobre louco, 
O presente tSo negro e medonho ! 

E lá Tejo distante e bem longe, 
Entre as brumas do tempo a yentura» 
Vejo risos e sonhos de gloria. 
Tema crença de amor, doce e pura I 

Vejo um mundo festivo e de encantos. 
Onde outr'ora não fui peregrino, 
Onde altares a dor nSo ostenta, 
Onde é tudo de amor temo hymno! 

Mas se os olhos eu volvo ao presente, 
Se de sonho bemdito eu acordo. 
Vejo um mundo de crepe e de dores. •• 
Minha sina tSo triste recordo ! 

.Flores murchas, o riso desfeito. 
Pranto eterno murchando-me a face, 
A descrença no peito abrazado, 
E de gloria nem sombra fugace ! 

Eis. a vida que eu passo na terra * 
Ha bem tempo, mulher, ha três annos, 
Sem achar no presente consolo, 
HlusSes do porvir nos arcanos 1 



TROVADOR 41 

Ah ! nSo digas que é pouco ! ó bem triste. 
Do Empyreo oahir no inferno ! . • • 
Se ea a ta^a libei da yenturai 
Porque daes-me, mulher, fel eterno? 

Que martyríos cruéis hei soffrido I 
Quantas noites tZo longas, sem sómno t 
Quanto pranto yertido em silencio! 
Quantos dias de triste abandono! 

Fui outr'ora feliz, mas te vendo. 
Meu sorriso troquei pelo pranto! 
Ai remata os tormentos que soffiro, 
Meu affecto recebe tSo santo I 

Bi-te, anjo, e nSo queiras que eu diga 
Que um demónio perdeu-me e fugiu-me, 
Que os martyrios que soffro, ha três annos, 
SSo castigos que l)eus infligiu-me! 

Oh ! tem pena de mim, santo anjinho I 
Cumpre os mandos que tens do teu Deus, 
Alumia o caminho que trilho. 
Leva uma alma que é tua p'ra os céos! 

E se um anjo se mancha e nodSa 
Os affectos mortaes aceitando, 
Eu rojado na terra contrito 
Passarei minha vida te orando ! 



Ou entSo d'esse céo em que adejas 
Bate as azas de linda brancura, 
Vem a mim n'este lodo da vida, 
Di-me um dia sequer de ventura I 



42 TMYABOR 

• 

E depois para lá remoniandoí 
NSo te importes que o peito me arda^ 
Se nSo podes ser minha na terra, 
Sô nos céos o mett anjo da guarda ! 

Â. J. de Almeida e Sitva Júnior. 



i CRUZ BA SEPULTURA 



O pharol da minha vida. 
Já nSo brilha, nSo dá luz; 
Meu viver é noite escura 
Junto a uma negra onu. 

De continuo gemo, chorO| 
A saudade me tortura, 
NSo existe mais esperança 
Junto a uma sepultura. 

O sol que p'ra mim brilhavai 
Promettendo-me ventura, 
Offuscou^ee para sempre 
Juntp a uma sepultum. 

O amor que vos encanta, 
Qne aos viventes seduz, 
Murchou-lhe a flor da vidi^ 
Janto a^uma negra crue. 






IMVAMIt 43 



O anjo ^0 me adorava 
A' dôr hoje me condvz, 
Deixou o corpo sem akna 
Junto a uma negra 4mz^ 

» 
Infeliz, que ignorava 
Ser amado com ternura, 
Hoje o amor só contempla 
Junto a uma sepultura» 



RECITATIVOS 



QUIZ FUSm-TE 

Quiz fugir-te, Maria formosa, 
Pra d'ibnor nXo soffrer o tormento; 
Quiz fugir-te, mulher seductora. 
Mas p'ra isso fiquei sem alento. 

Vi .teu rosto tSo bello, tZo lindo. 
Vi teus olhos com', tanto fulgor, 
Vi teus lábios p'ra mim se sorrirem 
Ateando em meu peito o amor. 



44 TROVADOR 

Ahl entSo já nSo pude fagir-te, 
Eotreg^ei-te o meu coraçSo, 
MaSy oh ! quanto ea foi infeliz, 
Poíb foi yiotima de tua paizZo! 



Porque tu, ó mulher adorada, 
O amor nSo queres comprehender, 
Meu socego quizeste roubar 
P'ra de pena fazer-me morrer ! 



J. B. da Silva. 



AMOR DO CÊO 



Poesia do snr. dr. Kano Álvaro, e musioa de A. J. Monteiío 



Vivia triste, como as aves vivem 
Que adejam, longe na amplidSo dos- mareS| 
Yiyia triste, como vive o nauta 
Saudando a pátria de longinquos lares. 



Mas, de repente, meu viver sombrio, 
' Luz vespertina n'um luzir dourou, 
Eu vi teus olhos derramando chammas 
E por encanto, meu solSrer cessou. 



I 



>* 



I TROVADOR 45 



Mas ah! que os olhos que revelam tanto. 
Que á luz da aurora mais brilhantes sBo, 
KSo perceberam no tremer dos lábios 
Dizer-lhes triste, não me deixem nSo. 

Âmei-os muito ! meu amor foi lirio, 
Que doce briza nem sequer soprou; 
Foi doce nota d'uma frauta agreste 
Que um echo triste para o céo levou. 



Amei-OB muito ! meu amor perdeu-se 
Além do espaço que limita o céo. 
Acaso soube a andorinha o rumo 
Abrindo as azas quando o ar perdeu? 



Acaso soube no passar das nuvens, 
Se os sentem só no peito amor? 
Acaso soube se o perfume santo 
A Deus se eleva no escalar da flor? 



Ah! nSo duvides que esse amor tSo puro 
Como o incenso que se eleva a Deus, 
Ahi se eleve nos dourados sonhos 
Que sinto ifei vezes nos delirios meus. 



46 TROVAOOII ^ 



jA houve TEHPO 



Já hoaye tempo em que eu tinha riso, 
Flores n'e8ta alma que o p]:azer poUúe; 
Canções alegres oomo as voses saatas 

Dos ledos pássaros festejando o dia. 

• 

Já vi minh'alma s'expandir festiya, 
Ao som sympathico d'ama yoz divina^ 
Tremer-me o corpo ao cantacto meigo 
Da mSo macia de gentil domsella. 

Se tive sonhos no inspirado craneo... 
A mente em fogo me ditou mil cantos, 
Que como o incenso que p'ra o céo s^elera 
Só tinha assumpto na mulher que amaTa. 

Mas, hoje, triste, já nSo tenho risos 
Nos lábios seccos pela febre aguda; 
Só tenho lagrimas no coraçSo ferido 
Pelos espinhos do desprezo adusto. 

Mas, ^ai I que importa que me cuspa o fado 
— O author maldito de meus males todos — 
Horrores negros que o Avemo encerra 
Se a uma ingrata hei-de amar p'ra sempre? 

Ainda mesmo que odial-a queira. 
Meu Deus, nSo posso, que odiar-te era! 
Se um rosto lindo tu lhe dar soubestes 
Porque uma alma lhe destes feia?... 



TROVÀDOA 47 

Pennitte, oh Deoa, que eu esque^ai a ingrata 
Que esta existência vai mataiado ao9 poucos; 
Eia, Senhor, misericórdia ao filho 
Sem ledos sonhos, sem amorea santoa ! 



• • • 



LUNDfi 



¥ItrA S. JOÃO 



Poesia de Paula Brito, musica de um bahiano 



Rezai, meninas sdteiras, 
Ao santo da devoçSo, 
Fez sempre mil milagres 
O Baptista S. João. 

Quem uma fogueira 
Não pôde saltar, 
N'um livro de sortes 
Brinquedo ha-de achar. 



i\ 



-.^»i 



:?! 



48 TROVADOR 

Em quanto a morto nSo cKega 
Se divirta quem poder. 
Pois ninguém sabe da vida 
O que DeoB tem p'ra ísLzer. 

> 
Quem uma fogueira — etc. 

Cuide as casadas nos filhos 
Se elles inda s&o crianças, 
A solteira — coitadinha,^ 
Viva cheia d'esperanças. 

Quem uma fogueira — etc. 

£' dos bens o bem mais ddce 
O bem da religião, 
NSo é de Deus protegido 
Quem nSo reza a ,S. JoSo. 

Quem uma fogueira — etc. 



jr^^J 



TROVADOR 49 



MODINHAS 



O SONHO 

Eu Bonbei que nos meus braços 
Docemente te apertava, 
Que em tens lábios minha vida 
Inteira se evaporava. 

Oh que prazer tSo celeste 
NSo tive n'este sonhar I 
Se tal sonho fosse eterno 
Quizera nunca acordar. 

Antes fôra um sonho a vida; 
Eu teria entSo prazer, 
Que acordado, só eu vivo, 
N'um continuo padecer. 

Ohl que prazer — etc. 



VOIt. T. 



50 TROVADOR 

CASO DE AKOR TiO FINGIDO 

Caso de amor tSo fingido 
Ea já fiz, hoje nSo £Btço, 
Ea por ti já dei a yida, 
Hoje nSo dou nem um passo. 

Bastai ó oruel, já nSo posso 
Soffirer da sorte o rigor, 
Pois nSo yês que por ti padeço 
Lembranças do nosso amor? 

Se fazes gosto em deizar-me, 
Ninguém te príra, ó crael. 
Mas ao menos saiba » aui&do 
Que te fui sempre fiel. 

Basta, ó cruel, já nSo possp — etc. 

Um pensamento de morte. 
Uma lembrança de amor. 
Uma esperança peardBda, 
Eis o que faz minha dõr. 

Basta, ó cruel, já nfto posso — etc. 

Vem, ó lilia, vem choiftsa. 
Em meus braços reclinar-te. 
Vem ouvir temos queixumes. 
Quero tudo relatar-te. 

Basta, ó cruel, já nSo posso — etc. 



TBOVADOR 51 



Vês, cruel, quanto padeço, 
Vê também qual é meu fado, 
Vê que na vida de amores 
Quem ama quer ser amado. 



AI, MEU BEM, SE EU NÃO TE AKO 



Po69Ía de F. M. M., e maaica de J. B. de Oliveira Costa 



Ah, meu bem, se eu nSo te amo 
Um passo nSo chegue a dar, 
A mesma teria em que piso 
NSo me queira sepultar. 

Ah, meu bem, se eu nSo te amo 
Deus do céo me nSo escute, 
Nem o sol me alumie. 
Nem a terra me sepulte. 

Ah, meu bem, se te nSo amo 
Seja um «nte sem rentura, 
As ondas do mar sanhudo 
Sejam minha sepiátum. 

* 
Se bIo cprâs no que te digo 
Tens aqui meu juramento, 
Acharás teu nome escripto 
No meu temo pensamento. 



L 



í 



52 TROVADOR 

Pois mesmo depois de morto. 
Debaixo do &io chSo, 
Acharás teu nome escripto 
No mea temo ooraçSo. 



RECITATIVOS 



A FAUSTA 



Vivi outr'ora sem amor, sem crença, 
Na d$r intensa de eternal pungir! 
Foram-se os risos, me esqueci dos cantos, 
Só tive prantos de cruel sentir !•«. 



QttoZ rola afflicta que perdeu o espoio. 
Vivi saudoso a soluçar sem fél... 
Doces lembranças que eu amei, coitado I... 
Nem no passado divisei de pé ! • • . 



Eu era a folha que o tufSo quebrara, 
Que além rojara e que a seccar pendeu!... 
N8o houve uma alma que entendesse a minha, 
— Pobre avesinha que a gemer morreu! 






TROVADOR 53 



Era-me a vida, tSo triatonha, um fardo 
Que eu pobre e tardo carregava só ! 
Via o presente, como a terra, escuro ! 
Via o futuro reduzido a pó ! . . . 



E além nas nevqas de um passado inglório 
Todo illusorio o meu gozar findou ! • • • 
E eu inda moço nem um riso tinha, 
— Palma mesquinha que o soffirer murchou. 



la-se a vida e minha fé com ella, 
Formosa estrella que brilhou uma vez ! 
£ eu era um velho no verdor dos annos 
Só pelos damnos que o chorar me fez ! 



Mas, como em noites de cruel procella 
A espVança vela quem morreu cuidou, 
Um anjo viu-me divagar sem tino 
£ o meu destino com amor mudou. 



Hoje eu sou crente, meu futuro «é liso. 
Como um sorriso de criança á mSi ! 
Vivo contente, me esqueci dos prantos, 
Deram-me os cantos que o fruir só tem! 



Fausta, meu anjo, te abençoo agora, 
Que o bardo chora d^ feliz que é! 
£u que era morto tive vida immensa! 
Pela descrença me outorgaste a fé! 



54 TROVADOR 

Ámo! ea te amo, como á crença o crente! 
Fausta innocente, qae eternal firair ! 
Dens, Bea affecto ooneedei-me eterno ! 
E venha o inferno — morrerei a rir I 

A» J, de Almeida e Silva 



TEUS OLHOS 



Morena, eti te peço, nSo volvas tens olhos 
Assim doeste modo, gentil, feiticeiro; 
Oh ! não, se nSo queres, . ao vate abatido 
Vêr louco adorando teu rosto faceiro ! 



Oh nSo, se soubesses com quanta magia 
Teus olhos attrahem o meu coraçSo, 
De certo, morena, teus olhos galantes 
Os nSo volverias com tanta expressSlo ! 

« 

Se meigos os fitas na rosa brilhante, 
Que expande na terra, seu grato perfume; 
A rosa tSo bella se esconde medrosa^ 
Teus olhos sSo bellos que a faz ter ciúme! 

Se no céo azulado brilhando uma estrella 
Por ti é fitada meu anjo — tremendo, 
Desmaia e se esconde apressada nas nuvens, 
Que olhar fascinante 1 — a fugir vai dizendo. 



TAOVM)OR 55 

Assim 86 no vate este olhar perigoso 

•Ta cravas sorrindo, um momento, um instante, 

Coitado, sem siso, a teus pés fascinado 

Liá yai abater-se, oaptiyo, arquejante !••• 

Morena, eu te peço, nSo toItas teus olhos 
Assim, que me matas, me tiras o siso ! . • . 
Morena, eu te peço, por Deus nSo sorrias 
Que arrancas-me a vida com esse sorriso !••• 

</• B. Marcenal. 



LUNDt 



AS VELHAS DA ÉPOCA 



Ai que para ti nSo é 
Desfru&r n^um baile velhas, 
Qual pastor entre rebanhos 
Guardando suas ovelhas. 



«Que risadas estZo dando 
Entre as portas escondidas, 
Quem por entre portas vè 
Estas scctnas divertidas! 



56 TROVADOR 



Dançar a valsa a três tempos, 
Para traz sempre aos pulinhos, 
Isso só fasem as velhas 
Do tempo dos Âffbnsínhos. 

Que risadas — etc. 



Julgam que p'ia bem dançar 
EUe e qualquer se arrisca ?••• 
Ora adeus, senhoras velhas, 
VSo jogar a tusa, a bisca. 



Que risadas — etc. 

Vêr aquella, que enxofrada 
'Stá no canto de uma sala, 
Porque o janota nSo foi 
P'ra uma polka convidal-a ! 

Que risadas — etc. 



Vêr uma tia baixinha. 
Gorda, tema, feita amante, 
É cousa para fugir * 
Cem léguas d'ella distante. 



Que risadas — etc. 



VSo antes pegar nas contas 
£ rezar dous Pcuirê^Nossoê, 



TROVADOR 57 



Que aa danças de hoje em dia 
Foram feitas para os moços. 



Que risadas — ete. 



MODINHAS 



COMO A ROSA, AMOR DURA UM SÕ DU 



Musioa de Raphael Coelho 



Como a rosa, amor dura um só dia, 
Ninguém oreia nos votos d^amor, 
Sois mimosa, do cume da gloria 
Precipita no abjsmo da dôr. 



Só oomtigo, no peito e na «nente, 

E'8 meu bem, tu meu Deus, cá na terra, 

E' por ti que meu peito palpita, 

£' em ti que o -mundo se enoarra. 



S8 TROVADOR 

Insensato é o homem qae pensa 
Gozar vida tem ter dissabor, 
Temo amor qae ao prazer nos condas, 
Nos arroja no abysmo da dôr. 

Já no mondo gozei mil Tentaras, 
Fui feliz, foi ditoso em amor, 
Hoje vivo de todo esqaecido 
Sepaltado no abysmo da dôr. 

Insensato é o joven qae pensa 
Ter amantes com ingratidSes, 
Entre amor nSo ha tyrannia' 
Qae escravisa nossos coraç3es. 

Já no mando gozei de ventara, 
Foi feliz, fai ditoso em amor, 
Hoje vhro de todo esqaecido, 
Sepaltado no abysmo da dôr. 



DESPEITO 

Ea também sonhei yentoras, 
Ea também tive illasSo, 
Amores dentro do peito, 
Fjrazeres no coraçSo. 



Mas hcge apenas me resta 
Tristes asa soltos em vio. 



TROVADOR 59 



Na rocha d» doBTentura. 
Minha íIIobSo se findou, 
Quanto amei, hoje detesto 
A mulher que me enganou. 

Detesto a vida que dia 
Para sempre envenenou. 

Viva embora mui feliz 
Essa mulher que adorei, 
Seja-Ihe o canto do mundo 
O amor que lhe jurei. 

• 

Seja-Ihe só a lembrança 
Os beijos que n'élla dei. 

Do inferno mSo abrazada. 
Mil insultos violentos 
Imprimam n'aquellas faces, 
N'aquelles lábios cruentoi^ 



Que cuspidos — nlo beijados 
NSo fiiriam meus tormentos. 



60 TROVADOR 



SE A DESGRAÇA ME ACOHPANHA 



Se a desgraça me aoompanha, 
Minha sorte assim o quiz; 
Vai-te emborai triste sorte, 
Lá vem um dia feliz. 



Só uma esperança futura, 
Consoladora, me diz 
Que entre os dias desgrieiçados 
lá yem um dia feliz. 



De amar-te com firmeza, 
Foi Toto que sempre fiz ; 
Para eu dar-te mil abraços. 
Lá vem um dia feliz. 



RÉCITATIVOS 



MINH'AUIIA É TRISTE 



(IMITAÇXO) 



Minli'alma é triste oomo é triste a filha 
Que geme affliota por morrer-lhe o pai, 
É triste como— o triste adeus do filho 
Que a mSi abraça e para a guerra yai. 



TROVADOR -61 

Minh'alma é triste como a voz do nauta 
Que aobre as ondas o soccorro implora, 
E triste como pezaroso pranto 
Da mSi querida que p'la filha chora. 

Minh'alma é triste qual ranger dos gonzos, 
É triste como o rebentar da vaga ; 
inda é mais triiste que o adeus da vida 
Da mSi que morre e a filhinha afaga. 

Minh'alma é triste como é triste a supplica 
Do desvalido que mendiga um pSo; 
Minh'alma é triste como o som do bronze, 
Núncio da morte de um querido irmlo. 



Minh'alma é triste como é triste a sortç 
Do pobre esposo que ao degredo vai; 
É triste como triste é o ai pungente 
Da infeliz filha que em deshonra cahe. 



Cafifè. 



OS OLHOS D'ELLA 



Os olhos dW2a, de fulgor divino, 
SSo dous pharóes a reflectirem n'alma, « 
S^io vivos cirios 'd'um brilhar sem fim, 
Luz que deslumbra de meu peito a calma. 



02 



TEOTADOR 



Ob olhoB à*êUa alo estraUai pnnui 
A indioarem da vontium o trilh0| 
SBo fogOB d'alma que ao brilhar desâMi 
Ob geloB d'aLBM no mais leyie brilbo. 



Os oUlob i^êUa a desferirem ehamíBaa 
SBo quaea de FhdiK) deataeadoa raio», 
Banhi^se o peito no oalor que enuôura 
Ao exprimirem juvenil deemaioa» 



Oa olhoi à*ella aSo de amor as armas 
Que da razSo o predominio tolhem^ 
Que livres pulsos tzmiçostros prendem. 
Que n'am lampcgo mil trimttphos ooUmm. 

Os olhos d^slla tem minValma presa; 
A luz me foge se seu brilho vejo; 
Vaoilloy tremo, titdbío, mom 
N'am gemer ioaco, n^nm tesas aimciJo. 

• 

Os olhos d'sUa sBo a luz que expelle 
A negra neyoa que me tolda a vida, 
Falte^me a lua que nos se^s olhos brilha, 
Minh'alma triste morrerá descrida. 



Á. J. de JSauia. 



TROViDM 68 




CONSELHO 



PSe na virtudei 
Filha querida, 
De tua vida 
Todo o primor ; 
NSo dês á sorte 
Que tanto illude 
Sem a virtude 
Algum valor. 

Tudo perece, 
Murcha a bellesa, 
Foge a riqueza. 
Esfria o amor! 
Mas a virtude 
Zomba da sorte, 
E até da morte 
Disfarça o horror. 

Brilha a virtude 
Na vida pura. 
Qual na espesmora 
Do lirio a côr; 
Cultiva attenáa, 
Filha mimosa, 
Sempre viçosa 
TBo linda âdr. 



64 



TROVADOR 

t 

Pastor hamilde, 
Monarcha ingente, 
Soffire igualmente 
Destino austero: 
Mas, o yarSo 
Sábio e honradoí 
Zomba do fado 
Por mais severo. 



Honrosos cargos, 
Titulo, nobreza, 
É tudo presa 
Da parca dura; 
Porém, nSo finda 
Do virtuoso 
O nome honroso 
Na sepultura. . 



MODINHAS 



ALZnU FORMOSA 



Modinha bahiaiw 



Alzira formosa, 
Ventura foi vôr-te, 
Segniu-se o render-t» 
O meu coração. 



▼ot. ▼. 



TROVADOR 65 

Amor se render-me 
Achou o motivo, 
Eu já sou captiyo, 
Eu amo e entBo I entSo.,. 



Ao yêr os teus olhos 
Vivos e belloB 
Eu tenho de vdl-os 
Maior ambiçSo. 

Por mais que os veja 
Não parte a vontade, 
Eu tenho saudade 
Eu amo e entSoI entSo... 



J. Capistrano IMU. 



SE AQUELLA INGRATA 



Modinha báhisna 



Se aquella ingrata 
Jurasse ser 
Minha somente 
Até morrer; 



> 



66 TROVADOR 

» 

De ser meu bem, 
De ser s6 minhA, 
De 0Ó cominigo 
Virer jimtÍQlia« « • 
Mas tu, tjranna, 
Já nSo me attendes, 
Ao temo amante 
Cruel offendes» 



Mea peito Boffre 
Ardente chamma, 
Amor me abraza, 
Amor me inâamma. 



A ella corro, 
Prazer exulto, 
Á minha amada 
Rendendo culto; 
£' quando esta 
EntSo me diz : 
Comtigo, Jonio, 
Já sou feliz. 



OofUbroMUiU^ 



1 



TROlíADOR 67 1 

i 



DMA VISÃO 



Quando o Bomno me pesa nos olhos, 
Beyoar sinto em tomo de mim, 
Vaga sombra que ameiga os meus sonhos, 
Talvez forma de algum seraphim. 

Toda a noite um adejo suare 
Me acalenta com meigo frescor. 
Vem, meu anjo dos cilios retintos, 
Vem levar-me nas azas de amor/ 



Passo a noite se acaso repouso. 
Sempre a yêr-te nos meus sonhos d'ouro. 
Alva a tez, breve a bocca rosada, 
Sob o véo escondido um thesourol 



N'uma rede d'encantos me prendes 
Com grinaldas de mystico odor, 
Vem, meu anjo dos cilios retintos. 
Vem levar-me nas azas de amor. 



Bella £ada que doura meus sonhos, 
Que sjmpathica a vida me fex I 
Já nSo és illusSo mentirosa, 
Eu te vejo acordando talvez ! 



Bello anjo d^uma aima celeste, 
Doce olhar de innocencia e pudor, 
Vem, meu anjo dos cilios retintos, 
Vem-me dar teus extremos de amor I 



68 TROVADOR 



XACARA 



o QUE É AMOR 



do dr. i). J. G. Magalh&es, e musica do «nr. Btpkiel 



Ta me perguntas 
O que é amor? 
Árduo problema 
He yens propor, 
Sublime thema 
Para um doutor t 
Mas se me dizes 
O que é a dôr, 
O que é o frio, 
O que é^ calor, 
Dir-te-hei, oh bella, 
O que é amor. 

Amor nSo soiSBre 
DefiniçSo, 
Sente-«e o eflfoíto 
D^essa padzSo, 
^ue róe no peito 
O ooraçSo. 



TROVADOR 69 

Sentil-o posso, 
Dizel-o nSo, 
É frio, é febre, 
Ê um YolcSo; 
É tudo a um tempo 
Sem confosSo. 



Amor é tado 
Por modo tal, 
Qne eu nSo sei dar-te 
Um só signal; 
Para expUcar-te 
Seu natural, 
Sei que da vida 
EUe é causal: 
Mas também mata. 
Também faz mal; 
Ora é divino. 
Ora infernal. 



Ora nos mostra 
Na terra o céo 
N'um rosto lindo 
Como é o teu. 
Quando dormindo 
Se volve ao meu; 
Ora em noss^alma 
Cum gesto seu 
O inferno embebe; 
Que mais sei eu? 
Amor é tudo, 
Ê um Protheu. 



70 TROYABOR 

Queres úm mdo 
Para o saber? 
É a quem te ama 
Correspomier ; 
A sua chamma 
Tu has^o vêr , 
Que melhor cousa 
NSo pôde haver. 
Correspondido, 
É tal prazer, 
Que mais os anjos 
NSo podem ter. 



AHITUNÃO SABESI 



Ah! tu nSo sabes como eu soffi*o, anjinho! 
Que duro espinho me atormenta a vida, 
Vires alegre n'um viver de flores 
E eu sofifro dores só por ti, querida ! 

Amo-te muito ! meu amor é tanto, 
Como esse pranto que me banha o rosto, 
Nas horas mortas de uma noite longa 
Que mais alonga meu senil desgosto ! 

Ah ! tu nSo sabes que poema ingente 
Soletro crente n'este amor, querida! 
Vi-te, adorei-te, e a teu sorrir, criança, 
Minha esperança renasceu com vida ! 



TROVADOR 71 



Amo-te muito ! sem te vêr nSo vivo I 
Abjo revivo, se o olhar que é teu. 
Paira na fronte do defunto andante, 
Sem fé, errante, soluçando atheu. 

Di-me um sorriso I viverei comtigol 
Teu rosto amigo velará meu pranto, 
£ quando a morte me privar da vida 
Só tu, querida, esoutarás meu canto I 

Âht tu nasceste para mim ! sê minha ! 
Ai\jo ou rainha, sem amor não vivo! 
Ama o poeta que já vive pouco. 
Que ama-te louco e morrerá captivo ! 



A. J. de Almeida e Siha Júnior. 



LUNDU 



O LáSRiO DO FRADBSINHO 



O ladrSo do fradesinho. 
Deu agora em confessor. 
Eu em confissão lhe disse : 
—-Frade, nSo quero teu amor. 



72 TROVADOR 



Este amor nSo é meu, 
E de Baphaeli 
Qu&ndo Raphael f5r 
E de quem quizer; 
Aturai minhas raivas, 
Meus cajundús« 
Apesar das oousinlias 
Que eu bem quizer, 
Ai! me larga, diabo. 
Ai! me solta, demónio; 
Diabo do frade. 
Que frade damnado, 
Me solta os babados. 
Meu bom Santo António. 



EUe um dia me encontrou 

Lá na rua do Quvidor, 

Eu gritando lhe disse : 

— Frade, n8o quero teu amor. 



• t 



Este amor nSo é meu— ^etc. 

Frade, se queres ter vicio 
Antes seja jogador. 
Vai encommendar defuntos 
Na igreja de S. Salvador. 

Este amor lAo é meu — eto. 



- .ju 



TROVADOR • . 78 



MODINHAS 



QUAL SALTANTE PASSARIHHO 

(mODXKHA BÀStAHA) 

Qual Baltante passarinho % 
Que apesar de preso oanta, 
E que longe da consorte 
Sempre seus males espanta; 



Tal eu faço á Nize ausente 
De teus mimosos agrados, 
Pois que de muitos os brados 
O mal minoram de um ente. 



Jo9ê Joaquim doã Beis, 



OHILIUA 

Oh! lália, de ti distante 
Eu soffiro cruel tormento, 
O teu formoso semblante 
Me lembra a cada momento* 



74. * TRÒTADOR 

Se o craçl fado oppressor 
Quer que eu passe aasim a vida, 
Se as saudades, pranto e dôr 
Só me dá sorte homicida, 
Eu quero a vida acabada; 
Adeus, ó lilia adoradJEi, 
Meu temo suspiro aceita: 
Dçixa louco a tua amada 
Ji que teu amor rejeita. 

Dise, 6 Lilia adorada. 
Se te nSo more o meu pranto, 
Tu zombas d§i meus tormentos, 
Fra que me desprezas tanto? 

Deu-te acaso a natureza 
Insensivel. coraç&o, 
Ou te deu tanta belleza, 
Tanta graça e perfeiçSo, 
P'ra que eu fosse desgraçado? 
Tira-me a lei de meu fado 
Que me &z sempre infeliz; 
Vou morrer abandonado 
Porque o fiftdo e Lália o quiz. 



AS TERnOKAS DE MEUS AIS 



Seccos troncos, dimui penhas 
Que em silencio me esoutiKSB, 
Parece que estaes sentindo 
Âb ternura» de meus ais. 



novÁSMí 7St 



De sensiyeÍB os teus olhos 
SSo 08 mais ternos signaes, 
Pois repetem com ternura 
Âs ternuras de meus ais. 

Antes quero vêr meu peito 
Passado de mil punhaes, . 
Do que vèr escarnecido 
Âs ternuras de meus ais. 

Sentem troncos, sentem penhas, 
Sentem feros animaes, 
Só tu, Marília, nSo sentes 
Âs ternuras de meus ais. 

Justos céos, que em negra sombra 
Meus queixumes escutaes. 
Talvez que vos entemejam 
Âs ternuras de meus ais. 

Faze, cruel, se é teu gosto, 
Ditosos os meus rivaes, 
Dará mais gloria ao exemplo 
Âs ternuras de meus ais. 

Se o céo te quizer punir 
Dos teus crimes capitães. 
Pôde ser que abrande o céo 
Âs ternuras de meus ais. 



Se amor com amor se paga. 
Anda, vem, nSo tardes mais, 
Vem para vèr com ternura 
As ternuras de meus ais. 



2 



76 TROVADOR 



O TABERNEIRO 



Marmnrii o mundo que o taberneiro 
Ê ratoneiro por vender — toucinhO| 
Seja rançoso, seja bom, por preço 
Que nSo esqueço^- bem puxadinho. 

Se vende a carne por pataca- a libra 
Na corda vibra da pobreza humana, 
Que diz ser caro, sem saber se o gado 
Após cortado, lá no peso engana. 



Se vende um queijo por dous mil e cem 
Para um vintém só de lucro haver. 
Dizem que o pobre taberneiro honrtido 
É malcriado até no oflTrecer. 



Quando elle julga estar mui descançado. 
Já reclinado sobre o seu balcão. 
Lá entra o^preto da visinha e diz : 
< Nhonhô Luiz, m'e8queceu sabão. » 

Só vende á vista, e jamais fiado 
CafK torrado com feijSo moido ; 
Também lá vende ao melhor freguez 
Por trinta reis, seu maduro ardido. 

O taberneiro vende arroz, farinhas, . 
Também sardinhas, capiléa e massas ; 
Vende presuntos, marmeladas finas, 
Paios em tinas, salchichSes e passas. 



TROVADOR 77 



t 

Quasi que deve se chamar barbeiro 
Âo taberneiro — pois que dá sangrias, 
As d'eBte tomam as pessoas quentes, 
As d'oatro algentes — dizer quero 



FeijSes que vende: amendoim, cavallo, 
Vejam, nSo fallo no que é mulatinho, 
Pois se desejo dar um beijo — é asneira 
Dal-o á torneira d'um barril de vinho. 



Esta bebida é a que dá conforto. 
Se é do Porto ! — note bem, do velho, 
É um regalo. Depois da moaSst, 
Mesmo a garrafa nos parece espelho. 



Por ella vâ-se com pezar profundo 
Que todo o mundo p'ra mentir nasceu. 
Dizer o mesmo que o taberneiro 
É ratoneiro?... — EUe diz: nSo eu. 



O taberneiro é p'ra mim sujeito 
Pio qual engeito o melhor bocado, 
Principalmente quando elle -diz : 
Se é para o Diniz tudo dê fiado. 



Todos bem sabem o que é fiado, 
É género dado p'ra pagar depois. 
Com a differença que no ir sommar 
Vem-se a pagar em vez de um bico — dois. 



Oucdberto Pêçanha, 






78 TROYia>OR 



Rio sou INGRATO 



Quando tristonho, taciturno fujo 
Sem teu semblante seductor olhar, 
Comtigo àixeft siupirando : — Ingrato 1 
Morro por elle, uSo me sabe amar, 

É que te enganas I eu padeço e muito, 
Mas te consagro santo amor profundo : 
KSo sou ingrato; quero dar-te um culto, 
Mas em silencio sem que saiba o mundo« 



Sou mui cioso; mas a sorte arara 
Pôde teus dotes me querer roubar : 
Diz: — da florinha que será — coitada — 
Se o ténue orralho lhe vier faltar ? . • • 



A vida agora sobre um chSo de flores 
— Rio de sonhos — deslisando vai : 
Se o sol crestal-a n'uma tarde amena 
Murcha de mimos — sem aromas cahe. — 

É este o mundo que illude — o éden 
Que prende os olhos, nossa vida encanta : 
SSo nossos sonhos, festivaes prazeres, 
Dourada taça de ventura santa. 

Sonhar me àeixA com a mente em chammafl 
Em quanto a criança do amor resplende : 
Em quanto o peito n3o baqueia exhausto 
De encontro' aos prantos que o soffirer accende* 



TROVADOR 19 



Amo-te mtdto; mas eu temo ainda 
Que a dôr, que dorme n'este peito morto. 
Acorde intensa por manhS de inTemo, 
EntSo me fine sem achar conforto. 



NSo soa ingrato ! mas a labareda, 
Queimando o cedro que c^^mpêa augusto, 
Um dia pôde, levantando incêndio, 
Queimar o débil pequenino tajrlMjBto* 



E se algum dia — a padecer — disseres: 
Que é d'e68aB rosas de minh'alma vivas? 
NSo te respondo : o furacSo crestou-as 
Aos toscos beijos de paixões lascivas. 

NSo sou ingrato ! mas na primaveia 
Tenho provado tantas amarguras, 
Que sem esperança o coraçSo já velho 
Receia falias de amorosas juras. 

I • 

% 

Antes tem pena do soffirer do vate 

Que outr'ora a vid& lhe correu bem BBansa ; 

O peito gasto é um jardim estéril 

Onde nSo modra luminosa esperança. 

Eu me arreceio de dizer*te, virgem, 
Que te consagro santo amor profundo. 
. NSo sou ingrato ! quero dar-te um culto. 
Mas em silencio, sem que o saiba o mundo. 

S. Paal^f-1866. 

Qratviino CoMo, 



é 



80 TROVADOR 



LUNDt 



EU Rio CMrare dk outro ahor 



Londú babiano pelo padre Telles. 



Ea nSo gosto de outro amor 
Qae nto seja amor de ci, 
É amor jnaito gostoso 
Amor de minha sinhá. 



Seus afiectos, seus quindins 
Enfeitiçam o mundo inteiiO| 
Faz escravos homens sérios 
O terno amor brazileiro. 



Eu zombei por largo tempo 
De seus laços, suas prisSes; 
Eu zombei do captiveiro 
Dos mais temos ooraçSes. 



N&o mais quiz o deus do amor 
Consentir a zombaria, 
Pois ao yêr certos olhinhos 
Fez-me preso n'esse dia. 






TROVADOR 81 



Ninguém pois deve zombar 
D'eB86 amor tão feiticeiro. 
Quando julga que está livre 
E o mais prisioneiro. 

,É conselho de quem ama 
Certos olhinhos de cá: 
£fectos, quindins, requebros, 
Só 08 de minha sinhá. 



MODINHAS 



OS MEUS AMORES 



Tu és um anjo na terra 
E no céo um seraphim, 
Dos prados a bella flor, 
E's a rosa do jardim. 



E'8 o lustre que clarêas 
O mais escuro salão. 
Das damas formoso typo. 
Dos homens a perdição. 



VOL. V. 



82 TROVADOR 

Das jarras a linda flor, 
Dos canteiros o alecrim, 
Tu és um anjo na terra, 
E no céo um s^raphim I 



QUANDO EU MORRER, CHOREM TODOS MINHA MORTB 



Para ser cantada oom a rnuBÍca da modinha — (iuando eu morrer 

ninguém choire a minha morte 



Quando eu morrer, chorem todos minha morte, 
Cerquem meus amigos o meu leito, 
Mas arrastem essa ingrata bem p'ra longe. 
Pois nSo quero o contacto de seu peito. 



Tudo desejo, muitas flores em meu tumulo^ 
Immensa gente junta ao corpo do finado, 
Mas n&o ella, inda que me traga a yida, 
Escondam meu cadáver ji gelado. 



Deixem minha pobre mSi verter sen pranto, 
Cerquem-a de tudo quanto amei, 
E que n'esses amoros de volúpia 
Ella chore o retrato que lhe dei. 



TROVADOR 83 



A meu pai — (escusado é fallar n'elle) 
Deixou-me no mando ignorado e triste, 
Hoje d'elie nSo me resta ama lembrança 
TTma só lagrima em meos olhos nSo existe. 



Nada mais quero, chorem todos minha morte, 
Cerquem meãs «amigos o meu leito, 
Ifos arrastem essa ingrata bem para longe, 
Pois nSo quero o contacto de seu peito. 



A MULHER 



Poesia do sor. Guedes Jonior, e musica do smr. Calado Jonior 



A mulher, esse dragSo da humanidade 
Que a obra mais perfeita maculou, 
N8o é dado do crime abstrahir-se, 
Pois ferrete feital a indigitou. 



O bondoso e incauto homem 
Vai á mulher agradar. 
Mas a cruel, fementida, 
Duro fel lhe faz tragar. 



i^. 



84 



TROVADOR 



I 

A mulher quando ostenta seuB carinhos 
É p'ra o homem arrojar á negra dôr, 
E elle tão benigno, tSo improvido, 
Cada vez lhe consagra mais amor. 



O bondoso e incauto homem — etc. 



A mulher quando diz amar o homem 
É com o fim de executar a &lsidade, 
E se d'isto se preserva algumas vezes 
NSo é por lhe ter grande amizade. 



O bondoso e incauto homem — eto. 



A mulher tem o attributo da maldade 
Que muitas vezes se divisa em seu semblante, 
1^ sempre procurando o atroz embuste 
Vai alfim apunhalar o peito amante ! . . . 



O bondoso e incauto homem — etc. 



A mulher sempre tem em sua mente 
O desejo do artificio e da ilkisSo, 
Ella vai atraiçoar o incauto homem 
Quando mesmo lhe o£ferece a sua mSo !.. 



O bondoso e incauto homem — etc. 



TROVADOR 85 



A mulher inda dotada de bondade 
Sempre tem o caracter de perjura, 
£' condição da qual nunca se afasta 
SenSo quando intervém a parca dura I • . 

O bondoso e incauto homem — etc. 



TRISTES SUDADES 



Modinha bahiana, por Dami&o Barbosa 



De saudade lastimosa 
Que persegue amantes peitos, 
Eu soffro n'esta alma afflicta 
Os cruéis duros effeitos. 



Quem dera me ouvisse 
Alguém de ternura. 
Que meigo escutasse 
A minha amargura! 



Tristes saudades padecem 
Peitos a amor sujeitos, 
Conheço por experiência 
Os cruéis, duros effeitos. 



Quem dera me ouvisse — etc. 



8C 



TROVADOR 



Ciames, ais ii2o conheeem 
Peitos a vigor afeitos, 
Pois quem ama é qaem sente 
Os crueisi duros effeltos. 



QuQpi dera me ouvisse — eto. 



AOLDAR 



Era no estio quando a sombra tua 
Pallida á lua — tão formosa eu vi; 
N'esse teu rosto tSo fulgente e bello 
Um doce anhelo — vi raiar p*ra mi ! 



EntSo eu presa de vertige' ardente 
Cabi tremente — a teus pés, ó virgem: 
Tu te sorriste para mim a eito 
E no meu peito — vi de amor a orígemi 



Desde esse instante de amoroso enleio 
Eu no teu seio — me reviver senti; 
Lembras-te, 6 anjo, que luar fazia? 
Que poesia — contemplar-te, bouri! 



TROVADOR 87 



Oh ! bem te lembra, minha TÍrgem bella, 
Que arage' aqaella saspirara alli; 
Era no estio quando a sombra toa 
Pallidi^'á loa — tSo formosa vi!.,. 



O OPULENTO 



Eil-o que passa nos seus trexis CaustosoS) 
Ébrio das pompas que a riqueza dá, 
Solta dos olhos um olhar d'afironta, 
Ligeiro roda e nem se avista já. 



Insulto, escândalo á miséria extrema 
Que ás portas. do infeliz bate só, 
Vive em penúria, se é viver a vida 
Eivada sempre de martyrio e dó. 



Por altas noites em salSes dourados 
Se agitam danças de um folgar sem fim, 
E o rico mostra esplendor que ostenta 
Ornatos próprios de um real festim. 



Soam descantes e harmonias soam 
Que infiltram n'alma a languidez d'amor, 
E entre os folguedos que de véos se rasgam^ 
Celestes véos de virginal pudor! 



88 TROVADOR 

E as noites voam, furtivas, ledas 
Entre as delicias que ventura tem, 
E aos sons festivos que ao prazer convida 
Li vSo saudosas murmurando além. 



Às mesmas horas quantas famílias gemem 
Tragando o cálix d'amargoso fel, 
A quantos crimes não arrasta a fome 
Com seus tormentos de um pungir cruel! 



Triste viuva que vivia pobre 
Luctando em balde contra acerba dôr, 
Vendeu as filhas ao brilhar da infâmia, 
Cedeu ao crime. Santo Deus, que horror! 



Sobre as escadas de um mosteiro antigo 
Que a lua esmalta com saudosa luz, 
Dous orphSosinhos sem um tecto aò menos 
Á sombra dormem do velar da cruz. 



Honra4o artista sobre um leito humilde 
Cahe sem alento que não pôde mais, 
Trabalha sempre na miséria immerso 
P'ra soffrer penas no porvir fallazJ 



Velho soldado que ao bradar da pátria 
Vertera o sangue no calor da acção, 
Vergonha, opprobrio, maldição eterna 
Hoje esquecido 1& mendigam pão ! 



« 



TROVADOR 89 



 casta virgem á penúria cede ; 
Do erro ao crime só um passo vai, 
Era hontem pura, criminosa hoje, 
ÁmanhS perdida nas orgias cahe. 



E o rico folga nos saraus luzidos 
Sorrindo a todos com um sorrir mordaz, 
E o rico baldo aos sentimentos nobres 
Seu ouro esgota no prazer fallaz. 

Só nSo tem ouro p'ra valer ao pobre, 
Só não tem ouro p'ra calar a dôr, 
Só nSo tem ouro p'ra salvar a virgem 
Dos torpes laços de um mentido amor. 

Homens ditosos que folgaes no luxo, 
Vergai á dôr, á compaixão vergai, 
E os agros prantos de jnartyrio e sangue 
Nos baços olhos do infeliz seccai. 

Dai-lhe o sobejo d^essas mesas lautas 
Que as mais das vezes arrojaes ao chSo, 
Folgai embora, mas roubai á fome 
Tantas famílias que mendigam pSo. 



00 TROVADOR 



LUNDU 



KiO AMO AOS GOSTOS DOS VAIS 



Que 86 importa o mando ínjiuito 
Com meus suspiros e ais? 
Nio doa satisfaçSo ao mondo, 
Nlo amo aos gostos dos mais. 

Hei-de segair 
Meu coraçZo, 
Embora o mundo 
Diga que nSo. 

Dizem que eu tenho mau gosto, 
Me dSo razões taes e quaes; 
Nilo dou satisfaçSo ao mundo, 
NSo amo aos gostos dos mais* 

Hei-de seguir — etC 



Uns dizem que ella é feia 
Outros, tamandoais; 
NSo dou satisfaçSo ao mundo, 
NSo amo aos gostos dos mais. 

Hei-de seguir — etc. 



TROVADOR 9t 

í 

A PERPETUA 



Vinde, pârpçtaa, babitar 
Junto d'68te peito men; 
Vinde mitigar as dôrea 
Que um amor me concedeu. 



Vinde, perpetua, apressada 
Junto a meu peito habitar; 
Vinde estas dores sem fim 
Com tua imagem findar. 



Perpetua, tu só vieste 
Gravor-me uma esperança; 
Comtigo veio a saudade 
Confirmar nossa alliança. 



Descança, perpetua pura, 
No meu peito, até que um dia 
Essa esperança que traases 
Do hymeneu seja alegria. 



92 TaoviJ)j>R 



O PRISIONEIRO 



Ai! captivo, tSo moço "nvendo 
N^este fort^, no mar sem ningaem, 
Cada dia te espero gemendo 
Como e»pero ser livre também. 



Bainha das ondas, na barca ligeira, 
Aos echos cantando ^dirige-te ao mar; 
SSo doces os ventos, a onda é fagueira 
E o céo é sem nuvens, tu podes vQgar. 



Doestas aguas altanas tão bellas, 
E teu seio que lindo que está ! 
TSo suave, quem sopra-te a vela? 
Meiga briza, ou amor? quem será? 



Bainha das ondas — etc. 



Tu, esperança, m'inunda este peito! 
Ai I se queres d'aqui me arrancar, 
Eu te sigo, a ventura eu aceito, 
Quero Uvre outras plagas pisar. 



Bainha das ondas — etc. 



TROVADOR 93 



Porque paras? a dôr que me cança 
Despertou-te este pranto p'ra mim? 
Semelhante á fugace esj^rança 
Ai I oie foges, e eu vivo inda assim I 



Bainha das ondas — etc. 



Enganou^me illusBo tSo querida 1 
Mas que vejo? m'estendes a mão? 
Astro amigo que prendes-me a vida, 
AmanhS seguirei teu clarão. 



Rainha das ondas — etc. 



SAUDADE, FUGI DE HIM 



Saudade, fugi de mim, 
Levai comvosco os pezares, 
Vede que minha Marília 
NSo pisa mais estes lares. 



FoÍHse o prazer, 
Foi-se a ventura; 
Debalde lucto 
Contra a amargura. 



94 raavADOR 

Por acinte do destino 
Qae folga com meus penares^ 
Veio a mini, foi-se tSo oedO| 
NXo piaa mab eetea laree. 



Foi-se o prazer, 
Foi-se a ventura; 
Debalde lacto 
Contra a amargara. 



ATinVINEA 



Ai de mim, triste viava 
Na pobreza abandonada; 
Já n&o tenho meu marido, 
Ai de mim, triste coitada. 



Passo dias entre angustias 
N'uma triste solidSo ; 
Minha sorte foi-me' avara. 
Só em mim sinto paixSo. 



Meu trajar sSo vestes tristes, 
Oh I meu Bens, Deus de bondade : 
Meu viver fel amargoso. 
De mim tende piedade. 



TROVADOR 95 



Tenho em mim oruel tristeza, 
Já nSo gozo um bó prazer ; 
Ji nSo tenho pai nem mSi| 
Só me resta hoje morrer. 



Carpindo janto ao sepnlchro 
Os restos do meu amor; 
Sinto no peito conTolso 
Soffocar-lhe horrenda dõr. 



Ohl morte, porque nSo vens 
Meus tristes dias findar? 
Vinde, por Deus, eu te peço, 
A campa quero baixar. 



Ai de mim, triste viaya 
Na pobreza abondonada; 
Já nSo tenho meu marido, 
Ai de mim, triste ooitada. 



96 



TROVADOR 



COMO EU AHEI 



Amei as flores qae me ornaram o berço. 
Amei os cantos d'ama mSi querida; 
Amei a virgem que aqueceu-me o culto, 
Amei o anjo que me deu a vida. 

Amei do lirio a candidez tSo pura. 
Amei da harpa o sentido harpejo, 
Amei as flores que se inclinam tristes, 
Amei da virgem o ardente beijo. 

Amei da rola a tristonha queixa, 
Amei sorrindo o nascer d^aurora; 
Amei o lago todo crespo ao vento. 
Amei a bocca que be^ei outr'ora. 



Amei das salas o trajar e galas. 
Amei os risos, os festSes, as flores. 
Amei a orchestra que morria em ais. 
Amei da morte seus cruéis horrores. 



Amei a gloria, com loucura e anciã. 
Amei da taça o calor do vinho. 
Amei o oollo que aqueceu-me a fronte, 
Amei das matas o gentil pombinho. 



Amei do piano o correr de uns dedos, 
Amei da estrada o ancião curvado. 
Amei da vida o sorrir fingido, 
Amei do jogo o cahir do dado. 



TR0VAD6R 97 



Amei do orpliSo a sentida preoe, 
Amei da noiva a corõa pura, 
Amei dos bailes o rodar da valsa, 
Amei aa letras d'ama sepultura. 



Amei a tocha accei|iy^ao morto, 
Amei dos lábios a fl^BÍSo da morte, 
Amei do morto o contrahir das fisioes, 
Amei do preso o carpir da sorte* , 



Amei do pobre o esfarrapado manto, 
Amei da lua a brilhante luz, 
Amei a flauta que em trinados morre, 
Amei o martyr que morreu na cruz. 

Amei das vagas o chorar sentido. 
Amei de Deus o poder tSo forte; 
Amei ao lirio debruçado ao longe, 
Amei a virgem que me deu a morte I 



J. M. Mancebo. 



JULIETA 



Tu és a estrella fulgurante e bella . 
Da noite immensa doesta vida incerta. 
És 08 meus sonhos, a ^^sSo bemdita 
De encantos divos e de luz coberta. 

VOL. V. 



98 TROVADOR 

E entSo do peito no segredo eu guardo 
Teu nome santo — festival relíquia. 
Teu rosto meigo me acompanha sempre, 
Anjo bemdito que ao poeta guia. 



Vejo-te ás vezes e meu a|H|k augmenta, 
Mais este fogo me consoiJ^HHia, 
Soffiro martyrios, os espinno^rescem 
D'esta exist«noia na mirrada palma. 

Âmo-te muito I minhas mSos nas tuas 
Tremem tocando n'uma chamma ardendo, 
Se os olhos fito nos teus olhos n^ros, 
Digo um poema que só eu compreendo 1 

Anjo formoso que eu adoro a medo 
Id'lo bemdito do meu culto santo, 
Um pensamento para mim que sofit), 
Dar-te-hei a vida, meu amor, meu pranto. 



E quando inerte repousar p'ra sempre 
Na campa fria que o viver consome, 
Passa em meus sonhos festival, sorrindo, 
E eu morto mesmo bemdirei teu nome* 



A. J. de Alrneida e Silva Juntar. 



TROVADOR 99 



LUNDU 



É BEM BOM, NÃO DOE NEM NADA 



Minha. dÔGe yáyásinha 
Quando esti todu enJadacU) 
Dá pancadinhas na g^nte.,^ 
É bem bom, n3o dóe nem nada. 



Gosto d'ella 
Só por isso, 
Que a pancada 
Tem feitiço. 



Às yezes bulo com ella 
Para vâl-a amofinada, 
Dá-me e. • • puxa-me os oabellos, 
É bem bom, não dóe nem nada. 



Gosto d'ella 
Só por isso, 
Que o enfado 
Tem feitiço. 






100 TROVADOR 



Hontem brícando oom ella 
Pregou-me uma dentada, 
Clamei-lhe mesmo ferido : 
Ê bem bom, nío dde nem nada. 



GoBtp d'ella 
Só por ÍMo, 
Que a dentada 
Tem feitiço. 



Um dia dando-ihe nm beijo 
PSz-me a lingoa ensangaentada, 
Entio me rindo lhe diaae : 
É bem bom, nlo dóe nem nada. 



Qo0to d'ella 
Só por iaaOy 
Qne Bens modoA 
Tem feitiço. 



TROVADOR lOi 



MODINHAS 



FOI POR mH, FOI PELA SORTE 



Foi por mim, foi pela sorte 
Minha desgraça tecida, 
Soa, ó oéos I bem desgraçado, 
Nem morro, nem tenho vida. 

Por nXo ter nm desengano 
Da minha Mareia qnerida, 
Viro em contipaa afflicçSo, 
Nem morro, nein tenho vida. 

Do ciúme abrasador 
Viye est'alma combatida, 
N'esta lacta desastrosa, 
Nem monro, nem tenho vida. 

Só da fera desventura 
Ê minh'alma perseguida; 
Ah I mentiu-me o duro fado, 
Nem morro, nem tenho vida* 







\ 



102 TROVADOR 



AI DE mH 

» 

Poesia do sor. iDnocencio Rego, e muâca do snr. Joaé J. Âlvei 

Gemendo em ySo minha dôr, 
Mil suspiros Yoa soltar; 
Consumo as»im minha TÍd» 
Triste pranto a derramar ! 

Âi de mim! eis meti yive^, 
Suspirar até morrer. 

Aquella que eu tanto adoro 
Menospreza o meu amor, 
Deixa-me assim ir penando 
SolEErendo cruetita d6r! 



Ai de mim ! eis meu viver, 
Suspirar até morrer. 

Victima da desventura, 
Soffrerei a minha sorte, 
Deixarei de padecer 
Quando emfim vier a morte ! 



Ai de mim I eis meu viver, 
Suspirar Até morrer. 



TROVADOR i03 



NOSSA HÃI 



Ama o bardo seus cantos, seus sonhos, 
Como pôde nap terra se amar, 
Passam annos, já velho, infeliz, 
Nem dos sonhos já quer-se lembrar. 

Doces phrases d'amor mutuamente 
Os amantes só sabem jurar; 
Mas o tempo, a distancia, a ausência 
Tudo pôde essas juras quebrar. 

Cresce a flor junto á margem do rio 
E perfumes só quer exhalar ; 
Nós amamos a flor quando é bella, 
Desprezamos se a vemos murchar. 



Mas o tempo, a distancia, não podem 
De uma mSi, o amor acabar; 
Minha mSi, eu vos amo na terra 
Como a Deus lá no céo hei-de amar.' 



Este amor nem a morte cruel 
Poderá em minh'alma acabar; 
Se na vida vos sagro meu peito 
Junto á campa irá elle estalar. 

Ha-de o tempo, a distancia, a ausência. 
Doeste amor doce laço estreitar; 
Minha mSi, eu vos amo na terra 
Como a Deus lá no céo hei-de amar. 



I 



i 



104 TROVADOR 



\ 



CANÇiO 



A INFELIZ 



Já meu bem desceu á tumba, 
Descança na fria lagem, 
S6 o verde-negro cypreate 
Lhe rende triste homenagem. 



Os jasmins, saudades, lirios, 
Tudo o tufSo dispersou ; 
Apenas um triste goivo 
Com o meu pranto brotou. 



Vem terminar os meus dias, 
Oh! parca! querida amigit; 
Depois, orvalha meu tumulo; 
Meus ossos frios abriga. 



E tu, ó lua fÍBigueira, 
Nas noites tristes de múo, 
Te rogo, por piedade, 
Do tua luz — um só raio. 



TROVADOR 105 



RECIT4TIV0S 



O PERDÃO 



Se eu fôra um cuidado, quizera affligir-te, 
Se eu fôra a saudade, quizera ralar-te, 
Se eu fora um punhal, quizera ferir-te, 
Se eu fôra um veneno, quizera matar-te. 

Se eu fôra uma dôr, quizera doer-te. 
Se eu fôra o abysmo, quizera sumir-te. 
Se eu fôra uma cobra, quizera morder-te. 
Se eu fôra um voicSo, quizera engulir-te. 

Se eu fôra o remorso, quizera roer-te, 
Se eu fôra o demónio, quizera tentar-te, 
Se «u fôra um malvado, quizera perder-te, 
Se eu fôra uma fera, quizera tragar-te. 

Mas ah ! qu^eu nSo sou nem punhal, nem veneno. 
Nem cobra, demónio, remorso, cuidado, 
NSo sou a saudade, nem fera, nem dôr, 
Volclto eu nSo sou, abysmo, malvado. 

Sou homem que teme de Deus o poder, 
Que d'um miserável tem dó, compaixKo, 
PerdÔo-te 00 males que tu me fizeste, 
E tudo perdoo, porque sou christSo. 



106 TROVADOR 



LUIZ 



(Do drama do mesmo titulo) 



Como o ribeiro, que desdobra rápido, 
Ama da estrella o scintillar inquieto, 
Axno teus olhos, que no fogo tímido 
Vem reflectir-se no sonhar dilecto. 



Como na praia do areal um átomo 
Am& das ondas o partir nevado, 
Ámo teus risos que desoobrem pendas 
Dormindo em l6ito de setim rosado. 



Como dos ramos no arquejar monótono 
Ama a avesinha, balouçai^-se i briza, 
Amei teu seio, no palpite languido, 
Quando a meu seio te prendia, Elisa. 

E como o bardo, no sonhar phantastico. 
Ama a lembrança, que levou da festa, 
Adoro o sonho, que desparie bálsamos^ 
Amo a saudade^ que de ti me resta. 



'Ernesto Oíbrio. 



TROVADOR ' 101 



TOTÓ DE AMIZADE 



Raiou o dia em que a virgindade 
De uma deidade, — branco véo cingiu 
Sorrindo alegre eil-'a pressurosa. 
Meiga e ditosa sua tez cobriu* 



Hoje que um canto de meus lábios pende, 
Que minha voz fende, embalsamando o ar, 
Sinto n^esta alma um prazer ingente, 
Que de contente nSo posso ocoultar. 

Feliz teu passo seja no universo. •• 
Que eu possa em verso teu viver cantar, 
Q'inda uma flõr mimosa e innocente 
Da fraca mente te possa ofiertar. 

Feliz, feliz teu novo estado seja. . . 
Que a fjEilsa inveja, nSo ouse manchar. 
Sempre em teu lar, seja a paz amiga 
Que sempre siga teu feliz trilhar. 

NSo vês a pompa, o luxo e o brilho 
Simples, mas filho do amor mais puro, 
SSo incentivos, que guardar nSo deve 
Quem te prescreve, uílci feliz filturo. 

É dom que ha muito, no peito encerrado 
Bem conservado, só agora sahe... 
Qual pura essência, que ha mui guardada 
Mas derramada na amplidão se esvai. 



106 THOYADOR 

■ 

NSo Têa aqui o grapo encantador 
Qae BÓ o amor por ti, aqui o óhama? 
SSo incentívos que ninguém occulta, 
Que BÓ se escuta, quando só se ama. 

Ibculta pois também, felii esposa, 
Minha mente ousa, a ti yersos &zer, 
Faltos de lógica, porém nSo rimados, 
SSo siinples dados, d'um fraco saber. 



Aceita o £ructo d'um fraco talento 
N'este momento é o prazer quem falia, 
V NSo é fingido mas sim verdadeiro, 

Pois é o primeiro que meu peito exhala. 



Kl 



P. B. C. 



LUNDU 



POL ASSm o SEU AMOR 



Foi assim o seu amor, 
Como a onda elle passou, 
Foi esperança de um dia 
Que o desengano matou. 



f 
TROVADOR 109 



Foi assim o seu amor, 
Dúbio brilhar d'ama estrella, 
Em céo escuro e turvado, 
VSo capricho de uma bella I 



Foi assim o seu amor, 
ExhalaçSo venenosa 
De uma fldr que simulava 
Ser innocente e mimosa. 



MODINHAS 



N'E8TE SmO, QUANDO A NOITE 



N'este sitio, quando a noite 
E' da morte uma exprèssSo, 
O silencio se perturba, 
Solta um ai meu coraçSo. 



V 



Foi assim o seu amor, 

Infiel, mentida jura. 

Promessa que fôra santa -^ 

Se a fizesse um'alma pura. ^'^ 



^ 

^ 



ij 



fio TROVADOR 

Volta suspiro a meu peito 
Ou nos ares vai morroF, 
Quero em miiili'alma esoonder 
Meu amor, núnha paizio» 

Quando á noite a natures&a 
Parece nSo ter acç80| 
Por violência de amor 
Solta um ai meu ooraçSo. 

Volta suspiro a meu peito 
Ou nos ares vai morrer. 
Quero em minh'aima esconder 
Meu amor, minha paixSo. 



O DESALENTADO 



NSo me importa do baile o bulioio, 
Nem da orchestra sonora harmonia; 
NSo me importa que um peito descrente 
Já nSo sente do mundo alegria. 

Já nSo sente do mundo finigído ; 
Só deseja viver esquecido. 

Se na valsa acham 4mtrQs ventura 
Que as tristezas lhe faça eaqueoor; 
Eu só acho mudanas lembranças 
D^um eterno e pungente aoffirer. 






TROVADOR 111 



Ai! tSo joven, as crenças perdi. 

Deixo o mundo, p'ra eilé morri. 

• 

Ea no baile só vejo mentira 
Proferida por bocoa enganosa, 
Quanta dama ao findar tuna valsa 
NSo se julga p'ra sempre ditosa ! 

Eu nSo creio nas juras mentidas^ 
Que se tomam em breve esquecidaa. 

N'essas galas que as bellas adornam 
Já nSo vejo senSo seducçSes ; 
SSo ornatos que a ellas só servem 
P'ra attrahir e prender coraçSes* 

CoraçSes inexpertos que esquecem 
Que essas galas em casa fenecem. 



Essas festas que oiiir'ora eu amava 
Quero d'ellas agora fioigir ; 
Que m'importa prazeres do mundo, 
Se eu nSo quero taes gozos fruir? 



Fujo ao mundo em que eó aobo d6f 
Em retomo de um cândido amor. 



m TROVADOR 



COHO Ê ISÉIÍO DA DOHZEU/ 



Nova modinha para ser cantada na mnâca — São cmmet i^mma 

ingrata 



Como é bello da donzella 
Ouvir £Etllar docemente. 
Quando prostra-ee a seus péa 
Triste infeliz padecente ! 



Como é bello da donzella 
 pureza e castidade; 
Como é bello a donzella 
Ter em tudo lealdade ! 



'Como é bello da donzella 
Seu pésinho delicadO| 
Seu andar tSo feiticeiro 
Que oaptiTa ao deagraçadol 



Como é bello da donzella 
Seu trajar com singeleza, 
Ser mui casta e virtuosa, 
Ter em tudo só nobreza ! 



Como é bello a donzella, 
Ser em tudo virtuosa. 
Do Senhor ser crente filha 
Padecente e carinhosa! 



TROVADOR 413 



É mais beUo do qae tudo, 
N^este inundo indifferente; 
Vêr de um ai\]o dôce riso 
Casto, poro, e innocentel 



Adeodato Sócrates de Mello. 



BECITATIVOS 



SAUDADES 



No cimo dos montes, ao som da corrente 
Que a lua tremente prateia ao fulgir, 
Que horas eu passo — scismando, soismando 
E ás sombras fallando que vejo suigir I 



Agora no encosto da penha escalvada 
Diviso estampada de negro uma cruz ; 
E tu, junto d'ella, pousar vagarosa. 
Oh I virgefoi formosa, banhada de luz t 

Depois de joelhos, os lábios agitas, 
E tremes, palpitas, pedindo ao Senhor; 
Talvez me converta da vida os espinhos 
Em brandos carinhos, em sonhos d'amor ! 

VOL. V. 8 



lii TROVADOR 

Immoyel oatr'(Mra na plag» deserta 
Eu vejo-te incerta, celeste visXo, 
Cruzando teus braços no seio tZo belio 
E o negro cabello rojando no ohZo. 

Ao brilho dos astros, da briza ao alento, 
Ao vago lamento do rio a chorar, 
Eu ouço-te e yejo-te, ó cândida imagem, 
Do bosque a folhagem passando agitar. 

De ti separado — que fundo martyrio! 
Eu sinto em delirio qu^esta alma s^esvai; 
E quero do exilio, na dôr que me opprime, 
Um grito sublime tnandar-te n'um ai ! 

Agora que a lua parece que a medo 
A faoe em segredo saudosa escondeu ; 
Eu juro que a morte nSo pôde apartar-nos 
E havemos amar-nos na terra e no oéo ! 



Augusto Emilio Zabiar, 



6 HEiaA VIRGU 



O' meiga virgem divinal, querida, 
Tem pena, escuta meu crud soffirer, 
Vem aos meos braços alentar a crença 
D 'um peito exangue, que só £sz — gemer. 



j 



TROVADOR li5 

Qne tem que o mando te maldiga e zombe í 

Se dar- te eu posso meu amof ardente? 
Qae vai escarneos 89m razXo d'um louco, 
Que vai eeus cantos, seu sorrir demente? 



Que vai promessas d'um gozar mfindo 
S'em breve as juras tu virás quebrar? 
Só ama o bardo que deseja encantoa 
Um dia ao menos bem feliz gozar. 



Só ama a briza quando yom saudosa 
Beijar mansinha divinaes madeixas; 
Só ama a vaga, que bramindo á praia 
Entrega aos ventos gemebundas queixas. 



Só ama o céo a pallidez da flor 
Que pende á tarde quando o aol é forte; 
Que mesmo secca nos jardins perdida, 
Manda o orvalho prantear-lhe a morte. 



Só ama o triste que viveu no mundo 
Santa lembrança que murchou no peito, 
ifió ama o crente que desceu ao nada 
A cruz gelada do marmóreo leito. 



NSo dês ao mundo teu amor ditoso 

Nem tantos sonhos que febril de^qo, 

Q'eu quero dar-te bem- feliz, a sós. 

Na lyra — um canto, — no teu eoUouu be^o. 



Mello Moraêê, filho. 






116 TROVADOR 



LUNDU 



DIZEH QUE SOU BORBOLETA 



Dizem que sou borboleta, 
No amar sou bandoleiro, 
A culpa tem quem me forja 
Os ferros do tuiptiveiro. 



NSo posso yêr moça bella 
Sem amor me titilar, 
Sou feito de carne e osso, 
Por força me hei-de dobrar. 



Se ha moças que vibram 
Olhar tSo ardente, 
Que o peito da gente 

Queimando, 

Cortando, 

Rasgando^ 
Lá dentro nos vlo 
Ácoender a paixSo; 
O mais insensível 
Por bem ou por mal 
Terá sorte igual: 



TROVADOR 

Amará, 

Gemerá, 

Se verá 
Captivo por fim ; 
Eu cá penso assim. 



117 



Se vejo moça corada, 
Fico de amoir abrazado; 
Moça pallida e romântica 
P3e-me todo derrotado. 



 moreninha me encanta, 
Me derrete, me maltrata. 
Me envenena, me enfeitiça^ 
Me fere, me abraza e mata. 



Por todas eu sinto 
O meu coração 
De gosto e paixSo' 

Ferido, 

Perdido, 

Rendido, 
Aos ferros exposto ; 
Por gloria e por gosto^ 
O mais insensivel. 
Por bem ou por mal. 
Terá sorte igual : 

Amará, 

Gemerá, 

Se verá 
Captivo por fim ; 
Eu cá penso assim. 



118 TROVADOR 

011x06 negroB e travessos 
SZo p'ra mim seitas de amor; 
Os azues matam a gente, 
Requebrados com langor. 

Sejam grandes ou pequenos^ 
Ardentes, ternos ou não, 
Todos elles me repuxam 
Suspiros do coraçSo. 

Olhinhos hei visto, 
Eu bem sei de quem, 
Que tal força tem, 

Que enleiam, 

Chasquoiam 

E ateiam 
Voraz fogo ardente 
No peito da gente. 
O mais inusensivel, * 

Por bem ou por mal, 
• Terá sorte igual : 

Amará, 

Gemerá, 

Se verá 
Captívo por fim ; 
Eu cá penso assim. 

Nlo sei o que é ter orgulho 
De- constância ou de firmeza; 
Eu só me orgulho de amar 
A toda e qualquer belleza. 

Quando estou junto daa moças 
Meus olhos sSo de tarracha. 



TROVADOR H% 



Meu coraçSo é trapichfe^ 
Tenlio alma de borracha. 



N'tun dia, n'am'hora, 
No mesmo lugar, 
Eu gosto de amar 

Quarenta, 

Cincoenta, 

Sessenta. 
Se mil forem bellas, 
Amar todas ellaf. 
O mais insensivel, 
Por bem ou por mal, 
Terá sorte igual : 

Amará, 

Gemerá, 

Se verá 
Oaptivo por fim; 
Eu cá penso assim. 



MODINHAS 



DE UVBE QUE SEMPRE FUI 

De livre que sempre fui 
Hoje escravo me tornei; 
O amor sujeita a tudo 
Âo rigor de sua lei. 



i 



120 TROVADOR 

Inda quá preso 
ÂOB olhos teus, 
> Do8 aotos meus 
NSo sou senhor; 
Fica-me a gloria 
De ser vencido, 
De ser ferido 
Pór teu amor. 



QUEM ÉS TUI 



Poesia de Mello Moraes, filho, e musica de S. Ro» 



Quem és tu que vens á noite 
Tristesinho aqui scismar, 
Fugindo de tantas galas 
Que o mundo pôde offertar? 



Serás nota harmoniosa 
D'uma Ijra de crystal, 
Transformada n'um ai^inho 
Dormindo n'um tremedal? 



És £Etda ^ue no silencio 
 tempestade domina, 
Trajando nas azas brancas 
^A meiga luz matutina? 



TROVADOR 121 



Ou dos meus sonhos ardentes 
£'b o sêr encantador 
Que vens dourar meu futuro 
Aos beijos do teu amor? 

NSo ! és orphS ! no silencio 
Buscas aqui te abrigar; 
Quando nos finda a ventura 
E' nosso allivio chorar! 



E's a crença ! és a saudade, 
A muda expressão da dor ! 
linda per'la descravada 
Do throno azul do Senhor ! 



A HORA QUE TE NÃO VEJO 



Poesia de Magalhães, e musica de C. Ignacio da Silva 



A hora que te não vejo 
E'p'ra mim hora perdida; 
Se eu vivo só a teu lado 
Como é curta a minha vida ! 



Que vida d^instantes, 
Que breve existência, 
Que noites de angustias 
Passadas na ausência! 



I 

^ 



122 TROYÁJX>R 

DepoU que te dei minh'alma 
Só vivo am'hora no dia, 
Mas hoje nem gozar pude 
Um momento de alegria. 

Qae vida d^instantes — etc. 



Só, oh Sihda, nos teus braços, 
Do mundo todo esquecido, 
Poderei gozar n'um'hora 
Da ausência o tempo perdido. 



Que vida d^instantes — etc. 



VniO DO CfiO CÁ NA TERRA 



VisSo do céo cá íia terra, 
Encanto, fada ou mulher, 
As tuas chammas de amor 
Abmzar meu peito quer. 



Mulher, se tu és do céo. 
Para que na terra vieste habitar? 
NAo sabes que ci n'este mundo 
Todos h2o-de te amar. 



TROYADOR ÍÍS 

m 

Todos 0BO sensiyeifl) 
HSo-de te adorar? 
Porém, oh ! Lilia, 
E' natural 
Que só os anjos 
A ti sejam igual. 

Mulher, sonho ou realidade, 
De Deus philtro ou enoantOi 
As tuas divinas formas 
Envolve divino manto. 



RECITATIVOS . 



O POBRE 



De porta em porta, sobre lentos passos, 
Acompanhado dos filhinhos seus, 
Bil-o que brada tendo os olhos baços : 
«Esmola! esmola! pelo amor de Deus!» 

E como a briza na amplidão dos ares 
A voz do pobre se perdendo vai ! 
Ninguém responde — e com seus pezares 
O pobre segue — desprendendo um — ai! 



M 



124 TROVADOR 

jBsmola! esmola! n'outra porta implora; 
For ella espera de chapéo na mSo; 
Mas em resposta se lhe diz : < Agora 
«O Deus dos céos o favoreça, irmSoh 

£ o coitadinho seu caminho segue, 
Envergonhado de pedir assim !••• 
Quasi recua — mas os olhos ergue, 
Contempla os filhos — e prosegue alfim ! 

O dia inteiro no pedir se passa, 
E' raro aquelle que um vintém lhe dá. 
Depois recolhe-se á morada escassa 
Onde soccorios que esperar não ha ! 

E quando a estreUa da featiya aurora, 
Enfeita os valles c^os primores seus, 
Eil-o coitado! que outra vez implora, 
Esmola ! esmola ! pelo amor de Deus ! 

E como a briza na amplidão dos ares 
A voz do pobre se perdendo vai ! 
Ninguém responde — e com seus pezares 
O pobre segue — desprendendo um — ai! 

Ferreira Nwei- 



\ 



TROVADOR 1S5 



LACRIMOSA 



Lacrimosas, tristes, de meu peito as vozes, 
Já sem consolo se concentram n'alma. • • 
Perdida a esp'rança, sem faturo e crenças, 
Meu Deus! a morte! p'ra ventara e calma. .. 

Meu Deus ! a morte ! Se o morrer é pena, 
Quero soíFrel-a ! « . • Que castigo ameno ! • • • 
Se a vida encaro, que torturas sinto ! • • • 
Se a morte eu vejo, minka dor sereno, • . 

Se a morte eu vejo, se esquecer eu penso 
Intensas dores, afflicçSes, tormentos, 
Presinto alliyio, que a desgraça affironta. • • 
Mas breve passam tSo subtis-momentosl.*. 

Mas breve passam n'um scismar de enganos 
Caros instantes em que vejo a morte ! • . . 
Voltam-me as horas^e um viver de prantos, 
De dor profunda no teimar da sorte 1 • • • 

De dôr profunda, que nSLo mais se extingue. 
De um condemnado por fatal sentença ! • . • 
Em vão supplíco — compaixão, clemência. •• 
E' minha sina — confessar descrença I • • • 

E' minha sina — divagar no mundo 
Como a barquinha que perdeu seu leme I • • . 
Que sobre as rocbas impellida bate, 
Lucta com as ondas do oceano infrene ! • . . 



It6 noTiLiKW 

Lacta com as ondas como ea lacto em balde 
Com mil misérias, sem parar sem fim I,.. 
Nem mais um riso, nem sequer um liso 
Na tçrra; os homens, inda tem pr'a mim!... 



Na terra os homens, que subir desejam 
Degraus do rico, portentoso e nobre, 
Ji sobre o pindo, no viver das honras 
Klo* baixam olhos pr'a pensar no pobz« !... 



NSo baixam olhos — ao degrau primeiro 
Em que o pedinte se maldiz sentado ! . . . 
Ehn vZo supplica ! • . . Se a justiça mostxa, 
Fica-lhe apenas — :0 prazer... coitado!... 



Fica-lhe apenas — consciência pura, 
Crença infinita — que a virtude é — nada!.. 
E, sem arrimo, a mendigar favores 
Calca os espinhos de cruenta estrada ! . • . 



Calca os espinhos maldizendo a tudo, 
Té mesmo ás vozes da razSo sensata, 
Que vai ao pobre — do saber — os fóros?. 
Do pobre as letras — é o amor que mata! 



Do pobre as letras, a moral, os dotea 
Slo &lso6 brilhos de fallaz thesouro, 
E' sábio aqoelle que possuo fortunas, 
Que as letras Croça por moedas d'ouro! . . 



TROVADOR 127 

Lacrimosas, tristes, de meu peito as vozes 
Já sem consolo se conceutram n'alma! 
Perdida a espVança, sem futuro e crenças, 
Meu Deus ! a morte ! p'ra ventura e calma ! • . . 

Júlio César Isal. 



LUNDC 



A QUITANDEIRA 



Meu querido yÕjôsinliOi 
Eu sou filha dalBahia, 
Forque passa sem comprar 
Um figo ou melancia? 

Sõ jôyô, porque quando passa 
Os olhos quebra pVa mim? 
Olhe, yô-yô, p'ra quebranto 
Tenho figa de marfim. 

m 

Yôyô me compre uma fruta 
Que eu tenho no taboleiro, 
Pegue n'ella, meu yõyô, 
Pegue, ands^ tome o cheiro. 



128 TROVADOR 

Tenho também uma fruta 
Que yôyô ha-de gostar, 
Mas também se elia quiser 
Muito caro ha-de pagar. 



Veja como ella está 
Bonitinha e tKo inchada, 
E' escorregar com os cobree 
E dê lá sua dentada. 



EntSo gostou, maganão? 
Isso mesmo eu dizia. 
Já rê que as frutas gostosas 
SSo aa que vem da Bahia. 



MODINHAS 



EU VI UM SABIÁ CANTANDO 



Musica do BDi. J. S. Arvellos 



Eu vi um sabiá cantando 
N'um ramo, terno e sósinho. 
Cantava, porque não via 
A sua bellesa no ninho. 






j 



TROVADOR 



12Í 



Ai I ai ! ai ! ai I 
O oéos que dõrl 
Quem pôde viver alegre 
Ausente de seu amor? 



Eu vi um sabiá cantando 
E um rouxinol também : 
Um canta e outro responde 
Triste cousa é querer bem. 



Ail ai! ai! ail — etc. 

Ninguém nos pôde privar 
D'este nosso amor tão fortOi 
Cá n'este mundo só Deus, 
Depois de Deus só a morte. 

Ai! ai! ai! ail — eto. 

* 
Adeus, ó bella menina, 

De ti me vou apartar, 

A coroa que nos prende 

Nos quer hoje separar. 

Ail ail ai! ail — eto« 



VOL. ▼. 



|99 TBÚlIMm 



A ESTATUA DA DOR 



Poeda da Tapinambá, e musiea do anr. J. S. Ârvdlofl 



Se soubesses, cim» El▼iJe|^ 
Quanto sofiOre o oorftçSo, 
Que te amo com ardor 
Nlesta triste solidXo; 



Se soubesses como viro 
Dia e noite a gemer, 
Sem crença doesta rida, 
N'e8te ermo a padecer; 



Como eu tenho saudades 
De ti, minha querida, 
Lnperio de minValmA, 
Pharol de minha yidft; 



Como eu desejo findar 
A vida, assim tBo dum, 
Que só pôde lenàliTe 
Buscar na sepultura; 



Sentirias no peito a dôr 
D^essa tua ingratidSo, 
E os mudos lábios teus 
Haviam de pedir perdSo. 



fROYADOlt iSI 



UH SORRISO 



Poesia do enr. P. Á. Brito, e musica da modinha — S» quiisera 

ser eterna 



Em teus lábios de carmim 
Um doce riso pairoa, 
E mvèuL ãkma vftdllttiite 
Por teu sorriso fifeou! 



Dize, mulher adorada^ 
Porqae assim te sorriste? 
Falia n'essa voz de aiijó 
O que no peito sentiste! 



Seria um riso maligno ? 
De ódio ou de piedade? ••• 
Mas teus lábios se tingiram 
D'enoantos da Divindade ! . • • 



Seria um riso innoeenie 
Que p'ra ti veio de Deus?... 
Mas teu seio era agitado 
E nSo pensavas nos céos ! • • • 



Falia para que aa morra I 
O que por H se passou ?••. 
Seria um raio d'amor 
Que de tua alma* escapou ?..• 



(32 TBOYADOR 

Se o foi, entSo com arro]ibo8 
Eu saúdo o teu sorriso*.* 
Ea saúdo a chave d'ouro 
Que me abre o paraiso ! • • • 



ACABOU-SE 08 MEUS TORIEIITOS 



N'esta grata cavernosa 
Vem-se esconder os mortaes, 
Fiquem n^elia sepultados 
Os meus derradeiros ais* 



Âoaboa-se os meus tormentoSi 
Já soffirer nlo posso mais. 

Rades penhas insensiveis 
Que a tempos desafiaes, 
Eistalareis escutando 
Os meus derradeiros ais. 

Aoabou-se os metis tormentoSi 
Já soffrer nSo posso miús. 



Correntes no ar' suspensas 
Que este meu pranto abrigaes^ 
AfoguemHBO em vossas aguas 
Os meus derradeiros aitf • 



TROVADOR 133 



Aoabou-se ob meoB tormentOB, 
Ji BoSrer nSo posso mais. 

E tu que foste modelo 
De muitos peitos leaes^^ 
Beoebe na campa fria 
Os meus derradeiros ais. 



Acabou-se os meus tormentos, 
Já sofirer nSo posso mais. 



RECITATIVOS 



DESCRENÇA 

O oalor do fogo ou — da chamma ardente 

Que a alma sente incendiar-se tanto, 

E como o raio que fíilminit e mata, 

E o amor da ingrata se converte em pranto! 

Mas, ai ! de mim, se maldigo a sorte. 
Se até da morte hei zombado crente !••• 
Qa'importa embora qne humilhada viva, 
Se a dôr Ih^activa um viver pungente? !••• 

Se busco ás vezes da mulher perjura 
Sonhar ventura que gozei outr'ora. 
Eu sinto n'alma um desejo immenso 
IVum fogo intenso abrazar-me agora!».. 



ÂBsim o ódio reboatendo em cluuiuna, 
Qae mais 8'ínfl«iama n'a]n totm ddlirio. • . 
Viver só quero alentando a vida. 
Na fé perdida que me deu martjrio... 

E porqae cKoraB? me dirás tranquilla^ 
Tens amor? — eu a vida, um despresso e di!..» 
Mas, ail de ti... infernal vampiro, 
Se da morte o tiro converter-te em pó ! 



Embora eu sinta a paixBo ardente 
Queimar-me a mente eom mentidas juras, 
Direi-te «empre que nSo creio n^ellas, 
SSo todas ellas, por demais perjuras. 

E quando alfim já na tumba fina 

A morte um dia te roubar a vida, 

Tu dirás tremula :^i^ Que korror! meu Deus! 

SSo peccados meus ! já estou perdida ! 

« 
J0S0 da 8ílv9ira Sampaio Jmiiat. 



O TAOABUHDO 



Eu durmo e vivo ao sol como um oigauQ 
Fumando o meu cigarro vi^roso; 
Nas noites de verSo namoro estrellas, 
Sou pobre, soa mendigo, e sou ditoso ! 



THOVAIIOR i85 



Ando roto, sem YkAèob nom dinheiro; 
Mas tenho na viola uma riqueza: 
Canto á loa de noite serenatas, 
E quem yive de amor nSo tem fohtetá. 



NSo invejo ninguém, nem ouço a i'aiva 

Nas cavernas do peitO| suffocanté 

Quando i noite nas trevas em mim se Miomam ' 

Os reflexos do baile fascinante. 



Namoro e sou feliz nos meus amores. 
Sou garboso e rapaz. • . Uma criada 
Abrazada de amor por um soneto 
Já um beijo me deu subindo a escada, •• 



Oito dias li vSo que ando scismando 
Na donzella que alli defronte mora, 
Ella ao vêr-me sorri tão docemente ! 
Desconfio que a moça me namora !••• 



Tenho por meu palácio as longas ruas. 
Passeio a gosto e durmo sem temores; 
Quando bebo, sou rei como um poeta, 
E o vinho &z sonhar com os amores. 



O degrau das igrejas é meit ihrono, 
Minha pátria é o venio que respiro, 
Minha mSi é a loa madllenta, 
E a preguiça a mulher por quem sugpiro. 



136 TROVADOR 

Escrevo na parede as miahas rimas, 
De painéis a oarvSo adorno a roa ; 
Como as aves do céo e as flores puras 
Abro meu peito ao sol e durmo i lua. 

Sinto-me um coraçSo de lazzaroni ; 
Sou filho do calor, odeio o frio ; 
NXo creio no diabo nem nos santos. • • 
Reso a Nossa Senhora, e sou vadio ! 

Ora, se por ahi alguma bella 
Bem dourada e amante da preguiça. 
Quiser a nivea mSo unir á minha 
Ha-de achar-me na sé, domingo, i missa. 



Alvarêê dé Amê9€Ío. 



UMA SDPPLICA 



Se eu ftra do Oljmpo o archanjo fiiunoso, 
Ao throno do Eterno te havia chegar, 
Se eu fòra do mundo monarcha potente, 
No throno dourado te havia sentar; 



Voando, eu iria dizer-te um segredo. 
Se fôra canário no bosque a «folgar; 
Se eu fòra das flores o amor perfeiío, 
Qttizera em teu peito só desabrochar; 



TROVADOR 187 

Se eu fôra de Orpheu a Ijra oaoente, 
Ten nome somente quizera cantar; 
Se eu fi^ra algum Tasso, de amor perecendo, 
Como elle por ti eu quizera acabar; 



Se eu fôra Petraroha no amor extremoso, 
Por Laura de certo te havia trocar; 
Se eu fôra Virgilio, Castilho, CamSes, 
Meu estro sublime te havia o£Fertar. 



I... eu nSo sou anjo, nem flor, nem canário. 
Nem rei, nem Orpheu, nem Tasso amador, 
Petrarcha, Virgilio, Castilho, CamSes, 
Sou triste coitado que te implora amor. 

B. J. Borgeê, 



AMOR 



Se longe estou de ti — em ti só penso! 
Se durmo, oh ! anjo meu, oomtigo scmho ! 
Comtigo a vida, é um prazer immenso. 
Sem ti — deserto inhospito, medonho! 

Se acaso penso, só medito em ti ! 
Se i noite, velo, só me lembra amor ! 
Benasoe a esp'raDça que perdida vi. 
Que a vida alenta, que me di valor ! 



131 TMTADOli 

Teu nome esoiilo no otciar da hrísa, 
Entre a ramagem de florido vai ! 
Qoando em silencio — a noite ae deaUBa^ 
Quando ruge fiirioao o vendaval 1 



Soa outro agora! Tua linda imagem 
Eu vejo em tudo^ tudo me recorda 
Desde a florinka que «e curva & aragem, 
Té o canto d'avey que nos dia -^acordai 



Quer vele ou dunn*, seja iioita oa dia^ 
Sempre conumgo tu p^peirante 'stáa ; 
Depois d'eu morto, volve a dnza fria, 
E o teu retrato ainda aUi verás ! 



Sòu teU| és minha ! NSo queiras fíigir-me, 
Qu'est'alma, crenças, para ti só tem ! 
Ah ! nSo me fujas, quando i noite ouvir-me 
Por entre as trevas — te dizendo — vem! 



F. P. do» Ouimarões. 



TROVAOmi ím 



LUNDU 



A FEIJOADA 

Mnsica de J. S. Arvelloa 

• 

Oh ! que feijoada 
TSo engordurada^ 
TSo cheia de bredos 
Que me atola ob dedos, 
De limSes azedos, 
PimentSea ardentes ! 
Oh ! que bello rinho, 
Qne gordo toucinho 
Que na m^sa bolei 
Para ficar molle 
Só nos &lta o gole 
Da bella aguardente. 



Tudo é feijoada 
Feita por amor, 
Para encher a pança 
De um trovador. 



Que negro tisnado, 
Que corre apressado 



lio TROTAMR 

Aqoi, no Brasil ! 
Que pretas gentis, 
Bonitas e feias, 
Vestidas de tangas, 
Vendendo pitangas, 
Laranjas e mangas 
No oampo da feira! 
Tudo é bebedeira, 
Tudo é bandalheira, 
Que nos causam zangas. 



Estas sSo as notas 
Que nos diz amor, 
Para enoher a pança 
De nm trovador. 



Quanta moça tola 
Que oome cebola 
Da Inglaterra, 
Com medo da guerra 
De Napolelo! 
Que ha n'esta terra. 
Que porcos mimosos, 
Carneiros cheirosos. 
Cabras berradeiras, 
Gallinhas poedeiras 
Nas sQgundas-feiras 
VSo p'ra oorrecçto! 



Estas sSo as notas 
Que nos diz amor. 
Para encher a pança 
De um trovador. 



novADoa ii{ 



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Quanta moça feia 

De meiguice oheia, 

Nas emas janellas ! • 

Mas quantaa mazellas^ 

Quantas erysipelas 

Encobre o balSo ! 

Quantos impostores 

Da rapaziada 
Formados doutores, 

Andam ás embigadas, 

Andam ás cabeçadas, 

Só a caohaçSo! 



Tudo é feijoada 
Feita por amor, 
Para encher a pança 
De um trovador. 



MODINHA 



ROSTO D'AIf JO 



Rosto d'ai^o, fopnosa donzella, 
Que as oadôas de amor me puzeste, 
Ah! nSp ftyas — nSo leves-me a vida, 
NSo me roubes um bem que me deste. 



U9 



TWyVAMIl 



Já nXo pôde meu peito ser á*<mbpmj 
Ji nSo poflso existir seoà te «nuur; 
Só comtigo entendi * ezisteiieÍA, - 
Quero á campa eomtigo baixar. 

SBo ligados os meus aos teus dias, 
Como o caliz á folha da flor!... 
NSo consintas que a fl6r se desfolhe» 
Ah! nSo quebres os Laços de amor. 

Ji nfto pôde meu peito ser d*outra — etc. 



FIM DO VOLUME V 



r -•'' 



Pag. 

Acabon-se os meus tormen- 
tos 132 

A cruz da sepaltara 42 

Adélia 11 

A estatua da dôr 130 

A fausta. 52 

A feijoada 139 

A hora que te nlo vejo 121 

Ah! tanfto sabes! 70 

Ai de núin • 102 

Ai, mea bem, se eu nfto te 

amo 51 

A infeliz 104 

Alzira formosa 64 

Amargos dias passei 16 

Amar-te 82 

Amélia 39 

Amor 137 

Amor do eéo 44 

A mulher 83 

Ao derradeiro cantar do cys- 

ne 31 

Aoloar 86 

A perpetua 91 

A quitandeira 127 

A ser ingrata também 25 

As notas do thesouro ou os 

trocos miúdos 35 

As ternuras de meus ais. ... 74 

As velhas da época 55 

A viuvinha 94 

Caso de amor tfto finffido. ... 50 
Cpmo a rosa, amor dura um 

só dia •. 57 

Como é bello da donzella. . . 112 

Como eu amei 96 

Conselho 63 

Descrença 133 

De livre que sempre fui. ... 119 



De que me serve esta vida.. 13 

Despeito 58 

Dizem que sou borboleta . . . 116 

Ponzella. por piedade 23 

£ bem bom, nAo dóe nem 

nada 99 

Elmaia 29 

Escuta 15 

E^ n&o gosto de outro amor 80 

Eu vi um sabiá cantando. . . 128 

Foi assim o seu amor 108 

Foi em manh& d*estio 22 

Foi por mim, foi pela sorte. ' 101 

Já houve tempo 46 

Julieta 97 

Lagrimosa 125 

Lembranças 12 

Luiz 106 

Luz e mjsterio 5 

Minh'akna é triste 60 

Morte d*alma 27 

Não amo aos gostos dos mais 90 

N&o sou ingrato 78 

N^cste sitio, quando a noite. 109 

Ninguém 7 

Nossa m&i ^. 103 

O cabelleireiro 8 

O canto do descrido 19 

O desalentado 110 

Oh! Lilia 83 

O ianota 17 

O ladrSo do firadesinho 71 

Q martyrio 33 

O meiga virgem 114 

O opulento 87 

Operdâo 105 

O pobre ., 123 

O prisioneiro 92 

O que é amor 68 



144 



índice 



Pag, 

Ofl meoa amores 81 

OsolhoB d*eLlA 61 

O aonho 49 

Ob yftdiM 30 

O taberneiro 76 

O vagabando 134 

Qual aaltante paaaarinho. ... 73 
Qaando ea morrer, chorem 

todoa minha morte 82 

Qoando te vi 24 

Qaeméata? 102 

Quis fneir-te 43 

Boato dTai^o 141 

Boobaste, tjranna parea.... 15 



Pag. 

Saudade, fíigi de mim 93 

Saudades 113 

Se a desgraça me acompanha 60 

Se aqueUa ingrata 65 

Sonho de ventura 26 

Teus olhos 54 

Tristes saudades 85 

Uma suppUca 136 

Uma visão 67 

Um sorriso 131 

Visão do céo cá na terra 132 

Viva 8. Jo&o 47 

Voto de amizade 107 

Yôjô, VO60Ô é o demónio. ... 20 



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