(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Viagens de caçadas em Matto-Grosso : tres semanas em companhia de Th. Roosevelt"

1>^ 




y^' 





:$*■-- 






PURCHASED FOR THE 

UNIVERSITY OF TORONTO LIBRARY 

FROM THE 

HUMANITIES RESEARCH COUNCIE 
SPECIAE GRANT 





^ jf ã r^ 




^TTO 




E SILVA 
LISBOA 

j 

l 

- .t....^..^_t....->íí... 1 

tf 



^■^«•Jv-a^-* 







fCci. 




^^n^yl^x^^c^ 








A/-'^^--if^^\^épOcy(yy<^^'^ 






CL,^,i.o<^ c/V^^^-^-t-í-t. 



VIAGENS E CAÇADAS 



EM 



MATTO-GROSSO 



MAGENS E CACADAS 



EM 



MÀITO-GfiOSSO 



Pelo Com. 




Três semanas em 



Th. ROOSEVELT 



RIO DE JANEIRO 

Officioas Grapbicsas da Ivivraria Fraaciísco AJves 




JAN 

7 
lDo7 



A' imperecível memoria de meu irmão, o 
Qr. Joaquim SCamer Pereira da Qun^a 

tão illustre profissional quão provecto caçador. 
Homenagem de infinda saudade do 

AUTOR 



INTRODUCÇÃO 



No presente livro não ha nem pôde haver pre- 
tenções litterarias: primeiro, porque não houve pre- 
occupação de litteratura; segundo, porque se tivesse 
havido tal preoccupação não poderia existir o 
livro . . . 

As caçadas de feras em todos os continentes 
têm sido abundantemente descriptas: os leões, como 
os tigres, búfalos, elephantes, rhinocerontes e ursos 
têm tido quem lhes exalte o valor, descreva as ma- 
nhas e astúcias, mostre o perigo em enfrental-os, 
narre, emfim, as caçadas que lhes tem movido; só o 
nosso nobre jaguar, forte como poucos e ágil como 
nenhum, ignorado nas brenhas da nossa ignorada 
terra, ainda não encontrou quem dissesse o bastante 
das maravilhosas emoções da sua caçada, a mais pe- 
rigosa d 'entre todas (quando o animal é acuado no 
bamburro), e a que requer os auxiliares mais inte- 
ressantes, mais originaes e mais corajosos que se 
possam desejar: os "zagaieiros". 

Tendo feito algumas caçadas de onça na região 
dos pantanaes de Matto-Grosso, onde taes caçadas 
são, quasi sempre, das mais interessantes e arrisca- 
das, animei-me a tentar descrevel-as, taes como me 
foi dado sentir e observar. 

Como, por circumstancia de mero e felicíssimo 
acaso, houvesse, no curso de minhas viagens e ca- 
çadas, tido o grande prazer de gozar da honrosa 



— 10 — 

companhia do illustre e notável estadista e explo- 
rador Mr. Theodoro Roosevelt, trago a este livro o 
grande interesse de suas palestras e, sem indiscre- 
ção, o picaresco de suas intimidades. 

Finalmente, como fosse preciso formar um con- 
junto menos desliarmonico, e como não sejam muito 
conhecidas certas paragens por onde passei, addi- 
cionei um resumo das minhas viagens tanto de ida 
como de volta, e descrevi as caçadas, como disse, 
taes quaes se desenrolaram. 

Outro mérito não pode almejar este livro senão 
o da originalidade do assumpto, e da absoluta vera- 
cidade do que conta. 



CAPITULO I 



Do Rio de Janeiro a Corumbá 



Caçador apaixonado, era para mim um dos so- 
nhos dourados poder caçar uma onça pintada, esse 
animal que reina nas florestas de nossa terra, cheio 
de astúcia e de força, ladino, ousado e feroz. 

Muita vez repeti que esperava não morrer antes 
de ir a Matto-Grosso caçar onças, e quiz a minha 
sorte que não só me fosse dado ir a Matto-Grosso 
tentar a realização de tão ambicionado sonho, como, 
juntando uma surpreza, tão inesperada quanto agra- 
dável, tivesse ainda a rara felicidade de caçar e con- 
viver ahi, durante algum tempo, com o eminente 
americano Tlieodoro Roosevelt. 



A minha viagem para esse Estado, ainda tão 
pouco conhecido dos brasileiros, foi a mais suave, 
fácil, agradável e commoda que é possivel; e, a co- 
meçar pela felicidade de ter como companheiro de 
\âagem o meu collega e amigo H., tudo correu admi- 
ravelmente bem em tão bella viagem. 

No paquete "S. Paulo", do Lloyd Brasileiro, le- 
vando a minha Greener calibre 12, minha excellente 
arma de três canos (2 cal. 20 e 1 raiado 9 m/m 72), 



— 12 -^ 

meu mosquetão Mauser regulamentar, minha Re- 
mington 22, modelo 1912, e abundante munição, dei- 
xámos o Eio e a sua bella bahia na manhã de 6 de 
Setembro de 1913; tocámos em Paranaguá, meu ve- 
Uio conhecido, onde, ha annos, ia deixando a \'ida ; 
e, ao amanhecer de 11, graças ás bellas qualidades 
marinheiras do amigo Delamico, lobo que c^mman- 
dava o "S. Paulo", entrámos, apezar da densa cer- 
ração que nos perseguia desde o Eio Grande, no 
porto da sympathica Montevideo, sempre asseiada e 
faceira, com uma temperatura adorável. 

Eu e o meu amigo H. empregámos todo o dia 
11, e ainda o dia 12, em comprar uma série de cousas 
indispensáveis para a nossa futura installação de 
campanha; e, na tarde d 'esse dia 12, embarcámos 
no paquete "Mercedes", também do Lloyd Brasi- 
leiro, achando-nos, com agradável surpresa, a bordo 
de vim navio muito confortável, asseiado, commodo, 
e tripulado por gente extremamente gentil. 

Um nosso antigo collega devia, em commissão 
de fiscalização determinada pelo cargo que exercia 
em MonteWdéo, seguir conmosco até Corumbá, e, por 
sua causa, só á noutinha deixámos o porto, em com- 
pensação, esse ligeiro atrazo, que aliás em nada 
influiu em nossa viagem, trouxe a vantagem de pro- 
porcionar-nos um alegre o irrequieto companheiro, 
relacionado com todo o pessoal de bordo, e mais 
ainda, conhecedor de toda a região que iamos na- 
vegar, pois que, durante quatorze annos, comman- 
dára navios, fazendo a viagem que encetávamos. 

A noute e o bom somno que dormimos não nos 
privaram de espectáculo que valesse a pena obser- 
var: o va,sto estuário do Prata, alargando-se como 
um oceano, nada tem que interesse a quem o olha, 
ou pelo menos descreve, como simples *'touriste", 
pois que é outro o interesse que desperta Martim 



^-/^ 



^ 









f<r^J^- -/^ ^-^.^ - ^1; ^^ .^ .^- 





•1-4;, » fjU^^^g C. ^.y^-U/ í^ ^^r^^^^r^ f. A^ ^í-^r.^. C ^ 



— 13 — 

Garcia ; e só depois entmmos em trechos mais inte- 
ressantes da vâa^em. 



A temperatura, mantendo- se amena como du- 
rante o percurso marítimo, ajudava a tornar ainda 
mais agradável a \âagem; infelizmente, porém, não 
fazendo o na\'io escala em portos argentinos, tive- 
mos de ver ao longe Rosário, Corrientes e todas as 
demais cidades da Republica vizinha, que florescem 
e prosperam á margem dos ríos que navegamos. 

Como em todos os rios, os bancos e canaes têm, 
no grande Paraná, mudanças caprichosas; e graças 
a um d 'esses caprichos, para nós bemfazejo, tivemos 
a ventura de passar junto á bocca do Riachuelo, jus- 
tamente no local da histórica batalha naval. Como 
era a primeira vez que o nosso pratico passava por 
tal lugar, tivemos um ligeiro encalhe no banco for- 
mado pelo nosso "Jequitinhonha", por sobre cujo 
casco fluctuava uma bóia ainda ornada de coroai, 
vestígios da ultima conmiemoração da grande pugna. 

O nosso collega que conmiandára navios, du- 
rante quatorze annos, na linha de Montevideo a Co- 
iimíbá, nunca tivera occasião de passar por esse 
lugar que tantas recordações gloriosas traz aos co- 
rações brasileiros ; e é preciso ser justo, agradecendo 
a sorte que nos determinara tão inesperado quão 
agi-adavel acontecimento. 

A nossa passagem pelas Três Boccas, sitio me- 
morável do celebre arsenal do Cerrito, nos propor- 
cionou um espectáculo dos mais bellos e imponentes. 
Do meio da grande bacia, avistava- se, á direita, a 
bocca do alto Paraná; ficava pela nossa popa o ma- 
jestoso baixo Paraná, que iamos deixando; e appa- 
recia-nos pela proa o caudaloso e histórico Para- 
guay, cujas aguas iamos sulcar: o terreno baixo e 



— 1-1 — 

alagadi^'o formava horizonte como no vasto oceano; 
e o SÓI, nos últimos raios d'aqueile dia, embrazava 
todo o semicirculo do poente. Bandos de garças, 
voando lento e alto, rece)3Íam ainda os raios directos 
do sói, fazendo brilhar a brancura de suas pennas; 
e as aguas da vasta bacia flmdal, calmas e serenas, 
reflectiam, como um enorme espelho, o céu, pui'2:)ureo 
do occidente. Extasiados deante d 'esse espectáculo 
grandioso, entrámos no rio Paraguay: o crepúsculo, 
longo, imponente e triste, ia aos poucos deixando 
lugar á noute sombria; o céu violeta do oriente per- 
dia suave e docemente a côr; scintiliavam as pri- 
meiras estrellas; a lua, no crescente, insinuava as 
pontas de prata ; e na terra, como se outras estrellas 
fossem, myriades de pyrilampos tremeluziam sobre 
os pautanaes. 

Sempre subindo o rio, iamos vendo, aqui e alli, 
pontos e sitios que vibram na nossa historia pátria: 
passámos Curupaity, onde a indómita bravura para- 
guaya rivalizou com a heroicidade de nossos patri- 
cios e antepassados; mas foi em hora avançada da 
noute que defrontámos e passámos as barrancas que 
testemunharam as bravura s de Humaytá. A lua alta 
e clara, permittindo a visão perfeita de toda a cer- 
cania, emprestava ainda ao local um ar de mysterio 
e de sonho; e a velha igreja, conservada até hoje em 
ruinas, apparecia, lúgubre, no meio dos campos de- 
sertos, como o phantasma da guerra. 

Cada vez mais nos approximavamos da velha 
capital do Parag^uay, e quasi ao pôr do sói do dia 
16, surgiu pela nossa popa, approximou-se de nós 
e passou o bello paquete "Paris", da carreira entre 
Buenos-Aires e Assumpção, que, com a sua bôa mar- 
cha de quinze milhas, ia conseguir chegar n'esse 
mesmo dia ao porto que seria o primeiro de nossa 
escala — Assumpção. 




!• 



r^^ 



% 



^^ ,., V 







O Paquete "Mercedes' 




O Paquete "Paris" á tardinha, no rio Paraguay 




Mercado de Assumpção 
























Somente 


parte 


da minha 
mulheres 


cabeça 
feias... 


entre 


tantas 














^^ 






^Kmmm 



— lõ — 

Já eram mais de 8 horas da noute quando che- 
gámos nós, e tivemos de esperar o amanhecer do 
outro dia para, livres das fonnalidades aduaneiras 
e sanitárias, podermos saltar na interessante e ori- 
ginal cidade. 

De bordo via-se sobresahir entre o casario o 
celebre palácio de Lopez, palácio e presidio que a 
nossa historia conta; apinhavam-se ao portaló do 
navio botes tripulados por homens de aspecto rude 
e que falavam um idioma ainda mais rude; mulhe- 
res, vestidas de saias pretas e cobertas com espessas 
mantilhas pretas, offereciam rendas e bugigangas; 
e rompendo a massa que invadira o nosso pacato 
navio, embarcámos em um bote que nos conduziu á 
terra . 

Ao saltarmos, uma mistura de reminiscências de 
cidades d 'Ásia e d 'Africa nos vinha á memoria 
deante do que presenciávamos; tal como aconteceu 
ao saltarmos em Colombo, tínhamos, na rua em que 
penetrávamos, as mesmas calçadas cobertas pelas 
varandas, apoiadas em idênticas columnas e, ainda 
como lá, pelas vitrinas, no interior das casas, e até 
pelos tectos, as "curiosidades" que, no caso presente, 
eram representadas por jacarés empalhados, enor- 
mes aranhas caranguejeiras, cascos de tatu, "nã- 
duty", cuias para matte, couros de cobra e de jaguar, 
anneis, "aigrettes" e uma infinidade de outras cousas. 

Tínhamos a recommendação especial de ir ao 
mercado, que nos indicavam como a maior curiosi- 
dade da cidade, e dirigindo-nos para lá não tivemos 
motivo de arrependimento: os mercados do Cairo, 
ou as ruas em que se aboletam os mercadores, têm 
impressionante vozerio e movimento; mas, ou seja 
porque no mercado de Assumpção esteja mais con- 
densada a ])opulação dos mercadores, seja por effeito 
do guttural guarauy, ou seja ainda por melhores 
pulmões e maior tagarelice, o vozerio aqui é maior 



— 16 -> 

e mais atordoador. As mulheres, sempre descalças e 
sempre cobertas de mantas pretas que, estou certo, 
só podem servir para augmentar-Ihes o calor, abar- 
rotam, em agglomeração bulhenta e compacta, todo 
o mercado e toda a área que lhe fica em volta e é. 
delimitada por uma cerca de arame. Os jumentos 
entram e sahem carregando cangalhas e, quasi sem- 
pre, entre essas cangalhas, um fardo desengonçado 
e preto, que é uma mulher. A agglomeração é tal, é 
tão grande, tão constante e ininterrupto o movi- 
mento das irrequietas mercadoras que, desejando 
que o meu amigo e coUega H. me photographasse 
n'aquell6 meio original, só conseguiu elle, n'um ''mo- 
mento de mais calma", apanhar parte da minha ca- 
beia entre aquella multidão feminina, mas desgra- 
ciosa, multidão que só é ahi excedida pelo "exercito" 
de moscas ; pois, esses nojentos insectos, em bandos, 
aos milhares, em nuvens densas, esvoaçam importu- 
nos ou, pousados, cobrem de repeli ente manto ani- 
mal tudo quanto se encontra n'esse barulhento e 
original mercado. 

Aos encontrões, ora saltando montf^s de laran- 
jas, ora galgando rumas de charutos, deixámos o 
mercado e voltámos, finalmente, para bordo, ainda 
atordoados com o barulho e munidos de mosquitei- 
ros, defensores indispensáveis n'aquellas paragens e 
nas outras para as quaes nos dirigíamos. 



A enchente do rio Paraguay, em 1912 para 1913, 
tinha sido das grandes enchentes d 'esse rio, e, por 
isso muito crescidas estavam ainda as aguas que ala- 
gavam as margens, não raro offerecendo interessan- 
tes golpes de vista; com isso, porém, eram muito 
raros os jacarés, que, de ordinário, quando está des- 
coberta a barranca, ahi se mostram em quantidades 




Aspectos da cheia do rio Paraguay 





Uma arvore coberta de biguás 



r 




Porto-Murtiniio 



a 



z 



— 17 — 

enormes. Mas, se vimos esses animaes em pequeno 
numero, em compensação, as aves aquáticas surgiam 
e cruzavam de todos os lados, e cobriam, ás vezes, 
inteiramente as arvores em que pousavam. 

Agora, depois da foz do Apa, sempre entre mar- 
gens brasileiras, sempre subindo sem obstáculos, 
graças á cheia, chegámos a Porto Murtinho, onde 
tivemos occasião de ver couros de onça, como tão 
grandes ainda não viramos. Mas, durante o dia. e 
na pequena parte da noute em que ahi estivemos, o 
que maior impressão nos causou foi, além da quan- 
tidade phantastica de mosquitos, a queimadura de 
que foi victima Mlle. R. Estávamos justamente 
admirando, próximos a uma das lâmpadas eléctri- 
cas, o turbilhão de mosquitos e outros insectos que 
a luz attrahia, quando, levando a mão ao pescoço 
despido de gola, Mlle, R. queixou-se de alguma cousa 
que lhe havia produzido a sensação de ardor ou de 
queimadura; e, como isso perdurasse e a incommo- 
dasse, examinaram o caso e verificou-se que, de 
facto, tratava-se de uma queimadura. Isso, para nós, 
novatos, era objecto de espanto, mas, entre pessoas 
já conhecedoras da região, foi logo dada a explicação 
da origem, para nós mysteriosa, d'aquella queima- 
dura que, cousa de muita frequência em Matto- 
Grosso, era devido ao contacto de um insecto conhe- 
cido pelo nome de "burrico". 

Deixámos Porto Murtinho com mais essa apren- 
dizagem, mas, para que se faça ideia do flagello que 
é o burrico, abro um pequeno parenthesis para 
narrar o que se passou com o rabiscador destas 
linhas. Certa noute, no Ladario, indo procurar um 
collega em sua residência, que era no recinto do Ar- 
senal, bati á sua porta e, antes de abril-a, gritou-me, 
o collega, que entrasse depressa. Essa recommenda- 
ção, que pareceu-me extemporânea, pois, habitual- 
mente, dá-se pressa em abrir e fechar as portas para 

Viagens e Caçadas 2 



— 18 — 

diminuir o ingresso dos mosquitos, despertou a mi- 
nha attenção e levou-me a indagar-ihe o motivo, 
^íal sabia eu que tinha escapado de bôa, pois que, 
a resposta do meu collega foi esta: hoje ha "nuvem 
de burrico". Felizmente para mim, a nuvem de bur- 
ricos não tinha nem mesmo deixado um represen- 
tante como porteiro do meu collega, mas, pela sua 
resposta, que era o que desejava frisar, póde-se fazer 
ideia da quantidade d 'esses infernaes insectos. 



Trazendo alguns mosquitos como passageiros 
intrusos, sempre subindo o extenso rio, parámos, já 
pela noute, em frente ao memorável Forte de Coim- 
bra, que lembra o padrão de gloria legado pelos 
nossos patricios, mas também pelas nossas dignas 
patricias, cuja abnegação e bravura de tanto auxilio 
foram aos seus viris defensores. 

No dia 22, ao amanhecer, avistámos as alturas 
do "Ladario", por onde passávamos pouco depois. 
Lá estavam os nossos navios de rio, o Arsenal com 
suas officinas e grande muralha, e esparso pelo ter- 
reno duro e secco, o casario baixo, velho e pobre. 
Meia hora depois, afinal, chegávamos ao porto da 
cidade de Corumbá, termo da nossa interessante 
viagem. 

O caudaloso Paragiiay, que ahi se alarga bas- 
tante, depois de ter mudado a direcção em angulo 
recto, forma um porto vasto como fluvial, e n'elle en- 
contrámos, com agradável surpresa, movimento que, 
sem ser grande, de muito ultrapassou a nossa espe- 
ctativa. Pequenos navios próprios para a navegação 
em pouca agua, lanchas a vapor e a gazolina, barcos, 
botes e canoas, viam-se i)or toda a parte; estaleiros 
modestos, duas ou três officinas e talvez quatro ou 
cinco navios grandes completavam o quadro agra- 
dável aos nossos olhos. 



CAPITULO II 



Corumbá — Giboia — Ladario — Pantanal — Aves 
aquáticas. 



A cidade de Corumbá, á margem direita do Pa- 
ragTiay, é construida em grande elevação sobre o rio, 
n'um dos contrafortes da vizinha serra do Urucúm. 
Suas ruas, direitas, de boa largura e mal calçadas, 
são ladeadas de casas, em muitas das quaes o com- 
mercio ostenta recursos bastante consideráveis e que 
vão muito além do que suppõe a generalidade dos 
brasileiros; fabricas de gelo, de cerveja, padarias, 
boteis, boas pharmacias, livrarias, jornaes, excellen- 
tes casas de ferragens, alfaiatarias, armarinhos e 
casas de modas, bar, collegios, etc, emâm, todos os 
elementos componentes de uma verdadeira cidade lá 
se encontram, formando a parte alta de Corumbá, a 
mais extensa e onde também estão as casas de mo- 
rada, quartéis e repartições publicas. Em baixo, 
n'uma faixa estreita e apertada entre o rio e a en- 
costa abrupta da montanha, está o grosso commer- 
cio, representado por casas com capitães que sobem 
a milhar e mesmo a milhares de contos de réis . . . ; 
são as casas que negociam em borracha, couros e 
gado, que têm navios e lanchas, é que importam da 
Europa o que o sertão troca por seus productos. 

Logo ao saltarmos em Corumbá a nossa atten- 
eão foi chamada para os conductores de carroças 



— âo — 

que, todos munidos de aventaes de couro terminados 
em franjas, faziam uma algazarra confusa que era 
produzida pelo idioma que falavam, — o Guarany; 
eram quasi todos paragnayos e todos falavam essa 
áspera lingua; e, se foi a nossa primeira impressão 
essa especialização de profissão, não tardámos a ve- 
rificar que a cidade de Corumbá era, como é, das 
mais cosmopolitas que possam existir. No liotei, na 
rua, no bar, nas casas de commeroio, por toda parte, 
emfim, ouvem-se falar todas as linguas n'essa lon- 
gínqua e pequena Babel, e não serei exaggerado se, 
principalmente não entrando em conta com a guar- 
nição da cidade, disser que o portuguez não é o 
idioma que mais se fala. 



Três ou quatro dias após a nossa chegada, ainda 
alojados em um hotel de Corumbá, resolvemos ir até 
o lugar denominado Urueúm, a três léguas e pouco 
de distancia, afira de vermos se possivel seria ahi 
fixar a nossa residência. 

Bem cedo montámos a cavallo: eu, o amigo Se- 
bastião Botto, a quem fora recommendado, o meu 
collega H. e uma franceza com elle vinda da Europa 
não havia dois mezes, e, portanto, na maior igno- 
rância das cousas do nosso paiz. Se o estrangeiro, 
em geral, se arreceia das ** feras" e das "cobras" em 
pleno Rio de Janeiro, é justo conceder que, a res- 
peito de Matto-Grosso, supponham elles só encon- 
trar bugres anthropophagos e animaes ferozes por 
toda a parte, pois que, mesmo entre nós, o nome de 
Matto-Grosso não dá ideia de cousa muito diíTerente. 

ICntre Corumbá e Urueúm, mais ou menos a 
meio caminho, só existe uma choça de pobres boli- 
vianos que ahi têm pequena plantação e meia dúzia 
de cabeças de gado, e, afora isso, a estrada, a prin- 




Ladario 




Corumbá 



^ n -^ 

cipio descoberta e depois umbrajosa, corre sempre 
deserta e silenciosa de vozes humanas. 

Chegados á roça dos bolivianos, apeámos e to- 
mámos leite, descansámos um pouco, e, de novo a 
cavai lo, seguimos com rumo a Urucúm. Mlle. R., 
apezar de fazer estréa como amazona, seguia na 
frente, com bastante desembaraço, montando um 
bom cavallo que, embora manso, era bastante vivo; 
nós seguiamos logo após, mas, como era natural, a 
nossa ordem variava de instante a instante, con- 
forme os caprichos da estrada e da conversa. 

Eu não posso ter certeza dos pensamentos que 
então atravessaram o cérebro d'aquella estrangeira; 
mas, apezar da bravura que mostrava como caval- 
leira, é licito suppòr que, deante d'aquelle espectá- 
culo novo para ella, na vastidão d'aquelle deserto 
que por certo nunca vira, em meio d'aquella matta- 
ria, o seu pensamento se voltasse, ao menos de 
quando em vez, para "les sauvages, les serpents et 
les tigres"; mas, fosse como fosse, não estávamos 
um kilometro distante da palhoça que deixáramos, 
quando, a um gTÍto de Mlle. R., vimos o seu cavallo 
passando por cima de uma giboia que atravessava 
a estrada. 

Para quem quer que fosse, o caso não deixaria 
de causar uma certa emoção; mas, considerando o 
caso especial da nossa companheira de viagem, 
póde-se bem imaginar a impressão que teria tido; 
e, de facto, pallida a ponto de assustar-nos bastante, 
Mlle. R., n'um mo^ámento involuntário, puxava as 
rédeas do cavallo que, impedido assim de seguir 
adeante e .sapateando no local, estava na imminencia 
de pisar a giboia, embora todos nós gritássemos que 
afrouxasse as rédeas, primeiro, senão o único auxi- 
lio que lhe poderiamos prestar. Com rara felicidade 
o cavallo recuou, sem pisar na giboia nem derrubar 
a amazona; e^ eu e o amigo Botto, já então apeados, 



— ' 22 — r 

ambos desarmados como estávamos todos, recorre- 
mos ao primeiro projéctil usado pelo homem e for- 
necido pela natureza — a pedra — e iniciámos o bom- 
bardeio da giboia. 

Abro aqui um parenthesis para admittir a in- 
credulidade do leitor, mas, para que me não suppo- 
nham emulo de Miinckausen, ficam os testemunhos 
das pessoas que me acompanhavam. 

Sem conseguirmos dominar o inimigo, continuá- 
mos por algum tempo esse bombardeio, mas, a gi- 
boia, ora armando botes para nós e ora se esguei- 
rando, conseguiu entrar n'um recanto de pedras e 
gravatas, onde não só difficil seria attingil-a a pe- 
dradas, como nos arriscaríamos a alguma surj^resa; 
foi então que, em bôa hora, lembrei-me de procurar 
uma arma com os boliiàanos e, montando novamente, 
para lá galopei. 

Dentro em pouco estava de volta com uma arma 
de dois canos, calibre 16, e, apeando e entrando no 
matto onde o Botto ficara de sentinella á cobra, pul-a 
fora de combate com um tiro que lhe espatifou a 
cabeça. 

Foi essa a minha estréa cynegetica em Matto- 
Grosso, e aqui a registro apenas pela sua origina- 
lidade. 



Como inúteis fossem os nossos esforços para 
encontrar morada que nos conviesse em Corumbá, 
mudámo-nos, e installámo-nos na fregiiezia de La- 
dario, sede da flotilha e, como Corumbá, construída 
no mesmo contraforte, em terreno calcareo muito 
duro, com uma elevação de cerca de cincoenta me- 
tros sobre o rio. As ruas largas e sem calçamento 
algum, poeirentas ao sói e lamacentas á chuva, são 
flanqueadas de casas esparsas, acanhadas e más, im- 



_- 23 — 

propriamente construídas para aquelle tórrido clima 
e sem o menor conforto. Como Corumbá, o Ladario 
não possue esgoto, e a agua, apanhada do modo mais 
primitivo na margem do Paraguay, que se incumbe 
de arrastar de Corumbá tudo quanto lhe despejam, 
é distribuída pelas casas em originaes carroças, e 
pelo preço de mil réis o barril. 

A "população canina" da pacata freguezia é por 
certo maior que a sua população humana; mas não 
são esses os únicos animaes domésticos que peram- 
bulam pelas suas accidentadas ruas; porcos, galli- 
nhas, cabras, bois e cavallos pascem tranquillamente 
pela "urbs" e ahi elegem seus dormitórios; e não 
raro é que, se deixardes a porta aberta, tenhaes a 
surpresa de encontrar dentro da vossa sala um ju- 
mento ou um boi . . . 

Além dos animaes domésticos, outros, talvez 
com a mesma falta de ceremonia, andam pelas ruas, 
invadem as casas e, sem falar dos mosquitos, esses 
inseparáveis e importunos companheiros de todos os 
instantes e capazes de enlouquecer quem d'elles não 
se possa defender, as terríveis aranhas caranguejei- 
ras, os lacraus e as cobras fazem \ãsitas que nem 
sempre são muito protocollares. E foi assim que, na 
primeira noute que dormi no Ladario, em rede, cahiu 
do telhado sobre mim (as casas não têm tecto) um 
lacrau; mas, graças ao mosquiteiro, cahindo o lacrau 
sobre este, não tive de ser despertado por tão inci- 
siva caricia. . . 

De outra feita, á noute, estávamos eu e o meu 
amigo Nelson encostados aos humbraes da porta de 
entrada para a sala, emquanto outros collegas, sen- 
tados em cadeiras, conversavam, próximo, dentro da 
sala; súbito ouvimos um alarido e um barulho de 
arrastar de cadeiras e, com grande surpresa, veri- 
ficámos que o estranho movimento era motivado pela 
apparição de uma cobra que, com toda a tranquilli- 



^ 24 — 

dade, passara entre nós, ou por detraz de nm de nós, 
e penetrara na sala. 

Comtudo, a morada no Ladario poupava~nos o 
trabalho da viagem obrigatória a Corumbá, dava- 
nos a liberdade completa de roça, e permittia uma 
proximidade muito commoda dos nossos navios, in- 
clusive do meu "Oyapock", que já havia deixado a 
carreira. 



Como disse, a enchente do rio Paraguay, em 
1912 para 1913, foi das grandes cheias que, de tem- 
pos a tempos, cobrem immensas áreas de campo, 
assolando todo o valle d 'esse rio e de quasi todos 
os seus affluentes, zona essa que constitue o que se 
chama o pantanal de Matto-Grosso ; e como grande 
tivesse sido esta cheia, em melados de Setembro de 
1913, epocha em que chegámos a Corumbá, muito 
altas estavam ainda as aguas do caudaloso rio, e 
cobertos estavam os pantanaes. 

Em frente ao Ladario, existe uma extensa zona 
de pantanal, em meio da qual surge isolado o morro 
do "Sargento"; entre esse morro e o rio Paraguay 
corre o "Bracinho", braço d 'esse rio, que durante as 
cheias, liga dois pontos distantes de seu curso, e que, 
nas epochas normaes, só accessivel a embarcações de 
diminuto calado, communica com o grande rio ape- 
nas na parte inferior. Entre o Bracinho e o Para- 
guay, as aguas, baixando pouco a pouco, foram dei- 
xando ver, hoje os cimos dos arbustos, amanhã as 
pontas da macéga, e, emfim, quando a agua já tinha 
deixado de dar ao pantanal o aspecto de "mar" e o 
tinha transformado em lodaçal, bandos incontáveis 
de marrecas, irerês, frangos d 'agua, carões, coricá- 
cas, tabuyáyás, cabeças-seccas, tuyúyús, colhereiros, 
garças, socos e biguás cobriam todo aquelle panta- 




Na porta de casa. — Ladario 




A bordo do Riquelme, Roosevelt passa eiii ireiíle 
ao Ladario 

























i M 


^^*«JÈt 












MK "j.»' ^^^^H 















o autor conversando com Th. Roosevelt a bordo 
do Nyoac 



— 25 — 

nal, fervilhavam n'aquelle charco, e para chegar até 
essa região, tão rica em caça, bastava atravessar o 
rio! A mn tiro que se disparasse, bandos e bandos 
de irerês e marrecas erguiam o vôo e, em verdadei- 
ras nuvens, atordoavam o caçador com o seu inin- 
terrupto assobio. As garças, voando com lentidão e 
majestade, muito alto, cruzavam o espaço em longas 
filas, brancas, alvas, luzidias; e, ao cahir da tarde, 
como se accorressem a um signal de commando, che- 
gavam ellas de todos os pontos do horizonte para, 
dentro em pouco, cobrir de um lençol branco um 
longo renque de arvores que margeiam o Bracinho. 
Durante o dia, das alturas do Ladario, via-se o 
campo coberto de largas manchas brancas, constitui- 
das por colossaes bandos de garças; além, uma re- 
voada de enormes tuyúyús dava o aspecto de um 
"meeting" de aviação ; e, principalmente ao começo, e 
mesmo durante a noute, os bandos de irerês não in- 
terrompiam a musica do assobio que lhes dá o nome. 

Muita vez, descendo um pouco o Paraguay e en- 
trando pelo Bracinho, gozávamos do bellissimo espe- 
ctáculo que offereciam as suas margens, crivadas de 
todas essas aves aquáticas que, á nossa approximção, 
erguendo o vôo, nos deixavam boquiabertos ante 
scena tão bella. Destacavam-se, d 'entre todos os co- 
lhereiros côr de rosa, que voando em bandos com- 
pactos sob um sol brilhante, produziam um effeito 
cuja descripção não pôde sequer dar uma ideia da 
enorme belleza. 

Infelizmente, por ser recem-chegado, e só ter 
relações com os collegas, entre os quaes não ha- 
via caçadores, muito pouco aproveitei, d 'essa vez, 
d'aquella occasião magnifica e que raro dura mais 
de quinze dias, no começo e no fim das cheias ; ainda 
assim, dei que fazer á minha Greener, que abateu um 
grande numero de peças. 



CAPITULO III 



Projectos de caçada — Encontro com Theodoro 
Rooseveit e viagem a Palmeiras — Na Fazenda 
das Palmeiras — Regresso das Palmeiras. 



O meu fito principal era a caçada de onça, ideal 
que suspirava, ha\da tanto, e que deveria alli rea- 
lizar; mas, quem conhece o interior do Brasil e os 
"caipiras" ou "caboclos", sabe que não é a peso de 
ouro que se pôde obter d'elles a boa vontade, a co- 
adjuvação e coparticipação nas caçadas, e, mais do 
que isso, os seus cães de caça, Bissa gente bôa e sim- 
pes foge ás regras estreitas do egoismo que avas- 
salla os habitantes das grandes cidades, e mesmo de 
outros paizes, e não vê no dinheiro a única cousa 
apreciável, o único bem tangível na terra. Mais gene- 
roso, mais altruísta, mais cavalheiro do que os que 
se dizem ci\41izados e falam em ignialdade, mas não 
a admittem de facto, o caboclo brasileiro e nosso ser- 
tanejo, despoja-se dos seus bens mais caros, sacri- 
fica seus interesses e arrisca mesmo a sua vida, para 
ajudar, para servir, para defender um amigo. 
E' commum que um d 'esses nossos bons patrícios, 
sem bem algum, que mora, sem conforto, n'uma casa 
de sape, sem um colchão para lhe abrandar a rijeza 
do leito de varas, e sem ter quasi o que comer, rejeite 
por um cão de caça quantias grandes, para elle avul- 
tadíssimas, e dê esse mesmo cão, sem o menor cons- 



— 28 — 

trangimento, com satisfação, com prazer, sem o mí- 
nimo interesse, a alguém que lhe tenlia dispensado 
consideração e amizade, e que se tenha mostrado 
digno de sua estima! 

Assim, pois, só com algum tempo de pennanen- 
cia no lugar ser-me-ia possivel tentar uma caçada, 
em que era indispensável o auxilio dos caboclos. 



Estava n'esse terreno de approximação, quando, 
em meiados de Novembro de 1914, isto é, cerca de 
dois mezes depois de ter eu ahi aportado, chegou a 
Matto-Grosso Theodoro Roosevelt. 

Graças a algumas amizades que já então ha\âa 
feito em Ladario e Corumbá, fui convidado a tomar 
parte na primeira caçada de Roosevelt, caçada que 
deveria realizar-se na "Fazenda das Palmeiras", de 
propriedade do Capitão de Mar e Guerra Alves de 
Barros, veterano do Paraguay e ex-Presidente do 
Estado de Matto-Grosso. 

Foi assim que, na manhã de 17 de Dezembro, no 
porto de Corumbá, com viva alegria, saltava a bordo 
do vapor "Nyoac", onde deveria embarcar, momen- 
tos depois, o caçador, explorador e estadista Theo- 
doro Roosevelt, a quem o seu grande paiz tem dis- 
tinguido tanto e o mundo prestado tão grandes 
homenagens. 

Cerca de duas horas após a minha chegada, atra- 
cava ao navio a embarcação que conduzia o illustre 
americano e varias pessoas que o acompanhavam. 
Apresentado que fui ao Coronel Mariano Rondon, 
este apresentou-me logo ao Sr. Roosevelt, cora quem, 
na Confusão do momento, não pude palestrar como 
desejava. Pouco depois, assentavamo-nos á mesa 
para o chá da manhã, terminado o qual tive occasião 



— 29 — 

de eutabolar conversação com o ex-Presidente dos 
Estados Unidos. 

Suppunlia que Koosevelt \àera ao Brasil na 
única intenção de caçar e, como caçador que sou, en- 
caminhei a conversa para esse ponto. Só então soube 
que havia um fim scientifico em sua viagem, e que 
tinham sido formadas duas commissões: uma de 
norte-americanos, chefiada por elle, e outra, de bra- 
sileiros, dirigida pelo Coronel Rondou, 

Não tardou a estabelecer-se grande intimidade 
entre mim e o Sr. Roosevelt, o qual, levando-me ao 
seu camarote, desencapou a sua "Springfield", mos- 
trou-me o acondicionamento das munições, e discutiu 
as vantagens d 'esses sobre aquelles projectis. Depois, 
conversámos sobre as nossas caçadas e separámo-nos 
muito camaradas. 



Ás 4 horas da tarde d 'esse mesmo dia 17, dei- 
xámos o Paraguay e entrámos no Riozinho, braço do 
rio Taquary, transformado hoje em verdadeiro rio; 
e como tivesse naufragado a lancha destinada a subir 
esse rio até um dos portos da Fazenda das Palmei- 
ras, tentávamos agora subir com o próprio "Nyoac". 

Bandos enormes de tuyúyús, garças, colhereiros 
e outras aves orlavam as margens do pittoresco rio; 
campos extensos, ainda alagados da cheia, esten- 
diam-se além; os jacarés pullulavam por toda a 
parte. . . Dentro em breve o navio transformou-se 
em corpo de atiradores contra esses animaes; appa- 
reciam armas de todos os systemas e calibres, e era 
uma fuzilaria continua, ininterrupta, entrecortada de 
risadas, applausos, troças e vaias. 

Já ao cahir da tarde, avistámos, em um campo 
de macéga alta, um animal que parecia anta, mas 
que logo foi reconhecido como um tamanduá-han- 



— 30 — 

deira, que procurava fugir para o campo. Roosevelt 
tinha vivo empenho em matar um tamanduá, pois, 
com a onça, o queixada, o catetú, a capivara e a anta, 
formava elle o grupo de peças que mais desejava 
para o museu de Nova-York. Parado que foi rapida- 
mente o navio, saltou o grupo de caçadores que, auxi- 
liado por dois cães argentinos presenteados a Roose- 
velt, cercaram o tamanduá. "Chenzi" e "Trigueiro", 
que assim se chamavam os cães, postaram-se bem, e 
foi difficil a Eoosevelt achar um momento em que pu- 
desse atirar no tamanduá, o que afinal conseguiu. 

Seguimos novamente rio acima e, ás 7 horas da 
noute, chegámos ao porto de destino. 

Ao jantar, o ex-Presidente dos Estados Unidos 
deliciou-nos com uma variada e interessante palestra 
sobre a politica do seu paiz, a intervenção na Repu- 
blica de S. Domingos, as suas caçadas no centro da 
Africa, etc. 

No dia seguinte, pela manhã, ensilhámos os ani- 
maes e partimos, pois já tinha seguido a nossa ba- 
gagem em carro de bois. Desde a saliida, e durante 
mais de légua, a viagem foi feita atravez de panta- 
naes, com grande difficuldade. A meio caminho fize- 
mos alto para esperar o Coronel Rondou que, com o 
Capitão Amilcar, vinha fazendo um levantamento 
expedito dos nossos caminhos. O sói era ardente, e o 
grupo de cavalleiros apeava e procurava as sombras. 

Roosevelt e eu recostámo-nos por terra, á som- 
bra de uma arvore, e ahi continuámos as nossas pa- 
lestras politico-sociaes; e como alguém fizesse refe- 
rencia ao seu papel na paz Russo-Japoneza e ao 
orgulho que deveria teí' d'isso, elle retrucou dizendo 
não ver n'isso grande valor; que o papel por elle 
desempenhado o seria facilmente por outro qualquer, 
pois que, quer de uma parte, quer de outra, embora 
por motivos diíferentes, havia necessidade de fazer 
a paz, e que, se alguma gloria pudesse ter, sen a a de 




Nota. — Esta photographia foi tirada, dois annos depois, nos 
sertões de Minas Geracs e aqui figura, apenas, para mostrar o animal 
— Tamanduá bandeira. 





.recostamo-nos nor terra, á sombra de uma arvore, ahi 
continuando as nossas palestras... 




— 31 — 

haver trabalhado sozinho, salvo um pequeno auxilio 
do Imperador da Allemanha, que foi o único a aju- 
dal-o. Os dous factos do seu Governo que o enchiam 
de orgulho, continuou Roosevelt, eram: a abertura 
do canal de Panamá e a viagem da esquadra ameri- 
cana em torno da terra. Sobre o canal, estava bem ao 
alcance de todos avaliar da sua enorme importância, 
e sobre a viagem da esquadra, não só os factos poste- 
riores vieram demonstrar o alcance diplomático e o 
acerto de tal resolução, como o successo náutico e as 
lições tiradas de tal viagem foram de grande pro- 
veito . 

Chegando o Coronel Rondou, novamente montá- 
mos a cavallo e, por cerca de 2 horas da tarde, che- 
gámos á casa d 'essa vasta Fazenda das Palmeiras, 
que tem trinta léguas quadradas e mais de trinta mil 
cabeças de gado vaccum. Mais de metade d 'essas 
terras alaga durante as cheias, mas uma enorme su- 
perfície não é attingida, ainda que se trate das maio- 
res enchentes do Paragiiav. 

Além do gado vaccum e da grande variedade de 
caça, povoam os campos d 'essa fazenda cerca de 
cinco mil porcos montados, cousa de que pessoa al- 
guma pensa aproveitar. 



No dia seguinte, em grupos esparsos, começou 
a caçada que foi quasi infructifera. Roosevelt, Ker- 
mit, Rondou e dois "zagaieiros" (1) tinham ido ás 



(1) Zagaieiro é o homem que, armado de "zagaia", 
acompanha (geralmente em numero de dous) o atirador e o 
defende, como veremos aJeante. 

Zagaia é uma lança cujo ferro, forte e afiado, regula ter 
perto de trinta centímetros de comprido sobre oito na maior 
largura, e cujo cabo, de madeira de lei, bastante grosso, re- 
gula dar á lança um comprimento total de cerca de dous 
metros. 

A gravura junto é destinada a mostrar o que é uma 
zagaia. 



-^ 32 ^ 

onças, e eu, apezar do desejo que mantinha de en- 
frentar o nosso grande e astuto felino, tive que dei- 
xar aos illustres hospedes esse glorioso tentamen, 
pois que isso exigia a nossa gentileza. 

Os vastos pantanaes matto-grossenses eram 
para mim, até então, conhecidos apenas de vista; na 
véspera, pela primeira vez, havia atravessado uma 
pequena parte, vindo do porto á casa da fazenda, 
mas, hoje, emquanto o grupo Roosevelt se destaca 
com a cachorrada á busca das onças, eu, ás 5 horas 
da manhã, acompanhado de um "camarada", parto 
a enfrentar os grandes pantanaes, á procura dos ma- 
jestosos cervos, cujo nome scientifico (caricacus pa- 
ludosos) bem indica o seu habitat. 

Atravez dos vastos espaços verdejantes de alta 
macéga, ora com agua pela barriga da cavalgadura, 
ora pisando terra firme, avistando aqui e além ca- 
pões de matto e "carandazaes" (1), penetrámos n'um 
grande "pirizal", pantanal mais profundo, mais lo- 
doso e coberto de "piriri" (rhynchospora storea), 
verdadeiro labyrintho em que todos os cuidados são 
precisos para evitar os atoleiros e os "corichos" (2) 
profundos. Sem almoço e sem termos trazido "ma- 
tula", pensámos, já depois de meio dia, em regressar 
á casa, que estava longe, embora não tivéssemos con- 
seguido ver, sequer, um único cervo; mas, nem sem- 
pre o desejo da realização de um projecto determina 
a sua execução immediata. E foi o que succedeu. 
Theodoro, que assim se chamava o "camarada", não 
era bem "vaqueano" daquella zona da fazenda, e o 



(1) Carandazal é um bosque de "carandá", bellas pal- 
meiras de Matto-Grosso, como mostra a gravura. 

(2) Corichos, poder-se-á dizer, resumindo, que são cór- 
regos de existência ephemera, creados pelas cheias. Alguns 
perduram mesmo na vazante, com as aguas estagnadas, con- 
forme o terreno que encontram. 



— 33 — 

aspecto uniforme do pantanal em geral, e do pirizal 
principalmente, exige uma pratica especial para o 
seu conhecimento. 

A duas ou três léguas da casa da fazenda, em 
lugar inteiramente deshabitado, sem comida e sem 
bússola, estávamos perdidos no meio d'aquelle 
grande mar de verdes campos alagados! 

Depois de penosas e desencontradas caminhadas 
no pirizal, conseguimos alcançar um pedaço "firme" 
em bôa hora seguro como taboa de salvação. Conti- 
nuámos as tentativas, agora mais suaves, e, contra 
o que é com m um a meus hábitos de fácil desorien- 
tação, fui eu quem percebeu o caminho de volta e, 
assim, depois de onze horas de cavalgada em tão 
ingratos terrenos, chegámos á casa das Palmeiras 
ás 4 horas da tarde, com muita fome e sem termos 
visto um cervo. Diz-se que um dia é da caça e outro 
do caçador, e, a ser verdadeiro o adagio, positiva- 
mente esse dia era da caça. . . 

Roosevelt voltara mais cedo do que eu, sem ter 
passado os maus quartos de hora de apprehensões 
por que passei, com menos fome, mas com o mesmo 
resultado cynegetico — zero. 

Quem é caçador não estranha esses contratem- 
pos, pois conta com elles ; Roosevelt não caça de car- 
tola: sabe bem o que são essas cousas e, quando al- 
guém lastimou o seu insuccesso do primeiro dia de 
caçada, respondeu com o seu bom humor de sempre: 
"Meu caro, só consegui matar o meu primeiro 
"grizzle" ao cabo de quatorze dias; ficarei muito con- 
tente se, dentro da semana de que posso dispor, con- 
seguir matar uma onça". E Roosevelt pronunciava 
"onça" com o seu sutaque "yankee", acompanhando 
com gesto enérgico o que já havia dito com energia. 

No dia seguinte, 20, Roosevelt não caçou; ficou 
escrevendo seus artigos e esperando noticias de rasto 
fresco de onças, incumbência que foi dada especial- 

Viagens e Caçadas 3 



— 34 — 

mente a um camarada. Kermit, mais feliz do que eu, 
conseguiu matar um cervo; eu, porém, só matei uma 
capivara, apezar de ter percorrido grande zona de 
pantanal. 

Quer n'esse dia, quer na véspera, eu já tinha 
encontrado rasto de onea, mas rasto velho ; o cama- 
rada a que me referi, porém, teve a felicidade de en- 
contrar rasto fresco e, no dia seguinte, com espe- 
ranças de bom êxito, cedo partiu Roosevelt á caça da 
cobiçada onça. Não fui testemunha, mas sei que, logo 
após á solta dos cães no rasto, a onça, correndo muito 
pouco, trepou n'um páu á beira de um capão, e com 
facilidade e sem sensação, Roosevelt, mesmo do 
campo, atravessou-lhe o coração com uma bala dum- 
dum da sua "Springfield". 

Era uma onça pintada, fêmea, medrosa e de fra- 
cas dimensões; pena é que o nosso illustre hospede 
não tivesse assistido ao combate de um "macharrão" 
malcreado, acuado no matto sujo, e não tivesse visto 
as proezas dos caboclos zagaieiros em taes occasiões. 
Se esta narrativa fôr por deante, tentarei dar uma 
ideia do que é esse espectáculo empolgante, arreba- 
tador e fascinante, o mais bello, estou c^erto, que é 
dado a um caçador presencear, e cuja impressionante 
majestade perdurará para todo o sempre em sua me- 
moria. 

Eu, persistentemente, voltei aos fugidios cervos; 
acompanhou-me, n'esse dia, o Dr. Soledade, e tinha 
como guia um camarada bom vaqueano da fazenda, 
o preto Faustino, crioulo reforçado e um dos melho- 
res zagaieiros da região. Como nos dias anteriores, 
cavalgámos longamente atravez de campos e panta- 
naes, até que, emfim, avistámos um dos tão desejados 
quão arredios cervos, n'uma depressão de terreno 
que formava um pequeno alagado. Apeámo-nos e, 
procurando escondermo-nos por detraz da macéga 
mais alta e de alguns arbustos, eu flanqueando pela 




Roosevelt e a sua 1." onça 




Montaria original (nota da pag. 37) 



/* 



— 35 — 

esquerda e o Dr. Soledade em linha recta, f omo-nos 
approximando do ííei*\*o; este já dava evidentes de- 
monstrações de inquietação quando, antes que per- 
dêssemos a presa de tão diíBcil encontro, apontei a 
minha três canos e, apezar de estarmos ainda bem 
distantes, disparei o cano de bala, visando a paleta. 
O meu companheiro, que en\'idára esforços para ati- 
rar antes de mim, vendo-me apontar, imitou o meu 
movimento, e o tiro do seu mosquetão Mauser partiu 
quasi ao mesmo tempo. Ao estampido dos tiros, quasi 
simultâneos, cahiu o animal, e o camarada, que se 
conservava montado e no local em que nos tínhamos 
apeado, galopou em direcção á nossa victima; esta, 
porém, ao sentir-lhe o tropel, ergiieu-se e, mostrando 
ter uma perna partida, disparou campo a fora, ape- 
zar de ter o Dr. Soledade atirado novamente e no 
momento em que o animal se levantara. Eu, com a 
espingarda aberta, procurando carregal-a, corri com 
todo o esforço de que era capaz, e, sem pretender 
igualar o vencedor do meu homonymo troyano, corri 
ainda assim bastante para que, logo que o c«rvo pa- 
rou, me fosse possível, como foi, atirar sobre elle 
immediatamente. A esse tiro o animal cahiu e, d 'esta 
\'ez, para não mais se levantar. 

Examinando o bello galheiro, verificámos que a 
minha primeira bala havia attingido um pouco mais 
baixo do que era para desejar e, em lugar de pene- 
trar a caixa thoracica ferindo órgãos vitaes, tinha-lhe 
apenas partido a perna; a primeira bala do Dr. So- 
ledade, ao contrario da minha, fora muito alto e, pas- 
sando por cima da columna vertebral, na altura das 
espáduas, mal ferira o couro, pois fizera dous ori- 
fícios que se tangenciavam quasi; a segunda bala do 
mosquetão Mauser apanhara a parte trazeira do ani- 
mal e, tão perto andou do ponto central do alvo que, 
por pouco, não seria possível perceber por onde teria 
entrado. . ., emfim, a minha segunda bala, apezar da 



— 3fi — 

carreira que dei, atravessara a cabeça do cervo, e de 
\-ez, tirára-lhe a ^-ida. A galhada d 'esse cervo não 
primava pelo tamanho, em compensação, muito re- 
gular e bem proporcionada, prestou bons serviços, 
como cabide de chapéus, em nossa casa do Ladario. 

Tirado o couro do cervo, fomos almoçar á beira 
de mna pequena lagoa, onde matámos uma grande 
quantidade de jacarés e algumas capivaras; e é tão 
grande a quantidade de piranhas n'essa pequena, 
mas profunda lagoa, que os jacarés não mortalmente 
feridos por nós, e que procuravam refugio mergu- 
lhando, eram obrigados a voltar apressadamente á 
margem, apezar da nossa presença, tal era a perse- 
guição que lhes mo\'iam as piranhas ávidas de san- 
gue, e cujo numero e ferocidade levavam de vencida 
a força, a corpulência e as bem guarnecidas mandí- 
bulas dos jacarés. 

Para melhor dar ideia da quantidade é piinci- 
palmente da ferocidade d 'essas vorazes piranhas, 
contarei que, tendo atirado n'uma das capivaras 
antes de ter ella ganho a terra íinne, se afundou o 
animal na lagoa; mas, qual não foi a nossa surpresa 
ao vel-a, quasi que immediatamentô depois, como que 
correndo á tona da agua! Corremos a pescal-a com 
um galho de matto, apanhado na occasião, e conse- 
guimos trazer para a margem metade da capivara 
que um cardume de piranhas íizera boiar e empur- 
rava á tona d 'agua! 

Esse facto, com menos detalhe, é citado no livro 
de Roosevelt, "Through the Brasihau wilderness", 
excursões nas quaes tomei })arte durante cerca de 
um mez. 

No dia 22, tendo sido encontrado na caçada da 
véspera rasto de onça, cedo, com a mesma organiza- 
çáo da ante-vespera e acompanhado do um boi car- 



— 37 — 

gueíro (1), o grupo Roosevelt deixou a casa da fa- 
zenda, e Kermit, a quem tocava d'esta vez o tiro, 
matou, do mesmo modo que seu pae, uma onça macho 
de grandes dimensões, que foi atravessada de lado a 
lado por uma bala dum-dum da sua "Wincliester", 
bala que partiu os dous braços do animal, tendo na 
passagem feito os estragos fáceis de imaginar. 
Essa onça foi por nossos hospedes comparada a uma 
leoa, e constituirá um bello trophéu, apezar de, como 
succedeu com a outra, não ter dado a impressão que 
era para desejar. 

Infelizmente, d 'essa onça, não sei por qual mo- 
tivo, não foi aproveitada, a carne, como da outra; 
d'aquella provámos as deliciosas costellas (eii pela 
pnmeira vez) e achámos todos um prato de primeira 
ordem, apezar da sua qualidade de carnivoro não nos 
ter dado essa esperança ; e Eoosevelt, que até então 
havia limitado os seus conhecimentos de portuguez 
á palavra "obrigado" e á phrase ''mais café", am- 
pliou a applicação do nosso idioma reclamando por 
duas vezes "mais onça". Mas, ia sendo injusto, quer 
quanto aos conhecimentos de portuguez por parte de 
Roosevelt, quer quanto ao cozinheiro do Comman- 
dante Alves de Barros. 

Certa vez, Kermit, que fala muito bem o portu- 
guez e que já estava entre nós havia mais de dois 
annos, applicou mal a palavra "legitima", e da troça 
que lhe fizemos, Roosevelt, observador como poucos, 
guardou bem a significação do termo e o sentido erro- 



(1) A utilização do boi como animal de carga e de sella 
c originalidade de que, segundo creio, Matto-Grosso goza o 
privilegio. Ahi, entretanto, esse animal presta grandes ser- 
viços como cavalgadura, pois que serve, como se um cavallo 
fora, para serviços de campo, para viagens e, como se isso 
não bastasse, até para corridas, o que constitue ura sport par- 
ticular áqueíla região. O escrlptor d'estas linhas, como se vô 
adeante, utilizou tal montaria e n'ella deu bons galopes de 
corrida. 



— 38 — 

neo que lhe havia dado Kermit ; assim, mna vez que, 
de volta da caçada, lhe offereciam, com insistência, 
agua de Caxambu, elle enfiou a caneca de folha na 
talha de barro e, depois de ter bebido a agua não 
filtrada do pantanal, que outra não era a da talha, 
apontou para o liquido e disse: "legitima". Excusa 
dizer que a pilhéria fez effeito e todos rimos a 
bom rir. 

De outra feita foi a nossa saborosa canja que 
trouxe interesse á lingua (é claro que me refiro á lín- 
gua idioma. . .) ; Roosevelt não conhecia esse prato, 
que i3ela primeira vez provou na Fazenda das Pal- 
meiras, e provar foi gostar e interessar-se tanto que, 
aprendendo logo o nome do prato, reclamou "^mais 
canja", tal como lhe permittia o seu sutaque; e tal 
foi a impressão deixada pela cíinja, que Roosevelt 
asseverava introduzir a moda nos Estados Unidos, 
se fosse cozinheiro, e que, dentro de um anno, seria 
com certeza o prato predilecto dos americanos. 

Passaram-se assim os dias de que Roosevelt dis- 
IDunha para permanecer nas Palmeiras e, a 23, tendo 
já cedo partido os carros de bois com as bagagens, 
deixámos, pelas 2 horas da tarde, cheios de saudades, 
a casa da hospitaleira e vasta fazenda que, sem que 
eu previ sse, ainda me reservava dias cheios dos 
maiores encantos. 

A caça meuda, os veados e os porcos eram encon- 
trados um pouco por toda a parte, atravez dos pan- 
tanaes e dos majestosos carandazaes, mas, quando 
tínhamos talvez dous terços de caminho feito, o nosso 
hospede quiz atirar n*um tuyúyú que destinaria ao 
museu de Nova-York; apeou-se, ajoelhou-se como de 
costume, fez fogo e errou o alvo a uns trezentos e 
cincoenta metros ; mais dous ou três tiros foram fei- 
tos com o mesmo resultado, até que, pouco mais 
adeante e para o outro lado do caminho, Roosevelt 
abateu um d 'esses enormes pernaltas. Corremos em 



:{í) 

nossas montadas para o loca) em que se abatera o 
animal, mas, oli ! surpresa ! o valente tuyúyú, erguido, 
de azas abertas e bico ameaçador, enfrentava irado 
o grupo de cavalleiros ! Foi preciso que um camarada 
mais destro conseguisse dar uma paulada na cabeça 
do resistente bicho para que tivéssemos terminada 
esta scena, tão extraordinária quão interessante, e na 
qual o instincto de conservação mostrava bem o seu 
j)oder. 

A' tardinha, chegámos ao porto do Eiozinho, e 
lá encontrámos novamente o "Nyoac", que tinha ido 
a Corumbá e que já estava de volta; dormimos a 
bordO; bem abrigados pelos nossos mosquiteiros e, 
ás 7 da manhã do dia seguinte, deixávamos o porto 
do Eiozinho, aguas a baixo, entrando ás 8 horas e 20 
minutos no Paraguay e por elle subindo em busca 
de Corumbá. 

Estávamos na véspera do Natal, esse dia que a 
humanidade inteira, com ou sem ideia de religião, 
dedica ao aconchego do lar, ás doçuras da familia. 
e principalmente ás creanças; e nós, todos nós alli 
reunidos, distantes dos lares e das famílias, tinha- 
mos, insensível, involuntariamente, pensamentos que 
voltejavam em torno d 'isso. Ao almoço, Koosevelt, 
que desde o primeiro dia tinha-me sempre como seu 
vizinho, encaminhou a conversa para a religião; eu 
descorri larga e francamente sobre o que penso a 
respeito: a grande vantagem da sua acção sobre as 
massas, o apoio para os crentes, o consolo para os 
que soffrem, e a diíficuldade que sentia na adopção 
de qualquer d'ellas, embora me sentisse perfeita- 
mente equilibrado, pautando meus actos por uma sã 
moral, fructo principal de qualquer religião bem for- 
mada. Estendi-me ainda sobre o difficil problema de 
encaminhar os filhos na religião, a escolha que fizera 
i:)ara os meus depois de muito reflectir e, após todo 
o meu discurso, algumas vezes interrompido para 



— 40 — 

discussão de um ou outro ponto, ficámos de pleno 
accôrdo, como em geral succedia com as nossas con- 
stantes palestras. 

Eu ia terminar n'esse dia a minha excursão e 
deixar, com pezar, tão agradável companhia, mas 
Roosevelt insistia para que eu continuasse e, de 
accôrdo com o Coronel Eondon, tudo ficou arranjado 
de modo que fosse satisfeita a sua vontade, que bem 
se casava com a minha. 

Eealmente, durante os poucos dias d 'essa pri- 
meira parte da excursão, as nossas relações eram 
cada vez mais estreitas e amistosas, e dir-se-ia que, 
a cada sessão de prosa, que correspondia, em geral, 
a cada refeição, mais intenso tornava-se esse senti- 
mento reciproco. Aliás, pouco após a apresentação 
em que, como sempre, não se trocam mais que pa- 
lavras banaes, a primeira vez que tive occasião de 
conversar com o ex-Presidente dos Estados Unidos, 
na manhã em que partíramos de Corumbá, fácil foi 
sentir atravez da sua conversa, do seu olhar, da sua 
expressão, o homem forte, enérgico, prompto e intel- 
ligente. 

A intelligencia de Roosevelt não é d 'essas que 
se percam em especulações philosophicas vazias, so- 
nhos chimericos de cérebros inúteis que se divertem 
em tecer palavras em torno de hypotheses ; não ; Roo- 
sevelt, como elle próprio diz, não vê importância al- 
guma nas palavras, uma vez que ellas não represen- 
tam acções ou factos; ama e defende a liberdade, 
mas não faz d 'essa "palavra" um idolo intangível, 
pois que, para que todos gozem com ordem d'essa 
mesma liberdade, é preciso regularizal-a e não con- 
sentir que cada um tome a porção que lhe aprouver; 
esse é que é o facto real e é isso que tem importância 
e cunho pratico ; a palavra liberdade em si nada vale, 
e utilizal-a sem peias é querer a anarchia. 




Dr. Soledade, Kermit, Th. Roosevelt e o autor 







Fazenda S. João 



— 41 — 

Roosevelt é o typo do forte, de energia sã e acção 
prompta, e a prova era a viagem que ia emprehender 
atravez do Brasil : descer nm rio desconhecido, e isso 
com 55 annos de idade. 

Mas, como ficou dito, e sem accrescentar mais 
elogios ao meu novo e distineto amigo, uma vez deci- 
dido que prolongaria a minha excursão, foi preciso 
tratar de pôr em ordem o que me pertencia, ver o que 
era mister addicionar para a nova empresa e prepa- 
rar-me para saltar no Ladario, onde necessitaria to- 
mar e ordenar providencias. 

As 2 horas da tarde, passámos pela foz do Para- 
guay-mirim, braço que liga ao rio S. Lourenço e ce- 
lebre na retomada de Corumbá pelo General José 
Maria Coelho, que por ahi desceu de Cuyabá, para 
retomar Corumbá com tropas por elle organizadas; e, 
emfim, ás 4 horas da tarde, tomava eu o escaler do 
meu navio, deixando o "Nyoac" seguir para Co- 
rumbá. 



CAPITULO rv^ 



Viagem á Fazenda de S. João — Na Fazenda de 
S. João — Caçadas no rio S. Lourenço 



Se o prazer da agradaA^el companhia e o género 
de sport já constituiam para mim encantos dos quaes 
um bastaria para arrastar-me, calcule-se como não 
seria intensa a minha alegria, ao juntar- se ainda o 
ignorado do rumo da excursão que iamos em- 
prehender ! 

Correndo o mais que me era dado, só ás 7 horas 
da noute estava prompto e embarcava na lancha do 
meu na\^o, o "Oyapock", para apanhar o "Nyoac", 
em Corumbá, quatro milhas de rio acima. 

Com anciã, esperei que o motor da lancha qui- 
zesse acabar com um d 'esses caprichos que os moto- 
res de explosão reservam para desesperar e muitas 
vezes matar os homens, se d'elles depende, como nos 
aeroplanos, a vida dos mortaes; o motor em movi- 
mento e embarcado que fui, mal nos tinhamos afas- 
tado poH<ms dezenas de metros do costado do navio, 
e eis de novo o recalcitrante motor parado, em plena 
correntada do rio Paraguay ... Oh raiva indizível ! 
Oh desespero ! Oh destino cruel e maldito ! Já se ha- 
via esgotado uma hora de trabalho incessante e inútil 
e de irritação improfícua; a lancha descia plácida 
e serena pela tranquilla correnteza do rio, emquanto 



— 44 — 

o "Nyoac" ficava cada vez mais distante e suspendia 
ferro ás 10 horas ! Amargurados momentos ! 

Quando passámos a contrabordo pelo meu navio, 
eu pedi soccorro, mas, aquella hora, só estava arriado 
um pesado bote a dous remos, e foi elle o enviado em 
nosso auxilio ; mas, se a esse bote já era diflficil fazer 
vencer a correnteza, calcula-se o que seria a dar re- 
boque á nossa lancha, aliás bem pequena. Avançáva- 
mos aos centimetros e com esforços incríveis; o 
temjDO corria vertiginoso, e a esperança de apanhar 
o "Nyoac" fugia com a mesma velocidade. Quasi ás 
9 e meia, conseguimos attingir o monitor "Pernam- 
buco" e, ahi conseguindo uma outra lancha, no seu 
motor, também á explosão, embarquei todas as mi- 
nhas esperanças. 

Os quarenta minutos de subida do rio foram, 
como sempre succede em circumstancias análogas, de 
uma lentidão esmagadora; as luzes dos vapores fun- 
deados em Corumbá não permittiam que eu distin- 
guisse o "Nyoac" d 'entre elles e, assim, só ao termo 
da attribulada viagem, ou antes, a uns cincoenta me- 
tros do navio, consegui verificar que o "Nyoac" ainda 
não tivera deixado o porto; mas era bem tempo. 
Faltavam cinco minutos para as 10 horas da noute, 
e essa tinha sido a hora fixada para termo da minha 
espera. O allivio que senti ao saltar a bordo e a satis- 
fação demonstrada por Th. Roosevelt, ao abraçar-me, 
fizeram dissipar o máu humor que havia bem explo- 
dido contra o>s motores de explosão, que tantos e tão 
bons serviços nos prestam... quando funccionam 
bem. 

Ás 10 horas da noute, deixámos o porto, aguas a 
cima; o rio Paraguay dá ahi três compridas voltas 
das quaes se a\ista, por longo tempo, a cidade de Co- 
rumbá, cujo eífeito é realmente bello com a sua pro- 
fusa e intensa illuminação eléctrica, scintillante na 
elevação em que é construída, debruçada sobre o rio, 



— 45 — 

pittoresca e garbosa como é difficil imaginar a quem 
nunca tenha visto essa longínqua cidade. Por detraz 
d*ella, ao longe, recortando o céu limpido, avista-se a 
massa negra da serra do Urucúm, que encerra as ri- 
cas minas de manganez, a serra de S. Domingos e a 
de Piraputanga; e, emquanto de um lado tem-se esse 
espectáculo, do lado esquerdo, apertando o rio em 
que navegávamos, o pantanal inmienso, sombrio e 
triste na escuridão da noute, estende-se sem fim. 

O dia seguinte, Natal, foi todo de navegação no 
rio Parag-uay; a monotonia das margens baixas, ala- 
gadiças, despovoadas e tristes, augmentava as tris- 
tezas do Natal fora de casa. mas, a conversa animada 
e o bom humor de alguns souberam vencer ou abafar 
a melancolia dos outros. A' tardinha, para o jantar, 
o "salão" do "Nyoac" estava enfeitado com palmei- 
ras e flores agrestes, e assim, não faltou a esse dia 
a pompa que era possivel dar-lhe n'aquellas con- 
dições. 

A "sala de refeições" d 'esse nosso vaporzinho, 
bastante ampla para que sejam armadas as redes, 
quando funcciona como donnitorio, fica a dous pal- 
mos d'agua, e finos varões de ferro, largamente espa- 
çados, cercam-n'o sem nenhuma outra antepara ; duas 
grandes lâmpadas a petróleo, penduradas ao centro, 
interv^alladas no sentido de popa á proa, illuminam 
essa peça ao rez do chão, perdão, ao rez d 'agua, cuja 
ausência de anteparas tanto a refresca quanto per- 
mitte a franca e livre entrada dos mosquitos, motu- 
cas, mariposas, cascudos e toda a espécie de insectos 
que os pantanaes de Matto-Grosso têm por bilhões 
de bilhões, e que, salamandras aladas, ardem pela 
luz. Ora, a Roosevelt, sempre meu vizinho á mesa, 
foi designado um lugar bastante próximo a um 
d 'esses lampeões, embora mais próximo ainda, bem 
em frente, tivesse então de ficar este seu modesto vi- 
zinho; a cortezia fica bem mesmo quando nos possa 



— 46 — 

trazer algum proveito, e foi assim que não tive du- 
vidas em aconselhar Roosevelt a tomar outro lupfar 
mais distante do fasciundor de insectos. O meu ^ázi- 
nho da esquerda não deve ter íicado muito contente 
com o conselho que a minha cortezia e bôa precisão 
fizeram o nosso hospede acceitar, pois que, d'ahi em 
deante, a elle coube a "melhor" porção dos impor- 
tunos insectos. Roosevelt e eu ficámos um pouco me- 
nos atormentados durante o jantar, mas, em compen- 
sação, de quando em vez, olhava para o prejudicado 
\dzinlio e para o iampeão, e exclamava: "le rusé 
commandant. . ." 

Apezar dos turbilhões de insectos que esvoaça- 
vam em torno dos lampeÕes, certa noute encontrei o 
nosso amigo e illustre hospede, sob uma d 'essas lâm- 
padas, muito vennelho, suando por quantos poros ti- 
nha, envohddo por uma nuvem de insectos que, sem 
conta da fidalguia da hospedagem, irreverentemente 
cahiam sobre a cabeça, pescoço, mãos e papeis em 
que escrevia Roosevelt. Este limitava-se a soprar 
continuamente o papel em que corria o seu lapis- 
tinta e, se não fora essa necessidade de desobstru- 
cção a sopro, dir-se-ia que aquella avalanche que o 
envohâa e atormentava não lhe causava o menor 
transtorno. Ao vel-o trabalhando assim, não me foi 
possível deixar de perguntar como podia elle escrever 
d'aquella forma; e Roosevelt, interrompendo um mo- 
mento o seu trabalho, disse-me: "meu amigo^ eu te~ 
nho um contracto; devo dar tantos artigos até tax. 
epocha, e é preciso cumprir". E, como se estivesse 
escrevendo em sua secretária de Sagamore Hill, con- 
tinuou, imperturbável, rubro, suando e soprando, a 
escrever o seu artigo. 

Roosevelt escreve sempre a lapis-tinta e, inter- 
calando dous "carbonos" entre as folhas do bloco de 
papel, tem sempre duas copias, além do original ; este 
elle consei^va, remette uma das copias (do primeiro 



— 47 — 

ponto em que isso é possível), giiarda a segunda e re- 
mette-a de outro lugar. Com tal systema, diz elle, um, 
ao menos, ha de salvar-se. Mas, ainda que não tenha 
artigos para escrever, ou mesmo que os tenha, Roo- 
sevelt trabalha sempre porque, emquanto viaja, es- 
creve o livro que tem de publicar, e de modo tal que 
terminada a viagem está terminado o livro. 

Eu bem conheço a necessidade d 'essa precaução, 
dizia elle; se não tivesse feito assim na Africa, não 
teria escripto livro algnim, pois, após a minha che- 
gada a Kartum, nunca mais fui senhor de mim, e 
muito menos teria tido tempo para escrever um li- 
vro; e, agora, quando terminar esta viagem, só me 
restará o trabalho da revisão das provas, pois tudo 
já estará por mim escripto. 

Sempre crescendo a nossa intimidade, Roosevelt 
ora nos dizia as suas impressões sobre o que vira e 
via na America do Sul, ora contava passagens de seu 
governo nos Estados Unidos, ora discutia questões 
sociaes e theses philosopliicas. 

O nosso hospede mostrava-se seguro do nosso 
rápido progresso, e, assim, asseverava ter certeza de 
que, dentro de cincoenta annos, as margens do Para- 
guay estariam como estão hoje as do Mississipe; di- 
zia que estava farto de ouvir dizer que não havia 
energias sob os trópicos e, no emtanto, tinha en- 
contrado a cidade do Eio de Janeiro, que sabia re- 
formada em curtíssimo prazo, e que era mais bem 
llluminada, mais limpa, mais bem calçada e me- 
lhor policiada do que Nova- York, Paris, Londres, 
Chicago, ou Berlim, só exceptuando esta ultima 
quanto ao policiamento; que vira a Avenida Beira- 
Mar, feita pela mão do homem, e que desafia qual- 
quer outro passeio no mundo; que vira o Instituto 
Oswaldo Cruz e o colossal resultado da campanha 
contra o mosquito; \ãra ainda o Instituto de Bu- 
tatan, onde se enthusiasmára deaute dos trabalhos 



— 48 — 

e resultados obtidos pelo Dr. Vital Brasil sobre 
o soro anti-opliidico, e deante o bem cuidado appa- 
relhamento d'aquelle Instituto, único no mundo, 
apezar da grande Inglaterra possuir as índias e 
ahi ser a cobra um verdadeiro flagello; que vira, 
finalmente, além de outras cousas, o caminho 
aéreo do Pão de Assucar, concebido por brasileiros, 
construido por operários e engenheiros brasileiros, 
com capital brasileiro, e que, se fosse em S. Francisco 
da Califórnia, todo o mundo diria: "veja o génio, a 
audácia dos americanos!" Como suspeitasse poder 
pairar duvidas em nossos espíritos sobre a sinceri- 
dade do que dizia, Roosevelt, cuja sagacidade 6 extra- 
ordinária, accrescentou : "e isso que lhes estou di- 
zendo não é para ser agradável; já escrevi". E, de 
facto, no numero da revista americana "The Out- 
look", publicada a 20 de Dezembro d 'esse anno, os 
maiores elogios são feitos á nossa capital. 

Quando despertámos, no dia seguinte, já viajá- 
vamos em aguas do rio S. Lourenço, por cuja foz pe- 
netrámos ás 4 horas da madrugada. De agua mais 
suja ainda do que o Parag-uay, não diífere o aspecto 
de suas margens do que se tinha encontrado até en- 
tão; mais tarde, pelo correr do dia, uma ou outra 
extensão de matto (cordilheira, como se chama em 
Matto-Grosso) é encontrada pela barranca do rio, 
mas, ainda assim, pouca ou nenhuma será a vanta- 
gem que possa levar sobre as que também se encon- 
tram no rio Paraguay. Durante todo esse dia e toda 
a noute navegámos pelo S. Lourenço acima e, na ma- 
nhã seguinte, cedo, parávamos em S. José Velho, uma 
pequena roça em meio d'aquellas extensões enormes 
e deshabitadas, "estação" onde os navios se abaste- 
cem de lenha, e onde se encontra, ás vezes, um pouco 
de leite, carne e uma ou outra gallinha. 

Duas horas depois, continuámos viagem e, com 
cerca de uma hora de caminho, ás 9 e pouco da ma- 




i 



o pequeno Nyoac 




I 1^- 



Em aguas do rio S. Lourenço 





Jacarés no Rio S, Lourenço 




Photographando jacarés e sendo photographados 



__ 49 — 

nhã d 'esse dia 27, entravamos no rio Cuyabá, nome 
que Roosevelt invariavelmente estropiava, pois dizia 
sempre Caiubá , . . 

Ao nosso hospede estavam reservados alguns 
maus quartos d'hora de troça que lhe fizemos, pois, 
continuando a subir o tortuoso Cuyabá, encontrámos 
um vaporzinho, que vinha da capital do Estado em 
que estávamos, e cujos passageiros, ao passarem pela 
Fazenda de S. João, disseram que lá estava o presi- 
dente do Estado com uma grande comitiva, á nossa 
espera, pois esse era o nosso ponto de destino no mo- 
mento. Roosevelt, embora sem entender bem, perce- 
beu que, parados os dous paquetinhos, conversáva- 
mos sobre a Fazenda de S. João ; e, nós aproveitando 
o ensejo para uma pilhéria, começámos a inventar o 
luxo com que o esperavam, pois era isso que nos te- 
riam contado aquelles que por lá acabavam de 
passar. 

Roosevelt havia trazido somente até Corumbá as 
suas roupas de civilizado; e o traje habitual do hos- 
pede excursionista consistia, d'aquella cidade em 
dearite, em uma camisa de flanella amarello-esver- 
deada, calças verde-pallidas com joelheiras de couro, 
e botas de atacar; para os "grandes dias de festa" 
possuia um casaco da mesma fazenda e cor da calça, 
e, se bem me recordo, nunca o vi em posse de uma 
gravata . . . Ora, calculem, pois, a afílicção do nosso 
amigo quando lhe dissemos que nos esperavam: o 
Presidente do Estado, Ministros, a Força Militar es- 
tadual em grande uniforme, que o programma das 
festas já estava estabelecido, e que o dia da chegada 
seria consagrado a banquete e recepção. 

Com essas pilhérias e sob os protestos de Roose- 
velt, que achava muito amáveis e cortezes aquelles 
que o queriam homenagear, mas que o deixavam com 
isso em sérios apuros, continuámos a subir o rio, até 
que umas choças de palha sobre um trecho mais alto 

Viagens e Caçadas 4 



— 50 ~ 

de barranca, na margem direita, chamaram a nossa 
attenção. Era um pequeno aldeamento de indios já 
meio incorporados na ci\dliza^ão (coitados; que para 
a sua felicidade nunca o sejam completamente. . . ) e 
que alli vi^dam de pequenas plantações, peixes e al- 
gum commercio, n'um lugar bastante pittoresco; pa- 
rámos, photographámos o pouco que era visivel de 
fora, e alguns companheiros saltaram para observar 
os nossos puros patricios e photographar as suas 
choças, e a elles, se possivel (1). 

Reembarcados que foram os companheiros, con- 
tinuámos a \âagem. A zona em que navegávamos era 
de pleno pantanal ; era o quasi infinito alagadiço cha- 
mado "pantanal de S. Lourenço", por causa do rio 
d 'esse nome, e cujas margens, como grande parte das 
do Cuyabá, ficam submersas durante as cheias. Ora, 
08 indios, quer d 'essa região, quer do resto do pan- 
tanal, recorriam a um estratagema que assombra 
pela energia de que dependia, pela quantidade de 
esforço, pelo enorme trabalho de sua execução. Esses 
infatigáveis aborígenes, com a própria terra do pan- 
tanal, construíam enormes aterros, com seis e mais 
metros de altura e com superfície bastante para 
n 'elles estabelecerem as suas malocas, terem suas 
plantações e enterrarem seus mortos. Quem já esteve 
no Peru e viu, ao longo da majestosa estrada de ferro 
que galga os Andes, os admiráveis trabalhos dos 
Incas, nem por essa razão deixa de pasmar á vista 
de um d 'esses "aterrados" dos nossos indios, demons- 
tração viva do esforço e da ousadia de que são ca- 
pazes. 

Áls 8.30 da noute, chegámos e fundeámos em 
frente ao local denominado Aterradinho, e que outra 



(1) No livro que Roosevelt escreveu sobre a sua excur- 
são atrovéz do Brasil, enoontra-se a photographia dos indios 
d'esse aldeamento. 



— 51 — 

cousa não era senão um velho e abandonado aterrado 
de Índios, provavelmente de "Guatós" ou "Bororós", 
tribus que eram domiciliadas n'aquellas paragens. 

Ás 6 e tanto da manhã seguinte, 28, deixámos o 
Aterradinho, e continuámos a subir o rio com des- 
tino á Fazenda de S. João, á cerca de duas horas de 
caminho ; antes, porém, de a termos attingido, encon- 
trámos o vaporzinho "Matto-Grosso", no qual vi- 
nham ao nosso encontro : o Presidente do Estado, 
comitiva e con\ddados, mas todos em trajes simples, 
como convinha, o que muito agradou a Roosevelt, 
que, perspicaz como é, logo lançou os maliciosos 
olhos para mim, repetindo: "le rusé commandant. . ." 

Comboiados pelo "Matto-Grosso", chegámos, 
pouco depois das 8 da manhã, ao barranco da bella 
fazenda, onde, antes, já saltara o Presidente do Es- 
tado, que veio a bordo dar as boas vdndas ao visi- 
tante illustre. Logo saltámos todos e, ao pormos pé 
em terra e ao ser içada a nossa bandeira em um dos 
mastros para isso preparados, uma banda de musica 
entoou o h\Tnno nacional ; todos a isso assistimos pa- 
rados, de chapéu na mão ou em continência, e, uma 
vez a ceremonia tenuinada, dispunhamo-nos a. cami- 
nhar, quando em outro mastro, sobe a estrellada ban- 
deira "Yankee" ao som de uma musica desconhecida 
para os meus ornados; fizemos todos o que já ha- 
víamos feito para com a nossa bandeira, mas, ao ter- 
minar a nova ceremonia e ao encaminharmo-nos para 
a casa da fazenda, perguntei a um dos da comitiva, 
que musica era aquella e se por acaso seria o hymno 
do Estado de Matto-Grossol O homem olhou-me es- 
pantado e respondeu: "não. Senhor, é o hymno norte- 
americano, e foi cousa que obtivemos com grandes 
difficuldades; graças a um disco de grammophone é 
que nos foi possível fazel-o hoje executar, mas foi 
uma trabalheira enorme para escrever as partes e 
organizar, emfim, esse conjuncto. 



nO 



Tive dó do homem no qual, pelo carinho com que 
talava d'aquelle "tour de force", se descobria o au- 
tor; mas, eu, que conhecia tão bem o bello e impo- 
nente hymno americano, não podia deixar persistir 
aquelle engano, e, contando antes, como consolo, a 
historia verídica de um nosso navio de guerra que, 
em um porto do Japão, executou uma musica qual- 
quer, com todas as continências e salvas da pragmá- 
tica, na supposição de que fosse o hymno japonez, 
desfiz o engano do pobre homem, cuja explicação é 
tão interessante quanto a '*gai¥e". Naturalmente, o 
disco do grammophone tinha, indicando uma musica 
ou canção americana — ''americxm song" — os ho- 
mens traduziram a cousa como — Hymno americano 
— e, com enthusiasmo e segurança, applicaram-no ao 
içar da bandeira ... E eu sempre queria saber o c|ue 
teria pensado Roosevelt a respeito de tal extrava- 
gância, . , 

Com o nosso hospede em^grand ténue", istoé, de 
paletot vestido, penetrámos na bôa e confortável casa 
da vasta Fazenda de S. João, pertencente ao Sr. João 
Epiphanio da Costa Marques, fazenda com cerca de 
quarenta léguas quadradas de terras e 40.000 cabe- 
ças de gado vaccum. Além do Presidente, lá encon- 
trámos um dos Secretários do Estado, Dr, João da 
Costa Marques, filho do fazendeiro; o Commandante 
da Força estadual, Coronel Paraná; o aprumado Te- 
nente Rogaciano, official do nosso Exercito, e talvez 
mais umas oitenta ou cem pessoas, que duas vezes 
enchiam, em cada refeição, a muito longa mesa da 
enorme sala de jantar d 'aquelle casarão antigo; e 
quem conheceu as nossas fazendas no tempo da es- 
cravatura, ou quem já leu as descri peões das suas 
festas, pode fazer ideia da sala e da mesa a que me 
refiro. 

Após o almoço, apezar de tarde (mais de 2 horas 
da tíirde) en, o Di*. Soledade e o Tenente Firmo l)n- 



— 53 — 

tra, acompanhados de um vaqueauo, montámos a ca- 
vallo e sahimos a caçar cervos. Pouco nos havíamos 
afastado de casa, e logo avistámos um d'esses bellos 
animaes; entretanto, não só porque não contássemos 
com a caça tão próxima e, portanto, tendo o cervo 
nos avistado antes, corresse a bom correr, o caso é 
que, com essa ou aquella desculpa, a bôa presa esca- 
pou-nos, pois, apenas, nos deu ensejo a que admirás- 
semos, por um curto momento, o seu bello galope 
atra vez da macéga. 

A estação das chuvas tinha começado e, nas vés- 
peras da nossa chegada, já alguns "dilúvios" haviam 
desabado, felizmente sobre a tolda do "Nyoac"; 
agora, porém, estávamos em pleno campo, distante 
de qualquer abrigo, e os pesados aguaceiros amea- 
çavam desabar a todo o instante. As ameaças não 
tardaram muito em transformar-se em dura reali- 
dade, e, ao começo fraca, e depois copiosa, ininter- 
rupta, pesada, a chuva cahia e molhava-nos até os 
ossos; os animaes, de cabeça l)aixa, as orelhas mur- 
chas, passo lento e arrastado, caminhavam a custo; 
mas, ainda assim, defendendo do melhor modo as 
nossas armas, continuámos a caçada. K fizemos bem, 
porque, com lun pouco mais de trabalho, avistámos 
o objectivo da nossa campanha, muito escondido no 
meio da macéga alta, a mostrar apenas pouco mais 
que a cabeça. O Firmo Dutra e o Soledade apearam 
e, como julgasse que tros atiradores eram demais 
para um único cervo, íiquei a cava lio, apreciando a 
scena que se desenrolava, já então sem chuva: aos 
tiros dos dous caçadores tombou o animal, que era 
um cervo, mas cujos chifres haviam cabido, o que lhe 
tirou toda a belleza; destripámos o animal para alli- 
viaiTUOS o mais possivel o peso, engarupámoi-o na 
montada do vaqueiro e, como a chuva meuda reco- 
meçasse e a graúda estivesse prestes a desabar, deli- 
berámos desfazer as duas léguas que haviamos 



— 54 — 

trilhado e voltar á casa, no iuteuto de vSÓ interrom- 
permos a marcha se encontrássemos mn bonito exem- 
plar, que estaria destinado ao meu tiro, pois não 
haWa eu tomado parte na morte do primeiro. Não ha- 
víamos caminhado meia legaia quando, de repente, 
avistámos, a menos de cento e cincoenta metros, bem 
a descoberto, um enorme cervo possuidor de bellis- 
sima galhada, que, estacado, nos olhava firme; não 
havia um segundo a perder, e, com medo que tão bella 
presa me escapasse, apontei-a mesmo de cima do ca- 
vallo ; logo verifiquei, entretanto, que iria perder tão 
precioso tiro e, então, juntando á cautela a rapidez, 
apeei e visei o coração do bello exemplar, que me 
apresentava o flanco, embora tivesse a bem ornada 
cabeça voltada para mim. Tinha o dedo na tecla do 
gatilho quando vi junto a mim, um pouco para traz, 
já de arma apontada, o Soledade, mas se algum 
tempo tenha gasto n'esta narrativa, n'um relance foi 
que tudo se passou, e antes que o nosso companheiro 
fizesse partir o tiro, já o cei*vo cahia fulminado pela 
bala do mjeu mosquetão Mauser, que lhe havia atra- 
vessado o coração. Apezar de destripada, foi uma dif- 
ficuldade enorme para engai*upar-se a nova victima ; 
eu, o Soledade e o vaqueiro, sob a chuva torrencial 
que então cahia, fizemos varias tentativas antes de 
conseguir pôr o cervo na garupa do animal em que 
montava o Firmo, pobre montada que só a passo con- 
segTiiu caminhar até á casa, onde chegou em estado 
de não prestar serviços tão cedo. 

Já era bastante tarde quando chegámos, e, ás 
pressas, fomos mudar a roupa completamento en- 
charcada, bem como as botas, e o meu grande capa- 
cete que adquirira uma espessura de uns três centí- 
metros e um peso de, seguros, cinco kilos. 

Ao jantar recebi os cumprimentos pelo bello 
trophéu, aliás já entregue ao preparador do nosso 
museu e a elle destinado, e, logo após a refeição. Roo- 



— 55 — 

sevelt, dizendo também querer admirar o tão gabado 
cervo, tomoii-me de parte para que o fossemos ver. 
A visita ao cervo fora apenas um pretexto para con- 
versar sobre as aventuras daquelle dia e sobre as que 
lhe estavam reservadas para o dia immediato, e Roo- 
sevelt, com ar de lastima, dizia: "ah, como o meu 
amigo é feliz! pôde ir caçar o seu cervo tranquilla- 
mente, em companhia de um ou dous amigos, e con- 
seguiu o seu intento! Eu também sahi, dizem que 
para caçar onça, mas, meu caro amigo, não era uma 
caçada, era uma procissão; calcule que eram talvez 
umas sessenta pessoas atraz de mim, pelo campo a 
fora, e felizmente os cães nada acharam, pois calculo 
o que seria uma caçada em taes condições ! Mas, ha 
cousa peior, e é d 'isso que eu quero falar, a ver se o 
"rusé Commandant" arranja um meio de modificar 
as cousas; amanhã deve haver, pela manhã, um ro- 
deio (e Roosevelt dizia — rodeu — ) e, depois desse 
rodeio, a caçada de onça; ora, o rodeio será muito 
interessante, mas eu não tenho tempo a perder e pre- 
feriria, portanto, que se fizesse a caçada antes, e o 
rodeio depois; não será isso possível?" 

Era bem claro que um rodeio dependendo da 
finalização de uma caçada incerta, e em pleno calor, 
seria um par de botas, mas, como o essencial era 
agradar a Roosevelt e fazel-o caçar onças, disse-lhe 
que iria immediatamente empregar a minha "ruse" 
e elle ficaria contente. 

Procurei logo o Coronel Rcndon, e tudo ficou 
assentado como desejava Roosevelt: devia o rodeio 
ser após a caçada, ao meio-dia, em local que foi de- 
terminado. 

Roosevelt alojára-se em terra, em um quarto da 
sala de visitas, e nós, com o nosso "Nyoac" atracado 
á barranca, ficámos alojados a bordo, em nossas re- 
des e camas de campanha, bem abrigados com os 
nossos mosquiteiros, e sempre fora dos camarotes 



— 56 — 

onde o calor era totalmente insupportavel. A noute 
continuou chuvosa, e, no dia seguinte, cedo, montá- 
mos a cavallo, reunimo-nos ao grupo que pernoitara 
na fazenda, e seguimos juntos para a caçada. Era um 
grande bando de cerca de oitenta cavalleiros onde a 
diversidade de trajes, de arreios e de armas formava 
um conjunto impagável; o Presidente do Estado jul- 
gou-se na obrigação de acompanhar Roosevelt; va- 
rias pessoas vindas de Cuyabá, sem habito de montar, 
davam espectáculo para boas risadas ; Roosevelt, com 
cara de martyr, seguia na frente, e eu, tocando um 
pouco o meu cavallo, approximei-me do meu pobre 
amigo dizendo-lhe maldosamente: "meus cumprimen- 
tos; não podia ser mais brilhante a procissão; nem 
mesmo lhe falta o S. J orge . . . " e indiquei o santo ca- 
valleiro. O meu amigo, apesar de ter achado graça na 
pilhéria, exprobrou a minha maldade para com elle e 
indagou: "mas isso vae durar todo o dia, assim!" 
Eu poderia ter respondido de um modo consolador, 
o que não fiz por troça ; mas, pouco tempo depois, che- 
gados ao local onde nos deveríamos separar, desta- 
cou-se o pequeno grupo de Roosevelt, a quem, de 
longe, cumprimentei de modo que fosse entendido, e 
o seu cumprimento de resposta, despercebido dos ou- 
tros, foi bem claro para mim. Outros grupos forma- 
ram-se e tomaram rumos diversos ; mas deviam todos, 
ao meio-dia, encontrar-se em local determinado, para 
o rodeio e respectivo churrasco. 

O meu grupo era o mesmo da véspera accrescido 
do sjnnpathico Capitão Amilcar e de um senhor gordo, 
que se dizia caçador, e que deveria ter qualquer liga- 
ção atávica com mestre Tartarin. Propunhamo-nos, 
como na véspera, a caçar cervos, e, segundo dizia o 
vaqueano que nos acompanhava, fácil seria essa ca- 
çada, pois estávamos em local por elles muito fre- 
quentado; apezar d'isso, caminhávamos já havia al- 
gum tempo sem avistarmos uma bella galhada que 



fosse, quando, divulgando uns tuyúyús, quiz atirar 
em um d'elles, pois isso me havia pedido o nosso taxi- 
dermista. 

Estávamos a uns duzentos metros do bello per- 
nalta, e o Soledade insistia para que eu não atirasse, 
pois, dizia, era absurdo querer acertar a tal distancia ; 
mas, desprezando os conselhos d 'este, apeei do ca- 
vallo e, de pé, um pouco afastado do grupo, fiz fogo 
e o tujTÍyú cahiu; voltei-me para montar e, entre ova- 
ções e pilhérias, seguimos todos para o local onde 
cahira a minha presa. Eu e o Soledade cavalgávamos 
na frente, mas, ao nos approximarmos do tuyúyú, 
este levanta- se, e as nossas cavalgaduras refugam 
assustadas; novas risadas, e cerco idêntico ao que tí- 
nhamos feito nas Palmeiras, responderam á altitude 
aggressiva do valente tuyúyú, e ninguém pensava em 
atirar novamente em um animal que até então esti- 
vera cahido por terra e ferido por um projéctil Mau- 
seu. Preparava-me para photographar aquella inte- 
ressante scena, quando, deante de um oh geral e com 
grande pasmo para todos, o meu tuyúyú levanta o 
voo e singra o azul sem fim ! . . . 

Tal foi a surpresa, que ninguém teve tempo ou 
lembrou-se de atirar; além de que, todos nós, de olhos 
fixos no enorme implumado, esperávamos a todo in- 
stante vel-o tombar; mas, cansados de esperar e de 
admirar aquelle milagre, continuámos a nossa pere- 
grinação, commentando o caso interessante e nos mo- 
lhando sob a chuva que já cahia. 

Um dos nossos companheiros tinha deixado cahir 
não sei que objecto, e, alg-uns haviam voltado para 
procural-o, emquanto o vaqueiro, continuando a ca- 
minhar, seguia na frente e era por mim acompa- 
nhado, a passo lento, para esperarmos o resto do 
grupo, quando, de repente, o cavallo em que ia o va- 
queiro refuga, e um enorme e atrevido cachaço passa 
junto a mim como uma flecha. Ainda que não estives- 



— 58 — 

semos despreoccupados e distrahidos como estáva- 
mos, seria difificillimo ter atirado ii'aquella verdadeira 
bala; disparámos os nossos cavallos, mas, tendo o 
porco entrado na parte mais alagada do pantanal, 
onde atolava, tivemos de desistir da perseguição e 
continuar a marcha, agora dirigida para o local do 
rodeio, com o qual não mais contávamos por causa 
da chuva, mas para onde iamos levados pelo compro- 
misso e alg-uma esperança de churrasco ... Já está- 
vamos bem próximos do ponto da reunião quando 
avistámos um cervo, cujo tiro, como era justo, não 
me competia; o Soledade e o Fiimo Dutra, a pretexto 
do perigo que haveria em atirar na direcção em que 
estava o animal, seguiram a contornal-o. , . e a appro- 
ximar-se. Ficámos eu e o Amilcar apreciando a ma- 
nobra ; com isso, porém, o cervo, na intenção de fugir 
do inimigo que se approximava, afasta- se d'elle e 
vem para o nosso lado, como a tentar a minha pon- 
taria; e, porque o Amilcar não devesse ter os escrú- 
pulos que eu tinha e nem para isso tivesse motivos, 
passei-lhe o meu mosquetão que, apezar de ter despe- 
jado os seus cinco tiros, deixou pastar em paz o bello 
cervo. . . 

Com mais uns dous kilometros de marcha chegá- 
mos ao local onde deveria ser o rodeio que, conforme 
previramos, não foi realizado; e, como ornássemos 
vozes em um capão próximo, para lá dirigimos as es- 
peranças de nossos estômagos, isto é, para lá fomos 
á busca, de churrasco. Encontrámos alguns peães ou 
vaqueiros, como se diz em Matto-Grosso, que espe- 
ravam os retardatários constituídos pelo nosso grupo, 
pois que os demais, muitíssimo antes e desencoraja- 
dos pela chuva torrencial, já haviam passado para a 
casa, sem ter comido o churrasco, cousa em que fomos 
obrigados a imital-os, pela forte razão de que o tal 
churrasco não existia. Com a triste decepção da au- 
sência do churrasco, e com o estômago a dar horas, 



— 59 — 

partimos, acompanhados pelos peães, com a maior 
velocidade que nos permittiam o terreno alagadiço, 
os cavallos fatigados e a chuva que nos encharcava, 
em demanda da casa e de um reconfortante almoço 
que aquecesse os nossos corpos tão molhados. Ao cabo 
de menos duas horas de marcha estávamos chegados, 
tão molhados por ióra quanto esfomeados por den- 
tro, e, lépido, corri para bordo na intenção de mudar 
roupa e botas, ás pressas, para devorar o almoço. 

Infelizmente, as minhas botas, molhadas da vés- 
pera, não tinham ainda seccado, e, como estivesse 
esgotada a minha provisão de calçado, foi somente 
á amabilidade do nosso companheiro Dr. Cajá seiras 
que de\d a possibilidade de calçar botinas enxutas; 
mas, como a roupa que me restava, também a única 
enxuta, tivesse calças de montar, continuei em apu- 
ros, até que umas perneiras salvadoras vieram pôr 
termo á minha afflicção. Mas não havia negar, algum 
máu génio persegnia-me n'ewsse dia, pois maior infe- 
licidade me aguardava, e, como fosse um mal que 
tivesse tocado a todos, verifiquei, embora com pezar, 
que, pelo menos no caso em questão, o mal de muitos 
não serve e não é absolutamente consolo algum. Foi o 
caso que, depois de ter vencido as diíficuldades de ves- 
tuário e conseguido, emfim, apromptar-me para o 
almoço, tendo ainda augmentado o appetite, tive a 
noticia triste, desagradável, surprehendente, desani- 
madora, de que não havia almoço! Pois que, senho- 
res, seria possivel que depois d'aquellas caminhadas 
e chuvas, d'aquelle exercício todo, tivéssemos de ficar 
de estômago vazio 1 ! 

Era; era perfeitamente possivel e desgraçada- 
mente certo que não teríamos almoço, e não havia 
outra cousa que fazer senão entreter os estômagos, 
a bordo, com chá e biscoutos, que foram uma verda- 
deira salvação; esperámos com isso o jantar que a 
todos parecia em atrazo, e, depois que a fome des- 



— (iO — 

appareceu e as linguas foram mais livres, soube, con- 
fessado em segredo pelo nosso hospede, que fora elle 
o causador da desgraça que affligiu os nossos estô- 
magos durante todo aquelle dia, pois foi elle próprio 
quem comera todo o almoço... por adeantamento ! 
Não vão pensar que o meu amigo fosse capaz de, so- 
zinho, comer o almoço destinado a tanta gente; não, 
e, ainda que o fizesse, eu não seria capaz de denun- 
ciar uma fraqueza. . . tão forte. 

O caso <3 mais simples do que parece, embora 
nada simples tivesse sido aguentar a fome d 'aquelle 
dia; mas, é que, nós, a bordo do nosso "Nyoae", man- 
tendo os bons e salutares hábitos de Roosevelt e de 
seus patrícios e companheiros, tomávamos, cedo, logo 
depois de nos termos levantado, o nosso confortante 
e solido hreakfast, composto de frios, chá, biscoutos, 
doce e queijo; almoçávamos ao meio-dia, tomávamos 
chá ás 5 e jantávamos ás 7 e meia; e, para quem está 
habituado a fortificar o seu estômago logo cedo, o 
nosso costume de contentar-se com uma canequinha 
de café, pela manhã, e assim esperar o almoço, de 
modo algum pôde convir. Ora, tendo o nosso hospede 
alojado em terra, levaram-lhe, bem cedo, com muita 
solicitude e amabilidade, a clássica e simples cane- 
quinha de café, mas, como não apparecesse mais nada 
e como a amabilidade e a solicitude não pudessem 
substituir a solidez do hreakfast, Roosevelt chamou 
seu filho Kermit e expoz-lhe a situação difficil em que 
se encontrava. Kermit, atravessando a sala de visitas 
e o corredor, foi até a sala de jantar, e, na meia 
obscuridade que ainda reinava, pois não era dia, con- 
seguiu ver algTimas iguarias sobre a mesa e voltou ao 
quarto do pae com essa boa nova. 

Foi o nosso amigo em pessoa que nos contou esta 
scena e as consequências que se lhe vão seguir, e era 
de rir a bandeiras despregadas ouvil-a do próprio 
protagonista: "A^ vista do que me noticiava Kermit, 



— 61 — 

dizia Roosevelt, compellido pela necessidade, atraves- 
sei a sala de visitai, como um menino que vae furtar 
uma gulozeima, esgiieirei-me pelo corredor, e, com 
grande contentamento por não ter encontrado nin- 
guém e por ter encontrado um delicioso peru frio, 
adeantei cautelosamente uma cadeira, sentei -me sem 
rumor e, auxiliado por Kerniit que me fazia bôa com- 
panhia, ataquei o peru e o mais que li avia por perto, 
com a maior rapidez que me era possivel, pois não 
queria ser apanhado; mas, qual! mal havia encetado 
com avidez e gula o meu precioso breakfast, e logo 
apparece um outro hospede que, vendo aquelle máu 
exemplo, senta-se também á mesa com a mesma dis- 
posição que eu... Mas, oh! vergonha, são agora os 
próprios donos da casa que me pilham em flagrante! 
Outros hospedes surgem e sentam-se também á mesa, 
pois, vendo-me fazer aquella refeição, entendem que 
a mesa estava posta para aquelle fim, e, dentro em 
pouco fica a mesa cheia de gente e vazia de comida!" 
E ahi está como Eoosevelt comeu o nosso almoço, 
e como terminou a prosa da segunda e ultima noute 
da estadia na Fazenda de S. João. 



No dia seguinte, antes, das 8 da manhã, partimos 
aguas abaixo, acompanhados por uma lancha em que 
iam o Dr, João Costa Marques, Major Paraná, Te- 
nente Rogaciano, zagaieiros e cães, visto como de- 
víamos caçar no Rio S. Lourenço, acima da foz do 
Cuyabá. Por cerca de hora e meia chegámos á foz 
d 'esse rio e, deixando-o, começámos a subir o S. Lou- 
renço, até que, com perto de duas horas de marcha, 
tendo o pessoal da lancha avistado rasto de onça em 
uma praia, parámos e saltámos para tentar a caçada. 
Apezar do rasto não ser fresco, soltámos os cães, mas, 
sem obtermos resultado algum, reembarcámos, pelas 



— 52 — 

õ horas, e, continuando a subir o rio á procura de um 
bom ponto para pernoitar, atracámos, deix)is das 6 
horas da tarde, a uma bella praia e ahi passámos a 
noute. -^ 

Ao clarear do outro dia, ou seja pelas 4 horas da 
madnigada, deixámos o pouso e subimos novamente 
o rio ; mas, pouco depois, seriam 6 horas, já de novo 
parávamos para iniciar a caçada d'aquelie dia, que, 
por má sorte, deveria ter, como teve, o mesmo resul- 
tado da véspera. 

As piranhas são em tão grande numero n'esse 
rio, que mal ha tempo para o pescador jogar n'agua 
o anzol e logo tem que retiral-o com uma piranha. 
Serve a mesma isca innumeras vezes, pois que, no 
seu excesso de voracidade, a piranha ferra-se por si 
mesma, e raramente estraga ou come a isca tenta- 
dora; mas, não são as piranhas os únicos hospedes 
que em abundância povoam este rio, e a prova era a 
desfaçatez com que dous enormes jacarés vieram pos- 
tar-se entre a margem e o nosso navio, ficando talvez 
a menos de dous metros d'este, e zombando das pe- 
quenas cousas que arremessávamos para pôr em 
prova a sua ousadia, A apparição d 'esses dous sau- 
rios deu lugar a uma scena bastante interessante e 
que, com muita felicidade, foi apanhada }3elo nosso 
bom companheiro Tenente Reis, em seu apparelho 
cinematographico : é que, quasi todos nós munidos de 
machinas photographicas, a todos occorreu o mesmo 
pensamento e, em dado momento, encontrámo-uos uns 
quatro ou cinco no mesmo local, de machinas em pu- 
nho. Aguardávamos ou procurávamos um momento 
favorável para um bom instantâneo comprovador da 
temeridade dos crocodilos; mas, mal sabíamos nós 
que, servindo ao Tenente Reis como os jacarés nos 
serviam, este nosso bom companheiro aproveitava o 
momento e apanhava em cinematographia aquella 
perseguiçáo photographica. 



— 63 — 

O 1° de Janeiro de 1914 reservava ao nosso hos- 
pede uma prova de resistência com a qual elle não 
contava. As 6 horas da manhã d 'esse dia, Roosevelt, 
seu filho Kermit, o Coronel Rondon, o Major Paraná, 
o Tenente Rogaciano e dous ou três camaradas, com 
cães, partiram para a caçada de onça, e encontraram 
rasto fresco, o que não era dif5cil, pois, todos nós 
achámos um pouco por toda a parte. Mas, como fos- 
sem ruins os cães, embora tivessem levantado uma 
onça, corriam mal e sem ^-igor, de sorte que, tomando 
ella bastante deanteira, em lugar de dar acuação, se- 
guiu sempre atravez de pantanaes e conchos pro- 
fundos, obrigando os caçadores aos mesmos cami- 
nhos. Nós, que não tínhamos feito parte da caçada 
de onça, já havíamos voltado das nossas caçadinhas 
e, como já fosse perto de 1 hora da tarde, começámos 
a ter preoccupações pelos que, até aquelle momento, 
não tinham voltado. Em vão apitámos e esperámos; 
a lancha desceu e, depois, durante uma hora subiu o 
rio, apitando, sem nada saber do grupo Roosevelt, 
que nos parecia perdido. Só depois de 4 horas da 
tarde, quando era grande a anciedade de todos, ou- 
vimos gritos e um camarada appareceu na barranca ; 
mandámos buscal-o e, ás 4 e meia, começámos a subir 
o rio, para receber os caçadores, que deveriam estar 
muito acima, pois calculava o camarada os haver dei- 
xado antes do meio-dia, para vir trazer o recado em 
virtude do qual subíamos o rio. Depois de õ horas, 
ouvimos gritos que responderam aos nossos apitos, 
e, logo depois, nitidamente, a voz de Roosevelt que 
perguntava, em ar do troça, pelo almoço. Essa gente 
não havia levado alimento algum, e, como a onça ti- 
vesse caminhado sempre, forçou-a a um exercício vio- 
lento, sendo os caçadores muitas vezes obrigados a 
nadar nos eorichos e andar quasi sempre no panta- 
nal; afinal, chegaram a bordo o Tenente Rogaciano 
e Roosevelt que, apezar dos seus 55 annos e seu peso, 



~ 64 — 

resistiu perfeitamente áquella dura prova. O Dr. João 
e o Major Paraná haviam ficado a uns dous kilome- 
tros, prostrados no caminho, e de tal modo extenua- 
dos que declararam preferir morrer onde se achavam 
a dar um passo que fosse. Faltava ainda o infatigável 
Kennit ; esse mais resistente do que os próprios cães, 
seguia na frente d'elles, rastejando e animando-os, 
quando todos haviam abandonado a partida cansa- 
dos e desanimados; por fim, os próprios cães fatiga- 
ram-se e recusaram seguir o rasto que o persistente 
Kermit os fazia cheirar, e só então este resolveu vol- 
tar, indignado com a fraqueza dos cães. Levaram 
algum alimento e agua mineral para os inválidos, e 
a chalana que os reconduziu para bordo trouxe tam- 
bém Kermit e a cachorrada. Todos nós gabámos a 
resistência de Roosevelt, realmente invejável em um 
homem d'aquella idade, e este, aproveitando o mo- 
mento, disse ao Coronel Rondou: ''Creio que agora 
estão convencidos de que poderei descer o rio da Du- 
vida". 

Roosevelt, muito observador, havia notado as 
preoccupações que todos tinham sobre a sua pessoa 
na arriscada empresa em que se mettera; pois, tendo 
partido de seu paiz com intenção de subir o rio Pa- 
raguay, ganhar o Arinos, descel-o a encontrar o Ta- 
pajoz, e por este chegar ao Amazonas, ao saber que 
esse era um caminho já muito trilhado e feito com- 
mummente, d'elle desistiu para arriscar-se ás incer- 
tezas e aos perigos que apresentava a descida do rio 
da Dmáda, rio assim chamado pela duvida em que 
estavam os membros da Commissão Telegraphica 
sobre a direcção que tomaria a corrente que haviam 
encontrado, nas immediações de José Bonifácio, 
cerca de 500 kilometros de Tapirapoan. 



CAPITULO V 



Viagem a S. Luiz de Cáceres — Fazenda do 
Descai vado — Cáceres. 



Descemos com o "Nyoac" até um bom pouso, e, 
ao Clarear do dia seguinte, começámos a descer o rio, 
d 'esta vez com intenção de retomarmos o Paragnay, 
pelo qual deveríamos subir ainda muito. Com duas 
horas de viagem encontrámos o Cuyabá, em cuja foz 
nos despedimos dos companheiros que, seguindo na 
lancha, deveriam voltar a S. João; algum tempo de- 
pois, atracávamos em S. José Velho, d 'onde, depois 
de alguma demora, largámos aguas abaixo até que, 
depois de navegarmos todo o dia, entrámos, ás 7 da 
noute, no caudaloso Paraguay. 

No dia seguinte soube que, durante a noute, ha- 
víamos parado no lugar denominado Acuryzal, onde 
recebemos o Tenente Vieira de Mello, commandante 
do destacamento que acompanharia a expedição, 
oflficial que, além de trazer os chronometros da com- 
missão, trouxera também uma carta para mim. 

Tratava-se, nada mais nada menos, do meu re- 
gresso ao Ladario, para assumir o commando da 
nossa Força Naval, regresso que deveria ser urgente 
e, se possível, feito na conducção que era portadora 
da carta. Ora, jà tendo a lancha regressado á Co- 
rumbá, havia dous dias, e não havendo meio de trans- 

Viagens e Caçadas S 



— 66 — 

porte para mim, só me restava iim recurso : continuar 
a ^dagem até S. Luiz de Cáceres, agora nosso ponto 
de destino. 

Assim fiz, e agora subindo o rio entre suas mar- 
gens chatas, baixas, ladeadas sempre de renques de 
"aguapés", tinbamos a impressão, quasi. de navegar 
em uma vareda fluida atravez de uma baixa campina, 
pois, já tínhamos deixado por nosso bombordo, na 
margem direita, as montanhas que formam os fun- 
dos das grandes bahias de Mandioré e de Guahyva, 
esta tão vasta talvez como a nossa Guanabara, e 
onde, ao longe, se avistava um dos marcos divisórios 
dos nossos limites com a Bolívia. 

Pelas 3 ou 4 horas da tarde, o nosso "Nyoac" 
atracou á barranca para limpar fogos; a tempera- 
tura d 'esse dia, das mais altas que supportámos, era 
talvez de mais de 40 graus centígrados á sombra; e 
o SÓI, causticante como fogo, elevava essa tempera- 
tura a muito mais de 60 graus ! Como o navio atra- 
casse, todos nós pensámos em aproveitar a occasião 
para caçar; eu, porém, reflectidamente considerando 
a ardentia do sói e a quasi nenhuma probabilidade 
de êxito, deixei-me ficar a bordo, "gozando do 
fresco" que nos proporcionava o abrigo da coberta. 

Quasi todos saltaram; e até mesmo o louro e 
vermelho Commandante do navio, resolvendo n'esse 
dia cultuar Santo Huberto, saltou com o Dr. Sole- 
dade. Roosevelt, mal transpoz a prancha que se lan- 
çava para o barranco, desistiu e achou que mais valia 
seguir o bom exemplo do "rusé Commandant". Cerca 
de cinco minutos depois, o robusto Dr. Soledade com 
a roupa encharcada de suor, e o Commandante do 
navio transformado em lagosta cozida, regressaram 
exhaustos e abatidos pelo sói realmente insupporta- 
vel. Todos regressaram, emfim, salvo Kermit que, 
ao que parecia, não soffria as influencias da oanieula. 



— e? — 

Já alli estávamos, liavia mais de uma hora, e, 
como estivessem limpos os fogos, e Kermit não appa- 
recesse, fizemos apitar o navio para prevenir de que 
estávamos promptos. O nosso signal foi comprehen- 
dido, e não tardou que vissemos apparecer no bar- 
ranco o infatigável companheiro, tal como se tivesse 
sahido de um banho, tão encharcadas de suor esta- 
vam as suas roupas. 

Quando Kennit apparec^u nós estávamos sen- 
tados á mesa do liincli, e qual não foi a nossa sur- 
presa vendo que, desprezando a prancha, o nosso 
Kermit atirou-se ao rio para galgar o na^^o. 
Vencendo a distancia, aliás curta, que nos separava 
de terra, o nosso bom companheiro, agora enchar- 
cado d 'agua, sentou-se fleugmaticamente á mesa, fez 
limch em nossa companhia, e só depois d 'isso foi mu- 
dar a roupa. . . 

A viagem, n'esse trecho de rio, talvez se tor- 
nasse monótona se não fosse a agTadavel palestra 
dos bons companheiros; tranquilla, porém, não po- 
deria ella ser, porque, como se não bastassem os 
mosquitos, bandos de mutucas (enormes moscas 
ouro-negras de fen*ão acerado) perseguiram-nos ter- 
riveis e importunos, sem nos dar um instante de so- 
cego; e já era com impaciência e anciã que esperá- 
vamos a hora dos mosquitos, isto é, a uoute, único 
remédio contra as terríveis mutucas. 

Os photogi'aphos não tinham agora muito que 
fazer, ainda assim, e talvez por isso, consegTiiram 
uma photographia original. Eoosevelt não se confor- 
mava com a dormida em rede, e nem mesmo d'ella 
se utilizava para repousar ou ler durante o dia, mas, 
lá uma vez, ou por não ter á mão uma cadeira, ou 
porque quizesse ensaiar, deitou-se a ler, e foi quanto 
bastou para ser apanhado pelas objectivas. Outra 
vez, estando o ex-Presidente dos Estados Unidos, de 
agulha em punho, a remendar as calças, corri para a 



— 68 — 

minha "Gôerz", mas não fui bastante feliz para ter 
essa interessante prova photograpliica das habilida- 
des do notável estadista. 

Durante as refeições as nossas palestras conti- 
nuavam sempre e, certa occasião, dizendo o nosso 
hospede que não dava importância alg-uma á questão 
de tarifas, que tanta celeuma sempre levantava, 
objectei-lhe que, de facto, isso visava os interesses 
internacionaes; o meu interlocutor, porém, que ha- 
via julgado a questão sob um ponto de vista mais 
geral, respondeu-me com esta pergunta: "acredita 
que a Inglaterra livre cambista, e a Allemanha pro- 
teccionista, teriam deixado de attingir o ponto em 
que estão, se tivessem trocado os systemas! E, con- 
tinuando no seu ponto de vista, Roosevelt accrescen- 
tou: ''ha uma série de questões theoricamente muito 
importantes, que apaixonam as massas e até os diri- 
gertes, que são mesmo, ás vezes, causa de luctas 
desastradas, e que, na pratica, não têm a menor im- 
portância, isto é, que a adopção do methodo preco- 
nizado por um ou por outro é de resultado perfei- 
tamente idêntico. O direito de voto ás mulheres por 
exemplo, é uma questão que tem sido muito debatida 
em toda a parte; pois bem, nos Estados Unidos, nós 
temos Estados em que as mulheres têm os mesmos 
direitos políticos dó que o homem, ao passo que, em 
outros Estados, esses direitos não são a ellas exten- 
sivos. Ora, não pôde haver um melhor campo de 
observação do que esse, olferecido dentro de um 
mesmo paiz, de uma mesma raça e sob a influencia, 
portanto, dos mesmos hábitos e costumes. Pois bem: 
quer n'um, quer n 'outro caso, as mulheres que sabem 
ter e manter mn lar o fazem igualmente com qual- 
quer dos dous systemas, ao passo que as trans\iadas 
da missão de mães de familia, que não sabem e não 
querem ser procreadoras e educadoras de seus filhos, 
também não mudam de propósito, quer tenham, quer 



— 69 — 

não tenham os direitos politieos, do homem. Um dos 
problemas mais sérios que eu vejo, dizia Roosevelt, 
é o do capital; e uma das cousas que eu mais admiro 
em nosso paiz é a ausência de anarchistas". E, como 
nos parecesse que nosso hospede estivesse, a julgar 
por esta phrase, no mesmo pensamento que nós, re- 
torqui-lhe dizendo que julgava a inexistência de 
anarchistas no Brasil proveniente do que imputavam 
como um dos nossos príncipaes defeitos, isto é, a 
nossa desmedida liberalidade ou nenhuma ideia de 
economia. Com o nosso systema de gastar tudo, sem 
pensarmos em juntar reser\^as, o com a nossa na- 
tural generosidade, o capital subdivide-se, espa- 
Iha-se, e desapparecem a fome e as necessidades pre- 
mentes, que são os alicerces do anarchismo. 

Se, em vez d 'isso, fosse a indole do povo a cau- 
sadora d 'esse phenomeno que, com justa razão, en- 
thusiasmava Roosevelt, os maus elementos, uma vez 
importados, germinariam e progrediriam; entre- 
tanto, a planta ruim, transportada para o nosso solo 
bom e fértil, logo se transforma, pois que não mais 
mergulha as suas raizes na dura necessidade, lugar, 
aliás, onde florescem os grandes capitães. 

De pleno ac^ôrdo, deixámos a mesa de jantar e, 
só no dia seguinte, cedo, antes das 6 da manhã, nos 
encontrávamos, ao enfrentar com o nosso "Nyoae" 
um aldeamento de Guatós, esses grandes canoeiros 
e caçadores. Um velho e um rapazinho, cada um em 
sua canoa, correram para o navio assim que o viram 
parado, e aquelle, já \'iciado pela civilização, e já 
também conhecedor e escravo d 'esse grande flagello 
que é o álcool, pedia instantemente que recebêssemos 
um remo em troca de meia garrafa de cachaça. 
Mas, seguindo adeante, deixámos sem cachaça o in- 
consolável Guató, destinado, como a sua grande 
tribu, a rápido desapparecimento. Esses Índios são 
grandes caçadores de onças, e, era taes caçadas, ado- 



— 70 — 

ptam um processo que tem tauto de original quanto 
de ardiloso e arrojado : aproveitando que o pantanal 
cheio transforme alguns capões de matto em ilhas, 
o nosso Guató observa em qual d 'estes terá urrado 
uma onça ciosa de amores ou de combates, e, con- 
forme a epocha, de um outro capão julgado próprio, 
o ardiloso Guató provoca o animal ao combate, ou 
o attrahe aos desejos, imitando o urro que for con- 
veniente; a mulher do indio acompanha-o na peri- 
gosa empresa, e quando a onça, illudida pelo arre- 
medo do indio, procura a nado ganhar o capão de 
onde a chamam, o casal de indios lança- se na canoa 
ao encontro da fera, e o vasto e deserto pantanal é 
testemunho d 'esse combate em que, o indio armado 
de zagaia e a india de espingarda, ou flecha, nem sem- 
pre levam de vencida o nosso valente felino, que tem 
na agua quasi que a mesma assombrosa agilidade 
com que em terra faz prodígios. 

Já deixámos para bem longe o pequeno aldea- 
mento de Quatós: subimos sempre, e agora, quasi 
sem aguapés em suas margens, o rio corre entre 
immensas campinas cobertas de macéga alta onde, 
de longe em longe, rareiam pequenas ilhas de vege- 
tação mais alta, ou pequenos capões. N 'essas vastas 
planícies abunda o nosso bello galheiro, o cervo, e 
já viramos, distante, o majestoso galopar d 'esse gar- 
boso animal; no dia seguinte, porém, tão próximos 
appareceram três d 'esses cervos que, sem reflectir 
na maldade e só ouvindo o instincto de caçador, corri 
ao meu mosquetão Mauser e alvejei o mais bello 
exemplar. O nosso vaporzinho trepidava bastante, o 
que multo diíScultou a precisão do tiro; e, por isso 
ou porque tivesse mal visado, o caso é que, feliz- 
mente, errei o tiro, e os três cervos, galopando 
velozes e soberbos, desappareceram na campina 
immensa. 




Aldeiamento dos Índios '"Giiatós", no rio Paraguay 



_ 71 — 

Antes das 4 horas da tarde d 'esse mesmo dia 4, 
atracávamos ao trapiche de madeira da enorme fa- 
zenda "Descalvado", na margem direita do Para- 
guay, com mais de duzentas léguas quadradas, e ses- 
senta mil cabeças de gado. Apezar do fundo d 'essa 
fazenda ser linha de limite com a Bolivia, pertence 
ella ao estrangeiro — a "Brasilian Packiug and Cattle 
Company", — que, por sua vez, a comprou de uma 
companhia belga, que ahi fabricava extracto de 
carne. Esse colosso possuia quinhentas mil cabeças 
de gadol mas, os Belgas, no afan de fabricar o seu 
producto, estúpida e criminosamente, abatiam tudo 
quanto repontava o rodeio, sem olharem sexo nem 
idade; juntava-se a isto o roubo que, constantemente, 
praticavam na fronteira da Bolivia, e que, segundo 
nos informaram o administrador e outras pessoas, 
chegava a ser de mil cabeças por mez; pois, ainda 
assim, após trinta annos de dominio belga e manu- 
tenção de tal regimen, a nova companhia encontrou 
sessenta mil cabeças, que não serão facilmente dizi- 
madas, pois que, além de não proseguirem na ma- 
tança estúpida, mantêm os novos proprietários, se- 
gundo ouvimos, uma policia activa e numerosa, e ca- 
paz de evitar a continuação dos roubos. N'essa co- 
lossal fazenda vimos pilhas de couros de onça, na 
maioria mortas pelos Índios Guatós; mas, outras pi- 
lhas de couros seguiam-se ás de couros de onça, e 
eram essas fornecidas pelos cervos, cuja matança 
barbara e destruidora vae a mais de mil animaes por 
anno ! . . . 



Antes das 6 horas, deixámos Descalvado e, 
como de costume, pouco depois das 9 fui deitar-me. 
Ha um grupo que faz dormitório, em um espaço livre, 
que fica em cima, na tolda do navio, avante, entre 



— 72 — 

os primeiros camarotes e a roda do leme. Durante 
o dia é ahi que sempre estamos todos, mas, á noute, 
uns de um bordo e outros de outro, vão armando as 
suas camas ou redes, sempre cedo e sempre na 
mesma ordem : a boreste, e mais para a proa, dorme, 
em cama, Padre Zham; logo depois, também em 
cama, durmo eu; e, mais para ré e mais próximo da 
antepara dos camarotes, em rede, dorme Kermit; 
mas, ao longo de toda a antepara d'esses camarotes, 
voltado para a proa, existe um banco, e sobre elle 
ha pilhas de pesadas malas, cuja firmeza não é 
grande, pois que assentam em muito estreita base. 
Desde Descalvado, o rio, alargando muito, fazendo 
innumeras ilhas, torna-se extremamente baixo, cheio 
de bancos movediços e canaes caprichosamente in- 
constantes; as suas margens são agora sempre orla- 
das de vegetação alta, as montanhas apparecem e 
succedem-se, e os pantanaes desappareceram. Nave- 
gávamos n'essa zona de bancos e baixios, e o somno 
já a todos tinha ganho, quando, pelas 10 e meia da 
noute, estando o navio a toda força, sente-se um vio- 
lento choque e somos atirados para vante; infeliz- 
mente, porém, não éramos somente nós, seres vivos, 
que estávamos animados de movimento relativo; a 
velocidade restante — restava — também para as 
malas que estavam empilhadas sobre o banco e, ao 
forte choque, degringolam ellas e desabam sobre 
Kermit e sobre mim; a rede, afastando-se ao embate 
de uma das malas, salvou Kermit e, graças ainda a 
um dos punhos d 'essa rede, a mala que vinha em 
cheio sobre mim raspa-me apenas a cabeça e cae pe- 
sadamente sobre o meu travesseiro, vergando os pés 
da cama de ferro. . . O choque fora devido a ter o 
navio batido em um banco de talude a pique, de sorte 
que, não encalhando, logo seguimos viagem, parando 
esta mesma noute em Barranco Vermelho, onde de- 
morámos duas horas recebendo lenha. Ás 4 da ma- 



— 73 — 

drugada, novo encalhe vem surprehender-nos ; d 'esta 
vez, porém, sem choque \dolento: mas, por esse 
mesmo motivo, tendo o navio entrado muito pelo 
suave declive do banco, só após duas horas de rude 
e constante trabalho foi possível safal-o e continuar 
a viagem para Cáceres, em pleno dia 5. 

Passámos a foz do rio Jaurú, antiga divisa do 
dominio hespanhol; perto d'ahi existia um marco de 
mármore e cantaria, felizmente ainda hoje conser- 
vado, pois que ornamenta a praça principal de São 
Luiz de Cáceres. N'esse mesmo rio Jaurú avistámos 
sobre a barranca da margem direita e junto á foz, 
um barracão de zinco, antigo deposito de cargas des- 
tinadas ao rio Guaporé, e de borracha vinda d 'esse 
mesmo rio. Esse entreposto soffreu as consequências 
da construcção da Estrada de Ferro Madeira-Ma- 
moré, visto como o escoamento da borracha e o apro- 
visionamento dos seringaes d© Guaporé são hoje fei- 
tos com o aproveitamento de tal estrada. 



As 5 horas da tarde d'esse dia 5, chegámos a 
Cáceres, velhíssima marginante do extenso Para- 
guay e escala forçada da outrora Capital da Pro- 
víncia, a velha e abandonada cidade de Matto- 
Grosso. Ao longo de todo o alto barranco em que re- 
pousa a velha cidade apinhava-se quasi toda a sua 
população. As gyrandolas de foguetes, indispensá- 
veis e clássicos nos acontecimentos do nosso interior, 
subiam annun ciando a nossa chegada, e o "Nyoac", 
atracando á ladeira de barro que, á guisa de cáes e 
escadaria, dá accesso ao barranco, ahi encontrou a 
officialidade da guarnição de Cáceres e representan- 
tes da Camará, que vieram trazer as bôas-vindas a 
Roosevelt, não tendo sido esquecida a banda de mu- 
sica, companheira inseparável dos foguetes. 



_ 74 — 

Desembarcámos e seguimos atravez de algumas 
ruas da vetusta S. Luiz, e, apezar da falta de calça- 
mento e estreiteza das mesmas, da casaria baixa e do 
pequeno movimento da cidade, logo nos sentimos 
presos pelo "nacionalismo" que ahi se respirava, 
pelo cunho caracteristico de cidade brasileira do in- 
terior, pela lhaneza de sua bôa gente. Uma das cou- 
sas interessantes que me despertaram a attenção na 
cidade a que acabávamos de aportar, foram as vene- 
zianas: são feitas de sarrafos de madeira, estreitos 
e cruzados em diagonal, formando pequenos paralle- 
logrammos, e quiz eu ver n'essa insignificância uma 
reminiscência hespanhola, oriunda, por sua vez, da 
influencia mourisca do "muchrabieli". Quem, pelas 
estreitas viellas, foi ao cáes de Bulah, aos mercados, 
ou emfim, já viu o velho Cairo, não pode deixar de 
ser tomado por esse sentimento de approximação 
entre o artístico "muchrabieh" e as interessantes 
venezianas da nossa longínqua cidade patrícia ; mas, 
não são apenas as originaes persianas que despertam 
a nossa attenção. A Cáceres antiga ainda nos offe- 
rece á vista a imponente ruina da grande igreja, e, 
na praça principal, o artístico e histórico marco a 
que já fiz referencia, todo de mármore, assente em 
base de alvenaria, encimado pela cruz de Malta, e 
apresentando, nas quatro faces, inscripções que 
transcrevo, sem a menor alteração, por ter achado 
o assumpto deveras interessante: 

Face W (Sob as armas de Hespanha, a seguinte 
inscripção, em lettras maiúsculas áe imprensa) : 
Sub Perdinando VI Hispanie Rege Catholico; 

Face E (Sob as armas portuguezas, a seguinte 
inscripção) : Sub Joane V Lusitanorum Rege Fide- 
líssimo ; 

Face N. — Ex pactis Finiumre Gundaeum 
Conventis Madriti Idib. Ianuar MDCCL; 

Face S. — Justitia Et. Pax Oscutatae Sunt. 




As venezianas de Cáceres 



^dJv':; 




Ruínas da egreja — Cáceres 




o marco — monumento na Praça de Cáceres 



i 



íí « 



y* 



— 75 — 

E íica-se pasmo ao pensar uo esforço, na somma 
colossal de energia e de trabalho destinados ao 
transporte d'aquel]as, talvez, quinze toneladas, em 
epocha tão remota, com tão deíicientes meios de 
transportes, atravez de tão rudes, longos e penosos 
caminhos; pois que, pela era nelle inseripta, deveiia 
esse marco ter vindo pelo Amazonas e, depois talvez 
e provavelmente, pelo Madeira, Guaporé, e Jaurú, 
a menos que tivesse subido o Tapajoz e o Arinos, 
atravessado por terra as muitas léguas que separam 
este rio das cabeceiras do Paraguay, e por elle des- 
cido até o Jaurú. Mas, seja como fôr, e ainda mesmo 
que tivesse subido ao Jaurú pelo Prata, Paraná e 
Paraguay, é mister render homenagem á máscula 
energia dos nossos avoengos, infatigáveis luctadores, 
cuja fibra, igualando em ríjeza ao caracter, era capaz 
até de construir o cíílebre forte Príncipe da Beira! 

Acompanhámos Roosevelt até a casa do Tenente 
Lyra, um dos membros da expedição que ahi a aguar- 
dava, e dispersámo-nos pela cidade, uns percorrendo 
suas ruas, outros comprando mais uma ou outra 
cousa que lhes faltava para a investida do sertão, 
pois estavam no ultimo mercado onde seria possível 
prover-nos; e essa praça ultrapassou de muito a 
nossa espectativa, pelos grandes recursos commer- 
eiaes de que dispõe, apezar do extremo afastamento 
dos centros commerciaes e chamados civilizados. 

Roosevelt, na celebre caçada de 1" de Janeiro, 
tendo sido diversas vezes obrigado a nadar, teve, em 
consequência, parado o seu relógio, velho compa- 
nheiro da guerra de Cuba que elle muito estimava; 
e, como não houvesse tempo para fazer funccionar 
de novo tal relógio, estava eu, depois de ter feito 
alguns passeios, em uma casa de negocio, com Ker- 
mit, onde este escolhia um relógio novo para seu 
illustre pae, quando recebi um chamado urgente do 
Coronel R©ndon. Rápido em attendel-o, fui á casa 



— 76 — 

em que se hospedara Koosevelt, e ahi encontrando 
o nosso Coronel, d'elle recebi uma missão diplomá- 
tica originada por uma interpretação errónea de um 
seu telegramma, que o deixava mn tanto tolhido 
junto de Eoosevelt. Para satisfazer o justo desejo 
do nosso hospede, que, como já dissemos, não estava 
preparado para solemnidades e pompas, Rondou te- 
legraphou para Cáceres pedindo que o não constran- 
gessem com recepções e banquetes, para o que elle 
não estava preparado ; e, tendo sido tal recommen- 
dação attendida demasiado ao pé da lettra, soube 
Rondou, já bastante tarde, que não havia jantar al- 
gum para Eoosevelt... nem para nós. Foi n 'essas cir- 
cumstancias que me chamou o nosso chefe, para que 
eu manobrasse de modo tal que houvesse jantar para 
todos a bordo do nosso salvador "Nyoac", e para que 
Roosevelt fosse prevenido com bastante diplomacia, 
afim de e^dtar qualquer máu effeito. 

*'Le rusé Commandant" sahiu-se perfeitamente 
da sua missão, mas, á sobre-mesa do nosso magico 
jantar, tomando a taça de champanhe e um ar de 
grande seriedade, offereci, nos termos vulgares usa- 
dos n 'essas occasiões, aquelle jantar a Roosevelt, em 
nome do Intendente de Cáceres ... No meio das ri- 
sadas que despertou o inesperado offerecimento, cuja 
malicia sou forçado a confessar, o nosso distincto 
hospede, tomando esse mesmo ar de solemnidade 
official, entrou a responder-me com a chapa do cos- 
tume, chapa tão batida que Kermit auxiliava a sua 
emissão intercalando jjhrases já suas velhas conhe- 
cidas. 

Tiveram assim pleno successo o jantar e as pi- 
lhérias, e, como estivéssemos em tão bôa disposição 
de animo, Roosevelt, que tem o grande mérito da 
franqueza e não esconde as suas "gaffes", contou-nos 
o que lhe succedera, n'aquella tarde, relativamente 
ao disparate de uma sua observação: A banda de 



— 77 ~ 

musica, que havia figurado na nossa recepção, ti- 
nha-nos acompanhado e, por algum tempo, tocado 
em frente á casa de Koosevelt ; o mestre de tal banda 
de musica, regendo-a e tocando com desembaraço, 
era um homem de estatura regular, sólidos músculos, 
tez fortemente bronzeada, pouco bigode, nenhuma 
barba, olhos negros e cabellos também negros, escor- 
ridos, bem lisos e luzidios. Ora, se bem descrevi o 
typo do mestre da banda, todos viram n'elle um 
nosso bugre ou um mestiço com forte dose de sangue 
de Índio; e Roosevelt, grande observador, logo no- 
tando esse facto, começou a reflectir sobre a tão per- 
feita adaptação, se o homem era bugre, ou sobre a 
nenhuma influencia da sua origem, se fosse mestiço. 
Justamente curioso com aquelle caso observado em 
larga escala no tão distincto Coronel Rondou, Roo- 
sevelt chamou o mestre da banda e, interrogando-o 
por meio de um interprete, soube que aquelle homem 
de tez brônzea, olhos negros e cabellos escorridos, 
era pura e simplesmente. . . italiano. 

No dia seguinte, passeando durante a manhã pe- 
las tranquillas ruas de Cáceres, daparei com um edi- 
fício em construcção, de grandes proporções e magni- 
fica apparencia, e, indagando qual seria o destino, 
soube, com vivo prazer e não sem algum espanto, que 
era destinado a uma grande escola publica, que es- 
tava sendo edificada sob os moldes paulistas, e que 
uma missão de professores, também paulistas con- 
tratada pelo Estado, estava espalhada por algumas 
das principaes cidades, tendo sido Cáceres contem- 
plada n'esse numero. Fui bastante feliz por ter en- 
sejo de travar conhecimento com o joven educador 
que ahi se achava e, com elle visitando as antigas 
escolas, tive conhecimento do progresso obtido ahi 
e em outras cidades de Matto-G-rosso. Roosevelt que, 
como homem intelligente e experimentado estadista, 
liga uma grande importância ao magno problema da 



— 78 



instruc^ão, teve palavras muito elogiosas para com 
o professor, a quem apresentei e, á pagina 127 do 
seu interessante livro, cita com elogio o facto que alii 
fica exposto e que tanto me satisfez. 



CAPITULO VI 



Viagem a Porto do Campo — Em Porto do 
Campo — Regresso ao Ladario. 



Cáceres deveria ser o termo da minha viagem 
e ahi era mister deixar os bons companheiros que, 
tomando uma pequena lancha, tinham que subir 
ainda o Paraguay, e tomar o Sepotuba; quiz, porém, 
a bôa-sorte que tão cedo não fosse privado d'aquella 
companhia, e que conhecesse maior trecho navegá- 
vel do rio ParagTiay e ainda o Sepotuba. De facto, 
não estando no porto a lancha para conduzir a expe- 
dição, resolveu-se que o "Nyoac" subisse mais o Pa- 
raguay e penetrasse no Sepotuba, até Porto do 
Campo, onde Roosevelt aguardaria a lancha, ca- 
çando antas e porcos ; e como não houvesse para mim 
conducção de regresso, continuei a viagem com os 
antigos companheiros e mais alguns outros, que nos 
esperavam em Cáceres e ahi completaram a expe- 
dição, íamos partir, e, sendo forçada a permanência 
por alguns dias em Porto do Campo, embarcaram 
comnosco, para que fosse possivel fazer Roosevelt 
caçar, dous ou três caçadores, todos com matilhas, 
mas, um d'elles, o Sr. João Ribeiro, com uma cachor- 
rada que entre todas sobresahia pelo numero e pela 
qualidade; e, como tudo e todos estivéssemos prom- 
ptos para partir, deixámos, Cáceres na tarde d 'esse 
dia, em demanda do Sepotuba. 



_. 80 — 

O extenso Paragaiay, já de lia muito correndo 
entre terras mais altas, estreitava-se agora sempre 
entre renques de matto, e era bem outro o aspecto do 
grande alagador de pantanaes; subindo sempre, 
encontrámo-nos, á tardinha, em uma posição inte- 
ressante e pittoresca, pois que com o nosso navio 
estávamos ao centro de uma perfeita cruz formada 
pelas aguas em que navegávamos. Para quem se en- 
contrasse pela primeira vez n'esse ponto do rio, e 
na intenção de continuar a subil-o, difScil seria a 
sua orientação, pois que, como tudo indica, o natural 
seria seguir para frente, tomando como affluentes os 
dous rios que ahi vêm desembocar de um e outro 
lado. Mas enganosa, quão apparentemente certa, 
seria tal solução, visto como a cruz é assim formada : 
a parte inferior, pelo trecho do Paraguay já por nós 
navegado; o braço direito, pelo próprio Paraguay 
que ahi deflecta em angulo recto; a parte superior, 
pela entrada de uma "bahia" (grande lago ou ala- 
gado) ; e o braço esquerdo, pelo rio Sepotuba. Entrá- 
mos pelo Sepotuba, e logo foi a nossa primeira obser- 
vação a limpidez de suas aguas, e a sua forte 
correntaSa que a custo era vencida pelo pequeno 
"Nyoac"; estávamos na poam, como lá se diz, e que 
exprime estar nas regiões das mattas ricas em ipe- 
cacuanha, como são as das terras que margeiam o 
bello rio que agora navegávamos, correndo em 
asseiado leito de pedras, entre margens bem altas e 
cobertas de forte orla de matto. A noute clara e en- 
luarada permittia ver o soberbo panorama, e a ma- 
gia do astro de luz suave, tocando como sempre 
almas e corações, recrudescia a saudade d'aquelles 
que de nós distavam, e fazia-nos pensar n 'estes que 
de nós distariam, dentro em breve, na ousada em- 
presa em que não nos era dado também aventurar. 




Nota. — Essas antas foram mortas em Maio de 1913, em luaa 
das caçadas que, annualmente, costumo fazer no rio Paranapanema : 
ellas aqui figuram, apenas, para mostrar o animal que Roosevtlt pro- 
curava caçar. 




o Caçador João Ribeiro 
em Porto do Campo 





Em Porto do Campo — 
O primeiro abarracamento 



* i 



_-. 81 — 

A manhã de 7 encontrou-nos em Porto do Campo 
e, iogo cedo e bem atracado que foi o "Nyoac", co- 
meçou a descarga de tudo quanto pertencia á expe- 
dição, emquanto a turma de soldados, em terra e di- 
rigida pelo infatigável Capitão Amilcar, estabelecia 
o primeiro abarracamento. 

Na tarde d 'esse dia, partiram alguns membros 
americanos da expedição, aproveitando a lancha, que 
subia com uma chata levando bagagens e carga para 
Tapirapoan; era esse o ultimo ponto attingivel por 
via fluvial, sobre o próprio rio Sepotuba, base e 
ponto de apoio escolhido pelo bravo Coronel Rondon, 
para as suas extraordinárias explorações, e d 'onde 
deveriam seguir por terra, atravez do sertão, Roo- 
sevelt e mais membros da expedição, até as cabecei- 
ras do rio da "Duvida", nome que exprimia bem o 
ignorado de seu curso e a magica attracção que o 
mysterio, fascinador como a esphinge, exercia sobre 
a alma sempre ardente e viva do antigo coiv-hoy. 

Tal como desde 17 de Dezembro do anno ante- 
rior, ainda n'esse dia, apezar do abarracamento, jan- 
tei ao lado de Roosevelt e com elle troquei ideias, 
como de costume e quasi diariamente succedia, sobre 
problemas sociaes e políticos; e, como já nos hou- 
vesse elle dito que nós, no Brasil, havíamos resolvido 
problemas que ainda estavam insolúveis nos Esta- 
dos-Unidos; embora o inverso também fosse verda- 
deiro, tentei ainda uma vez sondar o espirito do expe- 
rimentado estadista, no intuito de conhecer quaes 
seriam esses problemas, e saber, principalmente, 
quaes teriam sido as soluções dadas aos que nos res- 
tavam ainda insolúveis. Ou fosse porque o Destino 
— (que os primitivos já consideravam immutavel 
até pelos Deuses) — não permittisse, ou fosse porque 
o nosso hospede não quizesse desvendar o seu pensa- 
mento, o caso é que, só a respeito do problema rela- 
tivo ao perpetuamente ou desapparecimento do ne- 



— 82 — 

gro entre nós e entre os americanos foi que se 
expandiu o meu vizinho de mesa. Condemnava elle 
o processo norte-americano que, fazendo a completa 
separação de raça, só conseguia com isso desenvol- 
vimento sempre crescente do numero de negros, 
arredando assim a solução do problema e tornando-a 
cada vez mais difficil e grave; e, dizia, então, em- 
quanto nos Eptados-Unidos é cada vez maior o nu- 
mero de negros, succede no Brasil o facto inverso, 
desapparecendo a difficuldade da solução e a gravi- 
dade do problema com o desapparecimento do pró- 
prio problema, pois que, diluida no sangue branco a 
pequena porção de sangue negro ainda existente, 
dentro de um futuro não muito remoto estará a po- 
pulação do Brasil isenta de negros. Mais tarde soube 
porque razão não tivera segredo para com esse pro- 
blema o forte explorador; lendo os artigos por elle 
escriptos no Outlook, lá deparei, no numero de 21 de 
Fevereiro de 1914, com um d 'esses artigos sob o ti- 
tulo: "The Brasil and the negro" — e que nada mais 
era do que o desenvolvimento d 'essas ideias. 

Desde alguns dias, Kermit soffria de accessos 
palustres, velha infecção que adquirira no México e 
que o havia aborrecido e acompanhado em Africa; 
e agora, reentrando em regiões em que a palustre 
é endémica, reapparecia-lhe essa maldita compa- 
nheira. Esse terrível mal, sério bastante em qualquer 
outro, era ainda mais preoccupador em Kermit, pois 
que o medicamento indicado e indispensável em tal 
caso, o quinino, não podia ser ministrado ao nosso 
Kermit, visto que outra moléstia isso provocaria, 
como já lhe tinha succedido; e foi pensando no pe- 
rigo a que estava exposto seu filho, perigo que só 
poderia augmentar com o internamento pelo sertão, 
que, seriamente preoccupado, Roosevelt revelou-me 
nessa noute as suas appreheusões. 




h 



Porto do Campo — O autor, entre Kermit e Roosevelt, 
em frente á barraca deste 





Partida para a cagada de anta 



— 83 — 

''Ha de ter notado, dizia o grande americano, 
que falo mnito de Kermit; mas elle merece; sei o 
que elle vale e a sua dedicação por mim, e, se ten- 
tasse qualquer esforço para fazel-o retroceder, co- 
nheço bem quanto seria isso inútil, pois não me aban- 
donaria ; entretanto, além de ser elle meu filho muito 
querido, está na flor da idade; é noivo, já estaria 
casado se não fosse esta viagem, e seria uma cala- 
midade transbordante de injustiça se viesse a morrer 
ua travessia que vamos emiDrehender". Pela primeira 
vez eu \'ia Roosevelt ter apprehensÕse sobre a arris- 
cada empresa, mas eram ellas todas pela sorte de 
seu filho e não pela sua, e, continuando, a respeito 
d 'isso assim se pronunciava: "Tendo dedicado as mi- 
nhas energias á exploração scientifica que encetámos, 
n'ella perderia a vida com gloria, como certamente 
gostaria o meu amigo de perder a sua em um com- 
bate naval; accresce ainda que, mesmo tendo em 
conta a minha boa saúde, não posso esperar viver 
senão mais uns quinze annos ; a minha preoccupação, 
portanto, é toda por Kermit". 

Assim terminava a nossa conversa daquella 
noute, emquanto, no acampamento, eram dadas as 
pro^^.dencias para a primeira caçada de anta, a reali- 
za r-se na manhã seguinte. 

N 'essa manhã de 8 de Janeiro, depois de sermos 
photographados, das sentidas despedidas, e de ter 
Roosevelt, com alguns companheiros embarcado para 
a caçada, despedi-me dos que não tomavam parte em 
tal caçada, embarquei por meu turno no "Nyoac", e, 
com um prolongado adeus aos que ficavam em terra, 
e, depois, aos que ainda vimos nas canoas, deixámos, 
cheios de saudades, Porto do Campo e os bons com- 
panheiros, sentindo, com amargor e tristeza, não po- 
der compartilhar-lhes a sorte na bella e arriscada 
exploraçáo atravez do Brasil. 



— 84 — 

A impetuosa correntada do Sepotiiba e as aguas 
do Paraguay, ajudando o pequeno "Nyoae", íizerani 
com que na tarde d 'esse mesmo dia tornássemos a 
aportar a Cáceres. 

Na descampada i)raça em que, como em todas 
as cidades de nosso interior, se acha a igreja, o dia 
findava n'um d'esses crepúsculos sem fim em que a 
alma se extasia ante a magnitude da natureza ; o sino 
da pequena e modesta capella tangia, plangente como 
um soluço que recorta o espaço; as estrellas a medo 
surgiam pontilhando o céu; e a lua, quasi cheia, illu- 
minava com meiguice a velha cidade tranquilla . 
A nostalgia latente, a saudade immensa dos entes 
caros que estavam distantes, irrompia vehemente na 
solidão em que nos deixava a falta dos companhei- 
ros, e deante do espectáculo cheio de melancolia 
d'aquella hora triste. Tentámos alguns passos pela 
cidade, mas, isolado, redobrando a tristeza, fui em 
busca do velho companheiro, o navio, onde o habito 
de estar só deveria amenizar o triste estado d'alma. 
Infelizmente, não era o navio, alii, o único compa- 
nheiro que encontrava, apezar de só a elle ter ido 
procurar; em quantidades incríveis, os mosquitos 
tiravam qualquer esperança de repouso e tranquilli- 
dade, e, á vista de tão importunos quanto inoppor- 
tunos companheiros, foi ])reciso vagar pelas ruas de 
Cáceres até a hora de dormir, que não tardou. 

No dia seguinte, o "Nyoac" deixou Cáceres e, 
com três dias de viagem a favor da corrente, che- 
gámos a Corumbá, d 'onde, em lancha, desci até o 
Ladario, retomando o Commaudo de que me havia 
ausentado por espaço de ([uasi um mez, despendido 
em tão agradável e bella excursão. 




o capitão tenente Nelson de Mello 



CAPITULO VU 



Sr. Janjão de Barros — Primeira caçada de onças. 



Pouco tempo depois do meu regresso, tive a fe- 
licidade de receber como Immediato, a bordo do 
"Oyapock", o meu amii2,o Nelson Augusto de Aíello, 
excelleute companheiro e grande caçador; e data 
d'alii a "epocha de ouro" da minha vida sportiva de 
caçador, epocha positivamente inesquecível, tantas, 
tão bellas, grandiosas e agradáveis foram as im- 
pressões por ella deixadas. 

Uma das maiores, senão a maior difficuldade 
para a realização de uma caçada de onça consiste, em 
Matto-Grosso, ou em qualquer parte, na obtenção da 
cachorrada; esses cães onceiros, não constituindo 
uma raça fixada como a dos nossos veadeiros, ou 
como as diversas raças de cães estrangeiros, são de 
obtenção assas difficil e trabalhosa e, se considerar- 
mos o numero dos que morrem "em combate", fácil 
tornar-se-á avaliar das difficuldades a que alludo. 
No rio Taquary, aflfluente da margem esquerda do 
Paraguay, existe um fazendeiro, Sr. "Janjão" de 
Barros, cujos cães onceiros têm fama tradicional, 
fama tão grande que para dar ideia da excellencia 
de qualquer cão onceiro basta que se diga : é raça 
do "Janjão". Eu já conhecia dous dignos represen- 
tantes d 'essa cachorrada, "Coxé" e "Pombinha", que 



— 86 — 

foram emprestados para a Fazenda das Palmeiras, e 
que trabalharam nas onças da caçada Eoosevelt; e, 
como estivesse demorando uma outra caçada que nos 
estava promettida, tratámos de fazer conhecimento 
e amizade com o Sr. "Janjão", o que conseguimos 
por intermédio do infatigável amigo Botto. 

A figura sympathica do nosso novo amigo " Jan- 
jão" era bem a do antigo fazendeiro : forte e corpu- 
lento, barba crescida, trajando "riscado", usando mn 
grande, desabado e grosso chapéu de chile; era sim- 
ples, affavel, communicativo e franco, como sabe ser 
a bôa gente do interior do nosso paiz. Fizemos logo 
bôa camaradagem e ornámos varias historias de ca- 
çadas de onças que, infelizmente, a minha memoria 
não pôde conservar; comtudo, em todas ellas resal- 
tava, bem evidente, a cautela e prudência indispen- 
sáveis, qualidades apezar das quaes, como se veri- 
ficava das narrativas, muitos caçadores tinham caça- 
do... pela ultima vez. O nosso novo e bom amigo já 
tinha morto luna grande quantidade d 'esses astutos 
e atrevidos felinos ; agora, porém, como lhe fosse fal- 
tando a vista, não caçava mais. Isso não impediria, 
dizia elle, de acompanhar-nos na caçada que seria 
realizada em sua fazend e que então combinávamos; 
sentia, porém, profundamente, que não nos pudesse 
fazer acompanhar pelo "Bugre", um indio "tereno", 
seu empregado, cuja habilidade como zagaieiro con- 
stituía uma bem regiilar segurança para o atirador; 
mas, esse forte, valente e muito pratico zagaieiro 
estava ainda em tratamento em Corumbá e, segundo 
o prognostico dos médicos, não poderia mais fazer 
grandes esforços depois do desastre que lhe aconte- 
cera na ultima caçada. 

Esse bugre tinha ido caçar em companhia de um 
vizinho, um bahiano que \'iera do seu Estado natal 
atravez da serra de Maracajú e se fixara no Taquary, 



__ 87 — 

e, como a onça estivesse acuada no "bamburro" (1) 
o bugre, na qualidade de zagaieiro, foi, ao lado do 
atirador, batendo e afastando o matto com a zagaia, 
na direcção em que a onça urrava no meio da acua- 
ção ; a fera, porém, ladina e velhaca, deixou de urrar, 
fez uma meia volta que não podia ser percebida pelos 
caçadores, e, quando menos esperavam, a onça saltou 
sobre o Bugre, derrubando-o por terra. Estaria 
morto o valente zagaieiro se bravo também não fosse 
o atirador que, n'uma emergência d 'estas, deante de 
um tal quadro e de tão grande perigo, sem perder a 
calma e aproveitando o azado momento em que lhe 
fosse possivel atirar na cabeça da onça, sem ferir o 
zagaieiro, desfechou o tiro libertando o valente Bu- 
gre, que, emquanto subjugado pela fera, e apezar 
d 'isso, não cessava de recommendar ao atirador que 
tivesse cuidado em não atirar sobre elle. 

Era por essa razão "simples" que não podería- 
mos contar com os serviços de tão experimentado 
zagaieiro, cujo maior mal produzido pela fera não 
consistia, como será licito suppôr, nem pelas garras 
nem pelas presas que, apezar de o terem ferido 
muito, não lhe causaram o abalo produzido por um 
sôcco que recebera sobre o coração . . . 



Apezar das outras narrativas e d 'esta mais re- 
cente, todas do mesmo género, poucos dias depois, 
eu, o Nelson, o nosso collega Luiz Junqueira, o Botto 
e o Janjão, em uma lancha calando quatro pés, des- 



(1) "Bamburro" — é, em Matto-Grosso, um emmara 
nhado de matto muito fechado e baixo, geralmente entre- 
meado de espinho, cipó e macéga, dentro do qual não é pos- 
sivel enxergar a onça, ainda que se esteja, ás vezes, a três 
metros de distancia. 



cemos o rio Paraguay, tendo partido muito cedo do 
Ladario. 

O nosso amigo Janjão viajava sempre em canoa 
ou "batelão" (1), e gastava três dias, quando era bôa 
a viagem e fazia boas madrugadas, para chegar á 
sua fazenda; não lhe era possivel, pois, calcular o 
tempo que gastaríamos com a lancha até esse ponto, 
mas, a julgar pelo tempo expendido por elle em dis- 
tancias já nossas conhecidas, calculámos chegar ao 
anoutecer. 

Com duas horas de descida pelo Paragaiay, che- 
gámos á foz do Taquary, já nossa conhecida pelas ca- 
çadas de patos, c^ue tinhamos feito em um coricho 
nesse rio, pouco acima de sua foz; mas só esse dimi- 
nuto e insignificante trecho era o que conhecíamos 
d 'esse tortuoso, baixo, correntoso e longo Taquary. 
A navegação n'esse rio é tão escassa quão difficul- 
tosa, e as duas únicas lanchas e os barcos que ahi 
navegam calam pouco mais de um pé. A remota ci- 
dade de Coxim é o termo d 'essas viagens, em que, 
contando ida e volta, gastam as lanchas um mez, e 
os barcos três, quando não se espatifam n 'algum dos 
muitos "passos" de tão traiçoeiro rio. 

Tive occasião de assistir ao regresso de um 
d 'esses barcos ao Ladario. Com as suas grandes la- 
tinas enfunadas, subia elle o Paraguay e, ao appro- 
ximar-se do Ladario, cânticos alegres dos seus tri- 
pulantes diziam o contentamento que lhes ia n'alma; 
os homens, vestindo saiotes, de pernas e pés nús, 
corriam ás velas e ás varas, abafando aquellas e lan- 
çando estas á agua para a manobra da atracação; 



(1) Em Matto-Grosso, chama-se "batelão" a uma grande 
canoa em que adaptam taboas sobre as bordas, e nas quaes 
corre ou anda o homem que empurra o "batelão" com a vara. 
Chamam zinga a essa vara e é o que em S. Paulo chamara 
varejão. 



— 89 — 

e dir-se-ia estarmos assistindo a espectáculo de iia 
séculos, vendo o aspecto, ouvindo os cantos e apre- 
ciando o ceremonial do termo d'aquella tão longa e 
trabalhosa viagem. 

Mas, a nossa lancha, levando como pratico o 
próprio amigo Janjão, subia o Taquary vencendo n 
sua correntada; o rio, porém, foi augmentando os 
seus caprichos de curvas, reduzindo a sua profundi- 
dade, e, dentro em pouco, estávamos forte e firme- 
mente encalhados. Saltando á agua, recorrendo ás 
varas, trabalhando e luctando com tenacidade, con- 
seguimos, depois de algumas horas, desencalhar a 
lancha; mas, como tivéssemos reconhecido a impos- 
sibilidade de continuar a viagem em embarcação de 
tal calado, tornámos a descer o rio, entrámos nova- 
mente no Paraguay e, já noute, em vez de chegarmos 
á fazenda do amigo Janjão, arribámos ao Formi- 
gueiro, um porto e "retiro" da Fazenda das Palmei- 
ras, á margem do Paraguay e pouco abaixo da foz 
do Taquary. 

Apezar de tão inesperado e desagradável con- 
tratempo, não desanimámos; e o aportarmos ao For- 
migueiro representava a resolução de ahi pernoitar- 
mos, emquanto a lancha subiria ao Ladario e 
mandaria uma substituta, de menor calado, embora 
muito incommoda. Assim aconteceu, e, depois de uma 
noute em que os mosquitos tentaram retirar-nos todo 
o sangue, partimos, na manhã seguinte, "como sar- 
dinha em tigela", mas n'uma lancha que calava ape- 
nas um pé. Tal lancha era menos resistente e menos 
veloz que a outra e, assim, para vencer a correntada 
forte, livrar-se dos barrancos nas curvas caprichosas 
e manter velocidade e governo nos "passos" ruins, 
o foguista activava os fogos com o máximo que lhe 
era possível, máximo esse que ultrapassava o da re- 
sistência das grelhas, como tivemos a infelicidade 
de constatar algum tempo depois. 



— 90 — 

Já tínhamos, felizmente, vencido os passos mais 
difficeis e com os suggestivos nomes de "Quebra 
popa", "Chupa-Chupa", "Bodoque", etc, quando di- 
minuindo a velocidade da lancha, foi chamada a 
nossa atteução para a queda da pressão, a despeito 
do carvão que era consumido em grande excesso; 
eram as grelhas que se ha^-iam queimado, o que, pela 
segunda vez, far-nos-ia ficar. . . a ver navios. Não era 
possível; insurgimo-nos todos contra a sorte adversa, 
mas, em vez de perdermos o tempo em preoccupa- 
ções inúteis, resolvemos ir, a todo o custo e de qual- 
quer modo, ao termo da viagem. 

Já eram mais de 3 horas da tarde, faltava-nos 
ainda muito caminho a vencer, a lancha estava sem 
grelhas, o carvão não era bastante para a viagem, 
e a corrente ia ser mais forte depois que passássemos 
o braço de rio que, cortando a Fazenda das Palmei- 
ras, vae desaguar muito abaixo. Tudo isso eram 
grandes difficuldades e obstáculos a vencer, mas, a 
"sede" nas ouças era tão grande que para nós não 
havia barreiras. Bem encostados á margem, ora pa- 
rando e fazendo lenha, ora interrompendo a marcha 
para conseguirmos um pouco mais de pressão afim 
de vencer um lugar mais correntoso, fomos, com 
muita paciência e indizíveis trabalhos, nos arras- 
tando vagarosamente, até que, á meia-noute, vimos 
coroados os nossos esforços com a chegada á fazenda 
do nosso amigo Janjão. 

A nossa chegada deveria ter sido ' precedida de 
uma carta que o fazendeiro escrevera ao filho, carta 
em que eram determinadas providencias capazes de 
garantir, o quanto possível, o successo da caçada, e, 
como fosse preciso tempo para tomal-as, tal carta 
fora enviada de modo que nos precedesse de uma se- 
mana. Acontece, porém, que, com a incerteza e es- 
cassez de communicações com a fazenda, só na ma- 



— 91 — 

nhã do dia que findara com a nossa ehegada tinha 
sido recebida a carta. 

O veterano e mestre onceiro "Visconde", cuja 
grande prole fazia-lhe gloria, estava, com outro cão 
mestre e seu descendente, "Mestrinho", na Fazenda 
"Firme", a. umas quinze léguas de péssimos cami- 
nhos atravez do pantanal; "Coxé", também cachorro 
mestre, meu conhecido das caçadas com Roosevelt, 
tinha sido presenteado a um fazendeiro ainda mais 
distante; "Tubarão" e "Pombinha" estavam perto, 
em S. Francisco, a quatro léguas d'ahi. Resta- 
vam-nos, pois, uns três ou quatro cães novos, únicos 
de que poderíamos dispor no momento, mas que não 
poderiam prestar serviço algum. Grande foi o nosso 
desapontamento, mas, sem desanimo, esperámos que 
um dos filhos do nosso amigo fosse buscar os cães 
que estavam no "Firme" e em S. Francisco, e, em- 
quanto esperávamos, iamos matando o tempo ma- 
tando outros bichos. 

A casa do amigo Janjão, a umas duas centenas 
de metros da margem do extenso Taquary, estava 
quasi invadida pelas aguas do pantanal, ainda em 
cheia ; a parede externa da sala em que nos alojámos, 
uma das duas únicas peças que constituíam a casa, 
estava quasi reduzida ao arcabouço de madeira, tal 
era a quantidade de barro, ou melhor, de terra que se 
havia desaggregado e cabido ; o chão, de terra batida, 
era rico em formigas; e de um forte e grande esteio 
quasi central partiam as nossas redes, formando 
raios de um circulo. A' noute, os mosquitos ataca- 
vam, como de costume, com impetuosa fúria e em 
avultado numero; mas, um de nós, como sábia pre- 
caução, á noutinha, fechava a porta que existia na 
rendada parede, e, com isso, ficávamos livres de que 
os malditos insectos penetrassem pela tal porta, e 
certos de que entrariam livremente . . . pela parede. 



— 92 — 

De casa, e até mesmo de dentro de casa po- 
der-se-ia atirar em tiiyúyús, garças, colhereiros, etc, 
tão próximo era o pantanal e tão pequeno era o ter- 
reno firme em que estava ilbada a casa; e, como fosse 
forçoso esperar pelos cães, mais ou menos n'isso, isto 
é, no tiroteio a esses pernaltas consistiu a nossa 
occupação no primeiro dia. 

No outro dia, acompanhados pelo infatigável 
filho do nosso amigo Janjão, seu Chico, chegaram os 
pobres cães. Coitados ! tiveram de fazer léguas e lé- 
guas atravez dos pantauaes ; e, como esses estivessem 
muito cheios, grandes foram as travessias que hou- 
veram de fazer a nado. Quando o nivel d 'agua lhes 
permittia caminhar, o fundo dos pantauaes, que não 
podiam ver, coberto de caramujos, cortava-lhes os 
pés; estavam fatigados e estropiados os pobres ani- 
maes, e o velho e valente "Visconde", que desde De- 
zembro estava na Fazenda "Firme", viera magro, 
cheio de bichos, gafeirento e trôpego. Foi preciso 
deixar que os cães repousassem n'esse dia, e só no 
dia seguinte, terceiro de nossa estadia, partimos, bem 
cedo, com muito poucas esperanças, atravez dos pan- 
tauaes. 

José Maria, o bahiano que fora companheiro de 
Bugre na terrivel caçada, era um dos nossos zagaiei- 
ros; outro zagaieiro também nos acompanhava, e o 
Botto, eu, o Nelson, o Junqueira e o amigo Janjão, 
formávamos a caravana de que iam zombar as onças. 
O pobre "Visconde", como se já não bastasse estar 
tão estropiado, foi pisado por um dos animaes, logo 
após a partida; os outros cães, nenhum dos quaes 
era mestre, ainda estavam fatigados e estropiados; 
e os pantauaes, tão cheios que nos obrigavam a via- 
jar com as pernas dentro d 'agua, ou ajoelhados nos 
arreios, fatigavam ainda mais os cães e reduziam 
enormemente a área em que poderia ser encontrado 
o rasto. O veterano "Visconde" não conseguiu acom- 



— 93 — 

panhar-nos, e ficou em caminho; e, assim, desfalca- 
dos d 'esse precioso companheiro e hictando com 
tantos contratempos, buscávamos, de um a outro ca- 
pão, o rasto promissor da desejada onça. O dia in- 
teiro passámos n'essa procura, de ilha em ilha, isto 
é, de capão em capão; mas, bem depressa verificámos 
que infructiferas seriam as nossas penas e, ou por- 
que os pantanaes muito alagados, não permittindo a 
permanência de gado, não favorecessem ás onças um 
campo para as suas presas, e as tivessem afastado, 
ou porque a sorte não nos tivesse levado a um capão 
em que estivesse refugiada alguma d'ellas, o caso é 
que, depois de muito caminharmos, voltámos para 
casa tal como haviamos sabido. 

A' vista das condições do terreno e do estado 
da cachorrada, julgou-se inútil o continuar em uma 
tentativa, cujo resultado, negativo, era de antemão 
conhecido; e assim, no dia seguinte, pela manhã, 
mais contando com a correnteza do que com a ma- 
china da nossa lanchinha, deixámos a fazenda do 
Sr. Janjão, amigo que nos acompanhou desconsolado 
com o insuccesso da caçada e fazendo questão da re- 
novação da mesma em epocha mais opportuna. 

Uma vez descido o Taquary, a subida do Para- 
guay foi rica em peripécias, como havia sido a su- 
bida do primeiro, mas, arrastando-nos do melhor 
modo, conseguimos chegar, á noute, ao Ladario, in- 
dignados com o insuccesso da nossa primeira caçada 
de oneas. 



CAPITULO Ylll 



Caçadas em «Urucúm» — Sr. Jenú — Segunda 
caçada. 

Emquanto projectávamos uma outra caçada de 
onças, eu e o amigo Nelson eucliiamos o tempo com 
outras caçadas menos importantes, mas bastante di- 
vertidas; os jáos, ]'30r exemplo, cuja abundância é 
extraordinária em Matto-Grosso, e cuja carne é sa- 
borosisima, eram por nós perseguidos e caçados con- 
stantemente; e a caça ás antas, aos veados e aos 
porcos, levaram-nos, mais de uma vez, a pequenas 
excursões até Urucúm e S. Domingos, onde fizemos 
algumas que tiveram tanto de fatigantes, como de 
improfícuas. Em uma d'ellas, depois de termos su- 
bido cerca de dous terços da serra de Urucúm, tive- 
mos de descer, em vertiginosa carreira, para acudir 
a uma corrida que suppuzemos ser de anta levantada 
pelo *'Leão"; mas, já tendo a corrida atravessado a 
picada, e tendo a cachorrada "perdido", de novo su- 
bimos e, depois de chegarmos á altura das minas de 
manganez, seguido por muito tempo um velho ca- 
minho á altura das mesmas e começado a descer, o 
"caboclo" que ia comnosco começou a andar devagar, 
ou porque estivesse cansado, ou porque nos julgasse 
fatigados. Nós haviamos sabido ás 5 horas da manhã 
e, caminhando sempre a pé, já tinhamos boas nove 
horas de marcha, pois eram mais ou menos 2 da 
tarde; e, como um de nós tivesse reclamado do ca- 



— 96 — 

bloco que elle estava andando de vagar, este, que- 
rendo pregar uma peça aos "moços da cidade", des- 
envolveu toda a sua velocidade. Mal sabia o pobre 
"camarada" que estava lidando com dous caçadores 
de porcos e macucos da abrupta serra dos Órgãos, 
habituados aos caminhos Íngremes e ás longas car- 
reiras atraz dos catetús, e que o tiro ia sair-lhe pela 
culatra. De facto, como tivéssemos ainda uns trinta 
ou quarenta minutos de viagem, marchei nos calca- 
nhares do nosso falso pregador de peças, e, sem dei- 
xar cahir a velocidade, forçámol-o a marchar assim 
até a casa. O homem, que percebera bem a nossa pi- 
lhéria, sumiu-se, e tão envergonhado ficou que não 
mais conseguimos vel-o emquanto lá estivemos. 

Mais uma ou duas vezes tornámos a caçar no 
aprazível Urucúm, e, n'uma d 'essas caçadas, acom- 
panhados de um francez encarregado das minas de 
manganez, encontrámos rasto fresco de uma pintada. 
Muito alegres com tal achado, esperávamos, a todo 
o momento, que a cachorrada, em vez da anta que 
procurávamos, corresse aquella onça, que vinha tão 
ao encontro dos nossos desejos; certos ficámos de 
que ia ella ser "levantada" quando ouvimos o "Leão" 
"dobrar no rasto", infelizmente, porém, o valente 
"Leão" achou mais prudente abandonar o rasto e, 
em lugar de onça, ou mesmo da anta, só conseguimos 
uma terrível carga de carrapatos, cuja infernal co- 
ceira deu para uns vinte dias... de divertimento. 



Por esse tempo, o infatigável amigo Botto, que 
já me proporcionara as relações com o amigo Janjão, 
e que me havia apresentado ao Sr. Jenú, insistia com 
este para que se conseguisse uma caçada em que mor- 
resse, pelo menos, uma onça; e assim foi que, um 
bello dia, appareceu em nossa casa, no Ladarío, para 
combinarmos uma caçada, o próprio Sr. Jenú. 



— 97 — 

Esse homem, rnde e trabalhador, tinha uma pe- 
quena fazenda entre os rios Miranda, Paraguay e 
Abóbora], n'um ccnfm longinquo e deserto dos pan- 
tanaes que se estendem até a margem direita do Mi- 
randa; e, n'essa fazenda, constantemente, com auxi- 
lio dos filhos e com alguns cães, matava onças cujos 
couros vendia em Corumbá; era, pois, para elle, uma 
"industria extractiva" a caçada de onças em suas 
terras; mas, como não nos fosse possivel ir á sua 
fazenda, achou um meio de conciliar as cousas, e 
veio á nossa procura esse valente e experimentado 
caçador. 

Póde-se dizer com toda a propriedade — expe- 
rimentado — porque, conforme ainda se podia ver, 
as cicatrizes que lhe marcavam a testa, cabeça e nuca, 
mostravam a experiência de que falo. Essas cica- 
trizes eram devidas ás garras de uma onça que, por 
pouco, teria acabado com o nosso novo amigo, se não 
fosse um seu filho, e o seu sangue- frio. N'essa ca- 
çada, em que ia perdendo a viáR, seu Jenú fora como 
atirador, e um dos seus filhos como zagaieiro ; a onça 
não trepara, dera acuação no chão n'um gravatazal, 
e, depois de terem rompido aquelle baluarte de espi- 
nhos, chegado ao lugar da acuação e avistada a fera, 
o atirador procurou detonar a arma, mas, no melhor 
dos momentos, esta lhe falha. O zagaieiro avançou 
a defender o atirador que era seu próprio pae, mas, 
com um forte quão rápido sopapo, a onça "rebateu" 
a zagaia e saltou sobre o valente Jenú. O nosso 
amigo, sem perder a calma em tão critica circum- 
stancia, saltou para traz, ao mesmo tempo que esco- 
rava a onça com a espingarda, mas, ainda assim, as 
garras afiadas do ágil animal alcançaram-lhe a ca- 
beça ; o zagaieiro, seu filho, novamente arremetteu 
contra a onça, mas, naturalmente emocionado com 
semelhante lucta, só conseguiu atravessar o couro da 
onça que, embora por terra, sob o choque da zagaia, 

Viagens e Caçadas 7 



— 98 — 

estava prestes a escapar-se; e foi então que o nosso 
amigo Jenú, invertendo os papeis de defendido para 
defensor, atirou na cabeça da fera e ficaram livres 
do atrevido inimigo. 

As cicatrizes do amigo Jenú, e as do Bugre do 
amigo Janjão, eram uma boa advertência para os 
caçadores novatos, mas, como eu insistisse em com- 
binar a caçada, seu Jenú declarou-me que, d 'essa vez, 
ia levar-nos — "no cumulo da. onça" — ; que se tra- 
tava de um lugar inteiramente desliabitado e só fre- 
quentado pelos caçadores de garças que, durante 
dous ou três mezes em cada anno, na epoclia própria, 
ahi iam á cata das "aigrettes". Um d'esses caçadores, 
seu vizinho, que partia para lá dentro de poucos dias, 
serviria de guia; e elle, Jenú, com dous filhos e a 
cachorrada, estava ás ordens para essa grande ca- 
çada. 

Logo desenvolvi toda a minha actividade para 
resolver, com os companheiros, a realização de tão 
tentadora empresa, e, uma vez reunidos, o nosso 
amigo Jenú, achando talvez fraca a expressão 
"cumulo da onça", fez com enthusiasmo a seguinte 
declaração: ^'Seu Commandante, pôde estar certo de 
que vou levar-lhe no "fox" da onça!. . ." Não havia 
duvida que, pelo menos a julgar pelas expressões do 
nosso amigo, haveríamos, tal como Juan Pisarro, de 
"mirar algo nuevo". 

Para dar ideia do que foi essa caçada, escre\à 
n'esse sentido uma carta á minha mulher. E' essa 
carta que, sem alteração, ahi vae transcripta. 

Ladario, 7—6—1914. 

Minha adorada. . . 

Estou de volta da minha annunçiada caçada de 
onças e, já barbeado, lavado, reeivilizado, bom, e sem 
ter sido comido por onça alguma é que te escrevo, 



— 9& — 

embora a tua correspondência esteja a chegar e te- 
nha de respondel-a. 

A nossa excursão deveria durar mais tempo, 
mas uma série de incidentes determinou um regresso 
mais rápido. D'alii partimos, ás 2 da madrugada de 
27 do passado, em uma lancha, e, cousa que estra- 
nharás, sentindo muito frio, pois deveriamos ter 
uns 12°! 

Começámos a descer o Parag-uay e, como ahi 
seja grandemente franca a navegação para uma lan- 
cha do porte da nossa, deixámos o leme ao patrão e 
nos deitámos á ré, no paineiro, eu na bancada de 
B. B., o Nelson a B. E., e o Junqueira, por mais pre- 
guiçoso e não querer retirar os volumes que estavam 
á ré, deitou-se em baixo, no paineiro propriamente. 
Com a noute fria os mosquitos desappareceram e, 
sem esses importunos companheiros, fácil e agradá- 
vel foi conciliar o somno. Súbito, sente-se um forte 
choque, e a lancha encalhara no caudaloso Paraguay, 
com um cochilo mais forte do patrão; mas, emquanto 
isso se dava, deparo com o Junqueira, sentado, com 
as mãos no rosto e gemendo como um desesperado; 
a seu lado.debatia-se um grande peixe e, só depois 
de alguns momentos, soubemos que tal peixe havia 
cabido justamente sobre o olho direito do nosso com- 
panheiro, contundindo-o fortemente e ferindo-lhe 
bastante a pálpebra. Verificado que o homem não es- 
tava cego (do que escapou por pouco), fizemos os 
curativos de occasião e continuámos a viagem. 

As 8 horas da manhã estávamos na foz do rio 
"Aboboral", onde nos esperavam os caboclos com 
quem iamos caçar; elles haviam alli acampado e es- 
tavam já embarcados e promptos: dous em uma pe- 
quena chalana com a bagagem e quatro cães, e os 
outros, que eram três, em uma grande canoa, também 
<'om bagagem e cinco cães. 



— 100 — 

Recebidos os novos companheiros, continuámos a 
descer o Paraguay até encontrarmos o rio Miranda, 
pelo qual entrámos, ás 9 horas; um dos homens que 
vinham na chalana, único que conhecia a zona de- 
serta em que iamos cíiçar, tomou a direcção da lan- 
cha como pratico do rio e, após teimos deixado al- 
gum carvão depositado em uma das margens, subi- 
mos o Miitinda até o auoutecer, quando parámos á 
busca de pouso. Só quando o rio está muito cheio, ou 
em embarcações de muito pequeno calado, é que se 
navega á noute n'esse rio; em condições normaes, os 
seus bancos movediços e inconstantes posições de ca- 
naes fazem com que a navegação se torne penosa e 
difficil. 

O pessoal estava todo fatigado da madrugada da 
véspera; assim, a madrugada que tencionávamos fa- 
zer, deixando o primeiro pouso foi madrugada de 
lagarto. Partimos depois de 7 da manhã, e cerca de 
meia hora depois estávamos encalhados no mais 
baixo trecho do Miranda, entre a sua foz e a do Aqui- 
dauana ; foi um trabalho infernal em que todos to- 
mámos parte, uns saltando á agua para suspender e 
empurrar a lancha, outros de varas ao peito a afas- 
tar um ou outro extremo da embarcação, e, final- 
mente, todos alando um cabo que se passou para uma 
das margens, conseguimos, após três horas de traba- 
lho, safar a lancha e continuar rio acima. 

Desde a véspera que, pelas margens, os jacarés 
e capivaras, aquelles principalmente, iam soffrendo a 
nossa fuzilaria, fraca aliás, pois, com sentido na ca- 
çada de onças, só n'isso ])ensavamos e anciavamos 
pelo primeiro encontro. 

Já a\'istámos a serra da Badoquena, longe e azu- 
lada no horizonte d'aquelle immenso oceano verde e, 
ás 3 horas da tarde, passávamos por junto do morro 
do Azeite, na margem esquerda do Miranda, Íngreme 



— 101 — 

e aguçada elevação que se encontra isolada no meio 
de centenares de léguas de pântanos e bamburraes. 
As 8 da noute, parámos para pousar no primeiro lu- 
gar habitado que encontrávamos desde que havíamos 
deixado o rio Paraguay, era o "retiro" do Alegre, 
"retiro" de uma vastíssima fazenda de criação, cujas 
terras seguíamos desde o Paraguay, pois, com suas 
c^nto e tantas léguas, ella se estende da serra da Bo- 
daquena ás margens d'aquelle rio. 

Pela manhã do dia seguinte, depois de termos 
tomado leite no curral, partimos em busca da foz do 
Aquidauana, que estava próxima, e começámos a su- 
bir esse rio estreito e muito tortuoso, abundante em 
peixe e caça, principalmente em pernaltas e palmi- 
pedes. Após um pequeno percurso em que fomos di- 
versas vezes sobre a barranca, soltámos os cães era 
um capão de matto, mais para que satisfizessem suas 
exigências physiologicas, de que estavam privados 
havia mais de \'inte e quatro horas, do que para ca- 
çar, pois, como esperávamos, era cedo ainda para en- 
contrarmos o inimigo, que alli não se achava. Presa a 
cachorrada, continuámos a viagem até que, por cerca 
de 3 horas da tarde, chegámos á foz do rio Aniâli 
(é nome indígena e não sei como se escreve), ponto 
em que deveríamos estabelecer o nosso acampamento 
pennanente, o que logo tratámos de fazer. Assim, 
depois de três dias de viagem, chegávamos ao "fox" 
da onça, como dizia seu Jenú. 

Desbastada a cipoada emmaranhada e feito o 
fogo do acampamento, salii em uma chalaua para 
tomar banho n'uma praia, a uns cem metros de dis- 
tancia; pareceu-me logo que estávamos de facto no 
foco das onças, pois, alli, junto do acampamento, an- 
tes de subirmos o AniéU, já encontrávamos rasto de 
onça em todas as direcções. Que bom prenuncio ! 

Na manhã do outro dia, 30 de Maio, o sol já nos 
encontrou a caminho da "solta": eu, o Nelson, o José 



— 102 — 

Bastos (o caçador de garças), seu companheiro Pire, 
e quatro cães, embarcados na pequena chalana, e o 
Junqueira, Sr. Jenú, seus filhos Nicolau e Américo, 
e cinco cães, na grande canoa, subiamos lentamente 
aquelle rio quasi ignorado, em pleno sertão, cheios 
de esperanças e presos de real emoção. As grandes 
araras, barulhentas que desde a véspera nos ator- 
mentavam com a sua desgraciosa musica, passavam 
em bandos luzindo ao sói o bello azul da sua pluma- 
gem ; quantidade de jacarés, dorminhocos e repellen- 
tes, estendia-se pelas margens, pelos bancos de areia, 
e em pleno rio, e alguns, tão atrevidos, ou tão inno- 
centes, não se arredavam do caminho da embarcação 
e eram castigados a pá de remo, respondendo cora 
fortes rabanadas, tão barulhentas quanto inoffensi- 
vas. . . na occasião; os tuyúyús, cabeças-seccas e ou- 
tras aves, quasi tão confiantes quanto os jacarés, 
alinhavam-se nas praias, em bandos enormes, ora 
ahi permanecendo á passagem das canoas, ora se 
elevando em voo lento e formando sobre nossas ca- 
beças uma abobada de azas do mais bello effeito. 

Na primeira praia a que abicámos e onde saltá- 
mos não era possível andar, sem pisar sobre um 
rasto de onça: era extraordinário o que víamos! pe- 
gadas de vários tamanhos annuneiavam a existência 
de muitas onças n 'aquelle lugar, e uma d 'essas pe- 
gadas, enorme, profunda, dizia-nos que por alli tam- 
bém andava o dono e senhor d 'aquelle sertão o "ma- 
charrão", como chamam os caboclos á grande onça 
macho que as outras rcvspeitam. A cachorrada, assa- 
nhada, corria, farejava, gania e saltava na maior 
alegria ; valentes e dedicados amigos que vão pressu- 
rosos adeante do perigo, embora rara seja a caçada 
em que um ou mais não tenham que pagar com a vida 
tão indómita bravura. 

O "macharrão" tinha saltado sobre uma enorme 
capivara e, sem arrastal-a, a havia conduzido a uns 



— 103 — 

quinhentos metros e ahi feito o seu festim; o rasto 
que trilhámos e a carniça, que encontrámos conta- 
ram-nos, sem palavras, essa historia; depois, a ma- 
céga alta, mais alta que um homem, apagando os 
traços da continuação d 'essa historia, como as vagas 
apagam a esteira do navio, ter-nos-ia, por certo, dei- 
xado ás tontas, se entre nós não existisse um bugre; 
esse homem de bronze acobreado, musculoso e forte, 
afastou-se um pouco procurando a macéga mais 
baixa, e, em meio da grande planicie, de pé, zagaia 
em punho, com sagacidade e um instincto quasi so- 
brehumanos, investigou, não sei se com o olhar, não 
sei com que sentido, e voltou dizendo singelamente 
— "cruzou alli" — e apontou adeante. Andámos, e, 
quando chegámos ao local indicado, afastando a ma- 
céga mais alta que as nossas cabeças, o bugre mos- 
trou-nos o rasto da grande onça macho! 

N'essa campina ha vários capões esparsos, e a 
elles nos dirigimos á busca da fera; mais de uma vez, 
ao abordal-os, o fizemos com a máxima cautela, pois 
que, sendo orlado de cipoal denso e macéga alta, nada 
se enxerga ao atravessar esse "bamburro" para pe- 
netrar no capão; e é justamente ahi que as onças, 
manhosas e atiladas, se escondem e fazem, ás vezes, 
surpresas pouco agradáveis. De uma feita, como a 
cachorrada mestra viesse "dando rasto" no meio da 
macéga e se dirigisse para um dos capões, eu e o ca- 
çador das garças (José Bastos), correndo mais, nos 
adeantámos sobre os outros caçadores e chegámos 
sós á orla do capão; e a cachorrada mestra, conti- 
nuando a latir, arrepiou-se toda, e assim os demais 
cães que alli estavam, latindo muito, e mesmo arre- 
piados, tiveram medo e recusaram-se a varar o bam- 
burro e entrar no capão. Estávamos sós, entreolhá- 
mo-nos e, eu de espingarda e José Bastos de zagaia, 
varámos o bamburro antes dos cães . . . Realmente, 
foi o que se pode dizer "por honra da firma", pois eu 



— 104 — 

é que sei como atravessei aquelle emmaranhado, onde 
não poderia defender-me de qualquer animal que 
fosse. Felizmente, n'esse ponto do bamburro não ha- 
via onça alguma e, infelizmente, apezar de tão pOvsi- 
tivos signaes da cachorrada, ainda n'esse capão não 
encontrámos a que buscávamos. 

De capão em capão atravessámos extensas zonas 
de campos, nos fatigávamos atravez da macéga alta, 
penosa de romper, e assim chegámos a um d 'esses 
oásis onde, n'aquella noute, algumas onças tinham 
pernoutado; os lugares em que se haviam deitado e 
espojado, o rasto fresco, a forte catinga que todos 
nós sentiamos, tudo fazia com que estivéssemos cer- 
tos de que era chegada a hora de tão desejado en- 
contro. Puro engano; ainda d'esta vez a sorte 
adversa não permittia a realização do nosso sonho. 
Já tarde, desanimados, buscámos as canoas; junto 
a ellas, na praia, fizemos fogo, nos acocorámos em 
torno do churrasco e da cuia de melado, cuia única 
em que todos molhávamos o nosso pedaço de 
queijo... e, assim, "bem" almoçados, retomámos o 
caminho do pouso, transferindo para o dia seguinte 
a esperança de melhor sorte. 

Nas margens d'esse rio Aniáli viviam os Índios 
"Terenos", para os quaes Rondon conseguiu e de- 
marcou uma grande área de terra; e para os lados 
da cidade de Miranda, que fica n'essa zona, encon- 
tra-se um ou outro representante d'esses Índios, já 
civilizados. Das roças que plantavam esses Índios, 
resta ainda, longe, subindo muito o Aniáli, um velho 
bananal que, a julgar pela altura da barranca, pa- 
rece estar indemne das cheias; e diziam-nos que ahi 
morava um "macharrão malcredo" que atemorizava 
08 caçadores de garça e fazia ouvir, longe, pela 
noute, seus urros formidáveis. 

Decretada a guerra ao insolente inimigo, prepa- 
rámo-no6 para acampar no "Bananal", um ou dous 



— 105 — 

dias se fosse preciso, e, ás 2 horas da madrugada, na 
pequena chalana e na grande canoa, com a mesma 
divisão de pessoal e de cães da véspera, começámos 
a subir o rio para attingir, pela manhã, o ponto de 
destino. 

O tempo, que estava incerto, começou a enfar- 
ruscar-se e a ameaçar-nos ; distante, muito longe, um 
relâmpago rasgou a treva densa, e o trovão reboou 
soturno, baixo, pesado; essa musica ia augmentar, 
mas, como passássemos por perto de uma grande ar- 
vore de que mal se adivinhava o vulto, talvez ci>mo 
prologo da bulhenta opera celeste, um grande bando 
de magoaris, garças e socos, com suas vozes roucas 
e desgraciosas, deu-nos um interessante e originalis- 
simo concerto que durou mais de dez minutos. Os re- 
lâmpagos succediam-se com frequência illuminando 
o caminho, os trovões ribombavam mais perto e, den- 
tro em pouco, despejava-se sobre nós um tremendo 
aguaceiro; eu e o Nelson, já sabidos, zombámos do 
tempo sob os nossos abrigos; mestre Junqueira e o 
resto do pessoal, porém, tiveram agua até os ossos. 

O Bananal era realmente longe e, apezar do con- 
stante remar dos infatigáveis homene, só o abordá- 
mos depois de 9 horas da manhã; pressurosos, per- 
corremos o capão onde ainda existia um resto de 
bananal dos Terenos, e, se rápida foi a pesquisa, tão 
rápida foi também a desillusão. Do "macharrão mal- 
creado" não achámos nem rasto velho; as cinzas de 
um fogo relativamente recente e as pennas de alguns 
pássaros mostravam-nos a passagem de caçadores, 
e só faltava saber se teriam elles conseguido o que 
tentávamos nós. Mais tarde soubemos que sim. 

Não era possível ser mais caipora, pois, n'um 
lugar em que existem onças em tão grande quanti- 
dade, já havíamos gasto um dia e meio sem encon- 
trarmos uma só que fosse. 

Quem porfia mata caça. 



— 106 — 

Será muito verdadeiro o rifão, mas... é duro 
de pratical-o quando a sorte se mostra tão pouco 
amiga ; emfim, era preciso paciência, e, após pequeno 
descanso e havermos tomado café, reembarcámos e 
começámos a descer o rio. 

Haviamos desfeito talvez um quarto do caminho, 
quando vimos, na margem direita do rio, a meio da 
barranca em desmoronamento, uma caveira (1) Im- 
mana; dirigi-me para lá e foi-me possivel verificar, 
pela posição da ossada, que estava completa, tra- 
tar-se do esqueleto de um velho Tereno; sobre essa 
sepultura havia uma figueira brava que, se não 6 se- 
cular, deve andar perto d'isso, e as suas raizes ha- 
viam envolvido quasi toda a ossada e até mesmo 
penetrado no craneo do velho bugre. 

Sem imitar Hamleto nem parodiar Shakespeare, 
não me foi possivel furtar ás reflexões a que sempre 
impelle um craneo, maximé nas condições d'aquelle, 
cujo mysterio do além-tumulo era augmentado pelo 
desconhecido da vida e dos hábitos do selvicola a que 
pertencera. Cacique poderoso, ou escravo submisso, 
cabido sob a flecha guerreira, ou sob a garra do ja- 
guar bravio, a morte o havia igualado aos que maior 
renome deixaram entre os civilizados. Como é pe- 
quena a vaidade humana! 

Mas nós estamos caçando 1 E' verdade. 

Embarquei na chalana o craneo mysterioso e ve- 
lho, e continuámos a descer o rio. Ao chegarmos ao 
local em que haviamos saltado na véspera, abicámos 
novamente á praia e por ella andámos á busca de 
rasto fresco; em vão; a grande quantidade de pe- 
gadas que viamos era já nossa conhecida, e, sabe- 



(1) Esse craneo acha-se hoje no Museu Nacional, 
lendo a particularidade de encontrar-se n'elle o osso inca- 
rico. 




A' nossa espera na fóz do "Aboboral" 




■gg^ 



No rio Acuidauana 



mm 



iMMHHPI 




Atii'adores 




-^ 107 — 

dores como éramos do habito que têm as onças de 
fazer grandes caminhadas, o desanimo, que já havia 
começado, augmentou com o que acabávamos de con- 
statar. 

Com as caras compridas, falando pouco, nos aco- 
corámos em torno do churrasco e da cuia de melado ; 
almoçámos e retomámos as canoas. 

Mas, senhores, seria possivel que as onças tives- 
sem desertado, ellas cjue até a véspera haviam estado 
alli?! Não, não era possivel. 

Um raio de esperança sempre existe, mesmo 
fraco, no meio do desanimo, e, um d 'entre nós, creio 
que o Nelson, propoz a visita a um capão que estava 
pouco abaixo, na outra margem. 

Acceita a ideia, para lá fomos, mais por desen- 
cargo de c-onsciencia do que por outra cousa. 

Saltámos, abordámos o pequeno capão, e o 
Sr. Jenú e o Junqueira já se dispunham a ir em busca 
de umas aracuãs, quando, um cão, o "Leão", deu 
rasto de um modo especial e diverso do que até en- 
tão ouviramos nos outros lugares. O caçador de gar- 
ças, jDroprietario do cão, estacou e chamou a nossa 
attenção para o latido do seu cão ; todos nós estacá- 
mos onde nos achávamos, e, subitamente, o desanimo 
desappareceu para dar lugar ás maiores esperanças, 
tal havia sido o modo pelo qual José Bastos tinha 
chamado a nossa attenção. 

Seria mesmo a onça? Estariam pagos os nossos 
esforços? 

O "Leão" dobrou no rasto e "barruou", outro 
cão, outro mais, latem, correm, acodem e ajudam a 
acuação. "E' o bicho", grita o José Bastos, e corre 
para a acuação; o meu enthusiasmo vae ao auge, não 
vejo mais cipós nem espinhos, corro jmito ao caçador 
de garças, e a minha alegria augmenta com a proxi- 
midade da acuação. Os outros companheiros se- 
guem-me, a acuação está próxima, é grande o baru- 



— 108 — 

lho que fazem os cães; mas, outro rumor, novo para 
mim, forte, dominador, que abafa o latir dos nove 
cães, ouve-se imponente e majestoso: é o rugir do 
"canguçu". 

EJmbora quasi todos juntos, como houvesse che- 
gado antes do Nelson e do Junqueira, fui eu quem 
formou a linha dos zagaieiros para atirar no animal; 
approximámo-nos com cautela, indo os zagaieiros 
cortando e afastando o matto com as próprias za- 
gaias e, assim, conseguimos chegar a uns cinco ou 
seis metros do local em que se achava a onça e da 
qual só percebíamos os grandes rosnados e rugidos. 

Parece impossível que um animal d'aquelle porte 
não seja visivel a tão curta distancia, apezar de se 
estar movendo, mas, tão emmaranhado era o bam- 
burro em que estava que não era possível enxergar 
cousa alguma. Como fazer? 

O Nelson, vendo-me na linha de fogo, correcta- 
mente collocou-se um pouco á nossa esquerda, prom- 
pto para o que succedesse, mas deixando a mim o 
appetecido tiro; o Junqueira, ao lado do Sr. Jenú, 
ficou a uns dous metros atraz de mim e, assim pos- 
tados, tratava-se agora de fazer a fera saltar do lu- 
gar onde estava para um outro onde fosse visivel. 
O José Bastos propoz que fossemos "onde estava o 
bicho"; mas tal proposta era absurda e louca, pois, 
se onde estávamos a manobra já não era fácil, im- 
possível mesmo seria entrar no mais sujo do bam- 
burro. Então, no meio dos rugidos e latidos, um za- 
gaieiro instigou um cão preto, o "Desengano"^ fraco 
e débil, para que, assim provocada para o nosso lado, 
para nós saltasse essa onça, que não ha\'ia dado um 
passo ante a approximação dos cães. 

Como nas minhas caçadas de perdiz, em que só 
engatilho e levo a arma á cara quando a ave já voa, 
ahi, embora se tratasse de uma perdiz bem menos 



- 109 - 

mansa, conservei a minha três canos na posição ha- 
bitual e esperei. 

Que espectáculo imponente então eu assisti! 
Creio que poderei viver um século e não esquecerei 
a grandiosidade empolgante do que vi. Só uma ba- 
talha, penso, poderá ser mais emocionante. 

O valente "Desengano" obedecera á instigação; 
entretanto, mal havia tentado penetrar no bamburro, 
que a onça, n'um rugido mais forte, saltara para o 
nosso lado. Tão violento, tão rápido foi o movimento 
da fera, que só a vi já de pé, a menos de dous metros 
de mim, a enorme bocca escancarada, rolando um 
rosnado rouco, os braços abertos, as garras aguça- 
das, sublime de belleza e de força. Visando um lugar 
mortal, o coração, rápido levo a arma á cara; não a 
havia ainda detonado, porém, quando ouvi um tiro 
que partira detraz de mim. 

Fosse porque os nervos não lhe permittissem a 
calma indispensável em taes momentos, ou fosse por 
qualquer outro motivo, imprudentemente, pondo em 
perigo as nossas vidas, um companheiro havia ati- 
rado por detraz de nós, e a chumbo. 

Ao estampido, os zagaieiros partiram sobre a 
onça ; e, felizmente, ha\âa mais de um ; porque, o 
primeiro, tendo pegado a onça muito atraz, junto ao 
quarto trazeiro, o animal voltou-se, e o teria apa- 
nhado se os outros não o tivessem secundado. 
Alanceada e mantida por terra por três fortes za- 
gaieiros, dous dos quaes renovaram seus golpes mu- 
dando as zagaias para melhores pontos, a fera lu- 
ctava com tanta bravura e força que a todos ia 
arrastando. 

A onça sob a zagaia enrosca- se toda, descon- 
junta-se, arredonda-se em contorsões de serpente, 
escorrega, e, ás vezes, consegue escapar; se algum 
cão tenta atacal-a, ainda encontra tempo, meios e 
força para matal-o ; e foi isso o que se deu com um 



— 110 — 

dos nossos valorosos e fieis amigos. "Rompe", o mais 
franzino dos cães, approximou-se da fera, mas pagou 
caro fesse acto de imprudência : foi degolado de um 
só golpe. 

A Onça cada vez mais arrastava os zagaieiros 
para o mais sujo do bamburro. e elles gritavam pelo 
atirador, pedindo que atirasse na cabeça; approxi- 
mei-me e detonei a minha arma, por baixo da arti- 
culação do maxilar direito, em direcção á nuca, e foi 
instantâneo o resultado. 

Apezar de contrariado com a pichotada do com- 
panheiro, vinha satisfeito e enthusiasmado com a 
grandeza da scena a que assistira, vellio sonho de 
caçador cuja realidade de muito ultrapassou o ideal. 

As onças menos bravas, como a "malha larga" 
e a mestiça d 'esta com o canguçu, correm dos cães 
como, em geral, todos os animaes; trepam na pri- 
meira arvore que encontram a geito, e, a própria onça 
cangTiçú, quando em capão limpo, fora do seu meio 
que é o pantanal e o bamburro, também sobe e dá 
acuação no páu; entretanto, estando nos sitios que 
costuma frequentar, busca o bamburro mais sujo e 
ahi espera os seus inimigos que, em tal caso, saò mui- 
tas vezes \âctimas do temivel felino. 

'Contavam-me o caso -de um .estrangeiro que, 
vindo caç^r onça *em uma fazenda,- insistiu com^o^fa- 
zeíideiro para que u não fizesse seguii" pelo zagaieiro, 
pois que era mna desnecessidade; o fazendeiro insis- 
tiu, acharam a onça, o homem atirou,, mas grande 
fora o seu espanto ao vêr o animal morto aos seus 
pés, pelo zagaieiro... pois que elle havia errado o 
tiro. Eu não acreditava n'essa historia. Relata- 
vam-me historias e mostravam-me homens, zagaiei- 
ros e atiradores, que já ha\dam sido feridos pela 
onça acuada; citavam-me outros mortos pelo animal 
acuado, e eu não podia comprehender. Realmente, só 
vendo 6 que se pode fazrer ideia do que seja uma onçíi 



— 111 — 

acuada no sujo; então comprehende-se tudo... e 
tem-se mais cautela. 

Quem tenha lido as caçadas de féras nos deser- 
tos africanos, tem sabido como é considerada alta- 
mente perigosa a persegTiição ou procura de um ani- 
mal que se tenlia refugiado "dans les hautes herbes", 
isto é, na macéga alta ou, emfim, em lugar em que se 
o não veja a uma certa distancia ; lá, se bem que não 
haja cães para denunciar a presença do animal, o 
caçador que se dispõe a arriscar a vida em tal em- 
presa persegue um animal já ferido, ou com algum 
membro inutilizado, já enfraquecido, portanto; aqui, 
muito embora. seja precioso o indispensável auxilio 
dos cães (pois não ha rasto de sangue a seguir), nem 
senjpre é possivel prever de onde vae saltar a onça 
que, ardilosa e ladina, muitas vezes finta de um lado 
para saltar justamente do opposto. Tudo isso apenas 
quanto ao risco que se pôde correr atacando um ani- 
mal, aliás em plena posse de suas forcas, o que con- 
stitue a caçada normal, e não a perseguição ou pro- 
cura a que rarissimamente se arrisca um caçador na 
Africa. 

Se compararmos as caçadas Africanas e Asiá- 
ticas com as nossas, concluiremos forçosamente pela 
supremacia das nossas ém bellezâ e emoção: lá 
avista-se o animal á distancia, visa-se com o tempo 
c calma e, se não foi bom ó tiro, ha tempo para re- 
petil-o; ao passo que aqui (é claro que me refiro á 
onça acuada no sujo), se ás vezes não ha tempo de 
dar um único tiro, como pensar em repetição? Não só 
as desvantagens para o nosso caçador são grandes, 
como a importância do espectáculo é outra: a fera 
rugindo enraivecida com o latir dos cães, soltando 
urros de combate, forte como poucas, ágil como ne- 
nhuma outra, está tão próxima do caçador que de 
um salto o attingirá; este voltou a frente para o 
ponto onde partiu ò ronco selvagem e, súbito, em 



-= 112 -^ 

local bem diverso, ^aniu um cão ferido ou morrendo 
fiob as garras da fera que o desorienta com a sua 
ignorada mobilidade; a musica imponente que se 
ouve em tal acuação, a incerteza do ponto em que 
surgirá a onça, rápida como o relâmpago, a proxi- 
midade a que fica o animal, o seu aspecto feroz e sa- 
nhudo, tudo isso, por certo, ultrapassa e de muito, 
a sensação que se possa ter nas tão decantadas ca- 
çadas africanas e asiáticas, descriptas por tantos 
exploradores e caçadores de nomeada. 

Mas, voltamos, com a nossa preciosa onça, para 
o pouso, conduzindo também o valente "Rompe" que 
ainda vive. Em ^dagem, soube que um outro tiro ha- 
via sido disparado contra a onça, e ao mesmo tempo 
que o meu ; esse tiro, porém, como verificámos depois, 
apezar de ter sido dado tão próximo que queimara 
o pello do animal, varára-lhe apenas as bochechas, e 
de pouco teria valido; fora o companheiro de José 
Bastos, o impagável Pire, sempre de bom humor e 
a todos fazendo rir, que o havia dado. O resto da 
tarde foi empregado na trabalhosa operação de tirar 
e preparar o couro da onça; no entretanto, uma 
grande surpresa, representando um grande castigo, 
estava preparada ; — ao tirar-se o couro da onça, 
não encontrámos um único bago de chumbo do tiro 
imprudente. 

Os intricados bamburros e a niacéga alta das 
margens do Ayiiáli esfriaram o enthusiasmo da cabo- 
clada; ciosos de seus cães, elles diziam que ''continuar 
a caçar alli era dar comida ás onças", o que signi- 
ficava o grande perigo ou a morte certa destinada 
á cachorrada, sem falar na nossa preciosa pelle, 
cousa com que os caboclos se importam menos... 
Eu tinha muita vontade de continuar a caçada 
n'aquella zona que, sem duvida, era o "fox" da onça, 
como dizia seu Jenú; não era possível, entretanto, 
negar razão aos homens que não queriam sacrificar 



— 113 — 

mais a cachorrada ; e assim sendo, resolvemos deixar 
o pouso no dia seguinte, depois de terminado o tra- 
balho do couro da onça, o que demanda tempo, pa- 
ciência e habilidade. 

Em geral, tira-se o couro da onça no local em 
que ella é morta, trazendo com elle a cabeça e as pa- 
tas, porque, não sendo habitualmente aproveitado o 
resto, não vale a pena o trabalho de carregar um 
fardo inútil ; nós, porém, como a onça tivesse sido 
morta próximo á margem do rio, trouxemol-a em 
uma das canoas, e só no pouso foi feito esse serviço, 
aliás despido de importância. A primeira operação 
para o preparo do couro consiste em disseccar as pa- 
tas e a cabeça, revirando o couro ao mesmo tempo 
que é descarnado, e enchendo com capim secco as 
patas, bem como a cabeça, sendo n'esta conservado 
o craneo completo. Trata-se, depois, de fazer as cos- 
turas dos cortes produzidos pelas zagaias, mas, como 
as onças têm sempre uma espessa camada de gor- 
dura adherente ao couro, é preciso, antes de proceder 
á costura, retirar das bordas dos talhos essa gor- 
dura, ás vezes com mais de pollegada de altura; e é 
necessário que a costura, além de bastante perfeita 
para não ser percebida do lado do pello, seja bas- 
tante forte para supportar o estaqueamento do couro, 
operação que se segue á da costura. 

Em todas as fazendas do pantanal de Matto- 
Grosso existe, pelo menos, um "quadro" para esta- 
quear couro de onça; e esse quadro consiste em um 
grande caixilho rectangular, medindo, mais ou me- 
nos, dous e meio por dous metros, e feito, geral- 
mente, com quatro "carandás" bem aprumados. 
E' claro que nós não possuiamos um quadro, mas, 
depois de procurarmos, em falta de carandá, alguns 
paus direitos, cortámol-os e construimos o nosso in- 
dispensável quadro. 

Viagens e Caçadas ^ 



— 114 — 

Antes do estaqueamento, procede-se á furacão 
do couro e, como para as costuras, retira-se, com 
afiadas facas, toda a gordura junto á orla do mesmo 
e, em toda essa orla, fazem-se pequenos furos, com 
intervallo de cerca de dez centímetros, furos que vão 
pennittir a passagem de ganchos, ou do cabo dire- 
ctamente. 

Uma vez isso feito, amarra-se o couro pela cauda 
a um dos lados mais estreitos do quadro, e, por um 
cabo que se prende aos dentes, tesa-se o couro para 
o outro extremo; amarram-se as patas com cabos 
curtos, tesam-se as mesmas para os ângulos do qua- 
dro, e está feita a primeira e menos cacete parte do 
estaqueamento. Depois, tomando quatro cabos finos 
e longos, dous para os lados maiores e dous para 
os menores, fixa-se a extremidade de cada um a cada 
angulo do quadro, e com.eça-se a enfiar os cabos nos 
furos do couro, passal-os por fora do quadro, reen- 
fial-os nos furos, e assim até que o couro esteja como 
que cosido aos lados do quadro; isso feito, molha-se 
um pouco o couro e tesa-se-o igualmente para os 
quatro lados, até que fique em condições de ser "ba- 
ptizado" e "grosado". 

Quando o couro chega ao ponto desejado, co- 
meça a operação mais difficil e delicada, que é a de 
"grosar", se não falarmos do "baptismo", que não 
é adoptado por todos, pois não é essencial. Ease ba- 
ptismo, de facto, auxilia bastante a operação que lhe 
segue, e consiste em dar dous talhos sobre a gordura, 
um desde o pescoço até a cauda, e outro, perpendi- 
cular ao primeiro, dividindo-o ao meio e formando 
cruz, forma que é a razão do nome de baptismo. 
Esse baptismo tem a vantagem de permittir grosar 
o couro sem amontoar a gordura toda nas mãos do 
operador, pois, com a divisão feita pelos talhos, fica 
ella separada em quatro porções; mas, é de tal modo 
delicado e perigoso que poucos são aquelles que se 



— 115 — 

aventuram a fazel-o ; e é fácil imaginar a difficuldade 
de dar esses dous longos talhos, que devem cortar 
tão somente a gordura, pois que, se tocarem o couro, 
de ]eve que seja, lhe produzirão grandes rasgos, visto 
estar elle esticado fortemente para todos os lados. 

Quando o habiliseimo Nicolau, enfiando uma das 
pernas entre os cabos que estaqueavam o couro e 
apoiando uma das mãos sobre o quadro, assentou 
uma faquinha afiada por baixo do pescoço da nossa 
onçii, todos nós trememos; mas, com pericia e fir- 
meza, invejadas talvez por algfum cirurgião de no- 
meada, de um só golpe deu o grande talho longitu- 
dinal, s^m que de leve molestasse aquelle precioso 
trophéu. 

A oj>eração de grosar consta da retirada com- 
pleta da gordura e exige uma grande habilidade: é á 
faca que ella é feita e, como se tratasse de fazer a 
barba, o grosador vae com uma das mãos afastando 
a gordura e com a outra j3assando a faca bem junto 
ao couro, de modo a não deixar gordura algiima; 
isso, que só pôde ser feito com facas muito afiadas, 
expõe o couro a ser inutilizado a cada golpe, pois que, 
como no baptismo, qualquer pequeno talho será logo 
transformado em enorme rasgão, pela distensão a 
que está sujeito o couro; e se julgo o baptismo o 
mais perigoso é porque, ahi, os talhos são dados per- 
pendiculai-mente ao plano do couro, ao passo que no 
grosar inclina-ge a faca, tal como se faz com a na- 
valha para barbear, o que diminue o risco. 

Depois do couro grosado, novamente molhado e 
esticado definitivamente, procede- se á lavagem do 
pello, com agua e sabão, e deixa-se que o sói se in- 
cumba de seccíil-o bastante, tendo o cuidado de ter 
o quadro o mais verticalmente possível e com a ca- 
beça da onça para cima. 

Se ha veneno na occasião, faz-se o envenena- 
mento, e, se não lia, trata-se de envenenar o mais 



— 116 — 

depressa possível, sem o que, devido á maldita "pu- 
nilha", estará o couro sem pello, em pouco tempo. 

No dia seguinte ao que matámos a nossa onça, 
Nicolau teve occasião de mostrar, ainda uma vez, 
suas perícias atávicas executando, com extrema per- 
feição, todas as operações que acabámos de mencio- 
nar, e, lioje, quem olhar para esse couro não será 
capaz de suppôr que elle tem costura alguma, embora 
sejam ellas varias e de bom tamanbo. 

Chegara a hora de deixarmos o Aniáli, e o nosso 
pouso do Aquidauana, afim de voltarmos ao Miranda 
e subirmos outros rios; e, como já fosse epocha da 
caçada de garças, José Bastos e seu companheiro 
Pire alii se separariam de nós para retomar o AniáH, 
internar-se pelos pantanaes, descobrir os "viveiros" 
de garças, e, emfim, na pequena chalana que a photo- 
graphia mostra, com quatro cães, reduzidíssima ba- 
gagem, sem uma barraca ou outro abrigo qualquer, 
ficar como ficaram, para, durante três mezes de pri- 
i^ações, soffrimentos e riscos, conseguir um ou dous 
kilos de '^aigrettes". 

Quanta cabeça vazia vao utilizar sacrifício ta- 
manho. . . Dstoii começando a achar (quando não 
compro, está claro) que as ''aigrettes'' custam muito 
pouco dinheiro. . . 

Partimos; aos trancos pelos baiTancos das vol- 
tas estreitas do rio correntoso, conseguimos chegar 
ao Miranda e, descendo um pouco mais, aportámos 
ao já conhecido retiro do ''Alegre", onde não faltou 
o leite na manhã seguinte. 

Tratava-se agora de descair o rio Miranda, até 
o rio Negrinho, onde deveríamos reencetar as nossas 
caçadas; José Bastos, porém, que nos havia trazido 
como pratico, ficara no Aniáli. Como fazer? Já disse 
que estou convencido de que os bugres têm mais um 
sentido além dos cinco de todos nós: Nicolau \iera 
comno.sco, o esse homons extraordinário, que ha\Tn 



- 117 — 

subido o Miranda pela primeira vez, e que, portanto, 
deveria conliecel-o tanto quanto qualquer de nós, to- 
mou a direcção da lancha e veio como pratico ! 

Sob a direcção de Nicolau, deixámos o Alegre, 
descemos o Miranda, e fomos ao rio Negrinho; a 
exploração, porém, d 'esse rio, onde diziam existir 
tantas onças, deu resultado negativo, pois nem rasto 
velho encontrámos. Deixámol-o n'esse mesmo dia, e, 
graças ainda a Nicolau, fomos donuir na foz do rio 
Vermelho, rio que deveríamos subir no dia seguinte, 
em canoa, e dispostos a pousar. Dizia-se que a ca- 
çada ahi era certa. 

Com essas di.sposições, ao romper do dia, subi- 
mos o rio de justificado nome; se o chamassem rio 
do peixe também o fariam com muita propriedade, 
pois c tal a quantidade de peixe n'esse rio que, mais 
de uma vez, acordei com o l^arulho feito por ellet?, 
embora tivéssemos dormido essa noute em l)arranca 
alta. Subimos muito o rio, e só fomos encontrando 
vestígios de caçadores, presença que já nos havia 
sido denunciada pelos ranchos, aliás bem feitos, que 
encontrámos na foz; e foi em vão que buscámos o 
precioso rasto de um macharrão que houvesse recen- 
temente ^^sitado as margens do rio, ou os capões. 
Longe, deparou-se-nos rasto muito velho ; o desanimo 
foi grande; desistimos de pousar por alli, sem uti- 
lidade, e, regressando á lancha, voltámos ao Miranda 
e por elle descemos. 

Tinhamos de atravessar o passo onde havíamos 
encalhado, na subida, durante mais de três horas, e, 
apezar das habilidades de Nicolau, estávamos todos 
anciosos j^ela sorte que nos aguardava; felizmente, 
ao enfrentarmos o estirão, vimos uma lancha, das 
que navegam para Miranda e Aquidauana, que, já 
tendo atravessado o passo, trabalhava para que ou- 
tro tanto fizesse uma chata que trazia. 



— 118 — 

Ás vezes, é preciso retirar todo o carregamento 
d 'essas chatas, leval-o para a barranca, fazer passar 
a chata e tornar a carregal-a, e isso em alguns pas- 
sos; d 'esta vez, porém, com o auxilio de um cabo de 
arame passado no guincho da chata e o esforço de 
uns vinte homens, algims de varas ao peito e outros 
que, despidos, saltaram á agua para empurral-a, a 
chata conseguiu atravessar e deixar-nos livre o ca- 
minho. 

Enfrentámol-o por nossa vez, mas, como já es- 
tivesse elle escavado pela chata e ainda tivéssemos 
tido a precaução de sondal-o, atravessámos bem esse 
passo... indo encalhar mais adeante... Com cerca 
de meia hora de trabalho estávamos livres e conti- 
nuámos a descer o rio, até que, ás 8 horas da noute, 
o sagaz Nicolau, na maior escuridão, descobriu o 
pouso que procurávamos e que ninguém mais 
acharia. 

Cedo deixámos esse pouso; mais tarde entrámos 
no Paraguay, e, na foz do Aboboral, deixámos com 
saudades os três últimos companheiros, que só no 
outro dia chegariam á casa; continuámos a viagem 
e ás 10 e meia da noute, recolhíamos á casa. . . para 
projectar outra caçada. 

Isso que começou como carta, a 7 d 'este, já d 'isso 
perdeu o feitio; tem sido escripta aos pouquinhos, e 
se hoje termino é graças á temperatura que desceu 
a vinte gráos. 

Adeus 




¥ 



Caçadores de garças 




^ 


J] 


...então voltávamos carregados de caça 




Navegando em secco 



1 




Navegando com nm motor de 6 hois. 
não sei de quantos cavallos... 



Ihéími|Ih 



CAPITULO IX 

Marrecas e jacarés — Terceira caçada de onças. 

Chegara novamente o tempo em que o pantanal, 
em frente ao Ladario, ofterecia ao caçador uma 
excellente occasião para o tiro ao vôo, e, como agora 
já fosse conhecedor do terreno e tivesse o Nelson 
como bom companheiro, muitas foram as vezes que 
perseguimos os irerês e marrecas. Bem cedo, antes 
de clarear o dia, com algum alimento nas nossas bol- 
sas de caça e dispostos a ter agua até a cintura, 
atravessávamos o rio envoltos em nuvens de mos- 
quitos; mas, felizmente, d'elles immunes graças ao 
óleo com que nos besutavamos, saltávamos na outra 
margem e, sem fazermos grande caminhada, logo 
começávamos o tiroteio cerrado nos bandos de ire- 
rês. Ás vezes, como tardassem a apparecer esses 
irrequietos animaes, dávamos a esmo um tiro, e era 
quanto bastava para que o campo se cobrisse de uma 
nuvem de azas; os bandos cruzavam-se e, se a sorte 
permittia que passassem ao alcance das nossas ar- 
mas, então voltávamos carregados de caça. Certa 
vez, encostado a um espinheiro que emergia do pan- 
tanal e disfarçando o meu vulto ao olhar arguto dos 
atilados irerês, tive a felicidade de ver um bando 
de patos bravos que voavam ao meu encontro, e, 
tão bem escondido estava que, apezar da proverbial 
desconfiança d 'esses animaes, pousaram elles á pe- 



— 120 — 

quena distancia de mim; como não os avistasse, mar- 
chei na direcção em que deveriam estar e, como 
levantassem elles o voo, isso permittiu que abatesse 
dous bellos exemplares. 

Emquanto cruzávamos o pantanal á cata de um 
bom ponto, ou na intenção de fazer levantar as mar- 
recas e irerês, os jac-arés, que ahi são abundantes, 
nos proporcionavam concertos pouco harmónicos 
com seus roncos de fanfarrões. Não raro era que, 
de junto a nós, um d'esses feios saurios se escapasse 
espadanando a agua e roncando, mas, ou porque 
tivéssemos sorte, ou porque fossem tas bichos ar- 
mados de fortes dentes e coragem fraca, o caso é 
que, apezar dos constantes encontros, nunca tive- 
mos uma recepção propriamente hostil por parte 
d'aquel]es habitantes do pantanal. 

Era tal a abundância de caça n'esse local, que, 
coricacas, carões e frangos d 'agua, que por centenas 
se contavam a fácil alcance das nossas armas, não 
mereciam os nossos tiros; mas, por divertido e bom 
que fosse esse género de caçada, o nosso pensamento 
estava sempre nas onças, e anceavamos por novos 
encontros. 



O pantanal de IVl alto- Grosso é o paraíso dos 
caçadores. 

Depois da caçada do rio Aniáli, isto é, depois 
de ter visto o que era uma caçada de onça acuada 
no chão, o meu enthusiasmo por esse sport redobrou, 
diminuindo, em consequência, o que tinha por outras 
caçadas; assim sendo, tão depressa quanto me foi 
possivel, um mez depois partia á procura de repro- 
ducção de soenas tão empolgantes e arrebatadoras. 



— 121 — 

Na tarde de 4 de Junho de 191é, eu e o meu 
amigo Nelson de Mello, embarcávamos em uma lan- 
cha que ia buscar bois ao Formigueiro, porto da Fa- 
zenda das Palmeiras, e, em companhia do adminis- 
trador d 'essa fazenda, o Sr. Gomes Guahyba, com 
quem fizera boas relações, quando cacei com Roose- 
velt, descemos o rio Paraguay e, á tardinha, chegá- 
vamos ao porto de Formigueiro. Ahi encontrámos 
os filhos do fazendeiro, Commandante Alves de 
Barros, já nossos conhecidos e camaradas, que, com 
toda a peonada da vasta fazenda, haviam trazido 
a ultima "ponta" de gado que esse anno era desti- 
nada ás xarqueadas e que se compunha de quinhen- 
tas cabeças. 

O dia seguinte era um domingo; mas, apezar 
d 'isso, cedo começou o embarque do gado, serviço 
que, embora brutal e fatigante, é para os peães um 
divertimento como o são os de marcar e outros. 
Assistimos ao embarque de trezentas e oitenta ca- 
beças, e era esse o final de um penoso serviço que 
começara em Fevereiro ou Março e consistira na 
entrega de milhares de bois. 

Apezar da renovação da tropa, os cavallos es- 
tavam tão fatigados que, conduzindo essa ultima 
ponta, só chegaram três pessoas montadas, entre 
mais de quinze empregadas em tal trabalho; já os 
animaes vinham afrouxando pelo caminho, e os 
peães, deixando os arreios no melhor lugar que en- 
contravam, vinham a pé tocando o gado atravez do 
pantanal. Realmente, só quem já viu o terreno em 
que trabalham esses animaes pôde avaliar do esforço 
que elles precisam empregar; são enormes extensões 
de pantanal a atravessar, onde o nivel das aguas 
tem os maiores caprichos, e tão depressa o animal 
tem agua pelo joelho como é forçado a nadar ou des- 
envencilhar-se de um atoleiro. Addicione-se a isso 
o pouco tempo de repouso, e o campo como único 



— 122 — 

alimento, e têm-se sobejas razões para ver os ca- 
vallos deixando a pé os cavalleiros. 

O Dr. João e o Mário (os filhos do fazendeiro) 
partiram n'esse dia acompanhando o gado, e nós, 
já impacientes pelo inicio da caçada, esperámos a 
madrugada próxima para seguir em demanda da 
casa da fazenda, distante d'ahi pouco mais de sete 
léguas, e onde seria o nosso quartel-general. 

No Formigueiro, á margem do Paraguay, lugar 
sempre muito alagado, é raro que se encontre onça; 
isso não quer dizer que ellas ahi não façam das suas, 
e, ainda na véspera da nossa chegada havia uma 
d'essas atre\'idas feras morto um jumento, á pe- 
quena distancia da casa; sem cães, porém, não era 
possivel tentar vingar o jumento, ou melhor, o seu 
proprietário, que o havia comprado, dias antes, 
por 200$000. 

Cedo, protegidos pelos nossos mosquiteiros, já 
estávamos deitados em nossas redes, pois que deve- 
riamos partir, ás 2 horas da madrugada, em uma 
grande canoa (batelão), que navegaria a remos e 
a varas, conforme o fundo. Mas o extraordinário é 
que os peães, que deveriam trabalhar n 'esses remos 
ou n 'essas varas, ciue haviam feito durante o dia o 
serviço fatigante de laçar, apartar e embarcar o 
gado, esses, em vez de irem deitar-se como nós, fica- 
ram a noute inteira a tocar viola e sanfona (gaita), 
como se o somno e a fadiga não tivessem ac^ão so- 
bre elles. 

De facto, é extraordinário como essa gente 
passa, facilmente, sem sacrifício, muitas vezes volun- 
tariamente, como no caso presente, sem dormir, bem 
como sem comer! Em compensação, essa mesma 
gente é capaz de dormir um dia inteiro e de comer 
de modo incrível ; e para julgar melhor da capaci- 
dade d 'esses estômagos privilegiados, basta dizer 
que, trazendo a ponta de gado a que me referi, dez 



— 123 

peães, no porto do Eioziuho, churra squearam e co- 
meram, em uma noute, dous capados ! . . . 

Ás 2 horas da madrugada, emíim, largava o 
nosso batelão, Paraguay abaixo, guarnecido por 
quatro homens. Momentos antes da partida, quando 
juntávamos a pequena bagagem para fazel-a embar- 
car no batelão, senti, ao apanhar os meus alforges, 
que tinham elles, em certo ponto, como que uma ca- 
mada de terra ; apanhei uma lanterna e verifiquei 
que o cupim, em menos de uma noute, tinha feito o 
seu túnel de terra ao longo dos alforges e n 'elles 
penetrado em grande numero. Nunca eu tinha ou- 
vido narrar um facto que me autorizasse a imaginar 
tão grande actividade por parte de tão nocivos in- 
sectos ; felizmente, porém, descobri-os a tempo e não 
me deram prejuízo maior que o da nova arrumação 
dos alforges. 

Cerca de duas horas depois da partida tomá- 
vamos um braço de rio, que tem o nome de "Negri- 
nho", e depois, por corichos e campos alagados, che- 
gámos ao "Taquary Velho", ou Eiozinho, atraves- 
sado o qual chegámos, pouco depois das 8 da manha, 
ao porto d 'esse nome, o mesmo ao que aportara com 
o "Nyoac", em Dezembro de 1913, em companhia de 
Roosevelt. 

O chimarrão auginentára a fome que era 
grande, e foi com essa disposição que nos acocorá- 
mos em torno do churrasco, cujo espeto ficou des- 
pido em pouco tempo. Logo depois chegavam á 
outra margem os peães que havíamos deixado no 
Formigueiro e que, chefiados pelo Faustino, vinham 
atravez de corichos e pantanaes, arrebanhando 
arreios e os animaes que tinham afrouxado. 
Os peães em canoa, e os animaes a nado, atraves- 
saram o rio, e todo o grupo se achou reunido no 
porto do Riozinho, onde já havíamos encontrado o 



— 124 — 

carreiro e duas "saias", como diziam os peães, e 
que eram duas companheiras de dous d 'entre elles. 
Deveriamos seguir para o retiro de Tarumã 
para d'ahi ganharmos a casa da fazenda, a três lé- 
guas mais; era forçoso fazer essa volta devido á 
cheia dos pantanaes, e trilhariamos, assim, caminho 
diverso d'aquelle que fizemos em companhia de Roo- 
sevelt, mais recto e mais curto, e que deixava Ta- 
rumã á direita. Ainda assim, até cerca de meia lé- 
gua de distancia haWa muita agua, e o carro de bois 
não podia vir tomar a bagagem que estava no ba- 
telão. Organizou-se então uma navegação origina- 
lissima, que consistia em fazer rebocar o batelão por 
quatro juntas de bois, até o lugar em que estava o 
carro. Tudo estaria muito bom havendo agua. para 
o batelão, mas, entre a margem do rio e o pantanal, 
existia uma lombada de barranco com cerca de cento 
e cincoenta metros de extensão e perfeitamente a 
secco. Não discutimos o caso; atrelou-se a boiada ao 
pesado batelão e, sem grandes trabalhos, \ãmol-o, 
em breve, navegando gualhardamente em secco, e 
utilizando esse motor de nova espécie em navega- 
ção : — o boi. 

Transposta a terra firme, o batelão deslisou 
suavemente para o seu elemento e, d'ahi por deante, 
até attingirmos o carro, tão suave quão pittoresca 
foi a navegação. Arreiados que foram os nossos ani- 
maes, descalçámos as botas e montámos a cavallo. 
Poderá parecer que devêssemos fazer o contrario, 
isto é, calçar as botas para montar, como fazem to- 
dos : mas seria errado no caso presente. Havia muita 
agua a atravessar e, se não tomássemos essa provi- 
dencia, ou teriamos de molhar as botas e os pés, ou 
seriamos forçados a j^enoso exercício de acrobacia, 
ajoelhando-nos sobre os arreios, e que seria dema- 
siado fatigante em tão gi*ande distancia. 



— 12Õ — 

Como somente o Paraguay estivesse cheio, <á 
proporção que nos iamos afastando cl 'esse rio o ter- 
reno apparecia menos alagadiço; os cães já podiam 
correr, os cavallos caminhavam melhor e a caça já 
se mostrava aqui e alli. Patos, tuyúyús e tabuyayás 
surgiam por todos os lados e voavam em todas as 
direcções; os cães correram e apanharam um lobi- 
nho; as manadas de porcos já se mostravam á dis- 
tancia. 

Pouco antes de chegarmos a Tarumã, como um 
gordo capado não estivesse muito longe e nos ti- 
vesse despertado o appettite para um churrasco, o 
Nelson apeou-se e, approximando-se a uns oitent-íi 
metros, fez partir a bala da sua três canos que, com 
grande magua para nossos estômagos, não attingiu 
o alvo, que, n'esse caso, era preto. 

As 4 horas da tarde, chegámos ao retiro de Ta- 
rumã, em cujo rancho acampámos; desencilhámos os 
animaes, esperámos o carro de bois, que não tardou, 
tomámos banho e matteámos. 

Um dos peães, tendo salvo a situação de nossos 
estômagos, compromettida pelo Nelson, trouxe á ga- 
rupa um gordo capado. Anouteceu, e, tendo como 
''plafonuier" as bellas estrellas engastadas ao azul 
puro e profundo, sem outra luz, com a satisfação 
que conmiunica a singeleza dos campos e com a fome 
que desperta o seu ar leve e o exercido, fizemos 
honra ao delicioso churrasco de porco. 

Os peães tocaram e cantaram e, depois de lhes 
termos feito um pouco de companhia, deitámo-nos 
e donnimos até a manhã do 7. 

Cedo, partimos para a casa da fazenda; as ara- 
ras persegui am-nos com a gritaria do costume; ban- 
dos de perequitos de todas as espécies voltijeavam 
e entravam no concerto ; os porcos mostravam-se em 
maior numero, e tanto nos tentaram que eu atirei 
n'um cachaço, o Nelson atirou n 'outro... e ambo.s 



— 126 — 

errámos os tiros. Um cervo passou em disparada, 
deixando-nos agua na bocca; uma ema, arisca como 
sempre, correu, a mais de um kilometro de nós, como 
se estivesse perseguida de perto ; e, emfim, como de- 
sejássemos porc^ para o jantar, approximámo-nos 
cautelosamente de uma bôa manada, mas tanto se 
discutiu qual era o porco mais gordo e no qual eu 
deveria atirar, que a porcada correu, só ficando o 
cachaço, que não teme caretas. A' vista do insuc- 
cesso, o Gomes, que não liavia apeado, disparou 
atraz da porcada e, algum tempo depois, voltava com 
uma porca. . . a reboque. Durante esse tempo, um 
leitãozinho, que se perdera da manada e foi apa- 
nhado por nós, soffreu, pelas mãos de Nelson, a ope- 
ração que concorrerá para o seu futuro engorde e 
consequente desprezo das porcas faceiras . . . 

O cachaço, apezar de todo esse barulho, não se 
afastou de nós, e, como não tivesse atacado, deixei-o 
em paz n'este mundo, com vivos protestos do Go- 
mes, que não os poupa e que já tem levado mais de 
uma queda devido aos buracos que esses animaes 
fazem nos campos. 

Continuámos a viagem e, por cerca de 2 horas 
da tarde, tendo supportado um calor exhaustivo, 
chegámos ao quartel-general de onde deveríamos di- 
rigir as nossas operações contra as onças. 

De Tarumã havíamos enviado um próprio a um 
fazendeiro do rio Taquary, nosso amigo Janjão de 
Barros, pedindo que viesse com seus cães onceiros 
ajudar-nos na caçada, pois são os cães mais afa- 
mados na região dos pantanaes de Matto-Grosso. 
Como até a manhã de 8 não houvesse noticia do 
amigo Janjão nem de seus cães, já um pouco tarde, 
sahimos, eu, o Nelson e dois camaradas, á procura 
de cervos. 

Em vão cavalgámos durante longas horas por 
pantanaes immensos á busca de um cervo, animal 




o nosso amigo Gomes Guayba, no retiro de Tarumã 




A hospitaleira casa da fazenda das Palmeiras 





Na beira de um coriclio 



— 127 — 

que, de resto, existe em abundância nas Palmeiras. 
Já tarde e com fome, regressámos e, como quizesse 
algumas pennas de arara azul, fácil nos foi matar 
oito d'ellas, deixando maior numero ainda a gritar 
no mesmo local em que haviamos morto as outras. 
Emquanto campeávamos cervos, encontrámos dous 
catingueiros, ambos os quaes escaparam ás nossas 
balas; encontrámos patos bravos em grandes lotes, 
mas, como tivéssemos deixado para a volta essa ca- 
çada, suc<íedeu que, ao tornarmos, já os patos esta- 
vam na "sesta", e ficámos sem elles. 

A' noute, chegou um dos filhos do amigo Jan- 
jão, trazendo os dous cachorros mestres, "Visconde" 
e "Mestrinlio", aquelle com 14 annos, e este descen- 
dente do primeiro e mestre como elle. Na viagem 
de S. Francisco (fazenda do Janjão) para as Pal- 
meiras, esses cães hai^iam feito trepar uma onça 
parda; mas, como seu Chico (o filho do Janjão) só 
tivesse um revólver, e o "próprio", que lá fora, ape- 
nas uma faca, aquelle atirou de revólver, mas, tendo 
errado, a onça desceu e, como já anoutecia, tiraram 
os cães e continuaram a viagem. 

Como os cães tivessem caminhado sete léguas, 
resolvemos deixal-os repousar e, no dia seguinte, 9, 
cedo, partimos novamente á procura de cervos; e 
não haviamos cavalgado meia légua quando vimos 
uma ariranha em um alagado, onde, segundo o ha- 
bito d 'esses animaes, de instante a instante, punha 
fora d 'agua a cabeça e um terço do corpo. Apeei e, 
escondendo-me o mais que era possivel, approxi- 
mei-me do animal e, n'um dos momentos em que elle 
emergia, disparei a minha três canos. O meu intuito 
tinha sido atirar á bala, mas, com grande sur}jresa 
minha, fizera partir o cano direito, em que havia um 
cartucho de chumbo fino destinado ás aracuãs. . . 
A ariranha m.ergulhou para não mais emergir, e, 



— 128 — . 

bem por minha culpa, ficámos privados de uma bo- 
nita pelle. 

Ao cabo de algum tempo, como chegássemos até 
a beira de um riacho, aproveitámos os jacarés, que 
ahi se mostravam em grande numero, para exercitar 
as nossas pontarias, e offerecemos nove d 'estes ani- 
maes ao banquete dos urubus. 

Ora a trote, ora a passo, caminhando sempre e 
examinando campos e banhados, para descobrir a 
galhada de um cei^vo, avistámos dous enormes ca- 
chaços solitários; approximámo-nos, apeámos e o 
Nelson atirou no maior d'elles, um cachaço meio 
ruço, mas ambos correram após o tiro; o alvejado, 
porém, não podia acompanhar o outro, e isso nos 
indicava "avaria nas machinas". Visando o coração, 
atirei por meu turno ; o Nelson atirou de novo, mas, 
não obstante o bombardeio, o animal não cahia; os 
camaradas insistiam para que montássemos e asse- 
veravam que o cachaço ia atacar-nos (1), mas, ao 
envez d 'isso, elle seguiu a trote e foi esconder-se 
atraz de um pequeno accidente de terreno onde a 
macéga era mais alta. Montei a cavallo e, com a má- 
xima cautela, caminhei á procura do animal ferido. 
Ao avistarmo-nos, o resistente bicho sentou-se e 
fixou-me com firmeza: a custo contive o cavallo em 
tranquillidade bastante para deixar-me atirar e, isso 
mais ou menos conseguido, alojei uma bala na ca- 
beça do cachaço que, d 'esta vez (não era sem tempo), 
cahiu por terra. 

Examinando o animal, vimos que as quatro ba- 
las o ha\âam ferido, sendo uma no meio do corpo, 
duas na paleta e a ultima na cabeça. Parece incrível 



(1) Os cachaços atacam mesmo sem que estejam 
feridos, e cavallos e homens já têm sido victimas de seus 
fortes dentes. Em Tarumã vimos um velho entrevado em 
conse<iuencia do ataque de um cachaço. 



— 129 — 

a resistência d 'esse animal, bem como é de notar a 
extraordinária espessura do couro na altura da pa- 
leta, espessura que não pode andar longe de um cen- 
timetro. 

Não tínhamos andado eincoenta metros, e os 
urubus já pousavam para o festim: aqui, os corvos 
seguem os caçadores pelo campo e, tal como referem 
os caçadores d 'Africa, mal se deixam os despojos 
de um animal e logo um bando de corvos precipita-se 
esfaimado. 

Continuámos a caminhada, ora montados natu- 
ralmente, ora ajoelhados sobre os arreios afim de 
atravessarmos corichos e banhados mais profundos, 
até que, muito longe, a um kilometro talvez, avis- 
támos o desejado cervo, mas em péssimas condições 
para approximarmo-nos d'elle. Do nosso lado, a ma- 
céga, embora um pouco mais baixa, poderia enco- 
brir-nos abaixados ou caminhando de quatro, mas, 
entre o limite d 'essa macéga protectora e o cervo, 
havia uma extensão, com cerca de duzentos metros, 
cobertas apenas de relva rasteira e onde ficaríamos 
inteiramente á mostra. Avançámos na direcção do 
cervo, a principio de quatro e depois de rasto, até 
que attingimos a zona descoberta; o cervo pastava 
para alem da orla d'essa zona, apresentando-nos a 
p/irte posterior, e, com justa impaciência tivemos de 
esperar que a nos?a victima se apresentasse em po- 
sição mais decorosa. A demora não foi grande e, 
como eu desejava que o Nelson atirasse, instiguei-o 
a isso e elle o fez, apezar dos seus vivos protestos 
contra a grande distancia. 

Tal como succedeu commigo ao atirar na ari- 
ranha, o nosso amigo Nelson fez partir um tiro de 
chumbo, á vista do que, ambos nós, fizemos disparar 
os canos de ba^a visando a paleta do cervo, e este 
partiu galopando em três pernas, percebendo-se que 

Viagens e Caçadas 9 



— 130 — 

havia parado perto de uma grande figueira que 
ficava á pouca distancia. 

Corremos para os cavallos, montámos e parti- 
mos a galope, indignados com a existência de um ba- 
nhado que nos obrigava a fazer uma não pequena 
volta. O Nelson, por mais que eu chamasse, tomou 
uma direcção má e passou adeante de onde havia 
ficado o c«rvo, e eu, apeando-me precipitadamente, 
approximei-me da figueira e logo deparei com o ga- 
Iheiro, deitado sobre as patas, a cabeça bem erguida, 
a uns sessenta metros de mim: visei a cabeça, o tiro 
partiu... e o cervo não se moveu; e até hoje per- 
gunto a mJm mesmo como foi que errei ; mas o caso 
é que errei e bem errado. O Nelson acudiu ao meu 
tiro; fui ao seu encontro e, levando-o ao local de 
onde eu havia atirado, mostrei-lhe o cervo que, com 
o tiro do nosso amigo, foi d 'esta vez pastar no campo 
azul lá de cima. 

As facas sahiram das bainhas e tratámos logo 
de retirar o couro e a cabeça da nossa presa, que 
havia recebido três balas, sendo duas na paleta, e 
uma, a ultima, no pescoço. Terminado o serviço e 
engarupado o couro, montámos e seguimos rumo de 
casa. 

Eu tinha esgotado a minha munição de bala; o 
Nelson possuía um único tiro e, como n 'essas con- 
diçôeí; é que, âa ordinário, se erlccntra a caça, em 
cuja perseguição se perdem dias, presentia que, de 
um momento para outro, encontraríamos cervos ou, 
quem sabe, talvez alguma appetecida onça. 

De volta para casa, a caça meuda e destinada 
á cozinha não era desprezada, e foi assim que, de ura 
tiro, matei um casal de patos bravos. Pouco adeante 
encontrámos um cervo; o Nelson apeou-se e tratou 
de approximar-se, ficando eu como espectador, \'isto 
estar fora de combate, com os paióes vazios. Ainda 
d 'esta vez, o Nelson enganou- se e fez partir o cano 



— 131 — 

direito, que estava carregado com bala, mas que não 
tinha a precisão necessária para um tiro á distancia, 
e, como tivéssemos podido verificar que se tratava 
de uma corça, alegrámo-nos com o insucc«sso e dei- 
xámol-a em paz. Continuando o regresso, matámos 
ainda algumas aracuãs e jacutingas, chegando á fa- 
zenda com uma caminhada de nove horas, com uma 
bella caçada, e muita fome. 

O dia segTiinte era destinado á rainha das ca- 
çadas, a qual considero a primeira, não só entre as 
do Brasil como entre as melhores e mais arriscadas 
do mundo; as zagaias tinham sido cuidadosamente 
examinadas e afiadas, os cães tinham descansado, e 
só faltava que Santo Huberto nos favorecesse. 

Cedo já estávamos a cavallo, d 'esta vez acom- 
panhados pelo amigo Gomes Guahyba, dois zagaiei- 
ros e um camarada. Pouco depois de deixarmos a 
casa, como tivéssemos de atravessar um banhado 
profundo, ajoelhei-me, como de costume, sobre os 
arreios; havia, porém, muitas plantas aquáticas que 
se enleavam nas pernas dos animaes, e o meu ca- 
vallo, que não era dos mais fortes, embaraçou as 
mãos e caliiu. Rapidamente, desci as pernas, reto- 
mando a posição normal, para evitar cahir eu tanir 
bem, e com isso tive agua até acima dos joeDios, q 
indignação contra o pobre cavallo, muito acima da 
razão. Essa indignação não durou muito, porque, 
poucos instantes depois, tendo os cães (os dous mes- 
tres iam presos) corrido e acuado em um lugar muito 
próprio para onça, apeámo-nos e acudimos á afina- 
ção; apenas, como para chegar até aos cães, fosse 
preciso atravessar um banhado e dous corichos com 
agua pela cintura, rapidamente foi esquecido o mo- 
lho a que me forçara o cavallo. 

Os cães tinham corrido e acuado uma anta, cujo 
rasto fresco vimos junto de rasto velho de onça, 



— 132 - 

Não sei como os cães largaram a acuação, o caso é 
que, bem ensopados e desapontados, tivemos de 
reatravessar os banliados e corichos o continuar a 
jornada. 

Atravessámos innumeros banhados e cx)richos, 
uns com agua pela barriga dos cavallos e outros 
quasi dando nado, levando-nos o Gomes a um dos 
menos frequentados recantos da fazenda, ao qual, 
segundo elle dizia, nunca pessoa alguma se arriscava 
sozinha, e muito menos sem anna de fogo, pois que 
alli era "ninho de onça". Apezar d'isso, a sombra 
já havia passado por baixo dos cavallos, o calor 
crescia, e as probabilidades de êxito diminuiam; con- 
tinuámos a caçada, mas já procurando rumo da casa, 
que estava a boas duas léguas e, n'esse perambular 
pelos campos, chegámos a um concho que era for- 
çoso atravessar e que, ]->or muito cheio que estava, 
só a nado poderia ser transposto. 

Já tinha navegado em secco e em batelão pu- 
xado a bois, ia agora, pela primeira vez, navegar a 
cavallo. O coricho era bastante largo (uns cincoenta 
metros talvez) e, como era mister aprender, deixei 
que dous dos companheiros passassem antes de mim, 
suspendi bem alto, na mão direita, a espingarda e 
o relógio na previsão de um accidente, afrouxei as 
rédeas dó "matungo" e metti-lhe as esporas: Que 
sensação agradável! 'Positivamente é' o melhor' d^e 
todos os systemas de navegação : não ha trepidação, 
não se sente fedor de graxa, nem de gasolina, não 
ha carvão pela chaminé, o cavallo não joga, uma de- 
licia emfim. Logo que o animavl passa de cavallo a 
navio, isto é, logo que deixa de tomar pé, afunda um 
pouco e parece que vae mergulhar, a agua sobe até 
a cintura do cavalleiro, mas, em seguida, o animal 
vem um pouco mais á superfície e deslisa suavemente 
como não faz o melhor hydroplano. Essas embarca- 
ções, porém, têm x\m defeito grave : de quando em 



- i3;í - 

vez vão a pique, mesmo sem agua aberta no cos- 
tado ... 

Felizmente, o meu cavallo era um bom navio, 
e valentemente atravessou aquelle tempestuoso 
oceano. Assim, chegámos do outro lado a salva- 
mento, encharcados, e dando eu graças a Deus em 
usar cartuchos de metal ... 

Sem mais incidentes aquáticos ou terrestres, ga- 
nhámos a casa da fazenda sem termos conseguido 
descobrir o que nos havia trazido a essas paragens. 
Haviamos morto uns catetús acuados pelos cáes; 
mas, aqui se dá tão pouca importância a esse bichi- 
nho, que nem se usa arma de fogo para matal-o, 
nem mesmo se lhe aproveita a carne, aliás saborosa. 

No dia seguinte, 11, era sabbado; havia, por- 
tanto, uma semana que deixáramos o Ladario, e as 
onç/is ainda estavam no tinteiro; esforcemo-nos por 
tiral-as. 

Ao amanhecer d 'esse dia já estávamos a cavallo 
e com a mesma organização da véspera : além do 
"Visconde" e do "Mestrinho", todos os cães da fa- 
zenda figuravam na matilha, inclusive dous cãezi- 
nhos, — um que deveria ser tetraneto de Bassét, e 
outro descendente de Poxterrier em igual distancia. 
Eu e o Gomes cavalgámos na frente, e, não nos tí- 
nhamos afastado uma légua da fazenda, quando, pa- 
receu-me ver rasto fresco de onça. O capim não dei- 
xava perceber o rasto com bastante nitidez, e o 
Gomes e mais não sei quem acharam que não era 
rasto; mas, quando "Mestrinho'', que vinha preso, 
passou perto do local em questão, farejou, levantou 
o nariz e "falou" (latiu dando rasto). 

Havia perto um capão de matto para o qual a 
cachorrada se dirigiu; soltámos os dous mestres, e 
dentro em pouco "fervia" a acuacão... de um oá- 



— 134 — 

chaço, no meio de um acuryzal (1) alto; eu e o Nel- 
son nos apeámos, e o Gomes, montado n'um burro, 
acompanhou-nos pelo acuryzal a dentro para assis- 
tirmos a acuarjão, cujo barulho era grande. 

Tendo notado desde a véspera um certo enfra- 
quecimento nas molas recuperadoras da minha es- 
pingarda, resolvi mantel-a descarregada, só prepa- 
rando-a quando tivesse de acudir á acuação de onça; 
assim, pois, apenas de facão em punho, por causa 
das duvidas, approximei-me da acuação. Logo de- 
pois chegou o Nelson e, por troça, disse-lhe que fosse 
atirar no cachaço, pois que os zagaieiros o estavam 
esperando; o nosso amigo enfrentou o bicho, de 
arma prompta, mas, como alguns cães estivessem de 
permeio impedindo o tiro, esse não pôde ser imme- 
diato. Súbito, vejo uma nuvem de poeira, o Gomes 
grita e procura afastar o burro, e eu, refugiando-me 
atraz de um acury, aponto, em vez de espingarda, o 
facão para o lado da carga; o cachaço passou por 
junto do meu protector acury como uma flecha, gra- 
ças a cachorrada que o seguia acochando, mas, o 
nosso amigo Nelson só livrou-se dos fortes dentes 
do bicho graças á presteza e á agilidade com que 
saltou para o lado, salto que seria ainda maior se 
não tivesse sido interrompido por um importuno 
acury, sobre o qual foi bater em cheio com as costas. 
De facto, o atrevido cachaço havia partido sobre o 
Nelson, depois sobre o Gomes, e depois sobre mim, 
naturalmente porque estávamos quasi de enfiada; 
eomtudo, fosse como fosse, e embora déssemos boas 
gargalhadas depois do caso passado, o que é fora 
de duvida é que nos livrámos de boa. Sahindo do 



(1) Acur>zal — matta de acurys. Acury — palmeira 
basta, de pequena altura e grandes folhas, como as que se 

vêem em algumas das photographias adeante. 



— 135 - 

acuryzal e atravessando mn pequeno campo, o ca- 
chaço, persegnido pelos cães. entrou em outro eapáo 
onde os zagaieiros o seguiram, afim de maíal-o. 

Eu e o Nelson buscámos as nossas montadas e, 
como ouvíssemos, para o lado do campo, um gru- 
nhido fino e a acuação de um cão só, sendo isso mais 
ou menos no caminho que deveriamos seguir, fomos 
até lá e assistimos a uma seena das mais enlaça- 
das: um leitãozinho, com menos de um mez de nas- 
cido, apezar de ferido, fazia frente a um dos peque- 
nos cães que nos haviam acompanhado e. a despeito 
da sua juventude e do seu tamanho, era tão impe- 
tuoso no ataque que o cãozinho recuava. Diverti- 
mo-nos um pouco com o pirralho enfurecido, e. 
como chegasse o Gomes, demos liberdade ao valente 
porquinho e seguimos para o capão em que os za- 
gaieiros acabavam de matar o cachaço atrevido. 

Mal tínhamos chegado á orla d'esse capão, e 
ainda um dos zagaieiros não tinha sahido para o 
campo, quando ouvimos uma acuação: o velho mes- 
tre ''Visconde*' vinha acudindo, demos mais algirns 
passos, e um dos zagaieiros grriteu: "é o macharrão. 
seu Commandante". — e a fera, como para confirmar 
a phrase. soberbamente rugiu. 

Que sensação indizivel! Que emocionante mo- 
mento I A ninguém é dado prever o que se vae pas- 
sar, ran mixto de alegria e preoecupação nos em- 
polga, e ao prazer de saber que vamos enfrentar o 
inimigo que buscamos mistura -se a certeza de que 
a scena pode tornar-se das mais patheticas, 

Apeámo-nos. preparámos as nossas armas com 
o seu melhor, e. como fosse eu quem devesse atirar, 
formei na linha de frente entre os dous zagaieiros; 
o Gomes e o Nelson vinham logo em seguida, e mn 
camarada fechava a retaguarda: abeirámo-nos da 
orla do capão, no ponto mais próximo da acuação. 
e, com o coração apertado, o espirito tenso, cauteio- 



— 136 — 

sãmente afastando as folhas de acury e os galhos de 
•arvore, fomo-nos approximando d'aquella musica 
sem par. 

Um dos zagaieiros já nos havia affirmado que 
a onça era mansa e, agora, já percebiamos que ella 
estava trepada, ccmo elle previra; as cautelas não 
foram menores por causa d 'isso, não só porque, ás 
vezes, ha engano nas previsões, como porque, outras 
vezes, a cnça desce de repente e não ha que fiar. 
A distancia a percorrer foi muito pequena, e o 
mesmo zagaieiro^ apontando para cima, exclamou: 
"está alli ella, Commandante"; eu nada via, mas, 
afastando-me um pouco, divulguei o animal, que nos 
apresentava a anca esquerda; demos alguns passos 
mais e, oh espectáculo magnifico ! deparámos com um 
enorme macharrão, soberbo de belleza e de força, 
fitando do alto a cachorrada que lhe entoava um eh- 
-thusiastico hjTuno de victoria. 

■ O possante animal havia trepado bem uns seis 
metros por uma arvore acima e, de lá, abraçando um 
galho e como que sentado contra um outro menor, 
fazendo ouvir um ronco soturno e muito baixo, com 
os lábios contrahidos e mostrando as enormes pre- 
sas, movia com lentidão e altivez a colossal cabeça, 
ora olhando para os cães e ora para nós. 

Que quadro admirável e que felizes encantos 
para um caçador! 

Logo que avistei bem o animal, a despeito da 
belleza do quadro, quiz atirar; os zagaieiros, porém, 
pediram-me que esperasse, pois iam limpar um 
"pouco o terreno, afim de poderem trabalhar livre- 
mente, se isso fosse necessário ; e, como tivesse n'isso 
tanto interesse quanto elles, aguardei ancioso e im- 
paciente a operação, sem, comtudo, abandonar a 
■pontaria. A esse tempo, o macharrão, visivelmente 
. incommodado, voltou a «norme cabeça para o outro 
• lado do galho, mudou a mão esquerda mais para 




A onça morta aos pés dos caçadores 




O autor e sua victiina 



~ 137 — 

cima, e era fora de duvida que tencionava descer; 
dirigi a pontaria para o coração e, por questão de 
um segundo mais, teria feito partir o tiro, quando 
naturalmente querendo melhor sondar o terreno, a 
fera voltou novamente a cabeça para o nosso lado. 

São momentos esses que é difiScil manter com 
calma uma pontaria perfeita e apertar o gatilho da 
arma de modo tão natural e seguro quanto em um 
exercido de tiro, e tão mais necessária é a calma 
n 'essas occasiões quão perigoso se sabe ser um 
d'esses animaes mal feridos. Era para a cabeça do 
animal que voltava agora a minha attenção, e, apro- 
veitando um momento em que a fera abaixou-a um 
pouco mais para fitar os cães, deixei partir o tiro 
de bala da minha três canos. 

O pessoal estava formado em ordem de batalha: 
os zagaieiros attentos a meu lado, o Gomes e o Nel- 
son formando a reserva e promptos a intervir em 
caso de lucta. Todas essas precauções são necessá- 
rias porque, na maioria dos casos, a onça não sendo 
fulminada, quando menos faça, mata e fere um ou 
mais cães, e, se tem força ainda bastante, aggride 
os caçadores; de sorte que, e seja como for, é sempre 
prudente e necessário tomar esses cuidados. 

D 'esta vez, porém, o caso não ]:>assou de exer- 
cicio: ao choque da minha bala bem atirada entre oa 
olhos do animal, um pouco mais para o sobr'olho 
esquerdo, sem um movimento, fulminado, o grande 
macharrão abateu no lugar em que estava: um rio 
de sangue correu pelo nariz e pela bocca e, com as 
pernas e a desmesurada cabeça pendidas, o rei dos 
nossos sertões nem mesmo cahiu da arvore em que 
estava trepado. 

Dizer a minha alegria n'esse momento não é 
fácil tarefa; uma grande aspiração de caçador es- 
tava alli realizada de um modo períeito; o exemplar 
- era dos mais belloe, os cães tinham trabalhado 



~ 138 — 

admiravelmente bem, e o tiro não podia ter sido feito 
com maior successo e maestria (pede-se desculpa da 
falta de modéstia, são restos de enthusiasmo). 

Foi preciso que um dos zagaieiros trepasse na 
arvore e empurrasse para baixo o corpo do animal, 
para que tornássemos posse de tão bello trophéu; ao 
cabir no cbão aquella grande massa, os cães atira- 
ram-se ao bruto cem a maior sede de vingança, e 
era interessante ver como os dois pequenos cães se 
encarniçavam em morder com raiva tão grande ini- 
migo; aliás o faziam em perfeito direito, porque, a 
despeito do tamanlio, os cãezinhos acuaram com bra- 
vura e firmeza dignas de louvor. 

Na mais franca alegria, arrastámos o machar- 
rão para a orla do campo, afim de fixarmos em pho- 
tograpbia tão grandioso e festivo acontecimento e, 
uma vez fora do capão, tirámos o grupo em que figu- 
rámos, victoriosamente ao lado da victima, eu, o 
Nelson, o Gomes e dous zagaieiros. 

Eu, isoladamente com o macbarrão, cujo peito 
e braços dão bem ideia da sua força, e depois, o 
Nelson, na mesma feroz companhia, nos fixámos nas 
photographias que sempre vemos com viva satis- 
fação. 

Retirou-se o couro da onça com a cabeça e pa- 
tas, o que constitue um trophéu magnifico; retirou-se 
um lado das costellas, o que constitue um saboroso 
petisco; e com essa preciosa carga voltámos conten- 
tes para a casa da fazenda. 

Nós já sabemos o trabalho que dá o preparo de 
um couro de onça; todo o resto do dia foi tomado 
por esse serviço em que trabalharam quatro homens 
e, apezar do empenho em que estavam de terminal-o, 
a noute surprehendeu-nos antes de finda a tarefa. 
O couro era dos mais bellos, entretanto, o machar- 
rão, velho e brigador, tinha uma cicatriz recente no 
dorso, perto do pescoço; tinha dous ferimentos na 



^ 139 -^ 

parte deanteira do corpo, do lado direito, e, final- 
mente, na cabeça e um pouco em toda a parte arra- 
nhões que as garras inimigas haviam sulcado. No dia 
seguinte, 12, domingo, terminou-se o trabalho do 
couro, que, afinal, não ficou bem esticado, como 
não ficara bem descarnada, nem bem cheia a cabeça; 
o mestre de tal serviço, o capataz da fazenda, ainda 
não havia chegado, e, assim tive de contentar-me 
com o trabalho em que aliás applicaram toda a bôa 
vontade aquelles que o fizeram. 

Tratámos das nossas armas, procurei, sem re- 
sultado, o mal da minha, vadiámos o resto do dia e, 
com impaciência esperámos o dia seguinte para 
continuar as caçadas. Eu estava seriamente pre- 
occupado com o êxito d 'essa caçada, pois, já tendo 
atirado n'um bello macharrão, receava que o Nelson 
fosse menos feliz e, não dispondo de muito tempo, 
não encontrássemos outra onça, que a elle agora 
cabia atirar; foi, portanto, com grande alegria que 
recebemos a noticia de ter sido encontrado rasto 
fresco de um grande macharrão, apenas á meia lé- 
gua da fazenda. 

No dia seguinte, cheios de esperança e de enthu- 
siasmo, ás 7 horas da manhã, com o mesmo séquito 
da ante-vespera, cavalgámos em busca do rasto pro- 
missor. Teríamos caminhado talvez durante meia 
hora e logo encontrámos rasto fresco, d'aquella ma- 
drugada, rasto de um casal de onças, cujo represen- 
tante masculino, a julgar pelas pegadas, não era 
propriamente um gato. . . e, ao contrario d 'isso, de- 
veria ser um macharrão de grandes dimensões, com 
o qual o amigo Nelson teria de medir-se. 

O rasto era tão fresco que a cachorrada seguiu 
"rasto atraz", isto é (a explicação é necessária para 
os profanos), seguiu em direcção contraria áquella 
que as onças haviam tomado; com pouco trabalho, 
porém, voltaram os cães e, agora bem encaminhados, 



— 140 ^ 

dentro em pouco, levantaram, e correram uma das 
onças. Atropelámos então os matungos por dentro 
de um acuryzal, sahimos no campo e, ahi, a galope, 
procurávamos seguir a direcção do latido dos cães, 
quando, súbito, ferve uma acuação em um capão 
próximo. 

Eu havia perdido a ultima espora de um velho 
par que vira muitos campos, ainda assim, embora 
a custo, consegui acompanhar os zagaieiros que, ar- 
mados de enormes "chilenas", fustigavam com fúria 
as suas montadas. O Nelson, também sem espora, e 
montando n'um cavallo mais lerdo, surrava indi- 
gnado o matungo, em^pregando debalde taes esfor- 
ços; emquanto isso o Gomes crava as esporas no 
burro, e já o Nelson entristecia com a idéa de ficar 
bagageiro e, quem sabe, não chegar a tempo de assis- 
tir á festa, quando roda o burro em que montava o 
Gromes, e burro e cavalleiro rolam por terra. 

Afinal, mais ou menos juntos, todos nós chegá- 
mos esbaforidos á orla do capão e, oh decepção ! o 
patife de um cachaço se atravessara na corrida, e 
era elle que os cães estavam acuando. . . Com raiva 
e por unanimidade foi decretada a morte immediata 
do intruso; a calibre 16 do amigo Gomes passou ás 
mãos de um dos zagaieiros, e dentro de cinco mi- 
nutos estávamos livres do importuno cachaço. Foi 
uma injustiça, pois, se não fora o intromettimento 
de tal cachaço, é bem provável que a caçada tivesse 
perdido muito de seu brilho futuro. 

Quando os cães encontraram o patife que nos 
pregovi tão grande logro, estavam elles correndo 
"madame" onça que, com o ardil e habilidade pró- 
prios do seu sexo (com esta eu arranjo uma descom- 
postura), aproveitou o sacrificio do bode expiatório 
ío bode no caso presente é porco), para esgueirar-se, 
e livrar-se dos cães, subindo talvez, quem sabe, n 'al- 
guma arvore bem próxima. Fosse como fosse, o caso 




Um bello exemplar 
i2.m0 sem contar a cauda) 



— Ul — 

é que, morto o cachaço e retirada a cachorrada, esta 
logo apanhou o rasto do macharrão e seguiu-o com 
ardor enthusiastico ; novamente fustigámos os ani- 
maes acompanhando os cães e, instantes depois, 
nova acuação alegrava os nossos ouvidos. 

Salvo o Gomes, que se havia apartado para con- 
tornar o capão onde agora ouviamos a acuação, logo 
chegámos á orla do acuryzal, onde se ouvia a orches- 
tra, augmentada d'esta vez com um instrumento 
novo e cujo som dominador não deixava duvidas a 
respeito. O acuryzal afastava-se em certo ponto em 
recôncavo por onde penetrava o campo, como se 
afasta a costa formando enseadas em seus regaços, 
e foi na entrada d 'essa "enseada de campo" que nos 
apeámos apressadamente. 

O zagaieiro que previra a "mansidão" (para o 
diabo tal mansidão) da primeira onça, antes, acom- 
panhando o rasto da que agora corríamos, já nos ha- 
\âa avisado que este macharrão era bravo, e, de 
facto, a uns vinte metros de nós, fazendo frente á ca- 
chorrada que, muito heróica, denodadamente, sitiava 
o inimigo, o macharrão, com rugidos successivos, nos 
dizia o seu máu humor e a resolução de não sahir do 
chão, onde estava acuado. Faltava entre nós o Go- 
mes, a quem não queríamos privar do grandioso es^ 
pectaculo; puzemo-nos a gritar por eile com todas 
as forças de nossos pulmões, mas, mestre Gomes não 
respondia, tardava, e a acuação atroava os ares com 
o latido dos cães e os bramidos da fera. 

Súbito, percebemos que a onça abrira caminho 
por entre a cachorrada, dirigindo-se para o nosso 
lado, e, esparramados como estávamos, poderia ser 
das mais graves consequências um encontro em taes 
condições; o macharrão, porém, ou dev-ido aos nossos 
gritos chamando o Gomes, ou porque a cachorrada 
o acochasse fortemente^ deu novamente acuação pou* 



— 142 — 

cos metros adeante; mas, a esse tempo chegava o 
G ornes . 

Nós já nos tinliamos encontrado com uma ouça 
acuada no chão; é verdade que era uma onça de 
extraordinária bravura e que o local era dos mais 
desfavoráveis para o caçador; aqui o lugar não era 
sujo, era um acuryzal baixo e onde se podia ver o 
animal a uma certa distancia ; em compensação, o 
macharrão que iamos enfrentar era muito maior. 

Creio que, se ficássemos bem attentos, teríamos 
ouvido o bater dos nossos corações. . . 

Com a máxima cautela, os dous zagaieiros á 
frente, o Nelson entre elles, eu e o Gomes logo atraz, 
o camarada fechando a retaguarda, n'essa ordem de 
cunha inversa, penetrámos no acuryzal. Não andá- 
ramos muito quando um zagaieiro, como da outra 
vez, mas agora dirigindo-se ao Nelson e apontando 
para o chão, indicou o animal acuado e raivoso. 

Mais dous passos para a frente e um espectáculo 
sublime offerecia-se aos olhos dos caçadores. A de- 
nodada cachorrada, com os pellos eriçados, os dentes 
á mostra, latindo com fúria e raiva, acuava um 
enorme macharrão que, entre sentado e de pé, com 
as costas protegidas ]yoY um acury, a bocca escan- 
carada d 'onde partiam urros de guerra, as presas 
ameaçadoras a descoberto, os braços abertos e as 
fortes garras saltadas, fazia frente aos valentes cães. 

A fera não nos dava a frente, e o Nelson, sem 
perder tempo, procurando attingir a columna verte- 
bral perto do craneo, visou um pouco atraz do ma- 
xillar e um pouco acima, fazendo partir o tiro; o 
animal rolou por terra e a cachorrada avançou; rá- 
pido, porém, uma nuvem de poeira levanta-se, oe 
cães afastam-se, e o macharrão reerguendo-se pro- 
cura apanhar um d'elles; mas, o nosso grupo tam- 
bém tinha avançado, e o macharrão, deparando com 
elle, salta sobre um dos zagaieiros. 



— 143 — 

A enorme força e o grande peso do animal en- 
furecido deveriam dominar o valente zagaieiro Co- 
riango; este homem já havia morto muitas onças 
como zagaieiro, e a sua grande pratica de muito lhe 
valeu n'esse momento critico; assim, com grande 
calma e pericia, elle recebeu o macharrão na ponta 
da zagaia, e por tal forma que o derrubou por terra. 
O outro zagaieiro cravou, por seu turno, a sua za- 
gaia no peito do animal, esforçando-se ambos por 
manter a fera de encontro a um acury novo. A ca- 
chorrada, assanhada, mordia raivosa o terrível ini- 
migo que, ainda assim ferido e subjugado, apanhou 
um dos cães e quasi o mata. Durante toda esta scena, 
tão emocionante e forte quanto rápida, nós nos con- 
servámos unidos e promptos para intervir em qual- 
quer emergência; assim, quando a onça abraçou ura 
dos cães, o Gomes, para salval-o, atirou na cabeça 
do macharrão, acabando de matal-o. 

No fim da festa, não sei bem se nos beijámos; 
sei com certeza que nos abraçámos, saltando de ale- 
gria, e não era para menos: o macharrão tinha sido 
bravo e denodado, a cachorrada heróica, e os caça- 
dores dignos da empresa. 

Com bastante trabalho, arrastámos para o 
campo o bello animal, tirámos algumas photogra- 
phias e, como da outra vez, exti'ahiu-se o couro com 
a: cabeia e as patas, cortou-se um lado das gostosas 
costellas e, engarupada que foi a cubicada carga, 
voltámos radiantes para a casa da fazenda, que 
ficava próxima. 

O Nelson foi mais feliz do que eu quanto ao pre- 
paro do couro e sua perfeição ; o enorme macharrão 
tinha perfeito o seu bello couro. O capataz da fa- 
zenda, pratico no serviço, já havia chegado e tomou 
a direcção do delicado trabalho, e, assim, na tarde 
d 'esse dia, cheios de orgulho, podíamos photogra- 
phar os esplendidos trophéus de tão bella caçada. 



— 144 — 

Muito embora não nos devêssemos queixar da 
sorte que nos havia proporcionado tão brilhante re- 
sultado, ainda assim, de bom grado teriamos con- 
tinuado a perseguição das onças; infelizmente, po- 
rém, não ha bem que sempre dure, e, como não 
quizessemos distrahir nossas lanchas do serviço, era 
forçoso partir, no dia 15, para apanhar, na manhã 
de 16, no rio Paraguay, uma lancha que deveria 
passar subindo o rio. 

O dia 14 foi empregado no preparo da retirada 
e no repouso sobre os louros da campanha, e, a 15, 
precedidos de um carro de bois com a bagagem e os 
couros, deixámos, cheios de saudades, a casa da fa- 
zenda e tomámos rumo de Tarumã, acompanhados 
pelo Gomes. 

Para o caçador é sempre triste a volta da ca- 
çada, por melhor e mais fructifera que tenha ella 
sido, e, assim, conversando pouco e pilheriando 
ainda menos, seguimos macambúzios pelo campo, 
sem mesmo fazermos caso da caça que viamos em 
abundância. Durante mais de quinhentos metros, 
acompanhámos o rasto fresco de uma onça com um 
filhote peoueno, e a certeza de que a podiamos caçar 
com facilidade, se não fosse a falta de tempo, ainda 
mais augmentou a nossa melancolia. Para esnan- 
tal-a,- como uma vara de porcos corresse de, nós a 
maifi de -cem- ' metros, apeei-me, acompanhei- um 
cachaço com a pontaria c, a mais de cento e cincoenta 
metros, attingi o animal em meio da corrigia. Afinal, 
por cerca de 1 hora da tarde, chegámos a Tarumã, 
tendo pouco antes encontrado duas onças, que fu- 
giram. 

Matteámos: o amiíro Gomes havia preparado 
um farnel com uma gallinha assada, um pedaço de 
lombo de porco e um "virado" de carne com farinha, 
e, como se approximasse a hora da partida, fizemos 
juntos a ultima refeição comendo a gallinha e boa 



— 145 — 

parte do lombo de porco. As 3 e meia horas da tarde, 
bem a contragosto, reciprocamente saudoso^, despe- 
dimo-nos do nosso bem amigo Gomes Guahyba, e 
deixámos Tarumã com destino ao porto do Riozinho. 

Ora espantando um bando de patos bravos, ora 
admirando a revoada dos tuyúyús e tabuyáyás, ca- 
minhávamos á frente com dous camaradas, seguidos 
do carro de bois que a pouco e pouco ia ficando dis- 
tanciado. Uma cadella que nos acompanhava diver- 
tiu-nos durante muito tempo perseguindo uma ema; 
os trovões rolavam longe e nos ameaçavam de forte 
banho; o dia esmorecia triste no silencio profundo 
do immenso sertão. 

Com cerca de légua e meia de caminhada, che- 
gámos ao ponto em que tinhamos abandonado a in-. 
teressante navegação "moto-bovina" e, agora, pri- 
vados de canoa e de bois, era mister fazer a cavallo. 
todo aquelle trecho. Sem botas, cem as calças bera 
arregaçadas, fustigámos os animaes e encetámos a 
travessia sobremodo inccmmoda. A permanência 
das aguas tornara o fundo molle, transformando-o 
em atoleiro em certos pontos; os animaes faziam in- 
gentes esforços para avançar, o que só conseguiam 
com lentidão; a chuva começava a tombar em gros^ 
SOS pingos e, nesse memento, quando mais precisá- 
vamos avançar, o cavallo em que vinha o Nelson 
recusou-se peremptoriamente a continuar o cami- 
nho. O nosso amigo, no auge da indignação, appli- 
cava surras temiveis á cavalgadura ; um chicote, cujo 
cabo era um verdadeiro cacete, foi-lhe emprestado. 
e, com esse cabo, a surra redobrou de força. A chuva 
augmentava, o temporal approximava-se, anoutecia, 
e o cavallo não desencalhava. Afinal, um camarada, 
que estava armado de fortes chilenas, trocou de 
montada com o Nelson, o cavallo desencalhou, fize- 
mos o resto do penoso trajecto, chegámos ao rancho,, 
e o temporal . desabou. ,- 

Viagens e Caçadas *-^ 



— 146 — 

Muito mais tarde, noute fechada, sob a aguacei- 
rada, por cerca de 8 horas, chegou o carro de bois, 
que ha\âa feito o mesmo caminho com grandes dif- 
ficuldades; a agua ia-lhe acima do estrado, e, para 
que não galgassse a bagagem, foi esta suspensa ás 
varas do carro e abrigada da chuva por meio de 
couros; ainda assim, o resto do farnel que, por in- 
stancias do Gomes, acompanhara a bagagem, chegou 
bastante molhado, o que não impediu de ser quasi 
todo comido. 

Não durou muito a conversa que mantinhamos 
atravez dos mosquiteiros, deitados nas nossas redes; 
dentro em pouco o somno reparava a fadiga da jor- 
nada; o temporal amainava e, quando nos levantá- 
mos de madrugada, já estávamos livres d'elle. 

Tinhamos decidido que do Riozinho tomariamos 
caminho diverso do que fizéramos na vinda e, ao em 
vez de atravessar o pantanal c subir até ao Formi- 
gueiro, deveríamos descer o Taquary Velho (o 
mesmo que ha\*ia subido e descido com o "Nyoac"), 
afim de tomar a lancha perto de sua embocadura, no 
rio Paraguay. Assim, embarcados em uma canoa 
que se achava no porto do Eiozinho, e que fora tri- 
pulada pelos dous zagaieiros que nos haviam se- 
guido, com toda a nossa bagagem e os couros, come- 
çámos a descer o Taquary. Eu me havia sentado com 
a frente para a proa e, logo ao sahir, estando o vento 
contra, comecei a sentir um máu cheiro insuppor- 
tavel. Depois de algum tempo, certo de que o máu 
cheiro partia de dentro da própria canoa, tratei de 
verificar de onde provinha e descobri que o couro 
de cervo, arrumado á proa da canoa, era a causa de 
tão repugnante fétido. Em uma pequena canoa, como 
aquella em que estávamos, não era possível abusar 
do equilíbrio; éramos obrigados a manter a arru- 
mação feita antes do embarque e, contentando-me 
com a providencia de voltar as costas para a proa, 



— 147 — 

navegámos mais de duas iioras mimoseados com tão 
agradável perfume. 

A descida do Taquary Velho foi feita sem inci- 
dentes dignos de nota para quem está habituado com 
a abundância de caça nos rios de Matto-Grosso, e, 
antes das 7 da manhã de 16, aportávamos á margem 
esquerda do Paraguay, em frente e um pouco abaixo 
da embocadura do rio que descêramos, e onde existe 
a choça de um vigia da linha telegraphica, perto da 
Manga, porto da Fazenda Firme. 

Pelas nossas contas, e pelas informações que co- 
lhêramos, só de 8 para 9 horas da manhã passaria 
a lancha que nos deveria levar ao Ladario, subindo 
o Paraguaj'. Calcule- se, pois, a nossa decepção e o 
nosso desespero ao sabermos que a lancha já havia 
passado durante a noute ! . . . 

As lanchas que navegam de Porto Esperança 
para Corumbá são semanaes; era essa a lancha que 
havíamos perdido; não tínhamos viveres; subir o Pa- 
raguay na canoa que nos tinha trazido até alli seria 
penosíssimo e far-nos-ia gastar quatro dias, durante 
os quaes não poderíamos passar sem comer. O caso 
era realmente complicado; emfim, fizemos saltar as 
nossas bagagens para a terra e, saudosos, despe- 
dimo-nos dos zagaieiros Coriango e Martins, que, 
reembarcados na mesma canoa que nos trouxera, 
atravessaram novamente o Paraguay, retomando o 
rumo da fazenda, d'aquella boa fazenda que nos 
sorria ainda como um verdadeiro paraiso para os 
caçadores. 

Felizmente, na Manga, a linha telegraphica 
atravessa o rio em cabo sub-fluvial; ha duas gua- 
ritas nos extremos e, de uma d'ellas, era possível 
telephonar para Corumbá, utilizando a linha tele- 
graphica; estávamos salvos. Decididamente a sorte 
não nos havia abandonado, pois, um restinho do far- 
nel, apezar de reduzido quasi a zero, ainda nos havia 



— 148 — 

acompanhado, e, recalcando o appetite, nos reduzi- 
mos a um quarto de ração e comemos, cada um de 
nós, um punhado do virado como opiparo almoço. . . 

Só ao meio-dia poderíamos falar para Corumbá, 
e, graças á amabilidade do chefe da estação telegra- 
phica d 'essa cidade, a essa hora logo nos foi possi- 
vel falar para o Ladario; infelizmente, porém, não 
conseguimos ter resposta immediata sobre a vinda 
de conducção e, com certa anciedade, foi necessário 
esperar para as 6 horas da tarde. 

Estendemos as nossas redes sob algumas arvo- 
res que felizmente alli havia, e, apezar do cheiro 
pouco ameno produzido pela recente matança de uma 
rez, esperámos grande parte de tempo do melhor 
modo que é possivel esperar: dormindo a sesta. 
Dizem que o somno alimenta, comtudo, sem querer 
contestar semelhante asserção que parece apoiar-se 
na sciencia, posso garantir que, não obstante o 
somno da sesta, a fome começava a lembrar-nos 
que tínhamos estômagos. Não hesitámos: sentámo- 
nos deante da nossa bem guarnecida matula e, heroi- 
camente, como bons gastronomos, comemos o penúl- 
timo punhado de paçoca, e jantámos bera. . . 

Pouco antes das 6, naturalmente preguiçosos 
devido á fartura do jantar, embarquei na canoa que 
me transportou á ]Manga e, conseguindo novamente 
communicar-me com o Ladario, soube que só no dia 
seguinte poderíamos ter a lancha. Retrocedi pen- 
sando no almoço do dia seguinte; os mosquitos, em 
nuvens, atacavam a canoa e, quando cheguei ao 
nosso acampamento, era tal a quantidade d 'esses 
malditos insectos que foi liumauamente impossível 
supportal-os. Recorremos aos salvadores mosquitei- 
ros, o que nos obrigou desde logo a permanecer dei- 
tados nas redes; mas, só assim se conseguia a tran- 
quillídade. Alta noutc, por duas vezes, saltámos das 
redes e arrostáínos a mosquitada por çáusíi do ba- 



149 

rulho da lancha que ou\dramos; infelizmente, porém, 
nem d'mna nem d 'outra vez a lancha subiria para 
Corumbá. 

Bem cedo despertámos; apezar d'isso, porém, 
eonservámo-nos nas redes, sob os mosquiteiros que 
ainda se achavam cobertos de mosquitos, quando, 
pouco antes das 7 horas, ouvimos rumor de lancha 
e, com enorme alegria, vimos approximar uma das 
lanchas do Arsenal, com a qual só contávamos mui- 
tissimo mais tarde. Em um quarto de hora as redes 
foram ferradas com os mosquiteiros, a bagagem e 
os couros transportados, e a lancha partia; o ultimo 
banquete, isto é, o ultimo punhado de paçoca, foi de- 
liciado já em viagem, e, assim, o farnel feito para 
uma única refeição servira para três dias. E' fácil 
de imaginar, portanto, como chegámos famintos ao 
Ladario, ás 4 horas' e meia d'esse dia 17. 

Estava terminada a nossa excursão e a minha 
terceira caçada de onças em Matto-Grosso, caçada 
coroada do melhor êxito e que deixará para sempre 
inapagavel na minha memoria scenas e emoções que 
são o enlevo do caçador e que só a elle é dado gozar. 




o bellissimo exemplar de Victoria Regia 
em frente ao Ladario 



1 




A lancha do Oyapock entre 
a Victoria Regia 



CAPITULO X 



Víctoria Régia — Ainda jacarés — Quarta caçada 
de onça. 



Os intervallos das caçadas de onça eram sempre 
tomados com a perseguição aos gostosos jaós, aos 
patos, marrecos e irerês, e com as pequenas excur- 
sões ao aprazivel Urucúm. 

Quando íamos ao pantanal fronteiro ao Lada- 
rio, juntávamos, quasi sempre, á nossa caçada, uma 
ou mais flores de uma bella Victoria Regia, que se 
ostentava em sua pujante belleza bem próximo á 
margem do Paraguay; mas, se agradável era o as- 
pecto d 'essas flores de mais de trinta centímetros de 
diâmetro, brancas e perfumadas, bem difficil era co- 
Ihel-as entre as espinhosas folhas enormes, chatas 
como bandejas, e grandes como bacias em que um 
homem poderia facilmente deitar-se. Nos alagados e 
corichos, ao longo do Paraguay, entre Ladario e 
Corumbá, existiam alguns outros exemplares d 'essa 
bella rainha das aguas, mas, se algumas cobriam su- 
perfícies enormes, nenhuma d'ellas ostentava folhas 
e flores com o viço da que por nós era sempre vi- 
sitada. 

Esse trecho do rio, de bastante movimento, era 
por nós navegado com assiduidade e frequência, pois 
que, sendo o Ladario despido de recursos, forçosa 
se fazia a ida constante a Corumbá; pois, apezar da 



~ 152 — 

intensidade da navegação, muitas vezes, em certas 
epocbas do anno, os jacarés, estirados nas margens 
ou emergindo a cabeça, oíifereciam exceliente alvo 
aos nossos revólveres. 

Uma das vezes, em dia que atirámos n'uns qua- 
tro ou cinco jacarés, trouxemos um d'elles para 
bordo e, depois de içado em um dos turcos do "Òya- 
pock", foi photographado, sendo depois degolado, 
para que mais facilmente fosse possivel extrahir- 
se-lhe os dentes, sem ser necessário a applicação de 
qualquer anestbesico. . . 

Estávamos assim passando o tempo, quando, 
por essa epocha, em melados de Setembro, fui cha- 
mado ao Kio de Janeiro, o mesmo acontecendo ao 
meu amigo Nelson, o que permittia regressarmos 
juntos. Por esse tempo, a Estrada de Ferro que liga- 
ria Matto-Grosso ao Eio de Janeiro, em vias de ter- 
minação, embora com o trafego ainda não inaugu- 
rado e com trechos de construcção provisória, já 
tornava possivel fazer por ella o nosso regresso, e, 
como nos fosse possivel fazer ainda algumas caçadas 
ao longo d 'essa nova linha, logo resolvemos que por 
esse meio regressariamos ao Rio. Mas, embora feli- 
zes tivéssemos sido com a nossa ultima caçada de 
onças, e talvez por isso, deliberámos fazer ainda 
uma outra nas Palmeiras, caçada que, com outra por 
nós projectada na Bodoquena, já em trecho da via- 
ferrea, seriam as despedidas ás onças do adorável 
pantanal de Matto-Grosso. 

Deixei o commando do meu "Oyapock" e. a 4 
de Outubro, domingo, por cerca de 1 hora da madru- 
gada, embarcámos em uma lancha do Arsenal, aban- 
donando, em companhia do Nelson, definitivamente, 
o Ladario, e tendo ainda por companheiro o nosso 
collega Junqueira, que regressaria da Fazenda das 
Palmeiras, uma vez terminada a caçada de onças que 
ahi fariamos juntos. 




Um bello exemplar içado em um 
turco do "Oyapock" 



— 153 — 

Tendo partido cedo, entrámos, ao clarear, no 
braço inferior do Taquary, pelo qual subimos sem 
difficuldades, graças á praticagem do imperturbável 
seu Chico, o paciente encarregado do retiro do For- 
migueiro. 

A fleugina do nosso pratico não poderia desper- 
tar admiração, nem mesmo chamar simplesmente a 
nossa attenção, pois que, em outra occasião, já tinta- 
mos podido observar a calma do nosso heróe, em cir- 
cumstancias que reputo mais difficeis. Seu Chico era 
casado, e, certa vez como tivéssemos pousado no 
Formigueiro, para seguir não sei mais para que ca- 
çada, desembarcámos a nossa bagagem e com ella 
uma garrafa de aguardente. Tínhamos chegado á 
tardinha e, perseguidos pelos mosquitos e desejosos 
de fazer bôa madrugada, cedo recoihemo-nos ás 
nossas redes, abrigados sob os protectores mosqui- 
teiros. Provavelmente, alguns entre nós logo dormi- 
ram, emquanto outros, ainda alertas, conversavam 
quando a todos surprehendendo e despertando, uma 
forte altercação é ouvida atravez da parede que nos 
separava dos aposentos de seu Chico. E' claro que 
a nenhum de nós, maximé aos que já dormiam, agra- 
dou aquella musica, mas, apezar d 'isso, dentro em 
pouco desatámos a rir, taes, tão engraçados eram os 
termos da descompostura com que o seu Chico era 
mimoseado pela cara esposa; e, como esses termos 
possam ser aproveitados em certa agremiação onde 
tudo se pretere para dar largas á descompostura mu- 
tua, direi que o nosso pacato homem era xingado de: 
peste de cadeira, desgraça pellada (eu supponho que 
a virtuosa xingadeira apreciava as cabelleiras), 
trova (?!), fumo de nove aguas, e outras cousas que, 
por serem correntes na agremiação a que me referi, 
não vale a pena citar. No dia seguinte a esta scena, 
pela manhã, reembarcámos com tudo que noe per- 



--^ 154 — 

tencia, salvo a garrafa de aguardente, que tinha des- 
apparecido . . . 

Mas, o caso é que, não obstante todos esses epi- 
thetos, agora, graças a seii Chico, chegávamos, pouco 
depois das 8 da manhã, ao porto do Riozinho, onde 
encontrámos o nosso amigo Mário de Barros com o 
Gomes e toda a peonada. Infelizmente, o amigo Go- 
mes, occupado como estava com a conducção do gado 
para o Formigueiro, não poderia acompanhar-nos 
na caçada, e, assim, com o Mário de Barros e dous 
zagaieiros (Bernardo e Faustino), deixámos o porto 
do Riozinho e tomámos o rumo da fazenda, seguindo 
o mesmo caminho que haviamos trilhado em com- 
panhia de Roosevelt, de quem nos lembrávamos com 
saudades. 

A soalheira de Outubro e o pouco que tinhamos 
dormido na ultima noute faziam-nos cochilar sobre 
os cavallos, e, como algum de nós pudesse cahir de 
camas tão pouco firmes, apeámos, após cerca de duas 
horas de marcha, sob uma copada figueira, e dormi- 
mos uma reparadora sesta. 

De novo a caminho, teriamos feito metade do 
trajecto que nos faltava quando, avistando um veado 
que pastava, o Nelson, apeando e cautelosamente 
approximando-se até uns cem metros do animal, 
deixou partir a bala da sua três canos, e o veado 
tombou; corremos para lá, mas, ante a nossa appa- 
rição, o veado começou a dar saltos e cambalhotas 
de grande altura e parecia louco. Foi preciso san- 
gral-o e, hoje, me arrependo de não ter verificado o 
local attingido pelo projéctil, causa única de tão 
extravagante acrobacia. 

Pelas 4 horas da tarde entravamos no potreiro 
da fazenda, e logo chegávamos á casa, já nossa co- 
nhecida, pois que era essa a terceira vez que ahi nos 
hospedávamos, sempre na intenção de dar combate 
ás onças. 



~ 1Õ5 — 

SurprCvSa, porém, bem desagTadavel e perturba- 
dora de nossos planos ahi nos aguardava: a cachor- 
rada que, valente, alegre e ligeira, tinha sido nossa 
fiel e leal companheira na ultima caçada, havia três 
mezes antes, fora dizimada pela peste, e, dos dezeseis 
ou dezoito cães que a compunham, restavam apenas 
"Carioca", ainda doente, e "Leão", quasi curado. 
Nós tínhamos escripto ao amigo Janjão pedindo que 
nos enviasse "Visconde", o veterano onceiro, avô de 
tantos bravos, e, felizmente, lá o encontrámos e nelle 
depositámos as nossas esperanças. 

Na manhã seguinte, sahimos com "Leão" e "Vis- 
conde" á procura de rasto fresco e, não havíamos 
feito meia hora de caminho, quando avistei um lobo, 
que trotava despreoccupadamente em direcção per- 
pendicular á que levávamos; apeei e, tendo esperado 
que o lobo viesse ao meu encontro e chegasse a dis- 
tancia conveniente, attingi-o com a bala da minha 
três canos; o animal cahiu, mas logo se erguendo e 
ainda correndo, foi tombar pouco além para não 
mais levantar. 

Realmente, a caçada não se annunciava sob os 
mesmos auspícios que a anterior, pois que, já tendo 
constatado o grande desastre da perda da cachor- 
rada, viamos agora que o pantanal, muito secco, iria 
trazer outras difficuldades ao bom êxito da nossa 
empresa, mas, infelizmente, não ficavam ahi os con- 
tratempos e, n'esse primeiro dia de caçada, tivemos 
o desgosto de verificar que o veterano "Visconde", 
o decano dos onceiros, talvez de todo o Matto-Grosso, 
ou de todo o Brasil, dava evidentes signaes de cadu- 
quice. O pobre e velho cão entrava nos capões e, dei- 
tado ou sentado junto a alguma arvore, acuava á 
tôa e persistia teimoso n'essa phantasia; sonhava 
talvez antigas pugnas e revia combates que a idade 
não mais permittia recomeçar, mas, por maior que 
fosse o respeito que nos inspirasse o velho luctador, 



~ 156 ~ 

o facto . é que verificámos, com duplo pezar, que o 
decrépito "Visconde" não nos poderia mais prestar 
serviços e, ao contrario d 'isso, era lun impecilho á 
nossa caçada. 

Embora tivéssemos cavalgado toda a manhã, 
não encontrámos um único rasto de onça ; e as nossas 
armas, destinadas a tiros tão mais nobres, funccio- 
navam apenas para abater aracuãs e araras, aquel- 
las para termos carne para o almoço, e estas desti- 
nadas á vaidade das mulheres, isto é, para que 
fossem aproveitadas as suas pennas em enfeites de 
chapéus. 

A' vista da caduquice de "Visconde", o Mário 
mandou pedir "Mestrinho" ao amigo Janjão, mas, 
ainda assim, no dia seguinte, 6, bem cedo, sahimos 
novamente acompanhados de "Visconde" e "Leão", 
e cruzámos campos e aguadas até que, ,já tarde, en- 
contrámos o desejado rasto fresco. Os zagaieiros, 
trabalhando quasi como se cães fossem, rastejavam 
e faziam os mais ingentes esforços para que "Vis- 
conde" e "Leão" trabalhassem, mas, este, doente e 
preguiçoso, e aqueile no "mundo da lua", juntaram 
08 seus defeitos para tornar inútil o trabalho de 
Faustino e Bernardo. Não houve forças humanas ca- 
pazes de fazer com que esses cães seguissem o rasto, 
e, á vista de tal obstinação, fomos forçados a aban- 
donar as preciosas pegadas. 

N'e8se dia, \imos duas novidades: uma foi um 
bugio que encontrámos com o respectivo séquito, ou 
melhor, com seu harém, n'um capão limpo, bugio 
que, em vez de vermelho como o que já conhecia, é 
negro retinto e de pello bastante longo; a outra no- 
vidade foi o espectáculo que julgávamos menos im- 
portante e que só a sua contemplação nos pode dar 
uma ideia justa, pois que, só agora podemos avaliar 
das difiBculdades e perigos que existem em "escorar", 
no campo, mn porco na zagaia. Foi esse o especta- 



- 157 — 

culo que presenciámos e que devemos ao zagaieiro 
Bernardo, único capaz de tal "africa", no meio de 
tantos zagaieiros destros na caçada de onças. Uma 
terceira novidade estava reservada para esse dia: 
ao regressarmos, encontrámos "Mestrinho" em casa. 

Esse cão, alvo agora das nossas esperanças um 
tanto combalidas, tinha feito um longo trajecto, e 
foi assim que, para deixal-o descançar, não caçámos 
onças no dia seguinte á sua chegada ; contentámo-nos 
em sahir tarde para fazer uma matança de jacarés 
e, depois de termos morto mais de vinte, detivemo- 
nos longo tempo a apreciar os tuyúyús e garças "em 
familia", e regressámos á casa, que ficava perto. 

No outro dia, estávamos de pé ás 4 horas da 
madrugada, e cedo partimos, a cavallo, deixando 
preso o pobre "Visconde", e levando "Mestrinho", 
"Leão" e "Carioca". Essa pequena e reduzida ma- 
tilha estava mais animada e, haviamos feito um pe- 
queno percurso, quando os cães, após uma curta 
corrida, acuaram firme em um acuryzal. Grande foi 
o nosso contentamento, como grandes foram os elo- 
gios que logo romperam em louvor de "Mestrinho" 
e, cheios de enthusiasmo e alegria, corremos ao local 
onde fervia a acuação. Nós não tinhamos visto rasto 
algum, de sorte que, não sabíamos se se tratava de 
uma onça parda ou de uma pintada, nem se era ella 
medrosa ou zangada; mas, fosse como fosse, corre- 
mos pressurosos e encontrámos os cães acuando... 
um coaty I . . . 

Bastante desapontados, e depois de ter o coaty 
sido morto, a dente, pelos cães, continuámos a nossa 
marcha e, pouco adeante, o "Leão" farejou com ha- 
bilidade e firmeza acuando logo depois. Eu, que tinha 
seguido "Leão" de perto, vi logo do que se tratava, 
mas, como o Junqueira estivesse muito afastado, 
aproveitei para pregar-lhe um logro e alegrar um 
pouco a caçada: comecei a chamal-o com insistência, 



— 158 ~ 

gritando que era uma onça parda que estava acuada, 
e o nosso Junqueira, galopando até onde eu es- 
tava, encontrou acuado . . . um tamanduá-mirim, que, 
assim, matou. 

Mais adeante foi a vez de um catetú que, tam- 
bém acuado pelos cães, foi morto pelo Nelson; entre- 
tanto, apezar da boa vontade dos cães, não tendo 
encontrado rasto de onça, tivemos de voltar com o 
mesmo máu resultado dos outros dias, embora longa 
tivesse sido a caminhada. 

O dia seguinte, 9 de Outubro, era o sexto após 
a nossa partida do Ladario, e o quinto em que, firme 
e persistentemente, procurávamos encontrar uma 
pintada; muito cedo, com a mesma organização da 
véspera e com os mesmos cães, partimos, já um 
pouco desanimados com tantos contratempos; no 
emtanto, com menos de uma légua de caminho, en- 
contrámos rasto fresco e, logo após, carniça muito 
recente e constituída por um porco. Contentíssimos 
com tão precioso achado, ficámos logo certo de que 
os cães acuariam uma onça dentro em breve; e os 
rastos que partiam da carniça foram logo seguidos 
por *'Mestrinho", que "falou" ao sentil-os. 

Anciosos, seguimos os cães, mas, tão abundantes 
e entrecruzados eram os rastos que, confundindo e 
perturbando, "Mestrinho" perdia-os, de quando em 
vez, para achar mais adeante, succedendo algumas 
vezes vir ter ao mesmo local. Era um emmaranhado 
de rastos que se cruzavam pelos pantanaes, pelos 
caminhos, nos capões e entre a macéga alta, a todos 
nós intrigando e não achando explicação, nem mesmo 
entre os zagaieiros ; e, uma vez, tão estranha e eri- 
giu ai era a situação que, estando nós a fazer zig- 
zags atraz dos cães, no meio da macéga alta, o nosso 
Faustino obtemperou, com o seu interessante e ori- 
ginal modo de falar; "Isso até tá perigoso; bitcho 




Gado no curral — Riozinho 




Pequeno carandazal — Fazenda das Palmeiras 



\t 




A caminho para a caçada 
de Onças 









Onça empuleirada 
(Photographia única no mundo) 



— 159 — 

pôde tá ahi djimto da 'gente, deitado na macéga, 
e nós nun entxergu'elle". 

Não obstante isso, continuámos sempre a acom- 
panhar os cães, que foram auxiliados por Faustino 
e Bernardo, incansáveis quanto hábeis em rastejar, 
e, graças, ainda, a esses dous experimentados e de- 
dicados zagaieiros, depois de muito trabalho e já 
algum desanimo, vimos uma onça trepada n'uma 
arvore secca, á desusada e grande altura, e á beira 
de um pequeno capão. 

Os cães tinham atravessado e já ha\áam sabido 
d'esse capão, dando três ou quatro latidos sem im- 
portância e que, quando muito, poderiam indicar 
rasto que não fosse dos mais frescos; e, assim, foi 
para nós uma surpresa grande quando, olhando o 
que apontava um dos zagaieiros, vimos a onça empo- 
leirada, fazendo um zagaieiro a consideração de que 
deveria tratar-se de onça muito medrosa, pois que, 
aos poucos latidos dos cães, que nem a perceberam, 
já estava ella no páu á tão grande altura. 

Rapidamente, dirigimo-nos para a beira do ca- 
pão, apeámo-nos e, como tivéssemos combinado per- 
tencer ao Junqueira o tiro á primeira onça da ca- 
çada, formou elle entre os zagaieiros, e logo todos 
partiram em direcção á arvore em que estava a cobi- 
çada presa. 

Como eu não tivesse de atirar e, porque, princi- 
palmente, \dsse uma occasião rara, talvez única, de 
photographar uma onça em semelhantes condições, 
atrazei-me um pouco retirando a minha Gõerz, que 
viajava presa aos arreios, e, quando entrei no capão, 
um pouco após o primeiro grupo, procurei tomar 
ontro caminho, a uns vinte metros do que era se- 
guido pelos zasraieiros, na intenção de tomar posição 
favorável e bôa para a minha original photographia. 
Tinha, porém, pouco penetrado no capão, quando o 
Mário de Barros, com muito acerto e prudência, gri- 



^ 160 -^ 

tou-me que seria mais conveniente irmos todos jun- 
tos. Acceitando a ponderada observação, pois sabia 
que, em taes caçadas, o auxilio mutuo é muitas vezes 
de fi^raude necessidade, resolvi tomar a direcção dos 
outros companheiros. Havia de permeio, próximo de 
mim, uma moita de matto fechado; para atraves- 
sal-a, levei as mãos á frente, ten:ío n'uma d'e]las a 
espingarda, com a qual afastaria um tucum cheio 
de espinhos, e, iniciando assim a operação, sem ou- 
tro intuito que não fosse o de livrar-me dos espi- 
nhos, abaixo-me um pouco, levo o pé á frente, e, oh! 
estranha e desagradável surpresa ! — bem junto a 
mim, quasi sob o pé que levo á frente, ergue-se e 
salta uma onça soltando um formidável urro... 
Como um relâmpago, saltei, apromptando a arma ao 
mesmo tempo que gritava para os companheiros: 

— "olha o macharrão junto de mim". O Nelson logo 
acudiu-me, gritando também zagaieiros, e todos, ou- 
vindo o urro da fera e o meu apiDclIo, correram ao 
meu soccorro; o macharrão, porém, saltara para o 
lado, fugindo em rumo opposto e deixando-me illeso. 

Livre d'esse "pequeno" susto, corremos para a 
onça do páu, a qual, indifferente a todo aquelle rebo- 
liço, lá se conservava impassivel ; e, depois de conter 
a custo o ardor do Junqueira e tirar a photographia 

— que não sahiu muito tremida, apezar do meu re- 
cente encontro — partiu finalmente o tiro. Era evi- 
dente que a bala do atirador não tinha attingido a 
onça, pois que, com todos os movimentos livres e sem 
dar mostras da menor perturbação, o animal come- 
çou a descer; e, como os zagaieiros gritassem pe- 
dindo rapidamente outro tiro, o que aliás era uma 
necessidade imperiosa, fiz-lhes a justa vontade deto- 
nando a minha arma, e a onça degringolou e veio 
abaixo. 

Sem saber e sem querer, eu tinha atirado ao 
mesmo tempo á bala e a chumbo grosso; poiSj- apezar^ 



— 161 — 

de ter este ido achatar- se de encontro a uma das pa- 
redes do craneo do animal, e ter a bala atravessado 
a base doesse tão resistente craneo, essa. onça, que 
haváa cabido como um fardo pesado, teve ainda força 
bastante para erguer-se e aifrontar-nos. O lugar era 
máu para o trabalho de zagaia, mas, apezar d 'isso, 
á vista da attitude da fera, os zagaieiros avançaram; 
pois, parece incrível, o animal teve ainda força para, 
com um sopapo, desviar para longe a primeira za- 
gaia ! Outro zagaieiro acudiu rápido ; tão rápido que 
não me deu tempo para livrar o cabo de sua zagaia, 
que me fez enorme gallo na testa; e dominada a re- 
sistente onça, acabaram de matal-a o Nelson e Jun- 
queira. 

Morta a onça do páu, logo tratámos de tentar 
descobrir a que me havia poupado a vida, mas não 
o susto; chamámos os cães, mostrámos o rasto fres- 
quissimo, estumámos, animámos, instigámos, mas 
qual, tudo era em vão; os pestes dos cães recusa- 
vam-se absolutamente a seguir e, por fim, já aborre- 
cidos com aquelles maus companheiros, resolvemos 
prescindir d'elles e, com o Nelson, a quem cabia o 
tiro, na frente, entre os dous zagaieiros e nós três 
logo atraz, começámos a procura. O macharrão tinha 
entrado por um gravatazal fechado, onde não era 
possivel descobrir-lhe a batida; o matto em torno 
era extremamente sujo e, não tinhamos adeantado 
muitos metros, quando o Faustino, zagaieiro mestre 
e velho caçador de onça, parou e disse: "Dgente, mió 
dexá o bitcho; matto tá munto sudjo, catchorro num 
qué trabaiá, bitcho já tá zangado, vamo dexá..." 
De facto, seria uma insensatez proseguir n'aquella 
empresa em que, além da pouca probabilidade de 
descobrir- se o animal, podia elle, de um momento 
para outro, saltar sobre nós e, fosse, embora, depois 
subjugado, ai d'aquelle que fosse colhido em seu pri- 
meiro bote; e assim, todos vendo o inútil perigo que 

Viagens e Caçadas 1 1 



— 162 — 

corríamos, ouvimos as judiciosas palavras do Faus- 
tino e nos retirámos em ordem. 

Uma vez que não conseguiamos descobrir o 
macharrão e que já tinhamos morto a onça empo- 
leirada, fiz questão de reconstituir a scena do meu 
intempestivo encontro, não só porque desejava que 
testemunhassem a distancia a que me havia appro- 
ximado da onça, como para verificar com calma o 
modo pelo qual o facto se passara. Tomando pela 
minha batida, fácil foi chegar ao ponto do inespe- 
rado encontro, e lá, vendo-se o meu rasto e o da 
onça, sobre o qual poder-se-ia dizer ter eu pisado, 
todos (eu inclusive) pasmámos, e o Faustino, sem- 
pre mais expansivo, abanando a cabeça, exclamou: 
"Nossa Senhora! Foi Deus que não quiz!" O Jun- 
queira, que na occasião do encontro estava distante 
de mim, declarou que, ao ouvir o "arroto" da onça 
(é como se diz em Matto-Grosso) e o meu grito, 
nimca suppoz encontrar-me ainda vivo; e, até hoje, 
eu pergunto a mim mesmo como é que pude cami- 
nhar para tão grande animal, a ponto de pisal-o, por 
assim dizer, sem absolutamente tel-o visto. 

Outra cousa que eu não explico é o ter escapo 
ás garras d'aquelle animal que, sem o menor esforço, 
até mesmo sem erguer-se, ter-me-ia subjugado, an- 
tes que eu tivesse tempo para qualquer defesa pró- 
pria, ou qualquer soccorro, e, a não ser que me ti- 
vesse achado muito magro para o almoço, só explico 
o facto (tão agradável para mim) pelo susto que 
talvez tivesse levado a despreoccupada onça, susto 
que, a julgar pelo meu, explica, de sobra a abstenção 
da aggressão... E, para provar a possível influen- 
cia do susto, direi que, como já narrei, procurava, 
na occasião do encontro, atravessar, cautelosamente 
entre um arbusto e um espinhoso tucum; pois bem, 
no momento, ou o tucum recolheu os espinlios (o que 
é pouco provável) ou eu não os percebi; porque. 



— 163 — 

como ficou provado no exame pericial a que proce- 
demos, eu atravessara entre o arbusto e o tucum, o 
que agora não conseguia repetir devido aos espi- 
nhos, que na occasião não encontrei . . . 

No fim das notas que tomei n'esse dia ha a se- 
guinte phrase: "O que não resta duvida é que nasci 
hoje outra vez". — Oom a devida transposição de 
data para o dia occorrido, é de justiça que conserve 
a phrase. 

Entre os conmientarios que um caso d 'esses 
suggere, arrastámos a onça morta para fora do ca- 
pão, e, depois das photographias, tirámos-lhe o 
couro e as gostosas costelhis, e recolhemos á casa da 
fazenda, para o trabalhoso preparo do couro. 

Agora, achávamos a explicação do emmara- 
nhado de rastos, do facto de estar a onça trepada 
tão alto, e da presença do macharrão : ]\Iadame onça. 
estava na epocha do ''flirt", e, seguida por três ou 
quatro ferozes D. Juans, fel-os acompanhar sua ca- 
prichosa vagabundagem, durante um ou mais dias; 
banquetearam-se com o porco cujos restos encontrá- 
mos e, fiel aos caprichos do seu sexo, astuta e mal- 
dosa, subiu aos galhos mais finos de uma arvore, 
inaccessiveis aos conquistadores, oppondo sua ma- 
licia á arrogância do sexo forte. Os admiradores fica- 
vam cá em baixo, talvez fazendo serenata, sendo bem 
possível que o amoroso encontrado por mim esti- 
vesse, felizmente, a '^ ouvir estrellas. . ." 

N'esse mesmo dia ficou esfaqueado o couro; 
parte das costellas da nossa victima foi deliciada ao 
jantar, reclamando todos nós, como Roosevelt, "mais 
onça"; o outro lado das costellas, porém, fora pre- 
parado em banha, e enlatado, para acompanha r-me 
ao Rio de Janeiro. 

Deitámo-nos absolutamente certos de c|ue, no 
dia seguinte, o macharrão enamorado seria nossa 
presa; essa convicção redobrou pelo facto de ter 



— 164 — 

cbo\ddo até ás 3 da madrugada, o que tornava fácil 
reconliecer com segurança o rasto depois d 'essa 
hora, e foi assim que, bem cedo, partimos animados 
para o capão do encontro. 

De facto, ou porque o macharrão tivesse pas- 
sado a noute a preencher algumas formalidades ri- 
tuaes desconhecidas dos homens, ou porque não hou- 
vesse perdido a esperança de rever a eleita do seu 
coração (f), o caso é que lá estava, em abundância, 
o rasto fresco do meu amigo. (Parece que seria in- 
gratidão tratal-o de outro modo). 

Os cães, sem enthusiasmo, tomaram o rasto e 
logo perderam; retomaram adeante para de novo 
perder. Agora seguiam firme e, ás vezes, tinhamos 
a impressão de que a acuação estava iraminente, mas 
os cães, de repente, emmudeciam surgindo além, e 
não encontravam o macharrão que, forçosamente, 
estaria n'aquellas cercanias. Nós, e principalmente 
os zagaieiros, começámos a rastejar ajudando os 
cães; mostrávamos o rasto, seguiamos, instigáva- 
mos, tudo em vão. Por íim, nós mesmos trilhámos; 
penetrámos n'um acuryzal, onde nos parecia irnpos- 
sivel não estar o macharrão, batemol-o todo e com 
assas cuidado, mas qual; depois de muito traballio, 
os zagaieiros decidiram que ''o bicho tinha parte 
com o Diabo", e resolvemos tomar o rumo de casa. 
Para não chegarmos com as mãos abanando e ter- 
mos carne para o jantar, matei algumas araras, um 
pato e um cachaço, este a bala e a mais de cento e 
cincoenta metros. 

N'esse dia, á tarde, chegou um ''próprio" com 
uma carta chamando o Junqueira com urgência: o 
Governo tinha resolvido inaugurar o trafego da Es- 
trada, por aquelles dias; já um ou mais Ministros e 
respectivas comitivas estariam em viagem; uma 
lancha aguardava o Junqueira no porto do Riozinho, 
e era necessária a sua [)reseiiçn no Tiadario. 




A lancha deixando o "retiro" do Riozinho 




Laçando cavallos para apartar o gado 



— 11)5 — 

A' vista d 'isso e da falta de cacliorrada, resol- 
vemos também partir; e assim, no outro dia, despa- 
chando as nossas bagagens por um carro de bois, 
que partiu antes do clarear, montámos a cavallo, 
pelas 8 horas da manhã, e dissemos um saudoso 
adeus á casa da fazenda, adeus que desejávamos 
ardentemente não fosse o ultimo, pois não nos aban- 
dona a esperança de conseguir outras bellas caçadas 
na encantadora fazenda dos nossos amigos Alves de 
Barros . 

Com quatro horas de exceilente viagem, chegá- 
mos ao porto do Riozinho, onde o Mário de Barros 
e o Junqueira, depois das despedidas, embarcaram 
e partiram, rio abaixo, na lancha do Arsenal. 

O amigo Gomes ainda estava com a peonada no 
Riozinho, no penoso trabalho de apartar e conduzir 
o gado; e nós, pai"a podermos gozar a companhia 
do Gomes e d 'essa boa gente, deixámos partir a lan- 
cha, resolvendo descer o Taquary no outro dia, em 
canoa, até ao Paraguay. 

O resto do dia da nossa chegada foi tomado em 
apreciar o exhaustivo e perigoso trabalho do aparte 
do gado semi- selvagem, utilizando os peães, para 
tal serviço, cavallos ainda chucros ; vimos a peonada 
laçar os cavallos, amarral-os a palanques, arreial-os, 
montal-os e, só depois d 'isso, mandar desamarral-os 
do palanque e sahir com elles campo a fora; e era 
com esses animaes, completamente desobedientes, 
exigindo talvez mais attenção de que o propiio gado, 
velhacos e manhosos, que a peonada ia trabalhar, 
como presenciámos. Não era, pois, para admirar que, 
como succ«dera na véspera, um touro matasse um ca- 
vallo, só não matando o cavalleiro graças ao prom- 
pto soccorro dos seus companheiros. Depois de apar- 
tado o gado que deveria seguir para o Formigueiro, 
foi elle trazido para a mangueira, onde ficou encer- 



— 160 — 

rado; a peonada desencilhou os cavallos e, á tardi- 
nlia, saboreámos todos o delicioso churrasco. 

Esmaecia aquelle dia de vida simples uo meio 
de gente simples; os patos bravos passavam em pe- 
quenos grupos á busca do pouso, que era coustituido 
por cinco bellos cambarás, quasi em frente ao porto ; 
os tordos despediam-se do dia que findava, e os 
grillos saudavam a noute que já vinha ; estrellas e 
jDvrilampos surgiam na vastidão sem luz; e os peães 
tiravam as primeiras notas da gaita de foles, em- 
quanto o primeiro matte espumava na cuia . . . 
A conversa triste de quem se separava foi aos pou- 
cos perdendo vigor, as redes já se inmiobilizavam, 
e não tardou que o silencio reinasse soberano, no 
galpão do Riozinho e por sobro a vastidão do pan- 
tanal . 

No dia seguinte, muito cedo, começou o serviço 
de atravessar o rio com a boiada: imi grupo de peães 
atravessou-o em canoa, levando arreios; depois, 
acompanhados e guiados pela canoa, atravessámos 
os cavallos, em viagens successivas. Esse primeiro 
grupo, já na outra margem, encilhou os animaes e, 
uma vez isso concluído, começou o outro grupo de 
peães a forçar o gado a transpor o rio. e emquanto 
algims peães obrigavam um. certo numero de bois 
a caliir n'agua, outros, na canoa e despidos, agui- 
Ihoavam, guiavam e forçavam os animaes a seguir 
para outra margem, onde já a cavallo, o primeiro 
grupo de peães mantinha rodeio. Acontecia, porém, 
que, muitas vezes, um ou mais bois, desviando-se do 
grupo que, a nado, atravessava o rio, não y^odendo 
ser seguidos pela canoa, que era única, obrigavam 
os peães a atirar-se á agua e, também a nado, for- 
çar os recalcitrantes a entrar no bom caminho. 
Terminado esse serviço que, comquanto rude e pe- 
noso, deu ensejo a boas risadas, dissemos um j^ro- 
longado adeus á peonada e ao amigo Gomes que, 



com todos reunidos na outra margem, seguiram to- 
cando a boiada campo a fora. 

Logo embarcados no batelão, em companhia de 
três peães, partimos por nosso turno, rio abaixo, 
deixando deserto o retiro de Eiozinho. Não tinha- 
mos descido trezentos metros, quando ouvimos vozes 
na margem que haviamos deixado, e, logo após, com 
grande surpresa, avistámos gente da lancha que 
tinha partido na véspera; gritámos por esses ho- 
mens, atracámos ao barranco, recebemol-os no ba- 
telão, e soubemos que, tendo a lancha encalhado 
desde a véspera, muito abaixo do retiro, tinham elles 
sido mandados em busca de auxilio, para o que ti- 
nham partido, ao clarear, em mna chalana, por elles 
deixada pouco abaixo de onde estávamos. Como não 
houvesse mais ninguém no Riozinho e fossemos nós 
os únicos a poder prestar algum auxilio, continuá- 
mos a descer o rio, reembarcámos os homens na cha- 
lana que encontrámos instantes depois, e, por fim, 
ao cabo de bastante tempo de viagem, encontrámos 
a lancha fortemente encalhada, e o Junqueira no 
auge da raiva com o retardamento de seu regresso 
e o dívertinieuto d'aquellas ultimas doze horas... 

Éramos mais cinco para o trabalho de safar a 
lancha, e depois, liem dispostos e de bom humor, 
animámos o pessoal, reunimos os esforços, traba- 
lhámos forte e insistentemente, e, ao cabo de muito 
tempo, muito traballio e muita tenacidade, a lan- 
cha continuou encalhada... Felizmente, dentro em 
])ouco, chegaram duas lanchas com material e pes- 
soal para o desencalhe, e, como não fosse mais ne- 
cessário o nosso auxilio e precisássemos chegar ao 
rio Paraguay, retomámos o nosso batelão, deixámos 
a lancha, e prosegaiimos na descida. 

Nós tínhamos planejado matar um ou dous ja- 
carés para tirar uma photographia original, que ha- 
víamos imaginado; mas, como esses animaes eram 



— 168 — 

encontrados em. abundância por toda a parte, fomos 
sempre deixando para mais tarde a execução do 
plano, e, agora, já quasi abandonando a zona dos 
jacarés e a possibilidade de matal-os, achámos que 
era chegado o momento de pormos em pratica o que 
planejáramos. Assim, de revólver e carabina, fomos 
espreitando e atirando nos jacarés que se apresen- 
tavam, mas, com tal caiporismo que, ou porque fos- 
sem ao fundo, ou porque se não pudesse chegar até 
onde estavam, ou, finalmente, porque errássemos, o 
facto é que, já estávamos quasi no rio Paraguay e 
não tínhamos conseguido a photographia. Por fim, 
justamente na foz do Taquary, em um espraiado que 
forma a juncção da sua margem direita com a es- 
querda do Paraguay, vimos um grande jacaré e, pró- 
ximo, duas ou três cabeças de outros d'elles, emer- 
gindo do rio. Um de nós visou o jacaré que estava 
em terra, e o outro, escolhendo a maior das cabeças 
que surgiam imprudentes, os tiros partiram; o pri- 
meiro dos jacarés ficou onde o desejávamos, mas, o 
outro, tendo afundado no local em que se achava, 
foi a custo laçado e rebocado para a terra, ainda 
com vida. Uma vez em terra o segundo jacaré, o fino 
e aguçado facão do Bernardo traspassou-o varias 
vezes sem conseguir matal-o e, como fosse indispen- 
sável a absoluta immobilidade dos jacarés para o 
arranjo que desejávamos, outra bala foi eucravar-se 
na cabeça do animal, outras tantas facadas o atra- 
vessaram e, parece incrível, não conseguimos vel-o 
immovel. O sói já se escondia atravez da muralha 
que, n'esse tempo de queimadas, vae á grande altura 
acima do horizonte, impedindo uma boa photogra- 
phia, e como ainda coincidisse com isso a apparição 
das lanchas, com ellas nos dirigimos para a choça 
do Gregório, onde tínhamos estado havia dous me- 
zes, na outra margem do Paraguay, abandonando os 
jacarés sem a photographia. 




Forçando o gado a atx'avessar o rio 




Carandazal visto através da janella 
do v?agon 



I 







Na estacão de Carandazal 



Sâv\A\Í^!.'!3'?^ //i^/,-' - 



lillll /'iíií! ' 



íft» m( «é ^<- -.- «^ \«r *^ 




Uma das onças da estação de Cuaycurus 



**éj^ 



CAPITULO XI 



Das margens do Paraguay ao Rio de Janeiro, 
por terra. 



Despedimo-nos do pessoal das lanchas e do ba- 
telão que partiram subindo o rio, e nós, á espera da 
lancha que deveria descer para Porto Esperança, alli 
ficávamos para seguir esse destino. A lancha cos- 
tuma passar á tardinha pelo local em que estávamos 
e, como havia jantar a bordo de tal lancha, não trou- 
xemos matula, fiados n'es&e jantar. Aquellas para- 
gens do rio Paraguay tinham, não ha que duvidar, 
o máu vezo de torturar-nos á fome, e, como se não 
bastasse o quasi jejum a que fôramos obrigados três 
mezes antes, agora, com desapontamento e tristeza, 
vimos chegar a noute e os mosquitos, e não viamos 
chegar a lancha. . . nem o jantar. Revolvemos os 
meus celebres alforges onde, outr'ora, alguém já 
dissera só não ter encontrado um guarda-chuva e um 
pouco de toucinho, e, retirando d 'esse bazar ambu- 
lante uma lata de pecegada ])or lá perdida, jantámos 
admiravelmente bem . . . 

Já era noute fechada; passavam-se os minutos 
e as horas, e a lancha, n'um atrazo que nos deixava 
cheios de inquietação, não dava nenhum signal de 
gos que, nas lanchas, subindo o rio, encontrariam a 
vida. Tinhamos, por precaução, incumbido os ami- 
que esperávamos, de prevenir que aguardávamos a 



— 170 — 

sua passagem na cliO(^'a do Gregório, onde devería- 
mos embarcar; eomtndo, apezar d'essa medida, 
aguardávamos anciosos e alertas a passagem da 
atrazada conducção, que deveria parar pelo aviso 
que teria recebido e ao signal que fariamos, signa! 
que consistia em agitar uma luz na barranca, e que 
é convencional entre todos os navegadores d'aquelles 
rios. Finalmente, depois de 10 horas da noute, ou- 
vimos o barulho da lancha, acompanhado de outro 
rumor estranho, que parecia de algazarra. Logo que 
avistámos as luzes de bordo, começámos a agitar a 
nossa lanterna e, embora notássemos que a lancha 
descia um pouco além de onde estávamos, attribui- 
mos a natural necessidade da manobra, e esperámos 
trancjuillamente. Logo parecou-nos, porem, que, no 
meio da enorme gritaria, incomprehensivel para nós, 
de um grande grupo de homens que viajava n'um 
saveiro ao lado da lancha, esta não se dispunha a 
atracar e descia o rio. Começámos a gritar com to- 
das as nossas forças e sacámos de nossos revólveres 
e, com mais vontade de atirar na gente da lancha do 
que lhe chamar simplesmente a íitteneão, fizemos va- 
rias detonações, para o ar; mas qual; aos gritos, 
vivas e berros dos "alegres" passageiros, a lancha 
descia tranquillameute o plácido e sereno Paraguay, 
deixando-nos a espumar de raiva, e nas mais criticas 
condições. 

Perdida aquella conducção única, só teríamos 
trem j)ara o Rio d'ahi a uma semana! e isso em con- 
dições norma es, sem contar com as complicações e 
alterações que, forçosa e indubitavelmente, traria a 
inauguração da Estrada ; e nós estávamos sem re- 
cursos, absolutamente desprevenidos para permane- 
cermos onde estávamos, e sem meios de transporte, 
quer para Porto Esperança, quer mesmo para Co- 
rumbá. A nossa situação era das mais afflictívas; era 
mesmo d^aquellas cuja solução só poderia ser 



— 171 — 

achada, se fosse, com muita reflexão e calma ; mas, 
uma vez que o rio Paraguay não nos cedia a calma 
das suas aguas, como encontral-a n'aquelle mo- 
mento de tanto furor? 

Precisávamos dormir, pois que, embora não nos 
fosse possivel aconselharmo-nos com o bom conse- 
lheiro que dizem ser o travesseiro, e isso pela razão 
simples de não o possuirmos, ainda assim, a calma 
trazida pelo somno indicar-nos-ia, por certo, um bom 
caminho. Mas, estávamos ainda extáticos no bar- 
ranco, fuzilando com o nosso olhar toda a gente da 
lancha, quando ouvimos que da mesma partia um 
apito. Que seria? A lancha começou a manobrar 
como cjue para subir o rio e, ainda por alguns mo- 
mentos, tivemos a vaga esperança de que poderia 
ser para vir ao nosso encontro; mas não tardou essa 
illusão; percebemos cpie ella ia atracar na "Manga", 
na margem opposta e cerca de um kilometro abaixo, 
na Fazenda Firme. 

Então, passando por nós o ultimo raio de espe- 
rança, com a resolução, a energia e a força dos que 
se agarram á taboa de salvação, corremos a uma 
canoa e remámos, com fúria, em direcção á lancha. 
Ajudados pela correnteza, descíamos céleres o rio; 
mas, seriamos capazes de alcançar a lancha ainda 
atracada ao barranco? 

Curtos, mas auciosos, esses momentos em que 
a esperança alternava com o desanimo; ao menor 
baloiçar das luzes da lancha, logo concluimos que ella 
estava em marchn, e renascia a esperança quando, 
por entre o vozerio, constatávamos que nenhum ru- 
mor se ouv^ia que indicasse movimento da machina. 
A canoa fendia sempre rápida o rio calmo; já está- 
vamos muito próximo, e eis que ouvimos e vemos 
lancha e saveiro largando do barranco! A lancha 
teria de subir um pouco o rio para poder manobrar, 
e. como tivesse de vencer, além da inércia, a corren- 



— 172 — 

teza do rio, o seu movimento era muito lento; e en- 
tão, fazendo voar a nossa pequena canoa e recor- 
rendo a um alvitre desesperado, abordámos a nossa 
presa mesmo em movimento. Estava, felizmente, 
salva a nossa situação; e fazendo a lancha subir até 
onde estava a nossa bagagem, recolhemol-a a bordo, 
despedimo-nos do bravo Gregório, graças ao qual 
conseguiremos aquella victoria, e começámos a des- 
cer o Paraguay, com destino a Porto Esperança. 

A inauguração official da Estrada já fazia sen- 
tir, como esperávamos, os seus maus effeitos: só pelo 
acaso, e pela nossa enérgica resolução, conseguira - 
mos estar viajando para Porto Esperança e não íidu 
mos na barranca do Paraguay, e isso devido a alga- 
zarra dos *' muito alegres" passageiros que iam á 
inauguração. Agora, já a bordo e com os estômagos 
reconfortados, ficámos sujeitos á barulheira infernal 
da gente da inauguração, e, se esse grupo tivesse de 
viajar comnosco, o que ignorávamos, seria a conti- 
nuação do supplicio. No meio do alarido, armámos 
as nossaj9 redes em dous varões da tolda, como os 
demais passageiros, e como sempre acontece, pois 
que, nos pequenos vapores que viajam pelos rios de 
Matto-Grosso, tal como succ^de no Amazonas, não 
ha camarotes, e muito menos beliches; mas, ainda 
assim, apezar d 'esse alarido e do nenhum conforto 
das redes, não tardou que dormissemos. 

Antes do clarear, chegámos a Porto Esperança-, 
onde encontrámos fundeado o ex-yneu "Oyapock", 
que alli estava á espera da comitiva ministerial; 
logo baixámos á terra e, ao clarear, fomos ao en- 
contro do amigo que nos convidara para a caçada 
na Bodoquena, e que, como previramos, estava ata- 
refadíssimo com a nossa inimiga — a inauguração. 
Percebemos claramente que seria de todo impossivel 
realizar tal caçada n'aquelle momento e, pondo á 
vontade o t>obre homem que estava em sérios apuros. 



— 173 — 

d'ella desistimos e resolvemos partir incontinente 
para (Jampo Grande, onde descontaríamos nas per- 
dizes as onças da Bodoquena. 

Algams camaradas de bordo do "Oyapock", 
tendo sabido da nossa presença, \'ieram ainda uma 
vez dizer-nos adens ; lançámos nm ultimo olliar sobre 
o nosso navio e sobre o majestoso Paraguay, des- 
pedimo-nos dos collegas, e saltámos para o trem que 
ia partir atravez do pantanal. 

A primeira etapa da ^^agem seria principal- 
mente constituída por quarenta kilometros de linha 
semi-permanente, construída toda ella sobre aterro, 
atravessando o x^autaual de caprichoso regimen de 
aguas; estava elle agora inteiramente a secco, e pas- 
sávamos, ora por exteuísões cobertas de macéga, ora 
cobertas de "para-tudo", essa arvore commum no 
pantanal e que, perdendo as folhas em cei-ta epocha 
do anno, cobre-se inteiramente de flores amarellas, 
formando extensas manchas de rara belleza. Mais 
além, atravessámos um campo que poder- se-ia dizer 
de cupins, tal era a quantidade de montículos que 
recebem o nome do insecto que os constróe e habita, 
montículos que, n'esse local estendendo- se a perder 
de vista, accumulavam-se distando uns cinco metros 
entre si. Vinham depois os intermináveis caranda- 
zaes, cujos vultos erectos avistávamos, ininterruptos, 
atravez das janellas do wagon. Caminhámos, cami- 
nhámos muito; passámos a Estação de Bodoquena, 
que nos tirou um suspiro de tristeza pela caçada que 
perdêramos, devido á maldita ínaug-uração ; atraves- 
sámos acuryzaes que nos lembravam as nossas boas 
e agradáveis caçadas de onça, das quaes já começá- 
vamos a ter saudades; passámos, com um pouco mais 
de caminho, pela Estação de justificado nome — Ca- 
randazal — ^e seguimos sempre. 

Estávamos ainda vestidos com os nossos trajes 
de cacada, com que sahiramos das Palmeiras, pois, 



— 174 — 

tendo de continuar essas caçadas, tal como contá- 
vamos atá chegar a Porto Esperança, não tivemos, 
com a brusca resolução em contrario, tempo nem 
occasião de abandonar aquelles trajes, que nos des- 
íiguravam um pouco e nos davam ares de matutos. 
Estávamos assim viajando, e tranquillamente pa- 
rava o nosso trem a uma Estação, quando, com sur- 
presa tão grande quão agradável, vejo chegar, em 
sentido opposto, e parar, um trem de inspecção con- 
duzindo um dos meus bons amigos do Rio de Ja- 
neiro. Salto ao encontro de quem não abraçava havia 
tanto, mas, tão ''acaipirados" estavam os meus tra- 
jes que, apezar de tratar-se de pessoa da maior inti- 
midade, só fui reconliecido ao abraçal-a. . . No inter- 
vallo de poucos segundos que o meu trem permittiu 
estarmos juntos, combinámos que nos tomaria esse 
amigo em Campo Grande, e que nos manteriamos 
em companhia até o Eio. Logo partimos em rumos 
oppostos e, algum tempo depois, chegávamos a 
Guaycurús, onde duas onças enjauladas pareciam 
trazer-nos as despedidas das nossas sempre lembra- 
das caçadas. 

Já noute, chegámos a Aquidauana ; ahi pernou- 
támos e, pela madrugada, de novo rodávamos sobre 
os trilhos á busca de Campo Grande. N'este acanha- 
dissimo resumo de viagem não lia a menor intenção 
de detalhar o que vi, mas, é forçoso notar a gar- 
ganta por onde atravessámos a serra de Aquidauana, 
interrupção natural d'essa alterosa massa, onde pa- 
recia existir o determinado propósito de deixar uma 
passagem franca ás communicações que, dia viria, 
certamente seriam exigidas pela civilização, como 
realmente agora acontecia; e a \ãa-ferrea, aprovei- 
tando a grandiosa previsão da sábia, natureza, sem 
tropeços, nem difficuldades, sem uma obra d 'arte, se- 
quer, conduziu-nos \dctoriosa atravez da altaneira 
muralha, por essa grande e majestosa porta. 



— 175 — 

Ainda cedo, chegámos a Campo Grande, e pas- 
mámos deante do resultado de sementeira tão nova 
que tão rapidamente j^roduzira aquelles mag-niíicos 
rebentos. Campo Grande, sertão inculto, havia qua- 
tro annos, já era um centro de febril movimento, 
onde até a industria já penetrara; o lugarejo se alar- 
gara em villa, e a villa, dilatando ininterruptamente 
as suas fronteiras, multiplicara seus habitantes, se 
aformoseára, attrahira e creára foros de cidade. 
O solo que pisávamos, como aliás toda a vasta região 
sul-matto-grossense, é de uma uberdade inconcebi- 
vel; e dar-se-á uma ideia d 'essa fertilidade se disser- 
mos que vimos: um cará com sessenta kilos (o que 
não constituía excepção), e repolhos de nove kilos. 

Tínhamos reservado o dia seguinte para conhe- 
cimento da futurosa e pequena cidade, e para nosso 
repouso, e só no outro dia deveríamos começar a 
caça ás perdizes. Tinliamos sahido a passeio, n'esse 
dia que se seguiu ao da nossa chegada, quando, ao 
regressarmos á casa do amigo que nos havia aco- 
lhido com a proverbial gentileza do interior, rece- 
bemos um telegramma do amigo que encontráramos 
antes de Aquidauana; e n'esse telegramma, elle nos 
prevenia da sua passagem por Campo Grande, den- 
tro de poucas horas, e pedia-nos que- estivéssemos- 
promptos para acompanhal-o. Xão tinha entrado nos 
nossos cálculos um tão rápido regresso, mas, não só 
porque houvéssemos combinado, como porque nos 
fosse muito agradável a companhia dos amigos, de- 
veríamos desistir da caça ás perdizes e abandonar 
Campo Grande. Foi com gigantesco esforço das la- 
vadeiras, e graças ao sói de Matto-Grosso, que con- 
seguimos ter as nossas roupas, senão limpas, ao 
menos seccas, dentro de pouco tempo ; e assim, remo- 
\ádo esse que era o maior obstáculo, já nos encon- 
traram na Estação os amigos que nos buscavam. 



— 176 — 

O meu amigo Weinschenck viajava em compa- 
nhia do Dr. O. Guimarães, engenheiro da Estrada 
que trilhávamos; a elles juntámo-nos, eu e o meu 
amigo Nelson, e assim, em alegre companhia, dei- 
xámos Campo Grande, \ãajando na varanda do carro 
de inspecção, na frente da machina, o que trans- 
forma a ^dagem de trem, de fastidiosa e incommoda, 
em deliciosa. A Estrada, ainda em muitos trechos 
correndo sobre linhas provisórias e pontes de "fo- 
gueira", não permittia um trafego isento de surpre- 
sas; e foi assim que, tendo deixado Campo Grande 
na intenção de pernoutarmos muito além, parámos, 
depois de um pequeno percurso, deante da impos- 
sibilidade de atravessar uma ponte, que ameaçava 
ruir, e na qual já trabalhava com ardor uma grande 
turma de operários. Como chegasse a noute e não 
estivesse terminado o trabalho de estaqueamento da 
ponte, regressámos a Campo Grande, onde jantámos, 
e resolvemos dormir no próprio trem. O carro só 
tinha dous leitos, mas, eu e o Nelson, apparelhados 
para as nossas caçadas, tínhamos redes, mosquitei- 
ros e cobertas á mão. e tudo se arranjaria perfeita- 
mente bem, quando o guarda do carro, na intenção 
de ser amável, dirige-se ao Guimarães e cliz-lhe: 
"Mas, tem a cama do Sr. Dr. Weinschenck, que pode 
servir para um dos moços". O meu Weinschenck, re- 
velando pela physionomia e pela entonação da voz 
um grande espanto, pergunta admirado e surpreso: 
"Minha cama?!" "Sim senhor, senhor doutor, a sua 
cama de campanha veio aqui no carro e está guar- 
dada", responde o guarda. "Mas, eu não tenho cama 
alguma", retruca o meu amigo. E já começávamos 
a rir com a trapalhada, quando, tendo o gaiarda se 
retirado por um instante, volta com uma cama de 
campanha, e as nossas risadas explodem. Eram 
ainda fructos da inauguração, d 'essa vez, porém, 
favoráveis a mim, pois que me apossei da cama; ella 



— 177 — 

pertencia, como verificámos depois, a um amigo men, 
também engenheiro da Estrada, e que, acompa- 
nhando a comitiva da inauguração, não sabia expli- 
car onde andaria semelliante cama, e bastantes sau- 
dades d'ella sentiu. . . 

No dia seguinte, 15, pela manhã, deixámos de- 
finitivamente Campo Grande e começámos a atra- 
vessar uma das mais ricas e futurosas zonas do nosso 
paiz: campos de magnificas pastagens estendem-se 
por toda parte, uns em planicies ininterruptas, taes 
como as da "Vaccaria", outros em suaves ondula- 
ções e cortados de regatos, outros ainda salpintados 
com o verde escuro dos capões que surgem aqui e 
além, e tudo, emfim, offerecendo-se ao homem na 
plena manifestação da generosidade da natureza, 
convidando a um trabalho fácil e segTiro, nobre e 
fecundador. 

Depois de alg-uns dias de viagem, muitas vezes 
interrompida para pousar, jantar com um amigo ou 
visitar uma fazenda, chegámos á joven e florescente 
"Três Lagoas", a poucos kilometros do majestoso 
rio Paraná, isto é, a poucos kilometros do Estado 
de S. Paulo. Três Lagoas tinha, então, três annos 
de existência, mas, sendo a sede de ofificinas, escri- 
ptorio e administração da Estrada, embora tivesse 
começado a existir como simples acampamento dos 
exploradores da mesma Estrada, já contava, quando 
lá chegámos, com regnilares recursos ; possuia as suas 
ruas bem alinhadas, hotel, boas casas de commercio, 
e sobretudo um risonho futuro deante de si. 

Como tivéssemos de ahi demorar três dias, fo- 
mos convidados para uma pequena excursão pelo rio 
Paraná, passando pelo estreito canal do Jupiá, que 
deverá ser transposto pela futura ponte. Acceitámos 
gostosamente o amável convite e, depois de vencer- 
mos os poucos kilometros que nos separavam do 
grande rio, lá encontrámos um pequeno vapor, que 

Viagens e Caçadas '- 



— 178 — 

faz a carreira entre o porto de Jupiá e Rio Pardo, 
e ii'elle embarcáraos. O rio, que ahi corre em leito 
todo de pedra, estava em gi-ande vazante; comtudo, 
a sua profundidade, no canal que será transposto 
pela ponte, era de quarenta e cinco metros! 

A explicação, porém, é fácil, pois que, por esse 
canal, que tem apenas cem metros de largura, passa 
todo o grande rio, em vertiginosa carreira, para logo 
desembocar n'um meandro de ilhas e pedras, por en- 
tre as quaes, só a habilidade de alguém, com muita 
pratica, poderá conduzir uma embarcação. 

O nosso pequeno navio, de roda á popa e dimi- 
nuto calado, não poderia ter bôa velocidade; e logo 
se me afigurou a difficuldade em conseguir-se gover- 
nal-o, e talvez a impossibilidade de vencer a corren- 
teza do rio, quando tivéssemos de subir. Largámos; 
começámos a descer, e logo entrámos no canal, onde 
as aguas vertiginosamente arrastavam o nosso pe- 
quenino vapor; e eu via que iamos deixar esse canal 
e que, perigosas, surgindo de todos os lados, umas 
a descoberto e outras visíveis atravez das aguas 
crystallinas, as pedras nos cercavam pela proa, n'um 
lugar em que a coiTenteza era fortíssima e onde me 
parecia impossível qualquer manobra. Dentro em 
pouco estávamos em pleno labyrintho de pedras; a 
agua borbulhava espumante, formando ondas que 
chegavam a galgar o convez, aliás baixo, do nosso 
vaporzinho: era a travessia de uma "corredeira", e 
das mais vertiginosas, cora todas as suas difficulda- 
des; e o homem do leme, calmo, sereno, como se não 
tivesse de vencer obstáculo algum, zombava, sem o 
saber, de toda a minha proficiência marítima. . . 

Depois de percorrermos um certo trecho do rio, 
encostámos a uma das interessantes ilhas, que são 
bancos durante as cheias, e que são inteiramente co- 
bertas de pedras roladas. Logo nos puzemos á cata 
das mais bellas; mas. em menos de um minuto, veri- 



— 179 — 

ficámos que, ou teríamos de renmiciar ao desejo de 
levar todas as bellezas com que deparávamos, ou te- 
ríamos de fretar outro vapor para leva!-as ao 
porto... Ainda assim, tendo apanhado um grande 
numero d'ellas depois de tirarmos um grupo conser- 
vador de tão agradáveis impressões, reembarcámos, 
e comecei logo a dar tratos á imaginação para des- 
cobrir como seria possivel, mesmo cora a habilidade 
que já testemunhara, fazer o nosso barco subir o rio. 
Se as minhas preoccupações já existiam ao re- 
embarcar, maiores e mais intensas foram ao enfren- 
tar as aguas revoltas da impetuosa corredeira; era 
todo o caudaloso rio, que, sacudindo o jugo do es- 
treito canal em que a terra o apertara, surgia, rai- 
voso, espadanando as suas aguas com fúria, espu- 
mante e veloz; e o nosso pequeno vapor teria de 
vencer essa correntada, manobrando por entre o in- 
trincado labja^iutho das pedras que nos cercavam. 
Em cima, todos nós tínhamos os olhos fixos nos esco- 
lhos que nos ameaçavam e, em certo momento, como 
o vaporzinho não pudesse vencer as catadupas 
d 'agua que lhe assoberbavam, foi violentamente 
arrastado pela correnteza, para cima de umas pedras 
em que a agua quebrava com violência. Todos nós 
viamos, n'aquelle instante, o risco imminente do na- 
vio avariar- se de encontro ás pedras, em \^olento 
choque, sendo, provavelmente, arrastado depois pela 
correnteza. Segurei-me fortemente a um estay, para 
resistir ao choque, e os outros companheiros, segu- 
rando-se do melhor modo, todos esperávamos o mo- 
mento do violento encontro, quando, com a mais im- 
perturbável calma, o pratico encostou suavemente o 
navio á ameaçadora pedra, como se se tratasse de 
uma bem manobrada atracação propositadamente 
feita n'aquelle ponto. . . O vaporzinho estava agora 
fortemente imprensado pela agua de encontro ás pe- 
dras -. mas, depois do que acabava de ver, foi sem 



— 180 — 

admiração que assisti a pôl-o ao largo, vencer as 
catadupas da corredeira, subir o canal, e, por íim, 
deixar-nos sãos e salvos no porto de onde haviamos 
partido. Begressámos a Três Lagoas, caregados de 
pedras e com a impressão de que as d'aquelle rio 
não furam casco de navio; e, depois de termos dei- 
xado passar, no dia seguinte, o comboio da inaugu- 
ração, preparámo-nos, por nosso turno, para deixar 
o immenso Estado de Matto-Grosso, saudosos das 
caçadas magnificas que abi fizéramos. 

Partimos, em fim, de Três Lagoas, e logo chegá- 
mos á margem do Paraná. Já na véspera tinham 
atravessado o rio os carros que fariam parte do com- 
boio, e agora, felizmente, só restava transpormos o 
rio com a nossa bagagem ; deixámos, pois, a margem 
direita do Paraná e o Estado de Matto-Grosso, e, 
após curta travessia, atracávamos á margem es- 
querda, no progressista e adeantado Estado de 
S. Paulo. 

O comboio poz-se em marcha, mas, poucos kiio- 
metros após, na Estação de Itapura, apeámos, to- 
mámos um trem de lastro puxado por uma pequena 
locomotiva, e chegámos, depois de curto trajecto e 
l^equena marcha a pé, ao majestoso salto de Itapura. 

Antes de entrar no Paraná, o Tietê, grande- 
mente largo, despeja-se em bello salto, ou melhor, 
em três grandes saltos, que se unem, ou se separam 
por saliências mais fortes do leito do rio, conforme 
a cheia, ou a vazante. Era com este ultimo aspecto 
que o admirávamos e, depois de eu tirar algumas 
photographias, retrocedemos e ganhámos a Estação 
que recebeu o nome de tal salto. 

Reencetámos a nossa viagem e, agora, que não 
mais estávamos em Matto-Grosso, penetrávamos na 
grossa matta do Estado de S. Paulo, atravez da qual 
corria o nosso comboio, floresta tão extensa, tão ma- 
jestosa, e (jue f(n-ma uni flagrante contraste com as 



m 




o auctor e alguns amigos em uma 
das ilhas do alto Paraná 



f^ 



1 




Wagons transportados para a margem paulista 




Trecho da cachoeira de Itapura, 
e o meu amigo O. Weinschenck 



— 181 — 

campiuab de Matto-Grosso, que haviamos deixado. 
Sempre em marcha, iam os traços da civilização 
apparecendo, como os degraus de uma escada; era 
o sertão, o solitário e imponente sertão empolgante 
que desapparecia, e a fascinante e seductora civili- 
zação que surgia: já despontam os arniados café- 
zaes, apparecem as casas cobertas de telhas, vêem-se 
estradas cuidadas, emergem as cidades illuminadas, 
e 08 carros cruzam as ruas. . . 

Amanhecemos em Bauru e tomámos um trem 
da E. F. Paulista, mais confortável, mais limpo, cor- 
rendo em leito lastrado de pedra, e com wagon 
restaurante; ha flores na mesa e vêem-se jardins 
atravez das janellas do carro; apparecem as cha- 
minés dos engenhos, e depois as das fabricas; as es- 
tações são agora mais amplas e mais limpas; avis- 
ta-se imi agglomerado compacto de casas que se 
perfilam como militares, automóveis circulam pelas 
ruas, muita gente cruza e passa, apregoam-se jor- 
naes — é Campinas. 

Anda-se mais, ainda mais, e um clarão, que o 
céu reverbera, annuncia um grande conjunto de lu- 
zes ; ellas já surgem agora como pyrilampos esparsos 
pelos campos, juntam-se mais e ainda, rebrilham e 
cercam-nos por toda a parte n'uma área iromensa; 
silvam outras locomotivas e a nossa, automóveis bu- 
zinam de todos os lados; passam velozes e repletos 
de gente os bondes illuminados; torres e abobadas 
projectam-se na noute; um borborinho de vida in- 
tensa estua nos ares — é uma grande cidade: São 
Paulo. 

Embarcámos agora em confortável nocturno da 
E. F. C, B., na grande estação da Luz; deixámos a 
Capital Paulista, e, sonhando com os bellissimos pa- 
noramas que d 'essa Estrada se descortinam na 
Serra dos Órgãos, despertámos em Belém, inicio da 
grande baixada qiie se estende até o mar. A pressa, 



— 182 — 

ossa uoção do tempo exacto e escasso, essíi inimiga 
acerba da liberdade e companheira inseparável da 
ci\àlização, lá estava, despótica, irritantemente im- 
periosa, movendo os homens submissos que, — tal é 
a força do habito — nem se apercebiam da servidão 
a que estão sujeitos. A estação, repletai de pas>sa- 
geiros dos dons comboios que ahi se cruzavam, fer- 
vilhava de gente e de estonteante barulho; ims 
engulindo o café, outros correndo ás gulozeimas, ou- 
tros, ainda, procurando os jornaes, todos se entre- 
chocam e cruzam em confusão e pressa; e, ao apito 
da locomotiva, galgando o trem com solfreguidão, to- 
dos retomam os seus lugares, carregados de jornaes. 

Mas o carro rola e corre; e da vasta cidade e 
da enorme bahia, as montanhas que a ambas ornam, 
cercam, azuladas ha pouco no horizonte, tomam 
Adulto, avolumam-se, approximam-se. 

Ficam pr'atraz os campos semi-incultos e as 
casas de sapé, onde se abrigam moradores de idên- 
tica cultura. Surgem, distante, chaminés de fabricas, 
e o fumo, que em roldão cavalga os ares, sem o per- 
fume da offerenda antiga, é ainda o de um outro 
sacrifício onde a moderna victima é o homem, e o 
ouro o Deus que se cultua e adora. 

Tange teu gado ás rudes soalheiras, vaqueiro 
do sertão ! Moureja, e cava, e planta, e ceifa e colhe, 
oh! matuto feliz das nossas selvas! E' livre o teu 
correr pelas campinas! ensombreia-te a casa a ra- 
maria da virente floresta! E' teu o céu profundo e 
constellado, e o rio que te serve, e o bosque, e o 
campo, e a fonte, e a estrepitosa cachoeira ! 



Rebrilha o sói nos vidros das janellas, nas cupo- 
las, nas torres, nos zimbórios; as casas juntam-se 



— 18.'{ — 

em grupos e, em pouco, já se agglomeram; são as 
ruas, agora, já calçadas; as casas se acotovelam; 
bondes, trens, caminhões e automóveis, correm, sil- 
vam, circulam, atordoam. Nas estações a multidão 
se apinha; regorgitam de gente as plataformas, atu- 
lhadas de povo; os trens, repletos, e mesmo trans- 
bordando, vão ficando pnra atraz, em marcha tarda, 
emquanto nós passamos os subúrbios. 

Visão fugaz que a retina mal colhe, passa pela 
janella do wagon um pequeno recanto da bahia : ao 
longe, a serra, azul e alcantilada, forma o fundo im- 
ponente e majestoso; da Guanabara a nesga esver- 
deada reflecte o sói de chispas d'ouro fino; e as 
canoas, e os barcos, e os navios, baloiçando ou sin- 
grando as suas aguas, movimentam o quadro que nos 
foge. Mal se foi elle, e a quadrupla carreira de co- 
lumnas esbeltas, encimadas de rendilhados capiteis 
de folhas, empolga a nossa vista; é rápido e é so- 
berbo! Mas o trem continua, e lá deixámos as pal- 
meiras bellissimas do Mangue, pois que chegado 
estamos ao destino. 

Eesfolegante, a machina soffreia a rapidez da 
marcha que trazia, d 'outros comboios as escuras 
filas abrem alas ao rápido paulista; cada vez mais 
suave rola o carro; na plataforma já se reconhece 
um amigo, e mais outro, e outro e todos. O trem pa- 
rou, chegámos finalmente, após tão longo caminhar 
em trilhos. 

A braços com os abraços, que são muitos, a sau- 
dade, que o tempo tanto augmenta, afogámos nos 
peitos que apertamos, e, quasi sem saber como, se- 
guimos, caminhamos e estamos já na rua. O auto- 
móvel lá está, partamos n'elle; a explosão fez a ma- 
china mover-se, e os gazes empestaram o ambiente 
— oh saudoso perfume das florestas! — Umas ás 
outras juntas são as casas, e a terra, e a terra amiga 



— 184 — 

que sustenta, onde a seara cresce e o gado pasce, é 
coberta de asphalto, não respira, nem da noute re- 
cebe o doce orvalho. 

O automóvel é rápido; que serve? de instante a 
instante pára, porque o transito impede a liberdade 
nos caminhos; e a multidão, que soffrega se agita, 
é como o gado preso na mangueira, que só passa 
quando se abre a porteira. 

Que liberdade estreita a das cidades ! . . . 

Pelas ruas, bem amplas, asseiadas, ladeadas de 
palácios onde o homem, enclausurado, vive contra- 
feito, rolamos sem rumor nem solavancos. Agora, 
penetramos na Avenida que é a principal artéria 
da cidade; mas é cedo demais para vel-a cheia, pois, 
nas cidades, centro de vadios, ninguém desperta com 
"as sete estrellas". 

Abrindo-se aos pulmões de quem respira, ha 
tanto, o ar libérrimo dos campos, surge a Avenida 
Beira-Mar, o encanto, o enlevo, a gloria justa d 'esta 
terra: para um lado a tranquilla Griíanabara que o 
ar agitado levemente encrespa, a cidade fronteira, 
a morraria, as ilhas verdejantes e o oceano, as serras 
que se azulam no horizonte, a vastidão do espaço e 
firmamento; e aqui, sob a copada ramaria das arvo- 
res, entre a relva dos canteiros, entre os bosques e 
as flores que perfumam, sentimos a caricia do ar 
mais leve que ora se encontra á solta nos caminhos. 
Embebidos na magna belleza d 'esse sitio sem par, 
vamos seguindo as curvas caprichosas da muralha, 
aos pés da qual o mar soluça e geme; e quando, n'um 
momento interrompido esse engaste da fulgida esme- 
ralda, irrompemos na curva graciosa da sublime en- 
seada — em Botafogo — um mundo de poesia nos 
empolga e parece-nos sonho. N'um céu azul, puris- 
simo, sem nuvens, destacam-se as montanhas majes- 
tosas da Gávea, o Corcovado, a Babylonia; montes 



— 185 — 

mais baixos descem d 'esses montes, todos vestindo 
o verdejante manto das mattas, dos capões, das ca- 
poeiras; as casas, todas de jardins ornadas, desta- 
cadas no fmido verde-negro, haurem do mar a brisa 
sussurrante e acompanham a cuiva graciosa da pre- 
guiçosa e languida enseada; e lá, plantado á beira 
do caminho, erguendo ao céu a massa de granito, o 
monolitho immenso, o — Pão de Assucar — marco 
que ao longe o marinheiro avista indicando-lhe o 
porto desejado. 

Se, muita vez, o homem, no seu vezo de tudo 
aproveitar, mutila e enfeia tanto mimo gracil da Na- 
tureza, outras vezes, ao seu trabalho e engenho é que 
se deve o gozo inebriante de panoramas que, avara e 
egoista, a Natureza a todos occultava. 

Como um pesado e vagaroso pássaro, vimos um 
carro, parecendo, ao longe, estar solto no ar, deixar 
o solo e, conquistando a altura em marcha lenta, gal- 
gar o cimo abrupto da Urca; e depois, como tendo 
repousado d'aquelle esforço ingente, e inda sedento 
de mais altura e d 'ar, deixar a Urca, e agora peque- 
nino aos nossos olhos, destacando no azul o \Tilto 
negro, subir mais e attingir o pico agudo do solitário 
marco de granito. 

Que panorama soberbo se deve de lá gozar! 
Em baixo, o oceano azul, profundo, immenso, ao ca- 
pricho dos ventos farfalhando a cabelleira em cara- 
cóes de espuma; segue ao nascente a costa alcanti- 
lada em recortada serra caprichosa; para os lados 
do sul — Copacabana — a clara e bella praia que se 
encurva em voluptuoso dorso de felino, qual sensual 
ilharga feminina que a onda sem cessar acaricia; e 
a contemplar o longo, eterno beijo em que se estira 
a onda preguiçosa, se estende e se agglomera o ca- 
sario onde vitraes e cupolas rebrilham. Pelo poente 
andemos para o norte : reflecte o sói o espelho da La- 



— 18G — 

gôa; e até chegar á beira da bailia, recortado de ruas, 
Botafogo ostenta as cíisas e os jardins viçosos; Fla- 
mengo, Kussell, Gloria, o Corcovado, a altaneira 
Tijuca e, finalmente, toda a vasta cidade e a morra- 
ria se deijxa contemplar, como se fora um gigantesco 
e primoroso quadro. E a Guanabara, plácida, serena, 
em amoroso gesto abrindo os braços, descortina o 
contorno pittoresco do litoral immenso que elia ba- 
nha: ao fundo, altiva, majestosa e negra, os picos 
elevados recortados como aguçados dentes de uma 
serra, jaz a Serra dos Órgãos; mais perto e para 
este, pachorrenta, a somnolenta Nitheroy se avista; 
e longe do bulicio das cidades, e mais perto do céu, 
como que a alma se sente mais liberta e mais tran- 
quilla. 



Mas, porque pára assim nosso automóvel? 
E' verdade que um som, que os ares corta, os meus 
ouvidos fere — não tem elle o langor da trova ingé- 
nua que o sertanejo canta na viola — é o toque estri- 
dente, agudo e forte, da corneta de guerra. Passa a 
tropa, e em redor o chão resôa ao passo regular, ca- 
denciado, dos soldados que, em linha, jDerfilados, 
marcham ao toque agudo da corneta. Pesam-lhe aos 
hombros longas carabinas aos extremos das quaes, 
ao solo doirado, reluzem aguçadas baionetas. 

E onde vae tanta gente assim armada? Contra 
que feras vão que, tão temiveis, exigem tanta força 
e tanta gente? Contra outros homens vão. Contra 
outros homens?! 

Sim; e na Europa, a muito culta Europa que 
dieta as leis da civilização, é por milhares, por mi- 
lhões que, agora, os homens se entrechocam e se ma- 
tam nos campos de batalha, e fora d'elles. . . Foram 



— 187 — 

rotas as leis da liumauidade, e a barbaria antiga e 
rancorosa, á sciencia roubando os sãos progressos, 
como o génio do mal, sanhiido, horrível, incendeia, 
destróe, mutila e mata 



Bemdito sejas para todo o sempre oh! tranquillo 
sertão da minha terra ! 



o autor, tendo ido ao pan- 
tanal de Matto-Grosso cm prin- 
cípios de 1919, e tendo tido a 
sorte de fazer, dentro de curto 
praso, magnificas caçadas, re- 
solveu, principalmente por causa 
de duas photographias verda- 
deiramente extraordinárias, es- 
crever um pequeno appendice 
onde narra, na presente edição, 
em resumo, essas caçadas. 



N. DO EDITOR. 



A' memoria de Th. ROOSEVKLT 

saudosa hojueiiagevi do 

A uroR. 



ERRAT^A 



Não lendo o autor podido rever esta ultima parte do livro, 
alguns erros escaparam e, entre elles, se destacam os seguintes 
que prejudicam o sentido do texto : 



Pag. 


LINHA Onde se l 


,Ê : 


Leia-se : 


191 


12 


em rememorar 




um rememorar 


194 


22 


Araçatuba ; 




Araçatuba, 


198 


30 


Sebastião Bastos 




Sebastião Botto 


214 


28 


e que 




que 


231 


6 


quasi se dormir 




quasi sem dormir 


» 


33 


como louco, para 




como louco, saltou para 


234 


26 


que elle ficava 




que lhe ficava 


235 


12 


não comemos ; não 


comemos 


Não comemos, nem 


239 


1 


que inda o solo col( 


jre 


que inda o sol colore 



CAPITULO XII 



Seis onças mortas em seis dias ! 



Os inglezes que vão ás índias e gozam, durante 
algum tempo, o sói, a luz, o céu azul, o grande ar 
livre, a floresta e as bellas caçadas, sentem, quando 
de volta á nevoenta Londres, triste, bimmosa e bu- 
Ihenta Londres, uma grande saudade dos tempos de 
vida indiana, e chamam elles a isso: "The call of 
the East". 

Quem tem alma de caçador e já teve a bôa sorte 
de caçar onças no pantanal de Matto-Grosso, ainda 
que em vez da fumarenta Londres esteja a viver no 
radioso Rio de Janeiro, sente uma attracçâo conti- 
nua, em rememorar perenne de impressões inesque- 
civeis, uma saudade intensa d'aquellas scenas e 
emoções — "The call of the West" — , como então 
diriam os inglezes. 

E tantas e tão fortes foram as chamadas da sau- 
dade que, em 1918, escrevemos para os nossos amigos 
do pantanal e organizámos, para Setembro desse 
anno, uma caçada de onças em que seriamos compa- 
nheiros : eu, o Nelson, e o Luiz de Castro Guimarães, 
isto é, grupo da caçada cujo quartel general fora 
Pirapóra, no anno anterior. 

Não quiz o destino que tal caçada se realizasse 
porque nenhum de nós conseguiu ficar bastante livre 



— 192 — 

para uma ausência de, pelo menos, um mez; e quiz 
ainda o destino, cruel e implacável, que o nosso bom 
e excellente amigo Luiz Guimarães perdesse a vida 
nesse mesmo anno, na terrível epidemia de gríppe 
fjue tantas vidas ceifou. 

Em fins de 1918 pareceu-nos que sería possivel 
arranjar as cousas de modo a podermos realizar o 
nosso sonho, privados embora, com grande saudade, 
(lo nosso Luiz. Os últimos, como os primeiros mezes 
do anno não são indicados para caçadas no pantanal, 
pois, não só elles correspondem á epoclia das grandes 
chuvas, como, o que é inconveniente ainda maior, 
a enchente, tudo alagando, difficulta, e mesmo im- 
possibilita a caçada de onças; estas, podendo fazer 
grandes travessias a nado, uma vez perseguidas, não 
hesitam em lançar mão de tal defesa, onde nem cães 
nem cavalleiros serão capazes de alcançal-as. Só em 
mna hypothese poderá a caçada ser bôa nessa epo- 
ch;a : será o caso da sua coincidência com o começo 
da enchente. Então, vindo o gado, acoçado pela agua, 
refugiar-se, aos poucos, nos lugares "firmes" (sec- 
cos), as onças vêm acompanhando o gado, que é o 
seu pasto, e, se a caçada é feita ainda a tempo dos 
cavallos moverem-se livremente sem "nados" a fa- 
zer, então o momento é maravilhoso. Sem contarmos 
muito com as consequências e resultados, escrevemos 
e telegraphámos para o pantanal, e tudo preparámos 
para partir em Janeiro de 1919. A 20 desse mez to- 
mava eu o nocturno paulista, sem outros companhei- 
ros que a minha arma de três canos, a minha 
Remington 11, os meus alforges e o meu poncho. 
Ia só. Por minha grande infelicidade, o meu amigo 
e companheiro Nelson de Mello não podia acompa- 
nhar-me; mas, em S. Paulo, contava com dous bons 
companheiros para a extensa viagem: os meus ami- 
gos caçadores Epaminondas Martins e David Alves 
de Araújo. Antes das 7 da manhã estava em S. Paulo, 




Passagem para a chata 



— 193 — 

e, logo na estação tive o prazer de ver o amigo Epa- 
minondas. Então, prompto? Podemos seguir? Não, 
não era possível contar com o Epaminondas, nem 
tampouco com o David; mas, como eu teria todo o 
dia para resolver, pois deveria seguir no nocturno 
para Bauru, seria capaz de reflectir e voltar, para 
não ter de enfrentar sozinho uma tão longa e exte- 
nuante viagem. A mudança de horário de trens fez 
com que eu não tivesse esse tempo de reflexão, pois, 
tendo sido reduzidos os nocturnos, e não havendo 
mu nesse dia, tive de partir três horas após a minha-» 
chegada, o que me deu tempo ainda para perceber 
que tinha esquecido o meu rewolver e, em boa hora, 
levar o do Epaminondas, que esteve, como veremos, 
empunhado durante alguns minutos e a ponto de 
salvar-me a vida, no decorrer dessa campanha. 
Viajando sempre na confortável E. F. Paulista, che- 
gámos pelas 9 da noute a Bauru, e logo fomos abra- 
çar o nosso amigo Oscar Guimarães, que chegara, 
momentos antes, de outro local. Depois de matarmos 
saudades n'uma bôa prosa, fomos reparar as fadigas 
n'um profundo somno, e, pouco depois de 6 da ma- 
nhã do dia seguinte, 22, despedimo-nos do nosso 
amigo e partimos para Araçatuba. 

Como é grato a um coração brasileiro ver os 
progressos rápidos do interior da nossa terra ! Havia 
quatro annos e três mezes que passáramos, vindo de 
Matto-Grosso, por aquellas mesmas paragens; e que 
differença, santo Deus! que differença! Localidades 
que tínhamos deixado em matto, encontrávamos 
agora cobertas de cafézaes, de lavouras de cereaes, 
de algodão, ou cheias de habitações; estações que 
mal poderiam ter tal nome, eram agora verdadeiras 
cidades como Presidente Penna; os trens trafegavam 
cheios de viajantes que iam vender ou comprar mer- 
cadorias; e era gente que sabia apresentar-se, falar, 
convencer, persuadir: era a vida intensa, a permuta 

Viagens e Cacadas »3 



— 194 — 

que traz a ambição e o conforto; era o progresso da 
agricultura e da })ecuaria, era a riqueza do sertão! 
E, terra abençoada essa por onde passávamos, era 
preciso que nos indicassem os cafézaes damniíicados 
pela geada de ha seis mezes, pois, inteiramente rever- 
decidos, dir-se-ia que nunca teriam soffrido mal 
algum ! 

E foi com essas alegrias que, á tarde, chegámos 
a Araçatuba, 

Constatei ahi que a minha velha machina pho- 
tographica tinha soífrido uma avaria grave e, apezar 
do progresso já ter feito surgir ahi uma série de 
boas casas de negócios, não era licito esperar a pos- 
sibilidade de um concerto em regra, mesmo porque 
não haveria tempo; dispuz-me a procurar um cai^pin- 
teiro hábil e, juntando essa habilidade á nossa boa 
vontade, arranjámos um concerto feio, mas que per- 
mittia o funccionamento da machina : — foi uma 
sorte grande. 

Com o fim de atravessar o rio Paraná e ganhar 
Três Lagoas, deixámos, bem cetio, no dia immediato, 
Araçatuba; não tendo tido, n'esse trecho de viagem, 
a felicidade de constatar os mesmos progressos vis- 
tos no dia anterior, pois que a má ideia de desviar o 
traçado da estrada, tirando-a do espigão para tra- 
zei -a para a margem do rio Tietê, equivaleu a 
trazel-a para uma zona grandemente insalubre, que 
jaz e ha de por largos annos pennanecer inculta, 
devido á febre palustre; e, a menos que se creia n'um 
negro pemetta, que encontrámos na estação de Anã- 
gahy, e que, mostrando-nos um bode, dizia que "gra- 
ças á permanência d'aquelle animal, tinha d'ahi 
desapparecido a maleita"; a não ser assim, só com 
muito longos e dispendiosissimos trabalhos poderá, 
em futuro remoto, ser saneada aquella zona. A nossa 
viagem tem sido sempre acompanhada de agradável 
chuva, que nos tem amavelmente livrado do pó; 




A chata 






Travessia do Paraná em cheia 






Garganta da Bodoquena 

mmÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊm 



— 195 — 

agora, porém, que vamos dentro em pouco atraves- 
sar o Paraná, ella cessou, o que nos vae permittir 
uma baldeação conmioda, e o poder bem apreciar 
aquelle rio em cheia, isto é, com o aspecto opposto 
ao que conhecemos quando o atravessámos em 1914. 

A bôa sorte que nos acompanhava consentiu que, 
além de termos feito uma travessia muito commoda 
e livre de chuva, fosse i^ossivel photographar as di- 
versas phases dessa travessia, de modo a poder re- 
produzil-a quasi que cinematographicamente, como 
ahi está; e, para quem at.u aquelle colosso que ora alli 
se avoluma, espremido n'um canal de apenas cem 
metros de largo, durante a secca, o espectáculo de 
agora era verdadeiramente de assombrar; 6 verdade 
que a cheia que presenciávamos era das maiores, e 
tanto assim que, segundo era então previsto, seria 
muito possivel a suspensão da travessia dentro em 
poucos dias. 

Cedo estávamos em Três Lagoas, cujos pro- 
gressos eram positivamente estupendos : illuminação 
eléctrica, ruas largas, grande praça, cinemas, jor- 
naes, e um commercio em que já se contava mais de 
uma casa com mais de um milhar de contos de ca- 
pital ! 

A partida de Três Lagoas não é das mais agra- 
dáveis, pois, sendo o percurso n'esse dia muito longo, 
para alcançar Campo Grande é preciso deixar Três 
Lagoas ás 4 horas da madrugada, o que não é das 
cousas mais agradáveis, maximé para quem, como 
nós, tem o habito de tomar banho, barbear-se, etc, 
antes de embarcar; mas como não era possivel alte- 
rar o horário, lá partimos nessa madrugada de 24 
para a primeira etapa em terras de Matto-Grrosso, 
pois que os oito kilometros da margem do Paraná 
a Três Lagoas não são contáveis como viagem. 

Zona inteiramene diversa da que atravessára- 
mos em S. Paulo, surge agora aos nossos olhos a ale- 



gre e movimentada vida pastoril, e os vaqueiros e 
gaúchos já fazem parte da paysagem com seus ty]DOS 
característicos. Depois de uma extenuante viagem de 
quinze horas chegámos a Campo Grande: seria pos- 
sivel o que viam nossos olhos? Carros e. automóveis 
em quantidade, uma grande estação, illuminaçãOj 
grande movimento, annuncios de vários hotéis; mas 
seria mesmo aqnelle Campo Grande de ha quatro 
annos? Era outro, positivamente outro, tão grande 
e tão rápido fora o salto. Corremos ao hotel mais 
próximo para aplacar a fome e a fadiga, e fomos 
bastante felizes para achar commodos, o que não era 
fácil á vista do movimento; mas, por grande embora 
que fosse a nossa curiosidade em percorrer a cidade, 
aqui confessamos que a "surra" d'aquelie dia e a 
perspectiva da partida ás 4.30 na madrugada se- 
guinte, fizeram com que preferíssemos procurar a 
cama. Na madrugada, seguinte encetávamos o ultimo 
trecho da viagem terrestre, e já não era sem tempo, 
pois que, sendo então 25, desde o dia 20 que não fa- 
zíamos outra cousa senão viajar em estrada de ferro. 
Lembro-me que o começo da viagem desse dia foi 
feito ás escuras, pois, tendo-se partido o lampeão do 
nosso compartimento, não havia outro para substi- 
tuil-o, e, como nenhum dos passageiros do compar- 
timento tivesse tido a má sorte de tomar um banho 
de kerozeue do tal lampeão, achámos que tudo ia ás 
mil maravilhas, e que o sói nasceu cedo. Antes do 
almoço passámos pela bella garganta que a natureza 
talhou na serra — para a passagem dos trens — , e 
foi com viva alegria que notámos a proxhnidade do 
pantanal. 

Nas visinhanças de Miranda vimos, a uns du- 
zentos metros da linha, um veado que parecia já estar 
familiarizado com os trens, pois só muito lentamente 
procurou o mais próximo capão. O pantanal, que 
agora atravessávamos, trazia-nos, |>elo seu aspecto, 



— lt»7 ~ 

as melhores esperanças de uma bôa cacada; como 
supponho já ter dito, grande parte do êxito das ca- 
çadas de onça depende do nivel das aguas do pan- 
tanal; e agora o que viamos era o começo da enchente, 
e, portanto, uma occasião excellente para as nossas 
caçadas. A' tardinha chegávamos a Porto-Espe- 
rança, na margem esquerda do magestoso Paraguay, 
e lá estava o navio ''Brasil'', que deveria condu- 
zir-nos rio acima. Pelos telegrammas que passara, 
deveria encontrar em Porto-Esperança carta ou tele- 
gramma com instrucções do amigo Mário de Barros, 
sobre o ponto em que deveria desembarcar e encon- 
tral-o; célere, procurámos por toda a parte essas 
instrucções, mas, bem contrariados, notámos que fo- 
ram baldados os nossos esforços. Estávamos deante 
da primeira difficuldade, mas quem se aventura 
n'uma empreza como a nossa sabe muito bem que 
precisa de uma forte dose de paciência, expediente, 
energia e tenacidade, e que essa não seria, com cer- 
teza, a única nem a maior das difficuldade a vencer. 
Logo telegraphámos ao Mário, para Corumbá, pre- 
venindo que iriamos ao seu encontro, pois que, se 
lá elle estivesse, já ficaria avisado; e como um passa- 
geiro tivesse no porto uma lancha veloz que parti- 
ria immediatamente também para Corimabá, pedi- 
mos-lhe o favor de communicar ao Mário a nossa 
chegada, e vimos partir essa lan<'ha, rio acima, envol- 
^dda n'um desses occasos de empolgante e phantas- 
tica belleza, como não lhe valem os decantados cre- 
púsculos do Mar Vermelho ou das margens do Nilo. 
Só á noute deixou o porto o nosso navio que, 
depois de ter tocado em um "saladero" (xarqueada), 
atracou, ás 2 horas o meia, na "Manga", onde talvez 
estivessem á minha espera; corri pressuroso á busca 
de noticias, mas, só tendo encontrado couros mal 
cheirosos que, durante talvez uma hora , embarcaram 
como carga para Corumbá, tornei a deitar-me. 



— 198 — 

Hestava agora o porto da fazenda, o Foiíaigneiro, 
como ultima esperança; e assim foi que, já pre- 
occupado com o tempo que iria perder com algum 
possível desencontro, abastámos os cambarás, depois 
a casa de seu Chico, e, ás 6 horas, o próprio seu 
Chico, que nenhuma noticia deu-nos do Mário. Era o 
diabo, mas, agora só havia um remédio: ir a Co- 
rumbá. A questão é que, não contando pôr os pés em 
Corumbá nem em cidade alguma, estava sem roupa 
civilizada para apresentar-me, principalmente em 
casa dos meus amigos. Emfim, como não havia outro 
remédio, procurei nos meus alforges as mais apura- 
das elegâncias, e preparei-me (que chie!) para ''épa- 
ter" Corumbá. . . 

Approximámo-nos do Ladario, ahi pairámos um 
pouco sol) machinas, e o pessoal da lancha do Ar- 
senal, que atracou ao costado, muito espantado íicou 
com a minha extraordinária apparição. Seguimos 
viagem, e, já viamos o casario da cidade que buscá- 
vamos, quando, estando eu no passadiço, abastámos 
o Mário em uma lancha ladeada por duas chatas, que 
descia o rio. Veio elle ao meu encontro em uma cha- 
lana, e, mal parado que foi o navio, saltei com a mi- 
nha bagagem para a pequena embarcação, seguindo 
o "Brasil" a sua rota. Entre abraços e explicações 
ganhámos a lancha que nos conduziria ao Riozinho 
e que de lá deveria trazer as chatas carregadas de 
l)ois, mas, como i)recisassemos lenha, aportámos ao 
Ladario, onde matei saudades do bom aiuigo Sebas- 
tião Bastos, e de alguns collegas. 

Não ])oderiamos prever que esse caro amigo, 
trabalhador e honesto, leal e prestativo como poucos, 
valente e enérgico como ninguém o era mais, extre- 
moso pae de numerosa prole, dava-nos abraços de 
despedida da vida. Moço, forte, lutando pela \âda, 
cheio de coragem e esperanças, não poderíamos pre- 
ver qne. pouco tempo depois do nosso encontro, ban- 



[\ 




Uma lancha, ao pôr do sol, 
deixa Porto-Esperança 







Enti'e a V. Brazil e a 
lancha do Mário de Barros 




N 

»**• 




:;<-ajS«.v'í. -• -»s -'r-'?a'i 



Riozinho 



O 



didos assalariados por alguns que niuica se atreve- 
ram a enfrental-o, iriam, como foram, roubar essa 
preciosa existência n'uma emboscada covarde e mi- 
serável. Víctimado por um tiro partido de dentro do 
matto que margeia a estrada que liga Ladario a (^'o- 
rumbá, esse mesmo amigo, que muita vez nos pre- 
veniu da imprudência que fazíamos em fazer essa 
travessia á noute, cahiu sem vida e sem poder, ao 
menos, castigar o infame bandido. 

Depois de recebermos apenas quinhentas achas 
de lenha, a custo, por empenho, e caras, partimos, 
tomámos mais lenha um pouco adeante, atracámos 
ainda afim de tomar areia para que o gado não escor- 
regasse nas chatas, e, finalmente, ás 10 da noute, 
fundeávamos na fóz do Riozinho, por onde passá- 
ramos por cerca de 4 da madrugada, quando vínha- 
mos de Porto-Esperança. 

Eu dispimha apenas de trinta dias para fazer 
a caçada e estar de volta ao Eio de Janeiro; já havia 
consumido uma semana, e nem sequer estava ainda 
na fazenda onde deveria caçar. Foi, pois, com prazer 
que soube da intenção de aproveitar a lua, que nascia 
tarde, para subir o Eiozinho. Assim foi, e, ás 2 e 
meia da madrugada, graças ao luar e á enchente, 
começámos a subir aquelle rio que nos recordava 
tanta peripécia. Durante a viagem no Paraguay, o 
Mário me falara n'um lobo que tinham apanhado 
no Riozinho, que fugira e fora novamente capturado, 
e estava destinado a este rabiscador; n'isso tive um 
grande prazer, pois embora se trate de um animal 
da fauna brasileira que existe em relativa abundân- 
cia, conhecido em ]\rmas também com o nome de 
"Guará", ha muita gente que não só ignora, como 
duvida da existência do lobo no Brasil. Esse animal 
é realmente pouco conhecido e diífere muito dos seus 
irmãos europeus, quer pelos hábitos, quer pelo as- 
pecto; geralmente isolados, e só por excepção em 



— 200 ~ 

casal, não apparecem elles como na Europa, em ma- 
tilhas e bandos e, ou por índole, ou por abundância 
de caça, não têm tampouco a ferocidade de que os 
outros são dotados. E', no entretanto, o nosso lobo 
um animal maior, mais forte, e muito mais bello. 
Imagine-se um animal de pello liso e mais longo do 
que curto, amarello queimado (cor de veado ou onça 
parda), focinho, lombo, canellas e cauda pretos, esta 
bem pelluda e embandeirada, orelhas direitas, foci- 
nho muito comprido, um pouco mais alto dos quartos 
posteriores, e bem maior do que qualquer dos nossos 
maiores cães veadeiros, e ter-se-á a ideia do nosso 
lobo. Não sendo feroz, embora, é valente, defende-se 
com energia, e os cães onceiros temem-n'o, como de 
ordinário todos os cães, que só em matilha e estu- 
mados pelos caçadores perseguem o lobo. 



Levantados antes do sói, assistimos o amanhe- 
cer entre as margens do Eiozinho, sempre pittoresco 
e coberto de caça, e além dos patos e da infinidade 
de aves aquáticas que alli pullulam, vimos veados, 
porcos, etc. Antes das 7 horas aportávamos ao Eio- 
zinho, cujo galpão desapparecera para dar lugar a 
um confortável chalet muito bem concebido para o 
local a que se destinava. Construído sobre esteios e 
pilastras, tinha, em baixo, um grande saguão ladri- 
lhado, destinado aos peães, bagagens, etc, emquanto 
a cheia não lhe alcançasse, e, em cima, a uns três 
metros do solo, rodeado por larga e espaçosa va- 
randa assoalhada, quatro aposentos bem arejados e 
todos com venezianas. Era um progresso muito no- 
tável sobre o alpendre que alli deixáramos havia 
pouco mais de quatro annos, maximé se considerás- 
semos as dependências, ainda em construcção, e que 
seriam ligadas por passadiços ao corpo principal já 




f».. 




^ -"-^íSH- 



Chalet do Riozinho 




b 



Carneando no Riozinho 



- 201 — 

quasi todo construído. Esse progresso era resultado 
da animação existente devido a alta do preço do 
gado que, no momento, valia 110$000 por ca- 
beça; ora, quando deixámos o pantanal, em Outu- 
bro de 1914, o gado começava a valer 40$000, e já 
os fazendeiros achavam que o preço animava-os. 
Vem a propósito chamar a attenção para esse movi- 
mento de progresso, contra o qual costuma-se dizer 
que é avesso o nosso sertanejo, sem que se indague 
qual a razão que o faz não progredir; agora, que a 
installação de xarqueadas no rio Paraguay, no pró- 
prio pantanal, portanto, resolvera o problema do 
transporte, e que a guerra concorrera para a alta 
do preço do gado, agora, já o fazendeiro podia pro- 
curar conforto e progresso, que se não adquire ape- 
nas com palavras. 

Ahi no Eiozinho encontrámos alguns vaqueiros, 
velhos conhecidos, pois que outros estavam em Ta- 
rumã. Logo após á nossa chegada carneou-se uma 
rez, começando-se em seguida o embarque do gado, 
que desde a véspera estava preso nas mangueiras, 
onde a cheia lhes punha agua pelos joelhos; esse ser- 
viço é moroso, não só pela sua natureza, como pela 
escolha do gado que então é feita, e por isso só por 
perto das 2 horas haviamos embarcado cento e qua- 
renta cabeças, que logo desceram o Eiozinho, com 
destino a Corumbá. Mais ou menos ás 2 e meia da 
tarde, tendo feito a paradoxal operação a que uma 
vez já alludi, isto é, tendo tirado as botas e arrega- 
çado as calças para montar a cavallo, montámos e 
partimos com destino á casa da fazenda. Logo ao 
partir, tendo visto no campo alagado, bem perto de 
nós, um jacaré, mesmo de cima do cavallo atirei com 
a minha carabininha 22 e, o que não foi surpreza ne- 
nhuma, á vista da respiração do cavallo que impede 
uma boa pontaria, a bala não acertou na cabeça do 
animal que, n'uma rabanada desappareceu ; com a 



— 202 — 

bulha do jacaré, porém, uni enoime jararacussú sa- 
hiu de uma moita, nadando aliás muito airosamente ; 
mais por troca, levei a arma ao rosto e atirei ; a cobra, 
assustada, desenvolveu toda a velocidade (que não é 
pequena) e, n'essa occasião, toda desfavorável, dei 
segundo tiro e matei o jararacussú, já se vê que por 
puro acaso; esse facto teve logo explicação, porém, 
para um vaqueiro que estava perto, que assim se 
exprimiu: "tô sempre dizendo que esse bitcho trahe 
(attralie) a bala". Infelizmente, o que não attrabia 
absolutamente era a extensão que viamos de pan- 
tanal alagado e que, quizessemos ou — não, teríamos 
de atravessar "navegando" a cavallo. Essa "nave- 
gação" é incommoda não só pela morosidade da "em- 
barcação" que não é apropriada, como também 
porque os gravetos, cíipins cortantes e principal- 
mente os espinhos, junto dos quaes muita vez é for- 
çoso passar, maltratam-nos as pernas se, por 
inadvertência, as deixamos de recolher para cim.a 
dos arreios onde é preciso ficar de joelhos. Foi, por- 
tanto, com um justo suspiro de allivio que, após duas 
horas e tanto de caminhada n 'esses alagadiços, 
"atracámos" em terra e conseguimos, já de botas cal- 
çadas, cavalgar á vontade e a trote, pois que, já sendo 
quasi 5 da tarde, estávamos ainda a algumas léguas 
da casa. Como sempre acontece n'essa região privi- 
legiada para o caçador, fomos encontrando, além do 
sem numero de aves, veados, porcos, etc. ; d'esta vez, 
porém, mais do que em nenhuma outra, encontrámos 
muitos bandos de avestruz. Era minha intenção tra- 
zer para o Rio o couro de um grande cachaço, de 
preferencia atordilhado, e como surgisse um em 
nosso caminho, fiz o respectivo despacho do dito 
couro para essa cidade, mas, infelizmente, elle extra- 
viou-se; isto é, teimando em atirar, a bala, de cima 
do cavallo, errei o cachaço, que se incumbiu de con- 







Chatas deixando o retiro do Riozinho 




L 



Tendo tirado as botas montamos a cavallo 



2o;} - 

servar, certamente com miiito prazer, a xida e o 
couro no pantanal de Matto-Grosso. . . 

Os animaes que encontrámos em maior numero 
não eram d'aque]les á busca dos quaes iamos, ou pu- 
déssemos caçar, e, se bem que estivéssemos de sobre- 
aviso e promptos a atirar em caso de aggressão, não 
foi absolutamente agradável a nossa passagem entre 
enormes manadas de gado, onde a quantidade de 
"orelhas" (1) era enorme e nada tranquillizadora, 
pois que alguns eram touros feitos. Emíim, com 
pouco mais de cinco horas de cavalgada ininter- 
rupta, chegámos, eu e o Mário de Barros, ás 7 horas 
e 40 minutos da noute, á casa da bôa e hospitaleira 
fazenda das Pahneiras, onde tão boas caçadas já tí- 
nhamos feito e onde éramos sempre recebidos com 
tanta amabilidade e gentileza pelos fazendeiros, e 
com tanta camaradagem e alegria da peonada. Não 
é preciso dizer que fomos, essa noute, bem cedo para 
o leito e que dormimos profundamente : fazer a longa 
viagem que encetáramos n 20 e ter como epilogo 
cinco horas a cavallo, sob o causticante sói d'aquella 
região, são remédios cuja efficacia garanto, sem 
receio de errar, contra o mais resistente mal de in- 
somnia, mal de que aliás nunca tive tempo de soffrer. 

O dia seguinte, 28, não podia ainda ser dedicado 
á rainha das caçadas, pois que só n'esse dia chega- 
riam os outros vaqueiros e os carros de bois com a 
bagagem; e assim, para não i^erder tempo, sahimos 
muito tarde, eu e o Acylino, ás 7 da manliã, apenas 
com a minha 22, e trouxemos aracuãs, marrecos, 
patos, e um lindo bugio negro, como só o são os de 



(1) Chamam "orelho" o gado que nunca foi ao curral; 
gado bravio, que muitas vezes nunca viu gente. O nome de 
orelha é dado porque todo o gado que vem no rodeio e vae 
ao curral ou mangueira, ainda que não receba a marca da 
fazenda, leva um pique, um corte especial, na orelha. 



— 204 - 

Matto-Grosso, pois que em todos os outros lugares 
que tenho visto esse animal (bugio ou barbado) o 
seu pello é de um amarello muito escuro, ou casta- 
nho claro, mas nunca preto. As 11 horas estávamos 
de volta á casa, carregados de caça sem o menor 
esforço, e com uma grande esperança; durante boa 
parte da manhã ouvíramos urrar um macharrão que 
tencionávamos caçar no dia inmiediato. O re^to do 
dia foi empregado em afiar as zagaias, reunir a ca- 
chorrada. . . e dormir a sesta. 

Depois do reconfortante banho frio das ave- 
marias, e do appetitoso jantar, cedo fomos dormir 
para que também cedo estivéssemos em marcha, no 
dia seguinte. Na manhã de 29, eu, o Mário de Barros, 
e os dous zagaieiros Bernardo e Acylino, montáva- 
mos a cavallo e partíamos, não cedo como projectá- 
ramos, pois que já eram pouco mais de 6 horas. 
"Marujo", um cão baio que só era meu conhecido 
atravez das referencias do Nelson, era agora o ca- 
chorro mestre no qual depositávamos as nossas es- 
peranças, pois que o seu antecessor, "Paletot", im.i 
excellente cão, morrera em seu posto de honra, nas 
caçadas de Setembro do anno anterior, na acuação de 
uma onça fêmea muito zangada. 

Seguidos pela cachorrada que ia solta, salvo 
"Marujo" que ia pela mão de Bernardo, não tínha- 
mos cavalgado dois kilometros quando esse zagaieiro, 
apontando a zagaia para um banhado que nos ficava 
á esquerda, disse: "óie o que está alli". X principio 
custámos, mas depois di\T.ilgámos um quadro que só 
um grande acaso seria capaz de offerecer-nos á vista ; 
era um espectáculo único, inacreditável quasi; como 
inacreditável seria o que se passou e vou narrar, se 
não tivesse as photographias como provas irrefu- 
táveis. O que Bernardo nos mostrava e agora viamos 
bem perto de nós, era a luta de uma sucuiy com um 
jacaré, ou melhor, o final d 'essa luta. Apeei do ca- 



■>^w^.. 





Sucury e jacaré depois de rebocados 
para o campo 



^•iii'j,iL.\nfS».>s,».^ ... --■,■>- 




A bagagem chega á fazenda 




Sucury e jacaré tal como os encontramos 



- 20Õ 

vallo, tomei a minlia inseparável Gòerz 9 X 12, e, 
não querendo entrar n'ag*ua (luxo injustificável, pois 
que instantes depois estaria alagado), photogTaphei, 
um pouco longe, o interessantissimo grupo. Como 
esse gru]30 estivesse em parte immerso n'agua e não 
fosse todo visivel, e como, ainda, por ser muito cedo 
(seriam talvez 6.30), temesse uma ruim photogra- 
pliia, resolvi tentar uma operação que os meus caros 
leitores talvez relegassem para as aventuras de 
Miinckausen, se não existissem as provas pliotogra- 
phicas; ainda assim, eu deveria ter tirado uma pho- 
tograpliia intermediaria entre a do banhado e a do 
campo; mas, quando se está em face do facto real 
e palpável, muito naturalmente não nos occorre a 
ideia de que elle possa ser posto em duvida. 

Mandei o zagaieiro Bernardo segurar a cauda do 
jacaré e puxar o grujoo para o campo, onde o po- 
deria photogTaphar á minha vontade, e esse original 
"reboque" é que poderia ter também photograpliado. 

O jacaré estava praticamente fora de combate, 
pois, apezar de ter a cobra atravessada na bocca, 
não podia apertal-a nem fazer mais um só movi- 
mento^ ao passo que a sucury movia-se, ou por outra, 
movia livremente o pescoço por entre as mandíbulas 
do jacaré, e parecia não ter soffrido um único arra- 
nhão. Convém aqui notar a "intelligencia" com que 
agiu essa sucury, pois que, embora não possamos 
garantir que ella tenha procurado a posição em que 
a encontrámos dentro da bocca do jacaré desde o 
começo da luta, é provável que o tenha feito, a julgar 
pelo seu estado de immunidade; queremos frisar que 
o jacaré, embora fortemente annado de aguçados 
dentes, esses não vão até o fim dos maxillares, dei- 
xando ahi uma zona livre; e era justamente ahi, que, 
evitando caricias pouco amáveis, se refugiara a co- 
bra, provavelmente na occasião de ser acommettida 
pelo jacaré, coitado, que agia em legi/tima, porém 



— 206 — 

improficua defesa. E^nibora possa, e deva, parecer 
que, se não o jacaré, que estava totalmente tolhido 
e não mais em estado de reagir, pelo menos a sucury 
tivesse tido um movimento que demonstrasse revolta 
ou medo; ao contrario d 'isso, não deu provas da me- 
nor inquietação, cousa que também notámos com re- 
lação aos cães, dos quaes um único estava preso; e 
basta reparar na photographia em que íigura o za- 
gaieiro Bernardo, para ver a attitude inteiramente 
despreoccupada dos alludidos cães. 

A quietude do jacaré não carece explicação, a 
da cobra, porém, se me afigura ter sido determinada 
pela "consciência" de que se tentasse desenrolar-se 
do jacaré seria talvez por elle subjugada. 

Não tomámos medida de nenhum dos contendo- 
res, mas calculámos qne o jacaré tivesse mais de me- 
tro e meio, e menos de dous metros ; nada queremos 
adeantar em relação á cobra, pois que seria impos- 
sivel qualquer avaliação á vista do numero de voltas 
que fazia em torno da presa. Tendo photographado 
o tão interessante grupo no campo, — para onde não 
poderia ter ^ándo senão arrastado — (desculpem a 
insistência), deixámol-o no local d'essa ultima pho- 
tographia, e esperávamos vel-o na volta, pois que era 
ahi caminho forçado para casa ; ao regressarmos, po- 
rém, por perto de 1 hora da tarde, não \âmos sequer 
vestígio do que ahi deixámos. Tendo sido arrastados 
uns quatro ou cinco metros, e já estando pratica- 
mente morto o jacaré quando o photographámos, é 
evidente que a sucury carregou novamente a sua 
presa para o banhado, afim de melhor alli devoral-a, 
isto é, eugolil-a. Pouco depois de termos deixado em 
paz os dous inimigos (sem allusão ao tratado de Ver- 
sailles), tivemos que atravessar um rio bem avolu- 
mado pela cheia e que, além de ter ficado muito largo, 
durante grande trecho, bastante profundo, obrigava 
os animaes a atravessal-o quasi n nado, ou seja, como 







o Mário de Barros e a primeira 
Onça da caçada 








â 





autor e a mesma onça 





mm»tmmtmimmmiimmÊmi 










li 



Zagaeiros 




Cavallos valentes 



/^ 



— 207 — 

se diz em Matto-G-rosso, a "bola-pé", o que quer dizer 
que os cavallos mal tocam o fundo com as patas. 
Isso quer dizer, como já perceberam, que pouco 
tempo durou o luxo de não querer molhar-me, quando 
foi occasião de tirar a primeira pliotographia da su- 
cury com o jacaré. Caminhando sempre, achámos 
alguns rastos, mas, como eram muitos os banhados 
formados pela cheia em começo, ha\ia difficuldade, 
e mesmo impossibilidade em seguil-os. Os cães esta- 
vam alegres e corriam d 'aqui para alli, e n 'essas cor- 
rerias sem norte pegaram um lobinho e, depois um 
cattetú. Eu já estava deshabituado do sói ardentis- 
simo do pantanal de Matto-Grosso, e considerando 
que estávamos em fins de Janeiro, fácil será imagi- 
nar que, apezar do meu chapéu de palha, tão gros- 
seiro quanto vasto, sentia a cabeça a arder. Já eram 
quasi 10 e meia, tínhamos as roupas que abrigavam 
as pernas a ellas colladas pela agua dos banhados. 
e tínhamos as roupas que abrigavam o resto do corpo 
a elle colladas pelo copioso suor; mas, apezar do 
forte calor e d 'essa irmanação de "ensopamento" de 
origens diff crentes, tudo esquecemos ao ouvir "Ma- 
rujo" levantar uma onça que, perseguida de perto 
pelo resto da cachorrada, logo deu acuação. Corre- 
mos todos, apeámos, e constatámos que a fera não 
era das mais mansas, pois que dera acuação nó chão. 
Apezar de termos accorrido com presteza, a onça 
conseguiu lograr os cães, mas, logo adeante, nova 
acuação nos enthusiasmou, e d 'esta vez na beira de 
um capão. Approximámo-nos com cuidado, ladeados 
pelos zagaieiros, e, embora o matto não fosse muito 
sujo, custei um pouco a bem distinguir a cabeça do 
macharrão, mas, assim que o consegui, alojei uma 
bala da minha três canos no craneo do "bitcho", e 
foi por excesso de zelo que os zagaieiros utilizaram 
as zagaias. A nossa victima era um macho ainda 
novo, mas em completo desenvolvimento, e senhor de 



— 208 — 

um pello tão perfeito quão lindamente pintado; fei- 
tas, pois, que foram as competentes photographias, 
tirou- se summariamente o couro da onça, tirou-se 
ainda umas costellas de cujo sabor estávamos sau- 
dosos, e talvez ás 11.30 da manhã, já montávamos 
e buscávamos a casa da fazenda. AM chegámos antes 
das 2 da tarde, dando graças pela grande sorte que 
tivéramos, pois que matar uma pintada no primeiro 
dia de caçada já constituia uma felicidade; mas, além 
do feliz encontro da sucury com o jacaré, a acuação 
da onça fora no chão, os cães nada haviam soffrido, o 
couro era lindo e media, apezar de se tratar de um 
macho novo, 2 metros e 70 da ponta do focinho ao 
extremo da cauda. Dormimos uma deliciosa sesta, 
matámos, atirando de dentro de casa, com a 22, al- 
guns papagaios que não deixavam parar fructos no 
pomar, e, tendo assim passado o dia, jantámos, de- 
pois do gostoso banho do cahir da tarde, e fomos dor- 
mir cedo e sonhar com a caçada do outro dia. 

No dia seguinte, 30, tendo o Mário ficado na fa- 
zenda cuidando de serviço, partimos tarde, ás 6 e 
meia, eu e os dous zagaieiros: Bernardo e Acylino. 
A peregrinação pelos campos era agora muito pe- 
nosa e fatigante pelas grandes extensões alagadas, 
e n'esse dia, para que se conseguisse chegar a deter- 
minado ponto, tivemos de atravessar duas vezes o 
rio a que nos referimos na caçada da véspera. 

De uma feita, como o Acylino se afastasse um 
pouco com um cão que lhe pertencia, pareceu-nos 
ouvir para esses lados uma acuação, e vimos o allu- 
dido zagaieiro pôr o cavallo a galope; nós, que está- 
vamos distantes, fizemos o mesmo, procurando obter 
o máximo da velocidade das nossas montarias; em 
meio da corrida, porém, e n'um local em que a ma- 
céga cobria cavallo e cavalleiro, o meu animal roda 
(cahe), e se um pouco mais curto fosse o seu pes- 
coço, certamente teria sabido por cima da cabeça, 




i 



o autor e a onça do páu 





Acelino e Bernardo 



— 209 — 

cousa de que andei muito próximo. Sem perda de 
tempo continuámos a carreira, mas, infelizmente, 
todo o esforço fora empregado em uma illusão. 

Pouco depois de 10 horas os cães, em grande ala- 
rido, encetaram e fizeraju uma linda corrida atravez 
do banhado; nós, com ardor e alegria seguiamos os 
cães, e, justamente ás 10 e meia, estruge os ares 
atroadora acuação. . . de um cachaço. O sói era caus- 
ticante ; o Acylino, depois de termos em vão chamado 
a cachorrada, foi incumbido de acabar com o cachaço 
para que os cães viessem embora, emquanto eu e o 
Bernardo, a passo muito lento, caminhávamos sem 
rumo, e já desanimados de encontrar onça. Estáva- 
mos á beira de um pequeno coricho, á espera do Acy- 
lino para seguirmos juntos, e julgávamos a caçada 
perdida, quando o "Marujo" deu uns latidos; pres- 
támos attenção ao que "dizia" o cachorro mestre, 
demos n'essa direcção alguns passos, e logo perce- 
bemos que "Marujo" estava "dando páu" (acuando 
animal trepado no páu) e como se tratasse de um cão 
que não mentia, corremos ao local, que não distaria 
de nós talvez mais de cem metros, e ahi chegando e 
já encontrando mais uns quatro cães que tinham 
acudido á acuação de "Marujo", vimos uma onça tre- 
pada a uma arvore a beira do capão. 

Esperei que a onça apresentasse a testa em po- 
sição normal á direcção do tiro e, ainda com a maio- 
ria dos cães na acuação do cachaço, alojei uma bala 
entre os olhos da fera, que cahiu fulminada. Era uma 
onça fêmea, muito magra e muito velha, possuidora 
de enormes presas, e que media, da ponta do focinho 
ao extremo da cauda, dous metros e meio. Tirámos 
algumas photographias quasi no local em que cahira 
a nossa victima, tirámos o bello couro, montámos e 
buscámos a casa, com alguma fome e sob um sói terri- 
velmente quente. 

Viagens e Caça<ias '4 



— 210 — 

Emquanto os zagaieiros preparavam o couro e o 
punham na grade, ao lado do que, na véspera, pas- 
sara pelo mesmo processo e seccava n 'outra grade, 
aproveitámos para dormir uma reparadora sesta, da 
qual só sabimos para o banho da bocca da noute. 

Ao jantar, a prosa com o Mário de Barros cor- 
reu, como é fácil imaginar, sobre caçadas, e muito 
commentámos a enorme sorte que então me acompa- 
nhava, pois que, tendo partido do Eio exclusivamente 
para caçar onças no pantanal, nos dous primeiros 
dias tínhamos encontrado e morto duas pintadas, o 
que era positivamente magnifico. Para fazer resaltar 
essa boa estrella, lembrámo-nos, então, que o nosso 
amigo e companheiro Nelson de Mello passara um 
mez n'aquella fazenda, e que, apezar de ser um bom 
caçador, muito resistente e pertinaz, não conseguira 
uma única onça, muito embora sahisse todos os dias 
para o campo. A noute enfarruscára-se, começou a 
chover, e fomos dormir contentes com essa chuva que, 
além de amenizar o calor, iria dar' ensejo para me- 
lhor encontrarmos rasto fresco. No dia seguinte, 
sexta-feira, ultimo dia de Janeiro, í^em o Mário, sahi- 
mos ás 6 horas, muito esperançados com o dia enco- 
berto. Não tínhamos caminhado muito quando os 
cães acuaram um coaty, e, pouco adeante, ao ouvir 
o latir de um d 'esses cães, os queixadas "bateram 
dente e troveja ram" dentro de um capão junto ao 
qual passávamos. Fugindo d'esses perigosos inimi- 
gos capazes de liquidar toda a nossa cachorrada, com 
a máxima presteza mudámos de rumo, chamando e 
carregando comnosco os cães, que aliás deram-se 
pressa em acompanhar-nos ; e esses dous factos 
(acuação do coaty e encontro de queixadas) trou- 
xeram o desanimo aos zagaieiros, como maus pre- 
núncios que diziam ser. Apezar d 'isso, continuámos 
a caminhar, ou melhor, a perambular pelos campos, 
ora visitando uni ca})ão. ora procurando nmn passn- 




Tirando o couro 



h 




o couro engarupado 




Travessia profunda 




— 211 — 

gem d 'agua onde pudéssemos encontrar rasto fresco, 
ora dirigindo os animaes para alguma revoada de 
"urubus verdadeiros", que, muitas vezes, indicam ao 
caçador a existência de uma carniça; e, de facto, 
principalmente quando esses urubus ficam pelas ar- 
vores cobiçando a carniça, mas não ousando sequer 
pousar no chão, então é quasi certo que a onça está, 
ou na própria carniça, ou muito próximo a ella. 

Mas, seja que a catinga do coaty e dos queixadas 
perturbem o faro dos cães, ou seja que o acaso, capri- 
choso como sempre, quizesse corroborar a crendice 
dos zagaieiros, o facto é que, apezar de tennos caval- 
gado até ás 2 e meia da tarde, os cães acuaram cinco 
cachaços, mas nenhuma onça. Como nos acostuma- 
mos facilmente ao que é bom, voltámos aborrecido.s 
com o máu êxito daquelle dia, como se fosse possivel 
ter sempre uma onça á nossa disposição; mas havia 
uma outra cousa que agora nos preoccupava e abor- 
recia : e era que, muito embora a caçada de onça fosse 
fortemente emocionante, o encontro das duas que 
matáramos não nos havia impressionado, embora a 
primeira tivesse sido acuada no chão. De volta á casa, 
passámos o resto do dia como de costume, e cedo fo- 
mos dormir, para que nos refizéssemos das fadigas 
do dia, e para cedo enfrentar a do dia immediato. 

Abrimos o mez de Fevereiro sahindo ás 6 horas, 
ainda sem o Mário, isto é, com os zagaieiros Ber- 
nardo e Acylino, e nos dirigimos para os lados de ura 
local da fazenda conhecido sob o nome de Isolamento. 
Atravessámos um coricho muito profundo e uma 
quantidade de l)anhadões, pois que esse trecho da 
fazenda já estava bastante alagado, quando, talvez 
pelas 8 e meia, á beira de um acuryzal circumdado 
de agua, os cães. de repente, pegaram rasto dentro 
do brejão e saliiram n'uma das mais bellas batidas 
que tenho visto: guiados pelo cachorro mestre, ''Ma- 
mjo". todos os domais cães corriam, nadavam f? la- 



— 212 — 

tiam atra vez do banhado. u'iini entliiisiasmo e n'um 
ardor de arrebatar; e, para quem \^sse de louge, 
daria a impressão de um cardume de toninhas a em- 
polgante corrida dos nossos valorosos cães (1). 

Nós galopando onde a altura d 'agua permittia, 
e caminhando, emfim, o mais depressa que era pos- 
sivel, procurávamos acompanhar os cães, até que, 
depois de cerca de um kilometro de arrebatadora cor- 
rida, n'um lugar de lama e sem vegetação, os cães 
perderam. 

Uma "ponta" de gado, talvez assustada com a 
corrida, parecia ter passado por sobre o rasto do ma- 
charrão, e foi para nós um grande desapontamento 
aquella perdida, quando tão firme e segura ia a ba- 
tida. Começámos a "rastejar", isto é, a procurar 
rasto, e seguindo adeante, visitámos um pequeno ca- 
pão que ficava muito próximo, e logo depois um 
maior, sem resultado algum; resolvemos então voltar 
por outro caminho ao local da perdida, e logo achá- 
mos vários lugares onde a macéga mostrava o espo- 
jado de fresco. 

Com um pouco mais de trabalho e persistência 
os zagaieiros acharam rasto fresquíssimo (minando 
agua) e muito entrecruzado de um casal de onças; 
vimos, em uma ar\'ore isolada, os recentes traços da 
subida d'essas onças ou de uma d'ellas; vimos ainda 
muito rasto em que os cães se atrapalharam, mas não 
achávamos a '"sabida". Estávamos a uns cem metros 
da Unha em que os cães, e nós, tínhamos ^dndo na 
bella e bulhenta batida, e um dos zagaieiros obser- 



(1) Para os leigos, convirá explicar que, além de ter 
a onça uma catinga muito forte, os cães seguem-lhe a pista 
atravez do banhado, graças á impregnação dessa catinga na 
vegetação por entre a qual passou a onça, atravessand"© o 
banhado. 



-^ 218 — 

vou: "só se os bichos foram para lá, nu hora em que 
vínhamos para cá". E accrescentou : "onça é bicho 
que não importa com barulho de gente nem de ca- 
chorro". 

Procurámos mu pouco mais, e, de facto, tudo 
indicava a justeza da observação do zagaieiro. 

Bernardo estumou o "Marujo", e este, depois de 
alguns latidos de incerteza, pegou bem no rasto, le- 
vantou e correu, no que foi seg-uido pela cachorrada, 
reproduzindo-se, de volta, a bella scena da batida 
da vinda. SegTiiamos com enthusiasmo e as mais se- 
guras esperanças aquella corrida, quando, desagra- 
dável surpreza, surge ante nós um coricho largo e 
muito profimdo; não seria possivel perder uma cor- 
rida tão quente, nem procurar fazer uma volta, cer- 
tamente longa, para encontrar uma passagem, pois 
que a acuação não poderia tardar; mas, em taes 
occasiões, como para o chefe em uma batalha, esses 
nem outros obstáculos são causas capazes de arre- 
fecer o animo e impedir o desenrolar da acção. 

Sem poder prever o resultaáo, atirámos os ani- 
maes ao coricho e, felizmente, após terem nadado 
comnosco uma distancia bem menor do que parecia 
necessário, galgámos a outra margem, (C, já mais 
próximos do acuryzal, mas ainda a uns duzentos me- 
tros d'elle, o Acylino deteve o cavallo, franziu a testa, 
e exclamou: "Virge Maria! mas como é brabo esse 
bitcho! Não estão escutando?" 

E só então ouvimos o trovão ! 

As onças, perseguidas, só rosnam e urram 
quando acuadas; pois esse macharrão já rosnava 
antes de qualquer aggressão, e calculávamos o que 
seria essa fera quando acuada pelos cães. Hontem, 
durante a caçada improductiva, eu pensava, com tris- 
teza, que a caçada de onças já não dava a sensação 
que a ella tanto nos attrahia; começava,, porém, a ver 



— 214 — 

que laborava eiii erro. Eu já sabia, por experiência 
própria e involuntária, da qual sahi illeso miraculo- 
samente, o perigo que ha em perseguir um casal de 
onças no momento da procreação, e agora, não "tendo 
duvida sol}re o enfurecimento em que se encontrava 
o macharrão, estávamos seriamente appreliensivos 
com o desfecho que poderia ter a nossa aventura. 

Os cães ainda correram um pouco, e nós, contor- 
nando o acuryzal da beira do qual tinha partido a 
primeira corrida, fomos ao encontro da acuação, que 
estava imminente e que irrompeu logo após. 

A tensão nervosa de que estávamos possuídos 
era das mais fortes, e, ao apearmos apressadamente, 
se eu esqueci de tirar as esporas, um dos zagaieiros 
achou taes difficuldades em desaíivelal-as que resol- 
veu cortar as correias a facão. Os cães, tão conscien- 
tes do perigo quanto nós, mais uivavam do que 
latiam, e esparramados em torno da fera, á distancia, 
arrepiados, urinavam-se de medo, emquanto o ronco 
da fera, dominante e ameaçador, atroava os ares e 
chamava ao combate. Entrámos no acuryzal, baixo 
e sujo, eu armado com a minha três canos, e ladeado 
pelos zagaieiros; logo, porém, foi preciso passar um 
dos zagaieiros para a frente, e, segundos após, o ou- 
tro, ficando eu, portanto, em terceiro e ultimo lugar; 
e avançámos assim ao encontro do nosso inimigo, 
cuja posição não era bem indicada pelos cães que 
estavam muito esparramados, e que já não era tran- 
quillizador, quando a acuação cessou, deixando-nos 
l)erplexos. 

Estávamos em situação bastante critica, uma 
das mais embaraçosas e perigosas n'esse género de 
caçadas, pois, sem que nos fosse possível perceber 
onde estaria a fera, poderia ella saltar sobre nós a 
qualquer instante. Quando uma onça acuada no ohão, 
e maxiraé zangada como. a que perseguíamos, deixa 




Macharrão valente e zangado 




SMMyM 



— 21Õ — 

de rosnar, é signal que procura ludibriar os cães 
para atacar o caçador, de preferencia pelas costas, 
e era precisamente esse o grave caso em que nos 
encontrávamos. 

Em taes circumstancias, como de resto, em ge- 
ral, a zagaia constituo a melhor arma de defesa con- 
tra as onças; eu, porém, além de estar com arma de 
fogo, tinha a peior posição, pois que era o ultimo 
da fila, e d 'isso tinha perfeita consciência. De vagar, 
seguíamos approxiiiiadamente a direcção do ultimo 
urro que ouvíramos, quando um dos zagaieiros, vol- 
tando-se para mim, disse-me, em tom de conselho: 
'^'ommandante, vá "ladeando" os olhos porque esse 
bicho está negaciando a gente!" A tensão de nossos 
ner^'os era extrema; todos os nossos sentidos, como 
para reforçal-os pareciam concentrados na visão e 
na audição, e, sob a pressão d 'essa incerteza e d 'essa 
ameaça, que poderia elfectivar-se e ser fatal de um 
momento para outro, estav^amos um tanto indecisos 
sobre o rumo a tomar, quando um dos cães, o menor 
d'elles, latiu no rasto da fera. Que abençoado latido I 
Que enorme peso sahiu de nossos hombros ! 

O macharrão, de facto, conseguira esgueirar-se 
por entre os cães sem ter por elles sido percebido, 
mas, por causa dos mesmos, ou por outro qualquer 
motivo, não conseguiu vir sol)re nós; e, pouco após 
o latido a que fiz referencia e que, apezar de ter par- 
tido da terra, cahira do céu, já iamos á procura de 
nossos cavallos, quando, a pouco mais de cem metros 
de nós, nova acuação alegrou nossos ouvidos. 
Correndo para lá, atravessámos uma ponta estreita 
do acuryzal, entrámos n'um brejo que me arrancou 
as esporas, e instantes depois chegávamos á orla do 
bamburro onde estrugia a acuação. iV onça escolhera 
um local dos mais sujos, e era n'um emmaranhado de 
cipós, macéga, raizes e galhos seccos que ella agora 



— 216 — 

fazia ouvir os seus rugidos (1) ; e era mister evitar 
que de novo o macliarrão conseguisse lograr os cães. 
Por mais que nos approximassemos, não era possivel 
lobrigar o enorme animal, e, então, um dos zagaiei- 
ros, passando a zagaia para a mão esquerda, sacou 
do facão e foi, emquanto eu e o outro éramos só ouvi- 
dos e olhos, cortando um pouco o matto que nos sepa- 
rava da fera, que já então calara; e, súbito, esse 
zagaieiro, o Acylino, pára o serviço de facão e se- 
greda: "está alli", e aponta. 

O outro zagaieiro, o Bernardo, julgava estar a 
onça muito mais para a direita, e eu, apezar do Acy- 
lino apontar para onde estava o animal, continuando 
a não vel-o, mandei que o Bernardo apontasse para 
onde estaria a cabeça da fera, o que coincidiu com 
um pequeno movimento da mesma, permittindo isso 
que eu conseguisse lobrigal-a entre o bamburro. 
í^ão tivera tempo de bem aperceber-me da posição 
do macliarrão, quando este, n'um salto tão vigoroso, 
quanto rápido, atira-se sobre nós n'um rugir de tro- 
vão. Era lun macharrão em plena pujança, extre- 
mamente forte e bravo, e, repito, não pôde haver 
espectáculo mais emocionante do que ver uma fera, 
de tal corpulência, força e agilidade, a dous metros 
de nós, de pé, com os braços abertos, as garras de 
fora, as enormes presas á mostra, a testa franzida, 
o olhar em fogo, e a grande bocca aberta, de onde 
parte, n'um urro formidável, toda a ameaçadora fe- 
rocidade do rei dos nossos sertões. Em meio do salto 
que deveria fulminar um de nós, a minha bala foi 



(1) Na photographia em que figuro juntamente com o 
znngado macharrão, póde-se, além de avaliar a sua força 
pela largura de seu peito e grossura de seus pulsos, fazer 
ideia da quasi impossibilidade de enxergar qualquer animal 
dentro da vegetação que ahi se vê. 



— 217 — 

apanhar a cabeça do nosso enfurecido inimigo; mas, 
ai de nós se ahi não estivessem os zagaieiros! 

Ao estampido do meu tiro o zagaieiro Bernardo 
cravou a sua zagaia no peito da fera ; mas um grande 
susto, não percebido por nós, lhe estava reservado : 
ao cravar a zagaia, esse zagaieiro ouviu um estalo 
forte e secco, e, embora rápido tivesse sido o susto, 
cuidou que a zagaia se tivesse partido ; esse barulho 
fora produzido, entretanto, por cousa muito diffe- 
rente: é que a nossa zangadíssima onça, ao receber 
a zagaia, mordeu o ferro com tal fúria que partiu 
duas das tão fortes e grandes presas! Depois de tan- 
tas emoções, alojar uma bala na cabeça de uma onça 
que nos salta em cima, não é fazer um tiro propria- 
mente máu; d'ahi, porém, a saber se o projéctil tocou 
o cérebro, vae uma distancia; e foram para nós mo- 
mentos da mais accentuada angustia os que passá- 
mos sem saber se Bernardo tinha dominado a fera, 
pois, tão sujo era o local, que o outro zagaieiro não 
poude prestar auxilio algum, nem eu, tampouco, se- 
cundar o tiro! Felizmente Bernardo tivera a grande 
sorte de acertar no "sangrador", e, dentro de poucos 
instantes e após duas ou três fortes contracções, fin- 
dava para sempre o forte e bravo macharrão que 
tanto trabalho e tantas emoções nos dera. Livres 
d'aquelle nobre inimigo, partimos á busca de nossas 
montadas e começámos a procurar rasto da onça fê- 
mea; estumámos os cães, percorremos aquelle e ou- 
tros capões, apeámos, conjecturámos, formulámos 
hypotheses, esquadrinhámos tudo, mas qual; a ardi- 
losa onça, rindo talvez de nós, taes cousas fez e arran- 
jou que, a nenhum de nós, nem aos cães, foi dado o 
prazer de encontrar-lhe as pegadas. 

Com mais de uma hora de trabalho perdido, re- 
ceiosos de perder o couro do macharrão, voltámos ao 
local onde o havíamos deixado, tirámos as photo- 
graphias que exhibimos, apossámo^nos do couro e 



— 218 — 

parte das costellas da nossa victima, e buscámos a 
casa da fazenda, cheios de contentamento e enthu- 
siasmo, pois que a caçada fora esplendida, e, sem 
duvida, íi mais bella de quantas até então nos fora 
dado fazer. 

Descançámos das fadigas e emoções e, no dia 
seguinte, como tivéssemos de arrumar a bagagem 
para seguir no carro de boi, só sahimos ás 6.30. 
Parecia que a onça que não conseguiramos encontrar 
hontem estava deveras sentida com a perda que 
soffrera, a julgar pelas manifestações que chegaram 
aos nossos ouvidos, isto é, por ter ella urrado du- 
rante toda a noute. Fcmos direito ao local em que a 
haviamos deixado na véspera; os cã«s, porém, logo 
ao passarmos a porteira do Isolamento, junto a um 
capão muito sujo e eircumdado de aguas muito i)ro- 
fundas, arrepiaram-se todos, latiram muito, mas era 
impossível entrar n'esse capão, não só j^elo que íicou 
dito, como pela enorme altura da macéga. E' bem 
possivel que a onça abi estivesse, mas, a não ser que 
os cães a tivessem acuado, não era criterioso aven- 
turarmo-nos atravez de um banhado, que talvez desse 
nado, por entre a macéga que nos tolhia totalmente 
a vista, sujeitos, portanto, a um ataque inopinado e 
sem defesa, e isso tudo para talvez encontrar a onça. 

Fomos adeante, revirámos todo o capão da ca- 
çada da véspera, procurámos em capões próximos, 
fizemos o cpie era possivel fazer para descobrir a 
companheira do macharrão malcreado, mas tudo foi 
em vão. De volta, no mesmo sitio, os cães repetiram 
a scena da vinda, arrepiando-se e latindo muito ; per- 
duravam, porém, as razões que nos obrigaram a se- 
guir adeante, e, continuando no rumo de casa, lá 
chegámos muito cedo, ao meio dia. 

O couro do macharrão que matáramos na vés- 
pera ainda estava no quadro; os outros, porém, já 
d'elle haviam sabido, e aproveitámos o dia para, en- 



— 219 — 

tie outras cousas, tirar a photographia d 'esses três 
couros, que representavam o estupendo resultado de 
apenas cinco dias de caça. 

Certamente muito boa e fructifera continuaria 
a ser a nossa caçada se continuássemos ahi; mas, 
como a fazenda estava em pleno trabalho, e como os 
zagaieiros, o que de ordinário acontece, eram tam- 
bém excellentes peães, não devíamos abusar da bon- 
dade com que nos acolhiam, mantendo esses homens 
fora do ser\nço em que eram elles tão necessários. 

Como fora decidido, pois, deveríamos partir, no 
dia seguinte, para Tarumã; as onças, porém, pare- 
cendo d'isso terem tido conhecimento, punham-nos 
agua na bocca urrando, como fizeram durante todíi 
a noute. 

A o de Fevereiro, ou seja uma semana depois 
de termos aportado ao chalet do Riozinho, partía- 
mos, precedidos do carro de bois, o Mário, eu e o 
zagaieiro Bernardo, com destino a Tarumã, onde de- 
veríamos apartar e entregar setecentas cabeças de 
gado. 

Durante o trajecto pliotographei um curioso ca- 
randá que apresenta a anomalia de possuir doze ga- 
lhos, e, como se essa anomalia não devesse constituir 
a única, cousa digna de menção, um veado matteiro 
apresentou-se em taes condições de passividade que 
foi possível matal-o com um tiro de calibre 22, tendo 
eu para isso apeado do cavallo, sem que tal cousa 
tivesse, de leve, espantado o veado. A' 1 hora da 
tarde chegámos ao pittoresco retiro de Tarumã, 
nome que lhe advém da frondosa arvore junto a qual 
está o rancho, e que ella mesma de rancho serve nas 
noutes quentes e sem chuva; já ahi encontrámos o 
comprador do gado, e com elle estivemos, durante 
todo o resto do dia, apartando gado no curral. 
A' noutinha, antes do jantar, pergimtei por algimia 
"bahia" onde se tomasse banho; e indicaram-me, a 



— 220 — 

uns eem metrotí do rancho, um local de onde po- 
der-se-ia tirar agua, accrescentando que um peão 
iria pôr umas latas d'agua para o meu banho. 

Momentos depois, tendo apanhado a toalha e o 
estojo, dirigi-me para o meu "banheiro", que ficava 
muito próximo da aguada, e ahi verifiquei que essa 
aguada não era mais que um empoçado medindo 
cerca de cincoenta metros por vinte, constituído por 
muito pouco profunda camada de agua de cor verde 
escuro, e onde entravam livremente para beber, ou 
fazer justamente o contrario, bois, cavallos, porcos, 
e toda a sorte de animaes, emfim, que se quizessem 
desalterar. Fiquei na duvida se aquelle banho iria 
limpar-me ou produzir eíTeito opposto, comtudo, 
como eu estava caçando, onde não é possível ter tudo 
quanto se quer, e como tal banho iria, com certeza, 
refrescar-me, tomei-o, e creio que estava muito agi*a- 
davel . 

A' hora do jantar notei que a agua que era ser- 
vida para beber tinha a cor de matte forte, e como 
lembrasse a conveniência de mudarem de fonte, isto 
é, de lugar onde a iam buscar, responderam-me que 
nas redondezas não havia outra agua além d'aquella 
de perto do rancho ; e isso queria simplesmente dizer 
que seriamos forçados a beber agua do empoçado a 
que já fiz referencia . . . Esse caso f az-me lembrar um 
outro, passado commigo e com meu saudoso irmão, 
não muito distante de S. Gonçalo de Sapucahy, e que 
vou aqui tentar narrar. Tínhamos ido, a cavallo, via- 
jando e caçando codornas, de Cambuquira a S. Gon- 
çalo, e d'alli, na intenção de caçar lobos e patos, nos 
dirigimos, para os lados de "Ouro-Falla", a uma fa- 
zenda sita ás margens do rio Sapucahy, 

Para mim, como para meu irmão — de quem, com 
esta narrativa, tanto sinto augmentarem as sauda- 
des — era um grande prazer, logo cedo, tomar banho 



=1 





ta 



Apartando gado 



- 221 — 

n 'alguma cachoeira, e, na falta d'esta, ua queda de 
uma "roda d 'agua" ou em algum moinho; e assim 
sendo, logo indagámos onde poderíamos tomar o 
nosso banho, na manhã seguinte. O bondoso fazen- 
deiro, que tinha vindo comnosco de S. Gonçalo, indi- 
cou-nos um "bicame" por onde corria agua muito 
limpida, agua que seguia, depois, uma calha de ma- 
deira. Na manhã que se seguiu ao nosso primeiro 
pernoite, como nas outras, lá fomos gozar as delicias 
d'aquella agua fria; mas, como bons caçadores que 
éramos, também pela manhã nos libertávamos de to- 
das as exigências da natureza. Ora, succede que, na 
roça, e principalmente a esse tempo (já lá se vão 
tantos annos!) não se encontrava uma banheira, nem 
mesmo cousas de maior necessidade; era, e muitas 
vezes ainda é, ao ar livre e em posição pouco com- 
moda que tudo se fazia ou faz, e, n'essa fazenda em 
que estávamos, aproveitávamos nós aquella corrente 
d 'agua para substituir as installações sanitárias que 
não existiam. Creio que apenas três ou quatro dias 
nos demorámos n'essa fazenda, mas, na ultima re- 
feição que ahi faziamos, elogiando entre outras cou- 
sas a agua que era excellente, perguntámos d 'onde 
ella vinha: "Vem alli d'aquelle bicame". 

E, oh desapontamento! apontaram ])ara o bi- 
came onde nos mandaram tomar banho . . . 

Para tornar mais supportavel, ou antes, menos 
insupportavel a agua potável de Tarumã, comecei a 
utilizar o meu filtro de campo ; com cinco minutos de 
funcciouamento, porém, estava elle totalmente entu- 
pido, e era preciso escoval-o para fazel-o novamente 
funccionar. Aliás o resultado da passagem da agua 
atravez do carvão não era dos mais brilhantes, pois 
que o máximo conseguido foi transformar a cor da 
agua, de matte forte para fracx). 



222 

Não ficou n'isso, como não ficará no caso que ora 
enceto, o complicado problema cie adaptação á vida 
rude do retiro de Tarumã: 

Como disse, a dormida d 'esse retiro fazia-se, 
muitas vezes, em redes estendidas sob a frondosa 
copa da bella tarumã; e como creio já ter dito alhu- 
res, os mosquiteiros de rede, no pantanal de Matto- 
Grosso, são feitos de algodãozinho, o que lhe dá, ao 
par do inconveniente do calor e fraca areação, a van- 
tagem de abrigar contra o sereno, chuva fraca, ou 
cousas semelhantes. Nós estávamos na noute de 3 
para 4 de Fevereiro e, portanto, em pleno e terrível 
calor, a dormida fora do rancho impunha-se, mas 
uma difficuldade totalmente inesperada, e mesmo 
nunca imaginada, surgia para mim: o meu mosqui- 
teiro, para que não me faltasse ar e sentisse menos 
calor, era de filó com malhas muito finas para impe- 
dir a entrada do mais peciuenino mosquito; aconte- 
cia, porém, que, alli em Tarumã, os mq^quiteiros não 
eram usados propriamente contra os mosquitos, e 
sim contra os morcegos. Mas, afinal, que inconve- 
niente haveria em utilizar um mosquiteiro de filó 
contra os morcegos? E' que, naturalmente, estão 
suppondo que n defesa seria contra íi possível 
aggressão de t<ies morcegos; entretanto, a verdade 
é que precisávamos ficar ao abrigo não dos morcegos 
propriamente, mas sim do que provinha d 'esses chi- 
rópteros. De facto, a quantidade de morcegos sendo 
ahi extraordinária, torua-se necessário uma prote- 
cção qualquer contra as suas dejecções, cabidas como 
pingos negros de nauseante chuva. 

Emfim, tendo estendido pannos sobre o meu mos- 
quiteiro, do]'mimos em seguida; mas estava escripto 
que o nosso socego não seria grande nem duradouro: 
Tarde da noute, talvez ás 11 e tanto ou meia noute, 
começou a trovejar; e se isso poderia inquietar-nos 
pela chuva que ])rovavelmente cahirin e obrigaria á 



— 223 — 

fugida, para o rancho, muito mais nos preoccupava 
um possivel "estouro da boiada". Realmente, a uns 
quarenta metros da beila tarumã estavam os curraes 
onde, n'essa noute, aebavam-se encurraladas mais de 
mil cabeças de gado; se aquella massa se espantasse 
e arrombasse o curral — o que é commum — e se a 
sua cega carreira tomasse a direcção do nosso acam- 
pamento, ai dos vinte e muitos ou trinta homens que 
alli estávamos. Logo ao começarem os trovões e os 
relâmpagos o gado deu signal de inquietação, e a 
cada ronco de trovão correspondia á característica 
trovoada surda jDroduzida pelos milhares de patas 
dos bois que procuravam correr, e que faziam, ao 
mesmo tempo, um outro barulho especial, constituído 
pelo choque dos chifres; todos nós viamos o ])erigo 
que representavam aquelles rumores, perigo que, 
quando não representasse o nosso anniquilamento, 
importaria na inutilização do trabalho que ha^àa 
dado o conseguir ahi reunir aquelle numero de ca- 
beças, penoso traballio que seria forçoso recomeçar, 
se a boiada estourasse. Cousa interessante, o prin- 
cipal calmante ])ara esse pânico é o assobio; e todos 
nós encetámos, em i)lena noute escura, um origina- 
lissimo concerto de assobios suaves e prolongados. 
Dentro em pouco ouvimos as palmas cjue nós, os ar- 
tistas, tínhamos merecido; essas palmas eram repre- 
sentadas pelo ruido das grossas bátegas de chuva 
sobre a fronde do nosso abrigo, e antes que o agua- 
ceiro de todo nos encharcasse, corremos para o ran- 
cho. E fosse o effeito do calmante representado pelos 
assobios, fosse pelo aguaceiro, ou fosse pelas duas 
cousas, o caso é que a boiada, felizmente, tornou á 
tranquillidade. As 4 e meia já estávamos de pé. pois 
u'esse dia o trabalho iria ser grande, e todos nós 
tomaríamos parte n'elie. 

Eu creio ter avisado que a original necessidade 
de abrigo (>on1r;i a descarga d 'aquelles pequenos 



— 224 — 

aeroplanos nocturnos — que eram os morcegos — 
não constituía a ultima das dificuldades a vencer 
para a completa adaptação á vida rude de Tarumã; 
tenho agora, porém, sérios receios em abordar a sur- 
presa que nos aguardava a manhã ; maximé já tendo 
feito referencia ao que nos succedeu nas margens do 
Sapucahy. 

Já tínhamos estado em uma fazenda onde o ser- 
viço de esgoto era substituído pela voracidade dos 
porcos; todos aquelles que têm vivido ou estado na 
roça sabem quanto é commum o acompanhamento de 
porcos para alguém que procura, no campo, um lugar 
escuso onde não pretende ficar de pé. . . e ha mesmo 
quem tenha sido atirado ao chão pela fuçada de um 
porco mais atrevido cautelosamente chegado pelas 
costas do infeliz. Pois bem, em Tarumã, essas con- 
tingências naturaes eram de tal modo perturbadas 
não pelos porcos, mas pelos urubus, era tal a perse- 
guição por elle exercida, que se tornara necessário o 
munir-se de uma vara para afugental-os ! 

O serviço d 'esse dia, e ao qual já fiz referencia, 
seria conduzir as setecentas cabeças que já estavam 
apartadas ; assim, muito cedo soltou-se a boiada, que 
ia sendo por nós cercada á medida que sahia do 
curral: ora era um novilho mais arisco que tresma- 
Ihava e era perseguido e reconduzido á manada pelos 
cavalleiros; ora uma pequena ponta de seis ou oito 
cabeças que disparava e forçava a perseguil-as dous 
ou três peães; até que, emfim, fora dos curraes toda 
a boiada, foi ella mantida em rodeio parçido para que 
pastasse um pouco, findo o que começámos a tocar 
essa boiada. No curral tinham sido apartadas as ca- 
beças que deveriam constituir a boiada, comtudo, o 
comprador tinha o direito, até que elle só com seus 
peães a conduzisse, de rejeitar uma ou outra rez que 
não julgasse boa; e sendo assim, depois de mandar 
apartar, creio que duas rezes, resolveu também re- 



— 225 — 

fugar um garrote que, apezar de bonito e gordo, era 
bravo e endiabrado, já dera muito trabalho no curral, 
e agora estava aborrecendo e perturbando a marcha 
da boiada : três vaqueiros apartaram o garrote atre- 
vido e, para aproveitar a occasião, um dos peães la- 
çou, outro pealou e o outro transformou o garrote 
em novilho, findo o que deixaram-n'o quieto e, a ga- 
lope, retomaram seus postos. 

Chegados ao limite da fazenda entregámos a 
boiada e, tendo o Mário cedido ainda alguns peães 
para auxiliar o comprador até a margem do Para- 
guay, dirigimo-nos para o retiro d 'onde viéramos, 
acompanhados de outros peães. 

Quando nos approximavamos do local onde dei- 
xáramos o ex-garrote, talvez porque montássemos, 
n'essa occasião, os melhores cavallos da fazenda, 
estávamos muito adeantados sobre os vaqueiros e 
d'elles distanciados talvez mais de kilometro; o 
recem-novilho olhava-nos, provavelmente com raiva 
do género humano, de que éramos por infelicidade 
então representantes, e o Mário, bem conhecedor da 
"psychologia^^ bovina, olhou para o animal e dis- 
se-me: "com aquelle é só convidar que elle parte so- 
bre nós". 

Palavras não eram ditas. . . e, mesmo sem con- 
vite, o bruto, que estaria a cem ou cento e poucos me- 
tros distante de nós, disparou em nossa direcção; 
rápidos voltámos os nossos animaes e corremos fu- 
gindo á sanha vingativa, mas. embora a mira não 
fosse possível attribuir a culpa do que fizeram ao 
coitado, foi precisamente contra mim que se voltou 
a sua fúria, que ahi com todo o cabimento pôde cha^ 
mar-se de cega, vista sob qualquer aspecto. As espo- 
ras procuraram transformar em árabe o meu cavallo 
crioulo, mas, vendo que a fúria do ex-garrote fazia-o 
correr mais do que o cavallo, puxei o meu revólver, 
ao mesmo tempo que procurava alcançar um pequeno 

Viagens e Caçadas 'S 



— 226 — 

grupo de carandás, rodeando o qual procuraria en- 
ganar o meu perseguidor; alcancei, felizmente, mas 
não sem algum susto, a moita de palmeiras, conse- 
guindo ficar do lado opposto ao meu inimigo, e, de 
frente voltada para elle, esperava o rompimento da 
indecisão para correr novamente, mas já tendo dado 
algum fôlego ao meu cavallo. Os peães, porém, que 
de longe viram a scena, accorreram ao local e, como 
eram alguns, lograram o caipora e deram-me liber- 
dade. 

Continuámos o nosso caminho e, como tivésse- 
mos visto um pequeno empoçado, que não teria talvez 
quinhentos litros d 'agua, mas cujo liquido, á vista do 
que utilizávamos, poderia considerar-se crj^stallinò, 
tomámos nota do local para mandar, como mandá- 
mos, ahi buscar agua para beber. 

Chegados a Tarumã, empregámos o resto do dia 
em pequenos arranjos e preparativos para a caçada 
do dia seguinte, e depois do banho da tardinha e do 
jantar, cedo estávamos adormecendo ao som da gaita 
de fole, d 'alguma canção de caboclo e do suave ru- 
mor das folhas verdes da virente tarumã agitadas 
pela brisa. 

No dia seguinte, 5, eu, o Mário e os zagaieiros 
Bernardo e Acylino, ás 6 horas da manhã, partimos 
com a cachorrada para o local denominado "Forno", 
onde, segundo era corrente, andava a fazer diabruras 
um bello macharrão. 

Cavalgávamos pelo campo, e seriam talvez 8 ho- 
ras da manhã, quando um perfume muito agradável, 
embora um pouco activo, espalhado no ar, chamou a 
nossa attenção; era, segundo informavam os zagaiei- 
ros, um "ariticum" que estava maduro, e como 
accrescentassem tratar-se de fructo muito saboroso, 
puzemo-nos á cata do ariticum, que não tardou a ser 
encontrado pelos nossos narizes. De posse do ari- 
ticum, verificámos que os tatus também apreciam a 




?»*»*♦. _:«^mft,m^mmv j«*í«««*m«<^-" 



ris^**^ 



^ 



.<«^!A «^i^« ^'2 -i_nr «^ ^K 



iiiMifiii 




Rodeio 



1^ 



^wl)«riiÍtelMÉ 








A' caminho da caçada 



— 227 — 

perfumosa frueta agreste, pois que quasi metade da 
mesma já tinha sido por elles comida. Um facão fez, 
á Salomão, a separação da nossa parte d'aquella que 
cabia ao tatu, e depois de saboreado o que nos tocara, 
continuámos a nossa perambulação. Cerca de uma 
liora depois d 'esse incidente, os cães correram um 
animal que, devido a estar a macéga, muito alta, 
custámos a perceber que era um tamanduá-bandeira, 
€ esperávamos ouvil-o bufar na acuação que deveria 
ser immediata, pois que o animal dirigia-se para um 
pequeno capão, quando, com enorme surpreza, 
vimol-o atravessar esse capão e continuar pelo 
campo ; corri, então, a cercal-o e, com um tiro no co- 
ração fulminei o grande desdentado. Approximá- 
mo-nos da victima para nos apossarmos do seu bello 
couro, quando segunda surpreza que explicava a pri- 
meira surgiu ante nós: o tamanduá, quando o atirei, 
levava a grande cauda, que lhe dá o nome de ban- 
deira, empennachada por sobre o dorso, e só agora 
"\aamos que essa cauda encobria um filhote. 

Com grande custo tirámos o pequeno tamanduá 
das costas da nossa presa e demos-lhe liberdade, cer- 
tos de que poderia elle viver por si, pois que se tra- 
tava de um filhote de muito grandes dimensões. 

Por mais que rebuscássemos um rasto com os 
cães, ou uma carniça com a indicação dos urubus, 
tendo baldado os nossos esforços, resolvemos, por 
perto de 10 horas, continuar a procura, mas tratando 
de nos approximar do retiro; e assim procedendo, 
passávamos, meia hora depois, por junto de um 
capão, quando, tendo os cães latido de modo cara- 
cterístico, e tendo nós ouvido bulha no capão, esta- 
cámos nossas montadas, e logo vimos uma onça parda 
trepar a uma arvore na orla do mesmo capão. Como 
se tratasse de onça parda, os zagaieiros não fizeram, 
sequer, menção de approximar-se;e atirada que foi 



— 228 — 

por mim a onça, verificámos o seu muito pequeno ta- 
manho. 

Mal haviamos montado e logo ouvimos acuaçãa. 
no meio do capão ; e como a oncinha morta estivesse, 
talvez, acompanhada pela respectiva progenitora, 
imaginámos que essa fosse a que então acuavam os 
cães. Corremos para o local da acuação, e lá ainda 
não chegáramos, quando alguns cães latiam empo- 
leirando outra onça; e chegando ao local para onde 
nos dirigíamos, deparámos com outra oncinha, que 
teve a sorte da primeira. Dirigimo-nos em seguida 
para a terceira acuação, certos, d 'esta vez, de que 
seria a mãe das oncinhas, quando ouvimos dous tiros 
de revólver, de um dos zagaieiros; forçámos mais o 
passo e, chegando emfim ao local da terceira acuaçaa 
e dos tiros, encontrámos, tal como não prevíamos, 
uma terceira oncinha, que veio juntar-se ás primeiras 
e permittir a photographia que tiramos. 

Continuando no propósito de trazer ao Rio, para 
que se fizesse uma ideia do tamanho de um cachaço 
e da espessura de "seu couro no pescoço e espáduas, 
era minha intenção atirar um d 'esses animaes, para 
trazer o couro ; e como estivesse marcada para o dia 
seguinte a nossa partida de Tarumã, vinha agora 
pensando em executar esse projecto, embora o meu 
physico protestasse contra esse ou qualquer outro 
projecto, pois que, subitamente, começava a não sen- 
tir-me bem. Continuávamos a viagem e, tal como se 
fosse encommendado, avistámos um enorme cachaço, 
isolado, a uns cento e cincoenta metros ãe distancia; 
os cães, assim que o perceberam, correram para elle, 
e querendo aproveitar a pequena marcha que levava 
o cachaço, marcha que seria accelerada com a appro- 
ximação dos cães, deixei partir o meu tiro. Com esse 
tiro e a perseguição dos cães o cachaço desenvolveu 
a velocidade máxima e, no meio d 'essa carreira, alve- 
jei-o novamente; o animal não se deteve e, como se 



— 229 — 

dirigisse para um capão, os zagaieiros galoparam 
para lá, na intenção de defender e salvar os cães. 
E foi bom, porque, enfurecido com o ferimento e a 
perseguição dos cães, o cachaço, já dentro do capão, 
fizera frente a estes e, graças á agilidade e fiimeza 
de golpe do zagaieiro Bernardo, é que não perdemos 
um dos nossos bons e valentes auxiliares sob as pre- 
sas do atrevido cachaço. Continuámos a nossa rota 
para Tarumã, sentindo-me peiorar de momento a mo- 
mento, pois já não era muito fácil manter-me a ca- 
vallo, devido ás tonteiras que tinha. 

A minha saúde, felizmente sempre boa, nunca 
fora perturbada por máu funccionamento de órgão 
algum, e salvo uma pneumonia apanhada em Parana- 
guá por falta de abrigo, chuva, e repentina mudança 
de temperatura, uma congestão pulmonar no Es- 
treito de Magalhães e duas doses de palustre adqui- 
ridas em caçadas de patos na baixada fluminense, 
tenho sempre usado, e talvez abusado, da minha re- 
sistência physica sem nenhuma consequência des- 
agradável. Estava agora, além de aborrecido com os 
symptomas desagradáveis de tonteiras, náuseas e 
asthenia, preoccupado com o que poderia ter deter- 
minado esse estado mórbido. 

O epilogo rápido e em extremo prosaico d 'esse 
caso veio, além do allivio de males e preoccupações, 
trazer á memoria o que tínhamos ingerido pela ma- 
nhã, e ensinar que, sob pena de repetir idêntica per- 
turbação, não se deve tomar leite e, pouco depois, 
comer ariticum. . . 

Como a nossa bagagem, da qual faziam parte os 
couros, devesse partir muito cedo, no dia seguinte, 
para o Riozinho, tratámos de arrumal-a; e como 
também cedo devêssemos partir, cedo tratámos de 
dormir. 

Ás 4 e meia da manhã de 6 de Fevereiro partia 
para o retiro do Riozinho o carro de bois com a nossa 



— 230 — 

bagagem e trophéiis, e ás 6 horas, depois de lauçar- 
mos um olhar já saudoso á frondosa tarumã que dá 
nome ao retiro, montámos a cavallo e partimos, com 
o mesmo destino do carro de bois, eu, o Mário de 
Barros e o zagaieiro Bernardo. 

Não havíamos caminhado muito, quando, tendo 
um coaty surgido á nossa frente, foi elle victima de 
um projéctil da minha 22; d'ahi por deante, porém, 
não mais atirámos, talvez em razão da abundância 
que enfara, ou, mais provavelmente, porque a volta 
de uma caçada envolve sempre a alma do caçador 
n'um ambiente de vaga tristeza, onde a emergente 
saudade deixaria ver atravez de seu véu, se o levan- 
tassem, a preoceupação e o sentimento de não ser 
possível, — quem o sabei — repetir no resto da vida 
aquellas emoções fortes e deliciosas. 

Hora e meia após a nossa partida, como esti- 
véssemos novamente em presença do grande alagado, 
descalçámos as botas para "descalçar aquella bota", 
que outra cousa não era a morosa e nada commoda 
travessia a que já fizemos referencia. Com duas ho- 
ras justas de viagem semi-amphibia, chegámos ao 
porto do Eiozinho, onde, depois de almoçar um pato 
bravo e accommodar a bagagem em uma canoa, em- 
barcámos, com mais um remador, em outra e, ás 11 
e meia, começámos a descer o Riozinho, em demanda 
do Paraguay e do porto da Manga, onde nos deveria 
tomar o "Brasil" e conduzir a Porto Esperança. 
Descíamos tranquilamente o rio, com a arma prom- 
pta para derrubar um pato que se dispuzesse a variar 
o "menu da matula", mas, porque a hora não fosse 
propicia, ou porque propicia não nos fosse a sorte, 
não houve meio de atirar, e nem mesmo de avistar a 
gostosa peça; como, porém, um bello tuyúyú viesse, 
em certo momento, passar por cima da nossa canoa, 
derrubámol-o para trazer o enorme bico e algumas 
pennas como trophéu. 



— 231 — 

Mais ou menos pelas 2 horas chegámos, emfim, 
a Manga, onde estávamos longe de imaginar qne iria- 
mos ainda encontrar o comprador das setecentas ca- 
beças de gado que nos havia deixado na manhã de 4. 

Pobre homem: com a roupa em tiras, fatigado, 
sujo, quasi se dormir, mal alimentado, e diriamos en- 
velhecido, esse pobre homem lutava ininterrompida- 
mente desde que nos despedimos; ao fazer a boiada 
atravessar o Paraguay, mais de quarenta cabeças 
tinham refugado e conseguido escai)ar-se; algumas 
teriam retomado o rumo de Tarumã, nas Palmeiras, 
e estariam, provavelmente, na divisa com essa fa- 
zenda; outras, porém, constituindo a maior parte, 
estavam refugiadas n'um extenso espinheiral que 
n'essa zona margeia o Paraguay, e era ahi que, arros- 
tando os acerados espinhos, era preciso procurar, 
laçar e trazer á força esse gado, uma rez de cada vez, 
já se vê, e com que trabalho, com que luta, com que 
fadiga ! E não cessava ahi o trabalho : ao cahir da 
tarde, assistimos a chegada de dous vaqueiros que, 
em farrapos e arranhados, traziam, a cavallo, preso 
aos extremos de seus respectivos laços, um recalci- 
trante novilho; uma vez este junto á barranca, três 
homens tiraram as roupas (que aliás pouco lhes co- 
bria a nudez), dous outros saltaram em uma canoa, 
e estes procurando rebocar o novilho, e aquelles im- 
primindo-lhe direcção e fustigando-o, gastaram 
grande tempo e energia para, já noitinha, conseguir 
o que almejavam. 

Mal acabáramos de assistir a esse espectáculo 
que tanto nos fizera lembrar as palavras de Roose- 
velt sobre a energia do nosso caboclo, quando, o boia- 
deiro, cujo nom.e sinto ter esquecido, correndo como 
louco, para uma canoa e fez remar a toda força para 
atravessar o rio. Já tereis a explicação, que a nós 
também só veio depois de notarmos o movimento 
quasi desatinado do boiadeiro: Um navio argentino 



— 232 — 

descia o rio em demanda de Assumpção, e ao passar 
pela Manga, ou melhor, um pouquinho antes, apitou, 
pois que alli, ás vezes, embarcam carga ou passa- 
geiros; a nós teria passado despercebido o que então 
notávamos, se não fora o movimento do pobre boia- 
deiro, mas, agora, na outra margem do rio, a uns 
cem metros d'ella, conseguiamos ainda ver elevar-se 
uma grande columna de pó como a fumaça de um 
incêndio, e sentiamos chegar ao ouvido, no silencio 
da solidão, um abafado rumor de trovoada longin- 
qua, rumor já nosso conhecido e produzido pelo gado 
assustado dentro do curral. 

Fora o receio, bem justificado, do estouro da 
boiada que fizera o seu conductor correr e atravessar 
o rio. 

Já tinhamos jantado a nossa "matula" e, como 
a noute fosse envelhecendo sem que apparecesse o 
nosso navio, tirámos a rede e respctivo mosquiteiro 
e dormimos. 

Só depois de 1 da madrugada chegou o "Brasil"; 
despeclimo-nos do Pantaleão e do Bernardo, demos 
um apertado, longo abraço cheio de amizade e gra- 
tidão ao bom amigo Mário de Barros, embarcámos 
e partimos, ás 2 horas da madrugada, rio a baixo. 

Ás 6 da manhã de 7 chegávamos a Porto Espe- 
rança e tomávamos o mais incommodo, sujo e infame 
wagon existente no mundo; n'elle deveríamos fazer 
doze e meia horas de viagem, e era com tristeza que 
enfrentávamos esse supplicio; a sorte, porém (a 
sorte que nos desculpe a largura das costas), decidiu 
que, além de mimosear-nos com uma poeirada insup- 
portavel, deveria fazer com que essa viagem durasse 
dezeseis horas, pois que só ás 10 da noute, esfomea- 
dos e sujos, chegámos a Campo Grande, de onde de- 
veríamos partir ás 4 horas da manhã seguinte. 

Fazia parte do meu programma de volta, como 
tivesse de perder um dia em Três Lagoas, empregar 



— 233 — 

esse dia caçando perdizes na fazenda do meu amigo 
Victorino Monteiro; á vista, porém, de mna série de 
desencontros, resolvi prescindir d 'essa caçada e, par- 
tindo de Campo Grande ás 4 horas e 15 minutos da 
manhã de 8, chegámos, dentro do horário (oh 
successo), com quinze horas de viagem, ás 7 da noute, 
portanto, a Três Lagoas. 

Como não houvesse outro remédio, interrompe- 
mos ahi a viagem, e n'essa cidade passámos todo o 
Domingo, que foi empregado em arejar os couros de 
onça, fazer uma arrumação melhor na bagagem, etc. 

Havia muito tempo que chovia abundantemente 
e, como provavelmente estão ainda lembrados, cho- 
veu durante toda a nossa viagem do Eio a Porto Es- 
perança, e já era grande a cheia do Paraná quando 
o atravessámos em demanda de Matto-Grosso. 
Agora, de volta, dezeseis dias após, como tivessem 
continuado as chuvas, a cheia teria attingido propor- 
ções nunca vistas, e havia sérias preoccupações sobre 
a travessia, d 'esse rio, que talvez não fosse mais pos- 
sivel. Já tinham mudado por diversas vezes o local 
da atracação do rebocador na margem paulista, e, 
na véspera, para tão longe fora essa mudança que a 
viagem de travessia durou duas horas. Foi, pois, sob 
a desagradável ameaça de termos de ficar presos em 
Matto-Grosso e, por causa do rio, não virmos ao Rio, 
que fomos dormir para aguardar os acontecimentos. 

No dia seguinte, 10, despertámos n'um verda- 
deiro diluvio; a grande praça em que fica o hotel em 
que estávamos, e no lado opposto do qual fica a es- 
tação da E. de Perro, estava transformado em verda- 
deiro banhado ; e foi sob pesadíssima chuva e enchar- 
cando os pés na lama, que nos dirigimos para o trem, 
sem que soubéssemos se tal sacrifício teria a sua re- 
compensa, pois que não sabíamos se poderíamos ou 
não seguir viagem. Emfim, com grande atrazo, par- 
tiu o trem, sem que ainda soubéssemos se a travessia 



— 234 — 

do Paraná seria ou não realizada. Chegados á bar- 
ranca, ou ás proximidades d'ella, começámos por 
atravessar uma série de carros vasios que serviam 
de ponte improvisada, depois, por turmas de quatro 
a seis passageiros, saltávamos para um pequeno 
troly de linha que navegava em montanha russa, até 
que, chegando a um local mais profundo do alagado 
e ahi perdendo a velocidade adquirida, era esse troly 
empurrado por alguns homens que, com agua pela 
cintura, faziam-o chegar até um ponto enlameado 
mas não alagado, local em que saltávamos para, de- 
pois de uma caminhada a pé dentro de um lamaçal, 
attingir, depois de subir uma prancha de madeira, 
afinal (uff !) o rebocador. Não precisa dizer que para 
transportar todos os passageiros, que não eram pou- 
cos e entre os quaes algumas senhoras, foi preciso 
muito tempo ; e assim é que, só duas horas depois de 
iniciada a manobra, deixávamos Matto-Grosso e a 
margem direita do rio Paraná, para chegarmos uns 
quarenta minutos mais cedo á outra margem. 

O pequeno espaço de tempo despendido na tra- 
vessia, o que constituiu para todos uma agradabi- 
líssima surpreza, foi devido a terem mudado ainda 
uma vez o ponto de atracação na margem esquerda, 
ou paulista, d 'essa vez, porém, para quasi em frente 
ao ponto de partida na outra margem, que elle ficava, 
ainda com vantagem para nós, apenas um pouco á 
montante. 

Infelizmente, nem todas as surprezas d 'esse dia 
deveriam ser tão agradáveis quanto a causada pela 
bôa travessia: 

A estação de Itapura fica a poucos kilometros da 
barranca; e é ahi que, n'uma casa tosca e única, é 
servido o almoço previamente encommendado de 
Três Lagoas, de accordo com o numero de passagei- 
ros. Sendo a mesa d 'esse arremedo de hotel muito 
pequena, é preciso esperar que uns terminem a re- 



— 235 — 

feição para que outros a façam, o que é sobremodo 
iueommoclo; e assim sendo, quem já sabe d'esse 
facto, dá-se pressa em tomar lugar na referida mesa. 
N'esse dia, a mim e mais seis ou oito passageiros 
que fomos os primeiros a chegar, serviram o almoço, 
qiie aliás já encontrámos á mesa, e como era natural, 
demo-nos pressa em terminal-o para ceder lugar aos 
demais. Qual não foi, porém, a nossa surpreza e o 
eiiorme desapontamento dos que esperavam, ao ou- 
viimos a declaração de que não liavia mais nada para 
comer! Podem crer os caros leitores que, apezar da 
fome que trazíamos, não comemos; não comemos, 
nem seriamos capazes de comer, o almoço destinado 
a quarenta ou cincoenta pessoas; não; a razão era 
outra e, como hão de ver, foi o rio quem furtou o 
almoço dos meus infelizes companheiros. 

Como disse antes, é preciso telegraphar de Três 
Lagoas dizendo o numero de pessoas que vão almo- 
çar em Itapura, para que ahi essas pessoas encon- 
trem almoço; o encarregado d 'esse serviço fez o que 
era de seu dever na estação da partida; mas, como 
o rio, muito alto, tivesse arrebatado o fio telegra- 
phico, arrebatou também o almoço, pois que o tele- 
gramma não foi recebido. 

O que é mais cómico, porém, é que os donos do 
tal hotel, e alguns empregados que se encarregam de 
transportar a bagagem na travessia do rio, tiveram 
também de jejuar, pois que o almoço que comemos a 
elles estava destinado. 

A' noute chegámos a Araçatuba, e é provável 
que os famintos tivessem desforrado no jantar o que 
perderam no almoço. 

As 6 horas da manhã do dia immediato deixá- 
vamos Araçatuba; almoçámos sem riscos e até muito 
bem em Presidente Penna, e ás 4.30 da tarde chegá- 
vamos á florescente Bauru, onde fomos encontrar o 
nosso bom amigo Oscar Guimarães. O tempo de que 



~ 236 — 

dispunhamos era cinto, e, assim, jantado cedo e sem 
muita folga, tomámos o nocturno da Sorocabana e 
rolámos para S. Paulo, tendo tido antes o cuidado 
de telegraphar ao amigo Epaminondas, pedindo pas- 
sagem e leito para o Rio. 

Pela manhã de 12 chegávamos a S. Paulo, onde, 
na estação, nos esperava o bom amigo Epaminondas; 
e antes mesmo de dar-lhe bom dia, gritámos-llie do 
trem perguntando pelo leito encommendado. Apezar 
das enchentes de que já tinhamos noticias e parte das 
quaes haviamos presenciado, foi com surpreza que, 
depois da reclamação do bom dia por parte do nosso 
amigo, d'elle ouvimos essa resposta: "você não tem 
nem trem quanto mais leito ..." 

Foi uma decepção de primeira ordem. 

Eu não estava de modo algum preparado para 
permanecer em uma cidade civilizada, pois, fazer de 
um modo pratico e rápido a viagem que estava em 
vias de terminação, só o era possivel com especial e 
reduzidíssima bagagem; emfim, como não havia ou- 
tro remédio, e alimentando a esperança de que a 
linha da Central ficasse desobstruida de um momento 
jDara outro, dirigimo-nos ao hotel, lá deixámos a 
exquisita bagagem, e sahimos a prosear com o amigo 
Epaminondas e outros mais. No correr da conversa» 
já quasi á tardinha, lembrámo-nos de que talvez hou- 
vesse algum navio a sahir de Santos para o Rio; com 
certa dificuldade, pelo adeantado da hora, consegui- 
mos verificar que, no dia seguinte, 13, o "Itagiba" 
deixaria aquelle porto com o destino que desejáva- 
mos, e logo ficou resolvida a minha partida para a 
manhã seguinte. A 13, pela manhã, sempre debaixo 
de chuva, deixei S. Paulo para descer a Santos e, 
tendo viajado com o velho amigo João Mello, chega- 
dos que fomos a essa cidade, dirigimo-nos em com- 
panhia d 'esse amigo ao seu escriptorio, e ahi espe- 



— 237 — 

ramos que um seu empregado trouxesse a passagem 
que para mim ordenaram-lhe fosse comprar. 

Poucos momentos depois voltava o alludido em- 
pregado, dizendo não haver mais passagem de l'' 
classe, e que, como toda a gente estava lançando mão 
do recurso, que era o único, de comprar passagem 
de S^, elle, graças ás boas relações de amizade que o 
ligavam a um dos empregados da companhia, conse- 
guira fazer reservar para mim uma das ultimas pas- 
sagens de 3^ classe... 

Mas, então, eu ia viajar como emigrante! de 
3^ classe?! Não; não era possível. 

Absolutamente certo de que tudo arranjaria do 
melhor modo e que de modo algum compraria a pas- 
sagem de 3% salii com o tal rapaz, dirigi-me á agen- 
cia da companhia e fiquei muito contente em poder 
adquirir uma passagem. . . de 3^. . . 

Claro está que, tomando tal resolução, o fizera 
na premência de não ficar sem poder regressar ao 
Eio, mas já tendo elaborado um plano logo posto em 
execução. Fui procurar o meu collega Capitão do 
Porto e d 'elle obter uma apresentação para o Com- 
mandante do navio, mas, uma vez isso obtido, em 
lugar de ir a bordo, fui almoçar com uns amigos, e 
só ao ver approximar-se a hora marcada para a par- 
tida foi que apresentei-me a bordo do "Itagiba". 

O gentil Commandante Marsh, desolado por não 
poder alojar-me em seu camarote, cujo beliche vago 
cedera vinte minutos antes, teria ficado embaraçado 
se não fosse a minha fácil accommodação ás installa- 
ções "á la diable". Disse-lhe que me contentaria, du- 
rante tão curta viagem, em ter onde guardar a minha 
heteróclita bagagem, e poder lavar-me, pela manhã. 
Tão fracos desejos foram logo accedidos e, como o 
navio só devesse partir não mais ás 5 da tarde, mas 
sim ás 9 da noute, tornei á terra, para jantar com 



— 238 — 

amigos, e só regressei a bordo, acompanhado d 'esses 
amigos, á hora da partida. 

Deixámos o cáes de Santos e, sempre no passa- 
diço, depois de apreciar a sahida do porto e de re- 
ceber os cumprimentos do nosso bonançoso xitlan- 
tico, sob um céu scintillante de constellações e acari- 
ciado pela brisa fagueira, senti desejos de transpor- 
tar-me ao mundo dos desconhecidos (temporaria- 
mente, já se vê). 

Mas, onde iria eu dormir? Com aquella tempe- 
ratura adorável e leveza de ar que se goza no mar, 
o lugar mais agradável para dormir seria o próprio 
passadiço. Era; era isso mesmo. — "Captain, preciso 
de sua cadeira de lona. — Mas pretende dormir as- 
sim!? — Já sei que o Senhor aqui é o Commandante, 
mas, agora, quem está com a manobra sou eu. — Está 
bem; ahi tem a cadeira. Fui buscar o meu poncho 
e a maleta; esta serviu-me, como prolongamento da 
cadeira, para repousar os pés, e vestindo o poncho 
e atando o lenço ao pescoço, estendi-me na cadeira, 
despedi-me, com um olhar, do azul constellado, e 
— boa noute — dormi deliciosamente até a manhã se- 
guinte : 



e f oi 

por tarde bonançosa e bella que enfrentámos a 
barra, que se oíferta como uma bocca ao beijo 
amante aberta, ao beijo que promette e desaltera. 
Maravilha depois de maravilha, transposta a 
barra, surge, incendiada pelos fogos vermelhos do 
poente, calma e tranquilla, a bella Guanabara. Cami- 
nha o tempo á proporção que andamos, e as luzes, 
por centenas, por milhares, emmolduram o quadro 
da bahia. Praias, ruas, ladeiras, ilhas, morros, tudo, 
num surto que parece um sonho, illumina-se e agora 
esplende e brilha; e no oriente, entre os resquicios 



— 239 — 

vagos do violeta que inda o solo colore, desponta a 
lua radiante e linda, fazendo o mar rivalizar em bri- 
lho com as faiscantes luzes da cidade. Cada ponta 
de vaga ou de mareta reflecte o prateado incande- 
scente do astro terno que tão longe fulge; suspiram 
de contente os que regressam; nos que ora chegam 
brota uma saudade. . . 

Viajor, viajor, não salta ainda, contempla bem 
o. quadro que te empolga e te excede de muito o pen- 
samento ; i^ercorre a terra, corta os oceanos, rebusca 
em cada canto do planeta um sitio que te deixe embe- 
vecido como este que ora vês e te extasia. Parte e 
retém na mente o que contemplas, pois nem a todos, 
viajor, é dado gozar o sumptuoso panorama do co- 
ração da terra brasileira. 



N. i.4s8 — Officinas Graphicas da Livraria Francisco Alves 



índice 



Introducgão 9 

Capitulo I — Do Rio de Janeiro a Corumbá 11 

Capitulo II — Corumbá — Giboia • — Ladario — Pan- 
tanal — Aves aquáticas 19 

Capitulo III — Projectos de caçada ■ — Encontro com 
Theodoro Roosevelt e viagem a Palmeiras 
— Na Fazenda das Palmeiras — Regresso 
das Palmeiras 27 

Capitulo IV — Viagem á Fazenda de S. João — Na 
Fazenda de S. João — Caçadas no rio S. Lou- 
renço 43 

Capitulo V — Viagem a S. Luiz de Cáceres — Fazenda 

do Descalvado — Cáceres 65 

Capitulo VI — Viagem a Porto do Campo — Em Porto 

do Campo — Regresso ao Ladario 79 

Capitulo VII — Sr. Janjão de Barros — Primeira ca- 
çada de onças 85 

Capitulo VIII — Caçadas em "Urucúm" — Sr. Jenú — 

Segunda caçada 95 

Capitulo IX — Marrecas e jacarés — Terceira caçada 

de onças 119 

Capitulo X — Victor ia Régia — Ainda jacarés — 

Quarta caçada de onça 151 

Capitulo XI — Das margens do Paraguay ao Rio de 

Janeiro, por terra 169 

Capitulo XII — Seis onças mortas em seis dias!.... 191 



■"1 



i^i 



4^ 








'1 






■ i 


.:-,.- 


.:-' 






% 


wÊk 



^p 



JAN 
7 







% 





PLEASE DO NOT REMOVE ^ 

CARDS OR SLIPS FROM THIS POCKET 

UNIVERSITY OF TORONTO LIBRARY 







^0^ 



>» . ..' 



' M'