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m 




Hfinini 



The 

John Carter Brown 

Libra 



Purchased 

with the assistance of the 

MAURY A. BROMSEN 
ACQUISITIONS FUND 




*>r 



, 



Six 




— - — 



i 




V ARIAS 

ANTIGUIDADES 



ft#* 






DE 



PORTUGAL, 



AUTHOR 



GAS PAR 

ESTAqO, 

E DADO NOVAMENTE A' LUZ 

POR LUIZ DE MORAES, 

CMtrcadot de livms , morador £ Prafa da Pa* 
lha , e afua cufta imfrefjo. 




LIS BO A, 

Na Ciffic. dos Herd, de Antonio Pedrozo Galrao. 

M. DCC. LIV. 
Com todas as Hernias ntcejfarias. 



• 






■ -. ■■ 




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L 



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• 



m 




LICENC 

DO SANTO OFFICIO. 

PO'de-fe reimprimir o livro , de que fe tra- 
ta , e depois voltara conferido para fe dar 
licenca , que corra , Tern a qual na6 correra. Lif- 

boa 15 de Mayo de 1753. 

Fr % R t Akncaflre. . Sylva. Abreu* Paer 
.Srigozo, 1 Syherio Lobo. 



DO ORDINARIO. 

"P Q'de reimprimiffe b livro , de que trata 
JL a peticao , e depois tbrne conferido para 
ledar Jicenca para correr. Lisboa 16 de Mayo 
dei 7,53i' 

D.J. A. L. 

D o p A go. 

QUe fe po(Ta reimprimir, viftas as licencas 
do Santo Officio , e Ordinario , e depois 
deinipreifo tornara a Mefa para fe confe- 
rir, e taixar, e dar Jicenca , para que corra, 
efem itfo nao correra. Lisboa 17 deMayo de 

M&rquez P. AttaUe Mourae. 

^ P6d« 











p. 



©•$ correr. Lisboa *: de Marco 4e i75|t 

'RILJkneagrt. Abnu. Paes. 
■ Jr%ozfi. Caftro, 



p 



O'de correr. Lisboa 7- de Marco de if?*; 

D. J. A. U 






Cn Ue poffa correr, e taixaS em qotjjet itos 
/evince reis. Lisboa n.de Marco de 1754. 

Marque* P. **'**> D ' aUr ^ 






L 



VARUS 



M 




V A R I A S 

ANTIGUIDADES 



DE 




A U T HO R 

GASPAR ESTAqO. 

CAPITULO I. 

Da fundafao de hum Mofieiro de Frades, e de Frdras^ 

que foy can fa de [i >fazer axilla de Gttimaratm f 

patrta difrimeiro Rey de Portugal 

SCQUSAS antigas tern cert a fu per io- 
ridade , e reputacao * com que (e fazem 
eftimarem mais, que asmodernas. A 
caufa parece ler , ou porque fao filhas 
do tempo paflado , e nifto (ahem a feu 
pay , que fempre nos parece melhor : 
ou porque o tempo, que come a feus filhos; ifto he, 
que'confome tudo , o que gera, como diz Santo Agofti- 
nho, aqs que nao come , abona, accredits, eaithori- 

A 32. 




Augufl, de el*, 
vit. Dei lik 6, 







"— 



2 Farias Amigmdadei 

za. Finalraeatera tai fuperioiidade , e TeputaqaS tao 
dadivas do tempo , edapodero(a antiguidade. 

z Affim oentende Qjiintiiiatto , porque tratando 
da nobreza das Cidades , diz, que a antiguidade lhes di 
authoridade. Por efte refpeito ( fe me nao engano ) cha- 

Vifi, Rntld. ro 3 o Poeta Latino antigas a Carthago , e a Troya , em 

i. &x, qua moftra fentir o merrho. E a Sagrada Efcfitura no H- 
Lvro dos Numeros Fazendo men^ao daCidade Hebron f 
notou a prerogativa defua antiguidate , dizendo , que 
foy primeiro edificada , que Tanis do Egypto , (ete an- 
nos. Pelo que nao me eipantarey , que queira de mim 
a nobre Villa de Guimaraens , em que hora me acho \% e 
com a penna na mao, que elcreva da fua , o que tivet 
achado , eeu Ihe confeflo obrigac/16 para o fazer. Mas 
f ' como ella fofle antigamente 'atfento da Cotte do Con- 
de Dom Henrique > e o mais honrado lugar de feu El- 
tado naquelle tempo , e hoje a principal Villa de Entre 
©ouro , e Minho, e hurrta* das notavris do Reyno : el- 
tas preeminencia? com a Igreja Collegiada Real , que 
tern tao infigne, lhe dao tanto luftre de preiente, que 
pouco tern , que dalejar do antigo , quando delle tivec 
pouco. Mas o que eu delcobri de fua origem , e pro- 

B4rM.intfh greffo , nao deixarey de odiser para fua t e minha fa-; 

fmtHnhci t i s f aQ a6 , etambem por fer do argumento , que tenho 

wlm. I Depois que os Mouros com mao armada, epc 

Monies i n. tjeroia entrirao em Helpanha oara ruina do Reyno Ca- 
t. « 5 . Ante*, tholico, e para caftigo , egeral deflruicao delta Pro- 
^T'VIr vincia , que por mandado do impio Rey Wimza le 
chr.de nig. t . nha apartado da obediencia da Igreja Romana : a qua! 
JV-iicfcr. wlna, fegundo os Elcritores Helpanhoes foy no anno 
«MZ)»»7i4do Senhor '714. em hum Domingo, onze dias dese- 
viotinain xzxx ^xq > como efcrevem Beuter, e Vafeo, lendo Papa 



1"* *' j Greeorio II. pela conta de Platina : e fegunde o Cardeal 
IZuTJL Baronio foy noanno deChrifto 7«V e no fexto Conf- 
X lantino , iendo Imperador Anattafio N. tendo ja os 
'•f. Catholicos Reys de Oviedo , e de Leao reouperada de 



.Sft 
num ubi (up 

GATibayl.?, , 

<,i%. do com. def dos M ouros boa parte de H^fpanha teptemtno- 
mt$& nal , em que cntrava Galiiza, e reynaado nos raelmos 



m 



EeTorMguaL Cap. 1. 3 

RetnOS Ranemiro II , vivia nefta ten a de Entfe Dqjho, 
eMinho, parte da meima Galliza , hua Conc'efia cha- 
mada Dona Muroa , que fora calada com Htimigildo 
Goncalves, ( homem , iegundo feentende , ncbilifl.mo, 
e digno de ter efta Senhora por mulher , a qua! era tia do 
melmo Rey Ranemiro, como adiante ievera) deque 
lhe ficirao filhos , e filhas. n 

4 Efte Heimigildo Gonqalves eftando para mo*, 
rermandou chamar algumas pell oas graves, ediante del- 
las por iua devocao ordenou , que a Condefla fua mulher 
podefle difpender a quinta parte de fua fazenda , com 
pobres, peregrinos, viuvas» orfaos, ou Igrejas. Oque 
ouvido, eadmittidoporella, como die faleceo, fez 

1 repartir a fazenda entre ft > e feus filhos : elogo de- 
terminou edificar hum Mofteiro de Frades , e de Frei- 
ras , iegundo coftume daquelle tempo , como em effei- 
to edificou. E por ier mulher devota , e refoluta acer> _ 
ca da vaidade do Mundo , aflentou comfigo deixallo » e 
meterl^ no mefmo Mofteiro , para o qual efcolheo hu- 
ma herdade, ou quinta , chamada Vimaranes, enellao 
tnandou fazer , bem fora de cuidar , que ao bafo defte 
feu, Mofteiro * e comonome da me f ma Quinta haviade 
nafcer depois a Villa de Guimaraens , para ier Patria do 
primeiro Rey de Portugal. j 

f Mas porque efta Quinta na divifso da fazenda 
veyo a parte deiua filha Oneca , que vivia em Reli- 

jxiao , a qual deixou depois , e fe cafpu : a Condefla 
fua may , para que nunca fobre iffo houvefle duvida , 
lhe deu outra por ella. O que tudo confta de hum tef- 
tamento, que com algumas doaqoens antigas anda enj 
corporado em hum Hvro de pergaminho , que chamao 
de Dona Muma , e fe guarda no archivo defta Collegia- 
da Real de Guimaraens. -fUSTZ ' > 

6 E note fe , que os antigos chamavao teftamentos a Gaffat ^ 
as doaqoens feitas as Igrejas , por Ventura por quererem, „,. d t G U ade x 
que as taes doacoens houveflem certiflimo efteito para iuf foi 3$. 
fempre, a modo de teftamentos : ou por lhes parecer,que 
Ihes dava6 mais firmeza com efte nome , comonotou mrttle(lb . 
Ambrofio de Morales na Chronica GeraldeHefpsnha, t%1 d ' iUhi a % 

A ii e Frey %tmUi u 



VarUs iAntipuidiclei 



Ft. AtUn. ua q Frey Atanafio de Lobera na rfiftoria de Sao Froilao^ 

hift.de s.Froi- q Ua i refere huma efcritura antiga deJoaS Bifpo de 

*%} lnot4z LeaS, onde diz* que os Santos Padres antigos ordeni- 

rao , que tudo , o que fe offerecefle a Deos , fofte debai- 

xo do nome de teftamento, para que permanecefte per- 

petuamente. 

7 Primeiro que pafle a diante ; darey arazao, por- 
que chamo a efta Condefla Muma dona , e nao Mu« 
ma , ou dona Munia , como vulgarmente he chamada. 
Ella efta nomeada , e affinada nefte ieu teftamento, 
oudoaqao porduas dicc,oens apartadas , nefta forma ; 
Muma. dma, E da mefma maneira efta em outras doa« 
^oens defte livro. B he de notar , que efta fua doaqao , 
easmais, que com ella andaS nefte livro , nao iaoos 
originaes, (enao traslados todos de huma mao em La. 
tim barbaro , e depravado : e quern efte livro ve^ co- 
mo da nefte Home eftranho \ eo nao conhece , n3o lhe 
ioando bem dizer Mnmx dma , troca as dicqoens r e diz 
dona Mumi , e affim dizem todos , os que nefta fenhora 
acertao de fallar , que commummente iao os Banefi- 
ciados defta Igreja de Guimaraens , e alguns naturaes 
ttefta Villa. E fora della o Padre Erey Bernardo de Bra- 
ga no Tratado da precedencia entre o Embaixador de 
Portugal, e o deNapoles, allegando efte livro , que 
elleleo, chama a efta fenhora donaMonia, ou Manias 
trocando as dicqoens , como ji'tiUfe 

8 Mas eu tenho por certo , que tudo ifto he hum 
{ nome fomente , e duas dic^oens devem de eftar juntas s 
c na6 apartadas. Ufoufe antigamente defte nome ; e 
nefte mefmo livro fenomea huma Muma dma Orio- 
niz , e a mulher d'ElRey de Learn Ordonho (. teve o 
MvraUtLn. mefmo nome, na qual fallando Morales, diz, que fe 
w<*. 34 chamava Munia dona, quevaltanto, como dona Mu- 
nia, e que efte he o feu verdadeiro nome , equedif- 
correm mal os que outro lhs da5. Mas ( fe eu me nao 
raftustpm.u engano ) elle he o que difcorreo mal , porque Vafeo o 
*»»i*}h achou inteiro , e aflim o efcreveo , o qual fallando 
do mefmo Rey Ordonho I. e dos filhos , que houve de 
fuamulhet diz affim Rt^nat poft enm (Mhs ejus Ordtmns 

fitmis 




*De Portugal. Cap. /. § 

kunit dtttm. Et ex uxor* Aiomadona cjttinque ftUusfef}u!it/lWi at " a t>'fti 
IUefcas tambem o lea, ee'creveo inteiro fallando da %?;Jq*£ 
mulher do metmo Ordonho , fo differe , que lhe cha- » oU 
ma , Mamadona, E o douto Padre Frey Antonio de Ye- 
pes na Chronica geral deSao Bento traz huma doaqao cfcro»; de$*Z 
de humConde chamado Fernando Azures f e de iua Mu- Bento Centuri* 
roadona, feita na Era deoio. c^TfU 

9 Acha-fe tambem ette nome em algumas d©^-,JT\. 3 - ^ 
^oens do livro allegado , elcrito por eftas tres diccoens , 
Vma Muma Dvta t que q tier dizer, dona Mumadona, co- Liyro a ikgad^ 
mo. dona Orraca, dona Oneca ; e os que trata6asdiC'C4rf<az»De* 
qcens nao temaqui refugio, porque o lugar }a efia pe- » ow »'»« f oU 8 -; 
iado, e nao podem dizer dona Munia , fenao dona * c *'** tn D " 
Mumadona. Pelas quaes razoens me parece haver rwito caru J nomhe 
pouca duvtda ; porque em outras muitas efcrituras an- mi foi.-j. & 
tigas fe acha junto , e inteiro , como eu a qui o ponho. ** krafoi. io s > 

CAPITULO II. 

Etn que fe trazem os lugares da doafao da Ccnde([a 

a area dafundagao do MoQeiro. E em que tern* 

fo t e de que Reyfoy feita a tal doafao , e 

dot valor es defias duasktras nume- 

raes } X, e i. 

As tornando a Quinta , ou pequena herdade, 
em que a CondeiTa edifkouo Mofteiro, pot 
doaqso, deque iftoconfta, fer muito com- 
prida, Traremos iomente os lugares, que fervem para 
noffo propofito, e fera* naquelle mefmo latim rude , e 
cnal compoilo, em que ella efta efcrita. Depois do prin^ 
cipio hum peda<;o, diz a Condeffa defta maneira : Et 
venit inponioue filie m(6 Onecc Filla nttneupata Pimaranes; 
Et quia, ijdem Hmporibtts vitam degebdt relig onis , maltii edifi. 
cere iniffo jam ditto pr&diolo Cenobi* fubmaMt Abbatiisfra* 
trum , vtlfororum regttlem nominntam tcnemes. Quer dizer: 
E coube a minha filha Oneca em f ua parte , a Quinta 

•- charnada 




1 ■ ». . ' ,♦ 



<S Varies rfntiguidadet 

chamada Vimarancs. E porquc nefte mefmo tertipO eU 
la era Reiigiofa , quizedificar na meima herdadmria * 
dita humMofteirodeFrades, e de Freiras, que vivel- 
jem reeularmente djbaixo de rbediencw de Abbade. 

i E logo abaixo , ?<r muhot pent hornets boms <jr 
ncttti mcommutaret wihi ipfam viliula jam (eptdttia ,** 
Mm mtntftmum Conffruxeram. Qjierdizer: Por rnuttos 
homens bona mandey dizer aOneca minha ttlha , que 
trocifleconiigoeflj pequena Quinta acima dita, em qua 
ed aleum tempo tinha edificado o Mofteiro. 

a E mmsando os Santos , e Santas , a cuja ho*ra 
b edcfiara i, diz immediatamente : Qjornm Bafesca fit* # 
in iam ditla Villa Vimatants tritorio urbis Brachar* , aut 
ZLl *b*l P t Utito % &c Qper dizer: Cu,a Inep elta 
fundada na fobredita Quinta Vimaranes termo de Braga, 
r»fl6 lonse do monte Latito. 

a \ mais adiantetorna a nomear olugar; onde 
fez o Mofteiro por ettas palavras , em que falla comos 
Sant^sVa que o dedicou £R /*. Ztttrt R» <*<" " £ 

extern in iam pr^m ttndoCtnobio frairnm QrSorvumm 

L Abbatisl&c. Quer dizer. E por iffo foy minha de- 
voca6 por honra do Salvador, e porapplacar vortade- 
Sa cdiffcar na herdad* acima nomeada hum Moftei- 
£ d F*des, e*IW»* que petfevere em v,da San- 
la i e vivao carta , pia, etemperadamente emobedien- 

cia de Abbade. ... • j„j«„ 

c E ddtando o Mofteiro de muitas propnedades, 

a primeira , que lhe den , foy efta Qu inta , ou herdade 
chamada Vimaranes. Concede , dtz ella . tone ault bta. 
titudfus wftrt jam d,Etam vitUm Vimaranes , *«« fnmut** 
V i cum film mea Onecf , ut fupra fecimxs ejus »<»»^-W* 
redo aefteTcmplo devofla Santidadea fobredita Qjm- 
ta Vimaranes, que houve por troca de Oneca minha 
filha como ja emcima fiz della menqao. 

6 <™db i mez, e anno, em que efteteftamento 
fov fei'o, confta das ultimas palavras delle , que lao 
asieguintos ; mm die 26. Ftvtrttro , t Er* 4* 9** 



L 



■■ 



T)e Tortugal. Cap. 1L f 

foy notouo , ou notado aos 26. de Janeiro, Era 967. 
que vem a fer no anno do Senhot 92,9. abatidos 38. 
da Era* em que ellaexcede ao Naicimento de Chriito 
Noflo Senhor. As pefloas mais principaes , que eftao 
aflinadas nefte teftamento , ou doacao , (ao as feguintes. 



EGo quidem Muma dma converfa ham comejjionem, 
quam cfnobto Jupra ditto facert libentiffime fepe 
procuravi , & in diem dedicatimis ipftus beatitudinis 
auk propria manu confirmavi ex officio palatini. 

Ego denicfue Gundifalus Ermtgttdi & de Muma 
dma hunc votum matris mee , & falutis anime veftre \ 
confirmo. 

Nee non & ego f rater Didacus votum par en* 
turn noftrorum dtvota mente confrmo. 

Simili mo do ego Ramtnirus ultro voluntary vo- 
tum falutis , & ex profetfo mee mercedisgenitcc con- 
firmo. 

Etiam ego Arrtane hum fidem matris met con- 
frmo, 

Sub Chrifti nomine Rudefindus con fir mo. 

Sub imper'to Salvatorts Sejnandus pontijtx 
men/is. 

Sub Redmptoris CUmemia ViVmlfus praful Tu- 
denfis. , 

Sufi aminicnlo Creatoris Didacus epifcopus V$±i 
Sandetus confirmo. 

Sub diclo auxilio Ermigtldus epifcopus confirmo. 

Sub Chrifti San&a cordia, Ataulfus ultro fedis 
fapiens epifcopus cwfirmo, 

Ordonius Abbas jubit. 

Aloitus celle noven , pr*pofitus$. f. 









Seguem-fe mais vinte e lets pefloas , que deixo. 



7 No 



* 



V arias Antigmdadeu 



No tempo , em que foy feito efte teftamento , 
ravnavaemLeao Ranemiro II. &lR e y Ordonho tam- 
S teve dous nlhos , Affonio , e efle Ranem.ro. 
Ado queeraomais velho. fuccedeonoUeyno a 
feupay, edepoisdereynarcinco annos, defaand, di 
fem P eter Frade , eftando em Qamora , ,™^o u Jm(car 
leu irmao Ranemiro > que vivia em Vifeo , , como , Aa 
m im Illefcas Para renunciar nelle o Reyno , como renun- 

%7£. ^"mefteito. Come,o« Ranem^o dereyna^ noaa, 
,. 1,4. c. »,. no do Sen hor ,901. fegundo o Doutot Antonio Beu 
m •*/»»/« *■ , ef e ( e g U ndo Vafeo no de qay. . . 

' %.,«-«. !er '» el ,5 asA!I1 brofio de Morales , que com triais di. 
^ ^-Hgencia e S aviuaca6 etoaoa^G,^ 
L/i. •»> 1. Helpanha , diz , que come^ou dereynar mais s ^oian 
JmO., ai . f/X" o do Senbor ot 7 . * que morreo no de 970. 

nJre dona Mumadona . ^hu«»^j»£ (fa j Pnn- 

ccptimis Seriniflimam jttftonem donamtts \ a \1"' v * {m 
Vjbi J rv'ccc zXiiii. anno do Senhor 9 i6.Con- 

di de VifeoT e como teftimunha o confirmo poc m 

"^.o^'Bem concorda eta doacao no tempo com a 
eon*, que Teva Morales. P?^J*™ i0 J£ ™ ft 
noqi6. ainla Ranemiro naoreynava, eefta * a S™ V B 
?eo 9 , onde fazU fu. habUac- .como ^ ho to Jj 
da metma doaeao o parece , porque as teiumuu. ^ 



*Dt TortHgdl. Cap. II. 9 

la moftraS fer gente popular , e ordinaria , entre as 
quaes nao ha Bilpo, nem pefloa qualificada, como ha 
nas doaqoens, que fez depois de fer Rey. 

1 1 Tambem fe ve pot efta doaqao , que'naquelle 
anno 926 ainda era vivo Retmigildo marido de dona Mu- 
madona : o qual devia de morrer no mefmb anno , depois 
no de 919. na entrada delle em vinte e feis de Janeiro o 
Mofteiro eftava feito , e pelo menos a Igreja toy entao 
Jagrada, como con ft a daspalavras, com que aCondef- 
laaffinou no feu teftamento. E quero fufpeitar, que 
converteo em Mofteiro algumas caias nobres, que ti- 
nha naquella fuaQuinta de Vimaranes, pois tao bre- 
vemente ofez, 

\. 12 T<>rnando ao propc^to" , nao tenho duvida 
em fer Ranemiro II. o Rey , que reynava , quando 
aquelle teftamento fe fez pelas razoes, que apontey* 
Com tudo hum curiofo , horn em de muita li^ao , que 
leo efte livro de dona Mumadoaa , a que elle cka- 
tnava donaMunia, aflentou comfigo, eaflim o levou 
por efcrito , que aquelle teftamento foy feito trinta 
annos mais a diante, doque- nos aqui dizemos, ifto 
he , no de 95-9. que vem a fer em tempo de Dom San* 
cho ogordo, filho fegundo de Ranemiro II. Fundou- 
ie em dizer ,que a letra X. que efta na data delle j quan- 
do he ferrada por cima » como aqui vay j figniflca qua- 
renta: 

'■?> 13 Mas nos dizemos 2 que aquella letra aflim fer- 
fada nao fomente efta na data do teftamento da Condef- 
fa, mas tambem efta*. na doaqao do Infante Ranemi- 
ro , que atraz flea. E fe havemos de levar a feitura do 
teftamento a diante ao anno 959 , tambem havemos da 
levar a defta doa^aSao de 976* e havemos de ^conce^ 
der, que ainda enta6 Ranemiro nao reynava > a qual 
computacao nao concorda com adeBeuter, nem com 
a de Morales. Mas antes pela defte authpr ja entao era 
morto havia feis annos , epela.dos outros , muitos 
mais. 

14 Dizemos alem difto : que a letra X fe acha* 
nefte livro hora Ierrada, enoraaberta, e fern pre figni- 

B ' ' ' fica 







1 a V arias Antiguidadifi 

fica o numero dezeno. Primciramente emmuitas d*tas- 
de doaqoens , onde os dias dos mszes fe fignificao per 
calendas > entra a letra X , como Xij calendas: Xin> 
calendas. E quern fabe a conta das calendas , fabe tarn- 
bem , que nella naoentra o numero de quarenta. Eaf- 
fim aquella letra* ou ferrada , ouaberta, nao val mais 
que dez , nasefcrituras defte livro. 

ifr Prova-feomelmointentopela carta Ambigmm t 
que efta nefte livro a folhas \j. a qual efta a Forma 
de hum juramento , que in* a ad os Fradesdo Mofteiro 
de Guimaraens- disnte d'ERey Dom Atfonlo V. de- 
Leao, para fazerem certo, como as doaqoens das ter- 
ras, e privilegios do Mofteiro erao verdadeiras, e con- 
cedidas pelos Reys paffados Dom Ranemiro , e Odo- 
nho feu filho , e confirmadas por EIRey Dom Rermu. 
do. A forma era , que jurar'a6 por Deos Pad;e todo Po- 
derofo , e pelo meimo -, que toa no Qriente , e ioa no 
Occidents : e pelos quatro Evangelhos : e por doze: 
Apoftolos. A qual palavra doze efta eicrita por eftas le- 
pras numeraes , Xij. com a letra X ferrada por cima. 
Pelo que nao parece , que ha niftomais, que duvidar^ 
nem que relponder. Antes que fenosvada memoria 
o tsftamento da Condeffa Mumadon^ ,. he neceftario, 
que averiguemos tambem o valor defta letra, t que 
nelle efta , e em outtas doaqoens do feu livro , epor 
afaftar hum cepo , em que vejocahir os de cafa , eos de 
fora , dizendo nuns, que val vinte , e outros tr-inta, 
outros paffao por ella , como fe nada valeffe* O meu> 
parecerhe, que val cincoenta, e entendo fer efta a le- 
tra L, latina , que entre ?sletras numeraes da conta 
Romana, ilgnifica cincoenta. A cauia defta fua figura r 
que a fez defconhecer , foy a corrupq^o , em que a puze- 
rao os efcrivaens, os quaes no principio efereviao LJ 
depois 2* <Q«e feja efta a letra , que digo , mof. 
tra-fe, porqus nefte livro achao-fetodas as letras ,prin- 
cipalment^ as capitaes- da conta Romana , ifto he 
M.D.CX. V. e(6 falta a letra L. fignificativadecin- 
co'enta , por onde fe ve , que he efta. de que tratarrros , e 
que no ditolivfo, ieacha- depois > de M. D.C. quando o- 
4 numero 



T>e Tortugal. Cap. II. j i 

tftimero defce ao valor della 4 efta em feu lugar , e fern 
o mefmo valor. E dizer , que hora val vinte , hora mais, 
hora menos., nap leva caminho , porque o mefmo li« 
vro para frgnifkar trinta poem XXX , e para vinte poena 
XX , e para dez poem X , que he prova nao iervir par 
ra aqui a tal letta , fenao para numera mayor , qual he 
©quedigoi 

1 6 E fe ifto na6 bafta , Ambrofio de Morales he 
Author comummente bem recebido, tomemos fua con- 
ta,e faremos della pedra de toque para entendimento das 
defte livro da Condefla dona Mumadona, que tao fe- 
pultado eftava , como ella mefrna, fe noflo trabalho , 
e curiofidade o nao trouxera a luz » de nome , e reputa- mml 
^ac. Morales tratando d'ElRey Ranemiro , edotem- w ^. 7 ] 
j>o do fe Reynado, diz, que come^ou de reynar do an- 
no do Senhor 927 i e acabou no de 950 $ e morreo em 
cinco de Janeiro defte mefmo anno. Bfte Principe an- 
tes .defer Rey refidindo em Portugal na Cidadede Vi- 
ieo ao governo daquella fronteira dos Mouros , como 
notou Garibay , deu a Hermigildo * e a Mumadona a Garih^ 
Quinta Creximir , de que atraz n*z mencao , na Era«.i8.f* 
DGCCCiXihJ , e dando aquella letra, dequetrata- 
mos , o valor decincoenta , tirando os trinta e oitoda 
Era , vem a fer no anno do Senhor 916, anno, em que 
ainda nao era Rey > affim por .efta conta , como pela 
de Morales , que poem o comedo de feu reynado , co- 
mo ja difte , no anno 917.. 

17. Deu mais depois de fer Rey , q<ue foy no 
anno fegiiinte, a mefraa Gondefia, a que chsma fu$ 
tia , o Mofteiro de Sao Joao Baptifta , fundado [unto 
do rio Ave ^ perto da ponte Petrina , a que hoje cha- 
mao Sao" Joao de Ponte , e diz a data defta carta : Fatta 
fcri< t tura tefiamenti notum die quod erit vi. idus Jmh 'Era 
DCCCC z XV, Rameniro Primipem in hac fcriptara a mefd- 
Ua manu me a propria cenfirmo. Sub Chrifti homiwe'Rudefin' 
dus tpifcoptts cQn£rmo. Ovtcus Dei gr«tia epifcoptts UgiQiteri* 
/is confirmo. Sib mperio Stdvatoris Stfnandm irienfis pwtifex 
f9nfirmo. Confirm arao mais outras pefloas , que deixo. 
Q ientido he: foy feita efta efcrituta de teftamento 

B 11 



/• le» 







12 V arias dntiguidader 

eni dia fabido 9 que era6 8 de junho Era DCGCC % XV* 
anno doSeahor 917. Ranemiro LYincipe conrirmo com 
rninha mao propria efta eicritura reita por mim. De- 
1 baixo do home de Chrifto Rudsfuido Biipo conrirmo. 1 
Oueco porgraca de Deos Biipo deLeao confirms De- 
baixo do Imperio do Salvador Sifnando Biipo de Iria- 
confirmo. O fttulo defta carta diz : &cx dbtto Rmcmir§ 9 
de SanBo Joanm de panic & adjunnonibtis, Aqui vemos 
concordat a conta defta doaqao com a de Morales acer- 
ca do primeiro anno d j reynado defta Rey , que foy 
o de92-7» fegundo elle no luga'r- citado : oque nao po- 
dia fer , fe a letra da contenda nao valera cincoenta. 
. 18, Mais diz Morales, que reynou dezanove an- 

nos , e morreo no de 950. Mas fe elle comeqou de reynar 
no anno de9i/, e morreo node 950, coraoelle efcre* 
ve, eoutros, que ofeguem, nuis reynou dedezano. 
ve : Joao|de Mar una por fahir com eftes dezanove prm» 
eipia feu reynado no anno 951 Aonde fe infere> que 
ou a letra de Morales efta viciada^, ou elle contou mal 
Na5 lem caufa fallou Garibay tantasvezes, ecomtan ■-. 
GnnUyllb^. tas palavras dcs annos do comeco > e reynado defte Key, 
*Z. ** e<J *'edosmaK Lembroume ifto agora , porqueefte Author 
lhe da de reynado vinte annos comecandoos detde 
Xa„n,ap«d 9*0- O Cardeal Baronio lhe da vinte edous , comeqam 
sw«wi>. do-os deoiTi E noslfee damos vinte e tres ; , que he 
£7..*. h&t mais hum por huma doaqao defte livro daQuintade 
9S^ n '. x ' Msllares feita pelo mefmo Ranemiro ao Mofteirode 
Frades, effairasdeGuimaraens-, de que elle foy mut- 
todevoto f e grande bemfeitor. Da qual eicritura po* 
remos , o que bafte a noflo propofito. 

19, O exordiodaquella eicritura he hum colloquio 

d'ElRey Ranemiro com Deos. Acahado elle diz o mef* 

mo Rey: „ Horum tantorum mirabiliorum, domine , te. 

, patrem cognofcens ego fervus tuus Ranemirus tua 

'difpofitione huic 'regno indeptus elegi ex magnjh* 

centia noftra , tribuere in locum Sandi Salvarons, 

!!& Sandte Marie Virginis in loco pnedifto Vimara- 

ne< ut conteftarem tibi , conlaza noftra muma dona 

A villa noftra propria meUares, que e juxta amne du- 



De^PortugaL Cap. 11. i$ 

^yrico. Coricedo vobis ilia ad tuitianem ipforum fra» 
„ trum r & iororum,qiie (ub rigimine veftro domino mi- 
litant &c. faSa fertes teftomenti XV Kalendanus 
„Junii, Era DjCGCCiXXXViiij. Ranemirus Sere* 
yr niflimusprinceps banc leries freftamenti tifoi Gollaze 
n noftre muma dona fecimus , & confirmamus. Orraca 
t t regina confirmo. Ordonius prolis regi confirmo. Gelvi- 
„ ra domino vota confirmo. Sancius pignus regis con- • 
„ fir mo. Veremudus Rex confirmo. Eftes fa6 osconfir- 
Hiadores feculares com mais fete teftinaunhas , que dei- 
Xo. Os Eccleftaflicos fao os ieguintes : Sub dtmim mi. 
fericordiam kermegildut irien/rs epijcopus con f mo* SubCVrifti 
juffione Rndefmdm dkmicnfis- epifccpus. Sub imperii Domini 
*olhi ^ ESVS Chrifii Ovecm epifcoppts Itghncnfis; Sub gratis 
Dei dtt!ctdiu&.epifcopu$ vifenfe confirmo* Sub Domini virtate 
Cnndifalbtis hucmfis epifcopui emfirmo., Seguein-fe mais; 
fete teftimunhas , que deixo.^ 

a'o A fentenqa he : Eu Kanemiro voflb fervo Se* 
nhor r que vos conhego^por Pay de tao grandes mara* 
vilhas , alcanna ndoefte Reyno por ordenaqad vofla £ 
determiney dar de noila liberalidade a Igreja de Sao Sal* 
vador, e de Santa Maria iempre Virgem no lugar chs^ 
mado Guimaraens,, por vos-razer prazer a vos Muma- 
dona noffa coilaqa v a nofla Quinta propria Mellares, 
que efti junto do no Douro com Ieus cafaes por feus 
termos antigos daquenv, edalem do mefmo Douro. Eu 
vx) los concede para amparo , e fuftentaqaS dos-mefmos 
Frades,,.e freiras , que debaixo do voilb governo fervem 
a Deos , &c. Foy feita a eferitura defta doacao aos quin- 
zedascalendas dejunho da Era de DGCCCiXXXViiij, 
que he aos dezoito de Mayo do anno do Senhor opt* 
Ranemiro Sereniflimo Principe denoffo motu proprio 
fazemos $ e confirmamos efta eferitura de doacao a vos 
Mumadona nofTa collaca. Urraca Rainha corrfirmoi' Gr»~ 
donho ftlho delRey confirmo. Debaixo da miferkordia 
do Senhor Hermigildo Bifpo de Iriaconfimio* Debaixo 
doimperio de Chrifto Rodefindo l$ifpo de Dume: Da-- 
baixo doimperio de noilo Senhbr j ESU Ghrifto Ovecc* 
Bifpo de Leao# Debaixa da grap.de. Decs Dulcidio j 



; 



M Fmas Jntigtiidades 

Bifpo de Vileo confirmo. DeoaiKo «U i virtude 4c Re- 
ntier, Gon 5 alo Bifpo de Lugo confitmo. EiUs lao os 
eonfirmadores defta real doaqao. . „ 

\ *i Pot efta doacao le ve , que Kanemiro ». »sj 

aou vinte e ttes annos defde 9 *7- «e 95 '• « 1 ue f^' 
voemde'olto deM.yo.4o tat anno ^ ^.a em que a to., 

fin, porqu- iw' ; ann0 de 

Chritto £ $fcJ* muito adianteVa do tempo 
d-fteRev A^defercoufa alhey. detoda arazao 
ouwercra- eft* conta da Era algumas vezss le* an. 
querer , qu- eua _ g , que nas letras del- 

javeruauc , «= v f _ rnnta D elos annos do Nafcimen- 

tt.A*»'.<»> x.dade. Teftimunha he <mi J t ■ J gf _ 

oTMiiin' <*<• ra. i no cataloeo dos tsupjs oe L.-*" t w h^ . 
L«> * c«» I! ' ",ica gle feguia , pot nao achar indiaos nas Eras, 
"■'■"■ *• " one a nzeffem , mais annos deChrifto, que deCefar, 
/o4 H9 ' e mmtas *5m fe vio em eftado , que nem tmha re- 
emuitasvezK nem no anno de Chnfto. Pe- 

iTaue haiamos efta contas por differentes ; pois que 
t°almente o fao para nao confundir huma com ou- 
trf o que fera dando a de Deos a Deos , e a de Oeta • 
CelarTpalavra villa, na6 fignifica povoacao , que 
thamamos villa nefle tempo: mas fign.fica Qumta , le- 
gundo o fignificado latino , como parece neft; : mefmo 
£apitulo. Waduvida, que lea tal PJ^S"^* 
ra oovoacao , que nos dizemos villa j fora efta Igreja 
Mr U toj^SLa de quafi tantas villas , como tern Pot- 

%l * H,/ " Wg a; Entre os eonfirmadores defta doacaoefta a Rai- 
g*** nhaDona maat , Q Doutw -Barter , *A n *™2* 



D* Tonugal. Cap. II. 15 

Morales, efcrevem, que Ranemiro il.teve duasmulhe- Gmi^uh^ 
res, Dona Utraca, que foy a primeira , e DoraTareja c - 1 9-« J»- 
a Florentina ,, filha deDom Sancho Abarca Rev de Na«^ r/W ^ 
J?"?"' ? * e £ unda * Mas Garibay , e Joao de Mariana dag/^ 4 ° 
Jhe ioTareja, da qua] teve todos os feus filrjos , eif- 
to tenho per mais certo. Com tudo , ou tivefte , ou> 
naotivefle a DonaUrraca, fuppofto , que era ja mor- 
ta , e die viuvo, eque fez efta doaqao no ultimo anno 
deluavida, pode-fe percautar, aonde appareceo aqui 
eita Kainha Dona Utraca para affinara tal doaijao ? Ref- 
pondo^ Elrando ia Ranemiro viuvo , cafou a leu fllho 
piimogenito Dom Q donho com huma filha de Fernao 
C/on<jalvesCondedeCaftel]a, cujo norae era Dona fe- 
raca , e eita he ,* a que aqui confirmou ent<e- Rane- 
miro (eu ixgro, e Dom Ordonho feu marido* Enoto-^/fr''**** 
wo he, que cs mhos dos Reysantiges fe chamavao Reys. * K * *** , 
comoieuspays. Doqual caiamento tratou Joa6 Vafeo, *"**,£.' 
Garibay>e Mariana. Nao quero deixar de lenibrar acs Z"T 
que eicrevem deSag Rofendo ,. efolgao deaveriguar 
tempo ,, e verdade defuas coufas, que nefte preien- 
te Capitulo vay huma doaqaa d'ElRey Ranemiro feita 
no anno do Senhor 929 , a qual confirma entre outros 
Bifpos Rudeiindo Biipo de Dume. Enodito GapituJo 
no tefh mento da GondeiTa dona Mumsdona, feito no an- 
no do Senhor 929, confirma tsmbem Rudefindo Bifpo? 
de Dume.~ E ultimamente nefte mefmo eapitnlo* que 
temos entre maos, na doaqao da Quinta de, Mdlares M;*u,vi*i. 
feita pelo mefrno Ranemiro no anno Senhor 95 1; con- w? j*»- -'" 
fitma R-udeiindo Bifpa de Dume, Diga agora Morales, 
eomo he pofiiveH que nafceiTe efte Santo no anno do 
Senhor 907, cemoelle diz, e que dalJi a vinteannbs 
fofle Bifpo,, como fe ve na doae;a6 atraz do Mofteiro 5 
deSa6 Joao de Ponte \ feita ; no anno do Senhor 917:,, 
dizendoo mefmo Morales , que de vintee oito annos- 
foy ordenado de Presbytero , que no anno do Senhor 
915' por iua conta 9 -e no mefmo anno f6y feito Biipo 5 
de Dume. Pelo que podemos fufpirar pela prometo 
do mfigne Theologo , e HluftrerAnticwario o Dcutor* 
Atoteqe'Refende , que defejoirdaevera hiifcoria dei- 




w« Vmto Antlguidadet 

ilnto. co«o ^°JX£\°^™^ 
te lhe desfez , apagando nelie num comQ 

J vXlfcE'B^r & Cotego ,Io, 

4i Na5 teoho poti»»<:o n°" e(c ' teva 6 as coufas 
cuid/o, que hu^n, e ^" ' e d ^Ce o de Efctitores , 
depreeo, pois lemos o grande ™™= d quaesRa . 
que celebrataS as do g« n . d « A ' e * u "„o, Nem as do po- 
W«#r^»- fael Volatertano conta «"" <• ^ d is dos quaes el- 
throth.i.u. Romano careeerao dos lew , v conhec ido 

verba Aux**-^ u Tif _ r ivio . M com teceyo ae n*u i« _„, n iip 
*«•. iw* i» «e 7e0 Tlt0 I« f -,v com {uccetto conttano, porque 
w«.».i: eitte tantos i, mas 6 ay com iuc e loquencia mo- 

UU«.*-fegundo 9a5Jeioaymo,atamaQ a os quaes 

m .h«»»; vi | algutts* para qn ed ! lon ^° t ^ le I m sfmo ' Livio nos 
^.•3-«<™obteza d / Roma naS ™°™- <> melmo ^ 

tvita como «*«H$^efaU^com mals.cer- 
Authotes novos , ou pf° te * lao = t que os antigos. 
teza ; ou com melhot : modo e atte q 
Nos em algumas =o ufas das qu s « 1 lhes f . 

fomos ospnmeuos , w*^"* juizo do leitor. No 

ceo pot noffa pena , : Bqae ao ju 

m ais acerca de noffo nome ><V™ { dos que e £. 

na6 fotmos conhecidos . , « «£^ , com p an hta de 

curecetaS ; bos eonfotas. »«"**« ^ uem nos 

Smt«t H ^ "«£ geU heVonfo, 
lasao.ainBUcidadealheya. 



CAPI- 



ID* Tortugal. Cap, 111. 17 
CAPITULO HI. 

Donde tonwu o nome Guimaraens. §yt McfUirofoy^ 

da CendeJ/a , que Ordem , que Regra , c 

que rendu ttve+ 



n.. • • v 



O 



QUE daquelles Jugares do teftamento da 
Condeila em cima allegados , le lira , he , 
que temos acfraxio o nome defta^Villa de Gui* 



maraens em numa pequena herdade, ou pequena Quin- 
ta chamada Vimaranes , nome , que depois ie corrom^ 
peo em Guimaraens, fc. daqui ie pegou primeiramente 
aoburgo, que logo fefez , e depois a Villa , que do 
burgo ie tormou. & porque o Moiteiro de Frades , e de 
Freiras , que a Condelia ediikou , deu motivo a tudo , 
raza6 he , que digamos delle , o que pudemos alcancar. 

% Acaridade, e limpeza^ daptimitiva Jgreja iof- 
freo Mofteiros , em que moravad Frades , e Freiras: 
defies huns tinhao iua divifao, com que os Frades fi- 
cavao apartados das Freirasy e porifio iechamavaof 
duplicia, que fignifica dobrados. Sao Gregorio Papa 
foy o que o ptohibio, pofto que aprohibicao feexe- 
cutou tarde em Heipariha. Fez difto mencao Santo An- Aytmm Up 
tonino por eflas palavras : innulk hcomonechss, &wo-f.%.um. 1*4 
ttachas permittmus in huo mtnefitth hcbitare:fedntcea< a P''h-^ %1 ^ 
quA duplicia [tint. £t fiemid tale tj? , reliuifus Bpifcopus Vffy'. tMS 
multcrts tn jho Ikq m&nirt [tndtnti monachos (uumahud ta i cctK iii 9 
monajltrium adificare wgat. Das quaes a lentene,a he. Hm M«»e 11. « 
nenhum lugar permittimos morarem Frades , e Freiras, c«**»* «>•. 
em) hum Mofteiro : mas nem ainda permittimos Moi.^^"^^ 
teiros dobiados. Eie alguma couia deftas houver, b^ w W* 
ileligiofo Bifpo fac,a ficar as mulheres em feu lugar B e 
aos Frades conlfranja edificar outro Mcfteiro, 

3 De que Ordem fofle efte da Condefla eu o nao 
acho expreflamente : 16 confta de feu teftamento * on- 
de refere os livros, que ella lhe deu, emrar no nutne- 

C to 



Ganml. de 
yir.illutlribut 
c i.tiiupb. 
Hiji. Kcclf. 
lib. 9,. cap. 14 



Bar onto die 
34 /M«y fub 
liter a K. 



Carta In nit 
"Dnifal. 7. 
Moral. Jib. 14.. 



PtrrrttUi 
Paul, in Ma 
tia Augufla i. 
J..f n. Ni 
uph. Callift. 
hijt. ecclef. Ub, 
14. c. *. 



ig Farias AntiguUdfai 

ro dslles a Regra do Santo Aooade Pacomio , que foy 
dada ao dito Santo por hum Anjo , como diz Genna- 
dio, e Nicephoro. Efta Regra foyantigamente tradu* 
fc z da de Syriaco ,, e Grego em Latim por Saojeronymo: 
depois lendo por longo*" tempo depravada, quail extin* 
ta , e nunca impreila , Achilles Eftaco , meu tio , alim- 
pando-a de muitos erros a fez imprimis em Roma , 
como diz oCir deal Baronio nas notacoens do Marty- 
rologio Romano,. Entrava tambem na quelle numero 
hum Hvro, que continha eflas tres Regras * a de Sao 
Bento , e a de Santo liidoro , e a de Sao Frudhiolo. Mas 
de oualquer que fotfe, a. CondefTaentrou neile ,, e ie fez 
Frei'ra, como declarao aquellas palavras , com que ie> 
affinou no (eU;teftamento : Mvwadona converfm e ou- 
tns, comqueiiechamadaem huma doacao defte livro, : 
AiHmaAw* Dtovau. Morales lie de pareeer , que eftes 
Moiteiros antigos de Frades , e Freiras , erao da Or- 
dem de Sao Bento„por. eftar ja> muito Candida por Bel- 
panha , e r o toda a Europe 

. 4 Toy. a Igreja edificada a honra do Salvador , e 
da Virgem fua May , e.dos Apoitolos todos, e de ou- 
tros Santos, e Santas. E .foy de granderomage, e de-. 
vocao por muitas reliquiae de Santos , que nella ha- 
YJa. Em-hum* mventano de prata , e ornamentos delta, 
cafa, achey que entre.as reltquias della havia duasam- 
bulas, e^que efrava ieite da Virgem Nbfla Senhora., 
As palavras do inventario fad as feguintes : hem una 
arqttct*. % in qvtA fttnt dm amptU , in qribu-s eft Uc be**. 
Vininit. Foy. feUo na Era de 1314,. anno- do Senhor. 
aa86. Taballiao Pero Domingnes Salgado. Lembra.me, 
que em Roma na Igreia de Sao Cofme., e Damiao en- 
tre outrasreliauus. fe moftra tambem leite da Virgem 
Nifla Senhora. Na Capella d'ElRey de Franca ; en* 
Cathedral de Pariz ha tambem. defta fagrada rehquia ,. 
como diz Ferreolo Paulinate, a qual he preciofifiima, 
eou-efta lereia muito -eftiuara, fe ainda a polluira. 
Tarnbenrhe fama., que houve- aqui huma '^aroca. 
daB-mdiu Virgem , e naff he lmpofllvel , P "^*" 1 ' 
Confbantinopla. howrc outra, d« queiaz rnen^ao N ice^ 
plioroj; * 



De "Portugal. Cdp. 111. ft? 

5* De rrais difto u>y nmito rica , pcrque tinha 
huma grandecopia deCafaes, ouQuintas, cbamsdss 
pot efte vocabulo , Villa. £ tinha asrendas dealguns 
Mofteiros extintos, como o de Sao Torquato , eo de 
fro Jao de Ponte. £ algLmas Villas , como Villa da 
Conde, e Fao. E outrss muitas propriedades, quean-, 
dao no livrode dona Mumadona, eipeciaJmente no in- 
ventario dos bens defta I greja , quenomeimo livroefta 
cfcrito* 

6 Ffkes fat) os principles defta notavel Villa, irf- 
ta a fua antiguidade , a que nao contradiz htmadoa- 
qao do cartorio do Arcebifpo de Braga feita a Igreja 
Bracarenie na Era 878* anno do Senhor 840 , que 
contem huma demarcae^ao do coutode Braga, em que 
aflinarao alguns Bilpos , e com elles hum Conde defta 
maneira , Ftmarani Lemitis ccitfirmcns. Nem outra do mef- 
mo sartorio da Era 919. anno do Senhor 881, que he 
huma divifao do Bilpado de Dume , em que emre ou- W cVrf t« r5 ^ 
tras pefloas ie aflinou , Ltta4n4^imarani m E ^imara Fr*L FwU^Ay 
Unu Porque Vimarano era nome proprio de homem ^Bifpo Mu*H 
doqual foy chamado hum filho d'ElRey Dom A8on.* it J avi(fae f cre ~ 
fbl. deLeao: oqual nome tambem ierviade iobreno. veo Fr - Aih( * 
me , fegundo o nfo daquelle tempo. Vm*r*ni Cimiti s ™Z*%fa'£ 
cmHrmans , em latim depravado querdizer, o Conde noinndedoi 
Vimarano confirmo. LucidmVimaram\ querdizer , Luci **M*miut«**e 
do filho de Vimarano, Vimara , tambem he nome dQ E *? hi ft- d * 
homem , e aflim Froilano, rim*** FrnUni, he o nief.^^.t.^t.' 
mo que Vimara filho de Froilano. E aflimfica refpon-/<L*i^ 



dido a quern de Braga mandou eftas memorias, que pa Bi f^ s ie *"*■ 
reciao arguir mayor antiguidade defta Villa: e fe *\. T j ag ! / cham *'; 
gumaha mayor , mais a diante em outro lugar odi- m **® 
seraos. - 



Cil 



CAPJ3 



Farias Antiguidades; 
CAPITULO IV. 

Be Sao Rofendo , e Santa Senwrina eh am ad a vulgar* 
merit e Senbormba , naturaes defta terra de 
ettfH Douro , t Minba* 






Moral; 



10 



I 



Ntre os Bifpos, que confirmarao o tefta^ 
mento., ou. doaqao da Condeila Mimadona^ 
„ foy hrunvRudefiodo,. chanrradocoiTirnurpente 
\ Rolendo. Eporque foy Santo, e natural delta terra de 
entre Qoufo, e Minho *, razao he , que nao paflernos 
fem delle daralguma noticia , aos que ana© tem. Foy 
elte Santo filho de Guterrio , e Ilduara, enetodefir- 
'• "• menigiida > C/Mide deTuy , e do Porta era Portugal* 
Nafceo na Freguefia de Sao Miguel do Bifpado do Por- 
to junto da quelle lugar , aonde depois ie ediricou o 
infigue Mofteko de Santo Tyrfo daOrdem deS.Ben- 
to , que eM entre o. Porto ,, e Guimaraes. Fazendo il- 
duara fua may multas-efmolas , e occupando»leem ora- 
^oens » elagrimas , foy admoedada por hum Anjo , que 
conceberia hum.fiiiio, o qiial leria de grande merici- 
mento para com Decs , e para comoshomens de nota- 
vel Santidade. 

z. Pario Ilduara. a Itudefindb vefpera dos Santos; 
Facundo , ePrimitiyo, dia , que para? eila r e feu ma- 
rido y em quanto viverao, fdy fem pre Santo , e de fefta. 
Rudefindodefdemoqoabraqajidoa Ley doSenhor r era 
breve veyoafer Varao Apoftolico. Pelo quefoyeleito 
pelo Clero de commum content imento Bifpo da Igreja 
Dumienfe , que depois ie unio a Bracarenfe. Dallipot 
excellencia de fuas virtudes j foy feito Bifpo Mindo- 
nienfe, e IHenfe. Depots edificou hum nobre Moftei- 
ro em certas herdades fuas ,. grandes -, e ricas» que le 
chimou CellaNova , o qual ainda hoje em Religta6 j, 
etendas he de grande nome; 

* Nelle fez o Santo vida monadic* alguns an- 
^ s no» 




'DeTortugal.ap. IK 

nos debaixo da Regra oe Sa6 Bento , e paflou ao Se- 

nhor o primeirodia de Mar$o fazendo muitos milagres ' 

na vida, e depois da morte. O feu eorpo efta no mef- 

ino Moiteiro , aonde he vrfitado de grande frequencia , 

principalmente dos P< rtuguezes, eGallegos. Florefeeo 

no anno do Senhor 9^0 , e nos feguintes. Hb he do 

Breviario reformado da Qrdem de Sao Bento, o qual 

poem fua feite no dia , em quQ morreo, O Doutor Andre 

de Reiende nolivro primeko das Antigurdades delu- D . r ' . 

fitania, prometteo de efcrever a hiftoria defle Santo , uliiVS 

a qua! eftimararnos nwito , fe por elle fora efciita , mas „' .« cJJ 

parece , que- a morte lho impedio, afoh 5s, ( 

4 No mefmo Breviario de Sao B;nto ach© , que 
Santa. Senorina parenta do mefmo Sa6 Rofend6 Mor.- 
je de Sa6 Bento , e Abbadeffa do Mofteir© de Bafto , 
que hojehe Igreja Parcchiaj da advocacao dcfla San- 
ta, eitando em Ora^ao vi© fubir ao Ceo a alma de 
SaoRofendo kvada por Anjos. E mandando faber del- 
le a CeJJa-Nova , achou que morrera na mefma ftora , 
em que lhe foy .reveJadov 

j Foy efta Santa Virgem, natural do Arcebifpa- 
do.deBraga, filha de Anulfo nobre Conde deVieira, *'»-*'s& 
e de Tareja : profeffon a Regra de Sao Bento no Mo'ftei- Bentoa ** 
rodeVieira, fend© Abbadefla Godhm por cuja morte 
foy eleita Abbadefla em feu lugar. Paflou a vida com 
tanta afpereza, que comia pao niifturado com cinza, 
e lal ,. jejuava tres dias na iemana r fempre trazia cili- 
€io , e eada 1 dia fedifciplinava por efpaeode tempo ~en* 
que fepodrao rezar os fete Pfalmos,. 

6 Sua Santidade foytanra, qire eonvertia a agua 
emvinho, e por feu mandado a enxurrada das thuvas 
™ ,ava dofea Mofteirp; Depois paflandc-fe com 
fuas Montas do Mnfteiro de Vieira para' o de Baft© , che- 
gando ao lugar chamado-Carrazedct, eTao as ransalli tao> 
nffi°- rtlJ "! s . Ga)m feu «ntp r queasnao deixavad rezar. o 
yiftuo Dtvmo ; pel© que a Santa Abbadeffa ifies man- 
Swil-^S- ™° P^rbafTem aobra deDeos,, e ftlas4» 
Bzerao^flim, nem apparecerad allimair. 

temefte-y eoutros milagres reiplandecco a mif# 

groias 



de Abril\ 






: 



I 



1 i 



21 P f arias Antigmdades. 

grofa Senorina, e acabou Santamente em vinte edous 
de Abril anno do Senhor 98a. £(U tepultada naquel- 
la Igreja Parochial deBafto intitulada deieu nome. 

7 Folguey de encontrar jeftes Santos antigos, pa- 
ra renovar iua mernoria , corno farey dos mais , que fe 
me offerecerem , porque os feitos , e ditos dos San- 
tos fao flores de verdadeira fabedoria , muito mais for- 
mofas , qua as da eloquencia , com que ficara fuppri- 
daafalta delta, que muitos acharao neita minhaelcri- 
tura. 

8 E tornandoao propofito, como o Mofteiro da 
Coniefla Mumadona fofle tao nobre, tao rico , etao 
frequentado , logo junto delie fe fizerao cafas , e fer 
riao asprimeiras para oniciaes do Mjfteiro , -e poufa- 
das para petegrinos , e aQiai concorriaa vendeiros, 
com que fe fez o burgo , ? de que a Condefta faz men- 
<jao em huma carta , que logo trarey. E porque nefte 
tempo ainda as terras do Alem-Tejo , Andaluzia , e 
muitas outras de Hefpanha , erao de Mouros , temen- 
do a Condeffa alguma entrada fua por eftas partes , 
edificou aquelle Caftello , que chamavao , Sao Ma- 
mede , no outeiro , aonde ainda permanece : o qual 
fe dizia , Monte latito. Que por ficar em lugar alto em 
f efpeito do Mofteiro , ficava como fobre elle. O qual 
Caftello lhe dotou tambem para fua defenlao , como 
confta da carta , que fe fegue , a qual faz menqao do 
burgo, que ja ha via junto ao Mofteiro. 

CAPITULO V. 

De hum* efcritura , de que con/la haver hum burgo 
junto ao Mo/leiro , e dafundafao doCafz a 
tello de GuimAraens, 

OTraslado da efcritura da fundaqatf do Caftello 
em feu latim barbaro he o (eguinte : „ Poft non 
„ multo vero temporis quo hunc feries teftamen- 
» ti in confpe&u multorum eft confirmatum , pel ecu- 

„tio 



DeTortugat. Cstp.P. if 

>,tio gentilium irruit in iiujus noflre ieligionis fubur- 
„ biura , to ante iJlorum metu laboravimus Caftellum 
„ quod vocitant Sanclum Mames In locum prarditf uni 
^alpetetito , quod eft fuper huius monafterio eonf- 
^mittum, & pro defenfacul© hujus Cenobio eoncedi- 
„ rnus eum fratribus , & iororibus in ipio monafterio 
„periiitentibus , ita ut fi aeli© talis fuerit utfilii me*' 
„bundiialvi to Onece in hoc Caftellum intradereno- 
„ Juerint j non habeant licentia eum in alia parte coi- 
„iocandi f niii fit pro parte monafterii permanendis 
t) to in vita nhi-mer jam fepe dixi teneat eum fubma- 
„ nu , to auxihoiurn iliorum r to per ebitum nliorura 
^nieorum, ex meis neptis quod fratrum r fie- iorerum 
„eiegent, teneat eum pro parte - Sanctum Genobium ,. 
h long© pro evoperfiftentium r & fi, qucd'abfit, utiu- 
„pra diximus, rilii, nepti', aut to fratres- profapie no- 
„ itre vel hater ,. aut quilibet homo hunc Caftellum 
„iupra menroratum in paite extranea eum extranea- 
„ vent, que ad nunc monafterium impedimenta m lit ,. 
„hanc confuijo que deiurfura eft eonnrudta in eum 
* lupeivemat praelenti vita , St pet fuuni obitum de 
„ vemat m tartans pena , & hunc , fidem in cundis 
*n btme ? t ". roborem firmitatis. Notum die vij cons* 
,,iJecernbns 31 Era t&o6.Mxima dona hunc vo'tum rreum 
„JiL,enuiFime, & fponte iter-um eonnrmo. Qui pra.fen« 
,, tes hiimus to hunc confirmaticnem coneedimus. Gun» 
„dif«lvo Mendes. Eodezindus Rodici. Begiea,enne- 
, y com.- Petrus ips fades. Arias Semorines. Amarellus Se- 
5 *mennes.- Honneca mendi^ fitia*. Fiamula pelagii itliav 
s , -Yealafqueta pelagii filial 

i A fentenqa he efta. Poueo tempo depoifcquet 
eite teitamento fe conflrmou em prefenea demuitos,* 
os (^entios entrarao furiofamente no burgo-deftenoflo 
£ J „ ° r eantes diflo com medo deiles edificamos o» 
ft c . hamado Je Sa ° ^smede ro Monte Jatitolu- 
gar iobred.it© , que efta em cima defte ftlcfteiro , e 
eoncedemolo para fua defenlao aes?Frades r eFreirasv 
que nelle rncra6. De tal maneira r " que ie accntecer- 
que raeus fllhos ^on^alo , e Qne©a quizerem en trap- 






%Varhs Antiguiddtt 

nelle, onaSpoflao alheardo Mofteiro. Eosditosmeus 
filhos otenhao em fua vida debaixo da feu amparo, e 
protecqao. E depois de fi{amorte otenhapor parte do 
Santo Mofteiro qualquer 4°s rneus netos , que os Fra- 
des , e Freiras elegerem. £ fe ( o que Deos nao quel- 
ra) como [a em cima diflemos, meus filhos , netos,- 
irmao , ou qualquer da minha geracao alhear o di- 
to Caftelto , de modo , qua (eja impedimento ao 
Mofteiro para na5 uiar delle , efta confufao , quedeci- 
ma vem, vanha fobre eile nefta prefente vida , e de- 
pois de fua morte feja ianqado no inferno. E efta fei- 
to tenha fesnpre (eu vigor , e firmeza. Vay notono 
aos quatro da Dezembro Era de mil e ieis. Mumado- 
na de boa , e livre vontade confirmo outra vez efte 
meu voto. Os que fomos prefentes r e concedemos 
efta confirmacao. Gonqalo Meades , e os mais aci. 
ma efcritos. A'quella Eta reiponde o anno do be- 

nhor 968. , - u - 

x Que Gentios foITern os que entrarao no bur- 
co da Condefla , nao muito tempo depois de fazer 
feu teftamento , .ou d^aqaS , nao ma confta expretta- 
mente, mas no anno do Senhor 965 , que iao mnta e 
noveannos depois, Alcoraxi Monro Rey de Sevilha 
deftruio Portugal , e entrou por ealhza ate Compoi- 
™ -. > tella. aflolando tudo: deque trata Vafeo em lua hil- 
£» oSToJ: toria. B temendo a Gondefla eftas entradas , e outras 
*/*«/*•/ muitas, que fez Altnanzor, fe prevemo edificando o 
Caftello \ /que dotou ao Mofteiro para iua defenlao, 
depois de entrar Alcoraxi tres annos , e he cnyel j 
que naquelia enttada as Freiras , e Frades ieiaWarao 
nelle, 



dt$t»» 




CA« 



De Portugal. Cap. VI. 25 



CAPITULO. VI. 

Que nome de Guimaraens fe pegou ao burgo do Mof~ 

teiro da Condeffa , que foy depots Filfa, e as 

mot 'adores delle erao chamados (mrgHt* 

fes de Guimaraens, 



D 



Epois deachado o nome de Guimaraens , 
1 i e juntamente o Caftello , que ainda per- 



temos achado hum burgo junto ao Moftei- 




rnanete. O burgo he chamado naquella carta, Subw. 
bmm\ que fignifica arrebalde , o qua! na6 pcdiaier, 
fenao burgo, pois era do Mofteiro. Mas a ignorancia 
da lingua Latina punha nuns nomes por outros. Ser 
lilo affim colligefe doforal, que oConde Dom Hen- Efteford^A 
nque deu a Guimaraens, onde ainda entao efta aldeya, «uiw; 
a que 4a fe pegara o nome de Guimaraens , retinha o *■«**• "*u*n 
nome de burgo j e os moradores della erao chamados *' dasco ^ as 

burguefeS. dsemreDoufoi 

2 Aspalavras do foral fao as feguintes : Nullo'^ "^ 
c/fVAlUria nott kabtat poufadam inFimaranes, rift pir am*. ' 
rim domini fui , & nnllum fagionem non fit attfut intrare 
in cafa de burges per mala vohmafe , &c. Quer dizer : ne- 
nhum cavalleiro tenha poufada em Guimaraens I fe- e . 
nao por vontade defeu dono j e nenhum Saeion fcS 8 "!^ 
ja oufado entrar em cafa de burgUes contra fm von W"*n* 

* ade « At aide , ea 

I 3 Melhor ainda fe prova ifio peta compoficao an- ^ uiz - 
tiga , que feguarda no archivo dalgreja de Guimaraen?, ? 6r * les f*i* 
feita entre Dom fiftevaS Arcebifpo deBr^a , eoCa- 
bidoBracarenfe dehuma parte , eo Prior , Gonegos, e 
Forcionsnos de Guimaraens da outra. Onde depoisde 
ie nomearem as Igr^jas do burgo com maisdussde fora 
>c>J o Ue navia6 de *er ifentas de pagar certo cenib 
a Se de Braga , as quaes Igrejas do burgo ersS Sao Payo, 
eSao Miguel doC&ftelio , e as de fora Santa Eulslia 

D da 



" 




i\ 



i 



26 Farias dtitiguidades 

de Feramontaos , e Sao Miguel de Creximir , para le 
tratar das mais, que ficavao fora dq burgn diz afTim : 
* In eccUfis Autem alii s extra bmgttm f tnqmhtts Vimar*' 
ttenjis ecelefia jus obtinet patron ttas , &c m Quer dizar : nas 
outra§ Igrejas T foi4 do burgo , nas quaes a igreja de Gui- 
mareus tern direito de Padroado. 

4 ft pelo confeguirite os moradores defte burgo 
erao charaados burguefes de Gut maraens , como fe ve 
nas palavras feguintes da mefma conspofiqao : frittered 
itBum fait , tit (i bu gen fe* Piwaranenfei in qu&ltitne % quint 
dicmii fe hah-ere contra. Archicpifcopunt Brach+renC&n wtnfo' 
Uterint per fc , vtlper.cemnnpet amicos aneordtrs , prior \ 
& c monicp f*im iratenpts fine -offenft Arcbiipifcopi' JHVtnt eos. 
Queram dizer : alemdifto tratou-fe , que fe os burgus- 
ies de Guinnaraens na duvida , quedizem ter contra o 
Afcebifpo de B?aga , nao pod^rem por fi , ou por ami- 
nos comrnuns concQrdarfe o Prior, e Conegos deGui- 
maraens, os ajudem fern offenfa do Arcebilpo. 

j Foy feita e.fta compoficao em Benavente na Rra 
de 125*4 * no mez deOutubro dez dias antes das Ka- 
lendas de Novembro , que he no anno do Senhpr 
izi6. em vinte e tres dias de Oatubro , trinta e hum 
annos depois da morte d*£lRey Dom Affonfo Henri- 
ques , em yida d'SlRey Dom Affonfo , leu neto. E pot 
aqui vemosonome da pequena herdade Guimaraens, 
andar no bu^go do Mofteiro , e os moradores delle fe- 
rem chamados Vimaranenfes. Verdade he, que nefta 
mefma compofiqao (e nomea tambem Villa yintranen* 
(is, Nao fey fe era chamarlhe hora quinta , hora bur- 
go , fe hora burgo j hora ja villa \ porque ambos 
os nomes ferviao , pofto que o de villa muito rara- 
mente. 

6 E note-fe , que e't^ villa nao comeqou de ci- 
ma, quero dizer doCiftello parabaixo, como alguns 
dizem , fenao debaixo para cima , como fe moftra pe- 
lo que temos-dim, que he comeqarfe ella pelo burgo 
feito junto an M >(l?iro. O qual erronafceo depots que 
ElRey Dom Dioniz cercou Guimaraens , porque defde 
cntao chamacao cerca nova a debaixo , que elle fez ; 

e cerca 



De -fpQMtgual. Cap. VL 27 

e.cerca veJha a de cnna do Caftelio , e por razao da 
cefca Ihe chamavao tambem Villa velha: mas o certo 
he, que debaixo comecou , porque claramente conlta 
do-burgo feito em baixo junto ao Molteiro , e nad conl- 
ta dealguma habitaqao feitaemcima. 

7 G contrario ihe aconteceo , que aLisboa, a 
qua! Ulifles fundou nos lugares mais altos da monta- 
nha , como ainda eftava em tempo deStrabo, fegun- 
do elle 4\z , e foy defcendo para os baixos. E per eftar strabo Geogt t 
em lugar alto, nao devia de ler grande habitacao. De-/ i J* w/*l 
pois vitnos nella contender a grandeza do fitio Q Ct n Italiana ae 
a multidao do povo , e cada qua! deftas couias ficar ^"^ Bs '" 
vencedor?. Porque fepunheis os olhos na fua capaci- """ 1 ^ 
dsde, parecia , que nao podia haver tarito povo, que 
baftafle para a encher : e fe na c6pia do povo , parecia , 
que nao haveria litio tao capaz , onde elle coubeiTe. 
Das quaes excellencias Achilles Eftacio Author an ti- ^cbiiksStati 
go louvava Alexandria do Egypto fua patria , como pa- Mex ' l% hM 
rece por aquelle livro de Leucippe , e Clitophonte* mm °' 
que delle temos. 



GAPITULO VII. 

Que a Cidade de Lis ha he aquella mefma , que Stra- 

bo chama Ultffea contra alguns Authores Caf- 

telhanos t que dizem @ contrario. 

Titulo devariasantiguidades, quedeya 
efte livro j me da licenca para (er vario 
_ fern refpeito de propofito , porque nao e(- 
crevo materia continuada , que orequeira : mas nem de 
todo algumss vezes me aparto delle, fegundo pede a 
iucceffao do tempo, e das coufas. No Capitulo a traz fiz 
meri^ao de Lisboa, e por ella fer a principal Cidade de 
Portugal , quero aqui refponder a huma duvida acer- 
ca de feu fitio, e noma, que alguns Authores Caftelha- 
nos levantarao, com que Ihe tirad a gloria defnaftm- 

D ii dacao^ 





28 



FarUs dntipuidades 






daqao, e cutros penhores de antigutdade , que ate* ag<> 
.... rapofluio, 

Aitrekmi.v % NotQU Q Doutor Bsrnardo Aldrete Conego d« 
D.Fr4*eifc9 Cordova no Tratado daorigem da lingua Caitelhana, 
tmhumiivra e Dsm Francifco Fernandas de Cordova na lua Didaf- 
*hat*tdo oi- ca iia , que Uliffea , e Oliiipo , que n6s chamamos Lif- 
daftah* c 47, ^ Qa ^ £ a ^ ^iverfas Cidadss. O f undamento defta opiniao 
mraho ftgBn*hz o ieguinte : Strabo no Uvro terceiro de fua Geogra- 
joavsrjaoite phta elcrevendo oslugares da cofta de Andaluzia pro- 
fuouaccioti u csdendo de Poente para Levante depots defallar de Ma- 

li^nfti"* laca * ^ ue ne Malaga, e de Abdera , que dizemierAl- 
wnfo . $. mejf j a ^ ^2 e |j as p a j avras : j^ os Ik ^ar $2 mail altas da won* 

Oeeflume de f4n ^* f e v ^ Vhftea , na ifmti eftd o tempio de Minerva f c«* 
fdr at armas wo djferao Poffidmio y Artimidoro , e Afdepiacus Aiirleano % 
nos Templet oqualfoy Me'lre de Efcola em Andalnua , e fen hnma dif- 
dasCidades^ ^tipf daindfoens dayieiUs partes, Eftediz.^ auenotemph 
VtlrHifn'h de Minerva efljt& pendttrados es efcudos , e efporcem das 
°&£yfl»que n * os * eru rntmoria dat viagem dcVtij[es* Tudoiftohe de 

Antmor fez Sllrabo. 

mefmsemPa- 3 Daqui tomao argumento aquelles Authores pa- 

tu 'Smfy*™ ^ izer » ^ ue Uliilea de Andaluzia , e Lisboa de Por- 

MafiuL' tu ^ al » ^6 ditferentes Cidades * e Abrahao Ortelio* 

frogema de que elcreveo antes delles , na taboa de Hefpanha anti- 

Ay&ufi. ga, que anda no fim de feu theatro , aflenta Uliffea 

Outres m #» w * naquelle mefmo lugar conformea Strabo; e a Lisboa 

ZZutfZ'^zm Portugal, onde ellaefti. Donde (e iegue, que 

viidrias , como Lisboa de Portugal conf6rme a opiniao dos Gregos , e 

Ahxanii* em daquelles, que os feguem , ni5 foy fundadada por UHf- 

4m$\yma\it f es> nem ne u a e ft 2Ve templo de Minerva , nem nel- 

C fi*uLtb"m^ osekudos, e efpnrosns disnaos decides: porque 

i.Mach.t.4, tudo ifto attribuem a Uliffea de Andaluzia. 

rerf. t. 4 A efta duvida retpondemos prirneiramente , que 

to^os os Authores modernos , que elcreverao de Geo- 

^raphia , conrio Rafael Volaterrano , Joachimo Vadia* 

no, C'^r^lo Stephano de Refende , Damiao de Goes 

na fuadifcripqaode Lisboa^ e outrosmuitos entendem, 

UifTea , e . OHfipo he huma mefma Cidade, porque 

dizem,.que Strabo chamou aOlifipo, Uliffea: mas 

nenhum ponderou a grande diftancia deleguas, que 

ha 



DeTorttigth Cap. P1L 29 

ha de huma a outra , iegundo a fitua^ao deStrabo, 
nem de leu dito dao razad alguma. O que nos agora 
faremosj pois diffemos no Gapituloatraz, que a Ulif* 
fea deStrabo , he a melma , que a nofla Lisboa, 

j Os Authores , em que Strabo ie funda , fa5 
Gregos, como Poflidonio , Artimidoro , e Afclipiades 
Mirlearto , o qual tambem foy Grego natural de Apar 
mea chamada primeiro Mirlea , terra viGnha de Conftan- 
tinopla , como diz Volaterrano. E pofto que Stra- 
bo para corroborar feu dito diga , que Afclepiades te- 
ve Efcola em Andakizia , com tudo nao podia iaber 
tan to delia , como Pomponio Mela , que foy Hefpa- 
nhol, natural da mefma Andaluzia do lugar chamado 
Mellaria , como elle mefmo diz : 4t^t mdc nos fa- 
wn s , cin%sntt frete , Mtlfari*. 

6 Ede Author , o qual Borefceo no imperio de 
Claudto , efcrevendo os lugares daquellacofta diz , que 
os ditos lugares nao (ad nobres » nem reconhecidos, e que 
fo por guardar a ordem far a delles menqao : In Mis oris 
igwbilia fun* oppida , & quorum mentio t'anmm ad ordinem 
pminet. As quaes palavras primeiramente nao quadrao 
*a huma Cidads infigne , que tinha a XJUfles por feu 

fundador. E quanto aos lugares lad os feguintes : Fir- 
gi in fintt , quem Vir git anum vacant* Extra Abdtra ^ Snel j 
Htxi , Mcnob* i Malaca * Salduba , Laccipo y Barbafab, 
Quer dizer, o lugar de Virgi efta na enceada » que 
chamao Virgitana. E f6ra della efta Abdera , Suel , e 
mais lugares ditos. E na6 falla da Cidade UHlTea , pe- 
la qual naS paflara , te naquella cofta , ou perto della 
eftivera. E naofepode dizer , que ja era extinifo , por- 
que entre Strabo , e Pomponio M^la m^terao-ie 16- 
metite ctncoenta annos pouco mais , ou menos. Stra- 
bo floreiceo no tempo de Augufto , e de Tiberio , e 
Pomponio no de Giaudio. 

7 Plinio foy diligentiflimo Gsographo, e foube 
muito de Heipanha , porque e^-s^e sella devsgar* 
como diz feu {obrin-ho Pltnio. Efte Author efcreven- 
do os lucres dsquella cofta diz aflim : hem S<tl4*kdop- 

inm , Snel % Ma1af* 9 enm^fluvio fsdgrafwm, DtinMt- 

mbs 



Volattrri 
Grogr, /.*© 
Afamea. 



MeUL& cap 
citutt. 



Vide Strah*'- 
mm I, ?. f?s* 
ft medium 
fol, 6$. 
flin Junvr, 
Ep>ti- /. |. 

Epifi, fergtA- 
tarn. VI in, biQ, 
ttat,l t 3, 4, 14 



Farias Ami put da der 






\ 



1 1 
'fl< : 



3d 

noba -cum fiuvio, S j xti(irmi*m ccgn.mirie Jtt/iuw. Sexi, & 
jibdcr** Mttrgis B&nc&tinis. Oram tarn hnivtrfam crigtvis 
Panomm exi$imavit Marcus Agrippa* Quer dizer : item 
olugar debalduba, bu 1 , Malaga com o rio dos con? 
federadores. Depois fegue-ieMenoba ccm leu rio , S^x- 
tiflrmio de fobrenome Julio, S^xi, e Abdera, Mu gis* 
fim da Provincia de Andaluzia. A qual coda toda Marco 
Agrippa tern para fi , que trazia iua origem de Car* 
thaejinenfes. 

8 Hora fe Uliflea alii eftava perto de Abdera, 
porque a nad achou Plinio para fazer della menqao , 
como fez de tantos lugares ? £ fe a Cidade Ulii- 
fea era de ortgem Grega j como difte Marco Agrippa; 
que toda aquella cofta era de origem Carthaginenfe? 
Donde fecollige , que a tal Cidade nao eftava naquel* 
las partes. E nao le pode dizer, que ja em tempo de 
Plinio, e de Marco Agrippa era de&feita , porque Pli- 

Eufeb. in chr. nio , fegund > Eufebio , foy depots de Strabo cem annos 
annoD. in. pouco mais, ou menos , e Marco Agrippa foy contem- 

poraneo do mefmo Strabo , porque foy genro de Au- 

gufto Cefar. 

9 Ptolomeo efcrevendo tambem aquelies lugares 
nao achou alii Uliflea, nem della fazmenqao, o que 
fe pods ver no fegundo de fua Geographia no Capitu- 
lo terceiro. O qual depois de Abdera poem logo Por- 
to Ma^no , e depois o promontorio de Caridemo , de- 
pois Varia, e outros lugares , e tambem puzera Uli(- 
fea , ie alii etivera : mas pois a nao poz , he prova , 
que nap eftava alii. 

io Confidere agora o leitor a quern fe deve dar 
mais credtto , ie a Strabo com feus Gre^os , dos quaes 
16 MirleanoefteveemHefpanha, on a Pomponio Me* 
la Hefpanhol , natural daquella Provincia , e daquella 
cofta. Que q'.ianto a mim bafta-me n^ra ahtepor Mela 
a Mirleano , e a todos elles as palavras de Plinio referi. 
das porVadiano; nas quaes diz, que cada hum he di* 

Vai'itnusm i-gentiflimo Efcritor da iua terra : Stti quifiut fltnt tfja 

tTm!! l^tifflmus elf aunt. 

bfTnifn' ii De Plinio na6 fallo , porque notono he , que 

frexmio /. 3. etao 



Vtolom. 1. 
Gcogr. c. 3 




'DeTwtugd. Cap.FlI. 31 

crao os Romanos ienhures deHefpanha, e a ella vj- 
nhao contiuuamente , e muitos moravao nejla , ep"or 
ferem homens muito euriofos fabiao della tanto y e 
rruis , que os mefmos Helpanhoes. fi Plinio aiem de 
eftar nella , como fica dito , foy o mais diligente , e 
curiofo Efcritor , que Italia teve , como moftra feu 
Jobrinho na Epiftola allegada. Em tanto » que por eu- 
fiofidade da querer pouco cautamente , como notou Sa<- SaMtic.E*m., 
bellico , contemplar de perto o incendio domoiite Ve> 7' / " 4 ' ww 
iuvio , perdeo a vida. Pelo que difledelle o Poeta Pe- 'ZZ'lTT 

, r , . r j- _ . Fetrarchg net 

trarcha em bum dos leus tnuntos , que toy muito pru- Triunfodt la 
dente , e avaurelado para eicrever * mas pouco para fama e, 3 . 
snorrer j os vetios , em que ifto diz fad os ieguintes : 

Mentre to mrava: fuhito htbbi f cor to 

Quel Plmio Vor om fe juo vicino 

Al fcriver molto , almorir focoacorto. 

ii Tornando ao propofito , dizemos com tudo; 
jq.us. he certiffimo haver em Hefpanha humaCidade fun- 
dada por Ulyffes, e (er huma, e nao duas, como fe 
collige do mefmo Straho , o qual em outro lugar de straboGeogl 
fua Geographia diz aflim : Na Hcfpanha ft ve "tamhem 1 - }• L 
^Cidad^Vlyffea , tsmp 1 o de Minerva. , e out ros infini- 
te vtjiigiosd*viAgtmdLtVly(Jet % Ate aqui Strabo , o qual 
naqu -lias palavras diz a Gidade , e nao as Cidades : em 
que moftra fer huma fo_» e nao- duas. Mas como nem 
pelo noma, nem pelo fitio, que elle , e os feus Gre- 
gos Ihe da6, poftamos achar a tal Gidade, rtecefTario 
he foccorreremnos os Efcritores Latinos , que delta 
Provincia fabia6 mais , que os Gregos, para entender- 
mos oque fe p6de faber a cerca difto. 

13 Pomponio Mela efcrevendo os lugares da cof- MeUi,j, t , r, 
la de Lufitania , que he Portugal, diz aflim : Em hu- 
ma enfeada eila Salacia , eem outra U iffrppo , e a bo- 
ca do Tejo, rio , qu» cia ouro, e pedras preciofas ; 
fuas pstlavras fao eftas : £ft in proximo finu Salacia, in 
M.ero Vliffippo t 0- T#gi ofihm § amms Atiwm , gemwaf- 




• 






Vtol. Geogr, 






II 






32 V&YUi Antiguidadet 

que gentYan:is. Salacia he Li&Doa iituada na boca do 
rio Tejo, onome da qual manifeftamente clamatrazet 
iua etymologia de Ulyfles. 

14 Plinio efcrevendo os mdlmos lugares da cofta 
da Lufitania diz eftas palavras : Oppida memortbiliM 
d Tago , in or a , Oliffipo \ Quer dizer , os lugates dignos 
de memoria alem do Tejo na cofta , Lisboa. Olmpera- 
dor Antonino no feu Itinerario fane com quatro cami- 
nhos da Cidade Olifippone , tres para Merida, e hum 
para Braga , e affenta aquella Cidade aonde osAutho* 
res acima a fazem , e aonde nos vemos , que efta Lis- 
boa de prefente na boca do rio Tejo. PtOlomeo fitua 
Lisboa , que elle chama OHofippo , em einco graos de 
longura , e dez minutos : e quarenta de largura , e quin- 
ze minutos : e logo depois de Lisboa fitua a boca do> 
Tejo nos mefmos graos , 16 difFere em alguns minu> 
tos. 

i$ Defies Authores confta , que houve huma Ci- 
dade na Lufitania chamada Ulyflippo , ou Oliffippo fi. 
tuada na boca do rio Tejo , que he a que hoje chama- 
mos Lisboa, os quaes de nenhuma outra fazem men- 
^ao em toda a Hefpanha, que tivefte eftenome, nem 
outro firailhante 5 por ondeparece, que efta he a Ci- 
dade , que os Authores Gregos querem figoificar , a que 
chamao Ulyffea com pouc'a variedade do nome. So falti 
quern diga, que foy ella fundada por Ulyfles, affimco- 
rnojelles dizem, que foy Ulyffea. Onde primeiramen- 
te fe nos offerece Julio Solino, o qual tratando de al- 
gumas cou fas de Lufitania > dizaflim: Ibi ippidumUlyf- 
fippo ab Vlyfje conditttm : ibi Tagus {lumen , &c. Quer dt- 
zeri em Lufitania efta a Cidade de Lisboa fundada por 
MmianusU. Ulyfles j e efta orio Teio. O mefmo affirroa Martiano 
Capella : OJyfftpponem illicoppidum ab Vlyffe ctnditum fe-, 
runt. Ifto he : dizem, que a Cidade de Li>boa foy alii 
fundaia por Ulyfles: Concorda Santo Ifidoro nas Ety- 
mologias: Ulvptpm* ab Vlyfft condita , & nuncupate On- 
de figniflca , que Lisboa foy fundada por Ulyiles , e de 
feu n^me aflim chamada. - 

16 Confirraa tudo o acima dito a tradrqao de 

UTiUltOS 



Jul, S»h*> 
t.$6. 



J fid I. Otig 
J.tJiC. I, 




7)e Tortugal Cap. V1L 53 

nuiitos centenaries de annos lan^ada de pays para fi- 
Ihos , que fempte coniervarao os moradores daquella 
Cidade , e todo Portugal. E alem diflo o nome de Lif- 
boa corrupto de Oltfipone , e o fitio aa boca do rio Tejo, 
e finalmente o Caftello antiquiffimo , pofto em hum da- 
quelles montes> aondeella foy fundada, que atenif- 
to ie verifica nefte lugar , o que diz Strabo da fua Ulyfc 
fea , pofta nos lugares mais altos da montanha. O que 
tudo bem confiderado , claramente ie moftra , que Stra^- 
bo nao podia fallar da outra Cidade fundada por Ulyf- 
fes , e chamada de feu nome, e pofta na montanha , 
fenao defta » que osfifcritores Latinos em tantacon- 
f ormidade apontao ; porcjue conforme a elle mefmo , 
iegundo atraz moihey , e conforme aos rnefmos Lati- 
nos y nao havia outra em toda Hefpanha defte nome : 
a qual nao (e podia efconder a Strabo para dizer , que 
havia huma fo , fe onao entendera por efta, porque 
diflera , que havia duas , pois ja em feu tempo era bem 
conhecida. 

17 Strabo foy em tempo/ de Tyberio » e a Cida* 
de de Lisboa msndou huma Embaixada ao mauno Ty« 
berio , \6 para Ihe fazer faber j como coufa maraVi- 
Ihola , que em huma lapa da praya foy vifto , e ouvido 
hum homem marinho tanger com huma concha , ou bu- 
zio , e que era da forma j porque elle he conhecido , o 
que tudo efcreve Plinio. Do que fe collige, que ,LH m 1 
boa em tempo de Strabo era Cidade nobre, conhecida ffo'ulc.zu 
dos Imperadores , e do povo Romano, O mef mo Plinio 
diz, que foy municipio de Cidadaos Romanes , e cha- 
mada felicidade Julia, Ifto fe entende alera do proprio* 
e antigo nome , que tinha de Ulyfles leu fundador. Af- 
firn que pois Strabo difle em Hefpanha havia huma 
Cidade fuudada por Ulyfles t fallou femduvida defta; 
de que tinha noticia , e de que fallao todos Os Geo- 
graphos daquelle tempo, e defte , nem havia outra def- 
te nome, deque elle * e elles podeffem faliar, A qual, 
como tenho moftrado , ja era nobre , e depois foy no- 
biliffimo affento dos Reys de Portugal , e hoje «he a Me* 
Xropoli digniffima defte Revno. 

I d|8 Tra* 



P/>». hijl.nii} 




Far Us Anthttidades 



Vmcentium 



f 



! 



18 Tratemos agora do verdadeko nome de Lif- 
boa , e de fuas mudanqas. Quando os Romanos , aca« 
badas as guerras de Hefpanha , po(Tuira6 Lufitania 1 pro- 
vaveLhe, que o nome, Olifipo , que Lisboa entao tU 
nha, ja eftava corrupto : e a dim o deixarao em livros, 
e empedras , poftoque nos livros , porque fetrasladao 
pormuitos, o efteja rnais. Tenho hum Pomponio Me- 
la , impreflo ha cento e trihta annos , aonde fe le no 
texto Vlyfyo: q no Index Ulyfipo. Tenho hum Solino 
do mefmo tempo , em que fe le , OliRpone , e Pro; 
montonnm Oliftponinfc : e Ecjha QUftponsnfes, Plinio diz , 
Oliflippo. Pcolomeo , Ofoflipp* : Antonino Auguflo no 
Itinerario, O'lmfyu Sabellico , Author de mais decern 
annnos , Olifipo. E finalmente os marmores de Lisboa 
do tempo dos Romanos , que vio Andre de Refende ». 
como elle diz , nas notaqoens do feu Vincentio , tem 4 
OlUipOj por fete letras fimplices, 

19 Daqui fe enteude, que onome de Lisboa $ e- 
aortografia delle, em tempo dos Romanos era, Olifi? 
pty porque aflim o tern os marmores antigos , com que 
concordat) al£,uns livros , e outros' difcordaS muito 
pouco porcorrupqao. Se efte nome lhe foy polio lo^ 
go , quando foy fundada , na5 fe pode affirmar. An- 
tes cuido, que do tempo deUlyfles leu fundador ate 
ellavir empacifica poflefla6 dos Romanos, ofeu no* 
me efta* \i depravado , e corrupto : como vemos, que 
aconteceo a muitas Cidades , cujos nomes do tempo dos 
mefmos Rommos ate efte noflo , padecerao alteraqao. 
Ebora fedilenopriacipio, depis filbora, agora Kvo- 
ra. Citobriga , depots Cetobria , agora Troya, que ef- 
ta defronte de Cetuval. Portucale , depois Portugale, 
agora Porto* Pax Julia depois Paca , agora Beji. Pax 
Augufta* depots Biux Augus, agora Badajoz. Hilpa- 
lis, depois Spalls ^ agora S^vilha , e muitos outros. 

10 Peloque conje&uro , que os Efcritores affiifl 
daquelles livros, como das pe Iras, efcreveraeaquelle 
nome, como entao andava navoz do povo , mas dit- 
ferente, e altera lo do que foy no priacipio ; porque 
q tempo i que em tudo faz mudan«ja , a devia fazer 

nelle 



T)e TortugaL Cap. VII. 3 5 

nelle defde a deftrui^ao de Troy a , que fegundo'Eu* &/<#** <V» 
febio , foy no anno da creacao do Mundo 4020. ftt& c * r *?v " 
Auguito iujeitar , e pacificar de todo as Htlpa>feas|?^'*" /f 44? 
que foy cerc3 dcs annos da meima creacao 5170, em w ^*- 
que fe meteraS mais de mil e cem anncs, aiiim pe- 
la conta de Eu febio , ccmo de Paulo JDrofic : come Vaui Cref. u 
vemos, que fez nelle mefmo daquelle tempo de Au- »• ■«• n • «H 
gufto ate onoffo. Porque le entao fe dizia , OUj,\o , 6ti,xl * 
depois fedifle, Vljxipma^ eagcraZ.^04: fegunda, e 
e terceira corrupcaS , que arguem a primeira. As quaes 
nao tira6 , que efta Gidade fe chamafle antes dellas, 
Olidpo : nem a prefumida corrup^ao de OURpo^ que fe 
chamafle no principio por outro nome mais chegadoao 
de Ulyfles , que a fundou. 

a i Ifto digo j porque alguns vendo o nome , Olu 
%, diifimilhante do de Ulyfles > ia Ihe andao buf-; 
cando outro fundador. E por efta razao necetfario he, 
que Ihe buf quern tresj hum, que digaccm Olifipo ^ ou- 
tro com Vlyxipona , outro com Lisbon , porque ja todos 
eftes tresnomes fao differentes. De outra maneira o^// w „,, , tf , 
faz Solino , que chamando a efta Cidade j Olifipo ( por- ' s 

que Olilpone he erro r pois diz , Fromonmium Olifipo- 
mnfe , e yEqu&OlifycntnJes) affirma com tudo , que foy 
fundada por Ulyfles. B Strabo Grego , achandoefta fun- stmbeda veri 
daqao de outro Grego , emmendou-lhe a corrupcao : e/ 4 * lM/, ' 4,,-< # 
reftaurando-lhe o nome , e nelle a memoria do (eu fun- f uen rf ™? 
dador Ulyfles, chamou-Jhe Vlyjfea , efcrevendo eftes/ 3 ;/ 
dous nomesi t;/^, eW^«, pelo modo, eletras, ' 
com que aqui va6. Onde primeiramente fe deve no- 
tar , que a corrupqao na6 baftou para vStrabo duvidar 
do fundador. E quanto ao nome, quefhepcz, cuel- 
le o tinha por proprio j ou Iho quiz reformar fegundo 
leu entendimento. 

ax Parafufe agora fobre iftojoao de Mariana, eMrimumi 
e adivinne outro fundador aLisbcapcrdilcordaro nc.hip.de H,fy+ 
me, Olifipo do de Ulyfles; e negue tsmbem a vinda'- 1 -^ 1 ^ »* 
defte Principe a Hefpanha contra Strabo , e Solino /*• 
Authores tao graves j eantigos, quetao claramenteo 
dizem : que eu creyo Hie fora mais homofo deixar o 

E ii f unda* 




1 







idem I, f, c, 

if. 



Rtftaiius in 

&pift, aiKe* 



36 V ayim Antiguid fides. 

fundadot c?rto de Lisboa , e averfeuar o incerto de To- 
ledo, Cidade Mhtropoli de Caftella , na qual elle ef • 
creveo a (ua hiftoria, e junto da qual nalceo j e a que 
femoftra muito afteiqoado nos gr tndes louvores, que 
Iheda: porque defejamos (aber aonde o ArcebifDO D. 
Rodrigo achou os dous confutes Tolemon , e Bruto 4 
itiium etnon; fundadores della , cento e oito annos antes de Julio C2- 
Toitu*,. far tyrann i zai - a [^ ep# R omana , a qual averiguaqao 
tambem 1-he fervira para a materia de feus louvores, 
Qmintiu hji. porque o fundador he como pay da Ctdade , sonde elles 
?W*hCi9» devem comeqar, como enfma Qjiintiliano. 

CAPITULO VIII. 

Da(igmfica$ao da Era : quando come f oh cfla mami* 
ra de conta y e for que caufa. 



A 



Lgumas vezes falley na Era ; e no exc«f- 

fo de annos , que precede ao Nafcimento 

— de Chrifto. Acha-fe a Era nas efcrituras 

ptofanas antigas, letreiros de fepulturas ; eemmuitos 

dos fagrados Concilios , da qual ainda nefte tempo al* 

guns ufao em Portugal mifturando-a com a conta do 

Nafcimento deChifto. Serve pafa termos conhecimeni 

to do tempo, em que as coufas fe fizerao , ou aconte- 

cerao : oqual he o nervo da hiltiria , elume de tudo,' 

oque ella trata. Rpareceome razao, que' o que fabe<« 

mos por ella das outras coufas , foubeflemos tambem 

della pela via , que nos for poifiyel : quero dizer o 

tempo , em que comeqou , e que caufa houve para iffo,' 

s^fw^re/e.eprimeiro que tudo , que fignifica. 

rnto ?or v/fto 1 Genefio de Sepulveda diz , que Era he numa 

tom.i.Prztmb. abbreviaqao deftas palavras: Awm erat Auguffi Cafarjs. 

eiX1 ' Que os notaries punha5 nas efcrituras , e por abbreviat 

viera6 a dizer A. E. R, 4, Ctf. E por tempo ajuntandofe 

*^'J* M tt ';eftasletrasrlcoue^r4 C^Wj.Ifto hepura fic$ao deSepul- 

Xwtatli. 'veda , porque comp diz Car deal Baronio , os Efcrivaes 

othb. - nao 



DeToftagaL Cap. Fill. %i 

nao havia6 de dizer , Anno era , fenao Anno he, E ac- 
crefcenta» que quando a Era comec,ou , ainda O&a- 
viano nao tinha o nome de Augufto. 

% Santo Ifidoro fente , que era vem de Ms $ La- $*" toy** 
tin© , por raza6 de certamoeda de tributo , que fe pa« /,5%c ' 3*s 
gava a Republica, que parece era de metal : eque pa- 
ra ifto ie efcreverao todas as pefloas do Imperio , por 
mandado de Augufto Cefar. Mas na6 confta de tal tri- 
buto , falvo do que foy n® tempo , em que nafceo 
Chrifto Noflo Senhor i que fegundo Paulo Orofio , e Paul. Orof. 
mais particularmente Eufebio, foy no anno quarenta h jfi- f* 6 ■* , *» 3 
e hum do Imperio de Augufto, e trinta e fete depois do f^f^jjj- 
principio da Era. _> 4I . ugui * 

4 Covas Ruvias diz que Era fignifica numero cev. Ruuvati 
de annos, equer dizer *>£ta Geferls milhjjima , he tan* •/•i«*.n §.j. 
to como numero milleffimo dos annos do Imperio de 

Cefar. 

5 O Doutor Andre de Rerende perguntadodifto ^ eud ' a t ud ' 
peloVafeo, refpondeo , que Era ., por authoridade de e £ t u ™ ' * 
Lucilio he humarigura fignificativa de numero. Ou fe- 
gundo Faufto Bifpo Regienie no \\vto do Eipirito 

Santo, he huma fupputaqaSj que nos dizemos, con- 
ta. £diz mais, que ElRey Dom Affonfo ofabio cha- 
ma firaafua computaqao dos tempos, i- 

6 Anabrofio de Morales , o qual efcreveo depois, " l 9 
djz , que Covas Ruvias, Vergara , e Refende derao na dtUgemrat 
Verdadeira (ignificaQao da Era, eaffim afftrma elle, que j,i/?.^sj, 
era de Cefar j quer dizer conta , que he defde o principio 

do fenhorio de Augufto em Hefpanha. £ bafta ifto acer- 
ca da fignifica^ad, 

7 O tempo , em que come^ou efta conta de GsfarJ 
foy quando pela partiqao $ que os Triumviros fizerao 
do Imperio , as Helpanhas ficarao com Odlaviano ,qua- 

tro annos depois da morte de Julio Ceiar. E aflim o diz *'/»* &rt 
Refende, Sepulveda, Morales, etodos , e foy ifto trin- /'""'*'"* 
ta e oito annos antes do Nafcimento de Chrifto* 

8 A caufa # que houve para os Hefpanhoes come- Vafeut he* tit. 
^arem daquelle anno a conta dos feus , foy fegundo Re- 
iende, potque entaS Jicarao as Hefpanhas no gover- 

no 



38 P arias Anttguidades 

no de Ottaviano , equizeraoliionjeailo , como diz S> 
pulveda, e Vergara. O meimo affuma Morales dizen- 
do, que por Augufto fer entao ienhor de Heipanha, 
por iffo os Hefpanhoes tomarao daquelle anno a con- 
ta do tempo. 

9 Ifto aflim pofto , e recebido dos noflbs Hefpa- 
nhoes fern contradicqao # que eu faiba , entra o Cardeal 

Bam inmf. *p efar Baronio , que achou em Vafeo, e Morales efta 
Martyr. Rom. duvida tratada , ediz, que fe efpanta enganarem-fe in- 
if«*».o^ genhps excellentiflimos , tendo para fi % que a parti- 
$ao dos Triumviros fe fez no quarto anno do Triumvi- 
rato. B traz por authoridade de Dio Caflio , que elles 
fizerao duas partiqoens, a primeira noprimeiro anno 
do Triumvirato , fendo confules Lepido , e Planco , 
anno da fundaqaode Roma 712^0 qual anno diz , elle, 
que ie coftuma contar pelo primeiro do Imperio de Ge» 
far, A fegunda no terceiro anno do Triumvirato fendo 
confules Galvino ; e Pollion , anno da fundacao de 
Roma 714. depois da guerra Perufiana , na qual divi- 
fa 6 fica'rao com Oftavio nao fomente as Hefpanhas > 
mas tambem as Gallias , Sardenha, eOalmaciat 

10 Daqui argumenta Baronio , que nem a pri- 
meira parttcao , nem a fegunda quadrao ao tempo .da 
Era , a qual elles fuppoem , que comeqou no quarto an- 
no do Triumvirato. Porque da primeira ao Nafcimento 
deChrifto (ao quarenta e hum annos, e daiegundafao 
trinta e nove : nad* devendo de fer do anno da Era ao 
do Nafcimento mais j que trinta e oito annos. S com 
ifto ha porconfutado, o que osnoflos dizemdacaufa 
do correqo da Kra. 

1 1 Pafla a diante na inveftigac,ao da verdadeira cau- 
fa , e diz, que efta (etira do rnefmo Dio , oqual ef- 
creve , que no confulado de Marcio Cenforino » e Cal-, 
vjfio Sabino , que he o anno quarto do Triumvira- 
to , aonde a Era comeqa , rebellando em Heipanha os 
povos Cerretanos, Augufto Cefar osfuieitou por Do- 
micio Calvino , o qual levou taogrande fomma de'di- 
nhe>o de Hefpanha , que baftou nao fomente para def- 
pez&s doTriunfo, mas para reftauracao doPalacio de 

Roma? 




t>€ Toringah Cap. Fill. 39 

Roma. E como efta contribuiqao fofle tao larga , e fo£ 
fe feita no anno ; em qua a Era comeca , perfuadio- 
le BarOnio, que della , como de couia muito memora- 
vel, comecarafi os Heipanhoes decontarteus tempos, 
e que defte.tributo fechamou Era. 

12 Mas nao me parece eita fua opiniao tambem 
fundada , nem a dos naflos tao mal, como elle cuida. 
Porque quanto a dos noflos, elle meirno diz em ou- Barmi u% nol i 
tro lugar, que Eufebio conta os annos do Imperio de^r. Rom* 
Augufto logo depois da morte de Julio Cefar , hum anno *** x s» P«&% 
antes do Triumvirato : e fegundo ifto a parties do 
Imperio feita no terceiro do Triumvirato , con for me a 
Dio , vem a fer feita no quarto do Imperio de Agufto j 
fegundo a computaqao de Eufebio , aonde os noflos 
dizem , que comeca a Era , e affim a opiniao de Re- 
fende efta em pe. 

15 Quanto a de Baronio fundada no dinheiro, 
que fe levou a Roma , tern objeceo ens , que a fazem 
pouco^ provayel. Porque efta Provincia era t?.6 rica , 
•que vinfaao a ella os Phenices, como a huma feira de 
prata a carregar defte metal , atroco de outras merca- 
dorias , e depois de carregadasas naos , tiravao o chum- 
bo das ancoras, e em feu lugar punhao prata, como 
diz DIodoro Siculo. E Strabo conta , que quando os "DUd-sieuh 
Carthaginenfes fizerao guerra em Hefpanha, fendofeu 7 - '• '**- 
Capitao Barca, acharao , que os Tudetanos ufavao dz Straho '; /• 
manjedouras , epipas de prata. E Plinio affirma ,- que* 3 ** 1 * ' % " 
os montes feccos , e efteriljs de Hefpanha erao por nin. m, i 
forca fertiles de ouro pelo muito , que delles fe ti- 33. <4. 
fava. 

*4 E a (Tim 'os Romanos depois que conquifta- 
ta5 efta Proviaeia , e fe flzera5 fenhores de feu ouro , 
e prata » e accreicentarao tanto em fua potsncia na opil 
niao das gentes , que o povo Hebreo fe moveo a gran. M 
gear fua amizade, como efta* efcrito no primeiro Hvro^f? * 
dos Machabeos. Os quaes Romanos entre os ordina- 
lias tributes , qas della tiravao , erao alguns tao ex* 
ceflivos, que Mirco Marcello levou de Celtiberh to. . . 
aente feifcentos talsntos , que pela conta de Bu^eb, 2m! t 

quQ 



u 

1 









40 

que ifto 
dos. 



Fdrids Jfitiguidactes 

refere , fad trezento* e feflenta mil 



cruza- 



\$ Pelas quaes razoens nao podia o que fe tirou 

ho anno quarto do Triumvirato dos povos Cerretanos, 

Plh. btf. nm. que habitavao pelos montes Pyrenees , fegundo Plinioj 



Tragus I 44. 



%o[eph it 
EmtMlM. 



por grande que foffe , efpantar a toda a Hefpanha pa- 
ra del le fazer prindpio daconta de feus annos. Princi- 
pal mente fe fe confidera , que os Hefpanhoes daquelle 
tempo erao ricos deouro, e prezayao-fe dido , como 
diz Trogo* E os mefmos Cerretanos o moftrao ,- por- 
que ainda que @ (eu trato era vender prefuntos $ que 
faziao , de que Strabo da teftimunho , com tudo nao 
podiao pagar tao grande tributo , fenad fendo ricos. 
Alem ditto fe o tributo fe lanqara em toda a Helpa- 
nha , mats aballo, e noticia rlzera , mas lan^ou-te na 
peorj e mais remota parte, ou para melhor dizer na 
ourella, elimites delia , que fae os Pyreneos, e pot 
ventura » que (6 os]que o pagarao , o fouberao. Tam- 
bem parece , que fe a Era daqui procedera , fe houve* 
ra de dizer ah ^ra j como a creation* mundi , abVrbtw 
dita , d Chrifto nato , e na5 fe acha , que de outra ma- 
neifa ie diflefle , fe nao , Er*» 

1 6 Jofeph Scaligero tern , que Era fignifica o nu- 
mero f e que efta conta procedeo da reform qao do 
anno de Julio Cefar, efecomeqou decontar dooitavo 
anno da dita reformaqao, que elle ehama t ab Pill, an- 
no JultAtto, e$ fegundo elle, vem'a fer trinta eoito an- 
nos antes do Nafcimento de GhriftO. Refere mais, 
que a. Era nao foy fomente dos Helpanhoes , fena5 
tambem dos Africanos, Francezes, eltalianos. Ambro- 
fio de Morales , que elle vio , e allega , tinha dito , 
que os Africanos , e Francezes tambem contaraS pela 
Era , porfelhes pegaradosHefpanhoes 2 e Scaligero 
traz de novo os Italianos , e em prova ao Papa Leao; 
que ufou delh em luas Rpiftolas. Mas nao paflou da- 
qui $ e conclue t que nifto ha mais , que inveftigar, 
e que elle fe contenta com dizer j p que ninguem ate 
agora difle. 

17 Primeiramcatc em dizer » que a reformats 

de 



*. 



QeSPortugaL Cap. J? 111. 41 

de Julio foy cauia da lira , engana-fe. Ja Rotnulo ti- > 
nha ftito o anno de dez mezes , e Numa Pompilio lhe 
accrefcenfdu mais dous , Janeiro* eFevereiro, como 
affirmaS Plutarco , e Alexandro de Alexandro , e nem py ; n ^ m 
os mefmos Romanos fizerao lua ccnta deltas ordena- /«, & aw/ 
^oens do anno j e affim a nao fizerso , e menos ra- -dkx.ab A\ eXy 
zao havia de a fazer da reformacao de Julio Cefar: t DGen - L h 
quando a fizefiem , tambem a deveraS fazer , e ecm mais c ' * 4 ' 
razao , da de Augufto , que tambem reformou o anno, 
pois por fua reformaqao perieverarao depois os tem- 
pos , como diz Solino , e Alexandro de Alexandro. sdm. c. $ 
Mas de nenhuma fizerao ccnta, ccmo vemos em Li. AUx -'.*5 
yio , Kutiopio, Orollo , Aurelio Victor , Ctfiicdoro/'^ 
e outros , que contao da funda^ao de Roma , e pot 
Confutes fomente* 

18 Tambem fe engana emdizer, que a conta 
da Era come^ou doannooitavo dareformscao de Ju- 
lio refpe&ivamente j porque fe aquelJals nacoes come- 
^a'rao decontar naquelle anno , que elJe chama cita* 
vo , com reipeito a Julio , e a fua refcrmaqao , hou- 
verao de dizer , Era ofttva , eellas diflerao , .Era pri- 
ma , e foy dentro no tempo do Jmperio de Augufto; 
em que na6 ha refpeito algum de Julio. Logo algu- 
ma coufa notavel houve naquelle anno , e do Impe= 
rador Augufto, poronde ellas fe moverao aprincipiar 
a tal conta. Faz por iflo , que quantos ate agora ef- 
creverao da Era defde Santo Iiidcro , que fOy OPri-;^.R vS , 
meiroj a fazem de Augufto, e nao de Julio. t.s'.c h'. 






i 



CAP!, 




Baron, in 
hpit. Bifc. 



4* Farias dntiguidades. 

CAPITULO IX. 

Da opiniao do Author icerca da Era , e porque 
come$arao aqutllas napens efta coma de- 
pots de quatro annos do Imperio de 
Augufto, 

S Authores referidos fuppoem , que a con- 
ta da Era foy particular, e propria dosHef- 
parihoes , eaflim huns dizem , que a caufai 
dejlafoy , porque depoisdaparticad Trium viral , Hef* 
panha fkou fujeita a O&avio Cefar : e Baronio diz> 
que foy o dinheiro, que felevou de Hef panha a Roma 
noquartoannodo Triunivirato, Jofeph Scaligero quiz- 
Jentir,queos Hefparihoes comeqarao efta conta naquel." 
}e anno obrigados , e vencidos por Domicio Calvino : e 
nao ley como difte ifto, porque Domicio id aos Cerre- 
tanos venceo , como atrazdiflemos ; mas feria por fun- 
riar fua opiniao , daqual logo ie apartou advertindo 9 
que nao iomente os Hefparthoes contarao pela Jbra , mas 
tambem os Africanos , Francezes, e Italianos : e com 
ifto, ecom a reform aqao do anno de Julio Cefar , que 
fez cawfa della , fe partio do propofito bem contente. 

2 Mas onoflo parecer he , que efta conta nao 
foy particular deduas , nem quatro nacoens , fenaoge* 
neraliffima ; e aflkn dizemos , que contarao por ella nao 
fomente Hefpanhoes , Franctzes s Cartaginenfes , e 
Italianos, mas tambem G re gos , Traces , bithvniwS,- 
Armenios , Judeos , Egypciosj e finalmente todo Orien- 
te , e Occidente. 

3 Ifto fe ve nos Cmcilios antigos : porque o 
Ephefmo I. celebrado em Ephefo de Jonia , Provincia 
de Alia menor ? fendo Papa Celeftino I. tern a Era de 
468. acharao-fe nclle duzentos Bifpos , (egundo os to- 
mos dos C mcilios , mas fegundo o Cardeal Baronio 
trczentos pouco mais , ou menos , e entre elles Aca- 

cio 



DeTortugal Cap. IX. 43 

cio Bifpo iMelitino de Armenia , Cyrillo de Alexandria BdUtm. u 
do Egypto , Juvenal de Jeruialem, e tres Legados ao E P U - c *»»<>*. 
Papa , e outros de varias partes , e nacpens. per Baldainiim 

O Calcedonenfe celebrado em Caleedonia Cidade de ■*' 'j 4 c ' ^ 
Bithynia , Provineia damefma Afia , fendo Papa Lead 1. 
e Imperadores Marciano , e Pulcheria Augufla , ferun- 
doBaronio , tem a Era de 488. Acharae-fe neJJe ieif- 
centos e trinta Bifpos , os rcais delles de tcdo Ori- 
ente. 

O fegundo Garthapinenfe , celebrado dcs tempos 
do Papa Siricio , tem a Era 0*6428. 

O quarto Carthaginenfe^tem a Era de 436. Acha- 
ra6-Ie nelle duzentos equatorze BHpos Africa nos. 

Oquinto Carthaginenfe tem a Era de 438. Acha- 
ts* fe nelle letenta e tres Biipos. 

O Valentino de Franca celebrado em tempo de Sa5 
Damazo , tem a Era de 4*3. Achara6-fe nelle trinta Bif- 
pos Franceses. 

O Arelatenfe terceiro de Franc^ycelebrado , fendo 
Papa Lead) I., tem a Era de 46*1. 

ORhegien(e ( de Franca em tempo do Papa Xif- 
to III. tem a Era de472. 

OConcilio Toletano III. feito em Toledo , Cida- 
de de Hefpanha , tem a Era de 617. Acharao-ie nelle ief- 
lenta Bifpos Hefpanhoes , pouco mais , ou menos 

O Toletano XIII tem a Era defii. 

O Bracarenie II. de doze Bifpos , tem a Era de 
01 o. • 

4 Suppoftoifto, manifefto he ; que nem pelas 
Heipannas ficarem no governo de Oclaviano Cefar 
nem pelo dinheiro dos povos Cerretanos , que (e Ievoii 
a Korna , femoverao todaseftas naqoens a contar peia 
ara de Lefar. Mas alguma caufa houye geral , e corn- 
mum a ella com Hefpanha , dequqTfto nafceo. A'cer- 
ca do qua! f e da fignificaeao do nome da Era,direy meu 
^arecer; e quango o Leitor onao houver por acertadn, B m .) e ;, 2 
ajuntaloemos aos outros, que atraz refutey , paralhes ^^ 5 i. 
fazercompanhia. 3 ,F iv.JW//. 

5 Nonio Marcdlo tratando da Era diz, atfm: ^tZZXt 

* u nttmeriuttrad. 




Hufeb.inChtr 
anno MuimH, 

J 'JO. 

Cr initial. I. 

de poeeh lal. 

e. 9» MarcelU 

h cit. 

HermoLfuit 

in Plin.Cafiig. 

Htfmi. in 
Antifc lilt. 4, 



Vafeus torn. I 
&tno Din 77 1 



Paria* Jntiguidades 

nHmerinmA, querdizen a Era iiequalquerfiaura < aue 

ii J j ?J tao fi sn!ficava numero , porque Lucilio 
Aululo P em 1°™ MirCe,I °' falla na fera ' e precedeo J 

■Cri&ta H?f ?? P ^ C ° m ° 3 Va r T eai Eufebio > e Pedf ° 
Uimto. Ha-ie de efcrever iem H , e com dipthoneo , 

como a efcreye Mircrilo , Hermolao , e Refende. A^e 

de Gefar. A caufa parece fer , que no principio f e di- 
na . v£rMj,jrim4 , utlficmvda tnnorum Imperii Clares e 
por ; curfo do tempo fe deixarao as palavras , nnnirum /«*, 
pent charts , por brevidade , e por coufa entendida. Co- 
Tr^a * Ve^^mos pelos annos do Nafcimento 
de wintto, fe deiza* algumas vezes as palavras , anno 
l^ v al c lmen , t0 deCh ^?.> prindpalmSnte em' cart™ 
de 161 ' S m0S: de Llsboa tantos dias detal mez 

6 Mas tenho por mais certo , que nunca nefta 
conta andou nome de Gefar , nem de Augufto , porque 
Vafeo traz hum letreiro de huma fepultura com a Era 
a mais antiga memona della , que tenho vifto . que 
heofegumte; * H 

Behlla HifpanaJervA JESU ChriQi, requievit in 
Vomtno , obtit ara 115. hoc efi } anno Domini [eptua- 
gefmojeptimo. 



r c ° ifto ta ° vifinno do tempo de Auguf- 

to Cefar 5 nao traz nome feu ; por onde parece , que 
no por defta conta fo fe intentou fazer contar os an- 
nos de todas as nacoens pelo do Imperio de Auguftof 
comecando de tal anno precifamente. Diz Vafeo, que 
elte letreiro foy achado perto deBifcaya j masomodo 
da conta delle poraquellasletras numeraes, nao he an- 
tigo fenao moderno : parece que o trasladador nao cu- 
rou de trasladar formalmente. Tambem fe ve porelle 
quao falfa heaopiniao deSepuiveda, que dizia , que 
no principio fe diflera : Annus er*t Augufii, E o melhor 

de 



©^ Tortugd. Cap. $2u 

denotar he a antiguidaue da Chriitandade dos Help'a 
imoes. 

8 Acha-fe a Era porta diverfamente , hora com 
verbd , hora com propoficao , e as mats das vezes ablo- 
hitamente. OConcilio Bracarenfe fegundo a poem com 
verbo , defta maneira : Regnant t Domino nojiro J ESV ChrU 
fio t currcnte Era PCX. lito he, Reynando Noflo Senhot 
JESUChrifto, correndo o numeiro feifcentos e dez, 
dos annos do Imperio de Cefar. Huma carta devenda 
dedona Au{eada,amad'£lRey Dom Aftonfo Henrique?, 
que vay a diante , a poem com propoficao do modo fe- , 
guirite : faSia Roma menfe Aprilis era M.Cx A\ V. A doa« 
$a6 do teltamento da Condefla ' dona Muma dona a 
poem abfolutamente , Era DCCCCz X. fjj. 

9 O exceflb , que ella leva ao Nafcimento de 
Noflo Senhor J&SU Chrifto, iao trinta e oito annos, 
porque a Era comeqou quatro annos acaSados , depots 
de Odtavio Cefar fer lmperador , fegundo os conta Eu- 
febio Cefarierife , e Ghrifto Noflo Senhor nafceo dalli 
a trinta e oito annos: ifto he aosquarenta e dous do ^ ;„chf 
mefmo lmperador, pela conta do dito Eufebio , efegun- P ^/,^. ^ 
do Paulo Orofio nafceo no fim daquelle anno quarenta i' 7 ,. (lJl 
e dous , em vinte e cinco de Dezembro. E affim pcfta a 
Era de Cefar, ediminuindo trinta e oito artnos, refta&V 
os annos do Nafcimento do Senhor. 

10 A caufa , que houve para aquellas naqoeds coi 
rtiec^rem a conta da Era quatro annos acabados depois 
da morte de Julio Cefar tio de Augufto , que vem a fer 
do quinto anno inclufive do Imperio do mefmo Auguf- 
to , nao fe fabe. Mas%mim meparece, que ftfy, por- : 
que naquelle qmnto anno cQmec.ou ©dito Augufto a 

fer fenhor de Roma cabeqa do Imperio, e juntamente VUn htfiet.17. 
de Italia, a que Plinio chama'governadora do Mundo : c - *?« 
e em effeito nao tornou mais atraz , mas antes pattern 
adiante ate o fer do Imperio todo. 

11 Para mayor deelafacaodigo, que Julio Cefa?<c- 

foy rnorto nosnno da fundacao de Roma 710, como f . ~ ; 
diz Paulo Orofio , e confta da Chronologia de Tito Li- 6 aH c \^ 
vio , que anda no fim de fuas cbras teita com grande d> cb'^noi *»»* 

ligencia,t/r^7io. 




■ 




ligencia 

Fdftos. 



Varhs jJntipudaits 

eerudicad , e de Unuphiio Veronenfe nos 



fne.\ 



Eitftk. I. eh. 
Jul. obf. in 
Lepjdo i & 
"Blanco i 
C ajjiod, /. eh 



Julius obf. in S^P- » neite meimo poem Julio Obfequente , Plutar- 
ch p<w/* f e^ cno : j.e Uafliodoro , a primeira partiqao Triumviral, e af- 
Hrnk eiut. am a cruel prefcrip^ao dos Senadores , e Gavalleiros Ro- 
catTtcu ^ 3n ? s i Con ^ rd \ Soli ^emdizer^quenoanno defies 
S' "^r^" 16 ' en * rou r Au g uft o no Principado, no qual elle 
tambem foy Con(ul ; e Eufebio , Eutropio , e outros d.i- 
qui contao feu lmperio. 

rj: No anno feguinte, que ha o fegundo doIm«: 
peno de Augufto por efta conta * e da fundaqao de Ro- 
ma 712, em que forao confutes Lepido, ePlatico, con- 
tmuouTe a priori p<;ao , ensile p >em Eufebio amor* 
te deGicero: eaffimjulio Obfequsnte, e a Chronok* 
gia allegada, as guerras d^Grecia , com as mortes de 
Bruto, e Gaflio. 

14 No anno feguinte , que he o terceiro do Impei 
riode Augufto, e da fundaqao de Roma 715, em que 
forap Confutes Publio Servilio , e Lucio Antonio irmao 
de'.M^co Aftfonn* depois de partido Marco Antonio 
deGrecia para o Oriente f eO&avio para Roma , teve 
O&avioguerra com o Conful Lucio Antonio 1 e o ven- 
Fetuti. 4 \c i: ceo em Pecuja , como conta Floro , Suetonio * e £u- 

Suct^Aug. Uopi0f 

15- No anno feguinte, que he o quarto do Impe- 
rio de Augufto por efta conta , e da fundaqao de Ro- 
"l a ^.I4» er^q-ue fora6 Confutes Cneo Domicio , e Afinio 
Pollio , fegundo Cafliodoro , eaChronologia allegada, 
yeyo Marco Antonio do Oriente com grande armada a 
Italia induzido de Fulvia fua muiher , contra O&a- 
vio Celar , mas ^diz Plutarcho , que os amigos de am- 
bos 05 Racific^rao. Entao rjzerao a fegunda particjao do 
Imperio, como dizomefmo Plutarcho: aAntoniode- 
rao o Oriente, comec.ando do mar Jonio: aO&avioo 
Pccidente , e a Lepido a Africa. 

16 Epa? 



butrof, I. 7. 



flat, in An 
ton. 

PHh* in An' 
ten' 



7)e 'Portugal. Cap. IX. 4.7 

16 Epara mayor firmeza de concordia deu Octa- 
vio iua irrpaa O&avia por mulher a Antonio, e ambos 
fefora&a Roma celebrar eftas vodas. Onde eftes dous 
Capitaens eftiveraS alguns mezes muito mal fofftidos 
do povo com perturbacoens , e morte de nvuitcs;, co- 

mo efcreve Sabellico : ate que Antonio fefahio de Ita. $*M. E$w t 
Iia com iua ..mulher O&avia , e huma filha , que jatinba *•*• 8 * 
della, efefoypormar aAthenas. TudoiflohedePIu- 
tarcho. viut.itiAa. 

17 PalTados os primeiros quatro annos do Impe- W ** 
-#ts deAugufto Cefar , de,pois que Antonio fe foy para 

At henas , que foy no fim do quarto , ou ptincipiodo 
quinto, e Roma com Italia ficaraO livr.es* e defaflbm- 
bradas : comec.ou Ceiar a let .unico lenhor dellas, e 
dalli por diante foy fempre accrefcentando fua potem- 
cia , e vindo as partes do Imperio ,-•• primeiramente ven- 
cendoaSexto Pompeyo j e tomando-lhe-asllhas, que 
tinha , que eraoSicilia , Corlica., e Sardenha, fegundo 
Sibellico. A Lepido privou do Exercito , edaPro- 
vincia de Africa, ccmo conta Suetonio ■, eJRlutharco^/"j^" M,tf; 
Ukimamente venceo a Antonio com a Iua Cleopatra; suet.Z^l 
como largamente cohta o> mefmo Plutha&co:, e ailim e. 17. 
ajuntou o Oriente com o Occidente , com que fieou p/ *"- '»'*»>• 
petfeito Monarca , e fenbor de todo o Imperio. Tudo 
ifto conta brevemente Luiz Vives iobre Santo Aga( rLV . . 
tinhonoterceiro da Ctdade de Deos. ^o*W,. ' 

18 Primeiro que faya defte Capitulo moftrarey, 30. ' l V' 
que Eufebio Gefarienfe conta por primeiro anno do im* 
perio deAugufto oanno 711 , da fundacao de Roma , £ «A*« *»ckr, 
como flea dko , porque elle diz, que Chrifto No(!o 
Senhor nafceo ar s quarenta e drus do Imperio de Au- 
guito , que vem a fer no da fundacao de Roma 752 ,co» 
Vbo diz o Martyrologio Romano. Os quaes quarenta e 
dous na6 cabem , fe ienao contao da anno j\ 1 , mchifr f art) ' r ' *"* 
ve por diante f que he o anno feguinte depois damor- J^' 
te de Julio"€etar , oqual foy motto no anno da funda- 
ca6 de Roma 7.1 o , como; Jatraz chikmos 






o«. 



CAPI. 




V *rm Antiguidades 
CAPITULO. X. 

Em que tempo corneal aqudlas napem a mtar pi , 
la Era , e que caufa impulfiva houve para 2 P 
e quandofoy mftttuida, e par quern , ,/««/' 
do acpmiae do Author. 



J 



Bare*, in »»' 
S-tt Martyr 
Rom dig it, 

Ottob, 



Txpois que 
siugu/io foy 
ebjoluto Mo* 
nana > entao 
trdgnou aeon 
ta da Era , t 
q«e(etomaffe 
principle de 
atraz *tfloht 
do quinto anno 
dofeulntfeno 



depois da E ra . S ft ° ' C qUe ° teve ° nze <"">os 

Mrra ™?»' «' Va fua muita amhoridade , araim me 

SI Cefa, ?* AES" 8 COn,e?ara6 efta conta depoif 
aue Fnv 1 , e ' abfolB t°Monarca , eter todo o Imperio 

££&£ Plu,harco ' fegund0 a «UM5 

annos o primeiro , em que O^arto Ce?ar c Jecavf 
d« R overnar as fuas doOccidente, comoLTS 

do 






T>e Woriugual. Cap. b3R 

do Antonio mais'Jato pornobreza, mayor :p or idade r 
Governador de mais genies , de grande exercicio na 
guerra , e experiencia de coulas , como lhe difie aquel- 
le Mago Egypcio , que o fez iahir de Italia , e apar- 
tarie de O&avio , do que he Author Plutharco. Mat Vht. defrm. 
entes entendo , qu^ nem as proprias de Ceiar lhe fariao p* R ° m * 
efta hcnra , confiderandcr, queelleeramenor, que An- 
tonio, e que hum , ecutro nao erao mais, queTrium- 
viros, e Governadores do Imperio Romano, ou mais 
verdadeiramente Tyrannos, comomuitas vezeslhecha- 
ma Appiano , muito mal loflridos do Senado , e que da- Ap*i«n 1-4] 
hi a pouco tempo o haviao dedeixar de fer , como err' &$. hii.tr 
effeito deixa'rao: Cefar,fegundo parece, por lua Vontade, ?#• 
e Antonio contra a fua, mas por fua morte. E afiim diz*> 
Suetonio , que O&avio Ceiar adminiftrouo Tiiumvi- Suet ' in A( * 
rato para ordenat a Republica por dez annos. E Livio|^'; 2 Z;. 
diz , que Antonio por amor de Cleopatra , de que ja ' 

ti'nha dous filhos, nao queria virfe para Roma , nem 
deixar o mando do Triumvirato, lendo ja acabado feu 
tempo. Ptlas quaes razoens nao podia6 aquellas na- 
qoens tratar de contar annos de Imperio do homem , 
que nao era Imperador, nem Senhor, e 16 fariao ifto 
depois que Auguflo Cefar o foy : ifto he depois do 
anno decimo quinto de feu Imperio , por que en tao foy 
elle abfoluto Monarca do Mundo , como diz Paulo 
Orofio. 

4 Se ofizerao pelo lifongear, oupelo elle man- p.ow/Mfc- 
♦ nao confta : mas a mim me parece /que foy J. * '.«. 10. 
mandado feu, eprova-(e j porque confentirem tao dif- 
fer entes na^oens em huma mefma conta, e no ' mefmo' ; 
?7 P S ! u pelas mefmas palavras > parece ordem , e man- 
oadode huma fo pefloa , a que todas obedeciaS. Tarn- 
bem raz por ifto, queaspalavras defta conta t< d^s fao 

Komanas, por onde parece, que manou de Roma: e 
ie osMelpanhoes, ou outra nacao fizerao efh conta 
para H iomente, deveraf de afazer em lingua vulvae 
iua propria para todos aentenderem, mas ella he La- 
'S2 a '- e i rm a P ta P ara todas as nacoens fujeiras ao 
imperio. Nem deixa de fer prova a fama lan^ada de 

. v • . lmns_ 



-*m 



f 



Aurel Vift. 
in..4uguflo. 
Suet- in Ait* 



CoAfttJa Or- 
den a f 49 velba 
I. 4: til. J \. 
Marian, dgtf 
but He[?> I. 
io. c. 7. 
5*8*. in Chi 
p. I.e. 1. 
Gmfajt I. ]$< 
e. 6. in fine- 
Vu'fxui tom,\. 



Farias Antiguidades 

huns em outros , que lhe cnama , Era de Cefar: 

5 O qual mandado nao foy alheyo da condiqaS 
de Augufto, porque foy ambicioiiffimo , comodizAu- 
relio Vi&or , e parece tomou motivo de algumas Cida- 
des de Italia, que pelo honrar tizerao principio do an- 
noaquelledia.emqueelle entrou nellas ,de que he Au- 
thor Sue ton io : e por ventura cohtando efte artifi- 
cio de gloria , mandou , que todas aquellas naqoens 
fizeflem principio da conta de feus annos o primeiro de 
leu Imperio , contandb-o daquelle quinto anno r ern 
que elle comeqou de fer; fenhor de Roma , e de toda 
Italia, como fica dito. 

6 E nao lhe fuccedeo mal a traqa \ porque polio 9 > 
que em Italia na6 durou ifto, que nos faibamos , que 
ieria.porla terem outras contas antigas , e rauitoufa^ 
das, como a: da fundaqao.deRoma , e a dos Confutes: 
emoutras naepens durou mais de quatrocento£ annos, 
cpmo fe ve nos Gonciiios , que atraz alleguey , emui- 
tp mais emHe(panha, : ati que os Reys del la com par- 
ticular advertencia a tirarao , e maadarao contar pelo 
Nafcimento de No'flb Senhor JESU Chrifto, Impera- 
dor Supremo , e Senhor dos Senhores , affim por feu 
nome fer dignidimo ; que 16 elle florefqa em fern/pre ver- 
de memoria, como por fer a mais afiinalada coufa , que ; 
no Mundo.houve, nafcer o Filho de Dsos na terra , fe- 
gundoacarne, para falvar o genero humano. 

7 Em Portugal tirou a Era EIRey Dom Joao 1. 
no anno do Senhor 1411, e mandou* que fe contafle 
pelo Nafcimento de Chrifto Noflo Senhor. O melmo 
fez em Caftella EIRey Domjoap tambem I. no anno- 
1383. E ja oflzera em Aragao EIRey Ddm Pedro 1W 
do nome no anno de j 5^8 , como diz o Doutor Beuter, 
Garibay no Compendio , Vafeo, e outros, Ficou efta 
conta tambem aflentada do longo, e pacifico tempo 
do Imperio de Augufto, e depoisdelle do amordefua 
memoria, que fern contradksqaopermaneceotantos cen- 
tenarios de annos , como fabemos. 

8 Nao fey , como nifto fenao advertio mais ce- 
do , mas parece , que como Ueos nao deixa obra al- 

guma 



TXtTortugaL CtyX. 51 

guma fern galardad * e aos Romanos nao havia de dac 
vida etema, quiz pagarlhes algumas virtudes , que ti- 
verad » cprn premio de humana gloria , corno liz Santo 
Agoftinho , da qual deu tanta parte a Augufto Cefar pe- Auguji. d<~a* 
las razoens , que elle 16 iabe , porque 16 elle labe , o 4ue yn • Dei ** 5> 
cadahum merece. c,ls * 

9 E f e alguem perguntafle, como fendo a conta 
da Era tad univerfal , todas asnagoens a deixarao , ti- 
rando os Hefpanhoes , com que muitos cuidara© fer 
fua propria,, digo > que tao mal refponderey a ifto; 
como a mim me refponderad, fe perguntar, porque.man- 
dando o Papa Sao Sylveftre , que todos os dias da fo- _ _ 

t i_ r rt c • /j c • *. Brev. Rem. ti 

mana lechamaflem fenas., como tegunda feira , ter- S yi ve a r0i 
^a feira , &c, para difference dos Gentios , que os cha- 
mavao dos Planetas , nao ha naqad , que ifto conferee, 
lenao fo os Portuguezes ? So Deos , que he a Suprema 
cauia a pode dar de todas ascoufas. 

io Em toda a hiftoria Romaria nao ha memoria 
da conta da Era , aflim como tambem a nao ha da dif- 
cripgaodo Mundo, que Augufto mandou fazer , quan- 
do nafceo ChriftoNoflbSenhor, dequefaz mencad oiaf«i,»;K 
Sagrado Evangelho. Acaufa parece fer, que feperdeo 
grande parte da hiftoria de Livio, e de Dio da quelle tem- 
po. Cornell© Tacito comeca os feus Annaes de Tybe- 
rio, Suetonio efcreveo pedacos , e deixou muitas cou- 
ias, e affim rlcou a conta da Era fomente na conta , e 
pratica do Mundo. / 

1 1 Nad quero deixar em filencio, pois eftamos em 
materia de contas , que a conta dos a.nnos da In- 
carnacaS deGhrifto comecou no anno^de $%y\ qLan- 
do o Abbade Dionyfio Exiguo , Monge de Sao Bento, Barcn ' ia %'* 
efcreveo oGomputo, e elle foy o ptimeiro , que con-.£^™' 
tou dalncarnacad , como diz Baronio \ allegando s F^Anmude 
Beda. O Padre Frey, Antonio de Yepes diz, que ervJfywmCfcro, 
tad comeqarad outros acontar doNafcimento de ClmL z?™ 1 <* e s Bm * 
to , e outros de fua Paixadj e que em Helpanha fe fi t0 ' Cent « rja u 
carao com as Eras de Cefar. 









anno de Chrijlo 
550. c. J. 



G ii 



CAPI- 



— ■ ■ ■ 




52 



V arias Antiguidades 
CAPITULOXI. 



M Mnmrinu. ^* ^ ^ CondtfTa Que 
os anugos Htfpanhoa faiai mmto, e ef 
crevtao pouco. 



Quelle Mofteiro edificado pela Condefla 
Mumadona . a honra do Salvador , e d* 



ma carta , /?<*. 
nemirus fol I * 
6* c<«7<* in iter* 
Dni. fol, I j. 



Carta Ambigu. 
urn fol, 37 



*A&m Mr/** 



T A 

Sm^te^ffi 0- ^ f3ma \ C ?° br ' za • e «?5te nS 
he Olnfen* '% ■• dfi . ( l ue - |e ft * e * ta Villa, que hora- 
eFldo ff^ R B emI ? antes de fcr Rey deu a Hermi. 
£X 7* a ^ona Mumadona fua mulher a Quinta cha- 
mada Crexirmr na Era DCCGC*X.iiij anno doSenhor 
9 a e d eulicenca para Mofteiro fe edificar , como 

Zt:t^^ higHU T°^ mais *Condlfl. , d" P SS- 
r^lq : - 3 ? 1 a 9 U, ^ ta ch 3mada Mellares , eo Model- 
ro deSaoJoao dePonte, eode Sao Tcquato emu. 
tas outras propriedades , e privilegios \ como fe mo I 
.tra porvariasdoacoens. No que bem m^ fi Wn- 
ape devoto , do qual ie eicreve , que fez muttos Mot- 

r™*lv Qm n 0ftr0U , ( ^ f °brinho, e collaqo da 

Coiidefla ? como elle mefmo declara em algumas das 
mefmas dttas doaqoei# * 

'*o!j * ^P«js ElRey OrdonhoIIf .feufilho, deu-lhe 
a^uinta da Moreira , e muitos privilegios. El Rev D. 

nao fuccedeo logo a feu pay , fe nao depots , vindo a ef- 
tas partes, eeftando na Villa, oulugarde Santa Maria 
aiemaoUouro, confirmou os metmos privilegios. 

3 EI Rey Dom Atfonfo vindo a efta terrr com a 
Kainna ■ Gelyjra luamay, em Sao Miguel das Caldas. 
lendo-lne alh levadas peios FraJes as efcrituras, e pri- 
vilegios, os confirmou naEra M. i. ij anno doSenhor 

decimo- 



Carta Ambig 
trumfol. if. 



Carta fub m* 
feriefol. jj. 



D* Tor tug al. Cap. XL 5 5 

r decirtio-quinto. Eftefoy'iJom Aftbnlo V. de Leao. 

4 EiRey Dom Fernando de Lea6 ,eo primeiro de 
Caftella, a qual ate alii fpra Ccndado , e a Rairina Do- 
na Sancha iua mulher vierao a.efte Mofteiro de Guji- 
maraens , e lhe confirmarao ieus privileges j e de no- 
vo concederao ao Abbade Pedro, e a todosos C'erigos , 
e Freiras, que o Vigariodo Mofteiro tiveffe jurildiccao 
civel, e crime em toda a terra entre Ave, eVizella, 
e aflim em toda a terra de Santo Torquato. Foy ifto na 
Era , 'M»x-. XXX. Vii. anno do Senhor 1049. Note- fe, 
que ha via entad nefte Mofteiro Frades , Clerigos , e 
Freiras. 

f Dona Flamula fobrinha daCondefla Mumado- 
na , eftando «nferma em Lalim , mandou-fe trazer ao 
Mofteir® de Guimaraens , emetendo-le Freira i ez feu c *jf* '** »<>m 
teftamento , porque mandou , que os feus Caftellos , D »' F^"*"^ 
Troncofo, Moraria , Longabria, Naumam , Vacinata, 
Amindula , Pena de dono , Alcobria , Seniorzelli , Ca- 
rta, eoutras povoacoers , que tinha na Extremadura, 
fevendeflem, e dittribuiftem por cativos j peregrines, 
« Mofteiros na mefma terra por lua alma. Foy feito na 
Era 968. anno do Senhor t 930, O Author do Hvro dos 
milagres de No(la Senhora, por nao ler bem o Latim def- 
te teftamento j da eftas Villas ao Mofteiro de Guimaraes 
commais Villa deConde, e Fam , mas eftas duas lhe x 
concedemos , as outras nao ; e por iflo nao eftao no 
inventario antigoda fazenda , queanda nefte mefmoli- 
vro de dona Mumadona, marfdado fazer por ElRey Dj 
Fernando de Leao , deque agora fallamos. 

6 AGondefla Mumadona foy ca*ada com Hermi- 
gildoGoncjalves , filho de Goncalo , edeTereja, efoy 
filha de Diogo, e de Oneca. Que fobrenomes tiveflem 
os pays de feu marido , nao'fne confta ; mas o pay della , 
ie chamou Diogo Fer-nandes j e fua may Oneca , av6s 
de D >na Flamula , de que a traz fiz menqao, que pa- 
rece foy efta Dona Flamula filha de algum irmao, ou 
irmsh da Cindeffa, pois chama avos a feus pays, co- 
mo confta da doacaS : In nomine DnmtnL FUfnttla* 

7 Tambem acho , que a Condefta (e chamou Mm- ne D0minia< i 

madona hnm> 



Lfcro dt donn 
Minna. foU J4 
carta in nomi* 



■ . 



» 



211 1 fa shift.. 
Vont part. I, 
em Garcia 
Xnigueu 



J 4 Farias dntiguidades 

Omg.Urn^aDiJtf. corno le |e natarta /.£„. PaMce are 

/>'•". do nome de ieu pay , que era Didaco, o qu» n6s aeol 

lnVcZ ta tf e H d,Z<:m ? s *^ tomou^ocogno? 

cognomes dos filhos fe dmvavao dos nomes dos Dav« 
como notou lllelcaj. " ys » 

8 A Condeda , e feu marido provavelmente f™ 
rao naturaes defta terra , porque aqui tivTalfua fasen 

q ^ U fJa a Z ^e ft t\ro. COm0atrOSf4USami ^. ^" d » 
&«£& rf ^"f^tevefeuirmao Exemeno, efua foJ 
FJamula * ? G D ° m Ranemiro ™*«* de Dona 

mJL^ Da n ? b, ! eza f 1 * 2 Hermigildo nao acho nada: 
m» be decree feriapefloa muito principal. Da Condefl 

t * i 'TaT Parentes rauito nobres > como tenhod . 

mi InT k° y 5 arenta de Ra nemiroaey de Lea6,por. 
Can. /«*;^q u eelIeerahumadoaqa61hechama tia,e noutra collaca. 1 
tjriofei 41. u Houve a CondelTa feis filhos de feu marido < 

&can* .. „„.quatro machos, que fe chamarao , Goncalo Dio™ 

fit. ij. f"A KQ i5 7? ?° # fc dua * femeas chamadas Arriane, 

eOneca. Forao Hermigildo, efuamulher ricosdebens 
patrimonies , de grande familia, -eeftado , mas a Con- 
defla--, falecendo feu marido, tudo deixou por fe dar a 

I ' e ' « qUe mais he » deixou feus P^prios filhos , co- 
mo numa Santa Paula tao louvada por ifto de Sao Tero- 

^.^.t7.|l y r^IV^ C -2 do ° ^-T 3 ^ 1 nome dema >< P fiI ° d <= 
*».*,. 7 •fervadeChrifto: Nefciebat ft mttrem, mChr^Lrobaret 
Mtcjlkm : dizia o Santo por Paula , e nos com razao pe- 
Jadevota Condeda. K , 

ia Forao eftas fenhoras ambas de fanzue Real, 
ambas cafadas mays de filhos, viuvas, fundadorasde 
Mofteiros , ambas Freiras , e finalmente acabarao fua 
peregnnaqao em vidahumilde, e penitente. Mascomo 
a Uwdefla nao nalceo em Roma , nem communicou 
com Sao Jeronymo, Santo Epiphanio, e Sa6 Paulino 
f vantagens , que Paula lhe levou ) parece , que fica 
neiia mais gloriof a a Yitoria da came , o defprezo do 

eflado 



^ 



7)e Tortttgal. Cap. XL 5 $ 

eftado, ealteza da vutude, o fervor do efpirito \ eie- 
tentaannps deReligiao , porque tantos acho, quevi- 
veo no Mofleiro , conforms a data do teftamento , on- 
dejafechama Freira , "6 qual foy feito noanno do Se» , 
nbor 919 i e no anno 999 ainda era viva , como conf- ^ e do ™* 
ta de huma doa^ao do feu livro , que comeqa : In f oU 10 . 
£ra. 

13 Do tempo , ecoufas de iua vida, niorte i e 
fepultura nada apparece. Tudo a Barbaria daqueUa idade 
cegou , e conlumio. P<:ezavao-fe os homens eatao fade 
fazer, efaz»ao mu'ito, ebera. Efta terra, que poilui- 
mos, elles a ganharao : os muiros Motfeiros, e outras 
cafas de Gracao , que ainda \ emos , obras fa6 de gtande 
piedade Chriftaa » que nelles houve: tropheoscerto mais 
excellences , que os dosGregos, eRomanos, porque 

os levaritatao nao a fi » mas a Deos Omnipotente , e Se» l'"M*foi*\h 

nrior dos exetcitos , entendendo , como dizia Judas Ma- I?? 

chabeo , que a vitoria nao elta na muita gente , mas do 

Ceo he afortaleza. Com fim ills antes obras fecontentar 

vao ; e com muita razao , pois nellas contentavao a DeoR 

e"hao efcreviao * ialvo muito pouco * e mal , porque? o 

que fabemos daquella conquifta, com ier 1 tao nctavel j 

He commumente por doaqoens , e privilegios drfficulto- 

fos de ler » e de entender. 

14 B fe quizeres inquirir onde eftao fepultados 
aquelles, deque rlcou alguma fama por feus honrados 
feltos , nao ha , para que bufqueis feus epitaphios, 
mm perdereis a memoria com os ler, como dizia hum 

adagio Latino, porque os houverao por eicufados. ft Dthoead ^ 
certo, que muitosos mereciaSbem, conforme a huma CiarorfeSt- 
ley de Lycurgo , que traz Plutarcho , a qual mar-dava , »«. »e» long 
que na fepultura" fe nao elcrevefle o nome do morto , -«J imt }°- 
ialvo femorrelTe na giierra. E nefte noffo tempo aquel- J' r s ge [ n f~ 
las obras fuccederao palavras, enao ha psdra de fepul- 
tura, quebafte para tantas letras , e tantasarmas, inf-^ 
tfumentos deoflentacao, deque ja ie queixava ogra- 
ve Efcritor Gafpa* Bsneiros Conego de Evora: como r *' r \ n ^ de °' 
fe, quebrads a rtao da vida , fe falvarao na fama , como itarUm, 
€ia taboa. Porque em figs gaftae-le as pedras , naspe- 

dras 



— — — 



r 






fttrarc. tit 
triumph, ff 



Sandoval na 
Chron. d'El* 
Key D . Affgn 
/• VII. e I. 

Mariana I, 9, 



Carelo Steph, 
verb» Vezonrio 

GSes na Chr. 

Alanoel part. 
A' (* 7l» no 



56 Farias dnthuidadet 

SSSSESSSgSysSSSSaS" • f na fama a ■* 

CAPITULO XII. 

§ue cmfatrouxe CW, D,*, a„ r/?a , „ ft/ft***- 
nha Em que anno eafou com aRamha Don* 
lertja. §j4ando entrou em fortuoal t 
»nde , e quando the nafceo feu 
ft metro filho. 

T"\ mnn VT * E1Rey D ° m Aff0nf ° VI - » 

I / mou To ' edo ao 5 Mouros , que foy no an- 

" dos os one em h£ '° 7 ' "?"? ficaraS atem orizados to- 
oos, os que em Hefpanha viviao , que fizerao contra el. 

ae Africa os Almoravides com o leu Rev lofeoh A 
qua! preparaqao foy de lanto terror , affim Lra os HeU 
panhoes , como para os vifinhos , que vX muitos 

per,r S E^: an ^ ir °l aj ^ at a ^ neL comm m 
perigo. K-ure eftes forao tres de alto fancue , e erarn 

Bezancon OH fT™ d f B ° rconha ' ^^ 
Bezanqon, Crdade Imper.al , e Metropoli daquelle EC 

Steohanr a R^ nt ' gaa, i nte - 1™°*'" • < om ° "* C.*£ 
aue^rJl C,Uf3 da V ' nd . a d0 C0nde D °™ Henri. 
Damla h2 r •' me X afeC I ma,S verofi "KM.q«e a que traz 
17 r«l, *' Ze r" d °' c ' ueindo «"e aguerra de 

Ret CW a£° <° U na ™ nha ' e ficou no fe ™*° <•'<* 
e .7n^ ?^r ff0 " ( ° ! P °^ Ue ,d e »"ftava em Portugal . 
etinha ofeupntneuo filho, quando aquella conquifl 

ta 



^ 



DeTortugal Cap. XII. 57 

ta fe decretou pelo P^pa Uibano 11. que foy no anno Bar.apud 
joof , fegundo o CatdealsBaronio , e fegundo Palme ^w^»«» 
no node 1096. \ „ 4 . 

2, El key Dom Affonfo com as ajudas defies , e Maimer. \ n Ai* 
deoutros Senhores desbaratou ieus inimiges ateosfa- dnione adhu- 
zer iahir de Hefpanha. Mas temendo , que tornaflem I th * ™»e 
prefto a renovar aguerra, quiz aparentarfe com aquel- 109 °* 
les tres , e tambem remunerar ieus mericimentcs. Para 
oque Ihepareceo bem cafar com elles tresfilhas. Dei- 
xo os dous. A Dom Henrique deupor mulher Dona 
Tereja , e em dote a terra de Portugal com titulo de 
Condado. Oanno, em que ie fezocafamento do Com- 
de Dom Henrique, foy deio88, fegundo Gonqalo Ar> 
gote na Ncbreza de Andaluzia. Mas Joao de Mariana o &&u »*.*** 
poem mais a diante no de 1-09 1| ate ~o de 1092 , 1093 i b J^*iai f* 
e nefte mefmo tempo o faz entrado em Portugal :' e f _* 8 g* w 
node 1094 teiia ja o feu pjrimeiro filho ; pofto que Mariana 1 i Qt 
Garibay aiz, que entrou no anno de 1090. Finalmen*c i.«i. 
te vindo elle, fezfeu aflentoemGuimaraens, f ufpei- Gdr '% l *lS* 
to, que por confelhod'ElRey Dom Affonfo ieu fogro/" '•' 
que aqui eftivera \i > e morou junto ao Mofteiro da 
Condeffa Dona Mumadona , o que confta de huma ef- 
critura, que efta no Molleiro de Pombeiro dadanaEra 
1 10a , anno doSenhor 1064 , o primeiro de feu reyna- 
do , fegundo Illefcas. Viria vifitar efta ianta caia, co« n/efcasp. 1: 
mo veyo EIRey Dom Fernando feu pay , ou aquietarA 5. nabijt. 
os Portugueses , e Gallegos , que com o feu Rey Dom f* /R 5 J ' v Dm 
Garcia andavaS inquietos , e alterados j ao qual Dom ****"' 
Garcia El Rey Dom Affonfo feu irmao prendeo nef- 
te mefmo tempo , e em priza6 efteve em quanto vi- 
veo. 

5 O Conde achando*fe em Guimaraens , lugar, 
que o Mofteiro fazia honrado , efrequente, pareceo- 
lhe bem concorrer de fua parte para o fazer mais honra- 
do , e mayor j e deulhe o foral , que efta na Torre do 
Tombo , de que fiz menqao atraz , e diz nelle , que 
o dava aos homens , que viarao povoar Guimaraens > 
e aos que alii quizefTem morar. O principio do foral, 
de que iito confta , he o feguinte : In Dei nemine ego 

H Comi* 



5 8 Farias Jnthuiciades 












Caribayt. 34; 



Duarte Gal. 
na Cbron. 
JElRcy Dom 
Jlffonfo Hen* 
riqucfc 3. 
Duarte Nunes 
na hid do C on- 
de D. Hevrig. 
foi 11. col. 4. 
Mf-y'un*. hi;, 

10. C.I. 



Cjmitedmno Enrico ma par iter c*muxoremea iffanu Doha 
Terafia placuh nobis pro bona pact , & pro bona vol ant ate 
quod facimus canarn do bonos forot aivos homines , qui, ve« 
mjlis popular e Pimarane* , & adillos , qui tin habi tare vo- 
luerint. Deftemao Latim torn- o Lei tor o fignificado, 
eclaramente vera irie fazendo a Villa de Guimaraens 
em tempo do Conde Dom Henrique, o qual nao per- 
dia occafiao, que fizefle a efts propolito , como foy a 
das Cortes , que fez nefte burgo, em que feachou Sao 
Geraldo Arcebilpo de Braga , e difle Mifla em Ponti- 
fical na I^reja de Guimaraens em prefenqa do Conde , e 
de Dona Tereja fua muiher , e de todos os grandes de 
Portugal j como confta das licoens do officio defte San- 
to Arcebifpo , que canta a Igreja Bracaresfe aos cinco 
de Dezembro. 

4 Nefte tempo fegundo confta da doaqao , Du* 
bium , feita na Era M. C. X. I. anno do 1075 » num Me "" 
nendo Venegas deu ao Conde Dom Henrique , e a 
Dona Tereja , fua muiher ,.. e aos Frades , e Clerigos 
deGuimaraens, a herdade Pauzada deCaide, que efta 
entreSao Torquato» eaportella da Morteira por tro- 
ca deoutra , que recebeo. Aflinoufle nefta carta Sa5 
Geraldo Arcebifpo de^raga, etres Arcediagos, e Din- 
go Gongilves , Mayordomo do Conde , e Egas Moniz, 
e outras peiloas. Onde ie deve notar , que nella nao 
fe falla ja em Freiras , fe nao em Frades , e Clerigos , 
que parece nao eftavao ja no M jfteiro. 

$ Na Era defta carta ha erro , porque ainda en- 
tao o Conde Dom Henrique naS entrara no Senhorio 
de Portugal , masentrou o mais cedo, tegundoGaribay, 
no anno de igqo, e dalli a quatro annos eftando em 
Guimaraens eicrevem Duarte Galvao , e Duarte Nunes , 
que Ihe nalceo o ieu primeiro filho Dom Aftonfo Hen- 
riques, do qual Principe dizjoao de Mariana eftas pa- 
la vras : ,,Oanno feguinte, que fecontava doNafci- 
„mento de Chrifto de 1094, ^oy aflinalado por nafcer 
„ nelle Dom AfTbnfo, filho de Dom Henrique de Lorena, 
,, e de fua muiher Dona Tereja : o qual com fuas armasi 
„ e valor , deu luftre ao nome de Portugal j extendeo 

„feu 



^ 



TkTbrWgd.Cdp* XII. $9 

„ feu fenhorio, e foy o primeiro daquelles Principe, 
„ que tomou nome de Rey por permitfao dos Pontifi- 
„ces Romanos : em que ie manteve contra vontade dos 
t4 Reys deCaltella. 

6 Do qual Rey Dom Affonlo pot fuas muitss 
grandezas efta nobre Villa de Guimaraens , patria lua , 
recebe notavel ornamento. Onde nao poffo deixar de 
dizer , que iendo ella patria de hum itea o primeiro 
deHefpanha, como prefto le vera , e^nora tambem 
de hum Rey 6 primeiro de Portugal , fora jufto , 
que fejhe dera algum titulo de honra , com que 
fkara affinalada entre as outras , como he por ef^ 
tas duas prerogativas ; pois iabemos , que Corfinia- 
no, lugar onde nafceo o Papa Pio II , por huma i6 
dellas mereceo fer Cidade , como notou Platina. Mas„. . ' 

a memoria defte grande Rey nao foy honrada naquella " ,tHitoU > 
rude , ebellicofa idade* porque as letras, e toda apo- 
litica eftavao entao iepultadas. E aflirn o nao foy tam- 
bem Guimaraens, mas retevefempre o nome de patria 
fua, no qual ie faz eftimar , ebem querer, ondequer 
que chega a noticia dos mericimentos de tao alto 
rrincipe. 

7 A Ama que criou efte Rey Dom Aifonfo j cha- 
moufe Dona Aulenda , natural a meu parecer da mef-'^*/W<&* 
ma Villa de Guimaraens, e benemerita defte Reyno* nome compii- 
Porque nao ha quern nao faiba , que Dom ^onio^^f^ 
Henriques foy Rey excellentiflimo , amado de Decs, J^ahhVm^ 

e dos homens , e de todos os Reys raro exemplo de vir. tyerd'tiRiy ' 
tude, affim na paz , como na guerra. Do que tudofe s^o.Lehera 
deve boa parte a Dona Aufenda » que o criou, por- nas £ ,a . nd * z «* 
que fentenca he de Filofofos , que as virtudes, e vi- xjTc.4 
cios no lette le mamao. E por iffo queria Chryfippo, chvo'-ivfcuh 
cemo delle traz Quintiliano, que as Amas foflem ia.-Qu*d u%. 
bias podendo ier , e pelo menos de muito bons coftu-'fi?'""' / - / *^ /fc 
mes , qual he de crer , que foy Dona Aufenda , de oraL L Ic ' l ' 
que Portugal recebeo copiofiffimo fruto na pefloa da- 
quelle catholico Principe , que por favor do Ceo, e 
virtu de fua , eamor dos feus , Ie fez Rey , e a feu Ef- 
tadoReyno. 

H ii 8 A me? 



_ 



"Donaltis in 
yita Virgilii* 



Sandoval mt 
funetapao da 
Mofleiro de 
S. Mil/ag §. 



60 FdrUs dntiguiJadef 

8 A memoria de Dona Aulenda efteve ate agora 
perdida em hum pedaqo de pergaminho , que havia an- 
nos eftava em companhia de outros , e de muita , e con- 
fula papelada, tudo condemnado a traqa , e ultima per- 
diqao. A qual 4 eu revolvi por me acontecer algurnas ve- 
zes achar empapeis velhos oouro , que Virgilio acha- 
vanosverfos doantigo Poeta tinnio. Gontinha o per- 
gaminho hurrffcrta de veada de hum mointoo , que Do- 

v r D F na Aufenda tm ^ a em rl ° de Moinhos junto delta Villa, 
TruJench L' a 9 ual vetldeo a feu "ma6 Pero Sendim por huma boa 
pelle decoelho, porque era direito daquelle tempo, 
que quern dava , ou yendia recebia aiguma coufa da 
parte contrahente para firmeza do contrato. Defta car- 
ta porey o principio, e fim (omen re, por nao occupar lu- 
gar , e tempo com coulas fora delle. 

9 lndomini nimine. Ego dona An fend* am a qui jail 
derege dono Alfonfo j &c Efte he o principio, e ofim , o 
que ie iegue. Fafita Roma , menfe Apr His fttb era M. al./^. 
Ego dona Aufenda am* que fait de rege dono Alfonfo , &fra» 
tri m(o Peiro Sendino \ hanc propriis man'bns rtboro. A* 
Era defta carta refponde o anno doS^nhor 1117, no 
qual Dona Aulenda chama Rey ao Principe Dom Af> 
tonfo, doze annos antes delle fer eleito Rey no cam - 
po de Ourique , que foy no anno de 1139 , como re- 

Garibity >U h- f ere Garibay , e Duarte Nunes na Chronica d'lLlRey 

N«»°i »« cfer! ^ om Aftonio Henriques. Em S.Joao de Pendorada, Mof- 

d'EiRey D*»teiro de Sao Bento, eftahuma doaqao fua feita naEra 

jifjonjoUen- M. CLxxiij. anno doSenhor 11 35, na qual o melmo 

fiquetfoi.it. Principe (e chama Rey, e comeqa aflim: Ego Rex AU 

f 1 -*'- fonfus ,. &c. Traz efta doa^ad o Padre Frey Bernardo 

de Braga no tratado da precedencia entre Portugal , e 

Napoles. A caufa delle tit ulo anticipado diz o melmo 

Padre fer, que depois da morte da Rainha DonaTe- 

reja , os Fidalgos Portuguezes defejavaS ver o Principe 

intitulido Rey, e os efcrivaens lhe punhao o titulo 

em Efcrituras , e Provifoens pafladas a Mofteiros , e 

vaflallos , e n?6 a pefloas grandes , como ao Metropo- 

litano de Portugal, Mas nos dizemos , que no anno 

de 1 1 27 , em vida de iua may le fez a efcritura de Dona 

Au- 



De Portugal. Cap. XII. 61 

r Aufenda , em que he cUamado Rey. E. em refoluqao , 
acaufa dotitulo anticipadj he , porque o Principe de- 
iejava o nome de Rey , como elle mefmo moftrou na 
falia , que fez a Santa Maria de Guimaraens , que a 
diante fe pora. E nao me efpanto difto , porque, que 
menos podia defejar hum Principe , que era Senhor 
abfoluto de Portugal, e fe intitulava filho da Rainha, 
enetod'ESRey ? E como elle o defejava, andavao nos 
defejos detodos os ieus , onde alguns efcrivaens toma- 
vao licenqa , para lho chamar em Cuas efcrituras. E nao 
contradiz a iito moftrar o Principe no campo da Ouri- 
que , que nao queria aceuar efte titulo, quando lho 
davao feus vaiTallos, porque elle com magnanimida- 
deo pertendia , com modeftia orecufava, e deixando- 
fe veneer dos rogos dos (eus oaceitou., como efcreve 
Duarte Galvao na Chronica d elle Rey. . Gait***!** 

CAPITULO XIII. 

Da contenda fohre apatria de Sao Damafo , prbnuro 

defte mme : e que (rvarao illuftre, principatmm • 

te em SantUade , he hour a da fua. 



N 



Efte lugar fe nos offerece huma grande 
objecqao contra o que fica dito do pria- 
cipio da Villa de Guimaraens , porque 
ha muitos Authore's, que dizem fer deila natural o Pa- 
pa Sao Damafo , primeiro defte nome, Portuguez de na- 
qao, o qual pela conta de Onuphrio Veronenle mor- 
reo no anno do Sjnhor 384. Efuppofto ifto, ficaella 
fendo mais antiga do que nos a fazemos. Por haver 
pouca certeza da patria de Sao Damafo, nafceo a con^ 
tenda de quererem huns , que fejaCatalaS , outros 
Caftelhano, outros Portuguez. Nao fey, que alguern 
tratafTe ifto depropofito , fo me confta , que varios Au- 
thores tiverao nifto varias opinioens. 

2, Pelo que conveniente cQufa iera moftrar don- 

de 





CaJJloi.hlfl , 
trip./.Q.C. 44. 
iticeph. /. 1 1. 
c. jo. Rufitu 
I it. Htfi.Ec- 
tl c. <o, Amb. 
epifi I. J. 
epifl, Jo, 
Hitr. Bpift. 

5*« c. 7. Pitt. 

Crjnit. I. da 
font, /at, quin- 
toe. pi 



Eufeb. in Chr, 
anno mundi 
$090. Lour en- 
fo de Anania- 
na. Co f 'nog. 
Vat. I. 
Steph,Guaz. 
l,i, delaciu. 
convtrfatime, 



6 z Varus Antign idades. 

de elle parece , que foy natural , para que nao perc* 
mos o direlto , que temos nefte Santo. £ para itfco 
nao fera errodeterme hum pouco na materia , e cauias 
da contenda de fua patria : mas quando o for , eipe- 
ro \ que delle ie me nao negue o perdao, pois he fal- 
lar de hum natural noflo , e tao infigne , que ate os 
forafteiros failao dclle com muita honra, como Caflio- 
doro 4 que lhe chama admiravel ; e Nicephoro , que 
louva a Santidade de (ua vida, iua erudiqao , e intei- 
reza de iua doutrina ; Rufino lhe chama bom inno- 
cente Sacerdote ; Santo Ambrofio diz , que foy ekito 
por juizo de Deos> Sao Jeronymo lhe chama varao ex« 
cellente , e douto nas Efcrituras j Pedro Grintto cele- 
bra- feu ingenho , e elegancia em fazer verfos » e diz 
por authoridade de Authoresantigos, que foy declara, 
e nobre familia. 

5 Mas torno ao propofito. Tem a virtude tal pre- 
rogativa, que na6 foments honra a feus pofleflbres, 
mas ainda asCidades, e lug-ires, em que natcerao. O 
Principe da Romana eloquencia , Ma r co Tulio Cicero, 
foy natural de -Arpino , como diz Eufebio Cefarien- 
fe i e delle fe honra tanto efta iua patria j que ula pot 
armas deftas tres letras M. T. C. em memoria do leu 
nome. Conta a efte propofito Stephano Guazzo, que 
o Papa Pio II. nas guerrasde Italia do feu tempo maii- 
dou exprertamente , que (e perdoafie a vida , honra i 
e fazenda dos Arpinates , por refpeito do melmo Mar- 
co Tulio, e por haver ainda alii muitos , que tinhao 
o feu nome. 

4 £ f e Arpino he honrada por amor dehum ho- 
mem Gentio, que nella nafeso, oqualonde na6 efta 
he louvado por (ua eloquencia, e onde efla atormen- 
tado por (ua idolatria * com quanta mars razao o de- 
vem fer os lugares , em que nafcerao os Santos, que 
emvida fervirao a Chrifto verdadeiro Deos, imitando 
a perfeiqao , e alteza de fuas virtudes ; e depois da 
rnorte reynao com elle cheyos de verdadeiras rique- 
zas da Bemaventuranqa. Aos quaes temos todos gran- 
^qs obrigacpens 9 porque quando moravao na terra. 

nos 



TteTortngal. Cap. XIII. 6z 

nos enfinavao o amor do Ceo , e agora , que morao 
no Ceo , nos enfmaS o defprezo da terra. £- de mais 
difto fao ante Deos nodes interceflbres , para que air 
cancemps o que elles pofluiem. Mas porque a igreja 
Catholica moftra o que fe deve ter a cerca difto , 
quando trata da patria de Chrifto NoiTo Senhor , ve- 
jaraos ,. o que (elite deiia , porque o que for da de 
Chrifto, que he cabeca , (era da dos Santos era iua 
proporqao , que fao membros feus. 

5 Era Bethlem , onde nafceo Chrifto , hum 
pequeno , e e(curo lugar, charoado de Theodoreto irfoodo?: de 
Oppidan ignobiU , inghrittm , & pufilltsm. E com tudo Gw.affefltf* 
a igreja canta delle : curaU % s.w 

initio* 
...^ lnfefio Ejp<- 

O' fola magnarum urbium **«»«. 

Maior Bethkm , &c. 

De modo que a Tgreja Santa tema Bethlem por msyor, 
que todas as Cidades , pornella nalcer Chrifto Nollo 
Senhor. E tal pareceo elia a Sophronio Author grave, 
e antigo , que , fegundo diz Sao Jeronymo, com.poz hum nier.inc*i a u- 
livro de feus louvores. Tal ao Catholico Balduip.o W^g^de Script. 
Rey de JerufalerrL, quando por authoridade Apofto b ^h- s »- 
lica poz nella cadeira Epifccpal. Hora fegundo ifto £ ,>'*' 
coniequencia certafee, que a patria dos Santos imi- p»/«/«y. <e . 
tadores de Chrifto , tambem fao honradas por elles. menu Urban. 
O Poeta Prudencio fallando de Santa Eulalia natural '' n <"• *k *> 
deMerida, diz, que efta Cidade he poderofa , e «vpSf • - 
ca de povo , mas muito mais por ier patria daqueila hlmlTsZti* 
Santa Martyr , e Virgem, iAi«Lm*n. 




6 ^ Far tar Antiguidades; 






Proverb, it. 
vtrf. 1. 



Dante nel can 
to it. delpa- 
radifo* 






Proximus occiduo locus eft , 
Glut tulit hoc decus egrrgtumy 
~Urbe pot ens , popults locuples , 
Sed mage \anguine martjrti , 
Firgineoque potens titulo. 

6 E a razao o moftra claramente , porque a raa 
reza das coulas excellentes lhes da o preqo , e eitima: 
e nem todas as terras dad Santos , aflim como nem 
todas da5 ouro, nem pedras preciofas. E feasqueef- 
tas coulas produzem tem no Mundo mais illuftre no- 
me, que ouro de mais quilates, que avirtude, eque 
pedras mais preciofas , que a Santidade , e pelo con- 
feguinte mais dignas de honrofonome? Mas antes da- 
qui procede o verdadeiramente honrofo, e defte difle 
O Sabio: Aiclhor he 6 bom nomt , e/ut as muitas riejuez.asm 
Pelo que ficaclaro fer grande honra , e nao menoruti- 
lidade eipiritual a de huma Ctdade , que cria hum 
Santo t e o tem no Ceo por padroeiro , obrigado no 
berqo com os beneficios daquella tenra idade , e de- 
pois com a doutrina , coftumes « amor , e deveqao. 
Porque os Santos, como nao nafcerao fomente para fi, 
mas para a patria, e para osfeus ; aflim para eftesfao 
tambem Santos, edelles fao eipeciaesadvogados. If- 
to fignificou o Poeta Dante, quando chamou aCala- 
horra bem afortunada' , por ter ao Patriarca Sao Do- 
mingos , que nella nafceo, por feu padroeiro, e pro-? 
teftor. E aflim diz elle: 

Siede la fortuna CalUorga 

Sot to la protecion del grande feu do 

Dement co fu detto. 

7 Pelo que podemos com verdade dizer , que a 
mayor nobreza das terras nao efta tanto na bondade 
dosares, fertilidade doscampos, e magnificencia dos 

edifi- 



mm 



QeTortugdh, Cap. XIII. 6$ 

edifTcics, quanto nos homens , que criao, quandoeU 

les iao de alta virtude , e gloriofos feitos. Difle ifto 

em poucas palavras Franciico Petrarcha no livro dos 

remedios da fortuna' proipera , e adverlk: Sun.ma pa- D , ( , 

trulaus, fit* virtus eft avium, fcita tie a cauia da pia niertmed.mri- 

e fanta contenda , que entre fi trazern algumas Cida- ufquefouun* 

des^e Villas da noil a Hefpanha , icbre qual dellas he 4iii«i> ijr. 

a patria do gloriofo Sao Damafo. A qual contenda fe 

aviva mais com as excellencies de tao grande Ponti- 

fice , deque diremos algumas nos Capitulos feguin 3 

tes. 

CAPITULO. XIV. 

Os Concilios , que Sao Damafo fez : os livros , qu6 
compoz > e que infiituio a fefia de No([& 
Senhora da AQumtfao. 



P 



Rimeiramente o Santo Papa Damafo ze* Martyf % m} 
lou em grande maneira a pureza da Re- die it. Dttih 
ligiao Catholica, e fez hum Concilio em tropin 
Roma, em que condemnou a heregia de Apollinar. RCbron. 
olnsperador Theodofio de commiflao fua fez celebrar^f' "?£\ 
outro em Conftantinopla , em que forao prefentes cen- 
to ecincoenta Biipos, etodos unanimes confeffaraOa 
fe do Concilio Niceno , e condemnarao a Macedonio * e Sab ^ E ™° 
outros Hereges: e Sao Damafo conSrmou o decretado ^ w * / tomlm 
nelle. Enaofomente perfeguia a Hereges , mas alim- Xdnnai gn „' c ' 
pou algreja de abufos hnpertinentes , dequerefultou chifn^t, »: 
muita paz , e quietaqao. Efcreveb as vidas dos Papas 3 a P U(i $ P on ° 
feus anteceflores , e as mandou a Sao Jeronymo , due damm Ba ' \ 
as revifle , como diz Sabellico ; mas o Cardeal Baronio 'Zty*. Z" 
naotem efte livro por feu, porachar nelle repugnan* die is. No- 
cias. Efcreveo mais hum livro da liberalidadede Conf- vcm(> m i»e(ie. 
tantino , de que faz mencao o mefmo Baronio. f$ k ' , Petri ? 

* OBreviario Romano diz, que fez hum livro de"^"^ - m 
Virynitate , da qual virtude oodia die bem tratar, e Dem.Ckmn 





ritu fefml. 
mort. c. im 
Brev Row. 
V latin, in 
Dam. Gentbr, 
iriKalenda. 
"Rom. quod eft 



66 Farias Antiguidades 

Bieronym: difputar vfem haver quern deiie fe rifle, como Anni- 
ttfi 5°» f « 7. k a i do Filoiofo Phormio: porque foy virgem, como diz 
Sao Jeronymo : Damafnt^ dizelle, vir egrcgitts , erndL 
tui in \ [cripttiris , & Virgo Ecclefttt Firginis Doctor, Foy 
elegante Poeta , fegundo diz o meimo Santo no ca- 
Mtttyr, R^.talogo dos Elcritores Ecdefiaftieos. Foy dado ao eftu- 
n el \ De f b * do de antiguldades , com que aehou muitos corpos 
de Martyres 'f a que faz epitaphibs em verfo , dos 
quaes ha via ainda muitos em Roma em tempo de Onu- 
phrio, que ifto refere. Confagrou a Piatonia , fepul- 
tura, que foy dos Apoftolos Sao Pedro, e Sao Paulo, 
e a ornou de elegantes verfos. Edificou dous Templos, 
hum der\troem Ronaa , aotheatro Pompeyano , ao Mar- 
io jron t'e fuou tyr Sao Lourenco , oqual dotou deherdades, ericas 
comment, in pec^s. E outro na via Ardeatina. Genebrardo diz, que 
'^^"^■afelta de Nofla Senhora da AiTumpfao foy inftituida 
' 7<; porSao Darnafo. Verdade he, que iegundo Nicepho- 
ro , o imperadgr Mauricio a mandou celebrar , mas 
ha-ie de entender , que eftava ja ihftiuu'da \ como de- 
Baron. inmt. clara o Cardeal Baronio. E Jacobo Pamelto nas adno- 
Martyr. Rom. tacoens fobre Sao Cypriano traz a anti&uidade defta 
die is. Auguf- fefta de £j 2 Q fempo de Sao Jeronymo , e de v Santo Agoi- 
c^rli* tinho, que parece vem a for , oque diz Genebrardo, 
schi. i [XT porque eftes Santos forao contemporaneos de Sa6 Da- 
f»t maio. 

5 Foy efte Santo tao dado a liqao* da^Sagrada 

^(criiura, que fendo velho , eSapientiflirao, e Meftre 

/Supremo da Igreja Catholka, nao duvidava perguntac 

I muitos lugares della a Sao Jeronymo, que entao nao 

era velho , efcrevendo-lhe de Roma a Bethlem , on- 

de entao refidia. Confta ifto das palavras de huma epil- 

tola fua ', efcrtta ao mefmo S. Jeronymo , as quaes quiz 

Tr yofeph rf« trazer • para que fe veja qual era ofeueftudo, e quan- 

y'TZW ta a fua humildade ., que fao as feguintes tradusidasj 

r'Jymo }o). ' „Nao cuido , que pode haver mais digna comumcajjao 

„ de diiputa nofla , que fallarmos entre nos das Etcntu- 

„ ras. lHo dd tal maneira ,que eu te pergunte , e tume 

„ refpondav. Nem finto mais deleitofa couia na vida ,' 

„ que efta : nera mel tao doee , como efte manjar ^^ 

iUeaquiS. Darnafo. CAll r 



nS 119. 
Damafi 'pi ft. 
eft <tfud* Hit 
rvnym.n. 1 14 



■*• 



*De Tortugal. Cap. XV. 6f 
CAPITULO XV. 

(£ue a Edtfao Latina da Sagrada EJcrittira 

he dt Sao Jeronymo y e recebida por 

Sao Damafo. 

i ; fc Fftrma Sabellico, que Sao Damafo deu hbeitnn, 
f-\ authoridade aos efcritos de Sao Jerony- *.'.*. 
^ A mo, emandou , que os Pialmos, eli- 
vrosdaByblia, que elle traduzio em Latim , le leflem 
em todas as Igrejas. . Parece entende eife Author , que 
a vetfao vulgata da Sagrada Eicritura g de que hoje ufa 
a Igreja , he de Sao Jeronymo , que he queitao ventila- 
da eiiire os Theologos. O melmo Sao Jeronymo dizH«ww. incfc 
deft no catalogo dos Efcritores Ecclefiafticos , eem^;^ 
huma epiltola a Santo Agoftinho, que traduzio o tei- c ly ' 
tamento velho de Hebraico em Latim , e que emmen- 
dou o novo conforme aos exemplares Gregos. E como 
Sao Damafo tiveile com elle grande familiaridade , e^ . 
comrnunicacao , e muita della iobre qUefloens da Sa- 
grada Efcritura , como flea dito .„ patece verofimel q 
que diz Sabellico , efpecialmente pd>r evitar grande 
confulao de. exemplares da Byblia , que naquelle tern- ] 
pd havia. 

2, Ifto mefmo-fente Cano no livro fegun(3o doscanoLi.a 
lugares Theologicos , onde diz , que por particular pro- 1 j* adfia, 
videncia do Eipirito Santo , e grande diligencia de Sao 
Damafo , e immenfos trabalhos deSao Jeronymo a Igre- 
ja Santa por geral confentimento recebeo huma fb 
Ediqao Latina , e que nifto os noflos tempos fao mais 
felices, que os antigos , em que erao tantos os exem- 
plares da Byblia i como eraoos livros. No que moirra , 
que efta Ediqao Latina chamada vujgata , da que ufa 
a igreja t he de Sao Jeronymo. O Cardeal Bellarmino BglUrm ' C0H - 
Oiz, que depots dos tempos de SaoGregono Papa qH- l% x c i. pr 
apparecerao todas as outras Ediqoens Latiaas , e fl- tuiuumumm 

I ii cou fyM*i*d*ft- 




T*ml. fuper 
Cypr. indiee 
Script, mo, 
ppere chat. 
Sixths Sentn 
I. 8 . in impug 
nat.baref. ij. 
fol. I055. & 
l- 4> verb. Hie- 
vmym. 



6 8 Farias Antiguidades 

cou efta fo, que chamamos velha, e vulgata , a qual 
prova fer pela mayor parte de Sao Jeronymo. Concor- 
da Pamelio varao infigne por erudiqao , e inveftiga- 
<*ao de antiguidades fccclefiafticas , nas notacoens fo- 
bre Sa6 Cypriano. Sixto Senenie na fua Bybliotheca 
fanta prova , que a Ediqao vulgata do teftamento ve- 
lho he de Sao Jeronymo , e a do novo emmendada pot 
elle. 

3 Equanto aos Pfalmos $ fao da antiga Edicao 
trasladada de Grega commum , e vulgata j como'lente 
Bellarmlno , mas emmendados tambem por Sao Je- 
ronymo, e como taes os recebeo a Igreja Romana 4 co- 
mo diz omefmo Santo nolivro iegundo da Apologia 
contra Ruflno, capitulo oitavo : eque fejao aquelies, 
os quaes hoje fecantao na Igreja univerlal , dillo Ma- 
riano Vi&orio nos fcholios fobreefte mefrno lugar de 
Sad Jeronymo , Bellarmino no lugar citado , Pamelio 
fobre a e^piftola 42, de Sao Cypriano fobre as palavras : 
Comine bn-uam tttam -, Genebrardo fobre o Plalmo no- 
venta eqiiatro. E dizern eftes Authores , queoglorio- 
io Sao Damafo lhes deu authoridade. 



CAPITULO XVI. 

A inftitu'fao do Breviario , e horas canonic as a 

Sao Damafo fe attrtbue. Que Santos , e 

que Imperadores concorrerao em 

feu tempo* 



1 /\ '"^^uiQao do Breviario, e horas cano- 
/*\ nicas tambem fe attribue a Sa6 Dama- 
. ■*• ^ fo com S. Jeronymo, e Santo Ambrofio, 
_ , . por Sygcb rto, e Rodulpho Tung.enfe, referidos por Pa- 
inorat. D mi. me " » e Genebrardo. E traz Pamelio em prova, que os 
nic«m. diva. Pfalmrs fe contao defde aquelle tempo, allimna Igreja 
Cypr.propt Ronvna, cnmo nadeMilao. Com eftes Authores con- 
ftn. scM. 94. C orda Marcello Ftancoiino no livro , que intitulou : Do 

tempo 



QeTortugaL Cap.XVL 69 

tempo dashoras canoriicas , onde diz, que Sao Dama- Gmtbr. in 
fo elcreveo a Sao Jeronymo , que lhe mandafle o mo- frnt.eomment: 
do da Pfahnodia dosGregos, eque die Ihemandou & in J ulm - „ 
Pfalterio dtvidido em fete dias da fomana , para quef^-^^ 
cada hum dos dias tivefle feu numero dosPfalmos, e umpMr.'ca. 
que por efta ordem de mandado de Sao Damafo fe can- non.'c. 15. ». 
tao agora os Plalmos em todas as igrejas. Allega efte **• 
Author huma epiftola de Sa6 Damalo efcrita a ^Je- 
ronymo, que anda no prtmeiro tomo dos Concilios, e 
do mefmo parecer diz, que fao Joa6 Beletho in Rath' 
tmliycapite 19 j Rodulpho Tungrenfe in libro decanomtm 
tbfcrvantia proportions 8 , Polidoro VirgUio//£. 6. cap. 2. 
de Inventor ibus return, Thefauro Sacerdotal fsrt. 3. tit, - 
de Officii* Diviniscap.f, 

2 -Ocantar Pfalmos , Hymnos , e Ganticos na 
Igreja Grega, e Romana he coufa.antiquiffima eaconv „ ;-, 
mendada por Sao Paulo , e exercitada pelos primeircs J r T\°* t: 
Chriftaos Alexandrinos , feitos , e inftituidos porSa6 '' 
Marcos , como efcreve Philo t Eutebio $ e Sao |ero« Eufeb. hift. 1 
nymo. Depois Santo IgnacioIII. Btfpo de Antiochia , i. c 17 h,v- 
o qual converfou com os Apoftolos, vio hua vifao de ron - ^catalog. 
Anjos, que cantando alternadamente louvavaoa San-* ZI - 
tiflima Trindade : e entao deu effa forma decantar a 
fua Igreja , e della foy para todas as do Oriente , do 
que he Author Socrates * Caffiodoro , e Nicephoro. swrat.Lt. e ; 
Theodoreto , ao qual traz Caffiodoro na fua hiftoria diz %f^% 
que Floriano , e Diodoro , Monges Antiochenos , forao -/ac.'* '.w- 
cs primeiros , que accommodarao aqueile modo 4z ufh.i ,ij; f . g, 
canto alternado tie Santo Ignacio aos Pfalmos de .Da- -c*JftoS. i.s, 
vid -, e que da Igreja Antiochena , onde ifto comecmi, c - **• 
fe extendeo por todo o Mundo. Que no Occidente San- . 
to Ambrofio na fua Igreja de Mila6 foy o. primeiro, 
que introduzio canto alternado , e Hymnos , e vigi- >. h 
liasi comodiz Paulino em fua vida par eflas palavras: c ££ a *"*/* 
Hoc in tempore prime Antiph:n& j Hymni^ vizjlU in Ecde- ttiter»ado,v t % 
ffa MtAiolanenft cehbrari c&ptrttnt, Ckjw ceUbr'mus dev> Marcellum 
tio ufcjue in bodkrnum diem nan folum in eadem $ccttfi# 9 Franco1 - r. ? . 
verum per omnts pene puvincias Occidents mawt, E Santo ^*®a 
Agoitinho, quesntao eftavaemMilao, o diz tambem/ £ ^; ? f^ 

na' & 7-- ~ 







Brev. Rom. II 
Decern. Plat. 
in Damaf. 
Dar^n/f. in 
Ration. I. $, e. 



Vol diet. An* 
tbr, lift, at. in 
Pelag. i\ 
M aw 'oL in 
martyr 17.' 
Augufii Ge- 
nebr.<& VamtU 
locisicttatis* 
TerreoU in 
MariaAuguft. 

I. 7. j>. ?* 

Bit on. in 

Epitb. Spon^ 
dzni anno 
■josfi n tt & 
anno lO£>5» 
num. 6. 
Vo later. An » 

t^T. I. XX. 

in Alex 6t 



H'uronym. de 
[crip* ct:l- in 
Damafo* 



Qniipkr. in 

Chr. Rom% 
Pont t in Dx- 
maj'o. 



70 Farias Jntiguidades 

nasfuas confifioens: Tunc Hy„.ni , a: •flmi % utcane* 
Ytniur fecutidum morem Oritnt*lUm pa tt'.m , ne popnlm 
m&rotis udio coHtabefc&tt f tnjht*tm eft. Ds maneira, 
que Santo Agoitinho accrefcenta expreilamente os Pfal-j 
mos. £ o que dizem o Breviario R mano , Platina , e 
Durando, que Sao Damafo mandou cantar alternada- 
Hiente os Plalmos emtoda a-fgreja , nao feentenda : 
que foy elle o Author deitemodo de canto: de outra ma- 
neira , como feria vardade \ o que diz Paulino , e San- 
to Agoftmho de Santo Ambrofio? Mas hafe de en- 
tender , que o que Santo Ambrofio prirneiro inltituio e;n 
Milao , mandou Uamafo , que fe fizefle em toda a Igreja: 
mandou tambem , que no Hm de cada Pfalmo te diilef- 
fe I Gloria Patri, & Filio % & Spirimi Sttttto , &c» 

3 Dexnodo , que Damaio introduzio as horas ca- 
nonic^s. O Papa Pelagio I. obrigou os Sacerdotes a di- 
zellas eada dia v como (ente Volaterrano , e Mauroli- 
co. Outros dizem o fegundo , como Genebrardo , e Pa- 
melio no anno de 590. Urbano II. mandou rezar o Of* 
cio de Noffa Senhora no Concilio de Claromonte no an- 
no 1096 , fegundo Santo Antonino , Genebrardo , e 
Wionio , referidos por Ferreolo Paulinate , do qual Of- 
ficio foy inftituidor o Gardeal Pedro Damiano , como 
efcreve , : Baronio , ou o prirneiro , que o fez rezar no 
Mofteiro , em que vivia. 

4 Finalmente havendo dezoito annos, tres me- 
zes, eoito dias, que Damafo regia a Prelaha da Igre- 
ja Romana tao prudentemente, que achou Rafael Vo- 
laterrano homemdouto, e de grande noticia da antigui- 
dade» que nunca Roma foy mayor, nem mais fanta {' 
que no (eu Pontiftcado , pailou delta vida^endo de oi- 
tenta annos , imperando Theodofi^ o mais velho , em 
onze dias de Oezembro anno do Senhor 584 , fegundo 
Oauphrio, e foy fepultado'juntamente com iua may, 
e huma irma| na via Ardentina no Templo , que elle 
fundou. Depois forao trasladadasluas reliquias para o 
Tern pin de Sao Louren^o in Vawtfo, , que elle tarn* 
bem fez, onde melembra^ que vi , e beiiey hum pe 
defte golorioio Santo , cuja fefta celebra a Igiejanc dia 

de 



Dc TortugaL Cap. XV L 7 1 

de fua morte. Depots da qual fez o "Senhor pox elle 

muitps miiagres , larando enferrnos , e lancando de- 

moniosi e hum dia vinio da Bafilica Vaticana dedizer 

Mi (la no Altar de Sao Pedro, deii villa a hum cec,o , 

que havia treze annos a perdera , fazendslhe o final 

da Cx-uz fobre ©s olhos , e dizendo : Fides w* h (ah 

tfum facias 9 como refers o Cardeal Baronio nos Annaes ? aroa ~,y*%J: 

fccclenafncos. 3?4J J 

f Ornarao o Pontificado de Dam3fo muitos va- 
roens infigaes em letras , e virtiide. Sjo Jeronymo c Hier. e }ift,it: 
ajudou nas cartas Ecclefiaflicas, e refpondta as confulta- *-■ 3 • 
^oens fynodaes do Oriente , e Occidente. No que foy &""}**• dl «*• 
tantoentao, como agora he ier Cardeal. Mas fe fey tLtlhCaZ 
Presbytero Romano, e Qura principal dealguma Igreja di'naiis. 
de Roma, que ifto era ier Cardeal, naoconfta. Pare* **'>•>«?# <iv 
^e;, que fe p fora , elle o ditlera j como diffe , que era cl6 ' 
Presbytero Antiocheno. A tradiqao , na6 fabemos. Fo» 
rao no mefmo tempo Santo . Ambrofio, Santo Agofti- ^w/p rof- 
nho , Santo Hilarip, SaoBafilio, eSsoGregorio Nil- p e TL°chJ 
ieno, Sao Petronir* , Santo Eufebio Bilpo Verce]len-'c>»«r^?^ in 
fe, Sao IVtartinho Turonenle, Santo Amphilochio Bif cf "" ■<?««*«"• 
pp.de Iconio , Santo Omxphrio , Santo Ephrem Diacono^-^, n,i4 
EdeiTeno , Santo Eulogio Presbytero , Sao Malcho ca p " : 

tivo. 

6 Santo Epiphanio, Sa5 CyrilJo Bifp'o de Jerufa- safoi. Ena. 7. 
lem , Santo Hilarion , Sao Macarip , t> Santo Abb*de L 9- 
Atfenio Diacono da Igreia Romana , Meftre , que foy 
dos fiihos do Imperador Theodofio , como diz Nicepbo- **'£***•?■ Il : 
ro, mandado parq eft? officio pelo mefmo Papa Dama* *' %h '*' ' 
fc>, fegundo Gabriel Bifciola no Epitome de Baronio. b^/^ ;-„ 
Aeftes tres Santos entre putrosvifitou Santa Paula em tpit, 
iuas cellas , do que da teftimunfoo Sao Jeronymo. A Baron. &n»o 
qual Santa tambem aqui tern Jugar com (ua filha , Euf- §H^ l p' 
tochio, e A del la , e finalmente com todas asopze mil f^ff, 
Virgens , que nefte tempo de Damafo emCoionia Ci- Baron, 'a^d 
dad^de Aiemanha pela Fe de Chriflo , e guarda de sponda. an m 
fua virgindade , fendo mortas pelos .Hunnos acaba'rao &»*(** l*h 
'avida-com illuftre martyrio. Poreftes pantos, e San- *j^ : Remt 
tas Virgeas foy gioriolo Pontificado de Darnafo San- dhx^'omk 



j 




71 Farias Antiguidades 

to , e Virgem , porque qua! he o Governador da Ci- 
dade; taes fao os moradores ddla ; como di(Te o Ec- 
*?■ w - * *• clefiaftico. 

7 Ditofo tempo j mas antes tempo de ouro I No 
qual quando ponho os olhos da confideraqao , parecem- 
me aquelles Santos pedras prectnias, quecomopreco 
de fuas virtudes, e luz de fua doutrina faziao o Muii- 
do rico , e formofo. Eentre piles fe aflinaiava o Ve- 
neravel Damafo , em quern a verdade Catholica teve 
fern pre tal amparo, edefenfao, que para os Hereges 
daquelte tempos foy apedra, fobre que Chrifto edi- 
ficdu a fua Igreja , e nao qualquer pedra, mas como 
Ihechamou ofexto Concilio de Gonftantinopla : Dia* 
manu dafe, Platina notou aefte tneimo propofito > que 
com efte Santo Pontifice concorrerao quatro excellen- 
tes Imperadores, Juviano, Vaientiniano,Gracinianoi 
e Theodofio. 



C/itftod. hift 
Trtf, I. 8. c. 



tlttind in 
Aaaftafio I. 



C APITULO XVII. 

§iit Cidades , Vtllai pertmdem fer f atria de 
Sao Damafo, 



T 



Brtv. F. in 

Galltus Nofl. 
Attic. I. J. c. 
U. 

Mareanoo dt 
las cafas nu- 
merate i de 
H«fp. I %. in 
fnt. 

lilefcar in Da- 
mafo. 

Beuitr. p. I. 
c. »*. 



Tratemos agora da patria de Sao Dama- 
fo , que por falta de efcritores antigos 
ficou efcurecida. Efte Santo Papa foy 
Hefpanhol , como affirma o Breviario Romano , fobre 
cuja patria fe levantou outra contends , como ja" hou- 
ve lobre a de Homero entre as fete Cidades , de que 
Aulo Gelio faz mencao. As que fobre Damafo conten- 
dere f ao cinco , que logo nomearey com os fundamen- 
tos , que cada huma tem por fi. Primeiramente diz 
Lucio Marineo, que fegundo aopinia6 demuitos, ef- 
te Santo nafceo em Madrid : eaccrefcenta Illefcas, que 
na Igreja de Sa5 Salvador defta Villa efti huma letra , 
queodiz, O Doutor Beuter na fua Chronica geral de 
Helpanha o faz natural de Tarragona , Cidade antiga , 

enobre 





T>e Tortugual Cap. XVII. 7 3 

e nobre de Catalunha. O Padre Key Bernardo de Braga, 
homem diligente, e curiofo, affirma , que he natural 
deCitania, notermo, que hora he de Guirnaraens , e 
diz, queailim o cantaa Igreja de Braga , e que o taz 
Vafeo nalua Chronica de Hefpanha. O que tudo conf» 
ta de huma carta , que elle me efcreveo , remettendo- 
me a outra obra * onde diz r que o raoftra. 

% . Onuphrio Veronenfe Author grave no Hvro om&.i dt 
dosPontifices Romanos o faz Lufitano , Egitanenfe ^om.Pomif. 
por eftas palavras : Santtus Damtfus. Antonii films $ Egi- 
tanenlis , Ltthtanm Hijp*nns. A'cerca defta Gidade fcgi- 
tanenie , Gaipar Barreiros na iua Chcrographia d\z r Gafpar$artit. 
que na Lufitania houve huma Cidade chamada Jgae.* »«*«/«. 
dieta > onde hora chamaS as Idenhas , a qual na repai- 
tiqa5 dos Bifpados , que fez ElRey Wamba, hecha- 
mada corruptamente Odonia j e Edenhas , cujo Bifpa* 
do fe mudou para a Cidade daGuarda , onde hoje per- 
fevera com o mefmo nome Igaeditanenfe. Vafeo tarn. Vafeurtom. i; 
bem falla defta Cidade por eftas palavras : EpifcopatHsir*amb,c.zQi 
Egianvs : fcrthtndum erat Ig^litanm , ttt tnticjtta monumcnm 
ta d daranu Ig&dttd civitas trect LufitantA , nunc vicus obf. 
cvrus, £$an a 6$at(s, Eptfcopalis jedes in GttdrdUm civi- 
tatem transUta e(i. Querdizer, Biipado Egitano. Hou- 
yera-ie deekrever hgseditano, como declarao memo- 
riasantigas. Igasdita era Cidade da Lufitania , masago- 
la he huraaaldeya de pequeno nome, chamada Edania. 
E a cadeira Epifcopal , que riella eftava> fe paflou pa- 
ra a Guarda. Mora es tratando dos Bifpos, que feaam- 
rao nolegundo Concilio Bracarenle dsz affim : Adorto Mor * lu ' c: 
d* Cidade /gadttatta, que ja fe dijfefoy em Portugal , qndc ?**: 
hora c(fa o fogar chamado laanh* a fclks. I 

a ^-j^ 3 ^ 1 Volaterrano oafua Geographiaxhama rVohtet.Geogr, 
eita Cidade Epitania. E daqui vem o adje&ivo Egita--'- 1 -'- * 
nente t que Onuphrio traz. Affim que faz a Damafo "'ft*""- -> 
natural da^antiga Idanha. Efte Author foy homem dou- 
tiffimo, ederariffima curiofidade j ediligencia, como 
em luas obras fe ve v o qual para fazer oieu livro dos 
rontinces Romanos, bufcou, erevolveo todososTem- 
plos, Livrarias, eCartcriosde Rorr.a.Eceitohe, que 

K Dama- 







74 Farias Antigut fades 

D*mafo , que foy eleito Papa em Roma , e nella teve 
iua may , e irmaa , e poffivei he , qus delks mefmos fa- 
cile a noticia de fua patria. E lembro ao L.itor ,que 
aquella authoridade de Onuphrio , em que faz a Da- 
maio Egitanenfe , anda nos ex-mplares defte Author, 
impieties em Veneza anno do Senhor 1557. E em ou - 
twa na6 anda , fenao Damafxs Vmarattnfis. ifto naf- 
ceo{ de algum homem querer emmendar a licao de 
Onuphrio por Vafeoy e per outros y que o ieguem. K 
em outros nao anda huma coufa , nem outta, porque 
vendo os impreflores efta variedade , e nao determi- 
nando qua! era a verdadeira licao de Onuphrio , dei- 
xarao em branco efte lugar no que toea a patria de Sao 
Damalo. Mas. a verdadeira he a que nos allegamos da 
impreflao de Veneza p com que conccria Joao Baptif- 
ta de CavaHter i nas luas imagens dos Papas , onde tra« 
tando de Sao Damaio diz aflrm ; Sa-iUns Damafus An» 
tonit fit. tn c, EgtPanenfis , huBtanus , Hi/panus S. A, £» Did* 
C$n»S Cavdinalis a Prfp* Liberia f tins 9 &c» 



GAPITULO XVIII. 

JK»f a Villa de Guimaraens , mats prinripalmentefer* 
tendejer f atria de Sao Damafo. 



* R 



N 



Ocapitulo paflndo trouxe quatro lug*? 
res , cada hum dos quaes quer para ft a 
honra de fer patria de Sao Damaio : e 
agora trarey a nobre de Guimaraens , a qual como feja 
mats principal nella pertenqao t pareceo-me bem fazer 
. ' della particular capitulo. Gafpar Barreiros Conego de 
cZ r c7r7 P "a Evora , o Mcflre Vafeo , e Ambrofio de Morales ,tem 
tit.de Madrid, fem duvida , que Sao Damafo foy natural de Guima- 
Vaieus tom. i. raens. A qual opiniao authorize grandemente duas 
an,Dm\6<>. {grejas cathedrals de Portugal, que cantao fer elle Vi- 
Mofahs i I0 ~ maranen f e i ift nej natural de Guimaraens ; como ve- 
snos em feus Breviarios, que aflim odizem: eftas fao 

as Igte>as 



D<? Portugal. Cap. XVII I. 7 $ 

Gs Igreiasde Braga, Prunaz das Hefpanhas, e a de Evora. 
Nefta meima igreja da Evora ha hum livro antigo, 
que ofaz de Guimaraens , o quaHivro allega oDou* 
tor Andre de Reiende naRpiftoIa aKebedioConegode 
Toledo, para elte propofito , e prefere-oa Onuphdo, 
que ofaz &gitanenle. Mais hedenotar, que^ftedou- 
tiflimo varao , que aflim Ihe chama o Bifpo Oforio , Ofer. eptft. 
moiha ientir no lugar allegado , que Guimaraens an- ^"'•''/'•^ 
tigamente foy Cidade ; fuas palavras fao eftas : Mer gtsEmaft ' 
Yifitlh , & Avi confimntis j Vimarartenfis civitas , SanUi 
Pofrificis Damaft quondam patria. Quer dizer : Entre as 
t n rentes dos rios Vizella , e Ave , efta a Cidade de 
Guimaraens,, patria antigamente do Santo Papa Dama- 
jo. Oncfe iao notaveis as palavfas : Quondam patria > em 
que moftra fallar deoutra povoa^ao, que antigamen r 
tefoy , e nao da que hora he , cujos principios emci- 
ma detlarsmos. Oiide feinfere, que Guimaraens teve 
duas fundacoens j huma antiga j outra moderna , a que 
fe paflbu o nome da antiga , ^iegundo parece , por meyp 
da Quinta da Condeila Mumadona , que o tomou do fi- 
tio, em que foy fundada. E nao nos devemos efpantar 
ditto, porque efcreve Gafpar Barreiros nafua Corogra- BdfT - **!&£ 
phia , que os Rhodienfes edificarao antigamente a Ci- f' de Aii » h * 
dade , ou lugar de Rhoda em Catalunha junto da V\\J 1% ' 
k de Rhodes , ao pe de hum monte , e que feu nome 
ficou em hum Mofteiro, que,' afijda. alii dura , chama- 
do Sao Pedro de Rhoda. E os Vandalos fundarao ou- 
tra chamada Lugo junto onde hora efta a Cidade de 
Oviedo em Aufturias , cu jo nome ficou na Igreja, que 
efta no detpovoado , que chamao Santa Maria deLugo. ... , 
como diz Morales. ^ctT % ** 

z Efcreve hum Author moderno , que a. Villa de * 
Guimaraens toy atfim chamada de VimaranoGodo , ir- 
mao d'ElRey Froila. iylasenganoufe com a fimilhan- 
c,a dos nome$ , iem confiderar iTdifteremja dos tempos; 
porque Guimaraens, teve principio depois de Vimara- 
no mais de cento efeilentaannos, e ainda,que forano 
mefmo tempo, nao le feguia por iflo o que elle diz* 
£tem Morales , que para ; ifto allega , falla de mais , que 

K ii" de 












SUJias Ch I. 



i 



76 V arias Anttguih&a 

de Vimarafto irmao daquelle ivey , iem d^ Guimaraens 
dizer palavra ,. oquaj R e y , iegundo llleicas morreono 
anno do Senh. r j6%, \i\o , quando diilemos , que 
Guimaraens houve elte nome na fua iegunda funda- 
§ao. 

3 O mefmo Amhor diz , que Guimaraens c^nhe- 
ce a'Sao Darmfo por Patrono , e CidacLo leu. Seenten- 
de, que efta Villa em tempo de Sd6 Ditnafo fe cha- 
mava Vimaranes , ou Vimaranum, nao pode ier , fegun- 
do elle , oorque Vimarano, que lhe deu o nome, co* 
mo elle ;-ffima foy depois de Sao Damafo ma is de trin- 
ta epito annos. E fe tinha entao outro nome , eftd 
houvera elle de inveftigar, epublicar por tua honra: 
efolgaramos, que fora com melhor fucceffo , do que 
foy , quando difle era outro lugar daquella lua obra, 
que vjndo os Romanos conquiftar aos Lufitanos , paf- 
iado oMinho, puzerao feus arrayaes junto dorio Li- 
ma, e que levados dafrefcura da terra , chamiao ao 
Lima , Lethet, porque alii ie efquecerao de fua patria. 
r . 4 Ocafo defte famolo rio eiaeve Strabo da ma- 
/ i.prope we-neira^feguin^e. Diz elle, que ospovos CeUicos, eos 
$»«S Turdulos, fazendo guerra naquella parte do Lima de 

mao commum , tanto que paila'rao aquellerio, vieraS 
em ditcordia entre fi , e perdendo nella (eu Capitao , fi- 
carao elpalhados por aquelles lugares , e que daqui cha- 
irprao ao Lima Lethes , que fignifica efquecimento. E 
nao diz, que fofle ifto pela terra fer frefca , nemcje- 
Mnd.h A» Jeitofa , mas fo diz , o que flea referido. O Doutor Re- 
fende expHcando efte lugar de Strabo, diz , que orio 
fecframou do efquecimento, porque efquecidos daem- 
preza , que tomarao , e da difcordla , que tiverao alii , fe 
3quieraTa6. Depois'veyo Decio Jumo Bruto com hum 
exercito de Rcmanos , e na6 veyo do Minho contra 
Lufitania , ccmo diz aquelle Author, fenao da Lull- 
tania contra o Mihho , o qual rio na6 paflbu , e 
nelle fez termino de fua conquifta , como moftraremos 
no Capitulo fegutnte; Nefta Jornada de Bruto, na5 
querendo os Soldados pafTaroLima, Bruto tomando 
abandeira aoAlferes, o paflbu, e aflimlhesperfuadioi 

que 



r Stra&$ Gecgr, 



tiq. Lvfitan 
i*x.f«!. 77. 



*DeTjrttigaLCdp.XPlll. 77 

queopaiUnem , lo und ) Horoaffirma. Foy itto no an- Ph*" bfpl 
no dafundaqaft de Roma , como aponta a Chronolo- '••»«*»" h 
gia de Livio 616 , que vem a fer antes do Naicimen* I5 ' 
to de Chrifto 1 56. annos. 

f Torn mdo ao intento , contlrma o dito de Re- 
fende acerca dapovoaqao aatiga deGuimaraens, huma 
Igreja da advocaqao de Sao Tiago , que nao ha muitos 
annos durava na pr<iqa delta Villa , a qual gaftada do 
tempo , e meya arruinada , que da dita Villa , e (egun- 
do memorias do archivo daCollegiada Real , ella foy 
Collegiada antigamente , e pertendia ilenqoens , e pre- 
eminencias contra a Real , que ella mal fomia * io- 
bre que houve litigios entre ellas com refcriptos im- 
petrados do Papa. Era efta Igreja de Sao Tiago de pe- 
dra decantaria, e tinha huma toifre, que eu ainda vi, 
na qual quandb fe desfez foy achada huma medal ha, 
que eu tenho, em que fe ve de huma parte huma rau- 
Ihef efcuTpkta" de meyo relevo , tangendo em hum inf- 
trumendo de cordas, e em outra , que 1 be poem huma 
coroa na cabeqa com a mao direita , e na efquerda tem 
huma cornucopia com efta letra no circuito , Him* alit 
ancu E da outra parte ella Minerva com huma Janqa # 
na mao direita r e hum eicudo naeiquerda com outra 
letra , que diz: Senpacem , feu Bella geras. 

6 A qual moeda efta tambem eftampada em to- 
das as luas partes , que parece fer feita em tempo dos 
Romanos , em que a arte da efcultura eftava naquel- 
la perfeiqso , em que nao eftava no tempo dos antigos 
Reys de Portugal 9 nem dos Godos , como fe ve em 
moedas deftes tempos , que eU tenho. O que (em du- 
vida he argumento de grandiflima antiguidade defte 
Templo , e de lua fundaqaS, a qual parece, que nao 
podia fer , fenao no tempo dos Romanos , ou do mef- 
mo Sao Damafo, em que ainda todas as artes fecOn- 
fervavao em Jkia perfeiqao , e policia. Que daqSelle 
tempo ate^fte noffo durafle efte edificio , he muito 
poflivel < pois vemos durar naCidade de Evora as cafas 
de^ulnto Sertqrio Capitao Romano ^ que nella teve 
lua habitacao antes do Nalcimento de Chrifto Noflo 




y % Fdrias Antimidades 

fcenhor: e hum portico de coiumnas Corinthiasj obra 
iumptuo.la , que efta junto do Mcflr.ro deSao J ■■■aoj 
e outros muitos edificios dos R.omanos em varias par> 
tes do Mundo. Finalmente dos cinco |uga r es , que con- 
tendem iobre Damafo , tres delies o fazem Portuguez, 
centre eftes a nobre Villa de Guimaraens efta muy 
adiante , porque para ier feu nao fomente tern odi- 
reito , mas tambem a pode , ifto he , que Ihe guarda 
feu dia , feftejandoo , como feu particular Padroeifo ; 
e efta infigne Igreja Collegiada lhe faz o officio folem- 
ne pelo ter par natural , e muitos pelo mefmo refpei» 
to ie chamao do feu nome. 






CAPITULO XIX. 

Mqftra-fe , que Sao Damafo nao he natural de Ma- 
drid t nem de Tarragona , nem de Cttama , nem 
Citama he a Cidade Cinnania de Vale* 
rio CMaximo. 






p 



Areceo-me convenient^ refponder is pri-J 
meiras tres opinioens fobre a patria de 
Sao Damafo. Diz Lucio Marineo , que 
Sao Damafo nalceo em Madrid , fegundo a opiniaS de 
muitos. Mas como nao traz outros fundamentos , nao 
fe lhe pode dar credito. A letra , que traz Illefcas , e 
outros, deve fer modema , da qual Marineo nao faz men- 
qao i que efcreveo primeiro. Ao Doutor Beuter , que 
o faz de Tarragona , refpondemos , que oh xivera de 
provar , porque para aflirmar coufa tao antiga , mais 
ha mifter , que dizello elle fern mais outra coufa , o 
qual eicreveo em tempo de noflos pays. 

*o( A terceira opiniaS he do Padre Frey Bernardo 
deBraga da Ordem de Sao Bento, o qual falecendo 
deixou certas obras elcritas, que ate agora nao fao im« 
preftas, naslquaes elle trata efta materia, fegundo me 
diz em huma carta , que me >efcreYeo pouco antes de 

fua 



XteTortHgal. C dp. XIX. 79 

fua morte , na qual oiz tambsm aspalavras feguintes: 
jimonio Batter' da © nojfo patiroeiro , e P*pa Sao Damafo 
per natural del arragoaa , jcndo elle Portugmz. natural etc 
Cttar.ia, fj& ttrmo , que agcra j.e de Guimaraens » cotnorez.* 
deile a Santa Igreja da Brdga , c o traz, Pafco nafua. Chro* 
mca de Hcfpanha; Lcra .elle asdoacjoens dolivro da Con- 
defia Mumadona , que lhe eu cemmuniquey por meyo 
de hum amigo feu j e meu : e como pelo teftamento 
da Cpmfcfla foube a fundaqao do ieu Mofteiro $ e o 
principle delta Villa (da moderna digo, que da anti- 
ga nao teve elle noticia ) comec^ou de bufcar patria a 
Sa£> Damalo j poisefta, quelhedavaS, o nao podia fer# 
E tirando*o de Guimaraens levou-o ahum fragoio ou- 
teiro de pedras chamado Citania , e la quiz tambem le» 
var o Breviario de Braga , dizendo , que a palavra Vi~ 
maranenfuy que elle traz, nao" quer dizer da Villa de 
Guimaraens, fenao do termo. 

5 Fracas provas devia ter para authorizar fua opi- 
nio quern effca traz , em que moftra nao advertir em 
tao claras palavras \ como fao aquellas do Breviario: 
Damafut patria Vimaramnfi$ , para entendimento das 
quaes lhe baltava ir ver o Meftre Vafeo com atten^ao, v*ftut **«. i. 
porque -elle em hum lugar fallando delle diz : Fuit hie «nnoDmi6% 
ntUus Vimaranit opfido Portugalia y &c. E noutro lhe cha 
ma 9 Viwaramnfis. De modo , que de Vafeo mefmo , ^metiem 
que elle allega, confta ocontrario do que diz. RMor tomaa " 6 l* 7 ' 
rales , e quantos feguem a Vafeo \ dizem /que Damafo 
toy da Villa dc Guimaraens, e nao do termo , como el- 
le quer : e em boa latinidade nao tern ifto duvHa. E 
ie com tudo inftafle , que he naturardo termo, ifto di- 
ga-o elle de fi , aflira como diz, que he de Citania, 
mas na6, que o Breviario diga huma coufe , nem ou- 
tra , nem menos Vafeo. 

4 Legoa e meya de Guimaraens contra o Norte 
em humxnonte alto diz o vulgo ,, que fry huma Ctda- 
de chamada Citania, Nao ley oque della ientio F-ey 
Bernardo de Braga ; mas Frey Bernardo de Brito na fua 
Monarchia diz, quedefejando muito faher, onde foy Uemrcihu 
aantiga Cidade Cinnania, depois de muitas diligen- ' j, i,%. " 

cias 



FlorUmL I. 
c. 3. 

Moral. I, j. 

(12« 



80 Farias Aniiguidades. 

cias- feitas, veyo adar em iuasruinas, que dizferefti 
eitas com fmaes demuros, etorres, e que com pouca 
corrupcao os naturaes da terra Ihe coniervavao o no- 
me antigo , chamando-lhe Citania. Bntendo , que a 
iimilnanca dos nomes Citania , e Cinnania fern con- 
nderaqao do ficio deu motivo a efta opiniao , mas a 
meu parecer > nao pode efta Citania fer a Cinaania de 
v*ier.L sc.41 V aleno Maximo , da qua! entretodosos Etcritor-s (6 
mvusVaiemiQiiQ f az mencaS , ediz ter Gidade da Lufitania. E co- 
mo elle fofle Cidadao Romano , havia de entender Lu- 
fitania demarcada pelos Hmites dados , e fabidos pelos 
Romanos , que fad os que traz Floriam de (Xampo 
com muita pmicularidade , e eerteza, como diz Am. 
brofio de Morales. Eftes Hmites da parte do meyo dil 
e Occidente erao toda a cofta do mar Oceano , que 
vay da boca dorio Guadiana ate a boca do rio Douro, 
agua arriba ate quafi vinte e cinco legoas. E dalli hii* 
rnaJinha extendida pelo Certao, que hia parar ao rio 
Guadiana. E fegundo .efta demarca^ao Romana, Lufi- 
tania da parte do Norte , comeqava. do rio Douro con- 
P/W./.4C2L tra o meyo dia , o queclaramentediz Plinio neftaspa- 
<>>p. nut. . Javras : A Dario Ltifittnia incipi. Turduli veterts , ,&c. 

5 Ora fuppofto ifto , dentro na Provincia com- 
prehendida neftes Hmites eftava Cinnania , pois Vale- 
r,io diz fer Cidade de Lufitania. £ aflim como. os Ro- 
manos chamavao a efta terra Lufitania , affim ellas 
meimos chamavao Galliza a terra dentre Douro, e Mi- 
nho , que comec^a dorio Douro contra o Norte , oque 
P/»»; fc# /. 4. tambem diile Plinio no livro quarto , onde affirma, 
c 10. que o Douro divide os Lufitanos dos Gallegos. Eftes 

s mefmos Hmites poem os Efcriiores modernos feguin- 
VoUt^Gwr 2°. os , 3n r tl & s ■ charaando 4 terra .do Douro contra o 
/. 1. ^ ul ». Lu »tania , e do meirno Douro contra o Norte $ 

oforiusin fro- Galliza. E Floriam accrefcenta , que efta Comarca den- 
Ic'go fojl. tre Douro, e Minho, nunca foy de Lufitania, Ondefe 
•.wan Reg. collide, que a Cidade Cinnania nao efta nella. 

6 Ha outra razao para efta terra fer chamada 
Galliza em tempo deBruto, a quern a Cidade Cinna- 
nia refpondeo, oque conta Valerio Maximo, aqual 

hfij 



Htfeatlui An 



7)e TortugaL Cap. XIX. g i 

he; que Livio rio livio jry diz, que efte Capitao con* 
quiftou Lufitania', e no livro 56 diz , que venceo aos 
Gallegos. £ das taboas Gapitolinas , que traz Onu* hr ., 
phrio, confta , que triunfou dos Lufttanos , e Galle- K ( fadA»uq* 
gos. EporStrabo, quando falla do Minho, fabemos,/. v 
que efta jcrnada , e conquifta de Bruto nao padou do^k'OvM 
dito rio Minho , e aflim diz elle, fegundo a veriao Ira- 64 * 
liana de Buonaccioli: Quttto termincnon pajf» Bruto sol ef- 
fercito. Hora ie Bruto nefte efpaco de terras, que he a 
Lufitania, edella.ate'o Minho , venceo eftas duas na- 
qoens Lufitanos , e Gallegos , neceffariamente ha- 
vemos de dar no mefmo efpaqo as duas Provincias, Lu- 
fitania, e Galliza : e ilto nao pode fer fenaofazendo 
Lufitania ate o rio Douro , e Galliza-delle mefmo pa- 
ra diante contra o Norte; conforme a demarcac,ao Ro- 
mana. Logo a Cidade Cinnania, que Valerio pcem na 
Lufitania , nap eftava nefta CSmaica dentre Douro , e ( 
Minho , pois era Galliza. 






CAPITULO XX. 

Refpefta , que a Cidadt Cinnania deu aos Embaixa* 

dores de Decto Bruto. Que Author foy ver « 

monte Citama , to que Ihe pareeeo. 

1 X^Ontinuando a mefma materia lerrbra-me, 

I que Ambrofio de Morales tambem entende Morall *• 
^•^ a demarcacad antiga deltas Provincias , co- c * Ss 
mo fica referida 4 chamando a etta terra dentre Dou- 
ro, e Minho, Galliza : masenganou-fe em dizer, que 
neftas guerras de Galliza cercou Bruto huma Cidade 
chamada Cinnania , que Ihe refiftio perieveradamente; 
contando o mais, que diz Valerio Maximo , nao ad- v a \. Maxl 
virtindo, que efte Author faz aquella Cidade deLu- -l M»4« 
fitania, e nao de Galliza, cujas palavras traduzidas fao 
as feguintes: „ Corao quer que Li. fitania quail toda 
„ (e defie a Decio Bruto, e 16 Cinnania Cidade daquel- 

1- , „la 



8<yW. I. ? . 

Anti'i- Lufit 



8 2 Farias Jntiguidacfef 

i, la gente pertinazmente lhe icfiftiile , tentou elle fe 
,, com dinheiro fe queria redimir , mas ella de com- 
„ mum confentimento relpondeo aos Embaixadores, 
,, que feus antepalTados lhe deixarao ferro , com que d> 
„ fmdefiem fua terra , e na6 ouro , com que compraflem 
„ liberdade a hum Capitao avaro. Ate aqui fao palavras 
de Valerio Maximo j e accrefcenta , que melhor fora 
aos Romanos dizer ifto , que ouvillo. 

2 O Doutor Refende notou melhor o texto de 
Valerio, porque diz nasfuas antiguidadesde Lufitania, 
que efta Provirtcia Lufitania quafi toda fe deu a Bru- 
to, tirando a Cidade Cinnania. E 1 go immediatamen- 
te diz , que Bruto tambem commetteo aos Bracaros t 
gente de Galliza , e houve delles huma grande vito- 
ria. Nas quaes palavras he claro chamar Galliza a efta 
terra dentre Douro, e Minho. Ecomo Cinnania fo(Te 
Cidaie de L' fitania , eoouteiro Citania eft? ja em Gal- 
liza , em nenhuma maneira pode elle fer a Cinnania de 
Valerio Mximo. 

3 Plutarcho tocando nefta guerra de Bruto , pare- 
ce dar a entender , que orio Lima charoado em Gr*^ 
Lakes eftava fora da Lufitania , porque diz , que B uto 
fez guerra a Lufitania , e paflando maisadiante foy,o pri- 

phtarcb. in meiro, que paftbu o rio La hes, As palavras de Plutarcho, 
prohhmm.fe- fegundo a verfao de Hermano Cruferio , fao as feguin- 
eiivte 34. tes : Hie fnh , qui Lttfitaxid amta mtulit , & pri ceps ulte- 
tins progreffut Lethes amnsm , fupertvit. De modo , que 
fegundo Plutarcho, efta terra deentre Douro , e Minho, 
onie efta o rio Lima , em tempo de Bruto nao era de 
Lufitania, nem pelo confeguinte as Cidades , quenel- 
}a eftavaS. Nao trato aqui doslimites, que os Autho- 
res Gregos, como Strabo , dava6 a Lufitania , porque 
Valerio Maximo era Romano, como ja dilTe , ehavia 
de entender Lufitania < fegundo a dsmarcac3o Roma, 
na, e nao Grega. E alen difto omefmo Strabo he nel- 
les muy varir» , como fe pode ver em Andre de Re(en- 
de, que dignamente o notou. 

4 Vindo eu de Braga para Guimaraens me diver- 
ti por it ver o outeiro, aquechamad Cttania, oqual 

r efta 



"Reftnd. in 
jtntiq. Luf> 
/.I. 



« 



T>eT?onugal. Cap. XX. 8 j 

efta junto do rio Ave daquella banda de Braga , ean- 
dey por cima delle com trabalho, porier todo (emea- 
do depe.dras nativas, e de outras iolras, e nao achey 
nelle vtftigio algum de rua , nem os penedos alii nal- 
cidos o permit tem: alguraas calas hcuve de paredede 
pedra iolta lemcal, erude, que parece forao de Mou- 
ros lavradores ,~ ou palheiros , mas nao ha huma 16 pe- 
dra lavrada , nem fonte , nem capacidadede fitio , que 
liavia de ter huma Cidade , que defprezava hum ex« 
ercito de Romanos , porque o outeiro fo para curral 
de gado podia iervir , fe fora em cima arenofo , e nao 
tao afpero como he. Da parte do rio he bem alto , e fra^ 
gtfo, daoutra razo com a terra. Aoi odor tem alguns > 
veftigios de cerca de pedra tambena (olta da parte do 
Norte , huns aqui , butros alii , defordenadamente \ 
que psrecem fubcalcos feitos para ter mao na terra, 
mas nao ha torres , nem memcria deltas j pelo que pa- 
rece feria ifto alguma habitaqaS de Mouros lavradores,' 
como tenhodito, 

5" O que tem notavel he huma calqada antiga da 
banda do rio , que vay pelo lado daquelle monte ate 
scima , flcando elle a ma6 efquerda em refpeito de quem . 
ichepor ella, quedevia fer caminho para outra parte, 
como ha ainda hoje muitas.cale.adas de Romanos, que 
el!es foziao, como dizRefendej pomzao da lama, e Reftnd. a»» 
atolleiros, e diz, que em terra *Jos Bracaros durao ain» tiq. Lu{. t.# 
da eftss cal^adas : Ttlium vidrrtm Jepttm in Lufitania % f * ***• 
at(jue in Bracarisfuperfunt adhttc. Sao palavras de Refen- 
de. S por efhs razoens parece , que o outeiro cha ma- 
do Citania , nao pode (er a Cinnanta de Valerio Ma- 
ximo, nem outra alguma Cidade, como quer Fr. Ber- 
nardo de Braga, pois faz a Damafo natural del la. Ad- 
virto de paflagem , que os eicritos de Valerio Maxi- 
mo , que agora correm emrr.endadoS por Alberto Pi- 
ghio , chamao aquellaCidade Cinninia ,-e nao Ginna- 
nia , com que o arcumento da fimilhanca dos nomes , 
que alguns fazem , flea maisfraco. 

6 Melhor parece , que argumentavao outros, 
que vendo a Sso Damafo tao antigo , e nao iabendo 

I* ii as 




1 

■1 HBfi 


J 1 

1 fifi 



<4>. 



8 4 1 7 arias Antiguidaies 

asduas fundacpens de Guimaraens , queriao, queefta 
P/hotom.U t'f Villa fofle a antiga Araduca, deque falla Ptholomeo. 
Mas nem ifto pode fer f porque fegundo efte Author, 
Araduca efta em quarenta e hum grao , e cincoenta mi- 
nutos de altura do Norte, eefta no mefmo parallelo 
comaboca dorio Douro, mas mais Oriental hum grao, 
que fao dezafete legoas e meya da dita bbca. E como 
Guimaraens difte della oito , ou hove fomente , em 
nenhuma maneira pode fer Araduca. Jeronymo Rufcel- 
li iobre efte lugar de Ptholomeo diz , que Araduca 
fe chama agora Arzua , a qual nao fey onde cahe , nem 
era toda efta Comarca tenho ouvido efte nome. Mas 
dado , que Guimaraens fora Araduca, e Sao Damalo 
fora natural della , houvera fe de achar intitulado : Da- 
mafia ArAducanns, do nome , que eila tinha no tempo 
delle , e nao Fiwarnnenfts , do que teve depois mais de 
quinhentos annos , conforme a opintao deftes , que tern 
a Guimaraens juntamente com leu nome por moderna^ 
fem faber com tudo , como , e quando teve princi- 
pio. 

CAPtTULO XXI. 

Quem fez as Chronica* dosReys de Portugal. §lue a 

Rainha Dona Tereja ca/ou fegunda vez , 

e em que anw. 



D 



Duarle GulvdS 



Evia a Villa de Guimaraens augmentar- 
fe muito com nella afiiftir o CondeD. 
Henrique com lua Corte , e depois com 
a do Infante Dom Affbnfo feu filho, e aflim foypbde- 
rofa para defender ao mefmo Infante do poder d'ElRey 
de Caftella Dom Aftbnio VII , feu primo , filho de Do- 
na Urraca Rainha de Caftella j que nella o teve cer- 
„cado, como efcreve Duarte Gdvao na Chronica d'El- 
Rey Dom Affbnfo Hennques , que elle compoz pot 
mandado d'iilRey Dom Manoel , a quern a dedicou: 

da 



7)e TortugaL Cap. XXL 8 5 

da qual elle nao foy Author , ienao apurador do an- 
tigo linguage, em que andava , como diz Joao deBar- 
ros. Efpant^me dizer Duarte Galvao, que elle a fez Btiff ' Decl 3- 
denovo, porque o Chronifta Fernao Lopes Efcrivao q^'o t* 
da puridade, que foy do Infante Santo Dom Fernando, piA&pio deft* 
e Guarda mor da Torre do Tombo , fez todas as Chro- chronica. 
nicas dos Reys ate (eu tempo , comeqando do Conde 
Dom Henrique, como prova Oamiao deGoes, e nao g*« »« cWj v 
fe pode c.rer , que deixafle de fazer a do primeiro Rey "^t^J ; 
de Portugal Dom Affonfo Henriques , fazendo a do ' Ct £™ ii 
Conde feu pay, e todas as mais. Pelo que fe Duarte ' ' 
Galvao foy o apurador, fegundojoao deBarros, nin- 
guem foy o Author , le nao Fernao Lopes , e agora em 
noflos dias Duarte Nunes oreformador. Du ^.j 

% Efte cerco de Guimaraens ,_ ainda queElRey t m jfionfo i.' 
de Cattella difle a Dom Egas Moniz , que o poz , por« foi. zt. «/. j. 
que o Infante feu primo lhe nao queria conhecer ie- 
rshorio , com tudo eu entendo , e afTim o mofcra tam- 
bem Duarte Galvad*, que tambem foy demagoadoda Gahat &s; 
batalha , que perdeo em Valdevez, A qual feoccsfio- ' 

nou do fegundo cafamento da Rainha Dona Tereja 
como Conde Dom Fernao Pires de Traftamara , fenhor „ ' $ d E 
degrande poder, enome, como adiante fedira, pof- v*l x.i*u 
to que dous Authores modernos digao , que nao hou- c. 4. 
ve tal cafamento. Na6 fey fe cuidarao , que era efta a Duarte Nunes 
desformidade doolhod'ElRey Antigino, ao qual Apel- **''$?&$, 
les porlha encobrir pintou de hum fo lado * como affir- % vjfo'. 
ma Quintiliano , e Sabellico*. Porque notorio he , que flmmiqllT 
o Santo Matrimonio , chamado de Sa6 Paulo, grande £.«*»>• ?nft' 
Sacramento , naofomente na6 affea o corpo , mas afor- * r « uL *■' <>- c \ 
mofea a alma. Alem difto recebido efta, que a muiher J^ e/ E 
nobre, quando cafa com horaem nao tao nobre , nac> le.poPmt*- 
perde por iflo fua nobrez?». O que fe vio ria Infanta hum. 
Dona Urraca, filha d'SlRey de Caftella Dom Afton- £ P^- * n. 
fo VI. irmaa da fobredita Rainha Dona Tereja, a qual Maria ^ l * l o- 
os Grandes daquelle Reynp quizerao , que catera afe- c " 7 ^ 
gunda vez com Dom Gomes, Conde de Candefpina, 
vaiiallo d'ElRey feu pay , fern achar , que perdia na- 
da de fua nobreza. E a frinceza Pulcheria Augufta , fi- 
lha 



Baron. *pud 
Spend, anno 

n. 4. 

Vofat. Anthro- 
fol.l- iX.virb. 
Martianus, 

V.Vedro tit. 7; 
§. J. e j« fif . 
13. §. I. 
Sumrmtr, que 
traz Re/end 
tta fua antig. 
'de livorae. 1 3. 
Duarte Nunes 
na Cbr. d'El' 
D. Fernando 
fol txy-coUt' 
Gdesubifup. 
Galvito c* l> e 

Refcnd. ubi 
/up. 

Fr. Prud na 
Ch. tt'ElRey. 
V.Affonfo 
VlLc. 15 E 
na defcendcn- 
cla dos de Acu- 
nbafol. do 1% 
1.70. col. J. 
Fr. Bern, de 
Jbrito na Mo- 
narchia p. !• 
/. 7. c. II. 
Vdat. Gcogr. 
I i.e. de R<rj- 
t»h Narar, 
Ravifius text, 
torn* 2. verbo 
ingrati. 
Mariana I, 10. 



Farias Antiguidades. 

lna do Imperador Arcadio , caiou com Marciano f que 
de fraco Soldado fobio a varao consular , fazendc-o com 
ifto Imperador do Oriente ; e nem ella , nem o Senado 
entenderao > que por iflb desfazia em iua grandeza , do 
qual cafamento trata oCardeal Baronio, e Rafael Vo- 
la terra no. 

3 Se o motlvo daquelles Authores , nao foy o 
que aponto, na6 lhe vejo Author antigo , nem mo- 
demo , em que fe fundem , lalvo psrecerlhe affim pot 
algumas razoens , que adiante veremo'. Mas pela par- 
te contraria ella primeitamente o Conde Dom Pedro * 
filho d'ElRey DomDiniz, pelToa degrande author ida- 
de , particularmente nifto , porquedevia faberbem as 
toufas de leus avos. Hum iummario antigo dos Reys 
Godos feito em Latim rude ate EIRey D. AfTonfo Hen- 
riques. Fernao Lopes Chronifta de noflos Reys , ho- 
mem de grande diligencia /efe no queefcreve, de 
que olouva Duarte Nunes de Leao, o qual vio todos 
osCartorios defte Reyno , emuitas etcrituras de Caftel- 
la , que mandou trazer o Infante Dom Duarte, ede-: 
pois Rey defte Reyno , como efcreve Damiao de Goes* 
Duarte Galvao fidalgo Portuguez, na Chronica d'filRey 
Dom AfFonfo Henriques, o Doutor Andre de Reiende, 
prey Bernardo de Brito, Rafael Volaterrano , Ravilio 
Te&tor , Frey Prudencio de Sandoval , Joao de Maria- 
na da Companhia de JESU , e outros. 

4 Confirma o dito defies Authores huma doacaoj 
que o Isnperador Dom AfTonfo Ramon fez a Salvador 
Fernandes da Alvergaria deBivario, feita na Era n6f f 
anno. doSenhor 1127, no fim de Novembro , a qual 
traz Prudencio de Sandoval para outro propofito na def- 
cendencia da cafade Acunha folhas do livro 277 col. r; 
Onde confirma a tal doacno Dom Fernando Conde de 
Portugal , e diz aflim : Comes Fernandas Portugalenfis On- 
fir, E claro he, que ufava el le defte titulo porvirtude 
do Matrimonio, quetinha celebrado com a Rainha de 
Portugal Dona Tareja. Onde confta , que no tal anno 
1 117 era a Rainha viuva , e catada com feu legundo 

marido; .. 

f Mas 




*De TortugaL Cap. XXL 87 

5 Mas oque^mais authoriza ifto , e remove to- 
da a duvida, he a metma Rainha , que em tres doacoes, 
queallega Frey Bernardo de Brito , feaffinou da manei-^ *«■»•*- 
ra ieguinte , edeclaro , que nao allego agora a Frey f%?J£ ,*". 
Bernardo, ienao a mefma Rainha, que aflim ieaflinou: ' ' 
Rcgin* Domino. Thara/ta , uxer cjtiondum Comitis Henriciy 

nunc auttm Comitis Domini Fernandi : itlo he : a Rainha 

Dona Tareja , mulher antigamente do Conde Dom 

Herique , e agora do Cnnde Dom Fernando. Pelo que 

nao fe pode duvidar daverdade dotal calamento , o 

qua! entendo , que fe fez entre osannos i ny, e 1127, n.Fr True?. 

porque ate o anno 1 izy , ha muitas doaqoens , que mot »« antig. de 

trao nao eftar cafada : e do anno 1117 pordiante ha faTuyfok 

outras j que moftrao . que o eftava, como he a que em- lu »"voit. 

cima trouxe do Conde D. Fernando: e tambem le col- 

Jige claramente do fummario dos Reys Godos doRe-j^y „ a u$Ms 

fende 4 que no anno 1128 eftava cafada. Onde fe veantig.de br«- 

tambem o errgano de quern cuidou , que ella ie cafou r* <?. ij. 

logo em morrendo o Conde Dom Henrique feu marido, 

que foy noanno 1 in. E por conftar dehuma doaqa6, 

que.ella fez a Dom Ugo Bifpo do Porto no anno 1 120, „ 

. 1 r 1 r 1 * traz l !' a do** 

que nao era ainda cafada notalanno, negoutotalmen- f ^ n*Gbr& n i 
te efte fegundo cafamento. Mas tern efta defculpa , que ti'E/Rey d. 
aquella doacao foy como hum Orizonte de fua villa , A ffo-h Hen* 
alem do qual nao vio , nem foube mais nada da dita"? ,w< ^ rwc ' ! 
Rainha. 

6 Muita duvida com tudo lhes podera fazer o 
Conde Dom Pedro acima allegado, que oaffirma por 
fer quarto neto daquelles Principes , e de muita autho- 
ridade, eantiguidade, porque morreo na grade 1391, 
anno doSenhor 155*4 , como confta de hum livro de 
Anniverfarios do M oiteiro de Carquere do Bifpado de 
Lamego. Cujo livro de linhagens , pofto que ienaS 
imprimto, anda nas maos dosnobres,.e curiofos de 
toda aHefpanha , dos quaes porrazao da materia , e 
de feu Author , he tido geralmente em grande eftirna. 
Tanto agrada opregao, e qualquer memoriadalinha- 
gem propria , que tempo authorlza , e a eicritura o 
Qonierva. 

7 De« 



Dutrtl Nuties 



ffo- 



88 Farias Antigui&ades 

Yufeh.h s 4X.u 7 Demos aos humanos ma humanidadei OsHe- 
1. c. 6* breos tiverao iuas geraqoens efcritas. Os Romanos tam- 

STr. i>Lp" bim PO' Tito Pomponio Attico. Tenhao os Portugue- 
Attid ' zes as fuas, pois ta6 natural he no homem odeiejo da 
honra , e o gofto de ver a defcendencia de ieus avos enta- 
Ihada em letras de honrola hiftori ...: como moftrcuBruto 
Sratusapud nos rogos , com que alcanqou de Pom pernio Attjco , que 
corn'tiej.in e { creV e(Ie a dos junios , em que elle tinha parte : e Au- 
rmg. Amc. gufto Geiar dg Meffala Corvin0 , que e f cr eve{Te a fua, 

como affirma o mefmo Meflala naquelle livrinho » que 
delle temos , fe feu he o tal livrinho. . 

C APITULO XXII. 

Da nobreza do Conde Dom Fernando de Traftamara > 
e porque occadao veyo a Portugal, 



o 



Conde Dom Fernao Pires deTraftama- 

ra foy rllho do Conde Dom Pedto de 

Trava , chamado affim , porque povoou 

o Caftello de Trava em Galliza , e de huma filha do 

CoHlD.Pf Conde deUrgel , que o Conde Dom Pedro fil ho d'&l- 

dfotit.i.%1- R e y £) om Diniz, que eufigo, nao nomea, onde no- 

to , que as noflas Chronicas lhe chamao Dom Fernao 

Paes , mas eftelivro do Conde Dom Pedro lhe chama 

conftantemente Dom Fernao Pires , e melhor a meu pa- 

Fr. vrud.t. ti recer , por fer efta alcunha dirivada de Pedro , nome 

da chron. fa f eu pay. Frey Prudencio Chronifta d'ElRey Dom Af- 

defltRey 25<"»f on fo VII. de Caftella , chamado Imperador , fazmen- 

*JM<k ^6 dette Conde Pedro de Trava por eftas palavras s 

„ Derao o Infante a criar ao Conde Dom £edro deTra- 

que era hum grande fenhor de Galliza , e de quern 



va 



Sifrtando W. 
Btfpo Irienf: 
9tt Comp»ltel- 



r# nashiftorias fefazmuita menc.ao, porque foyvarao 
^,'de extremada virtude na guerra , e paz , e de muitoal- 
„tofangue, delcendente de humirmao daquelle San- 
„ to Bifpo de Iria Sifnando , que fundarao o Mofteiro de 
,. Sobrado em Galliza Era $6o , da prdem de Sao Ben-. 

,ito, 




7)e 'Portugal. Cap. XX 1L 8 9 

„to; Econfta do valor do Conde , pois por elle che- 
i, gou o Infante Dom Affonfo a fer Rey de Cafte^, 
„a pezar o'ElRey Dom Affonfo de Aragao leu padralfo. 
Ate aqui Frey Prudencio. 

2 Do mefmo Conde falla tambem com muita hon- 
ra Joao de Mariana , dizendo: Foyprezo na peleja Dom 
Fedro Conde de Trava ypepadegr ar.de author idade^ e peter , 
que eft ova cafado com hum a ft I ha de A^mengol Conde deVr* 
gel , cbamtdo Dom Mayor, lito diz Mariana. A grande 
authoridade, que eftes Authores attribuem ao Conde D. 
Pedro de Trava , fevio tambem , que fendo falecido 
Dom Ramon y Conde de Galliza , pay do Infante Dom 
Affonfo, e marido da Rainha Dona Urraca, no anno do 
Senhqr de 1107. E tambem EIRey Dom Affonfo VI, 
feu avo , no anno 1 109 , e desfeito o fegundo cafamen- 
to da Rainha Dona Urraca com EIRey de Aragao, pe- 
lo Papa Paicoal , por ierem parentes , o Conde Dom 
Pedro de Trava com todo o poder de Galliza , e o Bii- 
po deSro Tiago com Diogo Gelmires, tomaraoo In- 
fante Dom Affonfo menino , e o levantarao em Sao Tia* 
go por Rey. Mas nao podendo prevalecer contra EI- 
Rey de Aragao , o Conde Dom Pedro de Trava procu* 
rou ganhar a vontade do Conde Dom Henrique de Por- 
tugal $ tio do Infante, primo de feu pay o Conde Dcm 
Ramon, para que o ajudaile neftas contendas; ecom 
feu pareceri eajuda acabou'f que o Infante foy rece* 
bido por Rey de Caftella * e de Leao, como Frey Pru- 
dencio affirnia. Com efta occailaS eracompanhia defeu 
pay lufpeito eu , que entrou em Portugal o Conde 
Dom Fernando de Traftamara , ou de Trava , ou de 
Galliza , como outros lhe chamaS. E como quer que 
fofle, elle refidio muitos annos nefta Corte juntamen- 
te com Dom Beimudo Pires de Trava feu irmao j que 
depois foy tambem Conde , dignidadej, que depois da 
Real era a fegunda naquelle tempo em Hefpanha. 

3 Andava o Conde Dom Fernando em Portugal, 
e como nas contendas d'EIRey de Caftella com EIRey 
de Aragao feu padrafto, fofle neutral, indo a Zamora 
acompaahando a Rainha Dona Tareja de Portugal -, que 

M foy 



lano t morreo 
no anno do St» 
nhor 910 em 
caja wcrtgfe 
ouviraO vezei 
efeAaj.es y que 
diziao Vent 
eh6ie~Dei &c* 
Vajeo torn, l. 
anno 920. 
Mariana U\o* 
c.9. 

Fr. Prud. na 
meftna Ckots* 
c. K 



Idemti }» 



Ft,frud>e.% 



Tr. Pfud. na 
m:fm. Chron. 
e>9: 



90 Farias Anttguidades 

foy vifitar aquelle Rey leu iobiinho, alii fizeraS to* 
d^> tratos de paz, e amizade, e o Conde (edeclarou pot 
dxparte do dito Rey. Doide veyo a dizer Frey Pruden- 
cio : ,, Era o Conde Dom Fernando poderofitfimo em 
„ Galliza , prezava-ie de feu parentefco todaa nobreza 
„ daquelle Reyno. Como virao » que fe tinha arrimado 
„ a parte o'£lRey Dim Affonfo , (em dilac^o vieraoa 
. ,,iua obediencia Dom Garcia Inigues, e outros fenho- 
v resgrandes, que oChronifta nomea. FoyittonaEra 
n6o , annodoSenhor 1 122 Donde oleitor tire de paf- 
jasrem , que ainda netle anno a Rainhanao era ca- 
iada. 

4 Como eftes fenhores da cala de Trava , ou Tra- 
ftamara foflem de\ Galliza , nao ha memoria delles, 
fenao nas efcrituras daquelle Reyno , a quat n^ flos 
naturaes nao tiverao , porque nao tiverao quern lha 
.- tir-afle do poqo de Democrito \ qnero dizer das memo- 
rias , e doaqoeus antigas dos Mofteiros de Galliza, que 
Frey Prudencio de Sandoval , como Monge que era 
de Sa5 B;nto , tirou , vendo-as., e revolvendtt as curio- 
famente , a quern agradecemos efta noticta. 

? Diz pois e(te Author em favor de noffo pro-- 
Pr Pru # ( $9t pofito em outro lugardaquella hiftoria : ,, Muitas ve- 
,,zes fetem nomeadb o Conde Dom Fernando deGil- 
„liza, que foy fllho doGonde Dom Pedro deTrava, 
„ Ayo do Imoerador: foy-huna gnnie Cavalleiro em 
,, armas, ede affinalada virtude. Paflbu duas vezes a 
„ Conquifta da Terra Santa, era Patrao, eSenhor do 
„ Mofteiro de Sobrado. E nefte anno o primeiro dia de 
j, Mayo deu a efta cafa eftando na lua Villa d:i Curunha, 
5, todo o redjto , que pertencia a Curunha , quechama 
„ Burgo de Faro, e diz na data : Anno , <\ho eg» Comes 
fernandus (ccvndo Hi^ofolymam pcrrexi. BquandoElRey 
Dom Affonfo VII , foy tomar Almeria , foy o Conde 
Dom Fernando por General do Exercito de Galliza , 
comtanto p.pparato, e magnificencia , que reprefenta- 
va hum Rey. Pelo que difle delle hum Poeta daquelle 
tempo. 

Hunt 




De ^Portugal. Cap. XXII. 

Huncfi vidifjesy fore regemjam putavijfes. 

Daqui fe infere , que o Conde Dom Fernando prefic'koJt. 
era quafi hum Rey de Galliza, tao pio, e taozelofo mcria,quttraz 
da honradeDeos, que duas vezes paflou a Conquil Fr ^rui,c t st. 
ta da Terra Santa, fi tal foy p fegundoeipofo da Rai- 
nha Dona Tareja , que ella muito accrefcentou com 
otomar per marido, e com o titulo , que Ihe deu de 
Conde de Portugal : affim ', e da maneira , que a Ptin- 
ceza Pukheria engrandeceo a Marciano * fazendo-o Itm- 
perador de Conftantinopla , iem por iflo perder nada 
de fua grande , e imperial nobreza* Oqual caiamento 
tenho por verdadeiro, elegitimo, pelos muitos Au- 
thoress que oaffirmaS, e porque appareceo , eperma- 
neceo nos olhos , e face do Mundo. E tambem tenho 
por tal o de Dom Bermudo Pires de Trava , ieu irmao* 
com a Infante DonaUrraca, filha da mefma Rainha, 
de que faz menqao o mefmo Frey Prudencio. 

7 Os mais abfurdos, que ie achao naquellelu- Fr,Pra^«4j; 
gar dojivro do Conde Dom Pedro , em materia deca- D.Wr *k ' 
iamentos, fao meras fabulas , que a meu parecerme- J 3 §• i* 
teo nelle aJgum Mouro , ou Judeo dos muitos, que 
havia em Portugal , em refpeito das determinacoens 
da Santa Igreja , e vituperio dos nolTos. E he tao fal- Duane GahaS 
fo dizerfe alii , que fe fizerao aquelles taescalamen- »«c£™»*'£/» 
tos, como he falfo dizerfe alii mefmo, que poraquel- ReyD ' A tf m - 
le peccadofefez o Mofteiro de Sobrado em Galliza J 6Hentu l- c -^ 
pois confta claramente do que fica referido , que o 
tal Mofteiro foy muito mais antigo , que o Conde 
Dom Fernando , como obra , que era de feus antepaf- 
fados. Alem diftonaquelle tempo , nem ainda aos R^ys 
era concedtdocafarccm parentasdentro no quarto *grao f f ?rud e ■-, 
e aflim leraos-, quefedesfez o Matrimonio entre* kl- *' * ' 
-Rey D. Affonfo de Aragao , e a Rainha D. Urracn: tarn- 
bem feapartouElRev D. Fernando de Leao da Riiieta Duarte Nunu 
D. Urtaca,filha d'ElRey D. Affonfo Henriques; e D. J si fi 1 - &*<&** 
mes Rey de Aragao da Rainha -Dona Leonor : e Dcm 

M ii San- 



D. Vtiro tit. 



9* Farias Antiguidades 

Sancho Capello, Rey de Portugal , de Dona Maria Lo- 
pes de Haro , dos quaes fallaremos adiante. Ditto mef- 
mo da tertimunho o mefmo Conde^ D. Pedro em ou- 
trolugar do feu jivro , oncjediz: Dona heonor fry c*/a- 
da com Dow Manim Antits de Brittiros , houvcrai kumafi. 
Jb*> epartia a Santa Igreja , porcjue erao fegmdos com ir- 
maos^ eftue empcccado. A caufa deftes divorcios dajoao 
J!«rtaM.7.io;ae Mariana dizendo , que ainda nao era coftume in- 
«,.i./.i. 4 «i. troduzido , que os Papas difpenfaflem para fe cafa.' 
rem com os parentes. E manifefto he , que aquillo, 
que os Reys nao podiao impetrar da Se Apoftolica, 
menos opodiaS os particularey. 

8 Por ra za5 do fobredito cafamento na6 faltarao 
difgoftos entre o Principe Dom Affonfoj eaRainha 
lua irmaa, que eu nao tenho obrigaqaS deefcrever, 
mas antes lhe lanco por cima hum veo de filencio, em 
Tthta U-v^conformidade do que efta efcrito : Sacramentum Regis 
abfrcndere fomm tfl. Bom he eiconder o fegredo do 
Rey. Os quaes diigoftos forao com o tempo amole- 
cendo, e em fim tiveraofimj iegundoentendo , quan- 
do ella quizmorrer, que foy dentro nos dous annos 
ieguintes , depois do anno 112,8, como logo moftra- 
remos. Para o que credivel he , que concorreria da 
parte do Principe o conhecimento da obrigaqad , que 
Ihetinha, como a may. E da parte da Rainhao amor, 
que tudo vence, emais o das mulheres , efpecialmen- 
te quando he conficionado com aquelle natural effei- 
to , tao proprio dellas f de que nos avifou o grande 
Alexandre , o qual , fegundo efcreve Plutarcho , lendo 
huma carta de Antipatrode muitosqueixumes, quecon- 
traOlympias fua may* differ Nao fab* Antipatro , que 
humaptquetta lagrima deminha may apaga feifcentat cart is 
deftas. 

9 9 Daquella reconctliaqao entre o Principe j e a 
Rainha , fao indicios , que o Principe a mandou fe- 
pultar na Se de Braga , como fe affirma , onde jizia 
o Conde D. Henrique leu marido , elogo fe intirulou 
porienfilho em huma doscao da terra deRgaladoy f 
feita aj^reja de Braga em Julho de njo. UndediZj 

que 



^lutarc.ff 
4ltx. 



TteTortugaL Cap. XJ1I. 9 J 

que faz a tal doaqao por rernedio da alma de feu pay, 
elua may, quefegundo ifto nefte anno , e mez ja era 
morta, a qual doa<j^6 traz o Padre Frey Bernardo de 
Brar,a no tratado , que atraz algumas vezes alleguey. 
E atfim chamou a huroa fua filha Tareia em memoria 
da ditaRainha fua may , ao que ajudaria muito con- 
fiderar * que a mayor nobreza , quetinha,por ella Ihe 
viera , com o eftado , de que era fenhor. 

10 Quern diffe , que a Infanta Dona Tareia , a ^ M - dtBar 
qual hora chamo Infanta , hora Rainha , porque af« Dec vltU ' 
fim o acho cm efcrituras antigas , na6 fecafou, a fe- c . 4 . 
gunda veZ: e qlie o Principe Dom AfTonfo Henriques 

feu filho ficou menino de feis annos por morte do Con- 
de Dom Henrique feu pay , houvera de o provar, , por- 
que em coufas antigas , e tao duvidofas , na6 baft >va 
dizer. Primeiramente , que ella iecafou alias fica mof- 
trado atraz. E quanto ao Principe dizer , que ficou me- 
nino defeis annos, nao pode fer , porque Duarte NuV Dmr * e Nune * 
nes de Leao, diz, que nalceo elle no anno doSenhor ^ r ^' ( ' 
1094. Omefmodiz Duarte Galva6 , eaffim Ruy te Hewiq.fri. 
Pina, Cnronifta mor defte Reyno na Chronica d* El- ii.ro/. 4 .Eno 
Rey Dom Sancho I. Eporefta conta elle era de dez- >»"»<*>•''<> ^'£i- 
oito annos ,quandoo Conde leu pay morreo, que foy ^®- A tf onm . 
no anno 1 1 1 1 , fegundo dizem Duarte Nunes , e Duar- GahlTc^x e 
te Galvao » em que todos concordao. 60. 

1 1 De mais difto , fe elle naquelle tempo era me- R»* de p«m 
^nino de feis annos , como andava com o Conde feu*- *• 

pay naguerra? Efeu pay quando quiz morrer em AlU ?j^* *'*"'* 

torga , como o chamou, que he final deeftar al ipre- Gaila^l. $*" 

fente , ecorao fez huma pratica tao grave, ede tan- G*kaic.±t$. 

tos confelhos depaz, e de guerra, a hum menino de 

feis annos , idade mais apta para hrincos de nozes, 

que para praticas de governo de eftado ? A qual pratica p. vtdrstit 

refere o Conde Dom Pedro , e Duarte Galva6. 7. 5.' 1. 

ii Da mefma maneira feengaoou manifeftamen- G*i**»t. 4. 
te , como ja toquey atraz , quem pela doaqao da Rai- D ***'* xm es 
nha Dona Tareja , £eita a Santa Igreja do Porto no d 'Xt$ $ £L 
anno do Senhor 1 \%o , cuidou , que ella ,le nao calou KtyBomAf. 
a fegunda vez , pois ate alii nao eftava cafada , mas an-/™/* Htwif, 

tes * 



Farias Jntipuidader 









94. 

tes dadita do^ao ie entend^Tque elh no tal tempo 
eltava em amor, econcordia com feus filhos", e todos 
ie afiina.ao na meima doaqao , e a Rainha prjmeiro 
que todos. Ecomo efte Author nao tivetfe noticiade 
couta mais alguma , que ella fizefle eiepois daquelle an- 
no, nao l6mente fe relolveo , em que na6 caiou , mas 
em condemnar por fdlfas muitas coufas , que naquel- 
le tempo fuccederao , em que entrarao o cerco defti 
nobre Villa de Guimaraens, pofto por EIRey de Gaftel- 
la, e o feito Uluftre de Dom Egas Moniz. , quando 
foya Toledo, que no mefmo cerco feoccafionou, dig- 
no de todi a polteridade o faber , e celebrar. A verdade 
das quaes duas coufas, pois tanto pertencem a ho^ra 
delta Villa , e tanto faode meu propofito * me convent 
defender. E de qualquer maneira , que meu trabalho 
nefte particular for recebido , bafta para minha fatif- 
facao o querer falvar as ditas coufas condemnadas pot 
falfas 9< as quaes como conftao por efcrituras de longa, 
e reverenda antiguidade , por outras taes fe deviao re- 
futar , e nao por razoens nafcidas laontem , que he 
trazer meninos , para defmentir a velhos, em coufas 
paffadas do feu tempo. 

CAPITULO XXIII. 

Que Principe Dom Ajfonfo Henriques joy cercad* 

em Guimpraens por EIRty de Caftella. Edefen- 

de-fe a honrofa id a de Dom Egas CMo- 

niz a Toledo. 



E 



LRey D. Artonfo VII deCaftella, cha- 
mado Imperador , entrou duas vezes em 
Portugal em tempo do Principe D. Af- 
fonfo Henrique?. Huma foy entre os annos 1 1»8, quan- 
do perdeo a batalha deValdevez, em vida da Rainha 
ContitT>. P«- p 51[W Xareja. E outradoanno \\%o pordiante, pof- 
nitt. 7-9- h tQ naoconfla precifemente , em que anno, mor- 

tal 



Galvae. c. 8. 
Fr.Purd.c.lS. 



2)eTonugal. Cap. XXIII. 95 

ta ia adka Ramiia , que morreo , como ja fica dito, 
no anno 11 30. Delia (egundavez, pelo Principe Dom 
AfTbnfo Hcnriques eftar detapercebido , o cercou nef- 
ta Villa deGuiaiaraens , dando por caufa, que o la-. 
fante , leu priroo , nao queria conhecer fenhorio ; do 
que tudo fao Authores o Chronifta antigo Fernao Lo- 
pes, e Duarte Galvao, na Chronica d'ElRey Oom Af. 
fonlo Henriques y Frey Psudencio de Sandoval na 
Chronica do mefmo Rey Dom AfFonfo VII de Gaftel- 
la , onde efcreve , como efte Rey cercou em Guima- 
raensao Infante de Portugal , e toca tambem abatalha 
de Valdevez , e poem efte cerco na^Erai 165*, anno do 
Senhor 1127 '•> a °i ua l conta fe chega ma is a que nos- 
levamos , que a de noflbs Annaes , em que houve 
erro notavel. O melmo affi/ma Joao de Mariana CsU Mariao - l - 1 9 * 
telhano na fuahiftoria deHeipanha, e outros. V 5 ' 

2 O mefmo dizem os Annaes deArasso, que fez w •, , r 
evonymo^unta Efcntor £>mvitfimo , do qual he o que 49<flwnp IU *. 

ie fegue para noflo propoftto : „ Na mefma faz3o (do 
,,anno 1126) Dom Affonfo , que >fe chamava Jnfan- 
„ tede Portugal , rilho do Conde Dorn Henrique ; ha« 
„ vendo-fe apoderado daquella Provincia , tirando-a do 
,, Conde Dom Fernando, filho do Conde Dom Pedro 
„Foriaz deTrava , edaCondefla Dona Mayor, fij.ha 
,, do Conde de Ur gel , emais abaixo:, acabadaaquilloj 
„ teve grande diflenfao , e guerra com E3Rey de Caftei-* 
„lafeuprimo, porque com muita prelum peao, ealti- 
„ veza , nao queria reconhecerfe por feu vailallo : e 
,, hayendo adquirido grande Eftado , e fendo elte de 
„animo muy generofo , ealtivo, felevantou contra 
„elle \ epoz em armas contra todo o feu pfrder. Ifto 
he dos antigos Annaes de Aragao , de que fe entende 
a caufa da guerra d'ElRey de Caftella com o Infante de 
Portugal, que veyo a parar no cerco de Guimaraens. 
Do qual efta atnda hoje tao viva , e conftante-a fra- 
diqao nosnaturaes defta Villa, que denenhuma ma D««eXw 
neira fe pode negar. •■ - naCbr.d'Ei- 

3 E com tudo diz certo Author contra of egun- ?v D . A Jf°. n ' 
do cafamemo da Rainha , que faz fonte , e caufa do [' Z'.V? 

v cerco joi 16.' d x: 



Of or.' it rehus 
gefiis lima » 
nuelis Regis i. 
6.J0I. S.*}$. 



Vuarte Vtunes 
tta dita Cbron. 
fit. z6~ col. 4. 



Ref. na antig. 
de Evorac. I.J. 
Bar. tit. de Ba- 



Jlltfcas nit hift. 
Pent, em Af» 
fo»fo V1L 



96 Farias Antiguidades 

cerco de Guimaraeris , e de outras coufas, que Dorti 
Rodrigo Xitnenes A cebifpo de Toledo , nao trau 
coula alguma do dito cafamento. Ao que reipondo, 
que os Efcritores nao dizem tudo , mas nem por iflo 
negao oque nao dizem. Quanto maisqueafe da hlf- 
toria de Portugal nao pende da de Caftella , nem de ou- 
tra forafteira. Paulo Jovio efcrevendo as coufas de feu 
tempo, callou a vitoria , que os noflbs alcangarao da 
Armada , que o Suldao mandou a India contra os Por- 
tuguezes , como notou Jeronymo Oforio , que iupprio 
efta falta com muita verdade , eelegancia. 

4 Quando EIRey de Caftella veyo cercar ao Prirr* 
cipe Dom AfFonfoem Guimafaensi nao fefabeemque 
anno foy 9 mas he certo , que foy depois do anno 
1 1 50 , morta ja a Rainha Dona Tareja iua tia. E el« 
le o moftrou tambem » porque fo tratou , que 
o 'Infante feu primo lhe na6 queria conhecer fe- 
nhorio. Hum Author para impoflibilitar ifto, affirma , 
que efte Rey era entao minino, e que nao reynava 
ainda , nem reynou dalli a muitos annos f e com efte 
argumento quer fazer fabulofo o cerco de Guimaraens* 
O qual Author fe enganou crendo , que a Rainha t>; 
Tareja fe cafou logo depois da morte do Conde feu ma- 
rido , que foy no anno mz , e pelo confeguinte, 
que EIRey de Caftella entrou era Portugal : mas a ver- 
dade he , que ella fe ofou a fegunda vez muitos annos 
adiante, do que elle cuidou, como atraz moftramos 
por muitas doaqoens antigas , e pelo fummario dos 
Reys Godos do Doutor Relende , o qual he de gran- 
de authoridade, por fer feito em tempo d'ElRey Dom 
Affonfo Henriques , o qual fummario allega tambem 
Gaipar Barreiros Cbnego de Evora , na fua Chorogra- 
phia. Do qual confta, que no anno doSenhor 1128, 
ella era viva , e calada com o Conde Dom Fernando feu 
marido. E tornando ao propofito o Principe Dom Af- 
fonfo Henriques nefte tal anno tinha tqnta e quatro 
annos de fua idade, porque nalceo node 1094. Dom 
Aftonto Rey de Caftella ieu primo comecou dereynar, 
ieaundo Illefcas, no anno 1108, enaquelle anno 1 128, 
& havia 




e Toriugdl Cap. XX III. 9 7 

.havia vinte annas, que reynava. Julgue o Lekor de 
que idade poderia Jet , porque Aileicas nao diz mais. 

f Joao de Mariana ieguindo a hifloria geral ef- fo******l' 
creve , que raorreo em Agofto de 1 157 , e reynou tiin- 
ta e cinco annos , e viveo cincoenta e hum. Por efta 
conta era entao de vinte e tres annos > porque nafceo 
no de 1 107 , e comec,cu de reynar node 1 123 , e quan- 
doveyo cercar ao Infante, havia de fer deviate e ieis 
annos pouco mais , ou menos. Da qual conta poucov. . , 
dmere Jeronymo vurita , que o raz nafcido no anno,. 37,^.30 
1106, mas levantado por Rey node 1 112 , que he no 
anno, em que morreo oCondeDcm Henrique de Por- 
tugal. Qnde feve, que o fobredito Dom Afifonio Rey 
de Ceftella ja tinha idade 9 e ja reynava, para poder vit 
cercar ao Principe em Guimaraens, que foy depois do 
anno 1 1 30 , por diante. 

6 Tratemos agora do infigne > e heroico feito de 
Dom Egas Moniz, para o qual fe me aprefla a pena, 
com elpantodever, como nao tremeoamao , a quern 
com outra mais apreflada , que a minha o condem* 
nou porfalfo, eorifcou damemoria dos homens. Se 

Santo Ambrofio da valentia de hum Soldado inferio Amb. l.i: 
a valentia de feu Capita© Judas Machabeo , que me-# c -f- 40. 
nos importa a nac,ao Portugueza a lealdade, everda- 
de de tal Portuguez ? Que feito vio Portugal mais hon- 
rado, nao fey fe diga na guerra , fe na paz ? O qual 
tendo mais de quinhentos annos de antiguidade , nao 
houve quern o contradiilefle , fe nao em noflb tempo. 
O que porellefaz muito , porque, fegundo Stobeo, stphofem id 
a mentira nao chega a fer velha. Mas o a'vt roqo de 
introduzir huma novidade propria pode tanto , que 
afafta , e anulla impedimentos , ainda que bem fun- 
dados , para Jhefazer lugarondeo nao tern. 

7 - Quern havera, que com razcens modemasnso 
pofla deiaccreditar muitas coufas antigas , que rso po- 
dem fallar por ft ? Nao advertindo, que oscoiturr.es 
ie mudao t com elles as vontades , com ellas os go (las-, 
e com os goflos a mefma natureza parece , que fe rnu- 
dadeoutro lado. £ nao duvido, que muitos Filofc- 

N fos % 



98 ; Farias Jmhuidades. 

efc.itos, que p a » n ^,f^ ara0 e » m ««« coufas few 
tomada, evenerariaVmT & >C>er.fe a amiguidade 

A ft?anha de & « ^'f V" a6 fe P 6de dar ' aza5 ' 

mas cW a pruoenda 8 c S ove°rn i^' H "* ? m . a "j?*' 

nefte feu eclvofe "f„« < S !• J d f das ma,s virtudes, 

c r », MW . fena3 ^ Wygfefo « ien uda e delejada do, curiofos 

.«^. 3f. L rtr% , « . r "cia i^uiz de Cmoens . one com ("«».» 

fejneita de amor, ede memoria contra a ODiniafi Hp 
faZ^R?^ CUidQU d * lha taA) quTpoeta! 
SuSTfaS^ «° rei 3nti§OS deftecaio i que nao tem 
S fc iMf' , qUer ° 9 ^ ora *J»^ no modo , que 
FQifo , fe ,fto pode fazer quern tao pouco pode. 4 

vJIka D - eftano S Vel VilladeGuiffi araenspartio Dom 
fe A° ff n,Z . P3 I a J°i ed0 » onde ^aprefentou a EIRey 

£dSn de ? ft l ,,3i COm fua ^«^er , efilhos ve^ 
itidos de Jmho , com bar^os ao pefcoc. j , para que to- 
rnaffe ymganc.a de tantos por culpa de hum fo , &a 

me«e^n h* fa 'T*? ? CCTCO de ^marae^pro. 
™ £ iu he ; que lhe feria " o Infante as iuas Cortes 

SfiSSTm* fe " horio ; ° quefez P ara,ivrar ~«ES 

Infante , que cnara , do aperto , e perigo, em que o vi ,. 

Avo *&•** Cma r 6 J 136 ^ e P da?romcli q a de feu 
Ayo, depoii queofoube, affirmou, que em nenhu- 

E? £ZT f cum P riria - M° q«e obom velho, que 

mavor nl° Z Fl° am ? r ' refo1 veo - fe em fawoutio 
mayor pe J a verdade, e foy aCaftella dar tao grand* 

fatisfacao a EIRey , fegundo declarou na fella , que 
me rez, para que em todo o tempo fe dtflefle . que 
rnais cum P rioD.E ? a S Moniz, doqueerrou. Author* 
lao diito o Chronica antigo Fernao Lopes, Duarre 

Galvao, 



GalvOi na 
Cbr. ail eg. «, 



m 



De Tortugal. Cap. XX 111. 99 

Galvao, Joa6 de Mariana , e a tradicaS universal del* Gahtt I ro, 
te Reyno, e muito mais a particular de Guimaraens. **"'**" Al ^ 

9 Diz o mefmo Author acima , que efta ida de'* IJ 
Dom Egas he incredivel , rediculofa , e infame para Du rte K 
homem tao vaierofo, alem de f er falfo oprefuppofto ^cV^^S- 
do cereo de Guimaraens , e que com os baraqos ao pel- Rey d. Affi^ 
C090 mais moveria a rizo , que a mttericordia. £ accref '/• #«»»?»«. 
centa, que efte caio (uccedeo em Caftella na peffoa de^ /- VJ ' C9l% u 
Pero Anzures Ayo da Rainha Dona Urraca , o qualcom 

huma cord a ao pelcoco ie foy apreientar a El Rey D, 
Affonfo de Aragao marido da dita Rainha , e que daqui 
ie'pegou a Portugal. 

10 Cofhimavao-fe naquelle tempo eftesextremos 
de verdade , e de palavra > como foy efte dePero An- 
zures Cartel hano natural de Lea6 * fegundo diz Frey 
Athanafio de Lobera. E o de Dom Egas Moniz Portu- ubera mat 
guez , emais adiante ode Dom Martim de Frcitas Por- g*«ndezas'dc 
tuguez, que foy aGaflella entregar aschaves do Caf. Uat *~H* 
tello de Coimbra a El Rey Dom Sancho ll. dePortu- "&' *g* ■ 
gal , de quem as recebeo , o qual era ja defunto , e jazia "Air^d! 
iepultado na Igreja de Toledo, ondelhaspoz no bra- Sancheiicu; 
qo direito, elhas tornou a tirar. Lealdade, e conftan- 

cia , diz Joao de Mariana, digna de fer apregoada em to- M ar ; aa a Uj. 
dos os tempos , louvor proprio do fangue , e gente M- 
Portugueza. 

1 1 Seocafode Pero de Anzures foy verdadeiro , co- 
mo fuppoem aquelle Author , e o dito Pero Anzures 
com obaraco ao pelcocp nao moveo a rizo, fenao a 
mifericordia , como na verdade moveo > nao fey como 
por efta cabeca quer haver por falio o cafo de Egas Mo- 
niz, e tirar, que ofeubaracp nao fofle do mefmo ef- 
feito , deque foy ode Pero Anzures. Pelo que fraco 
argumento nos poem ; pois com elie , ou deftroe o (eu 
fucceflb , que die faz verdadeiro , ou afimtli corrobo- 
ra o noflo , que elle pertende;fazer falfo. Pois dizer, que 
de Caftella fe pegoti a Portugal , he graqa , porque nem 
andaco decatarro (epegatanto de perto , como elle 
quer , que ie pegafle aquelle cafo delonge. ~X 

12 £ dobrando mais fobre iftodizemos, queos 

N ii effei- 



100 Farias Jntiguiiades 

i^o^^^^^o, einfamia; 
neziann ,!,,!„;? "ancifco Dandalo Senador Ve. 

em hahi?o q H„ °- appareceo a«e o Papa CiementeV 

£ ' 4+iW - m Xa pat e r l efi a C ^ da aM W " KR" 

meima patna a fuprema dignidade della aue h* a£- 

huma^rdraoLYcoco ,ffn° v AnZUr r eS ' qUando «»» 
Affr,„i„ j= 1 peifoco. le toy apprefentar a BlRev D 

«^w.,c. Hana. Omefmo^'i? 6 *"£ * aT"* 15 J° a " de M* 
«■ ' n«»ra - m - Uom E § as Moniz, como efcreve 

q^;.\ . no tffir^ 3 ° J e D ? D meimo Maria n a Author Cattelha. 
'" feriwH?/ ' . q "1 E1Re y Dom Affon, ° '« moveo ami. 
reruordiapelaslagrimas, etragedetao veneVavel oef 

ca?o h'aWa qUe ° «£ h ° nr ° U H «*«■ ^^quel 



«?.*J, 



*3 



G abate II 



««, ~a - r , ,a H u, = »" ivioneiro de Paco de Sou- 

Du a «eGa^ tUra rh "^SS" Moniz ' comoaffirma 

(Im L'„!, a e ? a hum homem efculpido a cavallo 
(em barrete com huma vefte comprid a , e huma corda 
ao pefcoco com as pontas para diante , e ontw 6 a ^w ■ 
que huo atraz a cavallo J e outras pelos ados, em 
que entrao mulheres, moeos, emenW, q*toS 
parecem reprefcntar a Jornada de Caftella , legundo hu' 
rna relacso de tudo, que houve aflinada portres Rei 
ligiofos daquella cafa, puriresK.es 

Pn,!,t Ml ° Cafo deCaftella nauhetao fimilhanteaode 
Affon? R^T ?"« I ( | ue,n «B« efte; porque Dom 
fo, " °n nl ue Caftella naotevefimilhantesdefgof- 
tos cn m Dona Urraca fua may Rdnha de Caftella, 

no? r, S 5 ad / 3ft ° n ey d A eAra 8 a6 : nem elI « o defa! 
pou-rao da terra. Pero Anzores Ayo de Dona Urraca 

i7^ PP J e vul 3 ' ,1 < 3 ™ nte veftido com huma corda 
na maoante ElRey de Aragao , comoefcreve Jerony- 

mo 




EeTorttiguaLCap. XX11L 101 

tnoQurita , porque depois que El Rey de Aragao le 

apartou dc Dona Urraca , pelas razoens , que o mef- 

mo Author refere , ella veyo para Caftelia , eoCon- 

de Pero Anzures , e outros , que tinhao fortalezas em 

Caftella, lhasentregarao a ella, nao obilante, que as 

t'mhao da mao a>£iRey feu marido. A qual culpa o 

Conde quiz irpurgar, daudo-fe por prizionetro a El- 

Key a (ua merce pelo pleitd , e homenagem , que.ti- 

nha quebrado, iegundo o meimo Curita ; nem elle c,urh noi j n : 

levoucomfigo fuamulher, e filhos, como levou H^Zt/sZ 

Moniz. Hum toy Ayo daquella Rainha, outro defte unc )? • 

Principe. Hum por hum cafe , e outro^or outro. Hum 

foyde Caftella a Aragao, outro de Portugal a Caftel- 

la. Hum ricarftente omado , outro vilmenfe. Hum fo, 

outro acompanhado demulher, e filhos. 

ij E quando deflembs , que o caio de Portugal 
foy fimilhante ao de Caftella , que o precedeo em tempo 
vintee tantos annos, nem por iilo fe fegue , que ode 
Portugal na6 fofie , porque em varias partes do Mun- 
do muitos fucceflos pode haver * entre fi fimilhantes, 
como )& houve : dos quaes Plutarcho ajuntou hurra boa 
quantidade , de que fez os feus parallelos , fe feu he o 
tratado defte titulo, que andaemfuas obras. Eentre 
Caftella, e Portugal nao faltao exemplos 5 como pa- 
rece pelas Chronicas de ambos os Reynos. La houve 
hum Rey Dom Pedro, que porfuas crueldades chama- 
ra© cruel , e ca outro. La hum Rey Domjoao I , que 
imrdouaconta da Era de Cefar na do Nafcimento de 
Chrifto, e ca outro , que fez o meimo. La hum Rey 
Domjoadll, em cujo tempo fuccedetao coufas, que 
ca tambem fuccederao em tempo de outro Rey domef- 
mo nome , e numero ; que nao conto r porque em fuas 
hiftorias fe pode ver. Eftes Reys fora6 dos meimos no- 
mes, e nos raefmos tempos quafi todos, mas os caios 
forao realmente diftin&os. Affim forao* o de Dom Egds ^ 
Moniz, e de Pero Anzures, e ambos, iegundo asan- 
tigas hiftorias, verdadeiros. 

16 Diz Duarte Galvao, que Dom Egas Moniz Gabriel* 
ie tornou para Guimataensj e jfabendoo Principe d? (ua 

vinda. 






H I 



JOZ V-ariat AhtfouMadtt 

Kdr cofe tr&rzinr ,ua Corte v mu ^« 

to emCaftella WonJr / S ue te meo fofle mo r. 
gando OomfiVas e ^JenJ 6 ^ 6 " 01 e fervi< < - Ch =- 
Pe , elle o naf confentio ° be ' Br ama5 ao Pfin <i- 

ateGmmaraen, faue «a ord „ a rt ^ T'!° ^ 




Coimbra /S^T^o'mSS f d ° US B " pos de 

febio && J £'" , i, q " e por '""n^catta depoza eS 
JML^ como'.ffiL- 6 m "f ' 0na ' *?<"■ outro em feu iLa" 
'•').~^. p°j™°- T, ma ° M° raIes ' eMariana. A'cerca doauf« 
*«•««, ' «. PrmcipeDom Aftonio Henriques fez . dam 7ai „° 
«.,-,, oPapa Innocencio II, eleitonoanno . iS If. , ,' 9 . e 

• ou expreflamente o teve affim por bem ^ 

Bi.po de'coimbra %l Sfff ^XtETlft 

fazia em Roma com o Pan* nn*A*!t Jn . l e 

**i. * um em.feu tempo P^Iem^^ ^ f^S/pl' 

q« e <1 UIZ • 5°nio confta da fua Chronica! ArceD "P 0S < 

1 8 MuitascoufasantigasfenegaamaltnorauerwS 
fe iabem asrazoens S leys* coftume, daquX Trnp* 
Emv,da do Principe Dom Affonfo o Imperador e P <£ 
rna.s Reys apprelentava6 os Bilpados . e beneficios 
E confta , que noanno quarto do Papa Califto II oue 
San,. .,»• foy ode,,,, , legundo Baronio , fe fez Concordia en 
V-^wtreefte Papa, e o Imperador Henrique IV aue « 
mitt f ,,a 5°ensdo S Bifpados , e beneficioY^uVa* alii 
\?<Z°t\ ReyS> I d ° r(n P CTa <>or , dalli ;„? diante for' 
fem da Ig,e,a , de quem direito «a6 } affim o di z 

Onu« 



T)eToriugaLCdj>.XXllI. ioj 

Onuphrio Veronenie nas Addicoens fobre Platina, 8 Onuphr.jnAd. 
Joac Viliani efcreve ♦ quecm Alemanha, e em Italia, ^" / /j , /'' <g 
e em outras terras fe punhao , e confirmava6 Bifpcs fern ^//l»i M « 
ordem do Papa , e poem ifto no ^nno 1 1 10 , em vitehifl.<te Fiona* 
daquelle Imperador , e do Papa Pafcoal. E quando ii- 'tap. *»*4t 
to le fazia a villa do Papa, melhor fe faria em Hefpa- '■ **■ 
nha , onde entendo , que fe executou tarde aquella 
eoncordia. Com o qual Papa teve taraberti Henrique 
Rey dc fnglaterra defeoftos , por nao querer defiftir das 
appreientaijoens dos Bifpados , deque falla oCardeal 
Baronio. Fmalmente o Principe Dom AfTonfo Hen- Bafcn ■ d 
riques f y ub vi tuoio , que nem elle faria ifto , nem cs " pe „j, J„ n0 
feus Chroniftas o efcreveriaS fern fundamento , do qual cbrifti 1107. 
nos agora na6 poderemos fallari n.t.ciU. 

.19 Na6 era oCardeal, que caveyc, fimples , e B,x * 
pcbre , Cura dealguma Igreja de Roma, como pare- 
ceo a quern oquiz dizer , nem oeftado , e rendas vie- 
mo aosCardeaes com o capello vermelho, que Ihes deu 
Innoceneio IV , eleito no anno 1243 , fegiindo lllefcas. 
Havta emcada Parochia de Roraamuitos Clerigos, en- 
tre os quaes ofuperior de todos fe chamava Presbytero 
Cardeal, que fignifica Principal , como declara Onu- ht it 
phrio Veronenie. Eftes affifliao como Papa em todos y0 ab. mi w- 
os negoeios graves da Igreja urriverfal, E depots que b» careimaiis , 
em Konta fe alien tou em Concilto no anno de 105*9 s &Tttuti - 
cor forme ao mefmo Illefcas , que a eleicao do Papa-- 
foffe dos Bifpos, eCardeaes fomente, edelles lahilfe^'&JJ^ 
o rnefmo Papa^ fendo pelloa idonea , entao cemeqou 
de crefcer efhanhamente a mageftade , e reputa^o 
dosCardeaey, fegurado affirma © rnefmo Illefcas, que -&*<>»?. 1. in 
foy antes, do capeHp vermelho duzentos e vinte oito^* 7 "" 77 ' 
an nos* 

10 E fe efta foy a caufa daquelle crefcimento , 
como que* tambem Joao Azor ♦ mais atraz apoemo^ 2 ^ '»/*• 
Cardeal Baronio.ifto he no Concilto Romano em trmpo msral *- *• '•' 
<te Stephano quarto , anno do Senhor 769* do qual an- jJJ^™* 
no a $60 1 pouco mais , ou menos veyo o Cardeal a apud spoil"' 
Portugal. Nem fe deve crer, que os Papasmandafiem «»»»769 »,ij 
tratat negoeios c©n> ©s Reys , fenao pefloas* erninen- 

tes, 



io+ Fmas Antiguidades. 

tes,edemuitaauthoridade,conitodo oappsMtodeeen- 

3 Chronica, ondediz , que os R eys faziao ao Cardealpoc 
onde paHava coda i a homra , que podiao, e provav 5 
beijarlhe amao. A qual veneraqao nao podia periua. 
dir arjum Rey , * vifta de hum pobre Cura. Alem dit- 
to osLegados haviao reprefentar ao. Principe , que os 
mandaya \ ea Digmdade Ponti&cal era jatanta em tem- 
po muito ma is antigo, que Prerextato, Romano nohi- 
. a T X J™ »' dlzla z °mbando a Sao Damafo , como refere 

6l ^ ff*o Tao Uluftre e tao rica era ja, que osGentiostao 
nobres , e tao poderofos a tinhao nefta eilima. 
_ ii Nem eRcontra a-vinda, e fucceilos daquelle. 
Duarte Nunes ^ ard f al dizer * 3 ue havia elle d e fer Miniftro do Papa 
/*/, 17. w/. i. ^ahfto II , Borgonhao , tio do P.incipe, que o Prin- 
cipe devia venerar , porque efte Papa nao concorreo 
com o tempo , que diz Duarte Nunes pouco depois do 
P4». *n anno in 2 , porque foy eleito no de x 1 19 • feeundo 
S^'rici J aIinerio ? e Onuphricu nem com, oque nos levamos 
hxto 11. 1. de de l * 3° P° r diante , porque morreo no anno de 1 1 24, 
Rom. Pontift como todos affirmao. 

C A P I T U L O XXIV. 

Da f alia t que Principe Dom Affonfo fez a Sarna 

■i Maria de Guimaraens. Quemfez efia infigne Igfeja 

Collegiada, Quaes for 40 os Conegos delta. Do feu 

pri metro Prior, Da origemdos Conegos Ca* 

thedraes , e donde hduver-ao no- 

me de Conegos. 

> TW T* Ao he pequena del gra^a nao fe faber 

I^^J o Author de qualquer obra glOriofa , e 

i- ^» magnifka»para porella Ihedar jufto lou- 

vor , que he o premio devido a virtude. Tao for<~ofo , e 

quafi natural era a noflos antepaflados exercicio das 

armas , 



ttum. 



T>e Tortugd. Cap. XXIV. 10$ 

frmas para tirar davifta 6s Mouros, cxnque vifinha- 

Vao , que nenhum cafo faziao da honra , enome f que 

por ellas mereciao, e por beneficio da hiftoria poderao 

alcancar. Ou digamos ♦ que nem todos podsmos tudo. 

Coube na grandeza da fortuna Romana fazer , e efcre- 

ver igualmente : mas os Gregos mais efcreverao , do 

que fizerao, como pareceo aSalluftio: pelocontrario saiUifliut de 

os Hefpanhoes mais fizerao, do que efcreverao : nao conjur, c*u> 

pot lhes faltar ingenho , como fe Ve em Seneca 9 l J** P*fi *v* 

Lucano , Quintiliano, Marcial, eoutros, masfaltou* 

lhes aquelleocio, que as armas nao dao , eaquella fuf- 

ficiencia de letras , que entre ellas fenao aprende. Nao 

£e pode negar, que a vifta do inimigo a toga da lugar 

as armas , e a eloquencia a coroa de louro do vencedor^ 

Finalmente perdeo-fe naquelle tempo a mayor parte 

do que nelle fe fez na guerra , e na paz. Bafta , que eft£ 

illuftre Igreja Collegiada pofta em Guimaraens , que 

entao era o coraqaS defte eftado , achou fundador , e 

dotador , e nao achou efcriror de feu nome em gtaca 

fua, edosfuturos para faberefta Villa, a quern deve 

a mayor honra , que tern , e a n6s , e a outros tirar o tra§ 

balho de lho bufcar apalpando por raflo de conje&u- 

ras, onde a invefUgac,a5 he difficultofa , e o fruto in- 

certo. 

a O Infante D. Affonfo Henriques , antes de paf- 
far a Alem-Tejo a fazer guerra aos Mouros daquellas par- 
tes , vifitou a Santa Maria de Guimaraens , fegundo 
acho no livro dos milagres da mefma Senhora , que (e 
fez de memorias antigas do atchivo delta Igreja * onde 
ie diz , que elle ouvio huma Mifla, que fe difle no 
feu Altar, no qual por leu mandado eftavao poftasas. 
fuas armas : a qual Mifla acabada, lhe pecHo , dizendo: 
„ Senhora , com aqueftas armas , que me vos dais , as 
,*, quaes eu hey portomadas da vbifa mao , confio eu,' 
„ e efpero em vofla merce , e virtude, ganhar nome de 
„ Rey , e Rey no , em honra , e louvor de Noffo Senhot 
„JESU Chrifto , vcflo bento Filho. 

3 Com eftas elperan^as partio daqui o Infante , 
que lhe forao inteiraoiente cumpridas , pela grande de- 

O vo^ao, 






106 Varhs Antlguidafas 

yoqao , que tinha a Virgem NofTa Senhora; Donde Asa 
collige, que os Reys de Portugal devem a Santa Maria de 
Guimaraes o titulo de Rey : e feus vaflallos as terras , e* 
bens , que naquella Provincia poffuem. Foy efta ida 
do Infante para Alem-Tejo , onde tornou feito Rey, 
u no anno do Senhor , como fentem Duarte Galvao , e 
-DuarttGbai D uar t e Nunes i 139 j fendo Papa Innocencio II , e Im* 
VuLTnThisP&^W Conrado Hi. Noqual tempo ja achamos neU 
nfidafhi- talgreja a nova * e unica advoca<;a6 de Santa Maria, 
ReyDomAf- a qual de antes era do Salvador, e da Virgem iua May, 
jonfoHemiq. e fe outtos Santos ; que conhecemos fer obra da de- 
&' V '? l i 4 i v °S a ° do Infante com a Sacratiffima Senhora May de 
3 *- °' ' Deos, como moftrou em outras partes , efpecialmen- 
te no Mofteiro de Sao Torquato , de que adiante fal-j 
laremos. Mas (e efta Igreja com o novo titulo tinha 
tambem jaa nova forma de Collegiada com Prior, e 
Conegos, nao nosconfta; masparece, que quandoo 
Infante. fez huma couia , fariaaoutra, aflimporhon; 
ra da Senhora , como por engrandecer efta fua patria , 
a que portantas vias eftava cbrigado. EfeonaS fez> 
decrer he, que tornando do Alem-Tejo vitoriofo , e 
Rey , levantaria efta (umptuofa memoria a quern o le- 
vantou ao cume da Mageftade Real , fim de iuas Ion- 
gas efperancas. O que bem fe deixa entender , por- 
que em fua vida teve Prior , e Conegos, e elle foy 
o.primeiro Padroeiro della : e nao ha razao para o fer, 
fcna&peloquenella fez , dequefomente iabemos el- 
te novo accrelcentamento , que em fua vida adqui- 
rio , onde todos os Reys depois delle (e chamirao Pa- 
droeiros, e como taes apprefenta6 a mayor dignidade 
della , que he o Prtorado. E nao contente com ifto 
EIRey Dom*Joa6 II , efcreveo huma carta ao Cabt- 
do , porque Ihe pediolhe defle em fua vida as apprefen- 
taqoensdos mais bsneiicios, comolhes dera o Duquede 
Bragano Por outra vez vindo em romaria a Santa Ma- 
ria de Guimaraens, pedkvlhe eftando aqui asmelmas 
apprelentaqoens,de que o Cabido fe excufou , e EIRey 
foffreo arepulfacom aquella virtudej epiedadeChrif- 
taa, com que elje fempre honrou aoiSacerdotes. Ma» 

depois 



T^eTortugalCa^XXlV. 107 

depois de ido , conuderando o Cabido melhoT efte ne- 
gociojhe efcreveo huma carta, porquelhas deu em iu* 
vida iomente , pedindo»lhe primeiro com palavras de 
grande arrependimento perdao do erro, que ccmmet- 
teo emlhasnegar. Do que tudo ha i cartas noarchivo 
da Igreja , onde tambem ha outra d'EJRey Dom Affon- 
fo neto d'ElRey Dom Aftcnfo Hemiques , a qualquia 
trazer aqui , poique prcva rrais do que tenno dito, 
e tambem porque iroftra a grande devoqa6 , queaquel- 
Jes Reys tiverao a efta Igreja de Santa Maria deGuima- 
raens , e a affeicao ao Prior, e Conegos , e a todas as cou« 
fas del la. A qual carta he a ieguinte ,traduzida deLa* 
tim , em que efta, em Portuguez. 

CARTA &ELREY. 



A 



ffbnfo porgra'ga de Deos Rey dePor* 
tugal , on dos Portugueses , a tcdos os 
dojeu Reyno , a cuja not hi a efta carta 
chegar y faude. Sabey , que El Rey DotnJffonfo de 
excellentiflima memorta y mtu Avb >foy Padroeiro d& 
Igreja de Santa eJHaria de Guimaraem , e amou 
rnutto effa Igreja y e ao Prior > e Conegos delta , e os 
amparou, e tevefempre debdixe de fua mob com tcdas 
as cay/as^ que adit a Igreja tinhaemftu Reyno. Eda 
mefma maneira Dom Sancho , men Pay y foy feu Pa- 
droeiro, e amon-a muito , e ajfim ao Prior , e Conegos 
della , e os amparou comfuas caufds , que a Igreja th 
nha em feu4ieyno t -E fimilhantemente ett/cuPaaroei- 
ro feu t e amo muito ejja Igreja , e ao Prior y e Co* 
negos della , e defejo muito de os amparar torn todas as 
caufas fuas, que adit a Igreja tern mutt as vczesem 
mtu Reyno % Pelo que fabcy , que eu tic eh entre as 

O ii civJMs 



ics Farias Jntiguidade} 

ecu fas ,- qui mutto amo , t debaixo de tninha profit- 
fao a Igreja de Guimaraens , e ao trior , e Conegos 
detla cow feus homens, ecomjuas rendas v e com quart- 
to a krejt de Guimaraens tern em to do o meu Reyno. 
E p-nho ta\ prohibits a todos y os que Ihefizerem mat 
a'gum , que quern iho fizer me pagard qutnhentos ma- 
rave dis , e a elks re far a perfeitamenfe o damno , qui 
Ikes fizer ; e demais difto ferd haviao por meu inimigo. 
E para que elks poffao melhor defender a fi , e ajuas 
caufas , dey- Ihes eft a minha carta aberta , Jigtllada de 
meu fello de chum bo , efoy feita em Guimaraens aos 
fets dias de Setemhro por mandado d'ElRey , Era 
de 1 1 5 5 , a que refponde o anno do Senhor 1217. 



f Por efta carta feve , que onome de Padroei- 
10 na6 chega ao Conde Dom Henrique , mas fica aa 
pefloa d'ElRey Dam AfFcnfo feu filho, que he indi- 
cio deelle fer o Author defta infigne Collegiada. Mas 
della nao achamos feita menqao logo , quando pre- 
iumimos que fe fez , fenao mais adiante defte tempo 
trinta , emais annos, o que fabemos por huma car- 
Bfl* tow* ta de doaqao , em que o mefmo Rey D. Affonfo Ren- 
efli n» «rcbho tlques deu certasfearas das fuas vinhas de Creximir, 
**igy*» e Azotey a Deos , e a Sinta Maria da Igreja de Guima- 
raens , eao Prior Pedro Amarello, e a luas fucceffoens 
na Era mo, anno doSenhor 1172. Oqual Prior Pe- 
Eft* do*?** dro Amarello le acr\a tambem aflinado na doaqao do 
tjid nt*nhh« Mofteiro de Sao Torquato, porque o mefmo Rey deu 
d* igreja. C $ Q Mofteiro j que de antes fe chamava deSao Tor- 
quato , e hora de Santa Maria , e de 'Sao Torquato i 
aos Conegosi Regulares de Santo Agoflinho , para nel- 
Je viverem fantamente , e foy ifto na Era 111 1 , anno. 
doSenhor 1175. Efte Mofteiro deSao Torquato com 
fuas rendas eitava annexado ao Moiteiro da Condeffa 
Mumadona , como confta do inverttario antigo dos 
bens delle , que anda incorporado no livro chamado 

de 



D* TortugdL Cap. XXIV. 109 

dedona Muma , epois EIRey Dom Affonfo lho tirou, 
e deu aos Conegos , parece que elle foy o que desfez 
olaftro doda Condefla Mumadonadepoisdeterfeitaa 
Igreja Gcllegiada. 

6 As palavras, com que o Prior fe aflinou naquel- 

la doaqa6 de Sao Torquato , 1&6 eftas : Prior Fimantnis > 

Titjus Awarefas, Elle foy o primeiro Prior, que acho 
delta Igreja, e de que tenho noticia. Os Gonegos del- 
la riao erao como os de agora, porqueforao Regular 
res, eviviao em claufura com feu refeitorio, dormi- 
torio , celleiro , &c. como confta da efcritura de con- 
trato feito entre Prior , £ Gabido , pelo qual o Prior fe E a e te fl a meTfi 
obrigou per fi , e por (eus fucceflores a fabricar efta Igre- 10 he huma 
ja, refeitorio > dormitorio, &cda qual efcritura fallarey ioafas facafai 
adiante. Mas confta particularmentedo teftamentode^^'" : ' ,<, ''' ^, 
Dom Joao Pires , feito na Era 1268, anno do Senhor J? ) e £™ hiv0 . 
J230, reynando Dom Affonfo 21 , defte nome, e IIlj 
de Portugal. No qual teftamento Dom Joao Pires dei- 
xou hum copodeprata ao Gabido de Guimaraens para 
ieu filho beber por elle , quando comefle em refeito- 
rio. Aspalavras fao eftas: Aiandounum ciphum deplata 
Capitulo Vimar* ut hbatper ilium filinm meum quando ca- 
mederit in reftttorii. Tome o leitor a fentenqa das pa» 
lavras, epaffe peloserros doLatim. . ' 

7 Mas na5 fe entenda por ifto , que forao Fra* 
des j porque delde EIRey Dom Affonfo Henriques pa» 
ra ca, o que ate alii foy chamado Mofteiro de Gui- 
maraens , foy dalli por diante chamado Igreja de San- 
ta Maria de Guimaraens, eteve Prior, Chantre, e Go- 
negos, que tinhaobeneficios, e prebendas , eviv.ia6, 
como tenho dito , em claufura conforme ao coitume 

dps antigos, dos quaes Marcello Francolino : QUmcano- Maneii.Ftfy 
viciincltnflris juxta ecchfiam in communi degebant, intra6h tie 

8 Mas pois demos nefte propofito , fera bom , que ttm t m hor - ca - 
digamos alguma coufa da origem dos Conegos, e que Ji*'*£f^ 
moftremos, que osantigos forao Re^ulares para con- 
firmacao denoflb intentp. Polydoro Virgifio no livro Poiyj.vtrg, 
dos inventores das coufas , tratando dos Con egos , eA«.fii. 
Cabidos diz affim : „ Daqui veyo j que fora6 initirW- 

v dos 






HO FarUs Antiguidadet 

it dosmuitosCollegios, ouCaoidos de Sacerdotes , os 
„ quaes nas Igrejas, e principalmente nas Cathedraes 
„emtodootempoentendeflem nos Officios Diviaos. 
„ A eftes em lingua Grega chamao Conegos , quequer 
„ dizer Regulares , para que como bem inftruidos , e 
f , doutrinados deffem aosoutros regras, poronde vi-j 
„ veflem. Ifto fomente diz efte Author fern dar inven- 
cao , nem principio dos Conegos Cathedraei , iendo 
coufa ta5 notavel, e de tanta preeminencia , que leas 
Cidades forao anneis , as Igrejas Cathedraes forao as 
pedras. Mas o que elle na5 fez, trabalharemos nos de fa- 
zer, para declaraqao domodo, e vida dos Conegos de 
Guimaraens , com que o ficaremos ajudando , no que 
ellefaltou acercadifto. Pofto que fe imprimira otra- 
tado da origem dos Conegos , que fez Jeronymo Ofo- 
rio Conegode Evora , o qual elle de Lisboa mandou ao 
Cabido * e o Cabido o mandou meter em (eus almanos, 
como elle me efcreveo , efcufara eu agora eftetraba-, 
lho, porque legundo elle eradouto , e curiofo , alii 
acharaalfayasdefte propofito, com que ornara a pobre- 

za de minha cafa. r v W • i j 

joffidiutm g Eicreve Poflidio Bifpo Calamenfe, dilcipulo de 

*iuA» g uflini Sai £ Q Agoftinh0) qu e cjuando efte Santo foy ordena- 

• do Presbytero da Igreja Hipponenfe em Africa , den- 

tro da Igreja inftituio logo hum Mofteiro, ecomeqou 

deviver com Servos deDeos, fegundo o modo, ere- 

era ordenado pelos Santos Apoftolos. A regra era * 

que ninguem naquella congregaqao , tivefte P">pno, 

mas tudo fofle commum a todos , e a cada hum le dil- 

tribuifle. legundo fua neceffidade. Depois que o Santo 

foy eleito Bifpo delta Igreja , diz o mefmo Author , 

queaproveitandoiaadoutrina Divina , aquelles , que 

debaixo de iua obediencia > e com elle mefmo fcrviao 

a Ueos no Mofteiro , come<jara6 de fe ordenar , efazer 

Clericos para o minifterio da mefma Igreja Hipponente. 

A. palavras de Po(Tidio lad as feguintes : Jr*fic**te ver> 

dStrina Divin* JubftnEl* % & cum SanBo Augu^no >» m: 

na'nt. ferries , EccUfia Hippontnf>1 citric* ordimn c*. 

t trmu jo Oque 



A5l, * 




7)e Portugal Cap. XXIV. 1 1 1 

i o O que Pomdio diz , que Santo Agoftinho or- 
denado Presbytero fez hum Mofteiro na Igreja , ha-ie 
de entender dentro doslimitesdella * porque legundo 
diz o meimo Santo no Sermao , oA fratrcs in Erem 
( fe efte Sermao he feu) o Bilpo Sao Valerio feu antecef- Serm. $%. 
lor lhe deu huma horta , onde o fez. E depoiso,ue foy 
Biipo diz elle no mefmo SermaS , que para poder mof- 
trariiumanidade , e agazalhar os que vieflem , e paf- 
faflem ^o que no Mofteiro era indecente fazerfe ) orde- 
nou na melma cafa Epifcopal hum Mofteiro de Cieri- 
gos: EtideOy diz elle, volui habere indomoiftAepifopali 
met Pint tnonafttriam clerkiram. 

ii Etornando a Poiiidio, diz efte Auhor # que 
defte mefmo Mofteiro ( falla do primeiro) deu Santo Psjpd. c. 1 i? 
Agoftinho muitos Santos, edevotiffimos varoens pa- 
ra Bifpos, e Cierigosdeoutras partes j os quaes edirl- 
cara6 logo la fimilhantes Mcfteiros , e que efta dou- 
trina por meyo de muitos (e dilatou logo na6 fomen- 
te pelas partes de Africa , mas tambem pelas dealem- 
mar ( entende as de Europa, ) eque fe efcreviao H- 
vros, com que muitas deltas cou fas manando de hum 
fo homem , e por hum a muitos , mereceraS fer noto- 
rias. 

ii De modo , que por ordem de Santo Agofti- 
nho os Clerigos da Tgreja Hipponenle forao Regulares, 
e viviao em commum. E de Poflidio confta , que efta 
dcutrina fe e^tendeo logo por Africa , epaflou tambem 
em ECiropa. E em Hefpanha ainda fe conferva a memo. 
ria dealgumas lgrejas Cathedraes , que forao Regula- 
res. Conta Santo Antonino , que Diogo Bilpo de Of- 
maCidade de Gaftella, fezaos leus Conegos Cathedraes s; Ani ^ 
Regulares: donumero dos quaes foy o Patriarca Sac ^'l',.' ^ 
Domingos. E o Breviario de Evota accrefcenta , que . 
foy elle Conego Regular na Igreja Cathedral de Of. 
ma j e depots Arcyprefte. Tambem Dom Pelayo Bifpo 
de Tuy fez Regulares os feus Conegos , reynando em 
CaftellaDom Affonfo chamado Imperador , e em Por- 
tugal DomAfTbnfo Henrtques, e foy ifto na Era 1175-, 
anno doSenhor 113/. Traz a carta defta reformaca6 

~ . • Dom 



p. Fr.Vrudt 
fol U6. 
BArr.tit. <fe 



j I? Farias Antiguidades 

bom Frey Prudencio na antiguiJade de Tuy. 

, 2 Gaipar Barreiros \ a iua Corographia altirma , 
3 -> I j«p^«« n /. q ^o A«oan vivem ao trio- 



Jtron. Gonf. 
de men jib ut , 
& clttrn. 
gloj.1 
». 8. 



$.t> 



1 5 Lraipar carreiros i« iu» vuiusi«i"'» » -» 

que os Conegos deCaragoca de Aragad vivem ao mo. 
dode Regrantes; porque todos pouiao junto da lgreia, 
dentro dehum apofento cercado comportana , como 
Religiolos , e nao podem fahit fdra lem Ucenqa. hto 
hetanto affim, que ainda agora no anno , de v 6o}, o 
PapaClemente VIU , mudou aquella Igteja do ■ ettado 
tegular , ou (ecular , como diz Jeronymo Gonfalves fo- 
brearegraoitava da Cancellaria. ; 

,4. b Eos Conegos de Braga tambem forao Regu- 
lar-s como parece pelo Sreviario daquella Sena ben- 
iac "aSa queoCapitulantedaaoleitor do Mar- 
tyrologio* quandodizs J^domn, {*•$•* .lot* 

p y i tulafte iefponde ^W"-^ ^fforaotnataen- 
omnipotent , ei- »»/ef (V«r.i Doafw**; Taes forao nwimen 
Jros da toeia Collegiada de Guimaraens, como ter 
mos moft So, (egundo a inftituieao do glonofo San- 

, T Em tempo do gloriofo Santo Agoftmho , e 
e antes delle, naohavia nome de Coneg o. > , , mas a de 
n?riuos fetvU geralmente. Depots queelletez ™oi 
tdroCto da Igreja Cathedral , e deu Regra aos que 
nelle aKio° e osordenou , edeputou ao <«v.coda 
? reH e i im taca6 ditto fe fez o melmo em outras 
s V ' !„m).^m Italia Franca e Hefpanha , daqut 
Sekra . QUeTegubS, chamadl em Grego.C«o» , que 
L ta6 P g a?ec?o coula nova J potto que mmtoantrga 

ri "fi3Ertf l* «.*«*, *^;t^e Azo/odte 
IM. , Mki I**** sag** Pofto 1 ue AZ0I '° qu4 



ififo PoJJtd.Jt 



A»&. c. II. 



TteTortugd.C&f: 



Hi 



que houverao efte nome da porpo canonica ; e mer> **»hs S» 
cenawa , que lhes davao tanto que erao admittidos ittJL mral * 
no numero dos Gonegos *«.«• *. /. 3* 

16 Efte foy o principio dosConegos Cathedraa * "' 
.cm quanta Gonegos: eftaaorigem do nome, que hoie 
tem : fao feitura de Santo Agoftinho \ ao menos por 
jretormac.ao. Digo os que forao , porque 0$ que fao feitu- 
.ra iao do tempo # que tudo defencaixa , volve* e revel- 
ve. Verdadehe, que quando dies merecerem fer cha- 
™ a . do ,i Y; rdadeiro Senado da l &t)z i como quer o'Con- 
cilio 1 ridentmo , pouco havera , quelamentar no gup cotciTrto 
o tempo lhestirou. Efta obra de Santo Agoftinho fov A/ 
geral , porque logo fe dilatou por Africa , e Eurona 
E o que poucosannos antes fez Santo Eufebio em V^tL\ Baren '^ ui 
h de Italia , e Sao Martinho em Tiirs de Franca % c f rt a *V 
raocoufas particulars daqueliai Igrejas ; nemlonft L* i l 4 
que dallHe extendeaem. U outra ^maneirs ^ddneceflV 
rio era a Santo Agoftinho mandar livros, e pefloas de 
to regra a Europa , fe ca t houvera ]i efte modo de vl 



*«• '■ i»j 



OS 



•7 O Padre Frey Antonio de Yepes quer oue 



Conegos ant.gos Cathedrae* de Helpanha guardaflent *'*""»•' . 
antegrade Sao Bento , e nag de Santo Agoftinho S SaTVL 
polio que muitp^Bifpos fo(Tem Frades S deSa6Beni ] tS , " 
«ao -fe legue por iffo o que elle diz . como vemos net 

SttTO K I P0S F,adeS ; e os Conp S<* Cle ritf& 
Alern djftofe afllm foy .tambem haviaS de rezar oBrie. 
v.ano de S 6 Benito, « nos fabemos , que ofS 
de-toga fora8 Regulares, e o feu Br*viar°o hS 
qmffimo , * diffetente do^deSao Bento , como fe nod- 
ver.efpec.aimente nas ben ? Bens de Prima. Qua no mai* 
que Poffidjo <fi* cfara^nte , que guardavaS a CT' 
que lhes tfatf no* Hvros mandados por Santo A$&£ 



' 



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£A?l 



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II 

1 


! 




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OConde'Dom 
Henrique fo- 
voou Braga, c«- 
mo elle mefme 
JtZ na fua f "al- 
ia , que fex a» 
Vrincipe, 
O CondeD. 
Yed'o nasfuat 
Itnhagens tit. 

7M- 



114 VkiM dntiguidadet 

" CAPITULO XXV. 

Da]urifdic$ao dos Prehdos da Igrejade Gninaratns. 
Das primeiw Corm de gente Portugueza. Que 
ffia Igreja foy Capella Real do Conde , edaRai- 
nha fua muthtr. Ate quando foy immedtata ao Pa* 
pa y e daprimeira concordia entre ella, t Arco 
bifpo de Braga fobre afujeifao. Que aveyovtfitar 
hum Legado do Papa. E dafegunda concordia com 
Arcebifpo de Braga. Do Mofitiro da Cofia , t de 
fua advocate, 

QUandofefundou oMofteiro daCondel- 
fadonaMumadona, que foy no anno do 
S^nhor 919* tftava ainda Braga tao ar- 
ruinada do tempo dos Mouros, quenaohavia nella Ar- 
cebifpo , nem Igreja deeonfideraqad, quenosfaibamos. 
Eeftava encomendfjda ao Bilpo de Lugo^mGalliza, 
iuntamente com feu Arcebifpado , damao d EKey u. 
Afforifo oCafto: o que foy no anno.do bennor 8}o, 
por eftar aquella terra defpovoada de Chriftaos, e a Cj* 
dade deftruida , como moftra o Padre Frey Bernardo 
de toga notratado da precedencia entre Portugal , e 
Napoles. Pofto queoCathalogo dos Arcebiipos de Bra- 
aa poem atal encommenda$ao antes tnnta eouoan, 
qos , que vema ier no anno *> Senhor 791. Bfta en, 
commendacao ceHou no Arcebifpo deBraga Dom Pe- 
dro, , el eito fegundo o .mefmo Catalogo no anno 
,067. De maneira , que; da fun4ac_a$ do Mnftpiro de 
Guimaraens a cento etrintaeoitoannos nao houveem 
Braga Bifpo. Confirma ifto , que fendo coftume da- 
quelle tempo , que as doacoens de importance, te mas- 
davao affinar por Reys , Principes , Bifpos , c outras 
pefloas dequalidade, nem no teftamento da Condeila 
dona Mumadona , nem em outra doac,ao alguma do 

leu 



De Wortugal Cap* XX V. it $ 

feullvro, achamos ndme debifpo de SragS, siemda 
Porto , achando-fe ou'tros de itiais longe , coitvo o de 
Tuy, e o deliia em Galliza. Ate que no tempo do 
Conde Dom Henrique achamos o de$a6 Geraldo Ar. 
cebifpb de Braga em^huma doa^ao , que atraz allega- 
mos, que iuccedeoaDom Pedro. Finalmenteo Moftd- 
ro daCondefla fundado com.authoridade Real , e pot 
pefloa domefmo fangue,con(entindo, ou diffimulando 
os Arcebif pos de Lugo , e depois os de Braga , nao co- 
rhecia por fuperior , fenao ao Papa : e os feus Abba- 
des tinhao jurifdicqaoordinaria, que depois fkou nos 
Priores de Guimaraens , nao fomente fobre ieus Mon* 
ges i c Monjas , mas fobre os moradores de feu Burgo; 
Aos quaes Abbades pelo tempo adianteEIRey Fernan- 
do de Leao vindo a efte lugar por fua devcqao , e pot 
mais ennobrecer efta fanta cafa i deu a juriidicqag tem- 
poral docivelj e crime detoda a terra * que jaz entre 
e,s dous rios , Ave , e Vizella , e em toda a de Ssnfo 
Torquato , mandando, que tudo correfle por mao do 
Vigario do Motteiro ; o que fry no anno de 1049. Com 
que oBurgo Vimaranes iria muito a diante em gran- 
deza , e numero de vifinhos. Econfta da dcaqao defte 
Key, queeitanoarchivo, que havia entao nefta Igre- 
ja Prades , Clerigos , e Freiras* 

a Depois diflo , pofto que nao fabemos , em 
que anno , mas feria em tempo de alguma tempetta- 
de , efte Mofteiro aii/ou as Freiras como carga pe- 
zada , e pengofa. Muito durarao os Mofteiros delta for- 
te em Hefpanha, principalmente em Galliza, deque 
tomou motiyo o Papa Pafcoal II , para mandar hum 
Breve aoBifpode Sab Tiago Dom Diogo Gelmires , 
cm que , entre outras coUfas, Ihe dizia o ieguinte ; 
„ Aquillo de todo o pcnto he indecente j que em voiTa 
'„ terra , legundo fomos informados , morem junta- 
,,menteMonges, e Monjas. O qual deve procurar de 
»,eftorvar tua experiencia , para que osqueaoprefen- 
ft te eitao juntos , fejao feparados em morada muy di- 
„ verfa , conforme ao juizo de peffoas Religiofas. E pa- 
„ra o diante feuie de fimilhantc liberdade. Dado em 

P ii f> Late- 






$rev'. Brae. 
In Gerald, 



#> Latera$o anrM>.daIncam2(jao do Senhor nc^. Traz 
MntUn. I to, parte idtdte Breve (Joao de Mariana naJua hiftoria de 
e. ii. Hefpanha , onde nos tomamos o que temos dito. 

-*?ji 5 < Melhor fe fez iffco em Guimaraens , que nao ef- 
perarao pelo.Breve do Papa , porque em tempo do Con- 
de Diim Henrique, que; entrou era Portugal no anno 
Garibay I 34. do Senior f 090 , fegundo: 'Garibay , ja no Mofteiro nao 
f- 5 * eftavao Freiras, fenao Frades, e Glerigos , dos quaes 

iomente (e faz menqao naquella carta de permuuc^ad 
de huma herdade feita em tempo do meimo Conde , ds 
^ que atraz falley. Na qual me lembra a cerca dopropo- 

^ lito/em que eftarnos * que eftava afTinado com outras 

pefloas , Geraldo Arcebifpo de Braga , o qual foy pre- 
fente rias Cortes de Guimaraens , que fez o Conde D. 
Henrique , edifle Miffa no Altar defta Igreja por mayor 
.folemnidade daquelle^ illuftre ajuntamento , que eu 
luipeito foy o primeiro , que fe fez de gente Portu» 
.gueza. Digo iito , porque nao era ainda nafcido o 
Principe DonJArTonfo feu filhp 4 ou era tao pequeno , 
que nao efteVe pre fente com feus pays, nem delle fe 
fez menqao. Nafcia Portugal entao por meyo das ar- 
mas j e nao ic podia cdar fern osmimos do confelho, 
cm que o Conde provia com eftas Cortes : para asquaes 
cicolheo . eftelugar de Guimaraens , ent^o mais accom- 
irodado, foonrado , efinalmente allentodefua Corte, 
de que efta Villa, quehorahe, com muita razao fepo- 
de gloriar. Tornando a meu intento, entao notou o 
Arcebifpo devagara juriidicc^ao do Prelado defta Igreja 
independente da fua , edantes ofaria muitas vezes, e 
comtudo nada fez contra ella. 

4 Nem fez mais Mauricio feu fucceflor , do qual 
me nao efpantara, porque foy taoaltivo, quenaocou- 
be no Arcebiipado de Braga , e depois foy conftrangido 
caber no Mofteiro de Cavas em Italia , de que faz men- 




M*ri*»iii-io. Henrique?. Efte he o Arcebifpo Joao f que Mariana 
fcj* faz Legado Apoltolico , o qual efta" affinado na doa- 

$ao 




Ii S- }• 



T>e r PortugaLCap.XXF. 117 

ijaB do Mofteiro de Sao Tciquato com EIRey Dom 
AfFonfo Henriques i e com feus filhos EIRey D. Sanw 
cho , e Dona i ateja r com Dom Pedro Amarello Piior 
deGuimaraens , com Dam Mendo, Prior da Cofta ♦ Vil- 

lane VigariordrQuimaraens j eoutras pefloasj daqual' 
doaqgo (epo?a a diante o que for neceffario , agora 
bafteiaber , que foy feita na Era 121 1 , anno do Se- 
nhor 1175. 

_ 5 Seguirao-fe os Arcebifpos Godinoy Martinho, 
Pedro , e Dom EftevaS, o qua! Dom Eftevao foy elei- z> u iyA % 
to Arcebifpo no anno do Senhor 1211, cem annosjuf-w«, ?«**/. 
tos depois do faieciaiento^do Conde Dom Henrique./"*-'^ «*«»*• 
Nefte tempo ja acha'mosem Guimaraeus tres Parochias CWe D ' **'• 
aMatriz de Santa Maria , Sao Miguel do Cafteilo ^ rofias f uasli ^ 
Sd6 Payo , e o Prior as vifitou todas , e punha Curas^ 
de lua raao , de tuja ium'ciencia fo elle conheda e 
nefta forma opoem ainda ca Matriz j que depois fhe 
foy confirmado pelo Cardeal Sabinenfe, como abaixo 
ie vera. Fazia caiamentos , excommungava , e outras 
coufas, fern em algurr.a conhecer fuperioridsde aos Ar- 
cebifpos de Braga, quetudo viao , e confemiao. 

6 Oque nifto entendo he, que efta Igreja Ma- 
triz foy Capella Real do Conde Dom Henrique , e da 
Rainha Dona Tareja (ua mulher j e depois da mefma 
Eainha, e do Infante Dom Affonfo Henriques feu fi- 
5f o, edellemeimo, depois que foy Rey, e ailim d'El- 
Rey Dom Sancho feu filho : e em iuas vidas retinha ef. 
ta voz, etitulo, e neile era venerada* e refpeitada 
fitndaque os Reys aqui nao refidiflem fempre : e os 
Arcebifpos de Braga diffimulavao, o que nao oufav2o 
contradizer. Mas depois os Reys paiTarao iua Corte 
para iCoimbra , para demais perto affiftir a conquifta 
tins Mouros , havendo ja trinta e hum annos, que El- 
Key Dom Aftonfo Henriques erafalecidoj e quatro de- 
pois da mcrte d'ElRey Do.m Sancho feu filho, pareceo 
berrr ao Arcebifpo D<m Eftevao efta occafiao para con- 
quiirar efte vifinho , que a veneranda antiguidade , e no- 
breza defte Santuario fizerao iientoj e commuita ra- 
zao, pois em tempo, que Braga jaziaiepultada emti 

mefma, 



Lucan. I. 



Farias Aritiguidades ; 

meima, porordem, edefpezas da muito Catholica,-^ 
nobilifRma Senhora Condefla dona Mumadona , tia. 
deRanemiro II, Rey de Leao , ecom sjudas domef- 
mo Rey fefez efteieu M oft eiro do Salvador t quefoy 
hum farol de luz , e doutrina Evangelical era mcyo das 
trevas daquelle tempo , onde floreiceo o culto do ver- 
dadeiro Dsos , edejfeus Santos , com tanto exemplo de 
virtude Chrittaa, aflim de Religiolos , comodeReli- 
giofas ,' que nao iomente as gentes comarcaas > as 
quaes a vifmhanqa dos Mouros obrigava trazer iem- 
pre as armas as codas > fe vinh 5 aqui confolar , animar, 
e offertar feus bens , mas os Reys de Leao tao diftantes, 
levados de fua Real virtude , e devotos por fama , fa- 
ziao o meimoj e deixavaS a efta Santa cafa doaqoens 
de privilegios, deliberdades, dehonras* de terras, poc 
remediode fuas almas, edefeus pays, que affim odi- 
ziao nas mefmas doaqoens , trabalhando cada qual de 
a honrar, eauthorizar, como melhor podia. 

7 Mas o Arcebifpo Dom Eftevao tratando de 
feu propofito , que era conforme ao que diz o outro: 
Omnii<\ue poicjlas impatitm confortis ertt , pertendia fu- 
jeitalla, tirarlhea juriidiccao, e fazerfe Prelado della. 1 
ComeQou-fe efte negocio com tantacontenda, inftan- 
do o Arcebifpo , erecufando o Prior , e Cabido, que 
le tomarao armas , com damno de ambas as partes, lira 
entao Papa Innocencio III , o qual interpondo iua au- 
thoridade commetteo a caufa a dous Arcediagos, hum 
de Zamora , outro de Aftorga , osjquaes juntos na Vil- 
la de Benavente do Reyno de Leao, fizerao huma con* 
cordia entre partes, efoy , que o Arcebifpo de Braga 
tivefle jurifdicc,a6 fobre o Prior , e iobrea Igreja de Gui- 
maraens , como a tern de direito fobre qualquer Bif- 
po ieu fuflfraganeo , e na Igreia. E nos Conegos , e por- 
cionarios de Guimaraens tivefle aquella juritdiojao , e 
naquelles cafos, em que a tinha nos Coriegos, epor- 
cionarios de qualquer Igreja Cathedral fua fuflraganea. 
Eo Prior tivefle aquella jurifdicqao em feus Conegos, 
e porcionarios , que tern hum Bifpo Diocefano nos 
jfeus i tirando , que dos cafos , que requerem priva- 



De$*Qm'g*l Cap. XXV. 119 

>$a& 9 ou fufpen^ao >n pirpettthm , conhecera oArctbif- 
po , enao o Prior. 

8 Mais fe affentou , que fe perdoaflem as injurias 
de parte a parte , e outras couias , que as partes jura- 
rao pelos Santos Evangelhos nas maos dosjuizes. Foy 
feita efta compofic,a6 f em B-navente ma Era M CC LIUI^ 
aquerefponde oanno do Senhcr 1216. Era entao Pa- 
pa Innocencio HI, e Rey em Portugal Dom AfTbnfo H, 
do qual fenao elcrevem mais couias , que grandes, 
e perfesreradas differences , que teve com as Infantas 
fuasirmaas, mas a eftas furtou elle tempo paravirem 
romaria a Santa Maria de Guimaraens , logo no feguin- 
te anno , depois que por concordia feacabaraS tambem 
as differences deltas Igrejas , que foy no anno do Se- 
nhor 1217, oquinto de feu reynado * e pormoftra de 
Jua devoqaofez aquiacartaj que atraz puz, em que 
imitando a feu Pay , e Ayo , declara o amor , e von« 
lade , que tern de em tudo defender , e amparar ao 
Prior, eConegos, etodas as couias delta Igreja. 
eft 9. Ficou eontente Arcebifpo , o qual deixare- 
rnosaflim fkar * e trataremos de huma nova mudanqa 
de governo,. que nefta IgrejHe fez feis annos a dian- 
tedaquellavinda d'ElRey, que he no do Senhor 1223. 
Vendo o Cabido quam mal fabricada era -efta Igreja , 
e mal feitos leus negocios, porque na verdade as cou- 
ias das Communidadesifao delarnparadas, e raramente 
fe acha hum , que trate com© leu , o que he de redo?, 
concertouie com o Priori que fe obrigafle a fi , e a 
feus (uccelTores de fazer todo oacima dito a fua culta, 
e defpeza : erpara ifto lhe deu huma por^ao tiratia do 
oqrpe da faze/ida , deque- toSas viviao. E o Prior ia 
<*brigou na forma fobredita, datfr'todes os ornamentos 
necetfarios a Igreja , fefazelia , e cobrilla , eaflimtodas 
as crRckias , como refeitorio, Cabido, adega , e eel- 
leiro de pao ., e fuller os encargos- da Igreja Roma na, 
e ci'Ei Rey-, e do Arcebifpo , e dos negocios , que a Igre- 
ja tivefle, Foyfeita eftaefcritura de contrato, na Era 
eci26i, anno do Senhor 1223. 

1 Pot efta via>> eoom etias obiigac.oens how vet 

rao 






120 

rad os Priores a renda , 



Vmas Antigtti&tiAes. 

que urn , ficando o Cabido 
commenos da que tinha , mas a leu parecer livre de 
tiegodos , connado rid contrato , que os Priores mal 
guardarao, com que foy neceflario ao Gabido tomaH 
los outra vez fobre (i , e fazellos como de antes; e 
requerendo aos Priores , que pagaffem as defpezas , rd- 
pondiao , que elle Cabido faziao demandas mjuftas, 
. e delneceilarlas ; e aflim buicavao efcufas de nao pa- 
gar , oque por tao jufta, e notoria obrigaqao deviao; 
Deque nafceo ficarem ricos para viver profperamente, 
e poderofos para opprimir ao mefmo Cabido , que 
commuitos trabalhos, e grandes defpezas fe defendeo 
muitas vezes de fua potencia. Delta maaeira porhura 
mao confelho fe poz o Cabido a fi meimo ocutello na 
garganta. 

ii Tomeraos aos progreffos das coufas da Igre* 
ja. Elcreve Joao de Mariana , que no anno 1129 , veya 
de Roma hum Legado do Papa cbamadojoao, Mon- 
gedeCluni, Cardeal Sabin'enfe, a tratar negocios muy 
graves com EIRey de Aragao. Jeronymo (Junta nos 
(eusannaes diz, que a principal caula, porque b Papa 
Gregorio IX mandou aqUelle Legado, Bitpode San- 
ta Sabina a Aragao, foy, porque EIRey D.James ie que* 
ria apartar da Rainha Dona Leonor fua mulher , como 
apartou j por parentefco em grao prohibido , queen- 
tre elles havia. Por outra fimilhante caufa o mandou 
tambema Portugal o mefmo Papa Gregorio lX,a fclRey 
D. Sancho II, que comeqou dereynar no anno de 1255 1 
que parece fe deteve efte Legado cnm negocios em Hef* 
panha alguns annos. Elbva klRey Dom Sancho ca* 
fado com Dona Marfa^Lopes de Haro , fua parent* 
em grao tambem prdhibldo ; : e'aflih* por 'iftb , cdmb» 
por fe governar porrtiaos Confelhdros, que fo trata- 
vao de feus interefles ? de qne os Prelados , e nobres 
de Portugal fequeixara&ao P«pa » como aifirma Duar- 
Vuarte Hunts te N un ess, elle o mandou admoettarpor efte' Lec;ado> 4 
in sanch, u. ,gtfp ds $anta .Sabina , 'que fe apartafle de im mulher, 
ftL 7 %.uLt. e tomafle melhoresCdrtfetheiros. para bem givernac 
feu Reytio. Mem daquelle motivo , que trouxe «fte 

Legado 



c«i4« 



C.urital. 3. 
c. x. & \. *» 
no Dm i%2 9 



De-Toriugak Cap. XX. tzt 

Legado a Portugal , tembem houveoutto, quefoy para 
haver de vifitar efla Collegiada Real , e por em me* 
lhor ordem fuas couias com athoridade Apoflolica, 
Aqui efteve, e vifitou peftoalmente efla Santa Igreja, 
edecretou omodo , e ordem dos Officios Divinos, e 
as difhibuicf^os das Hcras Canonicas f nao obffcante, 
que os CoriE or s era 5 Regulares, como feentendeda 
carta de fua vifitacao. Ordenou , que o Prior puzefle 
hum Sacerdote por Cura delta Igreja : eque a primeU 
ra prebenda , que vagafle, fedefle a hum Meftrej qus 
deile huma licao de Grammatica , e entretaRto fe tiraf- 
fe de todas as prebendas huma porcao de certos cruz.a« 
dos para hum Leitor da dita Grammatica. Taoantigo 
he nefta Villa o eltudo da lingua Latina , que prece- 
de em tempo as efcolas de Coimbra , e Lisboa , or* 
denadas por EIRey Dom Dinizftlho d'ElRey Dom Af- 
fonio, que luccedeo a ElKey Dom Sancho II , emeu? 
jo tempo ifto foy. 

\% Tornando ao Legado , a'cerca da fuperiorida- 
de , e Prelacia, fobre queefta Igreja havia poucos an- 
nos tivera duvidas, e debates com o Arcebifpo, man- 
dou , que os Bene fi dados della dell em obediencia , e 
Reverencia ao feu Prior, como a ieu Ordinsrio. Feita 
afiim efta vifitacao , fendo Papa Gregorio IX , e Rty 
em Portugal Dom Sancho II , o Cardeal fe foy a Lead 
deHefpanha, donde a mandou ao Prior, eC^bido, a 
qua! elles tem em muita eftima por ier de tanta au* 
thoridade, e o Miniftro ier hum Cardeal, Legado do 
Papa , e aflim fe guarda no arcfiivo , como argumen- 
to de antiguidade honrofa , e de preeminencia An- 
gular. 

15 Continuoufe a paz > e concordia della Igreja 
com os Arcebifpos de Brsga pormuitos annos femal- 
terac?o, eJeellesvifitaraoalguma vez, foy, como Me- 
ttopolitanos , que depoisde vifitar toda a fua Diocefi, 
vifitavao aos Juffraganeos , conforme ao direito anti- 
go , e o Prior csreconhecia fomentenasappells^oens. 
Ifto correo aflim ate o Arcebifpo Infante Dcm Hen- 
*ique eleito no anno doSenhor 1531. filhod'ElRey 

Q, took 






*7* 



12% Fdrias Jfntiguiiaies 

DomMsncdj edepoisRey delta Reyno. Efte Infan- 
te ArcebifpodeBraga » coino folle homem ailtnalads 
emvirtude, e aosigo detoda a pejfeiqaoecclefiaitica ,• 
com efts zelo, armado depader f eauthoridadeReal, 
entrou era Guirnaraens , e vifltou a Igreja Collegtada, 
epovo pefloalmente huma vez , e.outra*., em dous an- 
no?. Coufa tao notavel , que Damiao4idp*j6es Chro- 
nifta u'filRey feu pay, entrealgumascoufas, que ef- 
creve deite Principe Dom Henrique, faz menqaodef- 
ta. Mas o Prior , e Cabido appellaraS *d Sdntttm Se- 
dcm, ealcancarao refcriptos parajuizes. 

14 Deixou o Infante o Arcebifpado , e feguiraor 
le os Arcebilpos Dom Diogo daSylva, o Senhor Dom 
Duarte filho d'ElRey Dom Joao , e Dom Manoel de 
Soula, os quaes nao fizerao coufa aiguma nefte nego- 
cio. Mas o Arcebifpo Dom Balthaiar Limpo , que fuc-, 
cedeonoanno 15*49 , a.quem feentende, que o Infan- 
te encomendou o profeguimento defta vifitaqao , veyo 
a efta Villa com tanta confianqa , que bem parecia fun* 
dada em mais poder , que no ieu. Prirneiramenteachan* 
do as portas da Igreja fechadas, dizem , que asmandou 
quebrar. E porque os Cenegos na6 appareciao, man- 
dou-os notificar com penas de excommunhao, ededi- 
nheiro , que vieflem a Igreja dentro em certas horas. 
O que fabendo o Prior mandou.os tambem por fua via 
notiflcar com outras taes penas, para que nao vieilem.' 
Tinalmente depois de muitas diffuuldades, e moleftias 
foft'ridas de parte a parte muitas vezes , fe fez efta com- 
poliqao por ordem do mefmo Infante Dom Henrique, 
que fe meteo ni(To> e devia de fer arogo do Arcebif- 
po , que com elle corria , como logo fe vera. Tern o 
Cabido em feu archivo a traqa , e fummario defta com- 
pofiqao , em huma folha depapel aflinada pelojmefmo 
Infante Cardeal, por onde ella pontualmente fe fez, e 
nao valeo ao Cabido o aflentado pela primeira concordia 
confirmada pelo Papa. 

1? Acompoficao foy, que vindo os Arcebifpos 
a Guimaraens nos tempos ordenados por direito , pof- 
iao por fi mefmos vifitar no eipiritual , e temporal a 

Jgreja 



T>e *PwtugaL Cdp* J£XF. 1 1 J 

Igreja- Col legiada, riior , e Beneficiados della , com 
tal declaraqao, queviutarao por fi mefmos , ena6por 
outrem , e que achando culpas dos Beneficiados, os re> ; 
metterao ao feu Prior % para proceder contra os cul- 
pados , co.mo for jufti^a , falvo nos caios , que toca- 
rem £ pe(Toa do Prior , porque defies conhecerao os 
Arcebiipos por fi , e por (eus officiaes na primeira inf- 
tancia. E. nao vindo os Arcebifpos peffoalmente a vi- 
fitaqao, a/Tun no efpiritual , como no temporal , ficara 
in folidum ao Prior. Ifto he o mais fubftancial da corn- 
poficao, que foy feita em Lisboa no anuo do Senhor 
1553. Aqua! os Arcebifpos podem agradecer ao Car* 
deal Infante, que como foy Arcebifpo de Braga , tra- 
tou deafozer, como feainda ofcra, a cuja vontade$ 
que (e prefumia fer huma mefma com ad'ERey feu ir- 
mao, nao era licito refiftir. 

. 16 FicsraS com ifto as partes quietas , e o Ar- 
cebilpo Dom Balthafar eomec,ou cada anno devifitar 
ef!a Igreja, epcvo, como Ordinario ; mas como por 
iua natural aipereza , nao fe pudefle muitas vezes tec 
dentro dos limites daconcordia, que elle mefmogran* 
geou, e approvou, e achando o Cabido, que a que- 
hrava* e lhe fazia frtrc,a , eaggravo, nao tinha outro 
remedio, fenao appeliar huma , e muitas vezes. As quaes 
appella^oens elle fentia tanto, que o fazia faber a 
Rainha ,ao Cardeal , e a Infanta Dona Ifabel , ede to- 
dos eftes Principes ha cartas para o Cabido , em que Ins 
encommendavao, que nao appellaflem do Arcebifpo, 
ate dizer o Cardeal , que faria queixume deile a EU t 
Rey leu Senhor irmao. Mas o Cabido nao podendo 
ioffrer tantas violencias , mandou fobre 1 iflo hum Pro- 
curador a Roma , que em chegando la o Arcebifpo 
morreo ca , e com elle morreraS feus trabafhos , por- 
que fe efta Igreja ate alii perdeo tanto de fua jwifdic- 
cao porfraqueza dos Prior es, dalli por diante nao fey 
ie por humana induflria, ou forqa mais alta-, ellesfd- 
rao tao eminentes por meritos de nobreza , de ietras, 
£ dignidade, que os Arcebifpos nao fao poderolospa- 
ra os fazer reiidir , e afllm fica$ fern poder exercitar 

Q„ii nelles 



1 24 -Vkrtdi Untiguidadei 

nelles aqtiella fuperioridade de jurifdicca6 f <jue com 
lanto trabalho , e valia fe procurou. Ate aqui da jurif- 
dicqao dos Prelados delta Collegiada Real de Guima- 
raens. 

1 7 Na doaqao de Sao Torquato , que atraz rete^ 
rimos j efta afllnado entre as teftimunhas , Dom Msti- 
do Prior da Cofta. E nao (era officio de bom vifinho , 
nao fazer cafo dc tao antigo , e honrado Mofteiro , cu- 
jo Prior podemos dizer , quenoloveyo lembrar, een- 
commendar. Efta efte Mofleiro a vifta de Guimaraens, 
contra oOrie^te emdiftancia dehuma milha pofto no 
ladode huma ferra , ccfta arriba, donde entendemos to. 
tomou onome, que logo teve em feu principle. Diz 
G*tV>*y »o Garibay , que o fundou a Rairtha Dona Mafalda, mu-s 
compe»dio lib, Iher d'SlRey Dom Affonfo Henriques. Q tempo de 
34. e. 14, f ua fundaqao nao labemos , mas da doaqao de Sao Tor- 
quato , onde achamos affinado o Prior Dom Mendo, 
confta , que ja era no anno do Ssnhor 117?. 

18 Aadvocaqao de.de Mofteiro he de Santa Ma- 
rina , dita vulgarmente Marinha. Muitas Santas hou- 
fitippusErem. WQ defts nome. Filippo Kremitano no feu fupplemen- 
to faz menqao de huma , que padeceo martyrio em 
Aiiminio Cidade de Italia. Rafael Volaterrano deou- 
tra , Grega de nacao , que he aquelh , que fendo mu- 
Iher chamada Marina j femeteo Frade , e fe chamou 
Marino, a que felevantou hum falfo teftimunho , que 
houve hum filho de certa mulher , affirmado pela mel- 
ma mulher, o qual ella fcflreo , c^lando qucm era com 
admiravel paciencia , ate iua morte , em que fe ioube, 
que era mulher. Seu fanto corppdiz Volaterrano , que 
foy trasladado para Veneza no anno do Senhor 1 1 13 1 
do qual falla o Martyrologio Romano em dezoito de 
JunhoitrazoutrA Santa deite nome, Gallega , a qual to- 
mou dos Authores Helpanhoes , como parece nasno- 
taqoens do C^rdeal Baronio fobre efte lugar do Marty- 
rologio, . 

,9 Dom Prudencio de Sandoval na fua antiguida- 
D.KuJ.ti* % Q de Tuy re f ere que e ft a s anta fe chamou Gema , 
%y%iti ' ™ Carina , e que foy irmaa feoutras oito Virgerw, 

& hide. 



infuppl. in 
Cbron. /. 6. 
Vchler. An' 

Sryfol. I.17 



( De t PoriugualCdp.XXP< i2f 

Itefcidas todas de hum pafto , efilhas de Catillid Se- 
vero , Prefidente deGalliza, e de Lufitania , Cidadatf 
de Brpga , e Rey deila terra, edeCalfia fua mulher, 
que as pario em Bayona , chamada entao Valcagia , que 
envergonhada de tal parto encarregou a parteira , que 
as affogafle no mar, a qual naocumprioomdndado da 
Princeza Calfia , porque era Catholica , e como tal 
mandou criar as meninas , que depois forao todas mar- 
tyres. Iftotraz o Bifpo deTuy femapontar o tempo 
deltas coulas , mas do martyrio, que Ihs attribuem, 
fica entendido. Porque Genivera huma, dellas pade- 
ceo em Tuy o primeiro de Novembro anno 130* £u- 
Oielia em Abobriga do Bifpado de Tuy o primeiro de 
Dezembro. Gema , ou Marina em Amphilochia Cidade 
Grega do Bifpado de Orenfe , onde efla feu corpo , em 
dezoito dejulho. Quiteria em Margaliza do Bifpado 
de Toledo anno 150. Marciana em Toledo anno 155". 
Victoria em Cordova : Wilge-fortes » ou Liberata em 
Caftra-leuca de Portugal anno do Senhor 138. Germana 
em Carthago de Africa aosdezanove de Janeiro. Bafi- 
lifla em Syriao primeiro de Novembro, a qual Syria 
he Provincia deAfia, como henotorio. Ifto he do Bif- 
po de Tuy. 

20 Diz mats omefmo Bifpo, que a relaqao deftas 
fentas meninas, que afiim lhes cha ma o , como fe fo- 
rao martyrizadas noberco, e nao mulheres feitas , foy 
mandadaa Portugal pelo Padre Jeronymo Romano de la 
Higuera Csftelhano , homem douto , o qual da por Au- 
thores della a Dextro contemporaneo de Sao Jeronymo, Hieronl »» ta« 
ejuliano Arcyprefte de Toledo , Author de mais de**% d$' 
quinhentos annos. Olivro de Dextro perdeo-fe, co- ./"•*>'• «W. «i 
mo fe perdera3 muitos 9 e nao vejo Author antiga , que &***"* 
oallegue , e a mefmo Sao Jeronymo, a quern Dextro 
odedicou, confefla , que o nao leo. O de Julianodiz, 
que efta' no Eicurial em letra Gotica. Pelo que pate-. 
ce bem deixar flcar departs efta hiftona de Catillio , 
e Caliia Principes dev.Braga com (ua filha Marina >errt 
quanto nao apparecem teus Authored , Te fua Ventura 
ps trouxer a luz deimpreflao, para q de todos poffao fee 
- vif* 





12* V <xrm Aritiguidades 

viitos , e ?pprovados : porqu^ ainda nao efquece * 

farcade Joad Aunid, em que entrarao figuras , que pa- 

reciao Beroio , Cato , e outros , e depois le achou clara- 

roente, que o nao erao, mas tatde para defenganar a 

muitos, queemteusefcritosofeguirao. E entretanto, 

ie ojeitor quizet" vet outra relaqao das mefmas nove 

irmaas, de que ficara raais fatisfeito , e efcu(ara o tra- 

balho de andar todas astres partes do Mundo embui- 

ca dos lugares de feus martyr ios , que na5 fey coma 

jfto nao cancou a quern os efcreveo para os mandar a 

Portugal, lea a Villegas Author grave, douto , ecu- 

riolo nas vidas de Santa Liberata , e de Santa Quitena ; 

onde achara* que eftas Santas mais pareeem ^ancezas, 

que de outra naqao , eque entre ellas nao ^contada 

Carina , nem Wilge-fortes , porque a que la ^abida, 

mente he Gallega , e nao Franceza i e eftoutra Luhta, 

na , como diz o Vartyrologio Romano , e Joao , Moj 

"ano nas addiccoens a Ufuardo , que allega Baromo nas 

iuas notacoens aosvintedejulho. • 

was no V^ uaes razoens con formando.nos com 

Villeeas, ccora o lecYionario da Igreja de Ciguenqal. 
que el e (egue, dizemos > que Santa Manna .Gal leg 
he outra deperfu cujocorpo, fegundo omeimoViI- 
leeas iaz duas legoas da Cidade Orenfeem huma Igre- 
:fefeunome, Jnde chamao Aguas »*£*> d« 
elle cue fetem maita devocjao em Heipanha, e pot 
leu refodto muitas peffoas poem feu nome a fuas fi. 
has e P q ue em Cordova , e em Sevilha tern . lumptuc* 
fos Templos. Factlmente me fora com efte Author pa- 
ra dizer cue a advocacao do Moileiro da Cofta he del, 
San^ Mmna GallSga > pofto Q-pouco cele brep or 
Lo fe faberem leuspays, nem- feu **"?"%:*«%£ 
?cmpo, em qneviveo ,fena5 tiveramo. oum anttdefr 
Z nome mais iiluftre por martyno , porimg. « 
nmrerial devocno dotodo-oOnente, eOccidente, a 
que com t£?r**6 fe f^em^rib ^3SS& 
Tempos de Cordova ,e de Sevilha , e quaefquer outros, 
wfczhLm. Efta he aquella , a que os CM*** 
£t ■ «SU. eos tatinos Margarita , tuando Beda. 



eUfuardo, que tambem lhe chamao Marina, como 
diz o Gardeal Baronio , lume clariffimo defte genero Bannia] i» 
de hiftoria, e doshiftoriwos. Noftbs antepaflados , om mtat - Mary 
quanto nao appareciao mats efcritores Latinos de vidas roi ' d \* ro * 
de Santos , feguira3 a Beds ,"< eUfuardo v e aos Gregos, ^"^ 
principalmente,SaoSimea6 Metaphrafte, vara6degran-» ', \ ' J 
de nome, e.authoridade, que efcreveo fua vida, de- „«'!!!% 'J 

. . .J .. 5 U 7 n. c I, ' ff P u * Lipoma* 

baixo do nome Manna. Lbaitava ■,< que toy ella ator „ um devais 

mentada em feus peitoscomfachas de fogo , corno conf* /«»#. $an. %; 

ta defte Author, e que he advogada dasmulheres^ £]ue/ 

tern difficultofbs partos , corn© efcreve o Bifpo Pedro p ^- '<* "'*- 

no feu catalogo , pasa as mulheres lhe terem dsvocao^" 2 ' 6 ' cx9t 

e muitas porem leu nome a fuas filhas , e lhe fazerem 

edificar fumptuoios Ternplos , como fez a Rainha D, 

Mafalda efte Mofteiro daCofta, a cuj'a imita^ao fe fa- 

fiao osmuttos , que vemosnefta terra dentre Douro, e 

Minho , pois o exemplo dos Reys , he commummen- 

te :o motivo das obrasde feus vaiialos, comodizia CAau-Compontitir - 

QiailO. or bis regis 4if 

22 A Rainha Dona Mafalda noptincipio deu ef ex f m P^ m 
te Mofteiro a Gonegos Regulares de Santo Agdftinho. ~%f™ d 4 ' 
Muito depois veyo a fer do Duque de Bragan^a Dom F7°y [ ep h dt 
James,'e elle o deu aos Frades de Sa6 Jeronymo em vinte% a ^ f «»^ 
e>fete de Janeiro anno do Senhor 15*2.8 _, com foenepia- *»?• daordtm 
cita d'ftfRey Dom Joa6 , que viria nifto com muito gof- de Sa ~° J er ™y- 
to , porque as cafas defies R el igiofos forao fempre as-*' J* h L x ' 
delicias denoflos Reys. Nefta ordenou omefmo Rey 
Domjoao humapequena Univerfidade com Lentes de 
Humanidades , Artes , e Theologia \ para -etfeito de > 
aprendsrem alii eftas faculdades o Senhor Dom Busr- 
te feu filho,e o Senhor Dom* Antonio filho do In- 
fante Dom Luiz, crendo , ecommuita raza5 * que da 
lanta companhia , e converfa<^a6 dos Padres torrtaria 
muito a tenra idade daquelles Principes : os quaes trou- 
xerao o hahito ieis annos fendo pequenos, e de man. 
dado d'.^lRey ajudavao asMiffas, cferviao no Refei- 
torio. Demaneira, que alem das Univerfidadesdasje- 
tras , que alii tiverao , a communicaqao dos Religio- 
ios foytambem para elles efcolla de iantos coftumes. 

Tem 






Farias flniipuidades 



Tetrare, p. 

Sonet, to. 



izt 

Tern Guimaraens huma formula , e alegre vifta net 
te Mofteiro da Rainha , e juntamente na (erra, onde 
efta pofto, cujos arvoredos corn feus verdes claros, e 
e eicuros graciofos nao iomente deleitao aos olhos, 
i. mas, como dizFrancitco Petrarcha de outro lugar ii- 
niiltiante, 

Levan di terra at del noftro intelhtto. 

*5 Patece , que quiz a Rainha concorrer com El- 
Rey leu marido para tambem honrar efta fua Patriae 
Ambos for?6 virtuofos , devotos , ezelofos da honra 
da Deos, ede (eus Santos. Teftimunhaheefte Mofteiro 
da Cofta , o de Le<ja , Sao Pedro Rates , eoutraslgre- 
jas , que ella fez. E ElRey feu marido fez a Collegia-* 
da deGuirnaraeas , Santa CruZ de Coimbra , o Moftei- 
ro de Alcobaqa. Em Lisboa Sao Vicente de fora, e fe2 
em parte a Se da meima Cidade , onde eftao asprecioa 
fas reliquias do Martyr Sao Vicente. Tomou ElRey D* 
Affonfo Henriques aos Mouros Lisboa * e pela ter bem 
guardada, meteo-lhe dentro o prefidio deleu fagrado 
corpo , que os naturaes de Lisboa trouxerao do Algar- 
ve, por lhe dar nelle hum grande defenfor , e Padroei- 
ro ; que fe Decs nao guarda a Cidade por fi ,ou por feus 
Santos , de balde trabalha quern a guarda. Fey efta 
trasladaqao muito notavel , mas os Authores foraftei- 
ros , que fallao defte Santo , como eftao de longe , pa- 
rece, que o nao conhecem , e quando muito querem, 
que fej.i outro , e nao o que nos fabemos, que he; e 
pois elles fdla6 como forafteiros , fallemos nos com$ 
naturaes * e lera logo no Capituio feguinte. 



D<? Tortugdl. Cap. XXV 1. 129 






CAPITULO XXVI. 

apologia , ou defenfao das reliquias do Martyr Sai 
, Vicente Aragonez , que eft ao na Igreja Cathe- 
dra! de Lishoa , e nab em Franco, , tomo « 
aiguns dizem , prinfyalmentc 
Villegas. 

1 /"""\ ^ art y r Sa6 Vicente Aragonez de na^aS* 
1 J he tao infigne, pela gloriofa vitoria de 
■ r ^ feu martyrio , que com grande caufa 
Hetpanha ie honra delle, como Judea de Santo Efte- 
vao, e Italia deSa6 Lourenco, pofto que nefte ultimo 
ie Italia tern martyrio , Hefpanha tem a natureza e 
ambas eftas coufas no primesro. Celebrarad' os louvo- 
res, etriunfo de Sao Vicente alem de Santo AgoftL w. m V,j 
nfco, e Sao Bernardo , muitos outros Efcritores e M.**rtj*. 
particularmente oscantou em feus verfos o Poeta P*ru> Rema,tlt i 
dencio. E ieoscorpos dos dous primeiros coubera5 a 5 """" v . 
Koma.como por excel! encia, o de Sao Vicente coube %LT - 
aUsboa, oqual ella polTue , como thefouro precic f*%7. *, aj 
fiffimo, e de mayor eftima , que quantos Ihe trazem 
do Onente , porque eftes da ella, e communica a to- 
dos , mas aquelle a ninguem. Nem he ifto coufa nova 
naquella Real Cidade , mas antiquiflima > em que na6 
pode fazer duvida a duvida de quern mal o confide- 

10 Ua ■ - : 

£££„ K Ep a a ^ ue T dac l. ui tomemos principio, ta6re- 
cebido he eftar na Igre,a Calhedral de Lisboa ocorpo 
defte glono o Santo , que querer duvidar nilto he buf- * u * 

t^t:::7^j°t, dizia ^^^ ^ %&.u 

^ainda q«e a antig U ,dade por fi mere<;a credito , co-^x.i.$.. 
mo verdade fabrda , donde veyo , fegundo affirms Phi- <• " *• 
lippo Beroaldo, a fer chamada dos Poetas veneran- *T«-«- «, 
daicqmtudoquandoella he bem fundada , bem (e do- lT um k f ' 
<te tirar a campo dedifputa , porque nelle?Tomo P o^ f ^ £ 

& ouro 



150 Fatiitf jftiiiguida'ief 

ouro no fogo , fe apura mais, t, para que ifto fe pofla 
melhor \\i\gix * vamopqs a Valen^a ■> onde efte Santo 
foy iepultado depois d« feu martyrio , como todos 
concordao , e inquiramos quem da hi o levou , e pot 
ende. 

• $ AMqnlo de Villtgas na vk& defte Santo reFare, 
que rajnando, em Kartfa CaroJq iCaWo , filho de Lu- 
dovico I , Imperador no anno deSjj, Aqdal'do Mon- 
ge de hum" Mofteiro de GaCconha em Franqa por cer- 
ta revelaqao feita a outroMorige, veyo a Valenqa de 
Aragao bufcar o corpo do Martyr Sao Vicente, onde 
fcomando por guia hum Mouro eftala>adeiro> qua pa- 
ra iflopeitou, foy da noits a huma lgreja Srruinada 
pelos Mouros , e entre os ediiicios cahidos appareceo 
o fepulchro do Santo com letras , que o declaravao. O 
qual aberto , meteo o corpo em hum facco , e voltando 
com elk para Franca , foy-lhe tornado em (Jarsgoqa 
pelo Bifpordaquella Gydade i de maneira, que fe foy 
fern eile. MaS deuoii ehni a oito annos to nando com 
cartas de favor tf&lRey de Cordova , foy-lhe entregue 
ocorpo , com o qual feioy para o feu Mofteiro de Vi« 
la de Caftro da Diocefi Albienfe em Guiana , onde f ef- 
plandece cortvmilagresv 

4 Tudo ifto refers raais diffufamente AJionlo d« 

Viljegas, e o conficma eomoBreViario Valentino i e 

com Amonio M jnge , em hum livro da vida, etrasla- 

dacaa defte Saato; com Hannonio j ou Aymonio no 

livro J. cap. 2. dos feitos dos Francezes ; com Platina 

na vi A a de Joao VIII \ com o Doutor Antonio Beutet 

na Chronica de Aragaolib. i * cap. 2* \ com Sao Vicen* 

te Ferrer , que diz venerallo por tal, acharido-(e em 

Franqa; e com a Cidade de Vaiencja ter feito por ve- 

zes diligencias por haver efte corpo. E tern Villegas 

efta opiniao por mais certa , que a de Refende , e 

Morales , que dizem ler levado de Valenqa por mar , 

ao eabo de S*S Vicente, e dalli a Usboa, ondedizem 

eftar. Ate aqui he de Ville^as. 

7 Mas priueiro que pafle adiante, digo , que 
nao fey como o& VaJentiaos podem-cret oacimadito 










De T-wtugaL Cap. XX ft I. f 1 1 

fern outra mais cUra prcva, que a preterite; a jquala 

roeu parecer hebem efcura : porque o furto foy feitc$ ! 

por Monge forafteiro , fegundo elles dizem t e foy 

feito denoite, e de noire ieleo o letreiro da fepultu- 

ra. O que tudo , na6 fendo muito para crer , elles o 

puzerao em feu Breviario , e o cantao em iua Igreja. 

A!em difto nao heeredivel> que os 'Valentino's anti? 

gos cahiftem emerrotafi graride, eimpkdade tao no- 

tayel. Ha via de entrar em Hefpanha o cruel , e pode. vumtGahaB 

rofo Mouro Abderamen,,e havia de aflolar tudo , enachron. 

queimar quantas reliquias de Santos pudeflem haver , JMRey Dem 

e os Chriitaos', que as pofluiao , haviao de fugir com el- A tf«*t 9 Bt ^ 

las pelas Valvar para onde lhes parecefie mais (egufo, ^/li x ^ ud 

e to 6s Valentinos , que tinhao as do mais in%ne Mwd. iio. 

Martyr , que havia em Hefpanha , nao haviao de fazer o e. 8. $. 14. i* 

metmo? & em toda aquella Cidade faltaria hum ho- h 'fi- £"»"*/• 

mem zelofo , e devoto , que o fizefie f Nao ie pode 

crer ifto ; principalmente, que ate emGentios houve 

efte genero depiedade, em refpeito de fuas fupeifti- 

qoens. ' _ _ '■'. . 

6 Se he verdade o que Virgilio conta de Eneas, Vhg.&n. z: 
el!e procurou muito particularmente de falvar da del ..fffe'jitfm 
truicaS de Troya os ieus DeofeS Permes , dizendo a 
feu pay Anchifes : Tu x gemtor y cape facta mann , pitrioftjuc 
Penates. O mefmo fizerao os Rorranos , quahdo cs Ga3- 
losSonone* forao fobre Roma \ do que he Author JU ihiusl $.<& 
to Livio. E fe ifto ieachou em gente idolatra , come uibtcmdna. 
ie nao acharia em gente Catholica por fe , e adoracao Va J«""^« s f 
doverdadeiro Deos ? Fugirao os Ebnrenies pela terra "T*'* "*' 
dentro com o corpo de Sao Mancio feu pa'rono j os vTetasi* 
Emeritenies com o de Santa Eulalia ; os Sevilhanos *uuu: 
com a Imagem de Nofla Senhora , que hoje chamaode **"<*'" »* 
Guadelupe ; os Toledanoscom o de Santa Leucadia, e t^f'?' 
cutras Reliquias ■ osde Acci, aquechamao, Guadiz, J/LS," 
Cidade do Reyno de Granada , com ode Sao To. qua. ^frustomi. 
to. E16 os Valentinos nao tedao" maiscuidado, que M "*.<»»• 
defi , edeixaviao em poder de Infieis o frgrado corpo &«■'** 7 1 *- 
do leu protedor Sao Vicente i de cujosmHagres, ebe- f£ 
neficios havia mais de quatrocentos annos , que £o%£ * 

R ii vao # 



V arias Antiguidaclej 




132 

vao, para que vieffeimmGaicao deFranqa , e FzeiTe 
o que nenhum delles quiz fazer? Perdoem-me os Valen. 
tinos modernos, que a razao , aobrigagao, e a Chrif. 
tandade nao ^deixao crer de feus antepaflados o que 
elles crem. 

GAPITULO XXVII. 

Cotno j e quando o Martyr Sao Vicente Aragonezfoj 
trazido ao cabo do Algarve chamado de Sao Vi- 
cente , e depots para Lisboa t 

Asdeixando argumentos de razao , ve- 
nhamosaosdeauthoridade, e nao trate- 
mos fur to de Frade^ forafteiro , nem le- 
treiro lido de noite , mas claro teftimunho, nao dehu- 
ma, mas de muitas pefloas forafteiras , mas naturae* 
-da me(ma Cidade de Valenca , e outros fundamentos, 
que adiante ie yerao. Foy pois o cafo da maneira (e- 
guinte. 

a Reynando em PortugaJLJDom Aftonfo Henri- 

ques, eyindo elle do campo de Ourique ( onde ven- 

ceo em batalha aElRey Ifmar com mais quatro Reys 

Mouros ) para a Cidade de Coimbra , Sao Theotoneo 

ofoy receber aocaminho : o qual vendo entre osca- 

tivos.alguns , que diziao ler Chriftaos chamados MuJ 

Vrftustom* I ' zaraDes ( hoc eft mixtos Ambibus juxta V*(<wm ) pedio 

<»«• 177. $.4'. a EIR-ey , que os mandafle foitar. E ElRey mandan- 

Rofendhs Mw do-os vir ante fi , perguntoulhes quern era6, ou dondj 

zarah*$ reef*, exso : ao que elles refpondtra6, que erao Valentinos 

hoc tji /"^wdenacao, e moradores naquelle cabo do Algarve , que 

f wAnb™** n > * ahe ao m3r ' e ^ UQ ^ eus antepaflados fugirao de Va- 
Epif. tfd jcJ! len^a com o corpo do (agrado Matyr Sao Vicente, 
hdtum. por medo de Abderamen , que vinha contra el la , e 
que ie apofentarao naquelle cabo , e nelle edificarao 
humas pobres caias junto de huma Ermida , onde guar- 
davao o corpo do Santo Martyr. E que alii elliverao 
ate que hum Mouro poderofo andando a caja veyo 



r De ( PortugalCap.XXVlL 133 

fer aquella parte , e matou ieus pays , e a elles iendo 
mocos levou cativos. E que lhedavao por final defer 
ifto certo, as cafas, fe ainda permaneceflem > cu pe- 
lo menos os corvos , que familiarmente frequentavao 
aquella Ermida defde o tempo, que o Beatiffimo Mar- 
tyr alii aportou: donde nalceo , que .os Mouros cha- 
mavao aquelle cabo , monte dos corvos. 
j 5 EIRey ouvindo ifto , e defejofo de achar o 
corpo do Santo Martyr , fez tregoas com os M^ uros 
por alguns dias , e indo la achou ja o fitio daquelle 
lugar tao mudado , e disfigutado , quefetornou fern 
fazer nada» Mas conquiftados depois os Mouros , e 
tomada Lisboa-, defejou. fummamente de achar o San- 
to corpo , e a effaconta edificou hum Mofteiro de 
Conegos de Santo Agoftingo , que dedicou a Sao Vi- 
cente. Finalmente no anno vinte e feis depois de to- 
mada Lisboa j pedindolhe Allibo Jaacob Rey de Se- 
( vilha tregoas por cinco annos , concedeo^lhas (6 por 
efte refpeito , emandou aquelle cabo defpejado ja 
de Mouros i gente de armas em huma nao, e cornel* 
Ja daquelles Muzarabes os mais velhos * que melhor 
fe lembraflem dos lugares. Chegados la , e fazendo 
oracao a NofTo Senhor, pelo indicio dos corvos acha- 
rao os veftigios das cafinhas , e Ermida t e cavando 
alii defcobrirao hum ataiide de pao , em que eftava 
o iagrado corpo debaixo do Altar da Ermida. 

4 Aconteeeo , que hum daquelles homens quan- 
do defenterraiao o ataude efcondeo hum pequeno of- 
■fo, e cahio cego, e fora de fi, ate que o tirou do 
ieyo,^ e o reftituio. Depois que o Corpo foy pofto na 
.Nao, dous corvos, como dous fsmiliares do Santo, fe 
puzerao" nella , hum na proa , outro na poupa , e fem- 
pre forao 'acompanhsndo as fantas Keliquias de feu 
Patrono. Finalmente aportaraS em Lisboa , junto da 
Igreja de Santa Jufta , e Rufina, aonde ainda agora 
efH huma porta, que chamsfi de S, Vicente, porque 
ate alii chegava enta5 o mar. 

f Depois em o filencio da noite, por evitar tu* 
piuito, levarao o Corpo a Igreja de Santa Jufta, e 

como 



T34 Farias Jntiguidadts . I! 






I 



comof >y manhad t txtendeudcr-iea Lma, concorreo all! 
o povo da Cidade , dizendo huns , que o puzeflem 
em S.Vicente de Fora , outros na Se, e por pouco, 
que nao vierao as armasi ao que acudio O. Gonfalo 
Viegas, Adiantado mor da Cavallaria d'ElRey, e fe2 
cellar o alvoroco com dizer : Que fe.devia efperar ate 
KIRey o iaber, e pr<>ver niflo. Mas D. Roberto, Deao 
daSe, foy lecretamente a Dom Moniz, Prior de San- 
ta Jufta, e rog ulhe muito lhe defle o Santo Corp3 
para o por na Se , por ier a Igreja principal ; e elle 
houve por bem de lho dar , e entao o Gabido , e to- 
da a ClareuVforao por elle, e o levarao em Procif- 
fao, em que foy toda a Cidade, e em 15*. de Setem- 
bro do anno do Senhor 1 173, foy polio na Se, aou« 
de hora jaz. EIRey (endo avuado do feito , h >uveo af- 
fin por bem ; e por memoria deu a Cidade por arrnas 
huma Nao , que tr z a Imagem de S. Vicente junta 
ao maifco, e dous corvos, hum na proa, e outro na 
popa, e quiz, que o Cabo dalli em diante fe cha- 
mafTe de S. Vicente. 

6 O acima dito conrao os Annaes publicos de- 
fte Reyno, e a Hifloria c'KlRey D. Affonfo Henri- 
ques , nao fomente a compofta , ou abbreviada pot 
Vuartt Gah. LJuarte Galvao , mas a Latina antiga , ainda que rude, 
c 19. io. 47. do tempo defte mefmo Rey , que fe conferva no Vlo- 
«V*i/ f a ^ tro ^ e Santa Cruz de Coimbra. O melmo diz a tra- 
ad IKtbedium di$ao conftantiflima da Cidade de Lisboa , que antiga- 
mente o vio com (eus olhos. Do mefmo he publico, 
e incanfavel pregoeiro o Cabo de entao para ca, ce- 
lebrado por fama , e nome de S. Vicente. Teftificad> 
jfto mefmo as moedas , que aJguns Reys depois man- 
darao bafer com a? Arma* Reaes de huma parte , e da 
outra a I-na^em de S. Vicente, com huma palma em 
huma ma 1. em fignificaq>6 da vitoria , queelle alcani 
qou com feu martyio , e na outra huma Nao, em me- 
moria daquella , em que elle foy trazido a efre R~y- 
no. No que parece quizes/") imitar aos antigds Ro- 
manos. , os quaes nara moftrar , que Saturno viefa a 
Italia em tempo d'ElRey Jano , mandatao bater moe* 

da, 



De 9onngal Cap. XXPIL 13$ 

Ha, que tioha de huma parte a imagem dejano, <\ue i*£tdntJib.K 
erao dous ro&ros, e da outra a Nao, em que Saturno 0a P- '''*• 
veyo , fegundo o refere Laclancio no primeiro dss *"*?' J*! *' 
Divinas Inftituiqoens, e Boccaccio na Genealogia dos 
Deofes dos Gen tics, das quaes moedas nos temos hu- 
ma de prata. 

7 Canta ifto mefmo a Igreja Ulisbonenfe no Of- Bw.UHxWni 
ficio proprio da Traslada<*ao defte Santo de Valenqa die 5 Sctemk 
para o Cabo , e do Cabo para Lisboa j a qual , fegun* 

do o dito Officio, foy approvada com muitos nrila* < 
gres. O mefmo diz o Breviario Bracarenfe em outro Brev»BracUfi 
Officio propria, que aquefla Igreja canta da Traslada 4»^«» l0 > 
^ao de algumas Reliquias defte Santo de Lisboa para 
Braga, as quaes ElRey D. AfTonfo Henrique? deu a 
Godino Arcebifpo , que entao era daquella Cidade j 
e fe conta hum milagre, que entao aconteceo. Affir- 
ina o mefmo o Marty rologio dos Santos de Portugal, 
ou cnjbs- Corpos eftao em Portugal j'compcfto pelos- 
Padres da Companhia de JESUS, e \teja-fe nao fo- 
ments o diada Fefta defte Santo , que he a n de Ja- 
neiro j mas tambem o da TrasladaqaS do Cabo para 
Lisboa , que he a if de Setembro. Do' mefmo pare- 1^** #»» e 
cer he Duarte Nunes na Hiftoria d'ElRey D. Affonfo>/.34»««M' 
Henriques, 

8 Ifto mefmo affirma o Dbutor Andre de Refen- 
de, varao doutiffimo em todo o genero de difciplinas, 
e grande inveftigador de coufas antigas, em hum li^ 
vro, que compoz em verfo Heroico do Martyrio, e 
Trasladaqao defte Santo , e na Epiftola a Barthelo- 
meo Kebedo, Conego de Toledo ; e Dam iaode Goes 
na Defcrip<ja6 de Lisboa na5 longe do princjpio. Tarn* 
bem o ekreve Eftevso deGaribay no CompendioHi- 
ftorial livro 54, cap. 14. A mefma opirriao tern Ambro- 
lio de Morales, Chronifta d'ElR-y Filippe Segundo, 
Ha Chronica gera de Hefpanha lib* 10 > can. 8. A mei- 
ma tern o Meftre Vafeo no feu primeiro Tomo , anno 
757, onde diz , queaqnelle Cabo ,onde S. Vicente el-* 
teve* fechamou ant : gamente t Promontorio facra , pox 
yentura com prefagio do que havia de icr, e que ago^ 

ara 



I j 6 VayUs Antiguidades 

mnan.nnnixz fe chama de S.Vicente. A melma tern 6 Padre Joa5 

flor. de Hejpt, de Mariana na fua Hiftoria de Hdpanha , e a prova 

it c vi com teftimun h° de Rafes , Chronifta Mouro. Do mef- 

Baron. in Epit. mo parecer he o Gardeal Baronto, o qual elcreve, 

Gabr, Bifcioi. que fendo Valenqa Cidade da ProvindaTarraconenie, 

mnno cbrtfii deftruida pelos Mouros , os Chriftaos tirara6 deila os 

7 * r * fagrados olios do Martyr S Vicente , e os levarao pa- 

ra a ultima parte de Lufitania , Iugar , que depois foy 

chamado Gabo de S. Vicente. E foy ifto, legundo 

elle.no anno de Chrifto 761. 

9 O Author das Addicoens de Sigeberto diz i 
Apud sk*b faW* Henrico Rey de Ingla terra com leu faber, e ri- 
<:w quezas grangeou huma irmaa d*ElRey de Portugal 

para mulher do Con.de de Flandres feu parente, e diz, 
que foy efta fenhora para feu marido rica de ouro, e? 
prata. Djz mais , que feu pay della fendo mancebo> 
tomou Lisboa aos Mouros ajudada dos Inglezes , e 
Normanos , e que trasladou de Valenqa para Lisboa 
o Corpo do Levita, e Martyr S. Vicente. Efte Autoc 
efcreveo ifto em vida d'ElReyD. Affonfo Henriques, 
pay dafta Infante , como elle fignirlcou neftas pala- 
vris: Hhjhs pater, licet gran davtts % adhuc vivit. E poc 
iffo he de muita authoridade para fe crer , que o fan- 
to Corpo, que foy trazido a Lisboa, hedeS. Vicen^ 
te Martyr de Valenqa: com o qual concordao noflas 
Chronica* ate no tempo daquelle cafamento , porque 
o poem no anno 1 184, pofto que o Autor fe enganou 
em dizer * que .0 fanto Corpo foy trasladado de Va- 
lenqa para Lisboa * porque nao foy fenao do Algarve, 
como rlca dito. 

10 Nao deixarey o teftimunho do Mouro Rafes; 
Chronifta d'ElRey de Cordova, porque faz grande 
prova o dito do inimigo : e o que elle diz, referida 

Mfnde Vpill. P el ° ^ 0Ut01f Andre de Refende , e traduzido em Por- 
tat. tugez . he ofeguinte: „ AbJe»amen fez guerra aos 

„ Chriftaos, e nao houve Cidide :.; ou lugar forte,' 
„ que fe pudefle defender contra feu poder. Os nu> 
„radores das Cidades defamparando-as fogiao para os 
^mantes de Aiturias. Kite deftruio todas as Igre- 



litat 



MM 



T)e^onugalCap;XlVlI. %# 

„jas deHeipanha, que achou ainda inteiras, as quaes 
„eraS ffiuitas , e excellentemente fabricadas , tffim 
,< do tempo dosGregcs, comb dos Romanes, OsCor- 
,ipos daquelles, em que os Chriflacs crem , e que 
„ venerso , e chamaq Santos, tirades das, !^re}as,-fai. 
,,2ia^os queimar. Os Chriflacs vendo ifloy affim ccmo 
„cada hum podia, ccm eftes kes couias fugiao pa« 
j>ra os montes, e lugares feguros. FinaJmente as mais 
,5 das coufas, que em Heipanha havia venefadas-re» 
„ligiofamente , fegundo a f e dos Chrillaos forao 
j, leva das aos montes de Afturias. 

ii „Jndo elle a deftruir Valenca* cs mcrado- 
„res daquella Cidade tinhao alii o Corpo de htm ho- 
j,mem mprto, cujo nome era Vicente , o qual elles 
„ adoravao ccmo a Deos. E os que o tinhao cm feu po- 
„der perfuadiao ao vulgo, que fazia ver ceges fal* 
„lax mudos* e andar alejados, e aflim erganawo a 
„gente nefcia. E como fouberao da vinda de Abde- 
^famen, temendo,que efte engano fedefcobrifle fu« 

9i % U At ]eV JZ do C0IB ? go ? c «Podaquelle bemem. 
„ £ diile Ahboaces , hum bom Cavalleiro de Fez cue 
„andando elle hum dia com feus cempanheiros'a c a- 
,jca na cofta do Algarve no cabo do mente, que en- 
„tra no mar, achou alii o Cerpo dsquelle hemem 
j,com aquelles, que fugirao com elle de Valerca 
„ os quaes tinhao alii feitas -cafinhas, em que mora! 
„vao : e que matou aos horrens, e levcu os rre 
j,ninos cativos, e deixou alii o Corpo do hen em" 
Tudo ifto he de Rafes. O qual vem tanto a propeft- 
to para confirroaqao dos noffos Arnaes, eFkritore^ 
pelo Autor o dizer em leuvor dos feus, e vituperio 3 
dos noffos, que parece fena6 pede defejai: mais ne- 
lta materia, «j«i*» ik 




CAPP 



t38 Vto'w AntigmAadei 

CAPITULO XXVIII. 

R*l{onde~fe aos Authores da parte contraria , qm 
fazem a S % Ficmte em Fran$a\ 

i *Jk MT As refpondamos aos Authores da contra- 

*Uti9.ubifut l\/l ria °P inia6 * Primeiraraente Platinanao 

F ' X YAfaz cantr&nos, porque e*le no lugar ci. 

tadodiz o leguinte- : Sunt , qui Scum hujas ttmpotipus 
keati Vinccntii corpui tiPahntia cittrtons HtfpanU Civitate, 
a qteodam m uacho in pagum Alfaenfim uluntrtt Galls* 
deport*tum. Nas quaes patavras nao affirma coufa al- 
guma, iodiz, Sum, quiMcum* Authores ha, que di* 
zen, e nos dizemos ; Authores ha<, q»e na6 dizem; 
e o que dizem-, he rouito mais verdadefro. 
■BeutnaChroH. * ilQ Doutoit Beater -conta o Martyrio do Santo • 
Gtner. L i. c. e depois o furto do Frade ern Gafconha Mas tambem 
^5, diz., que os Portugueses dizem ter oCorpo defte San* 

to era Lisboa; porque da fegundavez, que foy larv- 
$ado no mar em Valei^a* dizem , que foy nadando 
ate o,Cabo de S. Vicente^ e dahi foy.levado a Lis- 
boa^ Nao fey fe o Bautjer nstfra nadadura- quiz zom- 
bar a nofla conta, ou fe aJgumPortuguefc quiz zorn-, 
bar delle em lhe periuadir efta patranha ta6 nova pa* 
ra nos. E com iflo ainda nefte higar na6 declara qual 
deltas duas opinioerts fe de*a ter. Mas antes em o 
rnefmo livro cap. %i, que Villeg s r>|p vio , quando 
chega ao tempo da Traslada<ja6 do Santos torna a re- 
ferir ambas as opinioerts 4 e diz., que nao he tempo 
de tratar qual dellas feja mais para crer. E quando 
taS leve fundamental como he o da nadadura, ba- 
ftou para fufpender a fentenca de Beuter, que fizera 
. fe vira , o que temos apontado. E note-fe de pafla- 
gem , que mal traz Villegas efte Author por fi , pois 
na5 he por elle , nem por n6s. 

3 E fe S. Vicente Ferrer achando-le em Franc, a 

Z vene* 



— 



7)e&ortugdl. Cap. XXIX, 1 39 

Venerou efte Santo por tal, nao me efpanto de crer t 
o quetodos alii criao, e diziao , do qua elle nao era 
exarriinador , nem ouvira coufa em contrario , porque 
em feu tempo ainda os Portuguezes nao efcreviao , 
contentando-fe com pofluir, o que em cafa tinhao, 
Mas nenhuraa duvida tenho, que, fendo-lbe propo- 
ftas noflas razoens , bem pouco cafo fizera do furto 
do Monge. K ie Villegas o ha, porque hum homom 
Santo venerou aquelle Corpo , na6 nos faltao tarn- 
bem Santos, que veneraraS o de S. Vicente de Lis,-' 
boa \ que forad Santo Antonio , e a Rsinha Santa Ifa- 
bel , a qual foy Aragoneza, da naqao do me fmo Santo* 

4 Nem deve fazer duvida a ninguem dizer Ville- 
gas , que a Cidade de Valenqa fez ia grandes dili- 
ft encias por haver o corpo , que o Monge levcu a 
Franca , porque he coufa digna de riio fazellas pelo 
haver, ef nao por faber de quern he: e fern iflo nao 
fey o que pedia , nem o que Ihe derao ; porque ie her 
verdade, que o Monge, Audaldo confiado na fe Puni- 
ca do Mcuro , fmtou hum corpo de Valenqa no anno 
de 857, reinando em Franca Cavolo Calvo , como diz 
Villegas * ja entao havia mais de cincoenta annos, que 
o Corpo de S. Vicente dahi era levado , porque os Va^ 
lentinos fogira6 com elle por medo de Abderamen, 
e Abderamen entrou em Hefpanha no anno do Se- 
nhor ( fegundo o ArcebKpo de Toledo allegado pelo^r,*. ran: 
Vafeo) de 760* em tem po 6?ElRey Froyla , e reinoi i*t«i v*ftu*i 
Abderamea trinta e tres annos , como diz o me(mo Um - r - * m$ 
Vafeo, de forte, que ja o Corpo de S. Vicente nao 757 ' 
eftava em Valenqa : e fe o furto do Frade nao he fa- 
bulofo , e elle levou o corpo , na6 fey de quern podef- 
fe fer 4 nem menos fey fela houve milagres , mis fe 
os houve, devem de fe attribuir £ mifericordii de Deos, 
que refpeita a f e , dos que a elle feencomenda6, in vm*g«hVd\ 
terpondo os fnericimenf os de feus Santos. Sey eu , «»*»• 
que houve efflGafconha quern difie, que aquelle cor- 
po devia de fer de algunvMouro, o que Deos nao 
permittiffe. 

$ Nem faltao exemplos Umilhantes em mate- 
- 5 11 tm 



■ 






1 40 FarUs Antiguidadcy 

Spt Jff'jf ta6 £»** Efcrev e Ssvero bulpicio na VHa de ft 
M-feMj* M^tinho,- que junto a Cidadeda Turon, em France 
no mn longs eitava hum fepukhro.de hum homem, que era tido 
•\into 9 . por Santo, e a gente hia aili fazer oracao. Defejou 
S. Marti nho de faber \ que Santo era , e pedindo a 
Noflb Senhori que Iho revslafte, appareceo-lhe hu- 
ma fombra horrenda, e feya, e difle-lhe feu nome, 
e afllm confeflou, que foy hum ladar8 jufticado por 
por fuas culpas, e que eltava ardendo no Inferno* 
Pelo que S. Martinho mandou logo desfazer hum al- 
tar , que alii eftava, e ceffou a honra , que fe dava 
ao falfo fanto. 

6 A Cidade de Ferrara* em Italia, ainda hoje efti- 
vera enganada com'o corpo de Hermano, que de to- 
da ella era honrado por fanto havia vinte annos , fe 
nao fora o Papa Bjnifacio, que fazendo de (ua vida 
diligentiflima inquiri^aoi achou fer herege dos.FratiJ 
cellos, e lhe mandou qUeimar os off^s. Authores lao 
defte iucceiToPlatina, e Sabellico. Das quaes coufas 
naodevemos denos e(pantar, porque sfitmxomo fem- 
pre houve no Mundo falfarios de moedas , finaes, 
fellos, drogasi medicinas, e coufas fimilhantes, al- 
to os houve tambem de virtude , e fantidade , com 
que enganaraS a muitos, para por efta via executa- 
lem feus illicitos appetites. Pelo que fe Franga , e Ita- 
lia. fo(Tem culpadas por cahir neftegenero de.engano, 
queira.NjtfoSenhor, que a nofla Hefpanha pofla em 
todo o tempo gloriar-fe do contrario. 
s 7 A Martyr, e Virgem Santa Engracia, e feus 
Qompanheiros, todos Portuguezes, dera5 motrvo a 
» v • ^Vicente Aragonez, para fer tambem Martyr, como 
uyZTdLm ^ ° Poeta Pr " d encio , e;pois ella, e elles repoufao 
& otio martyr .^St^ZPW* P atria de s * Vicente , e cabe^a de Ara- 
**?fm*ugup. gao : parece , que quiz elle vir repouiar em Lisboa , 
cabeqa de Portugal, para comfigopagar a efte Reyno 
a obrigaqao , .em que fua patria , e Reyno lhes efta- 
yaa Os t verfos de Prudence,, em que v aquilk> diz j 
lao os feguintes : 

y., 

t . Nivtmi 



k>. 



„ DeTortugaL Cap. XXIX. i+i 

Noverat Temph celebres in ifto 
OBies fart as , deciefque palmas % 
Laureis dcffui fatriis i eadem 
Laude cucttrrit. 

Hie & Encrati recubdnt tuarum 
0£a virtutum, &c. 

Aqui diz Prudentio, que S. Vicente he natural de XJa« 
*agoca. O Breviario Romano o faz de Ofca, A qual 
duvida desfaz o Breviario antigo de Evora, porque 
diz, queieu pay foy de Qaragoga, e fua may deOfca., , 

CAPITULO XXIX. 

Das Fundapens das Mofieiros de S. Francifco, e 

S.Domingos deGuimaraes: e de S. Gualter , 

e de S. Gonfalo de Amarante. 

S fk Pparecendo na terra os dous Celeftes lu- 
£% rnes jda Retigiao Oriftaa Sao Domingos , 
#f A. e Sao Francifco , que foy fendd Papa In- 
nocendo Terceiro , iegundo Platina , e Rey em Por- fki - ni hu 
tugal D. Sancho Primeiro defte nome , conforme aos»*«*. ui, 
noffos Annae?, de tal maneira encherao* eftes dous Pa- 
triarcas o Mundo com a.fama; e efpanto de fua San- 
tjdade, que em breve tempo ie cpmeqarao fuas Or- 
densde extender por toda a Chriftandade : de lorte, 
que diz Sabellico, que em (eu tempo havia vinte e 
huma Provincias da Ordem de Sao Domingos, e 4143 
Mofleiros. E quarenta Provincias de Sa5 Franciico, 
e tantos Mofteiros em numerOj que com difliculdade 
le podiao" contar, Morreo Sabellico anno do Senhor $,»/„* - j, 
1506^ como refere Francifco San Co vino na Chronica^c/wa. ann9 
que fez das coufas $le Veneza« _ Domm. i 5o *. 

2, Para 







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maraeits. 



142 P arias Antigmdades 

chronic* r?4 z Para fazer eftas iomma* concorreo tambem GaU 
Ordemde sa* marae ns com grande felicidade fua. Porque o Padre 
jTTxo' ' Sa ° Francilco mandou a efte Reytioa Frey Gualter, e 
ieu Companheiro, em tempo d EIRey de Portugal D, 
GM*««T'd! Aifonl ° Segundo, quje morreo no anno do Senhor 1124^ 
MoJfieti fui e . efte Rev p s mandou refidir em Guimaraens , e fa-* 
©,, ziao fua habitaqao em cima na ferra, aonda chamao 

confla dehum Y iIla Verde * «m huma pequena, e pobre cafinha. DjI- 
M^« , que\\ k paffatad para a Villa , e morarao em hum Hof- 
9C«bido m*»- pital junto aquelle fitio, aonde efta a torre velha. De« 
dou p6r a t/i* p \ s reinando EIRey D. Diniz na era de Ceiar 1318/ 

^uai^eflh no anno do ? ennor 1 2 9° » fe comecou de fazer o teRun* 
behind* do Mofteiro, e lanqou a primeira pedra delle D. Frey 
igreja d e Gui> Tello Arcebifpo de Braga, ao longo da parede daqueH 
le melmo Hofpital, folemnizando*(e aquelle ado, nad> 
fomente com a peflba do Arcebifpo , mas com as de 
P.Fernando, Bilpo de Tuy, D. Pedro Nunes, Prk>5 
de S. Torquato , e de outros homens graves. 

5 Efta Gafa foy mandada derribar pelo mefmo 
Rey D. Diniz, porque na guerrai que teve com p In- 
fante D. Affonfo feu filho , em que o Infante teve el- 
ta Villa cercada , que eftava por EIRey feu pay, de 
cima do Mofteiro, que eftava chegado ao muro » fa^ 
ziao os do Infante grande damno aos da Villa. E tfit- 
nou fe a edificar aonde hora efta de licenqa d'filRey 
, n Tefla n" D * J oa8 Prime,ro » dada em Braga em tres de Novem- 
'carHrio ie «fef° ^a era ^ '43^* anno do Senhor 1400; com con- 
Frantifco dt dica6 , que nao fofle mais chegado i Villa, do que 
Guimaraens. eftava o de SaoDomingos. Jaz nefte Mofteiro de Sao 
Francifco ao pe das efcadas do Altar mayor Dona Con«j 
ftanqa de Noronha , fegunda mulher de D. AfTbnfo Pri- 
meiro , Duque de Braganca » a qual viveo , e morreo 
com fama de fantidade, e de milagres. 
r*_ v,r a*. 4 Vindo ao Mofteiro de Sao Domingos, efta po« 

L.trro mot /!»• -. T • . « » o 1 

mverfunot do "° em memoria, que na era de I2o8,anno do Senhor 

Mofteiro dts. £170, reynando EIRey D. AfTbnfo , Conde de Bolo- 

Dumbos* nha em doze de Dezembro, em huma Sefta feira vie- 

raQ a efta Vilta^Frey Alvaro, Prior de Sa6 Domin^Of 

do Porto , Frey fiftevao Mendes , Frey Diogo de Fran? 

desj, 



r A carta 
Hce»f4 eft 



T>e Vortngal Cap. XXIX. 14} 

iffes , e Frey Eftevad de Tonda , por mandado da Or- 
<Jem a petiqao da meirna Villa, € ajuntando-le todos 
cs do Concelho na Igreja de San-Tiaeo , alii Ihes deu 
a Villa licence para edificarem o Molfeiro, dando mui- 
tos particulares para ifto de efmola aos Frades, cam. 
pes, cafas, e quintaes , e foy feito aonde hora he a 
porta da Villa, que vay para Sao Domingos, o qual 
foy tambem derribado, como foy o deSa§ Francifco, 
e pela meima caufa. Mas tornoule a edificar aonde 
boTa efta em tempo d'ElRey D. Affonfo Quarto, filho 
ci'iilRey D. Diniz , por cujo refpeito fora mandado 
derribar. Para efta fegunda edificaeao deu D. Louren- 
qo t Arcebifpo deBfaga, muito grcflas efmolas, com 
que fe fez a mayor parte da Igreja , Coro , e Sacri- 
ftia, e affim Dona Maria de Berredo, mulher de Ruy 
"Vaz Pereira, como diz bum letreiro, que efta na Ca* 
pella dos Pereiras no mefmo Mofteiro. Rftes fad" as 
t unda^oens do Mofteiro de Sao Domingos , nao tra- 
tando do Hofpital, onde eftes Religiofos moraraS quam 
do logo vierao a efta Villa. 

j Eftes dous Conventos illuftrao muito efta Vil- 
la no temporal , e tambem no efpiritual , per razao 
do bom exemplo, e fantidade dos Religiofos. E o Se- C ^„ A0 ^ 
f afico Padre Sao Francifco a quiz tambem honrar com dm /> j. /. 1* 
fua preienca, quando veyoa Hefpanha, e paflou por «• 4$. 
ella para San Tiago^ porque dizem.que fezaqui hum 
miiagre, que foy refufcitar huma defunta , filha do 
hoipede, que o agafajhou: em que parece quiz imi- *,£««, j,,. I7 ; 
tar ao Profeta Elias , quando refufcitou o iilho da Viu - 
va de Sarepta pelo beneficio do gaialhado, que della 
aecebeo. 

6 O Mofteiro de S. Francifco deu a- eflfa Villa o chre *° da0fi 
Santo Fiey Gualter, Difcipulo do mefmo Padre Sa6 mm *' l ' L k 
Francifco , que nella"fez grande fruto , porque exfir- 's.lZtitsr, p& 
pou vicios ^ plantou virtudes j reform ou coftumes , >«rv»c p/ 
milagres nao menores, que os cue fez depois da mox- u & lez «» 
te, dando faude aos enfermos com oleo,' que mana- *"""*' t or ; 
va de-fcufcpulchro. Cujofagrado Corpo efta no Mo- £™f Vi J fm 
iteito de S,Francifco de&a V/lia , e aatigamente quan- qut uas pants 

do Hm eft nume. 




' 



14+ V Arm JntlguiAades 

do os Frames fe paflarao para o Hoipital •> fico« c)T& 
no Oratorio de VilU Verde, o que deu motivo ao Ca- 
wEuZ. bido de Nofla Senhora > P ar a querer fazer hum furto, 
£«»./>. j ciA UQ er a trazello fecretamente para efta iua Igrejaj e 
tentandoo por obra , nao fe pode mover a iepultura 
do Santo. 

7 Querem fe muitas vezes os Santos rogados, 

. , porque affim cumpre para proveito noflo. Diz Nice- 

eSi'uc P horo ' We mandando o Imperador Theodofio , filho 

• ' * ,w Ade Arcadio, trazer o Corpo de S. Joao Chryfoftomo 

para Conftantinopla , nao fe pode nunca mover o 

feu fepulchro, do que iendo o Imperador aviiado, e 

/ entendendo a caufa , efcreveo huma carta ao Santo 

morto, como fe fora vivo, em que o rogou com pa. 

lavras'de grande humildade, que fe lhe defle : Rtd- 

de t6 ipfttm nobis , qu&fo ± redde. Sao palavras da carta t i 

a qual foy pofta fobre o Santo f pedindo-lhe todos 

os circunftantes , que fe deixaffe veneer dos rogos do 

Imperador.. E logo, como fe tivera alma, e vida, fe 

deixou levar , por virtude daquelle Senhor , em quern 

os mortos vivem, 

8 Pode fer, que fe o Cabido fizera alguma di«' 
ligencia delta qualidade com Sao Gualter , nao fo* 
rao fruftrados feus defejos. Mas ainda site cometimen^ 
to > que logo fe foube, nao foy inutil, porque com 
die parece , que quiz o Santo efpertar aos Frades t 
para lhes perfuadir melhor guarda do thefouro , que 
pofluiao , e aflim o recolherao logo com prefteza , e 
facilidade. Agora tern elle no Mofleiro de Sao Fran* 
cilco Capella propria t em cujo Altar eftaS fuas Reli- 
quias, em hum fepulchro de f6rma pyramidal comt 
efte letreiro : 

Gualteri Ugh hoc vtmrabilh effa [epulchruml 

9 O Mofteiro de S. Domingos criou efpirituaK 
mente ao milagrofo Sao Gonc,alo de Amarante , fe- 
gundo diz fua hiftoria , a oual'conta, que foy Ab* 
bade de S. Payo de riba de Vizella , e depois tomou 

o HU- 



mmm^mk 



T>eTortugal.Cap:XXX. 145 

o Habito de SaoDomingos nelte Mofteiro de Guinia- 
raens. Seu Santo Corpo eft£na Villa de Amarante em 
hum Mofteiro de feu nome , onde pelos muitos roi« 
lagresj que faz, he vifitado da gente de todas eftas 
partes por todoo tempo do anno. Nafceo^efte Santo, 
Yegundo a fama , ria Freguezia de Tagilde, huma le« 
goa defta Villa * e qustro de Amarante, em hum ca- 
ial, que chamso do Pago, propriedade da Igreja de 
Guimaraens j cuja fefta fe celebra em dezde Janeiro* 
lfto he , o que ie conta do Habito - f e profiflao de S, 
Gonqalo de Amarante, 

CAPITULO XXX. 

Do refpeitoj que eft a Igreja Collegiada de Gu'wa* 

raens teve com Sao Gonfalo de Amarante* 

E de Sao Frey Gonfato da Ordem de 

Sao Domtngos , dare em San* 

ttdade. 

1 O ° uco tem P° ha » 9 ue a Ordem de S. Beni 
r* to j e a de S. Domingos litigava6 fobre S. 
-*- Goncalo, pertendendo cada qual dellas fa- 
zelo feu. Multiplica6-fe tanto os Milagres defte pre- 
eiofo Santo , e a gloria de feu neme vpy com elles 
tao creicida , que mereceo , como outro porno de dif- 
cordia, ler cubicado daquellas duas Religioens para 
Frade de feu Habito. A qua! contenda era muito no- 
tavel, e digna de louvorj porque ambas queriao pre* 
valecer, huma por ganhar, e outra por nao perder a 
pofle de chamar feu ao famofo Relicario de feu 
fagrado Corpo , com que a Villa de Amarante de tem- 
po antiquiffimo fe orna, e formofea, Eu trago t3nto 
diante dos olhos, por obrigacaoj e affeicao, as cou- 
fas defta Collegiada Real , que nao devo callar hum 
refpeito, que ella teve antigamente com efteglorio« 
fo Santo. Entre as doaqoeas da fazenda do Cabido , 

T efta 



146 



Farias Antwuida&es 



tft* fat** efti hums do calal do Barral Cno no Termo de Braga, 

&fih xo Arc*- ' 

v<? , on carlo* 



>•***- que lhe foy dado por hum Gonqalo Dias, morador 
hlTa na VilIa de Chaves > ° qual-reyo a efta Villa de Gui- 
m &*cta i $ . maraens , e na Pra<ja della , em feu nome , e de lua 
mulher Maria Gil , por fervi^o de Deos , e faude d* 
iuas almas, e devo^ao de Santa Maria , lhe fezdoa- 
^aodo dito -calal, com ©brigacao, que o Cabido lhe 
tfiria cada anno huma Mifla officiada em dia de Sa5 
Goncalo por fuas almas. Fay feita efta doacao pot 
JoaoVafques, vaflallo d'iilRey, e feu Tabaliao pu- 
blico do Paqo, na Villa de Guimaraens, no anno do 
Senhor 1450, que ha duzentos annos menos Fetejem 
relpeito deite, queheo^de rail e feiscentos e vinte e 
tres. 

2 A hiftoria defte Santo, e juntamente atradi- 
qao antiga , dizem , que foy elle Abbade de S. Payo 
de riba de Vizella , e eu ouero (ufpeitar , que iendo 
Abbade, era juntamente Beneficiado defta Igreja de 
Guimaraens, porque a prerogativa de ella lhe cele- 
brar fua fefta^ e can tar fua Mifla em ^empo tao an« 
tigo , em que nao me.eonfta, que outra lho fizsfle, 
parece ler algum particular relpeito , que ella com el- 
•Je tinha , principal raente , que ainda entao nao era 
Beatific^do, nem o foy dalli a muttos annos afe o 
tempo d'ElRey DomSebaftiao, em que o Papa Pio 
Quarto a inftancia do ditoRey o Beatificou. Ja mo- 
ftrey a traz nos Gapitulos onze, e doze, que nos tem- 
pos d'ElRey D. Fernando de Lea6 , e primeiro Rey 
de dftella , e depois no do Conde D.Henrique; rs> 
N» jirthho fta Igreja havia Gierigos; e no d'ElRey D. Affonio 
defis igrej* na Henriques comeqou de ter Conegos , os quaes tendo 
gave* das pre ■■ . Bei\eficios , tambem tinhao Abbadias. O que fe 

Jetitafotns ejta ', , . ~ _>•»» • 

■buma de hum**? P e l° termo da notificacjao dos Eftatutos antigos 
Conefia , qui defta Igreja ,■ que anda no fim delles , feito na era 
fez Pnor d. 14^3 anno d G genhor 1405*, que ha mais de duzen- 
Dw£»^'* ,r *J» to* annos. Do qual termo confta. que o Prior Dio*»o 
ItTJtcr* * lv . res . Bi, P° q ue de P°is foy de Evora , e depois Ar- 
i44i, anno d« cebifpo de Li^boa , como diz Jeronymo Oforio noCa- 
tonkor 1405, . thalogo dos Bifpos de Eyora , mandcu notif car os 

~\ Efta- 



T>e Portugal Cap. XXX* i 47- 

Eftatutos a dezanove Benefkiados juntos em Cabido, 
e doze defies erao Abbades, e juntamente Conegos, 
que por feus nomes fao os.feguintes : ,, Vaico Mar*, 
,,tins, Abbade deAroes, Vafco Martins, Abbade da 
„ Caftanheira , Joao Gonqalves , Abbade de S. Rodri- 
„go, Joao Goncjalves, Abbade das Caldas , Affonfo 
„ Lourenqo , Abbade de Torrados , Gon^alo Pires, Ab- 
„bade de Airao , Pedro Affonfo, Abbade de Podo- 
j,me, Pedro Affonfo , Abbade de S. .Clemente, Joao* 
„Paes, Abbade da Ufe, Valco Paes, Abbade dos 
„Gemeos r Joa6 Affonfo, Abbade de Freitas, Pera 
„ Gonqalves , Abbade de Ribas , Conegos da dita 
„ Jgreja. Aflim procedeo o Tabaliao, intitulando-os 
primeiro Abbades, e depois Conegos. E da mefma 
maneira prefumo eu , que Sao Gonqalo foy chamado 
Abbade de Sao Payo de riba de Vizella, iem fe tra- 
tar , que foy Conego * por brevidade , e por nao fet 
neceflario, e tambem , porque eftas Conefias rendiao 
tao pouco , que mais calo fe fazia das Abbadia*. 

5 Faz por efta minha conje&ura t que nefta Igre- 
ja houve ja Altar de SaSGonqalo, do que nos aviiou 
hum Conego antigo , que o ouvioaos paflados. Alem 
ditto., ella lhe faz Officio Duplex de coftume ami- 
quiffimo j e todo o Conego, que vay em romaria a 
Sao Gonqalo de Amarante , que daqui fao cinco le-r 
goas, he contado como prefente por tres dias, e tc« 
dos os annos podem ir todos fe quizerem. As quaes 
coulas nao fe introduzirao de tempo immemorial iem 
slguma particular caufa , que he o refpeito, que di- 
go. Alem ditto, vir Gonqalo Dias de t>6 longe dat 
o ieu cafal , e com elle a obrigaqao da Mifla de Sao 
Gonqalo, Santo do feu nome, a efta Igreja, antes 
que a outra defta Villa , e defte Termo > tern myfterio. 
Noto mais naquella doaqaS do cafal do Barral , que 
o doador Gon^alo Dias , nao chama a Sao Gonqalo , 
Sao Frey Gonqalo, como chamao a Sao Frey Gil, Sao 
Frey Lourenqo Mendes, Sao Frey Pedro Gonial ves; 
modo , porque fao chamados os Frades Santos j antes 
de fer Canonizados. Mas deixando ifto, pelo que ff- 

T ii ca 



I f 3 Farias Antiguiddts 

ca dito , vou prefumindo , que Sao Gonqalo alguma 
cpufa foy defta Igreja. Diga o Leitor aqui feu pare- 
cer a cerca da que foy , que fe foy filho , nao foy 
menos 9 que o morgado. Alem de Sao Gonqalo de 
Amaraate faz mais o Mofteiro de Sao Domingos de 
Guimaraens Fra de feu ao Padre Sao Frey Gon^alo Va« 
rao excellence por coftumes, emilagres, o qual'mor- 
reo nefte mefmo Convento , pofto que na5 fe fabe 
onde jaz. Dos quaes dous Santos faz mencao o In- 
dex dos Confeflores da Ordem do Patriarca Sao Do- 
mingos , que anda no fim do feu Martyrologio , o 
qual Index tenho por moderno , e nao antigo. Do 
Padre Frey Lourenco Mendes da mefma Ordem, que 
floreceo nefta Villa , trataremos a diante com outra 
occafiao. 



CAPITULO XXXI. 

Do principio da ViUa de Amarante. 



Z*Z7i! : ' T7 Screve Frey Bernardo de Braga , que qua* 

preuJemia. f"i d0 os Keys antigamente lancavao os Mou- 

tntre Portugal* ■» J ros das terras i alguns earitativos em cer* 

tNqrits. Us paragens de eftradas correntes, faziao albergarias, 

ifto he alojamentos , eeftalagens para agazalho de paf- 

iageiros, os quaes fiti: s detal maneira iepovoavao, 

que vinhao aferlugaresgrandes. £os Reys favoreciatf 

com privilegios os authores deftas bemfeitorias, que 

aflim lheschamava6 , edepois corruptamentefevierpo" 

a chamar B^atrias, das quaes, as que hojelabemos,dlz 

aquelle Author, fao asfeguintes: Amtrtntt , Ovelh^ 

Cavavcz.es , G die got , 7ubiu y Afeijonfrio 9 VilU Mead , 

Cidadelh* , Pafos de Guayalat ; Gttovtigc , Britiandt , Var* 

Jea daferra , tCampo bemfeito. Ate aqui Frey Bernardo. 

Concorda a farna dosmoradores de Amarante, lamjada 

de huns em outros * a qual diz , que naquelle fitio nao 

havia mais no principio , que duas eftalagens \ que as 

quaes 



— 



2)e Portugal. Cap. XXXI. 149 

quaes erao defta Igreja de Guimaraens. E polio que \& 
hoje na6 iao efhlagens , fenao cafasordinarias, ainda 
Jao da mefma Igreja , e fe )he f aga por ellas renda de 
ditiheiro , edegallinhas , como fe pode ver nos livros 
da fazenda do Cabido , no titulo de Amarante , e co- 
Smeqa a dicao : €*fas am feus quintals , que fap eftsltgens, 
&c. Diz que fao eilalagens , porque a (Tim o diziao 
os iivros antigos , donde fe trasladara6 os modemos. 
O Bemaventurado Sao Gonqalo fez alii (ua Ermida jun- 
to da paffagem do rio Tamega , onde viveo , e mor- 
reo cheyo demilagres, vivo, emorto, ainda que ef- 
te lugar come^ou em Beauia, eu conjecluro, que a 
romage, e devo^ao dos fieis , que vifitavao a feufe- 
pulchro por feus muitos milagres, fora6 caufa daquel- 
la povoacao fedilatarj com que veyo afer Villa, co- 
-mo foy efta Villa de Guimaraens , porrazao..do Mof- 
teiro , de que atraz fallamos , e a Villa de Guadelupe 
por razao deoutro tal Mofteiro, onde a Virgem Nof- 
fa Senhora fa'zia , e faz muitos milagres ; e finalmen- 
te a povoaqao da S. Tiago novo por outros muitos, que 
na caia defte Santo Apoftolo fora6 feitos. 

2 Mas em que tempo o Santo fez aquella fua Er- 
mida na Freguefia de Sao Veriflimo, onde efteve por , ww ,, w ^ 
muitos annos fepultado ate Ihe ler feito a cjuelle Tern- *ke» f 4rao a 
plo , quehora he, no lugar da mefma Ermida peles^'i*^ 5 Ve- 
Prades deSao Domingos, que alcancarao adita lgxQ~ u fl imo f Jr 9 M 
ja , governando a Rainha Dona Catharina , eu o nao I5S '* 
fey ^ nem pude deieobrir certeza alguma difto. Pa- 
rece com tudo fer coula muy antiga # porque aquel- 
Je lugar pelos milagres do Santo adquirio tanta cele- 
bridade, que efcureceo odeSafi Veriflimo , e ficou fd- 
mente o de Sa5 Gonqalo ; em tanto , que os Abbades 
antigos daquella Igreja fevieraS a chamard^Sao Gon- 
qalo de Amarante, como feve em huma pedra de fe- 
pultura , que efta na Igreja Crllegiadade Guimaraens 
a porta » que vay para a Sacriftia , meya metida debai- 
xo do degrao da porta , na qual ie lem algumas letras 
de forma antiga, que ficarao defcubertas, edizema«f- 

A qiii 



1 5 & Farias Antigu idades 

Aqatjaz Pedr$ Affonfo TUiTTTf IIIIII & Gumartmt, 
e Abbade deSao ij on galeae Amur ante* 

3 E ifto, que jl era , quando fefez a iepultura , a 
dual reprelenta nao pequena antiguidade , devia vie 
de mais longe { como effeito de antigos milagres. Oar 
de note o Leitor, que fendo efte letreirotao antigo, 
nao he efte Santo chamado Sao Frey Gonqalo: ehe 
de crer , que naquelle tempo eftava ainda viva a m&i 
moria de quem elle foy. E com ifto concorda avoz 
commum de todo entre Douro » e Minho , e de todo 
efte Reyno , que ate hoje lhe nao ctoamou nunca Sa5 
Frey Gonqalo , como chama a outros Frades Santos 
defta Odem , fenao fimplezmente Sao Gonqalo de 
Amarante. Com ifto deixo a porta aberta para por ella 
entrar algum ingenho mais ditoio , a quem o tempo, 
e a Hca6 defcobrir mais nefte propofito em favor del- 
ta Igreja, 'que eu por ter mais cabedal defejo de 
preftar, que em materia para eicrever-, fico aquiquei- 
xando-me do filencio obftinado , em que os antigos 
deixara& as coufas defte Santo , nao baftando tantos, 
e tac frequentes milagres para os obrigar ao nao ter. 
Donde nafceo, que os Ereroitaenso fazem EremitaS, 
os Frades Frade , e osGlerigos Clerigo t em que fe ve 
ageral, e particular affeicao, e devoqao , que nuns, 
eouttos lhe tern* 



CAPfc 



CAPITULO XXXII. 

De SalJcrquato difcipttlo de SaoTi ago > Mayer. §Mt 

AsReliqmas dos Santos nab foment e apreveitao 

muito\ mas honrao as QdadeSj e Lyga* 

ra , em que efido % 

I /I Traz diflemos , que o Cabido antigo de 
< /\ Guimaraens trabalhou ppr furtar o cprpo 

A. %. de SaS Gualter, para o por nefta fya Igreja, 
pofto que foy de balde , por o Santo o nap confentif* 
como fica dito. Nao deixa com tudo de fer tao lou- 
vavel aquelle feu trabalho , quad alto t e excellent 
te era o furto, em que o empregava, Mas o que nifto 
ganhou, perde, a meu parecer , o Cabido prefenteno 
defculdo, em que efta acerca do eorpo do Bemaventura- 
doSio Torquato difcipulo de Sao Tiago Mavor$ que 
jaz no Mofteiro chamado vulgarmente Sao Torquade, 
diftaate huma pequena legoa defta Villa , o qual ha, 
mais de cem annos efta annexado a efta igreja , da qual 
foy ja antigamente , ate que EIRey Pom Affonfo 
Henriques. Iho tirou , e deu a Frades , como fica 
dito. 

2 Acbava-fe o Cabido antigo ta5 pobre de reli- 
quias defta forte , que trabalhava de furtar as'dos vifi- 
nhos : e o Cabido de agora tendo-as em cafa propria, 
mais de tanto prect> , que o podem dar a efta Igreja , 
Villa i e CSmarca, nao fe aproveita dellas. Mas aij- 
tes as <leixa eftar no campo em lugar pouco feguro, e 
e iem aquelle ornato , e venera^ao , que ta 6 grange 
Santo mereda. O que deu motivo a EIRey Dom Ma- 
nod para lhe efcrever huma carta, que efta no ar- 
chivo defta Igreja ,^ porque lhe mandou , que o trasla- 
dafle para a mefma Igreja de Guimaraens. 

3 Mas nem pela carta ie fez , o que fern el la fe 
houvera de f azer. Porque fe fe refpeita o bem das al- 

mas, 



• •■■ 



f 52 - Faridf dntlguidadei 

mas , nao frato coula mais convenieate , que ter eftt 

populoia Villa das portas a dentro o depofitq daquel- 

le iagrado corpo , para fe valer deile em ieus trabalhos, 

pois os corpos dos Santos na terra nao podem menos 

com Deos , que no Ceo as almas , como dizia Sao Gre^ 

Greg, in Ju gor^io Nazianzeno: Quorum i vel foU corpor* idem pofi 

tian.otat i. fnnt , quod aitlm*. Donde vinha ; que as Cidades , Vil- 

Zbeoij.<t<iGre&.[ dS§ e AWcas , fegundo refere Theodoreto , partiao 

affttt. curat. entre ft os cor p OS J os Santos Martyres , e nao ceffavao 

decontar os benerkios, que porelles recebiao, 

4 Dignos de grandes louvores (ao nefta parte 

os Antyochenfes ^ gente, na qualprimeiramentenafceo 

o nome Chriftao , como confta dos adtos dos Apoftolos, 

dos quaes efcreve Nicephoro Gallifto , que fendo le- 

vado o corpo de Sao Simea6 Stellita a lua Cidade de 

Antyochia em competencia de muitas outras, que con- 

tendiao iobreelle, olmperador Leao Magno lho pediq: 

ao qual elles mand^rao rogar , que lho nao tiraffe, di- 

zendo, que aquella fua Cidade nao tinhamuros, por- 

que lhecahiraS com hum graade terremoto , e que trou- 

xerao para ella aquelle iagrado corpo para lhe lervit 

demuro, e de vallo. As quaes palavras valerao tanto 

com o Imperador , qtoe deixando«fe veneer de (eus ro- 

gos, lho deixou. 

f E le da gloria humana, fe ha defazer alguma 
conta , que mayor inftrumento della , que ter hum pe- 
nhor, com que o Ceo feobriga, ehum tercetro pode«- 
rofo para bom deipacho de noflas petiqoens f Demais 
ditto as Reliquias dos Santos , que honra ao as Igrejas , 
como dizia Santo Agoftinho , honrao tambem as Cida- 
des; deque he teftimunha EdeflTa, daquaKonta Run*. 



Wcephto hifi 
cut. 1. 14. c. 



Augufl. in 
ferm. de tern 
pore, l$6. 



full use. ?. no 1 <1 ue eftava honrada com as Reliquias de Sao Tho* 
p/uJ. Hymno me. K o Poeta Prudencio chama rica a Cidade de Ro- 
inhomrtm ^- ma p e i as muitas Reliquias de .Santos,' que em fi ti- 
vUurmii, nha . 



ru 



De Torhgat Cap. XXXII. 



Fix fama not a eft ahditis 3 
Quam plena fanffts Roma fit 9 
Quam dives urbanum folum 
Sacris Jepulchris fioreat. 

6 Pelos quaes relpeitos he de crer , que Luyt- WeftesUft. 
prando Rey dos Longobardos procurou haver o cor po do P»»*.f.4- <*rfi 
glotioto Doutor Santo Agoftinho , para a fua Cidade 

de Pavia. O Catholico Dom Affonfo Henjriques prinvef- 
roRey de Portugal o do Martyr Sao Vicente psra Lis ■ Gah. »aCbr; 
boa. Dom Affonfo Rey de Napoles o de Sao Luiz 'Bif> *'*'*«> Dom 
po de Tolofa para Valeria. Dom Filippe iegurdo Key ^//••/• c -^°» 
de Heipanha o de Santo Eugenia Martyr para Toledo. ^*' Me ° s 0Tes m " 
E o praride Alexandre com fer Gentio o do Pic feta Je- * om ; x X $.c K %, 
remias para Alexandria do Egypto , que elle i\xu£Q\>v$uti*sn*s 
fcomo diz Sophronio , e Pedro no feu catalogs. . Sauosde H«f. 

7 Eieo exemplo defies Reys , que de Reynos P anha ia ^\ 
eftranhos houverao eftes thefouros, deve valer com-H fc £'*l£" 
nolco , como heiufto, que valha , mo fe tarde 'tfc}#£J$ toe*& 
na execuqao defta obra , pedindo ao glorioio Sao Tor. j. 4l c. i©^ 
quato , que haja porbem deixar o ermo , e virfe em- 

poflar defra Villa ; mas antes dos coraqoens defte po. 
vo , para delle ter a honra, que fe deve a fuas Santas 
-Reliquias. Porque quecapellas de flores felhe podem of- 
ferecerla,onde jaz, que i e comparem com asefpirituaes, 
e perpetuas coroas de oraqoens , mais formofa^ nos 
olhos de Deos por meyo de fua gra§a , que todas as 
roias de Hiericho ? Que danqas paftoris com a devo- 
qao , e quotidiana frequentaqaode feu fanto lepulchrr? 
Que rufticas, e mal compoftas com a doee melo^i i dos 
Pfalmos, dequefoy Author o Efpirito Santo? Com 
o? Hymnos , que Santo Ambrofio , Santo Hylario , o Ve- 
neravel Beda , e Prudencio compuzerao , fegundo Wa!- wdfr, it- 
fredo Strabo ? E rlnalmente com tudo omais , quQ Erebus wLc.t^ 
Igreia Santa a efte propofito tern ordenado. * s 9 

8 E p i que.a.enchente deltas couias me troux'a 
ate aqui, amelma meobriga moflrar quanto emmim. 

« for, 



154- V arias Antiguiddes 

for, quenaquelle Mofteiro \iU ocorpo deSao Torquay 
to, para que fique ifto (o.nente em dizello eu, pofto 
que dos antigos temos pouco mais nefte particular, 
que atradicao : nem cuido imaginarso elles , que os 
preientes, que hora fornos , houveflemos milter mais 
para prova deoterraos, que tello , evenerallo. Pelo 
que poita a tradiqao lancada de huns em outros , e pof- 
ta a antiguidade da caia do Santo , ultimamente Ihe 
abnremos as portas , para que quem duvidar entre, e 
veja. E emreiolu^ao apontaremos as razoens , que nos 
moverao a dizer , que efte Santo corpo he de Sao Tor- 
quato diicipulo de Sao Ti^ go Mayor j « primeiro que 
ludo , que foy elle dtfcipulo deite iagrado Apoftolo 

CAPITULO XXXIII. 

§ue Sao Tiago teve hunt difcipub entre outros cba- 

mado Tor quato. Se foy efte feu difcipub Judeo 

dena$ao, ou Hefpanhol? Se havta jaju* 

deos em Hefpanha , quando Sad Tiago 

veyo a ella, dondefoy Sao Tor qua- 

toBifpOy eonde morreo. 



A 



Ndando o Apoftolo Sao Tiago em Hefpa- 
nha , onde viera a pregar a Fe de Nofto 
Senhor JESU Chrifto, elegeo novedilci- 
pulos em Galiiza I dos quaes deixando dous pregando 
namefma Provincia , os fete levou comfigo a jerula- 
Eufeb. bifi.uM m ; * ftes depois defeu martyrio , quefegundo Eu- 
t. q. alias 8. ut febio foy no anno do Senhor 44 , trouxerao feu corpo 
refert Baro a Galiiza , donde tornando a Roma , e ordenados Bifpos 
w* sJȣS pc,M SantGS A P o( t ol os p edro , e Paulo, forao man- 
xnno Dm 44. dados a Hefpanha a pregar o fagrado Evangelho : o qua! 
officio elles fizerao com grande utilidade da na^a6 Hef- 
panh'ola, que por fuas pregaqoens recebeo o conheci- 
roemo , e fuave jugo da Ley de Deos. E finalmente def- 
caa^arao na paz do Senhor. Qiamavao-fe Torquato; 

Ctefi- 




dc Sad St gun' 

do I. I. ex. 
Bar^n. in note 



Ail.lJX 



*De Portugal Cap. XXX I II. 1 5-5 

Ctefiphonte, Secundo, Indalecio/Cecilro Hefychio $ 
Euphrafio. 

% Authores fao do acima dito o Breviario Braca* 
renie na Dominga Infra O&avam de Sa6 Tiago. O-Eho- 
renfe aos quinze.de Mayo. Vaieo tomo i , anno do 
Senhor $7. Morales lib. 9, cap. 7. O Breviario ftonw-Bw. Rot*. 
no reformado por mandado do Papa Clemente Q£ta- die a 4 ^y, 
vo , diz , que aquetles Santos ia6 do rumero dos dif- 
cipulos , que Sa6 Tiago converteo em Hefpanha. O 
Doutor Antonio Beuter tem , <)ue S26 Tiago m elegec Neuter. i» 
em (^aragoca, Cidade de Aragso. Antonio de Ciancscf> r . p.t.c. 15. 
refere os Breviarios de Avila, e Guadiz * e tn\}\tob c v* e **-* k 'fi* 
outros Authores em prova de ierem efles Santos Hel 
panhoes. w 

9 Maso CardealBaronio quer, que feja6judeo$; _ 

porque no tempo , em que Sa6 Tiago ve.yp a Hefpa- m a ti'd'iU$ 
nha,nao pregavao os Apoftolos fenao aos Judeos fomen- Juta. 
te,por nao ierainda entao abertaa porta da pregaqao dos 
Gentios, que ie-abrio depois que Sao Pecjro vio olen> 
<;ol dosanimaes, e Serpentes , e baptizou a Comelio 
Centurio Gentio. E fuppoem o Cardeal , queianaquel- 
le tempo ha via Judeos em Hefpanha , que he outra du- 
vida de per fi. 

4 Alguns Chroniftas Hefpanhoes , como Floriam - , 

deOcamoo , eGaribay , dizem, que Nabuco-donofor, ™ er 
Rey de Babylonia paflou de Africa em Hefpanha com 
hum exercito vitoriofode Perfas , Chaldeos , e Judeos, 
e que defta vez fic^rao os Judeos ca , que foy antes do 
Nafcimento de Noflo Senhor Jetu Chrilto , iegundoGa- 
ribay 607 annos. Garibay allegapara iftoa Jo(epho,ejo 
fepho allega a Megafthenes, o qual Megaflnenes , fegun* 
do o refere Jofeph , trabalha de provar, que Nabuco-do-- 3»Ie. ideJ». 
rsolor excedeo a Hercules na fortaleza , e grandeza dos ''*• ltl ?-* **• 
feitos, e que conquiftou Africa, e Hefpanha. Mascou- 
fa hedigna de rifo cornparar com Hercules a Nabuco- 
donofor homem incognito ato^as as nacoens, tiran- y 
do aos Judeos. E mais como efqueceo ao-Mundb efte ■'.. ... 

novo Hercules, ou mais que Hercules, e coma efque- 
ceo a iua loriga conquiila, quenaS ha memoiia della 

V ii aos 



111; 



Gtnhtiy 1. 5, 
4. do Cemf 



Saleli l n . a. 

I»/e£ di Prep. 
-Bv'ang. L9.C.4, 



Moral /. 9, e 
6.§. i. 



- 



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na!. tcm»i M an 

$. 140, & 
xtl. 

^d/ephus dt 
Anti%. /, 1 .. 
If. IJ. 



Bttjek. inChr, 



Lucas Afio2, 



*$6 Farias Jdipmdddef 

T e f Cri | w e l antigos ? PeI6 ** com muita razaS fe 
elpanta Sabellico Author de lingular juizo , como Jo- 
lephocreo ifcWQuanto mais, que Bufebio allega e f- 
te xnefmolugardeMegaftbenes.ediz, que Nabucodo- 
rioicr Gonquiltou toda a Africa, eAfia, e nao falla de 
Helpanha. E dado que viefie a ella \ nenhum deftes 
Amnores antigosdiz, que trouxefle comfigo Judeos 
como querem alguns medernos (em fundamento. 

f Tambem Ambrofio de Morales parece nao fa- 
zer cafo defta vinda dos Judeos com Nabuco-donofor 
porque vindoafallar fe no tempo deChrifto NoiloSe- 
nhor os ha via ja em Hefpanha , diz, que ,a os havia 
em Italia , e em Roma, e em todas as Provincias ricas 
do Impeno Romano , onde fe entretinhao em fuas ne« 
gociacoens, etrafegos. De modo , que efta vinda de 
Nabucodonofor a Hefpanha , e os Judeos comelle , he 
coufa muito incerta. 

6 E tornando ao propofito ,' pbfto que em Hefpa- 
nha podia haver Judeos , quando S. Tiago a ella v e yoj| 
pcrque os havia portodo o Mundo ,como otraz Baro* 
nio.de Philo Judeo , e o diz Jofeph , eu cuido » que os 
■mais daquelles feus difcipulos erao Gentios Heipa» 
nnoes , porque os nomes demuitos delles fao Roma- 
nes:, e na6 Hebreos , como Torquaws \ Ctciltus , Seem- 

'dust e fabidohe, que ;os Hefpanhoes tinhao ja toma- 
do dos Romarios a lingoa * e os coftumes com os ncmes, 
e outras coufas , o que os Judeos nao faziao , por ferem 
rnuito tenazesdetudo, <>quehe feu, como ainda hoje 
fao onde quer que vivem. 

7 E aoque dizoCardeal , que ainda naoeraaher- 
ta a porta da pregscao dos Gentios, ferelponde, que 
a pregaqao dos Gentios (eoccafionou na morte de San- 
to Eftevao, quando os Judeos martyriza'rao efte Santo, 
que foy fegundo Fufebio Cefarienie no anno trinta e 
quatro de NoiTo Senhor JESUChrifto , que he omef- 
mo , em que Chrifto padeceo. Foy alii a Igreja primei- 
ramente perfeguida, e diz Sao Lucas , que fedividirao 
tc dos os difcipulos pelas regioens dejudea, j e Sama- 
ria, tirandoosApoftolos, 

8 No 



*dam 



D* Tor tug ah Cap. XXXI 11. 1 5 7 

8 No anno trmta ecinco deChriilo Senhor hot- Bar« n inlpit. 
io foy S^6 Fiiippe Diacono a Samaria , e pregou a Fe^Vwk anno 
deChrifto aosSamaritanos: efallou-lhe hurri Anjo di- £fcr, #- i5« 
Kendo * que caminhaile contra o meyo dia pela elkada, ^ 
que hia de Jerufalem para Gaza, Cidade deferta , na ..'"■>! 
qual eftrada pregou , e baptizou ao Eunucho thefou- . « 
reiro deCandace Rainhade Ethyopia. Djpoisfoy pre- 

gando a todas as Cidades ate chegir a Cefarea , coma 
efcreve o mefmo Sao Lucas no lugar citado. Sabre e 
qual nota Caetano , que a fe fe accendeo enta6 aos 
Samaritanos, e Gentios , e que de huns , eoutros of- 
fereceo Sao Fiiippe as primicias a Decs. E NicephO' '. 
ro diz, que aquelle Eunucho da Rainha Cadacefoy as ^Jf^** '• ** " 
primicias dos Gentios, que crerso em Chrifto : e ac« ' *' 
crefcenta mais , que chegando elle a fua terra pregou 
a fe aos Ethyopes : Euiebjo affirma, que elle primeiro Bnfeb. hiji /. 
<te todos os Gentios recebeo a fe, e baptifmo de Sao Fi *■ c *• *«fi»t, 
Jippe, edepois foy pregar aos feus naturaes. Rcumu- ^" '" 
mo diz , que Sao Fiiippe o mandou pregar aos Ethyo-,. ^ 4 ^' v 
--pes. . T i 

9 Nefte mefmo tempo , e por caufa defta perfe- '- D/ ^ M 
guicap entendemos nos , que Sao Tiago paflou de Ju- Jco nt g j e °* 
dea a Italia acompanhando fua may Maria mulher d&Udes no t}at<a 
,Zebedeo , a qua! veyo tambem fugindo de Judea , e em d ° da ^nda it 
Jtalia na Cidade de Veruli morreo , fegundo memorias S H J r iag0 , a 
antigas da Igreja Verulana , que aliega o Cardeal Ba- 4 i. 4 * d )"' 
ronio nas notaqoens do Marty rologio Romano. E dalli que s.'tiZo 
veyo Sa6 Tiago a Hefpanha , e pregou aos Hefr a- ,,|f >« *"%]»*- 
nhoes Gentios , como Sao Fifippe fez ao Eunucho, nh * "<">»»<> & 
eo Eunucho aos feus natuaraes. E potto que BaroniopJ^^' ... 
diga , que elle Eunucho era profelyto , Euiebio Cefa- jJu.' " 
rienfe , Nicephoro, e Caetano dizem , que era Gen UeminEpii, 
tio ; e dado que elle fofle profelyto $ os feus naturaes, B> I eioi * a »w 
aos quaes elle logo foy pregar , erao Gentios, 3 * 

10 E tudo ifto foy antes deS^o Pedro vera vi» 
fao das Serpentes, a qual Sao Lucas efcreve depois no 
cap. 10. dos Aclos ; e Eufebio a efcreve tambem de- 
pois no cap. 5. do mefmo livro allegado, epeloconfe- 

guinte antes de fe determiflar pelos Apoltolos , .que fe . * ' 

pregai- 



" 



Lipoma*, in 
£$it» p. I* 



I s S Farias Antigmdades 

pregafte aos Gentios geralmente , a qual Generalldade 
precederao eftas elpecialidadss , deque (6 Deos fabeas 
caufas. K o que diz Sao Lucas, que os difcipulos te 
Baro». i» tot. dividirao , tirando os Ap >ftolos , entende o Cardeal Ba- 
MtrtyrJw ronio com efta diftinccjo, psla mayor parte. 
»>• n Davinda, e pregaqao de Sad Tiago em Hef- 

panha na5 fe pode duvidar, porque a cantao , e cele- 
brao muitas Igrejas Cathedraes de Hepanha ; comoi 
Bracarenfe, Eborenfe, Cefar-Auguftana, Granatenfe, 
Accitana, Abulenfe, e outras , alem de muttos Eicrt* 
tores, entre os quaes Santo Ifidoro, que florefceo ha 
perto de mil annos , fegundo Sao Braulio , dizclaramen- 
0#* ; »£w». te f que pregou Sao Tiago aeftas duasnacoens Ifraeli- 
ex Brauih i* tas » eHefpanhoes , entendendo os Ifraehtas por eft as 
fanehs Hi$A* palavras, Tribibttiy e aos Hefpanhoes pela de HeCpanha , 
•»*• e lugares Oceidentaes. As palavras de Santo Ifidoro, 

quetraz Upomano navida de Sao ^Tfago, fao asfeguin- 
tes: Tribubus , qua fttnt in difperfione gentium % at que Hi f- 
panU , & Occidcmalibtts locis Evtngel turn praaicavit. E af- 
fim nos parece , que os difcipulos , que Sao Tiago cotv 
verteo em Hefpanha, principalmenteSa6Torquato,fo^ 
rao Gentios Hefpanhoes , enao Judeos, como quer o 
Cardeal Baronio. 

ii Defies Santos oprimeiro, emais principal ,' 
de que tratamos , que he Sao Torquato , morreo em Ac- 
ci Cidade de Hefpanha , como diz o Martyrologio Ro- 
MAriyt* Jim. mano novo, neftas palavras fallando delle, e de feus com- 
die i$ M*»» panheiros : In Hifpani* diver lis locis quieverunt , Tor qua- 
tus Acci , &c, Outros muitos Authores o dizem , co- 
mo Ado no feu Martyrologio referido por Marullo , 
Vincencio Hiftorial citado pelo Doutor Beuter , os 
Breviarios Bracarenfe, e Eborenfe nas li^oens defies 
Santos , tiradas do livro do Papa Califto , Ambrofio de 
Morales, eoBifpo Equilino, e outros 

\\ Da Cidade Acci faz mencao Ptolomeo , no 

Epi/c. Eq.t.^, fegundo defua Geographia, eafitua emonze graos, 

**• e quarenta . ecincominutosdelongura : etrinta eoiro 

Ttohm.l.u g T 4 OSf e vinte minutos delargura, e fegundo efta fi* 

tua^ao calie agora no Reyno de Granada. A qual foy 

Cidade 



MarulL I. 6. 
c. it.dit. 
f<t.flaq\ Sanfl, 
Bmter p, I. 

Morales I. 9. 
H 



7>e TortngaL Cap. XXX HI. i $ ? * 

Gidadenobre, c Colon ia de Roma nos cbamada de P1U 

nio , Cohnia Accitana , e diz , que reipondia ao Con- *''"■ ™' lt 3 J 

vento , ou Chanteliaria deCarthagena. 

14 Ambroiio de Morales tern, que Sa6 Totqua^ Mcr altt lt ^ 
to, e feus companheiros , qua'ndo vierad de Roma,*, ij. j, 
entrarao em Hefpanha pela parte , que agora he Rey- 

iio de Granada, por huma Cidade chamada entao Ac- 
ci , e agora Guadiz. O Breviario Bracarenfe, eoDou- Bwv " 

tor Beuter dizem , que Acci i e chama agora Guadiz. O coc *' t rae ' * 
mefmo diz o Officio de Sao Segundo approvado pelo Bm C r loco tit. 
Papa Clemente VIII , no anno do Sen hor i£94 * o,ue 
traz Antonio deCianca no iim da hiftoria de Sa6 Se- 
gundo. 

15 Defta Cidade Acci, ou Guadiz , foy Sao Tor- 
quato Bifpo, como tefti flea o Meftre Vafeo nas P a ^ a "^p" w '*" 
vras feguintes : SanBus Torquatus Epifcopus AccitanmvuU anm m 44 ' 
go Guadiz., in Regno Granatenft, Antonio de Cianca em cieanc .^a ^ 
confirma$a6 difto refere t que Sa5 Torquato ficcu em s.segundol 11 
Guadiz , onde aquella Igreja Cathedral tern fua reza » ci*. 

e Officio particular do Bemaventurado Santo , como 
primeiro Bifpo defua Igreja , agora novamente orde- J 
nado 4 e confirmado pelo Papa Sixto V , no anno do 
Senhor 1590. O Officio deSa6 Segundo acima referido 
tambem diz , que Sao Torquato itcou por Bifpo de 
Acci. 

16 E a tradiqa6 difto efta ta6 aflentatfa na Cidai 
de Guadiz, que Dom Affonfo de Mofcolo, Bilpo dellaj 
procurou haver para aquella Igreja huma preciofa Re- > 
Jiquia deSao Torquato leu primeiro Bifpo , a qual al-, 
canc,ou doMofteirodeCellanova em Galliza com gran- 

des trabalhos , e contradiccoens , e gaflos , de que o k>u- 
va encarecidamente Frey Athanafio de Lobera no livro £'*^ 4W - A 
dasgrandezas deLeao. Ifto foy , porque efte Prelado ^* r, ** xo * 
achou aquelle Santo de Cellanova pofto em praca de 
hiftoria com titulo de primeiro Bifpo de Guadiz » e nao 
teve noticia de outro defte nomc, nem o noffo era 
ainda fahido do ermo por meyo da pena de algum 
Eicritor, que o fizefle conhecido. 

18 Defte gloriofo Santo feefcreve hum famo fo, 

eordi- 



* 160 Farias Jntigmdades 

e ordinarto mibgre , que he o feguinte ; Eflava huma 
chveira dtfronte da fort* dalgre] a da advocacad do Ham, 
na Ciaadc Act , p*/?a porfua mao , a qual tm iia def^feC. 
ta davafrntcT, cohU'fe 0U0 , qxefaz.it mttitos mia»res 
Q Author dehum iivro Gotico, que eita no CoiiVio 
de Santo Mdefonfo de Alcala de H mares, allegado por 
Morales , conta , que elle vio efte milagre , e o viao 
os Gentios comgrande admiracao. Do qual fazem men- 
'AAmi * a6 f Ad0 no Ma'tyrologio , e o Bifpo Pedro no feu ca, 
Maruiium e>thalogo, Morales, e Antonio deCianca,o qual accreH 
*iii,tosicita(ts.cQnta t que o conta o mefmo Officio -acima ditoda 
Igreja de Guadiz. Finalmente Sa6 Torquato morreoem 
Acci , enella foy fepultado', mas como foffe trazi- 
do aefta terra de Guimaraens fe dira no capitulo re- 
gulate. 

CAPITULO XXXIV. 

Como , e quandofoy trazido o corpo de Sao Torqua- 
to aefta terra de Guimaraens , e da antigm- 
dade doftu MoJU'tro , e que efte Santo eft a 
nelk fepuludo,, 



D 



Efcanqava feu Santo corpo em -A cci , af- 
(im como ode Santo Ejfrafio feu compaJ 
nheiro em Anduxar , onde foy Bifpo \ 
chamada dos Romanos Ehthnrgi : o de Sao Vicente Mar- 
tyr em Valencia ; o de Santo lldefonfo em Toledo j a 
Santa Imagem 6n No(Ta SeRhora de Guadeluppe em 
Sevilha ; e o deSao Mmcio em Evora Cidadede Por^ 
tugal. Mas quando os Mouros entraraS em Helpanha 
no anno do Senhor 714 s eprincipalmente quando ea- 
Vnfeuttow i. ttou oimpio , e cruel Abderamen , que ioy no anno 
annoD. 757. de 760 , pela conta do Arcebifpo de Toledo- allegado 



G J l J,» "* n hr ' ^ or ' Vafeo , o qual Abderamen tmndava ( 
jtffon/o Hear, corpos dos banros , aiguns Chnftaos devotos toma- 
( t 10. iao as R-liquias , que puderao , e com ellas fugirao con- 

tra 



< De t PortugudlCdp.XXXlV. 161 

tra eftas partes do Norte , e con forme a pretTa , que le* **/« *£»<* 
vava6 , alum asdeixavao ondemelhor Ihesparecia , z\ e % ld ' 6dJi 
alguns asenterravao em lugares sffmalados, cnde tt\y ^um. '* 
verao eicondidas em quanto per{eveiara6 as trevas da 
abominacao de Mafafnede. 

% Tornando depois a claiidade da luz Evange- 
lica por meyo do Infante Dcm Pe'layo , e dos Reys ieus 
fucceflores , que foraS lanqando os Mcurt s deftas par. 
tes , forao ellas apparecendo em diverfcs .lugares. O 
corpo do Martyr , e Apoftolo deEvora Sao Manciodiz 
o Doutor Reiende, que efta em huma Villa de terra de **/■«* w I 
Campos, chamada Villa Nova, huma legoa de Medina da Antiguia«> 
de Rio Secco , em huma Abbadia de Monges de Sao de de E y*S*& 
Beoto. A Imagem de Nofia Senhora achou-fe milagro. *£ ■ ] 
iamente enterrada junto do rio Guadalupe, e he ho- ^UrTg.'lit.de 
je das mais celebres por milagres , que ha naChiiftan- Kaffa stnbera 
dade. O corpo de Santo Ildefonfo , diz Villegas, que de Guadalupe. 
Urbano Arcebifpo de Toledo o levava para as Afturiss, Vl H ssmie f* 
mas que rlcou em Zamora. O deSao Vicente achou-fe-i'I^.^f; 



£/>»/• 



Fr. Antonio 



es na 
S.Ben* 



no Algarve no Cabo chamado do feu nome , e ho]e ef- m^ii. 
ta na Gidade de Lisboa, O de Santo Fufrafio em Galli Refen d 
za em hum afpero monte chamado Valdemao, cerca de "'• 
Sao Juliao de Samos, Mofteiro de Sao Bento. E o de 
Sao Torquato diz a tradi^ao antiga , que feachou junto Fr y' 
deGuimaraens perto do Mofteiro, onde horaefta, ao chL 
pe de hum monte junto de huma formofa fonte, por /*/>. 3 .*»w« 
huns lumes, que denoite fobre elle appareciao, onde c^/^759- 
feedifkou a Ermida , que ainda vemos , a que cha- c *^ 
mao Sao Torquade oVelho, donde o mudarao parao 
Mofteiro, que fe Ihe fez de fua advccscao. 

3 Quern edificou efte Mofteiro ao Gloriofo Sao 
Torquato, eu o nao pude achar , mas acho fer and- 
quiflimo, porque do inventario da fszenda do Moftei- 
10 da Gondefla Dona Mumadona confta, que El Rev Ra- 
nemiro o deu ao meimo Mofteiro da Gondefla. Devia 
fer efteRey Ranemiro o feu ccntemporaneo, e fobri- 
nho. E affim efteve ate o tempo c/EIRey Dom Affonfo 
Hennques, que odefmembrou, etornou adar abra- 
des, como a diante, le dira. 

X 4 De- 



~~ 



' 



162 ParUs Aniiguidadet 

4 Depois em diverfos tempos achamos memoria 
do Santo, como iecollige dealgumas palavras de doa- 
$oens, que pareceoeftao fazendoalJi. Ta'es fad asde 
que ufa EIRey Dom Fernando de Lea6 , e de Caltella 
na Carta do Privilegio , que eo.vcedeo ao Mofteiro da 
Condefla , de que atraz fiz menqao , onde diz , que 
o homicidio , furto , e qualquer calumnia , queacon- 
tecer na terra do Mofteiro da Condefla : Dtfcurram per 
manmVicarii ipfms canoHi , er in omntm ttrram Santii Tor- 
yuati Ctmilker jacUm, Foy feita no anno do Senhor 1049. 
Similhantes fao os de Menendo Vieg s em outra carta 
de permutaqad , tambem a traz allegada , onde dizaf- 
fim : H&tcdiiatem habcmus , <jnajaca in cr Santt* 7 orqu*. 
ro, & il/a portella de Morteira, Foy feita no anno 107^ 
O melniu conita de outras de huma doacao d'FlRey D. 
AffonfoHenriques, que ie pora nocapitulo leguinte. 

CAPITULO XXXV. 

§jie EIRey Dom /Jfonfo Henrique* den Mofteiro de 

Santo Tor quato a Conegos Regular e$ de Santo 

Agojiinho , e depois veyo a Jer d (la lgreja 

de Santa Maria deGmmaraens, 



D 



[i i"""\ Epois que EIRey Dom AfTonfo Henri- 
ques desfez Mofteiro da Condefla, 
deu o Mofteiro de Sao Torquato a Co* 
negos de Santo Agoftinho , para nelle viverem regular- 
mente. E porque era devot6 da Virgem Nofla Senhora, 
quiz , que o Mofteiro fofle primeiramente de iua advo- 
ca<jao , e depois de Sa6 Torquato. Moftra-fe iftopela 
carta , porque o deu aos Frades , o corneqo da qual he 
o leguinte , traduzido do Latim , em que ella efta. 



Xm 



2>« Portugal. Cap.XXXF. j$s 

- - ; r I 

2 y7 M Nome do Padre , * do Filho, e do 
j" - * Ejpirito Santo. Amen. Eft a he a Car- 
'^~^ ta do couto, ou do teftamento, que eu 
Affonfo, Rey dos Portuguezes , juntamznte com men 
filho EIRey Dom Samho, e mmha fttha a Rainha 
Dona Tarcja por amor de Deos r e remiffao de mens 
pec c ados , fafo a Igreja de Santa Maria , e de Sao 
Torquato , e de outros Santos , cujas Rehquias efiao 
na mefma Jgreja, e a vcs, D. PeUyo, Prior da me/* 
ma Igreja , e aos mats Frades voffos ajjlm prtjentes, 
como futures , que na dita Igreja hem vivcrem , e 
per fever ar em em Santa converfagao cwffome a Re- 
gra de Santo Ago/iinho , douvos , e concede- vos , e 
por vigor da prefente Efcritura vos confirm* a mef- 
ma Igreja com as [uai Quint as adjacent es % &c. 
foyfetta efla Carta do couto, ou do teftamento em 
Jets dias das Cakndas de tMayo, era M.CC, XI, 
que he a vinte de Abril> Anno do Senhor 1 1 73. 
Eu EIRey Affonfo , junt anient e com me us Ftlhos p 
&c. 

5 EIRey Dom Affonfo, ainda que poz novoti- 
tulo ao Mofteiro , com tudo o povo nao ufou , ienao 
do antigo de Sao Torquato. Do que me nao maravi- 
lho , porque como a romage do Santo fe continuou 
fern pre , nao podia a caula impulfiva della elqueeer. 
O que tambem argue efbarem atH aquellas fagradas 
Reliquas , pois nem o impedimenta pofto baitou 
para impedir a memoria , e nome dellas. , 

4 Depois por decurfo do tempo veyo eOe Mo- 
fteiro a ter Priores feculares , ate vir a dar no devo- 
to , e pio varao Joao de Barf os , Conrgo de Braga , 
que por authoridade Apoftolica do Papa XyftoQuar. 
to o fez annexar a efta igreja, juntaraente com o de 
Sad Gens de Monte Longo, e com o de Xelces. Qs 

X H quaes 



1 54 Farias Antigu idades 

quaes elle logo largou em iua vida , refervando f&. 
mente para-fi quarenta mil reis de penfao cada anno, 
que o Cabido lhe pagou em quanto viveo, com que 
efta Caia recebeo granJe, accrefcentamento , e luftre; 
A qual obra os Bw'neficiados della tern pofta em me. 
moria, para que a poftao recompenfar, nao (omenta 
com agradecimento de amorofas palavras, quando fe 
niflb falla , mas principalmente com muitos Officios. 
e Miflas* que por elle dizem. 

5 H he de notar , queElRey D. Affonlo Henri- 
ques deu aos Frades o Moiteiro de Sao Torquato fo- 
mente, e depois D. Lourenqo , Arcebifpo de Braga, 
lhe annexou as Igrejas de S26 Romao , e de Sao Cof- 
made, para melhor fuftenta^aS dos Frades. Foy iilo 
na era de.14.12, anno do Senhor 1374, Da qual an: 
nexac^ao tem o Gabido a Carta em leu Archivo. 

CAPITULO XXXVI. 

§umto ElKty Dom Manoel frabalhou por extender 

a Ley de Deos , e hpnra dos Santos. E de hn- 

ma Carta do mejmo Rey para Ca- 

bido de Guimaraens fobre 

Sao Torquato* 

3 Tr"*\ E P°k 9 ue entrou na fuceflao defte Rey no 
1 Dom Manoel de feliz memoria, Rey, em 
A— " quern andou a par o defejo de extender o 
conhecimento da Ley de Deos , e o zelo da vertera- 
<jao dos Santos: com o primeiro mandou elleabrir os 
ierrados , e incognitos mares, e terras do Oriente, 
por meyo de largas , e perigofas navegacoens , e le- 
var aquellas gentes o Eftandarte da Fe , para que mi- 
litando debaixo delle falvaflem fuas almas. 

2 Com o fegundo fez o infigne , e Real Mo- 
iteiro de Bethelem 5 e a Cafa da Milericordia de Lisboai 
Noffa Senhor a da Pena, Moiteiro do Mato» o das 

Berlen* 



TfeTortugtl. Cap. XXXPI. 165 

Berlengas, Nofla Sennc^a da Serra, Santa Clara de 
Eftremoz, Santo Antonio do Pinheiro , o Corpo da 
Igreja de Sao Franciico de Evora, a Annunciada de 
Lisboa, a Se de Elvas, Sa6 Bento do Mato , Santa 
Clara de Tavila , Santo Antonio de Serpa , e outras 
muitas Caias deQracao, que conta Damiao de Goes, G f^ R "*£ W 
com a iepultura de Sao Pantalea6 do Porto , e com Man e g y el om ., 
efte mefrao eicreveo ao Cabido deGuimaraens huma*. % i% *'- 
Carta, que ja em cima tqquey, que he a feguinte. 

POR ELREY. 

Aos Conegos da Igreja de 
Guimaraem. 

COnegos da Igreja de Guitnaraens , eu EIRty lf}d Carta . 
vos envio muito faudar. Fazemos-vos faber , ** „ jnhtw 
que nbs havemos por bem , que o corpo do bem- ** ?&$*' d * 
aventurado Sao Tor qua to feja irasladado a igreja utmaraenSi J 
CoUegiada da ditaFtila, em hgar ^ aondt ao trior 
parecer bem , o qua] levara o Breve para fe a di* 
ta trasladagao jazer ; e por tamo havemos ppr ex* 
cufadas as dejpezas^ que fe haviao de fazer onde 
ate agora jouve, E por em vos mandamos r que deis 
erdem , como fe logo ajfim fafa» Feita em Lis bo a , 
4 29 de Fevereiro 1501. 



3 Etta 



166 Farias Antiguidades 

3 Efta Carta confirma tantu noffo intento , e de. 
pots della a perleverada tradk^ao, e devoqad dos Fieis 
ate ao dia de hoje , qua nao he neceflario dif pender ni- 
Ito mais palavras. So accrelcento, como (ello de tu- 
do , que a Igreia de Guimaraens faz a efre Santo o 
Officio folemne, pelo ter naquelle ieu Mofteiro, e 
faz-lho em quinze de Mayo , que he o dia , em que 
o poem o MartyrologiO Romano. 

4 Seu iagrado Corpo jaz naquelle Mofteiro de 
feu Nome, em huma antiga, e pequena Capella da 
parte do Norte, em hum fepulcjiro de pedra toica , 
mas grande, e de majeftade, aflentado fobre quatro 
efteyos, cercafos de humas grades de fefro, onde de 
tempo immemorial- he venerado dos habitadores da- 
quetles montes , e juntamente dos defta Villa, efpe- 
cialmente no dia de fua fefta. ContaS-fe delle mui- 
tos milagres, e os pos, que fe levao da pedra de feu 
iepulchro , (ao argumento da fe , e devocad . que fe 
lhe temi 

CAPITULO XXXVII. 

Que houve em Hefpanba dons Santos defte nomi 

Jorquato , hum dos quaes efta em Cellanova , 

e outro no tjltofteiio de feu Nome 

junto de Guimaraens. 

i Y~*\ EftaS duas obiec$oens, a que devemos ref- 

w\^ pander. Diz Ambrofio de Morales, na Cnro« 

•*- V nica de Hefpanha , e Allonfo de Villegas^ 

Moralei /. j.> outros, que feguira6 a Morales, que o Corpo deS. 

'■ "i* Torquato, difcipulo deSan-Tiago Mayor, e Bifpo de 

Guadiz, efta em Galliza junto da Cidade de Orenfe t 

envhum Mofteiro de Monges de Sao Bento , chama. 

do Cellanova. Diz Morales * que lhe contara5 alii os 

Monges o milagre , com .que veyo aquella Iejren : 

furttrao , refere elie, hum Pwtftguezjt o Corpo do San - 



■■ 



<DeTortugdl.Cap.XXXF 11. \67 

to de hum a l^reja , onde eflava tpttro legeai dalii : e cuu 
dando , que caminbavdo'par* (ua ttrra bum* nevoa efca- 
riffim* $t fez. vir fern imaginarem- dqittlle Moftiiro* Ifto 
he de Morales, 

2, Ao qual refpondemos , que dous Santos hov-vnug. in Tor* 
ve em Hefpanha defte mefmo nome , e ambos- delta ?*>«•. 
terra de Gallia. Humfoyo de que ategora ' tratamos * fe/ ** in 
o qual Beda , e llidofo , referidos por Villegas, e ^%?$*§ 
JMiflal Bracarenfe fazem Confeflor. Mas Filippe tir&sdha. Q. 7. 
itutano, Antonio Sabellico, o Doutor Beuter, oBte-m. t. 
vtario da Ordem de S. Bcnto em Portugal, e o Papa***** »*» 
Gregorio VII, allegado por B^ionio, o fazem Mar- ™™- * • *■ 
tyr, acs quaes nos feguimos, corf< rmando nos coir B ann.in Mar* 
o coftume ami go da lpreja de Guimaraens , que Wittyr. Rem. die 
canta Officio de Martyr. ; *>• Mali. 

3 O outro Sasto defte nome, tambem foy Mar- y< ^ w tom.i. 
tyr, como diz Valeo, nas palavras feguintes: ^™-/X^4°a 
car<z Sugut* ptfiiontm fanfti VtBwis , cujus Mix templum 

eft juxta 'finvinm Aleften , eedem tempore fttijfe opinor % & 
SanElemm Martyrttm Sylveftri , Cuc/tfati $ Sufannd , SmUl 
Jvraum , <i*7«£ aliorttm martyrttm f quorum memoria di- 
ttturnittte , #■ fcriptorum penttria exolevit* Querem dizer: 1 

£arece»me , que no mefmo tempo foy em Braga Au- 
gufta o martyrio de S. Vidtor, cujo Templo efta alii 
junto do rio Alefte , e dos Santos Mrtyres Sylveftre § 
Cucufato, Sufaaa , Sao Torquato , e de outros, cuja 
memoria por longo tempo, e falta de Elcritores ie 
perdeo. 

4 E o mefmo Vafeo faz tambem mencao de Sao„ , .-- _ 
Torquato, Bifpo de Acci , ou Guadiz, por eftas pa- mu Dom 4 ^ 
lavras: Sanffus Torquatus Epifcopns AccituHns^vhtgo Gua* 

dtz. in Regno Granatenfi. Sao Torquato Bifpo ds Acci, 

a que chama6 Guadiz no Reyno de Granada, g qual- 

quer defies Santos , que nos derera , aceitaremos de 

boa vontade, fern contenda de mayor , nem men6r; 

porque como diz o deVoto Thomas de ICempis na- y ^ . detm 

quelle feu livrinho de ouro, digno de andar nas ma ->$„,„„, chri 

43e todos: /» ccelo omnes magni fnm t qui* 4mm s fi/ii Dtii.%. *&>$* 

tyedbftntar ) & trum* NoGso todos iao grandes, por- 
que 






ilH 









T6 8 Farias Amiguidades 

que todos fe chamarao, e ierao filhos de Deos. 

S Nos com tudo entendemos , que efte noflb 
he o Btipo. de GuMz , contemporaneo de S. Pedro , 
e difcipulo de Sari-Tiago Mayor, e nao o de Bragaj 
porque quando os Chciftaos tomarao as Reliquias dos 
Santos, efugirao com ellas para terra de Afturias, e 
Bifcaya, toy pelas falvarem dosMouros, que entra- 
»*«*«■ ;»Cfcr.vao- em Hefpanha pela- parte de Andaluzia, e Algar- 
tsrt.i.cxs. ve, e feguiao aos que fogiao: e he de crer , qu- 
fofiem ailolaado tudo , Jevando diante de ii aquella 
trifle, e affligida gente em manadas , muita daqual 
fe defviarta das eflradas por menos , e mais tarde fee 
aleanqada dos baibaros infieis. E affim foy poflivel, que 
os Accitanos vieflem parar a efta terra com o Corpo 
de Sao Torquato , corao os Toledanos fora6 ter a Qa- 
mora com o de Santo Ildefonfo , e os Eborenfes a 
terra de Campos com o de Sao Mancio. E na6 fe pa- 
de crer, que os Bracarenfes fogiffem com o leu Mar- 
tyr para terra de Guimaraens , que era metelo nas 
maos dosMouros: mas antes o levariao contra a ter- 
ra onde hora efta i e ainda mais para dentro, fe podel- 
fern. 

6 Confirms efta conjecl;ura , dizerem os Monges 
de Cellanova , como refere Morales no lugar citado r 
que o Corpo Santo, queelles tern, andava em maos 
de Portuguezesj que nao he pequeno indicio de elle 
ier o Bracarenfe. E deve-fe de notar , que nem Mo- 
rales, nem os Authores , que o feguem, tern outro f un- 
damento para fazerem Sa6 Torquato difcipulo de San- 
Tiago em Cellanova , fenao o dito dos Monges da- 
quelle Mjfteiro ; e dito por dito , tambem o nos ca 
fazemos,alem do mais, que apontamos. Sofaltafec 
efte noflo tao conhecido , como o de Cellanova; o 
que nafceo de nao haver Efcritores Portuguezes, que 
delle efcreveflem. Mas ifto nao tira eftar elle aqui , 
e legundo a fama , todo inteiro , porque ie abrio a 
feu fepulchro havera cem annos , pouco mais, ou me- 
nos , e foy vifto pelo povo delta Villa, que he cou- 
fa rara, havendo mais de ijoo annos, que eile San- 
to 



T>e Tmkg'aL Cap.XXKFIII. m 

to'rnorreo. Exemplos com tudo hafirrriihantes, com 
que o Leitor fe deve de aquietar. 

7 O Profeta Zacharias foy morto em Judea pela 

conta de Eufebio Ceiarienfe , no anno da criacao do E *A* m c - rf 

Mundo 45 if: do qual anno ate o do Nakimento de ^ 

Chrffto exelufive, que , fegundo o mefmo Eufebio, he 

o de 5199 da melma criacao, paflarao-ie 1 84 annos. 

E do anno do Naicimento deChrifto a 415 annos f@ 

achou o Corpo defte Sinto Profeta per revelacao* del- 

le mefmo , em tempo do Imperador Theodc fio o me* 

nor. O qual Corpo havendo mil e duzentos e noventa e 

nove annos, que fora fepultado, eftava ta6 inteiro, 

que nada lhe faltava , como fe fora vivo, iegundo 

affirma Nicephoro, e Baronic. 

8 Mas nefte propofito mais efpanta, o que ef* Niceph. 1. 14, 
ta" etcrito por Galpar Barreitos de bum dos Meninos c «p. 8. 
Innocentes. Diz efte Author ,;que na Igreja Cathedral Bmbn - a P ud 
de Barcellona \ efla o corpo de hum defies Santos Me- ^Z^t Tli 
jninos , o qual dos peitos para baixo tem ainda came, B«riIrSW 
e que podia fer crianca de ieis mezes , qi:ando fcy.gr. m d s Bm 
irrartyrizado. Pelo que , quando Sa5 Torquato efte j^ <€/ '»«*! 
inteiro , fegundo dizem , nao ha de que ncs efpante- 

mos , porque Decs he admiravel em leus Santos, ato 
em vida, como depois della, 

CAPITULO XXXVIII. 

Que Bentavtnturado Santo torquato nao foy €a+ 
ftelbatio, mm dtcebifpo de Braga. 












H 



Um Religiofo Caftelhano , homem , fe- 
gundo dizem , de grande erudiqao , e Ir 
c,ao, communicou por efcrito algumas 
cunofidadea a hum feu amigo Portugue2 , que nellas 
o confultou, e entre ellas refpondendo a huma per- 
gunta defte noflo Santo Torquato , diffe , que foy 
Arcebifpo deBraga, e fe chamou de fobrencme Fe- 



lix, 



170 Varus JntigHidsder 

lix , e padeceo martyrio com vinte e fete Cidad£o? 
Bracarenfes no ^nno do Senhor fetecentos e defanove, 
cinco annos depois que os Mouros entrarao em Hef- 
panha. 

2 \ Diz mais, que fe achou no Cor.cilio Toleta- 
no decimo iexto, e foy natural de Toledo r e Arci- 
prefte da Igreja Toletana , e que foy Bifpo Irienfe, 
e depois Portuenfe, e finalmente Portuenfe, e Braca- 
renfe. O que tudo affirma por authoridade de Julia- 
no Arciprefte de Toledo, o qual diz, que fez huma 
jcmada por eftas partes acompanhando ao Arcebilpo 
D. Bernardo , pelos annos do Senhor 1097. 

3 As palavras, porque Juliano ifto diz, que elle 
allega, iao as feguintes : Non procd Vimarani in tr*< 
ftu Bracharenfi vi(i fepulchrttm fanftijjimi Torayati , cogn$. 
memo F&Mas, £ pi feopi Brachartnjis y & martyris , aui in* 
ttrfttii decimo fix to Concilia Toletano. Fttit p atria Toleta. 
nus , & ejtts urbis ArcHprasbiter 9 ind* Epijcoput hitn. 
Jis , in At Portends, denize Pvrtuenfts r & Braeharcnfis : 
fidei can fa a perfidis- Sa<racenis /jtb Atttfala anno 719 , 4 
KaltndAt Manias (m Ugi in Martyrologiis) occifus eft 9 
turn aliis yiginti ftpttm civibus Brachaunfibttt* 

4 Efta objecc3o, que faz a efte Santo Caftelhano, 
e Bifpo de Braga, fendoelleiGallego, e Bilpode Ac- 
ci , como fica referido , nao era bem , que ficaffe iem 
refpofta , por hoje cahir efta parte de Galliza no Rey- 
no de Portugal , aonde o Santo efta , e p6de fer,que 
delJa mefma fofle natural. 

5 Gontentem.fe; os Efcritores Caftelhanos com 
nos trazerem la Sao Damafo, natural de Guimaraens-,' 
que elks fazem de Madrid', e Satf Vicente, e fuas ir- 
maas naturaes de Evora , que elles fazem de Talave- 
ra de la Reina, e o Corpo de SaoVicente Aragontz, 
que elles tirao a Portugal pelo dar a Franca , alem 
de outras injuft r gas,que nos fazem nefta materia, tu- 
do pelos noflos nao efcreverem. Tad pezada lhes foy 
fempre a penna , ainda para defender , o que poiTuem. 
Ou por ventura acha6 fria efta palavra > Nojfo , para 
nao ular della : da qual os Caftelhanos fazem rnuito 

cafo, 



'DeToriugalCap.XXXyilL 17 1 

cafo, fegundo vejo, que a frequentaft conlesvando 
© feu , e tirando poloalheyo: e nosHcamos os frios, 
de ver» que nos deipojao de noilas couias a villa de 
noflos olhos. 

6 Pelo que parecia-me , que deviamos mudar 
confelho , e fazer muita eftima dos grandes benerlcios, 
que Decs fez a efte Reyno, em lhe dat Santos natu- 
raes, que particularmente rogao por elle. E para ifto 
convem,que nos fuftentemos neftapoflej e a nao lar- 
guernos facilmente quando com jufti^a , e' probabiii.' 
dade o podemos fazer. E affim eu em virtude defta 
confideracao , e tambem lembrando-me , que a honra 
dos Santos com eftas contendas crefce , farey o que 
puder, para que fe nos nao tire o gloriofo Sao Tor- 
quato: e terey por honra qualquer fracjueza, em que 
nae vir , por nao poder refponder com iatisfaqao a 
quern no-]o quer tirar. Mas nao faltarao outros , que 
iuppriraS efta , e outras falras minhas t que confeffo 
ira6 em toda efta obra , as quaes havemos-de dar aos 
ingenhosj como propriedades fuas t porque a nature- 
za nenhum criou perfeito. -y 

7 Ifto fe v6 no infigne Poeta Homero , fonte de 
doutrinas, de que beberao todos os graves ingenhos, 
ao qualosSmyrneos, feus naturaes, por efte refpei- 
to fizerao hum templo, em que pozerao fua eftatua, 
e aohde confervarao fua livraria $ ainda em tempo Straha u - *4* 
de Strabo, que ifto conta. E em conformidade difto 
aquella antiguidade lhechamou divino, e affim fe lhe 
poz noletreiro de fua fepultura, que traz P!utartho. */«"»•? /• * 








divino. Com tudo, como nao ha ninguem j que acer- 

te (empre \ donde veyo a dizer Plinio j Nemo mma- w«. He/?./. 7. 

hum omnibns fois fapit , nao pode efte exoellenti(fimo f ' 4 ' 

Efcritor vigiar tanto fobre a petfeica6 de fuas obras, 

cque nao tivefle Horaciq caufa para dizer, que a \g\x^ HoratJl,AH ' 

mas vezes donnia o bom Hcrnero. 

8 & toraanda aquelle novo Arcebilpo 4e Bcag*j 

X it que 




17% Ftriaf Jmhuldadci 






quejulfano'diz chamarfe Torquato Felix, e que foy 
primeiro BHpo Irienfei depbis Portuenfe, depois Bra- 
carenfe, eu acho , que no Concilio Toledano decimo 
qujnto, fe affignou Fauftino Metropolitan© de Braga , 
e FcHjc Bifpo de Iria , que he a Villa do Padrao em 

ftereksi i*. Galliza , q Froarko do Porto. Fay fdto efte Gonci- 

***• *1- Jio, fegundo Morales, no anno do Senhor 688. E ja 
aqui temos o Bifpo If ienfe afllgnado pslo fobrenome, 
e nao pelo nome, porque aiTun o cofturaava fazer , 
como adiante fe vera. 

q j Cinco annos depois defte Goncilio fe celebrou 
o decimo fexto Toletano, no qua! efta hum Decreto* 
<le que confta j como refere Morales » que os Padres 
■defte Concilio mudarao Fauftino Bifpo de Braga , para 
Bifpo de Sevilha, e Felix Bifpo do Porto, para Bif- 

mriHet 1. 1*. po de Braga. Foy feito efte Concilio, pela conta de 

«.j9. &*o, ^j ora ] cs? no anno do Senhor 693. 

10 Devia Felix de fer eleito Bifpo do Porto ] 
por morte de Froarko, qiie fe affignou no Goncilio 
•decimo quinto» O quil ja* nefte Concilio decimo fex- 
to fe afiigna como Bifpo de Braga, e mais de outra 
Igreja , cujo nome Morales rao achou j mas pa r ec?, que 
leria a do Porto, porque quando foy para o Goncilio, 
*era Bifpo do Porto^ e la foy feito de Braga, e na5 
fe tratou de eleiqad' de Bifpo do Porto. 

1 1 Mis donde Felix fofte mudado para o Porto, 
nao me confta; e na6 duvido, quefofle de Iria, por- 
que por aquelle tempo fe acha fer Felix Bifpo defta 
Cidade, como fe ve no decimo terceiro Concilio Tole- 
tano, sonde eftao aflignados Felix de Iria , Froarico 

UcmUs 1 i** do. Porto * *-iuba ds Br^ga. Celebrou- fe efte Concilio, 
fegundo Morales , no anno do Senhor 684. 

j i Mais arraz no Goncilio decimo fegundo , ef- 
tao aflignados os melmos tres Prelados polos mefmos 
fiomes. Foy feito efte Goncilio anno do Senhor feis- 
centos e oitenfa e dou?„ 

1$ Piraknente reftes quatro Concilios efta efte 
Prelado chamado Felix-, Bifpo delriaj depois do Por- 
to , depois de Braga , por oxide parece , que efte he, 

<o que 



c. 54. 



T>e "Portugal. Cap. XXXVJ1L *7f 

o que diz Juliauo : mas que leu nome fofle Torqua. 
to , nifto tenho duvida , porque acho no terceiro Con- 
cilio ikaearenie, feito no anno do Ssnhor 675 , iete Mmmltt !•«*; 
anno* antes do Toletano decimo legundo, que le ai«* 4 *» 
fignaiao nelle Leodigto Bifpo de Braga , Froarico d& 
1 Porto, e Felix de Ida, que he o de qua fallaraqs** 
o qua! Felix nao fe chamou Torquato, como diz Ju- 
lian©, iena 6 Hildulfo, e de fobrenome Felix. Aflim 
ie afiignou elle nefte melmo Concilio por eftas^pala- 
vras: Hildttlfus , qui cognominw Filix IrUnfit, &c, Ef'tf- 
sopxs. Quer dizer : Hildulfo de fobrenome Felix , Bif- 
po da Igreja Irienfe. E daqui temos ja , que efte Pre- 
lado, que depois veyo i de Braga | nao fe charpava 
Torquato, e pelo confeguinte, que nao he elle o 
noflo Santo Torquato, de que tratarnos, comoquet 
Juliana. 

14 Ha outro argumento contra Juliano , o qual 
he, que efte Prelado aflignava»fe pelo fobrenome Fe- 
lix , e «fte feu fobrenome era muito notorio^ e o 
nome Torquato , dado que fora feu , na6 «ra i abido, 
nem ouvido * porque na6 ufava delie, como ie ve 
nos Concilkra allegados. Ora, fuppofto ifto , como co* 
brou efte noiTo Santo (fe elle' he aquelle Bifpo) 
nome de Torquato , que ninguem fabia , e perdeo to- 
talmente o de Felix, que todos fabiao ? donde pare- 
ce ciaro, que efte Santo na6 fe chamou Felix, para 
fer aquelle Bifpo j e j^ moftrey, que aquelle Bifpo 
nao fe chamou Torquato, para Car efte Santo. Porque 
na verdade o feu nome foy Hildulfo, camo elle mef- 
mo <H(Ie : o que ft> bafta para tapar a boca a juliaho, 
Quanto mais, que pata otermos por Santo, mais ha 
mifter, que dizello elle^que foy depois perto de 40© 
snnos, e na# traz Autor algurn antigo,nem ainda do 
feu tempo, que© diga. E o qae allegados Martyro- 
logios em feu favor 4 he tudo fabuiofo > *&uao k^ 
Ie vera. . 



174- 



et 



GAPITULO XXXIX. 

Rejponde-fe a outros argummto-s de Juliam , fegun* 4 

do o que allega Higuera » e wofirafe, que Felix 

Arcebifpo de Braga nao he o noffb 

. .Santo Torquato, 



N 



Ao fey como Julhno allega em prova 
do que diz, aos Martyrologios, porque 
?p» ^ nenhum delles faz mencao de outro San- 
to chamado Torquato , que de Sao Torquato r Bifpo 
Accitano , difcipulo de San-Tiago , aos if de Mjyo* 
quf he o noffo, de que ategora tr,atamos. Mas vin- 
do. aoque elle efcreve, primeiramente o de Ufuardo 
aos i6 de Fevereiro , diz aflim : Item Fjrtmtri, & Ee- 
litis cum tliis viginti ftpttm, Q de Maurolico diz, Item 
Ir'ortunMiy & Felics » & Miorttm viginti J eptem, Eo Ro« 
mano novo diz, Item San&orum Martyrum Fortunati , 
& Ftlicisi & aliorum viginti fepttnt. Na6 dizem OUtra 
coufa. E de Fortunato a Torquato ha grande differen- 
tia. De majs difto , o F*Ucn alJi nao he fobrenome 
de Fortunate , fe nao nome proprio de outro Martyr 
aflim chamado. E nao fe pode dizer , que o texto ef« 
teja Viciado , porque ia eiies Martyres andavao aflim 
nos antigos Martyrologios de letra de mao , como 
diz o Cardeal Baronio nas fuas Notacoehs do Marry, 
rologio Romano lobre efte lugar. E quando os Mat* 
tyrologios lhe chamarao Torquato Felix , ainda Ihe 
faltava muito , porque houverao de dizer $ que foy 
Bilpo, e Bi(po de Braga ; o que elles nao dizem. 

i . Nem fe pode admittir o que elle mefmo traz* 
referido por Higuera,, que a Villa , ou Aldea de Sao 
Torquaz junto a Alcala de Henares , fe chama aflim 
do nome Torquato defte Prelado , e o lugar de Sao 
Felizes do A r cebifpado de Toledo , do feu fobrenome 
Felix i porque eftas coufas nenhum a probabilidade 

tern* 



7)eTortugak£*p.JXXlX. *?$ 

tem, awida que tile fe chamar a Topquafb feftx. Mas 

le de conjedluras baveroos de faZer eafo , pois aqol 

nao ha mais , que quanto eflss di&a6„ rriais famoid 

he certo em Hefpanha Sa6 Torquatb Bilfftrde Accy 9 

gu Guadiz, de que tantas TgrejaV rezaft, como atr'aa 

difTe, para o lugar de Sao Tofquaz iomaf dei& t o> n6i 

me, que nao db Bifpo Htiduirrb , qut? tat nome neo 

teve \t ainda que o tiveca. Quanto mais, que Mora- Morale i 9 ; 

les diz, que elle o tomou de Sao Torquato Bifpo dt c - l h 

Acci i du Guadiz , como na= verdade ;he muito mais 

verofimil. 

5 E muito mais iWuftre he o Martyr Sao Felix? 
que padeceo em Girona , de que faz mencaa Poeta* 
Prudencio nos ieguintes verfos : n , , 

P fuden.lym* 

Parva FeUcis decus exkibebit - mlryr.c*fl» 

Artnbus fanflis locuples Gerunda. -<%*</Waw> 

Ao qual fe tem particular devocatf em troda a Ffef- 
vaahz, e muitos folga6 deter feu nome , comb' d\r . , A 

Villegas , para o lugar de Sa6 Feiizes o tornar delle, V J U T 5 Tu \ 
que na6 do Bifpo Felix\ o qua?, fe foyr Santa*, he rao- ' 

pouco conhecido, que a mefma Igrefa de BVaga<, de 
que elle foy Biipo,, o na6 cdnhetfe pot tal , nem de 
lua morte tem noticiaalguma , nem de hum' fo Mac-? 
tyr dos vinte efete, que Juliano lhe da por compa^ 
rheiros,Tendo todo^ como elle diz , Gidadfosde Bra*' 
pa, Deixo outros Santos defte nome, que houVe em* 
Hefpanha , de que os Martyrologios fazem menqaoy 
que tambem o podiafi dar aquelle lugar. 

r 4 Alem difto (e tad longe daqui fe achao lu« 
gares chamados do nome, e fobrenome defte Bifpo, 
como fe nao achao ca por eftas partes , onde tanto 
tempo refidio, e morreo, que fora6 quarenta e qua- 
tro annos, contados defde o terceiro Concilto Bra- 
carenfe ate o anno, em que diz Juliano , que padeceo 
martyrio ? E fe padeceo em Braga , quern recolheo 
feu corpo , e o trouxe para junto de Guirnaraens , 
que era metelio , e meterfc nas maos , e furia dos 

Momos, 



176 Vtirhs Antignidxdes 

ivi ucoSi e nao fogio antes cum ell* para deatrode 
Galliza pelo ialvar, ea fi jumamente % ou o entef- 
rou logo atli ? Pelas quaes razoens fe ve , quam fra- 
co fundamento tern eflas novidades, que com noma 
de antiguidades forao mandadasa Portugal por aqueU 
le Religioio Caitelltaho. 

$ Com razad Ihes chamo novidades , porque 
aqueila authorldade , que traz Higuera , he de algurrt 
Autor modcrno, e nao deJuHano, que foyamaisde 
quinhentos arinos, em tempo d*ElRey deCaftella D, 
Affonio o S^xto, fegundo elle. Moftra-f e tfto em dM 
zer, que o Bifpb Felix foy morto no anno 719* em 
que fe ve contar pelo anno de Chiifto Noffo Senhor, 
e no tempo dejuliano contava^e pela Era, comohe 
^tnanifello. De mais ditto , aquellas letras numeraes 
7 io. iao modernas , que nos chamamos de Algaritmo* 
o qual Algarifmo foy hum Autor moderno^que efcrei 
v pvu veo de Arifthmetica , de que faz menca6 Rafael Vo- 
E£7 is. »" laterrano ; e em tempo dejulianoj alem de id contat 
trim'pi*' pela Era, as letras numeraes erao as antigas da con- 
ta Romana, de que fallamos no Capitulo II defte li« 
vro, e fe moftra por trezentas Elcrituras. 

6 Muito me detive com SaoTorquato, mas foy 
1 por eftar fua fepultura tao coberta de mato de efcu- 

ridade, que me pareceo fervicpdeDeosj e honra do 
Santo , trabalhar de o romper com a pena. Ponha ago- 
ra quern deve a mao , e delenterre efte thezouro ef • 
condido no agro , para que faibao todos , que o pof- 
luimos> eftimamos,e veneramos : porque o calar em 
fimilhantes materias he fazer duvidofo que efta 
certo, 



CAPI< 



■■■ 



_ 





CAPITULO XL. 

\wm csrcou a Villa dz Gtiimaraens. De hum Vti* 
vilegio dos fetts naturaes. Da Imagtm da Vwz 
gem Nof/a Senbora , charmda Veronica^ 
que eft a, ntfia infigne CoU 
. legia-dt* 

Nt-remos no tempo (FElRey Dom Diniz ,.ȣ&/*** 
o qual cercou efta Villa dos muros , que ?*• 3 J* 
„ agora tern, como ie conta em fua Hifto- 
xla , e fez nella Cortes, fegundo diz Duarte Nunes do Dua % Nu ™ 
,I,ea6, o qual Autor deixou em memoria, o que eu £i^ ey *&' nt 
sia5 quero deixar em filencioj e he: que ElRey por »»z/.u?.«»U 
aflento, que tomou nas Cortes de Guimaraens , man* 
dou tirar kiquiricoens, e devaflas fobre asfidalguias , e 
fconras , que alguns ufurpava<> em terra dentre Dou- 
to t e Minho; para o que mandou com poderes a Joao 
Cefar, leu fidalgo, e vafTalky A terra destre Douro, 
e Minho he muito habitada, etem muitos Mofteiros , 
e Igrejas , que leva5 gcande parte da reada della , e por 
ier geralmente pobre, nao me efpantara eu, fe nella 
houvera ladroens de fazenda , porque a fome he con- 
felheira do mal , como difle ojoutroj mas que nel* 
la houvefle ladroens de honras, he coufa de grande 
efpanto , porque a pobreza quebranta os efpiritos , 
acanha os homens ) e fo faz tratar de fi, e de ieu re- 
medlo. ^Com tudo he queixume geral j que nunca a . A 
ambi$ao foy mayor , que agora , nem os ladroens de 
iidalgtas mais publicosy e rnais oufados 5 e importu* 
nos. Efe as enfermidades longashao mifter repetidos 
remedios, para efta hydropefia, e incha$a6 de vento 
tao jintiga , devemos defejar , que torne ao Mundo 
joaoCefar com ps feus poderes , para que, o que a 
vergonha nao cura, cure o temor, e id aquelles lo- 

gtem as honras , q fidalguias . de que iuas virtudes , 

Z ,.- - - * 

e as 



178 Farias dntiguidades 

e as de feus antepaffados os empoiVarao. 

* Tjrnando a EIRey Dorti Diniz , na guerra , 
que elle teve com o~ Infante Dona Aftbnfo leu filho i 
teve efta Villa fempre a voz d'&lRey , e iendo cer- 
eada pelo Infante, eferlrendo no cerco muitos traba- 
Ihos, nunca fe Ihe quiz dar. Pelo que deiejando EL 
Rey fatisfazer a fidelidade de taes vaiTallos, Ihe deii 
Privilegio, que nenhumde Guimaraens pagafle Por- 
tagem em todo feu Reyno para fempre. E que nin- 
guem fofle oufado de adoeftar a homem de Guimaraens, 
( palavras do Privilegio) equeaquemoadoeftafle, as 
Juftiqas dos lugares Ihes deflem morte de tredores^ 
Oefle Privilegio vi eu hum traslado feito em Braga a 
iftftancia dos de Guimaraens na Era de igi*, a qual 
Era efta errada, porque vem a fer no anno do Se- 
nhor 1274, no 9 ua l tempo reinava ainda EIRey D 
AffonfoUX, feu pay. 

3 Quero tratar aqui de huma Imagem de pin- 
eel da Virgem NolTa Senhora chamada Veronica , que 
no tempo d'ElRey D. Diniz foy trazida a e(ta Igre- 
ja» Efta Imagem le manifefta huma vez no anno , em 
dia de Pafchoa. Orna-fe na Sacriftia a meia , em que 
fe veftemos Sacerdotes, com huma alcatifa, ehervas, 
e flores cheitofas, conforme ao tempo, e nella le poem 
a Imagem: Acabada a Noa , vay o Cabido por ella , e 
a traz em ProciiTao cantando a Antifona : Regina Cael^ 
&c. com Mufica de orgaos , e repsques de linos > e a 
poem na Igreja em outra mefa ornada damefma ma^ 
neira. All* vao os Capitulares por fua antiguidade fa- 
zerlhe reverencia , e depois vay o Povo , que de «>► 
flume antigo por devoqad" , que tem a Imagem , fe 
acha prelente naquelle tempo* A qual efta alii pofta 
por toda a O&ava da Pafchoa , e dia da Pafchoela de- 
pois da Vefpera a recolhera com a melma folemni- 
dade. 

4 Alqumas vezes vr fazer ifto fern achar notL 
eia> nem fama de quern deu a tal Imagem , nem da 
caufa delta tao particular veneraqao. Com tudo depois 
achey no £rchiyo da^reja hum pequeno pergaminho^ 

de 



7)e ^Portugal. Cap. XL. f 79 

de que confta , que hum Payo Domingues ; Prior ce 
Guimaraens , e Dead deEvora , foy a Roma , e a trou- 
xe de la, e a poz nefta Igreja : emandou ao feu Pro- 
curador no temporal, que a todoo Conego, que dia 
de Pafchoa ante a Veipera viefle a Igreja com fobre- 
pelliz depois de fe tanger hum lino a cantar a Anti- 
fbna : Regina Cosli ,ea Salve , Reginn , diante ds dita 
Imagem , defte quatro foldos : e a todo o Sacerdote de 
fora, que viefle na mefma forma, deffe dous loldos: 
e a todo oDiaconOj e Subdia'cono , hum foldo j e a 
todo Melachino feis dinheiros. Foy feita efta Carta 
em Coimbra em 14 de Mayo, Era -de 1 313 , anno do Se; 
nhor 1 195-. 

5 Achadaefta memoria, comecey de iufpeitar, 
que aquella Imagem trazida de Roma pelo Prior , e 
fnandada aflim venerar , devia fer algum Retrato da 
que pintou Sao Lucas, que efta em Roma: e fazen- 
do nifto diligencia , achey~fer aflim, principalmente 
vendo, que a folemnidade Ihe foy mandada fazerno 
tempo Pafchal, e que fe lhe cantafle a Antifona: 
Regina Cod ; , 

6 E lembroume ifto, por ter Hdo em alguns Au= 
thores,como Durando , Santo Antonino, e principal Dar , M ^' 
irente em Ferreolo Paulinate, que no anno do Se-f 4 ^ 
nhor 790 foy Roma, e os lugares vifinhos opprimidos Anton'm. p.u 
de huma grandepefte, de que os homensmomao ef-'"- **• <• *I4 
pirrando, e bocejando. O qual trabalho V de que tarn* * *• . , 
bem morreo o Papa Pelagio Segundo , Gregorio Pri-f^f 
rneiro , leu Succeflor , procurou de atalhar. Ouvira elle 

aos antigos, e aflim o tihha crido, que a Virgem 
NofTa Senhora May de Deos, fora fempre favoravel 
ao Povo Romano em todos os feus trabalhos , de que 
havia memorias , por meyo de huma Imagem da Se- 
nhora , pintada por mao de Sao Lucas , que ie guar- 
dava na Igreja de Santa MARIA Mayor. Pelo que 
ordenou logo ProcilToens de Ladainhas, ajuntarao-fe 
Hero^e Povo, e a Sagrada Imagem foy levada pela 
Cidade com cantos, e oracoes, e por onde ella paf- 
ava , o mal ja ceflando, e ouvirao-Je vozes de Anjos, 
/ Z ii que 



m 



ISO Far ids Antigui Jades 

que cantavad a May de Deos eita Amipinna. 

Regina cosily latare , alleluia. 
Quta, quern mermjti pm tare , allehh 
Re/urrexit , ficut dixit , alleluia , 

Os quaes o Papa Gregorio feguio dizendo : Or a pr$ na 
bis^ Deum, alUlma, & chegando ao iepulchro de Adna- 
np , chamado agora Caftello de Santo Angelo , foy vif- 
to hum An jo em cima delle, que metia na bainha hu- 
ma efpa^a enfanguentada , inikio, de (eaplacar a ira 
Divina. Sdefde entao applicou a Igreja eita Antiphona 
a fella da Pafco3 da Relurreicao , porque em tal dia 
fuccedeo eftemilagre. 

7 Traz Ferreolo tudo ifto de Carolo Sigonia, de 
tai'i.c. J s ^*^ uran * > » deCanifio, de B^ronio , edeoutrns Authc - 
i r. «. if; >» fes » # e entre eltes diz Baronio , que o me {mo Papa Gre- 
Greg. Magna, gorio levava a imagem de Nofla Senliora , e que he 
aquella , que hoje he venerada to Igfehde Santa Ma- 
Btron.m Bpit. ria Mayor. Ne(ta tela c 6 ha ppnfrontaqv ens que mot* 

uL'wsw' tra5 fer aIrna5 ! em ' ^ efta, neftalgejahom re ato 
daquelle de Roma de Sao Lucas, a'em defep^rectir 
com eUa no roftro > e no trage. Duas !m ger s da Vir» 
gem Maria fe fabem daquelle- fagrado Pi i tor. Hurra 
• ; '. efteve em Conftanti-nopla , ainda em tempo de Ni* 

Nicefhbtp. ^ ce ph or0j pela qnal fazia Deos muitos milagren edia 
elle, que Sao Lucasa ptntou vivendo ainda aSenhor^; 

e dando, graca aquella fu i ti- 



Ftrreol In 



e vendo a mefma tajboa, 
guras. 



"BafiL faZor. 8 Efta Imagem achou a Trnperafriz Eudoxia em 
•tifcuprati* Antiochia, patria de So Lucas , frVdd deContbntinc- 
flfy'Irt/'^ 3 para Jerufalem , emandcu.a a C'onttantinopla poc 
c.xl deiTtn-^ um dom de ineftimavel preco a Infanta Pulcherij, fua 
/L»/4p«/£/;«r^.' c unhada, a qual' a poz em hum fumptuoio T^mplb; 
Sixt«fSe»e»f.!\vie fez a Virgin \ 7 b(la. Sen-hora* Dn qual diz Sixto 
B»6/#. [*ntt. -'..Sinenfo j que- vi<i hum retrato em Veneza em ca'a dor 
3,. w^^w.farifnmo Pintor Titiano, em que feviao toik« asf*i 
^oeiij , que da Virgin SacratilKma conta Nicephrro* 

o CXitrai 



DeTortugahCdf.XL. 181 

f9 Outra he ^ de Roma , c|ue tambem !e aftr- 
ma ier fua 5 da qual-he o retrsto , de que tratamos ,- 
que nefta Jgreja fe vencra , cctro ten cs dito. Em 
Toledo na Jgreja Parochial Mczarabe. deSanta Jufta 
efta outro tido em grande veneraq?6, corro efcrevp 
Villegas na kgunda parte da hiftoria geral dos Sari- v, H ai ** ™- 

to Coufahemuitojufta.eproveitora, quebuf- itZ^aitti 
quemos, econiervemoseitas memorias, aflim por hon- 
ra di, May de Decs , como pelo que nos vay , pdrqueas 
irragens avivad oefpirito, accendem os delejos , ex- 
citao a devo<ja6, e finalmente tab livros , porque lerrr, 
e aprendem finda aqueHes , que nao fabem ler , por 
benehcio da pktura * da qual diz WaJfndo Strabo : A 
pntHYA fch htras p*ra qucm as na* f<*be , $ft§ke tamo aflim WdfrM. T. dp 
Cjtte fs-le de hum^ ejut per pintmm aprendeo as hiftorias 'w^/si »'' *** 
a-tigou Itrodizefte Author tratando da venerea© , e* ' 
titilid.de das.&*gr. das Imagens. E muito antes odi£e 
Sao Gresorio Papa efcrevendo a Sere no BiJpo de Mar- 
-ieJha^-como.cof-ta Jerocymo Mutip,- Mer.Muth 

n | fe pateceF a alguro curioio , que a que eifa Tat* 4 *- 
neila I^reja t nao he retratoda de Santa Maria Mayor, 
per Ihe falta? hu ma Cruz emcirca da'cabe^a fx>bre o 
rranro , iaiBa', que quando foy-refbrmada'a nto tinba ji 
por i ha ter gajtado o tempo, e o pintcr nao fez rr-ais. que 
lenovar o que m hou. Dexemos a Imagem" da Senhci a " 
fi tratemos daCruz, que chamao P?drad, - ' * 



CMh- 



182 Farias Antiguidades 
CAPIT.ULO XLT. 

Do milagreda Oliveira , de que Santa Maria de 
Guimaraens houve o nome , eda vitoria de 
Algibarrota. 



R 



Kynando ElRey Dom Affonfo IV , fe fez 
a obra do Padrao , que efta defronte da 
porta de Notla Senhora da Oliveira , co- 
mo confta dehum letreiro, que nelleelta, oqual he 
o feguinte. 



Miria 4« e por >f< efta ►£< Villa ^mais 
>$< onrada >i< leer ^ e o pdobo >$< fez >J« fazet 
yfr efta >J< obra tfi t J exe efteves ►£< de ^ Gui- 
maraens >f4mercad->r *^< moradonjiem ^4 Lix- 
bpa ►£ filho I >3« de ^Eftevao >£« Garcia ►£< e 
de ^ vhna ►£< Per es ^ na ^ era 4* M ^ CCG 
^LX^CX >$(anos >£ ViU ^ dias >{< de >£« 
5>ctembro 

{(M.L.AOFHX^ 

t, Efte Padrao he huma Cruz de pedra corn a Imagem 
deChrifto crucificado , aftentada fobrehuma columna, 
e cu^erta de abobeda, que eftriba em quatroefteyos. 
Aq lal obra foy taoaceita a Deos, que naquelle lugat 
fe rizeraS dalli por diante muitos milagres. Durao ain- 
da no archivo defta Igreja dous pergaminhos , em que 
at guns eftao trasladados , e fora6 primeiro efcritospot 
hum Aftonfo Pires Taballiao daquelle tempo , dos 
quaes nos efcrevernos 16mente o primeiro, pela razao , 
que log 3 fev-ra, oqual he o feguinte. 

z „ Senhor. Affonfo Petes , Taballiao na rofTa 



T>e 9onugaLCap. XLI. i g 3 

" Y U L a . de G " ilTiaraerj s , faqo facer a V. m. que na Era 
„ de M. ccc, Ixxx. annos;oito dias de Setembro foy pof- 

m 5d ¥ UZ J1? alva ?" ia de Guimaraens , e a aduceu 
„ hi Pedro fcfteves ncfto natural , fil ho que foy de Efte- 
„ vao Garcia em outro tempo mercador em Guimai5es f 
„,eaqualCruz Gonqalo Efteves irraao do dito Pedro 
„ fciteves , lmz j que foy vontade de Deos , que Ihe 
,j deu a entender , que fofle a Lormandia Anafrol e 
" I q ~ e . coni P rafle a dita c ™z, e a aducefle a efte Juear 
„ de Ouimaraens, hu efta aflentada a par da oliveira a 
„qual oliveira quando efta Cruz a par della aflentaron 
„eraiecca, edaquel diaatres dias comecou de rever* 
|,de(cer t edeitarramos, e eu Affonfo Peres Taballiadi 
„ efto efcrevi. 

4 Nao efcrevo osoutros milagres, pofqueiaan- 
dao em hum livrodeletra de mao. Efte trouxe, pa^a 
que ie faiba a crigem dotitulo da Senhora, que nefta 
Jg eja ne venerada : porque ate o tempo delle acho ,< 
que fechamou Santa Maria de Guimaraens , edepois 
ddlc : Santa Mana da Oliveira. Note-fe de paflagem, 
quedcfte imlagre nao fomente ficou a Senhora o titulo 
cauinreua, mas efta Igreja, e efta Villa tomarao por 
"Jtignias a Imagem damefma Senhora com hum rarro 
de oliveira na wzo. 

*~ ? K tornandb ao padrao, debaixo do cuberto delle. 
em lugar levantado, fe poz huma Imsgem defta Senhora 
e todos osmilagres , que naquelle lugar fe faziao - a Virl 
gem Sagradafeattribuia6,eaella por amor della erso al- 
Ji trazidososaleijados, eenfermos. A efte padrao vay 
o Gabido em Prociflao todas as Seftas feiras \ e Sab- 

feltores 6 nn ° Pd ° S "' Rey8 fundadores > eb ^v 

a™* f ei ? P articuIar vefpera de Nofla Senhora <fe 
Agoito faz huma Prociflao folemne com os Frades de 
&ao Dommgos, e Sao FrancMco , Camera, e povo, e 
depots que ferecolhe fe diz Mifla ? e pregacao naqJel, 
lf a Sf P ° r ! Tle . mGna da ™°"a d'ElRey Dom Joao I, 
Aavida emtal dia, efe poem alii em lugar alto alanca- 
« veite , com que elle entrou.na bata)ha t 

7 M- 



£. i.e. 4$ 



i*4 V arhs Antiguiddies 

7 Fefteja e(h Igreja aquelle dia em louvor da 
Senhofa daOliveira , que deu a vitoria a Ei&ey , co- 
in o elle onfefloj, e lhe veyo dar asgraqas, eporif- 
fo a laonrou conlhemandar fazsrduas calas : ella, e 
outca no lug^lr da vicoria,maito mais avantajada etn gran- 
dma , artiaVto, e anga&aie. Parsce-me , fsmenaSen- 
gaao, qj2 ci , o.aie a Seihara tiaha fua habitaqao^ 
ho a /era de fer fitta aq/aslia , e eih la par trofeo da vi- 
toria j mas coma elle efcolaeo aquella para faa fepul- 
tura, edeieus dsfce ideates , meteo-fe a huniiiidade 
nifl a , e trocoii as fortes. -.Chaau.fe efta NifTa Senhora 
da Oliveira , e a out<a vulgirmeate NoffaS;nhora 
da Bataiha , ou da Vitoria , devendo de fe chamar 

%2m> % "*&* , e com muita razao, da OH^ira poi* efta Se- 

/* *»&.» 4,'nhara hi a que diu a tfkona , e a que KIRey quiz hon- 

Vnoru , »* fi f p2 l 3 merce , que In t fez. 

Cfcr./?. fiw.w, g Era na q as iia tempo efta Igreja taa an'iga, ar- 
ruiniJa, epobre, qus inpetrou o Cabido da S~ Apol- 
tolica iniulgeicias pa-a fe fazer de efmallas : de que 
ha mewia? trwarchiva, e porillo a b-rnlita Senhora, 
eftania EIRey para dar a bataiha \ lhe moftrou a fua 
ca<a tal , qu il era , com a oliveira , que elle reconheceo 
muitobem, qTiandolhe veyo dar asgraqas, comomais 

adiante ie dira. 

o Foy occafiao a vitoria i com que ella proveo 
naoWntenoedirtVio, que ElRey ih?tez,| masnos 
prmlegias muita granles , que lhe deu , e principal- 
meatenareadadilU, mrqae paucos annai i depots lhe 
foraS amexadostrsj Mvfteiros, conqueelles benen- 
cios qi2 eatao readiaa pauco mais , ou meaos tres 
mil reis, muttoceda renderao oiteata , e asjora ren- 
dem mais de ceato e fellenta. B affim fe excufou o 
Bretfe das indulgencias, e osbsneficios forao logo efti- 
mad^i ealgreia frequentada , e bem fervida ^ e a Se- 
feniffiiaawnhadoCsobjnsmsritada Gafa Real,mm- 
tomais noma da, cvenerada. 



6API- 



1DeWortugal.Cap.XLlL f8$ 
CAPITOLO XLTI. 

De Sao Frey Rodrigo , que flore/ceo em Guimaraens', 

4 daj>ergunta Jr que the mandou fazer huma 

Rainha de Cajlella, 



N 



T A6 muito'longe deite tempo flore'fcia em 
Guimaraens Frey Rodrigo da Ordem do 
iierafico Padre Sao Francifco , homem de 
grande Santidade , e de efpirito profetico. Cuja fama* 
como correfle por toda Hefpanha, a Rainha de Cailel- 
la mulher d' EIRey Dom Henrique , e may c'ElRey 
Dom Joao, que entao reynava , Ihe mandou pergun- 
tar por certos Frades, a qual dos Papas, Urbano, ou Cle- 
rnente obedeceria feufilho. E chegando os Frades ao 
Santo Varao, antes de Ihe dizerem palavra alguma da 
caula de fua vinda , elle Ihesdifle i ,, Sabey , que a 
^Rainha, que vos ea mandou , ja he niorta: e que El- 
„ Rey Dom Joao de Caftella nao ha de dar obediencia 
Vi ao Papa Urbano , e por iflo Decs o caPJgara. E EIRey 
,, CarOlode Franca morreo ha poucosdias, eefta lepul- 
iptado no inferno pelo grande icifma , que caufou na 
^, Igreja de Deos. E affim aconteceo , como o Santo 
cMe, oqual jazfepultado no Convento de Guimaraes. 
Ifto he da Chronica dos Frades Menore?. c&r. dos Fra* 

a Foy aquella Rainha Dona Joanna mulher defy Me**™ p. 
Henrique II j Rey de Caftella , cu-jo filho Dom Joao r L ;* c ' 3 J - 
por morte do pay comecou de feynar no anno do Senhor 
1 579 , fegundo as Chronica® de Caftella , no qual tem- 
po havia dous Papas * hum em Roma chamado Urb2» W4 "' M in P r ° 
no VI, eoutro em AvinhaS de Franca chamado Cle- 1?£ F f.« 

<• *t • • r> t->, ^» ^ Illefcas hilt. 

mente VII. E como EIRey entrava novamente no go- Vo J n ,i 6 em 
verno defeu Reyno, defejou apiedofa may , que elle ManinU $* 
nao erralTe em coufa de tanta importancia, como era Ms*. 
i\a obediencia do verdadeiro" Papa , porque EIRey feu 
marido ja naquella duyida a nenhum quiz pbedecer. 

Aa B M^s 




Mlefcas in Ur 
bane Vl, 



tfoani tie Met: 
de Hifg. I, i g 



Gatibay ubh 
fugra. 



Pont I. 6. c. 
2.9- Joan, dt 
dt Marian* /. 
18 -C 13. 



F/«f. in Com- 
ment irio unit 

ffkutitior. 



1%$ Farias Jhtiguidades 

era ileckl 5 / D ,f OS T*™ /° go a0 Sanl °' como elk 

fov \at edienci3 » e ca ' ll g° > que por ifTo haveria. E 
l>lL5 r' q V° g ° ° bedeceo a Ci ^ent e VII, diz 
' ■ nnK '^P^^.q^quizDeos, queemPor- 

dado y nTA Jbef0y dada a rei P oita ' ^foiletambem 

iLv J W? n °- <; on l huiT1 Poderofo exercito contra El. 
Zlvu,h£ i 0a ° ' / oy vencido na m emoravel batalha 
deA ubairota., onde perdeo toda a flor , e nobreza de 
^au.La, e riqulflima defpojo leu ,, e dos feus, a pot 
pouco nso perdeo avida, e cammhou toJa a noire in- 

onze^r 6 SantSrem ^ ? tH** *" <* 

mat-in. ^ q f ! Vit0ria Santa Maria da OHveira de Gui- 
maraens onde o Santo Frey Rodrigo eftava, ouefti- 
vera, hoaveas gracas, que EIRey Dom Joa6 de Por- 
tuga mi peiloa fteveyo. dar, como adiante fe dira' 

?a i£l - Ciaa M RBpa deRom *> e osReysde Cartel, 
ia, Aragao , e Navarra ao de Franca. Enao baltou efc 
te cailigo para EIRey Dom Joao de Calfell^ lenall 
3™ Vlv |° P° uco » PO r q«e & trinta e dous annos vi- 
H?n J" re tU 1° ?°^ e °d^eftradameme em Alcala'de 

o matc^ C ° f ° C3Valr ° > qUS C3hiG COm d,e > * 

rf£ f • f ft n ca %° deu ' D e©s a efte Rey pela defobe- 
diencia do Papa Urbano ,. anteviflo em efpirito do Pa- 
dre Lrey Rodrigo, decujavida folgira eu dealcancar 
aiguma noticia ,. para aqui a dar deite bemaventurado- 

t^m^% q r e / a ° er J Ueddoeiy - Mas ^ ena5 confumeo 
tempo I Qu que fama de infigne varao pdde efrar em 
pe, lenao he fuftentada comoshombros das letras, a 
que L iutarcho chama memories de efquecimento * Co- 
no verrpsf: , que aconteceo ao Santo Frey Rodrteo 
que fendo em toda Helpanha conhecido pela excellenl 
cia defuas viftodes , nao flcou tfelie mais ,. que dacL 
ma rer^ndo, e -ifto por beneficio da elcritura. MaspaL 
isms adiante: comentantoflos. o, ra Ke freXc« a memo 



T>e Tmugual Cap. XL11. 1 87 

tfia do que delle achamos por honra fua , e pela que win 
elle tera efte noflo trabalho. 

6 O Padr^Frey Francifco Gcnssga diz, que o c^.^ 
o corpo de Sao Rodrigo cfta na Igreja CoUegiada deorig. M^hs, 
Guimaraens na nave de JBSU em hum fepuJchro Ie. ft »- 
vantadp naparede em hum arco ., quaedo querern dcj* FrmLh<, & 
brar para a Sacriftia. Primekamente no ta| In gar nag 
ha letreiro nenhum i de que Htoconfle: e slem ditto 
o Arcebifpo Primaz Dom Frey Agpftinho de Jefu , eU 
tando aqui em ado de vifitaqao a peti^ao do Cabfdo 
o mandou abrir , e nao fe acfeou dentro mais , que hu- 
ma pouca de terra , e hum pequeno cflo de cabe^a, 
que eu vi fendo a tudo prefente. 

CAPITULO XLHI. 

Da antiguidade deEvora* Do martyrio de Sao Vi~ 
cente , e defuas irmaas , e dmdefarai riaturaes. 
De nome antigo de Talavera, Villa doAr* 
_ cebifpado de Toledo. 

1 "TT\ ^ r Santos me lembrao Santos , e peJos pre: 
■->/ fentes os abfentes, e deflerradosj principal- 
M. te os noflos , dos quaes pouco > e pouco fe 
vay perdendo a noticia , ecom ella a devo^ao , e final- 
mente tudo, o que nellestemos. Demaneira, queosef- 
trangeiros os tern por feus , e difto falla hum , e outro, 
e muitos , e nos calJamos , como fe o premio do filen- % 
lencio eftiveffe fempre certo^ como quer Stobeo. O Sht f em -xu 
que ie vera nos glorioles Martyres Sao Vicente, Sabi- 
na i^e Chrifteta (uas irmaas > que fendo Portuguezes, 
efta6 feitos Caflelhanos, por na5 haver quern nifto fal- 
le de propofito : trabalho , que eu quiz tomsr porcbri- 
gacao , e devo^ao , que lhes tenho. O fucceffo nad fey 
qual fera: mas quando na8for oqueeu efpero , con- 
iolarmerhey, porque nao fera efta a primeka vez , que ■ 
e^icaukiufta feperde avitoria, 

Aaii sACi- 




I8B 



Farias Antiguidader 

% A CiJade de Evora eita polta quad no meyo da 
Lufitania, em fitio piano, eComarea fertil de todss 
as coulas necelTartas para a vida humatta. Sua anti^ui- 
dade nao ha pequena , porque muito's annos ancesTde 
Chi i (to No (lb Senhor hafcer, ja era. Foy ennobreeida 
pelos &oma<ios , depois pelos Godos , e rinalmente 
pelos lieys de Portugal , com que mereceo ier nefte 
Reyno a fegunda depots de Lisboa. E le por efte , e por 
outrosrefpeitosella alcanqou nome de infigne entre as 
infignes de Hefpartha, nao he por cerio o menor delles 
ier patrh dos gloriofos Martyres Sao Vicente, e fuas 
kraaas Sjbina , e Chrifteta , que ella de tempo imrne* 
morial honra como Cidadaos , e venera eomo patro- 
nos. 

[ 3 Nao cpnfentem niffcoalguns Efcritores, foraf- 
teiros , a porque huns querenr, que fejao deAvila Ci- 
dade de Caftella , e outros de Talavera de la Reina 
Villa do AtcebiCpado deToJedo. Mas nem nos confer:-, 
timps com ellesimitandoao Poeta Prudencio, que por 
outro Sinto defte.mefmo nome ieu natural , que pa- 
deceo martyrio longe da.patria, diiTe conriadamente 9 \. 
VmJmtiuT ° T J 2 nos tambem dizemos por fuas palavras pelo noflQj, 
hymno decem , pais temas o mefmo direito, e razao. . 

& »5lo Mar, \ 

tyr, earaitg. N d Iter eft , quamvis procul hint in tithe 
Bajfw ignota y dederit (epukhro 
Gloriamvtftor , prope littusalta 



jorte Sagimti 



Noftw , & noftra puer in paleftu. 
Arte virtutis , fiieique olivo 
Unffius , horrendum didtcit domare* 
Fir i bus hoftem* 

•: E fe quiz >rmos paflar a diinte* tambe m as podemos^ 
diz;r e.ji parts pelo f^u, pois oqua elle chama; feu»- ; 

Ve-yQ- 



DeTortugaLCap.Xtlll. tg# 

veyo depois a fertambem noflo-. Elte he ogle nolo 
?V1 arty r Sao Vicente; noiio * por eftar em Lishoa , e 
leu por fer natural de ^aragcqa j- da qual foy tambem j 
elte mligne Poeta. ■ 

4 Mas tornsndo a Sao Vicente- de Evora> Sao m^fl'ifi- 
Braulio Bifpo deCJaragoqa , e alguns Breviaries de 'di- « d Kekdnw, 
verias Igrejasr contao ieu manyrio. Diz r aquelle Santo/' evMoren/: r 
que Daciahb Prelidente de~Hefpanha por Diocleciano, 
eMaximiano, foy de Toledo para Eibora, edalliman- 

dou a ieus Minifttes, que com diligencia bufcaflem os 
Cnriftaos , que havia na Cidade, e ostiouxdlem ante 
fi p e que achando elles hum mancebo eharr.ado Vicen- 
te, Ihoievarao. A'o qual fazendo Daciano algumas per- 
guntas,e nao podendo perfuadirlhe,quenegafleaChriV 
ito NoiloSenhor, mandcu v que-olevaflem afacnika" 
a Jupiter. Chcgando so Altar do Idclo , epondocspes 
emhunia pedra , que effava dianfe , el la feabrandou, 
e rccebeo a impreftao delles , ecmo fe fora de barro. A 
iqual alnda- durava em tempo de Sa6 B*aulio j. que era = 
vivo no anno do Senhor 636, e fe achcu no Concilia-; 
Toledano VI; celebrado. naquelle anno, coitocHlk' 
eonfta, Levantou fe grande alvoroqd 'por razao defe 
thilagre , e o. mana bo foy leyado acaia, dando-lhe tres- 
dias para fe deliberar , na-qualeia-guardadd, niss de 
tal marie ira , que Ihepodiao fallar. Neftes'- tres dias cen-- 
verteo nuilos Gentios* a Fe de Chrilfo. Finalmente 
vencido das lagrfmax de fuas irmaas ? . f'ug'io com elks- 
de noite, ecaminhando apreffsdsmente forao parsr em; 
Abula , que agora chamao Avila 'ero -CaHella. Tan- 
to que em Elbora feioube-cie foa fogida--pbr.avifo.de:'. 
hum perverfo hemem \ ; maneNdi 'Daciano* apos &&&§§%, 
e-forad tornados- em- Ahuls * ende fendo»lhes levadcss- 
vaTios tormentos , e''as cabecasmachocsdasxora ra'^.,..' - 
lobre pedras, aicanc^rao coroa oemartyno, *,/*»*. «,* 

5 Delta relaqaS'conftr, que &• Vicente:,, Q'(miv<mtr,th,&.f 
itmaas fora5 de hum lugsr c be ma do Ejbbra*, no "■CfustofaMbus.'. 
durava aindaapedra por'mtmcria drvrmilcgrp. Bartho Viiuginahifl,. 
femes Kebedo-jMonio <k ViHeeasv-eJIfotcriibcle Cidfo- WlLlTlZ^ 
ca du.viaao le eue lugar. foy EvojaCidade cte fcorttigaJ j* s.s g #tns»> 

x ■ It lib. i„uzui 



1 9§ Fdriat Antiguidade f 

**Uii»tir4 ie f alavera , Villa de Caftella. O Padre Pedro de Riba; 



Jfr/^T" ' dandra fk Companhia de JiiSU'diz rquVhe^rrTaVpro^ 
Morales. 1. 10. ^avel. fer Talavera , e para mais ajuda'chama-lhe Ebo- 
'. i*. ra ♦ dizenJo Morales , homem veri'adiflimo na hiftoria 
qanmo refi, antiga de Hefpanha, quetodos os Authores. e BreVia- 
Mrf* por B «•- r ] nK nnf > fzUcK A*a a « c«««-^« ,*:„ n-iu.- 

teg. tit dt Ma 
*rid. 



j. ~-... & - ..w wv., Ka „, w , vjuwv^^^o ujnmuutc!., e D-reVia- 

,?J" n0S ' 9 ue falIa5 defies Santos, dizem, que&lborafoy 
ft Ma- fua . Patria - L "cio Marineo diz,que eftes Santos forao de 
A vila , mas tao ism fundamento , que os mefmos Avi- 
lefea , que melhor fen tern , como Antonio de Ciancaj 
o nad feguem ntfto. 

6 A duvidi , e engano defies Authores naiceo de 
nao a/feriguarem com diligencia fe era Talavera lugat 
antigo do tempo do Imperador Diocliciano , e MaxU 
rnuno , que moverao efta perfeguiqao a Igreja , pri- 
mjirarnente no Sgypto anno do Senhor^oi , fegundo 
Buftb, in cbr, £u|ebio, :i e dalli aquatro annos em Helpanha * como 
adiante fe vera. E dado , que fofle lugar antigo , fe foy 
chamado por efte nome Elbora. ^J 

7 Quanto a antiguidade de Talavera nao ve|o Geo- 
grapho , nem Hiflorico antigo, que a nomeye por ef* 
te nome , nem por outrd. E nella nao ha ediflcios de 
Romanos, nem letreiros depedras antigas , que tefti- 
fiquem fua antiguidade , como fe moftra pela diicrip. 

B**.*achr. rtt chorographicadefla Villa, que Gafpar Barreirosfez 
ut.de Takver. achando-fe nella. Nem os Authores Caftelhanos ate ago- 
ra puderao moflrar ocontrario. 

8 Suppofto ifto, julgue o Leitor, que nome po* 
dia fer o da coufa, que na5 foy. Primeiramente Gafpat 
Barreiros no lugar allegado , nao lhe da nome anti- 

MoraUtHts £°» P or q'J« Iho nao achou; nem Ambrofio de Morales 

Ant'tguHLastes, achou algum^ que com certeza pudefle darlhe. E o no. 

enafuahifi. me Ebura , que foy de certo lugar da Provincia Carpe-. 

m.u.c.i%. t ani*, regiao, em que efta Toledo , na5 pareceria bem 
a eftes Authores datlho , porque alem de nao fefabe? 
onde foy otal lugar, nem apparecer rafto delle, por 
o tempo o ter gaftado j nao viraS em Talavera reliw 
quia alguma de antiguidade, em que elle pudefle pe- 
gar. Foy Ebura hum lugar da Carpetania , de que Livio 
fas menqao. 

9 ?cer J 



DeTmugttl/Cap.XLlH. 151 

9 E certo, que os Aumores nifto vac tao diver Lhiust.^ah 
fos, quepouca , eu nenhuma certeza fe pode tirar del- mbi <*»*'*** 
les. Porque o Arcebifdo de Toledo Dcm Rddrigo , diz, 

que Talavera fechamou antigamente Afuiu Clsudio A uf - 
Mario Aretid riiz, que fe chamcu Talabriga. O Vou-tZdhAuJ 
tor Antonio Beuter, diz, que fechamou Ebura. Ou- "'« »«> iA /' 
tros em favor da competenda* que Talavera quer ter > f'"- B<8m "' ( " 
dizem, que le chamdu Ebwa , ou £hra t ou Elbora\ n . achro l £ t - tit ' 
ou Delfara. Mas eftes nao rem nome , pois Morales lho^J^n 
n§6 da. Eaffltn vem ella Villa a ter tamos riomes com*. 21. 
o de Talavera, comb d da hydra teve de cabe^as. Dos^ ow/ "»««^ 
quaes eu nao quizera tirarlhe nenhum , por fferhef., que ■& m> % uidaeles 
lhe nal^ao outtos, e imitar a Morales, qi/e nenhum de Bt fo* Hh * 
refuta, mas nenhum aceita , dizendo , que do nonie^; na 
antigo^ delta Villa nao ha coufa bem averiguada. J></?./.so.<m&> 

10 Mas quero fallar claro, ja que Morales cciifef- 
fa , que a nenhum dcftes schou ave 2 ? igusqao , rem fun- 
damenro de verdade , defejando rouito de Iho achar , do- 
mo de fnas palavras ie entende. O nc.me Aquis he to- 
talmente incognito, ena5 fe fabednefe'o Areebifpob 
a£hou, eporqoe lho deu. O de Talabrigafoylhe da- 
do 16 pela firmlhanqa ? que tern com o de Talavera $ $ Un %;s , 
fern advertericia do fit id, pofque Talabriga foy huti) 1. "Z'.Jxu 
lugar da Lufitania junto da Villa de Aveird , d€ 
que Piiniofaz mencao , e Antonmo Pid ern ; hum ca- 
ininho , que efcreve de; Lkboa a Braga , do qua! rioS tf a- 
tarernosadiante. OdeEbura 1 , cdmd jadifle, nao fefaoe 

cnde efteve j polio que nao fofleda provineia Gafpetay 

nia, nem delle ha memoria, QsdousEbora, e Elfedrai 

fao alheyos, convem a faber, da Qdade de Evora qW 

Portugal, comoprefto moffraremos. Q Ddhorz h& e$~ 

ro da efcritura* como diz Morales. ede?ede^feefeeW*W« im 

©Ibora; *■**, ■ 



nar, 






CAP Sr 



H 




59a j Farias Jntiguidaies 
CAPITULO XL1V. 



iglos de algumas coufas mtigas , que ainia ha em 
Evora % e quern for ad Anir} deRefende, t 
A'chilles Eft a go. 



As ja he tempo de mollrarmos, que o 
iugar , que Sao Braulio chama Elbpra , 
•®- * -** he E/ora Cidade de Portugal , e* que , 
efta he a verdaleira patria dos Santos Martyres Vi- - 
£j3ftte A efuasirmaas. Primeiramsnte eftaCidade hean- 
tiga , e ja era em tempo dos Impiradores Dioclecia- 
k no , e .Mjxiiiiaao , e muito antes delles. Delia fua an; 
ti^uidade dao teftlnunho hum formofo portico dsco-'. 
lumaas Ojrinthias, que nella ha. Q Palacio de Ser^ 
tofjo Capitao Romano , que nella teve feu ailento , o 
- .qaai-hoje efti feito Mofteiro de Freiras do Salvador. 
Alguas.veftigios do Aquedadto antigo ., obra domsf- 
mo Sertprli,, erenovado por ElRey Dom Joao III, a 
inft in :fa ..ds : Aadre de Rjlende. Alguns pedaqos demu- 
ro velrii, tambem feho por Sertorio. 
htia4e Nunei * 2 qj z Daarte Nunes de Lei6 , queeftemuro era 
VJyD.^ln de anuria lavrada, e rodeado de muitas torres, de que 
/•/.ni.cW.V^indq ha huma , eque era fortifiimo , e a mayor anti- 
guldade, emais inteira , que havia em Hefpanha do 
tempo dos RoTianos. E, accrefcenta , que ElRey D, 
Fefnmdo de Portugal por hum mao confelho, que 
liie det-io,o mandou derribar * eque gaftarao tres Bu- 
tt 35 nefta obra de o desr?az?r. Tambem ha em Evora 
muitas pedras antig3S comletreiros de Romanos. 

^ Finalmente efta nobre Cidade deu materia ao 
Dojt°r An ire de Refenls para faz^r a htftoria defua 
anti.^uidade, que anda imprefta , donde nos tomamos 
o acima referido. E della tomou tambem Morales mui- 
tas eouCis ac^rci de S^ftono, allegando a Refendej 
Ajtior. dslU, e dizsnjo delie, que foy homem de gran- 

de 



Mjt i' 



/. *. 



T>eThmgaL Cap. XL1V. -15 % 

de ingeriho , e muitas letras , e lingular noticia de to- 
da antiguidade , aqual defcobrio, e averiguou lempre 
com incredivel diligencia, e juizo mais acertado,que 
nenhum Heipanhol, Atequi Morales. ; O 

4 Trouxe eftas palavras defte EfcritorCaftelha- 
no, para dar a ccnhecer o infigne Sacerdote Andre 
de Refende* Portuguez, Eborenfe , a muitos Portugue- 
zes, que nem do nortte o conhecem. Ta5 alheyos vi- 
vemos de nos mefmos. E com tudo o Imperador Car- 
los Quinto o conheceo muitobem, e b nomeavaen- r f^ f jJ'j/ 
ire os feus amigos Portuguezes, a que tinha affeiqafi.* * 

E muito melhor o conhecerao noflos Principes natu- 
raes , porque EIRey Dom Joa6 lhe mandou traduzir 
de Latim em linguagem a Leo Baptifta de Archite- 
dura. O Cardeal Dom AfTonio lhe foy tao afleicpado 
que o hia ouvir a iua Efcola. O Cardeal Dom Hen- 
rique lhe commetteo a reformats, e emmenda das Hi- 
itorias dos Santos do Bfeviario da Sede Evora, que 
Vaieo muitas vezes allega , e fummamente louva. „ ".-•- ., 
Algumad-vezes" lia a mefa defte Principe por feu iii#Sa« 
dado as Epiftolas de Sao Paulo, e fatisfazia as duvi-tfor. quo* f*. 
das , que le lhe punhao por homens Letrados » que 9 uitur verh » 
fe achavao prefentesj porque foy excellente Theolo- Breviar * c - &. 
go, Orador, e Poeta. Andao impreffas muitas obras^** 
iuas de exquifita erudiqao y raro juizo » e agudeza , 
efpecialmente de antiguidades , de que foy curiofiili. 
mo, edoutifiimo, como notou o mefmo Vafeo e o/w. » p«/;- 
Jeronymo Oforio. ' hiji.Re&Em^ 

5 Foy Refende na averiguaqao das coufas anti. 
gas primeiro (em fegundo ategora : aflim como foy 
tambem o primeiro , que em Portugal abrio as fontes 
da Antiguidade. Louvor de Porcio Cato , que fez em 

Italia o meimo, efcrevendo a obra de fuas Origens, tmyi. *r#*.ik 
de que faz menqao Emylio Probo. E fe os difeip.ulos*''* 
iao honra de^feu meftre , alguns infignes fahira^ de fua 
Efcola, hum dos quaes foy Achilles Eftaco , como 
diz Vafconcellos : Ex ch'jhs Schela imHgnes alhmt viri V*fmeel id 
prodiertititt inter quos [nit Achilhs Statins. Do qua! afflm ""' 
por efte refpeito, como por razao do fangue, dare? aL 
guma noticia, Bb $ Foy 



/- 



vita* 



Burros /. 9. 
c> 12. Dec, j t 



j 94 VayUs Amiguidadet 

6 Foy Achilles Eftaco, filho de Paulo Nunes Ef- 
taco * homem , cue nas armas tcve nome , de que fas 
menc^d' Joao de Burros na fuaTerceira Decada da Ada. 
O qua! foy Cavalleiro da Qrdem deChritlo, e Capi- 
tal da Torre de Setuval. Fez algumas coufas notaveis,' 
que derao materia a feu filho para fazer hum Tratado, 
que intitulou : De rtbtts geflit patris met. Achilles Ef- 
taqo depois de ter dado mo (Iras de feu bom ingenho 
no eftudo das Letras, foy-fe delle Reyno, e depois 
eftudou em Lovania , e em Paris, e finalmente paf- 
fando-fe a Roma foy recebido entre os principaes Le- 
trados daquelle tempo. FoyTheoIogo, Orador, Pod- 
ta, e muito douto nas linguas. O Papa Pio Quarto 
o deputou para it ao Concilio Tridentino por hum 
dos Secretanos , polio que nao foy, mas em Roma 
exercitou efte officio. Pio Quinto o chamou em Pa- 
Jacio para Secretario das coufas Latinas. Gregorio XI II 
Jhe deu fempre a parte de Palacio. Em Portugal Ihc 
foy muito affeicoado o Infante D. Luiz, e juntamen- 
te a feu pay, como elle moftra nos Verfos- feguintes 
de huma Sylva efcrita ao Infante* que he a prirneira 
das iuas impreffas , e ao meimo Infante dedicadas. 




7 EIRey pom Sebafth-6 Ihe mandou offerecec 

bonrofps partidos » para que viefle para a Torre do 

Tombo , e efcrevefle os fettos dos Portuguezes : mas 

porque hum Miniftro. , que ifto tratava , elle meimo 

o eftorvava * nno veyo, Teve em Roma tanto nome 

N4wr. »« «p«- em letras, que o Doutor Navarro -em huma Epiftola 

re d e reduibus ]he chama honra de Portugal ; e Julio Lipiio dtz , 

ff c ^- que foy homem de grande ingenho , e de muita it 

Z?l'un m ii!'w& En * re as alfavas de cafa * as ^ ue e1le roais efti " 
fiionum 1. u mava > e bulcava , erao Iwos. E na verdade iem el- 
<*f. 1. lei 



$)e Tortugal Cap. X LV. 1 9 1 ' 

les na6 ie p6de iaber, nem elcrever , o qual he tao 
certo,*que foigara, de naoter dido tanta expdrienciav 
Conta CtinitcTi que louvando Angelo "Policiano a Cf «* ;,< *" A /' < " 
Joao Pico Mirandiila.de feu grande ingenho. e erudi* -][''^" P X™ 
qao y Mirandula lHe reipondeo, que 'nelle'natf' hayia" 1 
que louvar, mas que pozefle os olhos em feus traba«» 
Ihoss, c vigilias , e juntarnente na grande Hvraria, que 
tinha , cheya de todo genero de volumes: dando a en- 
tender^ que daqut lhe viera , o de que elle o lou- 
vava. 

8 Tornando ao propofito j Achilles Eftaqo fez 
outra em quantidade* e variedade de livros excellen- 
te, a qual deixou por fua morte aos Padres da Con- 
gregaqao do Oratorio de Roma, a que foy muito af« 
feigoado , e em cuja Igreja (e mandou fepultar, a qual 
el les puzerao em huma grande, e formofa fala com 
hum letreiro iobre a por^a , que diz : BibUoHcha S$a» 
tuna, Fora6 eftes lirros os inftrumentos, com que o 
Cardeal Baronio fez o bello ediricio de feus Annaes* 
e affim as Notaqoens do Martyrolo^io Romano , on- 
de faz muitas vezes menqaS de Achilles Eftaqo, e 
elpecialmente nas Notaqoens do Martyrologio fallan- 
do de iua Hvraria , diz as palavras feguintes : Cups •.'■ , 

/». . r 1 • .. • 1 t • _.'. z. Daren, in Not* 

prdfattonem , que defidertntur tn c&tsris^legiwms tn vet.ma- Mitrt Rom ^ 

vuftr. codice no fir a Btblioteca , quam poffidemus liforalita* ^ ■.i'y 0n u*K 

te pit memoriA tptimi , Ac eruditifimi viri AcHllis Statti in Vepofitrqne 

Luftuni. Foy Achilles Eftaeo mais ditofo pelo nome, ss a fii.& it. 

e refplendor, que fempre lhe darao os efcritos deftej^" £ 

doutiflimo Cardeal, que por o que elle alcancou cotir& m(irfa 

as obrasj que compoz, porque muito poucas dellas 

fahirao a luz , pofto que neltas fe ve bem a viveza de 

ingenho, juizo , e erudiqao de feu Autor* 



. 



Bb ii 



CAPI« 



~: 



M 



'; t 



196 V arias Amiguiddes 
CAPITULO XLV. 

Do proveito das Univerfidades: que alias fazem os 

E/critores, e que a de Coimbra pouco depots 

de come far , come $ on log» de acabar. 

1 TV K As tornando ao meftre defte difcipnlo; 
l\/ 1 foy^efgra^a nao" fe iervir filRey de feu 
^ T A talento em alguma coufa de importan- 
ce , porque como a honra , e humanidade do Rey ef- 
perte os bons ingenhos , como diz Plutarcho , tudo 
riut de Alex . . ' encie fizera nao fo com a diligencia , ingenho , e 
fortune i.>ir- m f°> 9 ue Morales Ihe attribue , mas em eftyllo.qual 
me erat. p- ° » eu » he graviflimo 4 de que fe feguira, fe me nao 
ferine* en_rano > honra , e utilidade publics : e tambem fe fe- 
guira , que deixara de fer pobre , de que algumas ve- 
zes fe qusixa, porque osferviqos, em quevay o go» 
Hefeit*nus ,»tto do Rey, e honra 4a Republiea, nao podem carer 
iptfiad Card, cet de born premicv 

^if. & i gn «t. z e affim lemos j> que o grartde Alexandre deu a 
Mweum. Ariftoteles oitocentos talentos , por eicrever a Hi- 
ftoria dos Animaes , que fao quatro contos,e oitenta 
Tsud. de 40* mil cruzados pela conta deBudeo, como eft e mefmo 
1%. Author refere no fegundo livro de Affe, eCrinito na 

£f<»*./.4.M. Honefta Difciplina. 

3 Mas porque as inclinaqoens dos Principes fao 
differentes* e nem todos os Reys fao Alexandras J 
quero aqui lembrar a grande commodidade> que para 
iflo trazem as Univerfidades bem ordenadas, em que 
ha ProfeiTores publicos , e fall aria dos de todas asAr- 
tes, e Sciencias, dedicados cadaqual a liqag de fua fa- 
culdade i para o que a emula^ao > e oppofiqao os faz 
mais idoneos, como )i houve na de Coimbra, que 
depols Ihe fora6 tirados, deix*ndo fomente os da 
Teolopa , Canones, Leys, e Medicina. 

4 P6de-fe queixar a Sagrada Theologia, pela pri- 
yaiem da companhia, e ornato da Mathematica , Fi- 

lofofia* 



T>e Portugal Cap. XLF* 197 

Iofofia, Logica, Rhesoiica', easmais Artes ^efte ge- 
nerd Hdas por taes P.ofeiloies , que Santo Thomas j.s.-rhSm.-p.i: 
e Sao Dionyfio Areopagita Ihe dao por Ancillas. E nos w?? •<*"•*. 
tambem nos podemos queixar , pelo que fe nos tiro u Dhn a P utf p- 
com taes Artes, que nifto fe vera claramente, porque fc* w "*, , * 
ellas derao aos Socrates , Ar iiloteles , Demofthenes ;.. rka perMithJ 
Thucydides, Catoens ,' Tullios , Livios , Cy prianos h jyngdumi 
Jeronymos, Agoflinhos, Orofios, e inflnidade de El- T 

critores outros, cujas obras na5 fe pdde explicar de 
quanta utilidade fejao. 

S t)os quaes homens ha nefte Reyno grande 
felta j e efpecialmente vemos v que vcm Eftrangeiros , . .„ 

a Portugal a efcrever noflas cbuias , como le fofle- 
mos n6s alguns barbaros , ou Portugal nao criafle in-, 
genhos , que applicando-fe o podeffem fazer muito 
melhor, como hum Andre de Refende , hum Diogo 
de Teve, e outros muitos, que poderamos ter > r ie a 
Uniyerfidade perfeverara na ordem , em que comegoiif 
com meftres eminentiffimos de Letras humanas , cu-> 
jos difcipulos affim nas linguas Latina, e Grega » co- 
mo na Filoforla derao a efte Reyno nao pequeno lu- 
ftre, e honra, como notou Francifco de Andrada. 

6 Porque os premios movem as vontadesj e ef- 
tas fazem.os Artifices, os quaes depois o amor da pro- 
fiflao convida a frutificar em beneficio commum. E 
quando para ifto falta® os talentos de Alexandro * o 
gofto de empregar o proprio, e natural em alguma 
obra de louvor , pode muitas vezes tanto, que (orTre, 
e vence todo trabalho por fahir convella. Como ve«; 
mos nos dous homens, que nomeey , Lentes naquel- 
la Univerfidade , os quaes pela afleiqsS , que tinhao 
as letras, efcteverao algu mas obras \ Refende as An- 
tiguidades de Lufitania j e outras ; e Teve o Cerco 
de Dio, que ie muito eftimao, e dos doutos fao muy 
louvadas. 

7 Demodo, que os fallarios publicos de tpdas 
as faculdades, ia6 de grande importanda affim para 
a Mageftade, e perfe4$aS de E (colas., que tern nome 
lie Univerfidade, como para todos 05 outros prpvei- 

ios, 



An&rtstfa na 
€bron!dEtRijr. 
D. <$ow III; • 






T9$ Varhs Aniiguidades* 

tos/que fe tirao das Univerh Jades inteiras , e bettf 
l**»r*Mw ordenadas, comb iao todas as cmis principaes daChvU 
f o». i. i ^ ftandade, e 6 foy a de Coimbra , da qual hoje'riaa 
E/>e> ^ temGs mais, ijue huma rnetade , porque a outra le- 
Fr»«/fec ^ you temp0t e na 6 ihe valeo o antepaco da ordem 

geral das outras, que a fama celebra. 

8 Mai lofFrera ifto Filippe Rey de Macedonia 
Tr.fieMnu de Alexandro f do qua! feeicreve, que aconlelha- 
™ tl -™ eaut & a de alguns, *[ue contra os Athenienfes ie tewrafc 

' fe afperamente , chamou-lhes nefcios por acoldharem. 

VutinApoph'Z quern tudo fazia , e (offria pek gloria, que mal 

inPhUipp. ftatafle ao theatro da gloria. Sigmficando aquelia no- 

reritiffima Cidade , que toda era huma Univerfidade 

ch'eya de homens doutifiimos em diverfas Sciencias t 

dos quaes elle pertendia alcancar approvaqao de iuas 

virtudes. ■ ±- 

9 Mai o Imperador Veipaziano* que do Filco 
Real deu fallarios aos Lentes da Rhetorica Latina , e 
Grega querendo ier o primeiro na gloria defte fei- 

^LmreAto, do que da teftimunho Suetonio. Mal o Impera- 

fitis dor Antonino Pio , o qual deu os mcfcnos iallanos g 

nao (6 a Rhetoricos , mas tambem a Fiiolofos , e alem 

difto honras, e governos de Provincias , como diz l on- 

9«**n *«.tino.-E AleXandro de Alexandro accrefcenta, que os> 

leraiLe! mandou dar em todas as Provincias do Impeno. Po- 

^iex./.t.civfto que em Hefpanha o tinha )a fetto o Capitao Ser- 

torio na Univerfidade , que inftituio na grande Cidaf 

Tiut.ins.rtor de de OfchaV'de que ainda fe prezao os Oichenies, 

e o datf por Fundador, da que hoje ha naquella iU 

dade. Verdade he, que tudo ifto fora6 comecos de Uni- 

Verddadesy mas depois t3e declinar o Imperio , e crel-* 

C& a Reli^tao^hrlftaa , fe fora6 perfeiqoando. Pri- 

rtipiramenfe o Imperador Carolo Ma^no inftituio a de 

w. fe* toriz em Franca,' e a de Pavia em Italia trazendo ho- 

Pnnc tp U<'» mens doutiffimos de todas as partes, legundo Kgna- 

earth m. f ro B^pti^a , prbciTando-o Alcuino » meftre do tfito 

V'imerMAj- $#&#$$ $#$ ditfPalrherio. E h-vendo tanto, que 

^Tm^tsm « ouna*UniverfiMt-s comeqara6 , ainda durao, 

m ova. 79 i 6 a notta pouco depbis deebmeqar ,' aanrteoou lop;o ad 

ZA acabafc. 



De Toritygd. Ctp.XLFL % 9 9 

acabar. E n6s tamb^sv asab^mos de lamentar > o que. 
curar nao podemos. 



CAPITULO XL VI. 






Que Evora foy dedicada a Vir&em Neffk Senhora, 

i qui anugamenu fe chamou Ebora, 

e depots EUora. 



E 



Tornando ao propofito, Andre de Refen- 
de efcreveo a antiguidade de Evora > e de- 



pois delle fez o mefmo em lingoa Lat\na 
Diogo Mendes de VafconceUos , com titulo ds Muni« 
cipio Eborenfe , aos quaes Authores remetto o Leitor^ 
-que difto quizer laber mais. So direy f o que t«az Fer* 
reolo Paulinate, e he, que EiRey Dom &Bm(o Men- ^ r ™ f **ff 
rjques dedicou aGidade de Evora com feu territodoj^.j" 
a Virgem Nofla Senhora. Na6 he novo ifto em Pre- 
cipes devotes, porque Nicephoro Callyfto efcreve> que McepK /. «, 
o grande.Conftantino dedieou Gonftantinopla ameM- **• 
ma Senhora , o que tambem aifirma Luiz Vives fobre^w iS /. s j 
Santo Agoftinho no quinto da Cidade de Deos. f **• * 

2 Tratemos do name antigo de Evora. Os Ro- 
manos Ihe chamarao Ebora. Affim Ihe chamou Plinio,t ?/ " , - H '7 ? - / -4« 
A^eia f e Antonino no Itinerario : e prpva-fe pelare-V, 1 ', k 
giao,efitio , em que a poenf: tasnbem fe prova pot "■?'*?? 
iviuitos Jetreiros de Romanos \ que nella ha, em 
que fe le efte nome, os quaes tfaz Refende, e Va£ 
concellos, e eu vi aIguns v 4endo moco , e podera; vec 
todos, (e cuidara, que em algum tempo me podia 
ifio fervir, mas como diz o Poefa Statioj 

i i L ■ ■ ■ I !■ 

§uii crdfiind wehtrtt a(a$ 
Scire nefas hominu 

% O nome Ebora por decurfo do tempo fecom- 
fempeo as £lboia, piinxi|)alm^ a te ao olo Ecclefia- 

ftkoj 



SHU}. 7k& 






• 



1 



too /^m^JhiguiAade? 

KeftndnaAn-ftkoy e olz Refende f que aifirii ie chamou nos BrS- 

i^. i^Bv9.«.i.viarios f e Miflaes dalgreja de Evora,feitos. ate o feu 

Veiiater.Geogr. tem p 0# g, Volaterrano tallando nefta Cidade traz am- 

l.t.tf.^^e//».^ os os ^laeg^pQr e ^ as palavras: Ehora item t jHtnio % 

& Antotibdt, fctbtrcnfi's nnni urfo. A qual* cairup^ao he 

tao antiga T que provalmente ja era em tempo da per- 

(eguFqad , Netn que^os Marfyres V ioente , e iuas Irmaas 

padecerao., 

4 Para ifto fe deve taber , que efta Gidade foy 

lb & &pi 4co P a! defde o tempo dos Apoftolos. Pregou a Fe 

SrZh. ° r ' aos Eborenfes Sao Mancio difcipulo de Nofto Senhor 

JE$U Ghrifto, o qual fe achou em Jerusalem na firoa 

ciffao de Ramos , e na Cea do Senhor , e fervio no 

Lavatorio dos pes, e vio a Chrifto vivo, e morto , 

e relufcitado , erecebeo o Efpkito Santo com os mais 

Difcipulos. E nao fe eipante o Leitot , fe nao acftai 

gejrut me*.* ^ao M^cfo entre osfetenta e dous Difcipulos de 

X/. A* c.i.^o Chrifto, que nomea o Bifpo Pedro, e outros, porque 

Jiufeb.Hifi.u.e\\es forao muitos mais; como prova Kufebio Cefa- 

*• M- rienfe. Celebrao as Igrejas Rborenfe , e Bracarenfe fua 

f efta a 2 1 de Mayo , pofto que o Martyrologio RoJ 

mano novo a poem aos if. Vafeo , e Morales efcre- 

t \ r.i iv.-^vem leu Martyrio , e principalmente a Cidade de Evo* 

•'<* ¥a o reconhece, e fefteja como feu primeiro Bifpo, 

e por tal o poem Jeronymo Oforio no feu Cathalogo 

•♦ dos Bifpos de Evora. 

j Depots em tempo do Imperador Conftantino 
fe cekbrou o Concilio Eliberino , ou EliberitaF.o , 
convem a faber -de Elvira* "Cidade agora deftruida, que 
■entao era xabegi do Bilpado , que fe paflbu a Gra- 
nada , ao qual Concilio foy Quinciano Bilpo de Evo- 
ra „ e afltgnoufe no penukimo lugar por eftas palavras: 
Quhtiaitts EpUs Elburen. Refende , e Vafconcellos nos 
livros alles^ados dizem , que efte Ouinciano foy Bif« 
Vafeuttm. i.po de Evorty.% taHlbetff c>diz Vafeo'pbr eftas pala- 
ih imtie. (.to. vras traduzidns em Postupuez : ,, Eborentis , os Roma« 
intrtamb. nos dizem Elborenfe. Ebora he Cidade de Lufitania 
,,muito celebre, e muito nobre, por nella refidirem 
, r muitas veaes os Revs de Portugal, dujoBifpatftf ** 

»ve 



!••' 



T)e Portugal. Cap. XLF1. 20 1 

;, ve fer antiquiflimo , porque os Eborenfes tiverao ao 
„ Beato Mando dilcipulo de J ESU Chrifto por pri- 
ii meiro Prcgador da palavra Divina , e, como he ve- 
rt roftmil , por Bifpo. Quinciano Bifpo tambem defta 
„ Cidade foy prefente no Concilio kliberitaao* Ate 
aqui fa6 as palavras de Vafeo. 

6 Efte Concilio celebrou-fe no anno do Senhor M(tY , 
314, fegundo o traz Morales de muitos originaes an- # . '3 J/' * Ia - 
tigos dos Conciiios ; e ja entao p nome daqueila Ci- 
dade andava corrupto j e havia 16 vinte annos, co- 
mo fente o mefmo Author, allegando a Santo Agcy ^ /tt/ ' 
ftinho , que comeqara a perfeguiqao em Hefpanha por c*™" ' 
mandado de Diocleciano , e Maximiano , que foy no 
anno do Senhor 504. E Vafeo, e Antonio de Cianca Vafeus t» m .i. 
poem o martyrio de Sao Vicente , s. de fuas irmaas*"""' D &*■ 
no anno de 306. De modo , que defoito annos depcis (* b J iitr <' ' *> 
de Sao Vicente, achamps ja corrupto o nome Elbora ^"TseJmL 
no Bifpo Quinciano, e he de crer, que aflim eftava /. 1. c. H. 

ja quando os Santos forao martyrizados , porque Sao 
Braulio havia de trasladar fielmente , o que delles 
achou efcrito em memorias antigas. 

7 E fe feguimos ao Cardeal Baronio, que poem £,„„;;„ ipto 
o Concilio Eliberino no anno de Chrifto de 307, em Hem. spLd. 
tempo dos Imperacicres Conftancio, e Galerico, fe- *»»• z>. joj*. 
gue-fe, pois nelle fe affignou o Biipo Quinciano El. "» 4 * 
borenfe, que antes da martyrio de Sao Vicente, e de 

fuas irmaas , o nome de Hlbora andava corrupto, pois 
conforme a Baronio aquelle Concilio precedeo p feu 
martyrio por tempo de hum anno, porque elles pa- 
decerao no anno de 306,, cpmo dizem ps ijLuthores 
alle^ado?. 

8 Morales tambem diz , que o proprio nome de- 
fta Cidade foy Ebora. E noutro lugar diz , que os e Mo ™ U l L *< 
Godos lho corromperaS em Elbora, corao nos Conci- 
iios de Hefpanha parece , e fe confirma mais com idem. L v^ 
moedas de ouro daquelles Reys, que temo nome de c n. 
Elbora. Atequi Morales. Mas nao foraS os Godos, os 

que corromperao efte nome, porque ja em tempo de 
Conftantino, e antes delle, conforme a Baronio, eCr 

Cc " tava 



2Qz farias -Antigua fifcs 

tava corrupto , como moftrey : e os-Godos com feii 
saUV. Jinn. s. R e y Athaulpho entraVio em Hefpanha depots em tern- 
Orofii "i podo Irn P^ ador Honorio, como dizem Sabellico, Pau- 
iC//> i»cfcr Jo Orofio , eoutros , e precifamente S. Profpero poem 
Va/ea% tom. i. iua entrada no anno do Senhor 417 , com o qual con- 
turn D. 417. corda Vafeo. 



CAPITULO XLVII. 

D* moedas ant /gas com nome de Elbora. Qui 

Sao Brauho teve noticia defta Cidade. Prova- 

fe 9 qm Sao Ficente , e fuas Irmaas 

joraa naturaes delta. 



D 



A6 tambem teflimunho da corrupt da* 

quelle nome moedas, que (e achao dos 

Aefs Gb&tifi *m que elle efta. Diz Mo- 

Mouths i si; rales, que teve huma de ouro d'EJRey Reccaredo com 

*• 4» feu roltro de ambas as partes , e feu nome efcrito 

em huma , e na outra dizia , Elbora jufttts, E logo de- 

,n (Vr%t/t ^-cteva , que efta Cidade era Evora de Portugal. E eii 

tehho outra tambem de^utto Rey com leu roftro em 

ambas as partes $ e em huma diz: Rtcc&mus Rex, e 

•na outra ^ywjtmflvota. , com a letra v em lugar do b. 

R>einou Reccaredo tjuinze annos, e faleceo, iegundo 

nufees mp. Jllefoas, no anno do Senhor 601. Donde fe colligej 

P nR I'wid'' ^ ue e ^ a dtete «* »«ito conhecida em Hefpanha , 
en ecean *. poi$ ^ ^^ ^ andava *rm fno€das , que corriao em 

toda el la. 

1. E Sa6 Braulio afilm por efta ta«a6 , como por^ 
x;w. 8« yitt* que eftudou em Sevilha as Sciencias Divinas, c hu- 
4t s. Brauite.mams j nao duvido, que teve noticia da Cidade de 
Elbora, que della difta trinta e cinco legoas, pouco 
irais , ou menos. Mas depois que foy Bifpo de Qara- 
jgoca, teve occafia6 para a ter muito mayor, porque 
fe achou no ^quarto j e fexto Concilio To'edano, nos 
quaes fe achow taniem Sififclo Bifpe Elborenfe , <e 

ambos 



4*1 



DeTortugd.Cdp.XLFIL to? 

arnbos eftes Preladoi eftad aflignados neftes dous Qm* 

cilios , o de Elbora primeiro , que ode^aragccs. Foy 

iflo nos annos do Senhor feiscentos Uinta e quatra, 

e feiscentos ttinta e ieis > fegundo a conta de Mo • M«r4/« /• n, 

tales. , '■ . «.i9.^*j. 

3 E pois elle efcrevendo © martyrio de S. Vi- 
cente, fallou em Elbora, fe houvera outra de que 
fallara , e nao da nofTa, de que tinha noticia, e cujo 
Bifpo conhecia, fallara com diftinc$ao , edeclaraca5, 
para fe ehtender de qual fallava , mas pois ifto nao 
fez , 'e efta Cidade era nobre , e ccnhedda em toda a 
Hefpanha, claro he, que fallou della. E podefecon- 
jecturar , que efcrevendo Sao Brauiio hiftorias de San- 
tos de Hefpanha, e cornmunicando alJi-com os Bifpos 
de ioda ella 9 trabalharia de engender delles, o que 
delta materia tinhao em fuas Jgrejas , e entao haveria 
do Bifpo de Elbora a reiacao , que daquelles Santos 
Martyres deixcu efcrita. 

4 Porque he coufa antiquiflima a Igreja Eboren- 
le cantarlhes ieu Officio , e aquella Cidade conhecel- 
los por naturaes , e Padroeiros, e converterlhes a ca« 
fa , em que moraraS , em Templo de fua advocacao, 
e por efte fer muito antigo, e pequeno , levanrarlhes 
outro nao ha muitos annos de melhor architectura, e 
confervarfe a pedra com as pegadas do Santo, afiim 
no Templo antigo , como no moderno , pofto que os 
devotos a tern em grao parte gaftada , tirando pos de 
que fe aproveitao para maleitas, e outras enfermida- 
des. ' 

f Bern fey , que os vifinhos de Talavera moftrao 
outro Templo defies Santos, como diz Joao de Ma- 
riana. Sao artificlos, filhos da eompetencia, que el-' 
tes podem moftrar ; mas antiguidade do lugar , e do 
nome , nao podem. Muitas conjecturas accumulou pa- 
ra iftoo mefmo Mariana, mas todas muy fracas. Por $ M $ de M* 
Talavera eftar entre Toled© , e Avila , nao (e'fegue ■"'««• U 
fer ella Elbcra , onde Daciano foy, nome, que eliaH-. 
nunca teve. E por Elbora, cu Evorade Portugal ef- 
tai deiviada, nao ie iegue j que Daciano nao foile 14, 

Cc ii mas 



<.i) 






a 04 



Farias 'dntlpuiiadei 






mas antes fe prova claramsate, que foy pacificar os 

EbDrenfes, e Pacenfes, iito he os naturaes de Beja , 

que contendiaS fobre os Termos. D j que da teftimu- 

nho hum formolo letreiro Romano, que efta no Lu- 

. gar de Oiola entre Evora , e Bsja t em huma grande 

*ffi* P^ ra ' oqwii. traz o Doutor Andre de Refende, e 

- n6* o poremos tambem aquiera confirmacao de noflj 

propofito. 

DD. NN. AETERN. IMPP. 
C. AVR. VALERIO. IOVIO. 

DIOCLETIANO. ET M. AVR. 

VALERIO. ERCVLEO MAXIMI- 

ANO PUS FEL. SEMPER AVGG. 



TERMINVS. INTER PACENS. ET 
EBOR&NS. GVRANTE P. DATIANO 
V.P. PRAESIDE. HH. N. M. Q. EOR- 
VM DEVOTISSIMCK 

Ifto he. 

ANoflos Senhores , eternos Imperadores Cayo Aa» 
relio, Valeriojovio, Diocleciano, e Marco Au- 
relio, Valerio, Erculeo Maximiano » pios, felices^ 
iempre Auguftos. Termo entre os Pacenfes, e Eboren- 
ies por ordem de Publio Daciano , Varao patricio , 
Prefidente das Hefpanhas, de iua divindade, e ma- 
geihde devotiffimo, 

6 Efte motivo he de crer levou Daciano a Evo- 
ra , onde mandou prender a S, Vicente , e iuas lrmajs, 
como diz o Breviario Eborenie , e muitos Authores. 
M#r<ti. h io. Pelas quaes razoens Morales nao pode negar ferern 
t if. naturaes de Evora por muitos relpeitds, diz eile, que 

Rom4».i>aRtf. p ara i(j- concorrem- Eo Padre Frcy Jeronymo Roma« 
c6rv r /.y. f .ii.^ o di2 ^ ^ ue rj ac j ano fehindo da Bethica ie raeteo pe4 

lo 




De Tortugal.Cap.XLy II. 205 

3o que hoje chaiTuo Portugal , ate chegar a Cidade 
de Evora, habitaqao antiga de Quinto Sertotio , e 
que alii lhe efcaparao os Santos Martyres Vicente, 
Sabina, e Chrifleta , e fe paffaraS a Avila, onde el- 
le melmo os fez martyrizar. Garibay tambem diz, que G(4 „-^ 
fora6 naturaes da Cidade de Evora eoi Portugal], Ocomp.L7.T4i 
Meftre Vafeo efcreve, que fao Ciciadaos de Evora erry f 1 
Portugal, e na6 do lugar chamado Talavera , corned, ? V<T$ 
alguns fonha£>. Gafpar Barreiros diz, que Lucio Ma-fewK. 
rineo fe enganou em dizer , que eftes Santos forac 5 * rr " r * » 4 
naturaes de Evora, cuja cafa efta convertida em hw < ^ or %- tit ' A 
ma Igreja , em que fao venerados. Diogo Merides de 4 

Vaiconcellos lhe da por patria a mefma Cidade de 
Hvora no liyro, que intitulou: De munkipia Eiortnji; 
do mefmo parecer he o MartyroJogio dos Santos de Martyr Jh%^ 
Portugal. othi> t 

7 Tambem o affirma o Doutot Refende na Hi- 
floria da Antiguidade de Evora ; e na Epiltola a Bar- 
tholomeo Kebedo o prova com grande erudicao. E 
de tempo antiquiffimo, o diz Breviario antigo da 
Jgreja Eborenfe , e o da Ordem de S. Bento em Por* 

tugal , e outros , que refere Ambrofio de Morales , Moral - L , io: 
que eu nao vi. Ultimamente o traz o Cardeal Ceiar J J.*^ die 
Baronio nas Notaqoens do Martyrologio Romano V^rS/.'' 1 * 
onde tratando de alguns Santos, que houYe em Hel- 
panha defte nome, affirma, que houve hum natural 
de Evora , que padeceo em Avila com iuas Irmaas Sa- 
bina, e Chufteta , cujas palavras fao as feguintes s 
JilittS) qui patria Eborenfls , Abul& una cum Sabina , 0* 
Chrifietide fororibut fraflUs efl. 

8 Sobre o lugar, onde ao prefente eftaS feus r . ' ;,. 
Santos Corpos, tambem ha outra contesda. Antonio „ '* r 
de Cianca natural de Avila, na Hiftoria de S, Segun- 

do primeiro Bifpo daquella Cidaie, diz ,' que eftao 
em Avila na Igreja de Sao Vicente, e que oGura , e 
Beneficiados della todbs os Sabbados fazem huma Pro» 
ciflao na Igreja aos fens fepulchros. Fr.Athanaf.no 

9 _ Frey Athanafio de Lobera efcreve , que EIR^ £.?£££ 
Pom Fernando o Magno, os trasladou <te Avila pa^, aaadt %; 

Leao,i««£ h ih 







t06 Farias Antigmdades 

Lead, e os poz em huraa area uc Ouro no Mofteiro 
de Santo Ifidoro, onde eftao, como te le em huma 
pedra do mefmo Mofteiro da Era nog. Lembra-me 
Wtronyt*. «» dizer Sao jeronymo, que furtando Heiychio , -ditci- 
v u* Hilar, *» pulo d e g mof Hilariao ♦ o Corpo defte Santo na Uha 
™ u de Chypre , e kvancjo-o para Paleftina , contendtad 

os Paieftinos com os Chypriotas , dizendo aqueiles , 
que tlnhao feu corpo , e eftes o (eu efpirito. Fazia6« 
fe muitos milagres em ambas as partes , mas mais eai 
Chypre no lugar de fua fepuitura, que parece amava 
^ mais aquelle lugar , como fente o mefmo Sao jero- 

nymo. 

10 Tornando aos Avtleles, e Leonefes, eu nao 
quero (er juiz de fua contends, mas.Ierabro, qusos 
Avilefes tern por (i a tradicaS antiga, e os milagres, 
que muitas vezes acontecerao aos que hiaC jurar ao 
fepulchro de Sao Vicente de Avila, o qual juramsnto 
os Reys Catholicos vedarao com graves penas nas Leys 

l6 de Toro, (egundo diz Frey Jeronymo Romano , na 
' fua Republica Chriftaa , onde diz tambem , que os 
Avilefes poffuem aCorpo( de Sao Vicente. Mas nao 
baftando ifto, ficarlhes ha o feu efpirito , de que fe 
poderao gloriar, como faziao os Chypriotas. Pofto que 
fe pole dizer, que parte daquelle Santo Corpo ficou 
em A vila , e parte levou EIRey para Leao. 

1 1 Ifto fe me offereceo dizer 2cerca da patria 
defies f agrados Martyres , que tenho mofltedo fer a Ci- 
dade de Evora. Muito eftimey haver occafiad, em que 
aellai e a elles preftafle coma penna, conforme ao 
ditode Plato, que na6 fomente nalcemos para nos, 

M !' \ 6 'a mas P ara a P* tria » P avs > e ami g° s « A, « m difto fico 
dit T4rtnt t f "pagando as divides do berco, e da primeira idade, e 
aflim al^umas letras, que nella aprendi, por ordem, 
e liberaUdala do Cardeal Infante D. Henrique, que 
depois toy Rsy defies Reynos , ao qual me finto mui- 
to obrigado , aflim por efte beneflcio , como pelo da 
criaqao , que em fua Cafa tive delde menino de dcz 

annos: IV' . . 

i % Ajuntarao-ie ncfte Sereniffimo Principe as duas 

digai- 



Rm. i i.e. 



s-S 



'DeTcrtugal.Cap.XLVHI. 207 

ifltgnidades , Saceraotal , e Real , como nos an tigr $£?»'<»?& i t 
Reys do Egypto, e como em Mekhiiedech , e em Job, l(ide * & Qfi* 
e com ellas muitaseiperarcas de bom govern©, c|-tjal^ fM<A 
entao as coufas defte Reynohaviao mifter. Mas come/*, »«*/#. 
depois de ier Rey vivefle pcyco } e fempre enferoKvfc"" /*»#cr. 
nao pode exercitar virtudes, de que era dotado, que?"*™*"' 
certo forao dignas de imperio* e que fe vivera, &ef^ j*^ 
tJerao fscilmente o titulo de pay da pstria. SendoCaT-^ f * ww * rf ,J|^ 
deal Infante fundou a Univerfidade de Evora, onde/a^ Wr«r«s a 
folgava, que todos aprendeffem ; e affim quiz, que 
eu o fizefie tambem , mandando-me dar nas Efcolag 
a moradfa > que em fua cafa tin ha. No -que fe pode 
nofar quanto favorecia as boss artes s e difciplinas, 
pois fe tinha por melhorfervido de quern eiludava,, 
que de quern o fervia Fiz delle aqui menqao' por ier 
geralmente benernerito de toda nofia familia , e par* 
ticularmente por fer jufto, e devido, que da arvore, 
«jue elle creou , e cultivou , lhe offerees eu o fru&o; 
que polTo , e nao poflb outro , fenao cite de memo- 
ria. 

CAPITULO XLVIII. 

Como EIRey Dom Joa% Primtiro foy & pe em ro- 
ta arta a Santa Maria de Ottveira^ * da f al- 
ia , que lhe fez , e Cafa, que lhe mandou 
fazer, eprata, e Prwikgios * , 
que lhe dtUi 

* 1 ~? LRey Dom Joao Primeiro deile fiome, de- 
f"1 pois de akancjar a vttoria dc Algtbarrota, 
**— 'que foy no anno do Senhor 15%, veyo 
cm romaria a pe , como diz Garibay , dar as gramas G'riiy *» 
della a Nofla Senhora da Oliveira , e eftando em tea Ci)m P- '• 3*. 
Igreia, conta o Livro d^s Milagresdefra Senhora, gut"** 
lhe fallou defte fl&aneira: „ Senhora, eu con&fto', « 
i>quero,que todos faibao, que eu por vo#a vtitude 

„ foment© 



20S Fariar JniipuiJaJer 






,, iomente vend efh Batalha , e que no ponto, e he* 
„ ra , em que eftava para nella entrar,dey hum gran- 
ge efpirro, o qual houve, e tomey por muy gran- 
„ de agouro , polo qual cefley por entonces hum pe- 
„daqo de mover para ella , no qual efpaqo me dei- 
„ tey debruqos , e non ley fe dormindo ; fe acordado; 
„porem pofto em muy grande penfamento, e agonia 
j, vi em vilaS aquefta vofla Cafa tal , que janda ago- 
,, ra vejo , com aquefta Oliveira , e veyo-me ao enten- 
„dimento, que eu por exemplo do primeiro Rey me 
n devia encomendar a Vos, e haver por tomadas as 
„minhas armas da vofla mao: polo qual eu logo vo- 
,,tey, e prometti de fazer, o que agora faqo , dizen* 
j, do em minha oracao : Eu vos peqo , Senhora , de 
M grande* merce , affim como Vos ao dito Rey Dom 
„ Affonlo foftes principio da quelle Reyno » iejais a 
„mim, voftb devoto j defenion delle. E entonces lhe 
„mandou por as ditas armas ecn cima do feu Altar, 
,j dizendo: Vos , Senhora t mas defies, Vos as tomay, 
j,e guarday. Ifto diz aquelle Livro. 

2 Mis primero elle armado de^todas ellas, fe 
mandou pezar a prata, e a deu a Nofta Senhora de 
ofFerta. Da qual fe fez o retabolo de prata do Prefe- 
pio de Chrifto Noflo Senhor, que nos dias folemnes 
fe poem no Altar mayor , em que eftao as Armas de- 
fte Rey.- Com elle honra efta Igreja a memoria do de 
Bethelem , que hojs efta em Roma no Templo de San- 
ta MARIA Mayor, o qual diz Sao Chryfoftomo, que 
he de barro , e fege-o Ferreoleo Paulinate. Mas Ba- 
ronio, Suares, e Azorio affirmao (er de pao. Poftue 
Roma efta preciofa antigualha , com que efta mints 
Baron. Annal. m3[ ] s [\\ u ^ te t <jo q U2 j£ e fteve com a cabana de Ro- 

TareX Init ' mu1 ° tedda de P* lha • ^ ° S RonVmOS de ^dufhia 

uares m \. con f ervarao - por mu i tos ce ntenarios de annos, do que 
DTAow.f.t* he Author Dionyfio Halicarnafleo. Fizerao fe mais de 
rfi&i?. feH. prata, que FIRey deu i doze Apoftolos , quatro An- 
ih i* fine. - quatro m?.flas , ou fceptros , huma caldeira de 
m p.'Z l i. »gM benta com feu hyflope , e hum thuribulo com 
c«£>i}. §. 6. fua naveta t l, 

3 E pot 



r Cbryfojl, In 
Luc. x. 
Ferreol. /. $• 
c 4? 



T>e Tortugal. Cap. XLFUI. 209 

3 E por o JL emplo de Nofla Senhora fer peque- 
no , e antigo , mandoulhe fazer efte , como confta 
do letreiro , que efta junto a porta principal delle da 
parte de fdra , o qual por eftar ja meyo gailado do 
tempo, o Cabidojppr coniervar a memoria detaoak 
fignalado beneficio,o mandou renovar no anno de 1608, 
e diz aifim : 

Era de M. CCCC XXV annos feis dias 
do mez de May 9 foy come $ ad a efia obra 
for mandado d'ElRey Dom Joao , dado 
fola gra§a de Deos a efte Rtmo de Por- 
tugal, Efte Rey Dom Joao houve Bata- 
lha real com EIRey Dom J oat de Cajtetla 
nos campos de Algibarrota , e foy delta 
vencedor. E a honra da vitoriajqne the 
deu Santa *M ARIA % mandou fazer 
efia obra. 



Rejponde-lke 
e anno da S§« 
nhor 1387. 



4 Nefte letreiro confeffa o pio , e forte Rey 
Dom Joao , que Santa MARIA de Guimaraens Ihe 
deu aquella importantiflima vitoria. No que" a Bem- 
dita Senhora moftrou fer Patrona da Real Coroa de 
Portugal, affim como foy Fun'dadora. Mas parece, 
que o quiz fer para aquelles Reys i que a conheciao' 
e bufcavao, e honravao , conformeao que efta eicri. 
to no primeiro livro dosReys: Qtttm mt honrar ,W 
ralohgy^ e os que dt mim n*o fazjsm cafo t nao ferao na 
vrcs. ;v, r 

f Deu EIRey cem homens Caftelhanos , dos que 
lorao prezos na Batalha , para fervicd da obra. E deu 
a Igreja muitos ornamentos , e pe^as de prata , e en- 
tre ellas hum Anjo grande douradov que efta em gec- 
kos, de vinte e hum marcos, que foy tornado na 
Batalha, e fora da Capeila d'ElRey-de Caftella, no 
qual le le efta letra : E1ia ibra mankou fazer el noble 
Snor Rey Dm J**m hijo dtl ncbreSnor Rey D§n£imiq*f. 



Duarte Nune» 
diz,jue efU 
Batalha ioy 
sntre a Villa 
de Porto de 
Mis, eAtde* 
dt Aljfbarre- 
ta. No Sum* 
mar io d'ElRey ; 
°om Jeao i&j 
£« tenbo outro 
SUmario mats, 
antigo, que 
di* » que foy 
na Chemeca „' 
onde agora efi- 
td a Ermidtt 
de s. George, 
acima da Bg~ 
talba trieya le~ 
goa , vefpera- 
de N. Senhora 
de Agofle de 
anno del\%'%, 
Keg. j, c. »« 
■*. jo. 
Livro dos 
Milagres df 
N. Senhora dm 
Oliveiret; 



■ 









mmm 



2 1 o Vmai AntlguUadet 

Ha oitenta annos, que efteAnjo (srvia de levar na* 
n aos o Santiffimo Sacramento em dia de Corpus Chri- 
iH, ena Oclava. Agora vay na Prociflao do Anjo 
Cuftodio, dehaixo de hum Pallio,como fifcudo das Ar- 
mas Reaes na mao efquerdaj e huma adaga na direi- 
ta , como Patrono , que be defte Reyno. Anjo, que 
fervio em tao alto minifterio , nao houvera de fervir 
noutro inferior : mas como as Armas de Portugal fig- 
nifiquem as Chagas de Chrifto, como adiante ie dira* 
pode-fe foflrer, que quem levou a Deos nas maos, 
leve agora a myfteriofa pintura de fuas Chagas. 

6 Tomou EIRey por feus Capellaes aos Cone-' 
gos defta Igreja , e quiz , que gozaffem dos Privile- 
ging de^Capelfees apolentados. Concedeo ao Prior, e 
Cabido , e a feus familiares , domefticos , cazeiros , 
lavradores j criados, e criadas, Privilegios paratempre, 
que nem elle mefmo, nem os Reys feus fucceflbres 
Prhikpos ^pudejTem revogar. Dos quaes a fubftancia he : „ Que 
2grejadeGui^ t t\2o paguem em fintas, nem vao com prezos, nem 
maraens, ,,com dir.heiros, nem firvao comnenhum Concelho, 
,.nem em outros encargos , nem lhe tomem mance- 
„ bos , nem tnancebas, (que aflim (e chamavao naquel^ 
3 , le tempo as mocjas de fervico) nem os filhos de feus 
j, lavradores fejao conftrangidos , que morem com 
„arno contra fuas vontades, nem velem j nem roldem. 
,, Nem pefioa alguma, por poderofa queieja, pou- 
,,ze com eiles, nem com (eus lavradores , nem lhes 
j, tomem palhas, nem cevadas, nem roupas, nem ga- 
„Hnhas, nembeftas, nem couias algumas contra fuas 
P , vontades, nem paguem em nenhum ferviqo , que 
3, pelo mefmo Rey, ou leus Confelhos for lancado, 
j,nem firvao a EIRey por mar, nem por terra, por- 
,que os havia por privilegiados , francos, e quites 
5„de todos os ditos encargos, e fervicos. Foy feita 
efta Carta defies Privilegios em Guimaraens fere de 
Novfmbro, Era de 1413* anno do S -nhor 1385V De- 
pois forao renovados por EIRey Dom Aftonlo Quin- 
to, sovernando por elle o I fante Dom Pedro, pot 
Carta feita em Guimaraens, 16 de Agofto, anno do Se- 
arihcr 1441, 7 Os 



T>e TcrtugaL Cap. XLIX. 1 1 % 

7 Os quaes eitao roborados com muitas fenten- 
qas dadas iobre a guarda delles ; e todos os Reys fuc- 
ceffores os mandarao guardar, como ainda fe dita adian- 
te , porque fora6 Chri&ianifiimos, alem de ferem Pa- 
droeiros defta Santa Igreja ; e aifim nunca quizerao 
privar a Santa Maria de Guimaraens de tao neceuario,' 
e illuftre beneficio , nem a tao illuftre Rev da execu^ 
^ao de tad fanta vontade. 

CAPITULO XLIX. 

De como huma cadella damnada tnordeo a EIRey 

Dom Joao , e do que for ijfo fez. De mats 

prat a , que deu a Santa, Maria de Gui* 

maraettS) e da Sagra$ao do Altar 

mayor , e depots de uda 

a Igreja. 



M 



Uito frequentemente acontece neftas 
partes damnarenvle caens, e muitas ve- 
zes com prejuizo : mas a Divina Provi- 
oencia deu logo remedios, que com (erem os melho- 
res, eraais certos, nao cuftao dinheiro ; e affim foy 
neceflario , efpecialmente para lavradores , que fad 
muitos , e muito pobres. Eftes fao a Cabeqa do San- 
to Abbade Fruftofo, que efta emConftantim, Termo 
de \ llla.Real , na Igreja chamada Cabeqa Santa , pot 
amor della ; de que ha fama de grandes milagres. Ou- 
tra eita entre o Porto, e Arrifana de Soufa , na Igreja 
cnamada tsmbem Cabeqa Santa , onde ha perpetuo 

c° nCUr £ de gente# ° utra efta na [ g re ' a Coliegiada de 
banta Maria de Guimaraens , a qual, por defcuido dos 
antigos, nao fabemos de que Santo feja ; chama-fe co- 
mo as outras, Cabeqa Santa; e com razao , porque 
ne de grande virtude, e efficacia contra aquelle maf; 
e alum por iua caufa he efta Igreja frequentada de 

Dd ii gente 



f'-l 












tm ParidJ jfntlguidaJei 

genre de toda efta Commarca , que a vem bufcar* e 
venerari e toca nella pao, herva, e palha para dar 
ao gadoj e a grande devocao , e concurto moftra ier 
tudo de rmraculofos effeitos. 

L 1D See ?? Santa Gabeqa eftava ja* aqui em tern- 
po d ttlKcy Dorn Joao , nao confta j mas eftando elle 
na^Quinta do Curval, e fendo alii mordido de huma 
cadella damnada T de que fentio grande moleftia, lo- 
gO Ihe lembrou Santa Maria de Guimaraens, para fe 
Ine encommendar, promettendo de a vifitar, e defe 
pezar outra vez a prata, e de lha dar em offetta; e 
aiiirn o fez. Por ventura concorreria tambem aqui a 
Jembranca da Santa Cabeqa , fe ja eftava nefta Igreia: 
porque^della na6 achey outra memoria, fena6 em hum 
anventano feito no anno 1527, por eftas palavras: 
Jttm , o*tra area de marftl chapeada de arame dourado 1 
ende c[tk a Cabe f a de hum Santo t que prefia para morde- 
auras de caent dantdos* 

I # No trabalho defte grande CapitaS, e grande 

Principe, tern os feridosdefte mal aquella confolacao, 

quebjnecadayaa Martia, matrona Romana , na mor- 

r stnec. decent de leu fllho. Mas dado , que^p mal proprio fe con- 

jaatiout a * Tole com o alheyo, com tudo nao fe cura : e o cizo 

M*rti*m.c.i*be recorrer a Deos, e aos Santos, e a fuas veneran- 

das Reliquias, porque por eUas podem os mdrtos re- 

ceber vida , quanto mais os vivos faude , como acon- 

r a. x?g 4-f.ij teceo aquelle defunto , que reiurgio j tanto que tocou 

yerftu os oflos do Profeta Eliieu; 

4 Depois o meimo Rey Dorn Joa6 , antes que 
delta Villa fe partifle para Caftdla , ouvio Mifla no 
Altar de Nofla Senhora da Oliveira , rnandando ao 
Ihezoureiro da Igreja , que lhe trouxeffe as fuas ar- 
mas , e as puzefle no Altar em quanto fe a Mifla di(- 
fefle: a qual acabada , pondo-fe de geolhos difte: 
„ Senhora , por quanto ainda as coufas por V6s come- 
„ c.ndas, e en vollo Nome non fonacabadas, eu vos 
j.peqo por mercS, que Vos me deis outra vez eflas 
j,vo(lasarrnas, e eu volas pagarey muito bem. E per- 
guntou logo aos que; eftavao prefentes, que valiaS 

as 



*De*PQriugual Cap.XLlX. 2 1 3 

as ditas armas. ? e diikrao-lhe , que lhe devia mandar. 
far por ellas dez marcos de..prata para huma joya. O 
que lhe pareceo muito bem dito ; e mandou,-que lhe 
deflem onze, os quaes lhe forao logo dados. E elle 
tomou as arenas do Altar , e partio. 

5 Tornando de Caftella, e chegando a raya dos 
Reynos difle, que dalli havia de vir a pe ate aCafa 
de Nofla Senhora; e aflim veyo com huma lanqa na 
ir.ao defde o.lugar chamado Valdelamula ate efta Ca- 
ia, que fa 6 trinta legoas.: E antes da Igreja ier aca- 
bada de todo (a qual na6 ficou tad grande, nemta6 
nobre, como quizera, fegundo elleciuTe) mandouSa- 
grar o Altar mayor por Dom Joao Bilpo de Coimbra^ 
de licemjade Dom Martinho Arcebifpo de Braga, fen. 
do preterites Dom Joa6 Manrique Arcebiipo Compo- 
ftelano, e Dom Rodrigo Bifpo deCida Rodrigo. Acha- 
rad-fe nefta lolemnidade El Rey, e a Rainha DonaFi- 
lippa fua mulher, filha de Domjoao Duque de Len- 
csftre , filho de Duarte Rey de Inglaterra, e os filhos 
delles Reys , Dom Duarte Infante mayor , Dom Pe- 
dro, Dom Henrique, Dom Joao , e Dona Ifabel ; e 
foy ifto em vinte e tres de Janeiro, anno da Incar- 
naeao do Senhor 1400. A Carta defta Sagracao efta no 
Archive defta Igreja, na qual efta affignado , Joao 
Bifpo de Coimbra- 

6 Dalli a hum anno foy Sagrado o Corpo da 
Igreja , conforme a hum letreiro , que efta na Capel- 
la mayor , na parede 6 parte do Evangelho , que diz 
aflim : 

Era de milCCCC^XXIX annos, XXUl dias 
do mez de J anew, dm de Santo Ilefonfo^ foy Sa- 
grada efta Egrefa^ par mandado do muy nobre 
Rey Don johan de Portugal , e da muy nobre 
Rainha , Dona FeUpa fua mulher , filha del 
Duque de Lancafire , e Sagro a o Bifpo do 
Porto Don Johan da Zanbuja ; efta \obra fez 
Joan Garcia meftri, 

■ CAPf. 












Refytde 4 Bra 
defle htreir, # 
aKtiodoSipbor, 
I40 1. 



*I* 



Fariat Antiguidades 



CAPITULO L. 

Como EIRey Dom Jo do, depots de tomar Septa, veyo 

logo em romaria a eft a Igreja de No/fa Senhora, 

t antes dip, quando foy umar Tuy, fez a 

mefma romaria: e de que diffe fibre 

feus Prmlegios : e de alguns , 

que Deos caftigou por thos 

quererem quebrar. 



Temou EIRey 
Septa no anno? 
ioSenbor 1^1$ 
temo diz Ma- 
riana n* Hift. 
de Hefpan, I. 
*o. c. 7, 
Livro des Mi- 
lagres e(e N. 
Senhera. 



Ao fazia EIRey Dom Joao coufa de gran- 
de importancia, que primeiro na6 viefle 
pedir fayor a Santa Maria da Oliveira. 



Tomou Tuy > 
fegundo Ma* 
■tiana L 1 8. c. 
ifl.no anno do 
•Senbor 1389. 



Mas ifto na5 p 6 ie elle fazer quando foy tomar Septa" 
pelo que tornando ao Reyno daquella honrofa joma-* 
da, logo veyo a pe defde o Miradouro , donde fe ve 
efla lua Igreja, e lhe offereceo muttas joyas , e dons, 
dizendq-lne: iSenhora, voffa merce perdoe, porque 
>vos eu 1 nao vim vifitar, antes que para Septa par- 
otide, legundo era pofto na minha vontade ; porque 
„o calo, porque ifto foy , o nao dava. Porem eu con- 
„fe(lo, equero, que todos faibao, que todos os 
,,meus bens* e honras procedem de voffas virtudes. 
% Antes da tomada de Septa, indo elle a tomat 
Tuy § e eftando no combate chegarao os carros , e be- 
ftas com os mantimentos, que hiao apoz elle para 
o arrayal; entre os quaes hia5 alguns cafeiros privi- 
legiados defta Igreja com carros , e cargas. E fabendo 
elle, que vinhao alii os ditos privilegiados , aflim fe 
indignou , que nao tinha paciencia, e nunca quiz con- 
fentir, que carro.nem befta de mantimentos, que os 
privilegiados levavao , fe defcarregafle , nem ficafleno 
arrayal , pofto que erao bem necefl^rios. E aflim ie 
toVnarao para Guimaraens, donde partira6, mandando- 
lhes elle pagar muito bem feus allugueis, 

3 Ds* 



*De 'Portugal. Cap. LI 2 1 £ 

3 Depois que tumou a Cidade, vindcr a efta Vil- 
la clar as gracas a Nofla Senhora , diffe em altas vozes 

a porta da lua Igreja i „ Senhora , eftes meus Qfficiaes, Man d&$ Mf 
,,e defte Concelho nao confiderando , que Vos fois^ w</eW * 
,,aqueHa, que combateis , £ defenders, e velaes ,.e » enl10rtt> - 
n roldaes, nan ceffao de quebrantar os privilegios » e 
j, libetdavles * que eu dey a efta vofla Igreja , fazendoi ■ 
, t fervir os privilegiados delta no que liles apraz ; po- 
„ rem eu vos prometto , que (e elles daqui em diante 
„outra ves fezerem, ea enforque dous, outres dei- 
fies a eftas voffas portas. Notem os Miniftros d'EU 
Key , que os privilegiados de Santa Maria de Guima- 
raens fa6 livres, e efcuzados te daquelles encargos, 
ou iervicos, ou empfezas ■, em que os Reys vao pef? 
loalmcnte , e f e nao eicufa5 a fi melmos. 

4 Mas na& fey como ifto acontece , que fendo 
eftes privilegios' dados por aquelle devoto Rey aeita 
Cafa , deviao os naturaes de Guimaraens folgar mui- 
to com iflb, pois he proveito feu, honra defta Igre* 
ja , e a Igreja delta fua patria. Com tudo nos vemos 
© contrario , e he doenca efta daquellas , que chamao 
hereditarias, porque logo na^uelles primeiros tempos 
comecou contra alguns concedidos pelos Reys de Lea6, 
e continuous fe are efta nofla Idade , em que nao fal- 
tao homens inimigos defta Igreja no que tocar as liber- 
dades de i<eus caieiros^ pofto que ha outros digoos 
de eternos louvores , porque com grande zelo da hon- 
ra da meima Igreja as defendem , quando para iffo fe^ 
ihes offerece occafiao. ' 

f Mas Deos, que nao difimula os defacatos f si- 
tes a fua Mly Santiffima, fez muitas vezes,e faz ten- 
th a eftes em fua cafa a pena de fuanfalfcia, eomo 
fao prizoens, enfer mid ides , deshonras , defterros, per- 
das de fazenda,infortumos^ e mas mortem, como pa- 
decerao Diogo Alvres das tercenas , Affonfo Anes , 
Oonlalo AfFonio Contadores , Pero tourenco , Luiz 
Anes , Advogados , Luiz Alvres, Joao do Valle , e ou- 
tros referidos naquelle requerimento , que o Cabido 
antigo fez a huns lancadores de ceno Tribunal , oor 

EIRey 




2 16 FdrUs Antiguidades 

EIRey Dora Joao d S^gundo , em que requereo, que 
Ifee nao quebrafietti feus Privilegios; e foy provido, 
como confta de huma Proviiao d'lilRey em pergami- 
nho, que efta no Archivo, dada no anno 1483. O qua! 
requerimento anda accftado ao livro dos Mi{agres de 
Nofla Senhora , do qual nos tomamos algumas coulas, 
e entre ellas a Rela^ao do cafo feguinte, que lerve 
para a guarda, e relpeito de feus^ Privilegios. 

6 *, Havia em Guimaraens hum Advogado cha- 
,imado Pedro de Olivao , homem de poucotemorde 
„ Deos, o qual trabalhava quanto podia por fazet que-5 
5> brar os privilegios de Nofla Senhora: e fendo mui- 
,,tas vezes amoeftado , que defiftifte diflb, nunca o 
„quiz fazer ; donde fe feguio ( diz o Livro) o que 
„todoo mundo fabe , e tie t . Que eftando -elle affen- 
,, tado fobre os moimentos, que eftao-a porta princi* 
„ pal da Igreja^ de Nofla Senhora , o Abbade de Freitas, 
„ e Luiz Gonqalves, Conegos deila o reprehenderao dif- 
5,fo em prelenqa demuitopovo, requerendo-lhe, que 
'„ ceflafle do que fazia , e que fe guardafle da ira de x 
„ Deos. O qual refpondeo, que foflem bugiar , que 
,i nao era o diabo tao feo , como o pintavad j e que 
„nao havia de abrir mao em quanto viveffe, A qual 
„palavra nao fendo ainda quad acabada de dizerj ca* 
t ; hio como morto em terra, tragando a lingua com os 
f ,dentes fem nunca mais fallar; e aflim foy logo le- 
„vado a fua cafa * onde lhe fahio a alma da came* 
}, Depois fallecendo fua mulher dalli a trinta e tres 
„annos, e mandando-fejanc/ar com eltef foy achado 
^,todo inteiro, a fora o gurgumillo; e tirado da co- 
„ va , e encoftado i parede do Mofteiro de S. Francif- 
„ co efteve aflim em pe , como le fora vivo em carne 
,,a vifta de toda a gente, ate que foy outra vez me- 
„tido ma cova com a ditafua mulher. Ifto he do Li- 
vro dosMilagres. 



PAPI5 




C APITULO LI 



§ue os perfeguidores da Igreja fe guar dent da ira 

de Deo$ K E de algumas cottfas, que EIRey 

D. Joao Primeiro fez emGuimarams\ 

e do Infante Santo leu filho. 



NO tern efle caft'go , os que cada dia 
pertendem quebrar os Privileges de 
Noila Senhora, e aprendao o temor de 
Deos no mal alheyo , para que lhes nao aconteqa o 
que aconteceo a efle Advogado , que tao mal advoga- 
va por fua alma , fazendo guerra a Igreja , e veyo 
ter tao mao fim a porta da mefma Igreja. Lembra- 
me o que aconteceo a Eutropio , Camareiro mor do 
Jmperador Arcadio , o.qiial fendo Conful em Conftan- 
tinopla, em tempo de Sa6Joao Chryldftomo, fez que- 
brar o Privilegio , que a Igreja tinha de valer aos cul- 
pados , que a ella le acolhiao. E iuccedeo dalli a pou- 
cos dias, que por hum a ofFenfa , que elle fez ao Im- 
perador f foylhe necefiario , por fe falvar , acolherfe 
a Tgreja * mas eftando ja feita a Ley , na6 lhe valeo; 
e aflim toy tirado della , e por crimes commettidos 
lhe foy cortada a cabeqa , e feu nome rifcado do Ga« 
thalogo dos Confules , como efcreve Cafliodoro na Hi- c*ffiod. /. t£? 
ftoria Tripartita. * *• 

t Contad Santo Agoftinho, e Paulo Orofio, que 
quando EIRey Alarico tomou Roma, mandou,quefe Auguft.deCi- 
perdoafte a todos os que fe acolhelTem as Igrejas , vn. Dei 1. 1. 
pfincipalmente de S. Pedro , e S. Paulo, Era Alatico cu . 
hum Godo Ariano, e barblro, que eftava fuberbo com ^ eHl J iJ ^ 
vitorias; mas a film fe achou nelle fingular veneraqa5 c ' 39 ' 
dos Templos de Deos, por cuja h >nra perdoou as vi- 
das a muitos , que defejavao de lhe tirar a fua. E al- 
guns dos naturaes de Guimaraes, fendo bautizados pe- 
la mayor parte ndta Igreja, e recebendo della o mais ... 

Ee honi 




2 18 ¥mh 'Antfouidaiii 






i 



hon-ado titulo, que tern, que he o de Chriftaos, e 
depois o leite da doutrina Evangelica , na6 ceflao nas 
occafioens de fazer contra feus Privilegtos , que os 
R ys defte Reyno ihe derao por fua devoc.a6 ; devea- 
do de Ihos amparar, e defender, como coufas da May 
Piedofa , qual ella para elles he. 

3 Grande temeddade de gente , que nao confi- 

dera, que fe o Principe da terra quer, que fua cafaj 

e Palacio Real feja Privilegiado , muita mais razao 

he , que o feja a Cafa , e Templo da May de Deos. 

Temao os perieguktores da Igreja o caftigo , que Deos 

deu a Pedro de Glivao , cujo fim deteftrado foy ef« 

panto aos paflados , e o deve fer aos prefentes: e te- 

nhaf5 por certiflimo, que.os que perfeguem a Igreja; 

commummente acabao mal^ e os que a favorecem, iao 

profperados. Quem quizer ver hum cathalogo de huns, 

jvorhs' infifi e de outros, lea a Joao Azorio nas Inftituicoens Mo« 

Moral; tom.i. raes . a Bellarmino nas fuas ControverfiaSj a Frey Luiz 

Be!krm.c»* ^ e 'Granada na Introducqao do Symbolo da Fe; e ao Pa« 

trro.p.i.r.4. dr 5 Frey Jeronymo Romano na iua Republica Chri- 

c. -j. fer Bai' ftaa. Vivamos como quem ha de morrer, e morrere* 

fiuimim, >mos, como quem feha de falvar j porque huma cou- 

*&au*Japx ia he con * ec l uenc ia da outra , e de ambas principio o 

e . z6t ' temor de Deos. Lembro , que Trajano foy perfegui- 

Fr. y e Tcnym.&ox da Igreja ; e quem ler , que elle fe ialvou por ro- 

Rw.i, Jc9»gos de Sa6 Gregorio , tenha por fabula, que hum ho- 

mem fern fe * e fern bautifmo , e inimigo da Ley de 

Deos fe falvafle. Sao Joao Damafceno, ie fua heaquel- 

•sann.mAn- la obra, efcreveo efta hiftoria affim como entao ie di» 

mi. &nno zia ; mas fua grande Santidade nao deve prejudicar a 

cbriff. 604- verdade ; acerca da qual veja o Lei tor ao Cardeal Ba; 

d-tZm * I'Ifi ronio nos feus Annacs » anno deChrifto6o4. Eao Pa- 
<t f "TrTii ^ re Scares fob'e aTerceira Parte de Santo Thomas, e 
di/Mhfeft i' ao Padre Frey Jeronymo Romano no lugar allegado. 
4 E tornando as obras do illuftre Rey Dom J^ao, 
elle mandou fazer algumas torres dos muros-defta Vil- 
Cah wS ,». la , como moftra 5 fuas Armas , que nellas eftao. E. 
w«r dosReys feu filho natural Dom Affonfo Conde de Ourem , e de 
de PortugaU Barcellos, e depois primciro Duque de Bragan<ja> gen- 



TfeFortugdCap. 3$L1$. zip 

ro de Dom Nuno Am res Pereira, fez aquelle fump* 
tuofo edificio, que hoje efta meyo arruinado * que 
chamao Paqos do Duque. 

5 Por eftas ccuias fererod'ElRey DomJca6,m6 
Jembrarao as do Infante feu nihe, Dom Fernando; o 
qual em tempo d'ElRey Dom Duarte paflou em Afri* 
ca com hum Exercito, juntamente com o Infante D* 
Henrique feu irnao. Onde tendo elles cercada a Ci- 
dade deTangere, fcra6 cercados dos Reys de Fez* e 
Taiilote 5 que vierao foccorrer a Cidade com riovcnta 
mil homens de cavallo , e gente de pe fern numero. 1 
Pelo que fe concerta"rao com osMcuros, que os dei- 
xaflem tornar livremente, e que EIRey de Portugal 
3hes largaria Septa , e para jfto lhes entregaraS ao In- 
fante D. Fernando ate ie fazer entrega de Septa. Efta procep: 1 1.' 
Cidade he chamada de Procopio i Septum , e Arx Sep*d» ^ Uo fet fi~ 
unfit, de iete montes, que naquelle lugar eftatf: e pcr«>» *J, J\ j£ 
ier importantiflima a fegurancja, e quieta^ao deHei-^* a ~*~* 
pan-ha, a entrega ienao fez; e o Infante ficou em ca-"'* 
tiveiro padecendo infinitas afflic^oes , e trabalhos, que 
para elle erao materia de heroicas virtudes, com que _ 
poz em efpanto aos mefmos Mouros inimigos dellas. 
E flnalmente morreo emhuma maimorra tratado, da- 
quellez infieis com grandes crueldades, mas conlola- 
do com favores do Ceo. Pelo qua! Noflo Senhor fez 
muitos milagres depois de fua morte, alguns dos quaes 
vio efta Igreja , iegundo confla das pslavras da Car* 
ta , que fe vera no Capitulo feguinte. 



Eeii 



CAP!? 









220 % Fdrias Aatizuidakt 
CVPITULO LII. 

De huma Carta fobre os Mihgres do Infante Santo, 
E huma memoria de Sao Frey Louren- 
$o Mendes. 

i it 'Cercados Milagres do Infante Santo, fi- 
/"\ lho d'ElRey Dom Joao Primeiro , achey 
X A. no Archivo da Igreja deGuimaraens hu- 
ma Carta efciita ao Cabido , cujo traslado he o feguin- 
te. 

Ao Cabido da Jgreja de (jviu 
maraes. 

MUito howados Senhores^ e amigos. Dom Abha- 
de de tap me encbmendo em vojja merce \ e 
gra$a. Receht roffa carta, e en fetto de bom recenht* 
£imento , que tendes daquelles Rets anUpaffados , que 
tdificarom\ e dot atom ejffa Igreja r me parece mm dig- 
na , e jufia caufa en efpecial do vicloriofo , e mid 
nobre Rey dam loam de boa memoria , de cuja ge- 
rafon eftes rtgnos foran tarn efdarectdos , e honra* 
dos , e por cujo ref petto vos fois demovidos y e che- 
gados com tamanha devopn a honrar o mux virtuo- 
fo Infante dom Fernando feu fiiho> que por feus dig' 
nos vnerumentos tendes fivza de valer ante nojffo 
Mr Deus , e de foccorrer , e dar gra$a aos que 
fe a elle encomendam , como *vedts por exptnencia 
dos milagres , que fe fazem nejfa Jgreja naquelle lu~ 
gar, onde en fua memoria, t lembran$a ordenafles, 

e It- 



flUTortitgd. Cap. LI I. 221 

t hvantaftes o retabro de fua imagftn pcra hvan* 
tar, e demover a Dens por fe\ e efperan$a , e com 
amor os cot a fees dps flu's Chnftaos. 

E pouco abaix<\ 
2 Grande akgria efpiritual recebi , recebendo 
m wens Iraps aquella fanta ofsada , que t'trei de 
febre mar , e fibre mens hombros a trouxe , e pu- 
fe na Igreja de Santa Mat ia de Belem. E desde ahi 
conttnti&damtnte a fervi ,mmiftrei , e acompanhei de 
dia , e de noite ate o porter xn faa fepultura , on* 
de vi , e ouvi de muUos , e grades mtlagres , que 
Detts fez, e faz a Udos aquelks, que a elk fi 
xhamam devotamente, 

^3 E quanto per fence ao que efereveis , de vos 
fazer faber o dia , e hora , en que fe o Sn&r Infan- 
te finou , e u vos certifico , que elle touve en cativo 
jtts annos , e no derradeiro buna quartafeira, que 
eron cinquo dias do mez de lunho era do Nafcimen* 
to de mil 1 ijj tf 1 j j annos acahcu a lide, e batalha 
itefie mundo. Efcripta no dito anno mis xxi$ dias 
de Novembro 73. 



J I 



Vi fervitor, et amicus ] 
fr. OC Io hanes 00 Abbas 
de pap. 



4. Trouxe efta Carta \ porque na6 era jufto^ que 
efcrevendo feitos de homens , callafle os de Deos , 
corn que die quiz honrar ao fanto Infante nefta Ipre-.. 
ja , que feu pay fez a Virgem Sacratiffima fua Nay. 
O retabulo , e altar deffce fanto Infante nao f&mente 

nao 




222 Variit Antigutdades 

nao ha ja* nefta Igreja, mas nem mernoria slguma del- 
le , tirando a que fabemos por efta Carta. Mas he cre« 
divel , que quandofe tirou o da S. £k>n$alo de AmaJ 
rante, lie tiraria tambem o feu: e tudo ficou na el- 
curidade do tempo de noffos antepaffados. Os quaes, 
fe fallavao tao pouco, como efcreviad , ainda nifto me 
parecem dignos de louvor , porque nas muitas pala- 
vras na6 faltao defeitos > e deftes tertaS elles poucos. 
5 Nao paftarey em filancio o Padre Frey Lou- 
retico Mendes , que por fuas virtu des , e milagres me- 
receo fer contado entre os Varoens infignes em ianti- 
dade, da Ordem do Patriarcha Sao Domingos , como fe 
ve no Cathalogo delies , que anda no fim do Marty- 
tologio, de que efta ianta Religiao ufa. Do qual achey 
huma memoria no Mofteiro de Sao Domingos, feita 
em tempo do melmo Rey Domjoao Primerro, lobre 
huma area de Reliquias , que no dito Mofteiro efta& 
-A memoria he a feguinte. 

6 „ Efta area foy dada a Frey Lourenqo Mendes 
Vs Ad*- , i p 0r ^ um an geo com eftas reliquias. Efte frade le- 
TondeD Pe- h gun , que aprendi foi homem fidalgo dos de Chacim, 
dro nas 'fuas „ que foy grande linhagem en efte regno antigamen- 
imhagtns tit. „ te , e entron grande en a Ordem , e trabalhou mui- 
x6. §, umco. fito por pi aze r a Deos por fua fanta pregacjom, e ef- 

„pecialmente pregava aos fimples , e fazia en elio 
J, grande fervico a Deos , e Deos por elle fez muitos 
„ milagres en fua vida. Elle com as efmolas dos fieis 
„Chriftaos fez a ponte de Caves, e hi reiufcitou hum 
„morto, e quando os pedreiros nam tinham pefcado, 
„ elle poya o bordon en agoa , e logo alii ajuntavam 
\ y muitos pexes, e tomavam os que aviam mifter, e 
,jafli fazia do pam , e do vinho, e dos outros man- 
„ timentos quando desfaleciao aos obreiros. Muitos en- 
„ fcrmos de graves enfermidades receberam iaude pot 
,,fua oracon. 

7 „ Efte frade pregando em huma Corelma en 
\ y Chaves eftando hum dia en a Veiga fazendo fuaora- 
„ com , pareceu ante elle hum homem , o qual vio feu 
i)C ompanheiro, que delle eftava grande pedaco arre- 




( ne < Portttgal. Cap. £>n. 22 j 

^dado, e a cabo de pe<p non vio homem nenhum $ 
,,nem pode entender pera qual parte podeffe hir, por- 
„ que a Veiga he bera defcuberta , que nao pode ho« 
„ mem por ella andar j que o non vejon de muitas 
f) partes : e o frade fendo dlfto rouito efpantado foi- 
,, fe ao lugar, onde eftava fiey kourenqo Mendes, e 
„perguntouo que homem eraaquelle, que com elle 
„ eftivera fallando, e onde fe fora ; e contoulhe co» 
5, mo vira , e frey Lourenqp refpondeo, e diffe : hir- 
„ maa da muitas graqas a Deos~, que te quiz alomear 
,,do feu lume : efte homem , que tu vifte preceme 
„que he angeo de Deos 9 elle me deu efta area, 
„ que aqut efta , e difteme , en ella eftavam muitas 
j, reliquias de muitos fantos, e difte que oje os hy- 
„migos da fe tomarom hum logar onde fyam rnui- 
„tas reliquias do tempo antigo. E para os infieis non 
,,nas deshonrarem mandouas Deos efpalhar por mui- 
„ tas partes do mundo , e dar aos feus fervos , que as 
„guardaflem, eonraflem, e difle que prazia a Dens* 
' ? , que efta area foffe dada a my, que a poieffe eu no 
„ molleiro de fao Domingos de Guimaraes, e deron 
„entom muitas graqas a Deos, e pofeam efta area en 
, , efte mefmo en na fancreflia etc. -* for eicritto por 
j, frei loam de firaga prior antigamerlte de fanto Do-* 
„mingo de Guimaraes no anno de Cefar de mil qua- 
„ tracentos cinquoenta e tres. En efte anno tomou 
3, dom Joam Rey de Portugal Septa aos Mouros* A 
„que refponde anno de Chrifto 1415:. 

8 O corpo defte Santo efti no mefmo Mofteiro, 
e poucos annos ha fe mudarao fuas Reliquias ^a pa« 
rede junto ao Altar de Sa6 Brazpara o Altar deSm* 
to Thomas, onde efta6 honradamente em hum monu- 
mento de pedra levantado iobre o retabolo com e&e 
letteiro. 

Hie ftta Laurenti Mendes fttnt &ffd heath 

..; 9 A'eerca do lugar, donde aquellas Reliquias vie* 
fa5, nao falta quern affirma , que vierao da Antyo* 
chia, quando ella foy tomada aos Cbnilios , que foy 



91 



m 



m 













lllefcat em 
GregXfa** 



Hhfcas em Ni- 
coUolV.f.^6f 



Pa } mef'. tit 

Addition, ai 

Ett(eb. anno 

tz8. 

Pero Mext* 

em Heraclio 

Baton, in Epi- 
tbome Spond. 
anno D. 6}$, 



2 2 4. Parfat Antwuidafos 

o 
cerca dos annos do Sfcnhor 1274 , como ie collige de 

Illefcas na Hiftoria Pontifical. Mas ifto parece nao pc- 
der fer j porque ainda naquelle tempo o Mofteiro de 
Sao Domingos de Gaimaraens nao devia fer acabado* 
que fe comeqara havia quatro annos , no do Senhor, 
1107. Alem diilo, qiiando Antyochia fe tomou » fo- 
rao.com el la tornados quad todos os lugares % que os 
Chriftaos tinhaS em Syria; e na5 fe pode dizer, que 
vieflem as Reliquias mais de hum, que de outro. M^is 
verofimii he , que vierao de alguma deflas Cidades * 
Tyro,Sidon, Beritho., Tripoli, ou Ptolomaida, por- 
que quando os Giiriftaos perderao a Jerufalem , e aquel- 
le Reyno fe desfez , os que efcaparao fe recolhera5 
aquellas Ctdades , as quaes o Suldao do Egypto de- 
pots tomou, executando nellas grandiflimas crueldades: . 
foy ifto no anno do Senhor 1290, vinte annos depots, 
de fundado o Mofteiro de Sao Domingos de Guirna- 
raens. Mas^ meu parecer de nenhuma daquellas Ci-; 
dades vieraoi porque osChriifcao.?, que as potluiao, erao 
filhos, netos , e biinetos, dos que forao com Grot- 
fredo cbnqutftar a Terra Santa, e tiralla de poder de 
Turcos, que de toda ella, e de todas aquellas Cida- 
des era6 poffuidores. E feus pays , e avos rtao levarao 
de ca cofres de Reliquias , que la" deixaflem, nem as 
tomaraS aos Turcos , quando lhes tomarao as terras. 

10 No tempo , que os Arabss , e Sarraceaos def- 
cerao fobre Syria , e Terra Santa , o Imperador Hera- 
clio temendo, que o Lenho da Santa Cruz viefle em 
feu poder , mandou-o levar de Jerufalem para Conftan- 
tinopla, como diz Mattheo Palmerio , e Pero Mexia: 
De crer he , que muitos com o exemplo defle Impe- 
rador fariao" femelhantes p.evenqoens por aflegurat 
e<*e genero de thefouro*. Efpecialmente efcreve o 
Cardeal Baronio j que occupada Jerufalem , Antyochia* 
e toda mais Syria pelos Arabes , nos annos 6$? v 6^6, 
6ij , muitas Reliquias fe trasladarao para o Occiden- 
te. E a Vrum me parece , que muitas mais fe paflariao 
para as partes vifinhas, e feguras » corr.o Conftanti* 
hopla. e muitas Gidades delhracia., e muitas Unas 

■ do 



do Arcipelago. As quaes partes fe coniervaraS depois 
fempre livres de injuries de barbaros , te que Orcha- 
nis filho de Othomano Grao Turco entrou em Europa 
chamadb de Catacuceno hum dos pertendentes do Sm- Mefi*s p : »• 
perio Grego ; e em lugar de o ajudar, Ihe tomou a ma. £/5jJ^* 
yor parte do que poffuia ; com que Catacuceno de ,** e ° emchi 
puro defefpetado fe foy meter Frade. Succederao eftaf menu vuu J 
coufas cerca dps annos do Senhor i$$o, 1342, Pepois/o'j *s. 
entrou Amurathes Grad Turco pelo Helleipcnto, e to- 
mou Galipoli , e muitas Cidades daquella Comarca, e 
venceo em batalha muitos Principes, e fenhores Gre- 
gos, no anno do Senhor 1563, como conta PeroMe-^^ Mexl0 
xia. Joao Vilani eicreve , que os Turcos no anno df en Carohiv: 
Senhor 1330, com grandes. Armadas correrao as Uhai vntmi na S hi- 
do Arcipelago , roubando-as, e deftruindoas, de quc/ for ' Un wer. 
levarao grande preza de cativos. & quern havera, qut^' *• c \ l $ x * 
com, certeza onfe apontar nenhum deftes lugares , 
que forao tornados pelos inimigos da Fe, para dizerj 
que delle trouxe o An jo aquella area de Reliquias, ' 
que deji ao Padre Sao Frey Lourencp Mendes? Pelo 
que demos a Deos o que he feu, e defobriguemos a 
fraqueza humana, do que ella nao pode faber. O que 
importa he venerar as taes Reliquias com particular 
reverencia , pois eftaS authorizadas com tao altos te- 
itimunhos. E o Mofteiro fe pode ter per feliciffimo^ 
como, aquelle , que no Ceo foy feito depofitario de 
tao rico , e preciofo cofre, pelos fagrados Pinhores* 
que em fi tem. 






H 



CAPI. 





22(5: JTdrias AntignMaftei 
CAPITULO LIII. 

■ 

Qui EIRey Dom Duarte, e o Infante Dm Pedro 
Govemadw do Reyw pot EIRey Dom Affonfo mi' 
nino, depots o mefmo Rey Dom Affonfo man' 
darao gnardar os Privikgtos de N. Se- 
nior a. P or que fe chamao dasTa* 
boas Vermelhas. Quern fry o 
Do ut or Ptf E/ieves 9 e 
de fm fepultttra. 



EIRey Dom joao Primeiro fuccedeo EI- 
Rey Dom Duarte ieu fiiho , o qual co* 
mo imitador das virtudes de ieu pay man- 
«3ou, que fe guardarTetn osPrivilegios delta Santa Igre- 
ja. Depots delle governou efte Reyno o Jnfante D. 
Jpedro pot EIRey Dom Aftonfo Quinto ainda raenino, 
qual vgyo a efta Villa, e vifitou, a NolTa Senhora 
da Oliveira, e em rpme cEElRey Dom Affbhfo Quin- 
to como feu Tutor, e Goveraadoi de feu Reyno Ihe 
renovou a Carta de feus Privilef»ios mandando , que 
aquella, que de novo fazia* vateffe , ainda que a ou- 
tra , que era }a gaftada* nao appaieaeffe ; o que foy fei- 
to em 16 de Agofio , anno do Senhoi de 1441. 

2 Entrou'no govern© defies Reynos ElKey Dom 

Ccnpa Jo li. Afionfo Quinto , o qual mandando lan^ar certo pedi- 

lu ^ASd- ^° P c ^° R evno > os lanqadores delle obrigarao aos ca- 

y ta & Maria a feiros de Nofla Senhora a pagar , nao lhe querendo 

Guimaraens. guardar feus Privilegios \ do que o Cabido aggravou. 

Houve EIRey o Cabido por aggravado , e quiz fa- 

ber miudamente quaes, e quantos cafaes , cafeiros a 

Javradores, domefticos , e (ervidores tinha efts Igreja, 

Prior , e Cabido. Pelo que commetteo por ieu Alva- 

ja ao Doutor Pero Efteves Cavalleiro , eOuvidor das 

terras do Duque ds Braganqa , e a Joao Gonqalves 

Ekri- 




r - 



T>e ToYtugaL Cap. LIU. %tf 

Efctivao, que diftu uraflem InqumcaG. A qual tira* 
da muy declaradamente , dizElRey, que vifta par ei« 
le, e por os Vedores de fua Fazenda , achiraft, que 
a dita Igreja forao iempre guardados leus Privilegios, 
e feus caieiros forao iempre ifentos detodos os pedi* 
dos, e encargos, tirando onze cafaes, que,pof riad 
ferem liber tados, eftavao era parte defposroados* 

3 No que qiierendo EiRey prover declarou 9 que 
Ihe aprazia por ier razao , e fazer eirnola a dita Igre- 
ja , e a honra da Bemaventtirada Noffa Serthora Santa 
Maria , que aquelles onze cafaes foftem tambem Pri* 
vilegiadosj coma os outrds. E affim queria, e man- 
da va f que todos os caieiros, lavradores, domefticos, 
e fervidores contheudos na inquiriqad , tiveflem os 
ditos Priviiegios concedidos por lilRey Dom Joao , e 
todas as liberdades , e franquezas deiles : e cs leus 
Officiaes 4 que os nao guardatfem , pagaflem ieis mil 
foldos. E encdmenda aos Reys feus iucceilores por 
fua benqao , que afflm o cumprao, e faqaS cumprif 
por efmola para fempre , por efta fer fua vontade por 
falvaqao fua , e deiles feus fucceftbres, e dos Reys an- 
tepailados, que efta Cafa emlouvor de NolTa Senho- 
ra ordenarao. Foy feita efta confjrrniC,a6 em Lisboa 
a vinte e hum dias do meZ de Julho d«e 145-/ anribs; 
a qual EIRey aflignou por fua maa t 'ea maridou fel- 
lar de feu feflo de chumbo. • \ - 

4 E porque os cafaes , cafeiros , e confiVmacad 
dos Privilegios forao efcritos em hum livrode perga. 
minho enquadernado em taboas guatnecidas de couro 
vermelho, por efte refpeito fao os cafeiros delta Igre- 
ja chamados Privilegiados das Tapoas tfermelhas. O 
qual livrofeguardano Archivo do Cabido. Oade que- 
ro lembrar v que eftes Privilegios fe devem chamar de 
Santa Maria de Guimaraens , e nao das Taboas Ver* 
mslhas ; porque na verdade elles fao defta Senhora , 
e a ella fe derao', e he bem, que com. elles ande feu 
Nome, affim para honra fua, como para refpeito, e 
guarda deiles mefmos 1 , 

5 Pero E^eves, que fez a Inquiries atraz, foy 

Ffii Doutor 



I W 




'Paridf Antiguid^ies 

Doutor em Leys, natural de Guimaraens , filho de 

Diogo Efteves Conego de Santa Maria de Guimaraens. 

Foy cafado com Dona Ifabel Pinheira j filha de Trifr 

tao Gomes. Pinheiro , hum homem honrado de Galli- 

za , que cercou Barcellos , por mandado do Duque , 

como diz Gafpar Barreiros nas fuas linhagens de le- 

tra de mao. Eftao fepultados. nefta meima Igreja em 

Capella iua propria, para aquelle tempo cultofa , e 

2' ^,/*£ & alante > em monuraentos levantados, e muito bem la- 

XJjrii- vrac L os > mas ^ e P e ^ra tao m ole , que parece nad da-. 

trJde mao. rarao muito. E para que a memoria do Doutor Pero 

Efteves benemerito defta, Igreja nao pereceffe com o 

ieu monumento, pareceome jufto trasladala a eftes nof- 

ios papeis, porque muitas fepulturas famofas , que 

no mundo houve, eainda aquellas, que por fua gran- 

deza , e admiravel artificio , forao contadas entre as 

fete maravilhas do Mundo, todas acabarao com o temJ 

po, e tambem acabara fua memoria, fe nao fora a E(- 

critura , que detudo* o que he mortal * he huma fe- 

gunda vida. E que digo! obras de pedra , quando nem 

as de ferro podem refiftir ao rigor, e affaltos do tem- 

Sueton'tus in P 0, Q ue * e ^ ez das tahoas de bronze , que continhao 

jtuguft. c. «/-OS feitos cje Augufto, que ellcem feu teftamento man- 

iimo. dou por> defronte de fua iepultura ? Que le fez dos 

leoens de ferro , que fora6 ri'&lRey da China , obra 

yoao de Bar. de maravilhofa i e natural viveza, que Affonlo de Al- 

x>ec.i.l.7.c,s. buquerque tomou no faquede Malaca 4 a que elle cha- 

mava toda (ua honra , porque nao quizera em fua fe- 

pultura outro letreiro , nem outra memoria de feus 

trabalhos ? Tudo fe perdeo , e confumio; mas nao fe 

perdeo a Hiftoria , a que as taes coufas no principio 

Cieerol.z,jtf cx *& encommendadas , a qual pelo officio, que tern 

oratori ' de teftimunha dos tempos, dura dellas em todo tempo 

inteira rela^ao. 



CAPI- 



T)e Tort-ugal.Cdp. L1F. 22$ 
CAPITULO LIV. 

Porqm caufa EIRey Dom Affonfo , quando tomou 

a prat a das Igrejas para a gmrra de Ca- 

ftella y riai tomou a da Igreja 

de Guimaraens, 



■ 



A 



Sfaz bsnemerito ficou EIRey Dom Affon- 
fo defta Santa Cafa , ie nao fora a per-, 
tenqa6 do Reyno de Caftella , que o me- 
teo em guerra com EIRey Dom Fernando ; com que 
Jhe foy neceflario , depois de muitas defpezas feitas , 
e pofto em grande pobreza de dinheiro, acabar de fe 
empobrecer com a prata das Igrejas. Fez efta execu- 
ca5 o Principe Dom Joao feu fllho , com confentimen- 
to do Eftado Ecclefla-ftieo , diz DamiaS de Goes na^ c ^ 
Chronica defte Principe , tomando iomente ^ V*°te J" ITpnncl 
nao fagrada. t*7*iZ 

2 Tomoufe tambem a da Senhora muita contra 
vontade do Gabido ; mas a Duqueza de Guimaraens , 
eomo devota, que era da mefma Senhora •, a mandou 
tomar da mao de joao Gonqalves, EfcrivaS dos C6n- C( - ^ , _ 
tos d'EiRey no Almoxarifado de Guimaraens , e de Aharh € /m~ 
Pente de Lima. Do que avifado EIRey houve a por Rey em p er - 
bem tomada , para diatom outro dinheiro, que ou»£*f«fo>»-*»« 
tros devotos , e cafeiros ofFerecerao , e derao * redimir e ^ a mAr ^- j 
toda a dita prata , para pa^amento de feiscentos cm- 
zados fomente , que Ihe aprouve de haver por el la. A 
Duqueza de Guimaraens , de que aqui fe falla , foy a 
fenhora Dona I'fabel , filha do Infante Dora Fernan* 
do , fllho d'ElRey Dom Duarte , e Irmaa da Rainha 
DonaJ-eonor , mulber d'filRey D. Jcao o Segundo , 
e Irmaa do fenhor Dom Manoel , Rey que depois 
foy defte Reyno, a qual fenhora foy cafada com D. 
Fernando Duque de Guimaraens, e depois de Bragan- 4- **g. «. is. 1 
£a , fegundo deite nora?. Vft # if- 








Moneon ftel 

b/pejo del 

CIS. 



r Suidas afui 
Haronius in 
Bp'tt. Spand. 
anna D. 6vj 



Datnlao de 
Cott no Uvro. 
« lugar alle- 
gado. E tm 
Chronica de 
ElRsy D. Ma- 
aoil f. i.e. I' 



— ■ - 



1 1 o Viriss 4n{igmdade4 

3 Tornando a prata da Igreja , ella fe pode to. 
mar para defender a Fe , e ameima Igreja, mas con- 
vem , que fe iejftitu# , gomo fe? o, Imperafor Heraclio, 
quando foy contra EIRey de Perfia , e recuperet! da 
leu poder q Sagrado Lenho da Cruz de Chrifto Nof- 
lo Senhor, que aquelle barbaro levara de Jerufalem. 
O qual Imperadorno mefmoanno, em que alcancou 
aquella infigae vitoria , mandou, coma di<z Suidas,aa 
Patriarca de ConftasKiftopla hwrna- Nao com muito di- 
nheiro* e padras preciofas, para fe repartirem pejas 
Jgrejas , e Clero , de quern tomou eftas couias : reas 
porque a Nao fe perdeo no mar , deu ordem , que do 
Fifco Imperial fe defle a todos inteira iatisfaqao. 8f- 
creve Damiao de Goes j que a prata tomada por EI- 
Rey Dam Affonfo, pagou EIRey Dom Joao o Segun- 
do feu filho , por morte de leu pay. A efta Igreja de 
Guimaraens nao fe tomou prata , mas tomarao-ie-lhe 
feiscentos cruzidos de ouro j parte de efmolas , e o 
mais, que pagou o Cabido com muito trabalho, enao 
acho , que lhe foflem reftituidos. Mas dado, que nao 
foflem ,os queixumes acabarao , e fmalmente a memo* 
tia do darnno envelheceo t que ate efte bem fazaan- 
tiguidade, que diminue, emollifica as dores % que na 
vida temos. 



CAPI< 



jDe&oriagal. CafrLF. 
CAPITULO LV. 

■ . . ; qi I i I 

Vi qut Smh&res joy a VM* AtGuimatatm. Dot 
Beneficiados • deft a CoUegiada , e da qua* 
lidade des fens ttfarts. 



P 



Ozera6-fe alguns Authores a efcrever ©s 
tranfes , e mudan^as, por onde paflou jeru- 
Talem , Roma cj Bizancio , Napoles , e ou- 
tras Cidades illuftresj entendendo * que todos os ac« 
cidentes , que faztao , ou desfaziao em fua grandeza, 
e quando menos (6 por tsl variar , erao dignos da 
]iqa& j e de memoria. Aos quaes imttando *s6s ( fe 
h* Hcito comparar coufas pequenas com graodes) que- 
remos fazer o mefmo, nao de Guimaraens Gidadean- 
liga, que a nevoa do longo tempo efeureceo, fetiao 
defta notavel Villa , que no nome , e fitio a repreleri- 
ta. Foy Guimaraens em tempo da Condefla Mumado- 
na hum burgo do ieu Mofteiro, corao a traz ie vio; 
Depois que o Gonde Dom Henrique, e ElRey Dotji 
AfTonfo feu filho lhe grangearao augmento de habka- 
dores , ficou de fua jurifdicqaS real , onde per feverotil 
ate ElRey Dom Joa6 o Primeiro , em cu jo tempo ca- 
hio nas maos d'ElRey D. Joao de Caftella ; que nella 
teve por Alcaide f e Fromteiro a Ayres Gomes da Syl* 
va, Ayo, que foy d'ElRey O. Fernando de Portugal, 
ea%lo com Dona Urraca Tenorio t Cartel foa na % ir-* 
ir^a do Arcebifpo de Toledo D. Pedfco Tenor ia A efti 
Ayres -Gomes a tomou ElRey D. Joad Pnnmim de Por- 
tugart humarrfad*u£a$a,por ardil de Aftoa^o Loufenc«t 
Carvalho , o ma is honrado do lugar , que Mie fez abfir 
a porta do poftigo, dizertdo ao porteiro , que qiieria 
meter hnma caba em hum carte* #elo qua! pot ra e«- 
trou E1R >y<com lre7entos de cav Ho. E recolheniaa 
ie os de denfro ao Caftello, ElRey © come^u da 
^cmbater, e elks dtfeader t ajitdando ta»bem uifta 

a ma- 








_^*^MM 



2$ 2 Varus JnYiguidtcla 

a rnulher de Ayres Gomes, que andava pelo muro 
com as abas cheas.de pedras, que Ihes dava. 

r iVendo-ie Ayres Gomes da Sylva atiim aperta- 

do, oftereceo partido, que pediria loccorro a BlRey 

de Caftella ye naoilha mandando dentro em certo ter- 

mo, entregaria o Caitello; e aflim o fez, iahindo«ie 

elle com os feu?. ElRey feito defta maneira fehhoc 

de toda a Villa , diz a fua Chronica , que a deu ao 

GondeOavel D. Nuno Alvres Peretra. Mas nao fey co« 

mo , nem porque ella tornou prefto a feu real jazi- 

go» donde nunca houvera de fer tirada por excellen- 

cia, como patria daquelle gloriofo Rey , que primei- 

ro mereceo de Decs efte titulo , por interceffao de (ua 

Sagrada May , e o deixou a feus fucceflbres, com as 

terras, que por armas adquirio. Com tudo EIRey D. 

Aftonfa Quinto a deu a D. Affonfo Primeiro Duque 

de Bragan^a • e Conde de Barcellos, por lha pedir jun- 

tamente com o Porto , como ja tambem pedira ao In- 

g l % m< ^ ante D * Pedro 1 mas nao houve mais , que Guimaraes, 

Gum ay .jy por q Ue p ort o ie defendeo, diz Garibay. 

'" '. „ • 2 O noflo Chronifta Damiao de Goes na Chroni- 

17Z chr.0 do Principe D. Joa6 diz, que ElRey D. Affonlo 

tfo Prinze , Quinto deu a D. Fernando Duque de Braganca, nin.0 

c.«7. '"do Duque de Bragancja D. Affonfo a Villa de Guima- 

raens. E que o meimo Rey fez doaqao de juro , do 

Caftello de Guimaraens com todas as rendas da Villa , 

ialvo a dizima , a O. Fernando , filho de D. Fernando 

Duque de Braganqa. B que depois deu ao meimo D. 

Fernando Conde de Guimaraens , filho de D. Fernan- 

do Duque de Bragancja , todos os Padroados das Igre- 

jas, e Mofleiros da dita Villa. 

4 E quando o Principe D. Joao filho d'filRey D. 
Affonfo cafou com a Senhora Dona Leonor, filha do 
Inhnte D.Fernando pay do Senhor D. Manoel, qu© 
depois foy Rey feliciflimo deftts Reynos, cafou tam- 
bem D. Fernando Conde de Guimaraens , que depois 
foy Duque de Braganqa, com a Senhora Dona Ifabel, 
filha do mefmo Infante D.Fernando, e ElRey Dora 
Affonfo Quinto lhe deu titulo de. Duque de Gi ima- 

raens,' 




rre* 



c.78. 



*Dt "Portugal. Cap. LF. 23 b 

taens porrclpeito dcite cafamento, vivendo ainda o 
Duque deBifigar^ Dom Fernando feu pay. Tudoifto 
he deDamiao deGoeinoiugar citado, Mas eft e Dom 
Fernando Conde, e Duque de Guimaraens, e depois 
deBraganca , iendo privado de todos ps feus bens por 
El£ey Dom joao 11. EIRey Dom Manoel, tornou a 
dat eita Villa com todos os maisbensa Dom James ieh°f tr ' us • 
filho, que mandou 7ir dc Caftella , aonde ie foy por *",*[#' ,„ it 
morte de ieu pay. z m f i I4 i s [ 

f A efte Dom James Duque de Braganca fucce-D«mw5 de 
deo Domlheodofio leufilho, o qual deu a Villa 6t G ° esn - aGhr - 
Guimaraens em dote a Dona liabel iua irmaa jiqusndo^^ ^ 
cafou com o Infante Dom Duarte filho d'ElRey Doir. tf% ^ 
^anoel , cujas vodas fecelebrarao em Villa-Viqolano^«mworf* 
anno do Senhor j 536. O qual Infante o pofliio em fua Goes na Qhn 
vida com titulo de Duque de Guimaraens, E por fua d ^ e \ Dom 
morte ficou ao Senhor Dom Duarte leu filho Condei-., T*°* ' i '' 3 ' 
table de Portugal , e Duque de Guimaraens * quemci- 
reo em Evora com uni^erfai ientimento defte Reyno. 
E depois delle tornou ao repoufo da liberdade \ e fran- 
queza Real , onde hoje fe aquieta. 

6 £ deixando efte propolito , nao tern ss Cida- 
des, e Villas mayor fionra » que as cafas, e Palacios 
verdadeiramente Reaes '., em que Deos, e feas Santos 
fao venerado?. E affim he defta nobre Villa a Sgreja 
Collegiada de NolTa Senhora daOliveira, na.qua'l.ha 
Prior, Ghantre, Thefoureiro , Meftrefchola 9 Arcedia- 
go de SobradeMo , Arciprefte , Arcediago de Villa-Cova, 
quatorzs Gonegos prebendados, oito meyos prebenda- 
dos. Sobre os quaes tern o Prior jurifdicqao quafi Epif- 
copai , tkando em dous caiosde pr-ivaqap, e (Mpenfao 
in perpetuum. Tern mais de fua jutiidic^ao doze Padres 
choreiros. O Priorado he da prelerrtacao d*£iRey, co- 
mo Padroeiro. Os outros banefldos prefentou ateago- 
ra o Prior com a mayor parte do Cabido hum rrez, e 
o Papa outro, porpefte, e coftume : tirando o Ghsn* 
trado, que he in folidum do Cabido. H quanto ao Ar- 
cediago de Sobradello, EiRey o prefenta huma vez, e 
9 Cabido putia , como Padroeiros , que faO da Igreja 

Gg dig 





J&, Fruiten. 



254. Vdrias AntlguiJaJes 

de Sobradello , e ja o erao em t^mpo d'EiRey Doro Dfc 
niz , coma confta de eicrituras antigas do archive* del- 
ta igieja. Rende o Priotado quatro mil cruzados , e 
huma Conezia cento e ieilenta mil reis pouco mais > 
cu menos, 

7 Eiies ko os beneficios delta Igreja , cu jos ren- 
dimentos nao lao para defprezar neitas partes v por« 
que o Duque de Braganqa Dom Fernando (egundo do 
nome , iendo, Senhor delta Villa pedio ao Prior, eCa^ 
bido com muita initancia , que lhe deilem em tua yi- 
da as preientaqoens delles* E depois fez o meimo El« 
Key Domjoad oil, Eaconteceo javagar o Chantra* 
do, emandalo, pedir ao Cabido a Senhora donaFilip«% 
pa , filha unica de Dom Rodrigo de Melio Conde , que 
foy de Giivenca , mulher de Dom Alvaro irmao do Du- 
que de Braganqa Dom Fernando II , e tendo4ho dado 
o Cabido, chegou hum manfagdro d'EiRey D. Joao 
oil, com huma carta, em que tambem lho pedia. Mas 
jsefpondendo o Cabido, que o tinha dado a inltancia 
^ Senhora Dona Filippa , Elkey lhe efcreveo outra, 
em que dUTe haverfedillo por muito fatisfeito. Em tem- 
po de noilospays o Car-deal Infante Dom Henrique pe- 
dio ao Papa a. fua alternativa nos beneficios delta Igre- 
ja , que elleihe concedeo, e porella ptelentou emfua 
vida , os que vagarao nos mezes Apoltolicos. 

8, A inftituicao delta Collegiada he obra do pri- 
tneiro Rey de Portugal ; como atraz moilramos e 
por. efte refpeito eile , e feus dekendentes fe chamao 
feus padroeiros. Efta he a caufa, porqueo Bifpo D. Pru- 
dencio de Sandoval no livro das antiguidades de Tuy 
lhe ch.ama Collegiada Real de Guirmraens. Os feus 
Priores forao muitosannos immediatos ao Papa , ate 
que o A'cebilpo de Braga Dom Eltevao is oppoz a if- 
io , no anno do Senhor v%\6 , fobre que fe fez a pri^ 
BVStra concordia , de qu^ atraz faliey , na qua! , entre 
outras coufas, fedecretou, que o P;ior lendo cham:4 
do para o Synodo Bracharenie , iria , e leria polio em 
In gar honrofo. 

a fiu acho por tradiqao nelta Igreja s que quan- 

do 



f)t Portugal. Cap.LF. 23 S 

«3o o Prior era charoado , e feachava noSynodo, tam- 
bem Ic achat a com elle o ieu Cabido , e que na pro- 
ciilao , que le faz , o Cabido de Braga levava a ala di- 
rcita $ e o de Guimaraens a efquerda. E alnda do tem- 
po do Arcepilpo paffado Dom Frey Agoftinho de Je- 
iu , que efteja em gloria , fazendo elle -Synodo , men- 
dounotificar aoj^abido de Guimaraens , que f ode a el- 
le , o qual na6 foy , por Ihe conilar , que arnbas as alas 
daprociflao ie faziao do Cabido de Braga , e mandou 
porfeu procuradof hum capitular defta Igreja * que la 
fez feus proteftos em ftome do Cabido* Com tudo o 
Arcebifpo enfadado da repulfa , mandou citar ao Cabi- 
do para refponder em juizo, , com inten^ao de o caftigar* 
comofoiTejuftica. Mas o Cabido por reverend a detao 
infigne Ptelado , o qual com iua muita prudertcia , vir* 
tude , e brandura , fez o leu tempo de ouro , e aflim melr 
mo hum fujeito proprio do amor dosbomens , mandou- 
mea Braga a darlhe (atisfaqao : a qual fe fundou na in- 
decencia deir tao honrado Cabido naprociffao entre 
a chufma da Clerefia j privado da pofte de feu antigo lu- 
gar, enoutras razoens concernentes j com que oArce- 
cebitpo ie deu por latisfeito. E logo alii mandou dizet 
aoPromotor, que naSfizeffe rrada no negocio do Ca- 
bido de Guimaraens lem fua ordem efpecial. Depoistra- 
tey com elle certo negocio , para que era neceffario 
ieu benepiacito , que elle deu de muito boa vontade. 
Hnalmente quando me deipedi , me difle eftss pala- 
vras, que fao do mefmo ouro , deque era o tempo: 
Tordqui vera « Cabido j quant o (cm amigofou, p»is faco , fl. 
que quer qut fafd, edesfafe, oquequer que desfapa. 

i o Das qualidades , e eftados dos Priores antigosj 

tia6 ha memoria ; mas fe por rafto de conjeduras fe pode 

dizer alguma ccufa , pareee i que o Prelado deftaigre- 

ja, e defta Villa, a quem tantos Clerigos , eleigcserao 

iujeitos, oqual era abfoluto , fazia cafamentos , ex- 

conimungava, e punha Curas de (ua mao nas tres Fre- 

guefias da dita Villa, fern emcoufa alguma deltas reco- 

nhecer fuperioridade aos Arcebifpos de Braga : eftetal 

Prior deviadeferpeffoa de partes, em quem tao grave 

Gg ii digni- 



■■I 






faker* I. u 



"Efl4 itagaveta 
das prejenta-. 
fpsm. 



Do Bifpc do~* 
Fttnckil Dom 
Diogo Piahe't- 
ro y fall a Da- 
miao de Goes 
n* Ch,\)<tica 
4',dlRey Dom 
Manoel, £,.}, 



% IS Farias Jntigmdacfes 

tiignidade effivefle bem. Alem diuo , como foflem pdf~ 
tos por Ei Key, nao (e pode duvidar , que nao toflem 
qua! ifacados ^ q dignos de tal eleitur. 

II Nao qy^ro deixar de dizer, que quando El- 
Key Dc m J026 f. tomou efta Villa a Aires Gomes da 
Sylva, como atraz refedmos , diz o Chronica, que 2e 
s-po(entou junta i Igreia nas cafas do Prior. J£ catas, 
que agazalhavaa hum Rey, era6 iera duvidanobres , 
eteiras para taes peflbas. Porque le as cafas , que Cneo 
Octavio, fez em Roma, the aprcveifirsopafagrangear. 
o Cbalulado, como Cicero diz, tambem-podemos di- 
zer ,cme as idos Priores antics de Gui.naraens , em que 
hum Rey wagazalhava, Ihe gnngeao reputaqad der.o- 
breza % e das mats partes , que efta grande dignidade re-- 
queria*, 

; l* Confirma effa prelum pqa6\ que no anno do< 
Senhor 1047. -Dom- Dingo Alvares Pjior de Guima'aens 
toy elcito Bi-fpo de Evora., c^mo conira de ht n-aef- 
cntura, que edi no archivoda meima igreja*. Oqual, 
■1-egundo efcreve JeronvmoOforio no C.naingo d. s B: f- 
posdeKvora, ftjy dalli para Arcebilpode Li-boa. AU 
guns annos adfante f<>y Prior de Guirnaraer.s D Dio- 
^o Pinrrefcd Bifpo doFunchai, que fez clauftra de(U 
fg-eja j eatorre dos finos com capella , que nm de* 
baixo., em que pozas fepulturas de Jeu pav , e mty , o- 
DoutorPero Efteves , eDnna Ifahel Pinheira. Alliraa 
acho por fama , pofto que Gafpar Barreiros nas fuas Li* 
nhagens. de letra dema5 na6 Ibesda tal filho. Revendo 
eu eftes meus trab lhos,paraos mandar aofmpreiTor, 
occorreo-me aqui fazer hum catalogo dos Prio e< del- 
ta Igreja , quefofleem fuacompanhia. Masconfideran- 
do, que havia mifler tempo , eque a vida foge , e a 
morte vem de faz a grande jnrnadas , (obreftive. Al- 
gum curiofo o fara"^ que para iftb tenha faude , e ida- 
de, pois efta minha me admoefta ji entrouxar osme- 
Thores, emais pios cuidados para partir* e osoutros,' 
que menos fervem, qtues fao as antiguidades j deixal- 
3fcs a quem as pofla efcrever# 





*De Portugal, Cap. LVI. 2 $7 
CAPITULO LVI. 

\JLlgumas txcdlemias de tnra de tntrt Douro f 
e tJMinho* 



Sta terra cfiamaJa' enfre Douro , e Minna 
he mutto conhecida por algumas coufas no- 
—* taveis> que tem , de que Vafeo da teftimu- Va -[ etlstom ' & 
rho em iua hiftcria, as quaes tomou de hum tratado^ 1 " w,Il °° 
de le trade mao feito por Metre Antonio frfica.de Gui^ 
rr-araens , qvg e!1e rsao nomea , coroo nos hora faze-.- 
tros, para que a fe ,. doque delletomarmos , fiqiie fo- 
hie ieu Author : e por nao imitarmcs a M.icrobio',- que 
tomando muitaj couias de Aulo Gellio , fey tao nigra- 
to, que erri tao grande monte dedividas iempre calou 
o nome de credor , deque o reprebende Crini-to na.-hb*p f Cr . -1 
neita difciplina. Avateza ingrata , e ne'feia , que faz o ,,//,' 4 ? n °" -', 
alheyofeu, equer rnais fer tomada nofuvtb* que pa* 
far oempreft do, atroo ditle Plihio por algum irge- 
uhos vicioCos , e mal aftbrtunados* FUn.fr doge 

z O comprimento da Cornarca dentre Ppisro , e M-»«* •■■ $»$r 
K^mho he de dezosto legos s , que fe contao do Pon-o^"*' 
ate Valenca , e a largura toman do a do- mar para o ger«- 
tao ate 'a pome de -Chavez j dedoze , e em partes de 
quatro, cinco * ^e feis. Tem maia decern mil vifinhios,-. 
por fer tao habitada, que em poucas partes ,-darao hum' 
brado, que o 020 oucao em povoado. Ha nella duas 
Cidades E pi i copies , Rraga , eo Porto. Tem dezafeis; 
Villas cercadas , edezoito fern cerca. F6ra aquellas dnas? 
Igrejas Cathedraes de Brags , e Porto ,. tem cine© Col- 
leeiadas,. a- de Guimaraens , BarceHos , Ceudofeita r 
Valenca , e Viana. Tem cento e trinta Moffekos de* 
Sao Francifco , Sao Domiugos , Sao Bento. Sa& Ber- 
nardo-,. Santo Agoflinbo , Santo Floy - y de Frades , e 
0? Freiras. E perto de mil quatrocentas e-feffenta Igre*- 
gs de pia&debautizar.^ eabbadad^fora-oiitrasrantas 
£nuidas r * Neflai 



il L 



23 S Farias Antiguidades 

2 Nafta Comarca ha fcis rios capitaesj que fao 
Douro, L*qa , Ave , Cabado, Lima , e Minno ,.os 
auaes entrao no mar , e iuas fozes fa6 capazesde na^ 
vios, e naos , fora outros muitos pequenos. NeitesriQJ 
ha perto de duzentas pontes de pedra iavraoV , tora ou- 
tras' muitas depao » e pedra nao lavrada. Ha maw de 
rate ecinco mil fontes perennes , nao faliando em 
sruitas outras, que.ua6 dura6 todo anno. Comaagua 
deites rios, e fontes he efta terra grangeada , eregada 
de dia , e de noite de duzentos mil lavradores , e to- 
do anno efta verde , e tern muitas * e diverias tiores. 
Ha nella mais de cem mil bois , e outras tantas ca- 
becas de gado miudo $ e detaqas deprata tanta copia,. 
que farao numero de fetenta mil, deitando a cada ia- 
vradoriua taca j pofto que muitos moradores das^W 
dades i e Villas, e lavradores tern trinta , quarenta, 
dncoenta tacas , porqua fendo a terra apertada , e 
n&o tendoemque empregar feu dinheiro , o metem 

nella * t_ 

4 Das coufas neceilarias para a fuftentaqao he 
muito abundmte , e tao barata , que no tempo de Mei- 
tre Antonio , que viveo cerca dps annos do Senriot 
m s, fertil de pa6 , de candea , de moftarda , de cou- 
ves.de nabos , de alfaces , e de todas as frutas i hemui- 
to creadora das creaqoens , que nella ha. Em Adaute 
eftava huma mulher de noventa e fete annos , e vinfta 
a Brasa porfeu pe k e com todo feu cilo natural * e ti- 
nha vivos eitre filhos , netos , e bifnetos cento e no- 
ve. Diz M;ftre Antonio , que lfto lhe certificou Dom 
Dioi»odeSoufa Arcebifpo de Braga. „™. ■ 

c N-fti Comarca ha muitos edificios de pacos , 
eqiintas antigas , e honradas , donde vem a mayot 
parte ,dos Scares, e appeilidos de fidalgos e homer* 
Lnradol de Portugal, e parte dos de Caftella. Kites 
U6 Caftros, Soulas, Pereiras , Ataides * Cunhas,Syl.. 
vas, Azevedos, Magalhaens , Berredos, Vafconcel os, 
Portocarreiros , Alcoutins , To^oras, Britos, Britej. 
r os 4 Sas , Mayas , Alvarengas , Mattos ; Foniecas , Si- 
queiras, Rochas, Amorins, Aguiares , Ribeiros^ Pei- 



k ^Portugal. Cap. LV1. 2 

XOtos , Barbolas , frgueirss , Hgueiredos > Nobregas, 
Farias, OHveiras, Lagoas, Sandes, Ccftas, Vieiras, 
Barros , Madureiras , 'fcleivas ,: Freitas , Garvalhos , Pi- 
menteis. Kites appellidos diz efte Author, que vem de 
paqos , equint$s , fora outros , que vem das Cidades, 
e Villas. 

6 Efta6 nella fepultados rnuitos eorpos Santos, 
como em Biaga Sa6 Geraldo , SaoTiago iritercifo , Sao 
Victor , Santa Suiana fua irm&a , ; Sao Martmho d© 
Dume. Meya legoa deGuiniaraens Sao Torquadc. bm 
Sao Franciko de Guimaraens Sao Gualie'r. Em Bailo 
Santa SenhorinhsL, e Sao Gervas feu irmao. E o cor- 
poianto de Leea meya legoa do Porto T e ontrcs mui- 
.tos eorpos faotos , e teliquias. fito he em iubftanciaj 
o que contem aquelle tratado de Meftre Antcnio : e 
•deixahdo miudezas , que eipanta© , como a vide de 
Burgaes,, que dava trinta e cinco almudes devinho j' 
hum caltanheiro , que dava mais de trinta e cinco nl- 
queiies de c*ftarih3s , huma nogueira outros tantcs de 
-noxes, bun* carvalho hum moyo debelotas, huma la- 
rangeira , quatro * ou cinco mil laranjjs , eoutrascou. 
fas, dequenao trato. Tudo jfto- he do Mcftre Anto- 
nio , polio que elle odiz mais diliufamente. 

CAPITUL'O LVII. 

ID a mbreza da Cidads de Eraga, e daPrmatiadi* 
Hefpanha, quewllaeftd. 

Uero ajudar ao Meftre Antonio na materia 
das ex eel I en das delta regko dentre Dou- 
m ro , eMir.ho , das quaes eu tenho por a Ptc ' im >\ # 

maycr eltar nella a inilgne Cida'de deBragn , chama- c , «. 

da de Ptolomeo , Flinio , e Antonio , Au.gufta ;-. e do riir. /.fao, 

Poeta Au'onio, rica. A qual fegiindo o rnefrno PHno. ^"'i** *»#*». 

foy hum dos fete Conventos, ou.Chancellaua de Hef- n "\ r d . 

fanha em tempo dos Romanes. £ como eila fofle tsc £ i^l r m^ 

JIG* bus*. 





P* arias Jntipuidadtf 



Gafpar Btr. 
na Chr. tit* 



Pemp.h\-.c.6. 

Piin I. 5. C.I. 



TUtfna inUr, 
h#np JL 



Azorrus Inff 
tit. Mot. torn. 
*. 1. 4. c. 3 5. 



Fr. Jerony-n 
Rom na etftO 
Cbrifl. I. J • 



!. 



nuhre , diz Gafpar Barrreiros Cuncgode tvoia na (ua 
chorographia , que nao femcauia lhe coube pelo tem- 
po a Primacia de Hefpanha com tao grande Uiceceis, 
comoentao tinha , a que tantos Biipadc* de Heipa- 
nha erao fujeitos , que o metmo tempo me toy gaL- 
tando. Ate aqui Barreiros. E porque elia Provincia le 
dividia -antigamente em duas , citerior, e ulterior, e 
tambsra em tres, Tarraconenfe, Bstica, eLuntama, 
como dizem Pomponio Mela, e Pliniq . daqui vem - 
aue o Arcebifpo4e Btaga para mayor dedaraqao da 
prwrainencia .que lhapertence, fe mutula , eaffina 

Primaz das Heipanhas. r 

3. Bern fey, que o Papa UabanolT,como efcre- 

ve Piatina, fez Primaz de toda Hefpanha de : e pe^al 
graqa a Bernardo Arcebifpo de Toledo • com queaquelj 

f. ArceWfpo ieintkulafe affioa tambem Primaz ^das 
Helbanlias: mas nem Urbano, nem outros Pap-s, que 
derafi ao de Toledo efte Privilegio entende ao t irac 
aodeBraga efta dtgmdade , que era fua dedireito, e 
fempre a pertendeo . como conita do capuulo , Coram no 
titulo Dcinieorum rtflitmione. 

\ O Primaz , que os Grego; d.zam Pair larchaj 
he luperior aos Bifpos , e Arcebifpos no pode : : da >* 
rifdicc.ad, eodde o Bifpo appellar do feu Meuopo li- 

. tano para o Primaa , e do Pr.maz para o Papa . Nao fw 
os Bifpos fujeitosae Primaz, mas em "ut^eappeU 
lac* pddem reconhecello, e elk ^efendellos O B f- 
po preSde em huma Cidate ,0 A^P" .«» , hu "? 
Woviocia , que tern muitasCdadesc otnB 'P™. e ° 
Prtmw em muitas Provinc.as , peas quae leva Cruz 

.dobrads, e he recebido com muita tolemmdade ' e po- 
de fazet altos PontiScaes. Ecomo eftadigoidade fe,a 
tao emihMtei, a huma das principals da Igreja , mm, 
as vezes houie conteadas fobre ella eatre Prelados. 
como em Fra-qa eatre o ArcebUpo de Arelate , e ode 
Vi-ma, em EliftUoH*. entre o de Btaga , e de Tole- 
d,, vaVMd)-fe efti de prWilegios para a ter, *°J! S 
Braga da aatiguidade, eexcelleacja de to Mettopoli. 
e <je oiijacas coaias concstnentes, 



T)e Portugal. Cap. LP 11. 241 

4 Ambrofio ue Morales nao tratando dos privi- 
leges, que Toledo tern , e advertindo quam jullos, 
e authorizados iao os fundamentos de antiguidade 
foy notando, e levantando na lua hiitoria geral de He4« 
panha tudo , o que achounos tempos aatigos, que fa-* 
Zta a bem da Primacia de Toledo : e eu lendo efts 
Author fuy coniider ando , ecolhendooque elle levan- 
tou , e tambem levantando o que elle deixou, naotu- 
<lo , fena6 o que me pareceo , para Ihe refponder *. pof- 
to que receoio , porque fazello era prelumpcao , nao 
fazello d;algumamaneira covardia, ambos extremes: 
mas porque na covardia morrem todas as grandes oc- 
cafioens , iiqueime no mais alto , por mais digno da 
perdao , e tambem lembrando-me , que aos ouiados 
ajuda afottuna. 

5- Naoacho , que antigamente fe exercitaffe o of- 
ficio defta dignidade em Heipanha. Nem que houvefl-e 
nome dePtimacia, nem ainda odeArccbHpo, cornd 
fe ve msConcilios Nacionaes. Etodos os Prelados fe 
aflinavao por efte nome de Bilpo. D pois feaccrefcen- 
tou o de Metropolitano para different dos Bifpos 
Ordidatios. E no aflmar nao havia rnais ordem , que 
affinarem-fe os MetropoUtanos primeiro , que os Bif- 
pos Ordinaries , e daquelles na6 hum fern pre , mas ora 
hum, ora outroindifterenteraente. Donde tomou mo- 
tivo o Doutor Manoel Fernandes Conego de Larrego v*utor v<fc 
para dizer , que em Hefpanha antigamente diverfes " oel Fer *« tt - 
Reys , e diverfas igrejas favoreciao : e sflim orden?- de$ ?*£'?***' 
vao por Metropolitana , e Primszes de feu fenhofio , Sw-X.5 
asquebemjha pareciao. E que efta he a fundamen- .<*«&*£««• 
tal origem ; , de que nafceo Braga % Toledo, e outran 
Cidades tada huma fe intitular Frimaz de Heipanha 
contendendo porfiadamente^fobre a Primada fendq 
affim , que nenhuma ja mais em tempo algum o foy 
detoda elta. 

6^ Maso que efte Author diz , que aquelles Reys 
faziao , trs de faclo , e nao de direito, nem de nome 
porque a Primacia fempre foy de quern de dire i to foy,' 
.e-aa a coufa, air»da\que nso era o nome j nemoufb, 'i 




- --- 



Mrevt Brae. 



Valines em 
Veldro Brae. 
Vafgus lorn. I 
®,mo D. 44, 



si. 
. 7-e il 



Epifl.aJKe 



24* Farias Antiguidader 

que por veatura toy dos Papas , aos quaes fe recorria. 
Mas a Panada eftava realmente % como hoje dla , na 
Cidade de Braga , porque o Apoftolo SaoTiagoandan- 
do em HMpaaha a efcolhco entre as principals (qua! 
Toledo eatad nao era, near foy dahi -a muitos annas) 
pata. aella por, como poz , aprimeira Gadeira Epiico- 
pal j. em que deixou feu diicipulo Sad Pedro , que a 
igreja B acharenfe reconhece por leu primeiro Bhpo , 
dado r eordenado pelo Santo Apoftoio , como ella mef- 
ma canta nas liqoensdas Matinasdelte Santo , cuja fef- 
ta ceiebra a 26 de AbriU A quai ieguem. aiito outran 
s Igrejas de Portugal; 

' 7 Polto efte fundamento tao folido , e tao* Apofc 
tolico doprmcipio da Primaeia delta Santa Igreja, o 
quai he bem notorio , e o traz Ambrofio de Morales, 
para provar a vinda de Sa6 Tiago a Hefpanha , que el- 
le- poem, no Imperio de Ctaudio : com tudoiepara if- 
to ihe paceceo bem , nao Ihe pareceo tat para por el- 
Je lhe dar a Prtmacia de Hefpanha , porque a tinha gur- 
dada para Toledo , nao pelas concefibens de Uibano,, 
edeoutros Papas; mas poroutros fundaments, que 
trarey > para que fe veja com quanta paixao os elcri- 
tores Caftelhanos tratao de noil as coufas , quando fe 
encontrajS. com as fuas ) de que ja le queixava Andre de- 
Refendei 

8 Chegando Morales em fua hiftoria ao tempo 
de Bomiciano % que foy depois de Glaudio vinte e oito 
anrsos* s tratandode Santo Eugenio primeiro Biipode 
Toledo , que en tao veyo a Hefpanha , diz aflim ; 
„Tinha-omandado feu Meftre Sao Dionyfio Areopagi- 
„ta difcipulo de Sao Paulo defde Franca >. onde elle 
„ pregava f a Hefpanha , ordenado de Bifpo , e pregava 
>a finaladamente em Toledo , fendo o primeiro Prela- 
„ do de-alli, edando principio aefta dignidade, e Pri* 
„ macia , que tao folemne , e exaltada he agora nef- 
„tes Reynos. Ellas fao as palavras daquelle Author, 
efte fundamento daquella Primaeia. E fe elle cote- 
jou Cidade com Cidade , quaes ellas entao erao , fun- 
dadur de Prima tia com fundador , e tempo com tern* 



Tie Tortugual Cap. LV111. 14 % 

po , nao ley, que oconvenceoj nem ley , que ani- 
mo tinha de dar principio a Primacia , quem alii veyo 
pregar , e ie tornou para Franqa* 

9 O que tudo em Braga foy pelo contrario * per- 
due o Apotiolo muitos annos antes poz nella a Sao Pe- 
dro primeiro Biipo, o qua! perleverou com fuas ove- 
lhas em feu officio ate padecet martyrio no lugar de Ra- 
tes ,fazendo muitos milagres vivo , e morto, como di- 
zem os Breviados Bracharenie , e Eborenfe, e muitos Bnv. $r*£ 
Authores. E ha-fe de notar , que o Padre Frey Jerony- & Eb ° r - d f 
mo Romano faz duvida em Santo Eugenio |er ^pn'^^rj' 
meiro Bifpo de Toledo ; ediz^ que fobre iflb conten- R ^. cbrifia* 
deo com Ambrofio d& Morales. Mas o que mais duvw.i. itc * 
da faz he , que Sao lldefonfo no catalogo dos Bifpos 
de Toledo nenhuma mencao faz defte Rugenio , nem 
o conhece por Bifpo daquella Igreja , ccmo advertio 
Andre de Refende na Epitiola a Bartholomew c*e Ke- 
bedo Conego de Toledo, a qua! advertenda hemui- 
to notavel. Sfta incerteza do primeiro Bifpo de To- 
ledo he tambem argumento da rnal fuodada Primacia, 
a qual ie deve ajuntat ab que .fica dito , e ao mais , que. 
ainda fe dir-a. 



CAPITULO LV1IL 

Se Sao Pedro primeiro Bifpo de Braga veyo a Hefpa* 

nha com os doze tribus mandados , en trazidas 

por Nabucodonefor. E quando , e dvnde 

houverav os Judeos efie nome 

de Judeos. 



o 



>fo 



Padre Jeronymo c?e la Higuera ReHgiol 
da Companhia de JFSUS , referido pe'o 
Bilpo de Tuy Dom Prudencio de Sardo- p. /W&. »*> 
val, diz, que Sa6 Pedro primeiro Bifpo de Braga foy i"™ <*<* 2f&& 
jjudeo denaqao, e veyo antigamente a Hefpanha ccm S$ td ** e * eT '" 
■«• doze tribus mandados de Jerufalem por Nabucodo^ ( 

. Hh ii 



eteTuj 



nofor 



Suhl. Eme-.t, 
lib. $: " 
ViSieriui in 
Indice in om- 
ne-s tomoi San, 
61 i Hievonyn. 
verbo Nabuco- 
donofor. 
Jofeph Amiq. 

I.IO C.iOA $. 

Jofephal. ]L 
contra /fppio- 
ttem po/i media 
ex verfione 
HtoJ1n.fol.5l7. 



14+ Farias Antiguidaiet 

aofor, e que foy diaondo Pxofeta Samuel o moco* 
ou Milachus o velho , pela gravidade de feus coltu* 
mes e formofura do rofto > e que foy filho da Pro- 
rata gnas j e mdnea vinte annus depois de vie a. 
eiia* 

* Dizmais, quequandoSao Tiago veyo a Hef- 
pantia, teliiicitou aette anttgo prof eta. O qua! orde- 
iiado Uifpo pelo Apottolo, ewcebendo dclle as inftU 
tuiqoens ApoHolicas , o Evangelho, aordem da Miflal 
edosSacrams^os, fe foy a Braga , onde por ordem 1 
e mandado feu aflentou Cadeira Epifcopal. Diz mais- 
«Itando. em Braga pcz Bifpos neftas Cidades , Iricnfc'* 
4mp«rt*ch**fe. , Emhievfe, Pvtnenfe , * 7#W* EpJo- 
Wl.e ; cfttpode Tay de fua,boa lorie,. por Ihecommu- 
Dicapaq^Ue Padre eftas raemorias de antiguidade 
que d^ acjiou em cersos papeis., e fragmentos , que 
porgfande diligeacia vierao a fuas ' maos , elcritos por 
banto Athanafw primeiro-Bifpo.de Qaragocade Aragao* 
eachados. nallha deSardenha.'. Fallando-eu deSafi Pe* 
qro pfiroeiro Bifpo- de- Braga , nao quiz caliar e-tfa* 
qoulas. , quetantolhetocaoi porver, que algunslhe 
Gso credito. Eu com tudo nao Iho dou , e teaho aquei- 
Jes tragmen-tos por falfamente ihtkulados naquelle 
Santo, como fao os da Bevolo em Bern fo , e osdeCa- 
to de Origtmkits. em Cato y e Qiitros antigos , e moder- 
nos, que nao nomeyo. 

X Sabellico,, e- Mariano Vi&orio ■ notarao, qus 
Joieoho, teguindb a Berofo (nao o falfo , que temos: 
lenao overdadeiro, que nao temos) diz , que houve 
dous Reys de Bibyloaia chamados Nabucodonofor , 
Pay, e filho :-o filho, diz o mefmo Jbfepb ailegando 3 
Migalhaens , que foy rnuito inflgne , e que em, for- 
taleza, egrandezide feitos paflbu a Hercules , edef- 
truio Africa- , e Hefpanha. [fto mefmo repete nopri- 
meiro livro contra, Appion grammatico por eflas pa- 
lavras : „ Vfcradhenes deda arecontendit , prjediclum 
„ rejem Babyionjorum Hsrculem fortitudine ,' & 
,, actdummaGmitudirie praecifMe. Dicit enim , eum 5c 
,i,maximam Lyb\% partem, SclbeiiamlubyettilTe. Ef- 

t&: 




Aneadl 



De TonugaL Cap. IV 111. 245 

te deve fer o que trouxe comilgo os doze tribus , le» 
gumdo alguns dizem , ou os mandou de Jerusalem a 
Heipanha , conforme aquelles papeis de Santo Atha- 
nafio. 

4 Mas , ou fofTe o filho , ou fofTe o pay o que 
os trouxe, ou mandou t coufa parece.efta, como ja d if- 
fe atraz , incerta , e fabuloia. Porque piirrieiramente 
nao fe pode crer , qge foffe mais infigne era feitos , que 
Hercules, hum homem , de que nenhuma na^ad'Hi m 
noticia , tirando os Bahylonios. E fetal foy $ como fe 
nao acha memoria de feus feitos nos efaitores anti- 
gos? ponde veyo adizer Sabellico, que fe ef pan fava 
dejofepho crer ifto. A fegunda razao be, qu<s fe Na'» SahlUu $* 
bucodonofor trouxera os doze tribus 2 H if pan ha T hou-v*/ 
vera a Sagrada Efcritura de fazer mencao diffo , como 
fez outras vezes ; a qua! nao faz. Porque quanta aquel- 
las palavras do Profeta Abdias : Transmigrate Hyemfa Ah'iiasV 
km, qu& in Bojphoro eflr , que traz hum Author moder- ^ so " 
no para con firmar a vinda dos Judeos em Hefpanha 
comJNabucodonofor , entendendo por Bofphcro; o 
eftreito deCales : Sao Jeronyrro he de diverfo pare- 
cer, porque quer , que Bofphcro fignifique qualquer 
lugar do Reyno delkbylbma - r ou gerarritenfe todos 
osterminos, eregioens, ondeos Judeos eflavaa daf 
terrados. E fegundo Sadjeronymo apalavra BafDhoro, Hieronymo «B 
que elle mefmo traduzio , nao fignirlca aqui eftreito JM**"*- 
algum demar, nem aquelle povo ha via de morar na 
agua. 

f Alem ditto rlenbum Author ^rsti>o chama Bofr 
phoro ao eftreiro de Cales , temoFretiim Herculum r 
ou GaAitanttm , como efte Author Ibe chama para fun- 
dar aquella profecia em Hefpanha , e os> Judeos vin* 
dos aella: naoadvertindo , que pi Bofphoros nao (so 
mais , que dous , o Thracio em Thracia ; oeimme- 
ho. junto dos povos Cimrnerios, comoconfta dos Geo- 
graphos. Tudo ifto por dar calor ao ralfo Metafttbe* 
nes de Joa6 Annio , que diz vir Nabucodonofor a Hefi* 
panha , e trazer comfigo rauitos Judeos , que siella dei- 
xou oelos nao cjuerei pofccativos * kgundo o refere o- 

fifgdl 





Arrail no 
Dialogo da 
ginle Judaka 
xap. I. 



' &<trrefr. vtas 
Cenfuras d f- 
Hi livros, 
Covts Va*. 
Hef. I. 4CU. 
§: Htfier liber. 
Rejiniius 
Antiq. Lufi- 
tan.l.x. & \. 
^oas dg Ma- 
: ri na ds fa 
iijt.dtHefe . 
J. I.e. 7. 
Criniius d: 
hontfla d'fc'f 
plina I. 14. c. 

rll. ' 

torn, j. i. 6, c» 

5Sarr- na Ceri- 
jur a contra 
Vxhlo Victor 
no fim< 

Qano d*. loch 
I I i,c-(" §. 
fed tarn, 
Ilin. L6.c. 1 7. 



St rah U I J. in 
initio. 

Sabefl. ubip'.p. 
Strabo I. I. 

in initio. 






2 +S Far ids Amiguidades 

Biipo Arraiz no Dialogo da gente Judaic^; 

6 Sao oslivros, que Joa5 Annio tirou a luZf 
tao arguidos, econvencidos de falfos, e alheyos da- 
quelles Authores , a quern elleos attribue , porhomens 
dautiflimos $ como Sabellico, Volaterrano, Luiz VU 
ves , Gafpar Barreiros , Cova»Rubias , Andre de Re- 
ten ie, Joao dc Marianna 4 e outros , que me ef panto 
haver eicritores, que ofigaS, e goftem maisde afleac 
a formoiura da verdade antiga com fabuias , que dais 
em (ejas elcritos limpa , e pura , com© era razao , e fe 
eiperava das letras , que tern. 

O Author Metafthenes , de que tra tamos , he 
cham3do de Strabo , Jofepho , Piinio , e Bufebio, 
Metafthenes ., por nao perder o coftume de fingir, e 
depravar vocabulos , de que o reprehende Crinito , e 
Joao Azor. Defte Metafthenes dtz Gaipar Barreiros, 
qua he Author falfo * como Berofo , Cato, Fabio , Pi- 
VtQt , e os mats delta companhia. O BHpo Cano e£- 
crarafp contra elle doutiuirnamente j e prova nao fee 
eft-eo Metafthenes antigo , e douto, fe nao novo, iem 
fentido , (em faber , fern fciencia , e fern vergonha. De 
Metafthenes antigo diz Piinio, c]ue foy mandado a 
India por Ptolomeo Phiiadelpho, para efcrever ascou- 
fas dos Judeos. G qual author , potto que fallaffe de 
Nabucodonofor , e o fizeffe vindo a Hefpanha , nao 
diz, que trouxefle a ella Judeos, como diz o Metaf- 
thenes de Annio , porque feo ditTera , Jofepho Judeo 
fizera delles menqao alguma , a qual nao faz allegan- 
do o mefmo lugar de Metafthenes' , como tambem o 
allega Strabo fern fallar de Judeos. Nem a vinda de 
NaSucodono(or he certa , porque Sabellico a refuta, 
e Strabo a nao ere. O qual tratando em outro lugar 
dos primeiros , que trouxerao eKerckos a Hefpanha; 
diz , que Hercules foy o primeiro ; depois os Fenjces; 
e depois defies os Romanos, Onde he vifto nao fa- 
zer cafo da vinda de Nabucodonofot com exercito a 
Hefpanha. 

8 Aterceira raz^o he , qua Nabucodonofovnao 
podia trazet , nem mandar os doze tribus a Hefpa- 
r . • una,' 



T)e Portugal. Cap. LFllL 2+? 

nha , porque Stlmanafiar Rey dos AfTyrios, que toy 
antes, dclle mais de cento e cinco^nta annos, vindo 
contra os dez tribus , chamados Iftael , que babitavao 
em Samaria com o feu Rey Ofeas > os levou s e defter- 
rou para Media. Do qual cativeiro faz men^so a Sa- #„ ^ 
grada Eferitura no quarto livro dos Reys. £ roah par- J^jl &. 
ticularmeate fe falla dilio no quarto de ktdras por eftas 4.. bjdr* n* ; 
palavras : H& font decern tribus ; qua estiva fafta fmt de wrj. 40. 
terra [fin. in diebu-Si Ofea Regis , quern caf'tivum. duxit Sal „ . A • 
manaffar rex jltfyrwum* Falla tambera delte cativeiro f°[ e t ** ' & 
Jotepho no livro nono das antiguidades Judaices. & 2^/^. i» l&*v 
Eufebio a poem na-Qlympiada oitava. 

9 Ficarao em Judea d®us tribus, que erao o dejud^e 
ode Benjamin, charnados Judeos, nome impoiio, quan- 
do osdcz fe apartairsd defies dcus ,. icbelando contra , , 

Koboam filhode Salomon , como efcreveS. Jeronymo J^^^L 
ftbre oprimeiro Capitulo de Jonas', e Eufebio €efa- £*JJ£yj , &t- 
rienfe na Chronica dos tempos. Pofto que Jofepho , ^xhndtos. 
e Baronio , que o feguio, digao , que o houverao vin- Eufeb in cbr, 
do do cativeiro de Babylonia, eque entao forao elles M *♦*«*»»• 
chamados Jedeos , e a terra Judea. Mas muitos annos W't 1 ' • uh 
antes em tempo d'ElRey Achaz falla a Elcritura dos^*.^. 
Judeos , como no quarto dos Reys Capitulo 16. onde A^ratm a& 
diz 1 Et ejeck Judeos de Ela.~ E por ventura ja f e chama* ^»jW« Led. 
vao aiiim em tempo de David, epelo menos a terra ji 
tinha o nome de Judea , porque no primeiro livro dm 
Reys diziao os.Soldados de David ao mefmo David : i'j^nm'iXik' 
Mcctttoshicinjudta confijiemes timemus* Eire nome hou* JofefhuH. 
Verao os Judeos, e a terra de Judea do tribu de Juda, fe->F« 
gundo Jofeph ,, Laclancio Firmiano , e Eufebio. A cau f^fjl f 
fa diz o mefmo Fufebio f .que fny 5 porque a efte tribu foy i e pomon/ir** 
dada adignidadedo Principado, eaflinvtevemuitas ex* ticnekvm& K l 
cellencias maisv que os outros, eomo elleprova na De? §•«£« h 
Wionitra^ao Eyangelica, 



€Am 






II 






248 Farias JnttguUaiet 

CAPITULOLIX. 

0tte os doze tribus nao vierao a Hefpanha , nem Sat 
Pedro Bijpo de Braga foy refufcitado por 
$ap Tiago. 

As tornando ao propofito , contra eftes 

dous tribus veyo Nabucodonolor, e pot 

outra vez-mandou .Nab.u2a.rda5 9 eosfu- 

4 Kei. % * & i^.^rao , ekviraopara Babylonia* EdizaSagrada Ef- 

%s , critura : Et transletus efi Judadt terra Jua. Meterao-fe en- 

treoscariveirosdoslfraelitas, e tranfmigraqao dosju- 

JoftfU Aa- j ejs p 2 i a con ta de Joiepho 3 cento e trinta annos , ieis 

tiq. . io.cii. . fle2es e <jez ji a s : e pela de Eufebio mats de cento e 

£«>&. w c-';r. k mcoenta annos , que o poem nas Glympiadas quaren- 

Ofjmf,. s. & ta e duasj quarenta e cinco * quarenta e fete. E note-fe, 

4*« 4?- 47. que os dez tribus nunca mais tornarao j dos quaes diz 

J*fepho An jofep^Q : Decern au.tm fribitt ha&enus trans Ettphratem 

c ' * f cownornri probmtur, De maneira , que Nabucodonofot 

ja nao achou os doze tribus em Paleftina, aindaque os 

quizera trazer* oumandar a Hefpanha: eosdou?, que 

achou , levou para Babylonia , como diz a divina Ef- 

critura , onde eftiverao fetenta annos , que muitos 

aanos antes Ihe forao profetizados por Jeremias. A 

^ quarta razao he , quenem Strabo , nem Joiepho, nem 

tiq.i. «or.ix! ^Eufebio Cefarienfe , que allegao aquelle lugar de Me- 

ii. & 1. 1. tafthenes, dizem, que Nabucodonofor trouxcfle com- 



$fe>n>as 1 $ 
Strabo Ge?<- 

in inhiv. 



tontra Apph - figo Judeos a Hefpanha. E Mar*o Varro referido pot 

remGram. pj.pj^ ^^..i.^.„ l_ ^_ «.^„ ..: * _ tt_/ v. 

Lpofl meiiu^. ■• 



' am : PHnio coatando as rentes * que vierao a Hefpanha; 
hufeb.de ?r*.* xz ' que vierao Pertas, , Iberos, Phenices , Celtas^ 
paratiom e Carthaginenfes , fern fallar em Judeos. Pelos quaes 
Evat£. i %e. nao pafTara Plmio, f e o antigo Metafthenes o diiTera, 
I'f'VaV* >qualelleallega para outras coufas , e affim o alle- 
^^•'•'•garaparaefta 

iiin.hift.nat. y A quinta , que fe elles nao viera5 por for^a; 
fib. 6.c ij.&mq vierao porvontade, edemotu proprio, porqae 
hl't'.h nao 



DeToriugal. Cap. LU. 24$ 

na8 habitavao reguo maritima , nem exerchavao a 
mercancia , nem per ella peregrinavao , nem faziao 
guerras por adquirk mais terra , da que pofluiao j 
como etcreve Joiepho no livro fegtmdo contra Ap- y c f e ph tomr» 
piano Grammatko : donde n3fceo , que nem as outras Jpp. 
gentes tinhao noticia delles , nem elies dasoutrasgen- Gmm ^'-'-^ 
tes i ta5 fora eitavso de paflar em Hefpanha , terra^' 5 ° s ° 
*a6 remota de Judea. Tambem cuido feria caufa ds 
viverem aflim_ retirados fua propria natureza 9 por- 
que fo a fi queriao bem, ea todas ss outras naqoens 
iwal ; do que he Author Cornelio Xacito allegado 
por Joao Bohema E Trogo claramente affirma , -que *t u 7 t*L 
nao communicavao com as cutras naqoens. Ifto era ow.j.h, 
que dell es en tend iao os geotios; e com verdadejpor- 3 ^, /.3<*. 
que quando Sao Pedro foy acafa do Centurio 9 eQ A&,i\.vit(.\\ 
fsz baptizar comtodosj os que com eile eftavao , osju- 
deos o reprehenderao , dizendo ■: porque entraOe em 
cafa de homens nao circuncidados , e comefte com el J 
les? Depoisque Pompeyo Magno os fujeitou aos Ro- 
manos, corao cenfta deTito Livio , fahiraS mais de L wiir eh uri: 
porque dizjofepho no undecimo dss antigui-S^jViiJ 
Judaicas , que aqnelles dous tribus fe elpalhaw- $7 ' 



cafa, 
dades 



rao por Afia , e por Eurcpa cftando na obediencia 
dos Roroanos. Eparece-me, que primeiramente Iriao 
a Roma pela dependepcia , que tinhao dos -Romanes: 
e tambem viriao a Hefpanha , a bufcar o ouro , epra- 
ta defta Provincia pela fama , que em Judea havia , me- 
taes, deque efta na<ja6 he muito cubic^ofa. Antonio 
Beuter allegado por Vafeo diz, que o Jmperador Adria- Vil f em tim - v 
no , quando deftruio Jerufalem , os maniou defterra- ^euur) ! V'J 
dos para Hefpanha. Edeentaoate o tempo dosReys i^.citJVa(&i 
Catholicos , Dom Fernando , e Oona Ifabel , e Dom 
Manoel de Portugal , houve em Hefpana Synagogas pu- 
blicas dejudeos. Ifto quanto a vinda ,dos Judeos a Hef- 
panha, 

3 A fexta razao* contra aquelles fragmentos he B 
que ehamao a Sao Pedro de Rates Prof eta Samuel, o 
inoco, ouMalachias ovelho, porfeparecer ccm elle 
£agravidade dos opftumes, «fotmoiura dcrolto. Se 

li Mala- 





FarUs jtniiptdd'ddei 



& Ifidoru: 



cag* &i. 



Malachias onovp ja fora ; quadrava acomparcao no 
tempo , mas elie na5 era nafcido , nem nafceo dalli 
a muitos anaos. l£llj Malachias foy hum dos doze 
Profetas Menores, que (egundo Santo Kpyphanio, na£ 
»«.> ceo de P° is S ue ° P° vo Hebreo tornou docativ.iia 
dmi+Mah-^^^ylonh] onde foy levado pelo mefmo Ntbucc- 
<Uap?i; donolor, e la eileve cativo fetenta anno?. O meimo 
thtruti. 4 . diz Santo Ifidpro ; o me (mo o Bifpo Pedro no feu ca- 
talogo, onde.fe ve efta iimilhanqa fer tomada de hc» 
mem , q ae ainda nao era naicido , e pelo confcguin- 
te fer fabulois. Porque i'e elfc foy cnamad:> Mala- 
chias velho logo, quando dizern >que veyo a Heipa- 
nha , nao pods iftj (er , porque Malachias Pufeia. 
nafceo dalJi a muitos annos , com o qual na5 pod Li- 
fer comparado. E fc o €oy , quando dizem fer reluf* 
citado por Sao Thgo , entao jiouvera-fe de chamar 
Malachias o mocp , em refpeito do outro , que o prece- 
deo por muitos annos. Quanto mais , que os He(pa~ 
nhoes nao lho podia chamar , porque. nao tinhao 110- 
ticia do antigo. 

4 A fetima razao ; que fazem a Sao Pedro filho* 
deUrias Profeta, do qual falla Jeremias no capitulo 
vinte efeisj mas que rivetfe ftiho , ou mulber, nem 
elle, nem Sao Jeconymo fobre elfe rugar o dizem fi 
nem outro Author, que eu faiba. Pelo que nao vejo 
donde ifbo pudefle fer tornado. A oitava razao , que 
nao quadra aos bans eutendimentos , que Sao Tiagj 
retufcitafle hum homem , que morrera havia quinhen- 
tos annos , fo parao fazer Bifpo de Braga , havendb t3n- 
tos em Hef panha , que podiao fer Bifpos , corno fe 
prova peia mefma hittoria , a qual diz , que eite re-, 
iufcitado fez cinco Bifpos em cinco Cidides. A no* 
na ; que quando o mandou a Braga , diz , que Ihe 
deu o Evangelho.* o-qual ainda entao nao era elcrito, 
ftript.EicL ;»porque Sao Mattheus foy o primelro » que o efcrevety 
M*ttb*. como notou Sao Jeronymo , e foy iflo no anno do 
Bufeb.i n Chr. Senhor quarenra e hum fegundo Eulebio Cefarienfe; 
3aro n 'iHnet.^^o Tiago veyo a Hefpanha ieis annos antes: ilko 
Many.fa.xi.hs Author o Cardial Baronio i e M-ftre Diogo da 
5«w t Mota 



Hierm I de 



Tte^Portugah 'Cap.. LI X, z$i 

-Mota no tratado da vinda de bao 7 iagp a Hefpanha. Ma& *emil 
Diz tambem , que lhe cleu as infiitmcoens ..Apoftoli-*™* dtS '- 
cas i eftas muitos annos depois forao feitas pelo Papa jJ2J£ ■ j^., 
S36 Clements 1 , como aflirmao Nieephoro , Calift j , &,i. /,'j.r^: 
eo melmo Cjrdul Bjronio. A decima razao, que hu- is. 
ma das Cidades, em- que diz, quepozBiipo, foy £B*r4%-*p*d 
Porto, a qual nao foynoMundo tena6 dalli a mui- ^;«^7 #1 . 
tos annos, como adiante moftraremos. A undecinm, „ t4 
que tambem poz Bilpo na Cidade Eminio , a qual coni« 
tamo ier lipi'fcopal, fenao dalli a quinhentos^e oi- 
tenta e nove annos, quando fe fez oterceiro Concij 
Ho Toledano , como adiante fe vera tambem , nao 
fallando do Concilio , a que. Frey Bernardo de Brito 
chama o primeiro de Braga , onde fe faz menqao def- 
te Bifpado, A duodocima,.que todas eftas ecu fas tao 
notaveis nao iia liiltoria em Hefpanha , nem Bre- 
viario de alguma Igreja » que dellas faca menc,ao, 
havendo muitos ^ que tratao da vinda de Sao Tiago, 
e dascoufas, que elle fez em Hifpanha. Pelas quaes 
razoens tenho aquelles fragmentos pej falfos, e fal- 
iamente intitulados naquelle Santo, eaquelle primei- 
io Arcebilpo de Braga por Hefpanhol, ^ n^o Judeo, 

CAPITULO LX. 

Que de Carthigena fe paffon aVignidade Me- 
tropolitana far a a Igreja de Toledo, 

1 f 1 1 Ornando ao propofito , nao scho , como 

jl ja difie , ; que antigamervte houvefle dig* 

**• mdade de Primacia de Hefpanha ^ porque 

feahouvera , acharamos feita mencao della- nosCon* 

cilios nacionaes , e guardarafe»lhe fua devida prece- 

■cteiKia entre csBifpbs Metropolitanos 1 porque e-ites' 

fe affinavao primeiro. Com tudo Morales sfTinalar.do 

ifto , e venctdo da afleicao' , que tiriha a Toledo, de 

fracos fimcSarnefltcs vav kvantando efla Fiiir.ecis pa* 

' . II ii fa 




252 



Farias Antiguidades 



' ^yi'Z's 1 : c Jf? to -fcmuitc i aatigo. K porque Vateo , eoutros 

chzenv, que quando Carthagena foy deltruida , entao 

cameqou algreji de Toledo a ier Metropolis na , por 

Motrin, le pa<lar . etta dignidade dalgreja de Carthagena para 

»»•■& a de Toledo , faz Morales hum capitulo, em quemok 

tra, a feupareeer, que nao houve tal mudanqa, nem 

algreja de Carthagena foy Metropolitana , para vira 

conduir j que a de Toledo fempre o foy. O que elle en- 

tende fer neceflario moflrar , pois a quer iazer Primaz 

de antigo; fuppoflo , que para oier, ha de ier Me? 

tropohtana. 

x Peloquefera bom j- que vejamos como elle ref- 
ponde ao que diz huma Chronica antiga, que nifto 
he contsraria (alem dareparti<ja6 dos Bifpadoi do tem^ 
po de_Conftantmo , que adiante k vera) a qualChro-' 
Rica nos^ao vimos, nem delta, ede outras eteiitu- 
ras iabemos mais > que quanto elle traz para feu pro- 
podto j porque nao efcrevemos em iugar , que nos fol- 
ie pofli/el ver oslivros, eanrigos originaes, q.ue el- 
le via «(n varias Igrejas > elivf arias de Hetpanha na- 
quelia viage , que fez por rrjandado de Sui Magelta- 
.de, que (ao as Minas, onde fe cava ede ouradaver- 
dads dascoufas antigas : e aflim nosachamos noaper- 
to , en que fe ae_ha quern deiavmado peleia com feu 
mimiga armado, que Iheconvera tkarlheasarmas das 
macs, para com ellas o offender. Pofto que ifto n*6 
ie^pode dizer por mim em refpeito de tao douto. ef. 
crit r, porque feria querer tomar a maca a Hercules/, 
como diz hum adagio antfgo. 

3 O Author da Chronica antfga , depois de con- 
tar , que Gunderico Rey dos. Vandalos deftru-io Car- 
thagena , que foy depois da morte do Irnperador Conf- 
.tantino, eunhado deHonorio* que morreo em Rave* 
■m t - na * oanno de 4** i diz eitas palavras referidas por N$o- 
+ „. ' '" r ^s l ,» Alii hoive antigamente dignidade de Cidade/ 
„ mrs depois que aqora foy deftmida peJos Vanda- 
9 ,los em temno dos Godos , a dignidade foy panada 
idem eeJem l » a Xgreja de Toledo, cainda agora a Provincia de To- 
*• n* „ ledo fe charaa Provincia de Cartliagena. fillas &q as 

palavras daqusila Chronica. 4 So 



T)eTartugaLCap:LX 9 zii 

'4 Sobre as quaes diz Morales , que Carthagena Merits I n?, 
foy Chancellaria , ou Convento juridko de Romanes,'" J *~ 
e Toledo huma das Cidades fujeitas ao tal Convento, 
e que daqui ficou chamsrle Toledo da Provincia da 
Carthagena, como a chama Santo Udefonfo du.s ve* 
zes i it^s detal maneira, que bem claro parece logo, 
como a Metropoli eitava , e efteve iempre em Toledo* 
e que no Ecclefiaftica Carthagena Ihe era , erfoy fife 
jeita, 

5 O que diz Santo Udefonfo, he o fegmnte : ,* A£ 
„ turio ficou por lucceflor de Audencio , e por Prelad© 
„ da Cidade de Toledo , e da Cadeira Metropolitana 
„ da Provincia deCarthagena.ff Pg diz. As Montana. jDe- 
*, pois deCeliio teve Montano a Cadeira da Cidade de* 
>, Toledo , que era Bifpado da primeka. Cadeira da Pro? 
? ,vinciadeCi?thag na. 

6 y Nad toy pr fivel (diz. acora Morales ) dizerfe Mcrahiihii^ 
$,mais claro T como a Igreja de Toledo era Metropo- 
i,litana para a de Carthagena, Nem nos o negames 
nefte tempo depois de Carthagena deftruida , mas ne- 
gamos , que o Santo naquellas palavras faqa a Toledo 
da Provincia de Carthagena , pela qual Toledo lhe era 
fu jeita. Porqtie elle nao qtier dizer , fenao que a Ca- 
deira de Toledo era Metropolitana em relpeko das ou- 
trasda Provincia de Carthagena , e i-fto era tratar da ju- 
riidicqao Ecclefiaftica daquella Cadeira para ts mais 
daquella Provincia, e nao da fujei^ao fecular de To- 
ledo pi?ra Cartagena. Porque - quando-a Cadeira fe paf- - 
lou , necefiariamente fe havia de paflar otitulo. para 
fe entender * que os terminos de (ua jtjrifdrcqso era®* 
osmefmos, que de antes forao , quando eitavso err* ' 

Carthagena* 

7 As palavras da Chronica antiga \ que dizem > 
que em Carthagena houve dignidade de Cidade , de- 
clara Morales dizendo , que o Author quiz dizer , que 
Carthagena foy cabeqa da Provincia > e affento do go* 
verno. 

6 E o que diz ; que a dignidade foy pafTada a 
Igreja de Toledo , declaxa Morales nefia forma : „ Na© 





254 V Ati As Antiguida des 

„ iica ado ]i em CafthagenVTemplo, nem freguezes, 
„pafTou-le tuio iflo.-, que havia de dignidade £ccle« 
t,luftica a Igreja de Toledo , para que ella tivefle o 
j, cargo efpiritual detudo aquillo, que aflim ficava de 
*, cetto , como Igreja, e Metropoli f'ua , que fempre 
i) fora em toda a Provincta Carthagenenie , ainda que 
„aCirthagena lhe deixafiem Bifpo. E diz , que con- 
form eite lentigo, oque o Author accrefcenta dizen- 
do: ,$ Eainda agora a Provincia de Toledo fe chama 
*, Provincia de Carthagena* Como ie diiTede : com ra- 
zjo fe piilou toda a dignidide daquella Igreja aflola- 
da a Tol-edo, por eflar Toledo dentro daquella Pro 
vi icia , como o nome , que dura ate agora , o mani- 
■fcfti. 

9 Com eftas inter pretaqoens tao forqadas que* 
Morales fazer dtzer a Chronica antiga , o que ella 
nao diz. Se Cirthagena nao teve mais , que Bifpo 
Ordinario antes delui deftrui^ao , e" depois della 
Ilia fkou , qae dignidade Eccledaftica he , a que fe 
pailou a Toledo *• porque paiTarfe , e mais ficar , con. 
tern contradiqao ? £ que cargo efpiritual tomou To- 
ledo \ ie Cuthagena rl:ou deferta fern Templo , e 
lem freguez^s , ou de que fervia tomallo , ie lhe 
ii:ou Bifpo ? Dj'ixo a expofic,}6 \ que da as ulti- 
mas pilavras da quelle Author antig) , porque por 
fi vera o Lntor quarri al'ieyo he do que elle nel- 
las diz 5 com 3 nos o moftraremos logo. 



CAPI. 



^mmm 



De TortuguaL Cdp. LK L 25 5; 
CAPITULO LXI. 

Corno entcnds o Author as palavras daqutMa 
Chronica antiga. 






Vindo aoque nos parece acerca dlfto mi#» 
quelias primeiras palavras , que diz aqael- 
la Chronical Hcuvc antigcmcnte cmCarthti- 
gena dignidade de Cida.de \ quer dizer : Em Carthagena, 
houve prerogativa , e preeminencia de Cidade em ref- 
peito de outras Cidades. K nso fe entendeate aqui ie 
era Ecclefiaftica , ie fecular : diz mais s E a dignrade 
fey paffxda d Igreja de Ivhdo : Ja agera ie entende , que 
a preeminencia era Ecclefiaftica , pois diz , que fepaf- 
fou algreja de Toledo. Se Toledo teve elta tal dig- 
nidade , nao havia , para que fe p3ilafle. E nao fe 
pailou a Epifcopal ordinaria porque efta la ficou^ 
Mes pois fe paiTou , e na lgre}a de Toledo achames 
dignidade Metropolitana alem da Epifcopal ordinaiia, 
que de antes tinha , como logo fe vera , wlaro flea, 
queella he, a que fe paflou. Porque de outra manei- 
fa nao fe pode entender , que de Carthagena fe paf~ 
faffe dignidade, e mais ikaiTe dignidade, fenso paf- 
fando-ie a Metropolitana , e ficando a Epifcopal or» 
dinaris. E em Toledo ja antes da deftrulc/ 6, de Car- 
thagena havia a Epifcopal, porque no Concilio EU- 
beritano feito em tempo do grande Confhntino fob*, 
efcreveo no fetimo lugar , Melanthio Bifpo Toleta-* 
no. E difto fe dira ainda mais adiante. . 

a Precede b Author . antigo dizendb : Ainda 
*gor* a Previnci* de Toledo fe chama Provimia de Car- 
thagenaV Nas quaes palavras prova como titulb da Piro- 
vincia de Carthagena, que ainda durava na Provincia 
de Toledo , que aquelia dignidade lhe veyo de Cartba* 
gena, A qual era tal , que a (Tim [como la comprehen* 
dia toda a FtbyinQia Carthagenenie;, afllm ca com?* 






2$ 6 Farias Antigutdades 

prehendia toda a de Toledo : e como fofle Ecdefiaf- 
tica , nao podia fer , fenao a Metropolitana. De 
nndo , que o titulo da Provincia de Carthagena nao le 
tefere a Cidade de Toledo , $or eftar dentro nella , fe- 
na6 a Provincia , fobre a qual Toledo tjnha aquella 
dignidade, que nella eftava , e eftivera antigamente 
em Carthagena. O quemais particularmente denotao 
as pilavras allegsdas por Morales de Santo Ildefonfo, 
qm $aS asfeguintes. 

3 ,» Afturio ficou por fucceflbr de Audencio, 
^ e por Prelado na Cidade de Toledo , e da Cadeira 
„Metr 'politaaa de Carthagena. Nas quaes o Santo de- 
clara ifto ainda muito mel'hor , que a Chronica anti- 
ga, porque ella refere efle titulo da Provincia deCar-i 
thagena a Provincia de Toledo , onde eftava a dignida- 
de , ou Cadeira Metropolitana : e o Santo mais precifa- 
mente orefere a melma Cadeira Metropolitana , di- 
zendo , que a tal Cadeira era da Provincia de Cartha- 
gena. Das quaes palavas de Santo Udefonfo entende 

.tambern Vafeo j que a dignidade Metropolitana de 
Carthagena fe paflbu para Toledo. 

4 Bern pudera o Santo dizer , que era da Pro- 
vincia Toledana , como depois ie difle , mas enta 5 ! 
convinha affim , para ie faber , que ern Toledo eftava 
a mefma dignidade , a raefma jurifdicqao » e tao ex- 
tendida , como eftivera em Carthagena , e em toda a 
fea Provincia, E o mefaio difle quando fallou de 
Montano. J a daqui fe v.e qnando a Igreja de Toledo 
comeqou a fer Metropolitana , eque ate alii nao foy^ 
ixern podia fer Primaz , ppis nem Metropolitana era. 



CAPI- 



2)<? ^Portugal Cap. XX 11. 2 57 
CAPITULO LX1I. 

Que Bifpo de Fakncia era fuffragamo de Toledo y \ 
£ por iffo de Toledo & reprehmdia, §hueElRey 
Gundemaro por hum Decreto feu faz a To- 
ledo (JWetropoli da Provwcia dt 
Carthagenft. 



N 



Omefmo livro traz Morales huma repre- 
henfao, que Montano Bifpo Metropoli-^J*J" i / - r 
tano deToledo deu ao Biipo da Palencia c jJ^ e 'J em 1, 
i(floreiceo Montano , fegundo o meimo Author cerca dos f . 4 „ i n fne* 
Annos do Senhor £30 ) "da qua! tomou occafiao Morales 
para dizer , que a Jgreja de Toledo , ainda que na5 
tinha o nome de Pdmacia , tioha a dignidadei e ex- 
ercicio dslla em toda a Hefpanha, ou «a mayor parte 
della. Porque ainda que o Bifpo Montano ana6no- 
mea aqui mais que Metropolitana -, hem' fe ve (diz 
elle) como neo podia maudar era huma Igreja ta6 
apartada , como a de Palencia j fe nao 1 fora com ter po-* 
derio de Pnmado, ja que faltava o nome * por nao el- 
tar ainda tao ulado. Accrefcenta mais , qte o meimo 
&1ontano em huma Epiftola , que efcreveo a Turibio 
Monge, trata decafrigar com todo o Hgor ao meimo 
Bifpo de Palencia , le (e nao emendar. Na qiial diz 
tambern , que lhe manda com 3 carta o inilrurrento 
original do pnvilegio delta fuperioridade , ^ preemi- 
nencia , que defde atraz tern a Igreja de Toledo* Er 
diz Morales, que efta he hums dasmayores, e mais 
folemnes antiguidades , que a Santa Igreja de Tole- 
do tern de fua grande dignidade, deque ate agora fe 
na6 fez conta. 

: u ' 2 , Efte argumento de Morales funda-fe na difran- 
cia , que ha de Toledo a Palencia , que pcdein fet 
ate quarenta eoitolegoasi e he. razed dta nimto fra- 

Kk." ca 



fi 5.0. 



2 S.S Fdrias Jntiguidades 

ca para della inferir adignidade , e exircrcio da Pri- 
inacia de Toledo em toda a Hcipanha , ou m mayoff 
parte. Porque o mefmo ie podera diZer por Lisboa , a 
qual tern fuperioridade fobre Lamego, que dsJladif- 
ta cincoenta iegoas , mas he por a Igreja de LamegQ 
fer { ufTraganea de Lisboa. E aflifn o era a de Palencia 
3 de Toledo , fe verdade he o que diz 6 mefmo Mo« 
Moraltih io. rales, o qual diz , que Toledo ja em tempo do Im- 
W*« perador Conftantino era Metrppoli , e tiuiu Cidades 

iuftraganeas » que elle mefmo nomea > entre as quaes 
no lugar dezoito conta Palencia. & no anno do Senhot 
6?f iecelebrou o undecircio Coacilio Toledano, que 
foy Provincial , em que le atfinou : Conmdtut , efa» 
faUntintn. EpifcofH$ % Concordio Bifpo da Igreja de Pa- 
lencia. E na divifao dos terminos do> Biipados de Hef- 
panha, fcita porEIRey Wamba pouco depots daqu-1- 
le Concilia, aqua! traz o mefmo Morales, efta pollo> 
%u»ahsl. is, ° Bii p ido de Palencia por fufiraganeo. de \ oledo, en- 
"'*re os nnn fuflhaganeos feus. Se em tempo deCozil- 
tantino Toledo foy Metropoii , adiante fe vera. Mas 
Morales vay tao dsfejofo de achar huma Primacia pa- 
ra folece naqueile tempo antigo * que nao advertio em- 
coufa tao clara , e qui elle mefmo efcreve t a qual 
Ihe tirara o efpm to de ver , que hum Biipo Metropo* 
litano, que a film fe nomea o mefmo Montana, repre- 
hendia hum feu fuftraganeo. 

5 E quanto ao initrumento delta fuperioridade^ 
q = ue Montano mandou a Turibio Mooge * nao podia 
fa outra, ienao a de Metropolitano » que nao feria. 
ainda notoria em' Palencia, quanto mais em toda Hef« 
panha y pois elle entao- a quiz fazer faber ao Monge,, 
e por meyo do M^nge ao Biipo , fegundo da a en- 
tender : o, qual Bifpo por ventura o nao queria re* 
conhecer por feu Metro polita no , como nao queriad 
outros da meima Metropoii , como logo moitrare- 
mos. 

f 4. Mais adiante no mefmo Hvro faz efta digni- 
s!' g d? J u!* dade ta5 moved W a »■ qus a leva de Cidade em Cidade 
ttrazlemjai-zpte.* Coite dos&eys Godos, concedendo, que ef» 
iamHi teve 



Wiev* I I«. 
f. 7 J. §• *• 

Oli*rocqui 



T>e Tartttgal. Cap. LXIL 25^ 

teve em Sevilha, quaudolieitava a Corte, eque.com 
«lla fe paiiou para Toledo, e que alii fe celebrav&o 
•os Concilios nacionaes , eque iltoera eftar ja em To- 
ledo a Primacia de Helpanha. toda inteira. Ria-is o 
Papa Gelallo , como eicreve Barcnio , porque &i\£e- Baron. in Epit 
fmo Arcebifpo deConftantinopla queria ier Primaz de sp*>***° «*• 
todas as Igrejas do Oriente, por Conitantinopla (irCi-* 0495 ' 1 * - 
Cidade Real. Edizia aquelle Papa , que por eita ra- 
zao t&mbem Ravenna , Milao , Sirmio , e Treveris 
podia pertender Primadps, por nellas tefidireni os Im« 
peradores muitos tempos, Masiflo he dar acs Punci* 
pes leculares, que com fuas reildencias fsca6- Prima- 
cias , o que em nenhuma maneira fe pode conceder* 
Quantomais, que nem nome, nem jurifdiccad de Pri- 
macia houve nunca em Sevilha , nem em Toledo, fal» 
ho por algum privilegio. ^ ■ 

f £ noutro lugar traz hum Decreto ^ElRey:*^/-*** 
de hum Concilio celebrado em Toledo no anno do Se* '" 
aahor 610, onde 6 porque EURey diz, queiua vontade 
fee, que o Bifpo de Toledo tenha a honra de Primaz 
da Provincia de Carthagena t e em effeito lhe chama 
Primaz della4 Morales nao curando do lignificado , em 
que EIRey tomou efte nome » Primaz, diz , eftas pa» 
iavras : He muy notavel efit Concilia t por ajfentar tao clara- 
*mente a Primacia de Toledo. E logo abaixo torna a di- 
Zer : E acjui ja fe ntmea PrimaA* o Arcebtjpo de Toledo, 

6 Ja flea dito * e adiante fe dira ainda , que fen- 
do Carthagena defiuida, a dignidade Mettopolitana, 
•que nella eftava , fe paflou para a Igreja de Toledo. MmUsL i%* 
E porque alguns Bilpos da Provincia Carthagenenft* 11 * 
nao tomarao iflo bem , e nao queriao obedecer a To* 
ledo , nem conhecella por csbeqa , e Metropoli , fe- 
gundo aspalavras feguintes do Decreto c'ElRey Gun- 
demaro j „ Quidam Epifpf rum Carthagenierfis pra- 
„vinciae non reverentur hanc ipfsm praffmse Eccle- 
,,foe dignitatem, imperii noftr4 (olio fublimatam con- 
temners, Diz FIRey logo abaixo no mefmo Deere 
to, que neo permittira ifto mais , m<s cue declara , 
que o Bifpo da Cadeira T^edana , tcm a hcrrs de 

Kk ii Piima- 




260 Farias Antipuidades 

J.nrmado , conforme a author idade antiga dehumCorR 
cilio Synodal , iobre todas as Igrejas da Provincia Car* 
thagensnfe , e que entre outros Biipos daqueiia Pro- 
iw^ia nap fomente t»m preeminencia na dignidadg 
da honra , mas, do nome , conforme o tern ordenado 
a antiga tradiqao dcs Canones dos Metropolitanos por 
cada Imma das Provincias. As palavras $ em que ifto 
,diz, iaoas feguintts. 

7 „ Si|d honorem Primatus juxta antiquam Syno- 
», dalis concilii authorkatem f per cmnes Carthege- 
t, nemls Provincial Qcctetix fedis Epifcopum habere 
s,ofJendimus * eumque inter fuos Coepifcopos tarn 
»., honoris praeceliere dignitate j quam nominis. Juxta 
»quod de Metropolitanis per fmgulas. provincias anti- 
» qua canonum traditio fanxit. 

8 Qual foffe aquelle Concilio Synodal , que EU 
Reyaqui allega , na5 me confta , nem Morales o diz: 
mas parece, que depots de deihuida Carthagena fe fes 
otal Concilio, onde fe determinou ,. que, a dir^nidads 
Metropolitana de Carthagena ie mudafle para Toledo s: 
e defta raudanqa feria o inltrumento , que o Bifpo 
Montano mandou moftrar ao Bifpo de Palencia , co* 
mo fka dito. Mas na5 deviao confentir todos os Bif* 
pos fufTcaganeos na tal mudanca , pois algunsnao que- 
riao reconhecer ao de Toledo por Mettopolitano, co-- 
mo parece pelo Decreto d'ElRey.. 

9 Aquelle Concilia foy feito entre a defhuiqaS 
de Carthagena , eoutro , de que agora faliey, que fe 
fez no anno de6ib , em que ie materao cento enoc- 
venta annos. E doartno delle comecou a antignidade 
da Mjtropoli de Toledo « pormais quedigao os efcrito- 
res Caftelharl^s, aos quaes agradeceramos muito me* 
terem o dito Concilio entre os outros Hefpanhoes, 
que andaa impteflos , para nos tirareftadkvida.. 



CAWr- 




CA.PITULO LXIII 



§ve ElRey Gundemaronao dtz mats ,fenao , que 
Eifpos da Ptovtnaa de Carthagma conhecera'o ao 
de Toledo for Metropolitan* ; e de huma pre* 
rogativ&y que 01 Arcekfpes deTlefpa- 
nha tirArao ao de Toledo* 



Ornando ao Decreto d*E]Rey , .■naquelTas* 
palavras , e em tcdo g Decreto nao trata 
filRey mais, que de fazer, que g BiSpo 
3e Toledo feja conbecido, ehavido por Metropohtano 
dos Bilpos da Provincia ds Carthagena. E diz roais abai- 
xo, que affim como as Provinciss da Betica, Lufit?> 
nia t Tarracoaenie f s outrasdeieuReyno, tinhaofeus 
Metropolitanos , aflim adeCarthagena tivefte per feu 
ao Biipo de Toledo. Nao pcdia ElRey declarar mais- 
o que pertendia dar a Toledo ;. ecorn tudo Mejaleslan- 
^ou mao do vocabulo Fnmatm , que aqui nao quer 
^iizermais, que dignidadeMetropolitana ,. para dizer^ 
que aq.uelle Coacilio aflentou clatamente a Priinaria 
de Toledo. Gque tudo coairnetto aojuizo doleitor, 
ao qua! lembro, que note efta rep ugnancia r edsiobe- 
diencia dos Bifpos da Provincia de Carthagena \, por- 
que fao grands prova da mudanqa da Metropoli da- 
quella Cidade para Toledo , que parece , quando ella 
lefezi nao conlentirao todosnifTo. E Morales ate da>*- 
qui lhe quer fazer Primada* , eorno que podeile fes? 
Primaz quern na§ era ai-nda- bem Metropolis 

i Antes difto o Concilio Bracarenfe primeiro 



Conr.-Bme* 1$ 



falla do Primado de Braga por eflas palavras ■•: „ Item c/r 
j,placuit , ut, coniervato MetropolitanirEpifcopi pri- ' 
^matu , cseteri Epifcoporurn fecundum fua* ordina- 
^tionis tem.pus ,- alius alii fedendi deferat locum, 
Qjierem dizer t deteiminouie , qiie,. cjonfexvado o pri; 




fAarUn* de 
ttbus Hjp. I. 
%. ft. 9 



Baron, in Epit, 
Spotlit, anno 
Chrtft, 68. ». 
$4. ex Luca 
Tuienfi. 



Baromus uhi. 
Jupra, 



'jiztrlui inflit ■ 
M<"*» torn. 1. 
h }. *.3<S. §. 
10. & 11. & 
dtimeps. 



'Azov, I. eiu e. 
IS- 



262 V arias Antiguidadet 

meiro lugar do Bifpo Metropolitano , os outros Bif- 
pos iegundo o tempo de fua creaqao , de lugar hum ao 
outnv Foy feito no anno do Senhor 56$ , iegurido 
Joad de Mariana. Pfefidio nelle Locrecio Bii'po de 8ra- 
ga.com mais fete Bifpos * e foy Provincial' Enga- 
noufe quern diife , que naqueilas palavras delle , que 
agora refer i , fe diz, que o Arcebifpo de Braga he Pri- 
maz das Helpaahas, porque a palavra Primatus nao 
fignifica alii mais | que preeminencia do pfimeiro lu- 
gar. Depots le fez o Concilia Toledano duodecimo no 
anno do Senhor 6S1 , o.nde por ev tar inconveiientes 
de Cadeiras GLpifcopaes muito tempo vagas , fe ailentou, 
que EIRey nomeafle Bifpo para a que vagafle, eefte 
nomeado fe prefeataile ao Acebifpo de toled) para 
o ordenar. Masifto nao durou , como diz Oom Lucas 
Bifpo de Tuy, por fer em prejuizo das outras Sedes 
Archiepifcopaes , e affim outros Arcebifpos tratarao 
com o Papa , que nenhum Arcebifpo das Hefpanhas 
foile fujeito a algum Prirniz , tirandj ao mefmo 
Papa. 

3 Baronio parece ientir , que feria iflo feito por 
inveja ; eeodigOf que foy cortar penfamentos ao de 
Toledo defazsr daqui alguma Primacia , de que os 
Prelados daquella Igreja forao fempre muito defej> 
fos, como feve em tantos privileges impetrados de 
diverfos Papas para efte fim , que allega Azorio cn 
tando a Garcia de Loayfa , e a Joao de Mariana. E com 
os Arcebifpos reclamirem, e nao confentirem no De- 
creto , qua aquillo difpunba, que he o iexto daquel- 
le Concilio , nao deixou de dizer o mefmo Azorio £ 
que dalle fe tira nao leve argumento para provar a 
Primacia de Toledo em tempo dos Reys Godos. Mas 
fe Primaz he aquelle , que orefiie em muitas Provin- 
ctas , como d ; z efte me(mo Author , nenhum argu-nen- 
to fe tira daqui , porque nunca o Arcebilpo de Tole- 
do prefi^fo em mais Provincias j que na fua , nem teve 
nun:a algum Metropolitano debaixo de fua obedierv* 
cia. E traz Baronid do Bifpo Dom Lucas , que aquel- 
Us Arcebifpos impugnarao De-reto com tanta ve»- 

hemencia > 




T)e Tortugual Caf.LX IV. 26 3 

hemencia, que ELvey Eringio ie foy com elles, tt- 
utendo y que feiherebellaiicm* De que ieallige quao 
injulto era an opiniao deltas Prelados , que ode Ft.- 
iedo tivelle tai prerogativa , de que podia aipirar * 
mais. 




CAPITULO LXIV. 

Stye Papa Urhanojez a Teledo Primaz p&r 
privikgiOy e o jifoflvlo Sad Tiago aBia- 
ga y jegundo a ordem dos Mpjiolos, 

S argumentos referidos traz Morales para 
fundar de longe a Primacia de Toledo 
Mas Illeicas vindo a dar nefte ponto > ;e /// ^ Sf, ^ 
nso* schando favor na antiguidade > foccorreo-fe 9f$tfy *T\mc£ 
ytiegios. E diz ptimeiramente , que ElR-y Cindatuir> ^/ a w&. 
dp impetrou do Papa a Primacia de Hefpanba para 
a lgreja de Toledo. Depois traz o privilegio do Papa 
Urbano II , que foy eleito pela (ua conta no anno do Id ' m M&m 
Senhor iq&S, que vem a fer $74,annos depois da del- u '*'***>*« 
truiqao deHeipanha. Ecorvta, que indo a R-onrta Ber- 
nardo Arcebifpo de Toledo f efte Papa folgoti muito 
de o ver , porque ambos forao Monges de Sao Ben- 
to , e irmaos de ptofuTao da mefma cafa ? e entao o» 
fez Primaz das Belpanhas , como he hoje, e o foy 
iempre de entao para ca. Ainda que o Arcebiipo de 
Braga pertendso lernpre a Primacia , como conita do 
Capitulo Coram notitulo : Vein integrum re[f I mime. Ate-" 
aqui fao pala^ras de Illefcas,, nas quaes fente , que o» 
Arcebifpode Toledo nao he Primaz, fenao por privi- 
legio , e que foment© o foy defde o tempo do pitvi- 
kgio para caV Ebera moftra a razao, que el lie ©na& 
foy ate alJi, porque fe o fora , nao havia para que 
©Papa Ihe defle,. oque ja tinha „ mm para que eH© 

0pedifI tT r , r • r r -V«Mm*M 

& Vafeo tem para fi A que k a cauia % porque Bra- e . xt . vtrhti - 



f.64- Farias Antignidaies 

ga confende do Primado com Toledo, he, porque eftati- 
do ainda Toledo em poder de Mouros, todos os Bif- 
pos de Hefpanha reconheciao ao de Braga , aqual foy 
aprimeira das Metropolitanas » que foy livre delles. 
E diz, elle vio a profifiao da obediencia, que Ihefl- 
z^rao os Bifpos Mindonienfe , Adurienie, Tudenfe, 
Lamecenfe Qlyfiponenfe , Zamorenle , e Aurienfe :, if- 
' to depots de Toledo fer g&nhada dos Mouros. E que 
vio huitia carta d'ElRey Dom Arfonio, chamado Im- 
pefador, para Joao Arcebifpo de Braga , iobre a confir- 
miqao do Biipo de Lugo. Efte foy EIRey Dom Af- 
fonfo , fetimo do nome, contomporaneo do Arcebiipo 
Joao , cuja carta nao argue, que o Arcebifpo deBra^ 
ga'fofle Primaz das He! pan has , como algunsquerem: 
rnas argue, que dado, que o Reyno de Portugal ef- 
iiveffe ja dividido de Gaftella , como realmente eftava, 
com tudo as Igrejas fuffraganeas nao o eflavao ain- 
da de fuas Metropolis ; e por efta razao o Arcebifpo 
de Braga confirmava , como Metropolitan© , as elei- 
<joens de (eus fuffraganeos , como fe moftra em oufra 
confkmaqao do Bifpo de Tuy Dom Nuno Peres do an- 
no 1174, alcan^ada do Arcebifpo de Br^ga , que traz 
^^rlT'd. ° Arcebifpo Sand6val ha Antiguidade de Tuy. Tornan- 
AntiiuidUe* &° a Va fe° p noutrolugar tratando do Primado de Hef- 
"uy\s6. panhadiz, que, iegundo fe collige dosannaes Hefoa- 
tusin Pr*- nhoes , a Primac*i3 primetro efteve em Sevilha, depois 
.c.n.h em Toledo ate a deftruicao de Hefpanha; e depois ef- 
tando ainda Toledo em poder de Mouros , em Braga, 
como tern dito * conforme ao que achou nosarchivos 
da Igreja Bracarente. Tudo ifto he de Vafeo. 

3 Miso Arcebifbo de Braga nao foments fe fun- 
da no direito daquella antiguidade, depois de Hefpanha 
recuperada dos Mouros , mas no antigo , que ja tinha 
defde a primitiva Igreja , porque afitm Braga , co- 
mo a fua Metropoli , fao tao antigas , que fe Ihe 
nao pode oppor Toledo, de cuja antiguidade, o que 
confta dos Authores antigos , he , que Tito Livio diz 
iwiusshurbc e ^ ar Toledo junto dorio T£jo, eler huma Cidadepe- 
€*»iha 1. 3$. qusna , mas forte, Piinio nomea aos Toledanos , e 

PJm> I. }.c,l r .PtOlQ? 



de Tuy 1 $6 
Vafeus 
amb 
ftte. 




^DeTortugaL Cap. LXIV. 26$ 

Ptolomeo faz fimples menqao de Toledo. Ifto quanto^U.aitf.g* 
a Cidade. O feu primeiro Bifpo digamos , que foy San- 
to Eugenio dildpulodeSao Dionyfio Areopagita, cu- 
ja vinda a Hefpanha foy ,em tempo de Domiciano, cc- 
mo dizem Beuter, e Mariana , pofto que Santo Ode- Beuter mCh$, 
fonio onao conheceffe por$ifpo de Toledo : masdei-r. 14 
xando ifto., eoutras razoens para elle o naoler, .e pa- Mariana 1. 4^ 
ra algreja de Toledo comecar muito maistarde,, que** 4> 
traz o Doutor Refende , as quaes contentarao muito ^ t t m g - m 
a Ferreoto Paulinate ,1eja Eugenio, como dizemos, feu Epiji.'ad&i 
primeiro iBitpo, enao desfac^amos no Breviario Tole- >««*»* 
dano , que aflira diz : cujo martyrio poem Valeo xio FetreelinNltt " 
anno 97 , e Ribadaneira opoem mais a diante no an- f *^ u £ u ^ l A- 
«o 120. Doprincipio de fisa Metropoli failaremos %'v a (eustom. \i 
diante , nao curando do que del la diz o meimo Ribada- «#»<» d. 97. . 
neira, e outros fern nenhum fundamento 3 alem $p B,i - bMt * ne i r * 
que atraz ja diflemos, <'' p#.u-jm*it*. 

4 Agora tratemos de Braga, Efta Cidade toy*™* 
fundadada porGregos logo depois deafloladaTroya , 
como em ieu lugar ie vera. Em tempo de Romanosfoy 
a mais infigne, ou dasmais infignes Cidades de Hef- pr - , 
panha , porque foy Convento juridico , e digna de 10 ."* ' 4 — 
AuguftoCeiar lhedar o nome de Augufta : eospovos 
de fua comsrca tomarao della onome de Bracarcs, e af. 
lim diz Ptolomeo , que as partes j que fe extendem ate* VtoL Geo &* -*2 
o mar entre o Minho, eDouro, tern osCallaicos Bra-'- s * 
caros. Nefta illuftre Cidade poz o Apoftojo Sao Tiago 
por Rifpo aSa6 Pedro j celebre pormiTagres, e coroa 
de Martyrio., deque fazem men^ao o Martyrologio Ro- Mert y r - *<*■ 
mano , muitos Breviarios , e Chronicas de Hefpanha, man -J' ie%6 ^ 
Vafeo , e juntamente o cathalago dos Arpebifpo? vtflLtm. 1 a 
de Braga , que poem feu Martyrio so anno do Se-4.wwD.44. 
nhor 44. 

$ Efte gloriofo Sa6 Pedro primeiro Prelado de- 
Braga conheceon , ecbnfefTso os Authores Caftelhanos,< 
e entre elles he digno de fe referir aqui o Padre Frey RomaneU \ 
Jeronymo Romano por iuas palavras * em que falla nel- n e p. Chrif. 1 
le, e nefta Santa Igreja ^ que faoasfeguintes nonoP-i<:.4.§. it 
& Portuguezo „ O mayor teftimunho de vir a liefpa^ 




266 Farias Antlguidades 

„naa o Apoflolo Sa6 Tiago he ter deixado em Galli- 
„izaa Sad Pedro primeiro Prelado de Braga, eaflima 
,»pnmeira Xgreja Cathedral, e o primeiro Biipo entre 
„Gentios no univerioMurido foy efte Sao Pedro. Ate 
aq ui fao palavras defle Au trior. 
■ f Pelo que , iuppofta efta verdade* claro efta que Sao 
* wgo em por aquelle Bifpo nefta Cidade taS principal, 
L , , em . <} UQ havia cafe de adnuniftracao de Juifcica , fe- 
frtti"- g , U1 ° aQl fe™ dos Apofiolos , de que ttata Santo Ana- 
7jL%T lQX f ? apa no feu Canon • ondediz eilas palavras 
traduzidas :\ „ As Provincias pela may or parte forao divi- 
, 5 >didas muito antes da vinda de Chrifto: edepois pz- 
„ los Apoilolos r e por Sao, Clemente noflo anteceflor, 
„ toy renovada efta divifao. Nacabeca de cada Provin- 
„cia, onde eftavao osPrimazes da ley doieculo, eo 
* principal Tribunals a que fe focconiao as outras Ci- 
„ dades em fuas oppreflbsris , e in jufticjas , quando lhes 
„era neceiTario, as quaes nao podiao hav r efte foc- 
„ corw> dps Imperadores , ou Keys, ou n<;6 lhes era, 
wpermittido, epara os ditos Primazes appellav-30 to* 
j, das as vezes, que Ihesconvinha : neftas melmas Ci- 
,,, dades , ou lugares mandavao as leys Di vinas ,. e Eccte* 
„ fiifticas i por , e eftar os nollos Patriarcas, ou Prima'- 
„zes, que tern a mefrna forma , poito que os nomes fe- 
„ jso diverfos, aos quaes leToccorredem aos Biipos , fe 
^ neceiTario fofle , eparaelles appellaflem , eeliesgo- 
„zaffern do nome de Primazes,. Ate aqui Santo Ana- 
cleto. 

7 Donde fe collige , que Sao Tiago pozcadeira 

de Primaz de Hefpanha na Cidade de Braga por fua 

grandezi , e dignidade de Ghmcellana i que tinha , a 

que acudiao vinte e quatro Cidades bufcar remediode 

JW»> /. j» c p juiliqa , como diz Plinio. . Taz por Braga ■,. que nenhu- 

ma das outras Chancellarias pertende Primado, fenao 

*eila , em que achamos pofto o primeiro Bilpo # que 

oApoftolo fez. "Tambem fe collige, que Santo Euge- 

nio nao poz em Toledo mais, queCadeira Epifcopal 

%frus Livius j.Ordinaria , porque huma Cidade pequena , como ella 

ii,D*ci^ 'sw . fejgundo Tito Livio, oao demandaVa. mais j antes- 



D? Portugal. Cap. LXV. %6f 

fora deiordem contra oeftylo Apoftolico , que nas ma- 
yores Cidadespunhaos Pri mazes, conforme so Canon 
citado , e o mefmo fe deeretou no Concilio' Chal- Brfrw mm 
cedonenfe II , que traz o Cardeal Baronio nos leusjt^n. i%.in 
annaes. Tratemos ja das Metropolis, affjm de Braga, E/f«. s^niti 
como de Toledo, fegundoo que dellas achamos em r 
dcrituras antigas* 



,'iw. 



CAPITULO LXV. 

§£ue o Concilio Eliberitam ordenando as Metropolis 

d* Hefpanha por mandado de Cenftanttno^ tratott 

pimtiro da de Braga \ e Toledo ainda mtm 

n&% era Metropolt , final fujfraganea 

de Qarihagena* 



i f~*\ Concilio Eliberitano , quando ordenotl 
I I as Metropolis de Hefpanha por mandado 
^— ^ de Conitantirio , naordem, e lugar den 
a fuperioridade a Santa Igreja de Braga , porque de- 
pois de tratar de Narhona Cidade de France , vindo a 
tratar das Igrejas de Hefpanha , a primeira Cidade, 
erri que poz osolhos para fallsr de fua Metropoli, foy 
Braga , com fer a mats remota , e mais Occidental de 
quantas tratou. E a glofla no capitulo Bttitquiaem dij- 
Ui'nt. 96. in vtrbo Mediolanenles , diz 9 que a Igreja de 
JMflaS he mais digna , que a de Ravena , porque fe 
nomea primeiro. Quero aqui por efta ordenaqao , ou 
divifaS das Metropolis , a qual nao tomarey de Au- 
thores modernos , fenao de aritigos, Jivresde paixso, 
como Rafes, ejoao Bilpo deGirona. 

a Rales Monro Chroniila do MiramoHm de Mar- 
rocos, e Rey de Cordova , efcreveo hum Hvro decou- 
fas de Hefpanha, que foy trasladado de lingua Ara- 
bica em Portugueza , por Meftre Mafarnede' Mouro, 
dos que em Portugal coftunwa haver, e efcreveo-o ccm 

1-1 ii die 




^^m 



defend, nat 



JinU 



Varus Antigmiades 

elle hum Gil Pires CapeJlao de l^dro Andes de Pori 

( tel,, fegundb diz o Doutor Andre de Reiende nas. iua& 

....gules' a n t1 guidades de Evora, onde o. allega , e tambem na- 

ff(kmac,nTdQlladouta Epiitola, que efcreveo a Bartholomeu de 

Kebedo Conego de Toledo , na qual traz delle efta di- 

vilao das Metropolis *. que lie a ieguinte em I?o*-. 

tuguez. 

3 „ Conflantino dividie Hefpanha por feis Bifpos,, 
,ique eafinaiTem aospovos.a Religiao Chriitaa. OprU 
„ meiro fez o de Narbona,ao qual deu outras feis Cidades 
,j em que prefidiffe na cura das almas conforme a fe dos 
„ Chriltaos., convem iaber Bliterras , oa Beterriu , To- ' 
„loia, Magalana , Nemaufo » Agatha , e Garcaiioi.3. 
„ Aoiegundo deu tambem boas Cidades, Braga , Du- 
w mia » Portugale, Autia , Tuden, Lucorlria, Bri- 
„ tenia, Oveto , e Afturia. Ao te ceiro Tarragona,. 
3 , Barcelona, Qaragoca , Lerida-, Auiona , Deitofa,. 
„Oka, Calagurrin, Oiiola , e outras quatro tao bar* 
,, baramente depravadas na efcatura. , que naoenten- 
„dbdefte Author barbaro , que. Cidades forao , nem 
„ quero fupprir ifto de outra parte. Ao quarto 
„ Carthagena , Lorca , Bafte , Toledo , Albarba , Oxo- 
„ma, Saguntia,,, Valenqa Valeria,, Caftulo, Mentefa^. 
, r OxCto j Seeobriga , e outras cinco, cujos nomesnao 
,>entendu Ao quinto Merida., Paz, Lisboa,. Oilono- 
,» ba. Abtanfa £parec«s fer Igiditania ) Conimbriga , La-- 
M meca, Ebora, eCauria/Ao lexto'Sevilha, Italica, 
„ Cordbba., X^ritio, Saduno , Nevola , Malaca., Ili- 
,,berin , e Agabra. Ate aqui o Doutor Reiende. No». 
te-ie , que todas eftas Metropolis fe puzerao em Cida- 
des, onde e(lava6 Chancellarias de Romanos » confor- 
me aorjeoT Apoltolica. Das Chancellarias de Braga , 
Tarragona ■, e Carthagena ,. faz mencjao Plinio no li- 
vro terceiro capitulo terceiro. Dade Merida no livro 
quarto capitulo vinte e tres. Da de Sevilha no livro 
terceiro capitulo primeiro. 

4 Na qual divifao de Rafes fe ve , que o pri- 
meiro M^tropolita no de Helpanha, deque o Concilia 
&l&u ,, foy o de Braga , . o qual ji de antes fe entende 

lex 



*De Portugal Cap. LXF. 26 9 

fer Metro politano, e Priraaz , ie alguma ordem tinha- 

ja algteja de Heipanha , na qual haveria rnuita can- 

fuiao , e pouca liberdade, ate Conftantmo > que deu 

paz algreja , e fez fazer em Heipanha elta reparti- * 

^ao. Na q.ual fe ve tarabem , que ainda Toledo mo- 

eta Metropoli, fenaa luifraganea deCarthagena, poi 

cuja deftruicaS diz.Vaieo * que lhc iuccedea na; di^f^^ 

nidade.. 

5 Amefma divifao pefas mefmas Metropolis ef- 
cteve: fummariamentg Joao Bifpo de Girona Lufitano, Bt Jeanne- 
Scalabitano , Author de mil annos* a quat diz elle , E/ mju^o- 
que fezoConcilio EJiberitana por mandadodeConf £*>* a ™°- 
tantino, como delle atraz Vafeo no anno de Chrifto ? j a $ ^ a jnBa 
3*8,. pofto que ie engana envdizer * queaqueileCom w y; 4 ., 
cilio toy fetto em Iliberi de Franca , porque nao foy, Vnfeusum. u 
ienao em Ehberi Cidade de Hefpanha * como prova «»»<>». 33*» 
Gaipar Barr^iros. Traz efta divilao o'Doutor Beuter Barr f : f dg 
na forma , em que a traz a-Chronica geral. d'EUUy mrpmhcm 
Dom AfTonfo* Italia tambem della Antonio de Cian* Beuterp. i, 
ca., eallega ameima Chronica. Mas efta Chronica , e <v*5. {, 

os que a ieguem,. e entre elks Morales , nao approved Cim sali^ 
atal divifao ,. affim corao nos a referimos. deites.Au- jfaiksL-xu, 
thores Rales j e o Bilpo. de Girona.. <^. 34 . 

A A caufa bem pareceTer- >;, porque nao fez a To- 
ledo Metropolis E ailim Ieguem outra , que fizerao a< 
iuavontade, em que a poem entre as Metropolis ,ex- 
cluindo de leu lugar a- Carthagena , e fazendo-a fuf- 
fraganea- de Toledo de Metropolis que era della mel-~ 
ma* A elles feguem outros. Authores modernos , poi~ 
to que Morales confefla ~ f que niito na6 ve coula ave- 
riguada ; e calouf ao Rales ? e a© Bifpo de Girona nef* 
tes higares , que muitas vezes em outros allega. Jul- 
gue o leitor , com que pretexto j queeu, por paflar 
a outra coula, nao me qilero deter niffo. 

7 Diz elle no rneimo capitulb tr^nta e dous do 
livro decimo , que tern por certo , que muito antess 
de Gonftantino eflava feita efta divifao das Metropo- 
lis, como elle a faz , pondo a Toledo entre ellas. E 
eii,4lgo., qwe tudo iftohe iinagma^aS iua , a qual naa?. 




Morales I. 
cap. 3 17 
Idthi l. ii 




170 Farias Amigmdadef 

tern mais fundamento , que querer elle dar efta hoitf 
ra ao feu Metropolitano de Toledo, como quern era 
natural de Cordova fua iufiraganea , potque alem de 
ocontradizerem aquelles dous Authores antigos , el- 
' le rasfmo fe contradiz. Ve-te Uio claramente no ca- 
pitulo precedente do mefmo livro, que heotrintae 
hum onde poem o meimo Conciito Eliberitano , que 
leguado elle foy feito em tempo do Imperador Conf- 
tantino ^em huma Cidacje , que foy junto a Grana- 
da , otide agora chamao a ferra de Elvira , ao qual 
preudio, e fe adinou no primeiro lugar, Felix Bifpo 

ra Accitano , que era o de Gadiz, como affirma o mef. 

IO ' mo Morales, E nofettmo lugar fe afiinou Melanthio 
Bifpo de Toledo. Edizelle , que efte Melanthio he 
o terceiro Arcebifpo de Toledo , dos que tern no? 
ticia. 

8 Hora fealgreja efteva jaordenada, como elle 
quer, como fe aflina primeiro o Bifpo Ordinario de 
Gadiz j que o Metropolitano de Toledo , le o elle 
era ? Mais digo t como prefidio o furTraganeo de Ga- 
diz eftando prefente o feu Metropolitano de Toledo? 
Porque Morales quando faz efta Metropoli no capi- 
tulo trinta e dous entre os fuffraganeos de Toledo 9 
poem no quinto lugar o Bifpo Accitano , que he 
o de Gadiz. Donde fe infere manifeftamente , que 
Toledo naoera ainda Metropoli em tempo de Conk 
tantino , e que Morales a ii mefmo le contradiz. , 



CAP* 



Tie Portugal. Cap. LXFI. 271 
CAPITULOLXVl. 

JPe hum cone ilk national , felte em Toledo , o qual ftz< 
ham a regra dafe r por mandado do Papa 
- Lead % e a enviou ao Arcebijpo- 
de Braga* 



fc T^\ Epois por mandado do PapaXea6 priir.ei- &m U $r,i« 
% I ro » °< ue iegundo Qnuphrio Veronenfe cbyn. ?o»r: 
Ji — J toy eleito no anno do Senhor 44,0 * fece-zW..*»£w 
lebrou hum Concilio geral em Heipanha t cm que ie w *»> 
acharao os Bilpos das Provincial* de Tarragona ,, Gas-' 
thagena ,, Portugal , Andaluzia , ; e fizerao contra* a he- 
regia de Prifcilliano Bifpo de Avila a regra da ,fe , a 
qual por mandado. do mefmo; Papa dirigirao a Baleo-^/^/*/*/^ 
iiio ArcebHpo de Braga» Confta iifto de huma Epjftola t>ens Baton. 
do Papa Leao > que he a nonagefima tenia dasfuas. fj"™'"™** 
Ccnita tambem do Concilio primeiro Bracarenie , edejj™^' 
eutro Toletano ,. © qual Toletano nos diflemos fer com. £raa. 
sqiKTe , que fe fez por mandado do Papa Leao , eque 1. ulu 
fez a regra * e a dirigio , por ccnltar ifto dtlle me|- 
,mo no eapitulo vinte ehum , cujas palavras fao as k- 
guintes : n Regulae fidei contra omnes h?erefe$ , quarn 
j, niaxime contra Prifcillianiftas, quas Epifcopi Ta^- 
?J raconenies , Carthagenienies , Eufitani \ & Betici 
„fecerunt, Sc ex prarcepto PapsLeonis ad Baleorihim* 
, $ Gallicise tranfrrnferunt. Ipii autem etiam fupra fcri- 
r , pta viginti eanonum capitula; ftatuemnt in Ccncilb' 
-^Toletano. Ate aqui o Concilio ToletanOi E .db'pr.F-cw t u 
meiro BracarenTe confta claramente , queBakonlb .er.a MBWW1 »J 
Arcebifpo de Braga* 

2 Morales moftra Bern doerfe diffo r e frsba> 
1'ha quanto Ihehe poffivel pelo deiviar ,. peirver, qw 
o Bifpo de Toledo, e osmass daquell^C^nciljOjL qH£ 
JLrao dezaaove » ism re.dizer donde; taasje Biipos r di- 

rigiraik 



Morales I. l# 



%7% Forks Antiguidadef 

rigirao aquella regra a Balcoaio Bifpo de Braga , e 
traz alguns argumentos para perfuadir, que nao foy 
oGorxiliode Toledo, o que feajuntou por mandado 
oo Papa Leao , e dirigio aquella regra , fenao outro 
fliiteiente etn tempo, peffoas, elugar. 

3 P P^meiro argumento tira do titulo , o qual 
Mmi que efte Concilia fe celebrou em Toledo , em 
tempo dos fmparadores Arcadio , e Honorionoan- 
no, emque StHicon foy Conful : que fegundo elle, 
toy q-qarenf a annos anjtes do Papa Leao. 

4 O fegundo he, que na marge defte- Goncilio ek 

fa huma notaqa6 de put/a terra , a qual diz , que aquel- 

les dezanove Bifpos erao de Galliza do Convento,- 

ou Ghancellaria da Gidade de Lugo, e feajuntarao em 

,Celena$ lugar daquella *erra. 

m f G terceiro, que a Papa manda , que efte Con- 

eilio fe ajunte em Galliza , e que conforme a iflo o 

primeiro Goncilio Braearenfe fallando nelle diz y que 

a *-efna da fe fe enviou a Balconio Arcebifpo de Braga - 

^omo a principal Prelado de Galliza. 

6 O quarto, que o Papa manda aTuribio Bit* 
po Afturienfe em huma carta, que convoque em Gal- 
liza Concilio de todos os Bifpos das Provincial Tarra- 
gonenfe, Gmhagenenfe, Lufitania, e Galliza, onde 
4e condemae aquella heregia. Eftes fao os argumentos 
de Morales. 

7 Ao primeiro refpodemos J que aquelle titulo 
nao parece fer o proprio defte Goncilio , porque o 
contradiz o texto delle no capitulo vinte e hum , on- 
de diz , que a regra da fe , e os vinte capitulos do 
Goncilio forao feitos pelos Bifpos daquellas Provincias 
no Goncilio Toledano por mandado do. Papa Leao. E 
o texto quando efta inteiro, e perfeito he demuito 
mayor authoridade s que o titulo, porque o texto fa- 
bemos fer feito pelos Bifpos do Goncilio , e o titulo 
podia fer feito por outrem. Quanto mais ♦ que elfe 
tern dous titulos, efte, que he fegundo, e outro pri- 
meiro , que diz , que foy feito fendo Papa Anaftafio, 
ou junto dos feus tempos , em que parece, que quern o 

<* » pos* 



TteTwtugal: Cap. LXfl. 27% 

poz nao advertio pieeifamente no anno , nem ainda 

no Pontificado do Papa. Da mais ditto Ulefcas , Bar-' #'*/*«'*» 

tholomeu , Garrancar, e o cathaloco dos Concilios , que ^ ng fi fi h r * 

, ^ • • oj « j ^1 ^« j- ^ Garran.m - 

andao no principiof das oorns de Platma , dizem , que o / umm4a ^n 
Papa Leao oconfirmou , e fe elle foy feito em tem- 
po do Papa Anaftafio , de que iervia guardallo qua- 
renta, ou mais annos,, para o.Papa Leao o confirmai? 
Noqual meyo tempo viveraQ feis Papas, convem a 
fsber Santo Innqcencio , que prefidio quinze anncs, 
Sao Z6fimotres 1 Sao Bonifacio tres , Eulalio fres me- - 
zes, Sao Celeftino oito annos, Sao Sixto fete. Aoqual 
iuccedeo Sao -Leao p como em Onuphrio fe pode ver.^^^Jr. 
£m iim dizemos , que o texto ie deve de preferir aos # «, ™ 
titulos alheyos , ou mal concertados , emalpoftos. 

8 Aofegundo refpondemos com as mefmas ra- 
zoens, porque nao fe pode dar credito a huma nota* 
<^ao de outra letra $ pofta na marge , quando o texto 
feito pelos Biipos diz outra coufa. Quanto mais , que 
ella nao diz , que aquelle Concilio de Celenas fofle 
^nandado fazer pelo Papa Leao , nem que fofie de to» 
das as Pravincias deLiefpanha , mas antes diz 4 que 
aquelles Biipos , que pareee forao tambem dezanove, 
erao todos de Galliza , e como elles erao eftes , na6 
fpy OvConcilio geral da Papa -Leao efte, de que trata 
aquella nota<fa6. Verdsde he * que em tempo <ie fte Pa- 
pa fe fez hum Concilio de Galliza contra a Tieregia 
de Prifcillianp , do qua! fonbe o meimo Papa , e lhe 
efcreveo huma carta. Faz delle menqao o primeiro Gone #w.i} 
Concilio de Braga j e efte cuido fer o Concilio de™pr*fai 
Gelenas. Finalmente fabemos, que ohouve, eque o 

Papa lhe efcreveo , mas nao que o mandate fazer, j 

nem que rizefTe a regra, eadirigHle, porque eite foy 
outro de tod^s as Provincial de Hefpanha , de que 
fal-Ia o mefmo Concilio de Braga logoimmediatamen-< 
te depois defallar de Galliza , como femoftrara. 

9 Ao te-xeiro refpondemos , que 6 Papa nao man- 
dou , que efte Concilio fe ajuntsfle em Galliza j mas 
mandou aos Bifpos daquellas Provincias , que fizetTem 
hum Concilio geral, naS Hmitando a Provincia , rem 

Mm ote 



$74 Farias Amlguidade! 

olugar delle. E quehavendo impediment p^ra fenaS 
celebrar o Concilio Gerai , entao lecebrafle em cSg 
?> B ..f glacial. As palavras do Papa aVerca daquel- 
S» * 4*& rL— ,. fc k ?! t! ; ataE de Pr °vincias , nem lugar , fed as 
tdTunhwm, ^f^ 1 m, UeOimus itaquclrtetasadfsatres & Cc- 
*j» *v|ptop$ noitros TacjaQonenies , Carthaeeneaies , 

v Ummm^ atque Galletianos , eiique concilium Sic- 
AJWgMgOft tedwsifti^ Quaes eicolherao a Carpi- 
**«»>- esMttai a -Toledo por near no meyo de Hdoa- 
aaa^ e ena,aiftancia igual para todos. 

*a a quat ordem ie entendia ier dada pelo mef- 
mo, jfera * pcrque tratando. ella do Provincial dale, 
que fe Meeai Gallijg £ en> lugar opportune pari 
^odc^osSacestdotes dasProvincias viunaas; eertatra- 
ja, dada pam o Provincial >. guardarao elles no Geral . 
tazende-o, em meyo de Hefpanha na Cidade de T Q 1 C ! 
do-, como diz omefmo Concilio no capiuilo vinte e 
i»um > que ja alleguey*. Ao ; mais fe . reiponde no caofr 
toilo. feguinte^ r *? - 

CAPITULO LXVII. 

:r n d&Braga, como a principal £> t eUdo 
dt Htffmha.^ 







Orales pertende levar efte-Concilio Gerai ! 
de Gall iza, para fundar o que diz, que 
iendo alii principal Prelado ode Bra^a, 
por hiolhedingirao. a regra da fe, e allega P ara iflo.' o 
fconaho primeiro de Braga.. Mas elle nao diz o que 
Morales diz , como fe ve neftaspalavras , que efte Con- 
ciho traz bgodepois.de foliar deoutro Concilio. que 
prelum^ fer o de Celenas. ' 

C#««»7.Br#;.fc %t O Concilio de Braga diz afSm : • „ Cujiis etiam 
tt4& rpraecep>o (entente do Papa Leal) Tarraconenfes, & 
$ .CartJiagsneoles Epiicopi , Lufitaai quoque & Betu 




De Tortugd. Cap. LXVU. 27$ 

^ ci , facto inter le concilio , regulam fidei centra I'ril- 
„ cilliani ha?re(im , cum aliquibus capitulis conicri- 
,,bentes, ad Balconium tunc hujus Bracarenfis tccle- 
„ lias praelulem direxerunt. lilo diz o piimeiro conci- 
lio de Braga , de que ie moftra , que a reg*a da fe fcy 
dirigida a Baiconio por aquelle concilio nacional „ 
com© a Arcebiipo de Braga fmiplefmente fern refpeito 
do lugar: contra o que diz Morales. E aflim o refpei* 
^o foyoutro, deque abaixo trataremos. Nem o Con- 
cilio de Braga apontao lugar, onde foy feito, neraain- 
da a Provincial mas aponta, que foy geral. 

5 Ao quarto argument© refpondemos | que o 
Papa Leao nao raanda ao Bifpo Turibioconvocar Con- Zeofo tpffi 
cilio Geral em Galliza, como feviopor fuas palavrass tdTuribhm 
mas o.Pfovincial u*m , e matvda > que prefidao neWe e ' l i-{ mu ^ 
fiydacio.., eCeponk) , e o meimo Bifpo Turibio : mas * m9i 
ifto era em cafo, que o Geral fe na6 puddle celebrar: 
„Si autem ( quod abfit) aliquid obftiterit, quominus ' 
i, poffit generale celebrar i Concilium , Galleclse fak 
„ tern in unum conveniant Sacerdotes , quibus con- 
„ gregatis , fratres noftri Hydatius , & Ceponiu$« im- 
„ minebunt 1 conjuncla cum iis inftantia tua , quo ci- 
„ tius vel Provincial! conventu remediurn |aetis vul- 
„ neribus afFeratur. Sao palavras do Papa , porque fe 
ve, quel© ao Concilio Provincial affinou a Provincla r , » 
deG'Tlliza para fenella fazer , e nao aoOeral j como 
}a vimos : e entendemos, que o Provincial fena6fez t 
pois que fez o Geral , falvo fe arnbos fe fizerso , mas 
no Geral nao ha duvida , como temos moltrado. 

4 Satisfatjamos a Vaieo , queprimeiro, que Mo* v*Jevt*im.t 
rales ^ faz diiyida nette ConciH© , e diz , que ocapitu- «»»<>C 40**5 
to vinte e hum he alhey^fi e foy tirado de -outre, e 
cozido nefte. Alem ditto j que he de materia differen- 
te. O Concilio todo tern vinte e hum capitulos, eno 
ultimo dizem os Padres delle, que fizerao a regra da 
fe, que no mefmo capitulo vinte e hum fe contem j 
e que fizerao elles mefmos os vinte capitulos , que 
deixao atraz. Seos capitulos, queficao forao mais j on 
menos, c|ue vinte , razao tivera Vafeo em tet aquei*. 

Mm U ^ 






27.6- Vdrias 

le ultimo, que he o vinte shun*,, p>rr^HJfi^o ^ mas ef» 
te vinte e hum em dizer , q^jg.- fka& &m& water, co- 
mo na verdade fica5 ,, mc-fe teparj:edo}mfiimoCon«i 
ciho. E em fer de outra materia QaoMittp^rta,,, por- 
que em hum Concilio diver fas materia s> lepodem trataiy 
enaquelle houve mais que fazer •„ que a -regra da fe; 
Alem difto duvidou omefmo Valeo de ier. o primeiro 
Concilio Toledano , o que o Papa Leao raandou oele«- 
brar. Caufoulhe efta duvida aflim a .diitereuqa dotem. 
po i que fe moftra pelo titulo , como tambem o nao 
achar nelle anome do BifpoTuribio, cuja authorida- 
de diz, quedevk de fer entre aquelles Biipos muito 
principal co <forme a ordem do Papa Le^o* 

f Quanto a primeira duvida , ja efta fatisfeira 
na repofta do primeiro argument® de Morales. A' fegun- 
<da dizemos, queo Bifpo Turibio houvera de pr.lidir com 
HyJacio, eCeponio no-Concilio Provincial de Galli- 
za , fe fizera pelo mandar adioi o Papa em iua carta v 
cujo lugar fica refer ido : mas nojGeral #> "nao a\ pornao 
haver ordem para ifto. E a caufa dsfenao achar nel- 
le feu nome efcrito-, afiimcomo Cenao achao de.mui- 
fcos outros Bifpos j nao nos confta : feria porandarem> 
' naqueile tempo as coufas da Igreja de Kefpanha muito 

4tWtol.il,, perturbadas, como fente Morales Finalmeme o Con- 
& ciho, que fez a regra da fe, foy Toledano, manda- 

do fazer pelo Papa Leao ; mas o titulo nao he feu, 
fenao do primeiro , que fe f, z em Toledo , no anno 
tercero do Papa Anaftafio, no primeiro confulado < © 
Stilicon , anno doSenher 400 , fegundo Baronio , e do 
Papa Le^o node 44.7 ^ fegundo ellemefmo. 

6 Vejamos agora porque razao aquelle Concilio 
cnviou a regra dafe por mandado do Papa Lea6 ao Ar- 
cebifpo de Bragas-nefte cafo Inimki nofirijum judinsi 
7Vloralesfuppondo,queaquelleConcilio fefezem Gal- 
liza y diz, que dirigio como a Prelado principal daquella 
Ifrovirrda. Mas pois elle fe nao fez em Galliza , iena6 
em Tole Jo , como delle mefmo confta , diremos, e di- 
iremos bem , que lha dirigio como a principal Prelad) 
dslj^lpanh^ E quando dtffemos > que naafoy em? 

TpJe- . 



T>e Tortugaal. Cap.LX FIL TT7 

Toledo, bafta, que. o Concilio toy national , e geral, 
como confta do Concilio Bracarenfe allegado ,. para 
affirmar a Primacia naquella Santa Igreja. 

7- E (egundo a'opiniao do Meftre Vafeo nao re(- v ^ ttif Um: & 
peitando o lugar, foffe onde foffe , diz, que a S&de c. lo.Veibv 
Metropolitana de Braga he de tanta authoridade , qut^w^- 
convocando Turibio BHpo Aiturienie por mandado do 
Papa Leao hum Syrtodo de toda Hefpanha contra os. 
Briicillianiftas, aquelles Prelados mandarao os decretos -. 
delle a Balconio Arcebifpo de Braga ■, corro que per- 
tendiao conflrmallos com fua authoridade. Ateaquifa©* 
palavras deValeu tfaduzidas em Portuguez. E iito era-. 
eitar a dignidade da Ptimacia de Helpanha naquella 
Santa Igreja , e juntamente o exercicio , pofto que do > 
some fenao trate.. 

8 Iito fique affifir dito em gtac,a da Igreja Bra ca- cimcursixei ■. 
renie, que valera. tanto, quanto quizerem os doutcs,/»p?<*/^ 
Mas pcfta de parte toda a afleicao , nem o Concilio Bra- Conctl > T * le *> 
carenfe primeiro', nem o Toletano ■• nacional dizem , c zu 
que os P- d es delle mandarao a regra da: f^ com os ca- 
pitul s a Balconio Biipo de Braga; para elle oconfiq 
mar* como alguns querem , mas dizem fimplefmen- 
te \ que por mandado do Papa Leao lha mandarao- On- 
de nao ha mais myfterio ^ ; fenao y que como o Conci- 
lio i'efazia para extirparaheregia de Galliza, a ninguem 
pertencia a execu^ao do aflentado nelle $ fenao ao BiC- 
po de Braga , Metropolitano * e paftor geral da mefma 
Galliza. R (e a^guem pergunta : como diz o Papa , que 
lhamandera; ie.elle melrao- ordenou , que os BHpos\ 
Gallegos f oflem prefent^s naquelle Concilio, onde ca- 
bia melhor dizer ~, ..que lha defTem , que nao que lha 
mandafiem ? Refpomfo \ que o Papa labia \ como Te- 
deixa entender , que Balconio tinha impedimenta ,fdf- 
fe de velhice , ou ddenqa , ou qualquer outro , para nao T » 
affiftir no Concilio, e por iflo avHou logo s que Irta 
mandafTem. Mas nem Balconio , nem feusfunVsganeos 
affiftirao nel'e; como moftra omefmo Concilio Braca- 
renfe primeiro j porque tratando dos Bifpos , queman- - 
daraova regra a Balconio , e nomeando #s Xa^aconen* 

£es* , 










teolffEpi/loki 
■adTur. c. 17. 
five ultima, 



Leo in EpiftoU 
ad Tur. c, 17, 
five ultimo. 



Canode hcis 
I.-5. e. 4. con- 
*lu{. s.jftmar» 
gine. 



Baron in Epit. 
Spout!, anno 
Chri. 68 1, tii 
J4-exLuca 
Tujenfi. 



Vartas AntiguiSadef 

ies , Carthsgertenfes , Lufitanos > e Andalufes , nao fez 
rnen^ao de Gallegos ; que heprova de nso ferem pre- 
ientes no talConciiio. Iftofoy, on porque fe tinhao 
acliado no de Celenas, feito fobre a meima materia, 
de que ja atraz falley : ou porque os Padres delle os 
nso admittirad por andarem os Gallegos , e por ven- 
tura alguns Bifpos inficionados dapette de Prifcilliano, 
de que ja (etemera o Papa Leao , como moftra na car- 
ta do Pifpp Turibio. Efta foy acaufa de fe acharern 
naguelJeConcilionacional tao poucos Bifpos, que nao 
paflarao de dezanove. Pela rnel'ma razao nao achamoa 
nelle o nome do Bif,jo Turibio, como quizera Va(eo r 
ponjae dado , que era Catholico t e. Santo , nao que- 
nao exceptuar petfoas com offenfa. De mais ditto , fe 
aquella Concilia mandara pedir confirmaqao aoBi f po 
deBraga , como a Primaz , outros Co net' ios antes, 
e depois deverao fazer o mefmo , elpeciaimente o EH- 
beritano^ que foy na cional , em que elle fe nao 
acbou, mas nem elte, nem outrofez nunca coufa fi- 
^nilhante, 

9 JFaz tambem por i do outra razao, que acor> 
fjirmacao daquelle Goncilio ao Papa ie devia pedir, co- 
mo realmente pedio , ee'le o conlirmou , comoalem 
dos A inheres allegados odiz Cano. Da mefma manek 
ra fe nao pode admittir o que? alguns dizem, que o 
Bifpo de Braga houvera de prefidir em todos osCofi- 
ciHos deHefpanha, como Pfimaz, fe nelles nao prefi- 
dirao , como Legados do Papa hnra o de Sevtlha,* ho- 
ra o de Merida, hora o de Toledo , e outros , porque 
nao confta, qua fempre foflem Legados; e dado que 
foflem »^ode B-aga fe era Primaz , como elles querem, 
logo fe 'houvera de affiair depois Legado; e nso foy 
afTim , como he notorio pe'os Concilios. Pelo que te- 
nho por melhor confefTar , que antigamente nao hou- 
ve em Hefpanha exercicto de Primaeia , que querello 
efpremer donde nao pode fahir , fazendo dizer aos Con- 
di ios o que elles nao dizem. 

to F, he ifto tanto aflim , que antes da deftrui- 
qao de Hefpanha no Concilia Toletano duodecimo fe 

ttatou 



T)e Portugal. Cap. LKP II. g£p 

tratou da Prirnacu de H'efpanha", eos Padres dell e pe- 
dirao ao Papa , que osArcebifpos delta Piovincia ns'dV 
©bedeceilem a nenhum Primaz, lenaoao mefmo Papa.. 
Aqual prevenc. 6 nao foy feita contra o Arcebiipo de 
Braga > tenao contra o de Toledo , pelo {'entirem rrrui- 
to adiantado em peniamentos, e caminho de iefazer 
JPriroaz com favores dosReys GodrS, como atraz n*~ 
ca dito. Donde fe collige ,. que todos os Arcehiipcs de 
Hfripanha, tirando o de Toledo , nao tlhhso per§en~ 
qao , ao menos notoria ,, da dita Primacia. Para conhe- B} | '/ 
entente de Prifcilliano , que' he bem fe faiba quem e e ,ha^i»< 
foy, dizemos^ , que o fazem hum Cavallekov (Salle- PiifdUUno. 
go, ieculatf , ' nobre , poderoio, edouto em letraVlIu-*"/^"* 
manas , e depois Bifpo de A'viia-, fegundo Sao Jero- ^* 4lt X Di - 
nymo. Sao pyofpero lhe chama Biipo de Galliza: ao c> m ' nca „' a j,$ 
qual A;tonio dfiCiancateconhece por Bifpo de A'vi'a de s. segunda- 
iua patiia , ma'& intruiO, «<$. nao legitime. Joao de Ma- ^ i- §• fad 
raan^ da CJompanhsa dejefu fa&delle larga meriqao na '»»°f*i>47. 
Sua hiftotia,, a que reatetaoleitor.. M^r W m/.^ 



CAP ITU LO. 

€emo c y Arcebtfpa de Braga mm mats razah ', edirti*- 

ta , que nenhum outrQ^ dtvt Jer havida por Fri~ 

psaz de toda Hefpanha. ," E quando tive* 

r*ao Btfpos Braga r ,e Toledo depots da* 

rtcuperafad da mefma He/pa* 

nha depodev dos Moaros,, 




O Condi id fegundo Bf acareirfe fe itO" nap. 

&ra de 6ia> que he o\anrto do Ssohotr 
5j%:, le alii narao doze Bifpo& Prefidio nd- 
le Sao Martinho, que chamso deDums-,., Bitpo, que* 
Ifora do Mofteko Dumienfe , que .eilerfnefrao •' edificou^ 
ecmo {e acha no decimo Gonciliorfojedano , e nefle 
tempo era Atsebiffjo Metropolitans de JLaga*-. Entree 



2§Q k -Varus Antlguidades 

McraksL n. os Birp05, que feaffnareo', foy Nitige Metropolitans 
*#t daTgrejade Lugo. Fizera-fe hum Concilio r a Gidade 

de Lugo por mandado de Theodonniio Rey cosSuevos* 
no qual fe pedio por parte d'^lRey , que fe rizeile ou- 
tra Metropoli emGalliza fujeita a deBraga. Entaofez 
oConcilio Metropolitano algreja deLugo, cujo Pre- 
lado era Nitige, que feaqui afliaou. 

g&, De modo ., que a Igreja de Braga fay realmen- 

■te Primaz da ProvinciadeGalliza , pois Iheera fujeita 

.Msrdesl n, outra Metropoli , eomo confeil 6 Morale's, e Mariana*' 

«p. 61 §. t. g o Bifpode Toledo no fomente nunca foy Primaz., 

Marina 1. $. aem teV2 Metropoli debaixo de fua obediencia., mas 

-nem Metropolitanopodia acabar defer , porqueosfuf- 

fragaaeos deCarthagena o nao queriao conhecer pot 

Itaj. £ nao digo eu Toledo., mas nenlium M^tropoli- 

itano dos mais antig^s, que Toledo, como ode Tar- 

'*■•'- ragona i Sevilha , e Merida teve nunca algum Mitro- 

fpolitanopor fufTraganeo. Ecerto, que deixadas outras 

iirazoens, (6 elta bafta, para que o Arcebilpo de Bra- 

5 ga fejahavido por Primaz das Hefpanhas f porquemais 

direito tern aotodo quem jufta, e dignamente teve a 

parte, que quem nada_teve f nern ainda qualidadespara 

0*te£ 

5 R pofto que acabado o Reyno de Suevos , q 
incorporado no dos Godos por-Leotfigildo , que en- 
tao reynava , que foy no anno do S^nhor 584, fe~ 
■V^feut tom.i . gundo Vafeo, a Primacia de Braga ficafle impedida , 
annoD. 584. n ao acabou poriflo, comoquer Morales. EraoosReys 
Godos abfolutiOimos,, e mandavao defafto. enao de 
direito , tr todos os Prelados aosConcilios de Toledo, 
onde aCorte eflava. Mas rtifto na6 tirarao ao de Bra- 
ga fua antiguidade , e fuperioridade , digna de (e Ihe 
fujeitarem Bifpos MetropoHtanos , pelo menos o «Se 
Mordeti. 11. Lugo j fatlo por palavras de Morales : a qual fuperio- 
dade nunca aquelles Reys poderao dara Toledo, nem 
ao deSevilha com toda fua Corte, que la refidfo mui- 
tos tempos. 

4 Nem faz contra ifto dizer Morales \ que no 
Concilio Toledano decimorfexto , .celebrado no anno 

do 



wp.73. 



Morales \, i. 




*De TortugaL Cap. 



$o Senhor 6$\ % os, Padres deile iubirao a Fauftino Ar» 
^cebiipo de Braga para Arcebiipo de Sevilha ; pcrque 
-fe ifto fora ordem defubir ■', fora mais vezes repetida, 
>enao foyaffim. Mas antes, confidiradas as qualidadea 
.de ambas as Sedes ,'foy deicer de Primaz para naoPri* 
*naz. Pelo que outra cauia foy adeita mudanc^aarios 
vtao incognita, como faoasopinioens, e vontadesdos 
homens. Cuidaria Fauftino, que iemdhorava, ouna 
•terra , ouna renda , ou no deicanco , ou couia funilhan- 
tc, maseftas melhorias, que le regulao pelas opimoes 
decada hum, importao fuperioridade de-gbfto , e n&o 
.de Primacia, Tambem em Caftella reynando Dom Af- 
fonfo undecimodonome, o Arcebiipo dc Toledo Dom 
JcaS, filho d'EiRey dfrAragao > foy muriado para Ar- 
cebiipo de Tarragona por deigoilos, que em Caftella 
tinha , como efcreve Joao de Mariana , e item ^oxW\6 Marknutx^., 
Toledo ficoti inferior de Tarragona , feguiido o nr.e-f- € - * 8 - e k % - 
*no Author , que faz a Toledo Primaz das Hefpa-*' l9 ' 
tihas. 

w 5 Damudan^ade Fauftino a vinte e hum a rmos 
4uccedeo alamentavel deftruiqap deHefpanha, quan- 
do os Mouros a entrarso , e pofluirao , de que coube 
^grande parteaCidade de Braga, porque foy afloteda, 
ereduzida a hum mo rite de pedras. Depois'a recupe- - $ 

tou EIRey Bom Afibnfo Catbolko. & E)Rey Dotn™^1 
Garcia a inftancia dos BifposdeLugo , edeltia, man- $«/.*8.3*/m. 
dou reedirlcar afua Xgreja muitcsannos adiante , e-fi •<£/?* cath*Ug 
nalmente depois de fua deftruicao teve oprimehoAr-*»<?« c * > «^ 
cebifpo chamado Pedro no anno 1067 » legundo o ca- ^'^ ( "° n ^ a 
thalogo dos Arcebiipos daquella Santa Igreja , ao qual^*B;*«i*# 
fuccedeo Sao Geraldo no anno de 1095 , e osmais dal- ^ Brag«,<.cm 
li por diante , como no dito cathalogo fe contem. O dizDmrte 
qual Sao Geraldo -era Monge de S. lento , e viera de N *^^^ 
France a vifit^r ascafasda 4ua Ordem , e eftanctovag?^ r ^ Ke ^// % 
a Prelazia de Braga , foy eleito canonicamente pela Igre* ij.coi. 4. 
ja Bracarenfe ^ e^por authotidade Apoflolica confirma BreKBrw. *; 
do em Arcebifpo , como dizem cs Breviaries Hraca-*?" e ?f; tm 
penie t e Eborenfe. Onde fe ve o,engano de J026 de Ma^^^^. 
liana , que f az a Geraldo pofto em Btaga p or Bernaf- r ; , 3 .& ^m 



K'l 



Jl 



2%Z 



rids Antipmdades 



do Arcebifpo de Toledo, como Kuaaz. O que he tao 

verdade , como dizer , que o meimo Bernardo poz St 

imMui'sfui ■■?-" n £ ar ^"P<w Arcebifpo de Tarragona , pcrqueo Car- 

Zpn^num ae *i l^ronio moffcra , que o poz o Papa Urbano II , pot 

*»wio 9 i, ». elie » e r caufads fe rdlaurar aquella Cidade, elgreia, 

fe por B-rengario Conde de Barceliona , que a recuperou 

dos Mouros , e mandou a dcsqso delia ao Papa 

por Berengario Biipo Aufonenfe , donde tornou feita 

Arcebifpo Tarraconenfe , como affirma o melmo Ba- 

ronio por eicritura da livraria Vaticana. 

■Mhfahm - n 6 A f T ^edo foy ganhada aosMouros porElRey 
Pont, i. s. u f m Arronio Vfnoanno de 1083 , fegundo Illefcay, 
em Aifm/o 4. e *e teve B fpo no mefmo anno , ainda E r aga a precede 
ifc/«*«» err- em dezifeis annos deantiguidade : e fegundo o inef- 
*^^*s 4 .mo Illefcas em muitos mais, porque elle ere t queef- 
ta contenda ent e Braga % e Toledo nafceo de corner 
gar a Prirnaeia de Braga do tempo , em que foy toma« 
da acsMouros por EiRey Doro Affonfo Catholico , o 
qual morreo , como eile diz , no anno de 753. E a de 
Toledo do tempo do privilegio concedido per Urbano 
ii , a Bernardo primeiro Biipo de Toledo depeis de 
iua recviperaqao. De modo f que conforme a eft- Au- 
thor, Braga foy Primaz de Hefpanha muitos annos an- 
tes do privilegio de Toledo. E fegundo Vafeo acima 
alle^ado eftando Toledo em poder de Mouros , todos 
os Bifpos- de Hefpanha ©bedeciao ao de Braga , e ain- 
da depois, como elle vio, e achou em memorias do 
archivo Bracarenfe. 

7 Efte era o eftado das duas Igrejas de Braga , e 
Toledo p quando Bernardo Arcebiipo de Toledo foy 
aR^ma em tempo do Papa Urbano II, onde , como 
diz Ptetina, effce Papa Iheconcedeo op^llio i ecertos 
privileging, e o fez Primaz de toda Hefpanha.. Na6 
fey com tudo , que baftafle ifto paraca fer conhecido^ 
e obedecido como Primaz . mas antes confta do con- 
trario r porque Jeronymo Qurita nos feus Annaes de 
Aragao , conra , que Dom Rodrigo Arcebifpo de To- 
ledo no Cjncilio Lateranenfe propoz aquerella, que 
tinha doa Arcebifpos de Braga , Compoflella , Tarra- 
gona^ 



YafiUt t.l 
c.2.0. II, 









gona, eNarbona, porque Ihe nao preftavao obedien- 
cia, como a ieu Primaz. E diz Qurita, que para pro* 
var*, que era Primaz das Hefpanhas, pretentou diver- 
fos privilegios dos Pontifices paflados Honorio , Geia- 
fio, Lucio, Adriano , e Innocencio. E alem diito fe 
leo alii huma fentenca doCardeal Jacmtho, que de- 
ra contra o Arcebifpo de Braga , por nao obedecer a To- 
ledo; masque o Arcebifpo de Braga , o qual eftava 
prelente , e fora citado por efla cauia , refpondep con- 
teftando * lite. E o Bifpo Vic refpondeo em ncme do 
Arcepifpo de Tarragona , que era abfente , e pelcs feus 
fuftraganeos,negando, queo Arcebifpo de Toledo fof- 
ie feu Primaz. E allegava 4 que nao tinha obrigaqao 
de lhe obedecer em coufa alguma. E nao houve decla- 
racao fobre eftenegocio. Tudo iftohedeQurita, 

8, Nefta lite ie na5 fallou nvais por parte do Au- 
thor, cujo filencio affirma odireito delta Primacianos 
Prelados da Igreja de Braga , nos quaes elle efteve 
mais claramente , que em nenhum Outro de Hdpanha 
ateo tempo de Innocencio terceiro , que prefidfo no 
dito Concilo Lateranenfe celebrado no anno do Senhor, onuphe: hi 
fegundo Onuphrio \nf i e de enta6 para ca itmprechr.Pnaif* 
tiverao o nome , e titulo de Primazes , e affim forao Rm * 
fempre chamados dosReys, e Principes defte Reyno, 
« ofao tambem agora dos de Caftella depois dauniaQ 
defla Goroa , e em todo o tempo , e lugar confer vad 
efta preeminencia denome, mas naode jurifdicqao. O 
que digo affim pelos de Braga , como pelcs de Tole- 
do. Porque quanto aosde Braga, notorio he v que nas 
Cortes de Tomar feitas por ElRey Dom Filippe primer* 
ro no anno 1 58. 1 , trazendo o Senhor Arcebifpo de Bra- 
ga Dom Frey Bartholomeu dos Martyres Cruz Jevanta- 
da ? como Primaz, osSenhores Arcebifpos deLisboa, 
edeEvora lho corttradi(Tera6 por requerimentos , que 
)he mandarao fazer. E nas Cortes de I>boa feitas pot 
ElRey Dom Filippe fegundo no anno 1619 , trazendo 
o Senhor Arcebiipo de Braga Dom Affonfo Furtado de 
Mendo^a iua Cruz levantada , como Primsz, o Senhor 
Arcebifpo de Lisboa pom Miguel de Caffro » ie lhe op- 

Nn il 7 po? i 






111 



6. EJ 



99$ Farias dntfeuidadet 

^S^ 5 ^ heIi mais reconhecido, que 

S^»^ *J Concilia Lateranenfe fa* 
*»*■««* o^t^ai K <fe qo& a tratey , labemos one n 

jfcftMUii fifcjg i mpay emado de Cortes trazta aV 

Aaeb 5 !^de^rago ? a ? ,e-de Tarwgona.lho contra- 
^zjao;,. disend^eftar o-negocjoem litis pendencia. e 
nao £* dada,!«iten^ FiaaJmente o de Qar.goa. pro- 
3m* A If* pociou comra elle featenqa de excommunhae % e pea 
*m/: ij. ft*?^ publico ., ,e mandou ferrar todas as Igrejaj. 
P-« 9 f [ entl .? 7 lfta E]Re r ieupa r , e logoefcreveoao 
ic.pa fobre ilia com grandea ameaqa* Mas' a repofte 
ley amoigwi , porque- de tal manefoa reprehendeo o Pa- 
pa oatrevimeoto40degarago9a, que mandou abfoK 
vet ao-dfrloleda, em csfo , que a excommunhao fo<« 
le^juua.. Ondefevci quefeeftesdaus-P^mazes entcn- 
<terrMer-razao de querer alcancar o que tern per leu* 
t^nbem os na5- Primazea moft'raotella em na5 dar » 
que.naa.eiW dedarado porfenten^a ., a quern fe devo 
dar. inncipalmente;, que os dous competidores nao> 
querent determinar a caufa , antes parece terlhe potto tib 
fcncio. h fegundo ifto ainda osAtcebifpos de Hefpa- 
nna eitao nos termos antigos, quando impetrarao do, 
Fapa * que nao foflem fujeitos a algum Primaz em He£ 
panha, tirando ao me(mo Papa, como a traz diflemos* 
10 Portodo o-acimadko feentende, fer fabulofo. 
©que dizemalguns e fcri tores Cartel hahos*, que Tole- 
do tern o Primado ds Hefpanha defde o tempo do Apof- 
tolo Sao Pedro , e do mefmo Apoftolo. Dito fern ne- 
n-hura i fundamento, porque ElRey Gundemaro Godo, 
nem dal<i a mais de qumhentos annos a podia fazer 
?«'«:*»** Me * ro P ol » i6 da Provincia de Carthagena, como a traz 
'k'*d-*mo 5S°ir mos ' e ° e(creve tambem o Cardeal Baronio^ 
*tofii6M. ^ao ie iati^z Toledo de fsus payilegios modemo^, 
* tK ' eiufc. 




Matth&it>$6i 



T)eTmugalCap.LXPIII. ; ayjp 

fefu'pira pelos de antiguidade 4 em que Braga lhe he 

muito fuperior , porque'o Apoltolo Sao Tiago poznef- 

ta tao principal Gidade aprimeira Cadeira Epiicopal 

de Hefpanha, e nella a ieu diicipulo Sao Pedro , ccmo 

can tao as Igrejas Bsacarenfe , e Eborenfe : e he credi- 

vel , que o fez em memoria do Principe dos Apollo* 

los ,- eda dignidade Pirimacial , que tinha em tcdo o 

Mundo* Digo ifto^, porque o name Pedro, he Hebreo, Beta inpinM 

ouSyrio , fegundo Beda , enao podia trazeilo tao ce* 5Fw»»« apu& 

do a Hefpanha i fenao o Apottolo Sao Tiago , mA? e *XT *"* 

aella veyo no annode Chrido 35, cemo affirma. Dio- 4 

go da Mota Conego de -Udes> no tratado da vindade^^^^^ 

Sao Tiago a Hefpanha »allegando a Baron io i; onde diz do aa vi*** fa? 

ettar mais recebido , que o"ApoRolo comegou lua pre"-s. i?^**^ 

gaqao cm Hefpanha por Gsntabria ,.. Anurias , e GalH* 45-'4#g 

za, e que era Braga Gidade da mefma GalHza deixou 

ieu dilcipulo Sao Pedro pdmeifo Bifpo delta Cidsde£ 

erdenado, e dado per elle aq^ella Igreja, eque affim* 

o conta , fegiiindo-a nifto outras Igrejas de Portugal*, 

*Erata difto Ambrofio de Morales m Chronica Geralds. 

Hefpanha lfv.9. cap. 7. Antonio de Cianca na hifto- 

ria deSiio Segundo liv. i;cap.a* e Vafeo nafua cbro; 

ftica anno deChrifh) 44. Ifto he de Diogo da Mota. A* 

que nds > accrefcentamos o Mattyrok>gio Romano em 

vinte efeis deAbril , e o Martyrologio particular dos 

Santos de Portugal feito pelos Padres da Companhia* 

de jefu aosmeimos vinte e feis de Abril ; Ribadeneira 

aa vida - de Sao Tiago , e Frey Jerony mo Romano , q ue Kemtm ><*& ' 

em cima alleguey , oqua-1 diz, que a Igreja de-Braga, 8 'F- Gfc »^**- 

foy aprimeira Cathedral, e Sa6 Pedro feu Pfelado /' Ji '-^^ 

primeiro Bifpo entre Gentios^.que houve. no Mundo 

fodo. ^ 

1 1 Dsm Prudencio de SandottallBU po de Tuy cla- &/?*&&%<* 
jamente afnrraa , que Sao Tiago poz por Bifpo em^J^^V 
toga/a Sao Pedro muitos- anncsiantes , qne Santo En- 1J# ^ ™ 
genio pregafle a Feem Toledo. Masguardoufe decha- 
roar a Braga Prirnaz das Hefpanhas; contentandr-nos. 
com lhe dar titulos deAuguik, de Imperial, e de Pa-*' 
*skia. Dosjquaes-Xics tomarerxos oaofl.o,,..e. cs<nmc»; 

deisfer 



Ml 



-j*9 



2TS -V Farias Antiguidades 

dViraretns a cujos fao, Primeiramente o de Patricia he 

'" M S atnc r lf- O de Imperial he deToledo , que Iho deu EJU 
Key DomJ^6 fegundo dedftdla. Direy o motivcr 
tikrh,.* i •■ n^avando-te o Bifpo d; B urgos do Arcebifpo de To 
fJ'""-'-Medo \ P^que pailou por ieu BUpado com Cruz levan^ 
da, como Primaz, EiRey Domjoao acudio porTole- 
do , eentao lhe deu em f-uas Provifoens o titulode Im- 
perial 

12 Mas deve Burgos conlolarfe , que fe Toledo 

a precede no Ecclefiaftico , ella precede a Toledo no 

fscutar. Oque feve nas Cortes dos Reys de Gaitella p 

onde Burgos falla no primeiro lugar , com grande fen- 

timento dos de Toledo ; que querem antes na6 failar, 

que failar no fegundo. Allega Burgos por fi fercabeea 

de Caflella : Toledo allega , que o he de Hefpanha; 

Mas os Reys temperao ifto comdizerem vozalta: os 

ds Toledo farao tudo , o que lhes eu mandar, eaflim 

o digo por eUes , e porem faille Burgos: do que fa6 Au« 

GeeimChr. thores aimiaa deGoes , Jeronymo Oiorio , Joao de 

dEiRy 0™,Masiana. 

t ll°! p1, '3 Tornando ao intento , o titulo de Augufta 
oforius ^^conhece Braga por feu , que lhe foy dado pelo Impe- 
bus S e(i Hm t. rador Augulto Gefar , Monarcha do Mundo ; titulo 
l J'fi l l8 ' de grande mageftade , e verdadeiramente Imperial. Nem 
Marianai.\6.^ mifter outro menor , nemconfta, que o tomatte pot 
nenhum accidente, como Toledo, quefechamou Re- 
gia , po'que EIRey Leo vigil do poz nella iua Corte. 
OsReys Suevos tambem puzerao a fua em Braga, mas 
nao que efti nobililltma Cidade fizjtfe dido oftenta- 
ijao. Lembra-me a mim , que ella por iua nobreza , 
grand^za , e poder,deu hum novo titulo ao mefmoRey 
L*ovigildo , quando a conquiftou , e fe fez R«y do Rey. 
no dos Suevos, que foy , fegundo Morales, no annodo 
SenhorjrSf. Digo ifto, porque mandou bater moedas 
de ouro , diis quaes eu tenho huma , em que poz de 
ambas as partes fua imagem com dous letreiros latinos* 
cada hum em fua, ediz hum $ Leovigildas Rex\ e ou- 
tro | Brngats, frftor* Querem dizer /Leovigildo Key, 

Ven- 



Mariana I. $. 
(. M. 



M.or*l I Mi 
c.71. 




V. 



T>e Tortugal Cap. LXFUL 

Vencedo'.r. defray. As peiavras. Br&c«t& , Fttlor j:6dtm 
ter muitcs fentidc s ; oque dou ptrece roais-do pro'- 
poiito. Porque Leovigildo veyo em peiloa naqueUa Jor- 
nada, com hum grandeexeriito, legundo refere Wc ^ 
rales deAuthcres antiges, e como Braga telle c&bec.3 aWaj 
do Reyno de GalHza , que elle conquiiicu , intltulan- ' 
do-ie vencedor de Braga _, ficou dizendo brevemente 
tudo, oque havia para dizer , em teflimunho ; e dor 
monftraqaodavitoriapertendida, ealcanqada. Salvo fe 
Braga Hie deu mais que fazer,e quh, psrticularmente tri- 
unfar della neftasmoedascom ncmede vencedor, como 
Sirvilio Capita© Romano, que fechamou Iiauuco<5a 
Cidade de Ifauro pelo muito, que Ihe cuflou o feu mm- 
bate, iegundo notou Lucio Flero. Fbrutl^t^ 

14 Collige-ie deftf moeda, que oproprionome 
defteRey eia Leovigildo, e nao Leuvigildo , como 
Morales affirma , que tern os originaes antigos Goth Moral l % 
cos , ao qual Jegue Baronio , e Mariana j porque eflac. 60. 
rrceda de ouro lavrada naquella conjuncc,ap r : e depart t* 
ticular induftria , he de mais authoriade para mim : o 
qual Morales, nao chegcu aver moeda nenhurra defte 
Rey , potto que vio rnuitas de outros, que ailega. E1V 
ta imEgem nso tern ccroa nacabeca, nem osGodosa 
irfavao, mas tern hum trocal rcdondo > que delce com 
huma ponta fobre huma queixada , ecomoutra fobte 
outra, a qual infigniatem tambern as moedas deRee- 
earedos leufTlho, para quern n?6 vioasde feupay , do 
qual elle a tcmou. Rnalmente Braga , pcflo que ven-j 
cida 9 andava efcrita com letras de euro neftas moedas, 1 
efeita joya , e titulo dehenrada imagem daquelle gran- 
de Rey , o qual depois defle t£o profpero (ucceflo 
morreo logo no anno fegumte de 586, conf6rme ao 
melmo Morales no 1 agar allege do. 

if Nao duvido, que os Bracarenfes~antigos efH* 
mariao ifto muito , como Julio Cefar , que paffando per 
Franca depois de a ter cenquiftada, evendo humaef- 
pada fua , que lhe foy tomada na guerra, pendurada 
cm hum templo , dizendo-lhe csamigrs, que atirak 
&dalli, nao quiz, coaio que Ihe.ficaile riella huma 



I 



hgU I, 
<'H$ Shnis. 






■&ft 



ill 




iM Wart as Anliguiiades 

VbUferf. P^.eterna memoria fua ; do que tie Author Volaterrand' 
•■'• Affiin ficou tambem aosBracarenies, emuho roaisik 
luftre, nas moedas de ouro daquelle Ray, fenao fori 
-gente avara j que as tern quail todas fepyltadas em 
lua cobiqa. Mas efta , que com melhor fortuna veyo 
& nofla mad, e efcapqu de tantas j por elpaco de ma is 
*le mil annos, paffa (egura , deixando-nos primeiro pa- 
•go o benefi:io da hofpedage com a relaqao\, e memo- 
aria de fi , que temos refer ida , a qua! ienad fica em 
letras de ouro , £omo fao as fuas , efpero , que o 
baixo metal deltas noflas , fera recompenlado com 
tempo de mais.eonftante, emaisnotoria duraqao.j por- 
ous aefcritura he coufa permanente , mas asrooedas, 
como fejao rodoridas * cortem muito , e ptefto defap- 
parecem. 

1 6 Difto temos exemplo na fnefma moeda jj de 
que ate agora fallamos, porque eftando nefta Villa o 
Senhor Arcebifpo de Braga Dom AfToafo Furtado de 
Mendoqa , indo eu beijarlhe a mao , no difcurfcj 
-da pratica , e nao fem propofito 4 lembrando-me , 
que a dita moeda tratava de Braga., da qual el- 
•le era Arcebifpo , e Senhor ^ e que efta convenieneia 
a fazta mais aceita., alem do preqo de lua antiguidade, 
e prerogative real de (eu author , lha oftereci. E Sua Se- 
tihoria a eftimou t£&to , quebem moftrou o parentef- 
co j que tinha com o Senhor Dom Diogo Purtado de 
Mendoqa, Embaixador do Imperador Carolo quinto em 
Veneza , no Concilio Tridentino, e em Roma , o qual 
foy tao affeiqoado aantiguidades, efpecialmente a ef- 
ta de moedas, que Ambrofio de Morales confeffa # que 
dtfuah'fi. na glle lhe deu muitas , de que fe aprovettou nas antigui- 
dsi'cttoriadas dates deHefpanha, que efcreveo , eaelle mefmo de- 
dicou. Mas o Senhor Arcebifpo fobio efta curiofutede 
mais de ponto ; porque moftrando aquella moeda a 
muitas pefloas de qualidade , dizia : Aquitenhp todo 
o meu thelouro : referindo juntamente o nome de quern 
lhe fez efte pequeno fervico. Mas feelle tern nella hum 
thefouro de gofto , eu nao devo calar , que tenho ou- 
tre dehomoia ucmea^ao, que prezo mais, que mui- 
tas 



M&ralf. 



■de tts[f>anha. 




tas riquezas. Ond«Tfe ve , que he na5 menos grata* 
que benigno, aftabil , e cortes , do que tudo deixou nei- 
ta terra para longo tempo laudofa memoria. 

1 7 Mas tornando as moedas , como ellas fejap 
menlageiras , que vem de longe , e na© tragao noti- 
cia de muitas, que nao fabemos , que ingenho nobre, 
ou alto eCpirito asna5 eftimara muito , pois tao natu- 
ral he ao homem o defejo de faber f Efle louvor entre 
os mais da paz , teve ogrande Rey de .Kapoks D^rn 
Affonfo, doqual efta peftoemmemork , que gasman- . £6 ^ 
davabufcaf portoda Italia, e por it •deleitar de as ver, ^ nkh . mll , 
as euardava era huma caixinha de marflm , confeifanoo I# ^ y 6t n • 
tichar nellas motivos de gloria , e de virtnde. Donde/4«* Jejm4 
fe infere na6 fer inutil o trabalho defte ocio , item pou- PtWK 
co nobre , pois he nao foments euttetenimentG de Pan- 
pipes, mas delicias? 

CAPITULO LXIX. 

Lguns dos noflos fasem a Oroiio natural 
de Braga \ mas eu nao (oh de nos gibria*- 
mos do alheyo * quando ne.m do noilo 
parece bem; poishecer*o, que s gloria fogede quern 
3 fegue , e fegue a quern Ihe foge. Se *>r<camos km- 
vores* nao he louvor, fenao falta delle, pedillo em- 
preftado: digo pedillo; que ufurpallo he opprob^k^ 
Toy Paulo Grofio hum Sacerdote Hefpanhol , dcuto 
em letras divinas, e humsnas , porque ccmpoz buns 
Commentaries lobre os Canticos deSalamao, muito 
louvados , de que faz menc.ao Sixto Senenfe na to^ t S(fJ ^ 
Biblioteca fanta, Eoutrosfcbre a Epiftola de Sso Patw.^." 
]o ad Romanos, os quaes allegaMirabellio. Fe^ mais uh*bt\l in 
;a fua hiftoria contra Paganos, que dedicou a Safto^g^ * 
Agoftinho, eliuma apologia da liber^dade do alvedrio ,j"J u j} :t r ^ 
Em fim few homem illuftre ♦ de que Santo^goiiliibo a , &J x {. 

q m** iJ 












Orefius hfi,. 
?• S. c. t. 

*9> 



290 Farias AntfauidaAes 

n-ero*. E P ,fl. Sao Jeronymo , e outros muito^Wm honrada mencao; 
c^»^... 3 ^^ a f 1 e s s P ar ticuIarmente Gennadio nos feus varoens 

% A\,erca de fua patria direy o que elle diz cla- 
ram-nte , e he , que foy Romano, Ad ChriJIUms, & 
Mimanos, diz elle , Ckrtfianus \ & frxnawis acado. E em 
outro Jugar querendo partrcularmente eicrever as mor- 
tes , e crueldades , que Cinna , e Mario tizeiao em Rx>- 
ma , excufoufe cohq dlzer , que fallava de iua patriae 
dosieus Cidadaos , e feus antepaflados , que tao abo- 
nunaveis coufas iize ao. Genadio com tudo riocathalo- 
go dpsvaroens illuftres diz. > que foy Hefp-nhol , e 
*>fi»ul, 7 , tudo P 6de fer. Qua! fofle a fua patria omeimo Orel- 
'"• 110 parece, queofignificou neftas patevras: Mstam- 

btm cm Hefpanha mofiramos a. nofta Tarragon a paia. con* 
Jolayad d* miferia frefca, 

3 Entrarao muitas na<joens barbaras pelas terra* 
dolmpsrioem tempo do Imperador Gallieno, e em di- 
verfas Provincias deftruirao muitas Cidades, Tern dellas 
Wmlbidm, permanecer, fenao humas poucas, epobres cafascom 
os nomes das Cidades antigas. E porque huma deflas 
toy Tarragona , corao diz o mefmo Paulo Orolio , por 
lilo difie della 2 Nos tambem em Hefpanha meftramos- 
& >>*f4 Tar-ragm* para conjolacao da miferia frefca. E. 
em dizsr , nqfa Tarragona , quizdizcr, que era iua pa- 
tria. r 

4 Nam he fo Orofio o que ufou defte modo de 

rallar nefle fenrido , porque muitos outros ufarao del- 

le. OPoetaMarcial foy natural de Bilbilis , lugar em 

Aragao perro de Calatayud , e para o fignificar diz aflim 

failaadocom Liciano feu natural: It, Liiiune^ghriabitHty, 

ftofh-ji nee me tace-bit Bilbilis, Valerio Maximo diz aflim: 

£*\ Nuo feivdignarao os hmesdencQa Cidnde. Crinitotemao 

J™. I. § <tc p oeta ClaucHano por natural de Alexandria doEeypto^ 

porque chama feu ao rio Kilo, Strabo para fignificar 

fua J patria, diz mffa Cidade. 

f Nem faitao Authores , que dizem fer Orofio 
Tarraconenfe , polto que nao tragao o fundamento ; 
que leria ; porqus q nao trataraS de prcpofito. Os 

quaej 



Mtrt.L 11. 



V*ler.l. J. 



Pottislatims 

e.7. 

Strabo Gtogr. 

i.\i.fol.6$ 



T>i Portugal Cap. LXX. 291 

quaes fao Filippe uremitano , Rafael Volaterrano, 
Joao Vafeo , Garibay , e Ambrofio de Morales. 

CAPITULO LXX. 

Uejponde-fe as razoens dosquefaztm a Paulo Or$* 
fio Bracarenfe. 



O 



Primeiro, que fez a Orofio natural de Bra- 
ga , que eu faiba , fuy o Padre Frey Ber- 
nardo de Braga da Ordem de3*6 Bento, 
«m huma carta , . que me eicreveo no anno 1 6c f ; e deu 
nifto por achar em Surio huma carta do Saceraote Avi- 
to refidente em Jeruialem , mandada ao Arcebifpo de 
Braga Balconio , e ao clero * e povo Bracarenie , com.par- 
te das reliquias de Santo EftevaS , que entao ie acharao, 
« foy portador de tudo Paulo Orofio , que naquelia con- 
juntcao fe achou em Jeruialem. 

x Diz agora aquelle Padre , quelevado do amor: 
^ia patia come^ou de inferir , que feO>-ofio fova Tarra- 
conenfe , como quer Volaterrano , como havia de def- 
cer de Tarragona a Braga, que fao mais de cem legoas 
cle caminho ? Alem difto , que Braga efteve antigamen- 
te na Provincia Tarraconenfe , e que Volaterrano nao 
alcanqando o proprio lugar , donde Orofio era , lhe pa- 
receo » quebaftava dallo a cabeqa defta Provincia , que 
era Tarragona. Ultimamente , que Santo Agoftinho 
diz por Paulo Orofio : A b Qceahi littqrt nos aditu H que - 
Braga difta do mar Oceano pouco mais de qoatro le- 
goas, eque hum forafteiro * como era Santo Agoftt- 
nho i tinha licenqa para fazer a Braga littoral. E con- 
clue a carta dizendo , que tinha communicado efle feu 
parecer ao Arcebifpo de Braga afreiqoadifiimo a eftatxier- 
cadoria, ealguns amigos , a que pareceobem. 

5 A eftas razoens fe refponde , que Orofio aceifrou Stnm - in 
as reliquias de Santo Eftevao para as trazer a Braga r fyr>„ sifcio'd 
por fazer a vontade a (eu amigo Avito , que Ito pedio, <*»»<» o i 

Oo ii e leiia 






m 




I 




Vtlatertan, 



29 2 Firi&u 'Amiguiiaits 

e fetia prkidpaimente por horn^de Saato Eftevao ! ef- 
tK r ?*? def ^ ando ellc <fefer 4 como diz Santo Agof- 
urmo Vnlevas in d,mo Domini, como em erleitofoy: 
VoJaterrano fez aOroiio Tarraconenfe a porque o en- 
tendfio affiin defiialiqacS, como eu, eoutrosVenten- 
aerao ;5 .e > nao Jiavia hum Author grave de affimar o 
qm j nao fabia Jxiijas-pa'avrat do livro dezoito da fa* 
AnthropologU iao ejOas : *>*«/«., Orofm bihrietu , />*,,/* 

^"'-J™^'. Oque- elleaqui quiz dizer, eiie mefmo 

o dechra quando faz a Santo Antonio natural deLifc. 

Doa dizendo .: Anmiu p^trU Viymoncnfis : uivi F*an~ 

cijct fiiius , &c t . 

* '4 Ao que traz de Santo Agoftfnho di>o , que a 
intenqao do Santo nao foy apontar B<aga porpatna d* 
urolio , porque fe o fora , em cafa tinha ao mefmo Ore- 
Mo para faber delle, que B?aga nao efta na pr; y.j do, 
mar Oceana. Muitos vao a Roma , a Jerulalem , e a< 
India,, e nao partem de (tias pa trias. Por Ventura rrii- 
dia entfidem algum iugar , que eftava junto do Ocea- 
no, como rnuitosj que morao em Ltsboa , eiaonel- 
la forafteiros, vao dalli a diverias partes do Mundo* 
kquando diflemos , que.partio de fua patria, outros 
lugates havia maritiraos y qual Braga na6 he, a quo 
com mais jultic,a toca va efta pertensao^ 

GAPITULO^XXR 



'-fe asutras razoens da tntjma materia do Pa^ 
dre foey Bernardo de Bmo , ede que nafaa. 
foy Santa Engracia. . 




Padre Frey Bernardo de Bfito na fegunda; 
parte de iua Monarchia , traz emPortu- 
guez a carta do Sacerdote Avito j e colle- 
ge della , que nao fdmente o Avito he natural de Braga J, 
anas taiahem q pieirjao Qrofio* e a wzao he, porqua 



*DeTormgualCai>.LXXL zgj> 

The chama g Avito nella filho muito amado , e com- 
panheiro no Sacerdocio , que parece era Orpfio rrais 
moqo , mas Sacerdote corao elle. E fallando com os ^ 
Bracarenfes , de que fe moftra muito faudofo, d'rzy 
que a caridade ,. econiolacao, que teve com Orofio, 
eOrofio com elle, lhe fez parecer , que os tinha a to- 
dos pretentess ChJhs mihi cbaritas % & confelatiavefifum 
omnium pr&jentiam reddidit, Sao palavras de Avito* fe- 

gundoasrefeteSurio.- , - *»'''*'/ 

* Ecerto,quem confiderar, que'Hefpanhaeftava^''S ( ^ 

©pprimidi de Barbaras , e heteticas nacoens , e que el- 
ks ambos era6 Hefpanhoes , ambossCatholicos , am- 
bos Sacerdotes , e ambos peregrines em terra ta6 re- 
inota* nsa feefpantara defe confolar Avito comOro4 
fio novamente chegado de Hefpanfoa* e de hum HeC* 
panhol renovar a outro Hefpanhol a memoria, epre- 
fenca de ieus naturaes.: Quanto mais> que podia Oro- 
fio emalgum tempo refidk em Braga por alguma caufa 
a nos incognita.. Demodo, que na carta de Avito nao; 
ha coufa , que convenqa fer Orofio Bracarenfe. 

2: Traz mais o mefmo Frey Bernardo >; para Oro- Fr Bmm 
fio fer Bracarenfe . humas palavras $e huma confulta,^//*^ 
que o mefmo Orofio fez a Santo Agoftinho , quando 
foy a Africa , em que faz men^ao de dous Avitos, e 
Ihes chama feusCidadaos j e quer o Padre , que hum 
defies feja o primdro > que eitava em Jerufalem 4 efe 
tern moltrado fer de Braga* As palavras de Orofio fao 
as fegulntes : „ Tunc duo cives mei Avitus , & alius 
„ Avitus, cum jam tam turpem confufionem , & perfe? 
„ipfam Veritas fola nudarst ; peregrina petterunt^ 
^ nam unusjerofolymam , alius Romam profeaus eft, [# 
Quer dizer* Entao dous. Cidadaosmeus Avito, eoutro* 
Avito indo ja averdade id per fi mefirm defcobrindo* 
ia6 torpe confufa© , forao para partes remotas, por«« 
que hum fe partio para Jerufalem ,. e outro para! 
Roma, 

4 Quern ler a carta do pnmeiro Aviro, porelI&' 
jalgara fer Bracarenle : e fe conffara deflesoutros dous 9 » 
ieiem tambem Bxacaxenfcs j na& havia- que duyidar d*; 



I': i ^ < 




GAn 



.c.47. 



29* Farias Amigmdadet 

™& !ww cha T feus Udadaos - Cora todo* 
r;H,H- . eC ^ rofio confta > ^ ue eftes dous Avitosfeus 
mnha au!nH O0 T S / P or ^V^^6 vindos paraHef! 
fi* ' S Udn ?° eIle fez aconfulta aSanto Agoftinho 
lfto moftra die mefmoneftas palavras, queifSm 
imaiediatameate da mefma cokulta: rZJ u>T% 

Avitos tornarad daquellas Cidades , e hum trouxe as 
obrasdeOrigmes eoutroasdeViaorino. Bdefpedin 
do-ie Orofio de Santo Agoftinho , chegando a ferula-' 
lem achot, laoSacerdote Avito, ela^tornoVadel 
* mt„«° q rt r ^ h Tf m ,nfi ^ na • de ^ ue Geanadio faz 
mSfff SU " tha i°«° v e na ° Podia fer nenhum da- 
quelles, a que elle charm feus Cidadaos, porque < co. 
mo dille , ,a eraovindos: e ooutro, quelaficava, de 
iuamefmagpiftola confta fer natural deBraga , da qua? 
Orofio nao era, pois tambem confta de foas palavras 
acima refendas fer natural de Tarragona. 

f Ao mats , que diz o Padre Frey Bernardo em 
confirmed defer Orofio Bracarenfe , que vera ata 
bar, que B ilconio Arcebifpo de Braga o mandou a Afri- 
ca confix tar a Santo Agoftinho , depois que em Hef, 
panha celebrou o Concilio deCelenaspormandado do 
Papa Liaopnrnsiro * ifto nao pode fer, porque pri. 
meiramenteelle foymandado a Santo Agoftinho pi 
los Bilpos Eutropio s e Paulo , comonotou oCardeal 
Bironioi enao por Balconio. Alem difto efta fua ida 
foy antes do Concilio de Celenas mais de vinte annos; 
porque el e fallou em Africa com Santo Agoftinho , 
■*,;-. eem Bethlem com Sao Jeronymo , como diz omefmo 
or#/J. 7.^ J. Orofio , e tornou dejerufalem com asreliquias de San- 
to Eftevao no anno doSenho^iS, fegundo Syceberto.' 
ou fegundo Baronio no de 4 1 5- , e o Concilio de Ge^enasI 
celebradoem tempo do Papa L-ao primeiro, foy mui- 
to depois , porque efte Papa foy .eleito , fegundo Onu-' 
phrio Veronenfe no anno do Senhor 440 , e (egundo 
Sa5 Profpero node 445 , e Sao Jeronymo ja era morto 
havia vinte e hum annos , e Smto Agoftinho havia 
dez , iegimdo Sao Profpero , porque Sao Jeronymo 

morreo 



iptpit. B; 



Bar. 

BjfciaU anno 
Cbrsfliqig. 



Onuphf. in 
Chr. Pent. 

"Rom. 
Proffer, /„ 

€brcn. 



T>e 'Portugal. Cap, LXXL 29 5 

morreo no anno 412, e Santo AgcfHnho node 433 » 

pela contadeite Santo. Pelo que iito nao tern funda- 

mento ; e ^flim me paiece bem , que demos o leu a 

cujo he , e ncs contenteiros com o noffo , para que 

ncsn Q 6 aconteqa adefgrac,a, que aconteceo a gralha 

de Efopo , da qual diz Horacio : Movent cornicttlartfum, H ° Tat - afud! . 

Farttvis arttt* color ibus. # Aaag,o, Gram 

6 Seja Oroiio Romano , como elle diz, queoa«c««i JEfo$i\ 
rece defcendia dos Ron aros , que emHefpanha ffca«««*» 

rto do tempo $ que elks erao (enhores della. E leja 
tambem Belpanhol * como eiereve Gennadio , e elJe 
mefmo o iigmficou naquellas palavras , que ja alleguey, 
em que chama a Tarragona, nega : que a Braga nso 
Ihe faltao louvores , e grandezas proprias , que Ihe aeha- 
ra quem particularmentetomar a cargo efcrevelfes. 

7 Diz Dom Ptudencio de Sandoval no feu livro 

da antiguidade deTuy , que a Virgem Santa Engracia, D ' ?wk»* 
que padeceo martyrio em Qaragoca de Aragao em tern- TuTuf'il** 
po de Diocleciano , eMaximiano, foy tambem natu- 
ral de Braga, Mas Gafpsr Barreiros vio a fua hiftoria Baneircsn* 
antiquiflima , achando-fe naquella Cidade no Mcfteiro Ghr.tkjt 
daadvocaqso da mefma Santa , ediz, que feu pay foy c ' w sw 
hum fenhor naLufitania. E o Breviario de Evcra diz, 
que foy fllha de hum Principe da Lufitania : ^^/^^i/!?*-* 
i)yn*(i*. .c+jufddMi aut principis , qtti tunc rerttw in Lu/ita-ii!, * ^ n * 
mapithbatur. E o mefmo diz Andre de Refende nas An- £«/»</.;■ An- 
tiguidades 4 da Lufitania; E (egundo iflo nao pode ella *'1- lu f lU l > I* 
izx Bracafenfe » porque Hefpanha ainda entao eirava-^' 14 ** 
fob a forma , eordenanca de Provincia dolmperio Ro- 
mano, como diz o mefmo Gafpar Barreiros no Jugar 
citado, eas Provincias particulares delJa retiniiao feus; 
limites * etoda efla Ccmarca. de entre Douro v e Mi» 
nho ficava fora da Lufitania , e era parte de Galliza; 
Mais fedVvifou Dom Msuro CafteMa , queaeIJa* e**?? C *^ 
ieuscompanheiros faz naturaes deQarago$a, ma&femiwxli^- 
fundamento* ' * ^ 




294 Farias Antiguidadet 



CAPITULO LXXIL 

Bep2(foas dentre Douro , e Minh$ , que vivtra* mu*i 

tos annos ^ e que efta terra he muito creadora de 

gente. Do feu nome antigo , e moderno , e 

que fahdrao efcrltorp para os feitos 

das Portugueses* 



t- A- 



D 



\% Solino , que o homem podegerarate 
oitenta annos ; e traz para provaaMafi- 
nitta Rey dos(Numidas 4 que iendo de oi- 
tenta efeis annos gerou hum filho ; eCato Cenfor de 
^ttj.7.c,34. oit enta , outro. Mais fe extendera Solino , e Plinio,de 
quem elle o tomou , fe efcreveta5 nefta regiao. Por- 
que Joao Affonfo morador no calal do Bairro Fregue- 
zia de Nefpereira termo de Guimaraens , quando caiou 
.afegunda vez $ era de mais denoventa annos, eteve 
hum filho da fegunda mulher, que fendo dehura an- 
no j tinha jutttamente outro daprimeira, que era de 
letenta. E Gifoar Teixeira morador em Bafto na Fre- 
guezia de Sao Rimao do Corrogo , fendo de noventa 
e feis annos cafou a fegunda vez , e houve hum filho.' 
E ambos eftes homens erao vivos, quando eu elcrevia 
efta obra. 
Mi». he* cf *> ■ £>i? o mefmo Solino , que fe rem achado fendo 
ftfc concebido hum filho, dalli apouco tempo conceberfe 

outro, e lograrem-fe ambos , como ievio em Hercu- 
les, e Ighiclo leu irmao , os quaes andando juntos em 
hum ventre forao viftos nafcer com aquelle intervallo 
de tempo , com que forao concebidos. E em Proconi- 
fia efcrava , que de dous adulterios pario dous filhos 
cada hum fimilhante a feu pay. 

$ Eftas maravilhas , que Solino efcreve naquelfa 
fua obra , que intitulou decoufas maravilhofas , nefta 
Com area ie achao , e pot Ventura fem maravilha. Ca- 
tharine 



T>tT6rt*gafXap.LXXI] 9 297 

thariria Gonqalves mulher cafada , que ainda vivetom 
feu marido na Freguezia da Magdalena peito da Ani- 
fanadeSouia Biipado do Porto, pario huma filha , e 
dalli a quinze dias-pario oulra , e ambas fao vivas, K 
Catharina Dinizmulher de Jo; 6 Martins morador no 
lugar deSoutello Freguezia de Comedo terroo da Villa 
deBafto, pario humrilho, e dalli a tres iemanas. pa- 
rio outro, eambos faovivcs. 

4 E aflim como efta Comarca he fertil nefte par- 
ticular * aflim o he tambem na cor.lervaqao da vida \ 
porque no anno 1578 era viva huma rnulhcr chamada 
Maria Lopes na ponte dabarca doconcelho de Nobre- 
ga, etinha entre fiihos^ netos , etreinetosj cento e 
vinte , a qual era de cento edtz annos, e dos filhos, 
e netos via cada dia oitenta. E Filippa Martins natu- 
ral da Freguezia de Sao Vicente de Sou fa , corn a qual 
eu falky nefta Villa, era de cento equatro ar.nos, q 
feis mezes j ealgumas vezes medifle , que fua rray vi- 
veo cento e cinco annos, eiuaavo cento e quinze, e 
ieu avo cento e trinta e cinco. 

5 O que nao deve parecer incredivel ; porque 
Plinioconta, edepois delle Sabellico , que no tempo prmj.jU:^ 
do fmperadot Velpafiano fe achou em Placenta Cida- sabdinn. 7; 
de de Italia hum homem de cento e tiinta e hum anno?» '• 4-JW-M7- 
e em Ariminio trcs de cento e tiinta e fete. E ha mui- 

to poucos annos \ que nas partes da India recebendo 
algum Gentio o fagrado Bautifmo > entre elles hou- 
ve hum de cento e trinta e oito annos , cafado corn 
huma mulher de cento evinte, ehavia cento e feis, 
que erao cafadcs, do que teve particular relaqao Dcm 
FreyAleixo de MenezesdigniflimoArcebifpo de Gra, p r . Anient* 
fegundo eicreveo o Padre Fr. Antonio de Gouvea da Or- d* famda d 
dem de Santo Agoftinho , que hora he Bifpo deCy- &»" /'^ 4 
rencv ; •' . 5**. 

6 Efta terra dentre Douro , eMinho, deque tra- 
tamos \ onde Guimarsens efta , chsmcufe antigamente 
Gallecia, como confta de Plinio neftas palavras iuas> rft«.i«#&i$ 
;,Durius amnis ex maxirois Hifpanias, ortus in Pelen- 
,jdonibus # Scjuxta Numantiam : lapfus dein per Are- 

Pp I, vacosj 



Z9Z * P 'arias Antiguidades 

,;vacosj Vacceofque; difterminau's ab Afturia Vetto: 
, % mbus , a LuGtania Qallecis, ibi quoque Turdulos 
,.*Bracaris arcens. Qjer dizer. Oiio Douro hum dcs 
mayores de Hefpanha , nafce uospdyos. Pelendor.es , e 
junto da Gidade Numancia : depois paffa pelos Are- 
vacos, e Vacceos, etendodiv.ididps os Vsttonesde AG- 
tum , e os Gallegcs da Lujitania ; ahi tambem divide 
OS Turdu os dcs Bracarrs.jComo fediflera: nas duasP»o. 
viacias Lufitania, e Galliza , que elle divide , eftao 
duas genres, *: sjurdulos , e os Bracaros , que elle tam- 
bem divide. Os Bracaros, eftavao do Douro contra o 
Nprte, etomarao o nome de Bracara Cidade principal 
daComajrca, a.qtial mda hbje tern fua preeminencia; 
Kp^is iabemos onde eftao os Bracaros, que o Douro 
dtyidia, 60s Turdulos , claro efts' , que os Turdulos fi- 
cavso defronte alem. do Douro contra o Sul : iito he, 
os Turdulos na Lufitania , e os Bracaros na Gailiza. B 
*tfU.uc*y. Ptolomeo muito claramente chama aos moradores den- 
tre Dohjo, e Miaho> Gal legos Bracarenfer. 

7 Teucro irmao de Ajax depois de Troya abra- 
zada veyo tera Gailiza, e como affirma Juftino , deu 
nome aeftagente. Depois houve efla parte de Gaili- 
za onome de Portugal , que hora tern, cuja origem 
aiada ajguns forafteiros, e por venturaalguns dos nof- 
los, nao fabem ; pslo que me pareceo bem dar della al* 
guma nottcta, em favor denoflas coufas, as quaes nao 
iendo inferiors a nenhumas de outra na<jao na grande- 
za^ eexcellenciadosfeitos^foniftooJbrao, queJhes 
nao coube em forte dcritor tal * qual ellas merecia5. 
•«*}«« chr. Porque nem as efcreveo Dom Jufto mandado vit delta- 
fmyDem. Ha para ifTo por EIRey Dom Affbnfoquinto. Nem An- 
f£ p ' 4 ' gelo PojicianoorTerecendo-feaElReyDomJoaofegun- 
?•///. Epifi, L do * Nem Paulo Jovio , que tambem fe oftereceo a El- 
le . Rey Dom Joao terceiro. Nem Diogo de Teve pro- 

cforius ^>r*.mettendo de o fazer. Nem Achylies Eftacp ; como de- 
togefihBmftyn EiR ey Dora Sebaftiao. 

iSlutitUtt. % Eaffim ficou pela mayor parte enterrado o 
SmajDium Q»e osnoftbsfizeraSnaEuropa, Africa, Afia, emun- 
sfiffoigifedotWQ i podendo-fe ordenar de tudo hum painelde 
mm.* ■ yaiia, 



^jipkfl^i. 









TteTortngaL Cap. LXX1L 299 

Varia, e deleitoia oiltoria , cm que o Mundo folgara 

deporosolhos para gloria deDeos, e honra dos nof- 

fos. E he de crer, que a muitos outros nso faitar&o 

bons defejos de tomar efte honrofo trabalho , digno de 

hum Livio , hum Ceiar , e hum Salluitio ,. fe ie nao 

atraveflarao grandes , e fonjoias difficuldades , que a 

inveitigac,ao das couias antigas em fi tern , em que a 

diiigencia he de mayor importamcia, q^e^a eloquencia. 

Salvo feduTermos,, que dsu Deos a6s nojlos a lanqa 

para pelejar , e nao apena para etoever , porque elle Hmertls ilUai 

na5 da tudo a todos , como difle ©"Poeta Homero : ~ * j. f e u 4414 

Sed mihi crede , tmlnon dat Dem omnia \ vtrhm 
Dotibus hosiliis , alios hisdottbus atiget^ 

9 Pofto que os Romanos de ambas eflas grac,as, 
€ de outras ao propofito f e podiao glorlar j ie noftas cou- 
ias Ihes cahirao na pena» eeitylo, como aslevantarao 
ate o Ceo, ajudando-f e da copia , eflores de fua lingua? 
Que foberbos triunfos ordenarao aos vencedores ? Que 
iobrenomestao honrofos Ihes dera6 das naqoens, egen- 
tes conquiftadas? Que arcos , que trofeos, que efta- 
tuas lheslevantara6 FQaantos Hiitoricos* e Poetr.s em- 
pregarao feus ingenhos na efcritura de tao gloriofos fei- 
tos? Que armas , eque varoens achate aqui Virgilio 
para cantar ta6 dignos da dignidade , e elegancia de 
feus verfos ? Cujas faqanhas foraS taes , que tivera por 
deineceflario fingir fabulas 9 ebufcar encarecimentos 
para efpanto deltas. 

10 Mas ja que a naqao Pottugueza carece deires 
artificios para engrandecer , e manifeftar so Mimdo iuas 
proezas , nao duvido, que os mefmos mares, e terras 
de Afia , Africa , e Europa , com grande parte do Mun- 
cto novo ate o Eftreito de MagaJhaens , e ainda alem, 
ferao em todo o tempo teftimunhas , e pregoeiros del- 
las. Como dizia o grande Alexandre , que os montes 
Caucafo, e Emodos, orioTanais, eroarCafpiomof- 
trariao o -valor dc fua pefloa ; e feriad as imagens de feus 

Pp ii isites* 







300 FarUs Antiguidades 

f!Tnf\% ESnos > i& mnio efcrwoFJoiofo Butarcho; Da ori- 
vfrtut e aux. g*<J*" dai'noaja de Portugal fallaremos no capituloie- 

erat.pofttriori . g ' 1 U t w. 

CAPITULO LXXIII. 

. Baprincipid, eprognffo da Cidade do Porto , dmde 
Portugal tomou o nome , e quando , e por 
qutm the foy dada a dignidadi 
Bfifcivah 



Ttttl'mliiete 
return Deerfi, 




Urn dito fimples , defacompanhado de fun- 
dameuto 9 e de razao , val tao poueo, que 
Marco Tullio onao aceitava , ainda que 
folTe dePy thagoras , cu jos difcipulos para prova do q ue 
pertendiao , nao trazuo outra , fenao , Pythagoras o 
dile. E quarrdo iftb era materia frlpfofica, onde o dil- 
curfo huonno tem tao largos camp3S para pretumir ra- 
zjeasj qua fe pole pedi-r para provarantiguidades $ fe 
nao Aut noras antigos, os quaes quaato mais perto el« 
Uverao do uafcimento das coufas , tanto melhor por 
Ventura virao a verdade dellas , como affirma a melmo 
TuUtusTrufeuhTuWial Mis porque muitas vezes ha falta delles, ef- 
Q.I. \.»o* tj poitemiupprr os raodernos ,^ com unto, que fejo 
m %iZm g^ves, de bom jutzo , de boa eleiqao , naturaes , enao 
forafteiros f porque aqaelles podem raelhor faber o 
que emcafa tem , e eftes q,uando (aibao da fua, nao 
Jtftplio /. l farao pouco. Efcreve Jofepho Flavio - , que Ephoro 
uniraapp. hittorico Grego , cuidou > que osHefpanhoes eraohu- 
£SL ma *° Cidade , e a caufa defta ignorancia , iegundo 
elle mef mo , foy por eflar longe. Efta melma teve Stra- 
bo para afleatar Lisboa na cofta de Andaluzia. Mas 
Pomponio Mella natural da mefma Andaluzia a poem 
em Lufitania, como atraz moftramos. Deftenoflo pa- 
V*< m pranh recer ne ^i m <> ng fua hifloria natural , onde affirma, 
h}' ^3 U ' oefcritor fabsmelhor os fitios, em que efcreve. 

Alem ditto tem aqui tambem lugar, como um.emtp- 

do> 



*De ^Portugal Cap. LXX 11 L 50 1 

do ogenero deiciencia, razoe&s, econje&uras. Con- 
jecturas digo , nao taofrefcas, que naotenhao pes de 
boa apparencia , iobre que andem , porque de outra 
maneira nao andao , nem procedern. O que tudo im- 
porta tanto por firmeza , e ciedito da eicritura , que 
ie'm iflo pudefle turner 6 juizo de Lelio Decimo, quail- 
to mais o de Perfio doutiflimo , debaixo de cuja cen- 
fura direy da origem do- Porto , o que tudo acho , e 
nieparece. . 

z. ACidade do Porto traz feu pnnapio dolugar 
de Cale , de cujo fundador mo Jrato .('polio que 
alguns. fe quizerao occupar niflo ) por me parecer 
tempo perdido *emqi*e fe tevanta po de excufada quef- 
tao, comquecegao aoleitor, e afi prkneiro. Nao ie 
eicreverao os funisdores de nobiliffimas Cidades, como- 
de Toledo r de Evor-a> ede outran e queremos achat 
o deCale, lugar de *a© pouca conta , que nemStra- 
bo, nem Pomponio, nem Plinio, nem Ptolomeo , nem 
hiftorko algum daquelle tempo j iizerao caio del le pa- 
ra o nomear , e por ventura nao foy (e nao depois em 
tempo de Antonio Pio, que por neceffidade onqmeou 
no ieu Itinerario. Pelo que mandemos os Galloa f e Gra» 
yos para luas cafas-, porque nao tern aqui couia nem 
o bom entendimento o conferee , que a poffao ehamac 
, iua. Tao borw lugares, comtf Caj| , fe fizerao ja em- 
Portugal depuras Albergarias t fern fer neceffario cha- 
mar nacoens eftrangeiras, qireThe vieflem lan^ar a pri- 
meira pedra : e Cale jcomo eftivefle m eftrada dos ca- 
minhantes > e for-a della nao achemos ieu nome para 
outro propofito , parece , que fopara elles devia ier- 
vir , ou pouco mais. 

3 O primeiro ; que fez mencao deftelugPFpoft© 
naboca do rio- Douro em terra deLuiitania , a que ho» 
je chamao corruptamente Gaya , foy , como difTe & 
Imperador Antonio no feu Jtinerario em hum cami4 
nho , que efcreve de Lisboa a Braga , cu jcs ultimos feis 
Jugares porey aqui , guardando o mais delle com 
jua explic-iQso para diante » que fao elles : €o*embrea r 
MmintMm, TalabricA , Lmtebrka* Cakm, Brtoarq t Efte 




JT 






$01 Farias Jntiguidades 

he ofim daquelie caminhoj onde fe ve nad eftar ain; 
da alii a Cidjdg Portucale , como hora efta , porque 
eitando a mefraa ordem do caminho , fora parar nelL ' 
nomeando-a por feu nome ^ como neite tempo fazern 
os paflageiros. Nem he credivel, que naquelle tempo 
de Antonio ie differs: DeLishoa aCaie lad tantas mi- 
lhas, enao deUsboa ao Porto, ou Portucale, fealli 
eftivera t como hora dizem. £ que diileflem : DeCale 
4 'Brag? 4 (ad taatas milhas, e nad do PortoaBraga, ie 
alii eftivera , como hora dizem , iem para itt Q fazer 
cafo deGaya* « 

4 Tambem feve* oengano de alguns, que onde 
elta Cale, ouGaya, dizem, qu? efteve naqueUe tem- 
po aatigooutra Cidade charaada Portucale, eque dal- 
Xi femujou para onde hora efti o Porto. Aqualfk$ao 
fedesfaz pelas mefmas razoeas, apontadas , e funda- 
das na ordem daquehe antigo caminho , e dos caminhan- 
tes daquelle tempo, porque nad havia Aatoniode fazet 
menqa6dehum lugarinho, e derxar a Cidade Portuca- 
le, Atem ditto , aflim como de Gale ficou o nome de 



aflim de Portucale ficara o do Porto- Gaya com 
inais razad porfer Cidade,, e nad toy aflim. Finalmen^ 
te no fitio de Gaya nunca efteve Cidade Portucde j o 
OS* ^ erno ^ ra tambem pelo nome dapovoaqao , que 
elta defronte da outra parte do Qouro , que por tet 
; dlante dos olhos o lugar de Gale, -ouGaya , fe chamou, 
e chama Miragaya : e de outra roaneira fe houvera de 
chamar Miraportogaja. Tira.fe daqui , que no tem- 
po de Antonio havia alii Cale , mas nad Portucale; 
que depois foy , como ie vera. Morreo efle Imperadorj 
4 ' (egundo Mariana , no anno do Senhor i6i , ou iegundo 
Baronio, i6j. 

5 Jeronymo Rufcellinaprefa$a6 das nota^oensj 
que fez fobre Ptolomeo , efcreve , que efte Author foy 
contemporaneo domefmo Imperador Antonio Piocer- 
p$oi.u%,c 4. 6a dosarInos do Senhor 140. O qual Ptolomeo no li- 
'vro fegundo de (ua Geographia j onde fitiia abocadj 
rio D^uro , e diz ,"que a tal boca efta em cinco graos de 
loflguta , c viate minuto*) e de larguraem quarentae 

hum 



1 

e.6. 

Baron, anno 
3.6%.fuoruin 

AnnaXium. 



*%)e TortugaL Cap. LXX11L 3 03 

hum i e cincoeuta ip.inutos , e nao faz merqao alguma 
da C.dade Portucale ,,que alii eftivefle, que he prova 
de Rao fer fundada em feu tempo ; que eftando , fem 
duvida a fizera. De outra maneira o fez, querendo fir 
tuar a boca. do rio Tejo , porque achando alii Dsboa , 
a que elle chama Qliofippo > , tratou logo delia , e com 
xfcZ3o». porifue mais digna he huma Gidade, que a bo- 
ca do rio, que juittodeilacorre, eaflim diz, que Olio- 
fippo.tfitn. de longura cinco graos. ,, e dez minutos : e 
de largura ,. quarenta ^e cincoenta minutos. E depois 
at-, tra com o Tejo , dizendo , que as bocas defte no tent' 
de longura- cinco graos ; eo mais, que ie pode ver nef« 
te Author. Donde inferimos, que aCidadu Portucale/ 
ouPortugale, ainda nao era em tempo dePtolomeof, 
e que. o lugar de Cale era de tao fraco momento , que 
nenhum cafo fez delle , pofto que Antonio o fizeiTe 
para jorn?.da , egazalhado de pafTageiros;;, 

6 Oqtie nao era em tempo de Ptolomeo, menos 
era em tempo de Plinio , que o precedeo por alguns 
annos » e fay em tempo de Vefpafiano , . e morreo no 
anno doSenhor in, pelaconta deEufebio Cefarien- £ /# fagp 
le. Mas para mayor pwwa do nolTo propofrto j digo , ann0 d 1Iz *_ 
qiie Plinio efcreveo hum pedaco daquelle melmo ca- BimA.^ e.xt" 
minho , que 'efcteveo Antonio , comeqando nao de 
Condeixa para opouro , fenao pelo contrario, do Dou- 
ro para Condexa. E porque o Doutor Refende nas An- n e fer,i. in 
tiguidades de Lufitania traz efte melmo lugar de Pli- A»ttq. £*/.$ 
nio a outro propofito , mas mais emendado, do que M 7; 
efta nomeuliwo de Plinio, delle oreferirey , e he o 
feguinte: ,, A Dmio Lufrtania incipit. Turduli vete- 
fl res. Peluri. Flumen Vacca, oppidum Talabriga, op- 
,,pidum 8c fiumen jEminiuro, Oppida Conimbriga { 
„ Colippo, 6cc. Quer dizer Lufitania comeqa do Dou» 
ro :-» e logo efrao os povos Turdulos antigos, e Pefu- 
ros, cujos lugares feo os feguintes. Orio Vouga , eo> 
lugar deVbuga, o lugar de Talabriga, e rio EminiOo, 
Os lugares Conimbriga , e outros , que vay dizendo a , 
Na qual defcripcao de Plinio vemes na6 eflar alii em 
feu. tempo $ Cidade Portugale, aim ainda pJugat .'fc- 







304 r Farias Jntlguidadet 

Cale , que ou nao era ainda , t*u era tao pequeno, que 
delle nao faz cafo. Mas o que primeiro achou digno de 
nomeaqao, foy q rio Vouga, o lugar de Vouga, o lu- 
gar deTalabriga, que foy" junto da Villa de Aveiro, 
olugar , e rio Eminio , que he Agada ; o lugar deCon- 
deixa , &c. O que parece baftar para U crer , que a Ci- 
dade Portucale nao era naquelle t^mpo , nem o foy, 
ienao ni3is ad'i3nte , como adiante moftraremos. -.--. ->« 
j Depots correndo o tempo •> e annos , fe occa« 
fionou a fundaqao de Portucale , como diz o antigo 
Fer»a9 upet Chronifta FernaS Lopes por eftas palavras: ,j Amiga- 
m chr. d'Ei- \ % mente fobre o Uouro foy povoado o Caftello de Ga« 
%ey Q.Affoa- ^ y a e p Qr a p rtarem alii mercadores em navios, eaf- 
*° n $' c,t " jjGm pefcadores por o rio dentro , e anchorarem , e 
„ cxtenderem fuas redes daoutra parte d \riopara iflo 
„ mais conveniente , le povoou outro lugar , que le 
.„ chamou Porto, que hora heaCidade muy principal, 
, donde ajuntados eftes dous nomes , foy chamado 
,. Portugal. Ate aqui Fernao Lopes. Efta heaorigern 
dafundaqao daquella Cidade j e de ieu nome , e jun- 
„.. tamente do de Portugal. Devia o Chronifta achar ifto 
em memorias de gtande antiguidade, porque nao veji 
aqui luz deletras, nem confrontac^o docaminho de 
Antonio , que he muito propria delta lugar * nem as 
opinioens de Gallos , e Grayos » acarretadas fern pro* 
pofito j e de taolonge , como le tiveflemosfaftio anof- 
■ls . las proprias coufas , ou o que nos nafce em cafa perdel- 

i .* fe osquilates do vialor fo porfer noflb. Finalmente o 

Author doacirna dito he o Chronifta antigo , oupor 
melhor dizer , aquelles mefmos lugares Porto , e Ga- 
le , que claramente efta6 clamando , que delles tomou 
.o nome a Cidade chamada Portucale, o queconrlrraao 
<osfeus Bilpos antigos , que fe afiinarao Portucalenfes, 
como le ve nos Concilios Toledanos _, e Bracaren- 

fes. 

8 O Doutor Refende i que eicreveo em tempo 

'' 1 jr'i i ft'fi de noflos pays > efcrevendo a Bartholomeu de Kebedo 

**w#mm. Cone ^ de Toledo , diz affim : „Sunt qui Portugalliam/ 

j.quafi Gtillx portum confinganti Sed isnonincerto 

'» etroii 



»> 



T>e TmugaL Cap. LXXI1I. 3 6 $ 

-errore feruntur , aut in adulationem Gallorum ety- 
v 'mon extorquent. Nos vetuftum nomen Portugalle , 
" vel fi blandius loqui placet , Portugalliam pra;poni- 
'*' mus. Oppidum vetuftiffimum eft ad oltium Dutii 
"fluminis , Cale ab Antonino vocatum. Quod quia fi. 
" turn in monte eft* difficilemque habebat uiui hominum 
•' fer vitutem , loco piano in ripa fluminis caeptum ha- 
'^bitari, facto a pikatoribus initio. Crevitque paula- 
'Itim multitudine habitatorum locus, vocatumque eft 
*,Cals Portus , vel uno nomine Portucaie, & exfre- 
3 quentiaincivitatis dignitatem devenit. Ate aquiRs- 

fgnde. \ 

9 O fentido he : alguns interpretao eite nome 
Portugallia quafi porto d.e Gallia , a que charramos 
Franca. Maseites , ou certamente errao , outorctm a 
etymologia em adulaqaodos Gallos , iito hedo& Fran* 
eezes. Nos antepomos a ifto oantigo ncme Portuga- 
lei ou fequizerdes fallar mais brandamente \ Pcrtuga* 
lia. Na boca do rio Douroefta hum Jugar antiquiffimo f 
chamado de Antonino Cale. O qual por ellar poito em 
bum monte . e ter a ierventia difficultofa , comeqarao 
pefcadores de habitar em lugai piano junto aorio. A 
qual habita^ao crefceo pouco , e pouco em multidao 
de moradores V e chamoule porto de Cale , ou por hum 
id nome Portucale; e por fer muito frequentada , veyo 
a ler Cidade. 

10 Jerbnymo Orofto Bifpo do Algarve na hifto- 
*ia d'ElRey Dom Manoel na Epiftola dedicatoria ao 
Cardeal Infante Dom Henrique , diz o feguinte: „ Por* 
,,tugalliae nomen, ut Andreas Reiendius vir dc&ifii- 
j,-musaperte demonilrat, a Portucale (lie enim appel- 
„labatur olim oppidum ignobile , quod Durio flumini 
, v imminebat- ) dutftum fuit. Cale nanque erat in colle 
j, fitum. Portus autem pifcation-is gratia frequentari 
^ caepit. Eamvero commoditatem hominum multitudo 
rt iequuta undique •, confluxit , ufquedum civitas 
„ opulentillima neret, qux Portugallia deinde nominari 
,, caepit. Ifto hede Jeronymo Oforio. OBifpode Por- 
talagre. Dom Frey Amador Arraiz , legue tfta mefma 

Q.q deno- 



JOS Farias Jntiguidadef 

denominate do Porto > no Duiogo quarto da gloria, e 

triUTito do$ Lufitanoscapilulo viute. A melma tem Joao 

Mttlanai. i. &* Mariana , ediz, que iito he ocerto, eo que len- 

/. 4 , tern outtas peiToas mais doutas. E repete a mefrra opi- 

niaanoltvro iextocapituioquinze. Da meirna he Duar- 

T>ua,te Nu»e, te Nu, ^sdeL-ao em outtas partes de iuas obras , e 

j> f </tfcri Pfe $ ^^s-^oquedizemeftesAuthoresiecolIigemtrescou- 

dePonugai &*& Aprimeira, queCale, ouoCaitelio deGaya foy 

'**•* pnmeiro, que o Porto. A fegunda , que Cale eftava 

no monte , e o Porto fundoufe embaixo junto ao rio da 

outra parte. A terceira , qui deftes dous nomes , Porto* 

eCale» fefurrnou o nome da Cidade Portucale, ede- 

pois Portugatia, e agora Porto. 

1 1 Refta dizer, em que tempo foy a funda<j2Q 
oaquella Cidade t mas tfto , que a falta dos ekrito- 
ies efcondeo no feyo da antiguidade , nao poflo eu. 
dizer; direy com tudoo tempo , em que primeiramen* 
te aacho fundada, e feita Epifcopal. N6s temosdito,. 
que o Inperador Antonino Pio morreo noanno do Se- 
nhor r6>. Eatr?z fica pofte adivifao dos Bilpados de 
. . H;!panha, feita peio grande Conftantino no anno do 
S-nhor 338, a qua! t^mamos de Refende , e eile do 
Monro Rafrs, e do meimoRafes a tomoutambem Ma. 
fiawa. , a qual divifao entre cs fuffraganeos de Braga af« 
lenta Portucale. E entre oanno da morte de Antonino, 
eo defta divifao , fe meterso cento e fetenta ecinco an- 
nos , no qual meyo tempo teve a Cidade Portucale prin- 
cipio , augnento , e dignidade Epifcopal.. fcita he a 
primeira vez, que delia , e defta fua dignidade acha 
feita men^ao, da qual fallaremos adiante. 
Mwi**« 1. 6. ia Advirto ao-Jeitor, que Joao de Mariana na dU 
vifao dosBifpados, que traz de Rales, emlugar dos- 
nomes antigos dasCidades, poem os modernos, que 
agora tern, comoOrenfepor Aurra , Oviedo por Qve~ 
turn , Porto por Portugale ,. mas elle fe emendou a ft 
mefmo no livro fexto capitulo quinze, pondo os no- 
mes antigos , que enrao tinhatf. E os mefmo* Bifpos. 
deda Cidade o rmendavao , quando elle ienao emeu- 
s&ra h porque os Conciiios antigt s is intitulavao Por* 

tucalea- 



fc>. I.*. 



7)e "Portugal Cap. L X XIII. 3 07 

tucalenies.Satisfa^amos aqui ao Cardeal Baronio , pois Barty*t*& 
© nao fizemosa tras. no capitulo da divifao de Conftanti- JJJJ •** ^. 
no. Nao fepdde negar, quemuitos dos Bifpados , que 6?| ^ ^ 
traz aquella divifaSde Rafes , forao feitospelos Apoi- 
tolos, ou por ieus dtfdpuros, como o Bracarenfe, kbo- 
fenie, Toletano , Celar-Auguitano , ejoutros: donde 
fe collige , que nem todos forso entao creados , ie-- 
nao pela mayor parte ordenados em refpeito das Me- 
tropolis, a que forao fcitos iuffraganeos : e tudo , o 
que Conftantinoniftofez, entendemos fer por ordern, 
€commiflao do Papa Julio, que naquelle anno vivia, 
ou de Marcos., ou Sylveftre feus anteceiTores , • e ainda 
comconielho dosBifpos concregadcs no Concilia EH- 
beritano no anno do Senhor 338 , como affirma Vafeo 5 o ™j£ st T r * 
qual traz trambem efta divifad furnmariamente de Joeo " * 5j * 
Lufitano, Bifpo de Girona, muito rnais antigo , que 
Rafes; oqual Author diz , que naquelle ConciSio foy 
Helpanha repartida em cinco Provinces , Tarracoren- 
fe , Carthagznenie, Betica , Lufitsnia , e Galliza. De 
Hetpanha citerior foy fetta Mit'ropoli Tarragona : de 
Carpetania , Carthagena ; de B itics^ Sevilha , de Lufita- 
nia , Merida ; e de Galliza , Braga. Hto quiz dizer para 
conftar , que na6 tomarao 0$ Hefpanhoes efta divifao 
fo do Mouro Rafes , em que Baronio reparou por in- 
fiel , mas de Author Catnolico , e antigo , illufhe por 
letras , e dignidade Epifcopal. A qual divifaS poem 
tambem Garibay no anno 338 , ediz , que difto ha ef- Garibay I j\ 
criturasna Igreja Mayor deToiedo, eque ElRey Wam-«.4». 
ba em outro Concilio Toledano confirmou odecretado 
nefte EHberita.no. A vinda de Conftantino a Hefpa- 
nha foy para livrar aosHefpanhoes de nacjoers barba- 
ras , que 0$ tinbso opprimidos, e aflugenf ados aos mon- 
tes t fegundo a mefmo Vafeo no lugar citado. E W\z- AUrima L * t 
nana diz, que nefta vinda fez elle a divif?6 dcs Bif-<-.i«. 
pados della , como efcreve Rafes \ do qual traz tambem, 
%ue. Conftantino poz Bilpos em muitas Cidades , que 
cs nao tinha6, 

r$ Se entao* poz Bifpo novamente no Porto , n?6 
tenho fundamento para o affirmar , mas cuido , qie firm, 

Qq ii jerque 






3 OS Fartas /fniiguidades 

porqiie como era Cidade nova , nome , que reteva 
U6%?£"a 3inda emtem P° d ° s SueVo Tn* podia 
daauellero ^Peito.queConftantioo, eosPadres 

comeqava a florefcer , a qu zerao honrar e oromerar 

*7?" a c H mc< l nfo ™ 5 *«*te dodito d, outro 7que mi 7 es 

Zl *T tl*° oS ° l flwndonafce, quequando fepoem If! 

£. . ^o he que os homens mais fol^^fiiTd^^rS 

apios das coufas , q Ue os fins. - 

mJit Nem memovem os fragmentos do Padre Hi. 

fooftilo W atraZ , falky 5 os ^ uaes ia em tem P° do 
3 f oI ° b2 ° r r,a |o fazem efta Cidade fundada , c Ifipif- 
Gopal e o feu-BJtpo chamado Portucalenfe. Porque 
™Zt ° n a ?f r,n l e,r ° '. ^q»e fca dito ie ve clariffima, 
muuenaoter fundamento: e quantoao fegundo* da- 
do que Portugale ja fora , o feu Bifpado fe houvera 
rl ™5T Pom % 1 ^ > P^que efta he a ordem , e de- 
nva q aodQnomePatno, e nao Portuente do nome Por* 
to, qu d teye dallr a muitos centennarios de anno&Nem 
por ells fejiodiaentender,. que Bifpo era, aflim como 
agora icmo -entendera.feo Bifpo de Portaleere fe quizer 
chamar 1-ortuenfe , e nao Portalegrenfe de feu direito, 

f^ r ?f" lo X omQ '' Qode ^ r ^o^ > Cefareo, enaoCe- 
*fie Cncilii » r -Augultano. Nem me move hum Concilio, que traz 
fey fcm, u- ^ey Bernardo de Brito , onde efta efcrito em huma 

;:l:t:: t p0 T C qUa ?i° ^C^ 1 ^ temtantascoulas paraexl 
»s e»trdr*o * rannar * nao he mmto , que tenha tambem efta, Quail- 
cm Htfpanba , to ma is , que eftando<em horn lugar bem efcrito, eem 
vet.™** outro ma* , pode-ie ter por erro, e falta de letras na 

^^^^l^^^^^^ qtwdizer, q«e 
•»»•«* s*. pa ,i* P° r 3 } h P enna d e mao moderna, na que efcre- 
nhor 4 ii> veo l ortuenfe » e chamou Senhor ao Arcebifpo de Bra- 
ga, e Bifpo da primeira cadeira j titulos na6 daquelle 
tempo : e dizer o Bilpo de B'aga ,; que mandou alii vir 
o Bifpo de Merida tao Metropolitano , como elle mek 
mo, e tambem Numantino, que nao era feu fuftraga- 
ueo, e ao Eminieafe , que ainda nao era noMundo> 
como logo veremos. i j E tor- 



Vfj<t-{t Frty. 
t- *. e, i. 




T>e Tortugal Cap. LXX1I1. 3 09 

iy E tornancso aos f ragmentos de Higuera , jaque , ->v 

refpondemos tambem ao que traz do Eminienle, que •••& 

elle faz no mefmo tempo deSaoTiagoj porque nenv _■$ 

ilto pode ier. Muito depois fe fez a divifao dos Bifpa- ■ L 

dos por Conitantkio , onde nso ie trat-ou delle r nem 
para Meiropoli, nem para .fuflragane© , que he pro- 
va de naofer ainda. Depois confeflarnes, que o houvei 
e a primeira vez , que appareceo , foy no terceiro Con- 
cilio Teledano , feito no anno do Senhor 589,, onde 
ie affinou PoiTidcnio Biipo Eminienle ,-fe aqui o notarao 
Va|eo, Morales,, e outros. Morales affirm a $ que efte^A^'^ 
Biipado foy em huma Cidsde de Portugal nosmontes, s j y 9 ;^ r ^. 
onde tratou de Julio Cefar : Mariana efcreve j que nao C , L Tok ^ 
ie fabe onde he : Valeo diz , que foy entre o Porto , e M*n*na I. 6i 
Coimbra/ onde agora chamao Agada , e antigamente^f.15. 
Eminiumi aoqualfegue Frey. Bernardo deBritolcbre^^ 1 - 
efte mefmo Concilio. Eu na6 poilo dizer onde foy v <Epi(cop*tLm- 
mas digo , que nao foy em Agada,, porque entao fcra^-^ fi m - 8 «4£ 
fuffraganeo rieBraga, e achara-fe nosGoncilios Braca-p, 
rentes, que depois le fizerao ; e nao foy aflim. Alem 
dido , quando noptimeiro Concilio Bracarenfe ie de- 
rrarcarao os BHpades de Galliza , e entre elles o do Por- 
to, eodeCoimbra, demarcara-fe tambem o Eminien- 
f e j o que nao lomente nao foy afilm , mas antes olu- 
gar'Eminio ftecw dentro doslimites, e jurifdicqao do 
Biipado de Coirobra , como a diante veremos*. E pok 
to queFrey Bernsrdo de Brito traz hum Concilio , que- 
chama primeirode Braga , feito antes do terceiro To* 
lcdano, em que eita affinado hum Bifpo Emmien.fe-jf 
W com tiKiOj pelas raze ens ]& ditas , ; nao trato delte Con- 
cilio. 

16 Grande fortuna foy adsquelles fragmentosi- 
que iendo achados emSardenha, e chegandoarospcu- 
cas regras iuas, com aquelle vento de abonaqao, que 
Higuera lhe deu , andames caprovando , e reprovando- 
com elles nollas hiftorias , fern que pjimeiro cspro- 
vemos, e reprovemos a elles, e que corhecamos de: 
iua fe, everdade , como que efta feconmmaite, e au- 
thorise com tejftimunhes anedadas;, como ca dize- 



I 



Dom Pratt, 



Moral I. it. 



Chr. tit. de 

GfttTagOf4r 



310 Farias Jntiguidades 

v^a^T fa6osdit0 ? ^gmeutos, e tambem hum li. 
vro dejuliano, que dizem eftarretirado nofifcurial, 
*& :erebu«ado deletra Gothica j ecom tudo affim canoniza 
«/M Sant 2r s . em Portugal por terceira pefToa, que he om-f. 
mo rf^uera da Companhia de Jeius- Nao fey coma 
ellenaocommdmcoueftes livros ao Padre Ribadanei. 
ra da mefrna Companhia, para delles ieaproveitar na 
vidadeSaoTiago, que efcreveo. Tambem me efpan- 
to nao dat o mefmo alvitre decoufas tao novas a>ao 
de Mariana da mefma Companhia , para em fua hifto- 
na, onde trata de Sao Tiago , e de Nabucodonofc , 
aspoder referir ? Ou felhas comunicou , como naSfi! 
zerao cafo dellas ? Tambem he para mim difficultofo 
de crer, que Ambrofle de Morales, por mandado deSua 
A$au> an i a ? e vendo todas as Igrejas , e archive* 
fl.3 y-*ltelJa, e Galhza , efo nao viefle a livraria do 3f- 
cunali mats famofa , e mais illuffcre detodas I E fe a 
vio, [ como hecerto que vio) pois elle o diz , onde 
lbe ficou o Jivro dejuliano , que tao particularmente 
trata deSao TorquatodeGuimaraens , do qual Mora, 
les nao faz menqao, fazendo-a ta5 larga de Sao Tor- 
quato de Cellanova : e fazendo-a deoutros Santos Por; 
tuguezes,^como de Sao Pedro primeiro Biipode Bra- 
ga, deSao Mancio primeiro Bifpo de Evora , de Sao 
Damafo, e deoutros, ou para melhor dizer de todos, 
os que achou poftos emmemoria de efcritura? 

1 7 Por onde parece , que o Padre Higuera (6 em 
I ortuguezes achou fitio para fazer efte emprego de 
fuas inculcas , fern que quizeffe alguem examinar a 
verdade dellas ; pois he certo, que em todas asidades 
houve livros falfos , intituladosem Authores, one os 
naS fizera6j muiros dos quaes feparou Mariano Vi&o- 
rlo das obras de Sao Jeronymo , que traziao o nome 
delte Santo , e o melmo fez Jacobo Pamelio deoutros, 
que feattribuiao a Sa6 Cypriano : e Gafpar Barreiros 
aponta outros , que fe pddem ver na fua Chorogra- 
phia , e Cenfuras : no rjumero dos quaes fe devem por 
osditos fragmentos de Higuera com o feu Juliano,pe- 
las razoem )i ditas atraz. Polio que nao confio tanto 

em 



*De ToriugaL Cap. L X Xlll. j i r 

cm meupareeer, cjueonao fujeite com todaeftaobra, 
nao ja acorreccao da Santa Igreja , que hecolumna, 
e tirmantemo da verdade , como diz o Apoftoto $a6 Pau- lTlflr - &d ^ 
Jo , mas a quern rnelbor o extender ; porque quat> 
do tomey a penna , 16 foy por deiejar dekcbrir a 
verdade de algumascoufas antigas , que he efimdefte 
genero de eitudo j a qual efpero j, que na§ deva parirme 
odio , como cutras vezes coftulna, fenao amiges, co- 
mo obfequio , que aqui he t p^is tambem em gra^a del- 
les emprendi eite trabalho.onde confeflo, que fstis- 
fazer a todos, nem eujpitfio , nem fey quern pcfla. O m(Kutkti „ 
que confirma o adagio" antigo 9 que traz Manucio, e •./^m , 5«- 
depois deUe-^trptiano Guazzo Italiano : JNe anco Uftef-pternen »»,»*. 
fo Giytrt^aggrada a tutti, fasplaca. 

18 Na materia de mayor antieuidade do Portof Xto J3fi 
tern muito, que dizer contra nos Frey Bernardo de a »v«/IX»i. 
£rito , e outros , que o leguem , ajudando-fe da liwita- 
^£0 dos Bilpos de Galliza t feita em tempo des Reys 
Suev< s, que foy fegurrdo Vaieo em hum Concilio ce- r * 
kbrado em Lugo Cidade de Galliza, no anno do Se- anil] 'e^' 1 ' 
11110^64. , poito que Itacio, a quern feguem Morales, Moral. }. u , 
e Mariana, quer , que fofle feita no primeiro Concilio/- S7.mf m .,\ 
Bracarenfe, e Mariana aponta o anno 56% , e confir-* 1 *"^* 7 -*?' 
mada no leguinte j no Concilio de Lugo. Morales te-'' '** 
ve defta lirnitaqao algurs bons originaes , e certifica- 
nos , que a poem como alii fe acha. Mas como Frey Ber- 
nardo deBiito atraga tambem * quero por primeiro o 
que nos ferve , ccmo elle a poem , e depois porey tam- 
tam ode Morales. 

'ST „ A Igreja Cathedral do Porto , que eftf edifi Fr.Eem. m % 
j,cada no Caftello novo dosSuevos, tenha aslgre jar,M*/«« h+? 
,»que eftao em fuaComarea, convem a faber > Tills- »*rcfo»* a &. 
#,Nova > y Betaonia ,. Vefea Menturio , Torebia y Br £•-''• M " 
„ mafte , Pocgoaffe , Lumbo, defies, Napoles , Ctr- 
„mano , Magneto , Leporeto, Melga, Taugehria $ 
)l Villagomedes, Tanuata. Alero diftooslugaresde Lam* 
',>brencio, Aliobria, Valencia, Turtango, Ceras,Men- 
„ dolas , e Palencia , que iao viflte e cinco Igrejas iub~ 
nQitasahum% 



Moral. I. n, 



IfitifudeGon 
eil. Lucenf* 






%it V arias AntlguidaAes 

g£ ao \\ A Igreja Conimbrieme tenha a raefma Coim* 
j, bria , Erninio, Selio , Bome, Infua antunana, Por- 
,, tugal , o Caftello antigo dos Romanes, que fao iete 
,, fujeitas a huma. Tudo ifto he de Frey Bernardo. 

21 Ja vimos o que diz Frey Bernardo de Brito, 
tratando dos terminos dosBifpados do Porto, eCoim- 
bra. Agora vejamos oque jnao diz Morales , tratando 
delles mefmos, 

„ O Bifpado do Porto tern na divitao de Myro a 
„Caftro-noVo com aslgrejas alii viiinhas, Villa-Nova, 
„ Betoania, ou Petaonia , Verca, Memurio, Torebia. 
a , Baubafte, Lumbo, Necis , Napolles, Curmanoj Mag. 
„ neto, Leporeto, tVlelga, Tomgobria, Villa-Gomedes, 
j,Tavafla, Paga, Lambrencio, Aliobrio, Vallerica, Tru- 
„ luco, Sepis, Me'ndolas, Valencia. Na diviiao de Wam- 
„ba ielhe affina , que tenha defde Alba ate LozoJa , e 
„ de Olmos ate as Unas Caffiterides. Ifto he o que diz 
Morales do Porto iuiiraganea de Braga. 

21 Quanto ao de Coimbra diz anim : 9 A Coimbra 
,,fe lheattribuem Eminio, Selio^ Lurbina, 'Laifta, Af« 
„ tufiana , e o antigo Caftello chamado Portugale. Ifto 
he de Morales ; onde fe rnoftra , que naquelles bons 
priginaes antigos, que ellcvio , nao havia mais , qus 
dizer deftes dous Biipados, que ifto que tem dito. 

25 Quero agora por aquias demarca^oenslatinas 
antigas defte dous Biipados , tiradas dageralj feitape^ 
losSuevos, donde eftes dous Authores tomarao oque 
dizem , iegundo as poem Garcia de Loaifa na fua col- 
lecqaodosGoncilios de Heipanha , que fao asfeguin- 
tes , e primeiramente ado Porto. 

„ Ad fedem Potugalenfem in Caftfo-novo Eccle- 
$jfias, quse invicino* funt % Villa.Nova , Betaonia, 
„ Vilia , Mentano , Torebia , Baubafte , Bezoafte , Lum- 
„bo, Nefcis, Flapolet , Gurmiano , Gaguefto , Le- 
„poreto, Melga, Langobra^ Villagomedea , Tanua- 
„fe:item pagi, Lambrefio , Aliobio , Ballafio, Tru§ 
„ luco j Cepis , Flandolas , e Palenciaca. Onze. 

24 A de Coimbra he a que fe (egue : ,, Ad Co- 
u nirabrienfem Coaebtci , Eminio, Lutbine , Infula, 

„ Antur 




2>e TortagaL Cdp. LXX III. 3 1 3 

B , Antunani , & u Portucale ctftrum antiquum. IV. 

z$ Ellas fao as demarcacoens dos dous Bifpados, 
de quetratamos, as quaes nao traduzo tin Portuguez, 
porque o deixo feito por Frey Bernardo , epor Mora- 
les t io apontarey o que Frey Bernardo diz , iem que 
nem a latina, nem Morales o digao : donde le infcre* 
que fao invenqoens fuas. Ao'qual Author pareceo , que, 
por aqui fe fallar em Gaftello-Novo , 1 go o tal Caftel- 
lo, que he aGidade do Porto j foy fundado pelos Sue- 
vos y e por ifto accrefcentou de iua cafa o nome de Sue- 
vos , que nem a demarcaca6 latina , nem Morales poem; 
Diz mais , que Coimbra tern em lua jurifdicqao a Por- 
tugal , Caftello antigo dos Romanos. Mas Morales 
diz fomente o antigo Caftello chamado Portugale. Ea 
demarcaqao latina diz; Permeate ctftrum nttti^Hum\ de 
maneira, que nem ella , nem elle fallao de Romanes. 
Frey Bernardo faz aqui duas Cidades defte nome Por- j r . xem.p*&' 
tucale, huma nova, onde hora efta o Porto, a qual*. 6. c. h. 
diz, que aqui fe cbarna novo Portugal , fundados pe- 
los Suevos , fazendo a Cidade Epifco^ al : e outra anti- 
ga* que , legundo elle, efteve onde eita Gaya , a que 
chama antigo Portugal , e que Horefceo em tempo 
dos Romanos , da qual diz , que os Suevos paf- 
lacao parr- Caftello-NovO a dignidade Epifcopal , e 
agora a faz iujeita so Bifpado de Coimbra , con ferine 
ademarcaqao dotal Bifpado, endediz, Pcrtucde caf. v 

trtim antiquum . Continua dizendo , que os Suevos de- 
rao o nome de FeiTabole a efte novo Portugal , co- D ,y/?# Vvaati 
mo le ve na divifaS dos Arcebifpadcs d'El Rey Wam-^^ 
ba, onde nomeando os lugares fujeitos a B^.ga, diz ;Loaifamp 6 ft 
FefiaMe, vel Portugale. E Garcia de Loaila nas nota- Cmu lut "*f* 
^oens do Concilio de Lugo diz : Pertugalt , Ftfttfoh 
qttoqne appelLbatur, Q qual nome Fefhbole naolhedu- 
rou , fegundo elle , porque prevaleceo o antigo de Por- 
tugal. 

7.6 Refpondamos primeiro o que fentimos da? Ci- 
dades i e depois o faremos das mais con fas. O Padre 
Frey Bernardo como andou diante, recolheo daquella 

Rr antiga 




mm 




3 H Farias Antiguidades 

antis»a mefte o que com feu. mgenho p6de? defco- 
brirj mas fetudo foy grao , ao alimpar o veremos. la 
Hioltramos. atrazpor authoridade de AuthoresantjW 
que naqudle litio da boca do rio Douro , nao houve 
antigamente Cidade alguma, falvo em tempo de Ar> 
tomno Pio o lugar de Gale , noqual ie acabava a Jor- 
nada, ecaminho comec,ado deLisboaate o rio Douro, 
porna5 haver- alii outra mayor povoaqao, emquefe- 
neceRe. Mas- agora que a demarcacao das Bifpado?, 
feita em tempo dos Suevos no primeiro Concilio Br-i- 
carenfe, parece aflentar no mefmo luear, oade efti< 
•^ aya »^hum Caftelfo antiqo chamado' Portucale ( fe 
mo nao he erro r poiso lu^ar iabldamenre fechanwa 
^ale) vejamos fe podemos delcobrir por eonjefturas 
© que jftohe, edonde procedeo. 

*/? Depois que osmoradores de Caie comecarao, 
delazer a nova povoaqafrembaixo da antra 'banda, on- 
de eitao Porto, como nao houvede bracp de Rey, 
que- inreatafle fundar Cidade, ienao homens particu-' 
lares , e pobrss , claro efta , que lhe naohaviao de 
cnamarOdade nova, fenan Caftello novo, vocabulo,, 
que entao ie ufava para fignVficar povoac.*6 menor, 
que -CHade.. EaoJu^ar de Cale , que ficava defronte, 
no em meyo, forao ch mando Caftello velho-, pordn- 
ferenca do novo : da maneira, que a Torre- V el ha do 
porto de Lisboa , foy aflim chamada , tanto que f / 
feita a nova de Bethlem, que lhe fica defronte rio em 
meyo. 

28 Outms de mais condderaqao vendo povoar- 
fe aqueHe porto defronte de Cale, por nao haver al- 
ii ontra difFerenca mayor, nem maisfabida, forao lhe 
comnondo onom-, chamando-lhe Porto de Cale , e 
depois Portucale Oqual nome foy recehido » eautho- 
nzado na divifao dos Blfpados deConftautino no an- 
no doSenhor 558 , como arraz referimos , que he a 
pfiateira , e miis antiga efcntura authentica , e ver- 
dadeiira, em que o nome defta Cidade le ach\ Osna- 
t-uraes com Cudo da terra , e mercadores , e paflapeiros, 
e toda efta Cornarca , lcvayao muy adiante o nome dj 

Caftello. 



7)e Tortugal* Cap. L %X1U. 3 1 § 

Caftvllo novo > e<jutros por out re via , Vrincifalmen- 
te no ulo Ecclefiafl.ico o de Portucale j a'judando- 
muito para ifto , como he decfer, a dignidade Epis- 
copal , que efta Cidade ja tinha. Mas ncavalhe mui- 
to atraz em noticia o Caftello velho vlfinho, ctm quein 
tinha re3aqao , cujo nome antigo deCale fe hia pon- 
doemeiquecimento, por caula do relative novamente 
adquirido. 

29 Pafladcs duzentos , e vinte e cinco anncs de- 
pois da diviiaS de Conflanrino , celehrouie o prime?- 
ro Condlio Bracarenle, que fez a deroarcec 6 dos Bif- 
pados de Galliza , e de alguns de Lufitsnia , or.de aquel- 
Iss Preladoj vindo a demarcar o "Bifpsdo do Porto >di» 
zem anTim , fegimdo ja refer imos : ,, A Sede Portiica- 
,>lenfe, que efta em Caftello novo j tern piimeifamen- 
, te ao meimo Caft llo-novo , como ie deixa entender, a 
„ as Igrejas alii vifinhas, E como Braga efteja ntila Ccr. 
marca , o fide Caftello novo era t-?o ncmeado , e frequen- 
tado , pareceo bem ao Ccnc^io meter efte ndm'e n'a 
demarcacao do Bifpado do Porto pelas niefmas palav!% 
vulgares de Cailello novo , em que' era celebrado , potf- 
que ne 1 le eilava a Cadeira Fpllcopal ; e defla rnarietr^ 
fieou metendo na demarcated anvbos' 0$ riomes , que 
o Porto entao tinha, oproprio , que era Pbir'tucale ri- 
fe , e o a ppellatrvoCaftellb novo , que o ufo comment 
tinha 'Frfito -quail feu proprib , como acontedeo a'Na- 
poles, Cidade de Italia , que fendo afiim ch-jma'da", 
quafi Cidade nova, como efcreve Strsbo , vefnos,'que o ^ fra ^ 
tal nome para fern pre Ihe fkou. /,5 ° 

50' Dspois tflatando o CoriciHo da Itmitrqao do 
-deCoimbra , diz , que ten'ha e'ntre r 'osma?s lugares de' 
fua juriidiccao o CaftelloVelbo charnado PofUip'ale, co- 
mo traduzio Morale?; Coufahe deadmiracao ver, que 
efle tendo lugarete feu nome, Cale de J tempo arffiffuri 
ftmo, agora oroo haja para ie lhedsr e eiriW'eu lorar 
Ihe dem o de Port'ugale, que ns6 eta feu , rrias'ds Cida- 
de vifinha, que ITie" ftesVa defrdhte'd^ontra pfrfe'dp; 
rio, Iflo-em tempo dos Suevosnosrinb do Senhor 565, 
O qua! norfte/ aflfef co&io era alhe'yo , que ; f* Ihe deta' 

Rr ii par* 



316 Varus Anthuidades 

para declare 6 do outro de Gait* o veiho , aflim y<" 

tao era Gate , e agora corruptamente Gaya. 

y Aqui vemos a verdade do que diz o CorofcrT- 
Omn mmrer i9i(jitHdQ 4 q ue C^?e C om 

para fe nnhf V a V* ^ tem P° ih * d ^- O Porta 
£ if f ?i. onhe «do chamoute Porto deCale l^arZ 

' velho de PonL i rabe 0?. conhecido chamouie Caftello • 

wfft J* Poct "Sale , Cidade vifinha, que lne ficava t 
vifta. Affim chamamos Alcafer doia , "que he If 
mo queGaftellodeSaiada, Cidade /que tl ha eTm 

-MKGHgr, fo ' ^ e »"» efteve vifinha ao Tejo, de que Strabo f£ 
HA* xnenqap dizendo, que B*nto f ez delil font- ta para 

la.Nom de Alvtto „ Viana da par de Hvora'. Wana £ 
Camunha, e outros. muitos i^ares, que deixo E da 

SaoSueva: PvrmctU Cafttnm anti^mm , como fe d ff< - 

le' ^7*^**" l *"?"*• O qualnome, Portuc'- 
Jg, qu^ ent o eraindeclinavel, eft* alii- -em -cenitivo 

Portugal i. CidadeaUi vifinha , como Caftello velho de 
iMmouiol > Villa.Nova de Alvito J Vi^SS 

n ~Jl. ^ 6 fe ? como nem Morales^ nem Loaifa „ 
££2F B ^ nardodsrad neile fentido^que a meu pa-" 
wcereftavaclaio, porqueCale naoiecharnwa. Portu- 
cale, nemifto fe podia entender de ourra maneira. 
Connrmoume niflo achar mats abaixo no mefmo Loai- 
M. que depots da demarcacio Sueva , traz d'&lRev 
Wamba onde tratand. do. Bifpado de Gimbra diz 
ajnm : „ Commbrienfi* Sedes- teneat ipfam Conimbriam. 
M bfinnio, Selio , Bime . Infula, Aftrucione, &Por- 
,♦ tu^aUiac Caftrum antiquum fub Uno VIL O n de Por- 
jueal lie efla no cafo , em que nos pomos Ponucale 
inaeclward, que he em .genitive* , efaz omefmo fen- 

tido , 




T>e Portugal. Cap. LXXI1L % vf 

tido j que nos dizemos. Da meima maneira falla oan- 
tigo Summario dos Reys Gcdos , que traz Reiende &?/««*. 
nas fuas Antiguidades de Evora nas palavras feguintes : 
» Ipfe Rex cepit Mauram , & Serpam ,. & Alconchel, 
i,6c Curuchi caftrum siandavit resedifieare. Quer dizer. 
O meirao Rey Dom Aftonio Henriques tomou Moura r 
e Seipa , e Alconchel , e mandou reediticar o Gaftello 
de Curuche. 

55 Faz por efta opiniao , como ja toquey, 
a evidencia elara > que ha daquelle lugar fe cha- 
mar Gale , e nao Portucater Porque fe tal nome ti- 
vera, ficaralhe, enao fkou , fenao o feu de Gale, e 
Gaya , que delle fe corrompeo* Alem difto r a povoa- 
^ao fronteira de Miragaya , porfia f que tem defron- 
te dosolhos a Gaya, enao Portugale/, nem Poitoga- 
y&. Tambem provamos atraz por Authores antigos j 
que alii naS efteve antigamente Cidade alguma. Pelas 
quaes razoens alheyo he de toda a razao , que na- 
quelle fitio houvefle duas Cidades , Portugale ve- 
Iha, e Portugale nova , huma nomonte, e outra na 
praya. Nem <ss adjeclivos novo* , e antigo juntos a* 
Portugal, tent fundamento , porque a demarcae,ao do 
Porto diz, €aftrotiovo % e na6 Portugal novo , eapala- 
vra novo refere-fe a Caftro , enao a Portugal , norne^. 
que aqui nao efta j nem delle fe trata. E a demarca- 
^ao de Coimbradiz : Portugale Cafirum antiquum , e napV 
Perwgale antiquum : onde antiquum refere-fe a Caf- 
tro, enao a Portugale. O que tudo he v ou nao ad- 
vertir o que dizem as palavras latinas , ou fazellas di- 
zer o que ellas nao dizem. Mas nem me efpanto de- 
Loaifa, nem de Morales * porque erao forafteiros , e~ 
nao labiao, que Gale era differente dePertucale- De 
Frey Bernardo fim, per fer natural ,, e iaber , que era6 
differentes, e que Gale antes da demarcate Sueva fe 
chamou Gale, e depois della tambem emlatim, eem 
Portuguez corruptamente Gaya , como parece por elle 
meimo , e pelo Bifpo deTuy, e por cutros Authores. 
Vio , que a demarca$a6 diz : Portugal* Cafirum anti* 
ynm y « cuidou , que fa^ia outra, Portugale fobre o 



Ci r> ji 



_ 



3i8 'Farias Anbiguidddes 

antigo Gafbllo Gale s e fern aiais dilcurfo fez duss 
^ldades.deftenonw, por nao advertir no fentido da. 
• .quetias palavras. 

3+ Nj noma Feftabole , que elle da ao Porto* 
tem alguma razao , pott ; que Iho nao dara a meu pa- 
recer, iemelflor oconfiderara. Confeflamos , que EL 
Rey v^amba entre asCidai-s fuffraganeas de Braga , 
poe n , FcjlMt , vel PortvcaU , e delle o tomou Gafcu 
deLoaila. Gomtudo eftenome para mim he fuipeito- 
lo,porver, queosSuevos moradores deGilliza, que 
raelnor haviao de faber iflo, lho nao derao na fua de. 
marcaqao, que atraz fevio, a qual foy feitanoanno 
do Senhor y6 3 , e a de Wamba foy feita em Toledo ,w 

y*' q "V a °. CQ " tOQnovs * mos adiante. Damais 
ditto Ambrofio de Morales, que vio muitos originaea 
deltas lioutaqoens , nao trata do name Feftabole. Ajun- 
m ta-le tambem , qua o tal noma he novo para os nam- 
raw deftas partes , que fabem mais do feu , que os 
extrangeiros , e nao fabemos efcritura , que o tra -a 
nem para fignificar a Cidade do Porto , nem aos Bif! 
pos della, mas antes eiles , eadita Gidade naoaclio- 
quedeoutra maneira foflem chamados, ienao Portu- 
galenfes , edepois da dita demarcaqao de Wamba Fi- 
nalinente efta demarcacao delle Rey, que traz Loai-- 
^ fa do Bifpado do Porto , parece eftar viciada , porque 
fediz , FedabeU , vel PonncaU , tambem diz, Ommm 
vjl Bmoma , e fabemos , que eftwduas Gidades la6\ 
dirierentes, eaffim odevem fer iem duvida Female 
velPntucale. Pelo que nao recebemos o tal nome Fef- 
tabole, porque alhsyo i ou incognito, ou introduzido 
por.erro. Nem menos a fua fignificaqao de praya no- 
va , ou porto chao , forj^a na orficina de Frey Bernar- 
do, porque nao vejo quern ifto agora pofla affirmarde 
lingua tao antigra \ falvo fe refurgio algum Suevo. 

Cr/i- de kilo ™ Q J% f * ^ fdUa de PdkS ' C ° m ^ Ue f e COb " ne > CO " 

Gaiiicoi. 4 . mo . eia N r 7 os P lnta > P af a declarar £0 ufa de tanta impor- 
.uimtH. tancta. Nem efta barbara na<jao , coftumada aviverem 

aldeyas, fegtmdo o mefmo Cefar , tinba 1 brio parade' 
propofitofiHidar Cidade j efeotinha, com^vencedo^ 

ra, 



Orofius h ji 
c. 40. 



7)e Portugal. Cap. LXXIIL H9 

ra, eanogsnte, ne graqa dizer , que fundou o Por- 
to com norne de Feiiabole , porque nunca o tal nome 
f, y por ca lido » nem ouvi'do , ale'm delta Cidade let 
mais antiga , que os Suevos em Hefpanha , ccirio adian* 
te fe vera-, e U. atraz fica moftrado. 

35 Finalmente o Porto foy huma fo Cidade no 
iitio, onde hora efta.Qs fundadores forao Lufitanos, do 
lugar de Gale. Os nomes averiguados, e certos , forao 
dous , e ambos nafcerao com ella. Hum vulgar, e ap- 
pellativo , que m Caftello-novo , e outro proprio , 
que era Portucale. Os quaes ambos forao metidos pe-- 
los Suevos na demareaqao defte Biipado , mas a Cidade 
com feus nomes foy muito antes , que os ditcs Sue- 
vos entradem em Hefpanha , porque elks erttrarao, 
ccrno affirma Paulo Orofio , no anno da fundaq: 6 
de Roma 1164 , que he o de Senhor 412,, e a divi- 
lad dos Bifpados feita par Conftantino , que fez men- 
qa3 de Portucale , confta fer feita primeiro cento e 
cinco3nta e quatro annos no de 338. Efte nome pro- 
pria de Pbrtuct-le retiverao lempre os Bifpos deila 
CiJade j, comovemos nos Concilios antigos , onde el- 
les fe acharao. 

36 No terceiro Goneilio Toledano fe achars6 dons 
Bifpos do Porto , Conftancio , e Argiovitro , e ambos 
fe affinarao Portucalenies. A caufa , porque forao dous, 
como tambem forao dous de Braga , e dous de Tuy , 
nao digo, por nao fer de meu propofito j foy feitoaquel- 

le Ccncilio no anno do Senhor, fegundo Vafeo, 589. Vefeustm.il 

Eem outro Toledano do tempo d'ElRey Wamba ei- *»»»■$«». 

ta afiinado Argebato Portucalenfe anno do Senhor 

610. Nodecimo Toledano efta afTinado Flavio Portu- Moralesl Ii; 

calenfe anno do Senhor 65®. No terceiro de Braga el- f . u . 

ta afiinado Froarico Portucalenfe anno 675, E porque M«-«/«U*g. 

nifto nao veio haver duvida, cheguemos a calamitofa "t-*h- 

entrada dos Mouros em Hefpanha 5 na enchente dos 

quaes muitas Cidades , e muitas Igrejas Epifcopaes, 

e juntamente feus nomes t fizerao naufragio , onde en- 

tendo , que o fez tambem o nome de Caflello-novo 

cJoEorto, com feu relative deCa Hello velfeodePor- 






C I}, 




320 Farias Antiguidadet 

tucale. A razao moftra , que mortos , ou fueidos os 
maradores daquelle fitio, morrerao tambem osnomes 
vulgares daqueiles lugares , mas nao morreo o proptio 
de I ortucale } nem menos o de Cale , porque ie con* 
lervarao em varias eicrituras. 
M«u** I. r 37 Depois que &lRey Dom Affonfo o Magno 
feedi&cou a Portucale , que havia muito eftava def. 
truida , e deferta , muitos pela novidade do cato , e pe~ 
3a tama de feu trato antigo , acudiao a eftas partes, 
trazendo o nome de Portucale na boca j donde efta 
Comarca come^ou defechamar Portucale, e a mefuaa 
Cidade tomou aos primeiros dias 9 antes de f er povoa- 
qao , porquefoy chamada Porto, daqueiles, que a fie- 
quentayao, por lhes contentar aquelle leu. E outros 
por dirlerenqa lhe chamavao Porto .de Portu.ale , ou 
porque eftava nefta Comarca , que affim fe char,*, 
va Ja , ou por razao de feu antigo nome , que era 
iCKe» 

- 38 O Doutor Andre de Refende na Epiftola a 
Bmholomeu de Kebedo efcreve , que depois que o 
nome de Portucalepaffou daquella Cidade a comprehen- 
der outras em commum, entao por evitar amphibolo- 
gia s os Bifpos do Porto come^arao a chamarie Por- 
tuenfes. Eu com tudo tenho por mais certo , que nao 
toy o fundamento a extenfao do nome Portucale a 
outras terras , porque vejo o Bifpo de Napoles cha- 
marie Nipolitaooi e ode Toledo, Toledano , eo de 
\alen$a, Valentino , eque por taes lao conhecidos 
iem mconveniente de ampbibologia , nao obftante ' 
que os nornes daquellas Cidades fe extenderao aos 
J<.?ynos, em que ellas eftao. Pelo que mepareceme- 
Inor dizer, que quando o Porto foy geralmente dia-: 
mado, e conheeUo por efte nome , entao fe podiao 
chamar 05 feus Bifpos Portuenfes, mas ifto muito ra. 
.ramente, eainda cim muito pouca razao, porque co- 
(mo o nome adje&ivo Portuenfe latino ie derive do 
feu fubftantivo Porttis, o qua! por fi 16 nao he, nem 
toy nuncaoproprio; e latino daquella Cidade, mal ie 
jpodiaS elles charaar Pqrtuenfes > porque p derivado 

nao 



VeVortiigal.Cap.LXXUI. 321 

mo he^primeiro, que o ieu original. E qu-ndo u\q 
fofle, ieria f o para dentro de Pertugal , porieriaS en- 
contrar com o famolo , e illuftre Biipo Portuenfe , hum 
dos iete Bifpos Cardeaes , q .e ailiitem ao Papa , quan- 
do celebra, como eicreve lUefcas , oquai feachaem 
Goncilios antiquimmos , e fe ve ultimamente no In - 2, /% 1. 
dentino , affmado no fegundo lugar depois do Papapoi Jy. l95 . 
eftas palavras : Ego led. C*rd. Cad/ts , EpijcopHs Pora*ens. 

tt «.„ a ,_»;^.,;^.,,U A?nfl*~TlHr\iAr\ hafts nara nnf. 



gnpusfiormu Foy Hypolit fcontemporaneode 'Orjger <£L 

como pareee jpor EutebioCefarienie?, que ■deambos fz&Eufik^ift: 

menqao em tempo do Imperador Alexandre Severo. i.'.e. ij. s 

CAPITULO L)tXIVi 

tuguezts Ihes ijbraijmilhatites. 



c 



I : 



Orao os Lufrtanois antigos tao valerates * e 
rizerao coufas ta6 excdlerites nas guerras 
contra os Romanes, que Oiodoro Skulo, e w | ^. 
depois delle Joa5 Boemo osantepoem a todasas oiitras^. 9. 
Baqoesde Helpanha. Daqui vinha , que alguns Authored mmp* /. dt 
tratavao de ieus feitos , nao fazendo menqaS de rna ^"2«wj?/'ijj 
Hefpanhoes : o que parece que era , 'porque affim co- 
mo davao aos Romanoi 'mais ^qXie fazer rva guertfa', allirrY' 
lhes davao a elles mais , que efctever^Conta 'Juftin'o, tjuftb. l. 44, 
que osLufitanos com feu Capitao Viriato canlaraoaos 
Romanos pof tempo de dez annos J'a1xa f ncarido delles 
muitas vitorias. Eaiunta, queos Lufitanos tiv.haona^ 
turezisrnais de feras, que de hOntens/ Em que pareee 
quiz acudir a honra dos feus , mas de tal maneira , que" 
aecrejeenta na dosfobfTos. ; Bp8 - 

2 Sertorio fugindo a profcripqao de Sylla veyo 
tex a Heipanha, eaqui temendo hum exetcito deRo- 

fit manes ; 









*iutAt.in s$r- 
torif, 

Orofius Is. 
**(>. 43. 

Sabtll. 

<^ 4. 

ldmOr«fius 
Its* e. 4t 



1 2 2 /W/*/ Antkuidaties 

te n o?l\Tr eVlnha c0 ^^e, paflouie a Africa , aon* 

manos f que ce^rn f ^P" 8 * «>«« os mefmos R - 
5nni f certo % notavd atrevimento de gente 

CWff 8, Romanos por outros dez an - 

honrafua el'r r enOS ' e os venceo com grande 
toc^r i r ? mdmo Profio traz de Qaudio . que trezen- 

iiiao le recolnendo ape apartado dos outro*, fovce 
cado de muitos Romanosde cavallo. Mas die atr^ve^ 

Sto ta'r 3 ?^H PC a - a ^ 3 dOCaValldro ' C °moq U .l 
mil J 00530011 ^ demedo, que olhando 

S3Kg£ d61Xara6 U ,iVr ememe -«*> de 'P-° 1 e^S- 

H* T 4 r /? di ^ deReiende noterceiro das antiguidade* 

^a^ 

toAttiofilhodeTito.foy Capirao da cohi>rie f r dos 
He panhoei , e da cohorte « dos Luf.tanos. Onde he 
nuitto notavel ., eoadivertio tambem Refende ? Jul 
elt.o nelle os Lufitanos feparados dos Hefpanhoes 
como tambem eft* no 5 Author* feguinres. P ' 

*1a£ rT U r ns P? oman os , que acompanhavao a Ser. 

*$LFn H *F2^ P ? r defg0ft ° ' que delletinhX" 
tr' k ?u # que f °ft riso a ^ontas , exceflos demandar, e 
trabalhos como loffriao os Hefpanhoes, e os Lufi- 
*bt:.msep. Janoa A Aim o efcreve Plutarcho : e efte mefmo Au- 
*r«* _ tnor na comparand, que faz deSertorio com Eume- 
nes, diz, que efte Eumenes foy Capttao dosMacedo- 
most eSertorio dos; Hefpanhoes, e dos Lufitanos. Da 
meima maneira falla Sao Jeronymo fobre o capitulo 64. 
oebtpj^s, onde diz, que porcerta occafiao forao en- 
ganatfas algumas mulheres Hefpanhoes , e Ludtanas. 

6 N05 



•J* 




*De<PmugaLCq> : LXXlV. f it% 

6 Note-fe , que os L jiitanos affim como vao aqui 
feparados no nome dos outros Hefpanhoes pur efUs 
Authores ; affim o hiao tambem naguerra no lugar, 
como conlta do letreiro acima : de manei-a , que nao 
ie mifturavao com elles , mas antes faziao corpo de 
perii, como quem tinha pofta a opiniao , ereputaqao 
nafortaleza do braco proprio. Os quaes femereceroa 
memoria delta feparaqao, e outros grandes louvores, 
que os Romanos feus adverfarios lhes dad emfuasef- 
crittiras, pois elles nao tiverao outros Quoniftas de 
fcias couias, fe nao feus proprios ininrgos, nao dege- 
ncr-rao certo delles os Portuguezes feus defcendentes, 
porque affim como forao feus herdeiros da terra , affim 
oforao tambem do esforco , e valor, com que dera6 
materia a muitos Authores de noflo tempo parajalla- 
rem delles da met ma maneira , e com tanta honra , co- 
mo osantigos de feus antepailados, que ate agora re- 

latey. 

7 Angelo Policiano da muitos, e fingulares lou- Angel M. 
vorss aos Portuguezes na pefioa de feu R y , por defco- *Pf- l - l0# 
brir novos mundos , de que fe feguira6 a vida com- fy * 
mum muy notaveis proveitos ; e diz , que ja con- 
f , fla'a ter raz>6 o grande Alexaddre de fulpirar por lhe 
ficarem outros mundos por veneer: efinalmente , que 
EIRey de Portugal fepode ter porRey de hum povo 
Romano. Cujos feitbs efte doutifiimo varao cobicou* 
e pedio em efcrito com mujtas palavras a EIRey Dom 
Jo>6 II, para os p6r em lingua latina , em que die 
era eminentiffimo , fazendo conta , como he credivel* 
que na efcritura de taes feitos flcavao os louvores de 
lua pena em edificio de perpetua memoria„ 

8 Paulo Jo- io defejnu fszer o que Policiano , ~ . 4 
nao fez, epara ifTb le onereceo ; mas como Inesral-^j 8 ,y^ 
tafTe o fivor d'ElP^ey Dom Joao terceiro , por con- 501. 
felho de alguns feus diiTe muito pouco , mas nefte poueo 
muito , pois chama aos Portuguezes vencedores de toda 
alndia. Lourenqo de Anania chegnu adizer, quecada 
hum dos Portuguezes comeo do coraqso do grande Ale-^ W4M . 4 ni 
xaiidre, porque pelejavaS jna India nao fomente com to- cofmop na- 

Ss il fai$4(ht,f(>!,%Q6. 





Mtttlan. Vitt, 



perils in Jim 

Jia»Gtogr, 



3 2 f Farias Jntiguictades 

tf^ m ^-! ma f C ? m °*mefaios elementos. Dei: 

S4S hnntT AUt ^° reS » <L^ ^«0 aOsPoitU* 

Se^i'H f h P r °P° flto • outros a «*> nao tratandl 
hnm Vi P anhoe5 i- ev eiihoaqudles, que faliarao de 
huns , e deputy na forma do letreiro, que traz R* 
Uaci^ edosmajsAuthores, que lheajuntey. 

in^ia in nhrL 9 , ■ p: r f ,ano Via ° rio i&<mt que pdosHJr^ 
«*»*/£. .H«." nc ^ S 'i » e i Qituguezes , nao fomente i'e conferva a Fe 
'^w«» M yain-hca, mas que fedefcobrio hum novo mundo. cu- 
£**,«•#*** natures* como tenras plahtasdeChrifto fckftr-- 
&^ Wlgfc! * ra *** a m ^ a Ff ; Genebrardo fobre hum 

lUdS nayeg^pens, fewem aominiitcrio da convcriao do* 
povos Orientals, . **«uuv,». 

IW d t /. K) Rafael Volaterrano no rim de fua Geoerar hia 
os.^rr,. faz^hum particular caphulo , onde coma o dfiibrij 
mf. q ?5 ^uguezes ate Calecut , e aembaixada, 
que oSoIdad do Egypto mandou ao Papa juJioieium' 
do de queixumes delles, : por ihe impedirem o camtnho 
cas^eipectarias, que vinhao pelo mar roxo, e depoii 
erao levados a fua Cidade de Alexandria , onde os 
™- n * £ lhashia ° comprar: dizendo , que. fenaSde- 
Mtiaoy naviao tambem de impedir o caminho dejrriifa- 
lem. K logo abaixo diz efte Author , que os Hefpa- 
nnoes por emulacao dos Portuguezes derao principlo a 
outro defcobnmento, levando por guia , e Capitao a 
Chnftovao Colon; V 

1 1 ; FinaJmente os Portuguezes forao fimilhantes 
aos antigos Lufitanos ate no modo , com que os Au- 
« Ihores faliarao de< huns , e deoutros. Mas- nifto forao 
ditferentes, que os Lufitanos defendiao fuas cafas , e 
eflavao em fua terra : e os Portuguezes conquiftarao 
asauieyas, e eftavao em terra, e mares re mot iffimos, 
onde as diificuldades erao mais , osperigos mayores, 
e a morte , ainda que huma fo, varia, e occafionada de 
varios accidentes , como defede j de fome , de enfer- 
rnidades, de naufragios , depaostofhdos, deagua,de 
f ogo , e de ferro. E.pode-fe dizer, que conjurarao to- 
das- as mortcs contra os noilos , mas que ficarao ven- 

cidas, 






T>e tpartugal Cfif* LXXV. 3&f 

cidas j eosnoflls, ou vivos, ou mortos , vencedores* 
Torque o defejode extender a Fe Catholica, e ode fa- 
ster a vontade a feu Rey., -fazem a >s Portuguezes ta6 
prodigy da vida, que ent^o Ihes parece , que vencem, 
quando mortem na execuqao de alguma deltas ccuias. 

1 

CAPITULO LXXV, 

Que os Portuguezes air irao o caminho da India Orkth 

laly qual nunc a foyabcrto deoutra nafao an* 

tes aeiiesy Contra Pimio , e ouiros , que 




t '■■■ ' ' , 

Brirao ps Portuguezes com eTpantofa 5Ur 
ftdia caminho deritilhares delegoas,cor» 
tanddas fwipfas.pndas do mar (J«eeano de 
Portugal a India , da, India 4 Ginna;, da China ao Ja- 
pto, doJap;6 aoutras Iihas ainda mais remotas % em 
que delcobtirao novos mares ,. novas terras , novos 
Ceos , novas Efrrellas , novos Jegredos damaturtza , e 
entre elies fer habitada a, Zona torKda , cpminuarfe 
.fern duvida o mar indico \cpiri o /\tIanticO:, e haver 
Antipodas , que Lattando ■ Fivroianp totalmente ne-iatf. vim: 
gou , e depois delle Santo Agoftinhoy Dhinar. 

7. Concedeo- Ihes Deos nefta longa , e perigefa,^' l _' - c ' 2 i : 
empreza inflnitas vitorias , primeiramente dos mares , Vl *|*/ ' De 'f 1 ' 
e dos ventos ,. dando-lhos por miniHr6s.de ieu proppfi- i*. u > 
to, e depois de barbaras v e feras riaqpens , fazendo 
grange 6 pequeno nomc de Portugal , para que ante 
ellas fofle como precurfor do de Chrillo noilo Se« 
rhor: e a gente Portugueza pofla nefte cantinho da y 

Europa pouco lembrada* mas para ifto efcolhida r fi- 
zefTe Officio Apoilolico, annunciando aChrifto Salva- 
dor, do Mundo v nao (omente em terra firms , mas errt 
quafitnfmitss Ilhas<Jo Oriente , aonde por veriturar.un- 
cachegou anotkia doyexdaddrp Dsos Cieador dellas. 

No,- 




. 







iU Farias Jntiguidades 

f><'M.™/- 3 .^ fcr eve Plinio nafua hiftoria natural, queet 
will , x te . caminho daInd * Pda cofta da Africa, foy ja de£ 
^/.x^cuberto , enavegado por Hanno Carthagenenfe que 
;partmdo de Gales toy parar.no fim d* Arabia e de* 
xou efta fua n^gaqao em efcrito. E por hum Eudo- 
xo, que fugfudo de Lathyro Rgy do Egypto . ia- 
** » •*,' h , P el ° eft reito de Arabia , veyo'ter a Cal« P 
2ft£ ^ nf6rme a ' r ifto ' Jwchimo Vadianl em alma Ep| 
d*s/eusc om . tol l> ^ ue efcreveo a Rodulpho Agricola \ diz. que 
w«rjr/ M ^jos Portuguezes reftaura'rao efta navegacao. 
*?*.'■ r J r Ga( P ar Birreiros dando nefte propofito , per- 

f:«I:2^;. c f " ade ' f€ » q«ff «qu.eH« na^qoen. ; podia6 aconte- 
m 0/»*«.. cer ' mas 1 ue na o f' "o tao provadas » nem flzerao tan- 
^«»«ci,r. tatecomo asnoffas. E Damiao de Goes fern efcrup u « 
do Pwcjpe lo aceita o que Plinio diz , e tem por erro diz-i o 
fewtft i°? tmi ° : € ° Collegia de Coimbra da Cornpanhia de 
MaJ eip. ic'J Qius tem o raefmo com Plinio. F 

13. ctiug. Co. f Anos corri tudo parecenos, que ni-fto ha maij 
•* /• t. de <I ue dizer : e ajfim refpondemos , que fe foy o Que Pli- 
v'/^V 4 ;^' '* n . l ° corvta • eft ^va ja eQe caminho tao cego , e incoa- 
srM././.ixx.mto quefoy necaflario ab illo de novo f para oque 
nip levarao bs Portuguezes ; alguns fbteiros , que 
efles homens deixaflem para por dies fegovernar ie 
nao aexperierkiadegrandes, ehorrendas tempeftades. 
continuos perigos , graves enfermidades , fomes, fe- 
des , nautragios , tudo vifinho da morte , e a mefma 
morte. I do na6 por huma fo vez, e no mefmo anno, 
ieriao por muitas , eemrauitos: nem por hum 16 Ca- 
pita© emhuTu mefma nao , mas por muitos , e to- 
dos Portuguez - em diverfas. Donde fe tnfere , que 
nao podia hum fioKnem , foOe Hanno , fofle Eudo- 
xo , acabir de huma 16 vez o que tantos por tantas 
vezes nao acabarao. Pelo que temos fuas navegacoens 
por incerta*. 

6" Que Hmno , e Eudoxo nao abriflem efte ca- 
minho, prova-f- porque feaflim fora , alfcuma na<;ao 
AoQnente, ou Ponente oieguira porrazao do trato, 

eg?- 




^DeTartugaLCaptLXXF. $27 

eganho , eipecialmente o tnefmo Hanno , e os feus 
Carthagenenles , que iegundo Plinio forao os inven- P /^j- e sii 
tores da mercancia , e fora facil continnar o que ja 
eftava feito , como agora fora a muitos ieguir a na* 
vegaqao dos Portuguezes, fe Ihes fora concedido. Mas 
parece,quenao houve quern feguifle, porque nao houve 
quem preceded e. E nao era para deixar perder huma na- 
veg^qao , que importava o comercio da India , que tao 
buieado foy fempre por (ua riqueza, pofto que tao 
rernoto foffe* Pelo qua! difle o Poet£ Horacio. , ??*'$&- 

y 1 " b( mi I v : i 



Impiger extremos eurril mere at or ad Indos, 
Per mart pauperiem fitgiem , per faxa, per ignes. 

Donde fe collige^que fo os notion ^abrlrap ,< e conti- 
nuarao de entao para pa , e que^ are^Ui foj£ incr gni- 
to; do. qual p^recer he Pedro Mafimj$> Lourenc,© dcAj a ff ees j i 
Anania » e:Rafael;V*olaterrano. - r . bifi. i*dk*. 

7 E nao icy ie aqujllo , que Plinio diz , forao cor Ammm ** *» 
nieces fern fins. Jpelo menos elknao^yio em efcrito a '^*^ r * 
nav«ga<;<6 de Barmo , de que fala, po^que lea vira, £!£,"£? 
vim por ella fer habitada a £onat torrida-, a qua] Han «. «/*. '& u/ s 
no havia de paflar duas vezes neceflariamente : e v jra, *»t' r reptn'm 
que os maradores dajZona temperada Septentrional po- 
dem paflar a Zona temperada Auftral iem prejuizo do 
incendio da Zona torrida ; o que tudo elle nega^na fua p/;», hip. i %■ 
hiftoria natural.. Vira rnais , e tivera_noticia 4e mui «• «8. 
tas povoaqoens , rios ^ e cabos da^uella qofta , prin T 
cipalmente dostnayor , que ate hoje ie fabe , que os 
noflos chamarao das tormentas ,. pelas muitas 4 que al- 
ii paffarao , e EIRey D.JoaS iegundo lhepoz nome 
de boa efperanca, cabo, que ate Paulo Jovio, pouco noi-Plut.you.hijf^ 
fo amigo, confelTa, que nunca foy? tentado » nemco-'- 8 -/^*^*- , 
uhecido dosantigos. E detudo Pipio fizera mencao, 
a qual naofaz. Efe com tudo vio a tal navega<ja5 ^ e 
nella nao achou eftascoufas, fegue fe , ^qpe foy falfa: 
falvo hum pedaqo, que traz Joao de Mariana deJlu->if«rfaM /. .«?- 
fo Fefto , de que confta , queHanflo nao paflbu da ijnhaf. **. **$- J, 
equmodlial., * U Aifto 










«AH» 






Farias Antlguiiades 

8 A ifto le accrefcenta , que Pomponio Mela fat 
l',i defta materia com mats duvida ; porque diz , que 
Hanno navegou grande parte de Africa , e que lhefal- 
tou r omantimento, e nao o mar. Nas quaes palavras 
mo diz , quea navegou toda, nem ainda a mayor par- 
te, fenao grande parte ; eparece fentir , quefe ornou, 
porlhe faltar o mantimento. As fuas palavras (ao eftas: 
j, Hartno magnam partem ejus circumveftus , non fe 
„ mari , fed commeatu defecifTe , memoratum retu- 
i,; lerafPois dizer-y que Hudoxo * homem particular , 
e fugitive , fern poder denaos, edegente, edeman- 
timentos , havia, (Jefazer a que H^nno jco,m o pader j 
eforcas da fua Republica nao fez, he cou(a derizo. 
Vejaoleitor a Pomponio, porque de arabas eftas ha- 
vega<pens falla com duvida , e nenhuma affirma. 
fiol G-oav h °- 9 SPtdlome^/fendo Africano, e Egypcib,«ia6 teVe 
?.>. 5. *" ! iioticia da havega^ao de Haifnp , hemf oube da de Eudo- 
1 xo- Egypckrr digoifto, porque naS'falla" dellasvnerft 
docabo da boa efperanqa jj mas antes diz no livro' fe*- 
timo de iuaGeographia j que o fim meridional da ter- 
ra conhecida he terminado do parallelb^ que he mais 
a ultra! da Equinoctial , dezafeis graosv *& vinre feis mi- 
nutos; OS modo , que-'io teve noticfa^ate-'dezaids' 
graos da parte do Sul , tfrios fabembs , que o cabo de f 
b ja efperanga , delcuberto pelos nbffds t efta em trinta e 
ciaco. 

10 Pelo que for no a dizer , que eftas navega- 

^oens de Pliniome parecem principios fern fins, poia 

efta de Hanno , que elle fentemaisauthofizada, tem 

st**h$ Gee?? tantas obje'ceoens. Econfirmattie nifto o que diz Stra- 

i$.j9i.i$, ' bo no priraeiro livro de (ua Geographia aeftemelmo 

propofito, cujas palavras da verfao Italiana de Buonac- 

civoli , tao asfe^ulntes: ,* Todos aquelles , que nave- 

ti garao o Oceano-j ato longo de Africa % aflim partindo 

„do mar roxo ^ >d&wb das columnas de Hercules, de- 

„ polsique porfoum pedac,o caminharao , nao podendo 

„ por muftos impedimentos paffar adiante , fe tofni- 

„ ra6. Ocnde ainda que o mat Atlantico na verdade 

n feja todo hum , e principaJment* contra o meyb dia\ 

♦lamui- 



> • 



— 



DeTortugal. Cdp. LXXF. 329 

^amuitos com tuao iizerao crer, que aquelle efpacp , 
,, que flcavaentre elles , fofle feparado de hum ifthmo. 
Ate aqui f*6 palavras de Strabo bem contratias as de 
Plinio. 

11 E fe o mefmo Strabo nefte lugar faz poflivel 
a navega^ao de toda a cofta de Africa , por omar Atlan- 
tico ier todo hum , como die diz , ifto foy por cui- 
dar, que a tal navegaqao ie podia fazer fern ie paflar 
a Zona torrida : mas ielhediiierao , que forqoz^men- 
te fe naviao de^paiTar , derao por impoffivel , por- straUGeo&i 
que elle he hum dos antigos, que creraQ , que a dita i. t./#t iU 
Zona era inhabitavel , por razao do ardor do Sol , o 
qual era reputado tao grande , que impedia a p fTa- 
gem de huma Zona temperada para a outra. Aflim 0p/k.^.iij 
diz Plinio fallando dellas f „ Dux tantum inter extf e .6§ k 
,jtam, & rigentes , temperantur : eaeque ipfas inter 
,, fe non perviaj # propter incendium fideris. Pelas quaes 
razoens tenho aos Portuguezes por primelros defco- 
bridores delta navega^ao , e que forao a India , como 
difle hum Poeta noflo, Por mates nunc* <C Antes mvi* 

V 

' CAPITULO LXXVI. W' 

Do que afgtms Italianos Efcritores differ ae con* 

tra a navegafae dos Portuguezes , com 

Juas refpojias. 



| T"% Aulo Jovio irado contra os Portuguezes ,¥auhtjwiiti 
1-^ porque ElRey Dom Joao o nao admittic'f*' /^'"" 
•*- para efcrever noflas coufas , offerecendcfe d ' rth - f^t' 
die aiffo, ielho pagaflem, vingale defta repuTa , hc-^ijjl 3&i 
racallando, hora fallando , e com efte efpirito chama p«ui«s joviui 
douda a nofla navegacaS , fendo e la obra de Reys piu-*# '• »*• 
dentiflimos, e de grande ccnfelho , econiirmada ccm-f oU6S * 
k iritoiias wilagroias* 

iXt -,- t % Aflim 




— *» 



fotr. Jufl. 
Vtntt. I. 



Farias Jmipuictadef 






j'evius hift, 
XS.fo/. 5 or. 
FrMitfco 
Guicciar.nel 6. 



Aflim lhe chama tambem Pedro Juftiniano fei 
gumdo a Paulo Jovio. A caufa parece fer , porque a 
nolla navegacao tirou a Vensza fua patria otrato, e 
ganhodas eipeciarias da India , que os Veneztanos mui- 
card ?etr *,? fentirao > como confefla o Cardeal Bembo tambem 
Jtemb hift.i. e, Y en eziano, e Francifco Sanfovino. E chegou efte fen- 
s«»(ov.nei timento atanto, que na Armada , que Campion Sol-' 
chr.Venetan.dAO do Egypto fez contra os noflos no mar roxo p-ra 
wCfrn.i494.'oslan9ar da India , nao faltarao marlnheiros , e excel- 
lentiffimos officiaes , que forao rnanifeftamente man- 
dad^ pda -Republics de Veneza , como eicreve Paulo 
Jovio. 

3 # Nem efcapamos a Franctfco Guiccisrdini , o 
g qual diz , que forao os noflos mais dignos deiouvor, 

Ubro d e h hi fl le ^meterao neftes perigos , etrabalhos, nao per de- 
de Italia foi, rnafiada .fede de ouro, eriquezas , mas por adquirir e(- 
J7*. v ta notkia para fi , ou pela da.r a outrem , ou por dilatax 
a Fe Catholica.' 

4 S^efte Author, queentre os Italianos he hif~ 
torico dos mais infignes , nao quer de nos mat*, que 

l!iie G u^' iil0y darlhoemo,! » ef em muito trabalho. RafaekVa- 
Juftinian.K "' laterrano na fua Geographta > e Pedro Juftiniano nahi(- 
J 4-M3?5« toriade Ventzi, ambos Italianos, dad a en-tender, que 
o motivo dos Portuguezes foy curiofidaJe de Jeicc- 
brir terras , e mares. Iftoquanto ao primeiro. E quan- 
Ofer. dtreiy.^ ao fegundo , Jeronym o Grofio Portuguez , varao \U 
v seft. EmR. i. luilre por virtude , doutrina , e dignidide Epifcopal^ 
i.felix. affirrna, que o Infante Dosn Henrique, o qual foy o 
Author de noflas navegacjoens , nao trabalhava tanto 
por illuftrar feu nome, quanto por extender a Fe de 
Chrifto. Oqual fe vio claramente-, porque em todasas 
iihfc*i «* ^rras, que defcobrio', a fez pregar, como teftiiica ^1- 
hift. Vmt.i.6. lefcas. Para que he mai* , fenao que affirmao mefmo 
;« pio 3, §. 1. Illefcas, que a Igrefa ChriuVia por efpaqo de pouco mais 
U e mi.*6.m de fetenta annos por meyo dos Portuouezes, e Cafle- 

Julio 1. no «i j • • r J 1 • ■ •■ 2 

irianos , adquino pouco menos augmento , do que foy 
odamno, que recebeo pela pregaqad de Mafumedeerri 
mais de oitocentos annos. 

5 £ naverdade * que os Keys de Portugal nifto 



|r*ww/^ 



■M 



T>e Portugal Cap. LJ1VI. 3 31 

tern feito por pefioas Rsligiofas , Italia o fabe pot aoSr 
fashiftorias, e pelas meimas plantas da nova Chriftra- 
dade, que fe vem tao crefcidas, nao fomente nas, ter- 
ras , que noflfas armas nos fizeraO obedientes, mas tarn- 
bem nis de nofla communicaqao. Onde noto, que fe 
B°da chamou a Sa6 Gregorio Papa , Apoftoto de Ingla- bw. Mm: U 
t-rra* por mandar ao Monge Santo Agoltinho , e ieusG^. "!>«: 
companheiros h a pregaroEvangelhoaosInglezes: pe-3'£*;£ 
la meima razao os Reys de Portugal , que por tantcs ftm Aret 
Min ftrcs , para iito mandados , procuraraS a conver- de i ng iaurx*, 
ia6 dospovosOrientaes, merecem ferchamsdos Apof. 
tolos do Oriente. Entre os quaes Miniftros foraS era 
diverfos tempos, Clerigos, Frades de Sao Francifco, 
de Sao Domingos , de Santo Eloy, Religiofosda Gem- 
panhia dejefus, obreiros continuos » e diligentifllmos 
deftavinhadeChrifto, e era noflos dias iabemos* que 
os Frades de Santo Agoftinho , com zelo Apoftolico , 
fe offercceraS , e deputarao a converiao do Reyno de 
Periia. 

6 E i e ifto nao baftar para aquelle Author , e pa- 
ra outros de iua opiniao , baftara a necefiidade , que 
efte Reyno tinha de eipeciarias , e de outras ccufas 
da India, que osltalianos Ihevendiao" apezo de ouro. 
Digao o que quizerem , que nos faberaos muito hem, 
que todos elles correm perpetuamente os mares , eas 
terras por negociar em fuasmercancias : efpecislmente 
osVenezianos hiad a Cidade de Alexandria doEgyp- 
to, e coropravao as mefmas efpeciarias da India, fe- 
. das , joyas , e perolss , que os Mouros alii traziao* era 
camellos , e depois as vendiao era toda a Gh-riftanda- 
de, com que (efaziao riquiffimos , cornp cqnfefla o 
• leu hiftorico Pedro Juftiniano , e t£l 4'Z e.lle , que ef-p. >/*;».U? 
ta o Reyno de Portugal por razso do mefmo trato. ff.^f l4i 
7 E nao fomente osVenezianos, mas tan^bercJ 6 ' ** * ■--* 
osHebreos hiao pelo mar roxo a terra Opbyr, donde 
trazlao immenia xopia deourp, e prata , eoums cou- 
iaspreciofas; como conta a Sagrada Efcritura : e nao i.n<g+&i& 
.Iabemos de huns , nem deoutros, que com cs talen- 
to«, qu^Serthor ikeentregou ganhaffem pja,tros ,de 

Tt ii slmas 










Farias Antiguidaies 

almas convertidas ao culto doverdadeiro Decs; como 
leiabe dos Portuguezes. Pelo que nao he que repre- 
.Jjcnder , ou invejar aos noffos o Jornal , de que fa 5 
dignos , quero dizer, eflas eipeciarias * deque tao 
lentidos f s moflr.6 , e ainda fe quizerem o euro da 
llha Qpnyr. Da qual , ja que fe offtreceo falter , pot ier 
tao celebrada, e hoje pertencera coioa d= Portugal, 
diremos no capitulo feguinte , em que parte do Mua- 
ao eitava , legundo nos o conje&uramos- 

CAPITULO LXXVIL 

Oniefoy a terra Ophyr , da qual fe'levava a 

Salomon ouro , prata , marfil , "e ou- 

tras coufas. 



E 



• • • 
Sta pofto em memoria no terceiro livro dos 
Keys , que ElKey £ 
mada em Afiongaber , porto do mar roxo, 



Keys , que EIRey Salomon fez^huma Ar- 






naqual mandou criados feus com outra gente pratica 
em coufas do mar , que Ihe mandou Hixao Key de Ty- 
ro: os quaes forao a,Ophyr, donde trouxeraS a Salo- 
mon quatrocentos e vinte talentos de ouro. Confta 
mais do decimo capitulo domefmo.livro, que e<h Ar- 
mada hiaem tresannos huma vezalndia, e que tra- 

smU E.. f fi m . uit0 . OUro ^ prata ' marfil ' bu 8 ios » e Pavoerw; 
hi'prcpe'fiHi SabeHicochama Gabero aquelle porto do mar roxo, e 
Xanos Die. z. dlz f que nao eftava longe de Elena Cidade : a qual 
/. 8.^.1. Elena Dom Joa6 de Caffro diz fer a Villa de Toro. 
xufcdiifoire Domefmo parecer he Jeronymo Rufcelli fobre Ptolo- 

3«/ipfc.7.t. ;* Jofepho no livro oitavo das antiguidades Ju- 
daic.^ fallando defta Armada, e ouro de Salomon diz , 
que o lugar , donde o traziao j fe chamava antigamente 
Ophyra , e em feu tempo terra de ouro f e que eftava 
na India. As palavras da verfao de Kufino fao eftas : 
a Adloctun, qui olim quidsm Ophyra, nuncautem 

si terra 



€. 6, 



»> 



*De "Portugal. Cap. LXXVL 

terra aurea nuncupatur ( eftautem in 
3 Daqui feinfere, que a 



m 

Indias deCaftella nao 



India*, 



fao a terra Ophyr, como quer Vatabolo, ao qual ie- 
gue Villegas , porque Ophyt eftava noOriente, ox\te me%dinA -^ 
todos os Geographos , e hiitoricos fazem a India cha- da at j»fa* 
mada aflim'dorio ludo , como diz.Vibio Sequefter , e thh c u 
Joao Buem . Ess terras Occidentaes chamadas Indias v t ^ s f'P 
nunca tiverao eitenome, ienao depois que forao def-^L^V 
cubertas, que Iho poz o primeiro defccbu'dor dellas,^^^^^. 
equal nao foy o primeiro Chiiftovao Colon, de que bus gentium % 
os Italiancs ie glorn.6 , e os Caftelhanos lbo conf eflao, *• c - 8 ' 
fenao hum Heipanhol , de cpjo feito , e pauicular na- 
q%6 ie di- i em feu lugar. 

4 Tambem le infere nao fer Sofala ; como reft - VeUth. Geegr; 
re Volaterranodealguns, que ocuidavao , porque Sc- 7 - l2 -«-*/'. 
fala efta nicofta de Afiica. Melbor ientirao outros , 
ccrno Gafpar Barreiros , que affirma ler Pegu > e Sa- B * rr - in ctm * 
mXm eMalaca, ailim por . efta terra Malaca ier ch**^™ £ 
msda de Ptolomeo j&wea Cktrfonefo * como por nei ..«,. 
tas partes haver as coufas 9 que (elevavaS aSalomor. 
t O Collegio de Coimbra da Companhia de Jefu tern , 
que he Malaca. Lcurercp de Anania diz, que he allha ( r one ^ n - Co f 
Samatra principalmentc a parte chsmada Manancavo £*• Ld \ c *j 
pot ier fertiliffima de ouro , e dasmaiscoulas : e efta diz 4 . 
fer aAurea Cherfonefoj e que os antigos fe engararao ^^»« na 
em a ter por peninfula, porque na verdade ella hedi- c °f r m <<g r >t"iti 
vidi'a da terra firme por hum pequeno eftreito. Jerc- % q'*£1 % £** 
nymoOrofio, afnda que nao falla na Ophyr , ch;ma^ fl ^^" 
a Malaca Aurea Cherfoneio. Da mefma opiniao he r. l s. 
Pedro MafTeo , e tern por boas as conje&uras dbs queMffew biji. 
dizem fer Pegu , e Malaca , a terra Ophyr de Salo- M ;. L l, t°" 
men. 

f Outros Authores efcrevem da terra Opjhyr mais 
princlpalmente : porque Eufebio Cefarienle traza Eu- 
polemo , o qual diz, que ElRey David apparelhou fuas 
raos em Achanis Cidade de Arabia , e as mandou a Una 
Ophyr, que elle chama Urphe, pofta no mar roxo , 
abundantiflima de metaes de ouro , donda lhe trouxe- 
ratf ajudea quafi immeafa quantidade ddle. Aspala- 



medium. 




Fdrias Antwuidcides 



Uieroiuiilhcis 
Mebr. verbt 
Ophyr, 



BelUrm. in 
&f< $l.V. 10 



1J+ 

vras formaes # que traz Eufebio no nono livro da pre- 
paracaS Evangelica, no capitulo quarto, fao as feguin- 
tes : „ Naves eum ( intelligit David) prasparafle in Cha- 
„ nis , Arabia? civitate , mifiileque inlulam Urphem 
,, inrubromaripofitam, auri metallis abundantiflimam. 
„ Unde injudeam innumerabilia pene pondo auridela- 
,jtafuiffe. 

6 Tambem Sao Jeronymo nos lugares Hebraicos 
diz , que Ophyr he huma Ilha , donde le traziao ouro 
a Salomon , corao ie le nos livros dos Reys. Ophyr 
( diz elle ) Rent in regnorttm libris hgimus , eft lnfnU, mldt 
durum tffcrebatttr Sahmoni , &c. O Cardeal Bellarmino 
. tambem diz f que era huma Ilha do Oriente. E fegurc- 
do ifto nem Samatra pode fer Ophyr * porque ainda 
que he Ilha, nao fe chamou Aurea , fegundo a melhor 
opiniaS, como quer Jofepho , que fe chamafle Ophyr 
em tempo : e alem ditto efta defviada do mar roxo. Nem 
Maiaca o pode fer , porque ainda que le chamou Au- 
rea Cherfoaefo, fegundo os Authores allegados , nao 
he Ilha , e dado que o fora, tambem efta longe do mac 
roxo, Mas nocapituloieguinte diremos o que nos pa* 
rece a cerca difto. 



CAPITGTLO LXXVIII. 

Ipalfiy a Ilha Ophyr, fegundo a op'wiaj do An- 
thor : e qual he mar roxo , onde 
elk efteve. 



J 



Ulio Solino faz menqao de duas Unas , que af- 
fenta f6ra da boca do rio In do , das quaes hu- 
ma fe chamou Chryfe, que fignifica ouro: e 
outra Argyre , que fignifica prata , tao fer- 
tUes defies metaes,que muitos di(Tera6,que tinhao ellas 
ospavimentosdeouro, e prata, fuas palavras la5 cftas: 
4g*h*ii U E-xtra Iudii oftium lant inluls du«, Chryfe , & Ar- 



_ 



*DeTMttgal.Cdt>.LXXV 111. 335 

*> gyre , adeo tstcuncas copia metallorum f ut pleriquej 
$, eas aurea fola prodiderint , & argentea habere. As 
quaes nao ley onde eitejao, -nemo que agora iao, nem 
oufo fallar dellas * boa prova de lhes faltar ja.al'tiz do 
ouro , e prata 3 pois nao fao viftas , nem ouvidas. O 
nome com tudo da rjrimeira , e a fertilidade do ouro, ^^ 
e fer Una concordao. Tambem a fegunda chamada pra- 
ta , faz ao propofito, porque ie levava tanta a Salo-\ 
mon juntamente com oouro , que nap ie fazia eftima 
della , .eaffim diz oDivino Texto : „ Non erat argen- 
„tum, nee alicujus pretii putabatur in diebus Salome- 
„nis, quia clafiis Regis per mare cum claffe Hiram Xtrt'lu 
i> ftmel per tres annos ibat in Tharfis , deferens inde au- 
% rum ; & argentum , &c. Das outras coufas , que lhe 
levavao , na6 trato, porque ainda que foflem de varias 
terras , em huma feira podiao achat todss. 

2 So falta eftar Chry fe no mar roxo , e fe eu me 
nao engano, nem ifto x falta. Para o que advirtoj que 
Rafael Volaterrano diz , que o mar roxo he aquelle ei- Volamt.Geo^ 
treito , a que chamso Sino Arabico. DepoisdelleJoacW- \\. deAra- 

• de Burros , e Gaipar Barreiros, e oGollegio de Coim- **• tripiid. 
bra daCo.mpanhia dejefu, tern, que efte efkeito &*jT"i^ fc ^ 
Arabia he fomente o mar roxe. Nao fey fe feenganarao Barren* cha 
por (ermuito nomeado per razaS da pafTagem dosK-rogr. mde i 
ratlitas, edocafo dosEgypcios, que nelle feafFoga-^ ^^"^^ 
rao indo-lhes noalcance. Mas nos dizen-.os , que odi-^ ^ r< *^ 

r to eftreito he fomente hoam braqo do mar roxo , e o „ imb 'i n °-i bro 
eftreito de Perfia chamado Sino Perfico, he outto bra- Meteor, traty 
<p , e oO:eano j que fe extende de hum braco a ou- *•«•*- 
trp, hvando acofFa da .-^a^af^Kce, Jhe ocprpo def- 
ies dous bra cos , chftma^o. tamb^nvmar roxo. 

5 Affim o fentem Plinio ne&aspalavras : ,, Irrum- pu n , \ gt g 
1, pit inde, & in hac parte gemmum mare in terras, %}.infnc. 
„ quod rubrumdixere noftri, E partkularmente fallah- 
do em outro lugar das perolas diz , que as de Sinu Per- 

' iico do mar roxo fao as mais louvadas : Jy Prascipue au-^. * 
„ tem laudantur circa Arabiam in Sinu' Perfico maris 
„rubri. 

4 Solino diz- Umbsm i Jrrmftt hac Jitter*, rtthvm se$in« «♦ $ $£ 




i 16 Farias Jntipuidades 






mare, idcjtte in dws Sintts fcinduur, O mefmo affirma Pom- 
ponio Mela, ondeoleitor pode ver no Jivro terceiro 
no capitulo fetimo. O, H-breos vifinhos daquellas par- 
tes tambem fentem , que o eftreito de Arabia nao he 
lomente o mar roxo , e tsm tambem nefta conta ao 
de Perfia, porque , nao ha coufa mais notoria por ef- 
critores, epor fama, que os dous famofos rios Ty- 
gas, e Euphrates, que fazem a Mefopotamia , entra- 
rem no eftreito de Perfia 4 e com tudo diz Jofepho , que 

>/«?*,* Ant. entrao no mar roxo , Euphrates , & lygris in marer** 

l.t.t.i.ia brum fernntur. 

&*' . f P°is os Gregos , como Nearco , e O agora , refe- 

strafo G»w/ ,d< ?- p( ? J Str * bo » muito mayor fazem o mar roxo, a> 
i. l6t & mo ie pode ver , quando fallao da Ilha Tirana , de que 
toy Rey Erythra, que quer dizer roxo, dondeomac 
tomou o nome , como elles querem. Mas particular- 
s'/ in m f. nte falli "do o mefmo Strabo dos limites da Arabia 
K 154. " lice * dlz * ^ ue do N °rte tern a Arabia deferta do 
Nafcente ogolfo Perfico , do Occidente o Arabico , e 
do Sul o grande mar , que efta fora de ambos eftes 
golgos , o qual he chamado roxo. Tudo ifto he de 
Strabo. 

6 E porque alguem podia duvidar, feche^aef- 
te mar mxo ate o tio Indo , fora decu.a boca efhva 
Chryfe, defta duvida nos tira Dionyfio Geot»raphono 
fm Poema , que Prifciano fez em verfo Latin .•■>, on« 
de diz, que olndo entra no mar roxo, por eftas pa» 
lavras. 

Eft Schythi* tellus Auflralis flumm ad Indum ] 
Qui ponto rapidus rubro tontrarius exit. 

§[§r.i. 1. ,, 7 ,E dos Latinos Paulo Orofio odiz tambem neftoutras J 
„ la his finibus India eft , quae habet ab Occidente 
„flumen Indum , quod rubro mari accipitur. Refta lo- 
go , que a Ilha Chryle , a que podemos chamar Ilha de 
ouro , eftava no mar roxo pela opiniao dos Gregos j 
qual era Bupolemo , e aflim pel* de Orofio. Sao Jero- 

nymo 




• 



<DeTortugdl.Cap.LXX JUL m 

nymo accrefcenta, que Ophyr tambem fignifica ouro Uienm. epifh 
por razao do lugar , doride o traziao : e pode ier , que 104. «rpr«£ 
os Gregos imitarao nilto aos Hebreos, porque ven-* , * MW » 
do, que chamavao ao buro Ophyr , e a Ilha Ophyr, 
chamaraS elles tambem a Ilha Chryle, affim como cha- 
inao ao oufo Chryle. 

7 O ter ouro deprefente $ ou nao" o ter t nao he 
argumento , que faqa, nern desfaca , affim como Sa- 
matra pelo ter hoje j na5 pode fer Ophyr , (e nunca 
foy : nem Hefpanha , porque le lhe acabou o mui- 
to , que teve , deixa de ler Hefpanha , como fem- 
pre foy. Mas antes he mais certo , que as minas 
do buro j e prata tern feu fundo, e que vem por 
tempo 2 efgotarfe : e affim mayor elpanto fera dizer, 
que as da terra Ophyr ainda durao deide o tempo dE'l- 
Rey Salomon , do que iera dizer, que fao acabadas. 
As da Ilha Chryle a efte eftado devem de ter chegado, 
e por iflb nao lera conhecida nefte tempo, mas bafta, 
que o foy ainds no dosRomanos, pois Solino faz del- 
las tao expreffa rnenqao , e affim Mela , e Plinio* Diz M ^ f _. ^ 
Jofepho, que aquellas naos de Salamon gaftavao ttes p);* i^di 
annos indo, e vindo. Oque feria, porque o csminho jejephus m* 
era comprido, enavegavao fern carta, e fem agulha,'^- '§*:'•:& 
fempre ao longo da terra , fazendo muitos rodeyos i 
de dia , e nao de noite $ no Verao , e na5 no Inver- 
no 1 fazendo a guadas, e matalotagens , refazendo , e 
concertando as naos muitas vezes, no que ttido lede^ 
pa gaftar muito tempo 



CAPI* 




■\\ 




3 3 S Far tat Anriguidades 
CAPITULO LXXXX. 

J±onde; e quando bouve o mar Roxo efte nome , $ 

a caufa da cor de faas agoas , e por onde 

apaffarat os fiihos de Ifrael. 

1 "\T A ° P afremos ta6 deprefla pelo mar Roxo, 
1 \l Se al £ un& fe parao a ver tepuhutas de 
JL w mortos , ler feus ktreiros , e notar ieu 
artificio , paremos nds tambeiTS a ver corn os olhos 
da confideracao ao mar Roxo v humida fepultura dcs. 
Egypcios, cujo letreiro lemos na divina tifcriptura; 
15 v, ^"bmerfc fnat in marl rubr* &&> E notemos tambem de 
efpaqo a formoia cor de fuas roxas aguas, principal- 
mente daquelle Eftreiro, que chamao de Arabia, tao 
cantado, e ta& myfterrofo nas fagradas letras. Mas 
para os Hebreos de tao doce fmemoria , e pira os 
P rtuguezes de nao pequena honra , porque neftes ul- 
timos tempos o defcohtirao, navegarao,, e cofl.arao, 
inqainndo a caufa § donde elje parece ,. que tor a a 
cor, e da cor o nomei A' cerca do qual digo, q e 
fe enganarao os Gegos \ e Latinos em dizer, q e 
£>y ehamado rox* , ou: vermelho- de Eythreo , ou 
u Erythra Key, que foy deile, como eiereve Strabo, 
c*yus pu». e Cayo Pliaio , porque muitx> antes de Erythra ti- 
bift.n4t 1.6 nha elle efte nome. Quando Rtoyfes; paffou aquelle 
e.xyiftjin. braco delle * ou Etreito, a que charnao bino Arabi- 
co j juntatnente com os fiihos de Ifrsel , confta d*. fa- 
grada Efcriptura, que iafechamava roxo. E aflim ef~ 
Bx9*isv»{.ti elcrito no Exodo: Tulit anum Moyfes If rati de ma- 
*i rt nth™* 

* z £ Moyfes he mais antigo r que Erythra. Foy 
Stfin. -r. 4 6 Erythra, corrvi diz Julio Solino, filho de Perfeo,e 
mTua. W ^ Andromeda t e o mefmo diz Joao Boccaccio , Vo- 
Vtermnntil 1 ^terrano , e Cirolo Stephano. Mas o fan to Moyfes 
}&> it c. i 9 precede enn alguns annosa Perfeo j e pelo confeguin- 



3tr*h$ I. 14 



T>e Portugal Cap, LXXX1. 3 39 

te a feu filho Eryrhra , porque die paflbu ^^^ Iatgr , Hi ^ 
mar no anno da creaqao do Mundo 5690 , como cor- l0 ^ u ^ dg 
fta de Euiebio Celarienfe , eclle mcimo Anther tel-Perfeipreg* 
la de Perieo , e de Andromeda mais adiante no e'e^- 
3748 , e ainda node ^.emque ie ve aquella pai-S^VeS 1 ' 
lagem-de Moyies fct mais antiga, que Perieo, -cer.-^/toy 
to ceiTenta e cinco annos. E pbis o mar roxo ja era ( 

aflim chamado, hade fe entender, que eita denomi- 
naqaolhe vinha de mais longe. Pelo que , dizer, que 
Ihe veyo de Krythra hlho de Perieo, nao tern fun- 
damento. 

3 A verdade difto defcobrira6 os Portugueses, 
tjue navegarao todo aquelle Efbreito com grarde cu- 
riofidade : os quaes ende viao o mar veTrrelho , tira- 
vao a agoa fora , a qual achavaS na6 veimelha s co- 
mo parecia , mas muito Clara, e diryltallina ; e en- 
tendendo , que a cor procedia do laftro, mergulbavad 
marinheiros, e traziad do fundo certa mareria a ma- 
neira de coral, que era a caufa daquella cor. Dende 

tie manifefto, quedaqui tomou aquelle mar o nome Brtm)j Dw - f 
de roxoi como fente Joao de Bairos Portuguez , Au- /ttc . i 

thor graviffimO^ Jtadian.mc.J 

4 Concorda joacbimo Vadiano no que efcreve/^. yj _. 
sios commentaries de Pomponio Mela , aonde 6vz ^ ow t' MtL 
Ique ouvio a hum homem de muito credito , cue de 
Jeruia^nl foy peregrinando ver aquelle mar , que as 

juas agoas pareciao vermelhas, mas que tiradas fora 
o nao erao, fenao clafas , como a de qualquer fon- 
te # e que a area vermelha , que fe via ho fundo, as 
fazia parecer vermelhas. 

5 . Efte hiefmo Eftreito he o que paflbu Moy- 
fes com o povo Hebreo, indo do Fgypto para a 
terra da Promifiao. Partio Moyfes de 1 anis Cidade 
real do Egypto, onde tinba fei.td' as matevilbrs, que 
efcreve David no Plalrro 77. Fecit nArabilia in terra. 
^Egypti in cam** Tamos , nefta Cidade refidia Pharao 

com fua Corte , como diz Sao Jeroriymo cpm Elaiaf, -Byeyt^y 
a qual eftava fundada junto a huma das boccas ddr'o tt*h c- \m 
Kilo, chamada della txiefma Tardea, fegimdo Strabo >*&-■ \ 

V 11 % ft PtQ- 



340 Farias Antizuidadet 

!. 4 «>.« l Cftr n de £ a ,! eftma > conforme ao que diz Jofeeho, 

5T./r f fc« An. to 7 Paflar o Eftreito do mar roxo , no qual pereceo 

^ UcI *™° com todo feu exercito , feguindo , e perfe- 

guindo ao. Hebreos ,• que chegarao a termo, coma 

conta o mefmo JofepJio, de eltarem cercados pelas 






coltas , dos Egypcios , que os eflavao vendo , e de 
canqados de os (eguir, dilatavao a batalha para o dia 
leguinte , das ilhargas , de montes , e do roito do 



Stfeph.AMiq* 



6 Nefteaperto fazendo Moy fe's oracao a Deo$>, 
e iendo delle avizado do que havia de fdzer; no & 
lencio da noute levantou lua vara, e extendendo a 
mao lobre o mar abrio~fe caminho, pondo-fe as agoas 
ae hutna, e outra parte como muros. Piffarao os He- 
Dreos ate ie porem da banda d^lem em terra de lAra- 
Dia , eos Kgypcios vendo , que pallavao fern peri go" 
os feguirao: mas como todos forao entrados no mac* 
Moyies, que o tinha ja paflado cam o povo " ex » 
tendeo outra vez a mao fobre elie , e as ag as tor- 
narao a feu lugar* e affbgarao aos Bgypcios ie,n e (~ 
capar nenhum, o que tudo cohfta do sapitulo 14 da 

7 . Djz Jofepho, que os Hebreos erao feiVent s 
mu, tirando mulheres > e meninos , que nao tinha5 
conto , e os Egypcios era5 cincoenta mil de cava!- 
10, duzentos mil homens de armas, e feiscentcs car,' 
ros. Se o caminho , que ie abrio» foy hum 16 , devia de 
ler breve, e largo, porque pafTarao todos os Hebreos, 
e nas coftas entrarao todos os Egypcios , e tudo ate 
a quatta vigilia daquella noute % como nota o tcxto- 
Jigrado , que (ao quando muito doze horas , repar* 
tindo a noute em quatro vigilias , e dando a cada vir 
MarctUF,** S^w tres horas, como prova Marcello Francolino poi 
^^^ aU Q 0rid K ad ? de Sa ° J-ronymo, e de outros Santos. 
«*>, c 1 o Nao falta quern diz* que quando Moyfes to- 

9 cou o mar com a vara ie abrirao doze eftradas , pelas 

quaes pauarao os dnzs'tribus cada hum pela fua. Af- 
Epith4$hin.1m tem Santo Epiphanio , e as tradicpens dos Ra- 
&H binosj 



JSxW e. 14 

vtrf. Ii 



de TortugaL Cap. LXX1X. £41 

binos, que allega Genebrjirdo, e o- Bifp'o Equtlino: . -, 

e parece,que ifto quiz dizer David naquellaspalaviasw^ j'®^ 
do Pialmo i;>. Qui diviht mar* rptbrnm in divifiwes* E%uii.in Ca m; 

9 torque lugar preeifameete pailou Moyles, nao/*. '.*#.'jj ' 
He liabe de certo. Hum comitre Veneziano, que acorn- 
panhou a Solimad BaOa Eunucho, quando foy pot 

efte mar a India combater a Cidade de Dio no. anno 
de 1536, fez hum roteiro delta viagem, que nos te- 
mos em lingoa Italiana , onde diz, que a Armada fe 
levantou de Sues lugar mais interior daquelle Eftrei- 
to, e foy dar fundo em Corondolo, lugar da parte 
de Africa , diftante de Sues ceflenta milhas , que lc6 
quinze, legoas. Aqui , diz elle , que Moyles deu corn 
a vara , e abrio o mar , e foy iubmergido Pharao corn 
todo feu exercito. Devia efte comitre, que na6 no- 
meyo , porque elle fe nao nomeya , nefte leu roteiro 
achar ifto alii por fama. 

10 Da parte da Alia efta' outro lugar chamado 

Toro , por onde dizem Pedro MafTeo f e Lourcnqo ~ f,. ar ^ 
de Anania, e os melmos moradores de Toro $ ope-imd.i'.iptft* 
pailou Moyfes com o povo Hebreo. Os que andarem medium. Anai 
devagar por aquella cofta da terra maritima do Egy~ n '«'" Co J m °- 
pto, lavada das agoas do mar roxo j e notarem ^ffi-.'JJJl* 
confronraqoens do pequeno lugar entre afperos mon- 
tes, onde os Egypcios enlerrarao aos Hebreos quan- 
do paflarao aquelle mar, eomo diz Jolepho, julgarpo 
melhor dos lugares delta paflagem. Mas entre tan to ^"{^ •j* rtr *» 
deix^mos a Corondolo, e a Toro lograr a fama, que ' * 

tem , e dao acerca della j pois Deos os poz naquelle 
Eftreito, hum na parte de Africa, outro de Alia $ 
como duas columnas de memoria , nso mudas , coma 
as de Hercules, mas que fallao , e teftimurrliao o 
que defte propofito achamos efcrito em tantos luga- 
relda lagrada Efcriptura. Porque parece crdem da 
divina providencia , que entre a infidel i^ade deque!- 
las gentes , allim nas efleriles prayas da Ethyopia , on- 
de Corondolo elta, como nas ieccas areas da Arabia 
Petrea , onde efta Toro > nao falte orvalho do Ceo 
para iuftentar alii alguma Chriftandade ? que tenha 

f*c6 






142 Farias Jnttguidades 

frefca a lembranca daq-uelle feuo , pois faltarao indi 

VOroSut l x clos » ^ ue Y ifiv,elm2nte ° moftravao. 

WfPif r " °igo ifto, porque em tempo de Paulo Oro 

fro , fegundo elie affirma , fe viao ainda o$ fignaes , 

e regos das rodas dos carros de Pnarao , nao iomen- 

te na praya 1 , mas dentro na agoaate onde'a viita che- 

gava. Os quaes , (e acafo , ou de induftria f e cobriao 4 

logo milagrofamsnte com os ventos,eondas Te tornavao 

, a defcobrir. Se ainda agora duraraS eftes fignaes, nao 

houvera lugar,de duvida i mas parece, que por occulto 

jiitzo de D^os fe cobrirao paraiiempre .porque naovejo 

Efcriptor , nem fama , que trate delles , fendo tao 

notaveis, e ta5 dignos , que de muito longe fe foU 

lem ver como veftigios de miraculofa antiguidade. 

CAPITULO LXXX. 

§ue Chrifiovao Colon Italiano nao foy o primtm 

defcobridor das lndias Occtdentaes , fenao him 

Hefpanhol, que morreo em cafa do me]. 

m$ Chrijfovao Colon na llba da 

Madeira, 

1 f\^> Authores Italiaaos, comoSaballico, Fran* 

■ 1 cifco Guicciardini t Pedro Juftiniano , Louren- 

V^qo de Anania, Pedro Mafteo, Joao Botero, 

e outros con muitos Cafte'hanos, que nifto confen- 

tem com elles , tern declarado, e publicado a Chriftoi 

vao Colon Italiano Genovez % por defcobridor das 

lndias de Caftella, e aiTim diz Joa6 Botero nas iuas 

%f"lto\7 tQ{z $ OQas uni verfaes, que os He f pan hoes def cobrirao 

Euro?*. ° mu °do novo guiados de hum Italiano. 

2 Efta ifto tao recebido geralmente, que naofe- 
ra pequena novidade dizer , que Chridovao Colon 
Italiano defcobrio o tnundo novo, guiado de hum 
Hefpanhol , que primeiro o defcobrio j e vindo defte 
dcicobrimento deftroqado, e enfermo motreona Una 

da 




de Portugal* Caf>\ LXXX. 34$ 

da Madeira em caia de Chiiftovao Colon, e lhe dei- 
xou os papeis da fnuacao, e altura daquelhs novas 
terras, que deixava defcubertas : por cujas pegadas 
foy Chriltovao Colon a bufcallas # e kin eno , nem 
diffi^uldade as achou. 

5 O Padre Jofeph da Cofta refere de paiTagerrtffr/^W* €a 
o cafo de&e Hefpanhol dizendo , que vincta de dei-ft" »* foji- n a ~ 
cobrir o novo mundo deixou a Chrtiiovao Colon ^Xsh^Zfft 
hofpede noticia de coufa tao grande. Mais fe exten e , I;9 
deo Illeicas na hiftoria Pontifical , porque tratando uiefeas etuPi^ 
de propofi o do defcobrimeneo |das Indias Occiden; * M 
taes , conta , que hum Piloto ,- que navegava peio mar 
Oceano, teve hum temporal tao forte y que com el? 
le foy ievado a terras nunca villas , nem »uvidas : 
donde tomou tao perdido , e deftrocado , que em 
poucos dias morreo na Ilha da Madeira em cafa de 
Chriftovao Colon , ao qua! em pago da hofpedagern 
deu certos papeis > e cartas de marear> e relagao mui- 
to particular do que timha vifto naquelle naufragio. 
Pelos quaes papeis foy Colon ( fazendo os ReysCa* 
tholicos as defpezas)^ defcobrfc as ditas terras , a que 
chamou Indias, Ifto relurtn em poucas p.alavras , que 
Illefcas diz em muitas rnsiaa 

4 Ja confla por eftcs dous Authores £. que Chri r 
itovao Colon nao foy o primeiro defcobridor das In- 
dias , mas pafFao elles tao apreffados pelo inome , 
,e naqao do que primeiro as defcobrio , como (enao 
jfoiTe efte feito o mayor, e d;e roais excellencia - r de 
quantos alguma rdade ja mais vio*^ como diz o Car- 
deal Pedro' Bsmbo Italiano * confiderando-o na peflba p e ^T& 
de ChriftovsS Colon tambem Italiano* 

5* O Chronica Francif co Lopes de Gomara af- 
fim como em muitas partes de fua hiftoria fe mofttcm 
; homem candido, e fingello , a dim fe moftou nffta, 
porque falla muitas vezes. no primeiro defccbridor 
das Indias, e lamenta a defgraqa de nao fe Ihefsber 
o nome , o qua! he bem , que ouqarros por fuas pa* 
lavras traduzidas em Portuguez „ 4 ue teS^as ieguitv* 
tes £ . .j 



e» 




if! 






_., . 34* • Farias Antiguidadei 

ptsiahi/i.dtu ° »» mvegando numa caravella pelo noflo mar 
^it*sc*it ,,Oceano, teve tao forcofo vento de Levante, e tao 
„ continuo , que foy parar em terra nad iabida , nem 
9 , pofta no mappa , ou carta de marear. Tornou de la 
„ em muitos dias mais dos que foy , e quando ca 
„chegou, nao trazia mais, que ao Piloto, e a ou^ 
„tros tres, ou quatro marinheiros, que como vinha6 
„enfermos de foue, e de trabalho, morrerao dentro 
,.de pouco tempo. Eisaqui como fe defcobrirao as 
$, Tndias por 'desdita de quern primeiro as vio , pois 
„acabou a vida fem gozar Bellas, e fern deixar , ao 
>jmenos fern haver memoria de como fe chamava. 
„nem de donde era , nem em que anno as achou. 
j, Bern que nao foy culpa fua , fenaomalkia doutros, 1 
„ ou irjye-ja da qui chamao fortuna. E profegue. 

7 „ Ficara-nos fequer o nome daquelle Piloto i 
fepow todoo mal com a morte feacaba. Huns fazem 
i, Andaluz a efte Piloto, que trataya em Canada, e 
„nallnada Madeira, quando lhe aconteceo aquella 
H longa, e mortal navegaqao : outro Bifcainho, que 
,jtratava em Ingla terra , e Franca , e outros Portm 
„guez, quehia, ou vinha da Mina, ou India : o 
, j qual quadra muito com o nome , que tomara3 . e 
,; tern aquellas novas terras. E mais adiante. 

8 „ Tambem ha quern diga , que aportou a'cara- 
J,velJa a Portugal; e quern, que na Ilha da Madei- 
„ ra , ou outra das Unas das dos Azores : mas ninguem 
,,affirmacoufaalguma, fomente concordao todos em 
„ que faleceo aquelle Piloto em cafa de Chriftovao 
|, Colon, em cujo poder ficarao as Efcripturas da 
,,caravella„ e relaqao de toda aquella longa Viagera 
„ com a marca , e altura das terras novamente villas, 
f,e acabadas, Tudo ifto he de Gomara. 

r, /i 9 „ E noutro lugar diz o mefmo Author: „Chri- 
ttevwe. U jjltovao Colon foy meftre de fazer cartas de nave- 
„ gar, donde lhe nafceo todo bem. Veyo a Portugal 
„ por tomar conhecimento da cofta meridional de 
„ Africa , e do mais,, que Portuguezes navegavao pot 
h melfcor fazer t e vender fuas carta*, Cafou-fe na- 

„ quelle. 



VeToriugaLCap.'LXXX.- 34$ 

-, quelle Rey no , ou como dizem muitos iia Una da 
' Madeira , onde cuido > que refidia , ao tempo, que 

alU chegou a caravella fobredita, Hofpedou ao pa- 
" trao della em ioa caia, o qual Ihe difie a viagern* 
"que lhe ha via fuccedido, e as novas terras, quevi- 
^ra, para que lhas aflentafle em huma carta de ma- 

rear, que cornprava. Faleceo o Piloto nefte meyo 



>» 



„ e deixou-lhe a relacaoi traqa, e altura das novas 
,; terras , e aflim teve ChrillovaS Colon noticia das 
i, Indiast 

iq E noutro lugar diz aflim. ,*Tanto que mor- 
;,reo o Piloto, e marinheiros da caravella Hefpanho\ *** &M 
„ que defcobrio as Indias , determinou Colon de as 
„ ir bulcar , mas faltava-lhe cabedal , e favor de Rey 
,,para o fazer. E vendo a EIRey de Portugal oecu^ 
,, pado na conquifta de Africa , e navegaqa© do Orien- 
,, te , que ordia entao : e ao de Caftella na guerra de 
? , Granada , mandou feu irma6 Bartholomeo Colony 
„ que tambem labia o fegredo , a negocear com EH 
jj Rey de Inglaterra , e na6 trazendo de la o defpa«: 
„ cho i que queria , comecou a tratat o negocio com 
„ EIRey de Portugal DOm AfFonlo o V. f mas nao 
„fe lhe deu credito , nem o favor , que pertendia i 
„ o qual ultimamente foy pedir a EIRey de Caftel- 
„la, e delle o houve, com que foy bufcar as Indian 
ii A caufa de fe chamarem as Indias Occidetv 
*aes por efte nome, diz efte Author, que he porque 
da India Oriental vierad Indies 9 como diz Herodo- i^m £ j$ 
to , a povoar na Ethiopia , que efta entre o mar ro- ^ 
xo, e o rio Nile, que agora pofiue o Prefte Joaoj* 
a qual Ethiopia daqui fe chsmou India , e della to- 
roarad o nome as Indias Occidentaes > porque oiihia, 
ou vinha de la, a caravella * que aportou nellas ; e 
como o Piloto vio aquellas terras novas , chamou as 
Indias , e aflim as chamava fempre Chriftovao Colon.' 
Ifto diz aquelle Author^ o qual nos ajudaremos com 
as razoens , que fe no| offereserem $ e fe verao nos 
papitulos ieguinteSj 

CAPI* 




3+6 FarUs A'nttguidades 

CAPITULO LXXXL 

Moflrtfe , que Colon defcubrio as Indias pelos pa> 

pets do Ptlot^ defunto. E que efias Indias 

{oral jk defcubertas por wuitos, 



3**8 ie Ear- 
res Dtc. I /. I 



Q 



9$mar* Uco* 
ditto , #V«/* S 



Uando Chfiftovao Colon vinha de def~ 
cobrir as Indias entrou no portode Lie 
boa , donde foy fallar a EIRey D jni 
Jjao II. de Portugal , e moftrando-lhe 
oslfidios, que trazia das terras, que deixava defcu- 
bertas, com foltura de palavras accufou , e reprehen- 
deo a EIRey em nao acceitar fua Qflerta. A qual for. 
tura, e acculacao he indicio claro, que tinha elle 
caufa baftante para Jhe fazer a tal offerta , epa^pe- 
dir o credito della , que erao os papeis do Piloto, que 
encobrio. n 

* Antes de Colon partir para efte defc brime> 
to eftava tao certo em achar as Indias, que maudou 
pedir a EIRey de Inglaterra por ieu irma6 Barth* - 
lomeo Colon, que Ihe defle favor, e navios para as 
ir defcobrir , promsttendo trazerlhe dellas mu^to 
grande thefouro, como conta o Chronifta Gomara , 
e quern promette a hum Rey, emal^uma coufa fe 
funda. Mas como elle nao dava o fundamento di 
fuas promeiTas, que com grande aftucia encobria, 
nao ie lhe deu credito. 

4 Com EIRey de Cafrella porfiou mais, e c;a- 
ftou em feu Reyno muitos annos, promettendo-lhe 
terras nunca viftas , e de trazer dellas ouro , prata, 
perolas, e outran coufas ricas, do que he Author o 
mefmo Gomara. E qual horrtem de entendimento na6 
julga , que nao havia Colon de andar imporuirun- 
do tantos Reys com coufat frivolas , e lem funda- 
ment© fern nunca defiftir de feu propofito nor msis 
repulfes > que padejia? Sempre promettaido , ens 

pro- 



T>e Tortugah Cap, LXUXL ?4# 

•promdfas declarando o que queria enccbrir. No que 
parece ordenouDeos, que nos ricaflem cites raft.es de 
-ditos, e feitos feus, para depois delle delyobrir as In. 
dias , o podermos detcobrir a elle per iegundo , e nao 
primeiro defcobvidor dellas. 

4 Por Chriftovao Colon ler Itatiano, ferve muito 
para efte propofito o que efcreve Ludcvico Dcmeni- 
chi Author tambem Ita ] iano degrande elequencia, e 
nome , de que Paulo Jovio fieu a tradttc^o em vulgar 
-da fua hiltoria. Ariirma efte Author , que difte Chrif- 
tovao Colon muitas vezes diante d'ElRey Dom Fer- 
nando de Caftella , que em trinta ehum dias iria de Ga- 
les a Indias, equeaflim ofez, ecn o o dille. Ifto con- 
ta Ludovico Domenichi per effeito maravilhofo da Ar- v men i t nk 
te Matinerefca , como elle clisma na hifteria , que fez 7. e . ?./d. 
dos ditos , e feitos dignos de ttiemcria de diverfos Prin- ?74- 
cipes , e hqmens particulates , anfigos , e modernos. 
Donde feinfere claramente , que tinha elle bem con- 
ttados os dias da viagem daquellas terras por arela<ja6, 
que Ihe deu o defcobfidor dellas , a Mm de as ter apon- 
tadas naeatta de marear por fua propria" mao , com fua 
altura , efituac,ao, edifenci^ M s enganoufe Dome- 
nichi erncuidar, que Colon naquelle breve tempo foy 
a India Oriental , e nao as Indias Occidentaes , as quaes 
*fiaverdade toy. - : 

5 Outro argumento fe medftereee, oqual he J 
que aquellas terras por muitcs fora5 ja defcubertas , fe 
merrao engano-, e nenhum deftes deicobridores oufou 
detornar a elks (que nos (aibamos) por fograr algiirn 
proveito delJas , ou por manifeftar so Mundo coufa tao 
nova* e feria , oupor temer , que as nao acharia outra 
vez , ou pelo perigo de fe nao iaber tornar, E Chrifto- 
va6 Colon feiti aster defcuber to, pode-fe dizer, que 
as foy moftrar com o dedo, equstro vezes foy, etor- 
nou tao facilmente i como quern vay a huma fua quin- 
ta. O que tudo nao podia fer , fenao pelos papers do 
Piloto defunto. . j^iiM d* * 

$ Que foffem ja defcubertas -as Indias Ocaden- J t j 4m It4liS 
taes pode-ie entender, do que eonta Apgiano h\exavr „ ^ Aiw^k 
. i : Xx ii <frto° *• 









AhrabdoOi 
tetio in imm 
nbt, 



H8 V arias Antiguidacles 

Sf^J'J; ^ no de Julio Cefar, e he, que paflou o mar are en- 

Mint* /.»^if° nao na vegado, e navegando alem das columns de 

tfopTiticipiQ. osrcules , detcobrio , emanifeftou aos Romanos mui- 

tas terras , e gentes incognitas, Sao palavras de Appiano 

no quarto das guerras civis no principio. Parece, que 

fe ilto nao fora terra firme , diHera Appiano muiias 

Ilhas , e nao muitas terras. 

s!xiusSe«mf. 7 Sjxto -Senenfe- na fua Biblmtheca (anta triz 

U.w^e/^humas palavras de huma Epiftola deSao Clemente &f 

?»«»/i cipulo de Sao Pedro * e quarto Papa da Igreja Cat he- 

lica, em que o Santo falia doOceano , enos Mundos, 

que eftao alem ^elk : Ocsamts j & mvndi , 9*/' trans ipfutp 

fmt y diz Sa5Qemente. As quaes palavras refeie um- 

bem Sao Jeronymo no livro fegundo dos Commentaries 

da Epiftola aos Ephefeo?. Donde parece, quehaviana- 

quelle tempo alguma noticia do Mundo novo. 

8 Marineo Siculo allegado por Abrahao Ottelio 
no leu theatro diz , que no Mundo novo em cartas mi. 
nas de ouro fe achou huma moeda de Augufto Cefa^ 
aqua! foy mandada ao Papa por Dom joao RiifoA^ 
Fr. 3f^»yw."cebifpo. Confentino. Tambem o Padre Frsy Jeronymo 
$6mJ. i.e. *. Romano* na Republics das Indias, Qccidentaes , moilra* 
que forao la Chriftaos , porque diz , que aquellas pon- 
tes adoravaS a Cruz, e a Santiffima Trmdade. 
$ t KM* m Me. 9 Seneca Poeta tragico tambem fallou das I idias 
0tea aftu ». m nos verios feguintes : 

Vtntint annis 

Seeula feris , qu'ibus Octenut > } 

Vmcnla rtrum laxet , & ingens 

Pateat tellus : Typhifque uovos 

Detegat orks , me fa t err is 

Ultima Thule. 

Quer dizer , virao tempos , pofto que tsrde ] nos quaes* 
o Oceano feabrira, e feachara' huma grande terra , e 
hum Piloto defcobrira hum novo Mundo , e a Una 
Thuie ©ao kui a ultima da$ laras. 

Efta 




*De TortugaL Cap. LXXX1. 349 

Efta conjedtura de Seneca, que alguns chamso 
profecia, nenhum cutro fundamento teve, que Tsber 
elle, que a que Has terras forao defcubertas poralguem, , 
que acafo toy dar nellas » como pode fer Julio Ce(ar$> 
que fegundo Appiano , manifeftou aos Romanos mui-j 
tas terras , e gentes incognitas , que delcobrio nos.ma- 
*e"s ^(Dtffcidentaes : ououtra pefloa em tempo de Augu(~ 
to'rpois delle feachou la moeda , como flea dito. Fi- 
nalmente o Poeta foube ifto com tanta certeza , co- 
mo Chriftovao Colon \ pois ambos fe moverao com 
grande ouiadia , hum a profetizar, -e outrs a promet- 

ter. 

io E porque os Romanos rtao deferiaoa efta 
Conquifta , porventura por fer muito remota , diffi- 
cultofa , e de gente barbara , tendo tantas, etaoilluf- 
tres nacoens na Europa ^Africa , e Alia , humas^ iu-* 
jeitas para confervar , e outras fuberbas para fujeitar: 
conjecturava Seneca, que ainda aquelle defcobrimen* 
to fuccederia a gente de 1 afguma naqao poderofa , e del- 
occupada, que de propofitcabrilTe acjuelles mares, e 
jdefeobriflem aquellas tefras, deque os Romanos nao 
faciao calo : mas que ifto feria tarde , porque tarde fe 
acabaria o Imperio dos mefmos Romanos , legundo 
♦elles tinhso para fi. Ao que alludio o Poeta Virgilio,^. 
quando diffe : 



Mm II 



His ego nee met as reram , nee tewpora {one ; 
lmperium [me fine dedi. 

fi por ifto alguns Authores chamaS * Roma eternal 
fcomo Aufonio. 



Jgnota aterna nejint iibi tempera Romal 

E Symacho varao confular nas palavras ieguintes : $%%?£ 
5,Theodofius Imperator per omnes vias seternas urbis Imf VaJenh 
planum iequutus fenatum , &c, Hjialmente fe eu na6 XW. &4n 

«onje-w^ 




Plat. In Bom* 
facto S. 
Painter. ( n 
Chron. 



5 5 Farias Antiguidadet 

conjetf uro ma! , elta foy a cunjeclura de Seneca; 

n O Filofofoj e Poeta Dante , a que Platina 

chama doutiflimo, o qual morreo no anno do Senhor 

i Jic , fegundoMattheo Palme io ,faz a Uiyfles (shir 

pelo eftreito fora , e navegar pelo mar Oceano ,(obre 

^«**wM»/..ama5efquerda f ate chegar aver todas ss EitreUas do 

wjim. outro Pol< ?' eonoflotao baixo, que nao felev>@tavj 

do mar. Continuou efta viagem por tempo de cinco 

mezes, porque diz, que aluz da Lua fe accendeo cin* 

co vezes, e outrastantas (c extinguio depois deentrat 

na quelle alto ma*. No rim dos quaes lheappareceo hu- 

ma montanha negra por fua diftancia , e tao alta , quan- 

to nunca vio outra. Alegrarao-fe com ifto os na-vegan- 

tes, mas a alegria tornouie em pranto , porque da- 

quella nova terra felevantou hum pe de vento, que 

deu pela proa do navio ; em iim foy-fe ao fundo, 

ii Nao ley dondeefte Author tomou ifto, que 

parece fallar na viagem 4 que os noflbs fazem a Pro- 

vincta de Santa Gruz chamada Brafil , a qual ainda era 

Strab Gtoir ' tem P° de DTOte eftava bem<efquedida. Bern fabemos 

l^^4$L' ge V™Suti>o t <9SoYmo, que efteve UlyiTes em Lisboa, 

ttopthcipio -e tundou aquella nobiliflima Cidadehonra de Europa, 

s§u»,c. ^6. a que Ada , e Africa , e ainda o Mundo novo, pagad* 

feus tributos. Mas que oufaffe jcommetter o Ocean© 

Occidental , e defcobrifle terra taS nova t e tao remota 

de nofla Europa , e ainda da noticia , e opiniao dos ho- 

mens , Dante o diz no lu^ar cjtado. 



GAP!- 



T>e Tmugal. Cap. LXXXI1. 3 5 1 
CAPITULO LXXXII. 

Que os anligos nas tivtrae agulha , mm car fade 

war ear, §Ljte por eltas defcobrio Colon 

as India s. Louva>/e primeiro def* 

cobridor deltas. 



'S 



Uppofto , que aquellas terras foraS ja defcu* 
bertas , legundo parece , porque neo houve 
hum daqUeiles defcobridores , que de pro- 



pofito , e fobre promefla as folTe moftrar , le n 6 Chril- 
tovao Colon fem .as tcr defcubertas ? Refpondo, que a 
Arte danavegacao temdousinftrumentos importantif- 
fimos, iem os quaes fenao pode navegar , lem mani. . 
fefto petigo de perdicao. Hum he a agulha de marearj 
pela qual iabe o Piloto tomar o vento, que ha milter; 
outro he a carta demarear, pela qual iabe qual ha mil- 
ter y e juntamente a altura , que tern o lugar , para on- 
de ha deencaminhar iua nao. Os quaes inftrumentos 
tern entre fi tai dependericia , que hum aprnveita pou- 
co fern o outro. Mas antes diz Jeronymo Rufcellinas Ru r ftll (:? , 
expoficoens fobre Ptolomeo, que a agulha toda depen- 
de da carta, e a carta da agulha. 

% Os antigos carecerao dell s, e aflim todo o go- #&, hffifc $: 
verno da iua navegaqao confiftia na noticia das coitas,^- . 
prayas, e cabos , e na obfervaqao do Sol 4 Lua , e HI. ^JJJJ.^ 
trellas, de que Plinio faz inventeres os Phenrces. ®&jim. *e ? $. /, 
go ifto, porque dequantos Authores fallaraS na pedra*. tpi/?. 4 i. 
deSevar, nenhum fallou na propriedade , como feVe^*/-/' 
em Sao Jeronymo , Santo Ambrofio , Santo Agoftinho,^- "'-* 1 * 
Lucrecio* Plinio, Solino * Achylles Eftacio Alexan- ucm.ie. 
drino, e outrns. E Plinio fallando nosanfrrumentos da Pim, 1. 56.' 
navegsqao , nao falla na carta demarear , nem ©utr©^^ ; 
Author antigo , queeu faiha. E Francifco Barocio f^'J^J'J 5 ' 
trkio Veneziano exceikntiflimo Cofmographo diz , Uw - f ■ e L ^ 
que os mo4srQO& os^iav€ntaj;a4, ejefQnysno Rufcdli>/ W . 



352 Farias Antiguidfider 

?^V.? affirma * 9 ue .°« *nt.igoi nao ti^rao noticia delist 

in fine. , 3 Ac i Ul temos logo a cauta , porque os antieos 

Rufcdiihco Jjnda que por algum aecidente defcobrirao as lndias 

cam. Occidentals nao poderao , nem ouiarao tornar a ellas 

PQrfalta deftes inftrumentos, eaflaz teriao em ietor- 

nar afalvamento. Daqui vem , que ainda agora os vi- 

fmhosdo mar deBichu navegao lempre aolongo da 

terra, nem oufao entrar em mar alto, porque nao tern 

*«*• >v,w. noticia dou(o dapedra defevar, nem da carta dema< 

+£lilni r'r 1 C °T n ° t0U f aui0 Jovio - Mas Chriftovao Colon 

^^i7i. ou fou entrar em altos, e nao iabidos mares a feu fear ; 

ernoftraras lndias com - a facilidade , que a todoi he 

notoria, porque tinha a carta demarear do Piloto de- 

tunto, onde as tinha aflentadas por fua mao propria no 

, clima, ealtura,que o Piloto lhe difle. 

. . 4 E tinha mais a agulha , que nao ha muito for 

, mventada em Amalfi Cidade do Reyno de Napoles ca- 

beca da cofla de Picenna \ como oteftiiicao BiptiiU 

Wusin*. ?io nos Commentaries de Lucrecto i Joao B <ptift]car. 

fe^te»taft na hifloria do Reyno de Nipoles Lourcnoo da 

&*' "~*fi£* «* f « ^ftppW-. ePa'ulo M?o no^ivro 
M*iamti* im *F In j*>, d *taa hiftoria, pofto que os noflos quan- 
joviusbtf.i do paflarao a India ja la achara6 efte inftrumento fe- 
*s- gundoJeronymoOforioXouvem agora os Authores'ltaw 

ft tT han ° s , e ainda osCaftelhanos ( 3e que multo me ^ 
mL.faK R a * t0 * P° r ^ ue ^bem comoiftopailou; aChriftovao 
If'r T V,°r Gn pela maravil>h a <kfte feitoi entre os quaes dlz 

##/««« ^Illefcas , quemerece eterno louvor , efama por em - 
3i v *. prender a mais fa^anhofa coula .< que rnais vimos, 
ijem lemos. Epara mayor graqa iiomeimo lugar. on- 
de conta ocafo do Piloto incognito * da eftes, eom 
troslouvores, a Colon , tendo dito delle ; que peloi 
papeis do outro foy defcobrir as lndias. 

J Mas louverh , como digo, huns ; e outros a 
U>lon, e feifto nao bafta , levantelhe eftatuas, co- 
mo rez a Republica de Genova , fegundo efcreveFran- 
Sanfovininel *!! c ? J 33 ™ *'™ : que eu nao vejo , que elle fizefle 
govemodeia jquimais, doque faz qualquer Piloto, que hojevay 
f*h Gm$*. aquellas terras, e.torna,.uiando dosinftrumentos, deque 
M*4* ©Ue uiouj g no 



*^^ 




2)<? Portugal. Cap, LXXXII. 3 5 3 

6 Oslouvores, eeftatuas ( ie porr.os osclhosnas 
jruitas riquezas, e proveitos, que fe tirao das Indias) 
fao devidos ao primeiro , e incognito delcobriJor del- 
Jas : o qual fe fora em tempo dos antigos Phenices $ 
e Egypcios, deque conta EuiebioCfarienfe , que le- 
vantavao eftatuas, e puahad nomes de Deoies, aos Eu f ek - * e * re ° 
que achavao aleuma coufa em proveito davida com- f™ r * ***k 
mum , tendo-os por bem-reitores, e patronos, nao du* Wt 
vido , que lhe levantarao muitas com ncme , e titulo 
<le divino. Mas nao iomente por etfe reipeito i mas 
•poroutro mais alto he elie merecedor, que morto vi- 
va em yida de eterna memoria , e de longas , e juftas 
bendujoes , pois noilo Senhor o tomou por meyo de def- 
cebrir aquelle novo Mundo, para nelle ie pregar o Evan- 
gelho , e nao haver regiao tao reroota, onde mo pe- 
netrailem os rayos defta divina luz , iegundo o dito 
do Profeta: In omnem tsrram cxivit ftnustor-Hm* Pjalm* Si, 

7 E nao permittio , que el e vivefTe, nem que 
Chriftovao Colon pudefie extinguir fua memoria, por. 
Ventura , para que pern hum , nem outro fe pudef- 
(e com verdade gloriar defte defcobrimsnto , e affim 
ficaTFe elle fendo puramente de Deos , o qual por feus 
juflcs, e fecretos juizos quizainda agora , que aquel- 
las gentes , que ate alll eftiverao em trevas »■ e torn- 
bras de morte , conhecefTem aluz , e remadio de fua • 
I alvaqao. 



CAPITULO LXXXIII. 

§ue hum Portugmz dmonomt as Indias Occident 
taesy e efie joy € que primeiro as deftobrio. 

? ^~\ ^^ ^°^ e ° n om^ defte primeiro defcobri- 

I I dor das Indias Occidentaes , equal a fua 

. ^^L. naqao , nao fe pode faber de certo , prrque 

Chriftovao Colon com o corpo dodefuntoenterroutu> 

&°» para nao ficar couia , que lhe tiraile a gloria , e pro- 

Ty veito 








3 5 4- Farias Anligmhdes 

veito d* Author deft? defcobrimento* Mas nos iremos 
ftndo A pj>r rafto d 3 conjetfuras ]he podemos &S 

? ™ » e gaftado, que o corpo j tao ingraro foy 

com in ;' t >^ C ° nt ? a memoria d * hum homem, 
comcujos trabalhos (efezgrande, eatodos os feus del* 
tennentes. 

Xu-a J Chro^ift, Gomara he de opiniao, que o def- 
cobndor d o Mu.do novo foy Portugucz'pelo nome 
deind.as , que Hiedsu , e que ifto foy , porque os Por- 
luguezes eontratavao em terras do Prette Joa6 das In- 
oias, evindo, ou indo para Ii a caravella , foy Ian- 
mon T?r? U e]I ? P a / tes in ^g"i^s, a que o Piloto cha- 
rrioulndias. lfto feme Gomara no lugar acima refe, 

«iA ° qU ? eu po(r ° dizer aC3rca defta denominas 
9ao ne , que 16 hum Portuguez pjdia dar o ncme de 

i!m J-f^! do n ° VO> p ° rque nem a Cafteihanos. 

nem a ttMcambos , nem a outra nacaa do O.ddente 

Jembrava o nome de frdias ( porque iao dua$ , como 

J>M G« r . l*z Prolom-o, humaalem , outra a quern do Ganees) 

^' B '^ f ao a Po/tuguezes ,' que 6Mt> o tempo do Infante 

feiS'Sg He ™^' «£ ElRey Dom M ,noeI , que a del- 

Mnnoeip... f m ° » lempre trabalharao nirto , ftzendo todos os 

f . aj. annos novas Arm idas , com que defcobrirao tod a a cof- 

ra de Africa , c >m delejo de por efta via d-fcobrir. a 

■inaia , como em efteito defcobrirao 

4 Verfe-ha iflo peloque drz Joao de Barros , quan- 
do ledefcoSno o cabo da boae(peran$a , que heofe 
guinte: „ Houve-ao vift a da quelle grande, e notavel 
„cabo, aoqua! Bartholomeu Dias, eosdefua compa- 
„nhtapnr C aufadospengos f etormentas, ^ueemodo- 
„ brar delle r>af?ara6 , Ihe puzerao nome de Tormentofo ; 
„ mas E!Rey Domjoio viudo elbs ao Reyno Jhe d»u 
,iOutro nomemaisilluftre, chamando-Ihe Cabodaboa 
„ efperan<;a , pela que elle Dromettia dcfte defcobrimen- 
, to da India tao efperada , e de tantosannos requeri- 
i, da. Are aqui Jo. 1 6 ds Barros. 

S P*via o Piloto Poj^uguez obeievendo a -fore* 

da 



Bwra T>tc. I. 




TteToriugalCtp.LXXXllL 3 5 * 

da tempeitade ir parar na^uellas grandes terras , e corn 
o alvorocp de ss achar , imagiraudo , que podiao let 
as que ElRey bulcava portantas, e tao continu s via* 
-gens , tern mais difcurio chamou Ihes Indias. E Chrii- 
tovao Colon com toda a lua matbemaiica, que alguns 
Ihequerem attribuir , nunca lhe ioube dav outro -no- 
me j que ate nifto teguio a relaeao do Pile-to defunto. 
E eipanto-me nao lhe por o feu 1 iegtmdo cs Italianos^ 
fco cubicpios de fa ma ; mas a film como elle encobuo 
o nome do verdadeiro det'ccbridor deilas ", por ganhat 
a fama , e premio de fua fortuna , e tiabalho , pa- 
rece , que nao quiz Dos s que ficafle. o ieu em ter- 
ras, que elle nao defcobrio , e que fofle depois a el* 
las outro Piloto ltaliano chamado Amerigo Velpucci, 
£ que defte houveflem ettas o nome de Ameiica, que , 
boje tern entre os Authores Latino?. Do qua) Ameri- 
go , e de fuas navegaqoens diremos alguma coufa no flnv 
defte capitulo, por nao interromper aqui o fio do pro 

pofito. 

6 Outro. argumento he, que os Portugueses erao 

tao continues naquelles mares , afTim pclas muiras lllus, 
que tinhao delcubertas , como por navegarem , « ftego- 
ciarem por toda a coda de Africa , que he muito mais 
. verofimel feraquelle Piloto Portugusz, que Cȣtelha- 
no, Bifcamho , Frances , ou ' irgl.z , naqoens , que af- 
ii n cor&o naquelles mares tinha6 muito pouco, afTim 
t mbem navegavao muito .pouco. 

'7 Outro he, que Chriftovao Colon pedio navios 
a ElRey de Inglaterw, para ir defecbrir as Indias , prc- 
•ftiettendo trazer-lhe de la grange' the feu ro. AElltey 
de Ciftella promettee terras nunca villas , e dq tra« 
zer deilas ouro, prata , &c» como refere o Chronif- 
ta Gomara, E a ElRey de Portugal , efcreve Joao de 
Barros, que difle , que queria ir bufcar a Una Cypango f arr ^£ J' 
pelo mar do Ponente , que Marco Paulo achou no * 3> ' '* 
Oriente , e nao fe declarou mais. De rnodo*, que nao 
oufou fallar em Indias, nem prometternada, nem por- 
fiar muito, por nae dar alguma fufpeita da certeza , 
que tinha dsqueUas tetsas ,- que o PMoto Hie deixara, 

Yy ii e he 



3 S 6 Farias Antiguidades 

ehe credivel, que temeria, que lhe tirafiem a preza 
das unhas pela haver de hum Portugal. E nunc moC 
. rrou railar L bre coufa certa , como nos outros R<*y. 
ms * Jjwao mcerta , c.pofta em ventura , e ventura de 
mao difcurfo. Do que fe collige, qued'KlRey de Por- 
tugal ie temeo mais , que dos outros , pois delis fe 
euardou mais ; e ifto foy , porque o Piloto defunto era 
rortuguez. 

8 Tarobsm ' parece raza5 digna de entrar no nu. 
mero deltas . j- ver -a pouca conta , que ts Kfcritores 
Uiitelnanos ftzerao defte primeiro deicobrid n : por- 
que huas totslmente nao quizerao failar ne le : ou- 
tros, tefdlauao , nao quizeraS tratar de ieu norhe , nem 
naqao : e nos (ah-mos muito bem , que ha fslencio, 
que fal!a» elpecialmente o feu em coubs rtoflat, No 
que flea dito parte- 'do. que fe podera aq.ii dizer , e 
z««/ i ^ ? em c i ma fe-jocou*- Porque os queixumes nem ain*. 

Vrbeconiiu > a ®H tao * gra dao > quaudo fao neceflarics > cmo dik 
/a/ -_ is Tito Livio. 



fitiim in ini 



CAPITULO LXXXIV. 

Trata-fe dos tres defcobridores do'Mmido nova y 

e do que mfjo fizirai , e quern lhe poz> 

o name de America, 



O qoe flea dito fe entend^ 

meiro delcobridor das India* Occidentaes 



que opij. 



D 

ru -a^~^J° y Pwtugwz » que morreo em caia de 
Chriftovao Colon, oquil elle agazalhou naquelleek 
tado, ou pelo interefle dospapeis, que delleefpera- 
va, oupor fer parente de fua mulher » que ja fe difle 
como fecafou em- Portugal , ou por tudo junto. Depois 
da morte do Pibto Portuguez , foy Chriftovao Ciloa 
as In lias, e foy Amerigo Vefpucci, ambos ItaH*nos, 
dos ^uaes dous iiomens por Id'en extrangeiros aJguus 

Eicri- 



TteTonugalX^LXXXIF. 357 

Efcriptores Pouuguezes lalLo confuiamente. Elitre 

os quaes o Collegio de Coimbra da Companhia <te C e%. c#- 

JtbUS diz, que a quarta parte do mundo chamada „ m t,.i„ 1 t t 

America de Americo feu defcobridor, por fua grai -<fc f «/o c 14?. 

deza Jalcancou nome de novo mundo , e que effca *«" * £j i 7 

parte nao isbida dos antigos ie delcobrio no anno 

1492. Nas quaes palavras da a cntender , que Ame- 

iigo a delcobrio naquelle anno. E noutro lugar cha- 

ma a Chrittovao Colo% defcobridor da America , ten- c*Ueg. co»im> 

do ditto , que Americo delcobrio a America, i ni vreim. 

2 hteftee! Correa nos commentaries de Luiz de^»0 "J^.V 
Camoens diz, que a quarta parte do mundo fe ^^Jr/cJna 
ma America do nome do feU defcobridor Vefpucci cm 1 9£lt z 
Americo Florentine; B, logo abaixo diz, que o prin- 

cipio do ddcobrimento dsfle novo mundo continuou 
hum ChriftovaS Colombo Genovez de naqao por man- 
dado dos Roys Catholicos Dcm Fernando , e Dona 
Jiabel no anno 1492. 

3 Ifto dizem elks Authores. O que nos temos 
notado nefte particular "he-q feguinte. Defpob que o 
Piloto Portuguez delcobrio o mundo novo, foy Chci- 
ftovao Colon a buicallo , e defpois de Colon foy; 
Amerigo Vefpucci, como diz Francifco Gukciardini 
no livro fexto da fua biftoiia de Italia. Colon foy no 

anno .491 feiymdo Sabellico, com o qual concordao ,s*h\ £«». r® 

os Autnores Hefpanhoes : e Amerigo foy no anno ■ /"•s*« 

1497 como diz Pedro Appiano, e o confirma Thorru's 

Porcacchi nas addicc;oens, que fez fobrea hiftoiia ae'£^£'** 

Italia de Frandfco Guicciardini no lugar citado , on- 

de affirma , que Amerigo Veipucci Florentine) fez » 

e efcreveo quatro navegaqoens fuss: duas por ordenv 

delRey Dom Fernando de Caftella para Poente , co- 

me$adas % no anno 1497 a vinte de Mayo. E as ou- 

tras por commiflao delRey Horn Manoel de.Portugal, 

para o Meyo dia no anno 1501 , o primeiro dia de 

May^ Atequi Thomas Porcacchi. Eftas fao as nave- 

gaq ens de Amerigo, que allega Francifco Baroccio, Ffaae: B<w# 

e outros muitos , das quaes vierao a noiTa mao as que in ccfmtgr. I 

tocao a Portugal com mais hum iunamario f6mente,t>ifr<^ 




3 $& Farias Antfouidader 






potto que noflas hiitorias ueuiiuma meo<jao fazett 
delle, nem dellas. 

4 Por Amerigo ferltaliano, e efcrever logo, e 
dar noticia do mundo novo, e paffar a Equinoctial, 
cofteando a .terra dj Brafil contra o Sul , como eic e- 
ve elle mefmo, e notar as eftrdlas do Polo antardi. 
c> K tcrmando a figura dellas, e ler habitada a Zonj 
to rida, coufas tao novas na opiniao d^sgentes, fjy 
tad feiiejado dos Italianos, qjje p3ra eftas couias nao 
Jabem allegar com outrem, e do. feu nome chamarao 
ao mundo novo America, por aquella parte, que el- 
le elcreve , que defcobrio. B foy tao venturofo, que 
com ninguem efcrever delle, fenao elle de fi , atfixn 
voou feu nome com o de America , por benefkio das 
penms dos Efcriptores leus naturaes ,<que os mappas 
daquelle mundo, e os livros , que delle tratao , to- 
todo^o trazem. E os Efcriptores Hefpanhoes ja os 
imitao nilto t mais por fe nao a par tar de tao gerai 
opiniaa, que pelo acha^em fuas hiftorias. Mas an- 
tes Francifco Lopes de Gomara fe efpanta como 
Amerigo fe faz defcobridor do mundo novo. E no? 
tambem nos podemos efpantar, porque nos noflos 
Efcriptores nenhuma memoria achamos de 'fuas na- 
vegaco-fts , nem delle. Principalmente i que no anno 
1501 em que elle foy, ja o Bra (il era defcuberto 
por Pedralves Cabrai , no anno de 1500 , como fe 
'°£ rl l! "*7 e ? ' pode Ver em J eron y mo Olorio, e Damno de Goes. 
lioil'i * Parece, que o metia Deos naquellas Armadas 

D<»&*4 P a ' a v ^ r » notar, e efcrever, e daqui fer havido por 
Goes na e br*n. detcqbridor das Indias Occidentaes , e Ihes dar com 
MRtyD.Ma-ieu nome o nome. e affioi desfazer a traqa de Colon, 
tioelp.ie.ssQ ihe tirar em publico o que elle tirou em iecreto 
ao Portuguez primeiro deicobridor dellas. ,Do qual 
Amerigo * e da qualidade de fua paffoa nao "fey mais, 
que dizer Ludovico Guicciardini nos feus commenta- 
ries das coufas da Europa , que?o mundo novo foy 
dito America de Amerigo Vefpucci Fiorentino nobi- 
liflimo Cofmographo. 

6 O que eu fey he , que daquelle defcobrimen- 



LuJov. Otiie. 
an.D. i$$f 



T>eTortugalCdp.LXXXlF. 359 

to, Amerigo levou a fma, Colon o proveito, e o 
primdio de(cob:-idor as tonne nt<*6 , e tempeftades cau- 
iadoras de iua morte , nas quaes elle iemeou o que 
os outros colherao em bonanza?. Tao delviado anda 
jnuit&s vezes o defcancp do trsbalho, e o premio da 
tiperanqa. Mas Noilo Senhor lho tetfr bem pa go no 
Ceo, poislo tomou por inftrurr.ento de coufa tao gran- 
de, aflim como ca na terra o quu prefervar de ou- 
tras tormentas , legundo leu genero de svida , que era 
sndat fobre o.mat , pondo-o logo ro mais certo \ or 
mais hguro 

Porto delk miferie, e fin del fianto, 

Que he a morte , como fabkmente a confiderou Francif- 

co Petrarcha. E nos ainda que nao fomos pdderoics p (tra rcha c Mz» 

em forcas d^ eloquenda para Ihe darmos em louvor ne 46 infine. 

o que Ihe faltou em nome, com que efte Pdrtuguez 

incognito fofTe conhecido no mundo, com tudoaju- 

daremos a luftentar a alteza de leu glQriofo /fuccefTo 

com efle fraco auxilio de nolTa pena , para que ie nao 

perca a.memoria de' trabalhos , tao ricos cle hens ef- 

pirituaes, e temporaes, e tao dignos daquella eterni- 

cJade de fama , em que os Rfcriptores Gregos perpe- 

tuavao. mo fomeate os inventores de coufas maravi- 

Iholrs , e de terras , como, notou Paulo Jovio, mas teuiyov.bift. 

ainda os artifices de menores artes. u? nmf% 



CAPI- 



- 




a 60 



Farias Jntfe'tiidaclet 



CAPITULO LXXXV. 

Apologia i oudefenfao da Cidade do Porto. Con* 

taje breveffiente cert a guerra , que os Brat ha- 

re nfes fizerao aos Portugalenjes , fegundo 

efcreve LaymundO) e as condipens 

de paz j com que fe compo- 

zerri. ,* 



De Itiymttncli 

mao fey mats 
que al' eg'llo 
fara jfto-, e pa. 
ta 0UIT4S cou 

faro D.Fr.Ber 
nardo de Brito 
ft* Jua Monar* 
tbia Lu (iiana l. 
4<r. 14. t< x6 
el. jc. ij 
heel. 19 



Octroi. 1 it 
ernton. 



& a nobre Cidade db Porto lie o. tron* 
co do illuftre nome de P^rtug 1, como 
atiaz moftramos, que homem L\,rtuguez 
navera , que tenha zelo da honra delte nome , que 
o nao tenha tambem da honra delta Cidade ? Eipe- 
cialmente fe ler o que della deixou efcrito hum Au- 
thor chamado Laymundo de naqao Godo , que pot 
fua pouca felicidade viveo em tempo do intelkifli- 
mo Rey Dom Rodrigo , que perdeo as Hefpanha?. 
Ao qua! nao fey fe lembrou com quanto exame fe h 6 de 
ler os livros, e que nem tudo fe pode crer , *nem ef- 
crever. Leve de coraqao chama a Divina Efcr'ptura ao 
que ligeiramente ere. E afllm o Efcritor tern obriga- 
qao, pois Deos Ihe deu a faculdade do jn'zo, de 
apartar a hervilhaca do gram , e o falfo do verdadei- 
ro. E quanto ao incerto o bom he efcrevello , como 
tal , ou deixallo, porque as fombras , que melhor 
quadra© a pintura da hiftoria , fao as do filencio , quan; 
do a verdade fenao fabe.. 

^ 1 Ja defeitos fecretos, ou efquecidos ,.que to- 
cao na honra* y e affea6 a peffoa , de que fe pode to- 
mar licenqa, ou defenfao de outros fimilhantes, nao 
devem tahir da bocca do Efcriptor prudente, quan- 
to mais da pena, porque parecera mal fer a hiftoria 
viciofa, pais he meftra da vida , como Cicero diz. 
E ainda que he officio do biftorico elcrever o bom j 

e o 



f be c PortugttLCdp* LXXIV. 361 

e O mao , hum p?ra leguir , e o outro para fugir (enten- ^ — ^ 

do oque he publico; donde veyo a dszer Pubho by omipht ^ ' 

ro , que o fabio pe]o erro alheyo emendava o feu , 

cum tudo fempre me pareceo perigola a emenda pro- 

pofta em vicids de gente grave , que por obrigscao 

do iangue , criaqao , e coltumes deve feguir a virtu- 

de , e dar ao mundo bom exemplo , ialvo le com os 

t?.es vicios andaile junto o eitipenriio de (eu cailigo, 

e quando rnenos de jufta reprehenfao. 

3 Doutra maneira, que fruto tiraramos de fahec 
o peccado de David , le nao iouberamos a penitencia, 
que delle fez, que foy hum voluntario caitigo , que 
quiz tomar de i\ , alem do que Decs Ihe deu. E ain« 
da com ifto le quizera o Impersdor Theodoiio de- 
fender com elle na kijuOiqa, que mandou fazer em 
Teilalonfca quando Santo Ambrofio o reprehendeo: 
mas fay-lhe refpondido ■ pelo melmo Santo, como 
conta Paulino, que pois feguira a David no erro, o PauHm$m*l* 
Jeguiffe na Penitencia. Pela qual razao ■ foffirerey ifto t«Ambr.\afud 
melhor em gente baixa, e fervil, porque 'efta tern ^°'*' zE * it 
feito os vicios quail feus proprios , e taoibem por- *• ' 
que os vicios defcem , e nao fobem. No que me pa- 
rece , que advertirao os Lacedemonios antigos , ds 
■quaes iegundo efcreve Plutarcho * nas fuas feftas fa- 
ziao embebedar aos feus fervos , e aflim behados ^pffm.'tn Dei 
metiao nos convites , para que os mancebos nobres mlt , ' et Anton, 
riotsflem nelles a fealdade d^fte vicio. Mas os Roma- 
nos;, que iegundo Theodoreto , forao mais pruden- rhesdor. de] $ 
tes» que os Gregos, nao propunhao aos mancebos ' i Gr&e. ape,' 
torpeza do vicio , fenao a belleza da virtude. E pa--c«r./. sdtnf. 
ra iflo nos convites cantavao ao fom de frautss os tura h6mnts * 
fettos illuftres de feus antepaflsdos, para efpertar os 
mancebos aos imitar* E daqui diz Valerio WizXmo \ Va!er; Mt ^ 
que fahiao os Caroillos, Scipioens , Fabricios , Mar~ ic , i 
cellos, Fabios. e Ce fares. 

4 Nao fey a quern feguio Laymimdo no que 
efcreveo dos Cidadaos do Porto ^ porque rsem foy La- 
cedemonio , nem Romano. E.fe tirou a fe moflrar 
iavefligador de antiguidades , pareccrne , que errou 



36Z 



'arias rfntivuidades 



<t£ baixo efte louvor , porque elk nao fe acha no 
vituperio alheyo, alem dos daouios, que niilo vatf. 
Ao qual quiz dsfenstet o Doutor Frey Bernardo de 
J a r°; dizendo. que Laymundo nao fallou da Cj. 

tallou da dj Porto , e nad fe quer dcsdizer, corio 
adianre ie wttf Pelo qi3e qulz eu coirer . huma lan , a 
neite propoGco, aver fe podia. livrar aouelia illuitre 
Cidade com a pena da penna daquelle Ekriptcr, Q 
*)ue me pareceo devia tentar aff.m'por defcnfao da 
mnocencia, camo do no roe de Portugal, porque nad 
Jie bem , que o deixemos fujar na f'-jnte ; pais t3© 
Jimpo , ehonrada correo ategora por todo o mun- 
do. 

f E vind o ja ao propoGto > diz aquelle Efcri- 
ptor, que em tempo de Q&aviauo vinte e outo'an- 
nos antes do Nafrimento de Chriito Notfo Senhor , 
ifto he, no anno 14 do Imperio de (Xhvhno, e.» 
trarao o.i Galic^os de Tuy , e daquellas partes por 
efta terra d'fcrure Oouro, e Minho , e nio baft ndo 
contra elles refiftencia alguma , vinhao Lzendo em 

a°a g r? nd " deftfu5 ^ a5 - N ^ qual moviment:. a Cida- 
de do Porto com pretexto de dizer ,. que os Calk- 
gos, e P- rtugalenfes eraoparentes , todos Gregos, re- 
Jiquias de Oi omedes , aflentou com eJles paz, dan- 
do-lhes mantimentos , com que os Gftllegos fizerao 
muitos darrvaos pela terra, nao perdoando J a alguen 
fenao fomante a elles Portugalentes, quero dizer na- 
turaes do Porto. O que os Bracarenfes lentirao mui- 
to , havenio por traiqao favorecer a forafteiros em 
damno de amigos , e naturaes* 

6 [(to toy caufa, pela qual depois de recolhidos 
os Gallegos para fua terra , os Bracharenies fizerao 
ao? do Porto, cniel guerra : a qual nao podendo elks 
foffrer, e fabendo > que hum Norbano Caivio Cspitao 
de Ca valla ria ', andiva em Luiitania pela ter a (eu carJ 
go em nome de OfUviano ; mandarso-lhe pedir, que 
os recebeiTs em fua protecqao , e defendetlam d' s Bra- 
■char safe*,, e- fe. faruo fubditos , e tributarios do Im- 

perio^ 



<De Tortuga!. Cap, LXXXF. i H 

petlo Romano , e sdmitmiao preiidio at s n :.urcs a 
dentro. Aceitou Norbano o paitido , e dando batalha 
aos de Braga foy vencido , e mono fpcr buna rru- 
lher Bracharenfe > e os do Porto pottos em may ores 
temores , ique dantes : pelo que pedirao paz aos de 
Braga , que lhes foy concedida com as condiqoens UN 

puintes: 

7 A primeira, que cafando mulher de Brags no 
Porto,, nao levaile dote, antes o noivo deffe ao pay, 
e irmaos da noiva certos veftidos. Ssgunda: Que 
ie ella lhe commetefle raateficio , a nao podefl'e roa- 
tir-, mas o catligo ricafie no arbitrio do pay della , 
ou parente ma is chegadc. Terceira : Que os do Por- : 
to nao levantaflem mures , nem cs reparaflem (em 
licenqa das mulheres de Braga. Quarta :■ Que r.*« 
fruetras -nao tiveflem capitanias, hem lugares afitgua- 
Iados,em pena de lerem pouco 1 eae-s. Quinta : Que 
dando os de Braga algum officio nobre a algum' do 
Porto , buma mulher de Braga armada lhe pozeile 
o pe no pekoco, e affim ficafle habilitado para aquel*. 
la honra. Sexta : Que cafando algum do Porto com 
mulher de Braga , nao foOe eUe o que primeiro a 
deflorafle , mas qualquer dos psrentes 9 que ella ef- 
colhelle \ e o noivo a levaile fobre feus bombrbs a 
camera , onde o parente os eftaria efperando. Seti- 
ma : Que- fe mulher cafada no Porto commettefle 
adulterio.com hotnem de- Braga , oral nao leva iTe 
cutro caftigo, que deixar o veftido. E(la guerra, e 
condiqoens de paz efcreve Laymundo , allegado pe* 
lo Padre Frey Bernardo de Britto , e nos pozernos p r . Ber „ „* 
aqui a fubltancia , deixando outras doutra qualidac!e, Mmrih.t,} 
que alii fe poderao ver , fe houver quern as queira * '? ''•<«• 
ver. Digo ifto , porque cuido nao havera quern for 1 ^ 1 -- * 
fabular queira dar. tempo, e empregar em coula tao 
vii a mais preciofa couia da vida. 



2z» 



CAPI- 




Farias Antiguldades 



CAPITaLO LXXXVI. 

Que no tempo , em que aqmlle Author diz , que 
os Br achat en fes fizzrat guerra aos Portuga- 
lenfes, ainda a Cidade do Porto na$ 
era 



'Augl confefi. 
ic.ii 



3afiUJ.il 



Soiin. U I e. % 



Aug. uhifup. 

Hiersn.L T 

centra lev. c. 

*7 

S*MI. En». 

J/.* 

SKMCinGt* 



Anto AgofrJnho no prlmeiro de fuaj 
confnToens diz affirn : „ Nao dem vo7es 
. „ contra mim os vended;. res , ou com* 
j,pradores de Grammatics, porque fe Ines propozer 
„numa queitao perguntando te he vetcfede o que diz 
j,oPoeta, que Mneas veyo a Carthago? reiporidc- 
,, rao os indoutos, que nao fabem , e os .doutos di- 
,,rao, que na5 be verdade, O fundamento deite'dtto 
de Santo Agoilinho he, que nem Carthago, nem OU 
do , .que a ftmdou , forao no mundo, fenao muitos an* 
nos ckfpois de Mneas, e que Virgiiio no que elcre- 
veo defhs duas petfoas , thes levantou huma gran- 
di(7ima faifHade, Porque Carthago , como diz Juflino 
roy edificada por Dido, primeiro que Roma ietenta 
e dous annos. E Roma foy edificada defpois da de- 
ftruicaode Troya , como affirma Solino, quairocentos 
trinta e tres anno? j dos quaes tirados os ietenta e 
dous, que Carthago precedeo a Roma, iegundoju- 
itin ) , fica manifelto , que Carthago teve principio 
dc/pois de Troya tomada trezentos ceflenta e hum 
annos. £ alfirn nao foy poffivel , que ./Eneas , o qual 
ie achou na guerra Tfoyana, vilTe Canhago, nem Di- 
do fua fund^dora. A qual nao foy a que Virgiiio fi- 
gnifica , fenao caiHifima , como fe collige de Santo 
Agoftinho, de Sao jeronymo, de Juftino* de Sabe!- 
lico, de Joao Boccacio aflim ! na Genealogia dos Deo- 
fes dos g ntios, como no IWro das cahidas dos Priir 
cipcs : e clarameiite <? j& pionyfio Geographo nrs> 

te^uin- 



de Tortugal Cap. LXXXIF. 36$ 

fecuintes veri«j!s do leu Poema j que Prifciano fez »«»/. v.gent^ 
latino : ^ Pm; . i 

gvos prope tendnntur fines Carthagtms alt*, 
Qua \- regnans (*l*x Dido ptr J*cuia vivit % 
At out pudicitiam non petdit carmine fifio. 



Mas} Petrarcha ainda pailou for todos ,tquando diffe 



-Petr. nelTrtctfl 
fo d t la Cfijiita 
*"l pine, e nji 



Pai vidi ft a h done peregrine 
Quella , che per lo fro diktto, e fido 

Spojo , mn ptr z^Enea , volfe ir at fine. 
Tacia it velgo ignorant e i dko Dido-, 

Cut fhdio a" honeftade a morte fpwfe* 
filon vano amor, cam h il publico grtdo* 



Com'mtrita raza6 meteo Petrarcha no feu trium* 
pho de eaftidade a cafta Rainha. Dido , para que a 
hiftovia tritimpharTe da fabula , a verdade da mentira, 
e a virtude do vieio. E tornanc'o ao propofito. 

% A cnetsna queftso de Santo Agoftinho fe po- 
de proper aos indoutos * e doutos fobre a guerra , e 
condiqoens de paz , que aquelle Author Godo efcre- 
veo, que houve entre Bracharenles , e Portugalen- 
fes: e nao ten-ho duvida , que relpondao da mtfma 
maneira. Porque noanno r em que dizjque fora6,que 
foy o decimo quarto do lmperio de Odtayiano Au- 
gufto y vinte e onto annos antes do Nakinaento de 
Chri'fto , ainda a Crdade do Porto nso era no Murv 
do, nem foy em todo o tempo de Auguffo. Equedi- 
go de Auguilo? Ainda em tempo do Imperador An to- 
ri ino Pio , que tomou o governo do lmperio T de(- 
pois do Nafcimento de Chriilo cento e quarenta an- 
nos , eorno dizem Eufebio, e oa'bellico, nao era fun- Eufeh. in cm 
dada.O que atraz- largamente moftramos , e aqui o £■*'"•*»»•* 
tornaremos a fazes com SHsvidade 8 - * V* 




Farias Antiguidades 

3 . p orque primeiramente nao haG^ogr3pho,n"m 
mflorico , fl 3 m Efcriptura alguma daquelle tempo, 
que della faqa menqao .: e confta nos particuJarmen- 

£ms:j£ t\*x c, t Mue r e,fflo A " tonino e,ci "- 

ve de Usboa a Braga , nao haver ainda em feu tem- 
po naquelle fitio , fenao o lugar, a que elle chama 
Gale, que efta defronte do Porto, a que 1165 corru- 
ptamente chamamos Gaya. Traz ette lugar de Anto- 
Bvrenach** nmo Gafpar Barreiros, e o Doutor Andre de Refen. 
25£' £ $\ E P ift5U a,Bartholorn 3 o de Kebedo Conego de 
Toledo, onde diz , que por aquelle lugar, que An- 
tomao nomea fer de trabalhofa ferventia, comecarao 
■pefcadores a morar em bai.xo no piano, donde leori- 
ginou aCidade, que pela commodidade do Porto e 
lugar, que tiaha vifiaho , fe chamou Porto de Ca>, 
e deipois Portucale , como atraz fka' dito. E fe \& 
em tempo de Antonino fora a Gidade , que defpois 
foy chamada Portueals , nao haduvida, fenao f que el- 
Je a nomeara, e fiz*ra della baliza das m-ilhas , que 
vay contando de lugar a lugar, antes que de Cale 
como defpois qus ella foy* fizerao os roqdernos das 
legoas, fern mais Gale lembrar para iiToa ninguem. 

CAPITULO LXXXVII. 

§ue quttro mil pajjfos fazem hum a legoa das Mof- 
fat , e poem-fe a defcripgao do caminho de 
Antonino de Lis bo a a Braga. 



Tkeftnd. in An. 
tiq.Luf. lib. I 
Barreir, nbi 
fup.tit. deGna- 
efalayara. 
Mora] p.% do 
drfcurfogtral 
th A* tiit, e. 
Razon 'de /*j 



P 



Ara que o Leytor veja ifto com os olhos? 
quiz aqui por a dafcripcio Geographica 
defte caminho de Antonino j no qual te 
deve advertir , que quatro mil paflos fazem huma le- 
goa das noflas , como dizem Refende> Barreiros , e 
Morales , e fe ve por experiencia cotejando as milhas 
com as legoas, de que hoje ufamos. O que iempre ie 
ha de tomar com a ialva de poucomais, ou menos. 

porque 




T>e Tortugal. Cap. LXXXV11. 3 67 

Porque afiim c< mo as legoas forao pcftas per huma 
commum efcimaqao , em que podia haver evro, deri- 
de vem, que muitas vezes ha legoa tao gr nde, que 
tern duas j e duas tzo pequenas, que tern hurna : affim 
aconteceo no contar dus paf os , que a hum pequeno 
caminho fe derao mais , e a hum grande rreros. E 
efta variedade da ccrnmum eflimsqao he caufa , que 
nem fempre as leguas concordao com elks , fen£o 
com a falv'a acima ditta. Ao que tambem ajudou a 
depravaqao dos numeros d^fte Itinerario , que cs traf- 
ladac'oies, e o mehr.o tempo perveterao. A defcripcao 
do caminho he a feguinte com as deprava^o.nsj. gu® 
tern elte meu Livro de Antcnino. 

Ab Olijiponn 

Brackaram Anguftam 

iM.PXCXLUM. 

Jerabrham M.P.XXX. 
tcdabin M.P.XXXIL 
allium MP.XXXIL 
Conemhrha M.P.XXXJ1M. 
Ewimo MP. XL. 
Talabrica CM.P.X. 
Langebrica M. P.X.VJIL 
Calm M.P.XUL 
BratlMm M.?,XXXK 



Afinten^a U efta. De Lisboa a Braga Augufta ! 
ha 244. mil paflos. 

De Lisboa a Jerabrica , que he Alanquer, co- 
arco diz Gafpar Barreiros , conta Antonino trinta mil^^^ ^ 
paflos , que fazem iete leguas e meya. tit ' mjJ% 

De Jerabrica a Scalibis, que he Santarem , tnr- vtrtfi 
ta e dous mil paflos , que fao oito leguas, que fazem 
4eAJan^uer a Santarem, " '. ■• P& 




3^S Varus Antigmd&iti 

mrnmem.\ De Scalibis a Cellium , <±ue Barreiros fufpeita 

fer a Villa de Ceice junto a Thomar outros trinta, 
e dous mil paflbs , que ia5 outras tantas leguas , qua 
fazem de Santarem a Ceice. 
• De Cellio a Conimbriga ; que he Condexa a 

Memshdcm, velha, como diz o meimo Author , conta trinta e 
quatro mil paffbs , que fazem uito leguas e meya , 
que ha de Ceice a Condexa , fegundo a carta Geo- 
graphies de Portugal, que Achylles EUaqo fezeftam- 
parem Roma, que anda no Theatro de Abraham Or- 
telio. 

\. , f t)e Conimbriga a Eminio , que Vafeo i Bav- 

sfoiltiflJPt 1 " !, 1 e _ Di °S° derides de Vafconcellos dizem ie< 

M.7 



Scot. inKefm/f. a 

Agada, quarenta mil pafios, que lad dez leguas pju 




co mais ou menos, que efte caminho tern. 
| De Eminio a Talabrica., que Barreiros diz fer 

}a Villa de Cacia nas ribeiras do rio Vouga junto a 
Aveiro , dez mil paftbs, que Ta6* as duas legoas e me- 
ya, que fazem de Agada a Averro. 

De Talabrica a^Calern^, que nos corruptamen- 
techamamosGaya, junto ao Potto, treze mil palTos, 
. que fazem tres leguas , e mil ha , que nao difcrepa 
^cifer/^^^/jnuito das cinco, que contaS nefte caminho, porque 
w£/W^t Qt* fao muito pequenas , e em boa conta fao quatro , em 
^^x^«- que ha diiFerenqa de tres milhas, que por ventura ha 



f^^Sihehppi erro no numero* dos Dittos. Ser Cale a Villa deGayaj 
«feiu 9 dillo Refende , Barreiros, Oforio,, Morales., e a cor- 

rup$ao do nome o confirma-i 

De Cale a Brachara , que he Braga , trinta e 
cinco mil patios., queiao oito leguas, e tres milhas 
pelas boas oito , que co ntao <lo Porto a Braga. Ds 
modo, que os duzentos e quarenta e quatro mil paf- 
ioi defte caminho vem a fer as feflenta e huma le- 
goas pouco mais ou menos , que fazem de Lisboa a 
Braga, 



CAPI. 




CAPITULO LXXXVIII. 

Da mats antiga mtmoria , qtiefe acha do Perto, e 

defeu Bifpado. Do exerckio, eocctifagao das 

mulheres antigas de Braga , e quando efia 

Ctdade houve o tttuto de Augufta. 

>i ry Ste he o caminho de Antonino ; e os luga- 
jH res , que no (eu tempo nelle havia , do que 
JLj manifeftamente ie moftra nao haver ainda 
entao a Cidade do Porto chamada Portucale, Mas pou- 
cos annos depois cuido eu feprincipiou , porque fen- 
do Im per ador Conftantino Magno por ieu mandado no 
Concilio EHberitano forao ordenadas as Igrejas , e Btl- 
pados de Hefp3tiha , e em toda ella com alguma par- 
te da Galliza Narbonente fora6 fdtos feis BHpcs Me- 
tropolitanos, O hiftorico Rales Chronifta d'ElRey de 
Cordova traz efta Ordenaeao $ a qual refere delle o 
Doutor Refende * e nos a puzemos atraz no capitulo mfmd. fylfu 
cincoenta e lei? , cujas palavras Latinas , no que toc&aJ KMum. 
ao Biipados fuffraganeos de Braga fao as feguintes: 
„Dumia, Portugale , Auria , Tuden , Lucus , Ida , 
„ Btitania , Ovetum , & Afturia, E Beuter traz da Chto- i eui gr p. r. 
nica general , que foy ifto no anno do Senhor 3 $8, Oe *$» 
xnefmo anno aponta Vateo tratando delta diviiao dos Vafasum. t. 
Bifpados feita pelo Concilio EUberitano de mandado anm ' iS ' 
de Conftantino , coma atraz diflemos. Morales poem^ ew /. /. 10^ 
efte Concilio quatorze annos atraz, ilto he no doSe*c. 31. 
nho" 524. ( tpi ivd 

z Efta he a mais antiga memoria { que do Porto 
acho. Paffarao-fe da morte de Antonino ate o anno da 
-ordenacao dd> Bifpados cento letenta e cinco annos 
; pela conta de Eufebio , e dentro delle nafceo a Cida- - & }nChri 
de Portucale , e agora Porto , e f e poz nella Sede Epil-^, Cbrifl. ' 
copal. Nem le efpante alguem da brevidade de leu crel l6j . 

Aaa cimenio 



TUtlna in 

Alex. J Phi/Jp 
in fup.an.Cbri 
J 16 1 Villani 
neUe bljl. Uni 
vetf.p. I /.$ 
c. z 



Refentl. in An 
tiq. Laf I. 3 
fit ijS 



Ap^.deh eivj 
4/0/. i<)i N*'- 
Col- Damafc. 
apud Vo later 1, 
Pbihlo* I. 3 
c. 3V moribas 
muUtrurtl. 
Tragus t. 44 



370 Farias Jntiguidades 

cimento , porque taes coufas poaiao concorrer , que em 
tempo muito mais breve pudefle ter accoraodada gran- 
deza, e affira a xiigmidade , como aconteoeo $ Cidade 
de Alexandria dela palha em Italia , a qual foy edifica- 
da em vida do *Pap4t Alexandre terceiro , e elle mefmo 
a.tez apilcopal , comoaffifma Platina , ePhilippo Ere- 
^ita-no no ieu Supplements Clementino , e Jo^o Vil- 
lani. Ooque tudo fe collige , que Laimundo levan- 
.tou hum grandiffimo teftimunho fallo a efta Cidade 
nas guerras , e condicoens da paz , que della efcre- 
veo, ou quern quer que foy o Author, de quemelle 
as tomou. 

3 O fegundo argumemo contra Laimundo he , 
que dado , queo Porto \i fora , e aquellas guerras paf- 
Jarao , nao houvera Oftavio Augufto , ienhor entso do 
Mi)ndo,dedeixar fem caftigoamorte de hum feu Le- 
gado , que naquelle tempo era Prefidente , e Gover- 
nador de buma Provincia em nome do Imperador , e 
'chamava-fe : Pmfe? 9 vel Lsgttas Augufli , como notou 
. Relende, e mais dada afrontoiamente porhuma mu- 
Iher, porque Laimundo diga, fegundo o refere Frey 
Bernardo, que era honra let morto por huma mulher 
de Braga j felo-hia na opiniao do mefmo Laimundo , 
mas nao na dosRomanos,cujas mulheres nao exercita- 
vao outras armas , fenaS a roca j e agulha , como o dif- 
fe Hortenfia Romana naq&ella falla , que fez ao po- 
/vo , que traz Appiano Alexandrino. Nem as Hefpa- 
nhoes lhes erao diflimilhantes , mas antes (e prefavao 
tanto de fiadeiras , e tecedeiras, que diz Nicolao Da- 
maiceno, que cada anno punhao fuss teas i vifta do 
povo, e por (entenca de certos Juizes , a que mais tra* 
balhaVa'alcanqava m«is honra. E Trogo Pompeyo con- 
ta das mulheres da Provincia de Galliza , de q«€ Braga 
era Cidade M.^tropoli, que fe occupavao nogovfcmo 
das coui s decafa , e na favours dos campos , e osho- 
mens na^?rmas, eemripinas 

4 Ora fe eftes Authores foratf eontemporaneos 
de Atigiolto, eefcrever?6 oscoftumesdasmuHieres Hcf- 
panhoes <«m-ge*aJ , e das Gallegas empaniailaT , como 

nao 




VeTortugal. Cap. LXXXVULn* 

«** foeraSmendid damonftruofa valemia dos Bracha- 

?eni« poi"d z Laimundo, que erahonta <er hum ho- 

mem mono porhuma dellas? W«yN£^Jg 

? h " a - 16 tenho pot certo , que fotao as B. f charea. 

fesdaoUne tempo ta P 6 boas fiadeiras., etecedwas, co= 

mo e?ao as outras Hefpanhoes , e como <ao as meima. 

Brachatenles defte noflo, nad ttatando de rna.s araus , 

que da roca , e da agulha. .. L .j 

• f E quando deramos , que fora o que d 12 L.at 

n,,,nHn na6 deixata Augufto de vin<?at efta iniuna , e 

^ofiSm memoria no! Efcritores Romanos a qaa 

nad ha; mas antes achamos emBraga ontnto««i 

oufta, que procedeo de Augufto , o qual p£«PI**? 

metitos; el nad demeritos, porque era a cunha dehofl. m 

? a comodiz Ba^reitos, e dava-.e as Cidades »**«•.».**** 

edigCdelle : affim comoem noflos tempos dao os 

Revs por honra , e merc6 as fuas Cidades , e _V lias, 

alcunhas deleaes, nobres e notave.s Demodo, que 

do queconta Laimundo refendo por Br. J«""®^ 

let tao notavel , n?6 ha nada nos E^^'f^™. 

tTn-i nem Gteeos , e ha efte titulp em Braga , que 

mnftra nS ooder fer o que elle diz. E advirto t que 

no anno dXluerms .que foy o decimo quarto do 

?mper"o de Augufto, ^a Braga naotmhao cogho- 

me de Aueufta, nem omelmo Augufto o tinha para 

Z 7oA , ^^^e-ofogonoannofegmnte que 

foy o degimo quinto , como diz Euiebio V?' a '^ n ' e ' > 

e Orofio t e no anno decimo fexto ZTJK(7a\nhos' W>> < •* 

iegundo o melmoOronoa conqmftat os B'^nhos ,, £ 

e Afturianos , edefta vinda , Braga , e outras teases 

houverao o titulo de Augufta. , por menc.mentos , que 

para iflo tiverao, que Augufto ihes achou, 



Aaa ii 



CAPI- 




rtas Ajniguidades 
CAPITULO LXXXIX. 

§m o'Bracharenfu dtfcmdem dos Grigos , e mo dt 

pj£"~ C °7- diZ Laim «ndo,1 q : ( os do 
torto mop oduoprometter a Norbano Cal- 
wo , que fejariao fubditos , e trtbu. 
' , , tarns do lmperio , ainda que ' 

ent do forao. 

? C^\ Jp 'f°- ar ? ument0 he - qu= dado , que 
safe dos GaUeeos ig'iES & anha - r W*. A 

£~- i r ° ,erfe,ta aquella afronta. Porqu- dos Gre 
gos Huftres j que fe ac^rao na Wra Troyana houve 

saxrffl par ^ H a(as r^s 

dpporrarao em Galhza. Eftes forao Diomedes T>n 
?«^rv% t ^i^fe h ^ - quaes rZetB'Jer 11 ; 

3 . i, gos. Refta agora faber , feerao os Bracarenfes Gregos 

P/^uiL ^ a ™ S tl A ra r ? 1 j,n . 1 ° * que cJarairwnte o diz neftas pala, 

nif 'rfff./i V?^" 111 ' Bracarum • He] eni, Gro- 
''; nu » ^aftellum Tyde. Grecorum foboJis omnia. Quer 

cCzfi i, d % B ? C8 5 n, "» e ^Helenos , e Gronios, e 
2-^««?. w yi oCaft eHoTyd P . Todoadelcendentes deGregos. 
WcZ ,-,/iw » M-s dira agora Laimundo , alJegado peloDcu- 

que 




r de*Porti*g*LCap*LXXXlX. 373 

que vierao de Cattnago certos Carthagenenfes com (en 
Capita6Hymilcon , que a edificara6,e povoarao ,2 pot 
iflo os Portugaleniesexcluirao aos Bracharenfes da gera- 
<ja6 dos Gregos. Duvido de conlentirem nefta oiigern os . ; 

Bracharenfes, porque com ella lhes ficaem cata o adagio, p Uanutias 
P/imca fides, para nao-extranharem aos do Portoa con-^'^^^ Pum 
diqao de pouco leaes , fe elles o f >rao. Digoifto porque mcafides. 
jfe os Carthagenenles tormirao osvicios dos Tyrios f us 
fundadores , como diz Santo Ambrofib * o meimo i^Amhr.UeBe 
liao os Bracarenfes dos Carthagenenfes. t^fC^ 

3 Eu por Gregos os tinha , e tenno por autno- * J 
ridade de Plino bomem doutiflimo , e graviiTimo , em 
cuja coitiparaqao Laimundo he Author minimo no tem- 
po , juizo , difcurfo , curiofidade , ingenho , dcutrina, 
elic^ao. E prova-fe , porque fendo a vinda dos Cartha- 
genenfes a efta terra , fe ella fora muito mais moder- 
na, que a dos Gregos, mais facil houvera deferaPK- 
nioachar memoria , e rafto daquelles, quedeftes, mas 
nao foy afiim , fenao pelo contrario. Affim ditto os mef- 
mos Gallegos antigos diziao , que procediao de Gre- 
gos, nao exceptuando a ninguem , como diz Juftino:^^./. 43 
' Ctfled tut em Grtccim Jibi originem afferunt. E como Bra- Re fend. inAn* 
ga eracabec^a deGalliza , ella havia de fer a primeira'/f- WM 
nefta opiniaS. Pelo que nao fe pode crer , que osPor <J 9 ' * 
tugalenfes , ainda que entao forao 1 diffeffem o que Lai- 
mundo conta delles. 

4 O quarto argumento he , que dado que o Porto ja 
fora, mal podiaS os moradbres della- dizer a Norba- 
110 Calvio , que defendendo-os elle dos Bracarenfes, 
fe fariao fubditos, e tributarios do Imperio Romano, 
pois ja naquelle tempo or Lufitanos , e Gallegos deffca 
terra. dentre Douro , e Minho oera6; os quaes ven- 
ceo, e fubjugou Decio Brutot como atraz moftrarnos, 
e o affirma Paulo Orofio , e Sabellico. Mas antes toda Onfiusi i<\j 
Hefpanha o era ja, ti-ando os Cantabros , e A&ures* 8 **" 1 - En ?s L? 
Confta ifto deLucio F!oro * quando falla nas guem$< Fiom degefiu 
que Augufto veyo fazer a Hefpanha, onde diz 4 que^»». Mc«*> 
quafi toda ella eftava pacifica , tirando aquella parte 
pegada as penhas clo fim do monte Pyreneo, a qua! la- 

va 



Oroftusl, fe, 



374 Forks jfntiguidaete* 

Ma o Oceanogiteriori porque alii viviao itentos do 
Iropeno os Cantab os, e Aftures, duas gentss valero- 
fiffimas. Sao palayras deFioro. 

S O mefmo diz Paulo Orofio neftoutras : „ Ce- 
llar entend*ndo, que pouco eftava feito era Heipa- 
5l nba por efpa$o de dezentos annos deixava u(ar da 
M fuas leys aos Cantabros, e Allures, duasgentes as mats 
„ fortes della, abrio as portas de Jano , epartio para as 
„ Hefpanha com hum exerdto. Os Cantabros i e AU 
j,tures fad huma parte daProvincia de Gallizi , por 
„ onde yay olongo cume do Pyreneo debaixo doNor- 
iufusyimi.f^ ] ffi Ipn S e do °ceano , affim como vaycorrendo. 
hd, h;/i. Rom. UvL llto melmo Sexto Rufo em fimilhantes palavras, 
c.frovincu. que nelle fe podem ver. E porque os Cantabros forao 
TlVTvTl mais P ertinazes » como diz Floro, alguns Authores co- 
XcbrL '' f° Suetonio, e Eufebio tratando defta guerra * nao 

J**™, icarm.l 3 ? mais > ^ ue delles * com os quaes concorda o Poe- 
Qde 8 ta Horacio efcrevendo a Maecenas. 

Servit Hifpana vetus hoftis or a 
Cantaber , /era domitus catena. 

6* E bem notorio he , que os morsdores defla par- 
te dentre Douro , e Minho , ondeefta o Porto, e Bra- 
ga , nao fao os Cantabros , e Aftures, de que fallao os 
Authores allegados 9 que fegundo elles , eftavao na 
Galliza Septentrional junto do mar Oceano , pegados 
nas rochas do Pyreneo ; onde efte monte fe acaba : cu- 
jas regioens fe chamao agora Bilcaya , e Afturia. DdT- 
tes fora Verdade dizer , que nao erao lubditos , nem 
tributarios do Imperio , mas na6 dos moradores do Por- 
to , fe entao fora , porque todos os Hefpanhoes , ti- 
rando aqusllas duas gentes, lhe davao obediential e 
tribute. 



£API- 



2)e T ortugnl. Cap.XC, 3 7 S 
CAPITULO XC. 

GMt tdt infamts undlfoms de paz mm «« *«*** 

nioi,\«e ftmpre efiimarai muito av.r- 

tude : e doodto, que os Godos toes 

tmhai i e forque. 

u ^-x Quinto argumentohei que ascoufas, em 
f 1 que os do Potto confentirao, legundo te ; 
V^/ fete o Padre""daquelle Author Godo , iao 
*0 batal, e totpes , que duvido pbderem ££&* 
Br.zf>. ebarbarosEthyopes ,qua n to nuns. >W«* 
Tianhol como fe entre ella naquelle tempo a yittuoe 
fStSSSM nem M* Havendo £*#*.«• 

que quizerao antes morrer , que rendeife-com pouso 

honroias condiqoens. ii.f„»rihn«' 

i Pois que direy da eftima j que os ^W<mw& Liviut aharU 
faztao da caftidade, e honra dajmulhercs >J D* *£>«*.-'.*« 
Livio, quandoScipiotomouaCtdadechamadaG^tha- 
go nova (que agora chamamos Gatthagdna) troupe- 
rao os SoWados hucna donaella; tao formofa, q«~Pj* 
onde hia -converts* a fi osolhos detodos. E-cnteade* 
doelle eftar^poiada com &Uucio Principe dosCelt^ 
beros, mandou-o chamar , e entregoulha com toda non- 
ra, e imeireza. Com que Allucio fisou ta6 contente , 
<iue a todou os feus enchia de louvotes } ae merieimen- 
tos deScipio. De q&» nafceo affd<parem-fe osMalpa- 
ishoes mwt&b Gapitaopqriua cofltweocia. eh . 



■ 



376 V arias Ant'wtiddes 

iw iw j> a £ P" N para eUe conquittar efta Provincia : £ 

».<«/»/, c.n J" ■? yontmo afluma , que vencida a cents' Hefpa- 

*ano. ma e niii «n=« ' obedeceo ao Imperio X 

na tu 3 reza E d^ Ua a n d f ?„ da ?T Ue r I,a !« refle » e "ao cultivada 
do amor e eftK-^^?"^" brotaraS eilas *«*<* 

de oSaviano k^fft 3 r rtud 5 ' <> ue feria em ' teni P 
ann« , ~ ano Augufto , havendo amais de duzentos 
annos , que efta nacao tratava , ecomrerfava corn Ro- 
.«* I. "'-'^A™*™*. como diz Santo Agomnho n? 1 v?o 
i?n.~ de£ ?eos, m5 Wmente punhao o iugoas 

genus, que venciao, mas trabalh a vaS , queaprendef! 

tender *" L " ina V para affitn * \pVtem e„- 

Iaca6 e™%f i,<in n pela Iin K ua entra a conver, 
»,. ... tef a onfi?L n° S != oftunies . e pelos coftumes as ar- 
PWKA»«,tes, e pohtica. Donde veyo adizer PJinio , que Italia 
-■' "» ma y . e ama das outras terras, eicolhida por 

nfh.^r meS * et . razer acommunicacaopormeyo 
de huma hnguage as difcordes , e feras lineuas de tan- 
tos povos, epara dar ao homem humanidade. 

n* L„.°. r e " te " aS ,'- e P 6de ' nem °=vecrer, que 
os Pcrtug.lenfes genre livre, dado que foraoemtem- 
pode Augufto. admittiflem ta5 ignominio.apaz. Tm 
tap nfarnef condicoens , ou para melhor dizer into £ 
nw imnrui: nem dos Bacarentes . ououtra Rente 

U c. ij; ■ <*alpar Barreiros monftrade baib..ras nacoens , nalci. 
*«»»*<hor. dos para defterro das lepras , e de toda a boa politi- 

£5J^^;S^5 elhs noufas P aflar . ■ crerie, qucW- 

^6 Qqeriao . os Godos mal aos Hefpanhoes , por- 

que-quando entrarao em Hefpanha os acharaoCatholi- 

v;ncgas;»pro- C(}S * eellss vinhaS Arianos, o que foy caula , como 

K S 4? M ' f * * Vlile ^s, para lhes fazerem nao pequena guet- 

' < ra 



BM4 



'DeTortugaLCdp.JC. 377 

ra com Ihes tirar os lwros , e meter nelles feus er- 
ros para os preverter , e trazer a fua ieita. E quern > 
depravava os livros fagrados , -melhor depravaria os 
profenos com interpohcao de couias f alias, einfames, 
de que o odio , e competencia fxrao iempre inven- 

tores. ' f 

7 Dsmais ditto queriao lhes mal , porque coftu- 
mados os Hefpanhoes a politic* Romana , nao fofFria6 Bamjf ^ 
bem iuas brutalidades , como derribar ediikios , quei- ch(Jf t - t ^ 
mar Hvros, f«lfificar outros , aborre*er todos os bons ? AV ia. 
coftumes, e letras ainda na peflba deieu Rey, "corr.oP^««» 
notou Piatina, e Francifco San(ovino» como o qusl y£*~/~!*' 
diz , que por iuas leys4he era prohibido fabdlas : &J de /( * c ^ tt ' 
nao duvido, que levado dette odio, de iuas propria s«fr£ci«c* 
baixezas tirarao aquellas , com que faliamente iem con- tv» 
fideracao dos tempos, e mais circunftancias , quizerao 
infamar aos Portugalenfes , como fez Nero , o qual 
mandou por fogo aCidade deRoma, com que ardeo 
feis dias , e feis noites : e porque queria mal aos Chrif- 
taosj de cujas virtudes era capital inimigo, levantou- 
lhes por homens , que para iflo fobomou , que elJes 
foiaoos Authoresdo incendio, para com elle fundamen- 
to osperleguir com varios generos detormentos, do 
que he Author Cornelio Tacito ,eo Filofofo Seneca Taitut a& 
em huma daquetlas Epiftolas , queandao era ieua noire "^ L * s ' 
para Sa6 Paulo , no fim cle iuas obras , e as tjaz Sixto i'^. S«i 
Senenfe na fua Biblioteca fanta. 

8 Nao quero sffirmar des Godos ifto, para que 
fe nao cuide de mim , que feu ccm Godos Godo^ e^ 
com Cretenfe, Cretenfe , como diziao adagio antigo, 
- mas digo , que de taes naturezas procedern taes abemi- 
naqoens , e vicics. Os quaes querendo Deos caftigar 
com os inftru-mentos , que elles mereciaS , os de Ne- 
ro cafligru com Nero, porque elle fe matou a fi rnef- 
mo , diz Aurelio Victor , e os d' s Godos com osdurWiflori* 
Godos, porque os filhos d'RlRey Witiza, e oConde^^ *«*' 
Juliano meteraoos Mouros em Hefpanha, queaflolan- 
do elta Provincia deftruirao efla Monarchia des Godos, 
iegundo conta Jeronysno (Junta nos Annaes de Arag&o. c^tUanhM 

Bbb Oque/<if. i 



3 7 * Farias Antiguidades 

Qque am u parecer deve b^ur para tetisfaqao do& 

que dells ietuo porotierKlidos. 

CAPITULO XCL 

ZffloJ$ra~fe com® Lahnnndo dijfe r que as gun* 
%m de BragapafJJira'o com alidade do For* 
tjt , que agora he y e mo com Cale , a 
que agora, chamao Gaya* 



O 



Doutor Bernardo de Brito depois de fa hir 
MbHtrttf* m 1 coma iegunda parte da Monarchja , nos, 

ZuJiU txj&fi t- V_^ fez lornar as guerras do Porto. E ainda 
que he tornar atraa, par* nos he ir adiante , pois he 
ir em defeniaa de u& hotaada Cidade. Diz e)le no -li- 
vro fexto daquslla fua obra,, que Lsimundo nao enten- 
deo padarem aquelias- guerras com aCdade do P rt(L 
que agora he , lersao com Cale , ou Gaya , a que o 
mefmo Author chama tarabem Cidade do Porto j fazert* 
do-a mais antiga, eedificada por Gregos, eeftoutrg, 
que agora he, mais moderna j e edifkada por Suevo.v 
A qua! patranha c^m, outras , ja atraz frca refutada. 
Com tudo Laimnndo elfci pertinaz, e da claramentea 
entender , que as guerras forao entre Braga , e a Cida» 
de do Porto, qua aj^ora he. 

x Porque primeiramente nunca nomea fenafi o 
Porto; e fefa41ara de Cale , nomeara-a por ieu nome^ 
ou os feus morad. res por efte nome Calenfes, porque 
ja moftrey por authorid?de de Anton in o, que o feu no- 
me antigo foy Cale. M^s mwca nomeou , comb digo, 
ienao o Porto , a qual Cidade foy d. pois de Auguito,, 
ede Antonino, como tambcm mofrramos atraz. 

I>.*mais difto hum lugsr pequeno como Cale era,, 
de que nenhum dos F.fcritnres antigos , ainda dosque 
eferererao aquella cofta , fez menqao, nem confi J era- 
€io , nao pod h full mar a guerra contra Braga, Gida* 
dg muito podtrofa , ecabe^a deGaliizaj nem hum (6 

dia<„ 



379 



Tie Torfagah Cdp* LXXX. 

&ia , e aflim nao havia niilo ; que iratar , nem que el- 

crever. ; . c ..,..■ 

2 Outro argumento he , que fe asguerras torao 
cnue Calenfes , e Bracarenies , necellaiiamente Lav- 
mutido havia de fallar no rio Douro tao gra.nde , etao 
largo , que no meyo fe mete , e cone aolongo de Ga- 
le, pois nao podiao .huna pelejar com os outros iem 
c paflar , que havia de ier em barcas, e corn difHculda- 
de. E eom tudo Laimundo nenhuma mencao faz delle: \ 
pelo que fe moftra , quenaoentendeoelias regras, fenao 
entre asCidades do Porto , que agora he, e Braga, as 
quaes iem* impedimenta do tal rio podiao entre fi pelejar. 
4 Ifto meimo fecollige manifeftamente das pa- 
lavras de Laimundo traduzidas, e referidas pelo Don- 
tor Frey Bernardo , que ia6 as ieguintes : „ Norbano 
,Calvio Capitao Romano pot evta aquella vez ef p. Fr.&m. 
' caramu^a le apartou dos Bracarenies guiando ^aca^M*^* 

valgada fegura para o Porto , a tempo , que m Bra-? "^ ■ 
*carenies avifados do que fizera , Ihe feiao ja picando 
Vna redaguarda. Tiverao fe os Portuenfes por taoafron- 
9 tados de.verem chegar os immigos a ptegar. as lar^as 
X \ nas porus da Cidade, que mandando.as abririahirao 
li a elles , e pelejarao grande parte do dia fern acaba- 
«, rem de os lanear do campo, &\\ 

7 Das quaes palavras de Laimundo feentende 1 
que asguerras de Braga forao com a Cidade do Por- 
to , qW agora he* e que nao havia entre elles rio, 
que p^ffar , como ha entre Cale., e Braga, pob os 
Bracarenfes chegavao a pregarlhe as lanca's nas por- 
tas. Etambem fe entende de todo o acima dito , que 
na6 fora6 com o Porto , nem com Cale : na6^ com 
& Porto f;porque aindanaS era ho Muttdo : nao com 
Cale , pHatnas razoens , que ficao aportfadas. CujoTV> 
finhospou^o ricrs , mas bem affortunados pefcadcres, 
muitos annos depois derad ditofo principio a Cidade do 
Porto, onde hoje a^emoseftar, 
. 6 K fe etf eftou bem lembrado 3 fimilhante fo£ 
nifto ao Porto a notavel' Villa de Ce tubal j a qnal tarn- 
bem principiara& pekadcres, cbamandc^lhe eiftaft Ce« 

Bbb il tobra 




380 H Farias Antigmdadti 

ch b /m^ a T ntiga £ eto £ ri S a * <i« rt °>e corruptamente 
Fi-rup C ™™ ° nl* aI l V i? ah3 ' D aorigern deCetub,! f az 
« y . ^ n S :? ° Ghromfta Fernao Lopes na hiftoria dHORev 

*";'*■.* Uom Anonio.fegundo delte nome , e Galpar Barrel- 

25? W* Reie ^as antiguidades de Lufitania. g 

A.h'1 Ha i 3fTlbeni ha ^ u f m <% a » que a nobiiiiUma Ci- 
dade de Veneza teve feu principio de pefcadores 

SMF^JK m T mVa ° "•^'""hetas , cm queella cftalfun- 
tZ£l» J ada - I « z efta opiniao entre outras Fiiippe Ellml 

« m*l 5°f Pedro Juftinian ^ Ao que parece , que alludio Pau- 
?*/'/ ? n ' '"'i i° V i°\ r qU3nd ° dlf l e ' que a 8 rande p e ma?niiica Ci- 
j££TF ? ,1 neZa ' Crefce ° de P e q»enos principles pelo 

Ar-i*" ^ofovino na defcripqao de Veocza quer provar, qua 
i|Mfr«ii f . . os «u? ruodadores nap forao de todo pbbres , nem bai- 
xos pefcadores , que parece anda porlaeita fama , que 
elle pertende exmguir. n 

CAPITULO XCtt. 

§lueo Porto empouco tempo ft fez mtavel, e dm 
jeo mme primeiro a eft* regtab , onde e/ia % 
t depots a todo $ Reyno , e que Gd*. 
des Ihe forao fimdbantes mfio. 

DIz Cicero: „ Pequenos fao os principios 
„ de todas as coulas, mas depois ufan- 
„do de feus progreflos feausp-efcentao* 
I acs forao os da tnfigne Cidade do Porto , ema* os pro- 
greflos forao dequalidade, que em menosde duzmtos 
annos veyo a ter dignidade Bpifcopal : e de pois cref- 
cendo^notavelmente em g'randeza , e honraj por razao 
do comercio do mar , e terra , deu nome aos povos Bra- 
caros, parte de Galliza , queforaoci primeiros, que del- 
la fe chamlrao Portugu-zes. O JDoutorRefendeodi'. 

Vol. 




< De c PortugalCaf).XClL 381 

per eftas palavras : bxtcnde*-f* .della onome aos Bracaros, 
parte de Galti*.*. Garibay diz , que toy iilo depois da GaribtyM 
entrada dos Mouros, quando osReys comeqaraS dere- compendh 4 
cuperar as terras de feu poder. M<»- 

2 E em tempo o'ERey Dom Fernando primeiro, 

que mofreo , iegundo Ulefcas , no anno do Senhor WffJ m ^ s m ^ 
efta paite de Galiiza , a que ehamames entre Douro r p e „,.i iCi u:t. 
eMinho, ja tinha perdido onome de "Galiiza, e cha *» F*>Hani* \ 
mava-fe Portugale, como temoftfa por huma efcritu- 
ra antiga do Archivo da Collegiada Real de Guima- 
raensi que he inventario da fazenda do Mofleiroda 
Condeffa Mumadona feito. na Era 1067 , anno do Se- 
nhor 1029, reynando o fobredito Rey t em que eftao 
efbs palavras , qu ja atraz allegamos 1 „ Regnante Prin- 
„ cipe Fernando Rege , & Sanaa Regina , notitiam, 
„vel inventarium mandavimus facere in terrain Por- 

£, tugale. ' 

3 Mas efte rtome nao paffava daqm , e a terra do 
Douro para diante contra oMeyo-dia, ainda conferva* 
va o feu da Lufitania em poder dos Mouros , que a 
pofTuiao. Iilo fe collige do Arcebifpo de Toledo Dom *oi*.t. * 
Rcdrigo j que fallando do mefmo Rey Dom Fenian- f"™**; 
do, dizamni: „Gozando de huma quieta ieguranca &«? **' 
,,partio com hum exercito,queajuntou, a tomar Por- 
tugal , e Lufitania. Foy e#a Jornada no anno da Senhorj 
fegundo o Doutor Beuter, io;o. E em Portugal .nao - BeuUft ft , 
cuido haveria ja muito de Mouros, qi^e tomar , falvo c .jt 

la contra o Douro: mas paflado efterio tomou Lame- 
£0 , Vifeo , e Coimbra , Cidades de Lufitania , como 
dW Ulefcas mfcaslot* 

4 Do acima dito fe collige quanto ha, queo Por- 
to he Cidade nobre , pois por fer efta deu primeiramen- 
te o nome a efta Comarca , e depois a todo o Reyno , 
como deu Toledo ao Reyno de Toledo, Valenca ao 
de Valenca , Napoles 'ao'de Napoles , Fez ao de Fez, 
Cidades todas iliuftres , e famofas , cada qual cabec,a 
do Reyno , a que deu o nome. E pofto que o Porto 

nao foy edificadaporUlyfies , comoLisboa , riem V<* Sf> i !n f s e ^ 

Alexandre j conap Alexandria do figypto, dous Reysum a 4$ 

* fabios, 



ir 



iF arias dntiguidades 






2>/# hifl. Routs 

I Si 

Hyiron. in 
Quxfl. Heb.im 
Gen. If 
Sabel. Enn. I 
/. 4 

Orofiatl i 

Met* I. % c. 4 
Eutrap, I. l c.i 
Cy£r. «fc I tio- 
or&vamtate 



L/yJBJ /. I ah 




1 u 

iabios, e valerofojCapitaensr's ue eftas duas- Cidades 
poem no principio de fuas graniezas , com tudo ma- 
yor grandeza he (emeiles mimos dd fortuna vir a fee 
grands, enobre. Alem difto he outra grandeza de pec 
fi dar im none a terras , eProvincias; que tinhao no- 
mas , fazendolhes efquecer os proprios pslo aiheyo. 
Aqual prerogativa nao teve Lisboa , nem Alexandria, 
parque nenhuma ha^ que tenha todas. 

f Quanto mais , que a (orte ddfos duas nao foy 
de todas. Porque Merida chamada Emerita Augutta, 
foy edificada pelos Soldados de Augufto, como refe- 
rs Oipj Damaico dizem , que por Damafco filho de 
hum criado de Abrahao , como dizSao Jeronymo. Co* 
ryntho por Sifypho ladrao famofo j fe cremos a Sabel- 
lico. E. Roma por Pallor es , entendo Romulo , e Ile- 
rao y legundo a opiniao de todos os Efcritores Lati- 
nos; daqual fao tambem os noflos Hefpanhoes Pau- 
lo Orofio , e Pomponio Mela : Roma quondam apaftori- 
bus condit* , diz efte Author. Da metma opiniao fa6 
os Authores Africanos, como Eutropio , eSaoCypria- 
no, o qual Santo tern por tad baixa a origem de Ro- 
ma , que diz della eftas palavras : C&temm^Ad origin em 
redets , erttbefcas, Bafta que nao houve Cidade das vi- 
iinhas de Roma, que quizdle dar mulheres a Rpmu- 
lp, eaos povoadores da fua Cidade para ie cafarem com 
ellas, mandando-lhas pedir por feus Embaixadores,aos 
quaes ellas nao quizerao darorelhas, mas ante* os dsf-. 
prezarao , como coafefla Tito Livio, . 



CAPI. 



T>e Tortugal. Cap. X CI II. | $ 5 



CAPITULO XCIII. 

Que mult as Cidades de ptqmnos, ebaixos principle^.. 

que vierai ajer Me$as deReynos. $tii o tor- 

to nae recebeo fuafundafei , emmedefo- 

vafieivos , ftnae defeus naturals , cups 

defcendentes nad for ad os que diz 

Laimundo , fenaogenerofos , de 

grande e[pirit& % t valot * 

i Tk *T Eftas Cidades fe v£ a verdade da fen* en- 
J^Wj 9a de CLero , que aeima alleguey. Per- 
•*- ^» que Mtrida veyo a ier a principal Gc '^ Po4MVl& 
de deLufitania, e por tai a< ccnta Pompomoi'Darmf-^ */•*»"■• «•* 
co foy cabaca de Syria ,. como diz a Sagrada Efcrit - E f aitl 7 
ra* Cotiiuho tambem foy aa bee a de Achay*, ehonra 
de Grecia r diz Lucio Flore* K Roma de Cidade de ;/ ffw ^ 
paitores , dos quaes ie formou no principle , Jegundo/to Ret? j.±. 
affi ma Ladancio Firmiano, veyo a ier Cidade de Reys <• i6_ 
que tel pareceo ella a Cyneas Embaixador c'fiiRey ^4*2*; 
Pytrho ,. do que he Author Juftino , e Eutropio. B.j imtsl n> 
depois foy cabeca do Imperio Romano f como todts ftfeg.^ t 
Jab em. 

^2 A qual Cidade he de notar, que foy fegunda 
vez ediftcada r mas efpkkualmente p©r hum Pefcador, 
que foy Sao Pedro. Affim o diz Sag Jeronymo : R+ 
ns*m Petri doUrina [upcr ParamfiirdfivcrAP €krifium^Q}\&. 
dizer , Sao Pedro com iua douttina fundara a Roma io« 
fere a pedra , ChriftO.. 'Pois o augment© , queella re- 
cebeo defta fegunda fundacao , nao fe pode comparar 
com as vitorias, e triunfos do primeiro. Bafta , ^" e 
pela cadeira , que efle gloriofo Apoftolb nella poz reV&„J*%£* 
Jo maitytio, que nella padeceo, ficou entre todss ss s #^ %' J 
Cidades doMimdo efcoUiida, ef«ita cabeqa da Igreia j r „-^ 0P . 



w^ 



VvMlfr. dcre* 
bus Etc!, e. 7 



38+ Farias Aritiguidades 

Catholica , da qual a mefma Igreja «anta , OftUx R»m*; 
Cujo Bifpo he chamado Papa , que em Grego he o rnel- 
mo que Padre, fegundo Waifreda Strabo , nome entre 
Catholicos de grande veneraqao , porque o Papa tera 
de Deos as chaves do Ceo , como aqueile, queeita fen- 
tado na Cadsira de S26 Pedro. . 

3 Mas tornando ao Porto , acho $ que foy fimi- 
lhante as Cidades fobreditas , porque iendo fundada por 
pefcadores, veyo a ier tao nobre , que compete com as 
mais ndbres de Hefpanha , Franca , e Italia. Na6 fe 
adquire a honra fomente naicerido , mas tambem viven- 
do, emorrendo. De pequenas fontes nakem grandes 
rios. Quanto ma is, que receber huma Gidide princi- 
ple dos naturaes da terra , nao he tao pouco , que os 
„ _ . Athenienfes o nao tiveflem por honra > de que ie jac- 
™Lji>\ C " tava6 "'» como efcr€ ve Juftino : e Plutarcho no tratado, 
que fezdodefterro , refere ao Poeta Euripides , que 
foy natural de Athenas, o qual ie gloriava , que os 
Athenienfes nao erao forafteirds , nem vierao de f ora, 
mas que nafcerao alii mefmo. Suas pal^vras , que traa 
Plutarcho , fao eftas : Eft'e povo nao he cmo cxtYAngeiro , 
AUx. Piee. na daqai fomos natures. Mas antes diz Alexandro Piccolo* 
fus i»!i. moral m - m \ na fua Inftituiqao Moral , que (oaquella Cidade 
•7**4 ie deve charnar nobre, cujos Cidadaos por muito terh« 
po atraz defcendemdaquellai mefma regia6j e nao fao 
adventicios , nem forafteiros , mas pfoprios daquella 
Cidade, e daquella terra, E iegundo efte Author, e 
a opiniatf dos Athenienfes, o fundamento danobreza 
do Porto he , que nao deve a fua ftindaqao a gente 
extranha. Aqueile fitio , que o Douro alegra com a vif- 
ta de fuas aguas , Ihe du os fundadores , e habitadores, 
aqueile o nome. E foy em tempo , que os Romanos 
erao fenhores de Hefpanha, e osnoflos pelo trato , e 
long* converfaijao , que com elles tinhao , ufavao de 
fua lingua , na qual chamavao aquella paragem , e a 
■ outras nmilhantes, Porto , como ainda chamamos : mas 
para difference Ihe chamavao Porto de Cale f edepois 
por brevidade , Portucale : e ultimamente pela razao ; 
e naodo ja atraz dito , Porto. 

4 Equando 




DeTortugaL Cap.XClIL * 385 

4 E quando itto nao baitafle , dizia Romulo o r/_ 

primeiro Rey dos Romanos,queas Cidades tarrbem naf- 
ciao de baixos principios r como as outrss .* e que de- 
pois Deos, e avirtude dosCidadaos as faziao grandes 
em riquezas , e nome : „ Urbesquoque, ut csetera , ex 
„ iniirno nafci : deinde quas iua virtus , &Diijuvent, 
,, magnas opes , magnumque nomen fibi facere. Sso 
palavras de Romulo , que traz Tito Livio, Das quaes lwW.i * 
leinfisre, que nao faltou ao Porto o favor de DeQs i Vftei0 !' dH * 
e que feus naturaes nao forso os que diz Laimundo ,"*"""-* 
fenao homens generoios , magnificos , de alta virtu- 
de> e lingular valor -, como fe mofira nefta iua patria. 
Porque affim como Augufto fe glotiava , fegundb diz 
Suetonio, que achata a Roma de Isdrilho, e a deixa- 
va demarmore: afiimelles iepodern gloriar, quescha- sveten.mAu 
rao ao Porto huma pequena fundacao % e a deixiiao ^' c,t8, 
Cidade honrada, que mereceo logo naquellefeu prin- 
■cipio ter dignidade Epifcopal. A qualh'onta he argu- 
jnento da honra , e mericimentos de feus naturaes : cu-; 
jos delcendentes bem fe entende 9 que na6 degeneri- 
rao, porque feella hoje he contada entre astnaisno- 
bres, e principaes detoda Hefpanba, iiio he, porque 
elles com honroios feitos deprudencia , de juftiqa , de 
fortaleza, edeamor da patria , Ihe adquirirao iempre 
muitas qualidades de verdadeira nobreza , que ao no- 
tne do Porto importarao todo cabedal de honra , que 
poffue. Ecomiflo meparece, que a fonte do nome 
de Portugal fica limpa da immundicie, ecifco defalfi- 
dades , que della efcreveo a<quelle Author fabulofo , 
a quern fora melhor ikar encovado onde eftava cheyo 
depo, edebafio, fern fahir a praca de noflo tempo. 
Porque nao fora neceflario fazer efta apologia , que 
tenho feita ha fete, cuoito annos, nos quaes acorn- 
muniquey a muitas pefloas nefta terra * e fora della, 1 
€iperando para agora a mandar em companhia defteu- 
tros metis cuidados de papel , e tint?. Da qual , e do 
jnafs , que fica dito do principio da Cidade do Porto, 
quando nao fe ieguir o fruto de mea intento , porque 
4i>fim r.em iempre refponde ao defejo , e mais nefta 

Cos mate- 




FarUs rfntipuiclacles 






Bahtft. apud 
Allium 1. 4 
MI 



materia , em que os longes de tempos tao antigoa fs6 
ta6 maos de averiguar , ainda o trabalho defta efcritura 
me faz benemerito , porque fe o da hiftoria foy para 
Saluflio arduo , efte me foy affaz pizado depois que 
lhe puz os hombros, que por fracos bera fedeixaei> 
tender, quanto me podia carregar. 

GAPITULO XCIV, 

Do illuftre ^Martyr Sao Pantaleai , que eft a n* 
Santa Igreja do Porto , Cidade infigne 
de Portugal. 



J 



\ y que ate* agora tratamos cia nobreza civil 
da Cfdade do Potto , pede a razao f que trate* 
mos da Chriftaa , poyque eWa deve fer de 
mayor eftima , pois he pofluir , e veaerar o 
lagrado corpo do Martyr Sao Pantaleao, feu dignifll- 
mo . e mHagrolo ProteAor. Onde cotno o Cardeal Ba- 
ronio tenha a palma entre todos os Elcrrtores anti- 
gos , e modernos , da hiftoria Ecctefiaftrca , he coujfa 
muito devida , que da iua tomemos o principio defte 
noflo difcurfo. DizeHe.que houve de Sao Pantaleao, 
de Nicomedia hum Templo de Conftantinopla , que 
por a antigutdade o ter arruinado , o Imperador JufM- 
niano o reftituioem mayor forma, comoefcreve Pro- 
copio no livro primeiro dos Eiificios defte Imperador. 
O qual edificou mais outro em Paleftina a honra do 
mefmo Martyr, coma no Hwg quinto refere o mefmo 
Procopio. E fua C3beqa , efcreve Sigiberto , que foy traf- 
tedada de Africa para Franca no anno do Senhor 8o*» 
Damelma trasladaqao fez huma pequena obraemver- 
fo , Abogardo Bilpo de Lead Tambem em Conftanti- 
nopla efta5 reHqutes fuas no lu^ar chamado Concord 
dia , onde (e celebrou hum Condlio geral , que dos qua; 
tro he ofegundo em ordem. Difto trata Saojoao Da- 
tnafceno no livro terceiro daslmagen?. Ateaqui oCar. 



1)e*PortugaLC<ip;XClV. $V? 

deal Baronio nas nouc,cens do Martyrblogio Romand 
aos vinte e fete de Juliio. 

% De maneira , que o corpo do infigne Martyr Sao 
Pantaleao de Nkomedia (e di vidio : e parte de fuas re- 
liquias eltiveraS em Conftantinopla , paTte em Africa 
nas ruinas de Carthago , donde hum Embaixador de 
CaroloMigno mandado por elle a ElKey de Perfia , 
de tornada trouxe a cabeqa de Sao Pantaleao, ea le- 
vou a Franca, como dteem Sigiberto , e o Beato Abo- 
gardo Bifpo de Leao. \± advirto ao leitor , que Stgfc. 
berto diz cabeca , mas Abogardo diz olios, q ue P ?re ~ 
ce na6 foy cabeca 16. Os verfos do Poema , em que 
o Beato Abogardo diz ifto , (ao csieguintes : 

Nee non Pantaleonh offa rapilm 
Tollunty cunfia fimul, Uguemqut pmm f 
Ai tantas leculis gazas rmndunt. 

5 Francifco Sanfovino Italian© , tratando das Fr*ec &*«f. s 
Igrejas deVenezana defcripqao , que faz della ilJul- L f lit - s p *** 
triflima Cidada , diz o feguinte traduz'do em Portu* '"""*'■ 
guez : „ fcntre eftaslgrejasapparece muito nobrea deS. 
„ Pantaleao fundada no anno iojj. O^orpo do Santo 
„noanno 1314 foy Ievado com iolemniifcroa- Procif- 
„ (ao da Procuracao de Sao Marcos , onde efteve hum 
^ grande tempo , ate' a (ua Igreja : ao governo da qual r 
,,lempre eftiverao homens , que depois fahirao Biiposy . 
„ Arcebiipos, e Preladosimportantes. Ifto he de Sanfo- 
vino. Enaofallando de outras grandezas delta Cidade, 
e de fua immenia riqueza temporal *, da efpiritual tem 
tanta> que fe lh? contao eertto cincoenra e lete Igre- y 

jas , e nellas mais defeflenta corpos de Santos, entre 
os quaes tem o illuftre Marty S36 Pantaleao : e com 
felicidade concernente tem tambem o corpo daquel- 
]e Sacerd *te , e Martyr Hermelao , conterraneo do mef« r*n[, I $ tit. 
mo Sao Pantaleao , que o corverteo a Fe de Chrifto s «» 5 "»«'» 
Noflo Senhoj , como diz o B*eviarto Romano. As GrW <- 
^uaes reliqwias todas cftao^lebaixo deti es ehaves , hu>- 

Ccc ii ma 




388 Farias AnUguidades 

raa he dos Proeuradores de Sao Marcos, que fa6 ho^ 
mens illuftres., e depots do IMndpado : efh he a ma- 
yor dignidade : a outra he dos Proeuradores daquellas 
Igrejas : e a tercelra tern o Prelado mayor cbllas. Aflirn 
sanf, 1 8 th., o arfirma Francifco Sanfovino. 

1 di - ^ 4 Defies efpirituaesthefourosdaquellanobiliflima 
Qdade na6 nos eipantemos , porque os Venezianos 
fao quafi fenhores, elivres navegantes detodo o mac 
mediterraneo , e fazem fua mercancia nos portos de 
Africa, de Afia, e de toda Grecia , principalmente 
de Conftantinopla, E corao os Sarracenos , e Turcos 
conquiftaflemtodas as terras de Levante, que erao de 
Chriftaos , osmaisdevotos fugiao trazendo comfigo as 
reli^uias , que tinhao : e como vinhao parar nos luga- 
res rnaritimos , alii as punhao onde melhor lhes pare- 
cia. Donde os Venezianos correndo todas aquellas cof- 
tas , ou por rogos , ou por dadivas as alcanqavao de 
quern ainda alii as nao ttnha por (eguras , oupor tarn* 
bem veaeradas , como era nzao. Sabemos mais aJem dit- 
to , que na Igreja deSio Gregorto em Roma eftarhum 
braqo de Sao Gregorio primeiro , e huma perna de Sa6 
Pantaleao. Aflirn o diz huma cur tola relaca6 de reli- 
quias de £oma , queanda no fimdo Martyrologio Mau» 
Eolico , e he notorio por muitas outras , que ha da* 
Igrejas , e reliquias de Roma. 

f ifto aflim pofto , refervando efla reliquia de Ro- 
ma para feu lugar , vejamos agora donde o corpo de 
Sao Paatalea5 toy trazido a Cidade da Porto, fo de 
Veneza , fede Franqa , fe de Conftantinopla. Pfimei- 
ramente de Veneza parece nao poder fer * porque os 
Venezianos fao- prudentiffimos , e guardao joyas com 
orecato, que temos dito , ecaftigao os delictos ieve- 
riffimamente. A'em difto o corpo defte Santo ainda ef- 
ta em Veneza, como flea referido.. Pois em Franca naa 
eftava corpo, para dizermos ? que de la veyo. Fica lo- 
go Conftantinopla: mas nem ella fatisfaz. Porque na- 
quella Cidade eftavao reliquias de Sao" Pantaleao } co- 
mo diz Baronio,e nao o corpo. Demais difto eile foy tra- 
aido ao Porto em fepukhro de pedra iude , nao conver 

aientc 



<DeTortHgal.Cap.XClP. 389 

niente a tal Ssnto. £ nao ie pode crer , que naquel- 
la rica, e Imperial Cidade, onde elle era tab hoi.ra- 
do , e venerado , que os Imperadores 3he fazuo turn- 
ptuofos templos , eftiveflem fuas reliquias em fepu:- 
chro de pedra raza , que EIRey Dom Jo; 6 II de Por- 
tugal logo eftranhou, e houve por mdecente, -man- 
dando-lhe -faze* outro em -feu teftamento % que ref- 
eondefle ao pre^o do depofito , que nelle bavia de 
eftar, o qua! he de prata, e dourado , em que elle ef- 
ta metido fobre o Altar mayor da Igteja cathedral do , 
Prrto , como fe le no Martyrolcgio dos Santos de 
Portugal ,feito pelos Padres daCcmpanhia de JESU 
aos 17 de Julho. Finalmente fe em Conftantmopla el- , 
tavao reliquias de Sao Pantaleao no tempo do iaque 
de Mahomet gram Turco , iem duvida fe rrofana- 
rao , e perderso com grande irreverencia de Deos , e 
de feus Santos , como abaixofc dira. 

q6 Pelo que tenho por mais certo nefta duvida 
o ue diz a tradiqao, ifto he , que o corpo de Sao « 
Pantalea6, que efta no Porto , foy trazido de Ro- 
ma por certos homens devotos , fugindo certa perfe- 
guiqao de barbaros. Os quaes hcmens toda fua vida 
affirmarao , que trouxerao aquel'e fanto corpo de Ro- 
ma. Mas o anno, em que ifto foy, e que perfegin- 
930 aquella folTe, os Authores do Martyrolrpio idle- 
gado o nao dizem , que parece o na6 poderao deko- 
brir, Nem menos o Meftre Vafeo , ccmo fe v^nc^;^^^ 
itas palavras iuas , em que falla defte fanto," e don^ p^jos. 
de foy trazido ao Porto ; „ In hac periecutione , id 
,;eft Diocletiani , et Maximiani, paflus eft Romas 
„ beatus Pantaleon , cu jus corpus pofterius a Romanis, 
|j fugientibus perfecutionem barbarorum, devedum eft _ ' 
^,in Portugaliam, atque in civitate Portugalenfi mi I- 
,»tis etiam nunc claret miraculif. A fentenqa he. Ne- 
fta perfeguiqao de Diocleciano , e Maximiano pa- 
deceo em Roma o Bemaventurado Sao Pantalea 6 £ 
cu jo corpo defpois foy levado a Portugal por certos 
Romanes, que fugia6 certa perfeguiqao de barbate^ 
e agora he clafp por myites milagrcs na Cidade d© 

Fo5to» 




Ganl 
'. 44 



''•7 



J90 Far Us Antlguldades 

PortaJPoraquivemos, que Vaieo primeiramentef.* 
a Sao Pantaleao , qu 5 efta no Porto , Romano . e o 
lugar dei-u martyrio a •Roma, e que n*6 tratou do 
tempo de iua vinda , nem daquella perieguicao , que 
lena pelo nao faber , nem o achar efcrito. Garibay 
tratanio dos Martyres defta grande perfeguicao, no- 
tou tambem , que padeceo em Roma o Santo Mar- 
tyr PantaleaS , e que feu corpo foy traztdo ao Porto 
de Portugal. E quern havera , que buvindo o nome 
de Koma , dito por aquelles homens , e por Vaieo . 
e por Garibay , nao iaiba , que Cidade eltahej pois 
Roma he unica no Mundo , e unico aflento do Vi- 
gario deCnnttp na terra ? Mas tornando ao propok 
to , vernos que forao dous os Santos defte neme i 
hum de Nicomedia y outro de Roma ; pofto que o 
C,ardeal Karonio , ou com advertencia * ou fern ella , paf* 
iou por efte de Roma , de que entendo foy a cauf a , por- 
que Vaieo lho nao apprefentou tao authorizada, co- 
**~», j ™?, elIe efti » Pois a Igreja Cathedral do Porto faz 
unt/enr. ^ elle °offido deiua traslada 9 a6 para a m«fma Igre- 
lug.msii&t J a » eaquella Gidade o honra como feu padroeiro, de 
quern recebe muitos beneficios , emilagres , que faz 
em favor daquelle povo f o que tambem notou Va- 
fco acima allegado. 

7 Mas fe Baronio o ddxou em filencio por in* 
advertencia, o que eu mais creyo , menos me efpan- 
tarey* porque trazendo elle os olhos polios ao longe 
em hiftorias peregrinas, para dellas recolheroque fi- 
zefle ao argumento da fua , nao foy muito efcapar- 
Ihe o que tinha junto defi, como foy nao f6menteo 
corpo defte preciofo Santo > mas tambem o de Sao 
Pantaleao de Veneza : e a perna de Sao Pantaleao, 
que fe moftra em Roma na Igrejra de Sa6 Gregorio, 
como atraz diflemos k Os quaes efquecimentos bem fe 
deixa ver, que fao de animo divert ido j ecanc,adodo 
eftudo. Efuppofto ifto, jaqueachamos os membros ; 
inteiremos os corpbs. Asreliquias de Conftantinopla J 
e a cabeqa, e os oflos de Carthago , que fora6 para 
Franca , perteflcein ao> corpo de^ Veneza-, oqual en* 

tend*. 



tteztmbr. 



de 'Portugal. €ap : XC1V. &i 

tendemos fer o dc Nicomedia. E a perna de Roma 
he de Sao Pantaleao Romano , que toy trazido ao 

8 Qual fofle aquella perfeguicao de barbaros , e 
em que tempo viefle aquelle Santo, dilo-hey , na6 
affirmando, mas conje&urando debaixo de minha pro- 
pria cenfura, de que o Leytor mo eihra efqueudo. 
Nao foy perieguicao a de que aqui ie falJa, mas foy 
juito medo. Qual foy a que obrigou na geral defbui- 
cso de Heipanha aos Chriftacs das partes de Portu- 
gal , e Andaluzia ,fugir com os corpos dos Santos , que 
pofluiad , para Galliza , e Afturias , entendendo i e fa- 
bendo, que os Mouros de Africa entravao ja em Hei- 
panha, e deftruia6 todo o profano r b lagrado. cO ca- 
fe) foy i que prefidindo na Iereja de Decs o Papa Six- 
to IV depois que o grao Turco Mahomet levan- 
tou o cerco de fobre Rhodes, que nao pode toma', 
no annode Chrifto, fegundo Ulefcas, 1479, hum Ca- r , - - . 
pitao feu com parte de fuas gales ccfteanda o mar de swotfuu 
Calabria deitou em terra quatro mil hcmens junto a 
Cidade de Otranto. Efta fubita , e repent ina ca- ami- 
<?ade poz em tanto cuidado a EIRey de Na poles , e 
ao Papa , e mais Principes , que logo tratarao deacu- 
dir ao damno eommum. E EIRey defpachou logo feus 
correyos por toda a Chriftandade , pedindo loccorro , 
c favor ao Papa , e a tcdos os Principes Chriflaos como 
airirma o mefmo Illefcas. 

9 Concorda Joao Baptifta Carrafa na hiitoria c *t*f*hH 
do meimo Reyno de Napoles ,- oude efcreve , que no n*fm, 
anno 1480. Mahomet gram Turco mandou Acemat 
BatTa com huma Armada decento e cincoenta velas 
a Cidade de Otranto , onde lancou muitos cavallos j 
c foldadefca em terra , e "cercando a Cidade , e com* 
batendo a aiperamente , a tomarao, e matarao todos^ 
aflim religiofos , como feculares , de idade para poder 
tomar armas, Feito ifto, conquiftarao todos os Caf- 
tellos , e ViHas ao rodor, correndo , edeftruindo t e 
queimando rudo i e tornando a Cidade a fortih*cara6 9 
e nella deixarao hum Capital, Convos quaes Turcos 

pete- 



ts 




MatUnnih 



392 4# Farias Antiguidades 

pelejarao os noffos muitas vezes por mar ; e por tei? 
ra , e fern pre levarao a peyor. Mas morreno'o nefte 
meyo Mahomet , que fay no anno 1481 Jfintindo-o 
elles foraofe com honrados partidos, luftentando-fe 
alii francamente por hum anno, e alguns mezes, con- 
tra as forqas de quad todos os Principes Chriftaos.' 
Atequi Carrafa. Marianna toca ifto dizendo, que o 
cftrago de Otranto foy grande , e que nao perdoarao 
aquelles barb3ros a peffoa alguma, fofte ioldado, ou 
de outra qualidade. E que dalli corriao por todi Pu- 
lha, pondo tudo a fogo , e a iahgue, eftando a mais 
Italia com grande medo, e ainda as na$oens Eftran- 
-geiras. 

10 A qual entrada de Turcos em Italia foy de 
tanto terror para toda ella, particularmente para Ro- 
ma Cidade Ectlefiaftica , e paciiica , que o Papa man- 
dou pedir a EiRey de P, rtugaJ,D. Affonfo V.lhe man^ 
dalle em foccorro de Otranto huma Armada de vin^ 
te velas. Jeronymo Oforio Conego de Evora, a quern 
a virtude de fua pefToa , e a erudiqao de luas obras, 
fizerao conhecido, e juntamente benemerito da Igre- 
ja daquella Cidade , pelo cathalogo dos Bifpos della, 
que efcreveo , diz nefte cathalogo, que efta Arma- 
da (e fez do fubfidio Ecclefiaftico ; e parece verofi- 
mel , porque o Capitao mayor della foy o Bifpo de 
Evora Dom Ga cia de Menezes, filho de Dom Duar- 
te de Menezes Conde de Vianna. A qual Armada foy 
.. direito a Roma, e o Papa com o Collegio dos Car- 
bha ceram six* deaes , recebeo , e ouvio ao Bifpo Capitao mayor na 
t°4p.M. Igrreja de Sao Paulo fora dos muros, onde o mefmo 
Bifpo tevehuma oraqao Iatina , em que perfuadio a 
guerra contra Turcos, a qual naquelle tempo foy pa- 
ra Portugal a mais honrola coufa em materia de le- 
tras, que houve j porque a louvarao homens de gran- 
de doutrina , como Pomponio Beto , e defpois o Car- 
deal Ja:obo Sadoleto, Antonio de Nebriifa , Andre 
de Refende , Gafpar Barreiros , eoutros. Mas efte foc- 
corro de Portugal nao chegou a Otranto, como "diz 
Jeronymo Oforio, porque os Turcos devia© fer par^ 

tidos, 



Garcias Viene 
fas Efifcofms 
Ebor. in ora- 
tioneR>m& ha> 



T>e Tmugfll Cap. XC1V. 395 

tidos , e o Bifpo u. Garcia faz mencao na otsqao, 
como o gram Turco Mahomet era mcrto ; e ieus 
filhos andavao em difcordla. Para efta oppreiteo de 
Italia mandarao tambem In as a ju das os Revs de Ca- 
fteila i, e Aragao , como efcreve Marian'na no lugar 

ii Diz Onuphrio , qua a tomada de Otranto®^,. f *»^' 
pelos Turcos encheo a toda Italia de hum incredive! w sixti 4 
temor, e principalmente a Roma, como fe entende 
deltas palavras iuas fallando. do Papa, que fao as ler 
guintes : „ Cujus mortis { intelligit Mahometis) 8c 
3 Hydruntis recep?se nuntio confkmatus Poimfex, 
•Vqui jam de relinquenda Italia cpgitaverat , Vecetis 
\favere caspit. Quer dizer. O Papa animado com a 
nova da rnorte de Mahomet, e de Gtranto recirpe- 
rada, qual determinava ja de deixar Italia , come- 
cou de fayorecer aos Venezianosj, Simiihantemente 
Raphael Volaterrano , que vivia naquelle tempo , tra->^ lw , #ft ^ 
tando de Mahomet gram .Turco na foa Gcographis*. TcMt.de ' 
diz afllm": ,, In Italiam ad extremum penetrant, !Hyw^« r a rc*\ 
r ,drunto o pto ; ia quo bcllo per triennium gefto,^^ 
*„flo3 omnis Italia abfumptus eft; benigne nobiicum 
r egit Dei providentia , authore interface de medio 
„fublato. Ad cujus nuntium mortis Sixtus PcntifeX, 
,, qui jam de fuga in Galliam , & alma urbe iBeatis, 
|j Apoftolis , qui earn tuerentur , relinquenda cogita- 
jjVerat: cum patribus , ac plebe , Deo gratias sgens, 
6 tabernas claudi , & juftitium * ac triduale facrum indi* 
,,ci jubet. Ifto he: Mahomet finalmente entrou em 
Italia, tomada, a Cidade Otranto , na qual guerra; 
que durou tres annos, fe confumio toda a flor de Ita- 
lia : henignamente o fez comnofco a providencia de 
Deos , que morreo nefte meyo o Author della. Com 
a nova de cuja morte o Papa Sixto , que ja determi- 
nava de fugir para France , e deixar a Santa Cidade 
de Roma aos Bemaventurados Apofiolos , quesguar- 
daflem , dando graces] a Deos ccm os OrdiaeF , e 
povo, mandou fechar as tepdss, ccflar os tribunal, 

Ddd . aftifiir 








39+ P arias Jntiguidades 

mm trej dia? a publicas ord$oens, e officios divi- 
tioi pela merce recebida. 

ix Hora (e o Papa cabeea de Roma tad pode* 

ma^Vf^^ cruddad« daquelJes barbaros. 

tratava ja de fugir para Franca j que fariao os fracos 

e pequenos daquelie povo, fenao acolher-fe a Dcos 

ea feus Santos, e pedirlhes remedio para fazer ou- 

^^"JP^^h^paraondepodefle? E i do antes 

cL ver Roma cercada [ a fahida tropedida , e o alfan- 

ge Aurquefco (obre fuas cabecas , fendo tao notoria 

a k.nenra^el deftruicao de Conlhntinopla, que fora 

ca V 'L Vmt 5 e fete annoS ' a qwlomefmoirimTur. 
ca cercou de repente por mar, e por terra' com im* 

meafo numaro de ■combaterttes , e em poucos dial, 
tomju, exercitando em tudo grandiffimas crueldades 
1 S ta6 f 5°. e barbaro, como elle era, onde 
OS templos fqrao dembados, e os oflos dos Martyres 
Jancados a cles , e porcos , como eicreve Baptitta 
FT'!" r i gaact ?' no r ,lvr <> fegundo dos Principes Ron Jnos . 

£wi ? qUS f ° y ' . fegUndo el,e > ™ a ™° *> S.nhor mi] q a 
' ' ft**** cincoenta e tres. O qual cercd foy tao ap.?. 
tado e a tomada de tanto fangue j e confjzad , que 

Cardial Rutheo natural da mefma Cidade, que nel- 

Z^ mandjda pe»o Papa Nicolao V, mudando 
tlaiinainN^ veitidm ie filvou, do qual faz PJatina mencao. 
#*** P$ c ?™ tnedo deoutro tal eftrago, e dos Tuf 

cos , que tinhao ja nas coftas , entendo eu , que fu» 
girao aquelles peregrinos Romanes em huma barca 
pefo no Tybre abaixo , que corre por dentro de Ro. 
ma f levando comfigo por patrao della ao Martyr S. 

1 mtaleao Romano, que iepuraroente os trouxe ao 
Forro de Portugal no anno do Senhor, iegundo efta 
imnhacome&ura, mil quatrocentos e oitenta , o mef? 
mo, em que elles entrarao em Italia , ou logo no fe- 
Ruirite de mil quatrocentos oitenta ehrsm, antes del- 
lex fe pqrtirem, o panuktmo, ou ultimo do reynado 
delRey D. Affonto V de Portugal , pay delRey Dom 
Joatf II j que lhe mandou fa«sr o fepukhro , como fl- 
ea dito. E fe os Martyfologios antigos nao f^z-m 



*De Portugal. Cap. X CV. % 9 % . . 

mencao de Sao Pantaleao Romano: para nosbafta* 

que aquelles devotos mareantes Ihe der?.6 toda iual 

vidaeite nome, e' por elle o invocavao, Quanto mate, 

que os ditos Martyrologios tarr.hem nao fazem men* 

cjao de Sao Mancio Romano, Difcipulo de Chriito, 

martyr infigne, e primeiro BHpo da Igreja de Evo? 

ra , de que atraz fallamos. R a meiroa queixa \ odU* 

mos fazer do Martyrologio dos Santos de Portugal, 

porque nao falloude SaoTorquato , DiidpuludcSan- 

Tiago mayor , que jaz huma pequena legoa de Gui« 

maraehs, de que tambem faHamos atraz. Mas os ho* 

mens, ainda que doutos iejao, fao com tudo homens, 

e como taes nem lempre advertent, e de quando em gato. ?..to«i 

quando canfad, como diffe Quintiiiano- 



1 de Inft, off 
ier. 



CAPITULO XCV. 

J) as antigas arm as de Portugal, que tr&tixe, e de 

que ufou EtRey Dom Sambo , filhod'EiRey D. 

yifonfo Henrlquesy fegundo eftao em huma 

mocka de ouro , que o Author tern 9 cuja 

imagem he afeguinte. 



.*, 



CTi 



CjjJ 



*Or/aw 



i "T|*x Onhamos o fello a eita obra com. as ar- 

1-^ mas antigas de Poitugal, jfegundo efta6 

JL em huma mceda de ouro d'E'Rey^cm 

Sancho , iilho d' EIRey Dcm AiTonfo Henriques, que 

Ddd* tenho 



395 Farias Antiguidades 

teaho em men poder. Parece- me , que cfte Rey Dom 

wiS r a CftaS armas na fo ™ a ' em ^ astro* 
xe &iK~y teu pay, que primeiro as tomou, e orde- 
nou. As quaes tern algumas coufas notaveis, e difle- 
rentes das modernas, cuja noticia nao era bem , que 
fe perdeUe. Pelo qua! refpeito quiz fazer aqui nien- 
qjo dellas, porque a hiftoria he !mais tegura depofl- 
taru, q, je o ouro, em que ellas efta 8 , o qual tem 

iJsium.1 I- ° * le g und ° <Wfe graciofemeote hum filofopho'an- 

2 A rabnca deltas armas , como parece pela moe- 
da, He a leguinte. Formou-fe hum circulo rodondo 
■ em camper razo: e dentro nelle quatro eftrellas em 
quadro afaftadas eatre fi , todas de modo , que feus 
rayos tocao a fuperficie concava do circulo. Ononis 
no centro delle , que he tambem centro do quadrado d is 
eitreHa* , efta bum efcudo fimilhante a huma adaga 
dasnoftas, mas na parte inferior muito mais porita- 
- gudo, e iobre elle outro , e debsixo outro, e todos 
pontas abaixo : e ao Iado direito do meyo efta outro, 
e ao do efquerdo outro* ambos com as pontas vira- 
oas paFa o do meyo. Com os quaes cinco ef curios fl- 
ea teita a imagem da cruz. E dentro em cada hum 
eicudodelte?, eftao quatro pontinhos, hum em cima, 
outro em baixo, e dous aos lados , que tambem fa- 
zem nua cruz. E nocircuitoda moeda efta letra , In nt 
Pttrts a FHii t sps Sci. *. Eftas forao as antigas armas 
de Portugal conforme a efta moeda d'ElRey Dom 
5*ncho primdro do nome , e fegundo em numero 
dos R ys defte Reyno. Da outra parte tem efta moe- 
da a imagem defte Rey armado , e pofto a cavalio 
com huma cruz na ma6 efquefda , e huma efpada na 
direita, e huma letra, quediz, Sinews Rex Virtue*. 
*u. A Efculptura naquelle tempo eftava taorude, qua 
para achat eftas coufas nefta moeda quafi nao bafta 
ver fern adivinhar. 

* _ Di g° » 9" e efte Rey foy Dom Sancho I, por- 
que ie tora o II ; declarara-f e no letreiro.para difreren- 



<De ToYMgaLCap. X CV. 39/ 

^a dd J. A em difto a imag m de caya'leiro armado ^ ieTmk 
com a efpada na mao nao quadra a Dom San c ho II '„ a /uahifi t 
homem tao dado'a couias de ocio , que por iilo lhe 
foy ti?ado o governo do Reyno. E quadra muito a 
fclRey Dom Sancho I, filho delRey Dom Affonfo Cah ^ nA ^ 
Henriques, que fendo de idade de vime'eqHatfd-aft-> £//?0 , ^ 
nos,* foy fazer guerra aos Moutos de SevUhay de cu-'^fjonje Hnrh 
jo fangue tingio as agoa's do Guadalqoehir. b quescyx 

4 Agora tratemos da fignificaqso dcilas arrras. 
O circulo rodondo em campo razo , e eflrellado fi- 
gnifica o Ceo com fuas eft rellas. Nefte painel vio El- 
Rey D. Affonfo a Chrifto Crucificado , e nelle quiz 
feu filho pintar fuas memorias , falvo fe feu pay lhaa 
deixou ja nefta forma por ultima .reformats , pofto 
"que no principio as aiTentafie no efcudo branco de 

leu pay na forma, que efcreve Duartc Gal vao, eAn. G ^ ?s4 ^ 
dre de Refende. A Cruzfeita dos tinco elcudos iz-%p e Reyr. j 
pt.lenta a em que Chrifto lhe appflfeceo. E os mef-^ is 
m~seicudos confiderados em quanto cinco, fignificaS Me*dmi* 
na6 os cinco Reys Meurpsi que feu pay venceo, te-fffi^' 1 ' 
nao as cinco chagas , que Chrifto Ihemoftrou, que cfor'iusdere* 
iao as fontes, deque manao as vielorias , quando 25 busgefih. 
armas fe tomao por honra defte (enhor , e por glcr/a t»» &^. « 
de leu fanto »ome. Quern havera, que prefuma de- 
Rey tao catholico, e tao zelofo da honra de Deos ; 
que quizefle antes trazer em fuas armas amemoriade 
cinco Reys Mouros i que a das cinco. chagas de Chri- 
fto , .verdadeiro Deos , que antes de entrar naquella 
batslha, lhe appareceo Crucificado, como contao nof- 
fos Annaes? 

5 Os pontinhos, fegundo conftante , e pi a tra- , 
<3iq,i6 , reprefentao os' dinheirds , porque Chrifto foy 
Yendido, Tinha ja EIRey Dom Affonfo em fuas ar- <»*«#• *4 
mas o fim da paixao de Chrifto nas cinco chagas, e 

quiz tambem ter o principio na affrontofa venda de 
fua real , e divina pefToa , figniflcada pelos dinheiros, 
que lhe ajuntou , por ventura querendo alludir ao 
que Chrifto difle por fi : Ego' fum alpha , '& Omega : Appctix 
frinciphm , & finiu Porque na verdade fua iagrada w/;* 

pai- 



, 



Jiaatte 
r. 18 



398 Varus rfntiguidadef 

paixad foy principio , e nrn de todo noflb rem©, 
dio. 

j 6 Nefta moeda na5 eftao mais, que vinte pon* 

tinhos, ou dinheiros , quatro em cadahum dos efcu- 

dos, e para fair o numero de trinta t conta-fe cada 

quatro dinheiros juntamente com leu elcudo , e co- 

rne$ando do. mats alto para o mais baixo, e de hum 

lado para oufro lado , eontando o do meyo duas ve- 

3-es, fe perfeiqoa o dito numero. 

Gaiyrf . 7 ■ Bern fey, que as noilas chronicas \ e os Au-i 

tnores, que as feguem, dizem, que ElRey Dom Af- 

ronfo poz em cada efcudo trinta dinheiros, e que os 

Reys (ucceflbres, pelo efpaqo nao ier capaz de tan; 

tos , diminuirao efta (omnia , e deixarao cinco fomen- 

te em cada efcudo , e quizerao, que fe contaftem pe- 

la ordem, que 06s agora os contamos, na6 metendo 

os efcudos em c«mta de diriheiros. Mas a ifto contra- 

diz elk moeda , w qual nao eftaS mais , que quatro 

dinheiros em cada efcudo. Mas poria EJRey Oom 

Aftonfo trinta , e feu rilho quatro , e defpois (e po- 

riao cinco. 

8 i Que Rey foy o que accrefcentou a eiles qua- 
tro mais hum, com que fez cinco , nao me confta, O 
Padre Frey Bernardo do Britto no elogio d'ElRey 
Dom Joad II , diz , que elfce Rey poz cinco dinheiros 
em cada efcudo, pondo-fe dante* trinta. Mas efta moe- 
da o contradiz ; e muitas outras , porque eu tenho 
huma de prata d'ElRey Dom Aftbnfo V, pay-d'El- 

* R?y Dom Joao IT , que tern cinco. E tenho butra 
de cohre d' El Rey Dom Joao I, que tern 'os mefmos 
cinco, E nas vidracas antigas defta Igreja de Guima- 
raen, feftio as armas defte Rey, que tern cinco r as 
qmss vidraqas fora6 feitas no feu tempo, e por feu 
maudado. E no retabolo de pratn da meima Igreja, 
feito no tempo do dito Rey, eftao os mefmos cinco; 
Ena ma6 de hum curiofo defta Villa vi huma moe- 
da de cobve d ' El Rey Dom Fernando com os mefmos 
cinco, De maneira, que ifto vem de mais attaz. 

9 Advirto finalmente , que eftas arnvre amiga* 

do 





de ToYtugaLCaptlXCF. 399 

fle Portugal conftavao de tres couias , que erso a 
Cruz, as chagas , e m dinheiros , em reverencia , e 
memoria da Santiflima Trmdade , e que dedara o le- 
treiro do circuito , que diz, In nomine Fmy'is , & Fi/ii, 
& Symtus Saatti j Amen, O citculo , e^fhellas iao 
campo , em que as armas eftao, e fignificao o Leo 
Jugar do divino apparecimento. $§£& 

Ella entendi ier a interpretaqao defbs glo- 



10 



riolas armas, que eu tenho por hurra sntigalha mais 
preciofa , e mais digna de le confervar , que o ve« 
lho nnnto de Pharamundo primeiro Rey de Fran- 
qa, Com que os Reys da'quelle Reyno ie cobrem em 
fua coroa^ao ; e que a eipada , e coroa do Jmpers- 
dbr Carolo Magno , com que os Imperadores fe cin« 
gem, e orna6 , quando la6 eleitos \ e que a tabula^ . 
rodonda de Artur Rey de Inglaterra, que toda t^cXX'S* 
itada do tempo .'fe guartfa , e moftra ■■naquellc Rey-<r/w<> tfbi. 
no, como notou Francifco Sanfovino. 51. 59 

11 As quaes armas nao ley le forao dadas po* Fra » c il c ° Sa »- 
Deos , como elcreveo bum Portuguez douto ; '^at.-Jj^^f^ 
noffas hiftorias dizem , que forao tomadas de Deos 1 Wrrl «. 13 
pelo primeiro Rey de' Portugal , a quern o mefmo 

Deos appareceo : e pelo fegundo forao difpoftas, 

como le vem nefta moeda. E fe me nao engano , 

fora judo, que permanecerao fempre nefte eftado 

fern alteracjao , por honra de tao illuftres, e catho- 

licos Reys, pay, efilho, hum j que as mereceo , ou* 

tro que as difpoz, E tambem por nao chegarem a 

termo de tanta difFerenca , que ja hoje efcaflamente 

fe conhecem. No que os Reys de Franqa moflreo 

ter advertido, pois vemos i que nas tres flores de lis , 

armas reaes daquelle Reyno > deixadas por Clodoveo 

leu primeiro Rey Chrifta6 , que elle houve de hum 

An jo , naQ honve outro Rey por tantos centenna- j» a nktra^ 

rios de annos , que nellas altera ITe coufa alguma. ut.foi.y*/ 

12 Daquellas armas \ ou , t para melhor dtzer, da- 
quelle final da Sagrada Cruz le armarao os Reys de- 
fte Reyno, e nelle vencereo ieus inimigos com gran- 
de gloria de Deoe, e Iua : das quaes bafta o que te- 

mo? 



Mtrthl I. S[ 



, Fdrias.Jmguidadef 

mos dito 5 e baft a .a pequena iuz , que noflb fracQ 
eftylo lhes da, porque ia6 elJas de tanta excellenciaj 
que prefto .adquiriraQ outra mayor , com que pagarao 
a empreftada com grandes ufuras. E afTim ierao para 
efta nofla ^fcrjptura o melhor.Genio , que ellapo Ua, 
t&opara fe conlervar em vida de memoria , pois nos 
lho nao podemos dar. tal , qual o P.oeta queria , que 
.© livro tiveffe, para viver longos annos , conforme 
aquelle dito (eu. Vitturus G<nittm debet habere liber, 

13 R que pode nsfte^ propofito quern vive re* ; 

mpto das graqas , e das mulas , femprc occupado, e 

paia mayor cumulo defterrado ? o que. por fi io lem 

duvida he moleilo. A patria » parentes., e amigosda 

creaqao , que bem , e doqura tenhao , mais fe enten- 

de carecendo , que gozanda. Diga o Patriarcha Jacob 

que nifto ha, porque elle em Mofopotamia , cafa- 

'Gewj.e.)o do, e rico , difle a (eu tio Laban# ,, Day -me licen- 

wr /- lS ■ f „ qa para me tornar para a patria , e para a minha 

j, terra. Diga o nobre, e valerofo tribu de Ju^a, e 

o de Benjamin, como. lhes foy em Babylonia, defter- 

p/. \\6 rados da patria: o que dizem notorio he : lllic fedi- 

Skrates apud mHS & ffevtmtiJ. 

cicer.i.s ,^ Fiaalmente nos vemos, que tanto no efta- 

■DiLnesapud^ adverfo., quanto no proipero, cadahum fe defeja 
Laeniumi.6 na (ua , pofto que tao fragofa feja como Ithaca, pe- 
Seneca de rita \os penedos da qual Ulyfles fufplflva. Bem fey, que 
alguns filofophos querendo-fe moftrar vittoripfos de 
ii meimos , diflerao , que para elles todo o mundo era 
patria. Mas eftes ou nunca'|fahira5 da fua como So; 
crates , ou fallavao de huma maneira x e viviao de 
outra.; Digo ifto , porque outros , que Seneca refere,q 
Fr. Pant, no j^raS primeiro, e elle o confelTa. Melhor, e ma- 
yor iilofopho foy Adam , que todos elles., e com tu- 
do quizjmorrer vifinho donde foy creado. 

Nott nobis } Domine , non nobis , fednominituo 
da gkriam. 

INDE* 



leata e. 17 
Vdlegas p. x 
na vtda de 
Adam f-,4 
Vintdi I p-l 
le. )$.< 



59 
Jfidorus in 

AtLim I. ii 
petib'm vetc 
ri* tiftatn. 



401 

■ff&fe .4*. A ifcfe & !t ;fc jfc ifc ft 9 . A :S rfc'sfe i§* 

■2ii>4>4#>4i»4f»4|frf»4frffr43v.'? 

* w f ■ IS i * • f '« J f E i f { <*••» 

INDEX 

DAS COUSAS NOTAVEIS , 

que fecontem neftc Liv-ro. 



ABderamen Monro queiiriava as retiquias dos San« 
tos, cap. 16. num. f. cap. 27. n. io« 
Acci Cidade, ©ndeefteire, 'cap. 53. n. if,. 
Acci foy Colon ia dos Romanes, cap. 53. n. 15; 
Accitanos fugirao com oeorpo deSao Tor^uato, capi 

7.6. n. 6; * 
Achylles Eftacoexpurgou aregra deSaoPacomio^ ea 

fez imprimir , c. 5. n. 2,: 
Achylles Eftaco vara6 infigne, c.44. n.j. 
Achylles Eftaqo breve relacao de lua'vida » cap. 44. 

num. 6, 67. 
Achylles Eftaqb honra de Portugal i diz Navarro , c. 44. 
num. 7. 

Achylles Eftaqo fua livraria excellente, c*p". 44. n. 8. 
Achylles Eftacp defeja EIRey Dom Sebaftiao, queef- 

creva os feitos dos Portuguezes , c. 72. num. 7. 
Adao quiz morrer vifinho donde foy cercado , c. 95". 

num. 14. 
Dom Affbnfo Henriques nafceo em Guimaraens, c. 12. 

a»f, etf. Eee Dom 




402 Index 

D. Affonfo Henriques, em cue anno nafceo , c. it. n. 19* 
Dom Affonfo Henriques primeiro Rey de Portugal, 
c. ix. n. j. 

Dom Affonio Henriques , de que idade ficou por roorte 

defeupay v c.ax. n. io, e u. * 
Dom Affonfo Henriques cbamado Rey antes de fer elei- 

to» cap. ii. n. 9. 
Dom Affonfo Henriques, deque idade era quando El- 
Rey de Caftella o cercou em Guimaraens , c. 2$. n. 4. 
Dom Affonfo Henriques nao efta pela piomella de Egat 

Moniz, c.25. n.8. 
Dom Affonio Henriques nunca perdeo a graqa dos Pa- 
pas de feu tempo , c. 25. n. 17. 
Dom Affonfo Henrique* Vay fazer guerra aos Mouros de 
Alem-Tejo, epede as armas a Santa Maria de Gui« 
maraens , cap. 24. n. 2. t\ 
Dom Affonfo Henriques pede onome deRey a Santa 

Maria de Guimaraens f c. 24. n. 2, 
Dom Affonfo Henriques parte para Alem-Tejo, em que 

anno , c. 24. n. 5, 
Dom Affonfo Henriques funda a Igreia de Guimaraens* 

cap. 24. n. 3, ej. 
Dom Affonfo Henriques tcm defgoftos com fua may , 

porque fe cafou , cap. 22. n. 8. 
Dom Affonfo Henriques feito amigo com iua may > e 

cm que anno , c. 22, n. 8 , e 9. 
Dom Affonfo V. tomou a prata das Igre)as para a guer- 

ra deCaftelia, cap.?;. n. 1. 
Dom Affonfo VI de Caftella cntra em Portugal duas 

vezes , cap. 23. n. 1. 
Dom Affonfo Rey deCaftelia , de que idade era quau- 
do cercou Guimaraens , c. 23. n. 49 e 5. 
Quando comeqou a reynar, ibidem. 
Dom Affonfo Infante menino Jlevantado por Rey de 

Caftella , cap, 22. n. 2. 
Dom Affonfo Reyd6 Napoles affeiqoado a mceiasan- 

tigas, c. 68. n. 17. 
Dom Affonfo Furtado de Mendoca Arcebifpo de Bra- 
ga affeiqoado amoedasantigas, c. 68. ru 16. 

Agulha 



Das coufas notaveisr 40 j 

Agulha de marcar he eouia moderna , cap. 8i. num, 

s,e2, 
Agulha demarear onde foy inventada , cap, 82. n. 4, 
Santo Agoftinho inventor dos Conegos Cathedrae? < 

cap. 14, num. 9, e 10. Em que anno morreo, c. 71, 

num. j . 
Dom Frey Agoftinho Arcebifpo de Braga fuas quaii- 

dades , e tempo de ouro j c. ff. n. 9. 
Ayres Gomes da Sylva fronteiro dc Guimaraens pot 

Ca(lella r c. 57. n. 1. 
Alcunhas muitas de Portugal donde vem cap. $6. n. f. 
Alexandre Magno, que diile das lagrimas de lua miy , 

cap. ii. n, 8. 
Alexandre vendo as ruinas de Troya, que fentia Prol 

num.9. 
Alexandre dizia , que osmontes , eos tios feriao ima- 

gens deleus feitos, c. 71, n. ie. 
Alexandre deu oitocentos talentoa a Ariftoteles poref- 

crever olivro dosanimaes , c»4f* n. i. 
AloLto Abbade de Cella-Nova c 1. n. 6, 
Amavirtuofa, efabia quanto importa $ c. it. n. 7. 
Amarante feu principio f eaugmento , c. 51. n. 1. 
America , que he o Mundo novo , donde houve efte 

nome* cap. 8;. n. jve 84, n. 4. 
Amerigo fuas navegacoens , cap. 84. n. 3. 
Angelo Policiano louva aos Portugueses , cap; 74. 

num. 7. 
Angelo Policiano offerece-fe a efcrever os feitos dos 

Portuguezes, c. 72. ri. 7. c. 74.11*7* 
Anjo de prata da Igreja de Guimaraens de quem foy* 

e de que fervio , cap. 84. n. $. 
Anno reformado pormuito* , cap. 8. n. 17. 
Antigo Rey pintado por Apelles, cap. 11. n. a. 
Antigualhas fao dignas de (er viltas Prol. n 9 
Antiguidade querfe tomada , e venerada affim como jaz; 

c. i$. n. 7. 
Antiguidade fagrada Prol. n. zl 
Antiguidade veneravel Prol.n. 2. 
Antiguidade peitendida Prol. n. 3 , . 

Eecil Anti- 



j*r 



■— 



404 



lndex 



Amiguidade por fi merece credito , cap. 26 nurn; a 

Amiguidade, porqae he chamada veneranda , cap. 26 
num. 2 r 

Antiguidades por efcrituras antigas fe devem refutar» 

c 22 n. 120.220.7 
Antiguidades ieus eferiiores, Prol. n. it 
Amiguidades feu proveito, P*ol. n* 11 
Antiguidades (eus affeicoados, Pro!, n. u- 
Antiguidades defte livro , feu proveito , Prol. n. 1* 
Apelles como pintava ElRey Antigone, c. 21 n.» 
Aradqza nao he Guimaraens , cap. 20 n. 6 
Arcebiipo-de Braga fua ■ jtfrifdicc,a6 fobre os Conegos 

qc Guimaraens , c. *j n.7, 
Arcebifyo^de Braga., e de Toledo acerca da primaciav 
'yejarft Braga , ou Toledo. 
Arcebiipo efte nome nao £oy antigamente , cap. f? 

num. 5 • r / / 

Armas, da. Villa <te Guimaraens quaes fao , c. 41- n. 4 
Armas antiquiffimas de Portugal quaes forao . cc*n..iv 
e 2 ,: fua cornpofic^o. 

Armas de Portugal tomadas de Decs por quern , c. or 
num. n. n ' J ' 

% .Arfenio Meftre ■ dcsfilhos do Imperadot Theodore. 

cap. 16 n. 6 
AfTuero dado £ licao Pro!, n. 7 
AflumpqaSde NofiaSenhora inffituida por Sao Dama- 

10, cap, 14 n. 2 

AfturianosultunosconquiftadosemHefpanha, cap. 80 
num. 45- 

Augufta, efte titulb, quando j eporque fe deu as Ci- 
dades, c. 88. n* y 

Augufto quando-comecou feu Imperio, cap. 9 n. ia; 
e 18 

Augufto fez efcrever fua geraqao , c. 21 n. 7 
Augufto reformou o anno c. 8 n. 17 
Augufto cafa fua irmaa Odavia com Antonio , cap; ft 
num. 16 r *' 

Augufto ajuntou as partes do Imperio , cap* 9 x\\ 17 
Augufto inftituio a coma da Era , c. 10 n, 4 

Augufto* 



Das coufas notayeiu 405 

Augufto porque mandou contar pela Era , cap. 10 

num. J 
Augufto donde tomou o piincipio defta conta , cap. 10 
..num. s 
Dona Aufendaama d'ElRey Dom Affonfo- Henriques, 

ciin, 7 
Authores com que exams $e devern ler, cap. 81 n. j 
Authores antigos aptos para provar couias amigst I 
< cap. 73. aura* i 



BAtconio Arcebifpo de Braga em tempo do Papa 
Leao I , cap. 66 n. a 
Balconio porque lhe foy dirigida a regra dafe, cap. 67 

n. . * 6 , e 8 
Balconio principal PfeladoJdeHefpanha , cap. 67 n. 6 
Dom Baltliafar Li -m do Arcebifpo de Braga, entra em 

Guimaraens, e vilita por "fbfca, - c. zfn, 24 
Earcaio fua opiniao da Era, cap, 89 re, e 11 
Bsronio tern a palma dos, fifcritores EcckfiafUcos , c| 

94 n. 1 
Benericios da Igrejade Guimaraens, quantos, equaev 

c. ff n. 6 , e 7 
DomBermudo Peres de Trava , quern foy, c, 22 n. U 

com quern cafou n. 6 
Bernardo Arcebifpo de Toledo feito Primaz r cap. 6& 

n. 7 nao he obedecido emHsfpanha: nomefmo. 
Berofo, eMetafthenes dejoao Ennio, authores falfosj- 

cap. 58. n. 6 
Bethlem mayor, que todas as Cidades por fer Patfia' 

de Chrifto , c. 15 n. f 
Bezarjqon Cidade Metropoli de Borgonha patria de D, 

Henrique Conde de Portugal j e. 12 n. 1 
Bifcainhos ultimos conquiftados em Hefpanha, c. 89 
. n. 4 , e jr 

Bilpados deHefpanha lua divifoft de Conftantino , c. 

$r~'i - Bifpa** 



i*^ 







405 



Index 



Bifpado3 fua dmfa6 pelo Papa, Bifpo, e Conftantino, 
c. 73 n. it 

Bilpados de Galliza fua limitacad pelos Suevos , c. 72 
num. 1 8 

Bifpos de Coimbra , que o Principe depoz j e poz , 

c. 23 n. 17 
Bifpos apprefentados pelos Heys, o' 23 n. 18 
Bracharenfes, fegundo Laimundo pelejarao centra oi 

do Porto , que agora he , e nao contra os de C le, 

c. 9 1 n. 1 , e 2 
Braga fua Igreja encommendada ao Bifpo de LugOf 

c. 25- n. 1 
Bracharenfes defcendem de Gregos, c. 89 n. 1 
Braga feu primeiro Arcebifpo depois da deftrui^ao de 

Hefpanha j c, 25* n. 1 c. 68 n. $ 
Braga fua nobreza antiga , c. 57 n. 1 
Braga efta nella a Primazia de Hefpanha , c. 57 n. 1 

Veja-fe Primazia. 
Braga fua fundacad , nobreza , e feu primeiro Bifpo 

Pedro , c. 64 n. 4 , e f 
Braga fua Metropoli quam anriga , c. 6y n. 1 , e 3. 
Braga feu Arcebifpo de quanta authoridade fofle , fe* 

gundo Vafeo* c. 67 n. 7 
Braga feu Arcebifpo tem outro Arcebifpo feu fubdi- 

to , cap. 68 n. 1 1 
Braga ieu Arcebifpo Toy realmente Primazde Galliza, 

cap. 68 n. 2 
Braga ieu Arcebifpo mais digno de fer Primaz de Hef- 
panha, que todos j c. 68 n. 2 
Braga fen Arcebifpo nunca perdeo feu direito, e dig* 

nidade^ c. 68 n. 3 
Bra*a fua Igreja por quem foy reftaurada depois da 

deftruiqao de Hefpanha, c. 68 n. j 
Braga feu Arcebifpo retem nome, e titulo de PrimazJ 

mas nao a jurifdiccao , cap. 68 n. 8 
Braea chamada Augufta do Imperador Auguto, cap; 

68 n. 13 
Braga quando foy chamada Augufb, c.88 n. f 
Braca andou em moedas de ouro d'ElRey Leovigtldo ; 
c.6*-» u, t 14 Braga , 







Das coufas notameis. 407 

Braga , f egundo Laimundo faz guerra sos do Porto , 
porque favorecerao aos de Tuy , cap. 8j n. 6 

Braga iuas tnulheres tedao , e fiavao antigamente co- 
mo agora , c 88 n. 3 , e 4# 

Braga foy fundada por Gregos, c. 89 n. .1 , e 3 . 

Braga nao foy fundada por CarthagenenTes > c. 89 
num. x 

Sa8 Braulio efcreve o martyrio de Sa6 Vicente deEYC- 
ra > e. 43 n. 4 

,Sao Braulio , em que tempo foy , cap. 47 n. * 

Sao Bsulio teve nosicia de Ev\ ra , e do feu Martyr Sa0 
Vicente , c. 47 n. x » e 3 

Breviario Romano inlfcituido por Sao Damafo> c. id. 
num. 1 

Bruto triunfou dos Lufitanos , e G alleges , cap. 19 
num. 6 

Bruto paflou o rio Lima diante dos feus Soldados , em 
que anno , c. 18 n, 4 

Burgo de Guimaraens antes de fer Villa ; c. 6 n. 1* 

Burgos Cidade de Caftella » fuperior a Toledo , cap; 
68 num. 1* 



C Abekas Santas , que preftao contra mordeduras de 
caens damnados , c. 49 n. 1 6 2 ■ j 
Cabido de Guimaraens, porque deu^o Priori a renda , 

que hoje tern* cap. iy n. 9 , c 10 
Cabido de Guimaraens hia aos Synodos <$e Braga , cap; 

Sf n. 8 , e 9 . 
Cabo da boa feperanca , cjuem Ihe poz efte nome> 

c 83 num. 4 
Calcadas Romanas da terra de Braga j c, 10 n, 5 
Cale donde fe oiignou a Cidade do Porto , cap. 73 

num.3 
Cale fe chama agora Gaya , c. 73 n. 3 } e 4. 
Cale nao ha memoria delle nos EJciitoxes , tirsndo y 

Ike. c. 73 n. 2, 

Cale 



7 



4®3 

Gale nao fechamou antigamente Portugale, nemCaf- 
tello antigo dos Romanos, c. 73 n. %j 

Caie fe efteve nelle antigamente hum Caftello chama- 
do Portugale, cap. 73 n. 26, 

Cale como, le entende i'er chamado Caftello antigo Por- 
tugale, -c, 73 n. 30, e os feguin.tes. 

Callxto Papaprimo doConde Dom Henrique, cm que 
tempo foy, c.23 n. 11 

Caminho de Antonino de Lisboa a Braga , cap. 87 
num,,»,. 

Canto da Igreja antiquiffimo ., cap. \6 n. 2 

Canto alternado da igreja , obra de Santo ignacio } c, 
16 n. * 

^anto alternado em Italia, obra de Santo Ambrofio, 
c. 16 11. 1 

C3i;deal;de Roma mandado ao Principe,, nao eralim» 

pies Cura, c. 13 n. 19 
Card al Sabinenfe vem a Portugal ,e vifita a Igreja 

Collegiada de Guimaraens, cap. if rl. n, e 12 
Cardial Pom Henrique Arcebifpo de Braga depoder 

abfoluto vifita o Cabido de Guimaraens • cap. xc 

n. 13 

Cardial Dom Henrique benemerito do Author delle 

Jivro, e dos feus, c. 47 n. 12 , fuas virtud;s dig- 
*; nas de Imp^no : no melmo. 
Cnd-aes de Roma fua dignaie j e magefhde , quam 

aitigaj cap 13 n. 19 , e to 
Card aes qaando cfefcerao" em dignade , e nomec. 23 

num. 20 
Carta de nrnear he coufa moderna , cap. 81 num. 1, 

e 2. 
Carthagena deftruida , e (ua dignidade paflada a To- 
ledo, cop. 60 n. 3, 4, 6j e 9 
Cirthago'de Africa quando foy fundada , c. 86 n. 1 
Caiamento fegundo de Dona Tareji , em que anno, 

cap. 21 n. f 
Cafamento fegundo de Dona Tareja, porque foy^le- 

gitimo, c. 22 n, 6 
Cafamentosentre parentes nao ie faziao antigamentel 

c. 22 n. 7 Caf 



2)// coufas notayeii. 409 

Caftelfianos Efcritores tirao muitos Santos a Portugal, 

c. $8 13. f 
Caftello de Guimaraens obra de Mumadona , C4 n. § 

Catalogo dos Priores de Guimaraens , porque o nao leg 

o author ) c. 55 n. n 
Cella-Nova iua fundaqao, c. 4. n. * 
Celenas lugar de Galliza , c. 66 m 4 
Cerretanos fua riqueza^ etrato, c. 8 n, if 
Cetubal fundada por peicadores cap. 91 n. 6 
Chnftovao Colon Genovezdizem delcobrtr as ladlas 

de Caftella , c. 80 n. t 
Chriftovao Colon defcobrio as Indias pelos papeisde 

hum Helpanhol, que lhe morreo em cafa, cap. 8# 

n - * J e 3 

Cbriitovao Colon, que officio tinha , e onde reftdia ) 

c. 8t n. 9 
ChriilovaS Colon tent pu. muitos Reys, que lhe del- 

fem favor para ir defcobrir as Indias , c- 80 a 10 
Chriftovafi Colon prova-fe deicobrir as Indias pelos 

papeis do Piloto defunto , cap, 81- num. 1 1 3 

4 , e $ 

C.riftovao Colon foy-lhe levantada eftatua em Gene- 
va, c. 8m. 5" r 

Chronicas de Portugal quern as fez , c. n n. 1 

£icero em que anno mortoj c. 9 n. 15 

Cicero honra de lua patria , c. 13 ru 3 

.Cidades antjgas veneradas P.ol. n. 3 

Cyneas julga a Roma por Cidade de Revs 1' cayl 9$ 

num. 1 „ 

Cinnania de Valerio Maximo onde efteve , cap.§i9 



n. 



f. , e 16 



Cinnanienfe, leu dito, c. son. 1 - ( 
Cypriano quam dado alicao de TertuHiano Prol. n. 1 
Citania monte nao he a Cidade antiga Cinnania , c. 19 

num. 4 
Citania monte, que coufa he , eondeeira, cap. a© 

num. 4 
Coimbia fua Univetfidade diminuida, c. 45- n. 7 

Fff Colm-: 



4IO 



Index 



Coimbra IimitaqaS do feu Biipado , cap, 75 num; 20 

22 » e 24 
Conciiio EUoeritano quando fay , c.46 n. $ % 6 % ej 
ConwilioToledano faz huma regra dafe, que manda 

ao AfcebUpo de Braga , c. 66 n. 1 
Coacil'o Toledano , que fez -a regra da fe, fe he hum 

fo , ou hum , e parte de outro , c. 67 n. 4 , e 5 
Concilio primeiro de Braga de Frey Bernardo he du- 

vidofo, c. 73 n. 14 
Concordia primeira entire o Arcebifpo de Braga, e 6 

Prior deGuimiraens j c. 25* n. 7 , e 8 
Concordia fegunda . entre o Arcebifpo de Braga ; eo 

Prior deGuinaraens , c. 27 n. 14 , e if 
Conegos de Guimaraens Regulares , cap. 24 num, 6 , 

e J4 
Conego* Cathedraes lua origem , cap. 24 num. 8 9, 

e 10 
Conegos Cithedraes Regulares em Helpanha > c. 24 

n. 11 j e n 
Conegos de Tuy ; de Qaragoc,3 , e de Braga Regulares^ 

c. 24 n. 1 2 1 3 , e 1 4. 
Conegos orisem defte nome , c. 24 n. if • £ 

Gonegos (ao o Senado dalgrcia., u 24 n. \6 
Conegos de Guimaraens iao Capsllaens u»EiRey % 0*48 

num. 6 > 

Conta de Chrtfto , e de Cefar {36 differentes , nem h£ 

mi (e p6Je to;nar por outra , cap. 2 n. 21 
Conta do Nafcimento deChriilo quando comecou, c« 

10 n. 6, e 7 
Conta da Incarnaqao do Senhor , quando cornecjou, c. 10 

num. 1 1 
Conftantino fualanqa feita em forma de Cruz, Prol 

num. 9 
Conftenrinopla cercada de Twcos I e quam apertada , 

c. 94 n. 12 
Corintho feu fundador, c. 92 n. f c. 93 n, 1 
Cortes primeirasde Portugal feitas«flnGttimaraes,c. 1* 

n. 3 c. 25 n. 3 
Cortefc feitas em Guimaraen$ por EIRey O. Diniz , c. 40 

n»m. i Coi- 



T)ds coufas 'twtayeis, 41 1 

Cotvas frequents 6 a .Igreja deS. Vkente nocibodeS, 

Vicente, c. a/ n. i 
Corvos acompanfrava® a nio , em quevem S. Vicente, 

c. 27 n.'4 ' . P** 

DonaConitanciaDuquezadeBraganqaonde jaz, c. 2$ 

num. i v „ j r», , 

Couias limilhantes hpuve emCaftella j e em Portugal, 

cap. 23 num. if 

D 



95 



14 



DAciano prefidente foy a Evora , contra Mariana, que 
onega .c-47 n. fa e 6 
Damafco leu fundador , cap. 9% num. f. cap. 

num. 1 
Sa6 Damafo # ftu dito Pro?* n,. % 
Sao Damaio , varias terras o fazem feu , c. f 3 n. t 
Sao Damaio muUos Authores faliao delle , cap. 

num. * 
S 6 Damafo foy douto, c-nobre,. c* t$ n. % 
Sao Damaio , , que Hvros fez, c. 14 n. i , el 
Sao Damafo foy Virgem , c. 14^ 2. 
g a 6 Damafo foy <iado ao eftudo de antiguldades, c 

num. x 
Sao Damafo foy elegante Poetg , c 14 n. * . 
Sao, Qamifo-inftituio a. fella da Aftumpqao ds Notta 

Senhora, c, 14 n.x. 
Sao Damafo inftituio o Breviario , eHoras Canomcas i 

c, 1 6" n. - 1 

Sao Damafo dado aliqao da Efcritura , c. 14 . n. ? 
$W Damafo autftorizou oskfcrjtos de Saojeronymo, 

c, 15 n. 1 
Sao Damafo fua rnqrte ,jeliquias,, e mj]2gres, c. vp 

num. 4 
Sa6 Darmfo donde foy nafuial , "c 17 n. 1 
Sa6 Damafo foy natural de Guimarsens , c. 1 8 n. 1 
Sao Damafo na5 foy natural de Madrid, nen de Tar- 
ragona , c; 19 n. 1 ^ 

Fit 11 

■ m. 



Sa6 




4t£ Index 

5a6Damafo nao* foy natural de Citania » cap. 19 w 

*# ej 
Sao Damafo m.uitds* Santos , e Santas florefcerao em 

leu tempo., c. 16 n. f, &4 
Dante Poeta fez a Ulyffes navegar ate ver o raundo no- 
vo i c. 81 n. ix 
Dextro feu Hvro perdeo-fe , c, *y n. 20 
Dido nao foy deshoneita , como diz V irgilio , feaao 

caftiffina, c. 86 n. 1 
Dom Diogo Furtado de Mendoqa affeic,o.ado a moe- 

dasantigasi c 86 n. 16 
Dom Diogo Gelmires Biipo de Sao tiago , cip. 2* 

num. 2 
Diogo de Tetve bom Efcritor , c. 45* n. 6 
Diogo de Teive promette de efcrever os feitos do& 

Portuguezes, c. 72' n. 7 
Sao Domingos quantos Mofteiros da ftta OrdeniiC. 29 

num. 1 
Douro rio foy terrao entre Lufitania, e Gailiza, c 19 

rum. f 
Duarte GalvaS apurou a Chronica dILlRey D. Affonr 

fo Henriques , c. 21 n, 1 
puarte Nunes reformou as Chronkas de Portugal , c, 

21 n. 1 

Duarte Nunes enganoufe no feguata cafamento de 

Dona Tareja , c. 21 n. y 
Duarte Nunes , porque fe enganou, c. 22 n. n.' 
Duarte Nunes mal inventa razoens contra o fegundo 

cafamento da Rainha D. Tareja, c. 22 n. 12 
Duarte Nunes nega o cerco de Guimaraens , cap* 2£ 

num. 3 
Duarte Nunes nega a ida de Dom Egas Moniz a Cai- 

tella, c. 23 n. 9 
Duicio Bifpo de Vifeo , c. 2 n. if 



llbo. 



*Das coufas notavtis] 41 j 



EBorcnfes fbgira6 pela terra dentro com Sa6 Man- 
cio , c. 26 n. 6 
pom FgasMcniz leu feito Jlluflre helouvado; c. if 

' n. 67 „ ^ . 

Dom Egas Moniz faz levantar o cerco de Guimaraens, 

c% *3 n. o 
Dom Egas Moniz parte de Guimaraens para Caitella 

com mulher, efilhos, a 13 n. 8 
Dom Egas Moniz da raza&defi aHlKey, de Caitella, 

c. %\ n. 8 
Dom Egas Moniz iua ida a Caftella proya-ie , cap. %$ 

j] t 1 1 , e 1 3 
Dom Egas -Moniz perdoado por EIRey de Caitella > c» 

*5 n. 1 z 

Dom Egas Moniz fua fepultura » c.13 n. 13 

Dom Egas Moniz feu cafo differente do de Peto Att> 

zures, c. z$ n. 14 , « if , ... , » « 

Dom Egastcrna de Caftella i e he recebido do PnneU 

pe com muita honra, c. 23 n. 16 
Egitania Cidade, fol.58 n. a f 

Egypcios , fua contenda iobre a] antiguidade , Prol, 

num. 3. ' ' r* j 

Eliberas Cidade fe diz agora Elvira junto a Granada; 

c. 46 m f - ^ 

Emeritenfes fogem com o corpo de Santa Eulaha,c. 

16 n. 6 „ _. 

Eminienfe Bifpado nao foy em tempo de Sao Tiago, 

em que o poem o Padre Higuera » c. 73 n. if 
Eminienfe Bifpado , nao efteve em Agada , cap. 75 

n. if 
Eneas foy muito depois de Dido , e de Carthago t c. *$ 

num. 1 

Engenhos humanos tern muitas faltas, c. 58 n. 6 

Santa Bngtacia Portugueza efta em Saragoc,a , H «» 

nuiDi 7 " ~ ■ • ■• J 

Saaia 



*|S;+ ::mdvc 

Santa Engracia'; de que nacao f 07 » cap. j\ num. 7 

Entre Douro, e Minho,'(ujasexceliencias, veja.fe ter- 
ra dentre Douro , e Mjn]io. 

Ephoro hiftoricodiffe j que Hefpanha era huma f6Ci- 

- dade, c. 73 ru y 

Era deCefar differe do anno doSenhor, e nao fe p6- 

^d.e tomarhuma por outra, c. 2 n. 21 

Era iua origem , e fignificaqoens varias j c 8 n,' 1 J 
4 i e os. feguintes. » 

Era feu comedo , e caufa > fegundo alguns , cap. 8 
n. 7 ^ e 8 

Era conta de Augufto cJn, 18 c 10 n. 4 

Era foy conta geral de todo Mundo , c. 9 num. x , 
e 3 

$ra Iua, caufa., e figniflcaqao , fegundo o Author , q, 
9 n. 4, e 5 

*Era quaaio excede a conta de Chriflo , .cap. 9 n«9 

Era caufa de feu principio , fegundo o Author, c 9 
num. 10 

Era quaodo:£e comeqou a contar porella, e porque, 
fegundo o Author, c. ia n. i x 3 , e 4 

£ra quando acabou em Hefpanha , c. io n. 6 , e 7 

Erudiqao, ornamento , e_ refugio. Prol. n. 1 

Eicola da lingua Latina antiquifltma em Guimaraens , 
c, zy n. 1 1 

Eferuor feu officio dcerca daverdade, c. 8jp n. n 

.EtcrUcwies antigos eftimados Prol. n. 6 

Efcritores Portuguezes poderamos ter excellerites , til 
4 f n. 5 

Efcritores por premio fe movem , cap. 4f num. 1 
2 , e 6 .-.'■■ 

Efcfitoregladrqerts doalfieyo^ c. 5"6, num., 1 

:Bfccteo&e« , que houverao de«fcre ; ver ascoufas de Por- 
tugal , c. 72 n. 7 
^fetetuura Sagrada atititfuifliwaj Prol. n, 6. 

Efcritura Sagrada iua verfao hede S. Jeronymp \ c. if 

tf. -I'i^ 2- n ( J ; 



■ '. 



da de Guimaraens, c. xj n. 6 , e 7 



•fe 



vange* 



T)as confh hctayeis. 4* 5 

Evangelho , quango , e por quem prinaeltamente foy 

efcrito-, cap. 59 n. 4 ft j tj - . 

Eudoxo na6 abrio o caminno da India pela colia de 
Africa, cap. 75 ^m. 6, e S 
Banto Eufiafio oade <fta fefu corpo , c. 54 -mam. ^ 
Santo Eugenio primeiro Bifpo de Toledo , cap*' 57 

n. 8 , e 9 - x 

Eunucho de Candace pregow acs Ethyopes Gentrcs; 

c. 33 n. 8, e 9 
Evora leu fid©, abuadancia, antiguidade , e ncbreza; 

c. 43 n % c. 44 n. 1 . ' 

Evora chamada sntig^mente Ebora ; cu Eibora > cap. 

43 num. 10 cap. 46 num. a , e 3 ' . T 

Evora he Elbora patria de Sao Vicente; c. 44 n. 1 
Evora fuasantigualhas do tempo dos Romanes, ci 44 

n» 1 4 ci 46 n. *2. • - 

Evora /eu muro , e aquedu&o antigos fez Serfeorip, 
I • "a 44 n. i - • '■'' '■ 

Evora dedicada a Virgem Noffa Senhofa , cap- 46 

num. 1 ... j * 

Evora teve dous Ekritores de fua antiguidade , c. 46 

num. 1 l 

^vorafeyrf^imeiTb Bifpo Ssa Mancio ; c. 46 tonrmlj 

ieus naturaes fugira© com o corpo : defte Santo pela 
«i'tdrra aNtatro , c. 16 n. 6 01 
Evora chamada Ebora quando eftenome fecotrompeo 
c emElbora, c. 46 n. 6, 7,-e8 
Evora ieu nome andava em moedas dos Reys Todd's, 

c. 47 n. 1 ; 

Evora tern templo antiquiffimo deSad Vicente feu nas 
, tiifal,ipf«ronOj c. 47 n. 4 -^ 



F 



'■ 






. 



FAmahemonerfegundo, c. 11 tC. 14 
JPamilia-s atitifcas eftkriadas firdfc hi% t 
Fauftino Bifpo de Braga , porque foy mudatjp para Se- 
ville, c. *B n. 4* 



H 



felk 



41 6 Index 

Felix foy Bifpolrienfe, c. 38 n. 8 

Felix foy BKpo Portuenfe t e Bracharenfe , e. %t n. 9 

19, e u 
Felix Bifpa Irienfe, Portuenfe?, e Bracharenfe , nao 

tfechamou Torquato , fenao Hidulfo Felix, c. 38 

num. 13 
Felix Bilpo deBraga, hao he o nofto Sao Torquato 

vifinho de Guimaraens , cap. 38 n. 13 j 14, cap. 39 

num. 1 
,Sa6 Felix Gerudenfe deu nome a Sao Felizes, cap. 39 

Ferna6 Lopes fez as Chronicas de Portugal , cap. xi 

num. 1 
Dom Fernando Conde de Traftamara affina-fe Conde de 

Portugal . c. 21 n. 4 
Dom Fernando Conde de Traftamara (ua nobreza , c. %z 

num. i , ex 
Dom Fernando acorn pa nha a Dona Tareja a .Zamora , 

c. 12 n. 3 
Dom Fernando fegue as partes d'ElRey de Caftella, 

c 22 n, 3 
Dom Fernando fua nobreza t c. i% n. 3 
•Dom Fernando Conde de Traftamara , porque nao foy 

conhecido em Portugal , c. 22 n. 4 
Dom Fernando o mefmo feu valor , e vir tude , c. 22 
oi num. y, { 

Dom Fernando Conde de Traftamara vay a Jerufatemy 

c. 22 n. 7 
Dom Fernando de Traftamara General do : Exercito de 

Galliza, c. 22. n. f 
Dom Fernando o mefnp.parecia hum Rey de Gal.liza, 

c. 22 n. f 
Dom Fernando cafado c6m Dona Tareja , e em que an- 
no, c. 21 n. ? , e capl 2.2 n. 6 
Dom Fernando de Traftamara vem a Portugal , c. 22 

num. 1 1 1 '■ ; 11 .,■ r r '\ 

Dom Fernando Infante Santo, cativo;«m Africa, c. yi 
•num. y 
I>om Fernando Infante Santo , fejus miJagres na Igre- 



Qas.coufas nbtaveis 4*7 

ja de Guimaraens , cap. 52 rum. 1 , .*»' e 3 
Dom Fernando Infante Santo , em que aiino, e dia 

morreo , c. 15 n. 3 
Feiiabole fe foy nome antigo de Porto , cap. *]\ 

num. 34 
Fidalguias ufurpadas dos dentre Douro, e Mmno, c.40 

num. 1 ... 

Filolofos antigos fallayad de humamaneira , eviviao* 

deoutra, c. 95* n. 14 
Dona Flamula Freira de Guimar? ens , c. u n. f 
Foral antigo de Guimaraens , cap* 12 num. 3 a p. it 

num. 8 u j* ' 

Fragmentos , e papeis do Padre Higuera acnados em 

Sardenha , iao fabulolos., cap, 58 n...i, e osfeguin- 

tes, e todo o cap. 59 cap. .73 num. 14, e 16 
S. Francifco quantcs Mofteiros de fua Ordem, c. 29 

num. 1 
Sao Francifco efteve em Gwimaraens , c. 2,9 n. 5 
Francifco Dandalo Veneziano ccm hum a cac! : ea defer- 

10 no pefcoqo ante oPapa , c. 23 n. 12 
francifco Dandalo feito Duque de Veneza , c. 23 n. 12 



G 



GAya fe chamou antigamente Cale* c. 73 n. 3 , 4, 
e por todo. o cap. 

Gaya te efteve nella hum Caftello antigo chamado 
Portugale, c. 73 r. 26 

Gal legos' de Tuy , iegundo. Laimundo deftrctm a ter- 
ra dentre Dour,© v e Minho , c. 85" n. 5 

Gallegos diziao, que" delcendiao de Giegos, cap. 89 
num. 3 

Gafpar Batreiros E fcri tor grave , c. n n. 14 

Geraqceos muitas de Portugal dcnde vem , cap 
num. 5 

Geracoens. fe devem efcrever , c. 21 p. 7 

SaoOeraldo Arcgbifpo de Bra ga, affile nasX-'crtc 
Guimaraens* c. 12 n. 3 

- • ■■■-'■ - : Ggg 



56 



i de 




418 



Index 



Sad Garaldo afliflte, e diz Mhla nas Cortes de Guima- 
raens, c. ty n. 3 
Sad Geraldo par quern foy eleito , c. 6ti n, j 
Gaios quando ent.arad en Hefpanha, c. 47 n. 8 
GoiJs barbaros, e ininaigos das letras , c. 90 n, $ 
Godos, porque erao imniigos dos Heipanhoes , c.90 
n. 6, e 7 

Sao Gonqilo de Aroarante , e o lugar onde nafceo^ 

c. 19 n. 9 
Sao Gonqalo foy Conego da Igreja de" Guimaraens, 

c. 30 n. i ,1, e \ 
Sao poaqalo nunca foy chamado Sao Frey Goncalo, 

como Sao Frey Gil , e outros , ncm he hoje em dia, 
ri c. 30 n. $ 3» n. 3 
Gonqalo Bilpo deLugo, c. an. 19 
Sao Gregorio Papa Apoitolo de Inglaterra , cap. 76 

num.. f 

Gregos mais efcreverao \ do que fizerad , cap. 24 

num. 1 
Guarda fol 53 n. 2 • s . > 

Sad Gu liter vein a Portugal , c. 19 n. 2 
SadGailter (eus milagces , c 29 11. 6, e 8 
Sad Gualter o Cabido de Guimaraens quizfurtar feu 

corpo , c. 29 n. 4 
Guerras entre Braga, e o Porto, fegundo Laimundo , 

c. 8 f n. 6 , e 7 
Guicciardini ieu dito contra noffas navegaqoens , c.7* 

num. 3 
Guimaraens fua nobreza , c. 1 n. 2 
Guimaraens donde vem efte norne , c. 3. n. 1 
Guimaraens fua antiguidade , c. 3 n. 6 3 

Guimaraens comeqa a fer burgo , c. 4 n. 8 
Guimaraens chamada ja burgo , c. 6 n. 1 , 2,04 
Gu'msraens donde comecou povoarle , c. 6 n. 6 
Guimaraens feu Caftello obra da Condefla Mumadona. 

Veia-fe Caftello de Guimaraens. 
Guimaraens comeqa de povoarfe , c. 12 n. 3 
Guimaraens patria dehum Papa , ede hum Rev, c 12 

own. 6 

Guima- 




7) as coufdf not ateis. 419 

Gutmataens patria de Sao Damalo foy antigamente Ci- 

dade, c. 18 n. i 
Guimaraens patria d'ElRey Dom Affonfo Henriques 1 , 



c. 1 1 n, $ 



e6 



Guimaraens nao he Araduca , cio, n. 6 
Guimaraens cercada por Eltf.ey de Caftella f c. t$ a. 

i , e i. 
Guimaraens cercada de muro per quern c. 40 n. 1 
Guimaraens riao tomou o nome do Principe Vimara- 

no, c 18 n. 2 , eg 
Guimaraens de que fenhores foy , c. ff n. 1 , * ,3 , e 4 
Guimaraens , tern avoz d'clRey Dom Joao" primeiro 

de Caftella , c. ff n. 1 
Guimaraens tomada por EIRey Dom Joao primeiro de 

Portugal , c. $ f n. 1 
Guimaraens feuCaftello combatido , defendido , -eto* 

raado , cap. J5 n. 1 , e a 



H 



HAnnona8 paflbu Hindis pela cofta de Africa, c; 
7f n.6, 7, e8 
Hanno iua navegacao da India , que Plinio allega, toy 

falia i c. j 5 n. 7 
Hebrebs hiao a terra Ophyrbufcar ouro , eouttasmer- 

cadorias , c. 76 n. 7 
Dom Henrique Francez , Borgonham natural de Bezan- 

<jon, c. n n, 1 
Dom Henrique cafa com DonaTareja com Portugal em 

dote , c 12 n. 2 
Dom Henrique Conde, quaado veyo a Portugal , c. i% 

num. 1 
Dom Henrique vindo a Portugal poz feu aiTento , e 

Corte em Guimaraens, c. iin. 2 
Dom Henrique Conde de Portugal ajuda so Conde de 

Trava, c. tz n. % 
Dcm Henrique em que anno eafow, ecntrcu em Por- 
tugal, c. llfl,.l ^ 

Gggii E5ow 





423 



lndi 



ex 



Djm Henrique Condi de Portugal, em que anno mor* 
reo c. 2i n . f 

Dom Henrique onde foy fepultado , cu n, 9 
Herman H«rege foy hum tempo tido por fanto , c. 28 
num. 6 

Hirmigildo Gonial vesmarido de Dona Mumadona , c. 
1 n. 4 7 a 

Hermigildo Bifpo Irienfe , c.2. n. 19 

Hefpanh* entrada de M >uros , e quando , c. i, n. 2. A 

cauia deft 2 caftigo : nometmo; 3 
Hefpanha fua riqueza antiga , cap. 8 num. 1 , 3 , e 

H 
Heipanhi fua divifao em quantas partes ,. cap. 57 

Hefpanhocs tinhao maajadouras de prata , cap. SJ 
num. 13 x a 

H-fpanhoe* majs fizerao , do que efcreverao « c. ,2* 
num. 1 T 

Heljsanhoes, nao lhes falta IngeoW, c. 24n.i 
Heipanhoes antigos gente pohda , que eitimavaa vir- 

tude , c. 90 ft. 1 , », e 5 
Sao Hieronymo, veja-fe Jeronymo. 
Higuera, efeus fragmeatos, veja-fe fragmentos.' 
Hippolito Bifpo Portuenfe, deque Cidade foy Bifpo, 

c * 73 n> 38 
Hiftoria feu provetto ProJ. n. 8 
Hiftoria nao deve fer viciofa , pois he meftra da vida 2 

c. 8j n. i 

Hiftoria mais duravel , que fepulturas de pedra , ede 
ferro, c.c* n. c 

S 1 ? " 3 fua v erdade fe deve examinar, q 8c n. 1 
Hift)nco qua] feja o feu officio c. 8f n. 1 
Homem marinho vifto em Lisboa , c. 7 n, 17 
Homem deoitenta,ou noventa annos .aindapode ce- 

rar, c. 72 n. 1 r ° 

Homens veihos eftimados 5 Prol. n. c , e6 
Homero Efcritor de antiguidad-s, .-Prol. n. 1 1 
Homero fua livraria, emorte , que foy de fome. c. 38 

num. 7 J 

Homero 



T)dt coufas notayeis. 



Homero fonte de ingenhos chamado divino, tevefal- 

tas no elcrever , c. 58 n. 7 ■ ■ 
HorasCanonicas inftnuid&s por SaoDamalo, cap. 16 

num. ! " , . „. -j r 

Horas de NofTa Senhora inftituidas > c. 16 n. 3 

Horacio , leu dito Pro!, n, 6 



IDanha fol. ?8 num. 2^ . 

Sao Jeronymo feus Mofteiros em Portugal dehcias 
. denoflos Keys > c. 25 11*22 # 

Sa6 Jeronymo Author da veriao vulgata da bicntura , 

c. 15 n,,i, e 2 
S26 Jeronymo fe foy Cardeal , c. 16 n. 5 
Sao Jeronymo, em -que anno morreo, c. 71 n. 5 
Jeronymo Cwita Eicritor grsvifiimo , c. »5 n. 5 
Igreja' de Guimaraens, feu fundfrdor, cap. 24 num. 1, 

3 » e 5 
Igreja de Guimaraens honra efla Villa, c. 24 n. 1 

Igreja de Guimaraens m6 reconhecia por iupencr ao 
; Arcebifpo de Braga, c. 25 n. 3 , e 6 _ 

Igreja de Guimaraens Capella Real do Ccnde U. Hen- 
rique, edaRainha tuamulher, c. 2? n. 6 _ 
Igreja de Guimaraens feu Altar mor (agroufe em preien- 

qa d'ElRey Dom Joao primeiro , e da Rainha , e dos 

Infantes (eusiilhos, c. 4Q n. 6 
Igreja de Toledo, veja-fe Toledo. 
Igreja ieus perfeguidores fao caftigsdos por Deos, c. 

51 n. 1 
Igreja feus perfeguidores tern mao fim , c. 51 r. 3 
Igrejas Cathedraes lua origem , cap; 24 num. 11 > 

e u , ^ 

Santo Ildefonfo feu corpo onde ficou na deftruicao de 

Hefpanha , c. 34 n. 2 , u ■ 

Imagem de Nbfla Senbfora de Guadalupe \ onde le achou 

c. 54. n. 2 - 

Imagem de NoffaScabora, quepintGu Sa6 Lucas t*- 

... voravel 




Index 

voravel xo povo Romano, c; 40 n. 6 
Imagem de Nofla Senhora , que pintou Sao Lucas . le 

vanrou a pefte em Roma , c. 40 n. 6 
imagem da Senhora chamada Veronica , venerada na 

Igreja de Guimaraens, c. 40 n. 2 ™"=™aa na 

c* g ™n Ve 4° ak * dC Guimaraens f <>y trazida de Roma,' 
Imagem Veronica; que eft* na Igreja de Guimaraens 
retrato da que pintou SafcLuJs \ cap ^o~* 

Imagens de NofTa Senhora , que pintou Sao Lucas , f . 
rao duas, c.40 n. 8 , e 9 ' ° 

n^ S ,o° SSafltOS \ fua Venera(?a6 r e P roveito » * 4° 
Imperio Romano fuas partiqoens por triunviros , c. 9 

India pela coitade Africa, fe foy defcuberta de mais 
que dos Porruguezes , c. n n , 2 ai$ » 

India pela cofta de Africa nunca foy defcuberta fe. 
nao^dos Portuguezes, c. 7, n. 5 \ e 7 * ' ^ 

Jndta Oriental de quern tomou o nome , c. 77 n * 
ve"a r c 3adla defcub ertas por quern , c . 80 n* 1 , % ; 

Iniias de,Cafteila feu maravilhofo defcubrimento, c 
00 n, 4 ' * 

Indias de Caftdla como fedefcubrirao. c. 8o n. 6 
c^o n CaftSUa feU defcobridor » de q ue na ?ao foy; 

Ir r hrjft C °2 /?",* quem o as defcub «o morreo em cafa de 
ChnftovaS Colon ♦ c. 80 n. 8 , e 9 

Iniias de Caftella donde tomaraS o nome , cap. 80 

Indi, 1s de Caftella ja forao por muitos defcubertas u c 

Si n, ,6 , 7, 8, 9, 10, e iz 
Jndias de Caftella feu defcubridor foy Portuguez , a* 

o} n. 2 , e 3 -..:., 

Indias de Caftella forao chamadas Americas , cap. 8: 
num. y ' y * 

In Jias de Caftdflf tiveta* tres defcubriJoies , cap. 84 
n ' , ' e 3 Ooro 



*Das ccnfas notayeis. 423 

Dom Joao* primeiro fez duas cafas a Ncflo Senhora da 

Oliveira de Guimaraens , c. 41 n. 7 
Dom Joao primeiro foy dar as graqas a Santa Maria de 

Guimaraens , cap. 41 Bum. 4 cap. 48 num. 1 c, jo 

num* 1 

Dom Joao primeiro le peza a prata na Igreja de Gui- 
maraens , c. 48 n. i c. 49 n. 2 

Dom JoaS primeko fas a Igreja de Guimaraens , c 48 
n. 2, , e 5 

Dom Joao primeiro comfua mulher, efilhos aflifrena 
fagracao do Altar da Igreja de Guimaraens > c. 49 
. num. f < 

Dom Joa6 primeiro fez a ca>fa de NofTa Senhora, que cha- 
mao da Batalba , c. 41 n. 7 

Dom Joao primeiro mo* dido per huma cadella damna- 
da , cap. 49 n. 2 

Dcm Joao primeiro pede as armas a Santa Maria de 
Guicnar&ens , c. 48-47. 1 e. 49 n. 4 

Dom Joao primeiro da raya de CaftelJa vem a pe a San- 
ta Maria de Guimaraens , c. 49 n. j 

Dom Jo£o primeiro iuas fallas a Ssnta Maria de Gui- 
maraens , cap. 48 num. 1 cap. 49 nam. 4 cap. 50 
num. 1 , e 5 

Dcm Joao fegundo pedeao Cabido 9$ prefentacoens 
das Conezias de Guimaraens , c. 14 n. 5 

Joao Arcebiipo de Biaga legado , c. ijr n. 4 

Joao de Banos Conego de Braga, deu tres Mofleiros 
a Collegiada de Guimaraens , c. 35 n. 4 

Joao Annio , e fua farca de livios falics , cap. i£ 
num. 20 

Joao Annio tirou a luz Berofo, Cato j Matafthenes, 
e outros Authores todos falfos , cap. j8 num. 6 , 

e 7. 
Joao Pico Mirandula fua livraria J c. 44, n. 7 
Italia may , e am a dasoutrass terras, c. 90 n. 4 
Judeos quando vieraS a Heipanha , fegundo Garibay, 

c. 2,2, n. 4 , e j 

Judeos quando , e de quern forao a$m chasnados , c, % S 

num.o , 

., Judeos 




42+ Index 

Judeos nao vierao , nem forao trazidos a Hafpanha 

por Nabucodonoior , fegundo a Efcritura , c Jofepho, 

c. f 9 n, i , e 2 
Judeos a todas as naqoens queriaqmal , c. 59 n. 2 
Judeos quando comecirao a fahir de Judea , cap. 59 

num. 2 
Juliano nao prova o Bifpo FeJix chrfiarfe Tcrquato; 

cap. 38 num. 15 , e 14', cap. 39 num. 1 , 2 , 3j 

e 4 
Juliano mal faz Sa& Torquato de Guimaraens fer Ar- 

cebilpo de Braga , c, 38 n. 13 , e 14 
Juliano foy Author moderno, c fabulolo, c. 39 n. f 

c. 72 n. 16 
Julio C^Iar , em que anno morreo , c. 9 n. 1 1 
Julio C?far teve por honra j que huma efpada , quelhe 

foy tomada na guerra, eftivefle pendurada em hum 

templo de Franqa, c. 68 n. ij 
Julio Celar foy ao Mundo novo, c. 81 n- 6 
Julio Cefar reformou o anno , c. 8 n. 17 
Dona Julia vem de Italia a efcrevei o; feitos dos 

Portuguezes , c. 72 r. 7 



LAcedemonios , que faziao nps convites^ cap. 8f 
num. 3 
Lai mundo Heritor Go do contra o Porto > cap. 85 

num. 1 
Lairnundo reprehendido nas coufas do Porto , c. 85* 

num. 4 
Laimundo fiUamente difle, o que efcreveo do Porto; 

c. 88 n. 2 c. 91 n. 1 c. 93 n 4 
Latina lingua antiquiflima em Quimaraens , cap. 25 

num. 1 1 
Legoa quantos palj'os tern c. 87 n. 1 
Legoas , e paflos nem fempre concordat 9 cap. S^ 

num. 1 
Leite da Virgem Nolla Senhora , c. 3 n, 4 

Lelio 



T)as cowfkmottiryeis. 425 

Lelio decimo ieu juizo fajil , c. 73 n. 1 " 
Leovigttdo Rey Godo venceo Brsga, did gloria difla 

em moedas de ouro , c. 6$ n; 13 - 
Letra numeral X , quanto val i cap. 2. num. tz 13, 

• e 14 

Letra numeral ••% , quanto val , c. 2 n. ff ♦ e re 
Letsas rnemoriaes do elquecimento , c. 42 n. 5 
Letras confervao a fama dos varoens illuiires, cap. 42 

num. f 
Letras, e feus fa u tores, c. 4V n. t , e J 
Lwjao, fua recreaqao Prol. n. 1 
Licao , feu proveito Prol. n. 8 
lima rio, porque fe chamou do efquec : raento , c 18 

Linhagem , veja.fe gemgoens. 

Linhsgens muitas & Portugal, donde tra«em otigera, 
c. 56 ru s 

Lisboa donde come^on povoarfe, c. 6"n. t 

Lisboa , e Ulyfl'ea de Strabo j fegundo alguns * fao dif- 
fer entes , c. 7 n. % 

Luboa , e Ulyflea de Strabo moftra-fe f«r a raefma, 
c. 7 n. 15 , e 16 e 

Lisboa te teve hum templo de Minerva , e nel!e , &c 

c.7 n. 3 
Lisboa tr z feu nome de Ulyffes , c. 7 n. » 3 
Lisboa ortde efta pofta , c. 7 r. iV» e 14 
Lisboa funda<;a6 deUlyfes,. c. 7 n. 1$ ', e ** 
Lisboa manda embaixada a Tyberio Ceiar , cap. 7 
f num. 17 
Lisboa municipio de Cidadaos Romanes , cap. 7. n. 

M 
Lisboa chamada Felicidade Julia , c 7 n. 17 

Lisboa feu verdadeiro nome * c. 7 n. 18 

Lisboa fuas armas , c. 27 n. 6 

Livio efcreveo com receyo de nae fer conhecido , c.i 

num. 23 
Livio lcuvado de Sao Jeronymo, c. 2 r. 13 
Livro de Dona Muma* c. 1 n. v c. x n, 9 
Livros falfosiempre oshouve, c. 73 n. 17 • 

Hhh Livros, 




4*« / Index 

kwos ia© feidmens do tempo/Prol. n. i 

Sao Frey Lourenco Mendes da Ordem deSao Dornin- 

gostiluftre em tantidad* t c. ji n. 5 
Sao Prey Lourenco Mendes recebeo huma arcane re- 
J Jjquns drhunv Anjo,.c. 5- 2 n. 6, e; 
fcao Frsy Lourenco Mendes , feus railagres, cap. ja 

Sa6 Lucas, que imagens da Senhora pinfou , vcja.fe 
imagens. r f: 

tugo'fua Metropoli iujeita a Braga.,. cap. 63 num, 
1 » e 1 

fcuiz.de Gammas- feu juizo r fua eleicao, efeupoema, 
c. 13 n. 7 r 7 

Lufnania, e feus Hmites, c* 19 1*. 4 

Lufitania ate quan.10 teve elte nome , c. 92 n. 3 

Lufitanosmais valentes, que-todos os mais Helpaohoes.- 
c. 74 n,i, a, e g . 

Lufitanos peleiavao apartados dos Hefpanhoes, c. 74 
num. 4 , e 6 r ^* 

Lufitanos eatre todos os mats Hefparihoes , er*6 nc« 

meados por (en nome , c. 74 n. 5 
Lufitanoa nao tiveraoouttos Chroiiftas , ienaoaosRo- 

manos,leus inimigos, f c. 74 n. 6 



M 



]\/f A ? aroct dj Virgem Noffa Senhora , cap. 3 

MiFa-Ja Riinha funda o Mofteiro da Cofta . c. ar 
num. n , ' ' y 

Sa6 Mmzlo Apoftolo de Evora , onde jaz" cap. 24, 
num. a- * K 3 * 

Sa5 Mmzio prin-iro Bifpo de Evora , c. 46 n. a 
Worn Manoe! Rcy , amigo de \iq16 de hiftoria Pro!; 

num. 7 v 

t>om Maruel Re/zeloio de extender a K , c. & n. n 

Dom 




>Pom Manoel Rey, que Jgrejas fez, c 36 r\ i 
Dom Manoel Rey fua carta iobre Sro Torquatcpara 

•oCabido de Guinwaer.s, c. 36 0. 2 
Santa Maria de Guimarsens pcrque le charria da Oli- 

veira, c, 41, r*. 3, 64 
Santa Maria daOliveira deu a EIRey Dcmjotoprimei- 

ro a vitoria de AljubatrdSa-, -cap. 41 num. 7, e$, 

c. 48 n. 1 * 

Santa Maria da Oliveira, patrcua da Cafa 'Real,- c, 48 

num. 4 
Santa Marinha , quantas Santas defte norrre , cap. %$ 

num. ^8 
Santa Marinha Gallega, c. 25- n: 21 
Santa Marinha por outro'ttbrne Margarida , titu'o $& 

Mofleiro daCofta*, c. 25 n. 21 
Mar roxo qual he , c. 78 n.2 j ,2, , 4 v fe 



Mar roxo nao tomou o rohieci'ii R;y ErytHra e, .7.3 

I num» #saq :J 

Mar roxo fepultura dos Egypcios , cap. 79" num. i, s 

e 2 
Mat toxo donde.na veidade tomcu 6 norre, cap. *£ 

n '3> e 4 
Mar roxo por onde o paffou* o povo de Il.rael cip. ^o 

n. n. s* 7H 9' e }° L . 

Mar roxo reteve muito tempo <os mia'es 'das. re das das 

. carros de Pharao , c. 79 n. 11 

DomMartim de Freitas vayaCaftella entregar ascha- 

ves do Caftello de Coimbra, c 23 n. 10 
Dom M^rtim de Freitas iua lealdade he louvada c. 2| 

num. io 
Sao Marti nho desfaz o iepulchro de hum falfoianto, 

c. 28 it. f '• 
Mauri-do Arcebifpo de Bragaicnde rrorreo , cap. 2? 

num. 4 
Medalha sntiga \ que le aclieu em Guimaraens, c. 18 

n. f , « 6 
Merida feu furdador, c. 92 n. 5 c. 93 n. 1 
JHeffaJa'- Coffin© , que ^efcreveo \ c. 2 1 r . 7 
MetafthenesdeJoaS Anruor-.e Authcrfalfo, *• Vjw7 
- Hhh ii Mettc- 






42 S Index 

S9B8WSR «, n.T 8 as Cidades - que eraS 

^S'^ * S&i n ° me na6fo y Ropuncipio.cy; 
Milagre^daOlijeira de Santa Maria de .Guiawacns , c. 

M num e y ^ Sa " M Maria de Guitn "asns , cap. 4t 
Mirandula (ua livraria, cap. 44 num. 7 

taBra g ae(crita, cap. 68 num. ij, 14, eu 
Moeda d'URey Donfsancto primi'o d e Portugal t 

^mmv g° m3na 3ntiga achada noMu ndo novo , c. 81 

Moedas Portugu^zasdeSao Viccnt> , c. 27 n. 6 
Moedas anftgas fua utilidade, c 68 n. *8 

numr!a tigaS entretenimento ^ Principes* cap. 6* 

J^n?h!L e M it0r de alidades, Prol. n. ,, 
Wuihcr pode conceber hum filho , e pouco depois o«* 
tro, e panlo. com efte iotervalio, cap. 7 * W £ 

JMuineres B acharenfes teriam , e fiavao augment* 
come agora , c . 88 n. $,- e 4 a ™garnent« 

SuTa fCU am ° r ' C lasrimas ^^Podem. ft 21 
Mcltdro de Guimaraens foy de Frades > e Freiras, c* 

Moiteira de^Guimaraens qua! foy antigamente , c 3 
Moflei'ro de Guimaraens teas rendas , c. 3. n. < c. 11 

MoViro^Vr " 10UVOr, e nob * ez a. C. 25- n.6 
Pr^irl? deGu,marae ™ teve Frades , e Clerigos, e 

«um r ° 4 GUirraraenS teVC Frades * e Cleri g° s > c > '* 
M ^r z de ' Guimaraeas feit0 IS»* Collegida , c. 14 

Mqfc 



T)as coufas notayeis, 429 

Mofteiro de Guimaraens immediato ao Papa, caj-. \$ 

num. 1 
Mofteiro de Guimaraens leus Abbades> e depois Priores, 

tinbao juriidkqao ordinaria , c. 24 n. 1 
Mofteiro da Coita iua rundaeao , e fitio , cap. 25 

num. 17 
Mciteiro da Cofta fua ; adVocaqao.de Santa Marinha per 

outro nome Margarida, c. 15 n. 11 
Mofteiro da Cofta, foy ptimeiro dos.Conegos Regran- 

tes de Santo Agoftinho , agora des Frades de.Sao 

Jeronymo, c. 2j n. 22 
Mofteiro da Goita univerfidade de Prircipts , c. ±f 

n. 22 
Moiteiro da Cofta vifta deleitofa para Guimaraens , c. 1 jr 

num. 2,1 
Moiteiro de Sa6 Domirfgcs de Guimaraens, funda-fe, 

c. 29 n. 4 
Moiteiro de Sao Frsneiico de Guimaraens, funda-fe , 

c. 29, n. x, e 3 
Mofteiro de Sobrado , fua fundaqao' , cap. 22 num. 

1 , e 2 
Mc iteiro de Sao Torquato junto a Guimaraens, fua an- 

tiguidade , c. 34 n. 5 
Mofteiro de Sao lorquato foy de. Conegos de Santo 

Agoftinho , c. 37 n. 1 , e 2 
Moiteiro cTeSao Torquato teve duas advocaeoens ^ c 

55 n. 2 , e 3 
Moiteiro de Sao Tcrquato , veja (e Sao Torquato. . 
Mofteiro de Fiades , e Freiras desfeitos, c. zf n. 2. 
Mofteiros de Sa6 Jeronymo delicias denoflos Reys,c. 

25 n. 12 
Mofteiros, que fundarao ElRey Dom Affbnfo Henri» 

quesj e Dona Mafalda (ua mulher , c* 25 n. 25 
Dona Mumadona quem foy, c. in. 3 
Dona Mumadona funda hum Mofteiro na fua quint* 

Vimaranes, c. 1 n. 4 c. 2 n. 1 
Dona Mumadona, en&6 Dona Muma , fe devedizer; 

c. 1 n. 7 , 8, « 9 
Eona Mumadona pieteofe Freira, c f 3 n, % _ 

Pons 



-Uoaa MamaHona feus pays , e £eu marl Jo i cap. * 
num.} 6 ' "• • 

Dom Hamidom fua aobreza , c. irn.o_.eio 

D °num^ 1 2 T1:id0n3 f ° 7 Frdra fCtenta ann0S ! ca P'~H 
Mundo novo Veja-fe Indias deCaflella, 
Muzarabes quem erao, c. 27. n. .* ' 



N 



N A num d ° n0f0r fe Vey °* aHaf P anha 2 cap. 35 

Nabucodomfor quai he o que p arece vix | ou man; 

dar a Hefpanha os doze tribus , c. 58 n. 3 ' 

Nabucodoaofor , fegundo Magafther.es mais valente. 

que Hercules, fujeitou Africa^ e Hefpanha , c . 1 8 

num. 3 ' ' 

Nabucodonofor nao mandou os doze tribos a H-foa-' 
yr^^l 1 ^^ ^ * 3 nUnV4 ' e *'^ 

N e s£ jSjga; p e T guezes quam 4t* 

Naye ? a C o da India pela cofta de Africa diz Plinio fer 

n ieita antigamente , c. 7? n. 2 
aa«ega$a6 dos Portugueses a India nunca foy f e it^ 

lena6 par eHe* em todos os tempos paflados, c 7? 

num. 5 , e 7 ' 7> 

Nr/egacao da India, que motivos houve para fe te* 

ser, c.;6n. 5 , 4 , f , e 6. K 

wwwjgaoso auuga^eraqwe confiflia, c.81 n. * 



Officio 



T>as con/at tiotayeis. 4 3 * 



Officio deNofla Senhora por quern foy infliiuido* 
c. 16 n. 3 
QHvefta da Senhora de Guimaiaens r feu mitegre , c. 41 

n. 5 , e 4 
Ophyr terravde ouro , onde Salomon o mardava buicar, 

onde eftava , c. 77 n. 2 
Qphyx naoMao as India? deCaftella, c. 77 r. 3 
Ophyr na6 he Sofala. Se he Pegu , Malaca , e Sama- 

tra , c. 77 n. 4 
Ophyr foy Ilha potfa no mar roxo, c 77k n. 5, e § 
Ophyr foy Ilha Chiyie , confoime a opinio do Au* 

thor, c. 78 num. 1, e 6* ^ 

Orofio, veja-fe Paulo Orofio, 
Otranto Cidade de Italia torrada pelos Turcos, c. 94 

num* 8, e9 
Otranto quando fe tomou deu grande terror ao Popaj 

ea toda Italia f c. 94 n. 8 , ie , e 11 
Otranto tomada , foy rnotivo , que eertos Romsnos fu« 

giflem com o corpo deSao Pantaleao para t Ppno 

em Portugal , c 94 n- 15 
Oveeo-Biipo deLeao , c. U num. 17 
Ouro porque anda amarello j iegundo Diogenes , capi 

95 num. 



PAdra5 da Cruz; que efta na praqa de Guimataens, 
c. 41 n. % , ?, ef 
Sao Pacomio, e iua regra dada por hum An jo-, cap. 3 

num. 3 
Sao Pantaleao de Nicomedia, feu corpo efta emVe- 

neva , c. 94 n*. 3 
Sao* Pantaleao do Potto donde foy trezido a f fta Cida- 
c. 94 rft 5 , e 7 _ - 

©a© 



4J2 



Index 



' 



Sao PantaleaS do Porto f uy trazido de Roma, c. H 

%^sss&s^!iifi» hum 

m. 3 q e 6 J* ten " a ' e com ° fe conhec e , cap. 9S 
Patria «da hum fe defeja na f„. , cap . 9y num< , ? , 

Pa^tonrada por virtude des Cidadaos, c. . ?n . 4J 

^| ^^ P areda v « "° Prefepio deChrifto, 
Paulo Nunea Ellaco Capita8 da Torre de Cental, c; 

Pd n U urn. C ,' Ofi0 qUem f ° y ' e 1 ue livtos f « . cap. 6 9 
Paulo Orofio fua na9 a6 , e patria, c. 6 9 num. », ? , 

Pd viode r 7°wl° UXe aBraga teii ^' m de Santo Efte- 

ft 7" n I P ° f ° ni ° Arcebif P° «>• Braga , 

Paulo Orofio fe foy Braeharenfe , c. 70 n. i * can 
. 7< n. 1 , e os leguintes. ' 7 * ' ' *' ca P* 

a s u dr d i o /, io c.f;° n u a ? vitoria dos Portueuez8s con,ra ° 

Xndu'rrXn. 6 ?"" douda 4 no(Ia naw5 
^nXi^dorJrn.'; fuas «w.S 

a d nr iR d o e S ,e r 8 r n . b x Ufcato Noite «* ™°**» ao S 

Sa m.m d j Viga "° de Ch,ift0 ' P° rmais v ^ho , Pro). 
Sae Pedro primeiro Blfpo de Braga , «, ,7 n. <5 . e 9 

Sag 



/ ' 



*Dis coufasmtAVeis +3 $ 

Sa6 Pedro primeiro Bifpo de BragA quern' diz fer Ju- 
dso ,. e vir. a Heipanha com os doze tnbus , cap. 58 

num. 1 - . .. r { c 

Sao Pedro primeiro Bifpo de Braga quern A\% fer reiuir 

citado, emandado por Biipo de Braga , cap. 58 

num. % p 

SaS Pedro primeiro Bifpo de Braga quern diz * que tec 

Oidades EpUcopaes , c. 58 num. 2 
Sao Pedro primeiro Bifpo -de Braga na6 toy refuicitadt 

por Sa6 Tiago, cap. 59 n « 4 
Dom Pedro Conde deTrava , fua nobreza , cap. n n. 

Dom Pedro Conde deTrava veyoa Portugal , cap. 22 

num 2 . 

Pedro Arnarelo primeiro Prior de Guimaraens , cap. 24 

num. J , e 6 , « 

Pedro Juttiniano porque chama douda a noli* rave* 

gaca6 , c. 76 n. % 
Poutor Bero Efleves , e fua rtrolher Dcna Itab^ H$ 

nheira , quern forao, e onde jazetn, c. 5$ n.f 
Pero Anzurss vay a Aragao com huma corda aopefco* 

co, c. 23 n. 9 < n - 

Pero deOlivaS Advogado, como Decsoc?aigou por 
quebrar os privileges de Santa Maria de Guimaraens,- 

c. fo n. 6 ■ . ■ 

Perieguidores da Igreja -, veya-fe Igreia. 
Perfio doutiflimo ieu juizo rigurofo , c. 7$ it. t 
Pefte gravifiima em Roma em tempo de, Sao Grego- 

rio, c. 40 n. 6 . D • 

Pio fegundo Papa Rfcritor de antiguidades , Fioi. n, 

j j 
Plato feu dito, c.47 n. 11 
Plato quam dado a lie,ao , Pro), n. 1 
Plinio iua morte j e patria , c. 7 num. 1 1 
Plinio nso vio a navegaqao de Hanno , que ailega, c. ff 

num. 7 
Pomponio Mella quando florefceo , c. 7 n. 6 
Porto Cidadetrazfuaorigem deCale, c. 75 n, *> 
Porto Cidade ie difle antigameote Portucale , ou cor- 




Index 






ruptamentePortugale, c 7$ pertotum; 
Pjito feu BHpo nao pode fer chamado Purtuenfe , c; 

1\ n. 14 
Po to chain a Jo -antigameafe Caftello novo , e os 1& 
mites de fea Biipado , cap, 75 num. 19 , 10 , e 

^\ 

Porto na6 foy hmdaca6 dps Sueves , como quer Frejr 

Bernardo , c. 73 n. aj 
Porto Cidade fundada pelos moradores de Cale , e 
.pc Jhe chamao no prineipio Caftello novo, cap. 73 

num. 27 
Porto vay.fi chamando Porto deCale, e depols Portu? 

cale , c. 73. n. 18 
Porto feu nooie de Caftello novo vay por diante j 9 

i'lintarnente o doPortucale , c. 73 num. 18 
Porto chamado pelo Goncilio Bracharenfe primeiro 

Caftello novo , e mais Portueale > cap. 73 num* 

a 9 

Porto , ou Portueale nao foy chamado Feftabole , c. 

Porto teve dous nomss certos , e Jabidos , cap. 7$ 

num. ^3 
Porto Cidade, ou Portucale, mais antiga , queosSue- 

vos era ffefpanha , 073 n. $f 
Porto feus Bifpos iemp,re chamados Portuenfes , oil 

P >rtugalenfes , que he o mefmo , cap. 73 nurrU 

m 3 6 

Porto feu norne de Caffcdlo novo quando acabou , ei 

Porto , ou 'Portucale , reedlficada depoi* da deftruic.ao' 

deHefpanha , c. 75 n. 37 
Porto quando teve efte feu • norne ; c. j% n. 37 
P >rto fua Comarca quando , e porque fe chamou Por* 

tug|l, c.73 n. 37 
P<>rfo feus Biipos quando fe chimirao i e podi3o cha- 
m^r , jnas fern razatf Portuenles , cap. 75 numi 

Porto (eu Bifpado, fua mayor antiguidais, cap. 88 
num. 1 

Porto 



ZX*/ coufat totalis* 4JS 

Porto fundada por pdcadores, cap. 73 % num. 7, «os 

feguintes. 
Porto deunome aos Bracharos > t em que tempo, c.$i 

num. 1 
Porto iua nobreza , c. 91 f). 4 
Porto recebeo iua fundaqad de naturals, t t\i6 dee*« 

trangeiros, c. 93 n. 3 
Portucale , ou Porto* aa6 era em tempo de Agul- 

to , nem de Antonino , cap. 73 ft 3 > 4 , 5 » c. 86 

Poftu.ale na6 foy onde efta Gay a , cap. 75 n. 4 
Portucale, ou Portugale he o mefmo, a qual naofoy 

em tempo de Ptolomeo , c. 75 !$• 5 
\Portucale rtad foy em tempo de Plinio , cap. 75 

num. 6 
'Portucale Iua origem , e fuadaoao , cap. 73 mini. 7, 

8 , e 9 
Portucale quando foy fundada, e feita Epifcopal , c. 

73 n. n , e 13 
Potuente BKpo , dequeCidade he, e foy antigamen- 
'4k te, c 73 ri. 3$ 
Portugal teve grande fdlta de efcritores, cap. yi num^ 

7»e 8 
"Portugal novo , e Portugal velho , nao tern fundaaieti- 

to, nem fao duas Cidades , x, 73 n. 33 
Portugalenfes na6 podem foffrer a guerra dos de Braga^ 

fegundo Laimundo, c. 85 r>. 6 
Portugalenfes com que condicpens fe compuzerao corn 

os de Brxga s fegundo Laimundo , c, 8f n. 7 
Portugalenfes forao generofos , e de grande valor, c 

93 n » 4 
PortUguezeS tern lanqa para pelejarj eria6 penna para 

ef^rever , a 71 n. 8 
Portuguezes feus feitcs illuftres, c. 71 $. 9 
Fortugu£zes carecem dos artificios c*o$ Romanos p?- 

ra louvar, e engrandecer iuas facanhas> c. 71 ri* 9, 
: e 10 

Portugueses ns6 tiversS efcritcres \ iras r« trares » e 
v terras >fa31at£Q delksy «. 71 m 7 , 8 , 9 > e i© 

lii a Porta- 



436 



Index 



Pcrtuguezes fimilhantes aos antigos Lufitanos: c. *<£ 
num, 6 '* 

Portuguezes louvados de Angelo Policiano , cap. tx 
num. 7 ' r /-r 

Portuguezes louvados de Paulo Jovio, c. 74 n. 8 
Porfug'iezes louvados deLourenco de Anoania . c. rj. 
num. 8 / *' 

Portuguezes louvados feparadamente dos outros Hefc 

panhoes , c. 74 n. 9 
Portuguezes em que avantajao aos antigos Lufitanos. 

c? 7+ w * 1 
Portuguezes, efua efpantofa, e honroia navegacaoda 

India, c. 75- n. 12 

Portuguezes , que rim tinha6 em fuas navegacoens,' 
c. 76 n. 4 

Portugueses, porque caufas fizeraS a navegaqao da In* 

dit , c. 76 n. y, 4l f , e 6. 
fr.ta das Igrejas de Portugal fe tonia por ElRey Dom 

AfTonfo Quinto , c, 54 n. i 
Prat* da Igreja de Guimaraens redime-fe, c 5-40. 2 
1 rata das Igrejas quando fe toma iedeve eftuuir, ci 
' f 4 "• 2 * 

Prtn io faz os efcritores , c. 45" n. i , £,ed 
Primacia de Braga f feu f undarnento , e Author, c. 5-7 

num. 6 , e 7 

Primacia dg Braga, quaniocomecou; legundo Vafeol 

c 64, n. 2 
Primacia de Braga quando comecmi , fegunio o All* 

trior , c. 64 n. 3 
Primacia de Braga depois da perdi<;ao de Hefp anha # 

quando come^ou , c. 68 n. f 
Primach de Braga depois de perdiqao de Hefpanba,- 

quando com>cou, fegundo Illefeas, c. 68;i..6 
'Primacia de Heipanha efti^ em Braga de direito , e or- 

dem do ApoftoloSiO Tiago, cap. $7 n. 6 cap. 68 

num 2, e 10 
Primacia de Hefpanha efta' em Braga , fegundo Gafpar 

Barreiros , c. f 7 n. 1 , e 2 
Piimcia de Heipanha efta em Braga , confome a 

ordem 



!Dis coufas riot Me is] -457 

ordem dos Apoftolos . cap. 64 nuryn 6je? 
Primacia de Heipanha da Morales a Itledo, tap. 57 

Primacia de Hefpanha na,5 efteve em Toledo , c. 6z 

Primacia de Hefpanha nso podia eftar em Toledo , ie-i 

eundo a ordem dos Apoitolos , c. 64 n. 7 
.primada de Toledo feu fundamento , e Author , c, 57 

Primacia de Toledo por privilegio , quando ccmeqou, 

JPrimacla de Toledo depois da perdicao de Hefpanha, 
quando comeqou , fegundp lllefcas, c. 68 p. 6 

Primacia -de Toledo, e ieus privilege , c. 68 n. 7 ; 

Primacia nem exercicio a nem neme deUa houve antt- 
gamente em Hefpanha > cap. 57 num. 5 cap. 67 

num. 9 £.'; . . _ , . /ri 

Primacia na5 pende da refidencia dos Prmcipes , c. 6% 

num. 4 „ . , «, . , _, 

■Primatus nem iempre figmhca Primacia , c. 62 n. 5 

Primatus'tambem fignifica dignidade Metropolitan , 
c. 6z n.6, e 7. c 63 n. 1 

Primaz, que coufa (eja , c. f 7 n. 3 . _ .. 

Piimaz de Heipanha querem os Arcebifpos , que lej 

, o Papa jj c 63 n. 3 c. 67^ n. 10 

Primaz de Heipanha nso querem os Arcebitpcs, <iue 

. (eja ode Toledo , c.63 n. T _ _ 

prior deGuimaraens fua junidiccao lobre os ieus Re- 
neges, c. 1511.7, c.Sf n. 6 £ 

Prior de Guimaraens Ordinario dos feus Conegos , c- 

Prior ,e'cabido de Guimaraens hiao aos fynodos de Bra 

ga, c. 5 n. 8, e 9 
Pricrado deGuimaraens de cuja appretentaqao ne, c^ 

55 n. 6 , 

Piiores de Guimaraens devem fabncar eita Igr eja , c.24, 

n. 6 c if n. 9 
Priores de Guimaraens faziaS cafainentcs ,.e. excom- 

niung&» 



p— 










4JS 



"5. 



mutjgavaS j"e fmnhaS Cu-as ; cat>. t* mi* . 

St t Guimi,aensif ° raa MKittiS i 

Pr-ore, ^ig« *0*fc,**j ef U a* qoalidadea, «.- 

^ilegio dosdeGuimafaenS, que naS paguemoorta- 

gem, eningusm osadoefte, c. 40 n. _ 8uem P orM - 

Prmlegu* do Mofleiro deGuimattens , c . '„ „. n 

iPriWlegios da igreja de Guimaraerfs , que lhe deu El- 

Pnvilegios da Igreja de Guimaraensguarda feveramerf. 

te Domjoao primeiro, c. ro n. * , e* lcvcrame * 
Prmlegioi da Igreja de Guimaraervs quer D *o S aue (a 

ginrd.m e caftiga por [fib , c. 50 n> < ^6 * 

de Santa Maria, enac r das taboas vermelhas, cap / 3 

Prifamano quem foy , c. 67 n. id 

Proaffao deGuirrnrtas vefpera de NoiTa Sehhora de 

Agofto, c. 41 n. 6 
PrJdencio Poeta natural de Carago 9 a , cap. 45 num. 

Plasmodia da fgreja aritiquiffima , c. 18 n. 2 
*^lchena Augulh com d;uem cafou , c. n n. * 




O Uinciano Bifpo de Evora J c. 46 n. $ 



Rarie« 



Das coufai thtayeis. %%$ 

R 

RAnemko Rey fegundo comc^ou de reynat eii 
Leao , c 2 n. 7 
Ranemiro Rey iegundo fua doacao 4e Cfe^mir , 6 * 

num. 9 
Ranemiro Rey iegundo quanto tempo reynou , c. * 



n. 1 



e 19 



Ranemiro Rey iggundo fobrinho , e collaco de Dona 

Mumadona, c. 11 n. 1 - . . 

■Ranemiro Rsy fegundo , que rendas deu so Mofteiro 

daCondeila Dosa Mumadona, c, 1 ? n. 1 
JBlafes Moufo efcreveo h*im liv^o de coufas de He-fpfe 

nha, c. 6f n. 2 
Regina Cceli Aatiphona feita pelos. Anjos J cap. M 

num.4 
Regra da Fe dirigida a Balconio Bifpo de ;?raga pej$ 

ConcilioToledano, cap. 66 num. 1, e ».., cap. 67 
; num. * • 

Regra da Fe, porque foy dirigida a Balconio., cap. 07 

num. 6 , e 8 
*8ey* appretentarao Bifpos em tempo , :&c. cap. »g 

num. 18 
•Reys de Portugal a quem devem o titulo de Rey , c, 

24 num. 3 
Reys de Portugal padroeiros da Jgreja de Guima*ae;i$ 

c. 24 n. 5 , e-4, c. £f n. 6, ei? - 
Reys de Portugal A?oftok>s do Oriente , gap. 70 

nurfc. jf 
Reys de Leao vintiso em romaria a Santa Maria de 

Guimaraens, c, 25 n. 6 
Reliquias dos Santos defejadas das Cidades £ cap. 3* 

num. 4 
Reliquias dosSantos honrao aslgrejas, e Cidades, £. 

$2 n. 5- , e 6 
Reliquias dos Santos daoTaude , c. 49 n. 5 
Reliquias da area de Sao Frey Louret^o Mendes , que 

efia© 



440 Index 

eftao noMoftiito deSao Domingos deGuimaraens 

donde forao trazidas , c. ya n. 9 
.Reli^uias dos Santos em Conftantinopla lanqadas^i 

eaens, epjrcos, c. 94 n. 14. ,•-»,-. 
Refende ieulouvor, 44 n. 4 c. 45* n. 1 
Refende feu grande ingenho , e noticia de antiguida- 

&h c. 44 n. 5 
Reiende mais acettado antiquario de toda Hefpanha, 

ft 44 n. 3 
Rdenie bom Efcritor, c. 45 n. 1 , 5, e 6 
Ketende oraculo, a que muitos perguntavao duvidas^ 

c. a n. 2a 
Sao Vcsy Rodrigo Francilcano , fua Santidade , e e£- 

pmto profetico, c. 41 n. 1 
Roma foy fundada depois de Carthago, c. 86 num. 1; 

Seu fundador c. 9a n. 5 
Roma feus baixos principios, cap. 91 num. f cap, 95 

num. 1 
Roma fifpiritu3l edifieada por Sao Pedro pelcador, c 

91 n. a 
Romanos flzerao , e elcreverao igualmente , cap. 24 

num. i 
Romanos , que faziao nos convites , c 85" n. % 
Romanos mais prudentes , que 6s Gregos , cap. 8$ 

num. 3 
Romulo dizia j que asCidades tambem nalcem dc bai- 
xos principios, c. 93 n. 4 
Sao Rolendo Bifpo, c, * n. 6, e 19 
Sad Rofendo quando foy creado Bifpo ; cap. a. 

num. aa 
Sao Rofendo fua hiftoria , cap. 4. n, 1 , 2 , e 3 



SAbellico quando morreo , c. 19 rC 1 
Sagion era official dejuftiqa, c. 6 n.a 
Sagracjao do Altar da Igreja de Guimaraensfolemnecom 




as pefibas dos Reys , e de (eus filhos , c. 40 n. 5. 



Saloi 



T)as ioufds notimets. 441 

Salomon mandava buicar ouro , e outras coufas i ter- 
ra ©phyr , c 17 n. 1 
Santos honrao iua patria, c. 13 n. 5, e 6 
Santos fuas reliquias , quam proveitofas , cap. $a 

num. 3 - . 

Santos antigos , que forao achados inteiros , cap. $7 

num. 7, e 8 
Sdima de cincoenta annos nalgreja , cap. 41 num. 1, 

e 2 
Scipio Africano dado alica6 Prol. n. 1 
Scipio iua caftidade em Hslpanha j c. 90 n. * 
Scythas, e iua contenda de antiguidade , Pro!, t\» $ 
Scritor veja-fe Elcritor. Efcritores. 
Seneca Poeta feu dito accrca do defcobrimento das la- 

dias , c. 81 n. 9 
Senhor, Iua ori gem , Prol* n. 6 
Santa Senhorinha iua hi'ftoria, c.4, n. $ , e6 
Sepulturas, eletreiros ambiciofos , c. n n. 14 % 
Sepulturas de pedra , e de ferro gafta o tempo , cap} 

53 n » 5 

Sertorio teve (eu Palacio em Evora, c. 44 n. 1 

Sertorio fez o aquedu&o antigo de Evora , cap. 44 

num. i 
Sertorio cercou de muro a mefma Udaae , cap. 44 

Sertorio Author da Univerfidade de Ofcha , cap 45? 

num. 9 , ,, . - 

Sertorio chamado dos Lufitanos para leu Capitao , c 74 

Sevilhanos fugirao com a imagem de Notia Sentiora de 

Guadalupe pela terra dentro > c. 16 n. 6^ ^ 
Sififclo Bifpo de Evora achoufe em doiis Concihos , 

Synodos de Braga ie faziao com o Prior, eCabido de 

Guimaraens , c. ff n. 8, e 9 
Sifnando Bifpo Irienfe, c. »* n.6 
Sobrado , veja-fe Mofteiro. 
Solares muitos de Portugal 9 onde efta6 , cap; $6 

W - f Kkk Sp* 



44* 



Index 




bpecianas vendno os Venezianos portoda aChriflan- 
dade , e donds as traziao , c 76 n. 6 

Strabo quando florelceo, c. 7 n. 6 

Strabo teate , que pela cofta de Africa ninguem paf* 
lou a India , nem da India a Hefpanha , can, 7c 
num. 10 ! " 

Statua ie levantou a Chriftovao Colon , cap. 82 
num. j . r 

Statins ie lsvantavao aos inventores de coufas novas, 
c. 82 n. 6 

Suevos quando entrarao em Hefpanha, cap. 73 num; 

Sue /os naqaa bcrbara cpmo andava vefHda , <^p. 75 
num. 34 v 



TAlavera da la Reina fua antiguHade , erome,cap? 
. 4? n. 6, 7t 8, e9 
lams Cidade Real do Egypto onde refidia Pharao. 

c 79 n. f 
Dons lareia cafou fegunda vez , cap. 21 n, 3 
Dona Tareja' Rain ha feu final cap 2.1 n. 5 
Dona Tareja Rain ha , em que anno cafou legunda vez; 
cap. 2s n. 5- c. 23 n. 4 

Dona Tareja Rainha vaya Zamora vifitar EIRey , cap; 
. 22. n. 3 

Doha Tareja Rainha , em que anno era cafada fegunV 

da vez, c. 22 n. 2 
Don? Tareia tern defgoftos com o Principe feu filho ; 

c. 12 n. 8 
Dona Tareja fcita amiga com feu filho , e quando mor> 

reo , c. 22 n.&, e9 
Dnna Tareja onde foyr (epultada , c. 22 n. 8 
Dona Tareja bora Infanta , hora Rainha , cap. 22 

num. 10 

Tarragona feu Arcebifpo Berengario , por quern foy 
pofto, cap. 68 num. j 

!Tempo 



*Das coufas nota^eis. 443 

Tempo pay da verdade, Prol.'r. ix 

Tempo comeaieusfiihos, c. i n, 1 

Tempo authoriza as coufas , cap. i n. i, e x 

Terra dentre douro , e Minho foy de Galfrza, c. \f 

Terra dentre Douro , e Minho , luas excellences , e 

defcripgao, cap. $6 n. i, e x 
Terra dentre Douro, e Minho tern cem mil viiinnosj 

tern cento e trinta Mofteiros, cap. $6 n. i 
Terra dentre Douro , e Minho tern mais de vinte- e cin- 

co mil fontes , e duzentos mil lavradores , cap. $6 

num. 3 ' , 

Terra dentre Douro , e Minho favoravel a propaga- 
~ cao humana , cap, 71, n, 1, a, ?, 24 < 
Terra dentre Douro * e Minho chamoule antigamente 

Gailecia , cao. 71 n. 6 
. Terra dentre Douro , e Minho quando , e potque te 
chamou Portugal , cap. 7J nuu>. 5 , e 7 , cap. 9X 
num. .i,ei 
Teftamento , que coufa ^ra antigamente , cap. 1 

num. 6 . . . 

Teilamevo de Mumadona quando foy feito , cap. z 

num. 6 r ^ . , 

Theodolio fequiz defender com opeccado de David, 

c. 85m. $ . . -4c 

Theologia tem as mais artes , e Cciencias por ctiadas, 

45 n. 4 
Sao Tiago quando veyo a Heipanha , c 33 ti« 9 c * 59 

num. 4 
Sao Tiago pregou aos Gentios Heipanhoes , cap. 33 

II. 9 , e I! i • r? T 1 

Sao Tiago poz em Braga a primeira cadeira Hpilcopai, 

cap. 57 n. 6 cap. 64 n. 7 
Sao Tiago nao refufcitou a Sao Pedro de Rates prfc. 

meiro Bifpo de Braga , cap. 59 n. 4 . f . , 

Sa6 Tiago quando, e poronde entron em ■Heipanna, 

c. 68 n 10 .. / 

Toledanos fugirao com o corpo de Santa Leocadia , cio 

num»6 > n-^ 



Index 

Toledo Primaz das Hefpanhas por privilegio, cap. 97 

n. 2 , vejaie Primacia. 
Toledo iua Igreja quandj foy Metropolitana , c. 6~# 

num. 1 , e 9 , cap. 61 num , 3 , e 4 , cap. 6z , 

num. 9. 

Toledo Cidade pequena antigamente , mas forte, c.64 
num. 3 T 

Toledo nao era Metropoli era tempo de Conftantino/ 

c. 6yn. 5, 4 , 7 , e 8 
loledo leu Arcebilpo temnome, e titulo de Primaz; 

mas nao a juriidiccao , c. 68 n. 9 
Toledo , que feja Primaz do tempo de Sao Pedro he 

fabulofo, c. 68 n. 10 
Toledo chamada Imperial , c. 68 n. 11 
Sao Torquato difcipulo de Sa6 Tiago jaz em hum Mof- 

teiro de feu nome perto de Guimaraens , cap. 32 

num. 1 , e 8 , cap, 36 , num. 2 , e 4 , cap. 37 , a s 

c * ■' e 6 ' 

Sao Torquato feu Mofteiro foy antigamente annexado 

ao Molt-iro de Guimaraens , c. 31 n. 1 

Sao Torquato manda EIRey Dom Manoel trasladac 

para a Igreja de Guimaraens . cap. 22 n. 2 cap. 26 

num. 2 

x Sao Torquato ie deve trazer para Guimaraens , c. Zi 
num. 7 

Sao Torquato foy Gallego , c. 33 n. 1 

Sao Torquato , e leus companheiros mandados pelos 

Apoftolos pregar emHelpanha , c. 33 n. 1 
S26 Torquato, e feus compaheiros nao forao Judeosy 

cap. 33 n. 3. ' 
Sao Torquato, e feus companheiros forao Gentios 

Htfppnhoes, cap. 33 n. 6, e 11 
Sao Torquato onde morreo , cap. 22. num 12 , e 

17. ^ ■ 

Ss6 Torquato foy Bifpo de Acci Cidade , cap, 33 
num. 15 

Sao Torquato de Cella-Nova mal havido por difcipulo 

de Sao Tiago, cap. 33, n. 16 
&5 Torquato hum grands milagre feu , cap. 33 n. 17 

S401 



*Dds cmfas notaveh. 4+5 

Sao Torquato tirado de Acd onde foy pofto , c. $4 

num. z t e 4 ^ . '—'■*>* 

Sao Torquato ieu Mofteiro quam antigo , cap. 54 

num. 5 ^ m. / n/ /-* 1 

Sao Torquato dikipulo de Sa6 Tiago ie efta emGelr 

la-Nova , c. $7 n. 1, ei 
Sao Torquato dous Santos defte nome houve em Hel- 

panha, c. 37 n. 2,, e 3 . 

Sao Torquato Bracharenl'e efta emGalliza no Moftei- 

ro dc ( Jella Nova , c. 37, n. f > e 6. 
Sao Torquato , que efta junto a Guimarens , quern diz 

faliamente ief Csftelhano, Biipo Iriente , Portueni 

ie , e Bracharenie , cap. 38 n. 1 , * » e_$. 
Sao Torquato Bifpo de Acci deu nome a SaoTorquaz, 

c. 29 n. t - ■■■■ "'. . 

Trajano perieguidor da Igreja nao ie lalvcu , cap. 51. 

num. 3 

Tribu de Juda nobiliffimo % Prol. n, 4 

Tribus dez~chamados de lirael forao levados prra Me- 
dia , cap. 58 n. 8 ; . ■' 

Tribus dous o de Juda , e o de Benjamin forao leva- 
dos para Babylonia , c. 59 n» 1 

Tribus doze na© forao trazidcs a Hefpanha , cap, J9 
num. 1 

Triunvirato quando fefez, cap. 8 num. 9 

Triunvirato primeiro , c. 9 n. \i 

Triunvirato fegundo , c, 9 n. ij 

Turcos toroao Otranto em Italia, cap. 94 num. 8, 

e 9. 
Turcos metem terror a toda Italia * principalmente a 

Roma.) cap. 04 n. 10 , e 11 
Turibio Biipo Afturienie *, cap. 67 num. % > f > 

e 7« 




' 



445 



Index 

V 



VAlentinos fugirao com o corpo de SaS Vicente,' 
para o cabo de Sao Vicente , c. 27 n. 2. 
-Velhice honrada por Deoia , Prol. n. 6 
Veneza foy fundada por peicadores , c. 91 n. 7 
Veneza tern mais de ' feflcnta corpos de Santos . -c. qj, 

num. 3 f- : ' .•' ■ 

Venezianos mandarao officiaes na Armada do Suldao 

do Egypto contra nos a India, c. 76 n. 2 
yenezianos " hiao a. Alexandria do Egypto compraras 

efpeciarias, que vendiao em toda a Chriitandade, 

c. j6 n. 6 
Verdade ; extremes antigos della , c. 23 n. 10 
Vermu Piresde Traya ,ou Podeftade ,-veja-fe Bremudo; 
Sao Vicente Aragonez martyrizado , e iepultado em 

Valenca , cap. 26 num. 1 , e 2 
Sao Vicente Aragonez, (eu corpo quern o fez levado 

de Valenqa para Franc,* , c. %6 n. 3 , e 4 
Sao Vicente Aragonez razoens , queprovao nao ier le- 
vado para Franca , cap. 26 num. j , 6 , cap. 28 

num. 1 , e 2 
Sao Vicente Aragonez, f:u corpo achado no cabo de 

Sao Vicente, c. 27. n. 3. Trazido aL'sboa, c. 27 

num. 4 f 

Sao Vicente Aragonez , feu corpo levado ao cabo de 

Sao Vicente em Portugal , c. 27 n. 2 
Sao Vicente Aragonez, feu corpo po (to na Igreja Ca^ 

thedral de Ltsboa , c. 27 n. f 
Sao Vicente Aragonez feu pay , e may donde forao, 

c. 28 n 7 ^ 

Sa6 Vicente Portuguez, e fuas irmaas, Sabina, e Chrif- 

teta lao naturaes de Evora , c. 43 n. 2 , e 5 
So Vicente de Evora feumartyrio, e de fuas irmaas, 

c. 4^ n, 4 
Sao Vicente de Evora quando padeceo martyrio , cap; 

46 n. 6, e 7. 

Sao 



Das coufas notaDeis. 447 

Sao Vicente, e fuas iraaas Sabina , e Chrifteta pruva* 

fe ierem naturaes de Evora , c. 47 n.. 6 , e 7 
Sao Vicente de Evora itu ccrpo cnde efta , cap. 47 



num. 



e 9 



eMi« 



Vida do hcmem longa na terra dentre Douro 

nho , c. 72 a 4 
Villa iua figmfiescao, c. 2 n. 21 
Vilitiifo Bifpo de Tuy , c. 2. num. 6 
Vimaranes quinta de Mumsdona , c. 1 p. 4, e J. 
Virgens onze mil quando forao , c. 16 r. 6 
V if gens nove irmaas de hum parto , c. 25 n. 19 
Virgens outras nove msis ^pprovsdas , c. 25 n, 20 
Viriato quantos annos fez. guerra aes Romanos, c. 74 

num. 1 ' . . 

Vitofia de Aliubarrota dada pnr Santa M.-jia de GuiJ 

mWens,* cap. 41 num. 7,8, cap. 42 num. 3 cap. 

48 n. 1 . ' , 

Ulyilea nao efteve em Andaluzia , cap. 7 , n. 6 , 7 » 

8 , e 9 
Ulyflea toy htima i6 em Hefpanha; c. 7 n. iz 
Ulyflea prova-fe fer LUboa , e. 7 n; 1 5 , e 16, 
Ulyfles navegcu ate ver o Mundo novo , cap. Si 

num. 1 1 
Ulyfles vio muitss Cidades , e coflumes, Prol. n. 7 
Ulyfles fun'dou Lisboa , c. 7 num. if , e 16, cap. 3i 

num. 12 
Ulyfles fufpirava por fua patria, c. 95 n. 14 
Univerfidade deCoimbra dlminuida, e imperfeita, c. 

4f n. 7 
Univerfidades , e feu^proveitoc. 45 n. 2, , e 4 
Univerfidades feus fautorcs, c. 45 n. 8, 69 
Dona Urraca Rainha com quern houvera de cafar , c. 

21 n. 2 
Dona Urraca Tenon'o ajuda a defender o Caftell® de 

Guimaraens com aba,s de pedras , c. 55 n. 1 



XRA- 



TRATADO 

DA LINHAGEM 

ESTACO 

Naturaes da Cidadc 
de Evora. 

PQUAL C ONTE'M HUM A 

defenfao da Nobreza do Sangue ? e 
cmtra das Armas. 

COM PRINCIPIO DAS 1NS1GNUS 

das Familias particulates ; ifio he, 

quando j e por quern ferab in- 

troduXiidas. 

AUTHOR 





E S T A C O. 



" 



UJ 



' 



PROLOGO, 

£ ARGUMENTO 

DESTE T RAT A DO. 

AO LEiTOR. 

LENDO eu pelo Ecclefiaftico , curiofo f(thf ^ 
Ley tor , fuy dar naquellas palavras:?,,/, i, 
Louvtmos aos varoens gjowjtis , e a noJ- 
fos fays em foa ge'rafth Cnde me vie- 
rao a memoria noflos antepaffados, cuja mui- 
ta virtude nao fe pode baftantemente louvar, 
fe Ie compara com a pcuca dos prefentes. E 
deiejey , que toiftaflem 4 vida, porque nao 
ba coufa , que mais reforme o mundo, que 
o bom exemplo , nem que mais o preverta, 
que o mdo. Mas como ifto nao poifa fer, e 
a Efcriptura feja vida de mortos, determine^ 
ie eu nifto poffo aJguma coufa , tratando (o« 
mente dos meus, grangeatlhes efte genero de 
vida, ajuntando , e pondo em fio de hiftcria 
as peflbas,que me lembrarao defta linhagem, 
de que fou parte, e defcnttrrar-ltxe o prinei- 
piodaquellc, que mcreceo dar-lho, para que 
ofim, ifto he, feus dcfcendentes , que agora 
iao , e adiante forem , trabalhem de imitar 
fua virtude, « a dos mais: e al£m difto fai- 
bao a heranjft dc gloria , que por razad do 
langce lh#§ ptitcnce, Nem falta querai autho- 

Lilil fize 






I. Math, t 



nam tn ml* 
CbnHi. 
Salluftms tie 
hello Jugurti 
no in initio 
Suetonius in 
GeMa e. z 



rise e>fte argument*) ,~ parque Mathathia* trai 
tan do daimitagao dos i|layores, dtfte a feus 
fillios: Lemhratvos das vbras de voffoi payi\ que 
fizirao tm fuas gertt^otns , e al:avfarets a gloria 
grand? , e nime e terns. E quanto a nobreza he- 
titrte 4* Piati-r edit aria, *Plato o confirma , querendo, que 
<lo$ avos claros, e juftos, fa derive a mayor 
parte da nobreza de feus defcendentes. Hu- 
rra a , e outra coufa entendi#6 os Romanos nas 
irnagens de feus antepaflTados, que punhao nos 
patios de ( 11 as cafas, para que Ihes foilem af« 
^ iim motive de imita^ao^como teft wn un node 

fua nobreza, 

E na verdade eu nao vejo razao , porque 

os taes antepaiTados , quando fao illuftres, 

nao dem luftre, e muito grsuide, aos que del- 

Jes defcendem. Mas antes oufo dizer , que 

faotochas accefas , que alumiao aos chegados 

all por parentefco ,communicando-lhes com o 

refplendor hum natural efpirito para eJnpren- 

t der coufas grandes , e dignas de quern elks* 

forao. Julio Casfar em huma oragao funeral, 

que teve em Jouvor de Julia fua tia difle cftas 

palavrass Minba tia Julia por parte de fua may 

vem de Reys , e por parte de feu pay das Deofes 

immortals , porque fua may CMarcia procedia de 

Awn tMarcio , e es Julios defceqdem de Venus , 

de cuja gente he a nsjfa jamilta. Affim o efcreye 

&*f>»mw Suetonio. Onde parece manifefto , que Julio 

5«/. c*f. c.*Q x fa r por h onrar a f ua tia , e a fi , e a feus 

parentes, trouxe o principio de fua linhagem, 

e o ajuntou com o firn -, que erao os mefmos 

parentes em refpeito daquelle tempo. Nao foy 

utm'myefp* poflivel ao Imperador Vefpafiano fazer outro 

aif ^ ,i tanto 



tanto; porque no dia do feu tnumplio.i csn- 
cado do vagar daquella pompa, difie, queju- 
ftamente era cafligado , pois nao fendo elle 
de geraga6 , a que tal honra fcfie deyida , 
nefciamente [em (ua ve1hi.ce a delejou. Entre 
os Romanes nao havia mayor honra , que a 
do triumpho , e com tudo ent^ndia efle Impe- 
rador , que nao ficava baftantemente honra- 
do, por nao ter principio de honrados av6s, 
que concorreliem com elle para o merecer. 

E ie eftes exemplos iao de menos autho- 
ridade, porque fao tirados da hiftoria profa- 
na, tragamos outros da fagrada. EiRey Salo- 
mon tao fabio, tao -illuft.re, e tao poderolo , 
nao fatisfeito defte feu eftado, que entao era 
florentiflimo , querendo fe honrar , e accredi-, 
t,ar, recorreo ao principio, nao de feus avos, 
porque Ihe nao ferviao , fenaf) de leu .pay, que 
foy Rey, e difie de fi , que era filho de Da- 
vid, Rey de Ifrael. Mas Saul nao foy taOdi-P^wfct 
tofo, que achaffe o t ut diz?r de fi , fenaoo que™'- 1 
efia efcrito no primeiro livro dos Reys; por- lRfgtim ^ 
que dando lhe a entender o Profeta Samuel, WM 
que havia de fer Rey, ficou efpantado deyer, 
que nao tinha fundamento de nobreza antiga, 
em que aquella dignidade aflentafle, e refpon- 
deo : Nad feu eu dtfcmdtnle de Jemini , € a mi* 
vha familia nao he a ultima entre Jodas as de Ben- 
jamtn? como me dizeis iffo ? Tao natural he ao 
homem, quando lequer engrandecer ,ajudarfe 
Jogo do principio de feus antepaflados, e por 
elles habilitar, e honrar fua peiToa. Finalmen- 
te importa muito a huma gera$a6 o principio 
ceneroio, eclaro, de que toda ella rccebain- 

fluencias 



r- 




itaencias de virtude ," de refplendor \ de au* 
thoridade , e confianga. " 

E ie alguns filofophos antigos, e moder- 
nos defprezarao efte ta! principio , entendo 
que foy porque o nao tinhao. O contrario /en- 
tio Herodes Rey de Judea , filho de Antfpa- 
tro , o qual deu em tanta defconfian^a pelo 
na6 ter, que mandou queimacos iivrosdano- 
breza Judaica, que fe guardavad nos archives 
do templo, para aflim encobrir a baixeza do 
feu, e poder parecer nobre, como efcreve Eu« 
fc/J»^.»f c bio Gefarienfe? E quanto aquelles filofophos^ 
Ariftotelcs os contradiz quando refuta a Euri* 
pedes por fer da mefma opiniaS. E (egundo el- 
fe a geracao nobre deve ter virtude antiga, 
C principio digno de louvor , porque efte tal 

AriH «w P OC * e tant0 ' ^ ue ** z mu * tos delcendentes fimi- 
stoham/trmltowte* a fi* como ellc rnefmo affirma. 
u 



7RATA- 



TRATADO 

DA LINHAGEM 

E STAC OS, 

NATURAES DA CIDADE DE EVOR A. 

QUAE CO AY£ \M HUM A DE FENS AM 

da Nobre&a , do Sangue > e cutradas 

Armas , com o principle* das in/tgmas 

das familias particulates ; ifto he, 

quando \ e por quern forab 

introduZjidas* 

AUTHOR 

GASPAR ESTACO. 

LIVRO PRIMEIJtO. 

NUNC A coufa menos cuidey; que navef 
de fazer efte Tratado , ccrno agora faqo , 
ja velho na idade , nos penfementos trifle 
c no corpo enfermo. Was noffa vida efta de 
tal maneira expofta a todos os tiros da for- 
tuna , que o homem nunca perroanece ro mefmo el- 
tado. De mais dido quem extender os olhos > ain<j(a 
Que le>a cego i nefta materia, vera, que nunca (e tra- 





















; ^Trdtado da Linhtgem 

tou tanto de linhagens por palavra , e por pena ,*co« 
mo nefte tempo , em que -as vemos eieutas desde 
Aiam ate pefloas particulars. A mim me obrigouou- 
tra nova forca , mas quando efta nao foffe , o-coftu- 
me tern tarita , que muiras vezes leva a vontade, 
onie na6 paie levar 6 gofto, porque o feu Imperio 
he duriffimo, como difte Publio Syco: mas com ifto 
efta* que braio, e fuave nos parece. 

As coufas grander , e notaveis , entre as quaes 
tern lugar as dos ' BLeyj pela alteza de feu eitado; 
defptrtao aos grandes ingenhos para folgar de as ef- 
crever. OrderioU a divina providencia, que foffe ifto 
afTim , porque como tudo , o que he humano , feja 
fraco, e caducoi ptrdera-le facilmente a memoria de 
coufas importantiilimas em grande damno commum { 
U fe lhes nao acudira com o remedio das letras. Quern 
ioube.a agora de Agamemnon, de Achylles,. de "Ulyf- 
fes , e de quanto elles flzera5 no celebrado cerco de 
Troya, fenao fora Homero efcritor daquella guerra? 
As mefmas fepulturas , que cobrirao leus cprpos, hou- 
verao de cobrir a gloria , e excellencia tie feus fei- 
tos. E vemos , que fua fama ainda hoje voa pelo 
muado por meyo da penna daquelle efciptor , que 
florefceo ha perto de tres mil artnos , como fe colli- 
ge de Eulebio Celarienfe , e de Sabellico , os quaes 
o-fazem contemporaneo d'&lRey Saul. 

Por efta via fabemos as geracoens dos^ Revs? 
safoii. Emeid. f eus dttos , e feitos J e todo difcurfo de iuas vidas. E 
itit.-.$ in hi- tam b e(n muitas coufas de feus vaflallos , que ia6 coj 
raobraqosdos mefrhbs Reys'i de quenelles fe~ajudao 
j)ara fuas emprezas, e negocios. Mas de huma gerW 
te particular, da qui! niriguem efcreVeo, que fepo- 
de fiber , e efcrever ? So aos Reys , e nao a todos, fe 
concede ifto; fim fua graqa efcrevem oB : hiU^rico|, 
contao os' Poetas , retratao os pintores ; e fe ifto 
nao bafta efculpem os eftatuarios. Os particulares fiL- 
cao de parte, como'em r'ema'nfo, onde na6 chega a 
corrente defies pregoeiros. Saber4 hum particular ; 
quern foy feu pay, avo, e bifavo , ieus eftados; e 

yidas,; 



t-ltfeh. trtehr 
dnno mundi 
4090 



m 



dos 8 Baps. 457 

vidas ; por informa^oens de vivos , e tradiqoens de 

mortos j mss dalli para cima » aqui efti a difficulda« 

de , e o trabalho. Onde me quero efpantar ? como fe 

fazem tao longas, e miudasafcendencias de gerdcoea 

de filhos para pays, avdsj bifavos, trelavos , e ou- 

trosainda mais remotos, em tanta efcuridade, e igno- 

rancia dos avoengqs proprios, quanto mais dos alhe- 

yos , que hoje vemos : principalmente , que entre 

nos nao ha coftume ordinario de efcrever Hnhagen?, 

de que fe poflao ajudar , como houve entre os He- 

breos, fegundo Nicephoro , e Platina. Tudo para Mcepk.hift 

unir as modernas com outras antigas* e nobres , queE«fc/- /. t 

anda8 efcritas, f^zendo para ifto cornpridas fileirasde™!'^. 

peflojs incognitas : hiftorias de nome$, e nao de fei- C jJS£ %nylt§ 

tos, Hc^ao fem duvida penofa. A fe das quaes nao 

fey quanta feja , pois csrecem de fundamento de ef- 

critura, que lha pddia dar, mas ficara fobrefeusAu- 

thores , e na cortezia de quern as ler. A eftes amea- ^ 

cpu Gafpar Barreiros com hum Hvro , que fasia das J*^^* 

Hnhagens de Portugal, e Caltella, e entretanto, dizc& 6 « J jr'«/>fc. 

elle, que os deixava eftampar em fua cafa, e a iuatn. deNmb*; 

vontade a honra , e origem de feus avoen^os. «*. 

•Sentirao efta difficuldade Suetduio Tranquillo , 
e Plutarcho na vida , que efcreyerao de Julio Casfar , 
homem, que de forte particular fubio ao fummo Im- 
peiio en tie os Romanos, porque nao fallarao de feus 
pays, que parece Ihos nao acharao , falvo fe de in* 
duftria os calarao pelos acharem pequenos para tao 
grande filho , como era o Monarcha do murdo , e 
principio de tantos Monarches j que defpois lcra6. 
Com tudo Pliqto a cafo di(Te , que ieu pay fe cha- ?u*. hiji.ui. s 
mou Caefar , e chegou a ier Pretor, 7 e 5i 

O mefroo Suetonio defcrevendo defpois a vid^ -y 
de O&avio Csefar Aqgufto , filho de Accia , e neto de ■ "jjf** ' t * 
Julia, irmaa de Julio Csefar , nao pode dar conta de s 
mais, que de feu pay, avo , e bifavo. Do bifavo 
diz, que foy Tribuno dos foldados; doav6, que en- 
velheceo em fua terra logrando feu patrirrmio; do 
pay diz o que o meimo Auguflo efcreveo de fi que 

Mtnm vinba 



Tvllius epiji. 
ad Oft* 



Cic.l. %it 
Orat. 



458 Tratado da Linhagem 

vinha de familia antiga, e rica , e que feu pay foy 
o primeiro Senado? della : ifto he de Suetonio. E 
iendo eilas coufas entao modernas , e que paffarao 
,.;.,-_; entre netos , e bifavos , nao iso cer tas ; tao incerta he 

a hiftoria de particulares. Digo ifto, porque Marco 
Jntsnius &pud Antonio cunhado de Oflayio Cadar cafado com Ocla* 
Suet.ietoah via fua irmaa, lancou em rofto ao mefmo -Oclavio , 
que feu biiavo foy iervo , e defpois liyre: e feu avo 
cambiador. O que confirma Marco Tuliio T»a epi (to- 
la a Ovftavio, onde diz , que feu avo, e feu pay, 
ambos forao csmbiadores , a quelle ate fer velho , e 
efte em moqo , para que nao podeiTe deixar de o 
confeijar. Paffa aiiante Suetonio dizendo , que na6 
aehou mais dot an tepaftados de Auguflo Castar, E 
na& foy por a f am ilia Qdtivia fer nova, porque el- 
le mefmo a fsz antiga , mas he por falta de efcritu* 
ra, a que podemos chamar vida da antiguidade , on 
menfageira della , como Cicero diz. 

Da meima difficuldade entendo eu , que naf» 
cerao os err os, que tern os Hvros das linhagens, de 

41 

Mnnotip.4 ^ ue p ranc jj- co Perrarcha achava nas fuccefloens da no- 
Tetranh. de bf eza Italians* Donde fe infere quam arduo feja fair 
RemedHs bem , e fern reprehenfao com qualquer trabalho delta 
utrhfquefor. forte. Digno com tudo he do louvor p Conde Dom 
'Swu'^ filho d'^l^ey Dom Diniz , pelo que tomou 
em fazer o feu livro das linhagens, bufcando por 
rauitas terras efcrituras » que dellas fallavao, fegun- 
do elle diz no prologo defte feu Uvro, ao qual nao 
valeo tanta dtligeacta , e curiofidade para com al- 
guns , nao ley (e tao curiofos como elle , que facil* 
mente o cenfurao. R porque entre as geraqoens, que 
elle efcreveo , nao teve lut»ar a dos Eitacos , que 
em tempo d'ElRey feu pay,*e (eu floreicia, ou por 
efquecimento , ou por efta gente viver longe do lu- 
gar,, onde elle refidia, etefcrevia , ou por out ra cau- 
fa a n6s occulta , porque 'na verda Je Dom Pe o Efta 
^® meftre de San-Tiago, feu contemporaneo * e Pe 

10' 



[mi no, cbrea. q Ue £ A \\$ Damiao de Goes na chronica d 5 H!Rey D. Ma- 
'EiRey mm snoe i. o a mefma qualidade he a confuiao.e perplexidadf, 



sneto/a^ 




dot SBdfOf. 459 

to Eftaqo Rico-homem , avodo Meftre, nao erao pef- 

foas tao pequenasj que lhe caiffem por entre os de- 

dos, pois lhe nao cairao outras , que elle andou de- 

ienterrando das aldeas , quintas , e calaes demre Dou- 

roe Minho, de que as hiftorias antigas de Portugal 

nao fizerao cafo , nem menqao , como fizerao das 

duas , que apontey : mas foile o que foile , eu me 

deliberey iupprir efta falta no modo , que me he 

poflivei i para levar adiante meu intento em virtude 

daqueUa exhortaqao do Ecclefiaftkp, Laudemm vivos *«M4«W 

gloriofa , & parentis tto(iros in generations ftia. Pofto que 

fera fern aqueila authoridade, que o dito Conde lhe 

poderadar , quando a fizera materia de fua pena. OCwtol 

qual foy o primeiro , que em Heipanha t atou elk £J» ■** 

argumento em ettylo algum tanto rude, ccmo aque±* v */ J * 

le tempo era , mas o livro nao he indigno de Iiqao. 

Fez o mefmo entre os Romanes Tito Pom porno At- 

tico, que efcreveo a origem das familias Romsaas, 

mas por diffetcnte modo , obra muito louvada de 

Cornelio Nepote, Tambem entre os Hebreos as ha« 

via efcritas em Hvros , que fe guardavao nos Archi- 

vos do templo , como notou Eulebio Cefarienle , e JW*Wa 

Nicephoro Lalhxto. : A„*m*f»«* 

As familias correm a meima fortuna de todas N y ( Jfc.t, j 
4>s coufas da terra , comec,ao, fiorefcem , envelhecero, f , itj 
e morrem. Vemos fepultados osjulios, Fabios,. Me- 
tellos, Scipioens , e os mais daquelle tempo , em 
que muito florekerao j e te. hbuver hoje quem diga, 
que defcende defies, ririehad defte tal, como fe de- 
fendefte o ionho de Pythagoras. Se efta , de quefal- 
Jarey , acabar , como por muitos.finaes&amea^a , de- 
fte nofio trabalho ie entendera, que foy no rr undo , 
£ nao ociofa., nem inutiJ. E fe nao scabcr, para 09 
que della vierem , lerao eftes debuxos de noffa pena* 
humas imagens de feu 5 ? antepaflados * em que achsrao 
moiivos de emuUqao, pofto que fejao de efcrlfura , 
e nao de cera, quaes fe ufavso entre os Romanes, a 
-que Seneca chamava Incitamentos do animo: e Quin- S4nte ; tpijt} 
to Maximo, e Scipio ccnfetfavso, que veodo-as fe$ 5 

Mmm % moviao 



iSallu/t'iUs de 
Ullo Jugurti 
Vo in initio. 



4-50 Tratado da Linhigem 

moyiao ao amor da virtude : de que ne Author Sal- 
luilio. Acerca da duraqao das familias advirtimos de 
paflagem, que nao ha coufa, que mais as conferve, 
e profpere, que o tcmor de Deos, e guarda de feus 
preceitos, (egundo o dito do Profeta. „ Bemaventu- 
„rado he o que terns a Deos> e vjgia na obfervan- 
„cia ds ieus mandamentos. Poderoia fera iua defcen- 
tadencti na terra , e a geracao dos bons iera bem* 
„dka. 
TifawiDit, Torquato Taflb no dialogo da nobreza da a ra- 

Ugodeihn: zao natural da pouca dura, dizendo, que asgeracoet 
kate. le mudao , mudando-fe as compleiqoens dos homens f 

com que hurna boa vem a fer ma , e huma ma boa. 
A caufa he, porque a virtude de huma linhagem pafv 
fa no vieio, que 1 he he mais ilmilhante. K affimdiz, 
que os de ingenho vivo , vem a ier de coltumea 
doudos , como os defcendentes de Akibiades , e do 
primairo Dionyiio : e os de ingenho manfo , paiTad 
• em ftouxidaie, e perguica, como os defcendentes de 
Pericles , de Cimon , e de Socrates : atequi Torqua- 
to Taflb. Mis a caufa mais ordinaria.a nolTo parecer, 
Ilea pobreza, aqual,como feja madrafta da boa cria- 
$ao , e das boas artes, he pelo confeguinte ruinadas 
geracoens. O que advertindo alguns inventarao os 
morgados , para perpetuar as fuas , e fugir os dam- 
no* , que cada dia viao. De que temos exemplo na 
progenie d2 David , cujos defcendentes j como foflem 
bufcados pelo Imperador Domiciano , para os matar , e 
extinguir , a todos os herdeiros do Reyno de Judea , 
irouxeraolhe algum ta5 poorest e con as maos tao 
cheyas dos callos do trabalho , coot que ganhava6 fua 
^vida, que nao fez cifo delles, deixando-os ir livre- 
^f/l]* . n**nte,ifto efcreve Kgeftppo, allegadopor Nicephoro* 
EccU.'x®'^ * e V ^ a verdade do que diz Juvenal $ que a po- 
k -, breza faz os homens ridiculos , e nao iem cauia fen- 
tio'Ariftoteles, que a nobreza hea virtude, e riquezat 
antigas. 

Tornando a meu intento , na6 elcreverey to 
das at peffoas delta familia Ucceflivarnente de pays 

para 



rtim 
t, 10 

Jtt venal h 1 
drift. 4 P«//, 
tht$rum* 




dosSftdfos. 461 

para filhos \ e netos , pelas razoens , que apontey , 
mas algumas, que pude achar, e efl s poucas. Pott *t 
fad) diz aquelle grande Poeta , es que *mou Jupiter^ 6 
« virtudc ardente hvanto* ate C*?. Onde me O^corre O y. j^^jr 
filuftriflimo Cardial Franez , Romano na patria , e *' 
nas obras, o qual querendo manifefhr a nobreza de 
fua linhagem , ou propor hum publico exemplo de 
virtude aos amigos della, tomou de lua gera<jc6 al- 
gumas pefloas , de que ficou memoria honrada por 
armas , letras , ou officios graves da Republica, cu- 
jas imagcns com breves rotulos ao pe mandou pin- 
tar na fua quinta de Caprarola em huma formoja fa- 
la , que a belleza da pintura , e a noticia de tao gra- 
ves pefloas fez mais formofa. E nso curou de cutra?, 
ou porque f e perderao feus nomes , ou porque paf- 
fara6 a vida em filencioj fern fazer coufa , que teftu 
munhafle : que viverao. O mefmo fez o doutifltmo ***?»«,,;* 
Cardial Baronio , que achando era fua patria alguns £?«»»•' sp*»* 
homens de fua familia, antigos de quatrocentos ar\-'* tt, * u - Dc " 
nos, e eftes benemeritos por doa^oens feitas a C er-" M * ,,0, °**' 
to Mofteyro, poz feus nomes no theatro de fua bU 
ftoria por argumento da antiga familia dos Baronos, 
que afiim fe chama em vulgar, e diz, que folgoude 
ver eftes feus antepafiados ennobreeidos com eftas in- 
iignias de piedade. Fora erro nafl feguir a traqadeftes 
dous illuftres exemplares, hum de ptncel,outro de 
pena : poito que antes dellefr me lembrarem , eu a 
tinha feito minha propria. Chamemosa ifto deflora- 
<^ao de familia , titulo , que pode fer de proveito a 
quern elle for efpora para trabalhar de fer flor da 
fua. No qual fentido chamou Sao Jeronymo a Paula H ; erb „, ^fa 
Romana , e a Euftocbio fua n*lfaa, flores da progenie 10 c 1 
de Camilloi 

E porque afiim como as caas da velhice autho* 
rizaft aos homens , affim as da antiguidade author** 
za5 as geraqoens , e as fazern quafi fagradas na opi« 
niao dos mefmos homens , donde vierao aos Roma- 
nes nobres o trazer luas nos c^apatos por moftrar a 
antiguidade de iuas progenies ,. alludindo aos Area- 



462 Trdtadv da Linhagem 

Tiutdrth tx dQ$ t que fegundo Plutaixho,, le tinhao por mais an- 
yerfionecru. tigos , que a Lua : por efte refpeito diz o mefmo 
pnjinqu^- Sa6 jeronymo em louvor de Paula , que Blefilla fua 

pttntbui Roto, J . , J *• 1 n . . jV> u r» 

MU4JK76 may defcendia dos Scipioens; e dos Graccnos , ello« . 
tiieron. eptft. gato feu pay era do fangue d 'ElKe/ Agamenon. 
*7 C - l Toca o Santo ifto , e deixa-o para outrem o profe- 

guir , dizendo i que elle nao louvaia , fenao o que 
re proprio da alma. 

Mas a caufa, que o moveo, fe me nao enga« 
no, foy , porque a nobreza anttga , ifto he, a virtu^ 
•cte antiga » continuada pot muitos homens da meima 
linhagem , tern grandiffima authoridade ; digo por 
tnuitos, porque por todos raramente poderi fer.Nem 
todos os pomos de huma arvore fao iguaes emfor- 
tnofura , e bondade ; e nem por iflo os ruins fao ta- 
cha dos bons, nem da arvore, que os criou a todos. 
O mefmo digo comparativamente dos homens , que 
defcendem de hum tronco , huns bons, outros maos, 
• A familia dos Claudios, que procedeo de AppioClau- 
Vhtar t hVti fo ^ como <j- lz piutarcho , foy Patricia , muito antiga^ 
u PubhttU, e muito no t, re s na q Ua i houve vinte e oito Contula- 
,dos , cinco Diffoduras , feteCenfuras , JeisTriumphos, 
e duas Ovaqoens. Mas para que tanta gloria nao ca- 
receflede fez3s , teve hum ladrao convencido portal, 
e outro matador de gente, ambos chamados Lucios 
de fobre-nome, homers tao infames , que nenhum 
parents feu fe quiz chamar defpois Lucio. Teve mais 
•hum Ciaudio Drufo , ou Pulcro , deiprezador da re- 
ligiao Romana , homem prejudicial a Republica , e 
Su,t. inT,b^ outros , que refere Suetonio , porque teve muitos 
»ieap. i.». bons , e muitos maos. A familia dos Cxfxres toy 
•*-■ nobiliffimi, e com tudo teve humTyberio, hum Ca- 

ligula, e hum Nero , ?que forao deshonra do genero 
-hit ma no, 

Mas a nobreza. antiga, como dizia , ou pot 
tnelhor dizerj a virtude antiga de huma geraeao , fe 
he oublica, e util a vida commum , porque efta he a 
nobrezi civil , quando fe continua por muitas pefloas 
-da mefma linhagem , he de tanta authoridade , e re- 

putaqao, 



dbsSfta'fM. i\ 4$ & 

puta$a8 , que em fe labendo de hum fer de geraqad 

aflim qualificada, bafta para fe prefumir altamente de 

iua virtude » e para fer havido por fimilhante dquel- 

les, de quern deicende. Porque como dizia Horacio: Herat. 4 

,,Dos fortes , ebons nafcem os fortes; nos caval-wrw. 4 

j, los, e nos boys fe acha a vittude dos pays ; as 

j, aguias ferozes nao gerao a frsca pomba. Authori- 

zou efta opiniao o Santo velbo Tobias ; do qua] con- 

ta a divina Efcriptura , que querendo mandar feu fi- 

lho Tobias a Rages Cidade dos Medos, onde mora- ?"W<e $ v<r/S 

vaj Gabelo, e offerecendd-fe-lhe hum Anjo em figu- *s &wie - 

ra de mancebo para lho Ievar , e trazer , o velho Ihe 

perguntou de que cafa , e de que tribu era. Refpon- 

deo-lhe o mancebo: ,$ Vos bufcais a geraqao de quern 

•> vos leve voile filho , ou quern volo leve ? Mas pa- 

„raque vos nao tenha folicito , eu fou Azarias filho 

„do grande Anania. Tobias ouvindo ifto djfte-lhe: 

„ Ex magno genere es tu , fed peto , ne irafcaris, 

„quod voJuerim cognofcere genus tuum. Como fe 

difiera :Sois de muy nobre geraqso I mas peco-vos , 

que vos nao agafteis por vola querer faber. Eftou 

eerto , que feguramente levareis , e. trareis mj|u ft* 

lho. £ fobre efla confiancja lho entregou logo. 

A mefma tra^a Ievao os Principes Chriftaos; 
porque no dar dos officios, e dignidades deferem mui» 
to mais aos nobres de fatigue ; a mefma ufao os Verie* 
zianos, os quaes nao admittem as confultas, e go- 
vepio publico , aos plebeos. E na6 he novo ifto. Do 
primeiro dos Machabeos eonfla , que o grande AJe» 5. &*&*$& 
xandre, vendo que morria , chamou os feus criados r»i»f-»wr/c 
nobres, que com elle fe criarao , e divi4jo por elles 7 
feu Reyno. Romulo primeiro Rey dos Rcmsnosrroz 
o governo de Roma nas maos dos Senadores , e Pa- 
tricios, gente mais .nobre daquelle povo , como ef- 
creve Joao Boemo no terceiro dos coftumes das gen-'#<j««w<frmf* 
tes. Nabuchodonofor, Rey de Babylonia, mandou ef- ™ ui /«<»W 
colher entre os Hebreos feus cativos \ os mccos & e £%!? t 
real , e nobre fangue , para fe fervir delles em feu wrf'%* 
palacio* E parece, que efla reputaqao da r.obreza naf- 

ce© 



Dtuttron 



464 Trdtado da Linhdgem 

ceo com o mefmo mundo , porque Moyles 1 que 'pre- 
cedeo a guerra Troyana novecentos annos , fegundo 
u&mm /.4 La&ancio Firmiano f diz cites palavras no Deuteror 
nocnio: „Tomey de voflbs tribus os homens fabios jj 
„ e nobres , e os iiz principaes Tribunos &c. Do que 
tudo fe moftta , que os nobres de iangue fempre fo- 
rao preferidos aos que o nao erao. 

As caufas ditto parecem ier, porque fe prefu- 

■ me, que os nobres fa5 melhor inftituidos, e melhor 

inclinados. Alem difto para os mericimentos de feus 

pays, e avos, e pela expe&aqao, que dao de lhe fe- 

t em fimilhantes. Tambem fe entande , que mamente 

farao mal feu officio aquelles, que vem pofta em pe- 

figo a honra de leus antepaflados com a fua propria. 

E finalmente parece verofimel, que fo a memoria de 

terem nafcidos de nobres , e honrados pays, os efti» 

mule a feitos nobres , e honrofos , e os refree dos 

&fep%»t An. contrarios. O que fentio Jolepho Flavioj quando tra^ 

titfuitatum i. tando da verdade da hiftoria , que efcrevia , difle, que 

uuf.ifofi Xendo die de geraqaS de Reys , e mais Sacerdotes, 

mtmm. n le feria f C y m entir. B pofto que Baronio o repre- 

s^ndaLTit henia dafte vicio, nao faltao outros, que o defen- 

apparatuses dem, como refere Henrico Spondano. 

Nos tratando da verdade defte noflo trabalhoj 
diremos o que vimos , ouvimos , e lemos ; mas o 
principal fera tirado das chronicas de noflbs Reys. E 
nao pomos ifto em pequeno preqo , porque pouco no- 
bre feri aqudla gente , que nem por mandado de feu 
Rey i nem levada de feu generofo efpirito fe acha 
com o ferro na mao na9 emprezas, e conquiftas de 
fua patria , fazendo com que mereqa fer nomeada nts 
hiftorias della. A qua! nomeacao he hum nobre tefti- 
munho de honra , eftimado , e grangeado de todas as 
pefloas de altavirtude, e fingular valor. Ifto obrigou 
os Athenienfes commetter ao Poeta Cherillo, que 
e (ere veil e a victoria , que elles houverao contra Xer- 
xes , e derao- lhe por cada verfo huma moeda de eu- 
ro. O grande Alexin ire , quando foy conquiftar Afia, 
levou comfigo o filolppho Califthenes para lhe efcre- 

vet 



ubi vidtndui. 
Sfondanus in 
margtHf. 



Carnht Sle' 
fhanusverb* 
Clirtlm. 
VoUterranut 
AnthvoJ>ol, t * 

u 




'rffftf. 



465 



ver fuas faqanhas , como amrma Juftino. Mais fczJufiinmiii 
Julio Caefar, que elle mefmo efcreveo feus V ro P lios Stlet6 „; af >„ 
feitos, parecendo-lhe , que ajuntando o louvor da j ul Cae y e 
pena ao da lanca fazia dobradamente celebre a glo 5* 
ria de feu noms. Nad difcordOu muito O&avio Au idtmwAu* 
gufto de Julio feu tio , porque fez efcrever em ta-^'! fe *H 
boas de bronze hum fummario de todas as fuascou- w *' 
fas , as quaes ordenou por teftamento , que lhe fof- 
iem poftas defronte de fua fepultura. Que direy de 
O&avia fua irmaa, que deu ao Poeta Virgilio mais j^^^ 
de cinco rail cruzados fegundo entende Budeo , pela r «t» Virgiii^ 
mencao , que fez de Marcello feu filho na fua iEnei- w*»* M 
da** Quanto delejou Marco Tullio, que Luccio , hif-4^** 
torico daquelle tempo f lhe celebrafle feu nome , o 
mefmo Tullio o mottra em huma epittola mais ele-^ff'p^ 
gante , e copiofamente , do que nos o podemos re-^.' 7£ 
ferir. O Imperador Carolo Quinto indo contra o Du- 
que de Cleves difle a Paulo Jovib , que apparel haiTe^e;^ 
a pena para efcrever o feito, e o por fazer. O me-fr^Ml 
mo Imperador, de quem tantos efcrevem, achandoj 
que em grandeza de feitos paflbu ao grande Hercu- ^oviod'ih 
les, o que ninguem difle delle , quiz elle rrefmo dWimpriftfpk 
zer de ii na famofa empreza das duas columnar com' 15 
o mote, Plus ultra , a qua! fe ye em alpuroas moe§ 
das fuas. Digna por certo he de memoria a compe- ■„ 
tencia dos capitaens Portuguezes, que tomarao Goa^°f° e(ad ^ 
11a India , porque querendo ArTonfo de Albuquerque T „ 9t j ' 
aflentar huma pedra na Fortaleza com hum letreiro, 
de que conftaiTe quando, e por quem a Cidade foy 
tomada, vio*fe atormentado Selles : huns , porque •■^ idS deSi ^ 
nao erao os primeiros daquella nomea<;a6i outros, r$t j ea & % ' 
por na3 ferern nomeados : com que mudou a pare- /ft. $ c . 10 
^er, e iuntamenfe 3 pedra , porque a ,fez meter na pa- Al [ asl } "* 
lede comoletreiro.para, dentro, e; afltm ceflou aQuel-' r " !f 'f"» 
la contends -Finaimenfej najh^ha quem de-fuss fadU 
gas, e fuores^ ^Oi4e6je:o;;jorn|l de honrcia Ei- 
criptUTa de feu nome , porque .0 ^diUcio da fsma , 
que nao eftribar(em alicercs de letras , dura rruito 
powto, . 






Nan 



Nem 






J. Machaf?. 
5. verf- 
J. Rcphnc: 



466 >r? T'ratado cfa Linhtgim 

Nem efte teftimunho de honra le alcinqa por 
qualquer, reCpeito leve , fenao por 1 uvaveis tr.ba- 
lrios , a -perigos , a que elle como prerrio le deve. 
c. N-o primeiro' livro dvs Machabejs eita eh-rico, que 
■ JuTerao Jbfeph , e Azirias , Gwhemos nos lambcm no- 
1 me 1 c fay 4mm a pelt jar centra ot Gcni r, E noutro lu- 
^g. ar diz a mefma Ekntura divina , que David ie ha- 
* via na guerra com mais prudencia, que todos os cria- 
dos de Saul, e que tinha alcancado nome muito ce- 
Tiutauh.in i-lebre. Elereve Piutarcho, que Alexandre nao goita- 
/%jrt>.--4/*x,.va'de ouvir-as faqanhas de feu pay; e a razao era; 
porque nao Ihe deixava que fazer. Eotendia , que OS: 
trabaihos bem empregados fao os que merecem , e 
delles he a palma defte louvor. Nunca Hercules fora< 
taonomeado, ie nao forao os ieus doze. Do que tu- 
do fe collige, que a gente , que nafceo fomente pa- 
ra fi, e nao para ia patria , fera bemaventurada-pot: 
viver longe de negocios, mas nao lera nobre por vir- 
tude publics, elpecia mente por trabaihos , e feitoff 
de gusrra , cuja repuracao, try iempre tanta { que 
nao famente traz reiplendor , e eitima da pelioa, 
mas he: argumento de ,n6bfezau dengeracao , camo ia- 
biamante.Q 'fentio Virgilio -y quando introduz a Rai- 



•Bsde.apui 

JE*M. 4. in nha Didoiy dizendo de ^neas 



Credo equidem, nee v ana fides , genus effe Dt&* 
,rum , 
Dsgfmres animos timor arguii t Hm qu'tbus Hie 
Jatfatus fails , qua bt&a mhaufla canebat. 1 

Onde he vifto efte infigae Poeta pelos -*raba. 

Ihos , e guerras , em que JBaeas fe achOtty Iouvallo,* 

e fiz-llo defcend*£nt?e da DeOiesj-coltitj'le \Meia cfcf 

geraqa6 mais qutf foumarf&v £&t>qjtlb ^neatfprft&UMdy 

. dizem os Poetas , : foy <fi*foo e ifc^AnQhffles \ e- d<J Venus,: 

J*Tr6<,£ como efcreve Joao Blatter rw -^8a*ogi a 'dOs M Deb^ 

v£»e*,.&r. te$ dos gentio?. O'qt&l sJouvof hamper tiriente con- 

iii.6Vmn.form: a opiniao deaiguns fifofophos , que diaem a 

gera- 



dps Bftdfos. 467 

geraqa<5 nobre nao dar nada *os que ctella nafcem , e. 
16 fer nobre aquelle , que o he por virtude propria 
Donde veyo Francilco Petrarcha chamar ne(cio hn- ^ RfWfrf .^ ? 
nia, e muitas vezes a hum por dizer., que vinha de ut.hfqus-fo^ 
nobre geraqao. £m conformidade ditto affirma Plutar-™* Uiakgdie 
cho, que a nobreza he bera denoftos mayores.- E Boe-f^'*"";* ^ 
cio lhe chama claridade alheya : e mah abaixo a dc-^^ £ 
fine , louvor , que vem dos meticimenfos dos ^J^BouiusWcc^ 
Da mefma opinio he Hcracio, Ovidio , Juvenal ^vhthnei.^ •' 
€ Platina no tratado da verdadeira nobreza, e outros ?"/"*•■ ■ 

Vivem os Filofofos tao contentes de fi porafcien- < dt rj * Mtfi 
cia 9 que fe attribuem, que pelo mefmo cafp fe at-^. 
tribuem tambem a nobreza da virtude, e nao (em def- jf«w««/M 5a* 
prezo da que chamao de linhagem , e de todo o feu V ra s 
poder. Indo Alexandre ver ao.Fiiofofo D'u genes, e y aIeriu) j . 
achandoo aflentado ao Sol , perguntou lhe fe havia f(t?t ? 
tnifter delle alguma coufa? Diogenes refpondeo, que 
queria, que lhe nao impedifle o Sol. E nao fe levan- 
tou dolugar, onde eftava\ por cortezia de tao grande flutdrchm m . 
Rey. O Filolofo Calliilhenes conflado em fua filofofla viu AisXt 
reprehendeo ao melmo Rey Alexandre tao afperamen- 
te de fua ambiqao , que ellelhe mandou cortar os'na- 
rizes, orelhas, maor, e pes , e lanqar em huma cova 
com hum ca6, para alii morrermifera velmcnte. Galru- ^ 

fe a terra a vifta de Alexandre , cpmo diz a Divina Ef- ^ ^ *-•' c * 
critura , e nao fe foube calar a fuberba nlofofica. CuPy fl / w 'w l<i 
direy do Poeta Accio , que entrando Julio Caeiar vo c «p. 7 . 
Collegio dos Poetas , nao fe lhe levantcu , nem fez 
cortezia , nao efquecido de fua mageftade , mas por 
fe ter por fupetior na materia dos 'efhidos? Do m Gar- 
cia de Menezes Btfpo de Evora ; , teve hurra grave ora- 
^ao latini em Roma diante do Papa Sixto quarto, 
e achando-fe prefente Pomponio Leto , hcmem dcu- 
to daquelle tempo $ difte ao Papa : P*dre Su^to, q*ew GaftarKarreiv 
he efse barbaro i quefafla tao degantemente ? Louvou arosnatboroy 
qualidadedetetrado , e defprezou a de nobre, e de Cg-^^'™ 
pitad General' de huma Armada i e 3 deBifpo chaman-' *'"' ■ 
do-lhe bat bare, E ns6 fe chsmava ah mefmo baibaro, 

Nnn ii ou 



46 8 Tratado da Linhagem 

ou geatio, que fen do Citholfco-celeorava o Natal de 

Roma , e a Romulo feu fundador. E era tao pobre, 

que naotinha mais, que hum c*mphho, e huma ca- 

V^attrmm , mna * , eni que moraya , que compiou dos falarios de 

Arfbrotoi. lib.™}** diicipulos , como diz Volaterrano. Nao fe pode 

u. dizer mais nsfta materia j fenao que alguns Letrados 

step^m g*z. nao tem por digno do nome de homem ao Rey iern 

tfudZa ie d0. XQtx ^ » coroparando-o tap feamente , que efta nofla 

rmaieiRej. P ena f ecufa referillo , porque dos Reys por adigni- 

dade Real , que Deos Hies deu , fedeve fallar com to- 

da a reverencia ; cuios coracoens eftao na mad do 

mefmo Decs , donde alguns Letrados pertendem ti- 

rarlho para osgovernar a fua vontade. Alguns, digo J 

que aii melmos nao fabem governar. Os Mathematii- 

cos o querem Mathematico , os Filofofos Fiioiofo j 

os Rhetoricos Rhetorico , os Poetas Poeta , e cada hum 

o defeja veftir da cor das letras de fua ^rofiffao , que 

Protheo nao tomou tantas figuras > quanta* elks lhc 

querem dar. 

E fe nos quizermos dif correr por muitos da nof- 
fa Europa, que as naotiverao, acharemos, que lhet 
fizerao pouca, ou nen huma f aha , para fer, comofo- 
rao , por muitas virtudes excellent! flimos , atKm na 
paz, como na guerra, por confhTao dos mefmos Le- 
trados. Os quaes fizerao mais em fuas pefloas , e nas 
letras, que querem perluadir fe fallarao com odecoro, 
e cortezia , que as pefloas Reaes fe deve , para que 
fua indignaqao nao ficara em blasfemia -, e a Masfe- 
mia eirvituperio de leus authores : porque moftrad, 
que as letras nao fazem melhores aos que as profef- 
$zo % ou que os profeffores fe na6 fabem melhorar pot 
ellas. O que deumotivoaoprover bios Todos, »sejue tem 
Utras % «40 [ao ftbios r s Alexandre para dizar potCal- 



Mex. Jfui 






twnindl* Hfthenes: Rtntg* </# fabio \ efHC pdrs fi n*i[abe % 

9 W V ^X WMd « J ^-w a. ate _. ._ /*j. _ £ _ fV ^.^ 



fr 



Tornando ao propofito , ipffrem tao maleftes 
homens, que 9s nobres de fangue nao £ac,ao muito 
cafo das letras \ ou que nao feiao letrados , que che- 
gao a por a boca *&, Ceo. E ou por ifto , ou pelos 
?er em officios 7 e dignidades altas, e profperas affim 



dosEfta^os. 469 

na paz, como na guerra , nao ley le tocados de algu- 

ma inveja f nutica ceflaS de os picar , hora abvendo 

a nobreza da linhagem , hora levantando a da virtude> 

tendo efta por verdadeira , e aquella por falla, e in- 

digna de tudo, o quepofFue. Maseftefeu juizo apro-- 

veita-lhes pouco , porque o eftado dos nobres perma- 

nece em iua reputaqao , egrandeza, e o feu delles pa- 

rece fer tal , qual era em tempo de Francifco Petrar- 

cha, hum dos principaes defta leita , o qual confefla , t eirAre h pi?% 

que ja enta6 le dizia delle: F over a > e nudavaylaFi- ldeifooneni* 

hfofis* fonnetta S 

E no que toca a nobreza , bem le cntende , que a * liai ^ 
fciencia ennobrece a leu pofleflor, quando feexercita 
em beneflcio commum f porque como diz Torquato 
Taffo : O nomt nobre s figniRca conhecide , e as coufas conhe* Ta F »«* P?#l 
cidas porcfra raz.ao Jtrto nobres: e *nobrez.a JtrA a nmi-^fr^'ff**' 
eia , que delUsfe ura. Ifto he de Taffo. A qual noti* ,ea J° l,t * 
cia nao le pode ter de Iciencia occulta, Mas as artes 
gubernatorial e military em que os nobres commum- 
mente andao comnomede ViceReys , Governadores, 
e Capitaens » onde cada hum reprelenta ao Rey , e 
participa de lua honra , lao nifto mais principaes; 
Quern fez nobres aos Reys fobre os outros homens, 
fenao aquella fuperioridade , e officio , com que os man- 
dao, e governao adminiftrando juftica ? Achyllesera 
filho de Deola, valentiflimmo na guerra, edouto nas 
Methematicas , que lhe enfinou Chiron feefundo Joa6 „ **■, 

t> ■ »/• «-i D ' rf Decent, na Ge» 

tJoccacio ; e com tudo le cremos a Homero, o pru- -M / tA , Bli , 
dentiflimo Neftor oufou dizerlhe no roftro v que El-/« £1% c , 1% 
Rey Agamemnon era melhor , queelle , porque man- '*&yb>. 
dava a mais gente. Nao faltava a Julio Gelar honrade^ w ' f *' i; **& 
gerac,ao t de armas, e deletras, mas faltava-lhe ade^;/^*** 
Key , que invito defejava , como fuprema , e dizia >&/««*.)* 
que fo porreynar fe podia quebrar o direito, 

A dignidade Real foy a primeira , que houvend 
Mundo j porque vivendo os homens efpalh ados pelps 
campos, os poderofos vexavao aos fracos \ pe 7 o que 
foy neceftario lobmeterfe ao govern© dehumjufto,e 
prudente , a que chamirao Rey , que determinate luas 

diffc* 



JhJUhu 1. I. 

Salluflius in 
prolego conjw 
rat. Cat. 
Citero de legi- 
bui i J . in ini- 
tio . 

Oforius de Re- 
gis infiitut. i.h 
in inito. 
Oforius ubi 
fupra. Tujfo * 
tthifupra. 



Valla Elegant. 

ib, 4. c. 61 




470 Tratadoda Linhttgem 

differences; e para raelhor lograr o beneficio da jufti- 
qa , i -raS-feajuntando em povoacoens , com que fica- 
raofettas as Villas, e Cidades. Authores (ao ditto Jul- 
tino, Sallultio , Cicero, edepois dellesjeronyrno Ofo- 
•rio, e Torquato TalTo. Creados muitos Keys em diver- 
ias partes, naicerao logo guerras entre as Cidades vifi. 
\ nhas , ou fobre os limites das terras , ou lobre roubos, 
ou por ambiqao dos meimos Reys. Para o que come- 
$irao de murar as Cidades , eutar de armas , e affim 
entrou a Arte Militar com feus Capitaens, Soldados* 
eOfficiaes, como querem Olorio, e Taflo. Accrefcen- 
ta Oforio , que antigamente os mefmos Reys erao os 
Capitaens, Ettas duas artes affim como forao as pri- 
meiras , aflim primeiro , e mais que as ot\tras por fua 
neceffidade , e excellencia , fizerao aos homens conheci- 
dos, e nobres , e com razao fe podem chamar fontss 
da nobreza. 

Na protec^ao da milicia leaflegurao as Cidades, 
eos R^ynos. Nella delcanqao todas as artes j.princi- 
palmente asletras a ella devem o ocio \ que tanto hao 
mifter ; donde veyo a chamarfe o leu eftudo , ocio li- 
terario. Nao fe pode explicar quanto mais util fera a 
vida commum a pratica das armas, que atheorica das 
letras, e quanto mayor o mericimento do Soldado , que 
o do Letrado. Porque o fim proximo do Soldado he 
com o fangue , e com a vida amparar * e defender a 
honra , e Hbsrdade di patria. E o do Letrado he com- 
mummente leu particular interede , ou fua particu- 
lar recreaqa6 ; e fe dermos , que he eftudar } que tern 
que fazer ifto com pelejar , e com os mais trabalhos 
da milicia. ? O Soldado vigia para a patria com as armas 
nas maos , levando mas noites , e maos dias , lorTren- 
do chuvas , frios j ventos , fomes , fedes , tempefta. 
des, enaufragios, obedecendo fempre ao leu Capitao* 
O Letrado tambem vigia, mas para fi , lendo , erne- 
ditando com o livro na mao , e fe lhe canfa , na eftan- 
te em lugar abrigado dos males da foldadefca, e (e a 
Deos apraz no loalheiro de Diogenes , onde medem 
com msdida lesbia as horas do eitudo pelas dbgo'toj 

e entao 



dos Eftacoh^^ 47 1 

eentao lhe parece ter feito muito j quando a .vontav 
de propria lhe diz , hart a. 

E ie com tudo as letras prevalecem , ilto leri em 
Roma Cidade Eccleiiaftica , mas na5 fo ; a de Rcma , on- 
de vemos aos Reys, e da'lli para haixo , trazer eipada 
na cinta, etodas as nacoens cheyas de infignias , titu- 
los , premios, e honras da milicia. E quanto ao con- 
felho da guerra , efte nao he de Cicero , nem de Dernof- 
t-henes , nem de Phormio , fenao de Fabio Maximo , 
de Annibal, e de Marcio. E fe tratamos da graqa de e(- 
ctever , que he propria das letras, claro he , e aflim pa* . 
rece a Salluftio, que mayor he a gloria de fazer, que Sa /hfiiusm 
a de efcrever. E como dizia Themiftocles mais val Ter huh C o»jm *t. 
Aclrylles, que Homero, ifto he, vcncedor, que pre- 'catu. 
eoeiro , eCapitao , que trombeta ; porqurfe cantar 1 ^""^* "* , 
srmas, heglonoio, muito mais glonoio he exercital-p^^ j^. 
las. O exercicio importa muitos perigos da vida pela nuuum. 
Fe, pela patria > e pela faiide publica , esflim he jui« 
to, quelmporte muitos premios de honras , de titu- 
los, ederendas* que faqao grandes , enobres nao 16- 
mente aos que* padecem , mas a todos os feus defcen- 
dentes. 

Marco Tullio como foiTe haturalmente n\aisap-TuiUus]offci^ 
to para coufas depaz, que de guerra, e'delejslTe ad "*•'• 
quirir aquella parte de gloria \ que por leu confelho 
merecia, poz eftacontenda entre Confelheiros de paz, 
eSoldados. E porque muitos fe ajudao delle em- favor 
das letras, iendo coufa tao differente j pareceo me ne-' 
ceflario refporiderlhe. Dm ielle '''; que as coufas feitss ; 
na guerra com as armas ,'%ftava6 em opiniao de mayo- 
res, queasfeitas na paZ , com o conlelho ; mas que 
nao era aflirtt ; <5 que elle^'pertende' provar. N6s dize- 
mos, que as coufas feita^fta'paz ;j porque faomaisor- 
dinanas , :rrtoos arduas ,%riao pengofas , nao^fao-de' 
taritaieSpe^a^o adrrrir^'se, e gloria , wtw^a?s <&£ " •' 
guerra.^Demais difto no errq , e map fucceflo daqti&te - 
las \ nao vay tanto , e p6den»fe ,f mStasvezes erx^dar, 
e reformar. E no defter vay a honra r a libkdade j e 
iaude da Repwblica > e a perda * e dariwo deita.s co u- 

"""■" '- ' V Jasj 



ft 




*Tr4tfido da Linhagem 

las, como fao tao preciofas, fentem-ie muitOj etar* 
de , mal , ou nunca fe recuperao. Daqui vem , que 
o nome de Themiftocles Athenienfe, vencedor emba- 
talha naval , do poderofimd Xerxes Key de Perfia, he 
muito mais illufhe , que o do Solon , que inftituio o 
Senado de Athenas ; porque fe o confelho do Senado 
aproveitou fempre fazendo guardar as leys , e os coftu- 
mes da patria , como Cicero diz : as armas aproveita- 
ra© em occafiao de grandiflimo ternor , trabalho, e peri- 
go. Alem difto ellas fazem a paz , e o medo dellas a 
conlerva por rnuitos annos. Day-me hum Reyno del- 

?rmado , como Hefpanha eftava em tempo d'ElRey 
)om Rodrigo , eu volo darey entrado j e occupado de 
feus inimigos. Demaneira, queiepode dizercomver- 
dade , que pouco pode em cala o conielho $ fe f6ra 
nao ha potencia de armas. Senao diga Cicero , de que 
fruto fora defcobrir elle a conjuraqao de Catilina , fe 
a fortaleza de Antonio a nao* extinguira ? Elle com 
induftria a defcobrio « diz Lucio Floro * e Antonio com 
Bam)! 4. " i. a ma ° aopprimio. E tanta differenca vay do feito de 
" Cicero ao de Antonio, como vay de dizer a fazer em 
negocios arduos- 

Tambem o exemplo do bom CapitaS 4 3inda de» 
pois da morte , aproveita a todo o Mundo , como o de 
Mileiades a Themiftocles , ode Hercules a Alexandre, 
e o de Alexandre a Julio Gefar, Confeffamos a Cicero, 
que o Senado ajudou a Themiftocles com a gente, que 
lhe deu, mas negamos, que Themiftocles na6 ajudou 
tambem ao Senado com a nohiliffima vitoria , que ak 
cangou defendendo-o , coniervando-o, edando-Jhe no-! 
vo fer. Que aproveita corpo de gente (em cabeqa de 
homCapitao? Cefto he, que ofraco Capita* fazfta- 
ca a forte gente : e que mais ; he para temer humex- 
ercito de cervos , cujo Capital he Leao :.que : de 
imu mi I*spens ( , cujo Capita^ he ceryo , como afftrma Timo- 
Ttuium Mi' thep«, ohrn> < ■ ■ ° T 

Ac^ref<;snta_Cicero f quea guerra fe fez pot 
confelho do Senado. Nao negamos iftoj nemellepo-. 
de negar,,que femcopielho dos Military fe pod ia^to- 

mar 



nullum tn 



dot Eft a if of... 475 

mar affento de guerra. O que fignificou ovalerofo, e 
prudente Capitao Iphicrates , o qual fendo accufado ipUer*ttsapu& 
de hum crime capital , difle ao feu accufador : Oiha e Piuu m dpi 
que fazjs , q*e a guerr* eft* a porta ± e tu perfnadcs a Ci-t" h ' 
kade, que confttlte demim s e nao eomigo. Alem dido ain- 
da que oconlelho ieja primeiro emordem, queaexe- 
cuqao, nao o he na eftima, edignidade, porque to- 
do o trabalho efta na obra. Naovalmaisatraca, que 
o palacio , nem os meyos da pertenea6 , que o perten- 
dido, O confelho eftima-ie poramor doiucceflo, que 
he o fim , e efte por amor de fi mefmo : o qual > como 
diz o Filofofo , nao fomente he o ultimo da coufa , . 

mas o melhordella : Finis non folum eft ultimumrei , fed ^ff^^' 
& optimum. Eaffimconfta, que os Athenienfes nao fe J,< * 
gloriavao do confelho , fenao da vitoria , com que The- 
miftoclts livrou toda Grecia daquelle grav x iflimo peri- 
go , e por iffo a mandaraS efcrever pelo Poeta Che- 
rilo. 

Deixemos a Cicero em fua paz , e tornemos a 
guerra entre as armas , e as Igrejas de que faz men« # 
^ao Plutarcho. Os Romanos quanto mais eftimavaS os ?hu« Mvfa 
Soldados, que osLetrados , declarao as mais , e rna-^"'" 1 ^^ 
yores honras , que Ihes davao , nas quaes entrava o 
triunfo , que foy aiuprema de todas. Nefta conformi- ^ KemedrJ 
dade vemos, que os homens de affinalada nobreza ie- uwhfque fc** 
guira© iempre mais as armas s que asletras. Dos do leu tun. Dialog* ' 
tempo fe queixa Petrarcha , que nao lomente le dei- 43- 
xavao parecer , mas que adefejavaa Sabellico , Author 
de grande nome, que foy depois delle , diz ofeguinte: s«foil. Ean.it 
„Aprimeira, e principal nobreza de Italia, hedamili- * r *^ 19Ut4 
,icia f ie he ditofa; e afegunda das letras. O lacerdo- 
i, cio faz mais veneravel , quenobre. Dos Xetrados os 
fl Theologos tern o primeiro lugar. Os Juriftas o fe- 
„ gundo. Os Medicos tambem tern reputaqao j mas 
„ ganho mayor. Os Mathematicos , Dialeclicos , Aftro* 
9, nomos, e Poetas fa6 claros mais entre fi , que entre 
„a outra gente. Os Grammaticos fa© os ultimos, co- 
„moaquelles j que envelheccm entre os mocos* Ifto 
he de SabelKco. EfcrevQ o Conde Balthafar Caftiglio- 

Ooo 



ne 



^ 






Plut. 



tn vtta: 



47+ Trttado da Linhagem 

ne, que 6s Francezes nao conhecem outra nobrezafe- 
nao a das armas j eque nao iomentenad prcZio asle, 
tras , mas que as aborrecem , eque aos Lctrados tem 
por viliflimos horn nsj c o peyor he, que tendoeite Con- 
de Italiano confeila dos Iralianos ; que com faber le« 
tras, de hum tempo para ca, tem rnoihado pouco va- 
lor das armas. Diz eite author ilto no livro primeiro 
do feu cortezao. 

Bern confeflamos j que alguns Principes , e mui- 
tos homens illuilres por feitos de guerra, tiverao co- 
nhecimento deletras, com que tingiraS feus primeitos 
annos ; mas ifto foy por ornamento i e na6 por pro* 
fiiTao ; os quaes dedicando depots toda a fua vida a 
louvores da milicia , moftno quanto mais eftimava5 
as armas , que as letras. Hum defies foy Alexandre , ave 
■Pheiiix nefta materia , a quem os Letrados fazeni gran- 
.d^fefta , porque eftudou Filofoha natural, e Moral, 
&ma X miinZ »utras (ciencias, que ihe enfinou feu Meftre A*iilo- 
Motaiibnt. teles. Mas depois , pottas as letras de parte, prezou-fe 
SS/V e ler ^ muI ° de Hercules nas couias da guerra ; e pa- 
dreamed. ' ra as efcrever inv^jou ao mancebo Achy lies o Poeta 
jKiwi^^HomeroEfctltor dasiuas, parecendo-lhe, que em fcus 
I. xfiL 4 <s verfos ficavao ellas bem engaftadas, como pedraspre- 
M^'br^nT " cio * as em rica materia. Onde fe ve, que faz iilo clara- 
mente pelas armas, ena6 pelas letras, como muitos 
querem. Julio Cefar foy muito eloquente , lingular 
Efcritor, e, fegundodizem, Ailrologo. Mas foy e\nu- 
Jo de Alexandre, nao das letras, ienao da gloria miJi- 
tar j achando-fe diante deiua imagem , fufpifpu, por- 
que nao tinha feito coufa notavel em idade , em que Ale- 
xandre tinha vencidotodo o Mundo. Na6 fepodene- 
gar, que a junta das armas com as letras he b.lliflima; 
mas tratamos da mayor nobreza> e vantagem , que aquel- 
las tem a eftas. O que confirmao as opinioens defies 
dous Piincipes, que de ambai podiao julgar j as quaes 
fe podem ver em Plutarch** na ora<ja6 feg;unda da vie 
tude de Alexandre no principio, enavida deJulioC:- 
far tambem nopricipio. £ polio que o Imperador Juf- 
tint&no patera igualar as letras com as armas , quando 

diz ; 



m fiae. 
Suetonius »'» 
Julh e. 55 , 



fhf,. «»>iV« 
Julih 



dos EftsHjOf. 47* 

diz, que convem a Mageftade imperial , eifer nao fo- 
mente ornada com armas , mas tambem armada com 
letras : com tudo em tratar primeiro da importancia 
das-armas , he vifto preferilhs as letras , e depois em 
deckirar a' importantia das letras com palavra de ar-% 
mas , por encarecimento, parece confirmar efte fenti- 
do. Onde fe entende dar as armas efta vantagem , e 
primeiro lugar , queabrem osalicerces, fundao , eaf- 
fentaS os Imperios ; e depois entra o governo politi- 
co das leys, das quaes fomente falla nefte lugar, ex- 
cluindo as outras letras. 

Advirta-le mais , que os Chrpniftas notao as4e- 
tras dos homens militarescom huma (6 pennada de tin- 
ta , mas as dbrasde fua fortaleza efcrevem em grandes 
volumes: e muitas vezes nao hum fo , mas muitoij pu n ; prej gt, 
achando cada qual , quena relaeao , e companhia de f t jf m naU yer 
homens valerofos , e guerreiros , ficao os trabalb©S47. 
de fua penna nao fomente honrados , mas defendi-:?^?^* 
dos dos combates do tempo, e do efquecimentOr Efe^^f^ 
Tito Livio negar , que efcfeveo as coufasdo povo Ro- rh BapL ^ 
mano por gloria , por ter ja ganhado muita , ierao r,m. de imp. 
por fe deleitar da obra , como refere Plinio , conftffa- fow.m ?/>*/?# 
do a Paulo Jovio, e Baptifta Ignacio. Osquzestem6 l *.» uncU ?* ,t ' 
agradao por modernos , agradara o antigo Ennio , que fe "*,'„,„,/ & 
gloriava de ter efcritos osTeitos dos Romanes \ e que p tett uu h ft 
por iffo depois de morto sndaria vivo nas bocrs ckf e u 
homens, como affirma Cicero , allegado por Cx ' m ' ito * V ^f' fi ^^ 
Tornando ao prppofito , muitos havendp, por pouco^J^ - 
efcrever as proezas dos varoens em armas excellentes,,^^^. 
paflaraS a diante nomodo de ascelebrar ; pbrque os La-'Thmiptles 
cedemonios as canUvao em fuas feftas; os Athenien-^ 71 - 
fes em ieus theatros , e Achy lies em fua viola , do™ 8 r ; ££ 
qual difle Homero, 4e t 

'■..■; •- - E i 13 " 

' ' , II ' 



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476 TrafiadodaLinhagem 

Blum invenere cmmdo , 
Obleftantem animum cithara , jucunda fonMi y 
Hae tunc Heroum laudes , & iMarttafAtfa, 
Cantabat, 

v*Ur. Max. . Aflim o faziaS tambem os Romanos , e ainda ho- 
i- 1, i. r. je o fazem os barbaros Brasis. O qual coftume parece, 
GcZ'Jct, W Qfoy g f al da ^ ueIla veneranda antiguidade ; porque 
^ oi I ? om S? ?°y crn tem P° d'EIRey Saul , elemos na Di, 
M*»iip.L v ma Elcntura, que , reynando efte Rey , David matcii 
€-s6. aoGigante Golias, e vindo da guerra fahiao as mulhe- 

I'Regum c ; 17 res das Cidades a recebello com feitas , c cantavao a co- 
i8.w/ '6 £ rosa g"ndeza delua £ac,anha. 
*W* *™ .- j A ^ ui ne muito o° ta vd acerca da honra , e ntilida- 
de das armas, que RlRey Saul fez a David feu genro, 
pdr fua valentia , oque nao me lembra, que outro Rey 
toominich mil nzefle a Letrado pot iua doutrina. Tambem em Ita- 
i-*1fi—L 1ana6 ha muito tempo, que Francileo Sforza , neto de 
^////n". hum L^dor, mas clariffimo Capitao de feu tempo, 
Tahneriusi, ^erected i er genro de Filippe Maria Vifconte Duque de 
Cfcr.«8»«D. Mila6, epor fua morte, Duque tambem, e herdeiro 
Ha, t domefmo Eftado. Alexandre , eAuguftoforao Letra- 
dos , e Soldados : pelas letras Ihes dao os Letrados mui- 
tos louvores , mas as armas Ihes derao em fuas vidas 
ahum aMonarchia Grega, a outroaRomana. Ome(- 
mo , ou coufa fimilhartte 4 fe pode dizer de muitos dos 
antigos, acerca do que Ihesrendeo aerudiqao , eami- 
Hcia. Balhdizer brevemente, que as armas criarao, e 
criaSImperadores » R-ys , Duplies, Marquezes, e mui- 
* tos outros Senhores * dando-lhes grandiflimos Ettados , 

eriquezas para elles , e para toias as iuas linhagens: 
"HiefcAtnohifi. Deixo outras honras de menos importancia, mas pot 
Pont. p. ^ uventura de mayor eftima , como quando o grao Capi- 
t>LL\ it ta ° Gon< * al ° /ernandes, por premio de feu valor, me- 
6 9ts » 4 chr, receo com & amsfa com dous Reys, Aiuntemoslhe o 
tMty Dimgno Capita5 Duarte Pacheco, que EIRey Dom Ma- 
Mmwtif, i, noel levou A lua ilharjga junto comfigo $ em huma fa. 
* l *» lemne 



dos Efldfos'. 



477 

lemne Prociflao , feita fo para o honrar , e no fim hou- 
ve hum Sermao , em que fe relataraS as maravilhss de 
fuas facanhas. Eftas honras r epremios das armas, f o 
feculare.^ Mas nem a Igreja lhes nega os feus , entre 
cs quaes fab^mos , que os Reys de Leao , e os Marque- 
zes de Aftorga fa5 perpetuos Conegos de Lea 6 , e ga-< 
nhao as diftribuicoens , quando ie acha6 no corO da- 
quella Igreja em iuas cadeiras , como affirma Frey Aths- 
nafio de Lobera, por o valor , e esforco , com que feus 
antepaffados vencerao a batalha de Calvijo. E que di- Libera »as 
rey detantas, etao ricas IgrejaS, que os Papas dera6 | r ™^**' ** 
as Ordens Militares para honrar , e premiar a valerc- &^§. ' 
fos Cavalleiros com titulo de Comendadores ? Ifto he ' 
oquefazem as armas. . 

E as letras fazem Bachireis , Licenciados , e Dou-^ * 
tores, e com eftes graos vao grangear o remedio da 
vida, que quando lho dad , depois de feita grande 
defpeza, he cortado muy ao jufto, e por medida muy 
efcaffa ; e de mais difto leva o contrapezo de perpe- 
-tuo trabalho de eftudo. De hum fe conta , que por 
fua grande pobreza pedindo efm61a a hum official 
mecanico , difTe-lhe, para o mover , que era Meftre nas 
lete Artes liberaes , ao qual relpondco o official : ,, Por 
,,certo, que iou mais douto , que vos, porque eu 
,jcom huma fo arte luiiento a niirn , a mulher , eos 
„fi1hos, e vos com fete na6 vcs podeis fuftentar. Tu- Crinhusl.itk 
do difle brevemente Petrosio Arbitro , fegundo o traz 'frjjf? 
Crinito na honefta difcipllna. „ Os Soldados andao vei- 
„ tidos de ouro , e os Letrados de pobres pannos. \ 

Algumas coufas deltas parece , que moverao a W. 4* Afft 
Budeo lamentar o pouco cafo, que os nobres Fran* J'4-«\A»*te« 
cezes fazem das letras , fazendo muito das armas , e 
trabalha de perfuadir aos Reys, que fe firva6dos Le- 
trados 1 para confelheiros , e para os cargos da Repu- 
blics no tempo da paz. © Poeta Portuguez tarobem fe cmuMtH 
riioftra fentido , porque os nobres Capitaens Portu- *»£***» «»* 
guezes nao ajuritao as letras com as armas. No que fe£*^* 97 *& 
ve correr tambem em Portugal a praticade Franca , e '* * 9 
de Italia, Muitos clamores U6 eices, mas hefallarao 

iurdo: 



r- 




47% 'Tra&do daLinhagem 

fur do : porque prevalece a importance damilicia, em 
cujo feyo repoufa o fereno eltado da bemaventurada 
*• paz , como diz Valerio Maximo , chamando-lhe honra 
principal, e firmamento do Imperio Romano; e com 
ejla feus grandes , varios , e luttroios premios , com 
que converts a u* os olhos da nobreza. 

Tambem fe deve notar , que oconfelho, para o 
qual Budeo applica os Letrados, nao he de Letrados , em 
quanto Letrados, falvo tefor das fciencias , quejpro- 
feflaS , e entao he fciencia. Mas he de homens em 
quanto homens , e eftes velhos , que tenhao vifto 
muito. Diz. Job: Nos <tntigoi efta. a, fubsdoria , e m muito 
tempo aprudencia* Neftor , que os Letrados trazempor 
fi, nao foy Letrado , feaaS Soldadodefde mancebo» 
como elle mefmodiz: e Homero lhe'icijama douto em 
guerras, edelongo ufo coftumado anmilicia. Em ou- 
Homerus ibid, ttolugar conta , que (endo vcuia foy a guerra deTroya 
Homt 'us Mad por Capitao de noventa Naos. E fallandode fi mefmo 
fol 75. Neftor diz : Govc'rno com confclhos , c com paUvras , por- 
que eflt hso officio dos velhos, Donde confta, que por fee 
efte , e nao por fdr Letrado , diffe EIRey Agamenon^ 
que fe tivera dez Neftores , fScilmente tomara Troya, 
O que conflrma o melmo con lei ho.' , que Neftor lhe 
deu acerea de ordenar ,0 Exercito, donde elle tomou mo- 
tivo para o louvar. Nem o vagarofo Fabio Maximo foy 
• Letrado, como quer quern o traz em favor das letras , 
piut. ^in F*i>it nao " faz-ndo diftincqaoentre cllas, eaprudencia, ou 
Max. a,folerciafua parte, a quechamamos fagacidade. Def* 

ta maneira tambem chamarao Letrados aos rufticos lu- 
t^d:>res, que com manna * e arte fe fabem veneer, e 
e derribar ; o que elles nao devem de admittir. Tor- 
nando aopropofito, averdade he , que o bom enten- 
dimento com a longa pratica das coufas do Mundo 
fazo b^m confelheiro , deixando a parte , que oqon- 
ielho he, don do ^fpirito Santo, o qual nao he de to- 
dos. Achitop'iel teve tanto, que David andando na 
jruerra , pedu a Deos , que deflruiile feu confelho. 
Eo Scclefiaflico diz, que de mil hum fera bom con- 
lelheico, Nao negamos com tudo ap bom Letrado ieu 

lugar 



Palttlu, I. 
C.J. 



'. uH/up 



Job.c. u: 

verf. 1. AS 
Keflor apud 
Hetni'rum 
Iliad. I, 4. 
fil. I % 8, 



Idem I. t. fel 
64. 

Ntftor apud 
Homerum 
Iliad. 4. fel. 
119. 

Idem Iliad. 1 



Ctwcens canto 



dos EHd^Of. 479 

lugar no Confelho Real , paa examinat fe he jufta 
© que feeonfulta; oqual Ihe naS pode tirar n Ppeta 
Poituguez, poito que diga , fallando cemElRey: 

Tontay confelho fo de experimentados , 
§tMe virab largos annos , large s mezes , 
Que , pvflo que em fcientes muito cabe , 
'Mais em pat titular o experto fabe* 

Eaoque dizem osFilofofos, f6 fer nobre o que 
o he porvirtude propria , e a geracao nobre nao dar 
nada a ninguem , na6 aceito a fua opinia6 com tahta 
efbeiteza. Porque legundo Alexandre Piccoterriini va-Piecoimmin<$ 
rao doutiffimo 9 * nobreza he hurra antiga fuceetlao dt/ ua i*fii**'t** 
fangue de huma familia , que teve peiToas em qualquer J"'*' * 7 ' Cm 
honradiflimo exercicio , oufciencia, illufhes, efamo- 
fas. E accrefcenta , que o nobre naicendo traz com- 
ligo aquella parte dehonra ».que lhe da a mefma no- 
breza , por f er efta hofl a nobreza honra dehoiTos ma- 
yores , e de nofla familfa 4 e de nos tambem , os quaes 
fomos partes della. Ifto he de Piecolomini. Concorda 
Jeronymo Oforio , o qual fente , que a nobreza. he oforhs den*- 
dignidade de geracao, em que houve muito grander h,utate chili k 
virtudes , faudavefs , e proveitOfas i vida commum. *-fi l - *S$~ 
Se a dignidade he de geracao , claro he , que quern 
della nafce , leva ccmfigo parte de tal dignidede, ccmo 
membro , que he da mefma geraqac. E ainda, fegundo 
Boecio, fe a nobreza he louvor , que vcm dos meri 7 
cimentos dos pays , eftelouvor nao pode vir, fensoaos 
iilhos , e defcendentes i e efta he a parte , que levao, 
de nobreza. Alem difto levao a efperarca , quedao, 
de ferem taes,.como feus antepaffados ; porque cOmo 
affirma Quintiliano , commummente fe ere, que 05 £- QvintHkmr 
lhos fao fimilhanres a feus pays, e avos , e pela ma- *»fiit. trat, fi 
yor parte o fao. De outra maneira fora notavel def-**'- ,c ' 
concerto danatufeza , como difle hum Poeta noflb. _,' . 
Levao mais a virtude do fangue , "a que fe chega a 3 ,^7/C^ 
boa cria^ao, einftitui^ao, que nos nobres fempre fe 

prefume 




4*0 Tratado da Linhagem 






prejume melhor. L?va5 a ,obrigaga6;, e quafi neceffi- 

$Htius nbi/uf dade de nao degenerar de feus mayores , a qual Boe- 

cio tern por demais importancia nefta materia. LevaS 

grande conflanqa , e grandes efpiritos para dizer , e fa- 

Wuurtb uhi zer; porque, como afhrma PJutarcho, o nafcimento no- 

f»pint»a», bre he hum thefouro de liberdade, Levao iinalmentea 

Ttr*q. <*•••- nobreza, a qual,fegundp prova.Tiraquello, quando he 

x! &'i' *' "'adquirida por hum, paffa por derivaqaS a feus delcen- 

Utm <lii.», Rentes. Emoutro lugar diz, que a gera<jao dealto, e 

claro fangue , faz fern duvida nobres aos que della 

nafcem. E como do bom nafqa o bom , e do prudente 

o prudente , fegue-fe j que aquella nobreza de fan- 

gue vay acompanhada com a da virtude , e affim fica 

perfeitiflima. 

Eftas coufas nao fa5 depequeno momento , nem 
o fruto dellas de pequena eftima ; porque rendem os 
premios , ashonras, o refpeito, o refplendor, a au- 
thoridadg , e veneracao dos avos : ifto por conienti- 
tnento dos Reys , das Republicas , e de todas as gentes; 
~o qual , por fer tao univerfal , fe deve ter por ley da na- 
tureza. E prova-f e noflo intento com vatios exemplos, 
i. Retime. 17 e authoridades. RlRey Saul querendo tomar a David 
>«/• Si sh por getiro , perguntou , de que geraqao era. S nao 
achando quern o ioubeiTe , ao mefmo David o pergun* 
tou. 8 o que mais he , que fabendo ja fua virtude , 
quiz tambsm faber a nobreza da linhagem. Efcreve 
Plutarcho , que fendo Alexandre ligeiro dos pes , e 
bom corredor , di(le-lhe feu pay , que correfle a car- 
reira nos jogos Olynpicos; ao qual refpondeo o filho: 
Fitter a o ifeJooHver* Rtys , que correrao comigo. Mas q digo 
de Alexandre, elle foy Filofofo, e valero(o Capitao f 
e filho de Rey. Pois pergunto ; porque nao procurou 
de fer havido por mayor Fi'ofofo , do que era : ou mais 
valerofo Capitao : affim como procurou de fer havido 
por de mais alta geraqao , como abaixo diremos ? Mar- 
co Antonio fallando com O&avio Casfar difle-lhe, 
que nao (entia nao fer perfilhado de Csefar feu tio, 
porque lhe baftava fer da progenie de Hercules » e 
k pofluir o que fua lorte lhe dera : affim o diz Ap- 

piano. 



Plutireh; i» 
A$*f>b, Alex. 



Jos S5ld$QS. 



I 



piano. EIRey Dom Affonio o fcxto de Caftella , que- Appknus Wi 
fendo calar iua filha Dona Urraca a tegunda vez, oJorumcmUum: 
grandes erao de parecer , que a cafafle com o Conde ^^/j^. 
Dom Gomes* que em riquezas, e poda avantajavaaos, ;,,„*/. ig.«.# 
mais (enhores de Caitella , mas nao ouiavao dizer4ho. 
Pelo que commetterao a bum Medico t que curava El. 
Rey, que Iho difleile em boa occafiao. O qua! o fez 
aflim; mas EIRey o tomou taornal , que Ihemandou^ 
que nunca mais parecefie diante dellej e cafoa a Dona 
Urraca com ElRey Dom Affonfo de Aragao. Onde fe - 
devenotar* quetodoseftesPrincipesentenderao, que 
a nobreza da geraeao he de grande importancia aos 
que a.trazem defeusavos i contra o que dizem os H- 
lofofos. 

Concorjem tambern nifto muitos homens doutosi 
que louvao a outros da nobreza de fua linhagem , co«* 
mo de coufa, que lhes pertenee , elbes da tudo aquil- 
lp, que atraz referimosi o que na6 iizerao, feailim o 
nao entenderao. Meffala Corvino na progenie de Au- Meffet* m IP 
gufto, queefcreveoa rogodomefmo Augufto, oqual^/ 8 ^^ 
aqui tambern eatra com feu voto tacko , o faz dei' tf l t mlu 
cendente de Julo filho de Eneas , delle proceder a gen- 
te Julia , eo antigo cognome de fua generofa progenie. 
Omefmo tern Aurelio V icier, Emilio Prpbo , Suetc- . 

nio Tranquillgna vida de Galba , e muitos outros. Per* *l%h,y 
mittamos a alguns adversaries , que tem a primeira EmlwinMiu 
opiniao, entrar tambem/nefta iegundaj naficomo ini'<Wf , & 4k 
iriigos, fenao como arnigos redinados* equafi eique- "*?**;' 
cidos de fi. Horado em ou'tro lugar louvando a Mece- ^XTi? 
nas chama-lhe defcendente de Reys, Plutarcho a]le- Hfr «*. u ' 
gado por Stobeo dizofeguinte : „ Indifcreta he a ca- Carm Oati.% : 
^lumnia de alguns f alios Filofofos contra a nobreza, surba.ftruhSt, 
„ os quaes nao coniiderao coufas* vulgares , e muy 
,jfubidas de todos. Comprao-fe generofos eavallos , 
„e caens para cafra generofa : e a Aim os meljbo- 
,4 res gatfps de vides , de oliveiras , e das mais ar- 
, 9 vores: e ao homem para a futura fucceflao dizem i 
« que lhe nao aproveita a nobreza da geraqaS j e que 
n tanto monta fer a origern barbara , ccmo grega. Nem 

Ppp j> ciena, 



01 Trad ado da Linhagem 

„ crem , que pela geraq-jo ie communicao aos filhos cer- 
„ tas raizes, e principios deVirtudes , ccmo Telema, 
,>cho filho de Ulyfles , do qual diz Homero : Foite in(- 
w*//»*;„w.»>tiUadaaYirtudedeteu pay. Iftotraz Stobeo. Platina 
tsChtfi. ^tambem confefla, que a mayor parte da nobreza vem 
dos mayores^ que foraoclaros, e juftos. Ja fe vio atraz 
o que diz Sao Jeronymo em louvor de Paula Romana, 
eoque ientio Tobias fallando com Azaria. Nao digo 
mais , porque bafta a authoridade da^ Igreja Catho- 
lica , a quad nas hiftorias dos Santos nao callou a no- 
breza da gera$a5 daquelles, queativerao. Efeja o cu- 
mulo de tudo , que ella mefmo canta em louvor da 
Sacratiflima, e nobiJimma Virgem MaydeDeos: Re*. 
tw.Rom. ga/i exprogenit Marin exorta refulget. 

Augufto Cxfar eicreveo de fua gera^ao alguma 
coufaj eo mais fez efcrever por Meflala Cor vino. O 
Conde Dom Pedro, fiJho d'ElRey Dom Diniz, e Af- 
fonfo de Albuquerque, filho do grande Aflbnfo, efcre- 
veraoasfuas, mais, e menoscopiofamente, como po- 
derao , ou quizerao. Os dous Cardeaes allegados Far- 
nez ,- e Baronio jfizerao o meimo cada hum por leu mo- 
do. Se elres exemplos me nao valem para nao ler re- 
prehendido por fazer outro tan to , valerme-hao para 
me confolar ni reprehenfao, que fe meder, que pa- 
ra jufta deve de fer commum. 

Afanilia dosEftacos, acuja memoria dediquey 

efte pequeno trabalho , teve feu domicilio em Evora 

Cidade antiga , e nobre de Lufitania. Efta alcunha Ef- 

taco, ou Staqo, que tudo he huma coufa, chama-fe 

MyHts'"si4. enn lingna Latina , Statins, Aflim lhe chama AchyJles 

tht >»i*i% Eftaco. homem douto da meima familia , eDiogoMen- 

fjirihat. des de Valconcellos j* Conego de Evora, na vida do 

nfr?!hJ? S ° J . utor Andr * de R « fende i e ° Cardeal Baronio em 
muitos lugares defuas obras. O nome Eftaco no fom, 
e brandura , mais parece Romano , que Gothico , nem 
deoutra nacao. Certo he , que osRomanos, quando 
erao fenhores de Hefp3nha , fizera6 em Evora longa 
habitaqao , cornb declarao muitos letreiros depedras, 
c notaveis edifbios de obra Ro.nana f de que ainda 

duja 



dos EJldfOf. 4?§ 

jdura boa parte. O que le p6ue ver no livro da anti* 

guidade delta Cidade, que fez Andre deRefende nella 

mefma : e tambem nas noflas vaiias antiguidades , 4e 

Portugal, Nc 6 queremos aiRrmar nifto o que damos 

a entenderj mas affirmamos , que entre os Romanes 

houve gente defte cognome , ou iobrenonie , e qua a!- 

guns podiao ficar ca j principalmente naqueila Cida- 

de, onde os achamos antigos. Tenhonotado em fami- 

lias Romanas, que algumas ufavao do mefmo ncrre, 

hora por fobrenome, hora por nome. O Pay de Julio 

Csefar chamoufe Cxfar denome , comoaffrrma Plinto fIif: 't>*>;p« 

jna hiftoija natural, e o filho, defte nome fez cogno *"'' l ' ltCt si * 

me. Nafamilia dos Brutos houve hum Marco Buto , 

onde Bruto he nome , pcrque Marco he antenome. 

E houve Deciojunio Bruto feu filho, onde Bruto he 

iobrenome , ou alcunha. Nos Meflalas houve Meflala 

Corvino , e Marco Valerio Meflala. Nos Metellos houve 

Cayo Metello Caprarioj e houve Quinto Cecilio Metel- 

lo. Oque tudo fep6de ver pot varios Authores , efpe- 

cialmente Valerio Maximo , CafHodoro no Catalogo 

dos Confutes, Carolo Cigonio no feu j ^olaterranoi 

Carolo Stephano , e outros. 

IxDa. mefma maneira ufava6 do nome Staci© t por- 
que Cxfar faz men^ao de hum feu legado, que chs* 
«na Statius Marcus , onde Stacio he nome. E Lucio Fau- 
no na antiguidade de Roma traz hum Romano chs- 
mado Cayo Calpetano Stacio , que foy hum dos Cura- lm .Pec«4i t 
ndores <Jas taboas das leys Romanas, onde o nome St#^ uL Jj". , 
cio he fobrenome. Tito Livio fas menca© dehumCa- -17j' l9 n, 
pitao btacio Celio ; e noutro lugar traz outro , a que (f j. 
chama Stacio Ignacio. Em tempo de Domiciano fioref- Crinhush 4. 
ceo o Poeta Stacio de nobre gersqa6 * a quem o me f- *• Pcefis l *& 
mo Imperador Domiciano deu hum celebre convite, *'/:*' tbrrfi 
e varios officios , e dignidades , como efcreve Pedro JZ-'JJtiK'dt 
Crinito , e Ravifio Texter pa officina. A efte Pceta p oe ;isgr*c. 
chama Crinito , Pub. Stacio Papinio ; rras Rafael Vo &i*nn. 
latetrano, e Carolo Stephano Ihechamao Papinio §ta^%jf* 4t 
cio. Ao qual Achy lies Eftaco fpy muito ?ffeic/ ado, e KjJJ^T 
a elle imitoJU na« fuas Sylvas , que parece fe Ihe quw c%ja:Stepk 

Ppp ii parecct ««#• f^hmti 



belle chilii 
Ltcus Faunvs 
lib. 



I 



4.8* Traiado da Linhapem 






#<#*, /, ii 



PlttUrcb. in 

fjtt». bellsrum 
cwl.l,]. : 
t-ufeb- i»„ 
Cbrorio anno 
munii 1090, 



Cornel. Nt&ot 
it* vita ~?om** 



tivius ?». 46' 
ttrfocetHtit*. 



S.ufeh. «3- 
Chron ann& 
Demist 1% 






parecer no nome do verfo , como parecia no da pe» 
foa. Finalmente o iobrenome, ou ; nome Eftaco . he 
JNomano.. T 

Tratey ate agora daorigem do nome i e as al- 
ias , elongas defcendencias dos parentefcos deixo ao 
grande Alexandre ,. que com fuborno > fegundo efcre- 
ve Juftino, procurou fer havido por iilho de Jupiter. 
E a Marco Antonio , o qual ate no veftido , e na gran* 
de efpada p , que dngia, enoafpero cilicio, com que 
Je cobria , queria parecerfe com Hercules , de cuja li- 
nhagem prefumia fer j do que iao Authoxes Plutar- 
cho ^ e Appiano, E flnalmente ao Imperador Augufa, 
to Gsiar , e aos mais da familia JuHa , que anirmavaa 
procederd^ Julo filhode Eneas. , que fbra havia mil e 
quatrocentos annos , pouco mais \. ou menos. O que 
para mim he duvidota r porque ainda queo digaS ak 
guns Authores >. principalraente Meflaia Corvino na 
progenia de Agufto, * com tudo em couia tao antiqa 
-houvera deallegar alburn Author grave, como ao gran- 
de antiquario Tito Pomponio, Attico ,. que efcrev^o 
a ; origem, das Camillas Romanas * nws pois onao alle-- 
gou , parece, que elle o. naodeixou eicriro*, Tito Li- 
vio, oquafc nao, fazia bom rofto a geraqoens antigas 
fern, fundamento de efcritura, aflim como nao quiz af* 
firmar por. verdade, que Romulo foy fllho deMarte, 
afiimdos Julios, que queriao deicen jer de Jul©., dide* 
que elles o dizia6. E he de crer ,. que fe achara efta 
opiniao authorizada , folgara de a efcrever , porque vi- 
veo em tempo do* mefmo Augufto , e morreo' no qn;r* 
to anno de Tybenofeu fucceffor , como notou Eufe- 
bio Cefarienfe* 

Mas feja Romuto filho de Marte , e Alexandra 
de Jupiter. Glorie-fe Marco Antonio da linhagem de 
Hercules, e Augufto da de Eneas. Tragao outros Prin* 
cipes » e Senhores , de q-uem quevem defcander por tre- 
vas de longa- antiguidade lem lume de. efcritura*, que 
faqa fe; que nos- louvamos fummamente ao Impera- 
dor Veipafiano !, ao qual dizendo alguns , que a fu3 
familia, Flavia. trazia origem de hum companheiro de 

Hfircu; 



dosE&apfl 485 

Hercules, zombou diflo-, como quem nao eftava efque- 

cido d~a mediocridade de lua geraqao: exemplo jcert© me* 

moraysl , de modeftia para{homem de tao Ievantada for- 

tuna, onde efta enxertia. pega muito , com que ou- Flk iut ^ 

trosde mais'humilde fedevem aquietat em materia de m w e „>;,#» 

honras , para que nao fufpiremos por hum Scipio Na- /»/Z. c. i<^ 

ficarCenior, que tirou em Roma as eftatuay, que mui- 

tos ambiiiofos ie puzerao: a fi mefmos. O qual tanto 

mais neceflario era nefte tempo , quanto alguns fa 6 

mais atrevidos ; porque nao fe contentaS de por as 

fuas , mas temerariamente tirao as alheyas. E. nao Ie cker*ap a j : 

lembra6 > que Julio Caefar levantou as de Pompeyo, * /B *f** '* 

achando-as derribadas depois da batatalha Farfalica. O * e * 

que foy caufa para Cicero dizer i Cd/am em Uvantar as 

tfiatuas de Ptmpeyo fez. firmts as ptat„ } 

Vindo ao propofito de nofla progenia , nao que^ 
femos troncos grandes ; qualquer bafta para fuften- 
tar arvore ta6 pequena , como feja feu proprio. Que- 
rernos hum Pero Eft cp, bom Cavalieiro $ e Rico ho-; 
mem , peleijando em bom lugar a vifta de feu Rey^ 
e por feu mandado. O qual fe nao tiver muito de an- 
tiguidade , tera muito deverdade , apregoada por no£» 
fbs Annaes: ecomelletraremos alguns feus defcen deno- 
tes , de que alcanqamos noticia , que todos fe veraono s 
livro- fegumte , ; por ordem do tempo ,. em que viva- 
tt£» *'■■ 



LINHA- 




LINHAGEM 



DOS 



ESTAgpS 

NATURAES DA CIDADE 
de Evora. 



LIVRO SEGUNDO. 

AS pefloas deftalinhagem, que pude defeat 
brir , fao as feguintes. 
Pero Eftaco Rico homem , viveo em tem- 
po d'ElRey Dom Affonfo III. 
Dom Pero Eftaco Meftre de Sao Tiago. em 
tempo d'filRey Dom Diniz. 
Pero Eftacinho, em tempo d'ElRey Dom Joao I. 
Pero Eftaco 4 em tempo d'ElRey Dom Joad II. 
Diogo Eft^o, em tempo d'ElRey DomManoel. 
Diogo Eftaqo,no mefmo tempo. 
PeroEftaqo, em tempo d'ElRey Dom Joao III* 
Gabriel Eflaco no meimo tempo. 
Pero Eftaco no mefmo tempo. 
Diogo Eftaco , em tempo d'ElRey Dom SebaftiaoJ 
Simad Eftaqo , no meimo tempo. 
Galpar Eftaco, no d'ElRey Dom Filippe I , e II. 



Omrm 



dos EHa^os. t$f 

Outran pejjoas da mefwa famiUa de 
diverfos ramos. 

LEonardo Eftaqo, viveo emjtempo d'ElRey Dcm 
Joao I. ' r 

Manoel Eilaco, foy em tempo d'ElRey Dom Ma- 
noel f 

GafpaiDias Eftac,o , em tempo do mefmo Rey , e d'El- 
Rey Dom Joao. 

Paulo Nunes Eftaco, em tempo d'ElRey Dom Manoel, 
e de Dom Joao. 

Luiz Eftaco, no d'ElRey Dom Sebafliao. 

Galpar Dias Eftac,o, no d'ElRey Dom Sebafliao , e 
Dom Filippe I. 

Achy lies Eitaqo , no d'ElRey Dom Joao, Dom Sebaf* 

, tiao , e Dom Filippe I, 

Pero Bftap Rico howem , frinuiro 
defte nome. 

APiimeira peflba defta familia , de que acho me- 
moria , he efte Pero Eftaco , que devia de ier af- 
finalado em nobreza , e virtude Militar , iegundo a w */ 
grande eftima , que delle fazia EIRey Dom Afforr„Vh!pl r u 
jo HI. Falle agora oChronifta Duarte Nunes de Leac d'BRey Dm 
na hiftoria defte Rey. ^»/»M 

„Dalli com iuas gentes poflas em crdem ferae I01, w/ > *• i 
5,cercaraVilla de Faro , iobre a quel puzerao iuas ei- n4 * 
„ tancias , e ordenarao (eus eombates. Q primeiro com- 
,,bate tomou EIRey para fi noalcacere em hum la ncp 
|,domuro da Villa ate a porta , que agora dizem dos 
^,Freires. O fegnndo combate foy do Meftre de Sao 
„ Tiago com toda fua gente da porta dos Freires com 
,> humlancp do muro 'ate a porta da Villa. £ a hum 

i) bom 



I PI 



4$ 8 ^Tratado da Linhdgem 

„l)orn Cavalleiro y e Rico homem , que havia nome 
,-j Pero Staqo , deu EIRey outro lanqo de muro ate 
^, huma Torre* que chamarao depois de Joao de Avoim. 
„ E a elle Joao de Avoim , que era homem de grande 
„ qualidade , foy dado outro larrcp, deite iua Torre 
,, are oalcacere, onde era o combate d'ElRey, Com 
y u EIRey eftavao muitos homens principaes do Reyno, 
„ dos quaes era hum Dom Fernao Lopes , Prior do Hof- 
,j pital de Sao Joao i &c. Ate aqui Duarte Nunes. O 
que tudo tomou do antigo Ghronifta Fernao Lopes, Se- 
cretario que foy do Infante Santo Dom Fernando , fi-, 
lho d'ElRey Dom Joao primeiro , e Guarda mor da 
Torre do Tombo. O qual Author efcreve efta akunha 
Eitap por ieis letras % como aqui vay com E , no 
principio, enaoporcinco , como Duarte Nunes, que 
quiz nifto ieguir a ortographia Latina, 

Delia memoria de Pero Eftaco le tira bem a 
qualidade , e valor de lua pefloa , pois ficou tambem 
miiturado poreleiqao do m^imo Rey, o qual tomou 
para fi o primeiro lugar , o fegundo deu ao Meftre de 
SaoTiago, o terceiro a Pero Eftaqo , a que o Chro- 
nica chama , Rico homem. A dignidade de Rico ho- 
mem foy muito grande em Hefpanha. A palavra Ri- 
co , nao me confta , de que naqao feja propria j mas 
o Hefpanhol , Francez , Alemao , e Italiano ulavao 
della nefte fignificado de rico , eabundante com pou- 
ca differenqa na ortographia. Efcreve o Bifpo Jerony- 
ofenus i. ft mo Oforio no feu livro de Gloria , que .antigamente 
de QbrUfti. os'Reys de Helpanha mandavaS chamar os Ricos ho- 
mens , para com leu conlelho determinar o que ha- 
viao de fazer aflim na guerra*, como na paz : e decla- 
ra , que por efte nome de Ricos erao chamados os prin- 
cipaes homens de Helpanha. Concorda Jeronymo (Ju- 
rita nos Annaes de Aragao , onde diz , que era aau- 
thoridade dos Ricos homens tao grande , que os Reys 
nao faziao couia alguma fern feu parecer , e contelho, 
e fern que elles o confirmaflem ; e todo o governo do Ef- 
tado , e da guerra , e da juftiqa , era dos nobres , e prin- 
cipaes varoens , que Jle acharao na defeniaS da terra \ 

aos 



40 



C^urtta U f . 
&> 5. 



' dos E flaps] 489 

&«s quaes , e a feus deicendentes legitimes chamarao 
Jfcicoshomens , a quem os Reys tinhao tanto refpei* 
to , que pareciao fer iguaes ; e erao obrigados a re- 
partir as rendas, e terras dos lugares principaes , que 
hiao ganhando comelles, e ellesa fervillos com feus 
elcudeiros , e vaiTallos, iegundoo que Ihes dava em ca- 
da Cidade , ou Villa , que chamavao honor. Ifto he 
de (Junta. Cjurita 1. it 

O mefmo Author affirma em outro lugar , que* 10 *- 
quando os Reys de Caftella , e de Leao faziao algum 
Rico homem , davao-lhe por infignias pendao i e cal- 
deira. O mefmo faziao os Reys de Portugal , como le 
entende do que diz o Conde Dom Pedro nas fuas l'i- 
nhagens, que he o feguinte : „ Efta Eiutra Anes rou- 
f) covaRuy Gomes de Brlteiros , que era infancpn, ecwp-" 4 ' 
„depois cafou comelle, e depois fez EIRey Dom Af- itotitule % v. 
„ fonio efte Dom Ruy Gomes Rico homem , e den- § * u 
;,lhe pendao, ecaldeira. jE em outra parte dizajjimi Ef.p p^ ret ^s 
V, te Joao de Avoam filho de Pero Vriguiz , e de Dona ,/; 1 £ ' 
i, Maria Viegas , foy muy bom , e rrsuy honrado , fe- R««p«r /*$»#. 
„zeo EIRey Dom Affonfo pay d'Elftey Dom Dir.iz f « r *> r f* r -r' 
„ de Portugal Ricoltomenv e houve muitos Cavallei- 
$,ros porVaflallos. Efte he ojoao de Avoim % de que 
fa;la emcima Duarte Nunes , a quem EIRey deu o 
quarto lugar docombate de Faro ; que parece n'aquel- 
le tempo nao era ainda Rico homem , como era Pero 
Eftaco , a quem EIRey deu o terceiro. O pendao def- „ w 
tas infignias , fegundo declara Frey Jeronymo Koma-^;4""^ 
no, era para levantar gente de guerra , e pagar foldo. 2 . X/«^» 
A caldeira fervia para quando caminhava o campo pot fubiieas 1. & 
alguns povos privilegiados \ que nao pagavao outra f - I6 - > 
coufa, mas da vao de comer a gente da guerra quando 
paflava. Mas Frey Prudencio de'Sandoval diz , que - T u< ? tt€ * 
pendao era bandeira , quefeguiaSosdo exercko do Ri-/ e 'saZoZi 
co homem, cujo erao pendao. E a taldeira denotava, n«defcen/fm- 
que osmantinha, A qualinterpretanjao he mais accc- cia d * ca f* dei 
modada, e honrofa para eftes inftrumentcs poftos de Gv ^ 4ens f oJ * 
pois porarmasj ccmo puzerso os Rices homens em J, •*' 3 " 
lews efcudos , e fe v£nas cafas dos Duques de Najara , 

Qqq que 



490 T rat ado da Linbapem 







que fao os Laras Gufmaens , Goanas , e outros $ coj 

mo refefe Jeronymo Romano no lugar citado. 

Duavte Nunes O anno da tomada de Faro , onde Pero Eftaqo fe 

foi iot.^/. 4 .achou , nao diz o Chronifta J; masdiz, que EIRey ti- 

*/./. ?« «/. n hi iadousfilhos. O primeiro, quii foy o Primoeeni- 

tt'EmejDom t0 Uom . Diniz , nafceo no anno de 1261 > iegundoel- 

stffenfqju, l'e ; eo fegundo, Dom Affonfo np de i*6% , e no feguin- 

te de ti6$ , ou por Ventura no mefmo, em que nafceo 

Dom AfFonlo , foy tomada Baro, que nefte anno de 

1611, ern^ue ifto efcrevemos ha trezentos efeflenta 

annos, Eera entao o Primogenito Dom Diniz dedous 

annos pouco mats j e Pero Eftaqp poderia fer dequaren- 

ta ) ou cincoenta^ idade apta para o govern© de guer- 

ra, e mais homem , de que ja havia experiencia de fee 

bom Cavalleiro. O qual que feja dos Eftacos de Evo> 

xa , mais adiante fe vera. 

Dom Pero Eft ago , fegundo do nome> 
Meftre de Sao Tiago. 

EM vida d'ElRey Dow Diniz » (endo efte Rey de 
idade de cincoenta e fete annos , quando andava 
em difterenqas com o Infante Dom Affonfo feu filho 
Primogenito , era Meftre de Sad Tiago nefte Rtyno 
outro homem defta familia , chamado tambem Pero Ef- 
Tmartc Mtiaes ta< *° » de c i UQ ^ 3Z mencao o Chronifta Duarte Nunes 
nahtftorii def- nas palavras ieguintes : „E logo a fua Cam ra man- 
tfiReyfd.Lxu „ dou chamar ( KRtj Dom'Diniz ) Dom Joa6 Mendes 
™* *•• ■ „ de Briteiros , Martim AiFonfo de Soufa , Gon^alo An- 
„nes Bsrredo, Dom Pero Eftaqo f Meftre de Sao Tia- 
,, go , Dom Gil Martins Meftre de Chrifto , Dom Va(- 
„ co Meftre de Avis , Vafco Pereira , e outros homens 
„ grandes de feuConfelho ; e perante elles fez Ier a car- 
„ta, quelheviera deMagazella , &c. Ateaqui Duar- 
te Nunes , e o Chronifta antigo Fernao Lopes. 

fF'iwcS Falla neftc lu S 3r °uarte Nunes de huraas « fcritu - 
V.»4w°/»r'ras, que dizia o Infante lhe forao trazidas de Maga- 

fijjferia* Z€lla a 



dos EJlapu 49 r 

Bella } Villa de Caftella ; iobre as quaes EIRey fez djun- 
tar aquelles homens para Ihes ler huma carta dosvifi. 
nhos de Magazella > queascontradizia, materia com- 
prida, que o lei tor pode ver nefta Chronica; das quaes 
ef«rituras a data fv y no anno 1 g 1 8 ^ e nefte tal anno 
vivia em Portugal o Meftre Dom Pero Eftac.0. O qual 
devia defer neto de outro Pero Eftaco Rico homem, 
porque a tomada de Faro, em que efte Rico homem 
le achou , foy no anno de l^6^ , e feria entao de qua- 
renta , bu cincoenta annos pouco mais, ou menos. S 
do anno daquella tomada ao d^s efcrituras de Maga- 
zella, fao cincoenta e feisam\os. De maneira , quels - 
alguem dinette , que efte Dom, Pero Eftac,o Meftre de 
Sao Tiago, eo outro Rico homem era huma mefma I 
pefloa , feguitfe-hia , que efta tal peffoa era entao 
de noventa e cinco , ou de cento e cinco annos; a 
qual idade nao he para Palacio , tnem para homens de 
Alem-Tejo, que c6mummente cheg^f) a feflenta • ^ 
ietenta annos. Demaisdifto, fegundo o €atha l <>£0 dos ! _ — ttt:~ 
Meftres de Sao Tiago, feitopor Freyjeronymo Roma- Fr.yrftty*? 
no, Dom Pero Eftaop foy eleito no anno do Senhor ^; 7 "*^ ,^J' 
1316*, e govemou o Mefti&do quatorze anncs : dosJ^'Y^ 4 / 
quaes tirados dous' , que havia, que era Meftre, quan-^j. 
do EIRey o mandou chamaralua Camara, reftao do* 
jze , queaccreicentados aos noventa e cinco , ou cen- 
to e cinco arriba, fazem cento efete, ou cento ede- 
zafete annos ; e tantos diriamos que viveo , fe fofle 
huma fo pefloa ; o que nao quadra , ccmo ja difle aos 
homens daquellas. partes. Note-fe tambem , que quan«, 
do foy eleito andava a Ordem de Sao Tiago dt Portu- 
gal em grandes demandas com Caftella , da qual per- 
tendia ifentarie por muitos aggravos , que o Meftre 
Caftelhano fazia aos Cavalleiros Portuguezes ; e os 
Reys de Portugal , e de Caftella faziad*cada hum pe- 
Ja lua parte ; e nao ie pode crer, que elegeflem hum 
homem decrepito , e inhabil por iua velhice ,,para o 
pezo de taet hegocios , (enao pefloa , que tivefle for- 
ces de corpo , e de prudencia , que ccmummente fe 
#chad cm homens de cincoenta annos, Fe!o que fe de- 

SLqq « ve 



r 







492 TrataJo da Linhtgtm 

ve de ter | que Pero ILftago Rico homem , e Dom Pe= 
ro Eftacp Meitre. de Sao Tiago for.,6 difFerentes pef- 
ioas, e efte netodaquelle. Enao &qa duvida o Dom, 
que efte tinha , porque a dignidade de Mdlre o trazia 
comfigo , como fe ve no Meftre Dom Payo Correa t 
filho de Pero Paes Correa , e neto de Payo Correa , de 

T>uan e Nunes que trata Duarte Nunes , na hiftoria d'ElRey Dom 

** hsfl.jBi&ey Afforif o Terceiro. 

iiTaf^i ° Cathala g° dos Meltres- , que alleguey, anda er- 

a. / 3 , ' ' rado neite lugar j porque chama a eite Meftre Pero Sca- 
cna. Qmeulivro das Chronicas antig3sde Femao Lo- 
pes fe chega mais , porque lhe chama Pero Eftacho; 
mas Duarte Nunes de; Lead concertando , e refor- 
m^ndo efte lugar, lhe chama Pero Staqo, queodevia 
phamar aflim em livros mais correctos , e emendadosj 
queomeu. Concord* a tradiqaS ant iga > queaiadaachey 
tin Sima6 Eftaqo , que a tomou da de feu pay j dos quae* 
^ r «vem ten lugar. Sendo eu mo$o ouvi fallar 
deite M*f* re de Sa6 Tiago, de fua gerac.ao' fegundo con- 
Java feu pay , mas fern o nomear , ou amim me na5 
lembra j porque naquelle tempo nao frza eu cafo de 
mais Meftre , que de hum , que com o rigor da palma- 
toria nosobrigava, nao afaber Hnhagens, fcnao as leys; 
e pofturas dos Grammaticos tao feveramente , coma fe 
por ellas houveflemos de viver. A Ordem de SaS Tia- 
go andava naquelle tempo na pertencao , que tenho 
dito. Tinha eleito dousMeftres, e nao fe lhe logtirao, 
porque ambos forao compel! ido» obedecer ao Meflre 
de Caftella. Mas os Commendadores Portuguezes , por- 
iiando em ieu propofito , ajuntarao-fe era Lh boa , e 
em Santos o velho Mofteiro de Freiras da mefma Or- 
dem , elegerao por Meftre a Pero Eftaqo. Era eftylo 
da Ordem, que de todoonumero dos Commendadores 
fe elegiao treze, os quaes haviao de fer gente illuftrej 
e de grandes qualidades, como os que haviao de igua- 
larfe com o Meftre nos Capitulos » epreceder a toda a 
Cavallaria , como affirm a Frey Jeronymo Romano: 
eftes elegia6 ao Meftre , confirmava-o EIRey. Donde 



J*aZy e Ma- 
ti<tnA~J. xi. c. 



Jeronyme Ro 
tnano na fart. 



1-7. c. t.§.{Je inferequal devia defer o Meftre , que de taes elei 



«v>»». ^ tores havia de ter Superior* 



Eleito 



dos EH^ofi 49? 

Eleito o Meftre Dom Pero Efta^o ; EIRey Dom 
Diniz mandou vir todos , os que tinhao Commendas UmU 7.*. 3; 
em Portugal , para que as puzellem nas maos do novo ^ u 
Meftre, e delle as recebeflem, e lhe fizeflem pleito, 
e ftomenage. Houve lobre efte negocio muitas deman- 
das, erepoftas entre os dous Revs de Caftella , e Por- 
tugal. Final mente o Meftre Dora Pero Eftac.o com fa- 
vor d'ElRey Dom Diniz , e com fua particular induC- 
tria , e ^slor contra muitas inftancias do Meftre de Caf- 
tella , favorecido de ieu Rey \ por fentenca, que no 
calo deu o Papa Joa6 XXII, que Onuphrio chamaf m t h Z- L .?< 
XXI, no anno do Senhor 1510, e no quinto de feu Rm - Fentt J' 
Meftrado, fez aOrdem de Sao Tiago de Portugal H- 
vre, e ifenta da obediencia do Meftre de Caftelja , e g. 
immediata 4 Se Apoftolica ; e elle foy o primeiro Mef- 
tre independente, eabfoluto; e dalli por diante todos 
d forao, pelo que todaa Ordem lhe eftera fsmpre em 
grande obrigacao^ Correndo o tempo , Toy eleito Mef- 
tre o Infante Dom Joao, ftlho d'ElRey Domjoao Pri- 
meiro ; e depois delle o Meftrado andou fempre emfi- 
llWde&eys , ate que EIRey Domjoao Terceiro o 
incorporou na Coroa por via de adminiftrac,ao. 

Pero Eftacinho, terctirodifienome. -i 

ESta he a terceira petfoa defta famiJia , pofto que 
muitas outras \p meterao entre eftas , cuja noti- 
cia ie perdeo. De Pero Eftacinho diz o Chronifta Fer- 
nao Lopes, oieguintena Chronica d^ElRey Domjoao 
Primeiro , na fegunda parte , capitulo oitenta e neve : 
'„ Eftando EIRey no Porto antes de fer cafadd , hum 
,, Mem Rodrigues de Sevilha encavajgou , e houve 
i,gentes, evio-fe a Olivenca , que tinha por Caftel- 
5, la Pero Rodrigues da Fonfeca , e vindo correr a Pes- 
*>, tugal , (ahirso a elle doRedondo, eencalcarao no, 
9, e foy morto Pero Eftacinho de Evora. Elogo , &c. 
Ifto he de Fernao Lopes. O diminutivo Eftacinho ps.- 
rece, que lheficoii damocidadc, ou era-aioda rnoqo, 

oii 




i- ' H 



494. TratadodaLinhdgem 

cu aifim chamado por difference de outro mais velfio 
domefmo noma, e cognome, a que muitos defta pro- 
genie forao afleicoados , por renovar a memoria dos 
Mayores, deque feprezavao. 

Nao fe deixa entender claramente , que partes 
fegifiaPero Eftacinho, fe de Portugal , fe de Caftella.' 
Na qual duvida fe deve dizer , que peleijava por fua pa- 
ir m iir 1 tria ' € que nefta contencJa perdeo a vida. Formofa cou- 
iA s .foi s To'.^ hQ morrerpela patria * como dilTe Homero. ORo- 
"dondo Villa he , que efti perto de Evora. E como 
Pero Eftacinho fe achou nefte feito com os do Ro- 
dondo , naofabemos: mas era mais facil acharfe com 
feus vifinhos na guerra coramum, que com os Sevi- 
lhanos contra feus naturaes. Alcm ditto fe peleijara pot 
Caftella , o Chronifta diflera em louvor dos noffos , 
que o matarao. Corriao as caufas de Portugal tao prof» 
peras depois davitoria de Aljubarrota , que o Chro- 
nica quafi pejado , mas obrigado da verdade , tocou bre- 
vementeefta morte de Pero Eftacinho, como quern to- 
cava louvor de inimigos. E fendo pefloa conhecida , e 
de nome , difle donde era natural por honra de quern 
affim morria , e da geraqao, a que tocava. Finalmente 
osnotlos alcanqaraSaosCaftelhanos ; e na6 diz o Chro- 
niib akanqirao , e matarao a Pero Eftacinho, fenaSal- 
can^arao , e foy morto Pero Eftacinho de Evora. Don- 
de feentende j que na briga ; que entre todos fetra- 
vou., foy morto pelos Adyerfarios, 

Efealguem inftafTe, que peleijava porCaftellaJ 
o que nos nao concedemos , efte tal nao pode negar, 
que ElR^y de Caftella trabalhava de trazer a fua devo- 
ca5 as peffoas principaes defte Reyno j e das Cidades 
delle , como he pratica geral em taes pertenqoens , e 
fe ve por efla mefma hiftoria ; e quando levafle de Evo- 
ra a Pero Eftacinho * era por elle fer de familia no- 
bre $ e dos principaes daquella Cidade. E em tal cafq 
fi*k degejlis dirbrnos por elle , o que difle Lucio Floro por Lu- 
Rom, Uj. c. 1, do CitiHna , que peleijando contra fua patria foy acha- 
do morto longe dosieus de morte formsfiffima ^ feal- 
fira raorrera pot ell*. E como Pero Eftacinho morel- 

fe 



dos E$a$6i. 495 

ie pela fua, como atraz moftrarey , foy fern duvida 
fua morte f, f egundo a opiniao de Floro formGlif- 
lima. 

Ja le entende , que Pero Eftaqo Rico homem , 
e Dom PeroEftaqo Meftre deSaoTfego, forao ante-% 
paflados de Pero Eftacinho, etodos naturaes de-Evo 
ra , como declara nao fomentea meftna aLunha, mas 
a continuac,?6 do nome Pedro , fegundo fe cofluma em « 
muitas familias, cujos defcendentes tomao dos pays, 
e avos, quando forao peftoas infignes , os nomes , e 
iobrenomes , e ainda o genero da yida. O que confir- 
ma a tradiqao , que ficou em peflbas delta familia , 
por elJe fer huma dellas > e ta5 aflinalada j que nao po- 
dia efquecerie ; de que f alley atraz no titulo jdelle 
mefmo. Mas a continuaqao do nome Pero Eftaqo 
foy, e fera ainda tao conitante nefta geraqao , que 
ella por fi fo faz* mais certa , e verdadeira a defcenden- 
cia , do que eu a potto affirmar. Meterao-fe entre.Pe; 
ro Eftaco Meftre de Sao Tiago , e Pero EftacinJ-io^ 
feflenta e oito annos j porque oanno * em que HlRey 
Dom joao Primeiro efteve no Porto , onde ie eoncer- 
tou com o Duque de Lencaftre , para cafar com Do- 
na Filippafua filha , foy, fegundo Joao de Mariana , o M*rt*»*hifii 
de 1386, eno mefmo anno Nunalvres Pereira fezhu- ;«fr */*«»*«{* 
ma entrada por terras de Andaluzia , em que fez mm- 1 8 * <?,2 °* 
to damno, e osSevilhanos fizerao outra em terras de 
Alem-Tejo, em que mat&ao a Pero Eilacinlj0| 



PeroEflago ,' quarto rfencme. 

DE boa vontade faqo memoria daquelles , dos quaes 
ella ficou por algum genero de efcritura, Porqtie 
o teftimunho da pena alheya desfaz a nevoa dp male* 
volencia , e affegura a fe do leitor; que para a dar^ 
nao tern impedimento de paixao, Em tempo d'ElRey 
Dom AfTbnfo Quinto , e d'ElRey Dom JoaoSegundo 
leu rllho , vi via em Evora Pero Eftaqb , homem gra- 
ve 3 epoderoio naquella Cidade , como muitas vezes 

ouvl 



r~ 



49S Traiddo da Linhttgem 

ouvi dizer a huma peffoa antiga , que lhe chamava Rey 
pequeno. Notorio he , que EIRey Dom Affonfa Quin- 
-to de Portugal fez guerra a EIRey Dom Fernando Ca- 
tholieo de Caftella : lobre a qual odito Rey Dom Af- 
fonfo fez Cortes em Evora t onde os povos lhe pro- 
; metterao , para defenlao do Reyno * feflenta milhoens. 
Fizerao-fe logo particulares recebedores defte dinheiro 
em todas asCidades $ e Villas do Reyno j eem Evo- 
ra foy eleito p6t recebedor Pero Eftac^o j de que ago- 
ra fallamos. O que me conftou por huma efcritura 
feita em Santarem no piiraeiro de Dezembro anno de 
1481. Teve Pero Eftaqo eftes filhos. Diogo Eftaco^ 
Pero Efta^o , e Gabriel Eftac,o ; dos quaes iremos tra- 
tando fucceffivamente, 

Diogo Eftago 3 primeiro dejte nomel 

Diogo Eftaco, efeus irmaos, fora5 em tempo d'Et- 
Rey Dom Manoel, e nos primeiros annos d' EI- 
Rey Dom JoaoTerceiro. Era a India novamente def- 
cubsrtaj e os homens graves \ e amigosde honra fol- 
gavao de a ir la ganhar. Entre eftes foraS' Diogo EC- 
tacp, e Pero Eftaco, com animo deimitat a feus Ma- 
yores, feguindo a profiflaS das armas. Efta familia, 
como nao tivefle Morgado, que para asgeracoens he 
hum bajparte de perpetua duracao , iendo divididaem 
ramos ; eftava ja ftaca. Pela qual razaS eftes , e outros 
homeAs della , nao levavao a India cargos da mafi do 
Rey : mas o e^templo dos paflados , e a emulac^io dos 
prelentes, ihes abrirao o caminho , concorrendo elles 
com o valor de luas peffoas , fundado no fangue $ que 
tinhao t que la os fazia reconhecer ; como fe entende 
dos lugares $ e peftoas , entre as quaes os achavao os 
Chroniftas quango em fuas elcrituras faziao os pagaJ 
mentos de nomeacao , e de memoria. 

No anno de Chrifto 15*15 , eftava na India Dio- 
BarrotDeta'i' go Eftaqo , do qual faz menc.30 Joao de Barros nef- 
».A7.<. fr tas palavras, tratando da Cidade Adem, queAfFonfo 

de 




dos BjldfOf. 



3e Albuquerque com huma Armada tentou tomar pot 
combate j e nao pode : ,, A elte tempo , diz. Joab dt Bar* 
,, rot , nao ficarao por defcer mais , que Garcia de Sou- 
j, fa , que eftava no cubello com ate dez peiloas , de 
„ que os ptincipaes erao Gaipar Cao 4 Diogo Eftaca 
„ de Evora , e hum Irmao baitardo delle Garcia de Soula* 
Ate aqui Joa6 deBarros. 

Diogo EJiago fobrwho do acima , fegun~, 
dodefti nome. 



DAmiao de Goes na Chronica d'ElRey Dom Ms* Gm p an> g 
noel , efcrevendo o combate da meima Adem, f<4 ' 
na6 fomente falla de Diogo Ettago » de que agora tra- 
tey , mas tambem de hum feu fobrinho do mefmo nc- 
me, de que eu nao tenho noticia ; pelo que fufpei- 
to devia ier baftardo. O que diz he oiegumte: „ Nef. 
'„ te tempo Garcia de Soufa , com ps que com elle eila- 
b vao , que nao quizerao defcer pelas cordas pelo te~ 
„ rem por afronta , fe defendiao com muito esforco, 
„fem nenhum dos Mouros oufar de fubir ao cubello \ 
,, no qual debate derso huma pedrada nos narizes a 
„ Diogo Eftaco , tio de Diogo Efia^o , que com o guiao 
„de Dom Joao de Lima na mao mataraS fobTe o eubel- 
„16, o qual Diogo Eftaqo com a dor da pedrada, que 
„ quail lhequebrou os narizes, houvera de cahirator- 
3 ,doado; ea Gafpar Cao ferirao muito real, &c. 
; Nao fe diz onde Diogo Eftaco schou aquelle 

guiao, nem a quern o tcmou ; mas corro era baKdei- 
ra d'ElRey , e elle portal a tinha arvorada no muro da- 
quella Cidade , que ainda hoje efla em poder de Mouros; 
nao foy ma confrontaqao para morte de Soldado , ja 
que o tempo , e fervor do combate , lhe nao permit- 
tio naquella hora ter na mao outra vela mais myfte- 
riofa, que fofle argument© da fe , e piedade Chriflaa, 
com que naonia , como Catholko , que era. 



Rr* 



ten 



1 




49 8 ^TrMa Jo da Linhagem 
Per o Ejla^o , quinto defte nome. 

NO anno do Senhor i$i$\ havendo cinco anno$ 
que reynava ElRey Dc m Joao Terceiro , e do- 
- ze depoisdocombate de-Adem , PeroRftaqo irmao de 

Diogo Eftaqo , eftava na India na Fottaleza deCalecut, 
que o Qamon'm Rey de Calecut tinha entao cercada. 
Do qual faz menc^ao o Chroniila mor Francifco de An- 
"a j.j dra'dsi neitas palavras: „ Dom Joao de Lima ( Capitao 
chronica d'tii. » da rortaleza.) lahio rora com quarenta homens bem 
ReyD.joso „armados, en reosquaes hia6 Dom Miguel deCaftro, 
///. 'pane i. c. „ Lionel de Lima , Ferna® de Lima , Pero Eftaqo , ;e 
7 °* „outros , todos homens efcolhidos j e foy commetter 

„os Mourns com tanto animo , que cuidando ell-spot 
„ ifto, que era muitomais £ente, fe embaraqarao, &c, 
-Eftas patavras fao do Chronilta mor : deque feinfere a 
-qualidade, ereputaqao da pefloa de Pero Eftaco , pois 
ce quarenta homens efcolhidos, que (ahirao daFtrta- 
leza, para aquelle feito , elle foy nomeado entre o$ 
^ quauo ma is principaes. 

Gabriel E/lafol 

REynando Dom Joao Terceiro no anno do Senhorj 
por minha conta 15*16, Gabriel Eft a cp, irmao de 
Diogo Eftaqo , e de Pero Eftaco , cafou em Evora, 
o qual viveo poucos annos , mas honradamente, como 
filho de feu pay: ernorrendo deixou eftes filhos, Pe- 
ro Eftaco , Diogo Eftaco, Simao Eftaqo, Brites Ef- 
taga; 

Na6 faltarao Authores , que diflerao , que a no 
breza nao fe entendia emmulheres, fenao nos homens 
fomente. E porque jfiz mencao de Brites Eftsqa, filha 
de Gabriel Kftaco, quero moftrar , que tambem fe en- 
tende nasmulheres, e que as filhas de nobres fempre 
forao havidas por nobres , e pelo conleguinte ieus de£ 

cenden- 



ceridentesj como declara o coftume ant'go", e n oJernoi , 
emuitos Authores, que Tiraquello mz por eita par- fifag. JeN* 
te j e depois clelle o affirma Torquato la fib. Rhea Syl- mtai *ig '*• 
via parioa Romulo, e a Remo de 'incerto pay, epor-^*'' 14 ' 
que erafilha de Rey , os Romanes tiverao a elle , e \r«f a mi trata* 
a elles por nobiliflimos. A mayor nobreza da gente Ju- to de nohnua,. 
]ia, era por deicender de Julo filho de Eneas , e por p/ "" w -**'•' 
die de Venus i fegundo Tito Livio. I ftp quiz moftrar &* lufi ' " H 
Julio Casfar em hum templo , que ma'ndou fazer , o g» e & in G* 
qual chamou: Veneris genitricis , ifto he da mSy Venus', nedog. Deor$ 
como notou Luiz Vives fobre Santo Agoftinho. 



nobreza das mulheres 



Ls.inRcmulo. 

Nas fagradas letras achamos feita memona da L " lusl - u ^ 
r porque Jehu depois de man- VlYes in A , 
dar malar Jelabel diile aos miniitros delie feito : Sepal- /. j'.i*p*i* 
tay* , porque he filha de Key. E nos Ados dos Apoftc-4- Regumc. # 
losieconta, que pregando Sao Paulo em Theflalonw^^- 
ca muitas mulheres nobres receberao a'fe. Fkialmente ^'fJT 1 ^ 
deixoifto, porque infinites- Authores-, e muitos del-- ■ 
les fagrados, fallad de mulheres nobres, naqual disvl- 
da a bemaventurada Virgem Santa Agstha- fallou por 
fi , e em fi por todas, quando difle aoPrefidente Quin» 
tiano: Ett fott nob-re , como heieftinunh&tota aminh* pa- 7 , -_ ' 
r»i*//jy fegundo refere Lipomano. ' f ti7!"X*l 

Mais duvida ha fe a mulher de nobre geraqao tis'jWaonie- 
cafando com homem de menos nobre, ou nso nobre, *'» A^ih^ . 
perde por iflb fu a nobreza. Alguns tern a parte affir- 
mativa , ou por efcrupulofos nefta materia, ouenfen* 
dendo, que affim poem hum freyo as mulheres, para 
que fe nao cafem , fern ordem de quem lha pode, e 
deve dar. Com tudo ocontrario efta mais recebido. As 
razoens parecem fer , que a nobreza de linhagem he 
tao eftimadaj e tanto o feu- refplandor , que nso (6- 
mente da ao fujeito, em que fe acha , mas tarobem so 
chegado a fi por via do faegue^, e algumss vezes de 
Matrimonio , como' ja aconteceo , eabaixo fe dira. 

A1em difto osFilofofos dizem impprtar mmtoa 
nobreza da mulKer a fuccefTao da nobreza dc s filhos; 
fendo falfiflima a opiniao dsquelles, que crcm \ como 
feja o pay Bebre ,■ nao irroortar , que a mayo nao 

R*r ii feX 



' *$*7 

500 Tratado da Linhtgewf 

ieja, feguindo os filhos afamilia doipay. Porqtue airi- 
da que os filhos, quanto ao nome, figao afamilia do 
pay, com tudo , quanto aos feitds , e coftumes, fe- 
guindo quafi fempre a may, feella nao fornobre, fe- 
ra prin dpio da corrupcad de fua antiga nobreza. Ifto 
fkeol na inf- he de Alexandre Piccolomini, infigne Filoiofo natu- 
thuifas moral ra\, tmonl-j oqual entende, que para a nobreza dos 
L n. c. }. filhos, mais neceiTaria he a nobreza da may , que a do 
pay. E na verdade bem eonfiderado ifto , nos-leva- 
mos da doutrina da may a criaqao , que he outra na- 
tureza , ^ para os coftumes , e yirtude, donde a nobre- 
za traz feu naicimentOi maisval fer bem criado , que 
fomp.apui bem nalcido. Nefta conformidade diz Euripides Poe- 
.>sto*ttmfem. l z Grego , que muiiosquerem mulheres nobres, ainda 
I- que feyas , par razao dos filhos. Pois pelo 'leite certo 

he , que entrao as inclinaqoens taes , quaes iso as 
mulheres , que oda6. Pelo que querisoos Romanos, 
que as mays criaiTem ieus filhos com feu leite t enten- 
dendo j que da may 16 , enao do pay , procedia ano- 
■'AUxtn&rt Gc- breza , como notou Alexandre de Alexandre. 
nullum i. a, Vemos tambem ler proprio de nobres , efpecial- 

(t *.*• mente das mulheres , ter altos elpiritos , que quern n ;o 

cafa coTi fua igual , fegundo aquelle prudente dito, 
flut.de Uhm Q . u ^ traz Plutarcho , P*rem tibi fume , tera traballio 
injlitutndis. com a nobre , quando elle onao for , porque a mu- 
iher porlua natural ambiqao nao quer perder nadadas 
prerogatives de fua nobreza , que entende eftao 16 a 
feu cargo de propriedade , "de quenafcem osdefgoftos 
em cafa , e fora as contendas entre ellas mefmas , 
como ja fe virao em Igrejas fobre os higares , on- 
de fe ouve dizer huma, que he nobre, eaefta conta 
quer. que tudo felhe defpeje; outra, que he mulher 
de Nobre, outra deCavalieiro, outra de Don tor. Enef- 
ta doutrina criao os filhos , que em tudo fahem a fuas 
mays. Daqui "veyo Augufto pedir a MeiTala Corvinoj 
que lheeicreveflefua progeniepara vir a dar na nobre- 
za defuajttiay, que era a de que mais ie honrava.E Julio 
Caefarediiicar otemplo da may Venus, deque acima 
falley. Pelas quaes razoens em vao tiraremos a cau- 






■■■■■■IMi 



la t donde tao claramente veuios os effeitds; 

O dito fe confirma com a opiniao , e entendimen- 
to demuitos. ElRey Saul, le eume nao engano, nao 1 ; Se &> *7* 
entendeo , que deshonrava fua filha em a cafar com & I8> 
pavid, que foy pattor degado , porque era Rey ab- 
iblufo , e podera faltarlhe da palavra por acudir a hon- 
ra , e contentallo pot-outra via : mas antes achou , 
que ficava bem empregada em tao esforqado mance- 
bo, que por ieu valor merecia ferchamado gloria de 
lirae], e honra de ieu povo. ADeofa Thetis, fegun- HcmerusHM: 
do os Poetas , cafou com Peleo menos nobre , que el-'* l -f° l - >7* 
la $ dos quaes nafceo Achylles : e*o fabio Neftor fa- 
zendo comparaqao defte feu filho com Agamemnon , 
difle-lhe : P»fio que vos je)ais filho de Deo/a , Agamem- 
non he melbor que vos , porqut manda a mats gentes % Don- 
de fe infere, que por caiar com Peleo naoperdeona- 
da de fua nobreza. Julia tia de Julio Caefar calbu com Suetonius m 
Cayo Mario , homem de baixa forte, e foy com ifto 2 itlie c • 6 * 
tao nobre , como dantes , em tanto , que feu febrinho 
Julio Csefar nas iuas exequias teve humaOraca6, em 
que tratando de fua nobreza a faz delcendente de Deo- 
ies, e de Rey?. Accia , fobrinha do mefmo Julio, foy ca^ 
fada com O&avio pay de Oclavio , que depois foy Au- 
gufto, oqualcomo atraz moftramos , foy cambiador, 
e filho de outro tal. Com tudo Accia iua rrmlher rete- 
ve toda iua nobreza , e a communicou a feu filho Oc- 
tavio, do qual ie fez em Roma grandiffimo cafo por 
raza6 da familia Julia , de que vinha por iua may , e 
finalmente veyo depois. a ier Supremo Monarchy de 
Roma. Virgilio , que foy em tempo do mefmo Au» *%• S*-^* 
gufto , chamou a Eneas, pelo mais honrar , filho de Qeb- 
|a por eftas palavras : Nate Dea ; vivis-ne ? 

Pulcheria Augufta , filha de Arcadio, cafou com 
Marciano na forma , que diz o Cardeal Berorjo , o qmlBcrcnius apd* 
era de linhagem infima , mas por mericimentos de guer- #"»»•• 
ra j varao Confular. E tao longe efteve efta ienhoiade^f <? ^:' 7, " ,a 
perder iua nobreza ^ que antes fez nobiliflimo a Mar- nt £ ' 4 J0 * 
ciano fazendo*o Imperador de Conftantinopla. Ogran- ' 5 
fie AfFonfo Rey de Caltella , cafou duas filhas iuas com 







I 



m 



^02 ^Tratddo da Linhdgem 

dous fenhores Francezes, Dana Urraca com Dom Ra3 

mon , que fez Conde de Galliza , e Dona Tareja com 

Dom Henrique, que fez Conde de Portugal ; e nerri 

ellas , nem feus fllnos fe tiverao por iffo .menos nobresj 

chamando-le ellas filhas , e os filhos netos de tal Reyy 

honrando-ie iempre elles mais de fuas mays | que de 

feus pays , tomando ambos onome Aftonlo , de feu 

a?6 j e finalmente ambos forao merecedores de fee Keys, 

hum deCaftella, outro de Portugal. Francifco Sfot- 

za foy filho de hum (ervo deSoldados, enetodehum 

Lavrador ; mas.os bons fucceflos damilicia olevanta- 

rao do po, e Filippe Maria Vifconte Duque deMilao, 

catou com ellea ienhora Branca fua filha , aqual lhe 

deu Unto de fua nobreza , que alcanqou o Ducado de 

Miiao , e deu principio a nobiliflima familia Sforzef- 

ca ; que depots fez parentado commuitos Principesj e 

mmmcUUs ^ en ^ ores » como diz Domenichi nos ditos, efeitosdos 

1 varoens illuftres. 

Bafta nefte propofito ; que muitos homens no- 
bres nefte Reyno, para que nao fallemos dos outros, 
riafcidos de mays nobres j e de pays menos nobres , dei- 
xa5 as alcunhas dos pays, e tomao as da mays, deque 
mais le honrao por fua mayor nobreza , o que a todos 
he muito notorio. Donde fe collie , que ellas a nao 
't$$ : . -perdem por calamentos defiguaes , mas antes retem, 
e dellas pafla aos filhos, e muitas vezes aosmaridos em 
certo modo , dando-lheluz, e habiiitaqao para oscar- 
gos, e officios da Republica , como aconteceo aCayo 
Mario, aO&aviopay deAugufto, ao Imperador Mar* 
ciano , a Francifco Sforza \ e a outros. Mas tambem 
lembro , que a defigualdade do cafamento nao feja 
tanta, que nao fe pofTa cobrircom capa de algum me4 
ricimento publico, ou com outro honrado pretexto,- 
para que nn5 fique monftro em governo Economico \ 
como ficira o cafamento da filha d'ElRey Saul, feenV 
Divid nao houvera ma ; s , que fer paftor; eo de Julia 
Romana , ie Cayo Mario na6 tivera mais , que a bai- 
xeza de feus p3ys, e nao andara ja em alguns cargos da 
Republica , epor elle tivera adquirido riquezas , que 

lhe 




dos Eftdfos* 505 

Ihe grangearao por mulher a Julia da nobre cafa dos 
Carfares, como efcreve Plutarcho. £ quanta, aosfllhcs -?i«u inrhi 
dos taes cafados ( fallo do noiTo tempo ) affim como o M«rih 
Direito os faz herdeiros dos bens dos pays , aflim a na- 
tureza > e o coftume connrmado com a commum opi- 
niao , e geral confentimento , os faz da nobreza Idas 
mays, e como taes os vemos empofiados da reputaeaoV 
ehonrasj que ella comfigo'traz, epara ifto nomeados, 
e luzidos com Robres alcunhas , que os dao a conhe- > 

cer per feus filhos , parentes de feus parentes, e her- 
deiros de feu amor , veneracaS, evalia , como aconte- 
ceo aO&ayio, queiendomcco dedezoitoannos; vin? 
do de Macedonia a Roma , morreo Julio Collar feu tioi 
tomou novamente o nome de Casfar , e com a Magef- 
tade defte nome , diz Lucio Floro , que ajuntou os Fkrus &~gtf 
Soldados velhos, deque. fez hum Exercito, com que *i* *cm. /. * 
foy defcercar a Bruto ; e a Antonio ieu contrario def- c - *« 
pojou dos arrayaes , e fe abrio o caminho para toda a 
fua felicidade. Gnde noto tarnbem, que os npmes il; 
luftresy herdados dos antepafrados , daocerta prefump- 
cao , e indicio de nobreza hereditaria , como fentia , 
Appio Pulchro, pofto que Cicero i como hemem rno» {?£*" 'Jplftr 
vo, queos nao tinha , onao admittilTe j dizendo , que *"' 

jsao fazia eitima dos taes nomes. Em que foy ftmilhante 
arapofa, que nao podendo alcan^ar as uvas da parrei- 
m » que defejava comer , foy-fe taxando-as de verdes; 
Digo ifto , porque o mefmo Cicero fe convence ientir 
dos nomes illuitres , o contrario do que difle : o qua] tlutanh. in \ 
aconfelhado dosamigos, que mudafle a alcunha de Ci- Jft *f • £#S 
cero^ porque. zombavao della , reipondeo ,.que^a hav™— 
via de fazer mais illuftre , que os nomes dos Catoens, 
dosCatulos, edosScauros. Onde moftrou ,• que efti- 
mava muito a nobreza defies nomes , pois defejava fa- 
zer o feu nao foments fimilhante a elks , aias ain4§ 
mais illuftre. . . • 



IT 



1 64 Trafado <k LinVagem 

Pero Ejiago , fexto defle nomel 

GAbriel Eftaqo chamou ao feu primeiro filho ; P£ 
ro Eftaco, nome, ealcunha de feus antepaflados, 
a qual alcunha foy fempre taoeftimada, que naohou- 
ve quem fpbre ella puzefle outra : foy Pero Eftaqo, 
hum dos pf imeiros eftudantes , que forao a Coimbraj 
quando EiRey Dom Joao paflou para aquella Gidade 
as efcdlas de Lisboa ■$ que foy no anno tffifr Eftu- 
tiou Direito Civil , a que depois ajuntou b exer- 
cicio dai armas j porque a lanqa t como dizia o ou- 
tro , com os livros nao fe defponta. Eftando para ir. 
fervir a ElRey ( nao me confta com qual deftas pro- 
fifloens ) a morte desfea fuas traqas, paffando-o am% 
Ihor vida. 

Divgo Eflap ] terceiro defle nomel 

Iveo , e morreo Frey Diogo Eftaqo na Ordem 
doSerafico Padre Sao Francifco , tao contentede 
1ua forte por toda a vida , que algumas vezes lhe ou- 
vi dizer , que em fuas defconlolaqoens nunca teve ma- 
yor confolaqao , que trazer a memoria , que era Fra- 
de deSao Francifco. Nao parecera aqui rhal efteefmal- 
te de nobreza Chriftia em materia da Civil , a quem 
irteron. Epi/i Jembrar, o que diz Sao Jerorrymo aCelancia: Afumi 
t4*«<iC«icnt.mA nibreza para com Dcos-ios ftr claro em virtu des, ., 

Simao Eflago. 

GAftou Simao Eftaqo fua mocidade no ferviqo do 
Infante Dom Henrique , Cardeal de Portugal , e 
com feu bensplacito fe fez Clerigo. Entre os (eus 
papeis achey hum , porque EIRey lhe fezmerce, a 
iflftajBcla do mefmo Cardeal ; que quando fofle a fua 

Capclla 




dos £ Slaps*- $05 

Capella rezar o Officio Divino \ vencefTe adiftribui- 
eao quotidiana. Mas deixando efte , e outros favores> 
clle nao alcan<jou tanto do Infante , quanto outros 
demenos qualidade. A caufa diziao ler i poique im- 
petrou defte hum Beneficio menos conveniente , era hu- 
ma grave , e perigofa doenqa do Infante ! , como ho- 
mem, quebutcava taboa temendo naufragio. O certo 
he, que nunca mais oadmittio , nem a coufa mayor. 
Mas fortuna , e virtude raramente habitao juntas. Te- 
ve eftudo de letras humanas s e muito mais de livros 
efpirituaes. Quando faleceo , que havera quarenta an- 
110s , em idade de quarenta e cinco , para cincoenta J 
eilava refoluto em tomar o Habito dos Capuehos da 
Piedade, aqual reibluqao tomou para refugio dosdis- 
favores do feu Principe, e nella o colheo a morte; 
que a feu parecer lhetardava ja. Foy muito amigo de 
feus parentes , e por cartas os commmunicava onde 
quer que eftavao * ainda que fofle na India , em Ro- 
ma i &c. Pofto que era moc,o j delle tcmey muitas 
couias , que vao nefte tratado * aS quaes elle por lua 
curiofidade tomou de outros parentes , e tudo efcre- 
via, mas foy de pouco prove£to , porque morrendo^ el- 
le, feu irroao lbequeimou hum eicritorio de papeis, 
nao <ey corn que efpirito , mas fey , que elle foy 
o delinquente, e eu muitas vezes depois fiz a peni- 
tfincia 

Em certo lugar fe schara6 tres cartas do Cardeal 
para alle , fobre negocios , que Ihe commettia , em 
huma das quaes Ibe mandava , e enccmmendava , que 
como falecelTe Meftre Andre de Refende natural de Evo- ; 
ra, lhetiraffe defua livraria certos livros* que dele Ja- 
va haver , como Leo Baptifta de Architeclura , que el- 
le traduzio em Pottuguez por mandado d'EJRey j e 
outros; comes quaes tirou tambem os qusderncs "das 
antiguidades de Lufitania da letra do mefroo defunto| 
que o Infante muito eftimou quando lhcs mandcu a 
Almeirim , onde entao eftava : o qual os roandou entre- 
gar aoDoutor Diogo Mendesde Vafcepcellos, grande 
amigo do Refende para os rever, e fazer. imptimir; 

§ss conjQ 



r 




J05 T'ratddo daLinhdgem 

como fez. De maneira , que efte livro , que muitosr 
cunoios curiofos feftejarao , a Simao Eftaco o de- 
vemos , que o falvou naquella morte , e ruina de 
outros do mefmo Author tambem imperfeitos , dos 
quaes fe p6de dlzsr , que morrerao primeiro , que nal- 

Gajpar Efla$o. 

ENtre os netos de Gabriel Eftago he hum delles 
Gafpar Eftaco , Author defte tratado , creatura 
do Infa ite Dom Henrique Cardeal , e Rev de Por- 
tugal. 

Efta he a defcendencia direita de Pero Eftaco Ri- 
co homem, como moftra a continuacao de (eu nome 
em tantos homens defte ramo de fua familia. Peza-me, 
que fubejao lugares , e faltao pefloas, que fao as que 
fe meterao entre as primeiras quatro , as quaes algum 
tempo de pouca luz deixou em fombra de filencio , 
e elcuridade para agora as nao podermos deico- 
brir. Nao houve efta falta nos modemos decern annos 
para ca, mas houve-a de matrimonios. Onde fe ve, 
que nao forao tao iolicitos da propagacao , e extern 
£/«*«/. i.c.x. fag de fua linhagem, como Romulo foy da fua Cida- 
de i para a qu,il os procurou na6 fomente por rogo, 
mas porforcja. A caufa difto foy, e aflimoouvi, que 
como o ouro leja cafamenteiro geral ; e efte fe ache 
nas cafasde gente Hebrea , onde feconta liberalmente 
para cafamentos de filhas , naoquizerao acudir a eftas 
minas , advertindo , que a baixeza , e liga defte ouro* 
nao fomente abite o valor , e quilates da nobreza j mas 
acarreta outros mayores males , que por ferem here? 
ditarios fedevem tern er, os quaes o mefmo ourodepois 
comquanto pode, nao pode remediar. Pelo que me- 
nos heparafentir acabar huma familia fern deshonra, 
pois todas hag de acabar , que propigarfe de novo com 
tal miftura, effta perpetua naquelles, quedelle naf- 
Gem, . . 

Vhtras 



dos Effdfof. 



SO? 



Qutras peffoas da meftna familia de diver* 
fos rawS'i 

Leonardo Eflago. 

EM tempo d'ElRey DomJoaS Primeiro, no "anno 
de 1417, era Meftre Geral da toda a Ordem de 
Sao Domingos Frey Leonardo Elt?qo , deque faz men- 
£36 o Padre Frey Luiz Cafegas , na Hiftoria de Sao Dc- c a jegai'\ fy 
mingos de Portugal. c -w- 

* Manoel E/tago. 

O Padre Meftre Frey Manoel Efhqo, da Ordem de 
Sa5 Domingos , fendo Prior do N'oftVio de S56 
Domingos de Evora , em tempo , que era Pciteiro do 
mefmo Convento o Padre Frey Pedro , Varso illuftre 
em Santidade, mereceo fazerle delle menc/6 na vida 
do metmo Santo , que efcreveo o Doutor Refende , e JJ py*£"* Br 
confta , que foy em tempo d'ElRey Dom M^noei EI- ^ R ^ r ,"f° 
le mefmo foy depois Provincial nefta Provinciate Por- cafrgu »*»#• 
tugal , anno do Senhor 1 cio. ** *• ft? Pr - 

** ' * \ . BwfU.i.e.}. 

Gafpar Dias Eftago. 

FOy Conego de Evora , viveo reynando ElRey D. 
Manoel, e ElRey Donijbao. Naodigcmais, por- 
que naoalcancey, ienso amemoria ainda frefca entre 
parentes, que olouvavso de franco, e grandiofo, em 
cafa , e fora, e geralmente bemfeitor. 






Sssii 



p4ttfo 



r 



5 8 Tratado da Link agent 



Paulo Nunes Eft a p. 



F 



Oy em tempo d'EiRey Dom Joao , c taodado a's 
armas,que nao iomente vivendo , mas morrenc'o 
as nao punha das maos. Fez na India muitas couias, 
que derao materia a feu fil ho Achy lies Eltaqo para f;- 
zer hum tratado em ..lingua Latina > que intitulou d s 
teitos de feu pay. Do qual nao ie faz muita iweli^ad 
nos livros da India , porque cada hum iabe de fi , e 
Deos de todos. 
^mDecad, De Paulo Nunes Eftaco diz Joao de Barros bro 

*>*» ,2. vetnente o feguinte : „ Mandou o Almirante Dam Vaf- 
„ co da Gama da fegunda vez , que foy a India por 
9 y Vi(o-Rey t aSimao Sodre com quatro velas as Unas 
wdsMaldiva, fobre alguns Mouros , que fazia6 guera 
„ra aos noflos, e delta ida desb.ifatou elle Simao So- 
»,dre {qis fuftas, de que era Capjtao hum Mourodos 
„ principals de Cananor, acbando-fe com elle eftes 
■ gCaphaens, Paulo Nunes Eftaco-, Pero Velho, &c; 
Foy ifto reynando ElRey Dom joao no anno de 
■5*4« 

Vindo da India deu-lhe ElRey o Habifo deChrif- 
to com boa tenca , e juntamente o fez Capitao da 
Torre de Cetubal. Depoisenfadado do Mundo , ecom 
defeiodevida folitaria, equieta ^ recolheo-fe ao MaC- 
teiro da Serra.de Ofla em feu habito iecular , quatro 
leguas de Evora , e levou ainda por companheiro o 
feu montante. Mas nao ie achando alii fatisfeito , 
paftou-fe a Alcobaqa corn favor do Cardeal Dom Hen- 
rique, ondecheyo de dias , e de obras de bom Chrif- 
tao\ defcanqou dos trabalhos da milicia y a que foy 
tao inciinado. 




£»& 



dos MffifM 



Lui& Eflago. 

SEguio a EIRey Dom Sebaftiao na Jornada de Afri* 
ca, e como faffe homem de animo, e de velor, 
entrou na batalha, enao houve mais nova delle. Don- 
de ie entende , que allli acabou , querendo honiar to* 
jda iua vida com cfta bello a£to defua mcrte. 

Gafpar Dias Eflago. 

FOy Conega de Evora , liberal , Cavalleiro ', e ani- 
molo mais do que era necefTario a iua prorulaf,: 
Nas alteraqoens doReyno feguio as partes do ienhcr 
Dom Antonio. O que foy cauia de ier privado de ta6 
honrada Conezia , comotinha , e de morrer defterrado 
em deigraqa de feu Rey , e defua fortuna. A cuja me- 
moria devo ifto , que eftando em Franca mandou pro- 
curacjoens a Roma a hum Manoel Conflantino , por- 
que renunciava aqueUe feu Beneficio em mim. Oqual 
Conflantino nao quiz por mao no negocio por fer de peft 
foa* que andava fora do fervico de Sua Mageftade , 
legundoellemefmomediile, tarde, e fern tempo. Faz 
roenc,ao de Gafpar Dias Eftaco, Nicolao Agoftinho na w«w ^«/t 
vida do Senhor Dom Theotonio de Braganc.a , Arcebif- "'». «* *u* d* 
po de Evora, Prelado em quern fe acharao excellen- 2, - 2fcww «'» 
tes virtudes de Principe com as de Paftor , das quaes'**' 9 - 
ha muitas teftimunhas ainda vivas, Eu nao devo calar, 
que eftando em Roma me fez muita merce, e honra, 
encomendando-me por fuas cartas ao Cardeal Farez , 
e ao Senhor Dom Duarte , feu fobrinho , que agora 
he Cardeal illuftrifiimo. O qua) officio me foy degran- 
de proveito para certo negocio , que em Roma tinha. 
Demais difto * ainda que o efcritor de fua vida diga, que ^ w -* 
ellenaS deu nunca Reverendas a fubdito (eu para tomar //w% „ ame f^ 
Ordens em outro Bifpado, a mim me cjuiz exceptuar*.*^ 
*> menor de feus fubditps* e Hie fez merce de mas dar pa- 
ra t 



^ 



$ 16 Tratado da Linhdgem 

ra poder tomar Ordensem Roma , a caru das quaes foy 
feica no anno doSenhor 1588 , por/oao Baptifta Ru- 
berio feu Secretario , que ainda hoje tenho era mea 
poder. Nunca perdi occafiao delhe fer grato de pala- 
vra , qu3ndo veyo a propofito ;fe nao era raza6 , que 
agora perdeOe efta j em que o pude fer de pena em be- 
neficio de fua memoria. 

Achylles Eflago. 

Eftas diverfas peff oas , a que derradeiro morreo , oil 
dasderradeiras, foy Achylles Eftaqo, a quern feu 
pay Paulo Nunes Eftac.0 , de que acima tratey , deu 
nome de valerofa pefloa , por lhe dar logo nelle a pro- 
Stttei*itTrati*fi^Q damilicia. Mas, como diz Seneca, os ingenhos 
quiiitaiti. I, fo c,ados reipondem mal , e vao he o trabalho, onde 
«• «- a natureza repugna. Achylles Efta$o maisquizfeguir a 

Andre de Refende feu Meftre nas letras , que a feu pay 
nas armas. Foy Refende muito aceito aoCardeal Dom 
Affonfo, filho d'ElRey Dom Manoel , fendo Arcebif- 
po de Evora , e no feu proprio Palacio tinha efcola ; 
a qual o Infante muitas vezes honrava com fua pre- 
fenqa , fegundo affirma Diogo Mendes de Vafconcel- 
]os, na vida de Andre de Refende, onde diz* que de 
fua efc6?a fahirao alguns homens infignes , entre os 
quaes foy Achylles Eft 193 $ e na5 nomea outro. Sa- 
hindo de Portugal eftudou em Lovania , e em Paris; 
onde impnmio muitas coufas doutas Gregas, e Lati- 
nas, em profa , e em verfo. Foy Theologo Orador, 
e Poeta \ na3 dos mediocres , que Horacio nao que* 
ria, fenao dosfummos, fe nifTo per fever ira depropo* 
fttoi mas fazia-o quando lhe vagava algum tempo da 
Theologia, comb ellediz na Epiftola Dedicatoria das 
fuas SyWas, que dedicou ao Infante Dom Luiz* nas 
quaes fe vem muitas virtudes Poeticas , e ricos efmal- 
tes defeu ingenho. Indo a Italia entreteve-fe algum tem- 
po em Padu3 honradamente. Pa(lando-ie a Roma foy 
recebido com muito grande honra entre osjprincipaes 

Letc* 





Jos Efta$oi. 5 1 1 

Letrados daquelle tempo , e o Cardeal de Santa Flor 
o levou para fua cafa. O Papa Pio IV. o deputcu em » 

Con fiftofio para o mandar ao Conciliopor Secretario, 
pofto que elle fe excufou. Mas em Roma exercitou 
o tal officio. O Papa Pio V , o charnou em Palacio pa- 
fa SecretariodascoufasLatinas. O papa Gregorio XIII. 
Ihe deu a parte de Palacio. 

Teve muitos amigos hornehs doutos, com quern 
fe communicava por epifk>]as Latinas , no qual gene- 
ro de efcritura foy excellente , como dizia o Biipo 
Dom Jeronymo Oforio, fegundo me contou feu fo- 
brinho Jeronymo Oforio Conego de Evora , em Roma: 
onde me rnoflrou huma epiftola fua para o Bifpo feu 
tio , que por andar meya gaflada doufo , a trazia cu- 
berta com huma guarda de papel. Tanta ellima fazia 
della. TomotLpor recreaqao apurar a liqao de alguns Au- 
thoresantigos, a que fez commentaries , porver, que 
andavao depravados , e mal entendidos dos prof effores 
deltas letras do feu tempo. 

Prefava nruito antiguidades Ecclefiafticas ] com 
que ennobreceo a fua infigne livraria , que deixou aos 
Padres da CongregacaS do Oratorio » donde o Cardeal $ eV0 nius ?» 
Baronio confeffa, que tcmou muitas, eas meteo t.qs mtat. Manyu 
Annaes , as quaes lhe agradece com eftas palavr&s : * 6m \ in Mar ' 
„Unde bene precamur dignas memorise Achyris Sta-^'*^,* 
„tii, qui legata nobis fua bybliotheca , tarn infignia ^ byem i. 
h reliquit vetuftatis monumenta. O Doutor Navarro Kaxer.de red- 
lhechama honra de nofla Lufitania. Quando morreo*'"- Kcdefirf. 
dine o Cardeal Farnez , que morreo o mais infigne f^T/M*'"*/' 
home'm , que fahio de Portugal. O Cardeal Baronio faz J^ ' d *\ J. ' 
menqag delle algumas vezes , femprecom palavras hen- 5«». *» t/epot 
rolas, chamando-lhe hora virtuofiflimo , e doutiffimo: fa'*"' 5 *»#* 
bora Achylles Eftac/> , de digna memoria : hcra vara6 J^'"' ^ .y 
afiinalado em bondade , e erudica6. O Papa Sixto X '. u t ] n ' An ^hl. 
deu hum Beneficio a hum parente feu ; dizendo, que fi* swajt*, £• 
Iho dava em memoria de Achylles Eftaco , porque era 14. MaH'm 
jufto j queainda depois da morte fe fizefle honra a vir- '^ ! u amtna 
tude. Fajeceo em Roma nomez de Setembro noanno^^ v/ . 
jflei^8ij em idade de cincoenta eieteannos* Deixou ,„ M«r»;» ; 

porP^*. , 







r 



$12 ^Tratado da Linhdgem 

por herdeiros aos Padres da Congregac.ao do Oratorio, 1 
nao pot fer della , mas por Ihe fer aifeicoado. Man- 
dou-fe iepultar na mefma Igreja deftes Padres noha- 
bito de Sao Domingos , e jaz em huma Capella da 
ma5 elquerda , que elles me moftrarao , e diflerao, 
lhe havho de fazer huma honrada fepultura com hum 
epitafio, como abemfeitor grarrde, quefoy feu. Mas 
quando ifto na6 feja , porque a memoria dos benefi- 
cios recebidos nao dura depois da morte de quern os 
feZs, e fe dura , tarde , ou nunca fe recompenfao os 
taes beneficos, nos pela parte doiangue, que nosto- 
ca , lhe deixamos aqui feita efta , nefte noflo eftylo, 
que ainda que tao rude, como parto de ingenho mal 
cultivado , baftara para alguns dias entreter fua me- 
moria , e o fazer conhecer , pelo menos nefte Reyno,' 
donde foy natural, Mas em lingua Latina tern elleou- 
tuprdchmis Xx * muito melnor » que lhe fez oCardeal Baronioem 
&-.AnnaUbu) fuas obras » oncJe algurnas vezes fe lembra de feu no- 
annoCbrifii me. A qual por fer lavrada defua ma6, eentretecida 
f9?.« ; ^. narica materia das ditas obras, nao acabara tao cedo; 
porque as letras fao mais duraveis iepulturas , que os 
Obelitcos do Egypto , e que os Maufoleos de Caria, 
os quaes vemos em grao parte gaftados do tempo ; mas 
nao vemos gaftada a lua imagem , que nas letras nos 
ficou. A que nao chegao nem as do painel do gran- 
de Apelles, que por fua excellencia forao porlongos 
annos guardadas, eempapeladas dos curiofos defta Ar- 
te; porque em fim la lhes entrou efta traca , a que 
chamamos tempo , que as deluftrou , elcureceo, econ- 
fumio. 

Eftas fao as peflbas defta familia ; na6 todas J 
que provavel he gaftou o tempo os nomes de muitas,' 
fenao as que pude achar de prefente j e me lembrarao, 
as mortas digo , que das vivas nao he meu intento ef- 
crever. De algurnas outras nao tratey $ porque por ou- 
tros cogciomes, que tomarao , ou ieus paysj que nao 
erao defta familia, lhesderao, fieaS como alheyas del* 
3a , e em refpeito defta gente nao podem fer chamados 
gentiles , como dizem os Latinos. As que achey (ae> 

desa 




dos Efafosl i I i 

dezaffove. Onze deltas anaavao referidas em publicas 
fyflorias, e fete pelei jarao pela paui3. E tres rnorrerao 
pcla honra della. Baftavao para fazer infigne^efta ge- ? 

raqao eftas ties com iuas mortes , como fizerao os tres 
Decios a fua com as luas j mas os Romanos tiverao js^ trtitu D& 
honras mayores , que os feitos , enos osfeitos mayo-m* *«fe,ci. 
res , que as honras. Porque nern eltes tres homens S"\]J[' u 
nem muitos outros de avantajados mericimentos , teJ^Lpi 
mayor o ha j que o da morte , levaraS mats premio,^,,^ 
que huma fimples relac.ao de hiftoria* O que nad hCDamiao de 
pouco a refpeito de algumas, que perdendo a vida , V Ql ' G J"^ c ^ 
derao tambem onorne, deixando tudo fepultado tes> M4 f£i$$$ 
meirnas terras , e mares , que elles deixarao vermelhos £# IO p, 
com olangue, que pelapatria derram&ao. 

Ditas as peiToas defta linhagern , refta dizet de 
fuas armas, e juntamente do principip das armas das 
familias , nao obftante $ que Pero Mexia tern dito nef- p er9 m<x)~** 
ta materia o que lhe pareceo^ E quanto a nos, fiOHio/»<» syivaiivj 
as armas fejao hereditarias, e pattern aos def cendentes y 4- <• h i~ 
Jegundo Jeronymo Rufcelli no feu curiofo difciirfo das 
eroprezas , nao he improprio tratar das dos Eftaqos , em ~ 

graea dos que fao ao prefentej e ferao ao diante. As 
armas dos Ricos homens » como atraz moftrey , forao 
pendao , e caldeira , e deltas hayiao de u(ar o bom Ga- 
valleiro, e Rico homem Pero Eftaco, e teu neto Pero 
Eftaco Meftre deS. Tiago , e osmais feus defcenden- 
tes daquelle tempo. Mas como as armas em leu prin- 
cipio fe na6 puzeilem nas fepuituras , como agora fe 
poem, onde ficao permanentes 9 fenao nos fellos , e 
nos efcudos, feguio-fe daqui , que a gente defta fa- 
miHa perdeo a noticia dellas. Moftra-fe ifto , porque 
nao ulao de nenhumas , e nao fe pode dar outra caur 
fa, fenao. o defcuido , e pouca curiofidade dospaflaj 
dos ; pois os Rfcos homens tap claramente as tinhao. 
Nao he credivel , que efta geracao nao tiveffe armas pot * 
outro refpeito, quando por efte nao fofle. Masfez-lhe 
mal na5 ter Morgadp , que he o Athlante da nobreza 
de toda a familia , e onervo das preeminences , eorr 
fiamentos deMa , como vemos em muitas cafes de Ca£-- 
4 Ttt tella, 





$4»ro>: na 
itifcripfAv fa 
Ventza I. ji m 




5*4- Tratado da Linhagem 

d^£ Ue S d0S te / n35 / e /q^cerad os poflmdores 
, oelles de paflar em feus efcudos as caldeiras de ieus an- 

tepaflados Ricoshomens, como atraz fica dito 
r AnaHi A nt\U Diz Lourencp de Ananialtaiiano, que as armas 

&&& S?,^' ? Republics fa6 aatiquiffimas J ma s em fa- 
ESS? S? h . as PJ'ticulares , modernas. Parte difto vemos na 
l-te.iiB/.^ Lictitura, porque EtRey Afluero tinha an- 
i*,; nel de armas, com equal Aman fen privado fellou as 

cartas , com que pertendeo deftruir as Hebreos. No 

tratado dacomparaqao dos animaes notou Piutarcho 

$»el,n.inAu Z ¥* ^^ tfQUXe P 0r in % lia h ^ golihlho efculpi- 

%w/.jo. S? a,1]m n<> annel, como no eicudo. E Suetonia 
Xranquilloefcreve, que Augufto Caviar fellou noprin- 
cipio com a rmagein da Spfaynge , depois com a de Alei 
xandre, depois comafua, eos Impera*k>res fegutntes 
r A! j c° m a me * ma de Augufto* A efle meimo propofito re- 
J £™ij* t fere Alexandre de Alexandre no fegtindo dosGeniaes* 
que Jupiter teve por iufigniahuma aguia , 2 quJdel- 
le paflou aos Cretenfes , e defies aos Troyanos , poc 
Eneas aos Romanos. Ajuntemos a eftas Republicas 
adeVeneza por iua magnificencia , da qua! oiz Fran- 
cKco Saniovkio , que no anno do Senhor 828, quando 
q corpo de S. \ta*cos Evangelifta foy trasladado de Ale- 
aeiaudauas] ^ ancS * ia para aquella Cidade, a Republica tomou por 
4§m9* "armas a imagem do dito 'Santo , hora em forma Hu- 
mana i hora de Lsao ,*como foy vilio do Profeta 
Ezechiel. > 

Com iflo deixamos verificado o dito de Ana- 

nia, que as armas em Reys, e Republicas fao anti- 

quifiimas* Mas fe elle da liceriQa , o mcfmo foy em 

peffoas particulares , porque Scylla teve no annel de 

fello a imagem de Jugurta prezo, e Poorpeyo a de hum 

Leao com huma efpada na mafi ; de que he Author 

Piutarcho nas vidas defies ■ dousCapitaes* Concorda o 

pr$,J&Lf. Que diz Virgil io de Helenor , que foy a guerra de 

Troya com efpada nua ,. e efcudo branco, por nao 

ter ganhado infignia , que ma adornafle. l>e maneira, 

que antigamente as armas ie traziao nos anneis de- 

ieiloj e nos efcudos, como fica dltp de Ulyfies, e 

agora 



K 




dosEft^os. $ IS y 

agora defte foldado ; o qu^l ccftume feguir?6 os mo- 
dernos no principle) delta invencao, ourenovaqeo das 
aimas, como prefto fe vera. 

Omeimo Ananiaem cima allegado diz , que Anania u& 
as armas vierao a nos dos barbaros depois das facets /"*?• 
dos Guelfos , e Gebellinos, Os quaes dous bandos fo. 
rao introduzidos em Italia , ie cremcs a Sabeliico, e StfW/#EflW ^ 
a Baptifta Ignacio , pelolmperador Frederic© II, que/. 6. Baft. *$' 
foyeleito no anno do Senhor 1211 pela conta de Pal- Frt&rho %• . 
merio. Mas Paulo Jbvio , no leu livro das Emprezas , as ¥ f^ tri %^ 
iaz mas antrg as , iilo he do tempo de Frederico I, cu- £"J£ * a hm 
jo Imperio coraeQou no anno 115a, e diz , que erao j 9V i 'i. j* 
dadas pelos Prineipe9 por meritos de honradas empre- E^rfStaM*'' 
zas feitas na guerra , para ennobrecer a valerates Ca~f r ' mi f ,4> f^ 
valieiros. Ifto he de Paulo Jovio, E porque ellas fe 
ganhavao com feitos de armas Ye rouitas vezes cof« 
tumavao das mefma armas , como de elmos , mano* 
p]as, lanqasj efcudos, e outras , daqui fuipeito eu, 
que fora<5 chamadas, Armas. Rafael Volateirano tarn- VelAHrr - $p 
bem attribueelta imrenqao aos Imperadores moderncs, ^ 7X /* 30g 
poftoque nao nomea algutn ; mas diz", que asd'avao c . defgnis.' 
por mericimentos a grandes homens. Da mefma opiniao 
he Budeo ; porque ere , que as armas fuccederaS as Budsssk^fi' 
imagens de cera dos Romanes 9 que elles p#nhaonos **tf'&*"'l* 
patios de fuascafas, de que atrazfallamos. 3 w *h 

Lembra-me * que cerrq curiofo pergontou ja fe 
Sa6 Damafo Papa , Portuguess de nat^ao , teve armas de 
fua familia : ao que eu entao nx6 pude reiponder. >v. 
Agora digo nefle lugar , que legundo Fulberto Bifpo 
• Carnotenie, allegado por Azorio , os Papas Clemen- AtmmimAi 
te II, e Damafo II , introdtizirao , que cs Pontificesz^.«*?7fi7.s«? 
Romanos ufailem de armas. O Papa Leao IX. Frances f-44> §•'## 
denscao, trouxe hum Lea6 negro no efcudo , crnado 
de oito flores de liz. Ao qual feguira'8 Vicior 11^ Suevo: 
e Stephano IX. Lothoringio ,*'e os mals Papas dalli 
por dianfe , porque dos an tigos nso lemos , que fi- 
' veflem tal coflume. Ate aqui Azorio. Efle principio 
. das armas dos Papas concorda no tempo poucomaisjou 
flienos* corn oque tenhbreferildo acima daqueites Au- 
3 Ttt ii thoresj 




$i £ ^Tratado da Linhigem 

thores j porque Clemente II , foy eleito no anno do 
Senhor 1047 , Damafoll no de ^048, Lead IX no de 
1049, fegundo o Gardeal Raronio. E pofto que ifto ie- 
ja cento ecinco annos » do que aponta Paulo Jovio,' 
de Frederico I , pode fer , que efte Imperador o fre- 
quentafleniais , e Henrique III, contemporaneodaquel- 
les Papas, feria o inventor. 

Finalrnente o ufo das armas dasfamiliss come- 
90U em Alemanha peloslmperadores, fofle Henrique 
III, ou Conrado II leu anteceflor. Econfirma-ie lfhoi 
porque aquelles dous Papas Clemente , e Damafo, 
que as meterao no Palacio Pontifical , Alemaens fo- 
rao , e de fua terra levarad efte coftume a Italia. O qual 
pailou logo aos Francezes , e daqui aos Aragonezes 
feus vifinhos, e d*£lRey Dom AfFonfo de Aragad o 
tomarad os Reys de Caftella , como fente Ambrofio 
Moraicsl. 13.de Morales. Ifto foy quandoElRey Dom AfFonfo de 
*-$>- Aragad o batalhador , cafou corn Doaa Urraca viuva, 

filha d'ElRey Dom AfFonfo VI de Caftella. E diz Mo- 
rales , que os Aragonezes , que o acompanharad nefta 
vinda , as traziao nos fellos , e nos efcudos. E diz mais, 
que ate alii na6 ha fepulturas de Rey de Hefpanba, 
<,//»;<<« ?.T..<feq U@ tenha armas , porque elle as vio quaft todas. O 
qual cafamento , fegundo Jeronymo (Jurita , foy no 
Mar Una m anno do Senhor 1 1 09 , e fegundo Joad de Mariana 
hp. tfe Hetfi. no*de 1 1 06. 

h iQ».c. 7, \ nos com tlK j a p afece J q Ue antes daquelle ca«. 

famento alguns annos os Caftelhanos as tinhad : e que 
lhas trouxerad aquelles tres fenhores Francezes, que 
vierad a H-:fpirtha ajudar , e (ervir nas guerras a Bl- 
Rey D. AfFonfo VI, pay de-Dona Urraca i aos quaes 
omefmo Rey deu em cafamento tres filhasdas queti- 
nha , ifto he a Don Ramon, que fez Conde de Gallif 
za \ Dona Urraca j a Dom Henrique com o Condado 
de Portugal , Dona Tajreja $ a Dom Ramon Conde de 
Tolofa ,. e Sad Gil , Dona Elvira. Efte tornoufe para 
fua terra com mulher f os dons ficarad em Hefpanha 
com as fuas , os quaes erad de Borgonha regiad de Fran- 
ca. Morrendo Dom Ramon Conde de Galliza »■ caiou 

EIRey 



- dos Eftct$oh SI7 

EIRey a Dona Urraca lua filha a fegunda vez com 
Dom AfFonfo Rey de Aragao , eentao quer Morales, 
que os Aragonezes trouxellem as armas. Mas o Con- 
de Dom Henrique havia ja dezafeis , ou dezanove sn- 
nos, que eftava com fua mulher em Portugal, onde 
entrou no anno do Senhor 1090 , e trazia pot armas ; 
hum efcudo braneo|iem mais nada , como diz Duarte G££*^£ 
Galvao , ou com huma Cruz azul nelle , como <\™ A f ftn ( oHinr . 
Duarte Nunes deLeao. Doquefudo feentende, que,.,, 
o principio deftas armas he Alemao, e a communica- 2V«*w»4C£r. 
cao a Hefpanha" Franceza por meyo daquelles tres ie-f »»#■* ** 
nhores. E ifto fe teve ja por certo nefte Reyno j pot- >"•*«• f *> 
que querendo EIRey Dom Manoel dar regtmento aos 
Reys de armas , Arautos , e Pafavantes , mandou as 
Cortes do Imperador , e d'ElRey de Franqa , e dejn- 
glaterra , a faber o modo , e coftume , que eftes Pre- 
cipes nifto tinhao , para com elles fe confoimar j eaf- 
fim o fez , e affirma Damiao de Goes. f"»« chr: 

Quando comeqarao as familias particulates ero^f^ 
Portugal de uiar de armas , com |difficuldade iepode 6#g)5s 
averiguar. Eu vi muitas doaqoens antigas degenteno* 
bre no archivo da Igreja Me Guimaraens v e na6 fou 
lembrado , que tiveflem armas. Nao duvido , que 
noflbs antepaflbs imitando a feus Reys as trouxef- 
lem nos fellos , e no* efcudos , e ainda nas fobreyef- 
tes , que traziao na guerra fobre as armas , como tra- 
zia EIRey Dom AfFonfo Henriques , deque faz men- 
qao Duarte Nunes j tnascflas-, como eratf de pouca du- i^ammm 
ra, na6 chegara6 anos para jfazer fe do que perten-»a chr. <hej- 
demos. Tomaramos para ifto , que as puzerao nas fe-^7 D.Jffm* 
pulturas j mas o que os Reys nao faziao , nem elles^ HeBr '* ; * fr 
- o faziao , eafiim vemos, que nem o Conde Dom Hen-^ ro ' 
rique , nem EIRey Dom Aftonfo feu fllho \ nemos 
netos, etremefosas puzerao, ainda que as tinhao. E' 
vindo aos vaflallos, a fepultura deDom Egas MonizJ 
que efta em Paqo de Soufa , nao tern armas. Para que 
he mais , fenao que o Conde Dom Henrique refidio 
nrnitos annoscom a fua Corte nefta notavel Villa de ( 
€uimaraens> e depois dglk fua mulher aRainhaDo- 






bilitate c 
p.\i.& 18. 
Oforius de 
JSloHl. civil. 
Uufol. 17& 



S 1 8 TrMado da Linhagem 

na Tareja, e o Principe feu filho, e com tudo nao ha 
na dita Villa fepultura de homem antigo daquelle tem- 
po ,, ou de mais adiante $ que tenha armas. t£ nao ha 
duvida, quemuitos haviao de morrer aqui. Mas no ar- 
chive delta Real, e infigne Igreja Collegiada , hadoa- 
$oens , e privilegios dos primeiros Reys de Portugal, 
memorias todas de veneranda antiguidade , felladas 
com as Armas Reaes* huraas em chumbo ,outras em ce- 
ca , que provao o aliegado , e dito nefte tratado, 

Daqui fe entende acaufa, porque agente defta 
familia dos Eftacos perdeo a noticia das armas , que 
Ihe pertencem , que nao ha duvida fao as dos Ricos 
homens f porque as armas nobres fao commuas a feus 

Tirxq. de No- defcendentes , como affirma Tiraquelio. Concorda Je- 
6 * ronymo Ofor jo dizendo , que armas fe davao pelo Prin- 
cipe a quern na gue r ra fazia algum feito excellente , e 
era Ihe concedido, que fofle havido por nobre, eque 
trouxelie algurna infignia de fua virtude , com que fi. 
zefle nobre fuageracao, e defcendentes^ e os movef- 
ie a imitar fimilhante feito* Ate aqui Oforio. Onde 
fuppoem , que cada hum. deve faber a figniiicacao das 
armas de fua progenie , a qual nao fey fe fabem mui- 
tos , que as trazem nos anneis , e repolteiros , taixa f 
que lhes punha Rafael Volaterrano , e com que asre- 
provava. A qual nao he dellas^fenao de quern nao fa- 
be o que traz por honra , e fe Jheperguntais poriflo, 
acodevos com huma patranha fern fundamento , de que 
zombava Gafpar Barreiros na fua Chorographia. Tor- 
nando ao propofito , o coftume de nao por as armas nas 
fepulturas (e mudou depois em contrario , porque em 
tempo d'SlRey D.Manoel querendo efte Rey laberas 
armas da nobreza de Portugal , mandouastirardasfepul- 

&tt uhfup. turds de todo o R*yno , de que fe pintou huma lala nos 
Paqos de Cintra , e fe fez hum livro, que ieguardano 
archivo Real de Ltsboa. A qual diligencia, fe agora fora 
feita, muito mais falas feptatarao , e mais ,livros fefi- 
zerao. Tanto tern crefcido , ou a nobreza ,5 ou . a$ ar> " 
mas , ou a oftentacao , ou tudo ifto junto I 

FINIS L A U S DEO. 



Velater. ubi 
tut. 



Barreiw na 
Charegraph. 
tiu de Narbo~ 
na. 



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