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Full text of "Vida do Beato Henrique Suso, da ordem dos Pregadores, traduzida de latim em portuguez. Considerações das lagrimas de N. Senhora, e outras obras em prosa, e em verso, que andavão dispersas"

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.tíV^^^JF^íT 




V I D A 

DO 

BEATO HEKRIQUE SUSO, 

DA ORDEÍJ DOST.PÉGADORES, 

Traduzida de Latim em Poituguez: 

CONSIDERAÇÕES 

DAS 

LAGRIJÍAS DE N. SENHORA, 

E ♦uua* cbras era prosa, e em verso , (jue andava» 
diiipersas. 

CO -M POSTAS 

POR 

Rcrgioso da dlla Oi;":.:in. 

< que $t ojiint9tt o. Fida do mesmo Aulor , « o juízo 
sobre os seus Escritos, m 



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1 V*-. 



COIMBRA: 

91 lilPhliiNSA OAUNlVERSiDADlj 
— ■*« « ■ 



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V 







I6^<^ 



VIDA 



DO 



Padbe Fr. LUIZ DE SOUSA , 

E JUÍZO SOB^^V'. 05 SEUS ESCRITOS, 



i>0 Aviso, qiic pnzémos ao^principío ria 
Vida do Venerável Arcebispo D. Fr. I^arrho- 
lomeu dos Martyres , que saio impressa em 
Jíiiie^lro deste ftnno (r jí)/-), dissemos que logo 
depois deterniinavanios p!d)Hair a Vida do 
Beato Henrique Soso , e njuiitnr-lhc ns devo- 
rissinias Considerações das Lagrimas de Nossa 
Seuliora , c algniras ol)ras Latinas , que aii» 
davão soltas j Uido producrão bem dii;na 
do insigne Autor da Vida do mesmo Vene- 
rável Arcebispo : c que a!ii lhe ajur.iariamos 
tarnbum uma breve noticia da \ ida da 
inesnio Aulor , e dos st ns FsrritdS , e o 
jnl/o Si^bie elles. Aguia van:os í>iilisra:er esia 
piomcssa. 



4 Vida do Padrk 

Fr. Luiz de Soiis.i, que no século se cKa- 
mou3Ianoel tle Sousa Couiinhojji), foi quinto 
filho de Lopo cie Sousi Coutinho , FiJilgo 
ilhistrissimo do tempo do Senhor Kei D. João 
Iir , e que pelas suas virtudes , talento , e 
erudição mereceo, lugares mui distinctos na 
vida militar , e conciliou universal respeito 
da Corte : e dvi D. Maria de Noronha , fdha 
de D. Fernando de Noronha , Capitfio de 
Azamor, Lo.^o nos primeiros annos moslroa 
Manoel de Sousa grande viveza , e génio sin- 
gular para os esíutíos, e muiio cm particular 
])ara as Bellas Letras, que cultivou maravi~ 
íhosamente , e com láo prodigioso fVucto , 
como o fazem ver os seus Escritos. Passou a 
estudar Direito á Universidade de Coimbra , 
como o tinlião feito lodoò seus irmãos, não 
dispensando seu pai nesta parte nem ainda 
o primogénito. E perguntando-se-lhc a ra- 
zão de o querer assim ? respondeo discreta- 
mente : Qu3 mal lhe tinha feito aq lu lie filha y 
para o deíjcir iqnorante P 

Não pro:egnio os estudos na Universida- 
de; antes deixaudo-os logo, entrou na Reli- 
gião de Malta. E fazeuílo viagem para esta. 
íllia , ao sair da de Sardenha , aonde ohri- 

( 1 ) rV. António lia Kncariiar.So iiiN ida í\r Fr. I.n-t 
fli- Sonsa , c^ut TQM ftopiiiicipiu do iíj^uuJo i'gmo J« 
CluQU^M. 



Fn. Lui2 Dl! Sousa.' 5 

^do de um grave temporal , e qnnsi derro- 
tado de todo tinha ido arribado, foi cativo 
de um Corsário de Mouros, e juntamente 
seu irmaó André de Sousa Coutinho, Cavai- 
leiro também da mesma KeligiSo. Levado a 
Argel , alli acliou entre os cativos o ilhis- 
tre , e engenhosissiuio Miguel de Cervan- 
tes , com quem logo coníiahio estreita ami- 
zade. Em teálemuriiio delia ointroduzio Cer- 
vantes em hum Episodio da suacelebie No- 
vella dos Trabalhos de Persiles , e Se^ismiiU' 
do. Ajustando-se MatiOel de Sousa CoiuitiUo 
com O Conjmandantc do Corsário em que, 
ficando seu irmão André de Suusa retido no 
cativeiro , viesse elle d pátria negocearo res- 
gate de um, e outro, passou para Valença 
em Hespanha no anno de 15^5 , julgando 
que este lugar era commodopara (hdli eííel- 
toar o a ({ue viera. Aqoi teve a triste noti- 
cia da infebz morte de seu pai , que havia 
succedido em Janeiro deste anno. É succeNs^j 
admirável , mas verdadeiro Indo a desmon- 
tar-se d'uiu cavallo (na Vi lia de Povos) 
desenibainhon-se-liic a espada : com o mo- 
vimento (jue íez ao cair , firtui de sorte , qeie 
forcejando ou p:ira a desviar , ou para a ter 
mão ; ella o ferio tão graveuKMíte, que alli 
falleceo logo eui 28 do diio tncz. Jaz iia Ca- 
pella mói- da igreja Paruc^iilai do Salvador 



6 Vida. do Padab 

da Villa de Santarém, de que er.i P.idro^ir.^, 
e juntamente sua mullier D. x^aria de Noro- 
nha. 

Estabelecido Manoel de Sonsa em Valen- 
ça , procurou logo o celclire Jaime Falcão, 
Cujos estudos erão de giandefama er.i toda 
a Hespnnlia, e cujo meiccimento Manoel de 
Sousa aftirma achara ainda maior do ([ue a 
mesma fama. Dois annos, que alii se deteve, 
tratou sempre com grande amizade aquelie 
sábio homem ; venerando-o como pai , e hon- 
rando-o como mestre. Ellc llie explicou para 
sua melhor inslrucção a Arte Poética d Ho- 
rácio; o que Manoel de Sousa confessa lhe 
servira de estimulo para tornar ao estudo da 
Poesia, que havia deixado. Ksta explicarão 
se acha no fim das obras dome^mo Jai?neFal- 
cão, e neila se mostra clare7.a , e bom conhe- 
cimento do verdadeiro sentido do Poeía. 

Negoceado em fim o seu resgate, e o de 
5eu irmão, voltou para o Reino , e para a 
Corte, sem que tivesse professado na lleli- 
^iáo , que dissemos. Diz-se que tivera razies 
forçosas para assim o fazer. Então casou com 
D. r>lagdnlena de Vilhena , fdha de Francisco 
de Sousa Tavares , Senhora , que fora mu- 
lher de D. Jofío de Portugal, filhexleO. Fran- 
cisco de Portugid, 'primeiro Conde deVimioso, 
o ^ual havia ^cagl^ oa infeliz batalha de AU 



Fr. Lciz de Soisi, j 

9fiCièr. Assistia na Viila Je Almatla , vivendo 
eoniohoni Cidadão, e cultivando oS estudos 
das Bellas Leiras com seus amigos, que tinhao 
o mesmo gosto, instituindo, para o tazer me- 
lhor, uma Socied:ide Lite.-aria : e era Coro- 
nel fie 700 iníanles , e quasi 100 Cavallos na- 
quelie districto. 

Por causa do mal da peste , com que Deos 
ferio Lisboa no asiiio de 1677 , passarão o?; 
Governadores , que então erão do Ileino , ;i 
residir em Almada, por ser terreno mais des- 
afogado, elinipn de toda a corrupção, Eião 
elles ( I ) D. Miguel de Castro, Arcebispo tio 
Lis])oa : D. João da Silva, quarto Contle do 
Portalegre, Mordomo Múr : D. FrancisiM 
Mascaranhas Conde de Santa Cruz: D. Duar- 
te de Castello-Branco , primeiro Conde do 
SaiíUíjnl , I\L'irinho Mór do liciívo : jMi.^uel 
de Moura, Escrivão da Puridaíle. Repartiiãt» 
entie si as casas da Villa , que lhe parecerão 
mais commodas para caíla um : e não ob- 
stante terem outras , que lhes podião ser' ir 
igualmente bem , ordenarão a Manoel de 
Sousa Couiiiiho despejasse as suas. Assetiiou 
elie que a ordem era injusta ; aures nascitiu. 
de anlig») ódio , que agor» quci ião satJi>lrí- 
xer , abusando da autoiida<.l«j pública, para 



( 1 ) lli;jlur. Gcueai, \yjiii, (j, i'^^. J Jtf, 



8 ViDJL DO Pa.I>R1! 

vin^^ar.oa particular. Foi extraordinarin a pai* 
xáo , que Manoel (iu Sousa conccbeo rew.lo 
um tal proítí llmento ; e deixanJo-stí levar 
delli , roiii|»eo na arrojada tietermiii,i':ão íle 
lançar fogo áscasas: elle íiiesmo o diz assim 
( I ): Cu^n vekenienter animo ca mino tus afcn, 
itji'a , et ifiaitdita mttamorphosi indis^nantes 
parlei is injwiiic subtluxi ; ia f.irnuni , e! ciie» 
res abiere. raríio logo pftra Madrid a infor- 
mar o Piinclpe do procedimento, de qiic* se 
usara para com elle , e do modo porque ellc 
mesmo , perdendo a paciência, se havia des- 
aggravado, Conhecendo-se a semrazío de 
quem o havia provocado, foi attLMidido. 

No tempo , em que se deteve em Madrid, 
tonjo verdadeiro amigo, cuidou em ajuntar 
«soljras de Jair.íC Falcão, que scisannos an- 
tes havia fallccido nesta Corte , aonde viera 
chamado de Valença; e as que pôde alcançar, 
iis fez imprimir no anno òc looo em um 
voliiiJíeem oitavo. DanJo ocrusião o seu ines- 
perado desterro, como elle Itiecliama, a iiâo 
íicarempeipetiio esquecimento a menuírladc 
um homem tão estimável ; pois não se pôde 
duvidar que Jaime Falcão tinha grande en- 
gcnlio , e feliz imaginação; e se tivesse a 
fortunn de estudos mais bem dirigidos , seria 
hum escritor eouqdeto. 

( i ) JVaeíat. Opti". Xacub. I''aIc. de t£uib. iufra. 



Fr. Lriz DE SotrsA. 9 

Bestitnido á Pátria, continuou INÍanocl de 
Sousa a mesma vida retirada, e estudiosa, 
que linha ante?. Persuadido então por seu 
irmão Jcfto Rodrignes Cuutinho , qutívivia 
em Panamá, na America iSleridional, a que se 
])assas5e iquelle pai?, com a es| csarra ilecon- 
«eguir copiosos iurros pelo connncrcio, fa- 
rciido-o assim te^e a noticia, de qnc lhe ti- 
nha failecido hnma fdha única , que havia 
sido ínulo do sen maiilmonio. Devia esit? 
golpe scr-lhe niuilo sensível , muito mais , 
vendo ellc a serie ccntinuada de desgosto?^, e 
iníehcidades , que a vida in(fulcn , e tumul- 
tuosa do século , a f|ue se havia entregue , 
lhe tinha causado sempre. Meditava nisto lar- 
am(M!íe, e cada vez se desenganava mais d* 
e não era arruelle o estado, cíu que Deos 
o (fueria. O succisso seguinte creio foi qucjn 
acidíou de o tlesenc^anar. Tinha Manoel de 
Sousa estreita , e íicl amizade com o Cíinde 
de Vimioso D. Luiz de Portuj^al. Alluniiado 
esto por uma luz , que os eífeilos iheiíin ver 
que era (h) Ceo , ahraçou juntanM-nte com 
sua mulher a vida religiosa. O Conde lio re- 
formado Convénio th» Beniíiía , .1 ('ondessa 
1). .loanra de Mendonça no do Sacramento da 
Còrie. Fez este cxenjj)Io »raude impressão 
ni) anim.i de Manoel de Sonsa. Assentou que 
Deos ilití mandava que seguisse o amigo. Por 



nu 



to Vida. do pADni 

niutuo consentimento seu, e de sua esposa 
se recolhço elle tr.nibeni ao Convento de 
Beniíica , e ella ao do Sacramento, tomando 
elle o nome de Luiz , e ellu o de Soror Mag- 
dalena disCIíasías. Em quanto viverão não se 
virao mais, rcm amua se tratarão por escrito. 
Professou Fr. Luiz em 8 de Setembro de 
i6i4 ) uas mãos do Prior , que então era 
Fr. João de Portugal, Bispo, que depois foi 
de Viseu. Logo mostrou que a sua vocat ão 
era verdadeira, perdendo iuteiramcnlc todo 
o c'h,pirilo do secido , de que até alli vivera 
•ocupado. Aquelle brio sem limites, aquelle 
animo altivo, e ardente , que o tinlia ol)ri- 
^ado a tantos excessos, se tornou em umapro- 
lunda, solida e constante abnegação própria. 
Vivia entre os Noviços como o menor de todos 
ellcs j e depois de professo sempre se tratou 
«ntre os Reliooisos conlórmc o mesmo me» 
tliodo. Tinha no século iinia gioss.i tcnoa , 
loc;0 a renunciou , nem quiz jamais ter di« 
nhelro algum , nem ainda no deposito ila 
Fieligião. O habito que ella lhe dava , dellc 
se servia , em quanto o podia remendar. Ai 
túnicas eráo de laa ; nem admiltio nunca ou- 
tro vestido. De lãa era também a cama ; duas 
inania* sobre duas taboas; uma branca pe- 
quena de pinho j e para se usscnlar um la- 
nho. 



Fr. Luiz de SottsaÍ ii 

Não se contentava com jejuar ossett me- 
tes, e outros jejuns lia Ordem no discurso do 
anno: íiinda se ariiantava mais; e além distai 
do que se llie dava no refeitório sempre dei- 
xava ineíade para os poi)res. Nas peniten- 
cias, discipiiiii)^, cilicio seguia sempre a mc^ma 
máxima , accrescentar de mais ao (pje devia 
de olrigação. 

Eii quanto «ão teve a seu cargo escrever 
por orlem da Religião, tomou sobre si o ot'* 
£cio de enfermeiro. Neíle mostrou tal des- 
prezo p'oprio , tal abatimento, ião rara Iiii- 
nuldade que a todos confundia , e edifica- 
va. Não íómente cuidava , com a maior dili- 
gencia , d[)5 medicamentos , fazer as cam.as, 
alimpar aí cedas aos doentes ; mas eile mes- 
mo por suís mãos fa/ia os ministérios mais 
despre2Íveii , e n;ais servis, E de que conso- 
lação, e aK.vio não era com a sua pratica 
aos enfermos'-* toda e.a ou daquelle Senhor, 
que he saudc , e vida , ou para lionra 
dclle: ociosa, nem uma só palavra se ihe 
ouvia. 

Em scc>uir o Coro , e acodir á Oração era 
nidcíeelivtl.Nãosí salisfaziasócom a d.i Com- 
munidade; semprt depois ficava continuando 
neila largo espaço ; antes podenjos dizer, qu« 
nunca deixava a Ur^ção. Continuamenie an- 
dava o siíu espirito/ « a suabOca chtjia átt 



f* Vida do Padb» 

Deos. De quanto via, ede quanto ou\la, fazíâ 
STihir logo o entencUmento , e o coração ao 
S2U Creador. De Deos era tudo , arvores (te 
Deos, bosques de Deos, aves de Deos, hi- 
bito de Deos, casa de Deos. 

Ao Rozario da Senliora tlnl^ singilar 
dcvoí ão. Todos os dias o rezava visiundo 

sen altar : e que alfeclos se não tlesco- 
brirãonelle, vendo-o de joelhos , faliando 
com a Senhora todo huniildc , todo cheio de 
respeito , c d«^ piedíide ! Mas sobre íudo o 
que mais nelle ediíicava , era a corded devo- 
ção do Santissinio Sacramento do Akar: aqui 
lie onde todo o seu coração se derri»inava em 
\ivos actos de agradecinienlo , df té, e de 
amor : aqui se elevavn, e submcríj.a lodo na 
profunda meditação deste mvslerio sacrosan- 
to , e inefiavel : e daqui lhe vcioque nunca 
deixou de celebrar o sacrifício la Missa ena 
ioda a sua vida , por mais ocijpado que se 
tíssc : este t:ra toda a sua dilicii , e Ioda a &ua 
consolação. 

Vu'\ admirável a obediência do Padre Fr, 

1 uiz de Sonsa. Não só obedecia em tudo, mas 
sem allegaçóes, nem replic.ns, ainda em casos, 
em que parece que o poilií fazer com justiça. 
Até o seu mesmo juizo mostrou que queria 
ler «ugeito agora cm desiggravo do tempo , 
eai qu^ g Uuúa deitado guiar pelas máximas. 



Fn. Lrix de Sousa. i5 

^enganosas do século. Esta foi a causa , por- 
queacceitou o cargo de escreTer. ainda obras, 
'[ue não erão da Ordem. E bem se \ê que a 
cliediencia, e sóa obediência foi quem o obri- 
g'>u a que escrevesse. Mandava-o umRei;ea 
ese sempie se deve fazer a vontade. Nem 
Tintios se j^cde dizer qtie o escrever fpi no 
Pacre Fr. Luiz ambição de boura. Tanto era 
livrt delia , que nem os estudos quiz seguir 
na Crdcm , por se rão obrigar a ser Préga- 
tlor. Z que c\ "cliente o seria elle, tendo do- 
tes tão singulares para a IJoquencia sagrada , 
como se vê nos seus escritos ! Deste modo 
evitou »ainbcm occi:|^ar cargos , e ter alguma 
parte to governo: econseguio o que dese- 
java 5 p-)is sempre foi súbdito, ]\]as conside- 
remos aoccupacfio , que ton;ou de escrever 
pelo lado, por onde parece que be justo ; e 
mellior fa enios juizo se foi ambição , ou se 
foi virtude. 

Foi obiigado a revolver Cai tórios, e pa- 
peis antigo., averiguar leiras tão (ega.^, e 
r.pagadas, que funão perder a vista aiiuL 
em annos m:.is vigorosos, separar o verda- 
deiro do fals->, ajustar tempos, combinar 
circumstancias, pesar attentan;t.nte os factos, 
escolbel-os , e Vinca 1-os de {)ois no papel com 
aceito; e isto n:n\ laltar num fó ] ortc ás 
obrigações de Rebgioso, ao Core, á Orsí âo. 



i4 



Vida do Padre 



ás penitencias, bem se pôde dizer, que mais 
era de Santo, cio que de homem. 

Chegou em fim o prazo dos sens trahay 
lhos : nem forfio necessárias cautelas panl 
llie advertir que elle era chegado , e que/i 
doença , que delle eia correio, era d^ niol'- 
te. Conheceo-o elle muito bem , corno (ji^tu 
sempre se havia preparado para aquell i lyra; 
c a cada instante a esperava. Recebco /oní 
grande piedade os Sacramentos, peindo 
humildemente á Communid..de perdjf) do 
seu máo exemplo; e consolando-se milto de 
acabar entre irmãos túo santos, fia^) em 
que pelas suas oraçSes entraria o Sen/ior eui 
juizo com elle benignamente, não, se lem- 
brando do que elle fura alguui dia ,ye agora 
muito do coração sentia ter sido. F.iaeceo no 
inez de !\Iaio de i632. Jaz no ariecoro do 
Convento de Demfica , junto ao/deíiráos 
cue sobem paiM o Coro. 

Ainda no século escreveo v/rias obras , 
que temos impressas, e vão m fíui deste 
volume quasl pela mesma ortl/ni , por que 
sairão. Uma só não pudemos ilcauçar, in- 
titulada Navií^atío Aritartic^ú fid Doctorem 
Franciscum Giiidiim y civcnj Panamensem , 
de que faz menção na sua r>i>llotheca o eru- 
dito Abbade Diogo barbos/ Machado , que 
iufornjando-nos cum tíUc do lujar, cm que 



Fzi. Luiz de Sorsi. i5 

"ã poderíamos descobrir, nos protestou in- 
jeniiamenle se riáo ienibravn , pois aquclla 
i\ieníOiia, de que se servira na biblioiheca, 
lae não podia occorrer donde a bavia con- 
seguido. Além destas obras adiámos mais 
ma Soneto no principio do Livro irtitulado 
Caicimento perfeito, escrilo por Diogo de 
Pal\a de Andrade, sobiini;o do insigne 
Tiíeologo desle mesmo nome, 

íva Rebgião escreveo primeiro a Vida 
cio Venerável Arcebispo D. Fr. Bartholomeu 
dos Marlyres , que oííereceo á Camera de 
Viana, que generosamente a íez imprimir 
na mesna Villa , em um volume em tolio no 
anuo dt 1619, e nós publicámos agora se- 
gunda Víz , como já dÍ5senK)S acima. Esta 
obra saio traduzida em franccz iio anno de 

Escreveo mais a Prijneira parie da Histo- 
ria de S. Lumin^os y particular do lieino , e 
Conquistas de Portugal , que se imprin:io 
em 1623, tendo sido composta das memo- 
rias, que deixara ainda iiiFormcs o Padre 
Fr. Líiiz de Gacegas, yí Segunda Parie da 
mesma Historia, que se in)primio em 1662 , 
já depois da morie do Autor, peio Padre 
i^r. António da Ircarnacáo , que Ibeajunlou 
um Prolof:o, t Koticia da Nida do Autor, 
«i>nde liiiin,os n.uito do que Itii os dilo, poi 



1(5 Vida do Pàdii 

ser Autor coéro , e Gcledl^no. Só ros nío 
pudemos detej-minar a seguil-o no que toca 
ao motivo, que refere tivera IManoel deSouíi 
para deixar o século. Não achamos na infoi^- 
mação do peregrino, que se diz rir de Jerí- 
salem , e mais circumstancias , motivo cjftis 
I»aste para nos fazer este sucresso crivei. Hsia 
foi a razão, porque assentámos cm outi.i raii- 
sa. Terceira Parte da mesma historia eh S. 
Domingos y impressa em Lisboa era i6y8. 

Tinlião-se impresso já duas obríí áo 
Padre Fr. Luiz de Sousa , uma no aiT^o de 
1645, e é a das Considerações das Lafrimas^ 
que a P irgem nossa Senhora derrariou na 
Srigrada Paixão repartidas cm de? passos: 
para a devoção dos dez sal^bados: <rutra em 
1642 , e é a Fida do Deato Henrique Suso^ 
JDoniinicOj traduzida de Alleniáo cmjLatim por 
Fr. Lourenço Surio , e de Latim h^ Porfií' 
guez por Manodl de Sousa Couíi/t^io» Estas 
duas obras é esta a terceira vez y ^ue se im- 
primem. 

Deixou t;un])em escrita a fida do Sc" 
nhor Rei I). João llí ^ a qual íendo adian- 
tjdo quasi até o fim, Ibe foi manda<la pe- 
dir por Filippe IV, Uei de fíespanlia , em 
nma carta escrita pelo Secroí irio Francisco 
de Lucena em 9 de Janeiro do 16 Ja, e lhe 
lião tornou a ser resiituida. O Desembarga- 



Fk. Lviz DK Socíi. 17 

(lor ígnari'i Barbosa Machado , cujas letras 
sfio bem conhecidas neste Reino , que lhe 
deve o te!-o lllusirado com os seus escritos, 
nos segurou que seu Iniuio o Parlie D. José 
B.iT!)osa, .sujeito de conhecida literatura , 
c talento , lirdia visto esta obra uo Padre 
Fr. Luiz de Sousa na livraria do ultimo Mar- 
quez de Gouvea com este titulo: Chronica 
cio Frade; mas iuíelizmente não pudera ter 
meio de a fazer copiar. 

l\esta-uos a^jora satisfazer ao sei^undo 
ponto, a que nos obrigámos, e é, tazer 
juizo sobre o mereri mento dos escritos do 
Padre Fr. Luiz de Sousa, Como não é tanta 
a nossa confi^ínça , que de-cancemos somente 
sobre o nosso conceito; cncost:nemo3 o que 
dissermos á g^rave autoridade de muitas 
pessoas de perteitu f^oslo , juizo solido , e 
ajustada critica, com quem temos muitas 
vezes conferido sobre a presente matéria. 

E sem duvida, que teve o Padre Fr, 
Luiz de Sousa as mais evrelletites quali- 
dades para irsrrever perleifa mente. Até j ara 
isso lhe sérvio o seu i ascin»eiit«>, pela acer- 
tada educação , í|ue receln-o de seu pai. Os 
seus talentos uatmaes erfu^ iíUi tnt;eiTho vi- 
vo, e fértil , nma iníaginação copiosa, e 
feliz , um juizo solido , e chuo , ujii animo 
brioso , e amauie da verdade, hj^W^ laknioi 



i8 Vida do PadrI 

aperfeiçoados com o trato conliniiado cios 
homens mais sábios , e polidos do seu teiu- 
po , o commercio das pessoas mais civis , e 
conhecinjcnto do mundo , não podiáo dei- 
xar de profluzir nelle nm snç^eilo eminente. 
Assim surccdeo : e ovonios nos [seus escri- 
tos. E principiando pela Vida do Arcebispo 
Santo D. Fr. Dartbolomcu dos Martyres : 
que evidente prova do que temos dito não é 
esta escritura ? 

Creio que não ncressilo de fazer agora 
aqui lan tratado mcthodico <le como se Jctc 
escrever Historia , para ser perfeita, e com- 
pleta : isto pareceria obra indiscreta, e in- 
t>cmpestÍYa. Mas não pos?o escusnr-nie i!« 
apontar uns piincipios geraes , c certos , para 
desta sorte proce(ier sem cTrgano. E certo 
que é necessário cm quen» escreve Historia 
Juízo , Eloquência , Probidade : Juizo para 
averiguar, escolher, e dispor os factus : 
FJocjuencia para os explicar , c fazer sentir 
com toda a sua forca , peso , formosura : 
Probidade para não faltar á verdade , e ex- 
primir tudo de tí«l modo, que instrua, « 
aproveite aos costumes , sem declamar. Tudo 
isto parece <jue se acha nesta Vida do Santo 
Aicel)ispo. ISão se escreve ncUa facto, que 
não seja digno da posteiid.íde , ou para \\\% 
íazer ver, como L^ííus pfcvine, c dá anii- 



Tá. L:^::% de Zgvs\, 



^B 



cipaclamcnte a conhecer os fjuc tem desti- 
nado para obivr cousas grandes: desta na- 
tvreza é o casosuccediclo ao Art-ebispo, sen- 
do aiiítid nieniim , com o pobre , que veio 
xDedir esmola a sua mãi, que se achava no 
síllo da Torriígem : e aqueíla inclinação aos 
Religiosos <la Ordem de S. Domingos, a que 
liepois honrou tanto. Isto a u:na critica mais 
severa , e mais forte pareceria alheio da 
seriedade da liiuoria ; mas quem olha pelo 
lado mais conforme á piedade , e íilosofia 
Cliristãa, até aqui reconhece sábia mão de 
Mestre. (íomo tami^ein quando descrevendo 
a pobreza da sua mesa Archiepiscopal , o 
pouco commodo nas suas visitas , o parco 
tnítimeiito da sua casa, a familiaridade, 
com que se entretinha , ainda com os mais 
huoiildes dos seus subíhtos , a escaccz, címti 
que se vestia : p()rf[ue ludo isto ensina sua- 
veiuente que é próprio de um Prelado per- 
feito viver pobremente, familiarizar-se com 
os pequeninos, seguindo o seu exeniplar 
Jé:',SlJ Chrislo ; e eu) íim confirma os lio- 
mens no corueito de que a Providencia 
nunca deixa de assistir aos seus, entre os 
maiores perigos, como em o da serra d« 
líafToso , e lia casa, em que o Arcebispo se 
rão quiz recolher , e io^o depois m arrui- 
nuu. 



%x> Vida do Padki 

E qiierlirei eu dos outros furtos ãe maiot 
"▼uUo , e a que esses severos criíiros só que- 
Teni admlttir? (>)ino os escolhe sa!)ian5enle 
•o Paílre Fr. Luiz de Sou^a , ecoino os dis- 
põe ? Quando re})rest'nia o Arcebispo vo- 
tando no SngraíJu (Concilio de Trento: nos 
Cousistorius de Pio IV, advogando pela di- 
gniilade Fpiseopal j nas Cortes de Fiiippe 
II, consu) vando ioda a honra da stia Priína- 
lia , bem se vê em todas estas f»c(asl'jes o 
Arcebispo, grande, generoso, nobre; mas 
Santo. £ tanto nestes, como nos casos prece- 
ílenies parece que bem mostra o Historiador 
o seu JUÍZO. 

Alguns succcssos ha , nos quaes parece 
que da parte do Arce}»ispo hou^e ali^um ex- 
cesso no proceder: tal c, acaso, o modo, 
porque se houve na alçada de D. Pedro da 
Cunha , escrevendo a F.lllei ; o do Ouvidor 
de Chaves ; o da i evolução do povo ile 
Braga na uiorte «Io Cardeal Rei. Estes suc- 
cessos era bem Jelicaíh) rcíenl-os sem of- 
fender ou a memoria do Santo Arcel)i«;po , 
ou a autoridade tio Principe. Mas o Padre 
Fr. Luiz dtí Sousa, a n»eU ver, procedeo 
com rara discrição , e acerto, lleterc o que 
na vci-dade se passou ; mas ou deixa a cada 
um , (|ue lê, íazer juizo xsobii- o suctcsso , ou 
«e deixa entender sómeule mosiraudo que o 



Fr. Luiz ce Sodsa. ai 

*èlo forte , ainda que nascido de boa in- 
tenção , foi quem iiioveo o grande Prelado , 
e ijae t.ies aoçóes são ílaqnelias, qne se de- 
Tem adniirai', sem qiiesirvão de exemplo 
para a imitação. E quein assim procede na 
escolha dos íacLos , no modo de os conceber, 
e de os exprimir, creio que dá boa prova do 
seu juizo. Deixo á parte íallar no bem arri- 
mado, e bem assentado de cada um, qi!e é 
com lai arle, que, obscrvatla l)em atlcnta- 
inente toda a historia, se conheie que ne- 
nhuma das partes desmeate do seu todo em 
cousa alguma. E certo que não pode achar- 
se ordem mais bem regalada. Chega -se ao 
íim , e se d'alii , como de um hjg;ir alio , se 
lancão os olhos por lodos os aí^rad-iveis 5Í- 
tios , por oncie se tem passado , tornados 
agora a^ver enchem de nova alegria, e dei- 
xáo conhecer toda a sua proporção , c for- 
mosura, 

Passemos á Eloquciicia, Se é eloquente 
aquelle , que não só concebe as cousas clara, 
e solidamente, mas com cerlo modo grave, 
e polido; e depois as exprime com uma 
dignidade sãa , nobre, viva , e natural ; cer- 
tamente foi eloquente o Padre Fr. Luiz d« 
Sousa. Mas isto ainda se prova melhor peh)s 
ef leitos, que o coração experimenta no ([ue 
ouve ^ ou 10. Ninguém (se lè altentamente o 



í2 Vida no Padrk 

Padre Fr. Luiz de Sousa) deixa de sentir que 
aíjuella c a linr^uagcm , que o coração íalh, 
e que o seu próprio coração desejara ter íjl- 
lado assim , ou que lhe níiu íalLbieui <le 
outro modo. Isto exnoriuieuio eu cm iiiin» : 
isto mesmo coníessfio as pessoas de mais puro 
gosto,' que experiuiejitão taml)em :e daíjui 
iuíiro que me nÃo engano. Devo cjufcisar, 
que isto mesmo me succede na litão do 
nosso Barros, e do Padre João de Lucen,t. 
Oxalá que depois de bem estudadas as ver- 
dadeiras regras da Rlietorica , e da Critica , 
se averiguasse , e pezasse bem quanto valeia 
estes grandes hoiiiens! Nelle se veria que , 
ou de.ncrcvão lugares, ou reiiráo batalhas , 
ou representem caracteres , ou ponhão al- 
guém íallando , nunca tlegenerão dos Anti- 
gos JMestres. Agora podia produzir lyrgamen- 
Ui bons testemunhos para prova do (jue di- 
go ; mas receio ser extenso. A cada passo se 
encontrão tanto na Vida do Arcebispo, 
como na Chroiiica de S. Domingos. E não 
posso concluir melhor o que respeita a esta 
parte, do que trasladando aqui, par* 
prova do que tenho dilo, o juizo de lun 
homem sa))lo , e bem eloí|uenle (i) : Que 

(i^i O Padre António Vieira na A^nuttva';1j do 
Têretiro To: no 4a (ihrormã, 



Fr. Luiz de Sousi. a5 

9!qm se vêm juntamente praticadas todas as 

lei': da Jlistona que o estilo é claro 

com bre^'ídade , discreto sem ajfectacão , co» 
pioso nem redanjlancia , e tão corrente , fácil, 
e notável, que enriquecendo a memoria , 9 
affeicoando a vontade , não cansa o enicn' 
dimento. . . . 

Qne , ainda quefalião aqnclles casos , e 
nomes estrondoso^; , que por si mes/nos Icvcin- 
tão a p<:nna , e dão t^randcza , e pompa d 
narração . . . . é admirável o juizo , discri' 
cão j e eloquência do Autor; porfjuefallan* 
do em matérias domesticas y e familiares 

todas refere com termos tão ií^uacs, e 

decentes , que nem nas mais avultadas se re- 
monta y nem nas miúdas se abate: aizcndo o 
commum com sínç(ularidade , o simillianté 
sem repetição , o sabido, e validar com novi- 
dade , e mostrando as cousas , como faz a 
luz , cada uma como c , e iodas com lustre, 
A lin£;ua9;cm tanto nas palavras , como 
na frase, c puramente da linqua, cm quê^ 
professou escrever, sem mistura , ou corru- 
pção de vocábulos estrangeiros , os quaes só 
mcndi/fão de outras linf^uas os que são pobres 
de cabedaes da nossh tão rica , e bem dotada^ 
como fdha primogénita da Latina. Sendo 
tanto mais de louvar esta pureza no \*adr€ 
Fr, LuiZj quanto a sua lirão cm diversos 



%4 VlDk DO PaDRK 

idiomas . e es suas largas peregrinações em 
ambos os mundos o não poderão apartar das 
fontes naturaes da lingua materna ; como 
acontecs aos rios ^ que vem de louge ^ que 
sempre tomão a cor, e sabor dai terras , por 
cndj pass'Jo, 

A propneiade y com que fuV.a em todas 
ms matérias , c como de quem as aprende o na 
eschola dos olhos. Nas do mar , e navega* 
eão falhi como quem o passou muitas vezes : 
nas da g".erra como quem exercitou as armas: 
nas das Cvries , e Paço cnnio Coríezão , ê 
desenganado : e nas da perfeição^ e virtudes 
rdligiosas , ci-?ic> Religioso perfeito. Afé aqui 
aquelle sal)lo, e cloqucnle lunnem. E com 
isto iiíli^inios ter abonado fjastantemcnle a 
eloquência do Padre Fr. Luiz dt. Sousa, 

Quanto á Prohididc paroiia escusado 
nioslrarniol-a ein o Padro Fr. Luiz de Sonsa , 
dejíois de ter dito que elle foi eloquente 
(i) , e (jue pratico!i a vida que deixamos 
escrita. ATíjs o certo é qiie qr.ando leuios os 
seus escíito"^, Io^ío alli veuios um IIisioi:Ja- 
dor prudente , hom , ver<ludeiro , Cliri^ifio, 
o que é mais ((tje luilo , e que nuuca })cid<í 
de vista a Religião Sacrosauta , que prolessa, 
Alli estamos vendo um Christfio cheio do 

^i) Vid. QuittCtU. lib. xa. l»*lii. Oral. cap. i. 



Fr. Luiz de Sousa.. *5 

espirito , que oETangííllio imprime a quem o 
medita ; a -jnelle espirito manso, humilde, 
caritativo , mas ao mesmo pass(j nobre, ge- 
neroso, granJe; o qual e^lá contatido á 
posteridade, para seu bem, o qiie elie pre- 
senceou. fí daqui nasce no coração um gosto 
singular, que ao mesmo teri-po, que o 
rccred, o excita para se aperfeiçoar. E esta 
unia falta , que se acíia em alguns moder- 
nos , aliás sábios, e judiciosos, e lhe nao 
posso desculpar. Escrevem nobremente, mas 
respirão uma íiiosofia h uai ma , uuí ar pro- 
fano , de sorte que , lendo-os , mais me pa- 
rece que tenho nas uínos um Gentio creado 
nas trevas da Infidelidade , do que um 
homem , que teve a felicidade incomparável 
de professar a Religião Tcrdadeira. 

Temos satisfeito ao que pertence á His- 
toria , que o Padre Fr. Luiz de Si>usa escre- 
veo como sua própria. A f^ida do Beato 
Henrique Suso é um perfeito exempKír da 
traduf cão , quanto a su!)stancia , e verdade 
da matéria; nias no estilo , e fra/e excede 
grandemente o orij^nnal. 

As Meditações das Dores da Senhora são 
obra perfoitissima. Não se pôde escrever 
nada mais cheio tle ternura , e de piedade 
para cmn a ^Ifii tle Deos. O < oração, que 
ama íielmeole, descobre alliosaffeclos niaii 



a6 "Vida do Padrb 

puros , e mais vivos ; até a lingmgem é sim- 
ples , e cievotissima ; parece do Cep. 

Quanto ás composiç''es La^:inas. Bem se 
vê que o Fadre Fr. Luiz de Sousa soube a 
lingiia Latina com pcríeição !)astarile. AcjueU 
les Ciiticoi, que uulcaíuente po iem julgar 
<le uma palavra só per si (como já a respeito 
de algum disse o engenhos:> Pope , acliaráõ 
que Iheuolar; mas os que tem bom gosto 
conhecerão , que o ha nas composii óes La- 
tinas do Padre Fr. Luiz, aindu quanto ao 
que é rigorosan.ente lalinidad<\ Lma, ou 
outra palavra de idade monos nubre é de- 
feito , com que o bom Critico se iiáo of- 
iende (i). Em tim os versos Porlu.^uezes, 
e Hespanhoes parece-nos (|iie sem escrúpulo 
podemos dizer nos não saiiSÍazem quanio de- 
ífcjaiJamos. 

E aqui nos occorre naturalmente que 
^iiem tiver lido , o que deixamos escrito , 
pôde dizer que talvez temos parecido um 
pouco encarecitlbs a respeito do mereci- 
mento do Pa(íre Fr. Luiz de Sousa, e qu« 
apenas agora lhe queremos confessar algu- 
mas veuialidatles nos seus escritos, haven- 
do aliás nelles defeitos notáveis. Que mostra 

(i) Non ego j.ruicis oliViul ir maculis , 4ua> aiil iu- 
ruiia íuclit , itut UuiumUiI [>ui'uiu ca>it u<tiuiA. liui^it. 



Fb. Luiz de ScrsA. 3^7 

paixão pelo Arcobispo ; qr,e na Cbronica a 
n?io mostra menos pel.l sua Ordem : que ás 
%'ezes se cletém cni faz.cr descri pç^es com 
desejo de parecer elegante, e mais como 
Poela, do que como Historiador: qnc mista* 
rn autoridaJes Latinas de permeio , qufi 
são alheias do bom estilo. Que no corpo da 
obra ajunta rloíMimentos , que proTÚo os fa- 
ctos ; o que só era próprio de uma Disserta- 
ção, on de umas I^I-jmorias; pois taiís docu- 
menlos, como diz um Historiador !)em cele- 
bre (i) são como os anílames nos ediíicios , 
e os esicios , e formas nas alio!)e íjs , que se 
tirão feita a obra , ficando bera claro, que 
«obre ellas é qne se fundou. Além disto que 
parece mais crédulo, do que a judiciosa Cri- 
tica opermiite; nem se regu!o?i sempre pelo 
preceito do Apostolo: Orjmia prohnte : r[\\e 
referio visões , e appariçóes provadas talvei 
com o dito de pessoas , cuja imaginação viva 
lhe faz acieditar o í[ue apenas se lhe repre- 
sentou ; que deu por uiilagres, ou obras so- 
bre -naturaes coi!sas , que bem cabião dentro 
nas forcas ordinárias da natureza: que se 
tlislrae para esc/ever cousas, em que so pa- 
rece quiz ostentar que sabia fallar nvllas: 



(r) Fleur. Diicurs. j:iimKÍr« íob;* aUistori;» tr- 



a8 Vida do Padrí 

qneo seu estilo ás vezes é tliffuso, e rctlur» 
dante, e tem tlemaziaxia simplicidade, e tal- 
vez falia de elegar.cia : e com çstes defeitos 
como se pótie aju^ítar o que dissemos do seu 
juizo, da sua eloquência , e da su2í probidade^ 

Coiiíesso que estes defeitos são graves, 
e que por si só desiustraiiáo grandemeule 
um Escritor; mas eu hei de mostrar que 
muitos delles não os ha no Padre Fr. Luiz de 
Sousa; e esses, que ha, não diminuem a 
cicelleucia dos dotes , que cu apontei , c Hz 
ver iieiltí, e que sempre íica salva a sua au- 
toridade, e merecimento. 

Quanto ao dizer-se que parece ter paixão 
pelo Santo Arcebispo: ttl-a-hin o Padre Fr. 
Luiz de Sousa , se cu lhe occuUnsse os de- 
feilcs, ou llie ampliucasse as virtudes. Quom 
lhe confessa geuio ardente, e forte , e seve- 
ro , quem mostra que elle se enganou algu- 
mas vezes , não merece nome de apaixonado. 
Em aLono da sua Ordem é necessário que 
refira o que acha provado; e tau)l)em é justo 
que assim o faça ; e se alguma vez parece 
que lhe níio devia ter sido bastante a prova, 
esta culpa ab honestíssima sone causa pro* 
fecta , com'» disse um sábio Critico a respeito 
de Tito Livio. A origem da Inquisição , que 
atlribue á sua ()rdem ; S. (loncalo d'Ama« 
rantc, que conu cnire o> Santos delia ^ Fr. 



Fr, Luiz de Sousi, 15 

Soeiro Mendes , que dá por Porluguf z , sáa 
toiísas, que prora com documentos. 

Assim é c[iie se detém em descrever lu- 
gares como Poeta , por exemplo , o Convento 
de Bemfica ; mas alem de que nesta parle é 
boa satisíaçãa o exemplar que imitou, e o 
aífecto,que lhe merecia uma Casa, onde ti- 
nha recebido do Ceo graças especiaes ; é 
certo que isto não é impróprio na Historia , 
a qual esi . , , , próxima poetis , et quodani-^ 
modo carmen solutum , como diz um graúda 
Mestre (i). As autoridades Latinas são muito 
raras, e muito brevts , e nesta parte con- 
descendeo com o seu século : e assim ao me- 
nos, nno desmerece perdão. Os documentos], 
que metteo na Ghronica , podia escusaUos, 
assim hc ; mas ou julgou que a natureza 
desta escritura lh'o pcruiittia , ou que alli S8 
conservarião mais seguros para todo o tem- 
po. 

Quanto a dizer-se, que parece ser um 
tanto crédulo , e menos critico em algiins 
factos: ol^adieFr. Luiz de Sonsa era homem 
de piedade, c prudência s#)gular*. creio quo 
\endo os seus documentos, ;io tempo de es- 
ciever dizia comsi«fo com melhor razão , do 
que Livio (:>.) : Mí/ii vetustas rcs scribcníi^ 

(i) Quiiit. I. 10, Cij). i. 
(a> Liv. 43 Citp. li. 



2o ViDi. 3o Palrr 

f}escio quo pacto , antiquiis fit nnimus ; ef. 
quaedam Reli^io est ^ cjiinc prudcntissimi tn- 
ri.., snscipienda censiierunt , en pro inclii»riis 
hahcre. quac in incos annaies r.^fcram. Jti^to 
mesmo podiíiinos rer.pondcr acerca fl:)5 visões, 
c dos milaí^res; a siu\ pie(l:i(le certamente UA 
causa de se inciirar mais a referil-os. 

Se parece que se desvia do seu caminlio 
para descrever ou o sitio de i\Iazn2[:u), ou as 
festas da Trasladação do corpo do Santo Ar- 
cebispo: no primeiro caso o amor da palri^ 
o jUSliOca : no secundo o afjradeoiniento ás 
nnezas , que a Villa de Viana tinlia obrado 
em obsequio do mesmo Santo Arcebispo, e 
da sua Ordem. Se o estilo parece ali^uma vcx 
ílifiuso , não é com excesso ; e a dureza sin- 
gular, e a graça maravillicsa, com que sem- 
pre propõe o que tliz , fax que possamo» 
dizer , (]\\q a brevidade tao estimável no 
Historiador d'n>crsis viríiitlbus conscciífus esf, 
como Quintiliano diz de Tito Livio a res- 
peito de Salusllo. A simplicidade, que Fr. 
Luiz tem, sempre é nobre, ainda em oscaso"^, 
euí que parece seria difficultoso que assim 
fosse. O successo aconfet ido á comitiva ôo 
Arcebispo nas alturas de 13arr4>sn , sendo 
cousa emsibumilde, couseiva eui a r»arrac5o 
todo o ílecoro, que se podia desejar, l (K'Stc 
modo coucluinios a respeito do Padre Vr, 



Fk. Llí2 dl Sousa. 5i 

líuiz de Sousa , como um tios mais sábios , 
c eruditos proíessores da Eloquência , que a 
Europa vio neste século, conclue a respeito 
de Tito Li vio (i) : íla praestitit , . , iit si mi' 
nas , ccteris omnibiis dicendus est praeripuisst 
palmam , ceríe nidli secundtis haberi possit : 
tíc si Historiarurn scriptori atile dulci miscere 
safficerel jjruslra cjaidquamperjectias inveni» 
retur . . . paulluluni claudicavit , et huinaiii 
aíiquid passas est ; sed iía , vt calpam eausa 
culpae elevare plcramquô videatur. 

Tenho satiífeito o a que me obriguei no 
Prologo que fiz á Vida do Santo Arcebispo: 
e á yista do que ate aqui tenho escrito pare- 
ce, que não comecei desacertadamente a 
resusciíar os nossos primeiros Escritores pelo 
Padre Fr. Luiz de Sous:» , para delle passar 
a outros, que nos resiáo, e são em maior 
numero do ({ue comniuniuienre se jul^a. Es- 
pero conseguir o meu projecto pela protec- 
ção do nosso Augusto Soberano, e pessoas, 
que amão o bem publico dos seus naluraes. 
Pois devo confessar o que experimento : ain- 
da ha aqucUes briosos aíilrnos antigos, bons 
compatriotas, que estiuíãoa honra , e as le- 
iloas , e desejão ou imitar , ou igualar os jquo 
mais patrocinarão os estudiosos. Quanto a 

ii • . — . ■■ 

(O lu PraíÍAtt avl iiv, llui^r. i)rop, fio. 



3^ TiDÂ DO Padm 

ilizer-se, quesó enrre nósé próprio o critlcif 
mulignamenLe , é giando erro. Não succetle 
entre nós nesta parle n<;dd niais do que suc- 
cedc erjJ:re as outras nac^íes :se ha invejosos, 
e njaii^nos , ha iiiiiito quem estime o estudo , 
ea appiicaca\). Am bom Cidaiifío toca ocori- 
solar-se com o hcin que íáz, anjar a qnein o 
palrociíia , e a quem lhe Inveja, olhar para 
elle conforme a Lei da ile]i<rião verdadeira. 

o 

A beriijrna arceilação , que cxperiírento, 
fará que desattenda qualquer critica menos 
judiciosa. Esta he a minha resolucáo, e con- 
tniuar em servir a pátria quanto eu puder. 
Resta aj^ora trasladar aqui as autorida^ 
des dos homens sábios, que fallirão sobre o 
merecimento do Padre Fr. Luiz de Sousa, 
ou o honrarão pelos seus talentos. Primeira- 
mente : 

O eruditissimo , e sn])io Critico D. Ni» 
cnláo António Tora. 2. Dibliol. Hisp. pag^. 

52. 

In^rtriiam ele^ans ^ excultumque efiarn 
Rhctohcis , ntqne liuiiianitatis art,Ous y judi' 
cium in paneis runínruin , miraque ^ ac eX" 
^ uisíta Lu uía n i o ermo 11 is facúndia . 

João Soares de Brito Thealro Lusit. lit. 
L num. 47. 

Pvacdarum Lusitanae eloquêiitíã* spcm 



Fr. Ltiz DE Sorsi. 33 

Mapoel de Faria e Sousa Tom. i. dos 
Comnícntos das Rim. de Cani. Juizo das 
Kini. 

Fué iin Ccwalhro de miicho inferno , y 
tan insíTuiclo cn las letras humanas, qu& 
hien pudo jusgar de ingenios siirefioi inc/itc 
ornados delias . . . Escritor nó menos cuerdo, 
que elegante^ 

Fr. Agostinho de Sousa na sua Censura 
duda em it^ de Sete;nbro de 1622. 

Estilo grave ^ e elegante, sentcncloso ^ 
com brevidade , e clareza juntamente , que cm 
poucos se acha. Linguagem natural , canente, 
e coriezãa , com termos tâo próprios , signiji' 
cativos, e e/Jicazes, e longo de ajfeites,' e ar^ 
iijlcios viciosos, que sem encarecimenío podc' 
71ÍOS affrmar , que dos livros , que até o pre^ 
sente são escritos em Poitugiiez, nenhum se 
achará de mais policia , e peijcicão. 

j\lanoel Severim de Faria : Disc. var, 
Disr. 2. da ling. Porlug. Lsta paite . . . (falia 
da Histííria} tâo estimada , da eloquência^ 
SC vè perfeitamente exercitada em varias histo- 
rins , compostas cm nosso unlgar, . . Biíste-nos 
pnr ora três, que sÚo João de Barros, cos 
J^adrcs Jouo de Lucena, e Fr. Luiz de Sousa; 
dos quacs João de Barros c tido por narâo 
cfonsummadn naquelle género de escritura . , . 
O mesmo podemos dizer do Padrtí João d 
2. 



54 VinA. DO Padue Fr. Luiz de Sousa. 

Lucena , , , E das obras do Padre Fr. Luiz 
de Sonsa se não podem esperar menores lou' 
cores , que o tempo qualificador dos engenhes 
lhe concederá brevemente nas outras provin-^ 
cias j como já lhos tem começado a dar neste 
Hei no." 

O erudito A})bacle Diogo Barbosa Ma- 
cbarlo na Bibliotheca Lusitana pag. i45. 
Tom. 3. 

Toda a pureza do idioma Portuguez, 
toda a elegância do estilo Romano , e ioda a 
pompa do artificio Bhetorico se tem religiosa- 
mente observado nesta historia , em cujo theti" 
tro apparecem diversas figuras mais ornadas y 
quando mais despidas de pomposos cpithetos , 
explicando altos conceitos com termos humil-* 
des* 



55 



PROLOGO AO LEITOP,. 

eirado parte da Caria dedicatória, que Lou- 
renço 5inrio fez no principio das obras deste 
Santo Varão, traduzidas do menino Surio de 
Allemão em Latim ; parte do Prolof;o, que o 
mesmo Autor fez ante o principio da vida , 
que aqui vui iresladaia cm vulgar , e de ou" 
tros Autores, 



A Vida {diz Surio) do Beato Henrique Siiso, 
ainda que diffusa , nao contém lodos os seus 
feitos dignos de memoria , n'as só uns 
poucos dos muitos, que obrou: aqnelles, que 
lhe parc^cco n)nnií"estar del)aixo de nome 
alheio. Porém no livro, que nos veio á mão 
escrito na lingua vulgar Tudesca (de que 
traduzimos alguns trabalhos , e eslutíosseus) 
se contãoalguu:as cousas ainda que senj nome 
dj Autor , as quaes não se acháo nesta sua 
vida mais larga; mas parcceo bem pr(q)oI-as 
aqui, por evitar prolixidade , seasaítres- 
cenlassemos á mesma vida. No baptismo lhe 
foi poiT o nome de Henrique, porém tanto 
\ .0 ao admirável gráo de 5anlidade , a 



ZS pROLoe# 

que chegou , Deos lhe mudou o Tjome fie 
Henriíjue em Amando , o qual v.]\e em qii.tuio 
TÍveo nfio quiz nianit<'Star por huniihlade ; 
mas achou-se í!ej3()is de sua morte entre as 
revelações, que o Senhor ibe tinha feito eia 
Tiddr , como o mesmo Deos lhe puzera este 
nome para declarar o singular amor divino , 
em que seu coração andava ahrazado. O so- 
brenome não qiiiz tomar do pai, posto que 
fosse de nobre, e couliecida geração, mas 
tomou oappellido da mãi, matrona santisòi- 
ma, para se estimular a seguir snns pisadas, c 
imitar suas virtudes , e assi não se chamou 
Henrique Montense,como seu pai, mas Hen- 
rique Suso , comosua mãi. Tanto qu&tomoti 
ohahito de S. Dou)lngos no Mosteiro de 
Constância, logo aproveitou muito na tíjIu. 
de : e sen lo mandado aos estudos a Colónia , 
fei t.ies progressos nas letras , que estava já 
para receber o gráo de Doutor em Theologia, 
fjuantio lh\) prohlbio o Espirito do Senhor 
Jl^lSlJ, dizendo que assds estava ensinado para 
se aproveitar a si , caos outros na pregação , 
c por tanto, qtie deixasse de tomar o titulo 
de honra. Logo que começou a pregar o 
fazia com tanto fervor e efficacia de espirito, 
ípie veio a ter gr.inde nome de predador 
Evangélico. No prógir tinha este modo de 
dizer, quando queria persuadir alguma cousa, 



Âo Leitoh. Zy 

e fazer attentos os ouvintes : Ouvi , dizia , vos 
rogo que dá brado Suso , í]ue conforme o 
seu nome soa , o njesrr.o que levantar com 
seu dizer o auditório para o alto Ceo (|jor- 
que Suso em Tudesco é o mesmo que sufsnni 
em Latim , que quer dizer no Portuguez 
para acima). Destas, e outras similhantes 
formas de dizer usava na pregação njui vivas, 
as quaes se não podem bem declarar no La- 
tim, e por conseguinte , nem no Portuguez. 
Os seus escritos leve muitos annos escon- 
didos-^com propósito <.ie que ninguém os 
visse se não depois de sua inortc , e isto por 
sua modéstia , e recoiliimenío grande, até 
que o começou a esperlar um escrúpulo, 
que em quanto vivia os desse a ler ao seu 
Prelado, para fjue podesse iacilmente dar ra- 
zão das dúvidas, que neiles se achassem , 
porqiu; podia succederque alguns idiotas (de 
cujos juizos se não deve fazer mui lo caso) 
com animo danado não pondo os olhos na 
pia altenção do Autor , anles por sua ru- 
deza , c laila de letras não peuctrando a suh- 
staneÍA dos escritos , os quizcssem mordor , 
e o que mais era para temer, podião vir de- 
pois delle morto a mãos de alguns fri«is na 
virtude , e faltos de espirito , í[ue não porião 
cuidado algum ]ielos tiiar á luz, e commu- 
iiicar aos [uu3 , e desejosos dg os ver j [ura 



38 Prologo 

louvor do Senhor, antes os podcilão mostrar 
primeiro aos faltos de diicurso , e razão na- 
tural, e mal acustumados , os qutes por sua 
malevolencia os sipciltarião como muitas 
Tezes acontece. Tomando pois disto con- 
fiança, tirou de seus escritos as proposições 
nialsprincipaes , e maisdifficultosas, edeu-a* 
a rever a um Doutor em Theolo^^ia grande- 
mente alumiado no espirito do Senhor, do- 
tado de grandes partes , e dotes d'.ilma, que 
então era Provincial dos Frades Pregadores 
em Allemanha, por nome Bartholomeu, o 
qnal as lou com muita attencão , e cuidado, 
e deu sol)re ell.Ts seu parecer , approvando-as 
por t«das as vias , e moilos que se requerem, 
declarando serem pontualnjente conformes ás 
Sagradas Leiras. K como apoz isto quizesse 
cntres^ar ao mesmo Doutor Bartholomeu to- 
das as outras snas obras de menos ditficul- 
dade para que as examinasse , fallecendo 
o Doutor neste meio tempo , náo pôde irr 
efíeito o sen bom desejo , de que se começou 
a entristecer , e magoar muito, não sabendo 
que fizesse: mas orando por isso mui de veras 
a N^osso Senhor, para que fosse servido nia- 
nifeslar-lhe o que mais convinha, appare- 
ceo-lhe o dito Theoloí^o cercado de grande 
luz, e ilisse-lhc, que a Ocos era mui agradável 
o divui^arclleseus eãcritos, ecoinmuuical-o» 



AO Leitor. 89 

t todos os pios; o que fez muito de coração. 
Dos quiies escritos (diz o mesmo Surio no 
Prologo citado pouco depois do principio) 
a estimação , que se deve fazer , poderá só 
conhecer , quem os ler não de passagem, © 
cumprimento , nem só por curiosidade de 
achar cousas no\as, mas com observação 
religiosa , e pia attenção , porque creio niio 
haverá corarão tão de pedra , que pondo Loa 
diligencia, e cuidado nesta lição, não haja 
de sentir em si nova luz da divina gi^aça, 
c tal mudança , qual nunca experimentou, 
porque de propósito em todos os seus escri- 
tos o que mais procurou he dar luz aos cet,( s 
corações , trazendo-os ao devido conheci- 
mento de seu Crcador , desprezo do mundo; 
« amor de De os. 



4o Prologo 



O mesmo Surto no prologo antes da vida dê 
Santo Henrique Suso, 

yj Sanfo Henrique Suso foi rara o d« 
grande Santidade, esclarecido com muitos 
milagres, quasi da primeira idade fez uma 
■vida a poucos inutavui. Tove uma íiiha espi- 
ritual illustre em sangue, porém mais illustre 
na virtude ; a qual escondidamente foi tiran» 
do delle muitas cousas secretas de sua vida , 
que poz em memoria por escrito : mas sendo 
sentida do servo de Deos, mandou-llie por 
obediência , que lhe entregasse os paptis, e 
logo queimou quantos recebera daquelia vez: 
porém querendo queimar a outra parle, que 
depois lhe deu a Religiosa obediente , foi 
prohibido por divina revelarão: tlonde os 
que escaparão do fogo, tirou a luz om nome 
alheio, sem fazer menrão alguma de si pró- 
prio, mas noineando-se em todo o lugar só 
por Ministro da Sapiência, por fugir da van- 
gloria, i'^ pois certo que nesta suavidade se 
ochão muitas cousas, as quaes sem dúvida 
são as mais efucazes que pôde iiaver para iu- 
ilammar os corações ainda mais frios, e enrt- 



AO LiiTonJ 4* 

gelados no amor de Dens. Alguns que vi- 
vem nesta vida como brutos , dados ás cousas 
do mundo , soem enfastiar-se destas cousas: 
porém não df-ve de ser esse mdo exemplo 
parte para que os que desejão contentar a 
Deos, e não ao mundo , deixem de abraçar 
esta lição , porque o Senhor Deos ordenou 
que se nos escrevessem as vidas , e feitos dos 
Santos, a fim de queaquelles, a que n5o mo- 
vino as palavras , abalassem os exemplos das 
obias. Por tanto, ú pio Leitor, eu te peço 
afíecíuosaniente, que sejas contínuo , e dili- 
gente em resolveresta vida, porque o não fa- 
iassem grande proveito leu ; até aqui Surio. 
iNasceo o Beato Henrique Suso de pais 
nobres na Suevia, provincia de Allemanha 
alta , ao í{uc se cre, na Cidade de Constância 
a 2í) de Março , dia assinalado doPatriarcha 
i>. i3ef "o, mas não se sabe o anno. Seu pai 
se íbamava tio a[)pellido de M(;ntense , nobre 
e conhecido, e sua niãi do de Suso , ou Sizo , 
como í)uíros escrevem. Não temos os nomes 
próprios jielo muito que o Beato Henricjue 
€ncoi)ri<3 sempre suas cousas. O pai foi dado 
ás cousas do mundo , sendo pelo contrario 
a mai tão virtuosa e devota , que yjassando 
muitas tribulações por causa dos encontrados 
costumes do marido, Kulas as levava l»cni 
com a Uieditacúo da raixT^o do Senhor JIíSU, 



^2 Prologo 

na (Jfial era tão contínua e favorecida, qn9 
em todos os 3o annos antes de sna morte , 
não ouvio Missa em que não tivesse particu- 
lar , e intensa compaixão das dores do 
Senhor JESU Crucificado. 

Em Constância tomou o Beato Henrique 
o habito dos Pregadores , sendo de pouca 
idadej porque como consta da sua vida , cap, 
XX. , aos i8 annos foi alumiado com par- 
ticular ^raca do Senhor a melhorar a vida , 
havendo já passado alguns tempos na Ordem 
com íloxid^o. Depois de sua conversão esteve 
obrando só comsigo primeiro a sua vida em 
silencio 8 annos contínuos, sem se conimu- 
nicar aos [)roximos, no íini dos qu.ies lhe íoi 
mandado por Deos que saísse a pregar. Dis- 
correndo então por toda Allemanha alta, e 
baixa fez grande fructo nas almas , mas com 
esta differcnça em seu tratamento, i>e dos 
i8 annos de sua idade, que foi o pritneiro 
de sua conversão , até os 4'» "^o aílouxou 
nunca nas suas penitencias asperi>simns, em 
que se passarão 22 annos : porém depois por 
amoestação do Ceo remitiido o rigor das 
extraordinárias penitencias, mas nuncii o da 
regular observância, continuou muitos annos 
no aproveitamento das alnias, com raro 
exemplo de paciência nos trabalhos , e peri- 
gos da vida , e luíura em fjue Nosso Seubor 



AO Leitor. 4^ 

o exercitou, não menos extraordinariamente 
(lo que ellese tratava na penitencia corporal. 
Destes exercicios, que forfio muitos, ainda 
que não se escrevem todos , como se vê do Ca- 
pitulo XX. de sua vida, secolllge,que a sua 
idade foi larga : posto que se não saiba o pe- 
riotio certo delia, por nos faltara memoria do 
anuo em que nasceo, com tudo sabemos que 
não passou de 2 5 de Janeiro da era do Senhor 
de mil e trezentos e sessenta e cinco, em que 
deixou esta vida presente pela eterna no 
Convento de v lona, onde vi veo muitos annos. 
As obras, que cumpoz, forão muitas , e to- 
das deediíicaçuo , massó temos as seguintes: 
O Dialogo da Sapiência , era que falia a Sa- 
piência com o Ministro. Quatro Sermões , 
dos quaes vai aqui traduzido o primeiro para 
remédio , e consolação dos escrupulosos. 
Doze Epistolas , das quaes se poz aqui tum- 
Lem a quinta , tiaduzida em nosso vulgar, 
como em protestarão do anin)o, que fez sair 
á luz esta viíla do Beato Henrique nesta im- 
pressão. A's Epistolas se segue o Traíado 
das Lioclias , quejúanda trailuzidoem \uli;ar 
Cdsteihano. Logo a vida que aqui se p'>e; tle- 
pois Cem iMeditaçòes da Paixão, \i no fim 
uai Exircicío dos Ministros da Sapiência , 
que aqui ajuntamos por ser de\oto , e lard. 
Compoi mais o Ojjxio quotidiano da S.i- 



44 Prologo 

piencía, que trazem as Horas de Nossa Senho- 
ra, segundo o rito dos Frades Prégndores, ea 
Missa própria da me^mn Sapiência, Outras 
obras suas, e sermões se aclifio entre os es- 
critos de João Taulero, Varão taml)e!ri de 
granrJe vida, e doutrina da mr^sina Ordem 
dos Pregadores, insigne pregador em Alle- 
manha, donde foi natural, e falleceo com 
opinião de santidade. 

O Beato Henrique não é Canonisadopsla 
Sé Apostólica , mas intitula-se Peato de tem- 
po immemoriavel nas Horas de Nossa Se- 
nhora, segundo o rito dos írades Pregadores 
no principio do Officio da Sapiência , asquaes 
Horas sempre são, e forão especiahnente 
approvadas pela Sé Apostólica , e oulrosi é 
contado entre os Beatos Con/Vssores da Or- 
dem dos Pregadores, que traz o Calendário 
Dominicano no fim. Além disto nas Provin- 
cias de AUemanha alta , e baixa , que é Frau- 
des, se re/a do Beato Henrique pelos Frades 
Pregadores com o Oificio próprio; venerando 
sua ímacjem com altares levantaclos <?m seu 
nome, enáo é muito ([ue se nos commuuique 
aos Frades de S. Domingos deste Reino, por- 
que lambem elles lá não rezão de S. Gon- 
çalo, sendo para com nosio tão conhecido, 
íaltando-lhe ainda a (^auonisaçáo , de quem 
rezamos só por huma licença, que alcançou 



45 

ElFxcl D. Sebastião. Ajunta-se a tu Jo isto ser 
« nosso Dcato Henrique celebrado por Santo 
também de tempo ininiemoraTel nos escritos 
dos Var5es pios, e doclos , como é Surio, 
que tanto apregoa sua santidade, e mila^^^res 
«os prólogos acima , e em outros muitos lu- 
gares,escieveudo noauno do Senhor de i555, 
quefazembojc perto de cem annos,suppondo 
A mesma Hadiçáo deduzida até seus tempos, 
não fazendo aqui menção de nossos Escri- 
tores , eCironicas, que de sua santidade, e 
milagres t'at5o largamente , como é Fr. ]Mi- 
guel Pio ím Toscano , c Fr. Fernando de 
Castilho, 80 Bispo de Monopoli, aquellena 
segunda patê, e este na sexta. Bzovio no 
Tom. i4 do;Annaes Fcclesiasticos , Anno do 
Senhor 1 36:, onde diz que em vida , e depois 
da morte ílcreceo em irrandes niilafTTes. O 
mesmo diz Fi António de Sena no seu í.hro- 
nicon ad an. 3^o, onde lhe dá tit. de Beato. 
]\íolnno nas aUlições ao AJartyrol. de l:si!ar- 
do die 25 Jai. Fr. Estevão de S. Tnio in 
Stcinmat. Orànis. pnc^. o.^m, Fr. I.(nn(ho 
Alberto de vifs iliusfr. Ord. Praei/. Uv. 5. 
Bti\A tm.de Scnj, Eccl. pag. 384. 



íí 



EPISTOLA 



Em ordem V. das Obras do Brato Henrique Suso, 
da Ordem dos Prèí^ddores , Iradnzidide Lnfhrt 
fm vulgar por um Religioso da iftirrK^ Ur- 
dem, 



jfxLegre-se altamente a multidão dos Santos 
Anjos liahitadores das moradas celestiaes 
E testemunho do Senhor JESU lo Evange- 
lho, que faz o Ceo grande festana conver- 
são de um peccador á verdadeira penitencia. 
"Veio á noticia do Ministro da I'>riia Sapiên- 
cia , que havia uma mulher deião rara for- 
mosura , e graça nos olhos dos lomens , que 
muitos eráo íeiídos do seu lUior lascivo. 
Doía isto muito ao Ministro d Sapiência, e 
desejava cortar as raizes de tacanhos escân- 
dalos, e perdições de tantas amas, tr.izendo 
aqiieUa perdida a Deos, panyjue nella fosse 
o Senhor louvado , e o Anjc da sua guarda 
delia tivesse particular ghyia , e todos os 
mais Anjos com sua conveȋo gozo espiri- 
tual : e os homens tomascm exemplo de 
emenda. Pelo que com tods as forcas de seu 



Epistola do Beato Henrique Scso. ^7 

«spiriíoseapplicou a rogar a Deos pela con- 
versão taquella alma , e mui em particular 
iniportujava muitas \ezcs a Virgem Sacra- 
tíssima Ãaiíle Duos Estrella do mar resplan- 
decente. oedinclp-lhe com grande aífecto, e 
contínua jrarão, que alcançasse de seu Uni- 
génito Fiho luz áquelle coração tão entre- 
gue ás co.sas do mundo, cego, e escurecido 
com as esjcssas trevas dos muitos peccados, 
para queipartando-o delles o tr»juxcssc a 
Deos, Ouvo a Senhora os rogos de sexi servo, 
e íoi dadatal graça áqneila alma mundana , 
que suhitíaiente se converteo a Deos mui 
de veras, d» que recebeo o Ministro ' tama- 
nha alegriaia suaalnia, que, como fura de 
si bêbado dtjubilos espirituaes, Iheescreveo 
esta caria. F>rém como dahl a muitos tem- 
pos íizesbo ei-tdba de seus papeis, ode mul- 
los separassi estes poucos, deixando tO(I;js 
os mais por forrar ten)po, chegou a esta 
carta , e verulque não contiiiba xnais ou'i»a 
cousa senão ui jubilo, e excesso de alegria 
espiritual, teino que vindo á tino dos lio- 
mcjis de durosç sêccos corações, lhes p^arc- 
ceriasemsaburjidcneulium Irulo,' portanto 
a j)()Z de parte, -orem logo na njadiugada do 
dia fegníntif, qn era a oitava dos Anjos, em 
visão cípirituaihe apparerêião niuifeos cs« 
piiitos Augeiico cm fóima de njar^.cchofi 



4^ KiisTOLA f>o Beato 

formosíssimos, os quaes o rcprchenclôrao do 
haver posta de parte , e risc^iila aqudia car- 
ta , exhortando-o a que do novo a escre- 
Tesse; o que tez, começando-a comas pala» 
Tias do principio. Ale^^ra-se grancfen)k''iti* a 
multidão dos Anjos liahitndores d:» nioradâS 
Celestlaes. etc. E sendo-nic cntãc commu- 
iiioados raios de luz , e clarldadeespiritr.al 
pela respUndecenre Estrella do r]ar a Vir- 
gem Santissima Mãi de Deos , coi os quaes 
desapparecendc) todas as névoas d meu oo- 
racão, ledo e prestes saudei a cesma Se- 
nhora com todas minhas forças , hgo na pró- 
pria iiora para mim saborosissin)a lompi com 
a fortaleza em vozes tle grande ctfitentamen- 
to, que chegavão ao Ceo, dizndo: Sejais 
Estrella excellentissima do mar»audada com 
affectos de amor sem limite dos ue muilíi vos 
querem. Convidava aos Santosinj(\s (jue me 
havláo apparecido , áquelles laneehos for- 
iTKísissimos vindos do Ceo , p;*a qne conngo 
á competência com melhores t mais esforça- 
das vo^zes saudassem a Dulcisima, e Escla- 
recidissima Rainha dos Ceos por haver com 
rTandes, e formosos raios rhsua luz illuslra- 
do o coração daquella mu^er, depí)is que 
por ella ouvio meus rogo, e petições. O 
meu espirito exaltado comíanto gozo dava 
altos louvores áquella Co^'iúal Jerusalém. 



rt.HEKUiQUE Sdso. 49 

Bogíiva sera cessar áquellns dlninelas sin- 
gulares , áquelles niatlnetes suavíssimos 
lios campos da ç:U)ria , qne me ajudas- 
sem a canlar em voze*? altíssimos louvores 
ao Senhor em reconherimento de sna rrande 
magiiifice!>ci:i. Tornava logo a levantar o 
rosiro,c olhos so Geo, e treshtirdando oro- 
raçáo de contentamento dizia : Alegre-se íjran- 
demenie a multidão dos espíritos angeti<os^ 
hahitadores das moradas celestlaes: ó como 
á vista de tar»to ;^'ozo desapparece titdo o que 
ríesu vida padeci de ma^oa , e < ontrariedade. 
Párecla-me que estava então na i<]adedeNero,' 
represeniava-se-me , que andava passcamlo 
pt^os prados, e jardins da ç[loria, e tornava 
a dizer : Alegraí-vos nobilíssimas Jerarchias 
dos espíritos Angélicos, qne viveis nos pastos 
ceiestiaes , haja festas, dai vivas , eiUoai mu- 
sicas portão alegre nova. Ponderai .vos ro£;o, 
com a devida admiração com.o a fdha perdi- 
da tornou á casa de seu pai , a filha da con- 
denação foi recuperada , a que já era morta 
veio á vida , e resuscitou , aanelle prado e 
jardim da natureza, ornado de flores , não 
menos formosas que aprazíveis , o qual á sur 
Tontade paslaváo as he-^tas , vt*de romo é 
renovado em sobrenatural formosura , já 
íorão lançadas delleas bestas feras, já brotão 
novas flores de graça á competência. As eu- 



5o F.p:stola do Beato 

trácias , eporlaes, dantes tão devassos , já sao 
fechados, e seguros. Oc.impo alheado donies 
a sen possuidor lhe é restituído. Pelo ^^jue, 
vós ó órgãos dos Ceos, ó dextros na rilhara, 
<) mestres insignes dashar[)as, e laudes da 
gloria , entoai uovos moteltes, sue a nielocia 
por todos os assentos, e retretes da Celestial 
Jerusalém. Pero-\os com todo o encareci- 
mento da minha alma, que por isto mais se 
tngrandeça vosso gozo, por quanto a desho- 
Lestissima Vénus, deusa da lascivia gentihta^ 
foi arrancado oseu coração. A grinalda mais 
prima lhe foi arrchatada da caheça. Aqucila 
boca tão sua amiga mais dextra em conciliar 
amores profanos emmudcceo de lodo para 
elles. O mundo enganoso , o amor caduco , 
immundo, e falso abaixa já o pescoço en- 
tonado: e quem haverá , que de hoje em 
diante apregoe iuais teus louvores? qiiem se 
deixará prender de teus enredos ? quem 
íinahnente haverá que queira neste mundo 
ser-te amigo , guarJar-te corlezia , oudir-sti 
t tuas vás occupaçóes, e serviço? Já aquello 
veiJe ramo para ti seccou , e reverdecendo 
ílorcce só p.na Deos : do que loilos os que 
deveras amáo ao Senlior , gozosos o engran- 
decem, dandodhe altos louvores por esta 
admlra\el mudança, dizendo: A vós Senlior 
seja dada toda a gloria , por quanto só vó« 



Fr. Hb:íriqtie Suso. õi 

fazeis estas grandes maravilhais nos nivilores, 
e mais desesperados peccadores ; fíuc ainda 
que em todas vossas obras, ó dulcíssimo , e 
todo pí)deroso Senhor, sejaes amável, e di- 
gno de infinito louvor , com tudo por muitos 
mais modos sois amável , e digno de louvor 
sem comparação maior nas misericórdias, que 
usaes com os miseráveis peccadores; áquel- 
]es , que tão longe estão do que merecem, 
só por vossa bondade, e misericoidia sois 
servido de attraír a vós. Este, Senhor San- 
tissimo, é na verdade o timbre de vossas 
obras , este c a formosura de vossa benigni- 
dade , este o enfeite de todos voss()S feitos 
mais lilustrcs. Nesta obra , Senhor, o moíite 
de ferro de vossa exactíssima justiça se dei- 
lou romper e paiiir para dar lugar á mise- 
ricorvUa , e bondade. Vinde pois a mim todo.^ 
os (jue tendes recebido do Senhor outro tal 
l)eneficio , e juntos todos em um tratemos 
iiiui de veras o como poderemos engran<Iecer 
a sempre bondade do Anantissinio bcphor 
e Pai nosso tão perdodílor de nossas culpas. 
Eia pois, ó Amantis5Ímo Serdior, não vô- 
des a cousa mais digua de a<lrniiaçáo ? Aquel- 
les, que andavão em braços com os montu- 
ros, ja hoje com ferventissimos alTectos de 
seu coração amorosamente se abração com 
Yosco. Aqutjllas almas, que honicui erão a si 



^2 Ei'ISrOL4 DO Bí\TO 

wesma5, e a outras occasiáo de rulra , • 
perdição, já hoje são pré;4adovas da suavi- 
dade de vosso amor, não sabendo falíar de 
outra cousa. Caso he de grande admiração 
Vã verdade, aquellas que hontem qiicl>rando 
de mimo , <; dejicias se não podião ter em 
seus pés , lá boje se tirem a si mesmas tantas 
cousas ainda das necessárias para a vida , • 
iítventáo novos modos de rigores, e aspere- 
zas corporaes, e de exercícios para hor.ra, 
e gloria vossa, só a fim do vos poderem. 
Senbor, agradar pura, e inteiramente; f 
aquellas que estavão cativas de demasiado 
amor de si mesmas , já se tem a si em lugar 
de hospede estranho , c peregrin»). A(|ue'- 
las, que sohiáo concertar-se com tanto cui- 
dado , para mostrar o como daváo de mão & 
vosso amor, agora é já toda sua occuparão 
como possfío , Senhor , e devão agradar só 
a vós. Aquellas, que d'ant(.'S como lobos rai- 
vosos erão estimulados de iras , e fúrias 
contínuas, agora como ovclhinhas niausas 
não abrem l>òca ás injurias, e mores atVon- 
tas. Aquellas, que dantes erão atormentadas 
com as rjgorosisílmas accusacófs i!e suas , e 
preversas consoien( ias clieias sempre de pro- 
fundas tristezas, feridas de agudas «citas do 
magoas infernaes, presas com cadèas não 
menos rigorosas, que as de ferro , indisso* 



Fr. HknpvIque Suso. 53 

lureis Inros dos próprios peccados , já ago- 
ra desembaraçadas, e prestes passando além 
de tudo o que o mundo pôde dnr com uma 
firme confiança , e solia liberdade se levan* 
tão tanto sobre si , já mudadas , q!io oiisão , 
e podem dar vozes, que chegão á pátria ce- 
lestial : em fim trocados de todo, não se es- 
pantão senão de como foi possível que algum 
dia estivcrão presas do amor do mundo, e 
de como viverão algum tempo nas trevas da 
obscura noite dos peccados. Ka verdade, 
Senhor, aqui venho a ver por experiência 
ser certo o que se diz, que o corpo se acom- 
moda ao espirito, e um bom natural se 
applica ás cousas eternas, logo aliiseacccndc 
um grande inceridio de vosso amor. Esta ena 
Terdade , Seidior , a mudança só de vossa nião 
poderosa. Estas são, Senhora , e Rainha dos 
Ceos , as obras de vossa piedade sem limito. 
Mas comtigo fallo agora filha minha em 
Christo muito amada , dá-me altenção , 
e adverte tu , e eu , e todos os que a nós são 
similhantes, como nos devemos liaver com o 
Senhor Omnipotente. Assi somos c>l)rigados 
compor daqui em diante nossa vida , que 
não haja quem nos possa nunca jamais fur» 
tar a Deos : da mesma sorte nos havemos de 
haver como uma escrava da cosinha, a qual 
o liei illustrc , e poderoso preferisse i pro- 



54 Ephtol\ do B>:ato 

pria Rainha. Não lia diivida senão qre essa 
escrava niimosa íaria extremos por se inosiiar 
agradeci Ja ao Rei, seria íidehssinia em o 
atuar, louvaUo-hia sempre de todo seu cora- 
ção , e quanto se visse mais indigna de fa- 
vores tão altos , lanlo se esforçai ia tnais no 
amor de sen Senhor. Não de outra sorte 
pois , nós peccadores devemos procurar ven- 
cer aos innocenies, e puros, que nunca er- 
rarão ; e se elles só n'um exercicio se em pre- 
gão por serviço de Dlos , nós devemos do- 
Inar o trabalho, e serviço do Senhor; se 
elles anuu) a Dcos singelamente, nós te- 
luos obrigação de redobrar o amor milhares 
de milhares de vezes , para que assim como 
antigamente nos não ficou cousa por fazer 
no emprego do mundo , e para grangearmos 
as vontades profanas, assim agora recompen- 
semos estes damnos , procurando com dobra- 
do cuidado trazer todos a Deos, e solue 
todas as cousas tralen>os de agradar ao Se- 
nhor , não menos diligentes no bem, do 
que o fomos antigamente para o mal. 

Torna, fdha , d memoria te rogo quanto 
lios era agradável nos annos, em que anda- 
van)os dados ao ntundo; 'achar quem antc- 
pozesse nosso amor aos demais, quem nos 
louvasse, e gabasse mais que os outros, e 
com particular aífcctu e tenção nos5egui>se^ 



Fr. TÍENRiour- Suso. 55 

como nós então nos persuadiam os ; quanto 
pois sem coniparação alguma será agora me- 
íiior a nossa sorte, e boa ventura, se o 
Summo Bem , o Senhor Deos toclo poderoso 
nos amar, não de qualquer maneira, rijas em- 
pregando em nós seu cuidado ? Consicitra, 
filha, quanto trabalho custou muitas vezes 
chegar a poder lograr uma hora um amigo 
da terra, da qual se 'pesares as cousas, e 
ainda as palavras, pouco, ou nada se tirou 
deallivio, e recreação. Quantoserá pois mais 
acertado sofrer também agora alf^um tra- 
balho porgrangear oser amado de T)eos? Por 
sem duvida tenho , ó Eterna Sapiência , que 
se todos chegarão a ver-vos com os olhos inte- 
riores, como eu vos vejo, que logo ao mesmo 
ponto se apagaria nelles todo o amor das 
cousas terrenas. Não posso. Senhor, acabar 
de declarar o espanto de minha alma, ainda 
que já o meu juizo foi bem differente nesta 
parle , de con)o possa haver coração, que se 
empregue, e assocegueem amar outra rcuisa 
fora de vós, ó abysmo de toda a bondade ; e 
outrosi, não menos me admira o porque 
vos não manifestacs , Senhor , aos taes misera- 
Tcis. E sobre isso ver o cuidado , com que 
os amadores do mundo auílão cobrindo , c 
dourando tudo o que nelhi lhe pôde dt-sn- 
gradar, tudo o que e disíorme, e á'jh» 



5(j Epistola do BhVTO 

ctiioso?e pelo rontr:irio se alguma ro usa tem 
que po3Sti parecer bem fJessa pintada, e men- 
tirosa formosura , ctmi que diligencia ariíno 
á praça, e quanto scofem se nrio ê I>em sabi- 
da, e visia (lo seu amaflo qnalffuer apj)aren« 
cia Ji3 lustre seu próprio , e quaiido vem :í 
experiência fpara qut; diga tudo numa pala- 
vra) não aciíMo outra cousa n)ais que sacos 
de esterco : dos quaes com razão se pudeia 
dizer, ó queJii vos tirara a pelle de fór.j ? 
então se viw claramente, i[u:\o medonlio 
monstro é a apparescia. Porém vós, ó Escla- 
recidissiina Sapiência, agora encobris o que 
em vós é amável, e só manifestais o que é 
de pena , e moleflia. Descobris o que é 
áspero, retendo eni segredo o que é suave. 
Mas porque o fazeis assi óBenij^nissimo JESU? 
Seja-iiie, Senhor, licito com licença vossa 
dizer uma só palavra, porque nao me posso 
conter. O' sevos, Sjnhor, me quizcsseis ! ó se 
vós me amasseis JESU dulcíssimo I ó se eu 
Senhor vosso mimoso fosse ! Haverá alguém 
que creia que eu sou amado do Senhor 
JESU ? A isto só asjiira. Senhor, a niinlia 
alma ; o meu corarão , Senhor, se engran- 
dece de gozo , e salta de prazer só em cuidar 
que sou de vós amado. Tanto que me vem, 
Senhor, isto a memoria, tamanho co gozo 
que recebo, que quem quizer atleuUr bem 



Fr. rÍKNT.rQrs Snso. Sj 

tn'o poderá cie fora conhecer , porque tudo o 
que ha em mini se «lerrete, e eatpap* com 
alegria. Se me dfiãoíi oscv^lher, nfio podéra 
desejar cousa mais sul>lÍ!iie, nem iniiisaí;ra- 
diivel , nem mais 5ah(írosa, do que ser de Vvós 
querido com singularidade, e que pozesseis , 
Senhor, com particular aífecto os olhos de 
vossa benignidade em mim , porque isto, Se- 
nhor, quem haverá que (Uividc queé o Reino 
dos CeosP os vossos (dhos resplandecentes. , 
Scnlior, vencem es raios do Sol sem comp;»- 
ração : a Tossa boca é suavissima a quem t:o 
manifesta ; o encarnado so])re a mesuia al- 
vura de vossa face , assim da tiivina, como da 
Iiumana natureza-: finalmente a. sem par 
composlura de vessa pessoa sem comparação 
cxcedi3 tudo quanto o desejo mais levantado 
pôde alcançar nesta vida corporal. Quanto 
mais, e mais se apura vossa grandeza sobre 
toda a matéria corporal , tanto sois, Senhor, 
mais amável e aprazível, ecom tanto mais im- 
menso gozo se se logra vossa prcs;;nça. Tudo 
o que se pode imaginar de formoso , amável 
e de lustre em vós, ó siiavissÍ!uo Deos , e 
Seidmr, sobre todo o encarecimento se en- 
cerra com inestimável perfeição. Náo é 
possivel achar-se em alguma creatura cousa 
agradável, e de saber, ou estimação, que 
por modo purissimo com iufmiio exccí>so 



58 Epist. do B. Fr. Iíí-nriqtjs Suso. 

«enao veja em vós, o Senhor de tutlo. Por 
lanto vós outros nvjrtaes, lião vos passe |;or 
alto, antes com muita considera cr» o adverti 
que tal, e. lâo exccliciite é o incu amado ! 
Ê sendo esle , vede qne me quer a mim bom, 
ó {ilhas de Jerusalém ! O' Senhor, c quão de 
réras será ditoso aquelle , a quem vós que- 
reis bem, e que nesta vossa amizade for 
eternamente confirmado! Deos vos guarde, ó 
£lha minha, para sempre. Amen. 



Y I D A 



DO 



Beato Fn. HENRIQUE SUSO, 



DA ORDE.V Dos Pr.EGADOEIS. 



CAPÍTULO í. 

Em que se dá conta donde era na furai o Z?. 
Fr, Henrique Suso , e do tempo e idada , 
em que entrou na Religião , e começou a 
seguir o caminho da vida perfeita , e de 
como se escreveo esta historia. 



N, 



A grande , e estenJida província de Alie- 
man4ia houve uni Kelifjioso da Ordem do hí.s- 
so glorioso P. S. Domingos, natural de Sue- 
via , cujo nome era Fr. Henrique S':so. Vivia 
nelle, em quanto morou na teira, um ardente 
desejo de ser servo do Senlior, e não somente 
se contentava c<jm a obra , mas desejava ser 
havido, c conhecido piM- lai. Aconteceop«r 
discurso de tempo, que veio a ter conheci- 



6o Vida do Beato' 

mento , e pvntica de uma santa niiillier, qiie 
tciído píirticuiares favores no Ceo , tinha ila 
terra contínuos trabalhos e aíílicr^es : ecomo 
t;il desejava c&nsolnr-se com este religioso , 
cesíorcarseu cançiido espirito, ouvindo de!le 
algr.inas lições subré a niateiia do padecer, 
tiradas da ntuita experiência, que longa- 
inenie tinha teila em casos próprios: c isto 
jez muito tempo todas as tcz-cs que o \ia , e 
assim veio justamente a tirar delle com encii» 
]icrtas , e dissinjidadas pergimtas , que lhe 
fazia, a crdem , e priricipio de sua vida, 
e processo delia, e alguns exercícios, e 
maneiras de padecer, porque passara : o qu« 
tudo lhe descobria o religioso em segredo 
em snntn, e espiritual conversação. Mas elU 
Tendo qne manifestamente lhe rcMdtava 
daqui coiíSoh.çfio para os trabalhos, e ih>u- 
trina para a alma, foi pondo por escrito tu- 
do o (jue lhe ouvia para se aproveitar a si , 
e a outros: mas isto tanto a furto, e ás 
escondidas de seu mestre , qne não entendia 
elleo toubo espiritual, quosell.e fazia. ('.i>m 
tudo lauto que pelo tempo adiante o veio 
a sentir, rcprehendeo-a, e obrigou-a a lhe 
entregar o que tinha escrito , que logo quei- 
mou, t tornando-lhi- a dar outro dia alguns 
papeis, que lhe Cearão na mão , também iís 
quizeia por no fojo, jMas foi- lhe tolhida- a 



Fr. fTtzíRiQíUE Suso. 6i 

«I)ra rcm uma revelarão divina: e assim fica- 
rúo livres estes uUinios cí-critos, que (|ua>i 
todos eráo de mão da santa , aos quacs ella 
depois de seu íalUciniento ajuntou , e a He- 
ii^ião eni nome delia n)uitos outros docu- 
wentos espiriluaeã. Começou Fr. Henrique 
sui\ conversão ou os mais determinados prin- 
ci?)ios doila , sendo em idade de dezoito 
r. Tinos : j^oique sem embargo que neste tempo 
Lavia já cinco que eslava na Peligião , tinha 
;\inda o espirito inquieto,' e desasocegado. 
E se bem cou» o favor divino se guardava 
de peccados mais feios , e dos (^le o podião 
desacreditar, tod^avia nas culpas leves, e 
(omsiiuas era descuidado. IMas neste tempo 
tinlia o Senhor tal cuidadt) de sua guarda, 
que a toda a parte que se deixava levar das 
cousas, a (jue seus sentidos com natural 
í^osto , e deleitação se inclinavão, cm ue- 
nhuma acliava quietação , nem repouso. E 
parecia-lhe ((uo alguu)a cousa outra tinha 
por descobrir, que só podia dar paz, e verda- 
deiro descanço a seu vigoroso tspirito', e 
assim vivia com trabalho, andando nas 
ondas destas alterações , e dcsassocegos : 
ati'omentava-o intciiorniente uma contínua 
guerra da consciência, e com tudo não 
era poderoso para se ajudar de si mesmo, 
até que O piedosissimo Deos loi servido ir» 



(53 Vida do De ato 

Tra^-o (oin Tma conversão divina. Enxergou» 
se K;go iielle uma súbita mudariç;», que a 
lo(J(js causava espanto , imaginando no que 
|jOíleria ser, que assim o trocara, e todos 
davâo seu parecer no caso; mas ningutm 
por então acertou com a verdade , que em 
fim Ibi obra do Senhor. O ((ual por meio 
de um arreliatameiíto secrclo, e clicio de luz 
do Ceo obrou sul>ilamenle em Fr. íienriqua 
ftsla divina mudança , cujo effeito íoi dai cie 
isião a todas as cousas do mundo, e «ntre- 
gar-se todo a Deos. 

CAPITULO II. 

De algumas tentações , que o B. Fr, Henrique 
padeceo no principio de sua con^'ersão. 



J- Endo Fr. Henrique recebido do Ceo 
esta divina graça , logo começou a sentir em 
si uma guerra de tentações, e repugnaucias 
interiores , com que o diabo tra!)alIiaTa por 
lhe estorvar os meios de sua salvaçiio. E 
foi desta maneira. As inspirações, com que 
Deos lhe batia nas portas da alma, obriga- 
\ão-no a voltar as cosias com uma expcíhda 
e solta retirada a tudo a({uillo, que o podia 
embaraçar no caminho da verdade. Lontra 



Fr.. íIekp.iqus Sus©. CS 

íslc poi fiava a tentação, que procedesse com 
bom conselho , e que se náo determinasse 
de pressa, porque era fácil coriíeçar , e muito 
difíicuhoso levar ns cousas ao cabo, A inspi- 
rarfio celestial repiesentava-lhe o grande 
poder e ol^ras do E?=pirito Santo. Da outra 
parte a tentação não fazia duvidas na gran- 
deza, e omnipotência de Deos quando qui- 
zesse ajudnr , mas duvidava de seu querer. 
TSo c;d)o de tudo mostrava-se-lhe na alma 
com clareza certissinia, que não podia Deos 
faltar nnquella branda e amorosa promessa 
«ua, que era soccorrer, e ajudar a todosaquel- 
les , que, fiados em seu santo nome, com» 
metlcsseni este caminho. Ficndo nesta con- 
tenda a victoria da parte de Deos , logo o 
commettia outro pensamento, que , disfarça- 
do com brandura, e com capa de amizade, se 
Jhe ia assentando na alma, eo aconselhava 
desta maneira : Bem pôde ser que seja acer- 
tado isto que tcntaes, e razão é emendar Sk. 
vida , mas não vos mateis muito : antes 
começai tcão altento , que possaes cbcj^ar ao 
fim com o que começardes. Comei, e bebei 
á vontade , e tratai-vos bem , e eniretaulo 
não haja peccar. Ga dentro de vós , e para 
com voscoscde santo quanto quizerdes, ma«í 
ftc^ja com tal temperança , que no exterior 
nio se assombre nin'uiem com vosco j « 



64 VlDl DO Be4T0 

andai com o dito commiim : Haja pureza na 
alma , que ludo o mais vai bem. Poder- 
Tos-heis dar bons dias, e viver entre os ho» 
metiS alegremente, e com tudo não deixar 
de cumprir codi as obrigações da virtude. 
Taad>eni a outra gente espera de se saKar, 
o mais wão se metie em tantas fadigas. í^las a 
sabedoiia etfcí na desbaratava tão íalsívs con- 
celhos com esta só ra/^io. Quem cuida de 
ter uma enguia pelo rabo, e começar fida 
santa tihia monte, tanto se engana em uma 
cousa, como naoutr.i; porque tjuando llte 
parece que está bem empolgado em ambas, 
frscoa-se das mãos , e acua-se sem nada. As- 
sim também quem quer sopear , e ter sujeita 
a carne altiva , e mal habituada vivendo 
vida mimosa e tlcsraneada , | ódo-se-IIie di- 
«er, que não é de juizo l-em assentado , por» 
que querer gozar mundo ,'e juntamente ser- 
vir a Deos com perfeição, é íabricar impossi- 
bilidades, é falsilicar as Escripturas Sagra» 
das , é danar a Doutrina de Ghristo. As im 
que se queres despcdir-le de tudo, convcin 
fazei -o com animo varonil, e dctermir.ado. 
Andamlo muiloi dias ás voltas com estas 
imaginações, em ínn cobrítu ousatlia, e ar- 
mado de conGanca apartou-se esforçada- 
mente de tudo, Knire as cousas a que fugio 
Ibi uma a companhia ociosa dos amigo*, 



iio Tine sfu vigoroso animo passoTi tanto tra- 
balho nos I rincipios, que posso affimiar, que 
pacleceo muiías míntes. Businva-os primeiro 
alírunws ve:*es pan? se dcsníelancolizar com 
eiles venculo da fraqueza natural: mas as 
mais delias Ibe a( oiiteria tomar triste doiid© 
fora alegrí ; porque as praticas, e recrea- 
ções dos amigos, í:ão erão nada de Feu ^jos- 
to 5 c fís suas erão odiosas aos juesr.ios. Ou- 
tras Tezes siiíC^.\o, e não íorao pouras, 
trataieni-no coixi palavras, e ditos pesados, 
tanto que se chega\a a cllrs. Um ll.e per- 
guntava que ordenj de vida ciw aque!.'a qne 
enipreudera , em ene queria sor só, c des- 
viar-se do coniniuin : Outro lhe dizia , (\v.e o 
mais seguro modo de viver era o ordinário , 
por oude todos corrião : Outro que laes in- 
venções de vida sempre paravfio em niiío 
£m. Aíjsini o agasaUíavão um trazo:ilro, e 
elle sem lhes responder palavra , talíando 
con^si^o dizia : O' pitdosissinio Deos não ha. 
'onstílho mais acenado, que fugir á compa- 
.ia dos liomens; que na verdade, se cu i:ão 
;a buscnr tacs juaticas, níio tivera 3^M)ra 
' qt;e me queixar. - Esta Cruz o trouxe 
nj.lle tempo gravisslniamente aloinícr.- 
!o, porque i^fio tinha ninguém com qucín 
; desse dtaabafíir descubriijtlodl.e suasofflic- 
í^ LSj que íoísc pessoa , que sei;uisse a me£ii:a 



0S \ir\ Dô Zl\t 

ordem , e estilo de vida. E assim vivia des- 
contente , e triste. Em fim á viva forçi se 
acabou de furtar aos liomeus, e sendo p.ira 
eile cousa ião penosa esta abser.cia, o costu- 
me lha vci(» a fazer depois saborosíssima. 

CAPITULO ííí. 

Dâ um rapto sobrenatural , que icí'e o Beato 
Fr, Henrique, 

AConieceo ao B. Fr. Henrique no princi- 
pio de sua conversão, que entrando um dia 
depois de comer no Goro na Festa da Vki- 
♦rein e Martvr Santa Icjnezse deiíou ficar só , 
c em pe nas cadeiras mais baixas do Coro 
direito. Andava elle neste tenip ) mui carre- 
gado de melancolia causada de uma grande 
tribulação , que padecia. E estando assim 
desamparado de todo o allivio, e consolação 
luimana , não sendo ninguém presente , foi 
arjebatada sua alma, ou tosse no corpo, ou 
íóra doUe, e vio , * ouvio cousas, que nem 
todas quantas línguas ha do nunulo serão 
bastantes para as contar. Era o que vio uma 
cousa sem figura , e sem distlncla feição, e 
todavia tinha em si lodosos ^jstos, e delei- 
te^, q.ie se podem imaginar em todas as ti» 
guras, e feições de cousas. O coração junta- 



Fui HíTíRiQUE Srsft» 6y 

«lentc lhe ardia em desejos , e juntamen- 
te se satisíazia , o espirito estava de todo 
desassombraílf) , e aprazível, o appctitc, 
e eleirão não obravão, antes jazião corno 
scpiíltados em profundo sono , semente ap- 
p-iicava com cuidado os olhos da alma eni- 
piegando~os naquelle raio resplandecente, 
e (larisíinio onde de si, e de tudo o da 
vida perdia a memoria. De maneira que não 
sabia se era dia , se noite. Foi isto sem duvir 
da um gosto, que brotou da eterna vida se- 
gundo a experiência , que Fr, Henrique de- 
pois leve em tempos de mais paz , e quieía- 
câo , e assim dizia elle depois : Sc aquiilo não 
é a gloria do Reino dos Ceos , cu me reselvo 
que não sei que cousa he Reino dvs Ccos, 
Porque tudo quanto v,v,. homem pôde pade- 
cer de Irabalho nesta vida nào I)asta de ra- 
zão , nem de justiça para merecer uma fnl 
gloria Jiavcndo-a do lograr para sempre. Du- 
rou-lhe este extasls uma hora , e meia, sem 
saber atinar se tivera neste espaço a alma no 
corpo , ou lóra delle. Mas toriiatido em si 
andava lai , que parecia homem , que viniia 
d(i outro mundo, e saio dalli tão quelwan- 
tndo , e cheio de dores, que llie paiecia que 
nno podia ninguém passar tanlas em termo 
tão ])reve, ainda que fosse na lir.ra da n^orle, 
I. tanto que foi est?n(h) mais v\\\ si, e ro- 



6^ TiDÀ Dft BZAT* 

brando forças dava uns stispiros, qne se íliê 
arranca\:\o do inaiâ príifuudo da aluia , e 
SCÍ15 se poder ajudar caía por terra , como 
acontece ácpielles, que por falta de forças se 
desniaião. Gciíiia lastimosamente, c dando 
ais que arrancava das entranhas, dizia desta 
maneira : O' meu Deos , onde eslava cu , e 
oníle me acho agora. O' summo bem meu, 
meu bem principal não ha^vcrá jamais cousa 
que possa levar de njínha ahna a memoria 
desta hora. No corpo estava , e nelle vivia ,e 
ajudava, e todavia não houve ninguém que 
di íóra visse, ou entenJesjS delle c;)usa ai* 
j;u!na deitas, com andar tal, que trazia a 
aluía cheia de visões celestiaes, c no maii 
secreto delia se lhe abriáo rcsplandores di- 
vinos, que a peneiraváo pctr toda aparte, d« 
maneira que lhe parecia , que andava pelos 
ares: (inalmente em todas as par^s princi- 
paes d.í alma lhe ficou aquelle bom sabor, e 
gosto celestial (como vemos em um vaso, que 
sérvio de licores cheirosos, que não perde a 
cheiro ainda depois de vazio) e duraudo-Ihe 
depois muito tempo l.)i melo de espertar em 
5011 esoirito uma cclesLiul sede, e saudade 
de D^oê, 



Fa. Henrique Srso. ^^ 

CAPITULO IV. 

€oino o Baato Fr. Henrique cehlrou Fípo* 
sorio €Sf:>irííual com a Sabedoria eterna^ 



A ordem de vida que Fr. Henrique costu» 
niou por grenile discurso de tempo, nos 
exercícios cspirituaes , que usava, tra uni 
aturado desejo de gozar perp«?tuamente da 
vista, e presença de Deos, e juntamente 
trataI-o,e conversal-ocom familiar coninuini- 
caçào. O princi{»io que teve est(j desejo se 
achará nos livros, que clle mesmo rouipoz da 
Sabedoria eterna eia Aliemão. Era o Santo 
de sua natureza mui alíeiooado , e desde 
sna mocidade teve esta inciiiiarfio : e í;eos 
na Sagrada Scriptura , onde laila de si i oní 
nome de Sabedoria eterna , lUbo se oITciec» 
inenoá que por uma amii^a muito vencida 
de amores, que se eníeita, e atavia rica- 
mente para agratlar a lodos , usa de palavras 
e geslosamorosos, para levar traz si as almas, 
lo^jo aponta os enganos , e pouca lirmeza de 
OLiiras ami.\^*;ís, re[)resenlando de sua parte 
grande constância, e^lcaldaiie em amar, 
titãs cousas tiravao pt lo animo juvenil , 
Con'.o dizem da onça , que com a suavidade 



•^Ct Vida do Bií^to 

do cheiro, que naliirnljnciite de si Innoa, 
obriga os outros aniinaes.i buscarcm-na. Os 
livros cm que mais se usa deste terujo, cujo 
intento é com brandura , c suavidade levan- 
tar nossa alma ao amor divino, sào os (!e 
Salomão, e da Sapiência , e do Ecclesiastico: 
os qiiaes lendo-se no Refeitório, e t)uvindo 
o Santo um dia as palavras brandas, e namo- 
taJas da Sapiência , encheo-se todo de ale- 
gria em sua alma, e começou-a a namorar, 
e perder-se por ella; e ardendo neste cuida- 
do fallava desta man<íira comsi^jo : Eu sem 
duvl(ia provarei minha ventura , e verei se a 
tenho com esta formosa Senhora , de que se 
, contiTo cousas tão soberanas , para merecer 
seu amor, e gozar de tão nobre companhia, 
pois Deos foi servido dar-me um coração 
tívo , esperto, e riíjoroso. E nesta idade nâo 
c possível (jue viva eu sem o emprejjir em 
algum an^or. Com estes pensamentos anda- 
■va-se traz ella espreitando-a por toda a parte, 
e buscandf)-a muitas vezes, e outras tantas 
se comníunicava o Senhor a sua alma , e 
]he fizia assaz fav<nes. Estando nma vez na 
mesa ouvio que se liào eslas palavras dã Sa- 
piência : A sabedoria é mais fom^osa que o 
Sol , e comparada sohrs tcda a ordem das 
est relia i com a luz, i.nda se acha que lhe tem 
vantaí^em f esta amei y e busquei com cuidado 



Fr. Henrique Suso. yl 

tíesde minha mocidade j e husqiiei-a para n 
tomar por esposa , ê Jiz-me amante de seu 
gosto. l-'or esta terei nome no povo ^ e honra 
entre os mais velhos; por esta serei immortal, 
e deixarei memoria perpetua aos que hão dê 
vir depois de mim. Entrafido cm minlia casa 
descansarei com ella; porque sua coJiversação 
não é pesada^ nem sua còmpanJiia enjada, 
antes dá gosto, e alegria. Cora sabedoria 
fundou o Senhor a terra , co}?i prudência 
fortaleceo os Ccos , de seu saber sairão os 
abjsí7ws , c as nurcns se congelão com ona- 
Iho. Quem a alcançou passou coíijíadamente 
seu caminho, e o seu pê não tr(>pccará ; se 
dormir não finverã medo ^ e o seu sono será 
descansado. Ouvindo estas palavras, e outra:; 
a este modo todas clieias de doçura, ficou 
com o coraof.o abrasado, e rtvolvendo-asuo 
pensamento failava dusta maneira comsigo: 
O' verdaduiramente riO])re , e escol hid:? ami- 
ga. O* se por dita pudera aronleccr querer 
ella sel-o minha: que bem andante, que 
ditoso seria ! Mas logo o espantavào iniagi- 
nações contrarias, que lasliniando-o inltrior- 
mente lhe chzlào : Como vos ha de caber no 
pensamento amar o que nunca vistes ? Como 
podereis querer bem a quem nunca conhe- 
cestes ? Kfio saldeis vós que nalhor c ur.i pe- 
queno punluido cerio j t dcseciba r?( ado, 



5* Vida do C«\ro 

que a rasa cheia com diivl I.js * qr.rrn fabril 
ca edifício alto, e íjrangca amizu.le de gran- 
de Senhor , estando hniíre de se r seu i^unl , 
este tal as mais das vezes se acha enganado 
em sua espera nçn , e clieio de miséria,© 
fome, larga o negoeio. i)em confesso que 
i5ão íôra para engeitar o amor desta (iama, se 
eila consentira a seus servidores tratarem-sc 
])eni , e levarem boa -vida; mas elU esta-vos 
dizendo: Quem folga com vinho, e com 
grossura não será sábio. E diz mais : Até 
quando dormirás preguiçoso, quando has de 
acabar de te levantar desse sono? Pouco 
áormirás, pouco estarás sonorento, menos 
tempo juntarás as mãos para desça nçar , ^ 
dará comtigo a miséria como um correio, e 
a pobreza, como homcRi armado. Vede [lois 
se houve alguma hora quem pozcsse tào ri- 
gorosas leis a seusnmanlesP Aqui lhe acudio 
MUI pensamento dí; Ceo to<lo em seu favor 
lembrandrr-Uie, que era lei antiga, c condi- 
cào do amor penar, e padecer qucui ama. 
ííenhum amante, lhe dizia, vive sem cruz, 
£ tormentos , o ê bem de veras marlyr todo 
aquelle, que fiequenta a eschola do amor. 
Quanto mais raziÀo é lo^o que sofra, e que 
trabalhe quem pretentle uma tão alta , e 
lao insigne Senhora por esposa e por ami- 
ga? VciLia que desuálres, a qc*tí enfadamen^ 



Fii. Henrique Suso. ^3 

tos, t contrastes se sujeita© , e a seu pezar 
ess«5 amadores do iiuindo. Com estas, e 
outras inspirações siniiihantes, cobrava es« 
forço para perseverar, e virihão-lhe a min* 
de. E assim ora estava de Lon» aniriio, 
ora tornava a abater a afíeição ás cousas 
transitórias. Andando nestas voltas sempre 
topaTa com alguma cousa, que contradizia 
sua períeila conrcrsao, e por esta razão 
variava pendendo ora a uma parte , ora 
a o;itra. Um dia estando á mesa ouvio ler 
um passo da Escriptura Sagrada, que falia da 
Sabedoria , com que se abrazou vehementis- 
iinianíente , era o passo este: Eu estendi 
meus ramos como tberibiiilbo, e os meus 
ramos suo de honra , e de graça; como iibano 
nao cortado perfumei n^inlia morada, e 
como bálsamo sem mistura é o meu cueiro ; 
quem me athar, adiará j;az , e aUanrar.í 
4âuJe do Senhor. íslo failava da Sabedoria: 
e do amor sensual e dcshonesio dizia o se- 
guinte: ALuei uma mulher niais amargosa 
que a morte, que é laço de caçadores, seu 
coração rede , « suas mã^s grilliócs , quem 
agiada a Deos escapará ; mas quem c pecca- 
d(U', si:^"d por ella lalivado. A islo levanla^a 
entre si um grande l)rado , e dizia : Clara- 
ínentc siTo islo verdades. Ora de tc(ío cm 
todo mu resolvo de tomar por Eí^posa a Su- 



^4 Vida no Padus 

Ledorla. Já tenho assentado de me c:Uivar 
(le seu amor, e Gnlrcg<ir-:i:e todo a seu ser- 
TÍro. Ah queiíi tivera lugar de a ver , e fal- 
lar-lhe , Inda que nfío fora mais que lima só 
vez, Ah quorn soubera, que cousa é , ou que 
feição tem , quem pregoa de si cousas tào 
maravilhosas ! quem tautas cousas , e tama- 
nhas permitte ? E por ventura Deos , ou é 
homem ? E homem, ou é mulher? R scicn- 
cia , ou é sagacidade ? Ali queiu soubera o 
que é. Ardendo nestes desejos mostrou-lhc o 
Senhor uma visão, que quanto aossinaes, e 
ao que da eterna Sabedoria se escreve noj 
passos, que temos referido, e n'outros da Sa- 
grada Scriptura, ficou-lhe fácil de conhc-er 
ser ella. A visão era esta : Passava por cima 
delle ao longe ení uma columna de uma nu» 
vem, ia sentada em um ihrono de marfim, 
resplandecia como a estrclla da alva , ecomo 
o Sol quando cstÁ em sua forra ; por coroa 
tiidia a eternidaile ; por manto, bemaven- 
turança ; pnv pratica , suavidade j por braços 
para abraçar, enchentes d« todo ó l)em. Esta- 
va perto, e andava longe, era soberana, 
e humilde, estava presente, o esconíiida , 
mosiv^iva-se conversarei, e todavia nfiO s(í 
podia travar delia. Era mais alta , que os 
mais altos cumes do Oo, e mais prolunda 
quG o abysmo, Chegava de cabo a cabo com 



Fa. IiENRIQtE Su^o. ^5 

fortaleza, e ordcnaTa tudo com suavidade. 
Quando Ilie parecia , que estava todo enle- 
vado na belleza de uma formosa donzelia , 
iníístrava-se-liie em figura de um Ijellisslmo 
mancebo , algun-as vezes se lhe cfíerecia 
como mestra dextrissima em todas as artes; 
amiora, e graciosa para todos; en) fim vol- 
tando-se a elle aprazivelmente , e agazalhan- 
do-o com a bôra theia de riso, mas r.Po des- 
acompanhada de uma m:)gestade cídtstiai, 
í"al!ou-lhe amorosamente estas palavras: 
Dá-me, filho, teu coraçã<í. Então elle derri- 
bado a seus pcs com toda a humildade , e 
entranhavel aifecto lhe rendeo as caraças. 
Este favor Ibe foi concedido por csla vez , 
e nunca mais o pode alrancai- oii',ra. Depois 
disto anilando pensativo , e com todo ò en- 
tendimeuto embebido , como linha de costu- 
mo, nesta divina Sapiência , como era de sua 
natureza affeiçoado j ventilava entre si esia 
questão amoi(>sa : Donde , ou de quo fonte 
saio o amor , e a graça de ser amado ? Oíuidc 
nasce a formosura, abelkza, a boa som- 
líra? Donde vem toda a outra perfeição ? É 
possivel cjuc tudo isto mana daqiielle prin- 
ciíJÍo fertilissimo da divindade:' A vós nu' 
vou lo^M) n abysujo imnícnso,e inexliauslo do 
tr.do o f]ue uierecc ser anuído. A vós amo 
com Q coracf.o , cos sentidos , e com ulu.a. 



^(5 Tida do Beato 

A T«? aLr.ioo, que ninguém nro tolhe , roTtí 
cntranhayelaíTt>cto deste meu nhrazado espi- 
rito. No meio destes pensamentos lhe ncon- 
tecia alojjimas vezes cominunicar-se-lhe o 
mesmo Senhor , que é fonte, e corrente de 
todo o heui ; no qual juntamente nrhava 
toda a formosura, e tudo aquillo que só 
merecesse ser amado, e tlescjado , e tudo 
alli eslava junto jior modo , que tião ha pa- 
lavras coui que se possa contar. Da^pii lhe 
ficou em costume que Todas ns vezes, que 
ouvia referir, o?i cantar versos amorosos, 
logo corria c'o alm:i , e c'o coração á sua 
nmada, de quem procede tudo o que é dlj;r.3 
de ser amado: e furtando de certo modo a 
vista do que tinha presente, se recolhia den- 
tro em si , ou se arrehatava. E não se pode 
dizer quantas vezes com os olhos cheios de 
lagrimas largando sem t«rmo a capacidadá 
de seu coraçTo a ahravu , e apertou com- 
8Ígo. ^luitas vezes se havia com elle neste 
Tempo a Kterna Sahedoria , como se ha uma 
imli com uiu fdho menino pedindo-lhc o 
jicito todo sumido eiitre seui hracos : ella 
ahracando-o amorosamente. E como o ii:e- 
nino coiu a cahcra , e os meneios do corpo 
trahalha por chegar aos peitos da inãi , o 
com risinhos, e geilos graciosos lhe está si- 
gnlGcando o ^osío, quo tom najuéllc lugar: 



Fr. Henuique 5c$o. ^y 

Y*íri nals nem menos Toavíi a alma c!o B. Fr. 
)!eniiqiie para aquclla prtsenço , gloiiosis- 
sima com uma enchente de alegria, que lhe 
tríshordava por todos os sentidos, I-og*^ <^'m 
se* peTisamenío dizia: Bom Senhor, hom 
JEUJ, alegre fora eii , se chegara a tal -vertu- 
r», que se me dera por Esposa nuia Poderosa 
Jíanha. Pois logo , que n)e falia? Eu tos 
teríio agora eterna Sapiência por Senhora 
BiíiJrilia , e Imperatriz de minha alrra. Vcc 
soií niíi de todas as graças; com^ofco sou 
tíTorico, que me soheja lazerida, honra , c 
poder. Não cohiro , nem quero n ais de 
tudo quanto o niundo pôde dar. Traz cstírs 
imaginações íirando com o semllarte riso- 
nho , e alegre, os oll os acesos , o coraçêo 
e todos os sentidos interiores saltando de 
prazer , rebentava nestas palavras : Mais qi.c 
a mesma saúde, e mais que toda a loi mesura 
in>ei a Sabedoria, e piopuz ttl-a por minha 
luz , e daq li nasteo vhcm-me lodos es Ltns 
juntos com cila. 



Tida do Beat» 



CAPITULO T. 



Va maneira , com que o Santo cscrevco srl'e 
seu coração o SaiuisAmo nome ddJiíSi\ 



N 



O mesmo tempo se lovniiton em snantfim 
um grande fogo, que ateado nella , e c as- 
cendo sem termo lha abrazou toda em tffi- 
cacissimo amor divino, e sentindo um dia 
este ardor causado da caridade, com que 
sobremaneira amava a Christo , recclheo-se 
á sua cella , em um luí^ar apartado , e eniran» 
do em uma contemplação saborosissima tal' 
lava como o Senhor , e dizia-lhc : Prouveri 
a vós formosissimo Deos, que tivera cu pode* 
para inventar algum sinal de amor , que fòri 
iim perpetuo penhor, e lembrança de ami* 
7ade entre mim e vós , e dera testemuuii» 
do muito, que me vós quereis, e do qu3 
vos cu quero a vós , e fura tal , que nenliun 
^esquecimento pudera ser parle para se pertler. 
Comeste fervor ilt* e<ipiritotao grande levan- 
tou o escapulário, e descuberto o peito tc- 
inando na mão um ai^udo ponteiro tle ferro 
olhava para o coração , e di/.ia: Deos Omni- 
poietite, dai-me vós hoju forças , e liceuç* 
para sAíi jí.izcr a meu3 desejos, pois já njor* 



Fr. Henrique Srso. 79 

líç coiiTCm não me conlentar com rrenos 
<]ie corn vos metter Cieniro nas enlranlias 
ik^.te coração. Dizendo isto coincrou a fe- 
vii-secom o ponteiro sobre o coração, e cor- 
tai a carne de cima para baixo até que dei- 
xoi escrito nella o Nome de JESU. Entre- 
taito corria o sangne de nir.neira, que Uie 
bínhava o (oipo todo , e olhando para elle 
coii uma alegria da alma não esiijnava as 
ílcres ])ela força do amor , que era causa 
delas. Acabada a obra assim como eslava 
€)Volto em seu sangue foi-se á Igreja, oposto 
i(3 gioibos diante de lium Crucificio disse: 
Ija Senhor meu , único amor desta alma 
ninha , ponde os olhos na forvorosa vontade 
(cm que vos busco. Bem vedes que não te- 
lho poder para vos imprimir em mim tão de- 
veras como eu quizera , sede vós logo servi- 
<o, Senlior meu , de condescender agora com 
iieusiogos, acabai o que falta , iniprimi-^os 
TO profundo tieste coração , e esculpi vosso 
santo jNome em mim , de maneira que já 
tiais possaes esquecer-vos, ou aparlar-vos de 
uinha alma. Durárão-lhe muito tempo alicr* 
las estas feridas de amor. Em fim sendo são , 
àcuu-lhc oNome de JESU escrito, ecxprpssf^ 
no coração como pedira. Erão as letras de 
grossuia de uma cana de trigo verde, e li- 
iihão ^e comprimento quanio lia de mu nó a 



OMtro no fleclo mínimo íIa mão. Esle nomf 
trouxe em seu peito até «í Ijora da morlG 
Tetlas as vezes, que lhe palpitaTa o cornrrr> 
fazia o nome o mesmo movimento, e rts 
princípios lançava tle si um estremado rô- 
plandor. Mas o Santo teve sempre tainan>o 
cuidado de o esconder, que já n»inca mais c 
descobrío a r;in£:uern , sciiio foi a um .»< 
seus companheiros, a quem o deixou ver eu 
segredo, por ler com e!le amizade particuU' 
e espiritual. Dalliem diante quando ihesir- 
cediáo lral)alhos, punha os olhos neste sini 
de amor, c passava-os melhor. Algumas veze 
faliando rom o Senhor familiarmente Sf)í. 
a dizer-lhe. Os amantes do mundo coslumát 
trazer os retratos das suas damas nas roupas 
que vestem, eeu, Serilior, com muito avan- 
tcjada aííclção es( re\i-vos cm meu corarão, « 
em meu sangue. Um dia rocolhendo-se par; 
a celia , acabada a oração , que tinha depoi. 
áii Matinas , encostou-se sobre um banco to- 
mando por cabeceira o livro, que chainão 
J''iías paiiutn. Aíjui leve um rapto, e pare^ 
^cia-lhe que se !he levantava do coração al- 
guma claridade , e pondo os olhos nelle vi» 
sobre o mesmo lui^ar uma Crur de our* 
guarnecida de muita pedraria, entre a (|uai 
resplandecia com nuiravilhosa obra o Nome 
di JESU. Acudio logo com o capello a cobfir 



Fr. Mekriqce Suso. 8í 

a conção, trabalhando por esconder tão 
espantosa luz , para que de ninguém fossa 
"vista, mas quando hkjís se cansava , cntto se 
esforcaTãoestreraadaiiiente os ardentes raios, 
qnc deila saião, lançando de si tamanho 
resplandor, que por nenluima via pôde enco- 
brir, nem reprimir sua força» 

CAPITULO VI, 

Pe nl^uns ensaios de consolações díx^ínas, 
com que Deos favorecia o B, Fr. lUnriauc 

eui seus princípios» 

OAíndo o Santo um dia de Matinas, e re» 
foiiiendo'se como costumava cm seu Orató- 
rio, deitou-se sobre o oca banco para repou- 
lar um poiico. Foi o sono breve, e não du- 
rou mais, que até os espertadores darem 
sinal do dia , a cujas vozes acordou , c derri- 
])ando-se logo por terra satulara a eslrella 
d alva, digo, a Soberana llainha dos Ceos, 
parecendo-lhc , que assim como as avosinhas 
pelo Estio saem alegremente a receber o dia 
quando amanhece, assim era razão ievantar-s« 
elle lambem a adorar a mãi do Eterno Sol 
com alegre, e devoto afíeolo. As palavras 
cpe diziu dtí saudação uuo erão rezadas sw- 



32 Vi Dl. LO pAcnr 

mente , rr.as entoadas con; unia rnirsica íla al- 
ma caiada , e suave. Aiiles do Santo acordar 
do sono, que digo, ruivia um espantoso 
estrondo, que lhe retumbava dentro nalma, 
com que todo cslreniecin. O s<jm era por 
estremo agudo, e foi sentido dtdie iiorneímo 
tempo, que costuma a iiaster a estrclla 
d'alva , e daqueile som saía uma voz inlcili- 
givel, que dizia: .Vnria estrella do mar suhio 
hoje no Oriente» Soou-llie este verso nas ore- 
lhas com tal melodia , e tanto sobre o natu- 
lal 5 que todo se alegrou em sua alma , e < c»- 
mecou juntamente a cantar. Paí.s;u!o o som, 
e juntamente a sua musica, sentia-se abra- 
çado sem saber com quem, por um modo, 
qual nenhuma linguagem alcança a declarar, 
e logo ouvio esta voz: Quanh» nuiis amorosa- 
mente me abraças, ccjuanto mais puramente 
sem mistura corporal juntas tua lace com a 
minha, tanto com mais gosto, c maior amor 
serás abraçado no reino de minha eterna luz. 
No fim destas palavras acordíui , e lem])ran- 
do-lhe o ({ue pasjnra , desíazia-se todo em l»i- 
grimas Ari. dtivoção. E logo seguindo seu 
costume saudava a estrella iralva pelo modo, 
que temos dito. Depoii desta saudação cu- 
lueçava outra na mesma hora em reverenc ij 
da Sabedoria eterna beijando o chão , e di- 
zendo uma oração dcToli&sinia , que cUe 



Fr. Il£xi\iQU2Scoo. S5 

eftmpoZjC anila nos livrinhos, que fez de de- 
vocfio j que começa : Desejou minha alma , etc, 
A estas duas ajuntava a terceira beijando 
tanjbeni o chão em honra do mais alto , 
e mais ahrazado Seraphlm do Ceo , que 
com maior fervor arde em amor divino. 
O que lhe pedia era, que inflasiimasse 
sua alma no mesmo amor, de maneira, que 
não só SC ahrazasse todo até ás entranhas 
neste santo fogo, mas fizesse arder i.elle ao 
miiudo tíjdocom suas fervorosas amoestacóes, 
e doutrina. E lae-? eráo as devoções, que usa- 
va todas as maulians quando se levantava. 
No tempo do erjtrndo, em que o mundo »n- 
da lodo devasso, e desccmiposto , esiendeo o 
Santo Varão inn.i noite tauto a oração, que 
os espertadores já fazião sitiai , que amanhe- 
cia : elle então falbva coujsigo , e dizia: Re- 
pousa agora um pouco (orpo cansado autes 
que vamos a receber a formosa estrella d'aU 
va , e deixando vencer os sentidos de um 
breve sono, começarão os Anjos a cantar 
Mquelle brando, e suavissimo Uesj>onsoi io : 
Sartre illiuninave Jerusalemy etc, E a musica 
soava dentro cm síia alma com estieniada 
suavidade. A cabo de um pequeno espaço 
enlevava-se-lhe o esj)irito naquelia celestial 
harmonia , de maneira , aue já não pod?i 
sop portar o peso do corpo mor lai . c terreno , 



1^ Tida do Blatô 

c nssim açor Java trcsbordardo-llie pcloft 
ollnisii ízloria ilo coracãu em ardentes arrojos 
de lagrimas, que delies verlia. Pelo niesfno 
tempo encostando-se algumas vezes para re- 
pousar, pnT('ci-.í-llie , que era levado a uma 
região estranha, e logo \ia o seu Anjo da 
guarda, que post* á sua nuio direita rom 
semblante alegre t risonho o acompanhava : 
cm vendo o Anjo abracava-se com elle, 
linni1o-o com seus braços, e meltcndo-o 
todo em sua akna, o mais apertada e amo- 
rosamente , que podia , de maneín , que lhe 
pareria , qwe entre elle, e aquelle celestial 
csj^irito não havia nada de permeio. Enláo 
soltarido uma voz !uagoada , e os olhos arra- 
sados de agua , e com un)a per)eita tlevaráo 
da alma , di/.ia-lhe estas palavias: O' aiuoro- 
sissimo espirito , que por Ueos me fostef 
assinado para guarda, e remédio de minha 
tida , peço-vos pelo ardeutissimo amor , que 
tendes a ease mesmo Si^nhor, que me não des- 
ampareis. A isto rospondeo o Anjo: Como? 
V. não ousastes a fiai -vos do Deos? Pois oro- 
de-nie, que tamanlia é a caridade rom qut 
ab eterno vos ann)u , que >osnáo ticsampar* 
jamais porsua voutaoVv Outra "vez ( on»eçando 
ae^ilarecera manhãa dcpoi^ídeter dcv>?<'ansado 
iiu) pouco de suas contínuas penitencias con- 
veisandu lamiliarnicnle com os An los cm 



Tn. Henrique Suso. ^ 

^tasi . pcdio a um delles que llie declarasse, 
porque modo morava Ueos escondidanieníe 
em sua alma. Tornou-lbe o Anjo: Ora siií:, 
quero-vus mostrarq que (lesfjais. Poinleale- 
gromente os olhos em vós mesmo, e vereh co- 
mo se ha Deos com utna ahna , qne o ama , co- 
mo av. issa. Aitontand) lo^opara si^vio, que 
soi")re o siiio d(í coração se lhe tornava a carne 
transparííiiíe como um cristal , e via seiUado 
qiiietissimamentti no centro dellc ao eterno 
Déos em uma fij^ura cheia de amor, e beni- 
gnidade; e junt<i delle conhecia , que estava 
sua alma confiada nas !)cnções, e amor do 
Ceo , e brandamente encostada a um lado 
do Senhor, mas da parte delle apertada com 
estreitos abraços, e metilda toda em sen di- 
Tino coração, e assim a via estar como eia 
um exlasi, e roubados os sentidos , sumida 
toda , e adormecida entre os braços do Sal- 
tador. 

CAPITULO Vir. 

De algumas consolações^ que o Santo Vurãê 
teçc do Ceo, 

X Razia o B. Fr. Henrique neste tompo iim 
modo de cilicio íeilo por suas nsãos l'io duro, 
taspuro , qut; a toda a hora ILc davA giiÀndí 



56 ViDV :do Padub 

afíiiccru). Estando assim atormentado TimR 
noite precedente á festa , que a igreja celebra 
dos Anjcs, foi arrebatado em extasi , e pa- 
recia-lhe que ouvia uma musica do Ceo , e 
vozesangeiicaSjCom que ílcou tao alliviado , 
que de lodo perdeo a ir.emoria dus dores, 
quepa.ssava , e dizia-lhe uni dos Anjos: Assim 
como ati te recreia ouvir de nós os cânticos 
úa Eternidade, que entoamos, assim nos 
alef»ra a nós ouvir-te as cantigas da eterna, 
e aitiisinia Sapiência, que compões, e loj^o 
ajiinKm: Este que ouvistes heaquelle cântico, 
com que hào de sair todos os escolhidos do 
Senhor no dia ultimo do mundo, tanto que 
se virem confirmados na posse da eteina 
})emaventuranca. Muitas outras horas teve 
o ser\o de Deos no mesmo dia esta celestial 
conversação vendo , e contemplando as 
íesias, e passatempos dos Anjos. 1'rimcira- 
ineute começando já de amanhecer veio-se a 
clle um mancebo , que no geito , e na pre- 
sença parecia ser um musico do Ceo, (jue - 
Deos llie enviava. Acompanhavão-no muitos 
outrtís mancebos dj gentil disposição na 
niesíua postura, e traje , salvo qae aquelle 
era de meu respeito como Archanjo. (ihe- 
gou-seao Santo com brio «grande, e disse llic, 
qucelle e seus companheiros erão alli nnin- 
datlos por ordem divina para o alegrarem , • 



' Ffi. TIrxRiQrE Scso. 87 

entrctercm, e lhe alUviarein as penas, que 
padecia. Pelo que , dizia o Arclianjo , é ueces- 
sario, que posta de parLe toda a melancolin , 
entreis nesta companhia, e danceis c^oni 
nosco as danças do Ceo. Isto dito clio^járão- 
se todos a elles,tiran(lo-o pelas mãos, nietle- 
rão-no entre si. Eo AicLanjo cotneçou logo 
a entoar um hymno do Menino JESU , que 
diz: In diílci jubilo y etc. Tanto que o Santo 
vio, e ouvio soleninizar com tão acordada ,0 
desenvolta harmonia oNome de JP^Sti , ficou 
tão aiiiviado do coração, e de todos os sen- 
tidos, que despedindo num momento toda 
a trlâteza , parecia-lhe que nunca tivera tra- 
balho, e estava com grande ^osti) (]'alina 
todo end)ehi(lo na destreza , e admirável con- 
<^erlo , com que aquelles espiritos hemaren- 
turados dança vão. O mestre desta angélica 
capella sabia mui bem ordenar tudo. LIlc 
começara os versos com graça celestial , os 
outros proseguião cantando, e juntamente 
dançando com alegria entranhavel. E elle 
no fim repetia três veies a clausula: Ergo me- 
riiOy ctc. ísVio erão estas danças como us que 
se usão cá na terra. Erão umas mures tc- 
lestiaes, que se estendião até o liumcnso 
a])ysmo da divindi.de. Muitas outras ct)nsi>- 
lações do Ceo teve o B. Fr. Henrique a este 
modo, que por alguns anxios forão quasisem 



S8 Vidím)oBkat» 

niiaiero, principalmente rjuanJo se acliavi 
m.íis af.Ii^ltio (le suas penitencias , c assim 
as passara ineTUor. Um seivo de Deos leve 
iiina rcvelaeãn , em que o vio ao lenipo , qu» 
sobia ao altar para dizer Missa cercailo d© 
iini resplendor, e via ilescer sobre sua alma 
a graça de Deos a niodo de orvalbo , e logo 
unir-se o Santo com elle de mancim , qtiâ 
ficavão Deos, e elle imia só cousa. Vio mais 
estarem por detraz d elle muitos meninos de 
lindo e gracioso pirecer, com cirios acesos 
nas mãos , que rodeavão o altar, e postos em 
ordem huns traz outros, e t(jdos um , e um 
se ião (betando ao Santo, e estendendo os 
bracinbos, o abraçavão aniorosissimamente, 
eo apertavão comsijjo.^Em Hn: .espantado Fr. 
Henrijue da visão, pergunia\a-lhes quem 
çrfio, ou que qutrião significar naquella 
C'bra. Erospontliuo-lbe os uieninos,que erão 
comp;inheiro3 do Santo, e participantes de 
seus gostos na gloria eterna , e por isso • 
acompanharão perpetuamt^nle , e o guaida- 
y:\o. ileplicuu o Santo Varão: E que quer 
dizer abraçardes todos com tanto amor a este 
íiaile ?, Quereinos-lbe uiuito , responderão 
elles , e temos com elle grande conversação , 
e amizade , e liáveis de bAtcv que obra o Se- 
nhor Deos em sua alma grandes maravillias, 
f taes , que senão podem dtclarar, E ludo • 



^v.e elle quizer pedir de propósito a Deos 
nunca lhe será negado.' 

CAPITULO VIÍI. 

Di^ algumas revelações y<jue o Scr,'o de De0S 
teve. 

i^O mesmo tempo tevr o Yar&o muliae 
ravffiações de cousas spcrclas , c de outras 
ç^ue estavito por vir. E íoi o Senhor servido 
dar-llie uma cerla noticia , e experiência do 
que passava no Ceo , inferno, c Purgatório. 
Ãpparecião-lhea niiude nniiias alir.í^s qoanlo 
passavão desia vida , e cojitavão-lheseus svr» 
ccssos. Ora por que peccados esta vàopenandoí 
c como podião ter remédio , ora que gráos 
de gloria tinhào alcançado. Entre outros lhe 
apparecerão o Santo Eckardo de gloriosa me- 
moria , c o Santo r>. João Fitcreriu de Ar- 
gentina. O Santo Eckardo lhe contou, qii« 
estará cercado de enchentes de uma gloria 
tal, que se não podia dará entVnder com pa- 
lavras ,«q'je de todo estava trasformado tiii 
Deos. E Fi\ Henrique propoz-lhe duas 
questões. A prir.icira era , em (pw; estado esta- 
Tao com Deos ac|uelles , (pie com verdadeira 
resignaçfio desejavão de o conteiitar seni 
luistura de erro , nem falsidade. Ao que lli« 



i)o Vida do Pàdmi 

foi respondido, que nào Imvia palnvrns^nem 
termos humanos, que pudessem sigrificar o 
como se sumia uma alnia naquelle ahysmo 
immenso , e sem limite da divindade. Ase» 
gunda qucsiâo era qual seria o mais provei- 
toso exercicio para uma alma poder ejíegar a 
este estado ? Respondeo-lheo Sauio Filaido^ 
que o mais seguro meio era íiif^ir-se um 
homem a si niesmo , e desapropriar se de 
si com uma humilde resignação , enã'> querer 
nada das creaturas , e tomar tudo o que vier 
da mão de Deos , e com isto saher-se gover- 
nar com mansidão, e paciência com ioda a 
sorte de mãos honjenâ. O Santo Fr. João lhe 
mostrou laixi])em uma esoccial íormosura , 
de que sua alma estava ataviada na Gloria, 
EFr. Henrique lhe perguntou qual era entre 
todos o mais proveitoso exercicio para a sal- 
Tação , e mais custoso de pòr por obra. 11 es- 
pondeo , que nenhunja cousa podia dar maior 
trabalho a uuía alma, nem aprovciiar-lhc 
mais, que soírer com paciência ser desam- 
parada de D^os , e assim íolgarde carecer de 
Deos por amor do mesmo Deos. Tand^eni 
appareceo ao B. Fr. Henrique seu pai depois 
de morto , que como na vida se deixou levar 
lodo das vaidades do mundo, manilesiou-lho 
com representaçã.0 lastimosa o cruel tor- 
mento , que tinha no Purgatório, e decla- 



Fe. lÍEN-RIQUE SUSO, 9I 

rôu-lhe »n culpa principal porque o padecia, 
c o modo , que podia haver para o Santo 
filho lhe dar remédio nelie , o que o Santo 
Varão cumprio. E elle l!ie tornou apparccer, 
e lhe deu c ;nta corno estava já livre da pena, 
A mãi de Yv. Henrique ficando viuva por 
niorle de seu marido, íbi niulher de abalisa- 
da virtude ; e mostrou Deos em seu corpo 
c coração depoi* de morta sinaes maravilho- 
sos. Sendo tallecida appareceo ao filho em 
revelação, eco'»tou-lhe grarmissimas mercês, 
que tinlia recel)iilo do Seuhor. I*or e.;te modo 
vio, e fallou a muitas ahiias, que foi cousa, 
que por eníao lhe deu algum allivio, e niuilo 
tempo o ajudou a perseverar naquella abpe^ 
leza de vida, que seguia. 

CAPITULO IX. 

Dõ cnmo ^c havia o B. Fr. Henrique cnan(^ò 
havia de ir ao refeitório , e quando cotnisL 
ficlle, 

J. Odas as vezes que este Santo Vnrao havia 
de ir ao refeiloiio tinha por costume st/i- 
tar-stí primeiro dejoeliios tfiante de Deus, c 
entregue a uma profunda nie(htaçào da alma, 
pedia-lhe eíficazmente quizesse acompa- 
nhaUo , e comei' cora elle, Suavissinio JESU, 



§:» Vni DO BxATflr 

dizia , com grande gosto e vontade d'alni« 
TOS coiividoagí)ra.Pe;i)-vo5 Senhor, cjueasiiir» 
como iiiiserJ;;orcliosaii:c]iie nic dais de co- 
mer , assim queirais hoje acoinpAuhar-mw 
com vossa [>rcsc!ira. 1 anto que se assenta- 
Ta a uieza figurava dcíronte de bi-, como cm 
ol)jeclo aqúeile amorosíssimo ho.s[MíJe da» 
ahiias puras, e fazentlo conta , que o tinha 
alli comsigo , punha nelle ws duos hrand* 
€ aU^greiucnlc , outras Tezes reclinava»se a 
seu lado. Cada prato, que lhe irazião oftere» 
cia a esle pai de familias ceieslial, e podia- 
lhe, que lho dvitasse sua bençào, usanJo de 
palavias familiares, que as mais das vezes 
ei ão estas lAmariíissiiuo Senhor peçu-vosqu» 
comais comigo. Meu Senhor JÈSXJ benzei, 
rogo-vos , esle comer, o tomai delle juuia- 
inente com es!epuhreser\ovosso. Taes erão 
os amores, que tinha neste lugar com a 
Eterna Sabedoiia. Quando havia de hehcr 
primeiro llie olferecia o copo, rogando- lh« 
que bebesse. 'Jinha por costume bebei á 
meza cinco tragos sóu>ente , e estes lazia. 
conta, que os liobia das cinco chagas de sea 
amado JESIJ. K pMrijue do sagra<io lado saio 
juntauíciíle sa-iguc, e a^ua, repartia este 
trago em dous, O ptiiuei o boeado , eo der- 
raríelro iciv.ra no-o ?•• r dn n'ais .d»razado 
corav^io, que p ;dia h^vcr na terra para ccu^^ 



Fr. Hzr.-siQCE Su5«, ^5 

íleos, e pol-a mais inílammada caridatle do 
mais alto Serafim do Ceo, coui desejo de 
alcançar para sua alma perfeita coniniiiiáca- 
«iío destes dons amores. Se lhe davão algum 
comer ,.qiie não e>a de seu gosto , servia-lhe 
desal paiu olevaroeoracao de Christo haiiha» 
tio cm sangue, eassiíii o pasmava sem dutidar^ 
e sem receio de lhe fazer dai!0. Era o Saiilo 
muito amigo de maçãs , e o Senhor maudava- 
llie que as não Coii»eí>se. Eiii uma TÍsão, que te- 
\e, parecia-lhe aiie lhe davão uma maçu,^ e 
que quem llia dava lhe dizia: Toma , e farta 
a vontade, quecslassuo as misérias, em qua 
tu andas hujcando gostos. Respondendo o 
Sanlo que em nenhuma cousa tinha gosto st 
v.Zo n;i Eterna Sabedoria : disse-lhe o ouiro 
qu<i mcnlia, porque o certo era que folgava 
liiais do recciiialio com maçãs. Ficou daqui 
o Santo tão corrido , que eu» dous annos de- 
j)oi.'! níTo somente não comco maçãs , mas 
nem ainda as tomoti na mão. Tendo passailo 
o3 dous annos não sem asaz saiidades desta 
fruta , suecedeo haver no terceiro tão fraca 
noviíhide delia , que se não dava aos religio- 
jos em cotumiinidade, e elle ainda (jue t;uha 
acahadocomsigo, apezar de trabalhosa-. coil- 
tcndas, e vaf"li»s co!itradie'u's du c-pirilo não 
pr acurar na inezi . npm des '.niara si em 
pariicttlar nenhuma cou.ia[^r'nclpaLiientu d« 



^4 TiD\ DO Padre 

fruta ; pedlo í> nosso Senhor, que so fo^se 
sei: serviço tornar clle a comer marus^ ortle- 
rííisse ci<3 maneira , f[U8 as houvesse para toda 
a conitnuniJadu. J3espiichoa-llií; o Senhor 
esi.i peiiçíTo d medida dí*seu desejo , e acon- 
teren , que anianliecc^iido o dia segni?ite , 
cb.egoTi um honiein não cordiecldo ao Con- 
Tento com uma boa quantidade de moe<la 
íeiía de novo, que lhe deixou com condição, 
que se empreitasse toda em niacãsj fizerão-no 
as5lm os Frades, e por muito tempo tiveríTo 
macas contíguas no refeitório, e desde então 
ctmieçou Fr. Henrique a coniel-as com gosto. 
As maçãs maiores fazia em quatro quartos , 
destes comia três em nome da Santissima 
Trindade, e noutro em reverencia do amor 
com que a \'irgem Sacratisíima dava as ma- 
cas a seu precioso filho sendo menino, e este 
quarto comia sem o aparar, porque assim as 
comem os meninos. Do Natal por diante até 
al«;uns dias depois não tocava neste quarto , 
offerecendo-<> em seu pensamento d Virí;em 
purissima, para que ella de sua mão o desse 
ao menino JFSÍJ, por cujo amor fol^^ava de 
o deixar. Se alí^uma hora lhe acontecia sen- 
tir-se muito appetitoso de comer ou beber, 
pejava -se e havia vergonha da sua venerá- 
vel esposa a eterna íjabedoria, que faria 
conta , que tinha prescnic, e se por csqutii- 



Fh. lÍENniQTTzSuSO. ^3 

inei.to passava por qualquer cousa doslas , 
elle rnesoio su clara o castigo. Che;;oa-se ir.nii 
■vez um peregrino a elle , e disse-iiie, que cm 
uma visáo lhe fora mandado do Cef) , que se 
('ueria íju.irdar a ordem devida no co:. er se 
fosse a elle, ellie tieoisse quizesse ensinar-lhe 
as regras e exercícios, que neste particular 



usava, 



CAPITULO X. 

De como se aparelhou Fi\ Henrique parti 
entrar no anno novo, 

JLíiM Sucvia, donde Fr. Henrique era natu- 
ral , c costume em algumas terras entre man- 
cebos leves, e ociosos, quando chega o pri- 
meiro dia de Janeiro arruarem tod.\ a noite , 
e procurar cada um haver uma Capella da 
infio de suas damas, e a este fim compõem 
trovas, Qá\xsò musicas, eGnalmente iisào de 
todo artificio, e industria para obrigarem ás 
damas. Vindo o wSanto Varão a sal)er isto 1'oi 
a cousa , que mais llie caio em graça, e me- 
lhor lhe pareceo a sua arte. E logo na mesma 
noite se determinou elle também visitar sua 
Senhora, e pedir-lhe uma capella. E assim 
antes de nascer o Sol foi-se aonde estava 
lima imagem de Nossa Senhora , que tinha 



f)6 Vida. do Be\to 

entre scj*; ornços o Menino JESU branda» 
incnte apertado nos peitos, e posto de joelhos 
diante delia com uma musica dalma calada, 
c suave começoti a cantar uma Sequencia da 
Virí( » n ,pediíido-ihe por nicrcc alírisse ca- 
minlio para eile alt atiçar de seu hento F.Iho 
tir.ia capellj, e o cpje laltasse em seu mereci- 
mento, íupprisse eila coní sua misericórdia. 
Fez isto por jnuitas vezes Ião de veras , e 
acu(lÍQ-lhe tamanha forç* de choro, que 
todo se banhava em fervorosas lagrimas. 
Acabnda esta musica voltava-sc para aquella, 
que unicamente amava , digo a Iilerna Sa- 
piência : c prostrado a seus pés, adora?a-a 
do mais iniimo de sua alma, e engrandecia 
com muitos louvores sua formosura, seu 
v;.lor, suas virtudes , sua braii/Iura , e liier- 
dade junta com eterna autoridade, e respei- 
to, c aí firmava , que em nenhuma dama do 
inundo , por formosaque fosse, estavão tam- 
bém estas partes conm nella. Isto fazia com o 
canto, comas palavras, c'os pensamentos, e 
c'os desej(jscomo inelhorjjodia , cjuntament» 
estava desejando de poder scr]H)i' mcdo|e>p:ri- 
tual como uni messaffciro de Ktdos os corações 
namorados , e conjo um golfo, e amoiUoa- 
mento de todos os pensanienlos, palavras, e 
sentidos, (íue nascem do amor, para que assim 
^udi.ss« dar iou\orej á Sapicucia igtiaes coiu 



Vru merecimento , pois poi outra parte se 
sentia indigno cie a poíier louvar. Em fim 
fallando com ella lhe tlizia: Vós sois, ó amada 
minha, minha alegre paschoa , vós estio florido 
de meu coração , vós minha hora de ^osto , 
Tcs sois aquella a quem só ama , e de quem ?6 
faz conta esta alma minha, e [-or cuja cansa 
tem dado de míío a todo o amor mundano. 
Pcço-vo8, Senhora, que me valhais nisto, e 
•[ue mereça eu hoje alcançar de vós uma. 
grinalda. Fazei-me , rogo-vos Senhora heni- 
gnissima , esta mercê pol-a vossa liberalidade 
divina , pol-a vossa natural bondade, e iiL'y 
permittaes, que neste principio de anno nie 
aparte eu de vós com as mãos vazias , que não 
estará isso bem a quem vós sois, ó doçura da 
vida. Lembre-vos Senhora, que testemunha 
de vós um leal servo vosso; que não se acha 
em vossa casa , sim , e n.lo , senão , sim , e 
mais sim. Eia pois alegria de meu coração 
dai-me por favor celestial uma aprazível, e 
graciosa capella, para que assim como a rece- 
Lem esses desatinados aniadorcs do miindo 
feita por mãos humanas , a^sim a minha ahna 
receba neste dia por meio das vossas de- 
nientissimas , ó Saljedoria suavissima, algu- 
ma graça pajlicular, ou nova luz «m lugar 
de Janeiras. A esie modo costumava o S».n- 
to fazer suas oraíúcs, e nuiica juniais ilnè 

4 



^8 Vida do Beato 

acontecia enganal-o a espertnç.i, com rjue 
entrava nellas. 

CAPITULO xr. 

Das considerações com que o Bento Fr. Hen»^ 
rique cantava as pcLla^ras do Prefacio : 
Surstim Corda. 

U -\Ia hora perguntavTo aFr. Henrique seus 
amigos , que tenção tinha (jiianJo cantando 
a Missa comc^^ava a entoar aqiieilas palavras 
do Vt^Íslcio Surs li fTz corda (cuja sigoificaçào 
é, que se levantem, e suspirem a Deos os 
corações de todos) , ])()rque ns dizia com tanta 
eíficacia , e scntimenío, ({ue espertava nos ou- 
vintes um particular movimouro de pied.ide , 
e devaçào. Aos quiies o Santo P.uh'e com 
facilidade respondco desta maneira : Quando 
na Plissa pronunclavi estas palavras as mais 
das vezes me acontecia derreter-se-me a alma 
e o coraçfío com ardentes saudades, que na- 
quelle ponto sentia de Deos, que eriio tacs > 
que me roubjvào o coração^ e m'o faziào sair 
de si. Era a causa três soberano» e podero- 
sos pensamentos , ou discursos, qno em meu 
entendimento se moviáo , dos quao^ naquella 
hora se me oFfereciao ora um , ora dous , e ás 
vezes todos três, e tinhuo força para mo en«. 



Fr. Henrique Suso. 5^ 

ferar , c nrrebatar todo em Deos , e por meu 
nuio íi Iodas as crealuras. O piiíneiro, (jne 
interiormente me occ.irria era esie. Prí)pu- 
iilia-me a mim mesmo diante dos oliios dal- 
lua lodo tamanho sou com alma , e corpo ,tí 
todos rnc*us sentidos, e ao redor de mim 
assentava Iodas quantas creaturas ha por toda 
.1 parte íeitas por Dcos , lá nos (leos , cá na 
terra, e nos elenienios, e cada inna por si 
nofuéiidainenle como as aves do Ceo, as fthas 
dv>s liosques, os peixes das a^uas , e todas as 

onsas , qne a terra prodnz té a n)ils peqne»- 
ra hervinlia do caníoo , as áreas do mar sem 
<:õijto, e todos os argneiros que sedesçohrem 
nos raios do S;)l , jnníamente todas as gotas de 
agua , qne procedem , e hão de pioreder do 
orvalho , da neve , das cluivas ,'e eslava no- 
tando como cachi cousa destas , (h) iriais inti- 

10 centro de meu coração ia levantando em 
.iltocom un^i suave harmonia como de umu 
Ijem tocada viola , todo tle cahò a cabo can- 
tavào novos , e ahisslmos louvores ao aman- 
lissinjo , c suavissimo Doos, Entào com um 
rvfscido alvoroço se esteiHliiTo os hracos ile 
líilnha ahna contra aquelle concurso iníini- 
To de crealuras com tal tencào , que todos 
por meu meio brotassem íòuvímcs Divinos: 
cor.io fa/. neíií mais, nem njcnos nm dex- 
tro c cniendido uicsire de t;i2)tlla, qu:ini!o 



lOO VlDl DO B«\T(» 

convida seus companheiros, qu« c^intcm al^ 
giernsnte , e levante-ii os cirações a Deos, di* 
2en<l(» : Siirsuni corda. O outro discurso era 
este: Representava em minha memoria meu 
CoracTÍo , e os coi ncóes do toJjs os viventes, 
e imaginava, que de gosto e alegria, que 
de paz e amor possuem aquelles, que só a 
Deo3 rendein seus coraçíes! E pelo contra- 
rio quinto mil , e quanto trabalho, quantos 
tormentos, e aiterac'>es causa o am)r das 
cousas trauiitorias a qiiem se vai traz ellasl 
iL assi com grande fervor , e affecio da vonta- 
de fallara com meu coração, e com todos 
os mais do mundo por onde r;ner que vivera , 
dizL^ndo: Eia sus cativos corações, entregues 
a um triste cativeiro, acabai já de resusciíar 
da morte dos vicios. Eia sus corações vãos ^ 
e dissolutos, sahi já da froux.idão e tibieza 
desta vidi torpe , e descuidida. Alto , alto 
levantar a Deos com uma conversão perfelfa y 
c ilesemhararada de iodas os cousas da vida : 
Sursuii corda. A terceira consideração era 
inna caritativa cOiUpaixão, e lastima de to- 
dos aqtjelles que, tcntlo bons desejos, todavia 
não scabào de estar resignados, c entregues 
nas m.Tos de Deos, e estando em si levão o 
camiidio perdido, e andão enredados em 
erioi, o a causa é porque trazem o coraçã"© 
lepariido em varUs parles e audao d^rriaiA* 



Fr. HirfRiQiE Suso. loi 

dos nas cousas temporaes. A estes todos, e a 
mim com el!es piovncavti eu a tentarmos um.'t 
confiada, e desassombrada experiência de nos- 
sas forcas, c do que nos cumpre para a sal- 
vação com uma perfeita rennnciaçào de nó.^ 
me.'.m(js, e de todas as creaturas, dizendo: 
Sursmn corda, 

C A IM T U L O Xir. 

Do modo com que o Santo solemuizava ajista 
da Piir/Jicacuo d$ Nossa Sen/iora, 

X Res dias antes do em que a Igreja cclehia 
a festa da Puiiíicacão da ^ ii;'tm f{l(/rio- 

' DO 

sissima llie fabricava o Santo com su.is or;v- 
çóes uma candeia , a qual fazia de tres jia- 
vios. O primeiro á honra de sua inteirissima 
pureza. O se^'undo em reverencia de sua im- 
niensa humildade. O terceiro ení veiieraciTo 
da dignidade d-e mài de Deoi, que são as 
tres exiellencias, em que esta Seidiora á 
avantajada a todos os nujrtaes. iLsta cautlt^iu 
espiritual , que di^^o começava tres dias antes 
<la festa, Tc/ando cada iha tres vezes a Magni- 
ficai j e quaiuh» cluv^ava o dia áx fesía ia-sc 
pela mauhàa á i^rt'ja antes que nirjjxiciu 
viesse , e pegado com o ahar iwôv es|)crava 
alli eni mtdilacàu até a Santa parida cnira>' 



loi Vida do Beito 

com sou divino penhor, (jonsideran^ío <|Me 
chegava á primeira porta da cidade, fazia ctin- 
ta quesaía a recel>el-a em c()iiip:íuhii de iodos 
os corações, que amão a Oeos, m.\9> levando 
a todos a dianteira em afíecio, e devaçãotr.d- 
ma. Na praça chega\a-se a ella, e pedia-!ha 
quizesse alli parar um pouco com s«u acoai- 
])anbamer.io,ein quanto a serviu com um Cân- 
tico , e logo começava á pressa I/nHo!(ita , eic, 
<:om uma biirínonia espiritual, e calada de ma- 
neira, que .-íc lhe viào mover os beiços, mas 
não se lhe ouvia a voz. Jsto cantava com a 
maior devaçáo e amor, í[vq. j)Oíba, e qiiando 
dizia, ó benigna, ó bínigna, abaixava-lhe a ca- 
l)eca em final de reverencia, pediíido-liic 
iDosLrasse sua clementissima benignidade para 
com O peccador miserável. Dalli passando se- 
guia a Senhora com seu cirio espiritual aceso , 
desejando ({ue nào consentisse ella jamais que 
FC apagassem em sua alma ascliammas do di- 
vino íogo. Depois cbegando-se á cocnpanbia 
dos servoíi de Ocos, que a arompaiihavfio en- 
toava aquelle cântico Adoiua thalamum , etc, 
e lembra va-lhes, í{ue recebessem dignamente 
o Salvador, e tcslejassem com alvoroço a Vir- 
jTcm sua mài. L assim os levava todi>s ao 
templo com bymnos , e louvores. Antes da 
Virgem entrar dentro , e entregar o lie Icm- 
ptor ao Saiuo Simeuo, cbe^ava-se de uuvo 



Fr. Hexuique Suso. ioS 

a ella com um afervorado desejo, e com os 
joelhos em terra , e as niaos e olhos levan- 
tados pedia-lh»^, qiie lhe mostrasse o menino, 
e lhe desse licença para lhe beijar os pés , o 
qne consentindo a Senhora estendia o Santo 
seus hracos , e com elles juniamente toda a 
machina do mundo , e tomava no cojlo o 
amado Esposo tie sua alma , e n'um I^rcve 
espaço o abraçava cem mil Tezes, contem- 
plava aquelles olhos formosissimos, e aqucl- 
las muos de neve , beijava com humildade 
lodos aquellcs divinos membros, tenros , e 
pueris. Em fim contcniplando tudo, e le- 
vantando os olhos para o Ceo com espanto , 
chorava em seu coração , todo pasmado de 
ver o autor do Ceo táo immenso, e aqui 
tão pequeno , tão formoso nos Ceos, e me- 
nino na terra. Alli se occupava todo com o 
bom JESU , ora cantando , ora desfazcn- 
do-se em la^rin^as , entreízne a toda a sorte? 
ue exercicios espirituaes. Idtimamenie enti e- 
gava-o a sua mai , e entrava com ella no tem? 
pio até se acabar toda a solemnidadc. 



io4 Tida do Bbw» 

CAPITULO Xíir. 

Dê como se haí^ia o D, Fr. Henrique nos diat 
do entrudo. 

Ao sabbado anles da Domin«:i^t dn Septus- 
gesima, er.i que a Igreja deixa de cantar a 
âUeluia,- que é o tempo em que os honieii» 
mundanos andáo mais soltos, e dados a des- 
atinos e vícios com a visinbduça do entrudo, 
ordenou Fr. Henrique de fazer para si cm sua 
alma um entrudo celestial, por esta maueira: 
Considerava primeiro quão momentâneo , t 
prejudicial era o gosto do entrudo c.irnal , 
e como os mais dos homens por um breve 
passatempo comprão dcsaventuras , e misé- 
rias prolongadas, e rezíiva o iVilmo ào Mise^ 
rsrs mei Deus em honra do Scnlior, e por 
todos os pcccados, injurias , e affrontas, que 
«e lhe faziáo naquelle devasso tempo, c a este 
chamava clle entrudo de vihúos , como do 
j^cntes, que por ignorantes não alcanção 
cousas mais altas. Depois meilitava nos ensaios 
da vida celestial , considerando (onío Deos 
honra a seus servos ainda vivendo na carno 
inf)rtal, e corruptível, quasi como passando 
tempo cora ellcs por meio de divinas conso- 
larócs. Logij passava pela memoria tudo O 
que neste ^^enero liuba cip<irimeDUdQ em si | 



Fr. HaKAíQri nt ivsol io6 

icompanliando-o com multas graças, e louvo- 
res ao Senhor. Ainda no tempo de sua con- 
versão teve o Santo um espiritual entrudo do 
Ceo , que passou desta maneira : No mesmo 
dia de entrudo antes de Completas tinha-s« 
recolhido o Santo a uma estufa, para S6 
aquentar, porque se perdia d« frio , e de fo- 
me , mas mui lo mór trabalho lhe dava a se- 
de , que juntamcnip padecia. E vendo alli 
muitos que se fariavão de carne , e vinho 
quando elle morria de fome e sede , sentio-se 
mover interiormente, e foi-se h)"o fuíiindo 
pol-a porta fora arrancando grandes suspiros 
dahna com dó, e compaixfio de si mesmo, 
mas na n^.esma noite teve uma visão, em que 
llie parecia que se achava em uma enferma- 
ria , e da banda de fora ouvia cantar um hy- 
nino celeslial com tanta melodia , e concer- 
to , que não se llie podia con)parar nenhuma 
bem acordada viola , c era a voz cc>n!o de i m 
moco de cscliola de idade de doze annos. i'i- 
cou lo*,'o Fr. Heni Iqiie esqneci(]o da pena 
que lhe daváo a fome, e a sede , e estava 
mui atlento , e cou» as orellias j^ronqUas 
ouvindo a musica. E dizia com o Icrvor da 
alma quem é o que canta ahi tnra ? Ku não 
ouvi jamais na terra tão acordada harmonia. 
Eespontlia-lhe un: mancebo tle gentil dií^-po- 
♦icão, que naquella hora checava : Sabtrci* 



lo6 Tida do Deit© 

que aquelle moço não vemcnTilarn oiiirem, 
seiíão a \ós, e p<.»r vosso respeito da (;sla mii- 
sica. llcplicava o Santo: O' se Deos se lem- 
brasse (le mim ? Peco-vos celestial mancebo , 
que lhe inantleis que torne a cantar. Tornou 
então o moro a começar de novo a musica 
comum liple allissimo, e não parou até dar 
ílm a trcs cânticos celestiaes. Oscjuaes acaba- 
dos, parecia-lhe a Fr. IV.^nrique que o moco 
se sobia pelos ares ás jancllas da enfermai ia, 
e lhe offerecia um ramo apinhoado de uns 
fructos vermelhos como morangãns , qi:e o 
xnanco])o lhe touíava das mãos , e alegre- 
mente lh'o appresenlava com estas pahivras: 
Tomai irmão e companheiro meu esta fni- 
cta de que vos faz mercê aquelle Senhor , qi^e 
vos mais ama, filho delRci Eterno, que é o 
lintlo moço, que ouvistes cantar. O' se soubés- 
seis bem quanto vos quer! Ouvindo isto Fr, 
Henrique era lai o prazer (jue sentia, que se 
lhe acendia todo o roito cm c«)r de sanrjue, 
e recebendo alegremente o ramo dizia: O' 
venturoso homem, que pôde alcançar deste 
divino Senhor uuja tão alta mercê com que 
líão é possível deixar de ser alegre esta alma 
perpetuamente. E voltando para o mancebo, 
que liro dera, e paia outros espirites l)em- 
aventurados , que tand)eni eráo presentes ; 
Chari^jsimos amigos, dizia, uão vos parece 



Fk. Hl??RIQtTE Susd. 10^ 

mzrlo , que un\e eu de todas minhas forças 
este gracioso, e soberano menino? Merece- 
dor é de verdade que o ame. E se a mim me 
copstííra qual Ke sua vontade, íizer?.-]ha eu 
er.i todas as maneiros. Logo tornava para o 
mancebo, que lhe dera o ramo, e dizia-ihe : 
Dizei-me por vida vossa, amado mancebo, pa- 
rece-vos que íaço nisto o que devo? Ao que 
clle sorrindo-se respondia, njui Ijem o en- 
teralei.s. Justo e deviJo é, que quei^ais mnila 
a quem com mais afieiçfLO vos olha, e quer, 
que a muitos outros. Pelo que vos Icndjro 
que façais pelo amar de todo coração, e que 
estejais apercebido , porque sabeis que cum- 
pre padecerdes inuiio , e mais do que muitos 
outros padecerão. Tudo farei quanto dizeis, 
disse o Santo, de mui boa vontade , uías pe- 
ço-vos que façais , que possa eu vel-o para Ih* 
agradecer este rico presente. Chegai ú janeU 
la , tornou o mancebo, e olhai. Abrio Fi\ 
Henri(|uc a janella , e vio um moco como 
estudante de tão aoa!)a<la formosura , qual 
nunca viia outro; e querendo-se lançar a elle 
pela jancdla , fcz-lhe o moco uma amorosa 
inclinação, e deitou-lhe uma bençfio, e subi- 
lamenit* desappareceo. E por aqui a( abou a 
visão. Torna tido o Santo em si r^Mideo as 
graças ao Senhor por este divino enliudo , 
que de 6ua mão recebera. 



io8 ViDÁ DO Beito 

C APITULO XIV. 

De como festejava o Beato Fr, Henrique 
a entrada d c Maio, 

li A noite do primeiro dia clc Ivlaio rostii- 
niava o Santo coíherespiriíur.liiieute, Ci^uinr- 
darpara si um rair.o verde, ao qual vencr.na 
«iguns dias eoni oraçoens quotidiaras. E 
como para haver este ramo não pude nuuta 
achar arvore mais fresca entre todas as que 
ílorccem na terra por mais bellas, e l)eni as- 
sonibia<las, que fossem , que o lenho exccl- 
liuie íSm, Sagrada Cruz , que em ^'raça , e vir- 
tudes, e em todo o género de perfeição (' mais 
nobre, e mais fresca arvore de todas as arvo- 
res ; debaixo dos ramos desta divina arvore, 
e á sombra delia se ilebrucava no chão seis 
\ez('S desejando a cada uma delias em sua 
conlemplarão de lhe enramar, e entertecer 
as folhas mistioas das mais bellas, e mais 
cheirosas boninas, tpie f)roduz o fkjrido Ve- 
ifio, e ([izia cantando entre si ohvmno: Sul- 
ve Crux sancta ctc, ajuntando mais estas pa- 
lavras: Deos te salve arvoíe celestial desande 
perpetua onde cre^ceo o fru( to da eterna Si- 
bedoria. Piimeiraineule em lugar de todas 
:ís rosas encarnadas para teu ornamento , e 
alaviu contínuo, lu oííeieeo uai amor en- 



Fr. HEi^RiQrE Scso.' 105 

traijhavel. Em segundo lugar te offereço por 
iodas as violas, que nascem á íace ('o chão 
«ma humilde sujeição. Tw teneiíí) por todos 
os cheirosos lirií)s um ahraco de |'ureza. Em 
quarto um espiritual osculo d'aln a por toda 
a sorte de lindas, e agraciadas flores tanto 
em frescura , como em cores, que neste Verão 
criarem ou tenháo criado dantes ou hajão de 
criar depois os matos , os piados , os bosques , 
as arvores, os jardins, e os campos. Em 
quinto lugar te oiiereco louvores iiifinilos 
de minha alma p»l-a musica, que todas as aves, 
que olegremtntc voão por estes ares , derem 
daqui té o fim do mundo sohje quaesquer 
raminhos de arvores. Em sexto por toda a 
sorte de graça , e frescura, que o \ eifo f óde 
comníunjcar a uma planta, te engrandece 
hoje meu coração com espiritual armonia ro- 
gando-te , que me sorcorras , ai vor<' l/cndita , 
para que de tal maneira mereça eu louvar- te 
no transe desta breve vida , que fia cutra seja 
digno de gozar eteinamenle de ti, que és 
fructo de tida. Desta maneira festejava b 
Sant* a entrada de Maio. 



lio VlDÀ DO Be1T« 

CAPÍTULO XV. 

La maneira, que o B. Fr. Henrique ncfímpa' 
nhn\*^a a Christo em todos os passos dê sua 
sagrada Paixão, 

J Eve o Beato Fr.. Henrique no priucipio 
de sua convciião muitas consoUoóes , e ini- 
n>o5 do Geo , cem que Deos o recreou por 
muito tempo , dos quaes vivia tão satisfeito , 
que tudo o que era tratar da gloria , e divin- 
dade do Senhor era para elle suave , e tlelc:- 
toso. Mas se queria lembrar-se de sua paixão, 
ou pòr-se em ordem de a imitar cm alguma 
parte , nenhuma cousa sentia mais desabri- 
cki , nem mais áspera delevaraocal^o. Donde 
nasceo , quo o Senhor o reprehendeo ; um cha 
asperamente lhe disse: Tão mal sahcs tu que 
sou eu a porta, pela qual é torcailo entrarem 
e passarem tc»d.">s os venladciros amigtjs de 
Dvíos, que pretenderem alcannar gloria P On- 
vjm , sem duvida , que passes pelas atílicçóes 
de minha atribulada humanidade coníor- 
niando-te com ella se queres de verdade che- 
gar á divindade nua e perfeita. Ficou Fr. 
Henriíjutí temeroso desta pratica , e traba- 
liiava por se applicar ao que o Senhor lhe 
dissera, aluda que coiu grande repugnância 



Fr. Hknriqtje Srso. iti 

le s^u gosto. E assim começou a apprender 
uma sciencia, em que dantes estava rude, 
eritregaiido-se todo com o animo rendido 
nas li, aos de Deos. Dahi em diante todas 
,is noites depois de Matinas leeolhendo-se no 
Capitulo, cí>£tuma\a exerci lar-se em uma re- 
presentação ao tívo da Paixão de Chiislo fa- 
zendo conta, que o acompanhava, e padecia 
juntamente, assim nos passos, que andou, 
"omo cm tudo o mais que por nós padecco, 
Passeava de canto a canto para deitar de si 
(' sono , e a | reguiça , e estar n~iais prompto, 
€ mais esperto na ir.ediíação , e sentimento 
(ia sagrada l^aixão. O lugar donde cemeçava 
eia o da ultima céa. Daqui saía com Cliristo , 
e con ia com ellc todos aquelít^s lugares sa- 
grados sem dei::ar nenhum te o trazer dian- 
te de Pilatos. Em fim reeehia-o sentenciado 
ú nicrte d ante o trihunal, e passava com elie 
aquelle lastimoso caminho , que o l)om JE.SL^ 
íez tom a Cruz ás costas desdo mesmo lugar 
té o monte Calvaiio. A cruem que legava 
neste can;inho da Cruz era a seguinte: Clie- 
gaudo á poila do Capitulo paia sair, pr'- 
ineiro que tudo com os joelhos eui terra 
beijava as pisadas do Senhor, une fazia conta 
que saía j)or alli já coiidemnado a morte , e 
camiidiavn para o lugar delia, e aqui rt7a\n o 
i*jiaimo : Ltm JUius uicus i íípice iii mt . cie. ^ 



tí% Vida D5 B]e4T'í 

assim saía pftla porta fora, e fa dando rol li 

pt!ii oTiiSU , jndtí tinha f-. 
giiiaçã'» ciuatro píaias, p- ií 

passar em co;iipa[íh;a co oeníii>r, í ÍJ 

á priineira passava-aroni ílc5ejo,e .. . :iá« 

cão de largar todus os bens te:nporaes, ami- 
gos , e hizeud.i , e padecer em h,>:ra, e lou- 
vor de Christo um desterro <]eiaiup.<raíio 
de todo allivlo, e uma pobreza voluntária. 
Na se^jundii pjopunha dar d« mão a toda; 
ashcmras, e diguidades da terra, e fazer di- 
ligencia por coe^'ar a um voluntário despreza 
do niundo: considerando ronio o íiicsmi 
ScMihor chegou a tístado de bicho, e não cc 
homem, ef<»i haviílo por afronta dos liomecs, 
e despreio do povo. Na entratla da terceira 
praça tornava a pôr os joelhos em terra, • 
beijar o chão, eaíli cojn animo livre, e reso- 
luto engeitava todo o descanso, e repouso 
desnecessário, e lodo o refrigério, e recrea- 
ção corporal á honra daquelie tlehcadissimo 
corpo de seu !) )m JESU, espeilaçado coiu tor- 
mentos : pondo naíjuelle passo diante dos 
allios , o que está escrito, que se scccou sua 
força como telha , e íjue foi tornado em pó 
de morte. E tend 1 presente na imaginação a 
crueza, com que aquelles algozes o empuxa- 
vão, considerava que com muita razão não 
haveriaolhos, nemcoraç«3cs tão durosdonde 



Tm, Henriqui Scío. ti3 

% lastima disto não arrancasse lagrimas , e 
gemidos de compaixno. Che;2[andt> á qujrta 
e ultima praça lançava-se de joelhos no meio 
delia, f izen lo cont;» que o fazia diante da 
porta da LÍda<le, por onde o Senhor liavia dd 
*aír, e posto diante, beijando primeiro o 
chão, pedia-lhe efíicazmente , qu« não qui- 
zesse ir am<»rTerse elle antes consentisse, qu« 
acabasse jwntuu»ente em sua companhia, pois 
de força havia dtí passar o Senhor por junto 
(k^lle. Estas cousas todas retra-íava o Santo o 
meilior qae podia em sua alma , e tanto ao 
"vivo como se na verdatle passarão assim em 
sua presença , e dizia aquella oração : //fr'd Rejt 
noster fili Da\>id^ etc. E assim deixava passar 
o Senhor. Depois toniando-se a por em joe- 
lhos contra a poria, recebia tatnbem a Crux 
com este verso : O Crux ave spes única , etc, e 
deixava-a também passar diante. Então fa- 
zia outra grande referencia com os joelhos 
em terra á Virgem gloriosis^iina Rainha dos 
Ceos, que passava por junto dclle, e ia traz 
seu lilho trespassada de dores mortaes. Alli 
estava considerando os gestos , e mcneos 
lastimosos da Senhora , os rios de suas ar- 
dentes higrimas , seus profundos e magoados 
suspiros, e a tristeza inuuensa de seu Divino 
roslo , e rezava-lhe uma Salva tiegine^ ctc^ 
£ beijava com grande devacão suas pizadas» 



.11 4 Tida no Beato 

Logo «e levantava , c loniavn a caminhar traí! 
o Senhor até o alcanrar , e se pur á sua ilhar- 
ga. E isto ainda que ima^inatlo, tiriha-o al- 
gumas vezes tão presente , como se corpo- 
ralmente o acompanhara. E vendo-o rão só 
considerava cmijo iiuindo Ell\cl David de 
íeii filho Absalão, nunca lhe taltaião sol- 
cla(h)s valorosos , que o aconipaiiha\ ã") , c fa- 
miliarmente lhe assistão a um , e a oulro 
lado. Aqui rendia , e renunciava todo seu 
queier, é vontade nas mãos aivinns , reso- 
luto em não cngeiíar nada de ludo quanlo 
Deos quizcsse ordíiuir delle. Depois trazia á 
memoria aqucila iicão do Propheia Isaias, 
que se iêna Sexta feira da Semana Sania , e 
começa : Domine quis ctedidit auditui nosfroy 
efe; na qual se pinin ao vivo esta saída do Se- 
nhor })ara o Uíonte Calvário. Com esta con- 
«ideiação entrava pela porta do choro, t 
luhia-se ao preshyíerio do alur, e alii lancan- 
do-se por terra diante de uma Cruz f>cdia ao 
boni JESU, que lúo c[uizcs5e consentir vel-o 
tpartado ilo si em tempo al-itim, nem na 
morte, nem na vida, nem r.«s boas vcntur.is, 
nem nas adversielade>. (Costumava tamhem o 
8anlo fazer outro caminho espiritual da -Crui 
p<ír esta ordem: Quando $e cantava a iSrtA* 
iieí^ina as Completas, conteufplava em sua 
alma a Yirgeiu sag^rada encostada soLic o í4í« 



Tsi, Hr-^R:QUE Sn5o, Ii5 

puUhro He sen Filho, cercada de um mar de 
dores, e iiiKí^iriava que erfio horas de a re- 
colher para casn, e (jue este o-ficio estax-a a 
ma conta. K assim fazia tros vénias em espiri- 
to , e a cada uraa deílas beijava o chão , & 
desta maneira a acompanhaTa até casa. A 
priíneiía vénia fazia junto do Sepulchro ; 
porque tanto que se começava a Sa/í^e incli- 
nava sua alína^aos pés da Senhora, e toma- 
va-a euí seus braços espiritualmente , e alli 
chorava a desconsolação daquelle peito riia- 
ternal cheio de amargura , de desprezos, de 
afrontas , e de mui aiuargosa tristeza , e con- 
solava-a com lhe lembrar, qiuí em recom- 
pensa destes trabalhos era agora Ikiirdia po- 
derosa , Rainha de misericortha , vida, do- 
çura, e es[)erança nossa. Chegando ás por- 
tas de Jerusalém adiantava-se um pouco, © 
virando para traz punha os olhus nella , 
vendo q<ião lastimosa vinha, tinta, e ba- 
idiada do sangue, que .soI)re elhi estilla- 
rão os rasgados mecubros <lc seu pre«it)s« 
Filho, e tjue desamparada ile tocJa c«mi- 
w^íhição. Aipii tornava a beijar o chfio coin 
grande devaçfio, e reccben(h)-a com as pala- 
VI as: A/Vi ergo ai/i>(>cnía nostra^ ctc. encoui- 
men(hi*a- lhe que estivesse de hom animo, 
pois já era de tod.» o género humano ativoga - 
da dijjuissima, c rogava-ihe que puzesác neilíÇ 



os sens pirclosos olhos pelo amor daqiielle la» 
tiniosí), e niagonda aspeito, que trazia, elhe 
mostrasse brando, e benigno, depois do de- 
slerro desta vida, a JP>jli fruito l>emdilo de 
seu ventre. A terceira vénia fazia ás portas da 
casa de Santa Anna , mãi da Senhora , aonrlt 
entrava desfazendo-se em lagrimas, e encom- 
mendava-se em sua brandíssima misericór- 
dia, e em sua brandura misericordiosissiiiia 
com as devotas palavras : O cUmens ^ o pia, 
o diílcis M riria , ^ pedia -lhe que na hora da 
iMorte recebesse sua ulma pobre, e desterra- 
da , e a levasse, e a defetulesse dos inimigos 
iufernaes, e enraminhasíe pelas portai do 
Ceo á porta da eterna beiuaventurança. 

CAPITULO XVÍ. 

Do cuidado com que o B. Fr, Henrique f^uar* 
dou a virtude utilUsiuia do iilencio. 



X ínba o B. Fr. Henri(}ue grandes impulsos 
interiores que o obiií;aAã<i a procurar, e 
buscar a pa/- verdadeira d alma : para o que 
entendi;» , que eia conio íujidamciito princi- 
p.íl o siUM.cio. Pelo que tete tal «uarda na 
l»òui, que em inuta aiiuo6 uunca na mesa. 



Fn. He^aíQUí Suso. iiy 

^lebrou o sileiuio senãt) foi uma vez co» 
mcndo em urna iiáo com niuiios Fr-des, 
com qne vinha de íJopilulo. E para se fazer 
mais senhor da. língua , e !iáo ser arremes- 
sado no tallar tonjou em sna iiiíagina- 
cão três mestres sem cnja licença partiru- 
lar não fallava. flsicí erão os Padres S. Do- 
mingos, Santo Arsénio, S. Ocrnartlo. Haven- 
do de dizer al^nina cousa h)^o em seu pen- 
samento os corria todos , pedindo licença a 
cada um , e dizendo : Jube Domine Oenedicert, 
E se o que queria dizer se podia fazer em tem- 
po , e Ingar acínnmodado , fazia conta que 
tinha licença rio prinieiro. E se estava certo 
que da pratica lhe rifio nasreria renhuni in- 
conveniente, ou embaraço de fór,^ , linha 
também licença do segundo , e se sentia que 
o que queria íallarlhe não causaria desasso- 
cego alguíu, ou alteração interior, já então 
havia que toJos ires lhe dava o licença , e as- 
sim acabava de soltar o que queria dizer. Mas 
se lhe acontecia entender outra cousa neste 
exame , parava , e não saía dos limites do si- 
lencio. Quando acodia á portaria chamado por 
alguém, procurava guardar (jualro cousas. 
A primeira atalhar a lodos com benignida- 
de. A segunda concluir em poucas palavras. 
A terceira não deixar ir ninguém desconso- 
lado. A quarta tornar para a bua celiu senj 



1 1? Vida. do Beito 

Icviír nenliiim danino da conversação ou lhe 
íicar preso nelia albina atíecto (U TontaJe. 

CAPITULO XVÍÍ. 

D;iS asparas penitencias com que o D, Fr» 
Hcnriqiis inorfiJicai\i. sua carne, 

XLPia Fr. Henri|ne em sim mocidade dt 
unici uatine/a depravada , e lasciva , e torno 
ia entra fidi) na idade roniecaváo os vieios a 
fazer nella grande ahalo : do que o Saiilo re- 
cebia assaz desgosto conherendo quão pe- 
sada era a targa da huinanulaíle in:d morti- 
ficada , quanto mais de seu próprio corpo. 
Por esta rasao inventava nuiiias cousas sa- 
gazmente traçadas , e afliij^ia seu corpo com 
cruéis penitencias , trabalhando pelo trazer 
sujeiío ao espirito. Priuieiramente trouxe 
muilo tempo um cilicio , e unia cadèa de 
feiro cingid.i no corpo , alé quví pelo muito 
sangne , que Ibe Sciía das cliaga> , cpie lhe cau- 
sava , fui forcado a tiral-a. Maiulou secreta- 
mente fazer umas ciroulas ile áspero cilicio, 
e nella^ umas filas para se alar, em que havia 
cenio c cincoenta agulhas de metal adelga- 
çadas á lima, cujas pontas lia/.la sempre \ i- 
radas para a rarne. Estas íirt)nlas erào muito 
justas, e pela dianteira apertadas para §• 



Fr. Hsxktqub Sus(í. 119 

clicgarem mais ao corpo, e afsitn enlrarera 
as naulhas mais luía cai no, e cheíiavão-rue 
ale o eiubigo, e aornua com cii.is ue noiíe. 
Neste tornienlo parsava as calmas do Estio , 
(juando viisha de fura afrontado do camijjlio, 
e desíalecido dfe forças, e alento; ou cjiiando 
acabava de ler scado mestre ; e de nia- 
Ticira jizla apertado , que tanibom os bichos 
lhe fazião guerra, o assim forçado da neces- 
sidade, ora se encolhia, ora se torcia, 
ora se revolvia de uma banda para outra , 
como faz um bicho, se o. picão com uma 
aí>ulha. finitas vezes ficava taí da guerra, c[ue 
lhe fazlào os } iollios , como se estivera ro- 
deado de muitas formigas; porque ou qui- 
zesse cerrar os olhos , ou estivesse já dor- 
mindo saitavão nelle, e moru*ião-no, e bc- 
bendo-lhe o sangue o atormenta VuO cruel- 
mente. Nestas occasiões costumava algumaí; 
vezes dizer a Deos de todo coiaçrio : O* meu 
Deos , e quáo penosa morte é esta , qn<.MU é 
morto por salteadores , espe laçado de b-ras 
ahmarias acal>a de uma morto abbreviada : 
mas eu jazendo entre bichos, e cercado del- 
]es, vejo-ine uorrer de coníínuo , e vejo que 
n.Vo posso acabar, e todavia consentir tan- 
tas penas: nunca pc»k' acabar <oinsigo afrou- 
xar nada deste rigor.; nem nas con^pridas 
Boites do Inverno , nem no fervor do Eiiio, 



fao TiDÁ Da Beitô 

Antes i^kTi ter menos allivio accrescentom 
outra cousa de novo. Lanrou ao nescoço um 
pedaço de cinto, que Ilie 6cava como colar , 
e iieile pegou artificiosamente duas manilhas 
feitas de couro, nas quaes nieilia as mãos^ 
e as fecli.iva, como em aljeinns , com dous 
cadeados, easchaves delies punha sobre um 
banco , dianfe do leiro , eni que jazia , e não 
se soltava senuo quando eriío horas de se le- 
Tantar para as Matinas. FicaviTo-ihe os bra- 
ços pegados na garf^anta, e estendidos para 
cima , e era a prisíTo tào íirmc , que bem se 
lhe podia qileimar a cclla , e o Mosteiro todo 
sem ellc ser poderoso para st rcmedear em 
nada como nuo usasse das chaves. Conúnuou 
neste martjrio tanto tempo, que lhe come- 
çarão a tremer as mãos e braços em j^randc 
maneira por se aperíar tanto. ílntão buscou 
outra invenção. Fez fazer un; as luvas do couro 
como as de que usfío os trabalhadores vm of- 
íicios perigosos para as mãos , c os lavrado- 
res para arrancar cardos, e espinhos, « nian- 
flou-as semear todas de preguinhos tle bronz* 
de pontas agudiís, e calçava-as de noite pari 
que assim se ferisse, e magoasse se acaso dor- 
mindo quizesse afastar de si , ou afiouxarai 
ceroulas de cilicio, ou \aler-se de alguma 
maneira das mãos contra os bichos, quando 
o comessem , e assim lhe acoutçceo , qu« 



Fr. HEríniQTii Soso, laj 

^ucrerulo-se ajudar díS muos (luando dor-* 
mia , e coçando-se nos peitos com os pregos, 
abria as carros tão crua , e feamcnte, que pa- 
recido rasg^adasdts unhas de al^um usso , e 
chegava a estado que lh« inchavào os bra- 
ços , e os peitos. E sendo as feridas ta«s, que 
nao sarava delias senão a cabo de muitos dias, 
com tudo, em sendo são logo tornava d« 
novo ao mesmo tratamento. Neste penoso 
exercício, ou por melhor dizer martyrio , 
coutiniíou o Santo dezeseis annos: no cabo 
cios quaes reíriando-se-lhe já a naUireza , • 
sentindo muitas contrariedades e misérias 
delia , teve uma visão de Anjos , em um dia 
de Pentecoste , que lhe certiGcárão ser Deos 
servido, que não padecesse mais tal traba- 
lho, e elle obedecendo logo, e d.*«.lstindo 
de tudo lançou n'um rio todos aquellcs ias- 
trumentus. 

CAPITULO XVIII. 

De uma áspera CrnZy que ó Beato Fr, Henri» 
que trouxe entre as tspadoas, 

OOhre todos os outros exercícios de pe« 
niiencia, que o B. Fr. Henrique conti- 
nuou, levava-se com grande gosto daquel- 
as que lhe faziãg tiaztí; cia seu cor*. 



I5i2 Yicr no Br ATO 

po algum sinal cie compaixão experiment^T, 
e sensível dos cruéis toniienlos qiu? o Senhor 
padeceo na Cruz. E a esic fim fabricou par 
suas mãos unia Cruz de pão do comprimento 
de um palmo , e de lurgura proporciona- 
da, e pregou nolla trinta cravos em honra , c 
memoria de todas as chagas cora queChrisio 
testemunhou o grande amor que teve ao gé- 
nero humano. Esta Cruz assentou nas costis 
soljre a carne r.úa estendida entre as espadoas , 
e trouxe-a oito annos couiínuos de dia e de 
noite, em louvor de Cl»»iisLo seu Senhor cru- 
cilicad.o. No derradeiro ar.no accrescenlou 
mais sele agulhas , cujas pontas íuguravão a 
Cruz pelo meio, e saião a outra parte, fi- 
cando nella bem reíirmadas , e cortadas pela 
parle de cima. O sangue e dores, que tsias 
llic causavão rccel)ia á honra daquella dòr 
penetrante, c agudissima, com que foi tres- 
passado o corai:ão e alma da Virgem sagrada 
j)a morte de seu filho. A primeira vez que 
poz esta Cruz, e a apertou comsigo , assoiu- 
brou-se-lhe a natureza como delicada que 
era, e ficou cheia de pavor. Pelo que com 
uma pedra embotou um pouco as pontas dos 
cravos. Mas logo sentindo ver-sc vencido de 
tal pusillanimidade, fornou-os a apontar to- 
dos com uma lima, e pol-os sobre a 
carne* JBai todas as parUíS das costas , oni]# 



Tr\, Luiz db Socsa. Ii3 

na o«.sos, que sáeni para fora, a Cruz Ih» 
ínzia sangue, e chaga. Quando qtier qud 
andava ouse deitava parecia-ihe que andava 
vestido oní unia pelle de ouiico. Se alguém 
desatlentad;nnente lhe tocava naquelia parte 
ou o empuxava, nutgoava-o. Com wui s6 
lenicílio lhe pareceo que faria loieravel tão 
trahalhosíi Cvuz, e foi entalhar como en- 
tahiou nas costas delia o salutifero nome 
de JÈISU. Alem das afriicçóes ordinari;:s , 
qtie o Sa?ito padecia com csia Ciuz, , duas 
vezrs cada dia se disciphnava com ella 
por este modo: Dav2«lhe punliadas em cima, 
e os cravos en liados pela carne , prega vfio-so 
de maneira , que era necessário para os tirar 
de^pir-be primeiro. Isto sabia fazer tão enco- 
bertameiite, e <om tal aviso, que nin;^ueui 
lho podia eritender. Este modo de disciphiia 
tomava quando nas meditações, que tinha da 
Paixão jchegava a contemplar a colimina, em 
que seu Dcos , e Serdior , aquclle mais íbr- 
IU050 , e mais jierfeito que l(vlos os fdlios 
(h)s homens , foi tfio deshumanameiUe açou- 
tado com Taras , e azorragues, e pedia-llie 
í[ue com aqucllas divinas chagas sarasse as 
sua-. Outra vez se disciplinava quando chç* 
gava com o Seniior ao lugar da Cruz, e ocoa- 
siderava pregado nella com cra\os , entào se 
apertava elle laml)cmcom cravos desuaCru* 



1*4 Vida do Biato 

com «tenção e nnimo de se não apartar nnn(?€ 
deChristocruciíicatlo. Em oulrasoccasióesse 
mal tratava tambetn da in«sjiu maneira, mas 
isto nfio ern Sfínào f|u.ni{lo ihe aconteria ter 
gosto demaslatlo no coriici- , ou no hcbcr , 
oii em COUS3S similliantes. Aconieoeo um 
dia, que estando sentadas com elleduasdon- 
lelias cm lugar púbico, e (iuiile de multa 
gfntc , por liiscuido ibes tomou as niaos sem 
pretençao , nem pensamento mvío ; mas l>om 
(iepressa llie pe.sou assaz, entendendo qne 
riào era raz;To passar tal <^)us.i sem castiiço. E 
assim em se apartando í^alli íoi-se ao sen ora- 
tório, e deitiíndo-se sobre a Cruz ferio- se de 
manciía nella por acjnclle descuido , que co- 
xnettera , que Ibe tí( arào poi todas as costas 
entravadas , e nao conlc-nlc com esta pena, 
tomou outra de niTo enlrar, como se fò:a 
esoommungado , no capitulo d sua oração 
costumada , ifndo pejo de ir a elie , 
como sobia dep(»is de Matinas , e jnnlar-se 
com os e<pirit >>í ;ingc!icos, qnesc-mpre >iidK'Ío 
aconipanlial o eui suas meditaç.Vs. Do[)ois 
querendo já re<"i>nciliar-se com o Senbor, e 
absolver-se <ie lodo dtsta culpa , caslij;ou-se 
primeiro borrcni/icmnie com muitos tor- 
in nlos. rri:ií<!ran»cnte l.iucaílo porteira aos 
pt*-í do Juiz, (ptc iuia:;inava presente, ferio-se 
diante «icilc coiu a Cruz, e b>jj'0 posto no Dieio 



Fa. Lui2 ox Sot?si. la^ 

Ha casa, e Correndo partioularinente os San» 
tos , que fazia conta eiiavão á roda, ferio-s* 
da mesma maneira trinta vezes de modo, (jue 
llie corria o sangue pelos hund)ros abaixo em 
abundância. As«im purgou c: uelmi nte aquel* 
la deleitação, que lhe parcceo recebera desor- 
denada. Acab.id^s as Matinas, recolhido no 
oratório do Capitulo em um lugar apartado, 
que costumava , prostata-se cem vezes com 
o rosto C!n terra , e beijava o chão, e outras 
tantas lazia o ?nesmo posto de joeliios , e para 
cada vez que beijava o cliàfo de uma maneira, 
e de outra , tinha suas particulares medita^- 
ç5es. Daqui saía sempre mui trabalhado; 
porque Como trazia a Cruz fortemente aper- 
tada lio corpo , e muito mais checada, e co- 
sida com a carne , do que audão as cordas 
que se at\o em rasos para servir, e como an» 
dando desia maneira se debruçava cem vezes 
para l)eljai a terra ; a<i dobrar-se mettlào-se- 
Ihe todos os cravos pela carne , e os mesmos 
ao levantar tornavão a saír^ o logo á outra 
inclinação fa/.ião novas feridas , dando em 
outros lui,'\Te", , ([uc era cousa que na ver- 
dade lhe causava intolerável dòr e marty- 
rio , que fò?a mais sofrivel qcantlo não fe- 
rirão nimca iiais que n*iim só lugar. Antes 
desta peultenc.a fazia outra primeiro. Tinha 
íeito por suas jiiãos um uzoriajjuc , e mau- 



laO Yjda 130 Deato 

r^níi-o rn]>ilr ãc uma parle e cVoulra ri» 
Miiia-i nofiias fie bronze agudas cônio de fu- 
rador , e d'» meio do azorrague para diante 
saííTo nois duas p*)nías , que fica\áo pej^^adas 
com cala uma das prlineiras, dejnaneira que 
vinha a Si^r cada uir.a de três I)icos , quando 
dava a pancada, e feria. Com esta disciplina , 
levaiitando-se antes de corneçarein Matinas , 
se ia at> Coro diante do Sanlissi;iio Sacra- 
mento, e diciplinava-se asperamente por uni 
])oni espaço , e isto fez até que soube qne to- 
dos os Frades o linhão já sentido^ pr.rque 
desde então cessou. Em dia de S. Cíemcnle , 
quando comera já a entrar olnxrriio, lhe 
íconteceo unii vez fazer uma coiifiísão ge- 
ral, e como foi noite, que tudo estava calado, 
íechou-se na cella, e despirdo-se de todos oi 
vestidos, íicando com as cerotdasde ciliiio , 
que trazia , nçoutou-se de maneira até nas 
pernas , e bryços , que o sani^Tic que dedo 
corria não era menos que sclòri de cutiladas 
de uma esjj.uia. Tinha o azorrií^^ue uma das 
pontas revolla, como gancho, ou anzol. (\v.e 
tudo o em que pegava da carue arrancara 
fora. Foi tal, e tão aturada a força desta 
diseijjHna , í{ue lhe qnelnou o azorrague, o 
feito em três pedaços foi dar nas paredes da 
cel!;í, íir.iiulodhe outro pedat:*) nas máos. Es- 
tando p.ds ussiai tcdo (.nvulro cm sangue , • 



Fr. Luiz de S uíaJ 1^7 

olhando para si considerava a miserarel figu* 
ra de seu corpo , e muitas vezes cuidava que 
arreuiedava bcni ao vivo ao mesmo (^hristo 
quando foi açoutado na columna. Logo co- 
meçou a cluiriír agramente de uma compai- 
xão de si mesmo. Eassi.n como estava nú, e 
banhando em s;íngue , e j)or aquelie frio da 
Inverno, pondo os joelhos em terra , pedia a 
Deos, que lhe perdoasse todos seus peccados. 
Depois disto outra vez em um Domingo da 
Quinquiigesima (que eráo dias em que co- 
stumava tomar disciplina) «stando os Fradeô 
na me/a, mettldo na cella^e as roupas íóia, 
5e açoutou com a niesma deshumanidade, fi- 
cando todo lavado em sangue; c querendo 
apertar de novo comsigo com mais aspereza , 
acudio um Frade aos som dus golpes , que 
dava com a disciplina , e assim parou por en» 
tao , n)as para sentir mais tormento' lavou 
as chajTj.is com sal e vinagre. Em dia de S,' 
Bento, que íui o cm que Fr Henrique nasceo 
a horas de janiir , recolheo-se erii seu ora- 
tório, e fechando-sc por <lentro, dcspio-se , 
e tomando nas mãf)s o aznrruguc, que ^rnos 
dito, começou a discip!inar-se. No principio 
tlesia (]i-ií:iplina dou cyni o acoute no braço 
esquerdo , e tocantio a vea delle , que cha» 
mão mediana , ou outra visinha, n)mpeo-a y 
€ arrebentou-Uie o sangue com taulu íuri« , 



f a8 Tida 9o JízLtd 

c abundância, que lhe corria até os pét, fe 
alagAva o sobrado. Logo lhe inchou o braço, 
e se lhe fez nesrro : do que íit ando o Santo 
atemorizado nao se alreTeo a ir por diante. 
No mesmo tempo ^ e liora que aisim se açou- 
tava , uma snnta donzella por nome Anna , 
que estava em orai áo tni outra cidade , foi 
levada em visão ao mesnío lugar, e vistos 
os temerosos golpes , que se dava , cheia de 
compaiião, chegou-se perto, e indo o Santo 
uma vez com o braço esiendido para se ferir, 
•lia se atravessou ao azorragne , de maneira 
que lhe pareceo que ton.ara lodo o golpe em 
um braço , e cm fim tomando em si achou 
a pancada sinalada no braço , e a carne alli 
picada 5 e negra , e este sinal evidente por 
argumento certo • verdadeiro das ásperas 
penitencias de Fr. Henrique lhe ficou bem 
de verdade impresso nas carnes por muito 
l^mpo. 



Fr. Henrique Srso. 129 

CAPITULO XIX. 

Da camcij que. o Beato Fr, llenrique usava* 

J. 



^^ 



Káte n^esmo tempo houve Fr. Henrique ás 
jnãos iiu;a po; ta vellia , que j:i nào servia, 
e níeltoo-a ua sua cella junto da cama, e 
cosluniCTa a dormir nellasern nenhum modo 
decoboitor: somente teceo por suas mãos 
un»a esU:ira de- junco bem j:ieli,Mda, que tinha 
posta sobre a porta , e nuo lhe clic^ava mais 
que até os joullios ; para a caberá em luijar 
decaljeceira poz um saquinho do palha de 
avea , e sobre elle outra almofadinha bem 
pequena. Nenhuma cousa totalmente tinha 
das que servem , e se usào na cama , e deita- 
Ta-se, e dormia de noite assim como andava 
de dia dcfcaliando somente os sapatos, e co- 
Lrindo-os com uma capa grossa, e assi era 
cousa mui piedosa ver o couío ja/ia , porijue 
a palha dura depois de amassatia fazia-se-lhe 
em novellos debaixo án cubeca. A Ouz com 
os agu(h)S cravos passava-lhe as costas , os 
brarcs estavâo an.arrados , e fccbatids ((.ni 
chave cm duasal^^cmas, os lombos lastimados 
dos pannos de cilicio. A capa cancava-o com 
o peso , a porta nu)ía-o cchu sua dureza, e 
íricldatle , cm lim jazia triste, e miseia^cU 



mente atribulado , e como um capo nao se 
podia mover sem nniito tormento , t se lhe 
acontecia virar-se com força sobre a Cruz ven- 
cido do sono encravava-se nos pregos , e 
agullias até os ossos. Entre tanto tudo era 
gemer, e dar ais ao Ceo. No Inverno passava 
multo raal por ra/ITo do íiio. Porque esten- 
dendo os pés , como eraccsturaado, punba-os 
nús na poria nna, e quando os queria en- 
colber por estarem enregelados com frio, ti 
cbegabos ao corpo , levantando pira cima 
os joelhos d<]vão-ibe caindíras luis pernas 
con» alteração do sangue, que o atorn;enta% íto 
bravamente, e oí inesnjos p(\s se cnchião d*J 
san^ne pisado , que a elles descia, e as pernas 
lhe inriiavão como a um hydropico , os joe- 
lhos trazia sempre pisados, e en«;anguentados, 
os lombos dospannt)S de cilicio feridos, c apos- 
temados. A Cruz feria-o nas costas , o frio de- 
masiado gastava-lhea natureza, a sede secca- 
va-lhe a gar{.{anta , e as entranhas, as mâostrc 
miào-lhe de falta já de forças, e nestas afllic- 
çóes passava as noit«fS , e os dias. Mas tudo 
i^to s.)fria obrl^:id<) dvi immenso, eeniranha- 
■vrl arnor que tiidia á Kteina Sapiência, qne 
he JE:^IJ Christo Deos , e Senlior nosso, cotu 
cuja Paixão penosíssima queria conformar-se 
em alguma cousa. Depois deixando este modo 
de cama , passou-se a uma ínuito pequen* 



Fk. Henrique Snso, i3i 

«ellíi , onde tomou por cama o banco, que 
iiclla servia de assento, que era tão estreito 
ecurlo, que se não podia estender nelle, e 
neste modo de prisão tão a penada, e na 
porta, que temos dito, se deitou oito nimos 
contínuos as vezes que havia de dormir, sem 
alliriar neuhunia cousa de todos os outros 
irslrumentos de penitencia , que usava e ti- 
idia então por costume, quando se achava no 
Mosteiro , não entrar em estufa depois de 
Compleí-as, nem se chtgar á fogueira do Fra- 
des para se aquentar por mais iíiconiporlavel 
que o frio fosso. Eistoc^uardou vinte e cinco 
annos , se não era quando acaso lhe conipria 
ir aos ditos lugares por outra occasião. Nunca 
nos ditos vinte cinco annos entrou em banho, 
nunca lavou os pés por recrearão , ou por 
evitar desabrimentos de corpo delicado, qual 
era o seu. Além disto foi tão abstinente, que 
nem em Verão, nem Inverno comco mais 
de uma só vez ao dia, e não somente não co- 
mia carne , nias nem jcixe , nem (jvos. Mui- 
tos annos teve t.il cuidado desci:;iilr a po- 
breza, que nem com licença , nem ícm ella 
quiz tomar dinheiro, nem tocal-o. Wm muito 
tempo teve tal guarda na pureza espiritual , 
e corporal, que se não co(a\a, r ítu tf)rava 
em nenhuma paile docoipo, mais que nos 
fes, c u.ãos. 



tZ% VíD\ DO BlAT» 



CAPITULO XX. 

Dã temperança, que o B, Fr, Henrique rtsai>M 
no beLer, 

\J 31 tempo se aprestava o Santo a f izcr iiin 
inoílo <lc utMÚtenda a majj pesatla, c rigoro- 
sa , que podia ser: e foi liiiiilar-se a quaiili- 
tia<le ceria ile bebida por cada dia , e Cjta 
po;* eitremo pequena , e para a não accre- 
Sv.entar nem dinúnuir , estando no Conven- 
to , ou fora dtille, fei um copinho daquclla 
niedida, que levava conisigo qr.ando ia fora. 
E era tão pequena a qiianíithaifí, que pari 
sede grande não ficava mais qr.e como 
uni trago, para remediar a muita seccura da 
boca , como se pudera dar de agua , para 
refrescar uni pouco a um enlerino de fe- 
bres ardentes, a (juem se tolhe o beber. 
Além disto deixou muito Icmpo de beber 
vinho, tirando dia de Taschoa , que por 
honra tle tamanha solemnidadc o sofria 
ent'o. Havendo já muitos dia>, quo vivia 
neste tra])alho , e não querendo, como 
eia ri^^oroso para t^i , allivi.ir-se di-Ue ' 
Tieiu com agua, nem com vinho, levan- 
tava os olhf)S ao Ceo u'um modo triste > 
Q lasliinolio. I£ aconteeeo que , faicndo isioi 



Fr. Henrique S-js». i3u» 

um dia sentio dentro de si uma inspiração 
ou voz de Ueos , que lhe fallava desta manei- 
ra : Leinbra-te , e considera como no ul- 
timo íim de minha vida , estando eu afíligi- 
do com as anciãs da morte, passei uma sec- 
cura, e sede ardenti.^sima , com um pouco 
de vinagre , e ftl , stndo niiijlias todas as 
fontes das a^uas, como feitas por mim , com 
tudo o mais que serve para uso, e sustenta- 
ção. Assim pois convém, se queres seguir 
liiinbas pisadas, que sotras ,'leve e dcsas- 
somLrad.imenie as necessidades, e faltas, em 
que vives. Lm tempo ante^do Natal , dan- 
do o Santo de mío a tT;do o qenero de al- 
livio, e descanio corporal , alem de soas or- 
dinal.» ;, e costumadas penitencias, de n<uilo 
tempo , enipiendeo outras três. Primeira- 
mente todas as noites depois de Matinas se 
punha em pé diante do altar mór con: os 
pés descalços sohre as lageas, e assim eí»íava 
até amanhecer, e isto fazia quando as noites 
sào mais compridas , e es Frades se esperiào 
mais cedo para os olíicios nocturi-os do 
Coro. A segunda picnitencia era não entiar, 
i:cm chegar a esLuIas, nem a outros lugares 
qucntoj , nem de dia, nem de noite, nem 
ainda a aquentar as mãos ao íu/^o indo 
para o altar, com quanto eniào as tra/ia 
erucimculc inchadas do frio, que íazia ri 'o* 



134 VlDl DO Bf.ít© 

Tosissimo : assim todo enregelado com frio 
se i\ depois de Completas deitar a dormir 
sobre o seu banco, e logo d».^pois de Mati- 
nas ficava em pé diante do Altar Mór so- 
bre as iageas frias, e descalço até pela 
nianháa, como temos di':o. A terceira ycni' 
tencia foi determinar-se de não beber, 
totaim-nte em todo o dia, ninda que se TÍs'>e 
demasiadamente apertado da sede , tirando 
ao jantar, que para e:itTo tinha sua me- 
dida taixida, que bíbia , e assim quando 
^inha a tarde apertava-o a sede tão cruel- 
mente, que todos seus sentidos esiaTáo ar- 
dendo em desejos de beber. O que toda- 
1'ia o Santo reprimia p.irfi.indo contra si, 
nfÍD sem muitas, e mui rigorosas dOrrcs. A 
l)òca se lhe seccava por tora , e por dentro 
da mesma maneira , que acontece a um en- 
fermo de febre arderue. A Inigua se lhe gre- 
tava tanto, que depois andou mais de um 
anuo sem p^der acabar de sarar delia. 
Quando desta maneira se achava ás Com- 
pletas, e se lançava a agua benta, como c 
costume , virava-se com grande desejo com 
a boca aberta para o hysopc a ver se lhe 
ca'a ACAio uni\ gotinha do agua naquclla 
seca lingua, C(vm que tivesse algum pouco 
de icfrigtirio. Quan io ia ao refeitório fazer 
coliaçàoj em st- assentando na mesa , ainda 



Fr. Henrique Suso. %35 

que eslava morto de sede, afastava de si o 
vinho, e algunsas vezes levantantlo os olhos 
io Geo : Kecebei , dizia , Pai celestial este 
licor como ein sacrifício de sangue de meu 
coração, e dai-o a vosso Filho Unigénito, 
que está para espirar na Cruz, aííli^iilo de 
mui rigoiosa sede. Outras vezes , assim se- 
quioso cjino andava , ía-se á fonte, e pon- 
do-se a contemplar aquella agua , que corria 
com um suave roído , e caía em um vaso 
estanhado por dentro, que a fazia mais cla- 
ra c formosa , levantava os oliios aDeos com 
lastimosos suspiros arrariCados das entranhas. 
Outras vezes tliegondo a estado que já não 
podia mais sofrer dizia a Decs do intimo de 
seu coração : O' bondade eterna , quão se- 
cretos são vossos juízos , que c possível que 
vivo láo p^rlo desse espaçoso lago de Con- 
stância, e passão diante de meus olhos as 
cristalinas aguas do Danúbio , e com tudo 
não ha de haver para mimom só trago dtj 
agua P Grandíssima miséria é esta! llsia or- 
dem de vida C(,ulinnou até í)on:ií)ga , em 
que se canta o E\angelho, que tiata eomo o 
benhor couverteo a agua euk vinlio. Kslando 
este dia á tarde na mesa con^untido de 
seus trabalhos não podia comer de pura 
sede. Tanto que se dei fu» as praças recolheo- 
et; de presia para o seu orai'j;io , porque cia 



l36 VíD.V DO Beàtí» 

tão fintoleravel a vehemaiicia do mal, que 
passava, que já não tinha forças para se po- 
der ter , e começou a chorar ileiraniando 
muitas lagrimas, fallando com Deos , e di- 
«endo: O' Deos immortal , que só conlieceii 
©s trabalhos , e as dores, que clles causão , 
quão desaventnrado nisci neste inundo, 
pois sobej»ndo-ine tudo quanto c necessário 
para a suslentaçio da tida , com tudo c 
lorçado, que padcja uma tamanha, e tão 
terrível falta. No meio dcistas queixas pare- 
ceo-lhe que dentro em sua alma ouvia uma 
▼oz que lhe dizia: Animo, animo, que 
«edo serás alegre o consolado por Deos. 
Ac\hein-£e as lagrimas, valoroso lutador, e 
soldado de Deos. Não desmacs, nem te tra- 
tes mal. Com estas palavias cobrou tanto es- 
forço, que deixou de chorar por um pouco 
espaço: e com tudo não se podia alegrar 
períeitaracnte, mas estava de maneira, que 
no mesmo tempo , qiie lhe corrlão dos olhos 
as lagrimas, sentia iulcriormer.te uma cousa, 
qae o forçava a rir-se com c.pf ranças de um 
grande bem, e j^osto , que do Seidu^r muito 
depreisalbe havia de vir, dosla maneira >e 
foi a Completas: a boca cantava , mas o co- 
ração tremia, e entre tanto lhe parecia , que 
cada vez estava mais perto a h.>ra de se ver 
livre desU Cruz, como acoutcctío pouco de- 



» Fn. KisimiQTji Siso. jSy 

poij, e aintia na mesma noite teve em parl« 
principio, e foi desta maneira : \ io o Santo 
em revelação vir- se para elle a Virgem Nossa 
Senhora coiu o inenino JESU naquelU figu- 
ra , que representava quando era de sete 
annos , e vio ^que o menino JESU i razia ma 
copo cheio de agna maior alguma cousa, 
que os copos ordinários , qne sei-sâão no 
Mosteiro, e que a Virgem gloriosissima o 
tomava em suas mãos, e lh'o vinha ofíere- 
cer, para que bebesse , c elle acceitando-o 
Lebia com grande gosto, a matava a sede á 
vontade. Aconteceo iiaqueile tempo ir o San- 
to um dia «amir.bandopelo campo, e entran- 
do por uma vereda estreita vio , que pela 
mesma se vinha encontrar com elle uma 
mulher pobre , mas b.onesta em seu parecer. 
Tanto que chegou perlo delia, deixou-lhe o 
raminho enchuto, e mctteo^se pela lama at« 
que passou. A honrada Uiulher voltando-se 
para elle , que quef dizer isto , dizia , Reve- 
rendo Senhor, que sendo vós Sacerdote , d 
illustre por \i\\ dignidafle , me largastes com 
tanta humildade o caminho sendo cu uma 
pobre mulher, que com mais razão eftava 
obrigada a lazer o que vós fizeiles ? Ku , 
rospondco o Santo, tenho por coslnme fa- 
ler corte/ia a iodas as uiulbcres em reveren- 
cia da SoberanisòiiDa M;'i de Deus , ç Bainha 



i38 YiDi Dcf Br.VTo 

do Ceo. PxcplicoTi a mulher levantando ct% 
olhos, e as mãos ao Cf^o : Per.o eu, e rogo a 
esta mesma Senhora, a quem vós ião de ver- 
dade reverenciaes em todas nós ontras as 
mulheres, que não passeis desta vida sem 
alcançardes delia alguma particular mercê. 
Assim o queira , e faça , tornou eUc , aquella 
Sereníssima Senhora , e Imperatriz do Ceo. 
Depois da visão dita , ainda que se lhe 
punh.ão diante licores de toda a sorte para 
poder beher, com tudo seguindo seu costu- 
me, levantava-se da mesa morto de sede* 
Acontcceo pois , que na noite seguinte teve 
lima visão, em que Iheappareceo uma pessoa 
celestial de maravilhosa formosura, que lhe 
disse: Eu sou a Virgem Mài de Dcos , que a 
noite passada te dei de heber por um pú- 
caro de barro, c todas as vezes que padece- 
res similhante sede, eu mesma te acudirei , 
e haverei piedade de li. Aqui o Sanlo cheio 
de grande coníiança disse: Todavia Virgem 
pura não vos vejo nada nessas mãos, com que 
possaes lempei ar-nie esta sede. A bebida , re« 
])licava a Senliora , (jrje vos eu hei de dar lia 
de ser aquella muisahitifera, que procede , e 
mana de meu próprio coração. De ouvir 
estas palavras ficava o Santo tão espantado, 
que nào podia responder como quem se 
tinlia por indigno ae tamanho favor. ^las a 



Fr. Henrique Suso, 139 

Virefera sacratíssima consolava-o amorosa- 
mente , e clizia-lhe : Pois meu Senlior e 
meu filho JESU se tem entranhado tão 
araorosatnenie tm teu cornção , e ta o tens 
nierecido , sofrendo com tanto torn:ento a 
seccura de tua boca, terás de mim uma par- 
ticular corjsohiçáo , que será recrear-te não 
com bebida corporal, mas coro um licor sa- 
lutiíero , excellente , e espiritual de perfeita 
pureza. Consentia o Santo então como quem 
tinlía por verdadeiras as palavras , que ou- 
via, e entre tanto revolvia no pensamento, 
que já sem duvida poderia beber á sua von- 
tade , c acabar de vencer, e matar a sede, 
que o consummia. ?Jas tanto que se fartou , 
e refrescou a vontade com aquelle celestial 
licor, que a Senhora lhe deu, ficou-lhe na 
boca uuia cousa como um grão moile , alvo 
com.o neve, como se escreve que era o 
maná , eeste grão trouxe depois muito tempo 
na boca em testemunho do que verdadeira- 
mente passou nesta visão. Passada ella der- 
retido o Santo todo em fervorosas lagrimas, 
deu graças de todo o coraçáo a Deos , e a 
sua Mãi tarratlssima por tão alta mercê, 
como de ambos rece])éra. Na Inclina noite , 
que isto acontcceo , se mostrou JXcssa Se- 
Jihora visivcluicntc a um J^nnto T;,ião, que 
"vivia tm cuUo h.^ar , e ile declarou j cr 



t4o Vida. do I5za.to 

que maneira tléra de beber no Santo Tr, 
Henrique, e disse-llie mais estas palavras : 
Vai-te ter com o servo de meu Filho Fr. 
Henrique, e dize-lhe de ruinha parte o 
aviso, que assim como se escreve, que 
acontectK) ao insigne Doutor da Igreja S. 
João Clirysostomo , que sendo moço, e estu- 
dante, estando de joelhos diante de uni 
altar, onde estava a minha Imaj^cm fabricada 
de madeira , e a de meu Filho uiamnndo a 
meus peitos, pela mesma imagem disse a 
meu Filho , que me largasse um pouco o 
peito, e consentisse , que mamasse aquelle 
moço , digo, que a mesma graça, e favor 
lhe ílz eu também a tile. È cm fé desta 
verdade, se attentares, verás daqui em diante 
que a doutrina e [)régaçao , que sáe de siia 
boca santa , tem muito mais graça , e é maÍ3 
afervorada, e mais deleitosa de ouvir do 
que atégora foi. Quando ao Santo Fr. Hen- 
rique derão este recado, levantou as m'tos 
em alto , e coin ellas os olhos , e o coraç'io , 
e disse : Bemdita , e louvada seja aquella 
fonte de divindadde, que perennalmcnteestá 
m.mnndo. E bemdita seja a INIãi suavissima 
de todas as graças pola mercê, que recebi 
sem nenhum merecimento meu. Uma cousa 
similhantea esta 'achará o leitor na primeira 
parle do livro, que se inlitula : Espelho d« 



Tr, Henrique Suso. l4f 

Vicente. Accrescentou mais o Santo Yaiáo o 
seguinte: Ainda tenho mais que vos rlizer: 
Sabereis, que esta noite me appareteo a 
\irgeni com seu Filho, e ella linha na mão 
um formoso copo cheio de agua , e prati- 
cando ambos sobre vossas cousas tratai ão- 
vos com honra , e com amor. Logo a Mái 
offercceo o copo ao Filho , pedindo que lhe 
lançasse a benção. Fez o Senhor o qi e sua 
Mãi lhe pedia , c no mesmo instante se ccn- ' 
verteo a ajua em vinho, e disse o Sei hcr: 
Pasta já o que e passado , nao quero rue o 
meu servo continue mais este modo de peni- 
tencia de não beber vinho , antes hei por 
bem que use delle daqui em diante , que 
assim o pede já sua d'^sbaratada , c coiiSum- 
mida natureza. Com esta licença , que o 
Senhor lhe deu, começou outra vez a í cl t r 
vinho como primeiro fazia. Neste teuipf) an- 
dava já o Santo mui qiuhiado da conlirua- 
çfio demasiada dos excriicios , e ] cnilcncias, 
que ten-.os leferiílo , con» que li-ntos annos 
S'j aííligíra. Mas Chrislo Kosso Stnh<ir ,' que 
i)ão se descuida dos seus , apparccro a uni 
virtuoso servo seu com uma })ore5a de nu- 
guenlo nas mãos, e stJido peri^rníado pelo 
Sanlo homem , que (juerla hiztr com aqutl- 
1 f vr.so. Com ( Me unguento , disse, qutro 
«urai c n.eu ministro Iknri(^ue , e Ic^o sk 



j4^ Vi Dl do Beato 

chegavA a Fr. Henrique, e cIesco])ertn o vas*, 
que Yinha cheio de san^-iie fresco, unia- 
Ta-lhe com elle o coração de maneira t|ie 
licava todo tinto em san<^ue. Lntâo o Santo 
homem, que isto estava vendo em revelarão: 
A que fim , Senhor, disse, o sinalais assim 
com sangue? quereis por ventura retratar 
nelle a simiihança das vossas cinco (iliagao ? 
Respondeo o Senhor, isso é o que quero 
fazer , e para tal efíeito lhe hei de imprimir 
no coração, e em todas as partes da ahna , c 
cio corpo sinaes de Cruz e tribulações, e 
lotjo applicando mezinhas o sararei , c far^i 
deile um homem segundo minha condição. 
Tendo pois o Santo Fr. Henrique pasmado 
uma tão cansada vida , e dieia de tantas pe- 
nitencias, como cm parte temos contado, 
desde idade de dezoito annos.até os quaren- 
ta : como aquella natureza estivesse já abso- 
lutamente gastada , e reduzida a um extremo 
de fraqueza, e parecendo que llie não falta- 
va já mais que morrer, senão mudava o esti- 
lo^devida tão rigorosa, que levava, em íini 
deixou aquclle género de penitencias. Mas 
si;jniíicou-llie logo o Senlior, que a(|uelle ri- 
gor, e aspereza com que se tratara , e as 
regras e exercicios, que continuara, não 
eia tudo mais que um bom principio , e uni 
amansar, e moríilioar a carne desenfreada, 



Fr. Henrique Suso. i43 

«"^furlosa , e ffue era ainda necessário exerci* 
tar-stí , e Iral.alhar por outros modos, se 
tjueria que se fizesse bera com elle. 

CAPÍTULO XXL 

De como o Santo foi levado ^m revelação e. 

uma eschola da verdadeira resis^nacão. 

<j tf 



J- Assadas estas cousas, estando o Santo 
depois de Matinas assentado na sua radtira, 
e })osto em meditação no meio delia , foi 
arrebatado era extasi, e parecia-Il.e que via 
■vir do alto naqiiella visão interior um gentil 
mancebo, que clic.gando-se a elle lhe bdlava 
desta maneira: Assaz tempo tendes continua- 
do as escliulas baixas , e ordiraiias , e bem 
exercitado estaes ncllas, já é tempo de so- 
Lirdes a cousas mais alias. Eia pois vinde 
comigo, e levar-vos-hci á priíueira, e prin- 
cipal eschola de toda a vi(hi lempf»ral, cndo 
estudareis unia sciencia e\( elUntissiuía,a qual 
"VOS comnuinicará verdadeiía j;n7. , e dará 
prospero ílai aos bons princípios que tendes. 
Ficando o Santo cheio de alegria . parecla- 
Ihe ({ue se levantava, e que o mancebo, liran- 
Ihe da mão, o levava a uma ccrla rej^^ião 
especial , onde liavia uma casa insinue , que iio 



x4{ Vida do Biíto 

tr.^to, e feição narecla um Mosteiro^ em qi:<? 
\ivia gente espiriíiial. Ncita casa mora\át> 
os que andavão no estiido da scieiíciív, 4116 
temos dito, e entrando Fr. Henrique, r«jcc- 
berão-no todos com gazalhado, e coriezla , 
e logo forão correndo ao Superior, o» Reitor 
do Colles^io, dando-lhe novas da cheíjada da 
uni estudante, que vinha determinado a eri- 
treg^r-se ásua doutrina, e apprendcr a arte 
que alli se ensinava. Disse o Reitor, que que- 
ria ver-llie o rosto, e julgar que esperança 
se podia terdclle. Depois que o viorio-se-lhe 
brandamente, e disse: Discipulo é este que 
poderá dar por certo um insigne incòire 
desta esclarecida scicncia, se com animo,so- 
cegaJo quizer oíferecer-se a uma estreita 
prií.fio , onde convém ser lançado. \ão cain- 
do ÍV. Henrique uo entendimento destas pvi- 
lavras, que as5Í(U escuramente lhe íorâo di- 
tas, voltava para o mancebo, que alli o 
gr.iára , c dizla-ihe: Gaiissimo companheiro, 
declarai-ujc que uobre Universidade é esta, 
e qual éa doutrina que nella se lê, de que já 
me começastes a dar conla. A doutrina desta 
casa , respondeo o nianccbo Angchro, rão 
é outra se nuo uma perlVlta rcnum iação , c 
resignação própria, com a qual sedeíeriuinc 
um homem levantar-se contra si mesmo, e 
dar-se[or ifio moiio a tudo ,que de qualquer 



Fa. Iís?T;;rQrE Srzo» l45 

fhi-eira que Deos o tratar ou por sua r.ião, 
ou por mão das creaturas assim nos traba- 
lhos , como nas i^rosperidaties , faça força 
por mostrar senjprt? um mesmo rosto, e uni 
*mfc*srHo aniino iíí'.ial, e$en) muílanra em todo 
o estado com renunciaçrto de si , e cie tudo 
o qne cabe ern sua alçada tanto, quanto [.óde 
sofrer, e dar de si a fraqueza humana , e só 
tenha postos os olhos, e tenção no que cum- 
pre á iioura , e louvor de Deos , imitando-o 
como se houve ('^hristo JESIJ com -eu i jÍ 
Celcslial tm quanto andou na t«^tra. A2^ra- 
dava isto a Fr. Heruique , e afíirmava que 
em todo o caso qu«ria estudar esta sciencia , 
e que se lhe nfào poderia offerecer cousa 
tanto contra seu gosto, que o tirasse de-ta 
determinação , c já começava a entender em 
edificar um aposento , eoccupou-se em mui- 
tos negócios de pouca quietação, mas o man- 
cebo indo-lhe á mão dizia-lhe, que aquella 
arte requeria uma ociosidade assocegada , e 
religiosa, e quanto cada um se occupava, • 
obrav^ menos, tanto ua verdade fazia mais, 
entendendo daquella occupação, com que 
uma ahna se enibaraca , e não tem pura- 
mente os olhos na honra de Deos. IN o fim 
desta pratica tornou Fr. Henrique cm seu 
acordo, e dei\ando-so estar assentado, e 
calado começiju a pasmar pela meiuoria o 



^46 Vida do Beato 

que ouvira com uma profunda consí(]risç?o, 
e assentou, que em tr.clo era conlcríne á 
razão e verJade , e á dtmti ina , oue o mesmo 
Clnisto eiisinou. Em {;m fallando comslgo 
interiormente diiia assinj: Olha Heniiqutí 
para dentro de ti, « vê como hoje foi o pri- 
meiro dia, em que na verdade te entendeste 
com lodos os exercicios e penitencias exte- 
riores, que por tua vontade íi/este^ ainda 
não estas rendido a sofrer um trabalho , que 
te vetdiade fora , ou te seja dado por outrem. 
Ainda te assombras cada dia com qualquer 
díi^gosto, quetesuccede, como se foras uma 
lebre despavorida, que se vai escoij<ltndo 
entre as ramas de cada n)3ula, e treme do 
movimento tle qualquer foll a; perdi-s a cor 
á visla dos que não são teus amigos : quando 
tinhas obrigação de te fazer morto , e dares- 
te por vencido , foges quando singelamente 
te havias deoíferccer, e mostrar aparelluido 
para sofrer l..di)s os trabalhos, andas escon- 
dido, se tel()u\ã(), folgas, se te prague- 
jão, peza-te. Tor onde creio que has mister 
aprender, e exercilar-te cm tscbolas m.ais 
aiia^í. Logo levantando os olhos a Deos com 
um setitido suspiro: O' Deos eterno, disse, 
qiião ei.iramente te me deu hoje a entender 
a niesnia verdade. Ai de mÍ!U (piando c\ni' 
garuialj^uma hojaa sericsiijMiado devcrdadí. 



Fr. Il2.->íraQUB Sdso» j^J 

CAPÍTULO xxir. 

De algumas pcnr>sas mortificações y em qUê 
Q Sai lio se extíícitãi^a. 



D 



Epois q;ie Dcos nosso Senhor mandou si 
Fr. Honiiqiití que deixasse as penitencias ex- 
teriores , que em parte temos contado, que 
lhe houverfio de custar a vida se as não dei- 
xara , tanto se alegrou aquella natureza de- 
bilitada e consumida, que chorada de pra- 
zer , tornando á memoria a fjrande aspereza 
dos cilícios e prisões, e d'oiitras cousas, que 
comtrabalho, e marlyrio experimentara. En- 
trava eniáo em pensauientos , que o faziáo 
dizer entre si desta maneira : Já agora, Deos 
e Senhor uicu, vivirei daqui eni diante uma 
vida folgada ,' e tratar-me-hei bem , niatarei 
a sede com agua e vinho, deitar-me-hei 
livre de prisões, ecm enxergão de palha, que 
foi aVecreação, que muitas vezes co])icei , se 
quer antes de acabar a vida. Assaz e dema- 
ziado quebrantei níinhas forcas , tempo é já 
de descancar. Estes atrevidos pensamenics sa 
lhe ião assentando brandamente na alma, 
romo a quem sabia mal o que Doos linha 
determinado delle ; e havendo já algumas 
aemanas ) que seus sentidos aadavãu com- 



t^i VlDl DO 1)1170 

balidos de similhantes inid<^ÍT}aç5es, e quasí 
delcitando-se riellas, acontcceo um dl.i que, 
estíindo sentado na sua cadeira segundo seu 
costume , meditava aquella tão acertada sen- 
tença do Santo Joh , que diz: Milicia é a 
'vida do Jiornem sobre a terra, E neste meio 
ficou enlevado em extasi , e parecia-ihe que 
se vinha a elle um mancebo de fornioFO 
rosto , e disposição varonil , e que lhe trazia 
dous borseguins a uso de guerra, e outras 
roupas e p?ças, que a gente de cavaUo usa 
na guerra , e h>go se lhe chegava perto vesti- 
do nelias, e fallava-lhe desta maiíeira: Sabe- 
reis , soldado, que atégora fostes pião, e como 
tal continuastes a guerra, mas agora quer-vos 
Deos fazer homem de cavallo Olhava (^ Santo 
para os borse<,^uins, e cheio de grande achui- 
racão: Epossivel, dizia, que me hei de pôr 
a cavallo eu , que atégora me dei cofn muito 
gosto a vi\er ocioso, e descauçado ? E dizia 
para o n^ancebo: Pois Deos assim é servido, 
e (juer que seja eu cavalieiro, estimara mais 
esla honra se com valor a tivera ganhado em 
alguma batalha, ecoin esse titulo m'a deráo. 
A |ui o mance! o torcendo um pouco o roslo, 
e sorriudo-se disse: ]\ilo vosagaslris por esse 
p.iriicular, que assaz occasióes e demasia- 
tlas tereis de pelej:ír; porque ([iiem pertendc 
gei' soldado espiritual, e valoroso de Christo 



Fr. lÍEi^aíQri 5us»^ JÍ^ 

muitas mais, e mais cri!eis batalhas e afron- 
tas ha iie vencer, e passar do que venrêrão, 
e pasíárào esses iUusires, e famosos capitães, 
cujos íoilDS em armas, e triunfos insignes 
trazem os homens tio ruuuclo sempre na boca, 
para os celebrarem fallando , e escrcveriflo. 
Vós cuidais que voS tem já Deos tirado o ji:;^'o, 
e que cslals livre da prisão, e que haveis 
de tratar só de recreações, e "vida descanr a- 
da? Pois afíirmo-vos que vai o negocio mriito 
aorevez. Não quer Deos soltar-vos Ja prisão: 
trocal-a sim , e fazel-a mais tralnllmsa do 
que nunca atégora foi. Atemorizado grande- 
mente o Santo Fr. Henrique do que ouvira, 
dizia a De<)s: Que é isto Senhor, que deter- 
minais fazer de mim ? Cuidava cu que ilrdia 
já passado por todas as batalhas, e se^^jindo 
vejo agora querem começar de novo ? E já 
me parece que me acho em maiores apertos, 
e angustias, que d'antes. Que quer dizer isto 
meu Deos? sou eu só por ventura peccador, 
e todos os outros são Santos , para que só no 
triste de mim carreíjueis a mão tão rÍ£í )rosa- 
monte, e perdoeis aos mais? Assim me tra- 
tais destie que me comecei a eniender, e 
sempre me attribulastes colii fortes , c com- 
pridas doenças quando era moro, e parcia- 
nie que tiniia já padecido bem, c assaz. iN^JO 
passa assiui , lhe respondeu u Senhor, anics 



lio VíD\ D(j Beato 

ain<Li nSo estás exerciíado quinto baste, ^© 
queres que se faça bem cointigo convt^ni 
seres provado Je raiz em toflo o i^enero tle 
trabalho'5. Eiiicío Fr. ÍÍHniiíjue, peço-%o-> Se- 
nhor, replicou , que não vos seja penoso de- 
clarar-me quantas cruzes tenlio ainda por 
piíssar, e o Senhor, levanta , disse , os olhos 
ao Ceo , e se podes contar estas estrelias sem 
tonto pud**rás também alcançar o numero 
«las tribulações , que te estão guardadas. 
E assim como as estrellas ainda que são mui 
grandes todavia parecem pequenas , assim as 
tuas cruzes pareceráó leves aoshomensf que 
nunca padecerão , mas tu as acharás bera 
ásperas, e pesadas. Toinou Fr. Henrique, 
peco-vos Senhor, que me signifiqueis a quali- 
dade delias , para que leuha já noticia algu- 
ma quando chegarem. Ao que o Senhor, não 
convém isso, (Hsse , antes é melhor que não 
saibas parte delias, porque não esmoreças. 
Todavia do numero infinito das que tens por 
padecer, só de três te quero advirtir. A pri- 
meira é, que atégora tu mesmo te casiijjavas 
por tuas mãos, e havendo piedade de ti 
cessavas quando (pierias. Mas a^ora lirar-te- 
hei de tuas mãos , e entregar-te-hei nas 
alheias, que te maltiatem sem te poderes 
valer, onde será foiçado padeceres grande 
detrimento na fama c reputarão paia com 



Fr. Henrique Suso. t^t 

«l^iima fifente de entení!imentos erraclos; o 
que terás por mais agro e duro (le soíier , do 
que era para tuas espaldas a Cruz abrolhada 
de cravos , que na verdade os trabalhos pas- 
sados renílião- te glcria e louvor diante dos 
liojuens, mas nestes has de ser abatido, e 
chegar a estado que te não tenlião em conta. 
A outra é que ainda que te aííligiste com 
muitas e terríveis penas , que por taes podiáo 
ternomede mortes, com tudo íicon-teainda 
por ordem divina uma condição branda , e 
que folga de ser amada; mas agora nconte- 
cer-te-hn, que nas mesmas partes, em (jue an- 
dares grangeando uma fé verdadeira , e uma 
amisade especial, ahi acharás grandes enga- 
nos e mentiras, e serás cruelmente avexado, 
e isto por tantas vias que até aquelles, que 
com fé e amor puro te am;irem por have- 
rem dó de ti, viráõ a ser participante^ em 
tuas mesmas tribulações. A. terceira será que 
atégora le criaste com leite de peitos como 
menino, que ainda não é desmamado ,(jU('ro 
dizer , que nadaste conuf em um hkw largo 
de conlentamentoj divinos, c daqui etn diante 
não te farei mais taes favores ,nntes le dt-ixa- 
reiseccar, e mirrliarde pura po])rP/.a de espi- 
rito , e serás desaniparido ãv Deos, e dos ho- 
mens ; e amigoi> eininngos juntamente t** per- 
seguirão coradcshunianidade, e para concluir 



i5i Vida do Biato 

em pouri:^ nalavras , quanto tiveres traçaJ» 
para consolação , e quietação tua , tudo te 
sairá totaliiiçrtte ao rcvez. Ficou Fr, Henri- 
que tão cortado de medo com estas palavras, 
que t()do4remla. E arrenicçando-se impeiuo- 
sainerite ao ciião , estendeo-se neile eni for- 
ma de crucificado, e bradando a Of*<^s com co- 
ração triste , e voz chorosa pedia-lhe por sua 
paternal brandura , que se fosse possível não 
consentisse que viessem sobre elle tantos 
males , mas quantio não pudesse tal ser, era 
contente que se cumprisse nelle sua divina 
vontade. E estando assim uru espaço aperta- 
do de angustias, fazendo a mesma petição, 
ouvio dentro de si uma voz que lhe fallava 
desta maneira: Tem bom animo, que eu 
serei ct)mtigo , e farei que venças, e passes 
por tudo , honrada e prosperamente. Cora 
isto se levantou entregue lodo nas mãos dt 
Deos. JMas o dia seguinte amanhecendo tendo 
dito Missa, e estando recoliiido na cella , 
e melancolisado com a imaginação destas 
cousas, que liidia presentes, e morto de frio 
pela aspereza do •inverno, qtie fazia, ouvio 
uma voz , que lhe fallava dentro na alma, 
e lhe mandava (jue abrisse a janella, eoilias- 
se , e notasse. Abrio-a elle , e poz-se a olhar, 
e vio que vinha um cão correndo pelo meio 
daciasía,,c trazia na boca uma servilliA d« 



Fb. ÍIe^írique Sl'50. i5S 

panno velha e rota, com que fazia granfle 
festa, ora cleilaiido-a para o ar, ora pondo- 
Ihe as mãos em cinia , e rasg;inclo-a comas 
unhas, e rnordendo-a com os dentes. Le- 
Tantou o Santo os olhos ao Ceo, e dando 
uni grande ai ! sentio que dentro na sina 
liie soavão estas palavras : Desla mesma ma- 
neira serás tratado án boca dos tens Frades. 
Ao que o Santo cuidando um pouco comsigo, 
dizia desta maneira: Pois ai não pôde ser, 
cnlrcí^a-te nas mãos de Dfíos. E assim como 
aqueliepanno sofre, sem fallar palavras, todas 
as voltas , que o cão lhe d:í , faze tu também o 
mesmo. Lop^o desceo a baixo , e tomou o 
panno, guarcÍou-o muitos ânuos estimando «o 
como cousa de preço , e se alguma hora ten- 
tado de impaciência ia para arrebentar em 
palavras, ou indignação , lirava-o fora , e pu- 
nha os odios neíle para tornar em si , e s« 
conhecer, e não largar palavras contra nin- 
guém ; se algumas vezes lhe acontecia Tngir 
com o rosto com desdém aos que o perse- 
guião repreliendia-se interiormente com estas 
palavras : Lembra-le peccador, que *> mesmo 
Seidior teu não virou aquelie íornuísiésimo 
rosto, nem quando o injuriavão coui mui 
ásperas palavras , nem quando o ctispiâo. 
E logo por extremo sentido voltava para os 
mesmos com braudura , e semblante alegre. 



l54 TiDV rn Beato 

Antes disto qunntio ilie acontecia algum tra» 
])aUK) imaginando conisigo, dizia: Ah bom 
Deos , quem se vira livre desia Cruz. Eappa- 
receo-lhe em revela' ão o Menino JESU em 
iim dia da Purificação , e depois de o repre- 
hender dÍ5se-lhe: Inda não sabes padecer 
como convém. Mas eu t'o ensinarei ; quando 
tens algum trabalho não áti\es tratar do fira 
dclle , nem procural-o , como que então 
hajas de viver descancado, n)as em «juanto 
te dura hiiinilha-te , c apercebeste para rece- 
beres outro de novo sem nenhuma alteração. 
E isto é o que em todo ocaso convém' que 
£íças. lias tie arremedar uma donzella, qsie 
apanha rosas, que nfio íica satisfeita em vc-.- 
liiendo uma d'entre as espirdias, mas colhe 
mui ias mais. Digo que assim o faças tu tam- 
bém. Anda cojn o peito aparelhado para to- 
mares logo outra Cruz ás costas tanto que te 
faltar a presente. Entre outros servos áv Deos, 
que profetizavao ao Santo as tiibulaçóes, que 
lhe haviào de succeder, foi uma doiizclia de 
abalisada virtude, a qual visitando-o lhe 
disse, que na festa dos Anjos depois de Mati- 
nas fizera oração por elle muito de propósito, 
e que cm revelarfiolhe parecera que a levarão 
a uni lugar, onde oSaiili) estava, t' vira crescer 
sobre elle um rosal íirandede larijura e com» 
primeuiu, e uiuiio deleitoso, cheio de frciÇAi 



Fr. Hesuique Srso. i 55 

rosas, e to tias encarnadas. Logo levantando 
os olhos vira nascei' o Sol com admirável 
claridade, e sem nenhiini impedimento de 
nuvens, e viri estarem pé no meio de seus 
raios um menino de singular formosura cm 
figura decraciíicado, edo mesmo Sol sair un* 
raio, que ia dar no coração do Santo coni 
tanta força e efíiracia , que todos seus mem- 
bros , e todas as veias se lhe abrasavuo. Aqui 
o rosal com sua espessura e ahundancia do 
rosas porfiaTa por tomar em si a força áo 
Sol, e desvial-o do seu peito , mas não fazia 
nada , porque os raios ardentes penetrando 
pela raíTia, irlo ferir no coração do Santo. 
Traz isto via o I^Ienino saír-se do Sol , e tila 
ilizia-lhe : Para onde ides bom Tilenino? 
Vou-me, disse- lhe , para o meu amado servo. 
E que quor dizer, amorosissimo iMenino, 
replicava ella , aquelle raio do Sol, que arde 
em seu peito ? Saberás, respondeo o Menino, 
que lhe enchi o coração de tanta luz e cla- 
ridade, porquj uma reverberação, que dcíla 
ha de sair de seu peito me ha de ^'anhar, e 
reduzir a meu serviço muitas almas. Nem 
ha de ser parte este espesso rosal , que signi- 
fica um grande numero de tribulações, que 
lhe eslão guardailas, para estorvar (jue sa 
effeitue por clle o que digo com <:jraiide per- 
feição , e excellencia. Como sobre iodas a# 



i56 Tida do Eeat» 

cousas que servem para os piincipIaTit«s na 
virtude seja mais proveitosa de totíjs a vida 
solitária , pareceo ao S.mío que seria conse- 
lho mui acertado nâo sair do Mosteiro por 
tempo ds dez anncs, ou mais , e vivfr assim 
apartado do mundo , e de todo o comnicrcio 
e trato das gentes. E assim em saindo do re- 
feitório feohava-se em seu oratório , e alii 
se deixava estar sem chegar nunca áporlavia, 
nem querer íallar com mulheres , uem cou- 
versar cem honicris, nem ainda ver-ihes o 
rosto. Tinha limitado aoá olhos um termo 
certo, e esse bem esireito donde não haviâo 
de passir c<)in a vista, e era espaço de cinco 
pés." Sempre estava em casa , nuo saindo , 
nem á villa , nem aos lugares visinhos , tra- 
tando só de si naqui.lla (pnelaçrio solitária , 
mas uào llie valerão tamanhas cautelas para 
deixar de ser commetildo no mesmo anno de 
táo fortes presei^uiçócs, que todos IhehaviíTo 
Listlma , e elie mesmo a tinha de si. e |'ara 
passar melhor a soidade daquelle oraíorio, 
em fjue se linha voluniaiiamenlc encarcera<[o 
sem grilhões, como em uma prisão, ro^ou 
a um pintor, que Uie debuxasse pelas paredes 
os Padres antigos com letreiros de algumas 
sentenças suas , e outras hislorias pias , <(iie 
pudessem esperlar, e obrigar a soíriu)cnto 
luxi espirito atribulado, li nisto ptii.iiiuo 



Fa. Henrique Suso» 107 

Dcos também qne se lhe não cumprissem 
logo seus dcsej':ts. Porque começando o pin- 
tor a obra , e líào tendo lançado ninis que o 
primeiro rescurlio de carvíio cni algiim.as 
hiruras dos Padres, adoeceo dos olhos de 
nianeiraque iiao pôde ir por diante: e assim 
se despedio , afíirmando que era forçado 
largar a o])ra no estado ern ([ue estava, até 
ronvalecer. E sendo perguntado quanto 
tempo liavia anisterpara col)rar saúdo, e po- 
der tornar ao trabalho ? Respondeo , que ires 
mezes. Então o Santo mandou-lhe que tor- 
nasse a levantar a escada, e sobiíjdo nella 
poz as [mãos peias imagens ilos Santos , e 
tocando com ellas os olhos enfermos do pin- 
tor disse-lhe :Eu te mando ]Hntor em virtude 
de Deos , e da santidade destes Padres, que 
tornes aqTii d nwnhfia com os olhos de todo 
sãos, e salvos. Quando amanhcceo tornou o 
pintor ao Mosteiro são, e alegre dando gra- 
ças a Deoâ e ao Santo pela mercê , e rc .sti- 
tnlção da vista, que tiniia perdi<lu : njas o 
Santo aliribuío esle milagre aos Santos Pa- 
dres em que primeiro po/ as mãos, e não 
a si. Parecia naquelle tempo que tinha Deos 
dado licença a todos os demónios , e a lodos 
os hom.ens para o peiscguirom. As vexnções 
que padetco dos demónios foião innuuuTa- 
"Vwis, porqiu o atormenta\à'o de dia , e Jo 



:58 



ID.l DO Íi£ATO 



noile , acor(íaílo , e dormindo , com Insolên- 
cia, eimporlunaçfio írrandissiijía , e aperfavão 
com elle terrivcliiienie por modos ásperos , 
c extraordinários. Aconteceo inna vez qiio 
desejou de comer carne, que muitos annos 
havia nãí> lini:ia c<jmido, ikiiXu que satisfez 
a vontade teve uma visuo, na qual vio um 
feissiino demónio, que poslo diante delle 
referioum verso dos Psalnios,que diz: Ainda 
estavão com o comer na l>òca , e a ira de 
Deos veio sobre elles. E ladrando f<amente 
disse para os circunstantes. Este Frade é di- 
gno da morte, que eu a^ora Uic darei ,'e acu- 
dindo-lhe todos e não consentindo tal , ar- 
rancou de uma grande verruma , e disse ao 
Santo: Já que me não deixão fazer-te outro 
dano , cu te atormentarei o corpo com esta 
verruma , e furandote con) ella essa l)òca , 
far-te-bei tanto mal, e causar-te-bei tamaidiai 
«lòres, que igualem o gosto que te deu a 
carne que comeste. E logo lhe nielieo a \<;r* 
inma pela boca, com que n'um momei lo Ibc 
incliáráo as queixadas , c gení^ivas , e toda a 
Lura de m.uieira que em trcs dias iieiu 
carne, nem outra comida nenhuma pôde 
levar . r 
liquida, 



C A P I T U L O XXIII. 

De algumas tribiilacoc: , que o Santo padcceé 
interioi-fiiente. 



E 



Ntre outros trabalhos, que o Santo teve , 
três ii»tcrit>i\íS o aííligiião penosissimanieiUe. 
Um destes er;i peiísaiiientoscleirífideiiuatle. A 
toda a hora iiic conibatiaa alma uma contínua 
imaginação, que secretamente llie dizia , que 
como podiaser, on se podia crer íazer-se Deos 
liouifin ? ajuntando entras blasfémias muitas 
similhantcrí a esta , ns qiiaes cjuanto niyiso 
Sr.nto qutria rebater comargunientos , tanto 
mvÀs se embaraçava. Esta tentarão o marty- 
li/ou nove annos chorando scinpie dos olhos, 
e suspirando d'ahna a Deos , e a todos os 
Santos por soccorro do Ceo. Em ÍÍm tanto 
que ao Senhor lhe parcceo tempo livrou -o 
lotiíhijenle delia ,e deu-lhe uma L;rande íir- 
n;e.La de íc clara, e ahindada. O outro tra- 
balho foi UMiyJextraordinaria tristeza ; qi;asi 
continuamente o apertava com tanuidio 
peso de melancolia , que parecia que trazia 
sobre o corarão um monte inteiro. Este mal 
lhe íicou em parte da ^'rancie velieuiencia , 
com que seconverteo a í)eos , ((»ie como sua 
conversão ioi repentina eefíitacis-inia , ílt ou- 
Ihtí daUi uma anciã , que por txlreuio o ufa* 



l5« Vida do 13íato 

<;ligav3. Oito annos viveo o Sar.to ncstíí tor- 
inenio. A terceira atiliccâo , qiic teve , ft-i mv.ti 
tentarão, q re preteiiíiia peisuailil-o , queníiO 
era possivel salvar-se , mas que o cerlo era 
que havia elo ser conuen^do ás pen^ts cio In- 
lerno , que por mais hoysobras, que fizesse, 
c por mais penitencias que cm si ■txecntasse, 
uenhuLia cousa lhe havia tle aprovrilar para 
cheg-ir a ser do numero doseseolhidos, antei 
perdia o trabalho e o tempo, que nelle em- 
pregava. Estes pensamentos, como afiados 
pinihíes lhe atravessarão o coração de dia 
e de noite. Se entrava ia Igreja cu entendia 
em al^um outro acto de virtude, lojro o com- 
batia esta itntaçâo, e apcrtava-o n;ise^a^el• 
mente, dizendo: Que te aproveita, dize, 
•ertir a Dtos se já és ir.aldito , se ja eterra- 
luenle não podes ter rrn.cillo ? Acab a já, dti- 
xa-te com tempo de trabalhos, qut de (lual- 
quer n.aneira que viveres a sentença de tua 
j:erdição está dada. Conhecendo o Santo a 
forca (jue lhe fa/ião , chegava algun:as vezes 
a estar tunie^iando assim comsií^o: Ai de n ira 
dt?savt nturado , aonde me irei? se delioa 
lUligião tenho a condenação certa; S( j er- 
severo nesta vida, tamben) mt não hei-il« 
salvar. O' Ueos eterno, quem houve nunca 
no mundo mais desditoso que cu ? Outras 
irezes íicava como pasmado , sem fazer mais 



Fjr, HiLNRiQrE Srso. iCi 

que ciar rruitos ais arrancados das entranhas, 
correndo-lhe as lagrimas cm fio pelo rosto 
abaixo. Algumas vezes liatia nos peitos di- 
zendo: Que cm fiiu Senh )r Deos é forçado, 
e sem remédio perder>me eu ? Que miséria 
pófle l.aTer maior que esta ? Tarlo vaiem 
nno possuir eu ncnlunn l)em nesta vida , 
mw na outra : pobre do mim , para que 
uasci no mundo ? Esta tentacilo lhe proce- 
deo de um raedo desordenado, que tomou 
por lhe dizei em , que fora recebido no Mos- 
teiro por razão de certos bcus temporacs , e 
que era peccado de simonia , quando 5C nc- 
gocia^ào bens espirituaes com em pregoo de 
fazenda temporal; isto lhe ficou assentado 
na memoria até vir a dar nesta tentaçíTo. jMas 
no cabo de dez annos de marlyrio, em to- 
dos os quaes não fazia conta de si, senão 
como de homem condemndo, foi ter com • 
sanlissimo Varão lu bardo, Doutorem a Sa- 
jjrada Theologia, com cujo conselho, dando- 
íhe conta de sua afílicção ficou livre e quieto, 
saindo de um cárcere infernal, cm que tan- 
tos annos estivera preso, 



x(ía Vida do Beato 

CAPITULO XXIV. 

De coino o Snnto começou a entender np 
remédio , e salvação dos próximos. 



OEndo piissaflos muitos nnnos, qite o Santo 
não tratava em mais, que rm purificar sua 
alma, e \iver em silencio e soidade , foi 
depois movido por Dcos , e obrigado por 
meio de muitas revelações a tomar cuidado 
de salvar outras almas. JMas não tem fim, 
nem conto os grandes trabalhos , que nesle 
serviço de caridade se lhe offerecèrão, e 
menos o tem de outra parte a iutínidade de 
almas, que ganhou para o Senhor; o que 
tudo foi mostrado uma vez em revelação a 
«ma donzella de grande virtude , que tam- 
bém eia sua filha espiritual : estando eni 
oração esta Sania Virc^em , foi arrebatada 
em espirito , e vu> ao ^anto, que sobre um 
alio monte estava celebrando o sagrado sa- 
criíicin da Plissa; e vio , que cilavâo pega- 
dos com cl!e uma infinidade de homens, e 
todos dlfferontes enlre si; dos quaes os que 
€stavão nielhor , e mais unidos com Dcos , 
estarão «anibem mais perto do Santo, e 
c^uanto e>ta\ão mais ch^ígados a clle, tum- 



Fr. KEríRiQUE Suso. i^3 

hem o Senhor os chegava para si com 
iDais amor, e \ia ao Santo rof;ar por todos 
íle propósito ao Senhor, que tinha nas mãos. 
Pedio a Santa Virgem a Deos, que fosse 
scrrido clcclarar-lhc esta visão ; o que o Sc- 
nhí)r lhe concedco , dizendo-lhc assim: Ves 
aqnelle concurso de homens sem conto , que 
estno pegados nelle Pestes saherás, que si- 
gnificáo os seus confessados , que vivem 
entregues a seus conselhos , e santa doutri- 
na ; e aq>.el!e qiie fora disto com particular 
fé, e boa vontade o amão, aos quaes todos 
me tem encqmmendado com tal clíicacla, 
que não hei de rouseutir, que nenhum dellcs 
se aparte de mÍBi jamais, antes farei que 
acabem a vida santa e bemaventuradameu- 
te , e a elle pagarei largamente com conso- 
lações miidiíKS o trabalho, que por esta causa 
passar, ou seja tomado por suas uíãos, ou 
negociado por poder alheio. Antes qre a 
santa donzella , que na virtude era sinalada 
como temos dito, conhecesse'» Fr. Henrique 
foi interiormenfe movida por Deos, a ';un 
procurasse veUo. Kaconteceo que , estando 
um dia arrebatada em extasi, ouvio cm 
revelação, que lhe dizião, que chegasse alli, 
onde eslava Fr. líenrique , e que o visse E 
como ella respondessí», que o .in<» p^dia dif- 
íerenciar , nem conhecer pelo 



l(54 Vida. 

níero de Frades, que via junto-; , nuv.o logo 
í£ue lhe tornavão .\ dizer o seg^r lute : Sem 
muito trabalho se pôde conhecer entre lo- 
dos, po]qne traz ua cabe a uurã bem fresca 
capella de boninas tecida de rosas brancas, 
e encarnadas. E as rosas brancas significào 
sua castidade, as vermcliias sua j):iciencia, 
no meio de niuilas e contínuas tribularócs. 
Tu assiiu como aquelle circulo douro, qu^ se 
costuma pintar sobre as cabeçiis dos Santos, 
é si^nal da bcmaventur.;nça eíerna , qva 
gozão no Senhor, assim esta grinalda de 
rosas significa muitas e diversas tribufaç^ies, 
(j^ne os amigos de Deos padecem cm quanto 
nesta viila exercitão vaiorosameute a milícia 
de seu Oeos , e Senhor. Passado isto levou 
11 m Anjo em revelação a mesma donzella ao 
lugar, onde Fr. Henrique vivia, e logo o co- 
nheceu pela capellade rosas, que tirdia posta, 
"Nestes tempos , em que oSaulo cia por mui- 
tas maneiras e rigoroiamcutc aliibulado, a 
cousa , que mais o contortava e inlerior- 
nienie lhe da\a animo para tudo, era unia 
contínua conversação e trato , que tinha 
com os Anjos. E uma vei lhe aconteceo que , 
ficando alheio de todos os sentidos exterio- 
res, vio, que o levavao em espirito a um 
luf»ar , que estava C(»berto de um numero 
iídinito de Anjoi, dos quucs um, qua lhe 



Fr. ÍÍEKraQtiE Suso. i65 

iscava mais perto , disse para elle : Estendei 
essas rnfíos , e olhai para ellas. Eslendeo ello 
umaiiifío, e olliando-a \if), que do meio delia 
lhe saía uiiia formosíssima rosa cncarr.ada, 
ce-'eaíUi de íollias muito frescas, a qual cres- 
cia tanto, que lhe \inha a íolwiar toda a 
mão até 05 dedos, e fazia-se tuo hella e 
graciosa , que em extremo alegrava e delei- 
tava os olhos. Virara o Santo as mSos de 
lima parte u da outra , e de todas era a 
vista lias rosas dilkíitosissinia , e asbini muito 
espantado dizia : Santo mancebo declarai- 
me, que quer liizer esta '^isfioi^ Ao que o 
Anjo respondia: A si«jtiificaeuo é Cri:7es e 
mais Cruzes , c outras Cruzes e mais outras 
Cruzes, porque Dcos qiiCr que passeis, e 
isto se dá a entender nas duas ro:5as , que 
Icnties nas mãos , e nas outras duas , 
qne também vos cobrem es pés. Suspirou o 
Santo , e tlisse: Camorosissinn? Deus , épos* 
vel , que é tão penosa a tribnlarào para os 
iif)niens< e toda vi;i lhe pnem tanta íormosu- 
la na almai^ i^âo ha duvida senão que é 
is^o uma notável dispensarão, e mertè Vijssa 
dií^na lie ser reconhecida com espanto. 



l66 ViDi DO Deito 

CAPITULO XXV. 

De muitos trabalhos , que n Santo Fr» Henri^ 
que padccjo. 

V^Hegou iim dia Fr. Henrique a nmn Vil- 
Ifita , não longe da qual estava um Crucifixo 
de ma:!eira posto em uma pequena Ermid.i, 
cjue 05 moradores lhe tinhão edificado , 
como é costume em muitas lerras , c liavia 
lama , que se fazião alli muilos mil.ij^res; 
pelo que a gente devota trazia a otíerecer 
grand»^ copia de cera lavrada em figuras , e 
èm pão, que pondiiravâo, e deixa vão em 
louvor de Ocos. Chegando o Santo ao Cru- 
cifixo poz-se de joellios, e esleve um espaço 
fazendo oração , e foi -se com seu con^pa- 
nheiro á pousada; e esteve presente uma 
menina de sele annos, que o vio , e notou. 
A noite seguiiite derão ladrões na Einiida, 
€ q«iebrand<i as fechaduras roubarão a cera 
toda. Quantlo amaubeceo eiicbeo-sc todo o 
lugar de alvoroço, e chegou a nova do suc- 
cesso a vm homem honrado , que linha 
cuidado do Crucifixo , o qual começando 
loj^o a fazer intjairição soiíie o autor do sa- 
crilégio, acfidi{>a moca, que temos dito, e 
afiiiaiou j que cila o conhecia , e sendo aper- 



Fr. Henrique Suso.^ 167 

ta (la qut dissesse o nome , deu os indícios de 
como ro dia atiaz vira alli a Fr. Henrique 
estar fazendo oração já muito tarde, e dahi 
se recoiiicra para o lugar. A esta infoimaçáo 
da menina deu o bom visir.ho credito tão 
ligeiramente como se íòra verdadeira , e de 
maneira esleiídco e publicou a mentira, 
que andava divulgada por \nda a Yilla , e os 
mais linlião aO Santo por culpado em ta- 
manha maldade. Entre tanto tndo era lançar 
jnizos sobre que movle llie díuião, e com 
que género de tornienlos o tirariíTo do mun- 
do, como a homem aboíninavcl. JMas tanto 
que o Santo teve noticia do que passava , 
temeo grandemente, sem en)bargo, que 
conliecia sua iunorencia , e com inn pioftm- 
do suspiro do coração disse a Deos: Pois, Se- 
nhor, é jorçado que eu padeça , tutlo so- 
frera levemeiíte , e de b(ui voiiiade, se fô- 
reis servido dar-ujc tal sorte de trabalhos, 
que me não tocárno na honra j masvejc^j 
Senhor, que os que pennlltjs, que me suc- 
cedáo são lacs , que de todo me desacrcdi- 
tão ; e estes ^ão os que eu síMo r";i!n.a. 
Com este meilo dclxou-se ficar no higar alé 
se apaziguar o povo , e o nunim. Kuk outra 
Cidade aconteceo ao Santo outra cousa 
quasi símilhante a esla , com que sua fama 
íoi mal tratada áii bòea dtí muitos , uíio bò 



l6o VlD\ DO Be.vto 

na mesma terra, mas por todo seu distrlcto, 
E toi o negocio asshvi : ííavla naquella Ci- 
dade um Mosteiro, em que estava um Cru- 
cifixo de mármore da mesma estatura , se- 
gundo se dizia , de que foi Christo nosso 
Senhor. Aconteceo que uma Quaresma se 
vio , que tinha a imagem sangue íVesco em 
lucrar da chas^a •.'•o lado. K correndo muita 
gente a ver o milagre , a( udio também o 
Santo Fr. Henrique, e vendo o sangue, 
chegou-se de mais perto , e tomou-o n'um 
dedo á vista de todos os que cstaváo preíien- 
tes. Ajuntoíi-se logo sobre elle um numero 
infinito de povo , e constrangeráo-no a de- 
clarar publicamente o que "víra e tocara , o 
que o Santo fez contando simplesmente e 
na verdade o que passara, não se resolven- 
do em nada , nem determinando se era aquii- 
lo niysterio do Ceo , ou obra da terra, mas 
deixando a determinara ) disso para outro 
juizo, n'um momento se publicou o caso 
por toda a terra , e cada um acc.escentava o 
que lhe vinha á vontade, e chegou a cousa 
a termos , (juc affuinavão que o Santo se 
picara no dedo , e puzera o sangue, que lhe 
saíra, na imagem, para que se cuidasse que 
manara delia milagrosamente , e que não 
procurara aqtielle ajuntamento do povo a 
outro íim, seuão paru fazer muito dinheiro, 



Fiu Kri^RraTTE Srso. iCg 

e fartar sua coJ3Íca. Esle gcnero de praga 
corria do Santo em outros lugares, e andava 
nas linguas de todos. Mas lanto que chegou 
ás oreluas dos moradores da Cidade^ foi-ihe 
necessário saír-se delia íogindo. E conitudo 
ainda o forfio seguindo com deíermi»jacào d« 
o matarem , se senão acolhera ; mas como 
e»ca pou , fizerào promessas de muito dinhei- 
ro a que'm quer í|ue liro desse ás n»àos vi- 
vo , ou mortOj Muitas ontias faL.idades a 
esto modo se assacavâo a Fr. Henrique; 
aonde f(uer que ehegavão erào tidas por 
verdadeiías , do ({ue nasceo ter-se poi' mal- 
dito, e abominável seu nome entre muita 
gente , e hun aien;-se a cada passo muitos 
jui/os temerários, e cheios de n-aldade sn- 
l)re sua vida, e obras. Algumas vezes aclian- 
<Io-se presentes homens ujais atlenlados , o 
que bem coidiecião o Santo , acuíháo por 
sua innocencia. Mas crão rebatidos c( ni 
tanta forra de razões , e porfias, que lhes 
era forçaílo calar-se, esofier as iníauii.KS , 
que do Santo se dizião. Vendo esta tão des- 
arrazoada vexarão uma honrada matrona 
daqueila Cidade, foi-se ao aílhgido Santo, 
o aconselhou-o , que tomasse certidões dos 
governadores da Cidade sclhulas com o sello 
público , que servissem de testemunho do 
sua iuiioctiicia quando se aehabse em ouir.:íJ 



I^o Vida. do Beato 

terras , principalmente portfue os mais dos 
homens honrados delia o tinlião por inno- 
cente da culpa , que se lhes dava , mas elie 
respondeo-lhe nesti íórma : Se Deos fora 
servido que só esta Cruz me opprimira , 
íacil cousa fora valcr-me desse remédio , 
mas vejo cm\x dia tantos males similhanles 
a este sobre mim, que entendo que me 
convém deixar tudo a Deos, c níío fazer 
força, nem porfiar em contrario. Aconteceo 
que foi uma vez a Allemanha a Raixa a um 
Capitulo , qne se fazia , e já lá lhe estava ar- 
mada d'antemão a perseguição; porque dous 
Keligioios dos principaes da sua Ordem crão 
idos ao mesmo Capitulo mui apostados a lhe 
fazerem todo o mal, que pudessem: foi o 
Santo mandado apparecer em juizo , e veio a 
ellc cheio de tremor, emedo, e entre ou- 
tras muilas culpas , que lhe ílerão, foi ac- 
cusado por falsa inforniaçáo de seus emulos, 
que nos livros, que Compunha, misturava he- 
regias, com qne se viria a perdera pureza da 
Fe por toda aquella terra , por isso o re- 
preenderão os Padres Capitulares aspera- 
mente com aineai;as de maiores castigos, 
sem emhiirgo que diante de Deos,e dos 
luuncns estava livro de tal culpa. E comtudo 
uào se deu o Senhor por satisfeito era per- 
miliir , que fosse esta Gruzsingela , antes lhe 



Fr. Henrique Stso. 171 

aggravou o mal atormenlando-o com unias 
crucls fehrcs, e sobre ellas com unia peri- 
gosa posteiua, que se llie íez nau entranhas 
íifío loiíj^e lio coração; e iltsíes traLalhos , 
que assim de dentro, como de ícia o an» 
gustiavão, chegou a estado, que tcdcs des- 
confiavão do sua vida. E seu ccmpauheiío o 
■vigiava esperando a cada passo o termo em 
que havia de espirar. Assim estava o Santo 
Vr. líenrique em terra estranha , e em Wos- 
teiío alheio lançado isa cama , e desampa- 
rado de toda a consolação , quando uma 
noite não podendo loinar sono com a forca 
da dor, conif^çou a enlrar em contas com 
Deos, e f.illar-Ilhe assim : Ah Justissimo Dcçs, 
pois vós, Senhor, houvestes por liem de alor- 
r.ieniar com ifio intohíravel dor este coipo 
consiimniido de tral)alhos , e l"erir-me no iii- 
limo tPííhna com uma vergonlía , e aírorJoi 
grandíssima de maneira , que não ha parte 
cm mim, que esteja livre de magoas, nem 
interior, nem exteriormente: quando che- 
garei a ver nina liora , Piedosíssimo Pai, 
cm que me deis por bem castigado i^ quando 
chci^inei a ver tempo, cm qne levanteis a 
jjiito de me aííli^Mr ? Acabadas esias palavras, 
conieçou ;i meditar as angustias iiortaes, 
que (^iirJslo nosso Sahacor j ;iyhou i;o n.enttí 
Uiivete, c entre a nitditaçí o passcu-se do 



1-2 YíDl DO Br.VTO 

leito para Tima cadeira, que tinlia perto, e 
?cnton-se nclla , porque da grsiidc dur , que 
a postema lhe causava , nào podia jazer, lis- 
tando assim assentado ecarreirado de dòrís, 
e miséria , pareceo-lhe que via em espirito 
um grande numero da Anjos , q!io Ilic en- 
íravão po!a ceila a consolal-o, c cantaviío 
com agradáveis vozes uns versos celesíiaes , 
cuja melodia lhe cncliia as oieUias de ta- 
manha deleitarão , que de todo íicava ou- 
tro. Finalmente continuando os Anjos com 
sua musica, e o Santo em sou assento entre 
o martyrio da íebrc , e das dores, um dos 
Anjos se clicgou a elle, e tirando-lhe bran- 
damente' do hraj^o, porque razão, di*=se , 
estais meu irmão tão calado? Porque não 
cantais juntamente comnosco ? Pois h«m 
sei eu que sois vós bom rncstre de musicas 
do Ceo. A isto respondeo o Santo acompa- 
nhando o que diziíi com magoa dos suspiros 
snídos da alma. Não vedes vós, disse, ou 
não notais, o estado de minha viíla? Qual 
foi o homem que se pôde alguma hora ale- 
f^rar estando cm braro^ com a morte ? E 
possivel que em tal ccmjuncção me convi- 
dais vós para cantar? O que eu cantarei se- 
rão tristezas, e magoas. Porque se alguma 
hora em tempos pasmados cantei com ale- 
gria, tudo isso é hoje acabado, que já agora 



Fn. IIs'^RrQUE Soso. 1*3 

•ono cspei^o mais que a hora da morte. Dis- 
Hi-lhe então o Anjo com grande alegria: 
'iVnde animo, e coração varonil, que ne- 
nlinna cousa dessas vos ha de acontecer. 
Antes vos certifico, e crêde-nie, que tal 
çmcao haveis de entoar ainda em vossos 
dias, que a Deos lodo podei-oso ha de dar 
bonn , e a muitos altrihulados consolação. 
Logo se lhe abrirão os olhos acordando, e 
comei o'i a chorar com 2;randc abundância 
í'e lagrimas, c na mesma hora lhe arreben- 
tou a postcma , e cobrou perfeita saúde. 
Tanto que o Santo tornou para o seu Mos- 
t(.'iro, foi visitado de um varão abalis;ido no 
serviço de Deos, o qual lhe disse-o seguinte : 
Ainda, Senhor, que nesta votsa jornada tí- 
nhamos no meio de andjos mais de cem nú- 
Ihas de distancia , com tudo cá vi , e tive 
presente a Cruz, que lá padecestes ; porque 
haveis de saber , que eu vi um dia com os 
olhos d'alma o grão Juiz Soberano as.ve::- 
tado em seu throno, e com sua licença se 
soltarão (h)us demónios , que vos atormen- 
tarão; e o meio, que tomarão , foi o daquel- 
les dous Prelados, que forão auclores da 
persegfiiçâo que padecestes. Mas eu dav.; 
vozes ao SeiTlior , e dizia -lhe: Como pode 
ser, Deos núsericordioíissimo , que foírdis 
ser túo mal iralado uuí ami:ro vcsso? lles- 



1^4 YlDA DO BeàT© 

pondia-me o Senhor : Eii o ter.ho escnlliiJc 
para mim , paru que peio ir, tio cias tfibulí»- 
ções se pareça e coníórnie com moii Uni- 
génito Fiiho; mas todavia a inteireza cie mi- 
nha justiça está pedinchj , que se vingue li- 
manha injuria , como recejjeo , com* a m<J!ie 
<l()s dous, cpic lha negociarão. E assim suc- 
cedeo cm effeiU) pouco tempo depois j c íoi 
cousa notória , e sabida de muitos. 

CAPITULO XXVÍ. 

De um gravide desgosto , que o Santo tet'{ por 
cansa de unia Jnnãa sua. 



X hiha o Santo uma Irmãa Freira, que sendo 
clle aijsente se começou a dar a c-orj\ersa- 
íH'»es , e companhias prejudiciaes de homens , 
c saindo um dia fcJra do Mosteiro (o que não 
era deicso naquelle tempo) em cSmpanhia 
de certos lu^mtíns veio a perder-se. E como 
os peceados não pavão tão de pressa , chegou 
a sua desaventura a estado que fugio do Mos- 
teiro , e íoi-se pelo mundo sem que o irmão 
soubiisse parte áAV\. Quando o Santo tor- 
nou ao Convento andava já o negocio publi- 
co , e corria a nova por toda a terra , nao 
sem muiiuuracão. Vcio-5j lo 40 a eUc ceilo 



Fr. IIexrioue Suso. 17J 

lomem, e contou-llie o que passava; o 
'ípe o Santo ouvindo , ricoii pasmado. E en- 
íiiquecendo-llie o coração com a forca da 
dcr andavci como homem tolo, e qvie nercicra 
toíos os sentidos. Perguntando onde acharia 
a p»rdida irmãa? ninguém lhe sahia dizer 
cousi certa. Eniáo fazendo discursos fa liava 
só comsiga, e dizia : Eisaqiiihe entrada nova 
triholacâo , mas não haja desmaiar. Ksforca- 
te faze diligencia , e ve se por ajgnma via 
pó('es remediar esta alma perdida, e desavcn- 
iiir.ida. Ofíerece a Deos piedosissimo a 
queira, que esle caso traz á tua honra , o 
ciédio. Ponha-se de parte todo o pejo da 
humaaidade , ariisca-te a entrar n'um pro- 
fundo 'ago a ver se podes tirar deile essa mi- 
serável. Quando passava polo Coro por nieio 
dos Fraces perdia as cores, esfriava, arrepia- 
va -se toi'o , e tremia. Não se atrevia ajuntar 
com ninguém, porque todos se pejavão deilc; 
os que d'antes erão senis companheiros e íd- 
lu/iiares, tm o vendo fogião. Se (|uciia acon- 
selhar-se com os amigos, viravão-ilic? ò rosto, 
e nfio o linlifio em conta. No meio deste tra- 
balho lemhravase doSanio Job, e (hzia: Pois 
todo o mundo me desampara , buja por bein 
de me acudir o bcni^^iissimo Deos com seu 
diviíjo lemedio. F. não deixava <le pcrj^untar, 
onde quer que se achava, | o: onde iria. jara 



I '-5 Tida do Beat« 



Talcr mais de pressa á desa ventura tia irniãa- 
Em fim dando-llie novas de certo lugar ont^ 
a poderia achar, logo se poz ao caniiidio. F/a 
isto em dia da Virgem Santa lí^nez, e f./»a 
grande íVio; e na mesma noite tinha pas3»í'«^ 
ll.^ rijo chuveiro, com qucifjo cheios iod>s os 
ribeiros. Querendo o Santo passar de salf) nm 
pequeno regato, era tal sua fraqueza, qnr caio 
no meio dclle , e ficou mergulhado. Siío-se 
todavia o melhor que pôde. E coíuo o sevti- 
iiiento, que lhe cantivaa alma, era excessvo, 
não lhe deu muito peio que só fazia no rolo 
corpo. Caminhando adiante mostrará >- lhe 
lima casa, onde a irmãa eslava. Entrou t)Santo 
pela porta todo trespassado de dor, e :chou-a 
dentro assentada , e quando a vic , ca/o 
so]);e iim banco onde ella eslava, e por 
duas vezes ficou desmaiado. Mas fornarido 
em si arrebentou em piedosas lagritias e co- 
meçou a encher o ar de gritos equiíixas lasti- 
mosas , c batendo as mãos sobre a cabeça, 
e dizia: Deos Deos meu, como me desampa- 
rastes assim ? logo vira^ão-se-lhc os olhos, a 
lingoa pcgava-sc-lhe no ceo da boca, aper- 
tavag-sc-ihe as mãos, e ficava assim um es- 
paço desamparado de lodo uso dos scntiílos. 
tonando tornou outra vez em acor<lo abia- 
cou-se rom a irmãa, e dizia: Ai ai fiH^a í^^i- 
iilía , ai ai irmãa miiiba j a que estado Uto 



Fk. FIenriotie Slmo; 17 j 

miserável tendes chesfado ! Ah Snn'n í^nez 
Yiro*;iTi Santíssima quíTo triste , e (\v:io pe- 
noso íiia foi este vosso pi a uÁm ! ISo cabo 
de todas e^íns palavras tornava a cair (les- 
inaiado , e fora de si : o ^lv.e veiulo a poljre 
irmãa lancou-se-lhe aos pé.í derramando de 
seus oihos rios de lagrimas, e dizendo mui- 
tas lastimas , faliava com elle desta manei- 
•ra: O' senhor , c pai meu , mal aventurado 
íoi o dia, em que eii nafci no míirido , pois 
por uma parte tenho perdido a Deos , e por 
outra %os causei tanto mal , e tantos tor- 
mentos. Com razão mereço viver sempre eni 
trabalhos. Coin razão me devem perpetua- 
mente cair as laces com vergonha , e deifa- 
zer-se«me o coração em gemidos. O' íidelis- 
sinio remíílor de luinha triste alma. Ainda 
que não sou digna de me tallardes, nem res- 
ponderdes, peço vos todavia que haja memo- 
ria nesse piedoso coração , que em nenhuma 
cousa podeis melhor cumprir com a palavra 
que a Der<s tenrlcs d ida , nem imital-o ukjís 
ao vivo, que reíhizindo a seu servirei unui 
peccadora miserável , e al>atida , e dando 
a mão a uma alma oppriuiida de gravissimo 
peso ; que este é o íim para que Deos vos 
(leu condição piedosa aconipitnliada íle proni- 
ptidão , e brandura para com lodos os atlii- 
gidos. Pois como ha de haver no mundo qj\e 



l^r^ Vida do Deito 

só pnia a triste de mim peccadora , de todos 
desprezada e aoorrecida haveis de serrar a$ 
entranhas de niisciicordia ? A mim qT)v' já 
diante de Deos e dos homens estou perdida 
depois que minha maldade me fez cair em des- 
graça do todos? Mas lai sois vós que aquella, 
que todos dcsprezão, e a que todos dão de 
mão , essa buscais : e aquella de quem todos 
com muita razfio se envorgonhfio , e pejão , 
essa chamais , nHo sem grande ahaiimei.to 
de vossa autoridade, e magoa deste cora- 
ção. Abraçada a esses pés vos peco sénior 
cui:i um sentimento eteino de minha alma, 
que por honra ^le Deos perdoeis a esta desdi- 
tosa e^te homicídio que comir.elli (ah mofina 
mulher ) contra vós , e contra n)iu!)a ahna. 
E lembre-vos que ainda que lui occasiâo de 
receberdes psrJa na honra , e no gosto da 
\ida temporal, haveis de ter no Geo por este 
respeito uma particular gloria , e contenta- 
mento eterno. Havei lastima da mais abatida 
e miserável j i ccadjra d«) mundo ; (jue tu 
mesma me lancei na rede para padecer eter- 
namente no corpo e na alma o mal, que te- 
nho piesenle , e ser abominável , e odiosa 
tanto a mim , como a «piantns me conhere- 
lem : tomai-me tie hoje em tliante a' vossa 
conta para remédio desta vida , c da or.tra , 
e não vos uè pena cuidar que quero lorcar 



ao eslaclo nonrailo de irniíía vossa , que an- 
tei iiLMíbnrria cousa desejo mais , que perder 
para toda a vida este nome, que não mereço, 
O que só queria ^le que de mercê me soííVes- 
seis ter Ingar diante de vós de irmáa perdida, 
e de ilireilo neuhiJUi outro se não de esciava 
achada de novo , e c()brada á custa de muito 
toriiiento vo^so. E esta determinação tenho 
tão asàeiilada comigo , que se houver quem 
inc chan;e vossa irmàa , ou por essa queira 
íazer-me alguma boa ebra , será a cousa que 
na ahna mais sentirei. Anlcs terei dó de 
vós , se estiverdes em parte onde vos eu pos- 
sa apparecer diante dos olhos, e hajais de so- 
frer tamanha afronta como é !iatuialu»ernc , 
e com razão para todo o homem , uma tal 
irmàa, e como eu creio , que o é para vós, 
seí(undo conheço de vossa ctjndicHo. Nem 
quero, que em nenhum tempo tenhais 
comigo trr.to, nem conversação j que bem 
enlcndo que não podem deixar de se assíun- 
brar comigo vossas orelhas, e quel>rarLn: se- 
vos 03 olhos com vergonha. Cousas são estas 
para mim muito de sentir, idas ainda que 
scjão duras e intoleráveis , com ludt) piíssarei 
por todas de boa vontadvi, e oííerccel-as-bei 
ao poderoso Dcos em desconto do a;iontoso 
peccado com que o ofíeudi: para que assim 
movendcj-vos vós a pi^vladc Ucniim por quem 



i8o YiDk do!3j-:\to 

sois, liajais por liem de satisfazer fielniento 
por minha culpa , e torn;ir-me a pc.r em 
graça com Dco-s. A estas lamentações, e 
pranto acudio o Santo Fr. Henrique , livre 
já (Io acciclente, e resnonrleo desla niancira : 
Eia sli-s ardentes lai^riniHS arrebentai já deste 
coração íertilissimo delias , que de dòr, e 
magoas não lhe cabe lá em si. Ai de mim 
íiliia minha, único ailivio desta alnia dcsd'o 
principio de minha vida. Deixai os pós, 
chcgai-vos a mim, e a este peito já dcfuiicto 
<le vosso desaventurado irn^.ào. Dcixai-me 
banhar com as desconsoladas e sancionas la- 
j^rinias de meus olhos o rosto de minha ir- 
luàa. Ueixai-me chorar, e prr.ntear núnha 
fjllia morta. O' que pequena dor é padecer 
r.iil mortes no corpo. 3Ias que grande , e 
deshumana dòr é estragar a alma , e perder 
a honra ! O' magoa ! O' desavcntura de n!cu 
atirihidado coração! Ai de mim bom Deos, 
que é isto que me aconlec(»o? Cbo;^^ai-vos a 
luiui fdha minha, que pois achei , e cobrei 
4idnha liiha , quero já enxugar as lagrin^as, 
e onero hoje admitiir-vos com a mesma bran- 
dura , e piedade com que eu pobre pcccador 
desejo ser recebido no den adeiro passo de 
minha vida, c coiu protnpii*íSÍma vontcde 
"vns largarei o merc( Imento do nojo, e an- 
ciãs mortaes desta alma , e de todo o ou- 



Fr.Heniviqce Suso. iSr 

Iro mal , que me cnn^n^tcs , e de forra liá- 
veis de causar já até o fim de meus d as. E 
não duvideis que vos hei de ajudar sempre , 
satisnizendo por vossa culpa quanto puder , 
assim diante de Deos , como dos Lomens. 
Alguns homens, que acaso se achárào pie- 
sentes a este acto, vendo os prantos d'anihas 
as parles , e aquelles eíítiios de tristeza , 
forfío ião movidos de com.paixão , que ne- 
nliiim podia ler as lagiimas. Desta maneira 
tkhrandou o Sinito aquelle coraí^ào , pri- 
meiro com os eíTeitus íie sentimento, e lo^o 
coiu a consolação amorosa, e ficou tal, (jue 
TIO mesmo ponto se ofíercceo prompíamente 
a tornar ao ha])ilo penitente dalleíigião, 
que linha deixado. E foi o Senhor servido, 
que tanto que esta ovcllia perdiíla tornou 
para o rehanho de Chrislo á custa de tanta 
vergonha e ahatimento, e Irahalho do San- 
to , foi recchida n'oulro I>Iosteiro melhor 
accomniodado c mais a seu propósito. Onde 
cresceo depois rlj maneira cui fervor, c ohras 
do serviço de IJeos , c procedeo na guarda 
de sua ahna tão santa c acautclr.(^ín:ente , 
armando-se de muitas virtudes ale a ujorle, 
que seu irmão se houve por largamente satis- 
feito ,e contente dos enfadamentos, e tra- 
ballios, que diante de Deos , e dos liomers 
passou por sua causa. Antes vendo que o 



182 Vida do Blato 

qne por ella padecera lhe tinha rendido 
tanto , sentia j^iandc gosto , e aU;grava-se 
ruuito , e considerava os occultos juizos de 
Deos, e como aos que o aiiião tudo lhes 
torna em hem. Da.jni levantava os ollios ao 
Ceo , e dava- lhe iníinit;is gratas , c toda sua 
aliijâ se derretia em louvores Divinos. 

CAPÍTULO XXVíl. 

De um grande perigo j cjiie Fr, Henrique jws^ 
soíi por causa de um hradê seu conipankti' 
ro, 

J Arlindo o Santo uni dia para fora, foi-lhe 
dado por companheiro um^i*'rade lei^i), que 
lo5^'o acceilou de má voulade, porque era 
liomem de juizo pouco assentado: leudjra- 
vao-lhe quantos desgostos lhe tiidiào succe- 
dido com outros companheiros, que sem 
respeito se lhe tinhfio dcsconjposlo; e toda- 
via sogeitando-se por obediência á vontade 
alheia , levou-o comsigo. Aconteceo ciiega- 
rcm antes de comer a uma aldèa , aonde 
corria grande numero de gente por razào de 
de certa feira , que alli se fazia. Vinha o lei- 
go nu)iliado da chuva , que troiixcrào pcKi 
inanhàa; pelo que mettendu-se em uiua ca- 
sa ciicgou-i.c ao foi^o, e dicse ao Í.Miito, 



Fr. ííENIlIQUE Suso. x83 

que se não sentia em disposição para passar 
adiante , que se tiniia alguma cousa que 
ncgocear, fosse embora só, que elle o que- 
ria alli esperar. E tanto que o Santo poz os 
pés fora da porta , largou o fogo , e foi-se á 
mesa, onde comia muita fjente dissolula, e 
devassa, que vinha ne^ocear na feira, e por- 
curar giinlio de suas mercadorias. Vendo 
alguns destes, que o Frade leigo se levantara 
da uiesa , e estava á porta bocejando, e 
ocioso , voUantlo os olnos com livi.iudadc a 
uma parte , e a outra , e dando fé de tudo, 
lançarão mão delle , levaiitando-lhc qi)c 
lhes totnára um queijo. Em quanlo csu-s 
luáos homens maltratavilo o pobre Frade por 
esta via , sobrevierão outros , que erao cin- 
co, e vinhao armados , e cheios de fúria, 
que também pef^árão dello dizendo a gran- 
des vozes,, que era honuMu , que trazia pe- 
çonha comsigo , e a punha, e lançava por 
toda a parte. Corria fama naquelle temj>c, 
que havia homens, que cum atrevida niaU 
dadtí iníicionaviio as aíruas. Em Hm tomá- 
lão-no entiesi, e tal era a tra^í.-dia , que 
rcprescntavào , que corria a elles todo o 
])ovo. Vendo-se o Frade preso, e desejando 
livrar-'^ \ voltou-se para os circunstantes , e 
disse-lhes estas palavras: Pcco-vos, Senhores , 
que me deis uma breve audiciK^ia , e descu- 



x84 Vida ro Cíato 

l)rir-vo5-]i?i cháoniente tudo o que é pas- 
sado nesta jnateíia. Ficaiuio ic»t.o3 altL-iuos, 
ecala:it)S, começou a fa liar (icsti maneira .* 
Bem veíltís , e conheceis lodos cm nieu as- 
peito , que sou homem íle fraco juízo, e por 
isso nino^uem íuz de mim conta. Rias lenho 
uni companheiro homem sisudo , e «Ití 
grande ser, a quem nossa Oídem tem dado 
o cargo de empeçonhentar todas as íonies, 
que ha daqui até os Trihunos, ou Alsatia, e 
a esse fim caminha para lá. Pelo que não 
haja detença em o colhíTdos; que, se tar- 
dais, porá cm execução e^lG danado in- 
tento. E já lançou na fonte deste luí^ar um 
saquinho (ie veneuo para que morrão quan- 
tos aqui vierem, e hehereni dcUa. E esia é a 
razHo porque me deixei aqui (içar, o nào 
fui com elle , visto como já o acompanhal-o 
me faz mal. E para que vos asse£;ureis , que 
íallo verdade, será testemunlia do que dií^o 
um alíorjj^e granile, que serve de trazer li- 
vros, no (jual -traz muitas hocelas atestadas 
de peçonha, e de muitas moedas d'ouro , 
que os Judeos lhe derào a elle, e á noss* 
Ordem para que ponha em ohra tamanha 
maldade. Tanto que tal ouvirão os cinco, e 
outros tão desatinados, e preversos conio 
elles , que se lhe tinhão ajuntado , dovào 
brami^ivs como ])estas leras, e a grandes 



Fr. ITkxriqus Su^o. io5 

Vozes dizião, Tanivos depressa traz elle, siga- 
mol-o. ¥. ít>í^í^ arrebatando cada um o que 
primeiro achava, quem lança, quem machia- 
do, quem outra CDUsa, ião correndo como 
doudos, e quebrando portas, e abrindo ca- 
sas , onde cuidavão de achar o Santo : com as 
espadas nuas fazifio gueira a's camns, e á |}a- 
Iha dos eijxergóes, dando-ihes de estocadas, 
e era o alvoroço , e o ruido tal , que quantos 
nndaví^o na feira ião traz elle. A-Ciiaiáo-sc 
aUi alguns forasteiros, homens de bem, qi;e 
conhecião ao Sjnto Fr. Henrique. Estes ou- 
TÍiido-o nomear niettcrão-se no meio, eaffir- 
runvão que fazião o que não deviáo em o 
buscarem, porque era tal Pessoa, c de tanta 
virtude, que uáo era possivej entrar-llie ra 
vontade, nem no pensamento um tamanlio 
pcccado. Com tudo não se quietarão senão 
depois que não poderão dar com elle, mas 
leva'rão preso o leif(o ao Governador da ter- 
ra 5 que o mandou encarcerar em uma casa, 
O Santo Fr. Henrique não sabia nada do que 
passava ; e parecendj-lhe hora de comer, e 
que seu companheiro teria já o habito en- 
xuto, veio-se para a pousada dontle o dei- 
xara para jantar. Tanto que entrou, conta- 
i'ão-]he tudo o que era passado. O que en- 
tendiílo, íicou mui atcMuori/ado, e r.o mes- 
nio poiilo sem parar voltou para íóra , e 



i86 YiDA po Beato 

ft)i-«e rom pressa a rasa do Govfrnuclor, er 
pedia-lhe que llie soitjsse seu companheiro.. 
Piespondeo-llie o C(;vernador, qne por ne- 
nhum caso podia "tiil ÍLi/er, antes o havia de . 
r.ielter em uma torre pelos males, que linha- 
feito. Sentio Fr. Henrique por estiemo esta 
resohiçâo, e não cansava de sohir, e descer 
escadas , e andar de luiuia parte para a outra 
por ver se podia remediar o sen preso. E em 
fim depois deter gastado nisto muitas horas, 
não sem grandes enfadamentos e afrontas, 
acahou que lh'o sohassem. Parecia-lhe já en- 
tão a Fr. Henrique que era acal)ada ioda a 
tempestade. Mas na verdade daqui começou 
a relVescar mais asperamente, pí)ique quan- 
do acahou de se dcsemharacar dos que man- 
d;:vão no lugar, então entrou em perigo de 
perder a vida. E o negocio passou desta ma- 
neira : 'l'i:dia-se divv.lgado at|uella tarde no 
povo mindo, e entre a gente haixa, que o 
íSanto tiazla c<jmsi"o peçonha nara corrom- 
per as aguas, e arsim em o vendo sair de casa 
do Governador davão todos traz elle, como 
se fora um ladião, c de maneira que não 
ousava apparccer no higar. Todos o moslra- 
vão com o dedo, e dlzião : Eis alli o mesUe 
da peçonha; mas elle n;iO nos escapaia das 
mãos, que sem falta morrerá, ennt^lhe va- 
lera coumosco o seu dinheiro como fez coui 



Fr. He-Vrique Suso. 187 

c Governndor. Venrío-se o Santo aperlado, 
quiz acolher-se a uma quitUa : pp.táo levan- 
tarão a voz corn niais íuiia, e uns dizião : 
Afognemol-o no Danúbio (estava assentatJo 
o lugar ao longo (leile), outros gritavão: Isso 
iiívo, que nos danará a agua es^e ladiáo, ave 
é sujo, e torpe; melhor será queimal-o. lím 
villfio deshumano e furioso envolto em um 
tabardo, trazia uma lança nas ii/ãos, e atra- 
Tessandri por meio da gente onde estava niais 
apinhada, poz-se diante de todos, e soltou 
estas palavias; Oilvi-mc senhores, e todos os 
que aqui sois presentes. Nenhuma morte po- 
deremos dar a este herege mais afrontosa, do 
que será se o cu espetar nesta lança como se 
faz aos sapos. Desta maneira ficando nú , e 
aspado nesta lança, e levantado no ar com a 
boca par.1 baixo atnarral-o-hei a esta sebe de 
maneira , que uno possa cair. i\lirrhe-se no ar 
o corpo malvado, e fique este ladrão á vista 
do quar)los passarem, para que o maldigâo, 
e abominem vendo tão feio grenero de mor- 
te, eassnn seja maior sua desventura no tem- 
po presente, e no por vir, que tudo tem bem 
merecido tão jvj^tilencial homem. Ouviu isto 
o Santo com assaz pavor, e apertados suspi- 
ros, e era tal a anciã , que lhe fazia saltar as 
lagrimas dos olhos. Vendo-o neste estado al- 
guns homens honrados, que eslaváo á roda^ 



i88 VíDA DO Bi:\TO 

choravao ngranientc, oiitiosconi niigoa ba- 
tião nos peilos, c lorcláo as mãos sobre a 
cabeça. lias nã© oustiva neubuni falia r pala- 
vra ciíia medo ilo povo furioso, |)or((ue não 
lançiíssein mão delle. Asoini passou Fr. Hen- 
rique o dia, e sencio j:i tarde andava de casa 
em casa pedindo ga/aiiiado cí)i!i lagrimas, e 
eiii toda a parte íoi esqtiivaineiitc despedi- 
do. Umas devotas mulheres desejánio aj^Mza- 
Ihal-o; mas de medo o deixarão cie íazer: 
finalnientc seiítindo-se apirlauo dcmoiliiis 
anjuslluS, e dcsanipara^lo de lodo o socorro 
humano, como a({uella genie não espeiava 
anais c|ue vel-o preso para o acai;arem, 
caio de pura tristeza, e medo da morle ao 
longo de um vabulo; e dídii levantando os 
olhos, inchados do muito que tinha chora- 
Jo, ao pji ceh^sllal dizia : O' pai amoro.-issi- 
mo, qnaiido valereis já a e.^le miserável mel- 
lido em tanianho aperto? O' pai piedosissinu», 
porque vos esqueceis tanto de mim ? O' pai, 
ó íidelissiiiio, ó clenientissimo pai ajuilai-uje 
nesta minha uliima necessidade, que jii eslo 
coração deíiinU) não tem esperança de vida. 
3Va moíle não ha duvida. IN cm posso esc^ipar 
de aíogado no rio, ou queimado, ou pas- 
Siido de uma lança. Kncommendo-vos hoje 
meu desconsolado espirito, e peço que liajais 
piedade desta desavcuUirada n.orlc, que i^io 



Fr. iíi:ríi;iQi:E Suso, 189 

eslão longe os qwe me querem matar. Sendo 
informado um Sacerdote do lugar destas pie- 
dosas la5ti)iias, foi de pressa aonde o Santo 
jazia, o usaiitlo de íoíVíi tirou-o das mãos 
da([ueries inimigos, e meltendo-o em casa 
teve-o dcjuella noiíe em paz, e ao oiiiro dia 
em amanhecendo niandou-o embora , e as- 
siiií o livrou do pcrijj^o da mo* te, que tão cei- 
ta, e tão presente leve. 

C A P 1 T i: L O XXVIII. 

Do rue acontccco ao Santo com uni ladrão. 

i_ Ornava o Santo mna vez para Allemanba, 
onde tinlia sua morada, das partes delran- 
des, (Hide o mantlaia a obeuiencla, e vinha 
caminhando peia ribeiras do Danúbio con\ 
um companheiro mancebo, e despachado no 
arnlar. Aconteceo que achando-se um dia o 
Santo mal disposto , e cansado , não lhe pô- 
de aturar o passo, que levava, e ficoii-se [)or 
dclraz espaço ({uasi de meia milha. la-st; pon- 
<Io o Sol, e tinha por passar um grande bos- 
que nial assombratlo, eperigoso por muitos 
ladrões, que nelle contmuavão. Olhou eniáo 
para liaz a ver se acaso vinlia al;:;nm vian- 
dante, em cuja coiitpaniiia p.assa^>e o bosque, 
eparou-seum pouco antes de enlrar neílc es- 



Ií)0 VlDY DO BljLTO 

p?ranflo nl^tir^n. Fiilretantovio assomar fluas 
pessoas, que vinhõo raminh.indo Á pressa, 
das quaes uma era nuiliíer moça , e forninsa; 
a o!ilra um lioniem temoroso com uma l.inca 
ao liombro, e uma espada compriíla á ilhar- 
ga, cuherto com um taljardo negro. Assoui- 
brado o Santo da feia catiidura deste, tornou 
a estender os olhos por tudo por ver se acaso 
"Vcria outra companhia; rnas não vendo jiin- 
guem, fallava comsig(?, e dizia: Senhor Deos, 
que sorte de homens são estes I qne feição 
tão espantosa ? Como hei de passar assim tão 
grande bosque? E que será de mim ? Dizen- 
do isto fez o sinal da Cruz sobre os peitos, 
e metteo-se a caminho pela floresta adiante. 
Tendo caminhado um l)om pedaço todos 
tre?, travou a mullier pratica com elle, per- 
g(;nlap.df>-ll!e quem era, e como se chama- 
va? Satisfez o Santo á pergunta. K ella: Bem 
vos conheço senhor meu, disse, pelo nouie. 
Pccovos que me queirais ouvir de confissíío. 
Começou loi^o a ir-se confessando, e disse: 
Ai de mim, Reverendo Padre, quero-nie 
queixar com vosco de minha triste ventura, 
líaví.is de saber que este homem, que n(»s 
aco'upaTdia é ladrão, e matador, e usa este 
oMirii» neste ])osfjuc c n'outras partes, e toma 
a lodos as bolsas, e vesti(h)s, sem pírdtvir a 
iiinjj;ueni, lílle lueengauuu, eme tirou d\u- 



Fr. Kr^NRTQUE Suso. ic;t 

tre minhas amigns, e por força sou sua 
iiiullicr. Ouvindo isto Fr. Henrique faltou 
pouco para lhe dar um acidente de medo, e 
Tirando para traz olliava paia todas ns parle* 
por ver se podia ver, ou ouvir al^ueni. Mas 
como a ílorcsta t-ra espessa, e sombria, nun- 
ca vio, nem omio niijjniem , mais que o la- 
drão, que os vinha seguindo. Neste ríeio fazia 
discursos Cl insigo , e dizia : se fujo assim cau- 
rado comí^ vou , logo me alcança , e me ma- 
la ; SC brado , não ha de lun er quem me ouça 
neste tão espaçoso ermo, e da mesma ma- 
neira sou perdido. Então Icvaiitando os olhos 
ao Ceo tristes, c arrasados de agua : Ah Se- 
nh.or D<'(;s, dizia, que ha de ser hoje de 
n:iiu ! O' morte, quào perto me estas. Tanto 
que a muJlier couciuio sua ccníissão, foi-sc 
para o ladrfio, e pedia-lhe em segredo, que 
se confessasse com o Santo , e dizia-lhe, sa- 
Lci b(un seulior, que na uíinlia terra temos 
taníci fé neste homem , que é opinião que nin- 
guém se confessa com el!e, aitida que n)uilo 
máo epeecador, que seja desamparado i\q 
Dcos. Ora fazei o que vos rogo , (|ue l)em 
pode ser que por amor dellc se leiubre Deos 
de vós, evos queira acudir neslas ullinuis 
angustias, que vos cercão. Indo assim j.m- 
l)os lidl.indo em voz baixa, foi o Santo tão 
apertado de Uíedo, que se du>a poj traído. O 



ií)2 Vida do Beato 

ladrão começava a vlr-se para e!le. OuancTo 
o Santo o \io junlo íle si, e lhe \io a LuíÇd 
Uiis niãoa, treiuco toei ), e .irrepiárâo-se-llie 
os cabellos , e ficu-se por acauaJo, porque 
nfio sabi;i o que an»hos ti:íhão passado ciitre 
si. O sitio dohio^ar, por onde raminliavâo , 
era de si niea.inlio, porque o Danúbio cor- 
ria ao longo do bosqne , í? a esti ada ia sobre 
a l)orJa tio rio. O lad/áo deixou ir o Santo 
parle da agua, e poz-se da banda da terra. 
Indo nvim o hanto cIícIo de niedo , couic- 
çou o ladrão sua confis.i'10 dec^^arando todos 
íjuanlos males, e rí>ubos linha feito, e em 
particular contou nin horrendissinio homiri- 
dio que fez íicar o Santo altoiiito. Kntrei um 
dia , contava o ladrão, neste bosque a saltear 
como tand)eni agora venho, encontrei com 
um Sacerdote honrado e veneravei, confes- 
:sei-me com clle, indo caminhando and)os 
como agora vamos vós, eeu. Acabada a con- 
fissão, levei desta mesina espada, que aqui 
vedes, c del-lhe de estocadas, o lancei-o no 
rio. Desta historia junta com os gestos, que 
o ladrão fazia conlando-a, e de seu aspecto 
ficou Fr. Heiiriíjuc tão atlonito e perdido de 
animo, que lhe corrião suores frios, e mor- 
tais lodos os men)!)ros, e o sangue se llie 
congelou no corpo, e perdeo a f.iila, e ficou 
tJe maneira, que ";uroi eslava faliu de tudos 



Tb. ÍÍE^íRiQtJE SusOé 193 

'os scr.tldos, só tinha os ollios postos na es- 
pada (lo Indião, esperando a hora, eni que 
o havia de atravessar com elh^ , como ílzera ;ío 
outro Sacerdote , q lançal-o de cabeça no rio: 
e começando com esta asronia a desmaiar, e 
não tendo jd tbrcss para se ter em pé, íicoii* 
lhe o rosto desfigurado e mortal, como de 
homem , que c^^tava para perder a vida logo, 
e desejava £aival-a. Notava estes eííeitos a 
companheira do ladrão, e tanto que caio no 
que era, acudio de pressa a ahracar-se com 
clle, que ia caindo já desfalecido, e trabalha- 
va pelo alentar, e tornar em acordo, dizen- 
do-ihe : Não temais , bom Paíire , que não se 
vos fará' nenlium mah Também o ladrão o 
animava , o dizia-lhe : Eu Senhor tenho ouvi- 
do muitos bens de vós , e por ivso quero dei- 
X ir- vos a vida. Rogai a Deos por mim , e pe- 
di-Ihe que por aunrr (k; vos me acuda , e haja 
njisericordia comigo, que sou um la d ião, e 
ando para morrȒr catia dia. Quando dizia 
eUas ultimas palavras acaha\rio de sair do 
bosque, e eis ([ue appareceo o compnniiti- 
ro de Fr, Henri(p>e, que estava assentado 
ao pé de uma arvore espera !ulo por ello. 
O bubão adiantnu-se com sua ci,m[)anhei- 
ra ; mas o Santo chegando como pôde aon- 
de estava o seu Frade, dei\ou-se cair em 
terra com um íjranile tremor d«) coracâc, 

7 



194 VíDA. DO Beato 

c do corpo todo. Depois de estar assim u«i 
espaço deitado cobrando alento, levantou-se, 
e acabou seu caniinbo. E sempre pedia a 
Doos n)ui de propósito, e com granc^e^ sus- 

Í)iros, fosse servido que aproveitasse aqnelle 
adião a fé, que tiveia nelle, e a esperança , 
cjue puzera em sua intercessão , e orações, e 
não permittisse que depois da morte se con- 
demnasse. E mostrou-l!ie o So!)bor uma vi- 
são , pela qual ficou cei lificado de sua salva- 
ção poi^ maneira (jue nenhuma duvida tiniu , 
que se havia de salvar, 

CAPITULO XXIX. 

De alguns perigos y que o Santo passou por 



X ínha o Santo por costume ir algumas ve- 
^xes á Cidade de Argentina, que vulgarmente 
se chama Str.iburgf. Tornando uma vez delia 
para o Convento, caio uuui temeroso pego 
doDantdjlo, e juntamente com elle foi um li- 
vro, que tinha composto havia pouco, a quem 
o diabo linha grande ódio. E sendo levado 
da forca da corrente sem haverquem Ibe aco- 
disse, e andando já em braços com a morte, 
ora indo-se ao fundo, ora Lí)rnando-se em 
cima da agua, acontccco por divina provi» 



Fr. IIE^•RIQrE Suso? 19^ 

tlencin , que r.o mesmo íeaipo cliegou alli um 
soldad.) da Prússia, quo vinlia de Argentina, 
o qual se lançou á agua , e o tirou dcUa com 
seu companheiro são e salvo , livrando-os de 
tão triste género de morte. Outra vez foi 
íora da casa por ordem dos superiores, e ei^ 
no Inverno, e tendo caminhado em coclie o 
dia todo alé vésperas :>em comer, pelo vento 
que corria frio e desabrido , chegou a um pas- 
so de agua turva e nlía , que com a força das 
chuv.is levava grande corrente. O criado, qiis 
governava ococlie, deixou-se chegar t;i«to á 
})orda d'agua por descuido , que caindo as 
rodas em vazio daquell;\. banda , revirou em 
claro sobre a corrente. Caindo o coche caio 
tand)em o Santo de cabeça, e fjcou de costas 
pohrir a aíT^a , e losfo foi o ccclie sobre elle, 
de maneira que se não pod'a tirar debaixo, 
nem revolver-se com o peso paia nenliuma 
parte, nem ajudar-se; c assim foi um gr;yidj 
pediíço pela agua abaixo junto com o coche 
até darem n'um moinho. Aqui o cocheiro 
acudio com outros, e ferrou nulle; uj.ís era 
tal o ptíso do coche, que por muito que tr;:* 
balhaváo, e fazião pelo tirar, não n'o j)odira> 
levantar, antes tornava a baixo. Em íim le- 
vantando primeiro o coche, não sem gmnde 
trabalho, tirarão-no a terra bem niolhado. E 
como o frio era grandíssimo , logo so lhe con- 



19^ VíDi DO Beato 

gelarão os fatos no corpo de maneira, que 
batia os dentes de íiio. Nesta afllircão esteve 
o Santo por grande esj);i( o sem se poder va- 
ler, e levantando os ollios a Deos dizia : Que 
farei, Senhor, ou que intentarei primeiro? 
veni^se a noite, e não vejo luj^ar, nem alJèa 
por aqui onde me possa aquentar, ou reme- 
diar. Se quereis que acabe aqui assim triste- 
mente, he bem miserável género de morte. 
Todavia estendendo a vista por tudo enxer- 
gou ao longe uma aldeã ao pé de um monte, 
Foi-se lá como pôde todo molha<lo, e inti- 
rissado com fiio e era já noite , rodeava as 
casas, pedia gazalhado por amor de Deos , 
snas de toda a parle o despedião, nfio se 
doendo ninguém de seu tral)al;io. Em fmi 
arreceando de acabar alli, bja<lou ao Senhor 
em voz alta dizendo : Melhor fora Senhor 
deixardes-mc afogar naquella agua. Acaba- 
ra Limais de pressa, e com mais gosto, do que 
me vejo aqui perecer com frio. Estas pala- 
vras ouvio acaso um viliáo, que primei lu lhe 
negara pousada, e havendo lastima delle to- 
rhou-o nos braços, e metteo-o em sua casa ^ 
« a\li passou uma bem cansada noite» 



Fk. Henrique Suso. 197 

C A P I T U L O XXX. 

De como se houve o Santo n^uni breve tempo, 
que teve vago de tribulações, 

JLjiília já Deos nosso Senlior poslo cni tal 
costume o seu servo Fr. Henrique, que em 
lhe aíroxando uma tribubífio, cleterniinada- 
inente espeiíiva logo í)ntra. E a^aim sem ter 
um momento de lefrioeiio, andava semj re 
afíligldo : só de unja vez lhe deu o Senlior al- 
gum repouso, e este foi ainda de bem pouca 
dura; no qual tempo entrando um dia n'i:m 
Mosteiro de Freiras, umas filhas espirituais, 
que nelle linha , lhe perguntarão conjo ainía- 
Ta. Aoque o Santo rcspondeo, que receava qn j 
lhe não ia l)em , e que Deos se esquecia deile , 
porque era passa-lo um mez inteiro sem rece- 
ber otiensa de ni»)guem, nem no corpo, netn 
na fama, cousa íóra do costume em que estava 
de muito teujpo atraz. l'onco espaço liavia 
queo Santo eslava assentado asgrades, quan- 
do um Fratle de sua Ordem, ([uese alliathou, 
o chamou á parre, e Ihedisse osej^uinte : \ão 
ha muitos dias que ntc achei u'um ca^tello, 
onde ouvi o Senhor deile per^^amtar elíioaz- 
incnle por vós, c por (huide aritlaveis, e ju- 
rar com as mãos levantadas diante de mi;ila 
gente, que se vus aciuvu, cm qualquer lu- 



igH Vida no Beato 

gar que fosse, vos havia (]e dar de nonliali- 
das. O mesmo juramento Gzerão tnníLcm al- 
guns fidalgos seus parentes, os ([tiaes a estr\ 
conta TOS huscarão já em tdgans Moslciros, 
]:ara executarem esla danada vontade, que vos 
lein. Por onde vede o que vos cumpre. An- 
dai acautelado, e olhai por vós, se estimais 
a vida. Ouvindo isto Fr. Henrique ficou cheio 
de medo , e disse ao Frade , que tomara saber, 
que razfio hírvia para o tei eui por merecedor 
de tal morte. O Frade llie respondeo desta 
maneira: Haveis de saber que cuntarfio a este 
senhor, que vós ensináveis a urna fiilia sua 
um modo devida particul.jr, e novo, que se 
chama espiritual, e os professores delle espi- 
ra uais, e (jue a niettesles nella c .mo fizestes 
noutra muita gente. E está persuadido que en- 
tre todos os nascidos não ha peiores ho:i»ens, 
que os que seguem esta doutrina. Também 
estava piesente nesta junla um homem atre- 
vido, e feroz, que aftírmava (jue vós o ti- 
i::heis descasado de sua mulher, que muito 
amava de tal maneira, que tapava o rosto, 
e não queria olhar para elle , e dizia que que- 
ria bó olhar para dentro de si, e por sua al- 
ma. Tanto que o Santo soube estas novas, 
deu graças a Deos , e tornou logo para as Ke- 
ligiosas, e disse-lhes : Amadas tilhas, servi a 
Deos varoniiiuente, que ja se lembrou do 



Fr. He:íriqui Suso, ipf) 

mim. E logo lhes contou as temerosas novas 
que v^ Frade llie dera , e como o luaiulo an- 
dava traçando pagar^lhe com males os servi- 
ços, que lhe fazia. 

CAPITULO xxxr. 

De conin o Santo entrou um dia ein contas 
com Deos , e do que lhe rssultou delias» 



N, 



O mesmo tempo, que Fr. Henrique pade- 
cia os trabalhos, que vamos contando, en- 
trou unia vez na enfermaria da casa, em í\\\q 
morava, para d.ir alguina recreação a seus 
cansados Uíembros. Estando seulado á mesa, 
e calado, segun<]o seu costume, molesta- 
vão-no com algumas zombarias e palavras, 
que elle sentia muito , e iíie causavão tanta 
compaixão de s» "^nesmo vendo-se assim m U 
tratar, que muiíi«s vezes lhe corrião as laj^ri- 
nias pelo ri'Slo aliaixo, c lhe -eutravão pela 
boca envoltas com o que comia, e bebia. 
Então punha os olhos no Geo, e chaujando 
por Dcos com entranháveis suspiros fallava- 
íhe ^^slm: Piedosissimo Deos, não bastão as 
misérias e desveíiiur.ís , (pic'couiinuauiente 
padeço de dia e »ie noite, souão que ainda 
esta pe:]uei:a refri-ão, que s^ómo, sf meha de 
tornar fel e amargura í* /ísio lhe acoutcceo 



aoo Vida do Bj24to 

muitas vezes, e de uma levantando-se da 
mesa, não se pude mais reprimir, e fcil-se 
Correndo ao seu Oratório, e posto diante de 
Deos conieç.ju a queixar-se desta maneira : 
Suavibsimo Deos, Senhor do inundo tolo, 
peço-vos que useis comiijo de brandura, e 
piedade , que hoje é o dia , em que determino 
entrar em contas com vosco , e não posso ai 
fazer. E ainda que a ninguém deveis nada, 
nem eslejaij obrigado a na fia, por serdes, 
como soisj Deos soberano,, c imnicnso em ma- 
gestade: sem embargo de tudo á vossa bon- 
dade iníiuiia compete sofrerdes, que possa 
desabafar com vosco, e tomar algum aílivio 
CiC vossos divinos favores, um espirito afo- 
gado em tribula'-ões, maionnente quando 
não tem outrem ninguém , a quem se possa 
queixar, ou quem o console. E começando, 
a vós mesmo Senhor, a quem nada se es- 
conde, tóiuo eu por testemunha, que desde 
que nasci tive sempre um coração brando, e 
compassivo; porque nu!íca me lembra que 
visse ninguém altribulado, ou triste, que 
me não compadecesse delleentranhavelmen- 
te. Nunca pude ouvir cousa que pudesse fa- 
ler nojo ao p-oximo, nem em presença, 
nem em a])^eniia sua. De unia cousa me se- 
rão testemunhas meus companheiros lodos, 
que mui raras veze"^ «ue ouviriáo torcer coiu 



Fr. TÍENRIQtlE ScSO. 40» 

minlia llnofiiacrem , ou Jar entendlmenlo á 
pfior parte aos feitos alheios, nem de Frade, 
riem de outrem ninguém, assim diante cios 
superiores como de toda a outra pessoa. An- 
tes em qiianto pude julguei sempre o me- 
lhor das obras de todos, e quand<; mais não 
pude, ou me calei, ou me desviei por nfío 
ouvir o contrario; e daquelles me dava por 
mais pr.rticular ami^^o, que eu sentia terem 
recebido <letrimenlo algum na fama , ou na 
reputação; o que fazia de piedade , porque 
llies custasse menos tornar a cobrar seu cre- 
dito, O meu nome era verdadeiro pai de 
tristes. De toílos os amigos de Deos eia par- 
ticular amigo. Todos os que se clirgavao a 
mim tristes, ou trabalhados, ao menos dava 
algum conselho , com que se tornavào ale- 
gres, e animados: chorava com os que cho- 
ravão, dcoconsolava-me com os tristes até 
qi\e quietava uns e outros com autor de 
niái. Nunca ninguém me anojou tanto, que 
logo lhe não perdoasse tudo como se nunca 
me offendera , se só uma vez me mostrasse 
bom rosto. De que .•-(írve fallar dos homens, 
se as íaltas, e trabalhos de quaesquer nni- 
inaes , ou avezi.íhas me apertaváo o coração 
de maneira, que quando as via , í»u ouvia, 
chegava a pedir-vos ren^cdio para elles P 
Tudo quanto vive sobio a leira acha tta 



*02 Vida do Beatí> 

mim entranliss úc amor e branrlura: e vós^ 
Deos piedosíssimo, perniittis que haja ho- 
mens (eslcs são os que o Apostolo chama ir- 
iiiftos falsos) que me tratem com muita esqui- 
"vança , e de«abrimento, como \ós, Senhor, 
Lem saljeis, e a todos lie ben) notório. Pe- 
ço-vos, Senhor, que vejais isto, eros mesmo 
me deis algum aUivio de vossa nião. Depois 
que o Santo desabafou largamente com Deos 
riestas contas, ficou n'um repouso mui asso- 
ceo^ado, esentio i:or meio de uma luz divina 
csra resposta em sua ahna: Eftas tuas conlus 
são contas de minino, e nasccm-te de não ad- 
virtires sempre, c^mo deves, nas palavras, 
e nas obias de Christo paciento. Has de en- 
tender, que não é só bastante para Deos esta 
tua condição caritativa e branda , de que tu 
te contentas, mas sabe q«)e quer de ti outra 
cousa mais subida, e mais perfeita, quoro 
dizer, que quando alguém te aggravar com 
obras, ou com palavras, não somente passes 
por isso levemente, mas inda estejas tão 
morto á tua paixão, e a ti mesmo, que não 
ouses deilar-te a dormir sem primeiro busca- 
res esse que te a^j^sfravou , e com gesto tlesas- 
sonjbrndo e palavias decortezia, e com a bo- 
ca cheia de rizo abrandares quanto em ti for, 
ç assocegaressiia cólera , e fúria: porque com 
esta uioderacào e humildade lhe arrancas 



Fr.. Henrique Sttso. ao3 

Ia mito a espada, e fazes que aquella raiva 
ema vontade lhe finue fraca, e sem forças, 
e totalmente desnrmrida. E este he a(|nelle 
aníi;'o casuinlio ^de perfeição que Clirlsto 
JESL ensinou a seus discípulos quando lhes 
dizia: íiis afie eu vos mando como cordeiros 
entre 'obos. Depois que o Santo tornou em 
si pancco-lhtí este caminho de perfeiçno 
muito liais agro, e trabalhoso, e não podia 
cuidar nelle sem .grande desabrimento , e 
muití) naior o sentia se queria acommeltel-o. 
Mas cí'm tudo como estava resignado nas 
mãf)S d) Senlror, começo\i a provar suas for- 
ças , ea:)r3nder os passos desta estrada. Acon- 
ttíceo dalli a alj^uns dias, que um í'rade leigo 
o tratou mal (!e palavra, e o injuriou nota- 
velmente Sofreo tudo o Santo sem fallar na- 
lavrií ; e luvendo que isto bastava , náo queria 
passar adiante. Mas interiormente sentia um 
reníordimento , que o obrigava a fazer mais. 
E assim no mesmo dia á tarde estando o Frade 
ceando na eifermaria , esperou a porta , cem 
saindo deiton-se-lhe aos pés, e pcdio-lhe 
hurnihlemente perdfio dizendo: Cliarissimo 
e Rclij^ioso Pa Ire , peço- vos por reverencia 
de Deos , que «e em algucna cousa vos mo- 
lestei, ou offendi, me perdoeis por amor 
de Deos. Vejidu o leigo um tal acto, primei- 
ramente íicou par;rdo, t mudo, c lo^o er- 



ao4 Vida. do BrAxo 

giiendo os olhos disse em voz alta : Valha-me 
Dcos, que maravilha é esta? que fazeis? 
Nunca me offcndestes mais que aos oulfos, 
antes eu fui o que notavehiiente vos e*c;in- 
dalizci , e que com a soltura demasiadri ííosta 
liugua V03 fiz cruéis aL'oiitas; c disto eu sou , 
meu Padre, o que houvera e devia peclr-vos 
perdão, e iniportunar-vos uma, e muitas 
vezes por elle. E assim ficou o Santo (|uielo. 
I^m dia estando Fr. Henrique á mesa na en- 
fermaria, disse-lhe un» Fraiie muitas pala- 
vras pesadas , e malditas, e elle lhas pagou 
com se virar para elle com um senjl)lante 
tão risonho e alegre, como se nelias reccl)era 
alguma amizade mui signalada. Mas i-*to teve 
poder para tornar o Fra<!e tanto so])r« si coni- 
pungindo-o inteiiormeute, que náosón\ente 
se calou , u-.as tauihem se liie mostrou ale- 
gre e bem assoml)rado. Depois de jantarem 
contou o me>mo Frade este successo na ci- 
dade com estas palavras : Hoje foi o dia , em 
que uie vi tão cheio de vergonha e afronta- 
do estando comendo, que cuid> que nunca 
outra tal me aronteceo. Porque fa liando eu 
mui solta, e desarazoadamen:e contra Fr. 
Henrique, elle me ouvio tom um gesto tão 
aprazivel , e desapaixonado, que me ffz ficar 
corrido. È espero aw nosso Senhor que me 
ha de aproveitar sempre este seu exemplo. 



Fe. Kenriqte Srso. 2o5 

CAPÍTULO XXXII. 

Deconio o Santo chegou alí^umas vezes a risco 
íe perder a vida de demasiada ajjlicçào, 

ACjonterco a Fr. Henrique em certo tem- 
po, -jue as mais das noites no meio do sono 
acoríava cheio tle pavor E começando a re- 
2ar sem saber o qne, logo começava o PsaU 
mo d;Pnlxáo, que começa : Deus Deus meus 
respiciin me, que éonjcsn-o, qnecoritf.o, que 
Chiisú') nosso Senhor disse na Cruz vendo-se 
naquele nliimo irai alho desan;parado do Pa- 
dre Fjerro , e de todas as creaiuias. A contí- 
nua r(peli< áo deste P.«^almo, qiicscm qnei er se 
lhe vidia á hòca , e a lembinnca do prii:<?i- 
pio deUí irazifio-no inui assun. brado quí^ndo 
estava icordado, como quem se receava sem- 
pre detfibulaçóes. E assim ini dia poíto 
diante ie um Crucifixo lallnva coin-eilc em 
voz alta (• com desconí-oladíis la'.',r'n ns, di- 
zendo : t\ de miui , Senhor Ikos, é isto por 
ventura qiercrdes vós que de r.ovo leve eu 
oulra Cru. com vosco , ou seja cruciríado 
neila? se asim é, ac aliai já, rooo-\os, de sa- 
tiiíazer rese triste corpo os tornemos de 
vossa innoctnie, e santíssima IMuilc, nas 
sedo (oníigo e lazei que <( n) íe, € confan- 
ça em vossa ijuda pcisa ventcr l( lio (• i^c- 



20(5 Vida f>n P.bvto 

nero de trabalho. NiTo tardou muito ?. cm 
que cLuínuentc lhe represei tár.i aíjuelle r>- 
soíTibra mento nocturno , com a qual lhe a<ii- 
(Tirão extraordinários trabalhos, de que ião 
conveíii fazer-se menção nesta hislori.i; os 
quaes indo-sc aiignicntando cada tua vérno 
a crescer tanto, eser tão intoleráveis, c^ie o 
chegavão, como tle seu natural era f/nco, 
ao derradeiro e-trenio da vida , e unt vez 
lhe succedeo estando fora do .Mosiefo , e 
querendo-se recolher a dormir já tarde, dar- 
liie um desmaio, e cortamento de forç;s tal , 
qiiG entendia de si que a demasiada frqucza 
o havia de fazer desfalecer, e acabar lojo. E 
asfeim jazia sem bulir, c tão mortal , qie em 
nenhuma veia do corpo tinha pulso. VMidi>-o 
t;d um homem virtuoso seu devoto, cue era 
presente (qne o Santo tirara de gravís peo- 
cados, nío i;em grande custo, e trahabo seu) 
acudio de pressa lançando muitas lagimas, e 
saltando-liie o coração de dor, por ^er se ti- 
nha ainda ah^^um alento devida. iMjS achou- 
lhe o coração tão adi)rmecido, q\c não pj- 
recia fazer iiíais movimento quese íura de 
um homem morto. Então vencdo de dor 
caindo sobre ellecom lagrimas en fio e pran- 
to em grita : O' Deos, dizia, >ede como é 
acabado hoje aquelle cxcellen te .^oração , que 
vus hospedou, e trouxe em »i tão longos 



Fr. Henltqfe íSuso. ^07 

anos com uma virtude, e religião fora do 
ciomum, e que com palavras, e escritos, que 
corem pelo mundo, vos deu a conhecer, e 
cou suavidade fez seguir de infinito numero 
díí liomens estragados, e perdidos. Enire 
esta lamentações, e magoas, que dizia, pii- 
nliallíe as mãos sobre o coração, e na boca, 
e pcos braços, desejando entender se esta- 
va anda vivo, ou se era fallecido. Mas em 
iienhnia parte lhe achou movimento, nem 
pulse E na verdade elle eslava tal, que ne- 
nhum cousa tinha do homem vivo, mas 
tudo omo quem caminhava já para a sepul- 
tura. ) rosto inflado, e amarcllo, e a buca 
negr;. Neste estado esteve tanto esjiaço, em 
quani se pudera bem andar uma milha de 
Allcnniha. Mps em quanto a^sín» jazia como 
em ex;isi , eslava sua alma gozando não me- 
nos oljecto que o mesmo Dios, e a divin- 
dade , » aquelle que só é verdadeiro , e a 
mesma erdade, e a unidade sempiterna. E 
já antes |ue começasse a cair reste desfalleci- 
m'*ento , ? Iransporlar-se , tiirha entrado eni 
brandos? devotos colloquios com Deos, di- 
zendo d6ta maneira: O' Acrilade eterna, 
cujo ine:<iauslo abvsmo está encuberto a 
toda a cretura : Eu pnlire servo vosso q!:an- 
to ao que entendo de mim, e da fraq^u/a 
em que nu vejo, sinlo-n:e chegado ao dcna- 



to 3 VíDi DO Beatíj 

cieiro termo da vida. Por isso, Deos Omn- 
potunle, íallo com vosco nesta uitinia lioii, 
coiu vosco a quem ninguém póile /iientir a 
qiíein ninguém pó»le en^^janar, pois tudo os 
é patente e manifesto. Vós só sabeis »> |Ue 
passa CMtre nun» e vós. Vussa henigni^de 
e misericórdia invoco Clementissimo íli- 
delissinio Pai: e su alíjuma liora me dtA^iei 
para outro algum oI)jecto fora da snhfaoa 
verdade, peza-me, Senhor Deos, denodo 
coração, pedindo-vos que com vosso pccio- 
so sangue laveis este erro, segundo vos* cle- 
mência, e minha nece-^sidade. Lemhíevos, 
Senlior, como quanto foi em mim lourvi, e 
exalcei por todo o discurso de minhaVida 
aquelle puríssimo, e sagrado Sangue, (j/e na 
Cruz derramastes. Este fazei vós que W pu- 
rifique e alimpe de todo o peccado íjora , 
que vou passando desta vida. Peço-vo.v .3an- 
los do Ceo, e a vós em particular moro- 
síssimo Pai e Bispo S. iNicoláo, qu lodos 
juntos de joelhos, e com as niáos letntadas 
façais oração por mim ao Senhor, que me 
dè boa morte. O' puríssima e eslarecida 
Virgem i\Iaria, dai-;ne ajora a mão aijuella 
mão, digo, piedoslíslma , e vo^sa, frt esta ul- 
tima hora recebei minha alma di^aixo de 
vossa Fé, e amparo, ]>ois depoií de Deos 
não tem meu coração outro gosic^ nem au- 



Fa. TlE"'íP.iQrE Sus^. 209 

tra copsolíção senão a vós ó Senhora e Mãi 
niinha : e»; vossas niáos encommenclo meu 
es|úritô. Ah suavíssimos espirlios .-Jiigelicos, 
lenibre-vos, rogo, como em toda a v*<Ia 
bastou só para me alegrar e enclur de gosto 
oiivir-vos non)ear. ÍA-tid^re-vos quantas ve- 
zes no meio de grandes tribulaçoens me 
acudistes com festas e passatempos do Ceo , 
e quantas me defendestes de nieus inimigos. 
Eia espirites gloriosíssimos, agora ^stoii em 
extrema neces-idnde evi.njonia, ai/ora !i<i ml- 
ster que me ajudeis. Por laiito acudi-me ago- 
ra , eguardai-me da vista temerosa e feia de 
nfeus inimigos. Louvo-vos Deos Omnipoten- 
te, edoii-vos graças porque fostes servi(lo dar- 
n-e nesta hora, em que aíalu) , um juizo per- 
feito, e uma i\izfio e coniiecimeuto ( laro , e 
vou deste mundo inteiro e íii uie na Fé (Ja- 
tlíõlica sem duvida, nem arreceio: e de boa 
vontatíe perdò a lodos aquelles, que algu- 
ma hora me derão desgosto, assim couio vós 
peiíloastes estariílo na Liruz aos mesmos , (jue 
vos mataváo. Senlior meu JFSU Clnisto, 
\allia-nie o vosso sacratíssimo corpo , que 
boje, aituhi que fraco, recebi na Missa; e 
leve- me diante de vosso divino rosto : e esta 
uhima oração, que neste estado vos offere- 
ço , qneií) «jue soja por todos os meus devo- 
us filhos e liiiias espiritúaes , que por razuo 



210 Vida do Beato 

cie amizade, ou de confissão tiverão trato, 
ou conliecimento coiiiiso. E assim como vó-> , 
misericorcliosissimo JI- SU estando para ren- 
der o espirito com sumiiia confiança encom- 
mendastes ao Padre Eterno vossos amados 
discípulos , peço-ros que com o n:esmo amor 
os li.ijals por encomnienilados a tcs para llies 
dardes santo e bemaventurado fim. Agora 
de verdade dou as costas a todas a*s crealu- 
ras vis e mortaes; e íaço de mim entrega á 
mesma divindade, fonte e origem primeira 
da salvação eterna. 'i'endo dito esUis pala- 
vras, e outras mnitas a este modo , que en- 
tre si com devação e amorosamente íallava, 
começou a cair no de mai > que temos con- 
tado, e ficou arrebatado. ]\ias cuidando to- 
dos , e elle também que morria , tornou em 
si; e o coração, que estava sem movimento, 
e mortal, resuscitou.com novo alento de vi- 
da , os membros cansados e enfermos cobra- 
rão saúde, e elle suas forças primeiras. 



Fr. Hn'-r.TorE Suso. ail 

CAPÍTULO XXXill. 

De como foi revelado ao Santo , em que ma^ 
ncíra devem os ajjii^idos . ojferecer a Dcos 
suas irihidacoes com louvor e íiracas. 



l 



-jStando o Sinto Fr. Henrique um dia com 
profunda imaginação considerando seus tra- 
biilios, e batalhas contínuas, e passando to» 
das pela íuemona , e notando nt;llas os escon- 
didos, e uíaravilhosos juiios de Deos , virou 
para o Seniior com uni suspiro saído d'alma, 
etiisse: Estas cruzes, SenlioPj eafíiicçõts com 
que vós permittis que exteriormente eu seja 
perseguido, ao parecer de fora não tem ne- 
niiuma diiferença de uns agudos ahrollios, e 
espinhos duros, qjic me passão a carne , e en- 
cravão os ossos. Pelo que, piedosíssimo Se- 
nlior, fazei vós que s íia algum fru< lo saboro- 
2j, fruct»» de doutrina pia , e saudável da as- 
pereza destes espinhos, para que os miserá- 
veis atribulados levemos com mais paciência 
o pcs4) de nossas crnzes, e saibanif»s tirar 
delias hiuvor e gloria vossa. Depois (juc o 
Santo continuou um grande espaço, e muito 
de proposiso esta petição , transportf»u-se al- 
gumas vezes dentro de si , e sobre si, n'ura 
quieto roubo da alma, e brando alheio de 
todo sentido corporal, ouvio o Senlioi-, que 



a 12 Vida do Beato 

suavemente llie dizia estas palavras : Hoje por 
certo te quero descobrir urna exrellencia , e 
diijnidade altíssima d«3 minha vida , e ensi- 
nar-te coino todo o afíligido deve offererer a 
Deos com louvor o agradeeimeníí) os traba- 
lhos, que lhe dá. Tanto que isto oii^io oSar.» 
to, começou a derreter-se-lhe o coração em 
grande suavidade nascida de nma abundân- 
cia sem medida de cousas, que naquelle ex- 
tasi sentia communicareai-se-lhe. E esten- 
demh) os braços de sua alma pela imuiensi- 
dade do Ceo , e por a redondeza da terra , 
dava graças a Deos com entra nliavel aí feito 
do coração, c com uma inefável devacãf) di« 
zendo desta matieira: Até>^ora Senhor meu 
vos louvava em meus escritos , atégora vos 
celebrava, e engrandecia cont.mdo, e tra- 
zendo em gloria vossa tudo (juanto pode 
haverem todas as crealuras, que sejaaglada- 
vel, e deleitoso, que seja saboroso, e apra- 
zivel. Mas agora sou forcado a romper os 
ares com uma nova musica , e entoar um lou- 
vor dt;'^act)^lijma(lo, et.d, qtie eu lyesmo 
não tive ja ukÚ'^ nolicia delle, senão foi hoje 
que vim a aprender suas adversidades. Co- 
mecemos Ioíi<» assim du lodo coração, e t:om 
a^ entranhas de ndnha abna desejo, Senhor, 
que iodos os desgostos, e trahalh(»s, que 
uesla \ida itnho paasado, e assim todos os 



Fr. HE^RIQtJE Suso. âi3 

Tr?.balhos, e angustias de todos os outros ho- 
mens, as dores de todos os feridos, os tor- 
mentos de todos os eníernios, os suspiros 
dos anojados, as lagrimas dos tristes, os des* 
pi'ezos e aíroiitas dos qiu; andão nlro[)elia- 
dos do rnmido , a miséria dns viuvas desam- 
paradas, e dos oríãos sem remédio, a sec- 
cura da fome, e sede dos pofjres, e necessi- 
tados, todo o sancriie que lodos os Alarlyres 
derramarão, a renunciarão da própria von- 
tade de todos aíjuelles, que nílo pnssárão 
ainda da ílor e vigor dn idade, as aspeins 
e rigorosas penitencias de quaeiquer servos 
'í]||,Deos, todas as afílicções e dores, assim pu- 
l)licas como secretas, qne ou cu, ou qual- 
quer outro hí/uiem so^^eito a desaventnrns 
padeceo no cor[)o , na fazenda, na lic^uM , 
tanto nas prosperiílades , como nos tcujpos 
contrários, o tudo em fim quanto cada ho- 
mem alj^uma hora ha fie padecer até o fim 
do mundo, dií^o que todas estas cousas sejào 
para eterno lotivor vosso , Padre Allissimo, 
Deos e Senhor meu, e para i^loria e honra, 
em annos sem fim, de vosso unigénito Filho, 
í{ue por mim padereo. E juntamente eu pr)- 
líre servo vosso desejo acudir, e supprir fiel- 
mente |)or todos aquelles, que, sencííí atlrihu- 
lados, fuTo souherno por ventura usar hem de 
suas cruzes louviudu-vos tom paciência e 



ai4 ViDÀ DO Bi:vT« 

agradecimento; e em noiiie Jc todos vos of- 
fereço todos stíus trabalhos parj vos^o lou- 
vor , fosse qualquer que íosse a lencão com 
quo os passarão. E os niesiDos vos offerero 
por elies, e louvor perpetuo de vosso Filho 
t:niweiúlo rruíliuente alHi^ido, e para con- 
soiacão dos mesmos altrihuiados, ou sejào 
vivos, ou mortos. Com vós outros íallo to- 
dos quantos viveis tristes e desconsolados, 
todos quantos juntamente comigo traceis 
vossas cruzes ás costas : olhai, rogo-vos , para 
mim , e ouvi o que vos quero dÍ7er com nt- 
tenção : He na verdade justo, é acertatlo que 
nos alegremos, e consolemos, aluda que nyj 
tratados, olhando para Chriòlo JESU cal»e- 
ca nossa , e Senhor de todos, que primeiío 
que nós provou tantos, e tão vários trtiba- 
Ihos, que eo) quanto viveo na terra nunca 
jamais teve um dia de gosto. Certo e que se 
em uma famiiia de <;enie baixa e pobre não 
houvesse mais que um homem rico, toda a 
geraçíio se alegraria por similhante senhor. 
Pois, ó Piíssimo JESU, cabeça escl.irecida 
de todos os que íuid.unos sossobrados com o 
peio de nossas cruzes, acudi-nos Senhor. E 
quando por fraqueza humana faltarmos na 
verdadeira paciência em qualquer a*lversi- 
dade, remedeai vós, suppri , e aperfeiçoai 
Jiaute do Padre celestial o que nos fallar; 



Fr. Henrique Srso. 21 5 

li mbre-vos, Senijor, que já alguma liora soc- 
correstes a um servo vo5so vo meio de seus 
inales quasi desesperado dizcíndo-Ilie: Es- 
íoiça-te filho, ollia para mim. Kis-me aqui 
que também nasci de gerarfio ilhistrl.vsiuKí , e 
sempre vivi po'ue neste mundo, juntamente 
era o mais delicado deile , e juntamente o 
mais miserável. Com grandes alegrias nasci 
nelle, e todavia sen)pre me cercaváo dores , 
e cruz. Eia pois todos os que somos soldados 
valoroáos deste soberaníi Imperador, nfío 
desmaiemos; todos os que seguimos tal Ca- 
pitão , armemo-nos de varonii esíorco ; e pois 
vamos traz elle, não levcm(-s de má vontade 
nossa cruz, que na verdade se das adversi- 
dades se não tirara outro intcresie maior, que 
parccermo-nos tauto mais com aqucllc ela- 
rissimo espelho JESU Christo Senhor nosso , 
quanto mais de verdade o imitamos, era as- 
saz grande, e muito para estimar. Antes te- 
nho para mim que, se Ueos depois desta 
vida houvera de dar igual premio aos que pa- 
decem , e aos ípie viveu» contentes, ainda 
então haviamos de escolher os trabalhos por 
nenhuma outra razão senão só por nos con- 
formarmos com Christo, pJ5r(]ue a regra do 
amor é conformar-se, e unir-se o amante 
com o que ama como e por qualquer manei- 
ra que pôde. Mas que razão póile haver, JESU 



Iií5 ViDi DO Beato 

Rei invictissinio , pnia nos atrevermos a in- 
teijtar ou desejar parecer-nos com vosco nos 
trabalhos ? O' quanta difíerenca ha dos que 
vós padecestes aos nossos! Vós, inen Senhor, 
só sois aqueile que passastes gravíssimos ma- 
Ifcs, sem nunca merecerdes nerdium. E qual 
será o homem (jue se possa gabar que não 
fez nunca por onde mereça uni infortnnio, 
e que se bera pôde acontecer por uma parte 
padecer contra razãí) , por outra não !he pôde 
íahar por onde seja bem dif^no delies. Por 
onde todos os que alguma hora íouios afíli- 
gidos juntos em uma grande roda vos assen- 
tamos Senhor no meio delia , e diante de vós 
alargamos as sêccas veas tle nossas almas abia- 
sadas de sede, e desejos de beber dessa fonte 
perv^Mine de vida , e de graça que sois vós. Co- 
stuma aterra quando abre ícndas de sec* 
cura embeber eai si muito mais aguas com 
que largunente a rega o Ceo, assim nós pec- 
cadores fracos sem humor de virtudes greta- 
dos de mil íontes de vicios, quanto mais vos 
devenios, tanlo com mais ardentes desejos, 
e mais sequiosos corações Jios abraçamos com 
vosco, e segundo ^ós mesuí.» por vossa sa- 
grada boca nos e^commendastes queremos, 
apezar do njundo totlo , lavar-nos nas corren- 
tes copiosissin)as de vossas chagas, e em to- 
das as maneiras ficar limpos , c purilicados 



por esta via de todo o peccrJo. Díinde nasce- 
rá serdes perpetuanunitti ioinado, e glori- 
ficado de nós, e nós alcançaremos de vós a 
graça ; que tal é a virtude de vosso precioso 
sangue , 'jue basta com sua efíicacia para ti- 
rar toda a fealdade, que o peccado causa em 
nossas almas. Depois que o San lo gozou por 
grande espaço desta quietaçião em quatito as 
cousas, qne temos dito, se lhe revelavão, e 
assentavão com firmeza no centro d'alma , 
levantou-se alegre, e contente, e deu gra- 
ças ao Sc.Mhor por esta mercê, 

CAPITULO XXXIV. 

De como foi r anelado a Fr. Henrique por que 
meios consola Deos neste mundo aos aírí' 
balados em seus trabalhos, 

VJ M dia de Paschoa andando o Santo bem 
assombrado , e presenteiro , sentatlo no seu 
banco, em que costumava a repousar as bre- 
ves horas, que tomava para o sííuo, desejava 
entetuler de Deos, que consolação havia do 
dar nesta vida áquelles , que por seu amor 
padecessen» muito, (loui esta consideração 
se arrebatou em extasi , e por meio de uma 
divina ill iminaçào leve esta resposta : Ale- 
grem-se de todo coração , c com auimo in- 



»lS VlDADoBrVTO 

Tenclvel todos os que vivem em trabalhos , e 
leváo suas cruzes com verciacieira resignação: 
porque podem estar certos, que llies ha de 
render esta paciência 4,'ra n d iss imos galardoes, 
fjue ahsim como na opinião de muitos íoráo 
miseráveis , e mal afortunados, assim muitos 
mais hão de receber perpetuo e celestial gos- 
to de sua particular bemr.vcnturai]ça , e do 
louvor que para sempre hão de ter. Comigo 
morrerão aqui, con5Í.^'o tambcm aiegremeute 
resurgirdõ. Mas altíni disto ainda lhes hei de 
comniunicar mais três gastos particulares de 
tanta honra e exccUencia , que ninguém po- 
derá conheceriina valia. O piiiiiciro é que ha- 
verão de mim licença pnra escolherem no Ceo 
e na terra o que quizcrem, e sempre íílcança- 
ráó o que desejarem. O outro é que lhes darei 
mlniia divina paz, que nem os Anjos, nem os 
demónios, nem os homers, nem (re^Uura al- 
guma llit s poderá tirar. O terceiro é que de 
contínuo estarei em braços com suas almas , 
e com a minha boca na sua com tanto amor, 
e com Ião particular e entianhavel assistên- 
cia , q»:e sejão uma só cousa comigo, e neste 
estado permaneefKj eternanjente , ellesvivão 
em mim , e eu nelles. K assim como ne- 
iihuuia cous.) «anca lanlo a um entermo, 
como , quando peile alj;uma cousa com in- 
stancia , nào lhe fazerem a Vontade, a&sim.. 



Fr, H£^-^^T':)^:: S-jí^o. 219 

pelo brove cspsro , que agora p2de<em, não 
h;ivcrá jamais iiíierpí»iaçio eiu nos^o amor, 
nem de um só momento, mas começantlo 
urxja vez aqui gozar-nos-heiuos tlelle eterna- 
mente quanto puder sofrei' a fraqueza huma- 
na, e mais ou rrseiiQs, sejuudo o estado, e 
a natureza de cada um. Com estas novas 
de não pc(]'r:?no gosto ficou o Santo por 
estremo ale:(re, e orno tornou em acordo 
saío-se da cella , e entrando no or.itorio co- 
meçou a rir muito de vontade e de maneira , 
que soava toila a ca?a , e clieiv) de co'ilenta- 
nicnto íÃizii! enlre.si:Se no mundo lia homeui 
algum, que passasse tantos inftirlnnios, ap- 
pareça aqui, c ouçamos suas queixas ; que 
eu de num cháamente confesso e affuiiio , 
que nunca passei nenhum. Eu de verdade 
não sei que cou:".a é cruz , ne:n irahalho, tí 
tenho provaílo heni que cousa é gosto , e 
alegria. Deruo-me Heenca larga para escollier 
o Éjuequizer, cousa que de forca ha de faltar 
a muitos, que levào errado o (.auíinho da ver- 
dade, que quero eu'níais, ou que mais posso 
desejar. í' Acabando estas palavras virou-se 
para Deos com todo o entendimenlo, c disse 
assim : Peço-vos, Verdade eterna , JESU pie- 
dosíssimo , que me deis a entender estas 
cousas, quanto se poderem declarar por ter- 
mos humanos, porque totalmente as igno- 



'22a VíD.i DO BzVTO 

rãò muitos destes cegos, que andáo pelo 
mundo. Logo liie foi dadi» interiormt-nie 
esta dodtriíia. TocIíís aqiieiies que bem e 
direitamente se governâo na mortiíicaçào , e 
renuijciação própria, que é r.ecessaria liaver 
no seivo de Deos primeico que tudo, de ni:i- 
neira que para comsigo , e {5ara com todas as 
cousas do uíundo seja como morto (que lia 
Lem poucos, que tal facão) estes taes per- 
dein-se tanto de vista a si rae5raos, e tanto se 
alongão de si para Deos com os sentidos, e 
com a alma, que quaii se d-jsccuhccem , e 
cliegão a nao saber parte ile si, se não é para 
seaciiaiem, e alcançarem em sua primeira 
origem, que é o mesmo Deos, lauto a si como 
a tudo o mais; e daqui lhes nasce levarem tan- 
to gosto de todas as obras, que Deos faz, como 
se Deos nãoíòra oauior delias, mas como se 
lhas mandara fazer a elles a seu modo, e por 
sua trat a. E esia é a razào porque se lhes dá 
licença para escolher, e desejar, pois o Oco 
lhes obedece, e a terra os serve, e todas as 
creaturas estfio a seu mandado em tudo 
aquiib», que fazem, e no mesmo tjuedeixão 
de fazer. Homens desta mauiira com ne- 
nhuma tiibulacão senlem des^^^osto na alma, 
porque eu chamo (h'sgosto d'.! Ima quauílo a 
■vontade com entendimento deliberado de- 
seja de se \er livre da iribularáo. Que quanto 



Fr. Hexiuqce Scso. a2i 

tos sentidos, e ao homeni exterior , tamhem 
estes de quem tratamos sentem o hem e o 
mal, como os outros homens ; antes alguns 
sentem os males mais que as outros , por te* 
rem a nature/.a eníraquecida e «astada ; 
mas quanto ao interior não tem nelles ne- 
nhum higar, c i.inda quanto aí) depois pas- 
sao seus trabalhos sem fazer desconcertos, 
nem raoslrar irnpaciencia<í : farta-os Deos ahi 
nesses corpos mortaes de i)ens3ltissinios por 
meio de uma extasi, quanto nesta vida podo 
ser. Ue til maneira que em todas suas causas, 
e em todo succcsso ^Mízào de uma paz, e ale- 
gria perfeita, e inieira e permanente; por- 
que na divina, essência aonde elles, se lhes 
vai beai, já checarão com a alma , não tem 
lugar dòr, nem tristeza, mas paz e alegria, 
senão é em caso, que por sua culpa ou des- 
cuido caem em cousenliniento de peccado , 
porque delle nasce logo a tristeza a quem o 
faz, e quant») s'e enlodâo mais nos vicios, 
tanto lhes vai faltando esta felicidade, e boa 
ventura. Mas em quanto se guardão de pec- 
car neganilo e encontrando sua própria von- 
t de, e (hegru) a tal esta .o, que bc não pode 
senlir nelle liòr , nem des^oMo da alma (ou 
tem passado a turmos, que não tem a dor em 
conta de dòr, netu a aftlicção) de maneira qtio 
em tudo achão verdadeira piz ^ ja então aà" 



522 Vida DO Br.ÀTO 

sento (^ue lhes vai Leni <lc verdade. V toclo este 
bem nasce de cortarem por si , e inoi ti ficarem 
os appetitos ; porqjie assim tugintlo, e saindo 
de si , cori crr» para Deos com unia sede , e de- 
sejo artèenti^simo da? cumprir seus inar.damen- 
tos j e guardar sua lei ; e fica-llies tão saborosa 
esta obediência , e leviTo tanto gosio do cuni- 
priniento delia, que aciiso por suave e de» 
leitoso tudo o que por p«rniJssão divina llios 
succcde, e nao querem, nem desej fio outra 
cousa. Mas nfio se ha de toiíiar isto de ma- 
neira , qi:c cuidemos íicão por esta razão sem 
licença , e exclnic'Ds de fazerem oração, e pe- 
direm a Deos reme lio em seus maJes ; por- 
que a mesma vontade de Deos é também que 
o roguemos e importunemos: ba-se de 

entender sesruudo unia ordenada renuncia* 

1 • • • 

cão ck> sentimento, e do juizo próprio entre- 
gue nas i;):'ios de Deos, como fica dito. Iúm 
aqui fica ainda un;a duvida secreta, cm que 
muitos se embaraçfio , perguntando-nos : E 
quem me disstí a mim f. nu qr.em sabe que é 
essa a 'vontade de Deos? A verdade é que Deos 
é um bem sobre toda a essência . ^qual está 
em tiulo,e em cad*a cousa n-ais presencial, e 
eniranbavelmcnte do (jue a mesma cousa, que 
o está em si, assim netibuma se yóác iazer, 
nem manter um só momento contra sua von- 
tade. JMdS impossinel e lu^o deixarem depa- 



Fr. Henrique Scso. 2^3 

decer mni gravíssimos tormentos afjuelles , 
que repugnao sempre á ciisposlcào Jivina, e 
que, se tora em sua niao , tomarão andar 
sempre ao sabor de seu gosto. Estes tais não 
tem mais paz, que os drenados do inferno ; 
porque reina cm sJias almas uma perpetua 
melancolia. Mas bem ao contrario aconte- 
ce a uma alma nua de vontade própria. Esta 
tem de seu a Deos perpetuamente, e possue 
verdadeira paz, tanto nos trabalhos, como 
nas bonanças, porque cm efíeito está sempre 
com elia presente o Senhor, que criou e go- 
verna todas as cousas , e que é o tudo em 
todas. Como será logo a estc^s homens mo- 
lesta a Cruz eafílicçào, na qual vem a Deos, 
na qual o achão , na qual gozão de sua divina 
vontade, deixando, e negando a sua pró- 
pria, como a cousa, que não conhecem ? E 
isto é assim antes de tartarmos daquellas il- 
lustradas consolações , e celestiacs represen- 
tações , e dehcias, com que Deos repetida» 
mente recrea , e sustenta os seus amigos, 
quando mais aííiictos, e desconsolados. Na 
verdade estes já vivem dentro no mesmo 
Ceo; por quanto tudo o que lhes succcde , 
ou não succede , todas as cousas , que Deoi 
ordena , ou não ordena em todas as criatu- 
ras , são para seu bem , e todas os ajuduo á 
salvação eterna. Fiaalmciitc por esta via , 



ia4 ViDÂ Eo Blato 

ao que sofre com igualdatle (ic animo f.\ 
adversicUídes desta vida , ninda eslaiido iieU 
Li , so lhe restitue jiaríe cio premio da outra , 
nisto que é gozar em todas as cousas paz e 
gozo sem perluibaçíTo, e depois da morte 
alcançar a bemavcniuranca, 

a a 

G A P I T U L O aXXV. 

De um^ Jilhct espintual cio Eeato Fr, Ilen*^ 
rique. 



Quasi 



i no mesmo fempo linha o Peato Fr. 
Henrique uma íillia espiritual na proGssíio 
Dominica, que vivia n iim Pthosteiro cRcena- 
do, de uma villa , por nome Isabel Eslaglin; 
cuja vida interior , e modo de proteder era 
assa's santa, sendo na verdade o animo inte- 
rior Angélico. Aquella excellente conversão, 
com que se tornou a Deos de todo o corarão, 
era tão íorte, tão eííicaz, e tão vehemente, 
que em um momento se despio de iodas 
aqnellas superlluidades , e vaidades , com 
que muitos se prendem e embaratão para 
Dão tratarem da vida eterna como convém. 
Todo o cuidado desta serva de Deos era pro- 
curar com grande diligencia , conio seria en- 
slna<la nas doutrinas espirituaes,a fmi de c\\\^ 
fosse beui çncaiuinhada á vida eterna , que 



Fe. HiNRiQrí Suso. aaS 

í?ra o S€u uniro e insaciável desejo. Porém 
asstMitava com diligencia tudo o qr.e por al- 
guma via aprendo, que podesse ser útil a si, 
e aos oiitios, paia alrancar as virtudes do 
espirito; iinllíiva as trahaUiadoras abelhas, que 
de todo o género de flores, que íia coiliem 
para o suave favo mel. Naquelle IMosteiro, 
aonde cnire as outras Virgens consagradas a 
Deos vivia tomo um vivo retrato de todas as 
virtudes, e sendo mui enferma, e falta de for- 
ças corporaes , conipoz uni livro assas gran- 
de, ni) qual entre outras cousas, tinha escrito 
a santa Fielioriosa a conversação, o modo de 
viver exemplar, os grandes, e extraordinários 
favores, que receberão do Senhor todas as Re- 
ligiosas defuntas da mesma casa. Cousas certo 
de muita edificação , e que despertão gran- 
íU-niente os ânimos devotos no serviço de 
Deos. Pois esía santa Virgem tendo noticia 
do Be-ato Fr. Heniique, Ministro da Sapiên- 
cia , foi movida pelo Ceo a procurar sa!;cr 
com muita devacão , e dillíjencia a sua vida , 
e regras de espirito ; o que conseguio per- 
scrutando com muita cautela , e dissimulação 
a ordem , por onde elle , deixando atraz io- 
das as cousas da vida, penetrava ao mesmo 
Deos, e coiuo se negava as.im mesmo d<»scu 
prin(.'ij):o; e tudo, quanto colheo , po/ cm 
eácrito, como já acima se diss.', c niais adian- 



a!i(5 Vida do Be\t« 

le se tornará a contar. E nos primeiros prin- 
cípios da conversfio desta serva do Deoá , lhe 
forão reveladas muitas cousas, e muito altas, 
e que só pertencião ao conhecimento, diíH- 
cultosas assas de perceber. Con\eiii a saber, 
da singela e nua Divindade; orno t<>das as 
cousas criadas súo nad:i ; da resignação de si 
mesma; de como se deve despejar a alma de 
todas as imagens , e figuras, para clu^gar á 
verdadeira pureza de espirito, e outras m.ii- 
tas cousas deste teor , que sendo escritas coin 
fi^rande concerto, e limpeza de palavra*;, da- 
"vfio grande consolação a quem as lia. Porém 
liavia aqui escondido um perigo, edamno 
oculto para os simples, e priucipiautes na 
virtude, que por falta da discripoão necessá- 
ria fa qual ella ainda padecia) podião torcer 
aquelias palavras a uma e ou ti a parte, acom- 
inodnn(in-as igualmer.lo ao espirito, e á con» 
solaçfio da carne, segundo que o leitor esti- 
vesse bem ou mal aftecto. As cousas em tim 
erão de grande doutrina , mas nem a Reli- 
giosa se podia bem desapegar delias. Pelo 
q le pedio por cartas ao Beato Fr. Henrique, 
Mifiislro da Sapiência, com grandes itislan* 
cias , que a quizcsse soccorrer, e ajuilar , ti- 
ra.ulo-a ao caminho real , plano , e desemba- 
raçado. ?>Ias porque ella eslava ainda presa 
da suavidade, que achava naqutil<?s5cus ^\tíí* 



Frí IIe^írtque Suso. 527 

cicios espiritwaes, esorcveo-lhe pedindo, que 
tltfi:4ados por eníf.o os priricipios rudes tios 
que começ-rio , a (loutii::íísse escrcvc\iíIo-liiG 
das cousas líívantada-j e altas , que lhe tiídia 
apontado. Ao que respoiídeo o MinisVro da 
Sapiência: Se desejais, fdha, coiliíicar-vos de 
mim nestas cousas altas peia grande admi- 
ração, que vos rausão. para (|ue conl<eccn- 
do-as bem , possais com maior clai-c7.a íallar do 
espirito, em poucas; palavras responderei, mas 
taos que não sejão de gosto. Por quanto, mais 
depressa se podem daqui originai' erros per- 
niciosos, que ediCcação, e dcuitrina provei- 
loia. A Verdadeira santidade, e períeiçáo 
não está em palivras bem compostas , e for- 
mosas , mas uas boas ojjras , e íeltos da ver- 
dadeira virtude : e se vos niuve a íuzer per- 
guntas deitas cousas altas desejo de as poder 
a-leanear com a vida, íazei o tuie vos aceu- 
seiho ; e íleixadas por ora estas levantatias 
questões, t''atai das eousas, que mais vos scr- 
venj para o aproveilauunto daluia. Conio le- 
nho entendido, sois Religiosa enrerrada , c 
ainda nioça, pouco exercitada: pelo que a 
vós , e ás siuiilhantes a vós , o que uuiis ( on- 
véin é saber como hão de comeear a vida esni* 
ritual, iuqniiindo, e apremleudo bc;us , o 
saudareis exemplos <la vida aeti\a , coméui a 
saber- o ccnno aproveitou ar^u.dle, nu aq'.!el'i' 



âaS Vjd\ do Beito 

servo, e amigo de Deos, e como toilos forão 
)Dor este caminho, dando principio á sua vida 
espiritual, e exercitanclo-se em primeiro lu- 
garnavida, e paixão de Gliristo, ecjueoonsa» 
padecerão mais aturadamente, como segovcr- 
r.árão no exterior, e interior, se fováo trata- 
dos de Deos com mimos , ou com seccura , e 
em fim como e (fuando chegarão a perderas 
íisrnras, e similhancas das cousas. Esies sfio 
t)S meios por oníle um principiante se con« 
vida, e encaminha pf.ra chegar á períeirão, 
e ao que mais cumpre para a salvação ; que, 
ainda que Deos pôde dar ludo isto em um mo- 
mento, todavia não o castunja, e de forca 
lia de haver trabalhar e traballiar para se al- 
c;incar. A isto replicou a sania d«ínzel!a por 
outra carta com e<ras ]):ílavias: Não é, meu 
Padie, minha tenção atulartraz flores, e ele- 
gâncias de palavras, ou subtilezas de concei- 
tos: o que summamontc desejo é aprender 
como hei de %iver uma vida santa e pura , 
e para este fi:u tenho assentado comigo ca- 
minhar um caminho direita e ordenada- 
mente, e ainda que seja á custa de muito 
des.;j )Sto e quebiantamenlo meu. Se é ne- 
cessário fugir , se padecer , se m«)rrer , se 
ou ira cousa maior que estas , aqui estou de- 
terminada, c offererida a fa7afr chammente 
tudo o que pudor slt parto para uie levan- 



F». Hf-NRiQTTE Srso. 229 

tar a inais sobida perfticãc do Ceo: etião tos 
de pena a fraqueza dfí minha natureza , que 
em confiança do poclei- divino , não arrecea- 
rei tousa nenhuma de quantas me qe.izerdes 
mandar fazer, ainda que enct)í]trem a mesma 
natureza. Começai embora das cousas mais 
baixas, e levai-me pouco a pouco ás maiores, 
e tratai-me como a menino de csthela, a 
quem o ?>Testre começa ensinar prinjciro o 
que é mais accommodado áquella idade, e 
logo por degráoso vai sobindo de dia em dia 
a cousas de mais substancia, até o dar mestre. 
l^ma cousa vos queira pedir, que por me fa- 
zer mercê me vSo negueis , a qual é qt.^e nfío 
somente sejais vós o que me encaminheis, o 
instrunis na vida espiritual, mas que me ar- 
meis tam})em de forças , e constância para 
quaesquer adversidades, que me possão suc- 
ceder. PeiguiUando-lhe o Santo que requeii- 
mento era esíeP Respondeo assim: Tenho, se- 
nhor, ouvido contar, que o Pjlicano tem nor 
natureza abrir cíun o bico seu próprio pcil»;, 
e manter os lilhinhos de seu sangue, obri- 
gado da afreiçào natural, que lhes tem. O q'ie 
nisto qiiero ilizcr é , que tia mesnia m.mcira 
agasalhei'^, e crieis esta po})re , e indigna 
íi!ha vossit com o [i:\\v. de vossa santa doulrifía 
nã') colhida d'outrem , tutus tirada de vcs mes- 
mo , e dv vossa vida e expor-^Míci.:». pui*tjue 



a3o Vida. do Beato 

aquillo porque vós passastes, qtiantode mais 
poi-lo o provastes, e experimentastes em vossa 
Vítln própria, tanto maior eííeilo faiá em mi- 
nha alma, e mais liie aproveitai á. A este rc- 
querimentií lhe tornou o Santo a escrever com 
a lesposra seguinte: Nao lia ínuito t».'mpo, 
qu3 mo vós mostrastes um caderno de ditos 
excellenles, que tinlieis colhido das claras 
sunvissnnas do Santo Dí)ntor iichardo, que 
ijuardais para vós com o amor e gosto , qae 
e razAo. l^elo que não posso deixar de me 
espantar granden;ente de ver que mostrais 
tanta seíle ila minha pobre agua nascida de 
baixa e rústica ftmte, dcp-ois de lerdes pro- 
t.\do da voa riquíssima de tal varão, d »nde 
mana licor celestial. Ainda que, quando cuido 
bem niiso, reci^nhero em tais desejos não 
sem £;;ande gosto meu , \ ossa prudência , e 
industria, pois buscais com cuidado , c pro- 
curais saber os principios, e entradas da vida 
segura e santa, ou os meic^s e exercicios , 
por onde ha de passar primeiro quem quizer 
ch<':rar a e!Ias. TodciS os Sanios liveráo dif- 
ierenie princípios, uns começarão de uma 
maneira , outros croutra; mas náo deixarei 
de vos avisar qual é <» mais acertado , e enca- 
ininbiflo para a vida mais perfeita , que c o 
que pertencíeis saber. \íu conheci um ho- 
raem , (^ue uidenando de entrar no caminho 



Fr. Henrique Suso. 23 1 

dn virtude, a primeira cousa, que fez, foi pu- 
rificar ii consciência com uma confisião ge- 
ral , e antes de a fazer todos seus pensamen- 
tos occupava em a ordenar de maneira, que 
fosse muito bem feita, eein buscar confessor 
prud<;ntc e discreto, para ihe descobrir iodas 
suas faltas, e para se levantar de Stins pés lim- 
po, e são , e com todos seus peccados perdoa- 
dos, como da preseiça de Deos , cujo lugar 
tem os confessores na terra. Imitando nisto 
á bemaventurada Magdaieua , que couj o co- 
raçfio cbeio de dòr e os ollios de lagrimas 
lavava os sagrados pés de C^hristo, e ( hristo 
llie perdoava seus peccados todos. 'V'a\ foi o 
primeiro fundamento, que este homem fez , 
para começara servir a Deos. 

CAPITULO XXXVí. 

Da ordem , que levou em seit^ principiou a 
santa donztUa hahel por consellio de l-^r. 
Henrique ^ c da que teve do Ceo outra dou* 
zcliaj para o tomar por confessor, 

j vSta resposta de Fr. Henrique , qne temos 
co!ftado, lecoUieo a santa d')n/.tdla em sua 
alma com determinação de se gf)\cniar pelo 
conselho, que nclhi lhe dava, c (pieroiid» 
pòl-o em eífeito, dcâejou muito, que fusj* 



a32 ViD\ DO Blato 

elle seu confessor, como quem era tr»o iíTo- 
nco, tendo juntamenie tenção a duas cousas: 
liina a ficar dalli em diante sua filha espiri- 
tual pelo meio da confissão , outra para Hm 
ficar sua salvação mais encarregada para com 
Deos. Mas porque não podia íazer ccnfi.ssã<í 
verl)al por certos inconvenientes, que havia, 
contoa-llit' toda sua vida, em que na verda- 
de não haíia culpa, nem mal algum. E as 
cousas ,em que lhe parecia que houvera pec- 
cado , escrseveo todas em uma grande tahoa 
de cera, e assignisiido-se ao pé, mandíiu a 
Fr. Henrique, pedindo-ihe absolvição. Leu 
elle a ct)nfissão, e lida r.ih)U no cabo umas 
regras, que dizião: Reverendo Senhor, cu po- 
bre peccadora, poslrada a vossos pés , vos pe- 
co c rogo, qr»e por meio de vosso fidelíssimo 
coracfio me torneis ao coração Divino, e 
consintais que seja eu , e me chame vosoa fi- 
lha tanto na vida temporal , como na espiri- 
tual. Moveo ao Santo até as entranhas uma 
úo confiada devação , e, obrigado delia, 
tornou-se a Deos, dizendo : Que direi-a isto, 
piedosíssimo Senhor ? por ventura será razão 
in-^eital-a ? Em verdade que nem a hum cão 
posso íazer tal : e se o eu fizera , pôde ser que 
lura , meu Deos, com afronta vossa, pois esta 
niulííer busca nu criado as riqueziís de seu 
Amo : por onde vos peço, clementíssimo Se- 



Fr. Henrique Suso. ^33 

nhor, lançado com ella a vossos pés, qiio 
hajais por bem de a ouvir. Valha-lhe sua fé , 
e siinta confiança , porque brada traz nós; e 
lemhre-vos o que antl;2:amente fizestes com 
a Cananea. E na verdade , misericordiosissi- 
mo Senhrr , tão solemnisada é enlre nós , e 
tão nomeada vossa inimensa njansidão , que 
com razão deveis dar perdão a muitos mais 
peccados. Clenientissimo Jesu , ponde nel!a 
Yo.sf.os amorosissimos ollirt#. Dizei-Ihe aquel- 
la só palavra de consolarí^o : fdlia , tem con- 
fiança , tua i.' te salvou. E tique isto , que pe- 
ço , certo e firme, e su[>pri vós por mim no que 
llíe fizer falta , pois tenho feito de n^inha 
parle o que me locava , oulorgando-lhe em 
desejos picnissima e geral absolvição de todas 
suas culpas. Depois turn<ui-llic a esc^e^ er o 
Santo pelo mesmo mensageiro estas palavras: 
Sabereis que Deos vos tem concedido o que 
lhe pedistes por n)eio deste seu Ministro, e 
cel'tifi(•ai-^os, ciue yá antes dagora nTo tiuli.i 
o Senhor revelarlo , ])orque no me:smo dja pela 
manhãa cedo, depois de acabar de rezar, 
encostando-me para dormir um p(»ucí) , e 
adormecidos os sentidos exteriores tive em 
revelação grandes \istas da bondade Divina. 
Entre outras cousas entendi por celestial il- 
luminação os excessivrs gostos, e siimma fe- 
licidade, rtue Deos deu aos Anjos, e como a 



í34 Vida do Beato 

tecla um com particular ortleiu , e differcnçt 
roínmnnicou particulares e diítcremes pro- 
priecJades, que nãu ha palavras, com que se 
poi-íão declarar. Depois que assim estive um 
espaço recrearido-iite entre aquelles htm- 
aventurados esjHíitos com celestial altgiia , e 
estando cheio de contentamento das grandes 
maravillias, que alli .<!e me dcscohrírSo na al- 
lua , vi-vos na mesma visão, que entraveis 
onde eu estava asser.lado entre grande nu- 
mero de Anjos, e vos púnheis diante de mim, 
e logo sentada de joelhos arrimáveis com 
muita devacão o rosto a meu coração, e fi- 
cáveis assim um espaço largo á vista de ioda 
aquella corte celesti;d. Eu cspanlava-me de 
vosso atrevimeilo , ainda que estáveis arma- 
da de tanta modéstia,' e c<^rle7Ía , que sem 
pejo vos consentiu. O que alli reclinada neste 
pohre coração alcançastes de graça, e favores 
doC^eo, \ós o saheis mui hem , e hem se 
deixava conhecer em vós. Quando vos levan- 
tastes, passado um pequeno intervallo , appa- 
recestes com um losto táo alegre, tão sere- 
no e agraciado , que se podia entender cla- 
ramente, que vos linha Deos feito alguma 
grande meicê, e vos havia de fazer outras 
por meio daquelle Cíjracão para honra sua, 
e consolação vf>í?sa. Quasi peh)s mesuu)S ler- 
UiOi foi o t^ue succudco a outra duíJiclia , quf 



Fr. Henrique Suso. 235 

7lvla em um Casteilo por nome Anna , mu- 
lher heni nol)re, e mui reli:7Í()sa, cuja vida^ 
Yião foi oiiira cousa , senáo um contínuo 
mariyrio. Obrando Deos nella desde s pri- 
meiros annos de sua idade até morle j^ran- 
dcs, e notáveis maravilhas. Antes que esta 
donzella conhecesse a Fr. Henrique , nem 
soubesse novas deile , estando um dia eni 
ciacáo Hrou rapta eru extasi, e alli vioconio 
C()nteniph'io e hiuvfio a Deos os Santos u-i 
Pátria celestial ; e vendo a S. João Evange- 
lista , qiw era o seu Apostolo , e com quem 
tinha especial devaçno, pedio-lhe que a qui- 
zesse confessar. OEvaugeiisla lhe respondco 
com muita brard na, que lhe daria em teu 
lugar um bom confessor, a f|i:eir. Deos ti- 
idia dado inteiro uoder e autoridade sobro 
ella , e que lhe poderia dar copi. sãmente 
allivio em todas suas aifliccóes. Pe''^untando 
quem era? satisfez bastaniemente a tudo. O 
outro dia pela ujaidiáa levantoií-se íomprndo 
a alva, dando cracas ao Senhor, e foi-se ao. 
Mosteiro ondií a Deos niandára , e perguntou 
por Fr. Henrique; o qual sen^ > (hamaíío 
\eio á portaria, e pcrguntou-lhe que n\an- 
dava delleP Contou a donzella o que passava, 
comti temos referido, e começou a confes- 
sar-se: o que vendo Fr. Henrique, e c<.n!ie- 
cendo, que viiilia a elle por ordem Divina , 



23(» Vida do Ceàto 

satisfei-a com a confissão. Ksta vlrtiioí^a don- 
7.elia foi a que lhe contou , que vírr. em reve- 
iíjçao hnnia formosissirna roseira cuherta de 
frescas rosas, todas vermelhas, e a clie sen- 
tado debaixo delias, e lopjo lhe apparecèra o 
Menino JESU sobre a mesma roseira com uma 
capella tecida das mesmas rosas vermelhas, 
o (|ual a{>ariliando muitas rosas as lançava 
sobro Fr. Henrique em lanta quantidade, que 
o deixava cuberto delias. E perguntando a 
donzelia , que qaeriáo tlizcr aquellas rosas ? 
respondera o Menino , estas rosas em tanta 
quantidade significão muitas e contínuas tri- 
bi! loções, que Deos permittirá, que succe- 
dáo a Vr. Henrique, que elle tomará de sua 
mão com ale^^^re vontade, e sofrerá com pa- 
ciência, 

C A P I T L L O XXXVlir. 

£r7i que j prosei^uiiido na doutrina con^enien' 
te fios principiantes na virtude y se contuo 
ali^.Lnias dci'acòes e exercidos ^ que o Santo 
ii<ai>a em sua mocidade: e avisa como se 
liÁo de rr^ular as penitencias com pruden^ 
cia. 



Oi:= 



ando o Santo Fr. ílenrii|ue se determi* 
T!ou a entrar no caminho da vida mais per- 
íeita, depois de faz,er (como temos contado) 



Fr. Henrique Sc5o. iZ-j 

uma confissão geral mui upurada , ordf iiou 
logo nos princípios coinsii;o algumas cousas , 
í.\n{i o ajudarão limito nelle. Primeira mente 
limiíou-se no pensauicnto ties sítios paia mo- 
rar, dentro dos quaes se encerrou determina- 
danienle, para melhor guarda desuaalma. O 
primeiro sitio linha três paríes , a sua cella , o 
keu oratório, e o coro. F.m quanto estava 
neste, havia que vivia bem seguro. O outro 
sitio era todo í) Mosteiro sem t liegará portaria. 
O terceiro e ulliuio era a n;esma prriaii.i, 
aonde era forrado acudir algumas ve/cs, e alli 
entendia , que lhe era necessário ter muita 
guarda e vigilância sobre si. E se alguma liora 
lhe acontecia por obediência sair lióra destes 
limites, tinha-se por tão arriscado, como 
qualquer animal silvestre, que andando íóra 
da cova , dá entre caçadores, e lia n;isler sa- 
ber muito, e suar muito para se salvar. No 
mesmo tempo tinha escolhido um lugar 
apartado, que era o seu oratório, onde alem 
de outros meios satisfazia também a sua de- 
va< ãtí cr-tn imagens, que nelle mantlava pin- 
tar. Em particular sendo ainda ujuilo n.oço 
fe/ pintar n'um pergaminho a tleina Saj)ien 
cia , senlioreando o Ceu e a terra com tíío 
vivas cores, e com tanta formosura, e ii.n 
amoroso gosto, que claran.cnle abatia a 
maior peiítií^ão de ledas as cii;aur;.s, e qc.í 



a3S Vida ©o Bratci 

foi musa tle a toin.ir por Setiliom , e Espo5;i 

sua nessa prifDt^ira iílade. Esta in»ai(em por 

estremo bem acahad.i rosluniava clle a trazer 

comsigo, qiiat)(Io o manílavfio estudar a ou- 

tros Conventos, eprej;ava-a na relia junto da 

janella , aí^nde ll»e ficava mais defroiíte da 

■vista, eol])ava para ella muitas vezes com um 

mui entranli.ivel eílv-ilo da alma. No cabo de 

suas peregrinações tornou-a a trazer eoiusigo 

para oMíJsteiro; e pòlra em o seu oratório 

com uma santa simplicidade de espirito. As 

mais pinturas , que alli tinha , crão segundo 

achava , que mais lhe armavão para elle , e 

para í»s priuripiantes na virtude , e quaes fas- 

scní facihnente se pôde colIi;4Ír das leiras ,6 

sentenças dos l^athes anti-os, que a(jui irão 

em parte escritas , assim como as tinha no 

orarorio , tresladando mais o sentidv) , que 

as palavras de cada uma. 

1 O Abhadc Arserdo perp^untou a um 
Anjo, que faria para se salvar;^ Respondeo: 
Foge, cala, assocega. 

2 Em u»na visão , que Fr. flonriqje teve, 
recitou-lhe um Anjo esta seitteuca do livro 
que chaujfio f^^itas Patrum .* A íonie e origem 
ce todos os bens é morar um homem com- 
sigo per[)etuamente '^em nunca sair de si. 

3 O Abbade Tlieodoro dizia: A pureza 
da alma ensiua maii», que o mesmo estado. 



Fr. He3írique Suso: aS^ 

4 O A])bac]e RIoyses: Está-te em tua cel- 
la , que ella te ensinará tudo. 

5 O Abbadc João: Guarda-te no exterior 
tom silencio, no interior com pureza. 

6 O niesmr»: O peixe tora da agna , e o 
Frat-Ie íóra da cella igualmente desíallecem. 

y António dizia : Trcs cousas crião e 
conserTao a castidade, penitencia corpoial, 
devaçáo do espiíito, apartamento dos ho- 
mens. 

8 O mesmo: Não tragas vestido , que 
cheire a levianda(]c. A primeira balallia do 
bisonlio na virtude é peleijar valentemente 
contra os vicios. 

9 O Abbade Pastor: Jamais te indignes 
cofitra ninguém , inda que te vejas tirar o 
olho direito. 

10 Isidoro Abbade: Todo bondem súbito 
na ira desagrada a Deos, ainda que faca mi- 
lagres, 

í I Ipericio : Menos perca quem come 
carne nos tempos, que a toilie a Igreja , que 
quem diz mal de seu proxiruo. 

12 Pior Abbade: A nuiior maldade de 
todas é laliar nos vicios alheios , e di^siiriular 
os próprios. 

i3 Zachaiias: Quem qnizer chegar ao 
cume da perfeição, é necessário que ía'ja pri- 
meiro mui abatido e desprezado <ie lo(icá. 



^io VlDÀ DO BeAT» 

i4 Nestor; He necessário que te facas 
animal bruto e o mais ignorante de todos 
primeiro, que chegues a alcançar o saber do 
Ceo. 

i5 Um velho: Nos trabalhos ena bonan- 
ça não faças mais movimento do qi:e í.»2 um 
corpo morto. 

iG Helias: Três cousas estão mui bem no 
Religioso , rosto amarello , corpo seco , íui- 
niildade no andar e no tratar. 

ly Hilário : A cavallo rinchador, e corpo 
orgulhoso encurta-lhe a mantença. 

18 Um velho: Tirai-me o vinho, que jaz 
escondida nelle a morte dalma. 

19 Pastor: JNão se ha de ter por Frade 
quem se queixa , quem nao sabe enfrear a 
coKíra : escusar muita pratica , sofrer ser tido 
em pouco. 

20 Cassiano: De tal maneira devemos 
ordenar nossa vida e costumes, que imitemos 
a (^hrislo poslo na Cruz, e morrendo. 

2 i O Àbhade António escrevia a um Fra- 
^e : Eia , irmão , tem cuidado de tua salva- 
ção , e se não , nem Deos , nem eu te pode- 
remos jamais remediar. 

22 Arsénio Abljade , pedindo-Uie certa 
mulher, que se lembrasse delia diante de 
Deos: Peço-lhe eu, disse, que nunca ein 
toda a vida me dê lembrança de ti. 



Fr. 'Henrique Su:». a4f 

lí rjr.cario : Mortifico minha carne , ave- 
xarMlo-me com variedarle de penitencias , 
c af^i*^iiido-nie com muiias tentações. 

sí4^ João Abhade: Ninica obedeci á von- 
tade; niincH ensinei de palavra cousa , que 
não tivesse primeiro niostiacio por obra. 

25 líii velho : Palavras boas, formosas, 
e muitas sem companhia de obras , é cousa 
sem sui)stari( ia , como arvore coberta de fo- 
lha despeja<la de fructo. 

2Í) j\'ih): (^iiem trasfega muito mundo, 
de força ha de ser ferido muitas ve«.es. 

2y Um velho : Se não é em tua mão ap- 
plicares-te a nenhum exeicicio estando na 
ceUa , ao menos acompanha e guarda essas 
paredes por amor de Deos. 

28 Ipericio: Quem vive castamente tem 
honra na terra e coroa no Oo. 

r>A) Apolionio: Resiste e faze força nos 
principios , e quebra a cabeça á serpente. 

3o O Abbade Aj^aiho : Três annos trouxe 
uma pedra na boca, para aprender a não 
falia r. 

3i Arsénio: Muitas vezos me pesou de 
ter fallado, nunca de ler caiado. 

?)'2 Um velho, perg^untado por um mo- 
ço, qnatilo tempo Iiavia de guardar silencio? 
respondco : Em quanto não fallarem comti- 
go. 



a4* Vida doBeat© 

33 Santa Siiiíletira : Qnan 
alegra-te, porque se kinbia Dtos cie ti , não 
digas que o jejiíni causa doenças, porque 
também adorcem os caie não jejuão : se pa- 
deces tentaçr-es corp<»rae5, tandjem fol^a , 
porque pôde Deos fazer de ti outro S. Paulo. 

34 Nestorio: Nunca o Sf)l me vlt> comer, 

35 João : Nunca o Sol me vio irado. 

3G António: Entre todas as virtudes , a 
que tem o piimeiro lugar é a Prudência , a 
qual é necessária j^ara poderes acertar com o 
melo e guardar re;:ra , e modcricão em 
tudo. 

3y Pafnucio : Nada aproveita começar 
bem , se não per5;ev<nares aié o cabo. 

38 O Abbado Moyscs : rudo o que em- 
pece á limpeza da alma se ha de evitar, ain- 
da que nas aparências seja santo e bom. 

3g Cassiano: O alvo e fim de toda per- 
feição é quando a alma com todas suas for- 
ças eslá recolhida na(|ueiUi altissima c única 
unidade, que é Deos. 

Estas letras e sentenças mandou o Santo 
á sua devota espiritual íillia Isabel com ten- 
ção , que, vendo ella os exemplos dos Padres, 
fizesse tand)em sua penitencia. O que ella 
tomou tanto a peito , (jue começou logo a 
niallratar-se veslindo-se de cilicio, cingindo 
curdas, aíerrolhaudo-se em tcmorosas jiri- 



Fíi. TÍExrvinnE Scso, a45 

sõps, mar^oan(!<*-'?e ooru agudas pontas de 
íVrro, e íazeiuK) outras causas a este modo. 
Mas tíiTJto que o Sdfilo o soube, niandou-lkfc 
os avisos seguintes: Já que, (íllia minha, 
dí^tennlnastes seguir a vida espiritual, e go- 
verna I-a por uieu conselho, e assiui mo pe- 
disles, o que a;^ora haví^is de ía/er ha de ser 
deixar esse rigor easpere/a , porque nem diz 
bem com a fraqueza temiuil , nem é neces- 
sária para uma natureza hem inclinada, qual 
é a vussa ; que não disse Cliristo , icunai a 
miiiha Cruz sobre vossos liombros, mas dir 
leve cada um sua Cruz. Não é ra/ã<» que 
queirais iudtar o desmedido rigor dos Padres 
antig«.'S, nem as ásperas penitencias de vosso 
Padre espiritual, mas basta que delias tomeis 
só algumas , com que possa vossa comprf i( ão 
fraca, para que assim tra^^ais sopeados os vi- 
cios e a carne , e não en( uríeis a vida , que 
este é um excellenie, e que muito vosarnia. 
Mas querendo a devota don/ella saber do 
Santo, que razão houvera para se elle dar a 
tão cruas penitencias, quando nen» a ella , 
nem a outrem as act)nse!!iava , nem consen- 
tia ; el!e a rernetteo aos livros das viiias dos 
Padres, dizendo: Conta-se, que liOll^c antiga- 
mente alguns Padres, que fizerão vida táo tora 
da commum, que quasi não tiidia nada df 
huníana , e tanto mais austera do que se pódf 



a54 Vida do Beato 

crer, qiiC ncrn só (Uivil-a contar porlí^m os 
iioiner-s desle lenips», <-'í'JÍ<^ os (jiie são para 
pouco, sem se lhe anijjiurein os raheilos e 
p.iSínarein. E isto nasce de não ponderarem 
quanto pode lazer e passar por Deos um de- 
sejo afervorado , e um \alt)r grande ajudado 
<lo mesmo Deos. A umlioniejn, que assim 
ama, té o iínpossivel se lUe tortia íacll e chão 
em viríuíJe de Deos ; por onde diz David nos 
Psalniíís: Ennneu Deos passarei o niiiro. Mas 
tandjem se aclia nas mesmas vidas dos l^adres, 
que houve outros que não seguirão este rigor 
de vida , e todavia uns e outros tiraváo ao 
mesino fim. S. Pedro e S. João ambos forão 
Apostoh)S , e não íorão levados pelo mesmo 
modo. Quem poderá resolver, c declarar 
«stas dittereiíças, que na verdade são mui- 
to .para espantar, senão for dizendo, que 
é Nosso Senhor espantoso em seus Santos , e 
que quer ser loji\ado por diiferenles manei- 
ras , conforme as muitas, porque é grande 
e poderoso. Depois disto não temos todos a 
mesma comiilexão , nem as mesmas forcas. 
Donde vem , que o que api oveita a um , fiiz 
nojo a outro. E assim não se ha de cuidar, que 
quando um homem [)or veniura se não atre- 
ve com lauta aspei c/a , íica por isso atalhado 
para n;To potler sul, ir ao mais alto grão de 
pcríeição. j\las lambem hão de advertir o$ 



Fr. ÍÍExrxiQUE Srso. 24^ 

que são fracos , e para pouí o que n?o lia cie 
desprezar, nem tachar , nem lançar a peior 
parte as penitencias , e aiisterirlades grandes, 
(pie virem nos oulroj. Cada um íenba conta 
coinsigo só , e trabalhe por entender , o ene 
Deos cíelle quer , e com isto cumpra , sem se 
empachra' com o que íazeni os ou ti os. Pela 
maior parte o nielhtir e niais se^^uro é dar-se 
homem á penitencia regrada meu te , e com 
prudência, arjles que íazcr dvmaaias indis- 
cretas. E porque é diíficultoso acertar com 
este niei(i , é melhor conselho ficar antes 
áqueni iim pouco, que passar além mais ào 
que é razão. Porque acontece muitas vezes 
quando queremos apertar demasiado com a 
natureza , ser depois forçado , para se restau- 
rar, íavorecel-a e animail-a com a môsn;a de- 
masia. Ainda que é beui verdade, que mui- 
tos Padres insi;^ncs em virtude e santidade 
passárfto nesta paite os termos , obrigados de 
ardentisáimo fervor. Esta rigorosa orílcm de 
vida, e os exemplos de rara severidade dos 
Santos sirvão j)ara aquelles que desordena- 
damente são amigos de si , e se tratão com 
muito mimo e brandura , e que deltrmina- 
damente largão as rédeas ao cor|;o furioso, 
e desenfreado para sua perdição. Mas não 
convém para vós, nem para gente composta 
das vossas qualidadcs.Tem Deos Nosso Senhor 



a4^ Vida no Dkíto 

dlíferenças deCruzes, co:n quo provn o casti- 
ga seus servos; e eu cuido certo, que vos 
quer elle lançar ás costas tima , que não será 
menos traballiosa, que a dessa penitencia 
corporal (luevós tomais. Qu.?iido chegar não 
llii; façais !»iáo rostro. Não passou muito tem- 
po , qve couiocon Deos a tentar com doenças 
compridas esta douzella , que fvjrão conti- 
nuando de maneira , que, e:n quanlo viveo , 
não teve um tlia desande; o que logo escre* 
Teo ao Santo, avisando-o como se compria 
nella o que lhe tinha proletizado. E o Santo 
lhe respondeo assim : Charissinia filha , n§o me 
tomo!i só Deos por instrumento de vos noti- 
ficar d anttf mão vossas tribulações , mas tam- 
bém me castigou a mim , e me fez assas mal, 
dando-vol-as j visto coujo não tenlio outrem 
nin«;nem , que daqui em diante me possa 
ajudar acabar aí> obras , que tenho composto , 
e fazer outras de novo com o cuidado e 
Terdade , que vós fizestes em quanto tinheis 
sauile. Por esta causa fez oração a Deos por 
vós um servo seu pedindo-lhe decoração, 
que se fosse servido , vos quizesse dar saúde. 
Mas não sendo lo^^o ouvido conso desejava , 
agastou-se com Deos com uma afuorasa indi- 
gnação, edisse-lhe, que í»áo lia%ia mais des- 
crever tlelle, nem lhe havia mais de fazer 
uma devota saudação, que costumava [elas 



Fr. lÍENRTQrE Srso. 247 

manliãas, se vos não sarasse. E recolhcndo-se 
assim apaixonado, e queixoso a seu Orató- 
rio, assentou-se ifni pouco como tinha cie 
costume. Aqui, ficando roubado aos sentidos, 
parecia-lhe que vinha uni giande numero de 
Anjos, que entravão pelo Oratório; e pelo 
recrearem, porque andava neste tempo ave- 
xado de uma extraorditiaria aídicçào , lhe 
davão uma musica celestial. E |)ergunlando- 
Ihe os Anjos porrjue eslava assinj triste, e não 
chegava a ajudal-os a cantar, cordessou-lhes 
a paixão de sua alma , que o obrií^ira a aga- 
star-se contia Deos , poique não queria ou- 
vir as orações, aue por vossa saúde lhe fazia. 
Mas os Anjos persuadião-no que socegassc , 
ti não podesse assin! , porque se Deos permit- 
tira padecerdes indisposiçóes, era paia grande 
j)i'Oveito vosso , c que esta havia de ser a vo>^ 
sa Cruz neste u!? rido , a qual vos renderia 
muita graça na vida presente, gal: rdão mui 
avantajado na futura : Por onde , (ilha. tende 
paciência , e recehei esletrahalho da rniTo da 
providencia divina , com não u)cnos boa 
sombra , que se fora uma mercê de muito 
Sosio vosso. 



^4^ Vida do Bcato 

CAPITULO XXXVIU. 

Em que o Santo conta oiftras dcí^acões^ qus 
fazia em seus princípios , e umas visões , 
que teve no mesmo tempo, 

L^ M tlia foi o S.\Tito visitar a donzclla Isa- 
bel, que estava enlerma, e tUa pedio-lhe 
quizesse praticar alguma matéria espiritual, 
que não fosse da-: mais subidas, e todavia 
alegrasse uma aliDa devota. Coniecou então 
o servo de^Deos c<u)rar suas devaçóes de 
quando era moço. E failaiulo tie si por ter- 
ceira pessoa com nome de Ministro da Sa- 
piência , nome que elle muito estimava, dizia 
assim : Sendo o jMipTstroda Sapiência aind.! 
muito moço , e de seu natural n:ui esperto, 
costumou muito tempo, todas as vezes que 
succedia sangrar-se , vecolher-se comslgo , e 
imaginar-se no monte Calvário defronte de 
Christo posto na Cruz : então estendendo o 
braço ferido da lanceta, dizia com profundos 
suspiros: Senhor JESU Christo, a quem amo 
sobre todos quantos amigos tenho, peço-vos 
que tenhais lemhrança do costume, que 
corre entre os homens, que é, quando se 
tirão sangue irem-se por casa de seus ami- 
gos, e cobrarem em sua companhia outro 
iadío e melhorado. E bem sabeis \ós , Se- 



Fr. HcNniQrE Suno. a4f 

nlior meu , que a ninguém qucio eu mais 
que a vós. Por isso me venlio aqui pi.ra que 
])<;nzsis <,'sra ferida , e me crieis novo e boui 
sangue. Nos niessuos annos cia mocidade , de- 
pois que fa/ia a barba a uavalLa como era 
muito gentilhomcm , íicava-llie o roslro cu- 
berto de uma (òr rosada graciosíssima; ven- 
do-se assim , fallava couio Chi isto dizendo: 
I>uIcis^i^■:o JESlf , inda que esla íjce se avan- 
tajara em cor a todas as mais bem coradas 
rosas da lona, nunca offerecora a ninguém 
senão a ^ós só isto, que o mundo cbama 
foiíuosura. E seni embargo que vos pagais 
mais de cf)rações , o menos do que parece 
de íórâ ; com tudo folga min lia alma de dar 
esta mostra do qiuí vos ama , offerecendo- 
▼os a vós , e nãíi a outrem ninguém este ex- 
terior. Quando Ibes ac(»ntecia vestir túnica 
liova , oa por capello novo , recolbia-se no 
oratório , e fazia tiracfio ao Seidior , de cuja 
mão reconhecia aípiellas peças, e pedia-lhe, 
que bouvesse por fjcm , que elle as lograsse 
com saúde . e acabasse de lompel-as. Na ida- 
de niais tenra , quan<lo entrava o Veifio, e 
comecavão a desaijotoar as flores, tinha por 
costume não tocar, nem colher nenhuma, 
sem primeiro íazer uma canclla alegre, e 
muito fresca para sua serdu)ra espiritual a 
Eterna Sabedoria, na qual a [.limeira , que 



230 Vida do Beato 

punha , era sempre cm honra tia Virgem Mãi 
cie Deos. Depois qu.indo lhe parecia tempo 
apanhava outras ílores , não desacotnpanha- 
das de con^iueracóes arnorobissiinas, e ira- 
zen4o-ys á relia tecia giinaldas, e entrava 
no Curo, OM siibia ao altar de Nossa Senho- 
ra, e posto de joelhos con) grande humildade 
diante de sua imagem, coioava-a com ellas 
respeitando comsigo, qe.e esta Senhora eia a 
niaij aprasivel flor de todas as ílores, e a 
n^csmo verão e frescura de sua alma , e ro- 
gava-lhe que não engeitasse da máo de seu 
servo as primícias das Ho» es, que lhe oftere- 
cia. Um dia , tendo posto un-.a eapeíla a sua 
ariiada Scrdiora e Klerna Sd)edorla, te\e 
lima visno, na qual lhe parecia, que via o 
Ceo aherto, e o Anjos Aoar de cima para 
haixo vestidos de roupas ric .s e loucãas: Jun- 
tamente lhe feria as orelhas unia inusica a 
inais suave e deleitosa de (piantas jamais se 
ouvirão na terra , que la r»a (^urle celestial 
estavão dai)do aquelleá hePiaventuiados espi- 
rit;)s, Partic- lai inen^e entendeo , que canta- 
Tâo um verso da M.li de Deos , que d zifio a 
"vozes com tno at<)r<!iida harmonia , que toda 
a ;dina se lhe dt rreiia de ;rostn Era o "i erso 
simllhante a un:, (jue se <anta na festa de to- 
dos os Sa:tos na SeiUiencia , que diz: Ulic 
regina Firgiiium traiicenucns cubnen viut-' 



Fr. ÍIexrique Srso, a5x 

niimf etc, E o ^Ilnistro começou a cantar 
juntíituerite com elles, Alli alcançou sua alma 
gruniltis ef clientes de gloria <lo Geo , e ar- 
dentes desej'^»s di; servir a Deos. Outra vez 
na entrada de !\laio tinha coroado de rosas , 
segundo seu costume , a Imagem de Nos- 
Sii Senhora com grande devaç;;o. í^ no dia 
se;:;ujnte de m;idrngada desejava de dt)rmir, 
que viera de fóta (ançado, deferniinando 
deixar por aquella vez a salva que costumava 
dar á Virgem áfjucUas horas. Mas quando 
chegou á e:ii que se costumava levantar para 
esta elevação , parecia-lhe que se achava co- 
mo encerrado em um Coro celestial , omle 
se estava cantando uma Magnifica em louvor 
da Virgem. A qualacahada, cliegava-se a 
Virgem a cile , e mandava-!he que comcça- 
se a cantar o verso que diz : O vcrnalis rosii' 
la, etc. Elle ficava pensativo imaginando, que 
seria o que lhe (fuerla significar nisto, e to- 
davia cjuerendo obedecer con)eç(>u-o a cantar 
despejadamente. E logo de um grande ajun- 
ta ruento de Anjos, que assistifio no Coro , 
sairão Ires , ou quatro, e juntos com elie 
forãíj tand)i'm cantando, e traz estes se vierão 
chegando todos os (jue eslavár» na caf>a como 
á porfia , e caníavão com tamanho estrondo, 
e melodia juntamente, comosc soarão juntos 
todos quantos in^irumcmos ha na inusica. 



a52 YiDJL DO Be\to 

Mas não potencio a hiimanidnde fraca siip- 
porlar aqiiella extraordinária floria, tornou 
o Ministro em seu aeordo. Outra vez tainbeni 
alcançou ciiegar á vista dos ;^'ostos S')))eran )S 
da Pátria Celestial, e foi um dia depois du 
festa da Assumpção da Virgem. Mais nesta 
TÍsão não se lhe consentia a elle, nem a nin- 
guém , mais que ver de fora, porque não 
deixa vão entrar quem vinha descomposta- 
mente , e fazendo o Ministro força por entrar, 
TÍo que um mancebo lhe travava do brato , 
dizendo: irmão meu, não ha para que cuidar, 
que haveis de ter licença para entrarei desta 
Tez. Deixiiyvos estar aqui fora , poÍ5 estnis 
cbri<yado a uma dividrí, e convém remirdes 
vossa culpa com bastaiite satisfação pi imeiro, 
que chegueis a ouvir as musicas tio Ceo. 
Âcab;Hu!o estas palavras levou-p por ism c.i- 
iriinho torcido, e dependurado a uma cova 
sobterranea, escura, esó,e píw extremo mal 
assombrada. Aqui estava sem poder sair para 
nenhuma parte, como um preso a quem se 
«no deixa ver Sol , nem Lua. E vendo-sc 
assim captivo conieçava a suspirar profunda- 
mente, e queixar-sc om pra!)lo, o lamen- 
tações tia prisão , em que se via. Pouco tlepois 
tornou o mancebo, e perguntava-llie C(»mo 
eslava, respondendo que mi-ito nual,entã(í 
O mancebo: Haveis de ba!)er , tliàse , oee a 



Fr. Henrique Su.^o. 253 

Soberana Im peru triz cio Cjo está menenco- 
rea com vosco pela mesn^n razão, que vos 
tem aqui preso. Ficava o r^Iinistro altonito de 
temor do que ouvia , ç dizia : Ai de mim, e 
em que cousa adesservi eu? toma mal, tornou 
o mancebo, serties Xí^^ò indo de chegar a pre- 
gar delia em 5Íias festas , que ainda hontem 
em uma soleniui Jade sua tão grande , respon- 
destes a vossos Superiores, que não quereis 
sui)ir ao púlpito. É verdade, disse o Minis- 
tro , e a razão é, porqiie terlio por tão altas 
e tamanhas as excellericias da Virgem , que 
me hei por indigno de fallar delia em públi- 
co nem uma só palavra. E por isso largo este 
car^o aos pi ('.-^adores mais velhos e mais sa- 
bios, de quem julgo, que cumprem com 
tamanha obrigação muito melhor, do que o 
pôde fazer um ignorante como eu. ^^las afíir- 
niando-lhe o njancebo, que suas pregações 
erão multo acccitas á Virgem , e que não era 
razão furíar-llies mais o corpo , desfazia-se 
em lagrimas de devacâo, e dizia : Peço-vos , 
charissimo espirito, que me ponhais em gra- 
ça c(»m a ^ irgem gh)riosiítSÍma , que eu vos 
empenho niiidiu fé, que não caia mais em 
similhante falta. Su?rio-se o Anjo, e tiran- 
do-o da prisão tornou ao lugar, onded'anles 
eslava , diz<Mido-lhe: AÍL'gra;-vos, irmão, que 
€U conheci no gesto da Njrgem , e cm sua 



s54 VinA DO Bkato 

mansidão, e no como falia <\e vós, que lhe 
passou já toda a paixão, qi»e contra vós ti- 
ni ta , e que sempre vos ha de aniar com 
amor de Hãi. Neste tempo tinha o Ministro 
tomado um costume ; rpic todas as vezes, (jue 
saindo da cella, descia ahaixo, ou lorjiava a 
subir, fazia ocamirdio pelo Coro, o adorava 
o Santíssimo Sacrarneriío, lembrando-lhc e 
considerajido , que todo homem , que faz aU 
g)ima jornada , se sabe quejnuto da estrada , 
por onde vai , tem algum amigo de conta, 
torce de boa vontade , e alarga um pedaço o 
raminho pelo ver. Aconteceo-lhe uma vez pe- 
dir a Deos, que de sna mão liie quizesse dar 
uiD entrudo celestial, porque o nào queria 
de nenhuma creatura , nem tai como ci'a o 
dos homen^i, foi logo rebatado em extasi , e 
parecia-lhe que via a ChristoíESU na dispo- 
sição , que representava na terra, sendo de 
♦rinta annos , que se vinha onde elie eslava 
para lhe satisfazer seu desejo , e dar-lhe í) en- 
trudo Divino, que pedira , e tomava em suas 
mãos Ufu copo cheio de vinho , e dava -o a 
ties , um traz outro, que eslavão presentes 
sentados a unia mesa. E xioqueo prinjeiío 
ei!i })ehendo caio logo cortado de pcs e 
mãos , o segundo ficou algum tanto abala- 
do , {) terceiro í)áo sen lio nada. O segredo 
dislo Ibíí declarou Deos logo, mcsirando-lha 



Fr. Henrique Suso. i55 

que era a flifferença que lia via entre os três 
estados cio homem pj incipiante na virtude , 
do que vai aproveitando, e do que é já per- 
feito, E como uns e outras sentem a mesma 
variedade de eí feitos iia connnunicai^ão , e 
ahnndancia dos ^rostos divinos. Tendo o Bea- 
to Fr. Henrique contado editas e outras mui- 
tas cousas desta (jualidade á stia enferma, 
concluio a pratica , e desj»edio-se. Ido o San* 
to, «t devota Isabel tomou tinta e penna , 
escreveo tudo, e fechou o papel em uma 
caixa , porque se não perdesse. Succedeo 
que alguns dias depois veio visital-a outra 
Religiosa , e lhe perguntou se tinha na(]ueUa 
arca alguma cousa , que tocasse a Mysterios 
do Ceo. Porque , dizia elia, vi esta noite em 
sonhos um menino celestial, que estava as» 
sentado sobre ella , e tinha na mão um in- 
strumento musico por estremo suave , ao qual 
cantava composK^óes espiriíuaes tão gracio- 
sas , e l»em apontadas, que não havia quem 
não ficasse cheio de devoção e alegria espi- 
ritual de as ouvir. Pcco-vos, irmãa minha j 
que me mostreis o cjue alii tendes gtiardado , 
para que o ItMinos, e tenha eu t;iud)cm mi- 
nha parle. Klla cerrou-se sem querer mos- 
trar , nem contar nad.« , por(|ue assim lho ti- 
nha mantlado Fr, ilenri.^uc. 



^^S Vida bo Beíto 

G A P I T U L O XXXIX. 

Ern que o Santo conta j como 5c empregou em 
ganhar almas engolfadas no mtirido fiara. 



Deos y e como conso/ava os alriôulados. 



H 



A vendo muitos dias , que a devota Isa- 
bel não linha nciilir.ni recado de seu Mestre 
Fr. Henrique, mândou-lhe uma cai la , eiu 
que ihe pedia , quizesse escrever-lhe alguma 
cousa , com que desal^afasse de suas continua» 
afflicções. A substancia da carta era esta: Pai a 
qualquer triste é gcnero de consolação ver 
que lia outras mais tristes que elle , assim 
mesmo um homem atribulado cobra esforço 
e entra em si , quando ouve , que seus viãi- 
rhos se viríio tm maiores aírouins, c todavia 
forão soccorridos do Ceo. A isto respondeo 
o Santo o que se segue , fallando de si em 
terv''elja pessoa com o nome, que usava, <lo 
Ministio da Sabedoria : Para que os traba- 
lhos, que tendes de presente, vos fiquelii 
maisjeves, conlar-vos-lui alguns aliíeios, á 
híJiira e louvor de Deos. £u conheci um ho- 
mem a quem por permissão divina sobrevie. 
rão gravissimas tnrnienlas de adversidades, 
que chegarão a lhe tocar n;* fan)a e honra. 
Este h.omem t(>das suas íorças e desejos em- 
pregava em uma cousa , que era amar ud 



todo coraçHo a Deos , e ol)íigar os outros a 
eritranliareni-no em suas aln^as de maneira, 
que a nenhuma cousa quizessem mais que a 
elle, e por este meio se afastassem do amor 
vão e prejudicial das creatuias. O fjue to» 
davia vio cumprido em muítcs , asjrim ho- 
m.ens , como mulheres. i^Ias o diabo, vendo 
que se llie arrebatava das mãos, e tornava 
para Deos o que era presa sua , seutiao por 
extremo, eappare(crdo a alguns homens 
devotos, soltava palavras clieias de ameaças 
contra o Ministro da Sapiência , af^rmantlo 
que tii^ba assentado vingar-sc valentemente 
delle. iXcste ínterim passou o Ministro por 
um Mosteiro, onde viviAo em litligião ho- 
mens emulhercfijuntan ente ,elles com regra 
particular sua , eeiias tambtm ( ou» leis sepa* 
radas. Achou aqui , que entre uui Religioso 
destes, e uma Religiosa corria uma au;izade 
e conversação cslieitissima. E Irazia-lhes o 
demónio as almas tão cegas, disfarçando-lhíS 
o mal com as sombras de virtude, fjue ('e 
nenluHua maneira imaginavão , que li;:via al'i 
culpa , antes que tinbáo para isso licci «a de 
Deos; e sendo perguíitado se podia manter* 
se tal ami/adeem serviço de Deos, < bâanicnte 
o contradisse affirmando, que era (quni.io fal- 
sa e errada, e contra a verdade' da doutrina 
Christãa. E assim acabou com ellcs, qnc s« 

9 



l58 YlDA DO LeATO 

atalhasse a conversação, e ficassem vivenda 
í.l:».ni em diante pnia e Iioiicstaiiienle, No 
mcstno tempo que nesta santa obra se oc- 
cnpava , uma santa donzella, por nome Anna , 
TÍo em espirito uma grande multidão de de- 
mónios, que juntos sobre o iSIinistro brada- 
rão a grandes vozes: O' que malvado Frade! 
vinde, saltemos íielle , malemol-o. Traz isto 
lancavão-lhc maldições , e roJ[av;.o-llie iira- 
gas , porque com seus conselhos e santas 
amoestacõeá os lançara daquclle lugar tam- 
isem assombrado para elles. E todos junta- 
mente Fazerido gestos feios, e meneos cheios 
de braveza juravão, que havlãii de andar d'a- 
\iso sobre elle, e armar»ihe com tanta cí>n- 
tin nação ale o colheram o se vinjjarem. E 
quand»> ihe não podesseni empecer no cor- 
po , ou na fazenda , ao menos entre a genlc 
secular llie menoscabarião a honra e repu- 
taÇvio grandemente., tingindo contra elle 
cousas torpes c vergonhosas. E com quanto 
se guardava com grande cautela tie todas as 
occasivões, não doixarião c!e sair com seu in- 
tjnt ) por meio ile minas secreias de enga- 
nos e mentiras. Assomiuwda a Santa do (pie 
ouvira ro.;.iva a Isosaa Senliora , qne valesse 
ao Ministro em perigos tão apertados. Mas a 
i\iãi lie viisericortlia respondia amorosamen. 
tt j Nenhum mal lhe podem fazer sen» Itrem 



Fk. Ili?;n:orE Srso. 2^9 

iicenra cie nuii rillio. V entende, que todo 
o que elle permittlr, que cliihi lhe veiilia , II e 
será ruui inij^^^ortiinte e proveitoso para a al- 
ma. Pelo que l)em ihe podes dizer, que este- 
ja de bom auiuio , e não tema. Sendo o Mi- 
nistro avisado destas cousas, coniocou a ro- 
tear a coRjurarílo iniciual , e segundo cos!u- 
riir.va fazer a miude , (juando se adiava cm 
ajjcrtos , subio-se aoiuonte, ondotiului uma 
Heriuida da Invocação dos Anjos , e passava 
nove luezes ao redor tlella á honra dos nove 
coros dos Anjos, rezando, e pediudo-lhes 
muito de propósito que fossem com elle, e 
o ajudassem contra seus inimigos : logo em 
au)auheceudo teve um rapto da alma, epare- 
cia-lhe que era levado a um formoso prado, 
onde via ao redor de si um cojuosissiu.o 
ajuntamento de Anjos, que lhe vinbão acu- 
dir, e o auitravão com estas jxilavias: O Se- 
nhor é com vo.ico , o sabei que cm nenhum 
perigo , nem aíronta vos ha de desamparar 
jamais. Pelo que o que \os cumpre é , que 
não largueis o cuidado em que andais de 
arrancar almas das vaidades do mundo, e 
Irazel-as para Deos. Esh)rcado o Minislio 
com taes visões, fazia grande^ diligencia por 
converter lodo género de gente. E assim co- 
Iheo com boas palavras, e com um santo en- 
gano ganhou para Deos um homem cspan» 



tido Vida do Beat» 

tosainente assomado e temeroso, que havia 
dezoito annos que se não confessava , o qual 
tocado dl graça divina se Jbe confessou com 
tanta dòr e arrependimento d'alnia , que am- 
bos juntamente clioravão. E ponco tempo 
depois acabou a vida bemaveniuradamente. 
De uma vez tirou de máo viver doze mídbe- 
res públicas. E não se pôde encarecer o tra- 
balho que levou com elias até as chegar a 
bom estado j o cii fim só duas perseverarão 
nelle. No diitricto daqiiella terra , onde en- 
tão morava , Ira via por muitos lugares gran- 
de numero de mulheres, assim seculares co- 
mo religiosas, que por fraqueza e leviandade 
se tinliáo perdido desalinadamente , euão ti- 
nhào ningiieui a quem se atrevessem a con- 
fessar suas desavenluras, pela grande vergo- 
nha que em suas almas sentião ; donde lhes 
nascia uma anciã tão excessiva, que muitas 
■vezes entra/ão em tentação de se matarem. 
I\Ias como cairão na brandura e piedade , 
com que o Ministro tratava todos os affligi- 
dos , cobrando co líi mra , vierão-se a elle uma 
e uma no tempo , que era maior o perigo tle 
seu estado, c c o n dòr e lagrimas lUe derão 
conta das angiístiás, eui que vivião , e do 
p«.rigo q le receavãtx Quando o Ministro vio 
o ín> p ibr.^s mulheres afadigadas com lania 
naiiJrla , o.isjlava«ai com muito amor, cho- 



Fr. Hjznbique Suso. 2Ô1 

rando com todas, e em Sm remetleou-us, e 
fez, ainda que não foi sem arriscar r.niito de 
sua reputação, que ganhassem as almas, e 
remecliassem a lionra , não fazendo caso no 
processo desrl. negocio do que as lingnas dos 
maldizentes lhe podião levantar. Havia nma 
que era mull^er bem nascida e nolire, que 
estranhamenle sentia ver-se em tal estado. 
Appareceo-Uie a Virgem gloriosissima , Nossa 
Seniicra, e mandou-lhe que se fosse ao seu 
(^aneliíío, avisando-a que era o Ministro, 
])ara ser remediada por elle. E respondendo 
que o não conhecia, tornou a Mãi de Mise- 
ricórdia : Olha para de!)aÍAO de meu manto, 
.que O guardo e defendo com meu amparo, 
tí nola-lhe as feições do rcstro, para que o 
possas conhecer depois ; elle é consolação , 
e alliviodc todos os tristes, elle ,te consolará. 
Foi a mulher ao Ministro , e pondo-llie os 
olhos no rostro , conhcceo-o pelo que tinha 
visto na rcvelaçfio ; e contando-lhe sua ])er- 
dição , pedio-lhe quo a remediasse com 
entranhas do miiericorília. Ouvio-a o Ministro 
conj muita benignidade, e ajudou-a (pianto 
pôde, porque tornasse arcstauiar o nome 
perdido segundo a Sagrada Virgem Íh'o en- 
carregai a. 



i62 Vida do Dízato 

CAPITULO XL. 

Em que Fr, Henrique , proscí^nindo sua nar-^ 
ração j conta uma estranha afronta y em que 
se vio , procurando com mi:,ir ejjlcacia , e 
cuidado a salvação das almas, 

1 Ela maneira que leínos dito salvou o Mi- 
nistro um numero infinito de homens afadi- 
gciílos com o peso de seus peccados. 3Mas em 
pago destas obras de caricíaJe íoi necessário 
padecer maltas e mui rig(<rosai cruzes , as 
quaes o Senhor lhe significou prirjieiro em 
uma visão, que passou desta maneira : Indo 
um dia de caminho chejj(Mi já tarde a uma 
pousada. O outro dia pela manhua ao romper 
da alva foi levado em revelação a um lugor, 
onde se hnvia de cantar uma Misia , a qual 
por sorte lhe cabia a ello. E os cantores, que a 
offieiavão, comecavào o Intróito áà IMissa doi 
Martyres, que diz : Mulíae tribulationes JU" 
storum. etc. A.^astava-se o Miiiistro com este 
Intróito, e deeejaudo que a IMissa fosse outra 
dizia-lhes: A qtie propósito me vindes agora 
com Bíartyres! que desconserto « cantar de 
Matyres, não serido hoje dia de nenhum Mar- 
tyr assignalado. I\]as os cantores apontando 
nclle com os olhos filos , e com dedos esten- 
didos ; Hoje também y rtspondião , icm Dcoí 






Fs. Henrique Suso. 265 

seus Marlyrc."^ , não menos que em todo outro 
tempo. Vós apeiccbei-TOs, c não façaisoiitra 
cousa, e ide começando a Missa. Corria o 
Ministro , e revolvia o Missal que tinha dian- 
te , e procurava dizer outra Missa , qualquer 
que ícsse, ou de Confessores, ou doutra 
cousa , antes que de Marlyres insignes. Mas 
por muito que se cansava em correr o Missal , 
não topava com outra cousa, senão com Of- 
íicios de Mar í Vi es, de que adiava todas as 
íbilias cheias. Ilntão vendo que não podia 
ai fazer, con.:iniio , e i"ui-se cantando com 



a um pouco tornava a falíar com elles di- 
zendo : Km veidadeque c cousa espanto- 
sa, e n(r\a a oTie fazeis. Porque não di- 
reis ai)íe:i uíu Gaudcanius y que é intróito 
alegí-e, e não esse que é triste e me- 
laiK olizado .í^ Nào sal3eis, meu amigo, o 
x\\\iô passa? respoudiáo os Cantores: Aí]^o- 
la tem primeiro lu^^ar este ofncio dos Mar- 
tyres, depois viiá i'ssv Gaiulca/nus de festa 
algumas vezes, e a seu teuqu). Quando 
o Ministro entrou em si estremeceo todo com 
Ipavor do que vira, e dizia: Ai de mim, meu 
bom JESL ! é isto por ventura ali;um novo 
género de Cruzes, que me espeião? Indo ca- 
miidiando com roslro caído, e dcst onteníe, 
perguniuu-ihe o conipanlieiio , qucliavia, 



a64 Vida do Bíato 

porque ia assim nielarjcolizaclo. Respor.tli^o : 
Oue vos posso dizer irmão: cantou-se-nie nesie 
lu^^nr uma Missa de ?,Lirtyres. Querendo si- 
gnificar que lhe fora revelado por Deos , qu-j 
havia de ser asperamente perseguido. Mas o 
Frade não entendeo, nem eile lhe quiz desi-o- 
hrlr mais. Tanto que tornou ao Convento , 
que foi antes de Natal no tempo, que as iioitr : 
são mais comnridas , locro ocomecáráo a sai- 
tear, segundo seu antigo costume, varias u 
mui pesadas trlhidações por maneira que , 
humanau.enle julgarfílo, cria que lhe hsAÍa Ój- 
estalar o coração com a íV.rca do sentimento, 
ainda (]ue não fora de mais, que ver o mes- 
liio mal era qualquer outro liomem , porque 
o punhào em cerco tão apertado e crutl , 
que por meios iaslimosos lhe vinha a falln. 
totalmente tudo quanto lhe ficava, eoi que 
poder estribar de descanso, de consolação , 
de honra temporal, e finalmente de qualquer 
outra cousa , que pôde dar gosto na vida. 
Esta trabalhosíssima Cruz passou desta ma- 
neira : Entre a muita gente, que o IVIinistrij 
desejava reduzir ao serviço ile Deos , veio 
ter com elle uma falsa fêmea , engana- 
dora , e dobrada , que com capa de virtude 
ao que parecia , colaria um corinjão de loh;i , 
' c sabia também dissimular, que por grande 
tjmpo não pôde o Ministro cair em quem 



Fr. Henrique Scso, ^65 

clia ei»n. Esta se tinlia perdido primeiro com 
certo homem; e para lazer a culpa mais feia, 
não se contentando com a primeira maldade , 
de uma criança , que delle tinha , quiz dar 
por pai oLiiro homem , que totalmente a não 
conhecia. Mas não foi isto parte para o Mi- 
nistro a lançar í^e si, antes a ouvia de confis- 
são , e lhe arodin com n^uitas ohras de cari- 
dade , com que remediava suas necessidades , 
e honrava e fazia por ella mais que os Frades 
daquellal^iovincia,que (hamioXerminaríos, 
Sendo passado muito tempo que o Ministro 
continuava coui ella , veio-se a entender cla- 
ramente })or elle , e por outras pessoas di- 
^ gnas de fé , que ás escondidas era tão má 
e tão devassa, conjo o fora no principio de 
sua \ida.'E todavia elle encuhrio o que sabia , 
não a qTieriíudo publicar por quem era , mas 
foi-se desviando delia , e levantando a mão 
dos bens, que lhe fa/ia. Tanto («ue isto enlen- 
deo a boa mulher, mandou-lhe dizer qu« mTo 
procedesse assim com ella, porque lhe fazia 
a saber , que se lhe faltava com os lions of- 
íioios , e favores que atélli recebera delle, lh'o 
havia de pagar a bem grande preço. Porque o 
menos que havia de lazer seria mandar-lhe 
cngeilar, e nomear por íilho seu um menino 
que linha de um secular, com o que lhe da- 
ria tal descrédito , que em toda a terra ficasse 



u66 Vida do Beato 

infamado. Mui assomlírado ficou o Ministr* 
deste recado: e recolhido só comsjcro, e ca- 
Jado , suspirava proíimaainente ,e discorria 
assim entre si. l^()r toda parte me vejo posto 
em cerco , e não sei que conselho siga ; que 
se corro niais com esta mulher, perco-me ; e 
se o não faço , tainherii me pejco: e assim 
fico rodeado de inales para nào poder esca- 
par de ser a tropel lado d'alguni. Entretanto 
padecia inorlaes afrontas in)aginando como , 
e eni que , e até onde ptrniiitiria Deos que se 
alargasse este minlstio infernal em o perse- 
guir. Em fim assentou que era melhor para si , 
e para Ueos, e mais acertado para a saúde ãa. 
alma , e do corpo, quehrar couí a perversa 
mulher escolhendo de dous males o menor, 
sem fazer caso do risco, a que punha sua 
honra , e assim o fez. lAa^i cila ficou tão to- 
mada , que com uma maldade hestial , qual 
era a sua , qu iz dcshonrar-se a si , só por 
prejudicar ao Ministro; e correndo por entre 
Religiosos e Senhores , e andando de uns a 
outios publicou e affirmou, que tinha uni 
filho delle. Grandenienie se escandalizarão 
com tal nova todos os que lhe daTao credi- 
to, e tanto mais, quanto em melhor conta 
o tinhão, e quanto mais cornmum mente era 
havido por Santo em toda parte. Mas a clle 
chegava-lhe á alma, e atressava-lhe o cora- 



Fr. Heniiique Scso. ^6y 

cão com dòr, e assim se ia seccando , c niyi- 
rliando de pura desconsolação e agonia. As 
noites [^assava inteiras sem dnrniii-, os dias 
cansados, e tristes; algum brexe repouso, 
que tomava, eia envoito em representações 
medonhas. Um dia levantou os olhos a Deos 
com rosíro choioso, e magoados suspiros , e 
dizia : Eis , Senlior, tenho já presente aquelle 
desventurado tempo que lenua , checada é 
aquella triste hora, chora minha O' como po- 
derei supportar os apertos sem termo deste 
coração ! O' quem lura morto para que nao 
vira, nem ouvira tal desventura! O' bom 
JESU, bem sal>eis vós como reverenciei sem- 
pre vosso Nomo Santíssimo, e quanto traba- 
lhei sempre peh) íazcr amado e servido de 
todos, e por toda parte: e vós quereis, Se- 
nhor , que padeça o meu agora uma tamanha 
quebra i' Dem , e com assas razão me posso 
eu queixar disso. Eis que a Ordem de São 
Domingos tão iilustre no mundo terá por 
mim uma tamanha iní\imia , qual nunca já 
m:iis deÍ7carei de cliorar ? O' anciãs e tor- 
mentos de minlia alma , já todos os devo- 
tos, que atégora mehuniárão como se fora 
honjcm Sanlo (cousa ({ue me podia dar animo 
para o ser) não meolliaráõ senão como a um 
lal.so enganador dos homens , cousa que me 
trcsj;assa a alma de inoríacs leridas. Ttndo 



26B Vida ko Beat© 

passado algum tempo nestas queixas e pran* 
tos de mai;eira, que ia perdendo as forcas, 
e a vida , veio ter com elle uma mulher , que 
lhe faílou desta maneira : Que razão ha Se- 
j.dior para vos matardes assim ? tendo animo ; 
que eu vos darei remédio a l)cm pouco custo, 
se quizerdes governar a meu modo , para que 
não percais nem um fio de vossa reputação. 
Ora íazei , rogo-vos, um coração grande , va- 
loroso e constante. Levantando o»Ministro 
o rostro pergunlon-lhe que ordem havia de 
ter no que dizia. Tomaiei, rcspondeo , esse 
menino, e leval-o-liei dehaixo deste manto 
escondido, e como for noite enterral-o-hei vi- 
vo, ou o matarei metiendolhe uma agulha pela 
calieca. iHe morto, acnlmará U)go ioda esta 
tormenta , e ficará vossa lionra sem f[ue]>ra. 
Ouvindo isto o Ministro encheo-se de paixão, 
e disse-lhe:0' fêmea mais-deshutnaua de to- 
das quantas são nascidas , e assim te atreve- 
rias a matar um innocente? Como ? e lia-se 
de ^ôr á conta do menino a maldade da mái 
para pa^^ar por ella ? Vivo o querias sepultar ? 
?íão ha de haver tal, nunca Deos queira que 
do meu consentimento tal insulto secoramet- 
la. O maior mal, que. deste me pôde vir, é um 
total abatimento de meu credito, pois affir- 
nio-'vC que se de minha iionra dependera a de 
um Pvcino inteiro , de boa vontade u largara 



Fr. KETíniQrc Scs^j, 2^)9 

n.is mãos de Deos, c iha offorecéra, antes 
que consintir derramar- se pela conservaçuo 
deila este innocenle sangue. Elle não c vosso 
filho : qae vos dá logo que acabe assim ? re- 
plicou a mullier. E Iraz estas palavras arran- 
cou de imia iara aíiada j c Icjnion a dizer: 
Acabai já, deixai-mo levar daqui, tirar-vol-o- 
liei da ^ista , e logo ou o degolarei , ou llie 
darei com osla faca pelo Cíjração, e assim 
acalnndo clle , terciros paz. Cala-le perversa 
niillicr, disse o Ministro. Seja deqi.ieni quer 
ior, Lr.sla (jue è feito á imagem de Deos, e 
remido com o sangue piecioso de Christo; 
não é razão, nem quero eu , que se derrame 
seu sangue com tamanln crueza. Ficou a mu- 
lliar com estas palavras abra/ada de raiva, e 
respon{]e{)-llie : Pois não quereis que morra, 
convém que de duas cousas façais uma. Ou 
que pela manbãa o deixeis levar a porta da 
Igreja , como se faz aos mais engeiíados , 011 
vos apercvhais para uma despesa, excessiva 
para vús, í»té (\ue seja criado. Eu rondo em 
Deos todo poderoso, tornou o i\Iinistro, que 
atégora teve de mim cuidado , também o terá 
daqui em diante, e nos tlará o necessário a 
este menino , e a mim : p >r isso ide , c trazei- 
mo aqui, que o quero ve ás escorulidas. '!'()- 
mou-o então nos braços, e tendo-o no collo, 
comecou-llie o coitadinho a rir. Ao oue clle , 



ajo Vi D A DO Beat» 

respondendo com v.m gemulo rançado do 
innis intin^.or dop<jil() , disse; Havia ou matar 
uni inenhio tão beiio , que com o riso me está 
fazendo festas? Isíio íarei tal por certo, antes 
tomarei muito bem todo mal que por esta 
cai'r5a me saccedcr. E viraudo o rosto amoro- 
samente pêra elle: O' pobrezinho, dizia, eque 
dcsaveníurada orfandade foi a tua, pois quem 
te gerou te não quer por seu ; e a Iraitlora de 
tua mãite quize;jgLÍtar como se foras um ca- 
clioro lançado no monturo ! Mas Deos permit* 
tio que me fosses dado, para que eu seja teu 
pai, e eu o quero assim de boa vontade: toda- 
via não te r.íjceilamlo d'outra ujão, senão ila 
tio meíuioDeos. Tu eslás em meus I>racos me- 
nino clarisslmo, e aintiaque não sabes fallar, 
ollns-mc com uns oIIids risonhos, e eu estou- 
le contemplando cosn o coração magoado e 
ferido , os olhos bmliados em lagriuías, e com 
afaí^os de piedade. Eis te estou lavando esta 
tc.-.ia lace com a agua anlente , que meus 
oiiios c^Tilão. Tanto que a bella criatura sin- 
lio cairem-lhc no rostro as laíirimas do Mlui- 
.-jlro , começou a chorar fortemente , e assim 
pranteavào ambos juntos. O Ministro vendo 
chorar o menino, apertouo com.^igocom mui- 
to amor, diztiulo, não cliorts fjlho da minha 
iiima, que te não hei de malar, ainda que 
to aio íj^croi, o ainda qiie por lua causa haja 



Fn. IIí:\'RIQce Suso. 271 

de pssar grande trabalhos ; que não poderei 
eu p-jr nenhum caso acal.ar comigo, fazer-te 
mal , pois ficas sendo meu fillio , e de Deos; 
e eiii([nanto o Senhor me ministrar um 1)0- 
cado íe pão , [>artil-o-l:."i comtigo áhonia do 
mestno Senhor , e levarei com paciência e 
gosio »odo o mal, que por amor de time 
vier. Nío cião bem acabadas estas lastimas , 
quando aquclla cruel , que assentara matar 
o meninf), toda compungida em seu corarão 
comecoí a chorar aoramcnte com erandcs 
e alios sthiços de maneira, que_^ foi neces- 
sário íazd-a calar , por se não publicar o ne- 
gocio. I)c,)0Ís que a deixou chorar um espa- 
ço , toiiií.u-l!ie o menino', e rogando-Uie 
muitos btns dizia : O Senhor Deos te de sua 
benção, e seus Anjos te «^uaidem de todo 
mal. j*^ mandou , que á sua custa tivesse cui- 
da dt) delle, c o alimentasse. Mas não se sa- 
tisfez com isto a perversa mãi , antes cisnli- 
nuou em infamar o íMinistro, principahn^Mite 
naquellcs lugares, onde mais damno ]he [?o- 
diafazor, de maneira, que muitos houjcns 
"viiluosos lhe tinhão lastima, e chefjavâo a 
pedir a Deos, que como justo juiz tiiasse ta^ 
mulher do mundo. Foi um dia vistal-o uni 
parente seu, e disse-lhe : Giiai dessa mal- 
vada, que lai ribalderia ousou accommettcr 
contra vós j que cu tenho achado mai:eir.i 



STl 



Vida do Beato 



para vos vingar clella á vontade, e é esíon- 
fler-me em qualquer parte dessa comprida 
ponlc, que está Sí)!)re o rio , e colhel-a ?onio 
passar, e lanrando-a dt; cabeça na agui , fa- 
zel-a afogar. ISâo fareis lai cousa se nieAmais, 
disse a isto o AUiiislro; que iiunci Deos 
queira , que por minha causa se ma'e nin- 
guém. Basta que sa])e o Senhor qu3 tudo 
sabe, que contra toda razão me lanoju essa 
inidher em casa seu íilhó. Em suis mãos 
deixo esta causa» Elle a mate , ou lhe dê vida 
como mais for servido ; que aindi que eu 
com lhe negociar a morte desejara , cu pudera 
salvar o risco , em que anda minha vida e 
honra, com tudo, por ser mulhtr, tivera 
respeito , e fizera cortezia nella a lòdas , as 
que sao honradas e virtuosas , e dexára-avi- 
Ter. Aqui tornou o parente com melancoria. 
Pois de mim vos digo , que quem quer que 
tal a£i'onla me fizera, ma houvera de pagar 
com a vida , sem me dar nada que fura íio- 
mem , ou muliíer. Não digais tal , disse o 
JMinistro; que isso é uma brutaliJaile desme- 
surada e um desatino bárbaro. Assocegai-vos, 
1? deixai-me vir quantos males Deos quizer. 
Cresclào no Ministro os desgostos com o tem- 
j)o , renovando-se-lhe cada hora com a fama 
tio successo que se ia dividgando. E senlido-se 
um dia demasiadamente afadigado , vencido 



Fr. Henrique Suso. ajS 

cTa fraque?»! natural desejava buscar algum 
oenero de consolação, ou allivio. Coiu esta 
tenção foi-se em busca de dous homens, que 
no bom tenipo o communlcaTão muito, e se 
lhe tinhào mostrado bons auilgos. Aqui per- 
luittío Deos , que visse por experiência em 
ambos, quaiaanha verdade é, que não ha 
cousa sãa , nem macissa nas criaturas. Por- 
que assim elie, como os que eslavão em sua 
companhia o tratai ã> com muito mais aspe- 
reza, do (|(ie o povo fazia. Uui recebeo com 
razões pesadas, e lohando o rostro a onlra 
parte com desdém dizia-lhe rllezas. Entre 
as quaes foi uuia, que o não visse mais , nem 
o tivesse por ami^o, porqne se corria de ter 
commercio con7 elle. Cortavão-lhe as entra- 
nhas estas palavras, e com unja voz caída e 
niafj^oad.i : Ah irmão meu , disse para elle , de 
mim vos seiatíirmar, (pie se Deos permitlira 
cairdes vós nesle'pego de lodo, e al)atimento , 
em que hoje me vejosomido , correndo e pu- 
blicando vos houvera de ir acudir, e ajudar 
com amor e cortezia a sair delle. E vós soÍ5 
ião deshuniíàno f[ne não basta verdes-me atol* 
lado até o pescoço, mas ainda trabalhais por 
lue levar debaixo dos pés , e atropellar-me. 
Disso só me queixarei eu sempre áquelleso* 
bre todos atormentado coração do clementis- 
íimo JESU. Mas elle mandou-lhc que se ca« 



2y4 VíDA r)0 Bea.t« 

lasse dizendo-lhe injurlor.nmerjte : .Ta sois 
acabado, jd não ha f[iie fazer conla de vós, 
nem vossa pregações, nem vossos li\ros se- 
rão vistos de ningTiem , a que tudo se dará de 
TTíão, tudo se fngeitará. \(j!!Í o Ministro pon- 
do os olhos no Ceo respondeo mansamente: 
Pois eu confio em Ueos todo pode roso , que 
ha do vir tempo , em que meus escritos sejáo 
inais airados e estimados do mundo, do que 
nunca forao. Taes foiHo as consoiíçóes q;ie 
achou nos amigos, (>ue linha por principais, e 
verdadeiros. Os hímiens virtuosos daqiielleiu- 
gar tin;i.'io nuiilo cuitlado de o proverem com 
o necessário. Mas depois que se pul)hcarão 
estas falsas novas , todos os que as crifio levan- 
tarão mão de lhe fazer bem ; até que certifica- 
dos da verdade, tornarão outra vez a correr 
com elle. Assentando-se um dia no seu balico 
porverse poderia repousar uni j ouço, foi loçro 
roubado aos sentidos, e parecia-lhe que era 
levado a uma região representada no enten- 
diuíeuto, onde achava um. homem, que lhe 
fallava assim na parte inferior da alma: Escu- 
tai , escutai umas palavras que vos quero ler 
de consolação. Applicava-se o Ministro com 
attencão , e ouvidos promptos, e notava que 
lhe lia em Latim a(|uellas palavras de Isaías, 
que dizem : Não te chamarás já daqui em 
diante desamparada, e tua terra não se cha- 



Fr. Henrique Srso, 2^5 

m^.rá mais deserta, mas chamar-tc-bas von- 
tade minha em ella, e tua terra povoada, 
porque o Senhor se deu por coiUente cm ti. 
Acabando o homem de lhas ler uma vez, tor- 
ijou-as a começar outra, e leo-lhas até quatro 
▼ezes. Do que o iviinistro espantado : A que 
fim, pergunrou, me repetis isso tantas ve- 
zes ? Faco-o , respondeo , para que firme- 
mente confieis em Deos, rimando a elle vos- 
sa ahna e vossas esperanças, pois vos consta 
que até a terra de seus servos, quero dl/.er 
até a esses corpos mortaes acode com o Tie( os- 
sário; e é tand)em que se por uma parte se 
liies tirar alguma cousa, logo lha ha de sup- 
prir por outra. E assim o lará também por 
sua piedade com vosco. Nem mais , nem me- 
nos succetleo depois em realidaile, e com 
tanta evideixia , que muitos de contentes 
rião , e louviAvâo a Deos , cujos olhos pri- 
meiro tinhão derramado infinitas laijrimas 
de excessiva compaixão. Mas como vemos 
que acontece aos animaes n)ansos c peque- 
nos, que são presa dos grandes e bravos , 
que se lhes caem nas mãos são dcspadacados 
de suas unhas, e tragados de seii'^ dentes até 
lhe (içarem os ossos esbulhados ebmpí>s, e 
amda sobre esses , se tem (jualqner cheiío de 
carne , dascenj enxajues de vespas famintas, 
que os acabão de roer e cocavcirar j e lífio 



a^^ Vida do Beato 

fprdoanclo nos tutanos lhos cliupão, e letfío 
]ie]os aves; da nu^snia irianeira era tintado 
então do mundo Fr. Henrique ; e assim foi 
roido e infamado por toda parte, e isto 
por homens nas apparencias virtuosos , e que 
o faziáo com capa e côr de um sentimento 
santo e discurso christão,a fim de se consola- 
rem como amigos, que professa\ão s<'r do 
JMinistro : mas a verdade é que cm nenhum 
dclles morava nmor , nem verdade , e dníjtú 
nasceo tentarem-no alguns pensamentos máos 
conlra estes taes, que lhe íerião a ahua com 
agudas setas, e o fazifio queixar assim : Cousa 
]eve é meu bom JFSII i:íadecer um lionit in 
trahalj.'-^ quando forão ne-Tfociados por Ju- 
deos , ou Gentios, p;enle de seu perversa, e 
inimigos pulílTííos. Mas estes que tão secca- 
niente me martyrizâo, vendem-se por servos 
vossos , e parecem-no , e isto é o que me faz 
mniio mais pesada e intolerável esta cruz. 
Mas tornando sobre si, e pesando tudo na ba- 
lança da razão, nào lhes punha culpa , antes 
entendia que Deos era o que o castigava por 
meio delles , e que elle o estava beu) mere- 
cendo, e parecia-lhe que era conselho de 
Deos para maior bem , e salvarão mais certa 
de seus servos havfl-os por inimigos, e tra- 
tal-os como a taes. Em pai ticular estando um 
dia nesta matéria mui tentado de impacieu- 



Fr, Hexriqiii: Suso. iyy 

€Ía, teve interiormente esla resposta: Lem- 
])ra-te Cbristão, que o mesmo JESU não qiiiz 
somente trazer em sua companhia um João 
queiido, e um Pedro fiel, mas qulz também 
soíier um Judas traidor. P>)Í3 tu , que dese- 
jas seguir Sitas pisadas , porque razáo te i\^ns' 
tas com teu Judas? Contra isto o armava 
um pensamento respondendo assim : Ai de 
mim piedoso JESLT, que, se este vosso ator- 
mentado servo não tivera mais que um Ju- 
das , lòra ò negocio soíVivel ; mas eu vejo 
qntí todos os cantos estão cheios de Juc'as 
píua mim de maneira, que em fallando um , 
lo^o SC me levaiitão cento. A isto também 
lhe foi rephcr.do interiormente desta ma- 
neira : Todo homem , que traz conta com 
sna alma, tem obrigação de não cuidar de 
Tjinguem , que é seu Judas : antes deve cuidar 
que é instrumento, ou coadjutor de Deos 
aquelíe por cuj^ meio lhe vem trabalhos , 
que são para sca bem, e para o maior bem 
de toiios i[ue é a salvaçíío. Isto nos insinoii 
Chrlstíj quando enlregando-o Judas com os- 
culo de naz lhe poz nome de amigo seu, di- 
zendo: Amigo a que vieste:' Sendo passados 
muitos dias que o Ministro andava assim 
atril)ulado , íicava-llie só uma consolarão 
bem fraca , que em algum modo o alentava, a 
jL^ual era núo ter chegado ainda a infâmia , 



%y% ViTik DO Br. iTO 

que (lelle corria , aos Prelados maiores de sifâ 
Ordem. Mas este pequeiK» ailivio lhe lirou 
tan.hem Deos subitamente; porque o Geral 
(la Ordfin , e o Provincial de Aliuruaaiia ío- 
rão ter ambos juntos em um tempí> á mesma 
terra , onde a danada fêmea lhe assacou o 
falso testemunho. Do que tanto que o pobre 
Fiade foi avisado em outro aigar distante , 
onde morara, receoso em tiemnsia , fazia 
discursos em seu pdiíisameuto dizendo : Bem 
pôde ser que teus superiores dèm credito 
áqueila falsa, e se o fizerem uão tens uma 
hora de vida, porque te laucaráó n'um cár- 
cere tão tcrrivei , que seja menos mal aca- 
bar lo^o. Este cuidado o moU\stou doze dias 
contínuos, e outras tantas noites de manei- 
ra , que esperava a cada momento o ca^li^o. 
Um dia saío-se pela portaria fora , e vencido 
da aucia , que por então coni maiop excesso o 
afrontava, logo fugindo da gente tão lasti- 
moso, e para haver dó no interior de sua ai-' 
ma , como ia nas mostras lie íóra , fui se es- 
conder n um higar apartado, onde ninjjuem 
o podia ver , nem ouvir. Aqui soltando a re- 
tlea a seus tormentos, ora rebentava em 
profundos suspiros, ora se lhe rasavão os 
olhos de agua , ora lhe coriião impetuosa- 
mente rios de lagrimas pelo roslro abaixo. 
Tal era o aperto que sintia no coiaçúo, que 



Fr. Henrique Srso. 27^ 

não poilia soccgar em nenbnna pí»''f»^' í5w»-'i- 
tanieiJte se assenf-'^» ? c Iu^.j tom a mesma 
preste/» ^<^ punha em pé, e })asseava pela 
casa a uiua parte eu outra dv. corritla , como 
se estivera agonizando em 1>it.ços com a 
nioite. .Outras Tezes lançaTa das entrai ha» 
unsgenjidos tiistissimos di/erdo: Ai ai, Cio* 
meutissimo JFSU e que dctei minais fazer de 
mim? ÍSeste pitdosít estado vivia, fjuando do 
Ceo teve uma inspiração, que ilenlro nV.l- 
ma lhe fallava assiui : Onde istá a-;ora a re- 
signaçáo? Oiule a constante dfteiuiinação de 
nfio ^arinr pousa mentos , nem \)or mal , nc:n 
por bem? Tem francau.ente aconselliavas , 
hem persuadias como se devia entregar cada 
um nas mãos de Deos resolulaniente , e des- 
apega r-se de tudo. Ao que elle cliorando 
respondia assim : Evos perguntais-mc pela 
resigmição, pois eu vos pergunto a vós, 
onde SC foi a misericórdia de Deos infinita , 
V. sem liuíiie para com seus servos , eis (jue 
mo vejo em estado, que me não falta mais 
que esperar, que o estremo de todos os ma- 
les; e quanto a mim já sou bem morto , 
como aci^nlece a quem está para ser ronde- 
Dirado ú morte, e tem já perdido a sa*ude , 
a fazenda, e a honra. 'Jinha eu a Deos por 
Benigníssimo, por clementíssimo, e mui leal 
paia com todos aquelles,que se avtíiuuravuo 



aSo Vida. do Ceato 

a iai.^or.<;e de todo em suas mãos, e render-s* 
a sua vontaílc. Mac a'\ de mim que êÓ para co- 
ini,;<) parece que failou ! Ai de ir,-.tn que vejo 
que aquella tunte de misericórdia e pieda- 
de, cuj-a correnie nunca houve cousa que a 
pudesse represar , pareceo hoje que estancou 
para mim. Ai (jue aquelle peito amorosissimo 
cuja brandura Ci)?)íesi»a c ap: e^^oa o mundo 
todo, de todo me tem desamparada, apar- 
tou de mim seus olhos foruiosissimos, vol- 
tO!i-me seu roslro serenissimo. O' face de meu 
Deos , ó coração benigiiissinu, jamais pu- 
dera crer de vós, jamais esperar, q«ic assisn 
nieliaveis de ent^eitar. O' /Vbiáuio iuexhauslo, 
e sem íim, acudi e soccorrei a este triste ji 
d'antemrK) acabado c morto. Vós sabeis, Se- 
nhor , que toda minha esperança e consola- 
ção está posta só em vós , e não em cousa al- 
guma dl terra. Mas escutai-me agora todos 
quantos viveis atribulados no inundo. Não 
ha para que nenhum de vós outros se escan- 
dalize desta niiuha sentida lorvacáo , nem de 
meus desconcertos, portjue em quanto eu 
não sabia novas da rcnunciaçáo própria mais 
que íallanclo e ouvindo , era i^n^sto tratar 
delia. Mas agora estou todo chagado, e com 
o coração em carne viva. As setas do Senhor 
tem-me trancadas as entranhas , e atravessai 
das todas as vcas , e ate o mesmo miolo me 



Fn. lÍEr-íniocE Scso. 281 

icm esgotado e sumido por tal maneira, 
que não ha nieml)ro em todo este»rorpo, que 
não esteja perdido e acabado de dor, e mar- 
tyrios. Coiiío j)óde logo ser que viva resigna- 
do quem assim vive? Havendo passado o jMi- 
liislro acíueiles doze dias com tanto trahallio 
como temos contado, no cabo delles a lioras 
du meio dia, como estava mui enfraquecido 
do miolo, aquietou em fim , e assentoií-se. 
Então retirado , e esquecido todo de si mes- 
mo, virou-se para Deos, e larr^^ando-se com 
verdadeira resignação nas mãos de sch di- 
vino querer, dizia: Cumpra-se vossa vontade. 
Estanílo pois assim assentado entro\i em uma 
extasi (la alma , e via nella awo. se lhe punha 
diante uma santa donzeiia , das que erão ti- 
iiias esjíirituaes suas, a qual quando vivialhe 
profetizou quetinlia por padjcer muitos tra- 
balhos, masque de todos ohavia Deos de li- 
vrar, Consuiava-o a donzeiia amorosamente, 
mas elle indignado com ella tratava-a de íal» 
sa, e de mentiro5;a. A santa então sorrindo- 
se chegon-se de mais perto, c dando-lhe a 
mão: eisaqui, disse , vos empenho minha fé 
em nome de Deos todo po iLroso, e de sua 
santa palavra , que vos mão ha de desamparar, 
antes com sua divina ajuda , e por sua miseri- 
córdia haveis de sair bem dc.Ue di*sgosto, e de 
«[uaesqucr outros, que vus succedtírem. E ião 



dcslramana , respondia o Ministro, a dor, e 
a agonia , cm que vivo, quejá agora , filha, 
níio posso acabsr comigo dar-vos credito, se 
me não ríostrarties um si^nal claro e ceilo, 
do que dizeis. Ao que clía , tcícís, difese, que 
o mesmo i)ers eu) pessoa vos desculpai a e 
dcíí.nderá com toda a gente virtuosa, que 
quanto aos mãos, como medem tudo por 
si, e por sua maldade , liào tem para que la- 
zer conia uelies o hon)em , que é amigo do 
Deos e sisudo, e qiianto a Orficm de S. 
Doviúugos que vós choiais havcnilo-a por 
afrontada neste caso, faço^vos srber que 
por vosso meio , e com vosso nome ha de 
ficar mais acceiía assim a Deos, como a todo 
homem de entendimento, E para que en- 
lendais, que íalio verdade, poder-vos-iia ser- 
vir de sicjUal o que agora oirei : brevemeulc 
TOS vingará Deos justa e terrivelmente, sol- 
tando sua ira contra essa abominável íemea , 
que vos foi autora deste mal, e matal-a-ha de 
morte suljitanea , e lodos aqutUcs que parli- 
culnrmenle ajudai ão, dizendo e publiíando 
males de vós, também acabarão brevemen- 
te. Com estas novas ficou o Ministro algum 
tanto suais alegre, (uidando de se ver cedo 
em paz, o assim esta\a esperando, que fim 
havia Dks de dar a esta tragedia. I^Ias não 
passarão muitos dias, que se vio tudo cum» 



Fr. Kf."?rique Suso. 283 

prído com effeito. Porque a mulher morreo 
siibltaciiente , castigando Dt^os assim o pec- 
catlo de sacrilégio, que coninietteo : e dos 
ouiros, que mais o tinhão perseguido, falle- 
cerfio tiuibem muitos a])reviadamente, parte 
com o juízo perdido, o parte sem Sacramen- 
tos, Entre estes foi um Prelado, que o aper- 
tou l)ravamcnte , e depois de morto appare- 
ceo ao Ministro, e aífirmou-lhe , que pelo 
mal, que lhe fizera, lhe tirara Deos a digni- 
dade e a vida , e tinha para passar muito 
tempo gravi<;simos torn)eníos. Os amigos, 
que sabião estas historias , e vião uma vin- 
ginça tão extraordinária, e as mortes reba- 
tadas dos contrários, louvavão a Deos dizen- 
do : A verdade é que Deos anda com este 
bomV;-.rno, e bom ])arece que fe lhe fez 
agLj;ravo. Pelo queserá razãoque nós, e todos 
os bomens prudentes o estim.emos mais, e 
o teidiamos em melhor conta , e em maior 
opinião de santidade, que se não houvera 
passado por clle o que temes visto. DalJi por 
diante íoi acalmando a tempestade, e por 
obra do Ceo cessou dtj todo, como lho disse 
a dimzella no extasi. Muitas vezes depois 
considerarulo o Ministro este successo: Ah 
Senhor, dizia , quão verdadeiro é o dito do 
povo : A quem Deos quer bem , não Uie pôde 
empecer ningucm, Taiiibc;» luorrco puuco 



a 84 Vida do Cr-ATO 

depois um conipanlieiío seu dacelia,que 
neste trabalho se lhe mostrou pouco amigo. 
E sendo morto, e acabado um impedimento 
c]ue llie toUiia a visão beatifica, appareceo 
ao Ministro cuberto de roupas de luz, e 
ouro , e abrarando-o com amor chego» sua 
face á do Ministro , e pedio-lhe perdão das 
offensas, que lhe fizera, com pacto que hou- 
vesse amizade perpetua entre ambns. Mos- 
trou o Ministro, que folgava com isso, e o 
defunto tornou-o a abrarar amigamcnle, e 
logo desapparecco, ese foi ao Ceo. Tendo o 
Ministro provado infinidade de marlyrios, 
em íim pareceo ao Senlior, qae erattnipo, 
foi divinamente ^iliyiado íie lodos , e ficou 
gozando de uma paz interior dalma, acom- 
panhada de uma quietação socegadu, e de 
graça cheia de luz. Então louvava a Deos 
por se ver fora , principalmente desta tribu- 
lação , e affiruiava , que nem pelo que vai 
o mundo todo, quizera deixar tio ter pasòado 
por ella , e por todas as mais. Enião por 
celestial iiluminaçáo, conliecia claramente, 
que este seu abatimento o levantara mais 
alto , e lhe fora meio de maiores consolações, 
e o chegara mais a Deos, que todas quantas 
adversidades tinha cuudo uebd'a hora , t^iLg 
Dasccra. ulc então. 



Fr. Henrique Suso» i8I 



CAPITULO XLI. 

Tjn que o Santo Fr. íicniiqne conta dons ca^ 
SOS, que lhe passai cio pelas mã^sde tribu^ 
laç í es in te rio i 'es . 

J~l Gabando a santa «lonzela delL-ra tribula*' 
cão de seu l\ui;e espiritual, que temos con- 
tado , solemnizou-u com asseis lagrimas de 
piedade e compaixão de tao triste historia, 
e tornou-lhe a pedir , que lhe quizesse di- 
zer alguma cousa dos trabalhos do espirito. 
Elle respondco, que 3Ó dous casos lhe conta- 
ria nesta matéria, E começou assiíii : Houve 
em certa ordem de Frades um mui conhe- 
citlo por íama, que por divina permissão 
padecia uma cruz interior , a qual lhe dava 
tanta pena, e o trízia tão desanimado, que 
de dia e de noite não fazia outra cousa, 
senão accrescentar seu mal com lagrimas e 
pranto contíimo. Veio-se um dia ao Mini- 
stro da Eterna Sabedoria, e deu-lhe conta de 
si, com grande devoção, pedindo lhe, 
que com suas orações lhe alcançasse remé- 
dio do Senlior. Estantlo o Ministro uma 
manhãa em oração porelic recolhido dcnno 
em seu Oratoo-io , teve uma revelação , ciu 



«S5 Vida do Deato 

que lhe appareceo o dcint^nio em n^ijura de 
negro dé Guiné mui azivichntlo, os olhos 
cotrio brasas , o semblante mechuiho , e in- 
fernal , e com um arco nas màos. Disse-lhe 
o Ministn- : Eu te esconjuro por Deos vivo 
que me digas na verdade quem és , e que 
queres aqui. Eu (disse o diabo, resp nlenílo 
bem como quem é) sou o espirito de blasfé- 
mia ; e o que aqui quoro, vós n)esnm o cs- 
perimentareis. I)esviand(í-se o Ministro para 
se meter pela porta do Coro , via que no 
mesmo tempo punha nella os pés o Relio;ioso 
atribulado (íe que falíamos , para entrar no 
Coro a caníar a Tílissa , logo o malvado es- 
pirito armando o arco tiiou um tiro de fogo 
ao coração do pobre Frade , com que caía 
por terra quasi de costas, e não podia che- 
gar ao Coro. Escandalizado o Ministro re- 
prendia azodamenle odiabo. Oque tomando 
mal a soberba infernal armava o aico para 

lhe fazer tiro com outra sella de fo";o. Mas o 
«... " . . 

Ministro virando-se com pressa para a Vir- 
gem dizia : Bemdiga-nos c'o iilho a gloriosa 
delRei Eterno mãi , e íilha e esposa. E o 
demónio perdidas as forças desappareceo 
logo. (Jomo foi de dia Conlou o Ministro 
este successo ao Religioso, eensinou-lhe re- 
nudios certos e poderosos contra o inimi- 
go ; e são us uitíàmo3 que deixgu w^crilo» 



Tr. Henrique Suso, 287 

cm r.m Sf rnião , que começa : Lecíulus no-- 
sier JioriíÍLis , etc. Entre os muitos molestados 
de males do espirito , que cada dia se viuiião 
sf)CcoiTer ao Ministro , chegoii-se uma "vez a 
elle um homem secular , natural d'oulra 
província , e disse-llie, que padecia um 
mal, qual nunca ninguém livera no mundo, 
cm que outren» niuguííni lhe podia dar con- 
selíío e leinedio senão elle. iSrio ha muito 
(dizia o pobre hon>em) que quasi cheguei a 
estado de desesperar , o com a força da dôr , 
que Svínlla, desejava uiatar-me. Levado desta 
juria fui para mo lançar no mar, e remetten» 
do para acabar de ser homicida de mim mes- 
mo, ouvi uma voz sobre mim , (jue me dizia : 
Tem-te ; não te percas vilmente ; busca um 
rradcde S. Domingos , (e logo lhe dizia o 
o nome do Ministro, nome, que nunca 
d'anles ouvira) e elle te remcdeará, e ensina- 
rá <í que liiis de lazer. Alvoraçado com eslas 
novas sobr estive iia triste determinação, 
que tinha, e vei.ho-me a vós como me foi 
luandado. Vendo o ^linislro tão piedoso 
caso tratou«o com muita brandura , e tantas 
cousas lhe soube dizer de consolação e es- 
forço, e tào contente e bem doutrinado o 
mandou , no que lhe c-np^in , que pela 
graça de Deos nunca mais caio em siaiilUaa* 
tes lentacCcs. 



l88 ViDi DO Bejlto 



CAPITULO XLir. 

Em que se clcclnrn quass S''ío as tribulações 
de inih proveito para o Christão ^ c d$ 
mais floria para Deos, 



Dl 



'Epois (lo qne tomos coiiíado, fez a santa 
donzelb as perguntas seíjr.intes a Fr. Hen» 
rique. Qulzera saber, meu Pacire, qiiaes são 
as cruzes , que mais servem a uma alma para 
se saWar, c de que maior louvor resulta ao 
Senhor. Muitos e mui vários são os traba- 
lhos, respondeo o Sa:Uo , que preparão , e 
armão um homem para a beniavenliirança , 
e lhe seginão os caminhos para ella,se sou- 
ber usar bem delles. Algumas vezes permiite 
Deos succederein-llie teniveis petseguições 
*eni culpa sua : aqui o intento de DeÔs d 
querer proval-o , e experimentar sua con- 
stância, ou mosirar-ilie para qr.anli> é, equo 
é , o que lem de si só , e de sua jiropria co» 
llieita : do que tenios mulfos exeuíplos na 
\"<ilhoTestan)enio.04j tamluin traia Deos de 
seu louvor e gh)ria , como se lè no Evan- 
gelho do Cego de nas( Imenio , a quem 
Christo den por innoccrae , daiuUclhe vista. 
Ai^nnis ha atribulados de ma«cira , que lo- 



Tr. Henriqui: Suso. nZg 

ç]a\la o merpceni bem . ronio ft)i o Ladrão , 
que cnitificárao com Cliristo , a cjuíni o Se- 
nlior promettto o Ceo pela inteira e peiíei- 
ta conversão , com que se lhe reudco na 
Cruz. ÁlgMis padecem trabalhes sem os 
merecerem , se tratamos da caiisa, pQiqjse os 
dá Deos na vida presente; e todavia liáo ca- 
recem de alguma culpa, pela qual pcrmilte 
o Senhor que lhes \enhão ; e isto faz mtnto 
ordinariamente para hiiniilhar sobcilas de- 
masiadas, e tornar para si, e para o ra- 
minho da verdade o homem tocailo delias , 
e assim íèbaler e njortiCcar a ir.ch.aef.o de 
um espirito altivo: o que faz em coisa, 
onde por ventura o tal lu niem nfio meneia 
nenhum mal. Outros males lia, que Ders é 
servido, que succedão a muitos ptlo an or, 
que lhes tem , para por n:cio desses os hirar 
d'oulros maiores, como acontece áquelles, 
que neste mundo tem seu puTfjatoiio, sei do 
atribulados com doenças, ctni pclirc/a , e 
com outros niales desta qualidiíde, paia evi- 
tarem castigo ujais rigoroso, que é qua<»i o 
mesmo, que aíontece áquelles, a qu< m 
deixa avexar por hcmjens de opiíito diabó- 
lico, para que na morte IhesTÍM» stja ne- 
cessário serem asson. brados com as feias e 
monstruosas rej)rtserlac''ts t o^ Hei» < r» <"" 
Alguiià ha que tem si.a ciz vivcn ' , '"*• 



IO 



âC)o Viu A DO Beato- 

zados em um amor urdentissimo. Tomljem 
ha no mundo uns trabalhos sem fruto, nem 
consolação , que são os em (lue vivem nqnel- 
les , que, sem respeito da aíina, querem 
cumprir c'o Uíundo em cousas, que totí^l- 
mente são miintlauas, e esíf:.s taes comprfio 
as penas do inferno o->ni muita áòv e tja- 
Lalho : cousa que devia ronsohir Uíiiito a 
gente virtuosa em suas afílieçóes. Também 
ha homens a quem Deos está sempre i)rj- 
dando , e /^visando , que de todo roraçáo se 
íionvertão, porque deseja coramunirar-se- 
Ihes , c dar-lhes muito de si; e todavia de 
descuidados ou resistem , ou não acabão. 
Estes traz Deos assim aljumas ve7.es por 
meio das adversidades, ortl?i ando qneonde 
quer que potjm o rostro , ou se acolhem por 
lhe escapar, ahi mesmo não achem outra 
cousa se não infortúnios econtrariedides , e 
muitos dissabores de volta com os gostos do 
mundo , e assim faz presa nelles, como se 
os tivera pelos cabellos, com tanta força , 
que não iia íujfir de suas mãtís. Emhm 
achareis muita gento , que vive sem cruz , 
se não é a que ella mesma se forja , ou ne- 
goceia prjr suas m.íos , fazendo caso de cou- 
sas, que de si nao importão nada. O que já 
uma hora experimentou com certeza ura 
"^ da fortuna, Fassiiva este por uma 



Fr. Henrique Suso. 291 

casa onde seiítio que se carnia uma mulher 
com lag limas c pranto jiet!cso. liiitrcu 
dentro pela consolar , e perguntarido-lhe a 
causa tle sua desconsolní fio , itsponc^eo, qi:e 
não podia achar uma ugulha qi:e perdera. 
Saío-se attonito , e foi discorrendo assim 
comsigo : O' líjulhcr néscia j ó mull.er tonta , 
eu te fico que se tontííias as cestas i:n) cos 
feixes , que cu trago , não prantearas | cr 
tfio fraca perda. Tacs sfio vv.s certcis niin.o- 
sos, que com quak|uer leve cansa íin<;cni 
logo cruzes , onde as dl o la. IMas a mais 
nobre e mais excellente cruz, qne pode 
haver, é aquella sohre todas, qnc Uiais se 
conforma com a de Cliristo INosso I^cihor , 
que Deos F.terno seu l\ulre ]lie'poz sobre os 
hombros, e a põe inda hoje aos amigís , 
que mais ama , não porque haja algucm que 
totalmente seja isento de pcccado , exceitr» 
Christo , mas porqTie assim como Chrislo i m 
sua Sagrada Paixfjo foi um extiemo de niaii- 
sidão, haTcndo-se nella couío uuia í}velha 
cercada de lobos, assim taml cm carrega 
com desmc^surado peso de tribulações os 
seiíi:^ mais validos servos; e o ílm é pua <|ue 
rós outros os mál sofridos tomenos exem- 
plo em seu valor, aprendendo delles a ler 
paciência, e á visia de um Satiio avexado , 
Aonitnios btni j e venramos cem ii.ai sidão 



29a Vida do Bíât» 

os males que como máos merererr*05. Ist©, 
filha minha, deveis considerar, c riào façaes- 
iifinca iiiáo rosto aos trabalhos, que por 
qualqiier via, que elles venháo, podem ser de 
proveito ao Chrislão, se os souber tomar e 
j econlieccr tia mâb de Deos , e referindo-os 
a eile passadas valorosamente por seu amor. 
Aqui lez pausa Fr. Henrique , e Sor IsaleL 
couieçou assirií : A(|ueiia cruz, meu Padre, 
de q-ie ultir-.acienle tratastes, que é quando 
iim homem padece sem piecedereuL cul[^a3, 
é de pouca gente. E eu t.omáia saber p')r- 
que melo pôde um homem , que é peccador, 
e sogeito a culpas e misérias, valer-se c\o 
auxiUo Divino para com elle facilitar, e ven- 
cer suas afiKcçóes. Porcjue este tal parece 
que vive entre dous tornífntos, tendo de 
uma par^tc o de ler offendido a Deos , e da 
outra o exterior, que o aíflige. iSisso tam- 
bém , respondeo o Santo , vos satisfarei logo. 
Eu conheci uma pessoa , que se lhe acon te- 
cla por fraqueza humana cair em pcccado 
que merecesse casligo, tinha este costume: 
Como uma lavandeira, dextra em seu oííi- 
cio, lava primeiro a roupa com sabão , e 
depois a passa a outra agua , com que 
a deixa de todo limpa c alva , assim esta 
pessoa não descansava, até espiritualmente 
ciie^^ar áquella fonte e corrente caudal da 



Fr. Henrique Suso. «93 

precioso sangue de Ghristo derramado com 
inefável caridade para consolação e soccorro 
de todos os ncccadorcs, fonte que nasce de 
suas sagradas Chagas. AWi naquelie sangue, 
que ferve eni amor dos homens, se banhava, 
e somia com todas suas cul{)as , que são as 
Tiodoas da ahna. Alli naquelie rio de verda- 
deira salvarão se lavava e purificava toda , 
como se faz a um menino metlido em banho 
quente. íslo fazia com grande fervor, e de- 
vaçào da alma , junta n uma fé firme, e dcs- 
eiiganada, que aqncUe divino sangue com 
sua virtude e merecimento infinito a havia 
de deixar iin)pa e sãa de toda a culpa. Este 
termo pois usava sempre diante de Deos 
quando se via cm .lígum traljalho , quer o 
tivesse merecido, quer lhe viesse sem causa. 

C A P 1 T U L O XLIIÍ. 

Fm qut^ j trata iiorque maneira apartou o 
Beato Fr. Henrique da affdcj.o das comas 
transitarias alí^uns homens engo!fado!i no 
mundo f e os injlamniou em amor Divino» 

1^0 tempo, que Fr. Henrique de propó- 
sito se empregava em converter aimas a 
Deos, e desapegaUas dos go^ios e vaidades 



504 Vida do Beato 

cio mundo , advertio cjue em alguns ?.Ios- 
teiros bavia gente , que com habito e pro- 
fissão monástica cobria coração e pensa- 
mentos mundanos. Em particular soube 
que em certo Convento havia nina Freira , 
que andava mui entregue a uma affeicão, 
para em siniilhantes parles , não licita, que 
tinha, e mudava devotos, ou por nifeluoriJi- 
zer servidores , que é a peçonha e deslruição 
de toda a Reli^nao. Avisava-a o Santo, qne 
se queria viver vida dt'scansada e quieta, e 
segdira vida espiritual, que proíessáro, desse 
de mão a's conversações , e em lugar dos 
amigos ociosos , tomasse por amiga a Sa- 
bedoria Eterna. Não se lhe pot-ia ia liar cm 
cousa que mais a desagradasse ; porque era 
moca e formosa , e eslava já enredada neste 
Inço do diabo mal entendido , e mui travada 
na amizade. Todavia cb.egou a termos, que 
lhe rendeu a vontade a estar prompla e 
disposta para tomar seus conselhos. /.Ias oc- 
cupando-sc outros em lha perverter, foi fá- 
cil de mudar. O que visto pelo Santo, disse- 
lhe : Filha minha, deixai est^ modo de vida , 
olhai, que vos amoesio e profetizo , que se 
o não fazeis por vontade, o vireis a fazer 
por força, e mal que vos pez. Vio elh; que 
fíizia ju)uco caso de sua sãa e verdadeira 
Doutrina: fez oração ao Senhor, que [>or 



Fr. Henrique Srso. 29^ 

bem , on por mal fosse serviclo tirnl-a claqnel- 
le estado: e íoi-sc um dia ao Presbyterio da 
Igreja , com. o costumava, e alli debruçado 
aos pés de um Crr*ci6r.o , descobertas as 
costas , discipíinou-se cruelmente e de ma- 
neira , que tudo se baiihava em saiigiíe , e 
pedia a Deos que amancusse aquelle duro 
espirito. Em fim ouvio o Senlior sua ora- 
ção. Porque recolhendo-se ella um dia para 
casa 5 começou-se-ihe a criar nas costas uma 
feia alrorcova , com que íicou torpe e dis- 
forme. E assim constranrrlda do mal, veio a 
la ro^ar por força, o q-.ie não quiz por bem, 
nem por amor de Deos. Tveste mesmo ]\Ios- 
teiro, que nao era dos que professaTflo clau- 
sura, ha\ia outra donzeila moça ua idade, e 
nobre no sangue , a qual caindo taml.ein na 
rê-i^í deste mesmo dernonio , tinha perdido 
o tempo, e devasrado a honra utuitos an- 
nos , (om toda sorte de homens, e t!e ma- 
neira andava cega , que fogia do Sanro, 
como a lebre dos «^alç^os > líoroue receava 
que havia de procurar por lhe fízer mudar ;i 
vida. Tinlia esta donzeila uma iruiãa , a qual 
pedio a Fr. Henrique quizesse provar a Uião 
com ella , a ver se por alguma via a podia 
arrancai- de tão dauuioso estado, e tornal-a 
para Deos. M.ís elle julgando-o por quasi 
impossível, afíiraiuva-lhe , que Unha por 



soG Vida no Ceato 

iT)ais íacll abnlxar-se o Ceo , que tlohrar-se 
€Íla a doixar seus costumes , de rjue só a 
morte a poderia já retirar. Apertava «o com 
muita instancia a irmãa , dizendo, que linha 
nelle tanta fé , que entendia não lhe havia 
Deos de negar cousa, que do veras lhe pedis* 
se. Vencido o Santo destas palavras obrigou- 
S3 a fazer de sua parte o que podesse. Mas 
con^o a donzelia de contínuo se desviasse 
delle, e assim não podes:e lia ver uma kora 
para lhe fallar , em fim soube um dia, que 
era perto da festa de Santa Margarida Vir- 
gem , que era fora do rilosteiro em com- 
panhia de toda a Gomniuni iade, que saíra a 
curar linho ao campo. Foi-se Í'>go dissirnu- 
ladaniente traz eilas dando rodi'ios por che- 
gar a cUa em tempo, e comiiiunicaráo acom- 
modada. Mas tanto , que a pobre mulher o 
sentio virou -lhe as costas com descortezia , 
saltando-lhe fof^o pelo rostro de líravcza, e 
com brados desentoados fallava-lhe desta 
maneira: Que me quereis Senhor? para 
(fue me buscaesP ide en)])ora vosso cami- 
nho, que comigo não acabareis nada j que 
antes tomarei que me cortem a cabeça , que 
confessar-me comvosco, e primeiro sofrerei 
cnterrarem-me viva , que deixar minhns 
amizades por vosso respeito. A isto acudlo 
uma companheira j que lhe ficava perlo , o 



Fr. Henrique Sl'soí 297 

estranhou-lhe o que fazia , lembrando-llie , 
que o que Santo pertendia eia j3or seu 
Lcm , e para sua salvação. JMas ella aljanan- 
do a cabeça íuriosaniente dizia: Nfio o hei 
de enganar, antes em quanto íizer e disser 
quero , que veja e conheça minha delermi* 
liarão. Espantado o Santo do despejo coni 
que íallava , e da descomposição dos me- 
ueios que fazia, ficou tão atalhado, que não 
podia faliar palavra. Todas as Freiras, que 
eião presentes, loniárão mal o atrevimento 
da companheira , e todas ilie bradavão , que 
fazia mal , que se reportasse. Afasloii-se o 
Santo então , e pondo os olhos no Ceo sus- 
. pirava do fundo do peito, e queria de todo 
largar a enipreza , se níio fOjia que dentro 
«'alma lh'o contradizia Deos com esta leiu- 
liranca , que quem tem requerimento com 
Deos e com o mundo , e quer acabar al- 
guma cousa não ha de parar logo , nem eu- 
íadar-sc de iuiportunar e trabalhar. F.ra 
depois do meio dia quando isto aconteceo. 
Jantaião as Freiras , e viudo a tarde, que 
havião de ir a uma horta para cuncluirem 
c'o linho, rogou a uma das ami;;as da Freira, 
que quando passassem por um hospital , 
onde elle estaria , que era caminho para a 
líorta , poV arte lha levasse lá , e se saísse 
para fora. Fcz-se assim, aiuda que com Ira- 



âpS Vida do BriTe 

Lalho. Tanto que entrou , e o Santo a tío 
assentada a seus pés naquelle lugar publico, 
em que estava, começou sua pratica do co- 
ração, que lhe arrebentava ern conceitos, 
acompanhando-a coru profundos suspiros , e 
dizendo desta maneiía : Eia formosissima 
donzella, donzella escolliida deDeos, até 
quando haveis de trazer em poder do diabo 
a belleza desse rcstro , e de vossa alma? 
Olhai que \os fez Deos amável , e bem pare- 
cida em todas as cousas, só para terdes por 
menoscabo de vossa pessoa, sendo mulher de 
tão boas partes , e tão nobre, renderdes^vos 
a nenhum outro amor senão ao de vosso 
Deos, que é o melhor amigo de quantos ha 
na lerra. A quem, dizei, se devem com 
mais razfTo oííerecer as rosas desse rosto, 
que agora estão em sua primavera, que 
áquclíe, cujas ellas siío na verdade? Abri , 
rogo-vos, iUustre e formosa donzella, esses 
claros olhos da alma, e lem])rai-vos sobre 
tudo dacjueila Divina amizade, que começa 
aqui, e dura pata senípie. Olh.ii a que desa- 
venturas, a que enganos se arriscão, a que 
tormentos, e cruzes se offerecem , que 
damnos é forcado, que padeçuo no corpo e 
r»a fazenda, n'ahi)a , e na fama , e mal que 
lhes pez todas aquelias que andiTo'embcbiua5 
restas damnosas ar.íizades, das qaaes vos 



Fpl. Henrique Suso, 299 

afíirmo , que ainda que a peçonha, ou feitiço 
í'iini íalso gosto traz tontos e alienados os 
jinzos de niautira, que llies fez perder o res- 
peito ea nieoioria de tantos, e tamanhos 
ínc(>nvenienies, com tudo elles abrangem 
nesta vida e na outra. Ora pois, tilha minha , 
nriais bíjlla e i.-iais merecedora de ser amada 
de todas quantas o ííÍio , passai iodo o bor» 
natural , que em vós ha , naquellc Senhor , 
que desde toda a eternidade é o mais no- 
bre , e mais excellente siíjeito que ha, nem 
pôde liaver. E acabai já com estas sandices , 
que eu vos dou minha l'é , eme ol)rigo , que 
elie vos acceite por amiga , e vos manteíiha 
verdadeira fe e amizade neste mundo , e no 
outro. Era bem escansada aquella hora. 
lào-na entrando estas palavras , e abran- 
dando aquelie peito fero de maneira, que, 
levantando logo os olhos ao Ceo, suspirava 
com entrnnhavel dòr: e tratando com o 
Santo coiiíiad;nnente , e com resoluçfio varo- 
nil dizia desta maneira: Padre, e senhor 
meu , não haja mais (hlação : eisme aqui 
rendida, e seja logo hoje, á disposição de 
Deos , e vossa : aparelliada estou a deixar de 
toch) ponto , e nesta mesma hora a \ida des» 
concertada e vãa ; e com vosso conselho c 
ajuda entiegar-me toda a Deos, e a elle só 
servir dchojeeradianlc até luorte, Nenhuma 



3oo Vida do Beato 

nova , disse o Santo , se me podia a^ora daí 
de maior gosto. Bcnidito e louvado seja o 
Senhor, que a todos, os que a elle se tor- 
não, recebe alegremente. Estando as^im 
ambos fallando ác Deos, as amigas da don- 
zella , e companheiras de suas Icviant^ades , 
estavao á porta da banda de fora : e enfa- 
dadas de pratica tão comprida , coruo recea- 
vão , que o Santo a apartasse da soltura de 
sua conversação, começarâo-llie a bradar 
que acabasse. Levantou-se a donzella, foi -se 
com ellas, e disse-lhes : Amigas e compa- 
nheiras minhas, ficai-vos embora de hoje 
paia todo sciupre : eu me hei por despedida 
de vós , e de todas as de nossa companhia, 
como de gente, com quem gastei meu tem- 
po mal , e como não devia, de que toda a 
vida terei ma^joa. Já a^ora a um só Deos 
todo poderoso me offereco e entresjo ; e 
todo o mais en:íeito e lar-jo. Hesta maneira 
começou a evitar toda a amizade peri.^osa , e 
viver recolhidamcnle. E ainda que não fal- 
tou depois quem a tentou, e trabalhou pela 
tornar aos costumes passailos, não se aca- 
l)ou nada com ella. Antes se havia de ma- 
neira, cjue acompanhando uma estremada 
honestidade com toda s;>rte de virtudes per- 
severou até o fir.i da viila, firme, e conslan- 
leincnte uo seivico de Deos. Açonieceo de- 



FRiTÍENRiQnr. Sfso. 3oi 

}OÍs , que saindo o Santo um clia do Mostei- 
ro , en] que morava, para a ir visitar o 
mimar no caminho da Ylrtiule , e consolai-* 
de -certos trabalhos, que padecia , como r.n- 
dav; neste tempo indisposto , e o caminho 
era eh muitos lodos, e parte delle por serras 
altas, I! fragosas, ia mtii afadigado. No m(>'o 
desta ahonta levantando os oUk^s a Deos di- 
zia a ir.iude: Senhor Deos Misericordinso 
e obrado? de misericórdias, ' lembro •\ os 
aqnelles cinsados' passos, qne neste mundo 
com muit;o ^.rahalho destes por nos salvar; c 
V pero-vos qn° me guardeis minha filha. Traz 
isto encostavi«-se em sen conipanhe iro ; o 
qual cheio de lastima de o ver assim disse- 
Ihc: De verd.ide entendo que compele a 
Peos , segundo sua bondade, sah;:r*mnitas 
abnas por vosso meio. Indo mais. adiante, e 
r. Santo tão desfallecido , (pie já não podia 
dar um passo: P.>r certi) , l\a(he, tornou a 
dÍ2(ír o companheiro , q-ie bem com ra^zão 
pudera Deos agora olhar para vossa fraone- 
7a , e com seu poder dcparar-nos aqui uma 
cavalgaíhira , e!n (|ue fôreis um pouc(j até 
chegarmos a povoado Sc ambos jtini(..s, res- 
ponufo o Santo, p{jdirju(js isso a Deíís, bem 
ronfio nelle , (pie pelo mercclmcnio ue vos-a 
virtude nos íará mercc. t estcTidendo ns 
olhos vio sair do mato um bem íeito c.ivallo 



5ai Vida do Beit(^ 

muito manso, e quieto, sellaclo, e enfreado, 
e sem dono. Entúo o companheiro levantan- 
do a voz com alegria disòc : Oihai , Padie 
thaiissimo, con^u 5e parece que não está /s- 
fjuecido Deos de vós. Toriiou-lhe o San^o : 
Alegrai, filho, os olhos por toda essa t^rra, 
que se descobre, e vede se porventura rarece 
alguém , cujo possa ser estecavallo. Ohando 
oFradc a unia e ouíra parte não vio jingueni 
mais, que o cavallo , que mansaiiente se 
■vinha chegando para elles. E di.<6e para o 
Santo : Sem duvida , meu Padr^ , este ca- 
vallo yem para vós mandado po.' Deos; so- 
bi-vos nelie , e catninhai. isso crerei eu , res- 
pondeo o Santo , e bem íio de Deos , que 
noi quereria acutlir nesta necessidade, se se 
parar quaíido cliegar a nós.Nao erão bem aca- 
J)ad:iS as palavras, quando o cavallo chegou 
qui'.'tamen!2 , e paruu diante do Santo. O 
queelle notando: ííora, disse, sej.a em nome 
de (Christo. E cavalgando Cí)m ajuda do cj)m- 
panheiro , í\n assim caminhando um grande 
espaço até que cobrou alento e forças. Se- 
guia-o o companheiro a pé. Mas tanto que 
chegarão junto tle iima aldêa, queapparecia, 
apeou-se o Santo, e lar.-^ando as rédeas ao 
cavall ; , deixou-o no inesmo camiidio por 
ondj viera, e nunca depois pôde aciíar 
nova d;í cujo ora , wjin para onde lura. Ghe* 



Tr. Hr.xPx qce Sus«. 3o3 

■rado o Santo ao l:'gar, para onde ia , estava 
^in (lia á taide sentado com suas £lbas es- 
pi-ituíies, e pré;j;ava-lbes do amor Divino, c 
trJ)alliava por lhes fazer odioso o das consa» 
t^íi'sitorias. No cabo, despedidas aslVeiras, 
ficoí com a elfiracia da ]^rati( a abrasado todo 
em fo^o cie Ui\ina caridade; *e estava inia- 
g)nana> ^ qne só o seu amado , em c^uem elle 
tinha o. olhos , e o corarão , e a quem pre- 
gava e persuadia a todos , que amassem , le- 
vava infiriía vantagem a todos 03 amigos do 
muudo. Nista doce meditarão foi arrchalacío 
eín espirito e pareciadhe que o mettlão em 
um prado frtsquissimo , onde o acompanha- 
va , e trazia pela mào um gcritil mancelio 
cortesão do Cto, o qual llio começou a can- 
tar tão siiavernerte, qoc peiíetiando-lhe n'al- 
ma a melodia da voz , perdia com a força da 
deleitação toda a operação e uso dos siii- 
tidos j e parccia-llie que o coração dentro em 
sen peito se lhe enchia de um desejo , e 5au- 
diule de Deos ardunlii-slma de xnaTicira , ({iie 
batia e saltava , como cjne se qneria fazer 
pedaços com o excesso da força , que sentia. 
K para se valer, foi necessário acudir com 
a mão direita, e pòr-llu em cima. T^las entio 
tanto or^u) tantas as lagrimas, rine seus oi!:os 
eslilla\rt() , qneem fio lhe desdão pelo rostio 
abaixo. Acabada a musica , rcpresentcií-se- 



^oi Vida do Beato 

lhe uma figura , para poder apprender o que^ 
ouvira cantar com tal firmeza, que nunf» 
íiiais lhe esquecesse. Via a Virgem gloiio* 
sissiina, nossa Senhora , que tinha no coiloo 
Menino J£SU, Sabedoria F.terna , apert;^^» 
com o sagrado peito , e sobre a cabeça do 
Menino estavS escrito o principio da ca^çáo, 
que ouvira , com letras formosissimas; mas 
o modo, por que estava escrito, era t^ sub- 
til e escuro , que o nào' podião l»í^ senão 
aqtielies , que o tinhão estudado ^ alcan- 
çado por experiência de trabalhe^ e peni- 
tencias. A linguagem era de Alhmanha. O 
que iKi Portngueza podia sigíiiícar, dizia: 
Amigo fidelíssimo, como que íÓ elle seja o 
í^ue na verdade é gosto veidaleiro d'alnia , 
e amigo singchssiíuo. O Santo leo logo tudo : 
e entre taulo o .^lenino JIlSI tinha amoro- 
samente os olhos nelle : donde lhe nascia 
quasicoHi cerie/.a experiiut^ntar como só este 
suavissliuo Serdior é na verdade amigo 
da alma , em cuja companliia nem gostos a 
descompõe, nem adversidades a soçobrão. 
E assim o meltia todo nella; e Ioêjo com o 
mancebo começou a entoar a canção, e am- 
idos a levarão té o ca!)o. Estando-se assim 
a 'ora '.avidj n>) fogo destes amores, cessou o 
tíítasi , tornou em seu accordo , e achou-so 
ca.n a mfio direita posu ^obr^ u cpra^^o d» 



Yr, Henrique Suso. 3o5 

fnesnia maneira, que a assentou , qnando llie 
quiz acudir com ella na grande força com 
que batia. 

CAPITULO XLIV. 

Como por merecimentos do Santo lhe accres'^ 
centoiL Deos o vinho , estando assentado á 
mesa com muitos companheiros. 



\J^ 



M dia, caininli?.ndoo Santo por terra es- 
tiaiilia , chegou tarde, e quel)ranta(lo da lon- 
ga jornada, a um inclusorium , onde fizera 
co?)ta de vir dormir aquella noite. Succetlco 
não se achar vinho iio lugar, nem cm uma 
aldeã, que era visinlia; só uma honrada don- 
zeUa , (|ue era presente, disse , que em sua 
casa havia um pequeno jarro de viid^o. Mas 
para entre tantos , dizia ella , que cousa é 
iini jarri)? E dizia iNto porque , poucos mais 
ou menos, estavào alli jnul«vs vinte liomens 
devotos, a fora outros, (pie acudíiào á f;»uia 
do Santo, desejando ouvil-o pregar, l\Ian- 
dou-lhe trazer o jarro, e poí-o na mesa. 
Posto o jarro , rogavão-lhe lodos (pie o ben- 
zesse. Fel-o o Santo em virtude do nome 
Sautissimo de JIlSP , e bcd)co priu)eiro (jiie 
todos , porque vinha ardendo em sèdc <\<i 



3o6 Tida do Beato 

caminho. Logo o deu aos outros, que todõS 
foráo bebendo. Punha-se o jarro na niczn á 
vista de todos, e sem se lhe lançar omm . 
nem vinho, que o não havia , como temos 
dito, tornava a andar a roda e bebia»» lodos 
uma vez , e outra, f^las como eslaváo com 
grande devação de ouvir a palavra de Deos , 
ninguém attentava iio nalagre do Ceo. No 
cabo quando entrarão cm acordo , e caíiáo 
na conta da mardvilha , que o noder Di\if:o 
obrou no crescimento d«i vinho, lou\;i\áo a 
Deos, e queriâo attribuir o milagre á -vir- 
tude e merecimenios de Fi*. Henrique; o 
que não consentindo por nenlium caso; não 
ha, fdhosmens, dizia, poia que me deis por 
autor disso. Quiz o Poderoso Deos lembrar- 
se desta virtuosa companhia de gente, que 
aqui concorrer», e (*m galardfio de sua íe re- 
frescal-os com bebida corporal e espiritual. 

CAPÍTULO XLV. 

Do que aconteceo ao Beato Fr. Henrique 
com algumas pessoas , qua com clU tiverào 
particular amizade, 

XJ-Avia em uma Cidade duas pessoa*? de 
muita virtude, q^ue tinháo íamiliaridade c'o 



Fr. Henrique Suso, 3qj 

Santo. As quaes, se;^iiindo ambas o mesmo 
caminho do espirilo, levava Deos por mui 
difíerente termo , uma ria outra. Uíiia era 
conhecida e estimada do mundo, e vivia 
em grandes mimos e favores do Ceo. A ou- 
tra ninguém lhe sabia o nome, e trazia-a 
Deos penitenciada com tribulações conli- 
nuas. Sendo ambas mortas , desejava o Santo 
saber , que íbtferença tinhão de premio no 
outro mundo , pois neste fora tamanha a de 
suas vidas. Um dia ao rompei- da manliãa 
appareceo llie a de fiima, e contou-lhe como 
inda então estava detida , e penando no 
Purgatório. Pergtíntando-lhe admirado , co- 
mo podia ser tal ? respondeo , qne por ne- 
nhuma outra culjia pagava , senão porque 
daquclla estima, que via íaze»' de sua vir- 
tude, llie sobião á alma uns fumos de so- 
berba de espiriíf) , a que não resistira com a 
destreza , que rouviuha; e com tudo tinha por 
certo haver de sair cedo daquelle trabalho, 
A outra , que vivia despiezada e abatida no 
mundo, voou sem «letefica [)ara I)cm)s. Tam- 
bém a mái de Fr. Hcuiicjue, em quanto vi- 
veu na teira , padeceo gravissimos tormentos 
causados da differeuca de vida , que tila e 
seu marido faziao : ella, toda cheia de Deos, 
desejava conformar a vida de todo ponto 
€om ãua santa Lei : elie, tudo dado ao luun- 



3o8 Tida do Br a to 

iln , encontrava-a terrivelmente. Daqui nas» 
cião todos os de>igostos. Tinha por co.sti:me 
esta honrada dona, quando se via rercadii de 
trabalhos, afogal-os todos, e suinil-os no 
^oUo da paixão de Christo ; e desta maneira 
ficava CQjii victoria delles. Antes que morres- 
se , contou ao Sanlo Fr. Henrique seu filho, 
que por espnço de trinta annos, nunra se 
achara no Santo sacrifício da Missa, que não 
chorasse agramente de piedade e compaixfo 
dos tormentos de Christo , e de sua magoa- 
dissima niãi. Disse níais, que lhe acontccêia 
algumas vezes cliegara adoecer de puroam.or 
de Deos (sem haver outra cau^a , tão exces- 
sivo Q sem medidp era o que lhe tinha) e 
que doze semanas estivera em cama sem 
outro mal mais, que saudades de Deos tão 
rivas e acesas, (p.io até os Médicos lhas ei.- 
tendião e se edificavão assas. íío derradeiro 
anno de sua vida, entrando a Quaresma, foi- 
seum dia a uma Igreja , onde iiavia um rc- 
taholo, em que estava figurado de relevo o 
descendimenlo da Cruz AlH lhe foi commu- 
nicada á vista daquellas figuras alguma parte 
da intcnsissima dor, que a Sagrada Virgem 
senlio ao pé da Cruz p;»r maneira , que tam- 
))em a sentia , e jadecia; e foi tamanho o 
ímpeto das dores, que dtsta lhe recrescerão 
de pura compaixão e piedade , que o cora- 



Fr. lÍENRiorE Srso. 3og 

çrTo quasi Ibe estalava no peiio porinaneira, 
qire de a desampararem as forças naluraes , 
caio por terra desmaiada . e ficou sem lalla, 
e sem vista , e sem dar le de nada. ISesle es- 
tado a levarão para casa , e nelia esteve sem 
se lev.mtar da cama , nem fallar palavra, até 
a sesta feira da Semana Santa. No qual dia , 
ao tempo que se cantava pelas Igrejas a Pai- 
xão a horas de Noa, espiíou. Estava então o 
Santo Fr. Henrique , seu (idio, em Colónia 
estudando. Apparereo-llie a ])emav(ínturada 
inãi em revelação , e cheia de estranha ale- 
gria disse-lhe: Ro.go-te, fdho, que ames sem- 
pre a Deos, e tem por certo , que nunca te 
desaníparará em nenhum trahalho , cjue te 
venha, Vês-nie aqui, já vou fora do mundo, 
e não sou morta, antes agora \ivirei elC! na- 
menle com Deos. Então heijando o filho 
amo/^osamente na face, e lancando-lhe a 
benção de coração, desappareceo. Elle dcrre- 
lla-sc em la::;iimas, e hiadando apoz d\dla 
dizia: O' santa, e anrh issima niãi miidia, 
sede-me hoa amiira diante d«* Deos. E a^sim 
chorando e soluçando tornou em si. Sen- 
do Fr. llenrifjue mancebo , foi-lhe forçado 
ir-se do (Convento , em que morava , á outra 
terra a estudar: fú Deos ser\ido dardhe por 
com|)afdiciro nesta mudança um homem 
muito ^virtuoso, e que llie fui sempre ver- 



3ro Vida do Beato 

datleiro amigo. Um dia assentados ambo» 
juntos, e lendo fallado de Deos grande es- 
paço, tirou-t) o amigo de parte, e jKidiollie 
em segredo pela fé e obrigação , que iim 
ao outro se tinliàt) , lhe mostrasse as letras 
do sagrado nome de JESU , que tinha escul- 
pidas no peito. Deíeníhase o Santo, e escu- 
sava-se. Mas em fiiu respeitando sua grande 
devoção houve de condescendçr com elle, e 
descobrindo o peito deu-lhe licença para 
Ter bem á vontade arjuella rica jóia de seu 
coraç'ào. Do que eUe não satisieito, depois 
de o ter de espaço contemplado, e notado 
quão cUiramente estava escrito aquelle Di- 
vino Nome, tocou -o tambeuí com a mão, e 
chegou -lhe o rostro, e em fim pondo-lhc a 
boca começou a derraraar muitas" lagrimas 
de devoção de modo, que !>aidiava com ci- 
las o peito do Santo. Depois disto teve o 
Santo tamanho segredo neste nome, qiit 
nunca mais c«.iiseniio ver-lho ninguém , se- 
não foi uma só vez um grande servo de 
Deos, que do me^no Senhor teve licença 
para o ver. Quando o vio teve os mesmos 
effeitos de devt^ção. Uavendo estes dt)us 
companheiros continuado, largos annos, 
sua amizade , e conversação espiritual , 
quamlo se ht)uveião de apartar, despedirão- 
6e um do ouiro com í^Taiide amor, c cou- 



Fr. Ke^triode Scso. 3ii 

certárão entre si, que fallerentlo qualquer 
delles , o que ficasse vivo, pelo íraternal 
amor, com que se nmyvão , clis'=esse cada se- 
mana duas Missas piílo defunto, e fo^^se uma 
dé defuntos á se^runda feira , outia da Pai- 
xíioá sexta. Dahi a muitos anros veio a mor- 
rer o amigo , e o Sant<j Fr. Henrique esque- 
cido da promessa das Missas não liias disse ; 
mas Com tudo lembrou-se sempre fielmente 
delle em suas orações. Estando pois o Santo 
uma Uíaiiliua sentado em sua cella , e quasi 
em exiasi , appareceo-lhe o companheiro em 
revelação, e com voz queixosa e magoada: 
Ah , disse , que pouca verdade a vossa ? Ah , 
irmão, e como vos esquecestes de mim! Ues- 
pondendi) Fr. Heniique, ((necada dia selem- 
l)rava delL' em seussacriucios, repliccju, que 
não bastava , mas que lhe havia de pagar a 
divida das Missas, que lhe prometiêra , e 
cumprir sua palavra , para que, descentlo ao 
Puríjatorii) , o satiírne innocenle de Christo 
lhe matasse o f<'go cruel, em que penava, 
que í;oni isso não tinha duvida , que logo 
sairia daquelle lugar. Cumprio o Santo in- 
teiramente sua obrigação com grande pezar 
do esquecimento, íjue por elle passara j e o 
amigo lui em breve livre da peaa. 



3i2 Vida DO Beato 



C A V I T U L O XLVr. 

Co:^70 appnreceo Chrhto nn Beato Fr. Hcu^ 
lique em j.^ ura cie Suíaj.uLy e o insinou a 
padecer. 



X Oz-se o Santo certo dia diante de Deos 
em oração mui fervorosa e de grfande efíi- 
cacia , pedindo-llie qise o in<iina<;se a pade- 
cer. E apparaceo-lhe ein re\ elação nina si- 
inilhança de Cluisto Criuificiulo em figura 
de Serafim , que tinha seis azas, duas que 
lhe cobrião os pés , e duas as máos , e outras 
duas, com que voava. INas <!uas mais baixas 
estava escrito: Toma a tribulucfio de vonta- 
de. Nas'do meio se continha : Leva a cruz 
com paciência. Nas duas mais altas se devi- 
sava claramente : Apprcnde a padecer ao 
modo de Chrlsto. Contou Fr. Henrique esla 
tísúo a uuía Santa Donzella, a qual, tanto que 
lha ouvio , re«pondeo o seguinte : Sal)ereis, 
meu Padre , que tendes perto novas cruzes 
e tormentos , que convém sofrer, pois Deos 
assim quer. Brevemente sereis eleito Prior , 
para que vossos contrários vos possáo chegar 
mais de perto, e offender-vos mais pesada- 
mente ; armai-vos de soíriaienlo, coufóriíic 



Fa* Henrique Suso. 3í3 

a lição, q»ie tomastes nesse Seraíim. Acoiite- 
Cí'o pais, que no Convento, em qwe o Santo 
então era morador , não tinha entrado ha- 
via três annos esmola de pào, nem de vinho 
de parle nenhiuna, e assim estava mui indi- 
vidado. Houveião os Frades seu conselho: 
tazem Prior a Fr. Henrique sen? lhe valerem 
escusas , nem a resistência , que fazia , vendo 
já contra si armada a perseguição com a 
f^randc íalla , e carestia , que havia de tiulo. 
O dia seguinte chamou os Frades a Capitu- 
lo , e juntos aníoesiou-os, que se encom- 
niendasseai a S. Domingos, pois elle promet- 
tcra aos seus Frades de lhes acudir e dar 
remédio, se nas necessidades se quizessem 
valer de sua ajuda. Estavâo naquella junta 
dous Frades sentados perto delle, os quaes 
disserão algumas cousas de mumiur.i: ilo 
delle. Mas o Santo perseverando em seu pre- 
posilo , tanto que amatiheceo, niantloii 
cantar urna BFissa de S. Domingos , para que 
lhes acudisse com o mantimento de que li- 
nhão necessidade. Estando em pé no (^òro, 
e engolfado em muitas iníaginaç')es, veio- 
Ihe dar lerado o Porteiro, que o huscava 
um Cónego. Fra o Coueg») homem rico , e 
parlicul.ir amigo do Santo. Quando chegou 
a elle tlissuj-lhe: Tenlio sal)ido, Padre e 
Senhor meu, que exilai» em falta do que 



3i4 Vida do Ttata 

cumpre para manter esta Casa; e fui aTÍsado 
esta noite do Geo , que em nome de D cos 
vos soccorresse. Por isso em principio de 
ajuda vos trago estas vinte lihras de moeda 
de Constância , e confiai en Deos , que não 
vos ha de des.^mparar. Ficando o Santo 
cheio de alegria, rece])eo o dinheiro , e man- 
dou logo comprar trigo e vinho, e assim 
com o favor de Deos , e do Padre S. Domin» 
gos governou, e proveo a Casa ahastadr.men- 
te , em quanto íoi Prior, e negociou que a 
não oI)rigassem ao pagamento das di>jdas 
passadas. Este mesmo Cónego, estando para 
morrer, deixou cm seu tesramrnto grossíssi- 
mas esmolas para se distrihuircm por varias 
partes a disposição e alvedrio do Santo. E 
mandando-o chamar, porque o Mosteiro, 
em que servia de Prior , era na mesma terra, 
entregou-lhe uma boa quantidade de moeda 
em ouro , para que elle a repartisse por ou- 
tros lugares, entre pessoas pubres , e virtuo- 
sas, que por aspereza de vida penitente esti- 
vessem já inn tiles , e sem íorc^as para traba- 
lhar. iMiiito contra sua vontade acceitava o 
Santo este dinheiro, arrecea!)do as persegui- 
ções, que depois lhe causou. Mas em fim 
levou-o vencido da amizade ; e jiondo-se a 
caminho, semei>u-o , conio promellèra ao 
amigo, por onde espera\a seria mais pro- 



Fk, HfiNRiQUE Suso. 3l5 

Teitoso á sua alma, e teve ruidaclo ãs o 
fazer cotn testemunhas dignas de fé, e d.ín« 
do estreita conta de tudo a sens superiores. 
Mas não bastou nada para deixarem de se 
llie levantar daqui grandes contrastes. Por- 
que o Cónego tinha um filho bastardo , o 
qual, depois (jue des!)3raton e consuinio toda 
a íazenda, que o pai lhe deixnu, desbaratou 
também a vida e a ahna. E assim deu em 
perlender com tern.o e cobiça desenfreada 
o dinheiro, que o Santo recebeo. Vcndo-se 
desesperado delle, man(h)u-lheaffiíin.ir com 
juraníento, que onde uner que o topasse o 
liAvia de matar. E tal foi o ódio, que lhe 
tomou , que nunca ninguém o pôíle miti- 
gar por mais que se tentou. Em fjm ellc se 
deterníiiuui de todo em todo nialar o Santo, 
o quaí, vc!ido o perigo , e vivendo enj contí- 
nuos receios , não ousava sair por fora livre- 
riicnte com medo da morte j e levantando os 
ollios a Deos dizia suspirando : x^h , Senhor, 
que género é de morte o que determinais, 
que deseslradamente me acabe ? Accrcscen- 
tava-lhe a desconsolação saber, que havia 
pouco, que em outra Cid.ide íòra morto 
Tim Erade honrado por causa similhanle. 
Nunca o afíligido Santo achou ninguém 
que se atrevesse, ou«qiiizesse valer-liie neste 
enfadaaieulo , pelo muito que obrigava a 



3i6 YiEA. DO Eeato 

todos a ousadia e desatino do mancebo. Fi- 
nalmente tornou-se a Deos, que o lavrou, 
acabando com morte acelerada nni corpo 
rijo e robusto, e na íior da idade, qual era 
o de seu adversário. Para este n)al nào ficar 
singelo, ajiintou-se-lhe outro bem duro de 
levar. Havia certo (loliegio, a quem o Có- 
nego tinba dado muito de sua faienda , com 
que não contentes os collegiaes perlendião o 
dinheiro, que dera ao Santo; e porque lh'o 
negou , accommetterão-no com aniuios da» 
nados, e pozeráo-no em estado do ficar por 
barreira de quantos o querião maltratar. 
Sendo assim que o iufanjarão entre secu- 
lares e religiosos , publicando cora sentidos 
torcidos e intrepretados á peior parte quanto 
íizera em sua vida, e espalhaudo tudo pela 
terra entre toda sorte de gentes, por manei- 
ra , que íizerão que pelo mesmo, que para 
com Deos estava isento de toda culpa , an- 
dasse mal julgado diante dos homens; e se o 
negoeio c'o tempo se ia apagando ou esque- 
cendo , tornavão-no a atiçar de novo , e 
não cessarão muitos annos até deixarem o 
Santo bem moido, e atropellado. No tempo 
q<ie assim andava perseguido, appareceo- lho 
muitas vezes o Cónego vestido ricamente 
gUi uma roupa verde, toila semeada de rosas 
ncarnadas ; e Uissc- ao SaiUo, que eslava 
e 



Fn. Hl!?rique Slso, 3iy 

bem; e encommenclou-lhe, que levasse 
ooin paciência a cruei senirazão , que por 
sua causa lhe i^aziao , ficando certo, que por 
Deos seria brguissitnamente consolado. E 
pergiintaudo o Santo, que í-ignificava aquel- 
le tortuoso vestido, que trazia , respondeo 
assim : As rosas vermelhas em campo verde 
signiíicão os trabalhos, que padeceis, e o 
sofrimento com que os passaes , que são 
duas cousas, com que vós me ataviastes da 
mauciía, que vedes, e por ellas vos vestirá 
Dcos eternamente de si mesmo. 

c A p í T x; L O XLVir. 

Em que o Beato Fr. He?iriqne ensina cnm um 
successo seu , quão necessário c pelei jar va» 
lorosanieiite , quem periende alcançar vito» 
ria espiritual, 

li Oj principies de sua conversão desejava 
ir. Henrique por extremo contentar a Deos, 
mas queria que fosse sem trabalho, nem 
pena sua. Acontecco pois qiu', saindo uma 
vez a pregar pela comarca th» lugar, onde 
morava , entrou em uma náo no la^jo de 
Constância, c topou nella entre outros com 
um mancebo mui geutilhomem , c loueâa- 



3l8 ViDi DO DeATO 

mente vestido. Gliegou-se par.-^ e-leo Santo, 
e começou-llie a jjerguntar quem era , e do 
que vivia. Ao que o mancebo responcleo, 
que seu otficio era assistir entre fiíi.ilgos em 
justas, e torneios, e ensinar este, c outrt»5 
<íxerciiios. E ajuntoji r.ais , que estes taes 
erão mancebos , queservião f()rn:osas damas; 
e o que enlre todos se mostrava mais esfor- 
çado , ficava com a victoi ia , e se Hie dava a 
honra , e o preço delia. Per^^nntando o Santo 
qual era o preço, respondeo : que a dama, 
que em graça e geiulleza , se a\antajava a 
todas, as que erão presentes, lhe metlia uni 
annel douro no dedo cm premio de seu es- 
forço. Inquirindo mais o Santo, que cumpria 
fazer a quem pertendessc alcançar esta hon- 
ra. A honra , disse , ganiia só a({uelle, (}ue 
sofre mais pesados golpes, e maior trabalho 
sem cansar, nem quebrar de animo , antes 
cada vez se mostra mais duro e mais inteiro , 
e deixando-se icrir de todos não se dobra, 
liem al)a!a com nada. Dizei-me, rogo-vos , 
tornou o Santo , se basta sair um íiomeui 
bem da primeira alronta. iSão, respondeo , 
antes é íorçado manter o j<^go alé o cabo. E 
ainda que cáião tant<ts golpes sobre elle, 
que lhe facão sair logo ptdos olhos, e rel)en- 
tar o sangue pela bò<a e nari/es, tudo lia 
átí sofrer, se quer ficar com houra. Replicou 



Fn. Hzr^RiQUE Suso, Srj 

outra vez o Santo d<?sejoso de llie nao ficar 
nada por saber. Sofre-se, dizei-ine, chomr 
um homem, ou torcer o rostro , em quanto 
dura a força desse combate? Por nenhum 
caso, disse o mancebo; e ainda que o cora- 
çiio lhe morra denlro no corpo , como a mui- 
tos acontece, <:ouvém fazer semblante 
alegre. Porque do contrario lhe nasceria 
ficar um alvo de toda a 7,ombaria e riso, e 
perder a lionra e o annei. Tendo Fr. Hen- 
rique ouvido as cousas, que temos contado, 
obrigarão-no ellas a entrar em si , e dando 
um suspiro saído dalma tlisse: Ah sobera- 
nissimo Deos , digno só de ser servido sobre 
toda outra cousa, se os cavalleiros deste 
mundo se obrigão a padecer tanto por tão 
fraca paga , que em fim nào é em si nenhuma 
cousa, quanto mais razão será , que entre- 
mos em n^óres afrontas por alcançar a glo- 
ria eterna ! O' quem feira merecedor, piedo- 
síssimo Deos , de estar assentado nos livros 
da vossa espiritual milicial O' formosissima , 
ó Eterna Sabedoria , com cuja graça , e boa 
sombra não ha no mundo cousa , (JU(í tecdia 
comparação. Se vós me quizesseis dar este 
annel, a ceei tara eu a essa conta padecer tudo 
quanto vós niandareis. E começ<m a chorar 
eom grande fervor. íMas tanto que chegou ao 
lugar para onde caminhava , vierào sobre 



3ao Vida do Beati 

elle tantas, e tão Ijravas trlhultirões , que 
quasi chega>a a desesperar de Deus ; e muita 
gente tliorava de lasíima delle. E nm dia, 
perdida toda a memoria da ^alo^osa e in- 
cansável niilicia, a (|ue com tatuo gosto se 
oíTerecèia com lagrimas em íio, e al^^um 
tanto impaciente contra Deos , poz-se a 
imaginar que razão haveria paia Deos o tra- 
tar tão mal. Na maubiTa seguinte, antes de 
esclaret er o dia , estando sua alma em um 
roubo dos sentidos gozando de uma saborosa 
paz e quietação , sentia que interiormente 
lhe íallava uma voz desta maneira : Ofide 
está agora aquella excelienle .milícia, que 
professastes ? aquelle valor estremado, que 
promettias? Assim passa sohlado de palha, 
e homem de trapos , ou vilmente envolto 
nelles , orandes (onfiancas na bonança : e 
em se toldando o tempo , logo espíritos que- 
])rad(»s, logo amos mulheris Não se abanca 
por certo desse m(ui<) aquelle eterno annel , 
que tu desejas. .Verdade é, resjíondia o Sapi- 
to; mas, Senhor , as l)atalhas, cm que me 
vós metíeis, e t:m (jue convém engeiíar-me 
eu a mim, e laigai-me em vossas mãos 
aturando o peso dcilas, são demasiadamen- 
le tontinnas. A jsto se lhe deu de improviso 
esta resposin: Pois tand^em a i.onia, a glo- 
ria , e o aunei uoò meus soldados, a que cu 



Fr. Henrique Suso. Sai 

liOTiTcr de honrar, é tudo |^erpetno. Caindo 
o Santo na conia com estas palavias, e cor- 
vencido delias disse cem giande hi n ildade: 
Dijj^o minha tuljja , Senhor meu ; Tf)^o-ios 
sóinerite que me deixelí) fartar de choiar, já 
Çbe este meu coracào total meiíie rio pócle 
ter as lagrimas. Mas o Senhor: Ah vergo- 
nha, disse, queres chorar couio mulher? 
Deshonrar-le-has de verdade diante de lodos 
os Cid.idàos do Ceo. Aliujpa os oUios, faze 
bom rostro, que nem Deos , nem os homens 
entendáo de ti, qui; choras de altrihi h do» 
Começou então a rir um pouco, conciido- 
Ihe todavia as lagiimas cm abundância, e 
prometieo a Deos de não chorar d'alii cm 
diante mais , para poder merecer c alcançar 
o anneL es^jiritual. 

CAPITULO XLVIII. 

Como, pregando o Santo, lhe resj)landccco ê 
rostro ccino o Sol, 



JL Rc^gava o Santo Y\\ Kcnviqne uma vcs 
cm Colónia mui de proposilo e < on» grauííc 
fervor, e estava presente um no\o M-ldado 
da milicia de Christo , cnliado de | ( i < os 
tlias iiO caminho da pcríc.çáo, o cji ai ancúva 

] I 



Sas Vida do Beato 

assas atribulado. Estancio este homem c*of 
olhos e attencão proniptos no Santo , vio 
com os olhos d'ahna trocar-se-lhe o rostro 
em uma claridaíle por extremo agradável ; e 
notou, que ires vezes ficara tào resplande- 
cente e claro , como é o Sol , quando o ar 
está mais puro. De maneira , que sem ne- 
nhum estorvo se pôde estar vendo nelle, 
como em um espelho. Teve poder esfa visão 
para o dei.ar asseis consolado e animado- 
em seu trabalho, e para o coi. firmar na santa 
fida , que começava a empiender. 



CAPÍTULO XLÍX. 

e ultimo. 

Da deçoeiOf que o Beato Fr. Hc^nrique tinha 
ao saudável nome dd JESV. 



X Assando Fr. Henrique de Alh^manha a 
alta para Aqni^grano em romaria a uma 
imagem da Viij^em 'gloriosissima Senhora 
nossa , que natjiiella Cidade ha de muita de- 
voção, ^iu tempo, que se tornava , appare- 
ceu a mesma Senhora a umi santa donzella , 
e disie-lhí3: Eis [uo é vindo o .Ministro de 
meu i''ilho , e deixa espalhado por ioda partt 



Fn. Henrique Srso. 323 

seu suavíssimo Nome com íerTor admirável, 
roíiio ontigamente fizeião seus Apóstolos. 
Que assim como elles desejavão persuadir 
ao nuiiulo todo a féChristria, e ílar-llie a 
conhecei- aqueile Santo Nome; assim Hen- 
rique se occupa , e emprega todo em o en- 
tranhar em todas as almas frias coiií um 
Jiovo ardor e caridade, e em íazer , que este- 
ja vivo e aceso relias. 1-elo que depois de 
sua morte tan)bem terá seu galardoo com os 
Santos Apóstolos. Passado isto , tornando a 
<lonzclla a por os ollios na Sonhora , rio 
que tinha na inã.o uma formosa candea , 
que ardia cora \anta claridade , que alhi- 
miava toda a teria, e toda em roda esta- 
va seuieada de unias letras, que roiJtií;hí:o 
o Nome de JESU. Disse entào a Mái de lUos 
para a donzella : Esta candea acesa significa 
o Nnatji*. rlp JFSTT j nome , que na verdade 
€ luz de todos os corações , tli^jo daqueílcs', 
íjue devotamente o agasalhao e veneráo, 
e o trazem cf)msi^o com afíeclos de amoi (í 
piedade Chrislãa. E a esle fim es(olheomeii 
Filho a Henrique por seu Ministro , para 
que por seu meio ^^uidodo tome seu 
íiome fogo com chammas <le alvoroço, e <le- 
\'ocão em muitas almas, que ganhem dahi 
avantajarem-se no caminho de sua salva- 
ção. Esta mesma donzella, depois que notou 



5^4 Vida do Béíto Fr. íÍenriqte Srsc* 

cm muitas cousas, ler o Santo , fjue era seu 
Padre espiíiunl, uma niaiaviuiosa fé e 
ílcvoíjao neste suavíssimo Nome de JESU , 
coiíio quem o esculpira com suas mãos na 
própria carne sobre os peitos, começou tan^ 
bem a amal-o "veheinentissimamcnte; e to- 
mando um pequeno panno , bordoii-o nelle 
com uns fros de seda carmesim , querendo 
trazei-o conislgo secretamente. E por cble 
modo fez um numero iníinito de nomes, e 
acibwu com o Santo , qr.e os tocasse todos 
em seu peito. E depois lançando-llie a ben- 
ção os mandasse por toda pane a seus con- 
fessados. Teve depois esta Santa uma reve- 
iacào , em que foi avisada da parte de Deos , 
que toda a pessoa, que por aquella ordem 
trouxesse comsiofo o sacratíssima Nome de 
JESU, e á sua bonra rezasse cada dia a 
eraçfio do Paler uoster , o mesmo Senhor a 
trataria coru amor nesta vida , e usaria de 
misericórdia cota ella na outra. Sirva-se 
Christo JílSU nosso bem de nos fazer a 
todos esta mcrcc. Ainen. 



325 



SERMÃO L 



DO 



Santo Fr. HENRIQUE SUSO, 



DA ORDEM DOS PP.LGADORES 



De como se vencerão algumas tentações molestlssiinai 
aos que de novo se toruão de véias a N. Scuhor. 

Traduzido de AUeinxo cm Latim 



CARTUSIANO ; 

í agora de Latim cm Portut-iiez por um ReVj^ioío ds 
Ordem doj Prét-aclores. 



Lectidus fioslci' floridas, 

ALgiins lia que sã!> vexados de perplexos 
escnipuios de consciência , c graiuicinente 
atormentados náo achnitiem remédio, nem 
querem seguir conselho; com o que náo 
dão lugar, a que o Serdior JESU taça em 
seus eoiaçóes morada; pela sua grande in- 



32 6 Sermão do Beato 

quietarão, a qnal Jcveráó lançar uc si muito 
longe. (juer. o Senhor JESU ser ngasalhndo 
em consciência pura, variada de divetsas 
flores de virtudes : e com quanta rasão ; por- 
que quão dissimilhante é um leito, ou prado 
cuberto de rosas, lirios, e varias flores para 
se nelle descansar suavemente, do campo in- 
culto clieio de espinhos, cardos, e abrolhos, 
tanto ditíere da consciência de um animo 
desordenado da de uma alma bem concer- 
tada. As dilicias do Senhor sfío descancar em 
morada de flores; o que bem o entendeo a 
Esposa Santa nos Cantares quando desejando 
ooziir dos amorosos abraços do Esposo disse: 
LectuIiLS no^tcrfloridus. Como se dissera : O 
llialamo está fechado e perfeito , o leito de 
nosso amor é cuberto do flores : vinde pois 
amigo desejadissimo , que já nno falta mais, 
que fazerdes, que esta alma descance nos 
Ijraços de vosso immcnso amor. 

Porém alguns homens ha , cuja consciên- 
cia não é ornada do flores , mas lem o cora- 
ção feito um u»or tório de esterco , e immun- 
dicias; estes são aqutílles , cujos vicios se dcs- 
■ aforÁrão, gente entregue aos vãos pensa- 
me!:tos e honras do mundo, dos quaes não 
ha que tratar cm este lugar. 

Outros ha que padecem tentações occul- 
tas dentro no interior de suas almas , as quaes 



Fr. Henrique Srso.' 327 

jiiTicía que sejáo muitas , entre todas com 
tudo ha três tão molestas e pesadas , que 
outros se lhe não podem comparar. A pri- 
meira é desordenada tristeza , a segunda de- 
masiada afíhcção , a terceira grande e vehe- 
mente desconfiança de remédio. 

Quanto á primeira é necessário saber, 
que o homem ás vezes é opprimido de tão 
grande meUincoHa , que nem vonf.nde tem 
para obrar cousa boa, nem ainda forças, e 
«'^{ue mais é, que nem conhece o qtie lhe 
falta, nem percebe a cansa da dor que pa- 
dece, inda que faca muito pela descobrir. 
Este sentimento parece que quiz em si de- 
clarar o Santo Rei David quando disse: 
Qiiare trlstis es anima mea, et qiiare contar" 
has me? Como se dissera : Alguma cousa te 
falta, mas nem tu, alma, sabes o de que ne- 
cessitas. Espera em Deos , e melhoraras, 
porque ainda lhe hei de cantar h)uvores com 
gosto. Esta tristeza muitas vezes nasce da 
complexão natural , o que é para sentir, 
porque a muitos faz deixar o Ijeni que co- 
meçárfio. Pelo que é certo, que a 'ícnhuni 
dos nascidos é mais necessária uma invenci- 
Tel constância e h)rtaleza decoração, que 
áquelles que se apostfio a entrar em batalha 
com os vicios , tom animo da alcançarem 
tlellea \ictoria: porque se o hoiucm tstiver 



3-25 Sermão do C£a.to 

no animo ])em firme, ajudado da ginça d© 
Espirito Santo , que moléstia corjDoial ii.i- 
verá, que o possa enfraquecei? c pelu con- 
trario, como poderá viver se continua mento 
trouxer o coração apertado de afíliccóes , e 
carregado deste deleixamento? Peli> que 
deve cada um procurar com todo o cuidado 
livrar-se deste mal. E se me perguntarem 
como se poderá ver livre delle, notem bem 
o erieujplo, que se segue : 

A um Ministro da Sabedoria Eterna no 
principio de sua conversão accommelteo 
com tanta íorça este desordenado aífccto de 
tristeza, que nem podia ler, nem orar, nem fa- 
zev alguma outra obra boa. liste pois um dia, 
estando sentado na sua cella, grarulemente 
opprimido deste mal , e com g^^ande dor e 
magoa, ouvio uiwa voz de cima, que lhe 
dizia intelectualmente: Que estás aqui assen- 
tado ocioso consummindote em li mesmo? 
lovanta-te , e póe-le a meditar com devacuo 
na minha morte e paixão; e com a memo- 
ria das dores, que nella padeci, sete alliviará 
este tormento. O que ouvindo aquelle Reli- 
gioso lovanton-se , e pòz-se a meditar na 
Paixão de JESU; e do ponto, que comectm 
este exercício, lhe fcd mezinha tão saudável 
que nunca mais sentio similhante aflliccão , 
que, v,iU'ndo-sc do remediu Divino, não fos- 
se aliiviado. 



F». Henrique Suso. 829 

0;:tra tentação interior c uma agonia , 
c aperto (lo espirito: os que padecem esttí 
luaí cliegão a conhecer que liies íalla alguma 
cousa , isto é , que não estão bem conformes 
com a vonlíKic de Deos. Nasce este tíc"Í'> do 
fazerem mais caso , do que convén>, daqiuUo 
de q!ie se v.?.o deve fazer conta , especiat- 
mente da affllcçào, que por permissão i3ivina 
interiormente padecem. Quatro são a5 af* 
ílicções, que podem molestar o coiacão liu* 
ri)n!i{>, as quaes ninguém pode crer quão 
duras sejão, senão quem as experimentou ^ 
ou a quem nosso Senhor deu espirito para as 
entender. 

Por quanto no «m que devia o rstes 
miseráveis sentir algum aliivio, que é em s*. 
t(jrnar a Deos, ahi são mais gravemente ator- 
mentados, vindo-ilie então os mais perver- 
sos e abomináveis pensamentos contra Deos : 
pjorém estas tentações nfio são pesadas por- 
íjUe causem algum mal grande na alíua, mas 
por causa da grande moléstia , que delias nà 
recebe , com que atravessão o coração. 

São pois estas tentações duvidas, e 
pouca íirmeza na fé, desesperação da Divina 
I\Tisericordia , pensamentos de bla>lemia 
(ouiia Deos, e seus Santos, e sobre tudo 
tlescjtís de se tirar a vida por suas mãos: ile 
Iodas as quaes não deterniino tratar, mas st» 



33o Sehjiao do Beato 

tia que está em segando lugar , da desespe- 
ração da Divina Misericórdia. 

Esta desesperação pôde nascer de três 
causas, de nfio sal)eieju bem considerar, 
que cousa é Deos, que cousa seja peccad<i 
mortal, e que cousa seja contrição verda- 
deira. 

Deos é fonte de Misericórdia, que não 
se pode esgotar ; e de natural tão benigno , 
que nunca pôde baver mãi tão pia , que 
\endo um tilho de suas entranhas no meio 
de uma fogueira lhe acuda com mais pressa, 
liem maior vontade ao tirar do fogo , do 
que Deos acode a receber um peccacíor ar- 
rep' ndido, ainda que , se fora possivel , ti- 
vera cada dia muitos milhares de vezes com» 
inetlido todos os peocados do mundo. 
Donde vem logo, ô l)enignissimo Senlior, 
que sejais para alguns tão amável , e que al- 
gumas alma^ tanto sem par se alegrem em 
vós , e reccbão de vós tantos júbilos espiri- 
tuaes ? Por ventura atti ibuir-se-ba isio á 
sua innocencia ? n;To por certo : mas conu> 
conhecem bem suas culpas, e quão indignos 
s'io de pordes os olhos nelles , e que sem 
embargo de tudo, sem teides necessidade de 
ninguém , vos communic.íis ião liberalmen- 
te, dando-vos a vós próprio, conhecem que 
esta é a causa, por quw vos gint*fiw «ni leui 



i 



Fr. Henrique Suso. 33; 

novações Senhor tão grande e tão suave. 
Píirqiie na verdade tão fácil vos é perdoar 
um, como mil talentos; dar perdão a um 
só , como a innumeraveis peccados mor- 
taes. Vence sem falia esta vossa benigni- 
dade e clemência a toda a lijjeralidade e 
mansidão, porqne nem estes , qne isto co- 
nhecem, poderáõ nunca dar-vos as devidas 
giaras ; por isso derretem suas almas, e co- 
rações eia vossos louvores : estes sem falta 
são para vós de maior honra e louvor, do 
que se nunca peccárao, vivendo com frieza e 
com menos amor , como se pôde bem pro- 
var com as Escripturas , porque não attenlais 
(como diz S. Bernardo) o que o homem foi, 
senfio o que desoja ser com aflecto de seu 
coração. Pelo que totlo aquelle, que vos ne- 
gar o perdoardes peccados , ainda que seja 
])or tantas vezes, quantos são os momentos 
lio tempo, sem falta é rouhador e ladião 
de vossa grande honra. Porque o pcccado 
vos trouxe do Ceo á terra , a vós, digo,lie- 
demptor tão piedoso , e tão amável , que 
em todos os momentos com grande prom- 
pti'lão estais aparelhado para nos receber d 
vossa graça. 

Quem por esta razão souber ponderar o 
quem Deos é (dé-se David por fiador) não 
jnjdtMii desconfiar de l)eí>s, nem dose.-^peiar 
dtí sua Divina Misencoidiii. 



332 Sermão do Beato 

O segundo, que não sabem considerai, 
é, c.ue cousa seja peccado. Na verdade aquil- 
lo só se ha de ter por peccado no que o 
liomem com deliberação certa, com adver- 
tência , e vontade, sem reclamar a raíCo se 
quer apartar de Deos, e passar á maldade. 

Mas se uma alma ainda em toilos os 
momentos lhe vem máos pensamentos, pos- 
to que sejáo tão encerrados, que nem o co- 
ração hun»auo os possa formar, e tão fci'>s , 
que nem a hngua os possa pronunciar, do 
que quer que sejão , ou de Deos, ou das 
creaturas : e posto que este homem ande 
\\m e outro anno , e muitos annos neste 
estado , sem os' poder nunca lançar de si , 
como os aparie com a razão superior, e lhes 
resista e repijf^ne de sorte , que nunca 
lhes de consentimento com plena delibera- 
rão, e inteira vontade: e postt) que anile a 
braços com o peccado quando a natureza 
padece este trabalho, seja certo que nunca 
commeltepeccado mortal: o que se pôde pro- 
sar com as Sagiadas Leiras, e sentenças da 
I^i^reja Catholica , pelas quaes nos ensina o 
Espirito Santo. 

Mas fica aqui escondido um aperto, que 
é umsulitil fio, queaqui pôde haver: este é, 
de aquelle a que vtMu um mão pensamento 
destes lhe dá olho» com alguma deleitação , 



Fn. HENRíQtJE Srso. ^33 

%iim pouco esquecido de si não tira dclle 
lâa de pressa o animo, porque cuida que por 
ist( só conseutio deliberadaihenle , e que 
3cm temor do mal, que se íaz , assim com- 
me!<!o pcrcado morial: o crue estamos mui 
Icngt de crer , por qi;anto é parecer de mui- 
tosSa>tr.ç Padres, qu'j sobreviudo-nos grnude 
imporliuacão de pensamentos n;áos, muitas 
■vezes a razão se move com a deleitação , e 
rSio por pouco espaço, mas por tempo lar- 
o, pnmfciro que a própria ra/ão possa fa- 
jr inteira leliheracão errada, e que então, 
'-3 admiltir , ou rejeitar os taes pensamentos • 
se diiá que r,ói\e conr.neUcr peccado mor- 
tal , ou resiftii. 

O que coi.-,o seja certo, não ha para que 
tcnlião estes par.i si , qric crMumclLêifio pec- 
t;ulo mortal, se é que querem darcrédlto in- 
terior á dor.trina calliulica. S. Aííostinho 
diz: que o peccado c ião voluntário , que se 
náò for voluntário, não será peccado, don- 
de aífirnjiTo os l}í)Ut(ircs , que se só Ev-a 
comera, sem Adão consentir c(;m ella n:;. 
culpa, nenlium dr.mno se nos seguira. Da 
própria maneira . por Uiais pensamento.-^ 
uiáos que se leAa'Mjui na parle scnsili\a, !>e 
a razão Il.es nf.o der seu ra\or, e tonstnli- 
niciito , nunca ^^adcn» faztr pecíado níortal. 



334 Sermão do Peat«» 

A terceira ronsa , que lhes omi-c» o * 
estes, é (n:c não s;iljcin ponderar , que ^ja 
Terciadeiía contrição. E a conlriíão v"»* 
virtude , (jue livra a hotneni de seus |)t<(a- 
dos , se for jnnta corn a disciição doi'i.i. 
Porque a conlriçào indiscreta (como /liz S. 
Bernardo) desagrada a Deos. Jtida5 qije ven- 
deo a Christo Senhor nosso , e Ca^ín que 
malon seu Irmão, ainhos se c(»*íe>iáiáo 
peccadores, nins desesperarão , e assim não 
lhes faltou penitencia e dor de jeus pecca- 
dos, mas foi sem o modo e f)rdem , que 
convinha. Um disse : Pequei (^tregando o 
sangue do justo. Outro: É la/nanho o meu 
peccado , que não ni?rece pei"dão , é maior 
o meu peccado que todo o perdão. Assim 
dizem muitas vezes estes, de que imos fal- 
laudo , com desordenada contrição. Mal é 
"vivermoj: ó se já acabáramos? E muitas 
outras COUS13 deste género , com que mais 
offendem a Deos , que cam os próprios pcc- 
cados, que temem commetter. 

Ajiielle pois, quu deseja aU\inrar verda- 
deira contrição e penitencia de suas culpas 
^e peccados, por mais tornes e inormes, que 
lhe parerão, seja cm si 1 u.niUhi, abi>rieça-os 
de todo corarão, c tenha firme confivinça 
eui Djos nosso Senho • , que elle como ver- 
dulji.a mjdií.ô de nossas almas só lhos pode 



Fr. HENniQrE Sr «o. 335 

Mirar. Daqui veio dizer a Sclíecloria Fterna : 
flho, na\ua fraqueza não le tlesestinies a 
ti ,n)as roga ao Seiilior , que elle te curará : 
ikIo será grande fatno iuRielle que , porque 
vè lie fiilla um ollio, se arrancar o outro 
por sias pioprias mãos? 

^«íis cousas porém se podem c devem 
ronsidirar nestes medrosos corações , que 
relles si soem adiar. A primeira , que te^do 
o jnizo -ivai errado e alheio da \crdade, 
nfio qnernn dar ciédllo a quem devem se- 
guir, e nuaiio menos áquclles , que lhes 
dao I azoes ,com que pudèrão recehei' con- 
solação ealHio, dando peh) ctiutiario intei- 
ro ciédito áqtcHes, que Uses dizem cousas, 
com que se li^ agrava o mal e a moléstia, 
que padecem; oquu lhes succedc por causa 
da (iòr, que iraTj-m na alma quasi contiinia- 
nienie. Também em outro mal, que decla- 
lão facihncnte todos os seus trabalhos e a 
causa, com pretexto de pedir consch-,çào 
e ajuda , e não co^vém ser assim , pois c 
certo que pouco, ou neiílíi.m proveito tirão 
de aqui ; antes qnanth) buscfio muitos mais 
remédios para seu mnl , ta!:lo m.tis força 
toma a afílicção , que pndectm , fòra-lVics 
bnm conselho buscar algr.m varão tenienfr 
a Deos de letras e expeiientia, a quem ec 
«níregassem tlc IcTo o coração, dando-lhc 



*3^ SermÍo do Bea^to 

inteiro crerllto sem replica , n;m gcnciv 
algum cie duviíla, porque no jiiizo íina^a 
esie, e não a elies pedir.í Deos conta de 
suas almas , se pelo menos de sua parte -ite- 
rem o que nelles é, para seu remédio. 

O segundo , que os inquieta, é um liedo 
conlínuo e vão de nunca ihes parecer que 
se conrejsrio bem , por mais lotr;ulo (<ie seja 
o confessor, que os ouve: também e<es, por 
mais q;ie trabalhem quanto em si à , nunca 
cIi3g.To a ter a verdadeira tranquilidade de 
nnimo , e paz de coraçrío : a caus^ é , porque 
nfío sabjui muitas vezes que p^ccados hão 
íIb coufcisar expressa e di.stiuct;mente. Certo 
é que só os peccados laortaes^e hão de con- 
fessar , dijo, é necessário co-lfessar expressa 
e discinctu mente ; dsjs maisbasta fazer uma 
mensã-j geral. E como quef que nas Tenta- 
ções , de que temos dito, não ha peccado 
mortal, não ó n<'cessario, nem co!ivém qu« 
os coníeisem toljs pe.'o miúdo expre^sa- 
inanle; l>asta dizelos em sjeral seiíundo a 
prudência do c:in!c'S5(jr; porque esta escru- 
pulosidade de coato^siar tudo pelo miuilo é 
traça do demónio para tirar a paz da coií- 
sciencia e quietação da alma; e portanto se 
Ihi d^ve reilstir com lo lis as forças ; pois 
ve:n:)5 que quanto mais se obedece a estes 
t'..-.\i,):il-)i , yinio mais crescem, c tanlo 
r.Kiii embarac^a fi'ja a couscienci*. 



Frí Henrtqte Suso. 33^ 

o terceiro erro (]'estes , que nun* to pe- 
noso se lhes íaz , é que queieiu ler srien- 
cia, e certeza igual das cousas , em qtie a não 
póile haver; querem saher tle certo se lem , 
ou não tem pescado mortal , sendo cousa 
averiguada segundo nossa fé, que ninguern , 
por mais Santo que seja , prxle nesta vida 
saher se está em graça , se Det^s llTo não re- 
velar. O que hasta nesta paile é, que feito 
diligente exame de consciência, nào »e athe 
iiella peccado mortal certo. Assim que q«;erer 
saher isto com maicir certeza , nasce ile 
ignorância , com>í se um nienino quizer sa- 
ber o que :» liei tinha no seu c»nacrio. Por 
tanto assim como o doente lefu ol»rii:acão 
de crer ao medicív do hcm , ou nuil de sua 
enfermidade , como aquelle que meihor en- 
tende a doença do próprio eníermo , assim 
os h'!mcF)s desta laya tc.n (íhii^Mcão de crer, 
e obedecerem tudo a um confessor piu- 
dente. 

O quarto erro destes é que são tentados 
de impaciência contra Deos , a qtial procede 
án mesma affliccão , qtie pa'lecem; porque 
Como nã » são provados em outros trahallios, 
aconlece-lhes o que a um cavallo duro do 
freio, iridí)milo, alado ao corhe , o qual, 
depois de muito coucear por se livrar, de 
cansado vem a se sogeitar, e pouco a pouco 



338 Sermão do De ato 

amansa das primeiras fúrias. Assim estes em 
quanto se oppóera ás suas afíliocóes traba- 
lhando muito por se livrar delias sem aca- 
barem de se sogeitar , e resignar de todo á 
divina vontade, roníórnies em sofrer estas 
cousas quanto for ordem de Deos , são pof 
isto gravemente atormentados; nem se po- 
dem livrar delias , porque núo \^óáe ser 
menos que piulecel-as, até que Deos ponha 
os olhos em seu trabalho e sofrimento, o 
qual só saln^ quando Ihics convém serem li- 
vres dtilas. Peio que nenhumíf^cousa é mais 
necessária para reriíedio deste mal , queresi- 
gnar-se e oííerecer-se uma alma com grande 
humildade , para as sofrer em quanto for 
vontade do Senhor, e pedir-lhe ajuda com 
pacieucia , valendo-se das orações dos bons. 
O quinto erro , e o maior euíjano em 
que andão, é querer responder a todos os 
niáos pensamentos, crendo-os, e respon- 
dendo-lhe , e com razoes procurar conven- 
cel-os, -vindo a disputa com clles. O que se 
deve evitar com grjmle cuidado ; porque 
pelo mesmo caso que se põe a lutar com os 
taes pensamentos , seembaracHo, e deixão 
perder de sorte, que lhe não fica saída por 
onde lhes possão encapar. 

Pelo que o mais acertado e seguro con- 
«elho é , tanto que vier um pcLsameutu 



Fií. Hl^rique Slso. 339 

destes, sem coiítí-^nda, nem nrginnento, e 
sem pôr.; algum estorço por lhe r^iisistir , o 
mais d« pjessa que puder divertir-se, e pôr 
o sentido em a primeira coiisn que acertar 
dever, ouvir, 011 conliecer. Corno se dis- 
sera : lá íe liavém com teus susunos , que a 
mim me não tofão;não é a-Cua maldade 
para alguém t^ querer responder. Porque 
na veidade quanto menos caso se faz destas 
importunações, tanto mais de pressa se des- 
fazem ; e assim se deve repelir este remédio 
uma, e outra vez, até qtie fique em uso. 
Porém estas cousas só as alcanção os que em 
si as cxperimentão. 

O sexto engano é , quanto mais sagrados 
são os tempos , e quanto elíes de melhor 
vontade se cliegão a Deos , tanto é maior a 
sua afihcção, de sorte que nem um Pater 
nosler ^ ou A^^e Maria podem dizer sem estes 
susurros diabólicos: d*oude os pobres, vindo 
como em desesperação, deixão a reza, e 
(hzem coiijsigo : Que me podem aproveitar 
orações túo cheias de torpez.is? N<> (pie crráo 
grandemeiíTe , c fazem a vontade a seu ini- 
migo , CUJO intento não é outro, que fazer 
com que tenhão pouca estima dos exercicios 
espirituaes, lhes pareção de nenhum pro- 
veito, e por isso os deixem ; sendo assim, 
que a tal oração , ainda com todas aquuUas 



84^ SermSo do Beato 

trovoadas de tentações, e de m á os pensa- 
mentos , que tanto os atormenta, não é 
pouco agradável ao todo poderoso Dccs; 
porque, coiíio diz S. Gregório, muitas vezes 
o coração do homem é tào gravemente per- 
turbado , que se não sabe li\rar da tribula- 
ção, mas no meio dessa aí-licção o mesmo 
trabalho esta iniercedendo devotissimamenie 
diante dos Divinos olhos pelo próprio co- 
ração , que a padece. A mesma amargura 
da tribubação do coração afflirto , rebizindo 
nos olhos de Deos, mais de pressa , do que 
outro exercício (|ualqi!er espiritiial, inchna 
a sua Divina iMaç:;e5tade a este coração aííli- 
cto, fazendo-se-ihc força para que mais cedo 
lh« acuda com seu favor. Por tanto nào se 
interrompa pfjr esta cansa obra nenhun^a 
boa, não se deixem orações , nem o ir á 
Igreja , que é uma das cousas ijue mais mo- 
léstia dá aos demónios. P<irque o que faUa 
ao assim perseguido na pureza da oração, 
isso se suppre corti a niokstia da aííHcçáo , a 
qual por isso grandemente contenta ao pie- 
doso Senhor. Porfjue muitas vezes ouvimos 
melhor , e com ni.iis tenção, a(|uclles, qut 
por fraqueza escassamente podem lançar uma 
palavra pela boca , que aquelles , que com 
inteiras iorças, e voz nos pedem; sendo 
assim que quanto mais larQ\'\mos o exercido 



Fr. HETTF.iQrE Sus©. 541 

t!a orncáo , tanto mais nos accommodamos 
c*jm o inimigo de nossas almas. 

Porém sendo rerto, como temos provado, 
que nestas aíílicçóes não ha peccado , é para 
perguntar a causa, por que Deos nosso Senlior 
deixa atormentar tHo gravemente t s qne as 
padecem ; aos qiiaes não apontareis pena , 
0!J tormento corporal, que de boa vontade 
não acceitem por se ver livres desta tentação 
de desesperaçáo. Na verdade estes e alguns 
simplices sem experiência persuadem-se , que 
isto não é sem culpa sua : mas o contrario 
se mostra ])em claramente , advertindo qu« 
tanjbcm padecem este Irnlialho muitas pessoas 
de grande virtude, e santid'ade conhecida , 
como se vê por experiência , além do que os 
Santos escrevem e icstiíicão. E pelo contra- 
rio vemos homens de consciências perdidas 
e torpes, scmntnhutna perlurb.íção, nem in- 
quietarão interior, sendo assim que alé nos 
meninos innitasvezes acontece verem-se estes 
trabalhos, antes de poder haver nelles pec- 
cados giaves. 

Pelo (jue se alienem depois de haver toma» 
do o liabito de alguma Religião, ou depois 
de conhecida a verdade, por culpa sua vier 
a padecer estas tribulações , deve dar por 
cilas muitas graças a Deos: porque , romo as 
Sagradas Leiras' nos eusinfio, c grandissimo 



34^ Sermão do Beato 

slgnal, e prova do amor Divino não deixar 
por luuito teiuposuccederem as cous;>s a V(;»»- 
tade dus peccadores , mas appliear-ibe logo 
em continente o casti^ío. 

A causa por que o sapientissimo Senhor 
com esla tenção de (i^iesperacão queira antes 
abater a soberba destes, quebrantando-os 
e domando-os mais com esra tribiiiacíio, que 
com outras , isso é segred») de sua alta pro- 
videncia , o que também devem entender, 
e confessar os que as padecem ; porque como 
o Senhor tenha bem conhecido os corações 
dos homens, almas e coslunits , como me- 
dico Gel applica a cada um a mesinlia. que 
mais lhe conveai. E se me perguntar alguém 
de que utilidade j)óde ser esta tentação de 
desesperação, cmií grande certeza dij^o, que 
delia se tirão muitos e grandes bens espiri- 
tuaes. 

Primeiramente os homens por natureza 
soberbos, por nenhuma outra via melhor, 
e menos sem elles o entenderem, podem *=or 
trazidos áhuniihlade verdadeira , niãi de to- 
das as virtudes; porque os que são opprimidos 
desta tentação pela torpeza e suavidade de 
seus pensamentos, vem a conhecer a fealda- 
de e enormitlade dos pcccados mortaes; o 
que d'antes não conheciào , como provámos 
ao principio, Cuusa cerU é , que ler um 



Fr. Hemuqtje Susf». 343 

homem um só pensa nien lo de vangloria o 
fará mais disforme diante de Deos, que mil 
pensamentos, tilhulaçóes , e angnsiias, que 
tieciaramos, o que se vê claramente em Lú- 
cifer, o quvil sem padecer tentação nlgnma 
torpe caio feiamente. 1'ermiltc pois Deos, 
que seja um homem vexado de.sla moléstia, 
para que aquellc, que íòr causa de inchação 
de Seu coi arão , não se queria conhecer , 
pelo menos com e«;ta aíflicçào venha em co- 
nhecimento próprio. 

E assim succede que aqncllc, que d'antes 
desprezava os outros, já se tenha por mere* 
cfdor que todos o desprezem ; que cousa 
lhe pode ser mais proveitosa que esta ? ou 
que cousa o pôde mais de pressa tornar a 
Deos? Por(|ue é impossível que Deos deixo 
perder o verdadeiramente humilde. 

Pelo que os que padecem esta cruz , 
assim pelo que nos ensináo as Escripturas , 
como pelo que consta da mesma verdade , 
devenj, prostrando-se aos pés do Todo Pode- 
roso Deos, dourar esta tão execravel tentação 
com piedoso fazimento de L,Macas; porque 
esta afllicção não só tira a um homem da 
boca do inferno, mas o levanta até o pór 
nuC<!o, guardando- o de innumeraveis pccca- 
dos com lhe dar tanta guerra , que se es- 
queça do Iodas as vaidades do mundo j o 



S44 SERMto DO BeíTO 

que na verdade llie é o maior proveito , • 
áe gríintlissiui;! ajuda para se a!>ia« ar (oiu 
as virtudes: p')ique os que patlectm esta 
teiitaçãíi são táo vexados delia, que vern a 
tomar por remédio de sua necessitlade segui- 
rem a vii-tude, e nada lhe parece impossível, 
com que possão aliiviar sua cruz ou esqueccr- 
se do mal que padecem, o que ainda que 
facão mui de preposilo, nem por isso le- 
vanta logo nosso Senhor a mão , antes os 
deixa mais atormeníar com a mesma miséria, 
até que depois de ajuulaiem grande celeiro 
<le boas obras , sejão ricos da graça , e dt 
"virtudes. 

Daqui se deixa bem ver quão suave, 
e beniguameute a Sabedoria Eterna dispõe 
todas as cousas, pois se converte por ordem 
divina emsalvaçfío própria, o que nuiilo<% tem 
pv)r sua destruirão ; ahin de que se alilvia 
com esta atlliccáo ^randu parle <las peuas do 
Purgatório, e não só tira a pena dos que o 
sofrem com paciência , mas «rangéa niere- 
cimeuto para grande prémio : porque airula 
que se conheião culpados em gjaudes pec- 
cados (baute de Deos, seiáo contados entre 
os martyres singulares , que não pó>!e l^aver 
duvida ser esta vexação contínua , mais dif- 
ÍJCultosa de sofrer que o ferro do algoz, qu# 



Fr. Henrique Su5o. ' Si? 

tle um g<^>lpe aparla a caijcça dos honibros, 
Firiainit^iiie écousa averiguada n.is Escriptu- 
ras Santas , e por experiência consta ser esta 
vexação argumento de giaiide amor de 
Deos a quem o padece, o qual se s<jj,ailrá 
grande graça, e revelações de muitos, e 
mysteriosos segredos divinos. 

P«)r taiilo devem as pessoas , de que fal- 
íamos , levar este trabalho , nã'» só com pa- 
ciência , mas com muito animo e boa von- 
tade, certos qtie esle bieve rigor, este, 
como diz o Apostolo, leve momento de tri- 
bulação obrará grande e soberano prémio 
ria gloria. Do que seja boa prova uma Reli- 
giosa , que havendo cm vida padecido ninito 
nesta pai te, apparcceo depois de morta a 
um devoto, dizendo, qiielhe scr\ira de pur- 
gatório tuo perfeito, que sen^. mais se deter 
fora logo em morrendo recei)ida a ver a lace 
de Deos, o que nos dê a nós o Senhor 
JESU , sendo «ngraadecido para todo sem- 
pre. Amcn. 



347 



exercício 

DA 

ETERNA SAPIÊNCIA, 

NA REALIDADE DULCÍSSIMO , 

REVELADO POR DEOS 

AO 

Beato Fr. HENRIQUE SUSO, 

DA ORDEM DOS PREGADORES. 

TradmUio de Latim em Portit^ttez por i:/n Religioso dm 
mesma Ordem, 



X Odo aqnolle, que deseja ser discípulo ama» 
do da Eterna Sapiência, que c JESU Curisto 
nosso Senhor, e junlaineiitc aproveitar no 
amor de Deos , guardar-se dos males, sentir 
os elTeitos da graça e hencào fan>iliar de 
Deos, viver bem , morrer ditosamente, de 
qualquer estado , e contlii.ão que seja , ob* 



348 Exercício do Beat© 

serve com tliligencia e cuidado as cousas 
seguintes , as quaes srio tão niodt radas e 
teiíiperadas, que sem difíiculdude alguma 
qualquer pessoa as pôde exercitar sem pre- 
juízo do seu estado e coudiçáo , porque 
nfio contém preceito algum, inas só desper- 
táo ao amor de Deos aquelles, que estão co- 
mo alados de noxiífão e perguiça d'aim2. 

Em primeiro lugar o discijjulo da Eterna 
Sapiência não só deve apartar de si tudo o 
amor próprio , mas procurar com todas suas 
forcas de lançar de si , e aiTancar d'alma to- 
do o aífecto desordenado , e torcido a quaes- 
quer cousas da terra, e com isto eleger, e 
tomar por esposa a Divina Sapiência :. mas 
se al^um se vir tão embaraçado e preso do 
«mor próprio , que lhe pareça muito árduo 
apariar-se ílelle , este lai íoruje um propósi- 
to e desejo na sua alma , de que se apartará 
deste amor nocivo , tanto que em qualquer 
occasiào se sentir tocar da giaça e auxilio 
de De(js eíiicazinente, e com este propósito 
comece este exercício. 

Porém aquçlles, a^ucm não tem presos 
o tal amor próprio ,C^com tudo são aluda 
ne^liireutes, e íi i< s no amor divino , estes 
tomem de novo por esposa a Divma Sapiên- 
cia , renovando e:n si o .seu divino amor com 
fervorosos affeclos , de soi le que , se Uaiiie^ 



Fr. Henrique Ssso. 5*491 

a serrlão como a Senlior pelo temor da pena, 
já daqui eni filante estudem af;rs0ar-llie, 
como a esposa mui querida , nnindo-se com 
ella por íerventissima caridade. Pesando e 
pensando muitas veies a grande exceliencia , 
benignidade e t'oi4iio5a presença desta divi- 
níssima esposa, ou esposo, conforme lhe 
for mais suave nomeai -a , pois em Deos não 
ha diíFerencas da sexos, sentlo, como é, 
espirito puríssimo , e simplicíssimo. O* uma , 
e multas vezes ditosos aquelles, que forem 
dio^nos de ser adunltidos á sua auiizade e 
traio familiar. Porém este desposorio , não 
só se deve frizer interiormente n'alma , senão 
também exteriormente , para despertar o 
fervor da ilevoção : mas em secreto , por 
meio de certos siguaes devotos na forma se- 
guinte. 

Primeiramente todviaqnelle, que quer ser 
recebido á iruiandad* da Kterna Sapiência, 
dizendo tves* Paires nos fres ^ c outras tantas 
j^i>g Marias em SGC*reto , prostre-se outras 
tantas vezes em terra , offerecendo-se , resi- 
gnando-se, e deixando«se totlo í» Eterna Sa- 
piência. Peça-llie as arras do de^posítrio di- 
vino , SC nova graça em slgnal de mutua 
amizade, e fidelida<le perpettia , a qual nem 
a morte, nem a vida , nem a/^uma crealura 
possa nuaca jamais ^uebianUr, 



35o ExETíCICIO DO Bea-to 

Devem os clisí ipulos, que deveras vene- 
rão a Etí^nia S;ipieii(ia , dizer todos os dias 
as nuii devotas iioras e ofíiíio, que se clia- 
ina vulgarmente o Curso da Eterna Sapiên- 
cia, as quaes estão nas iioras de jNossa Se- 
iihoia dos Frades Prégadt)rcs. Porém os que 
não sabem, nem podem rezar -estas horas , 
diffão em seu lu^-ar sete vezes a oração do 
Pater nosier com outras tautiis y/t'<? iSlarins^ 
SC. por cada liora um Paler Nostcr e uma 
J[i>e Maria , e isto com tenção de que a Eter- 
na Sapiência guarde suas almas e corpos de 
serem presas e enlaçadas das vaidades e pe- 
rigos deste mundo; mas que andando nelle 
com cautela , scjão defendidos tle lodos os 
males, e por caminho direito sejiío dirigidos 
do Senhor d salvação. 

Na mesa depois da Isenção commua digào 
um Pater Ao.^ter e Jve Maria por esmola 
espiritual ás idn;as , que tem necessida- 
de no fogo do Purgaloiio , lend)iando-so 
quào grande peiigo e comer de esmolas sem 
agradecimento , e quão piedosa cousa seja 
ajudar os miseráveis que se não podem valer 
a si mesmos. E oulrosi considerem com 
que graças as pcihres ahnas e necessitadas 
do Purgatório receheráô as minimas mi- 
galhas, que caem da mesa de seus s€nhorci 
para seu refrigério , e allivio, 



Fr. HE>'niQUE Suso, 3di 

Dijno também um Pater nnster e Jve 
Mn/ia ao cluU.issimo e saudável nome da 
Kterna Sapiência, que é o Senhor JTSU , para 
que o mL^iino Scídior defenda , e ampare 
todos os discípulos da Eterna Sapienria , e 
a [greja Cat}i'dlca de todos os contrastes e 
ciladas dos inimigos , ajuntando estas pala- 
Tras: Bento seja o doce nome do Senhor JESIJ, 
e da gloriosa sempre Virgem Maria sua mãi 
para sempre jamais. Amen. 

E isto para que o Senhor JESU ( que 
nestes tempos miseráveis anda ião desterrado 
dos corações de muitos, porque lodos buscão 
só o que é seu , e não o que é de JESU 
Christo) havendo nos seus corações o se« 
amor, inspirando nelles o seu nome suavissi- 
mOjC meliíluo, e conservando-o para sempre. 

Além disto os discipulos da Eterna Sa- 
piência devem em certos dias do anno vene- 
ral-a como a Senhora , e Esposa d'alma roíu 
algum particular aíTecto , e obsequio <leter- 
minado. 

O primeiro dia é a primeira Dominga de 
Agosto, em que se coine< ão a ler na leza da 
Igreja os livros da Sapiência. O segundo dia 
é o septimo antes da Vigilia do NaLil, em que 
se começa a Antiphona : O' Sajyientia. Neste 
dia , e nos que se seguem até áípiella noute 
gloriosa y aiw a qual a Eterna bapi<;ncia ãC 



Zdi Exercício do Peato 

dignou entrar corpciraliuente ne-^te munclo , 
farão uma especial C(»u!iueinorat Ho á lUerna 
Sapiência pvir Aiitiphona , e (Jt»lle< ta , ou 
por um Pater nosicr ^ coníóruie a (levõ< ão 
de cada um ; o que fòr Sacerdote , se nestes 
dias disser Missa da ElerrKi Sapiência, tar-lhe» 
ba um aíiradavel serviço. 

O terceiro dia é da Circiinuisâo do Se- 
nhor, no qual se começa o anno novo, em 
o qual os amigos di.ste inundo se mandão 
presentes e dadivas uns aos outros, com 
imprecações de bons annos. Da mesma sorte 
o discipulo da Eteina Sapiência , por afer- 
Torar em si o amor, visiie a Eterna Sapiên- 
cia, pedindo-lhe hons annt»s para si , e para 
toda a Igreja Calholica. 

O quarto dia é Dominga da Quinqnage- 
«ima, que o mundo thama de Entrudo, o 
qual é tào celebrado dos mundanos com se 
ajuntarem em festas e ])anquetes profanos , 
em que se coiUamináo os Cíístumes com 
muitas maldades a troco das \ãas consola- 
ções e gostos dí) corpo. JMas o discípulo da 
Eterna Sapiência, para que mostre com 
iinaes certos como da Etei na Sapiência é todo 
o seu gosto e consolação nesta vida , e na 
por vir , faça o que abaixo se diz. 

O quinto dia é o primeiro de^Maio, 
guando a alegre Primai çfa se luosUa a lo-. 



Fb. íÍESRi-QrE Suso. 353 

tios agradável, bioíaudo em toda a parte flo- 
res , e \erduras. Na noiíte anies deste , 
costuníâo os inarcchos dados a tinioic* , 
cm algumas partes enramar as perlas das 
casas, onde lem seus amores com ramos 
verdes , e flores em demonstração e teste- 
munho da fc , a anior, que ^ uai dão a buas 
damas. 

Para que se tire de trio mio costume 
al^'um £i:ucto bom , e para que os filhos 
deste mcndo o que fazem a um sujeito cor- 
poral c mundano, como elles , seja melhor 
empregado espiritualmente pelos filhos da 
Eterna Sapiência aoCreador de tuuo, e isto 
com tanto maior cuidado, quanto mais sem 
comparação esta Divina esposa e amiga 
excede a todos os mortaes , ofíercção-lhc 
reste dia , ou um liiio, ou ai» uma orafão 
particular. 

Cada um destes cinco dias apontados cele- 
Lrem cada anno todos os discípulos da r.ier- 
na Sapiência com singular e devota reno- 
vação , dizendo em cada um cem Pnter 
nostres , e outras l;\uidiS Ave I\Jaiias^ ou qual- 
quer oração ou serviço, como c ouvir Missa; 
ise forem Sacerdotes a dii,rio, ou actncãoum 
cirio , ou íação alguma loa obra, que é a 
Eterna luz, em testemunho e prova eviden- 
Jedeque, como fieis discípulos, toda a ^ua 

12 



354 Exercício do Beato 

salvação neste tempo, que passa, somente re- 
conhecem ter só de sua divina esposa, e 
delia só a querem pedir, a que só o seu di- 
vino amor se ha de ver arder em seus cora- 
ções. E peçáo-lhe que, se por algum aconte- 
cimento este divino amor está apagado tm 
seus corações, tão benigna e fielmente seja 
outra vez nclles encendido, que nunca já 
mais se apag\ie. 

O sexto uid será o seguinte ao dos íina- 
do=;, no qual os que forem Sacerdotes digfio 
Missa por todos os Irmãos desta sociedade 
e união , e por todos os seus amigos defun- 
ctos, o:i a facão dizer, ou cera Pater 
no^ires ^ e outras ta n las Â^'e Marias^ ou 
quaesquer outras orações equivalentes, 

A todas estas cousas que nos dias deter- 
minados se apontão, em cada um dclles ac- 
crcscentem depois delias esta oraçfio: 

Piedosíssimo Pai nosso, todo poderosoy 
■peco-vospila coeterna a vósy a vossa Sapieri' 
cia^ N. Senhor JKSU CinstOj que soccorrais 
a vossa afjlicta Itsrcja , e a ponhais cm paz y 
uniUo e tranquillídade conforme vossa 
honra , e ahissimo beneplácito, Amen, 

Também os discipulos da Eterna Sapiên- 
cia tiagão sempre comsigo o nome tia Eter- 
na Sapiência s. o saluíifero nome de JESU , 
9U impresso , ou insculpido , ou de qualquer 



Fr. Henrique Suso, 355 

sorte, confónDe sua devoção, estampado, 
ou debaixo do vestido, ou como melhor 
puderem , e digão pela nianliãa de cada um 
dia a saudação seguinte , para que o piedoso 
JESUS os guarde de lodo o mal,e leve a Jjoai 
íim, 

A minba alma tos desejou na noii«, e 
TIO espirito de minhas entranhas, muidcnia- 
riiiúa tlespertejava , ó exccllentÍ£sirx:a Sapiwn- 
cia, pedindo que arossaamada presença a portíí 
de mim todas as cousas coulrarias; peneire 
vossa sfraca o intimo de meu coração, afervo- 
rando-o grandemente em vosso amor. Agora 
dulcissimc» Senhor JESUCiiristo cu me levan- 
to cedo só para vós, evos saúdo de todo n.cti 
coração. i\iiliiares de uíilharcs de Angélicos 
espiritos, que continuamente vos servem, e 
assistem , vos glorifiquem por mim. A uni- 
versal armonia de todas as creaturas vos lou- 
ve por mim , e digão: seja o vosso gloriosíssi- 
mo Nome, que é escudu de nobsa protecção , 
bemcHto, e lotivado para todo sempre. Amen. 

Além destas cousas os discipulos da Eter- 
na Sapiência devem venerar com grande 
affecto a mãi gloriosíssima da Eterna Sa- 
piência como aquella, que está sciii|>re pre- 
stes para os amar a todos crimo ílihos, v. cu- 
rar (lelles com entranhas í!e piedade nalcr- 
iial, Peio que cada um dos dibcipiílcs ijúd» 



S56 Exercício do Beat» 

cada dia com nove Ave Marias á Virgem Mal, 
s. uma vez pela manbãa logo, em se levan- 
tando, pondo os joelhos na lerra , offereca 
todas suas boas obras dafjii^ílle dia á Rainha 
dos Ceos , para que ella, como Mái ião agra- 
dável e acceita , as apreseiite a seu Unigénito 
Filho, ao qual serão sem duvida agradáveis , 
se quer por reverencia da Mái, qne asoíTerece 
como medianeira , ainda que scjáo em si cou- 
sas de mui. o pouco porte, e substamia , 
e muito menos gratas como forão se im me- 
diatamente as oííciecera como as olirou um 
peccador talvez muito grande. 

O mesmo faea á noite quando se recolher 
a dormir depois de ter revoado todas as suas 
devoções , pedindo que tudo o que naquelle 
dia houvesse tido de uegligentia , o suppra a 
Setdiora com sua caridade; o que fosse mal 
feito, a Senhora o emende, eo que houver de 
l)jm ii Senhora oappresc^nte diante dos olhos 
di\ino5. As outras sete advertências oíferera 
ao coração dulcíssimo da Mfii de Dens, refugio 
piedosíssimo de todos os peccadorcs , -^^ara 
que a Sjnhora, assento e morada suavís- 
sima da E:erna Sipicncia , depositário de 
todas as misericórdias divinas , corrente ma- 
nancial delias, as appllcjue sobre os corações 
do todos os disc*iptd'>s .ia Eterna Sapiência , 
que es.á j na denadcira hora , e nelia os de- 



Fr. HENRiQrB StrsoJ 357 

fen Ja com entranhas de piedade, e delia os 
não largue mais , até os meter de posse de 
Bemaverturança. 

Finalmente se alguns , ou por fraqueza 
de es['.irito , e de foiças, ou por occupaçóes 
nào poderem dar-se a estes exercicios em" al- 
guns dias , ou se por dureza de coração^ e 
ignorância, não souberem cumprir todas , e 
cada uma destas cousas apontadas, digáo 
cada dia nove Pater nostrcs , e outras tantas 
A<e Marias lazcndo a sobredita peticilo com 
a uiesma tenção implicita, ou explicitauien- 
te que o fazem os outros expressamente , 
e hasta. 

Também se aljjuem tiver devoção de 
mudar as Ave jMarias em Salve Rainhas, 
e a oração do Pater noster j que se ha de 
dizer na meza , em o psalmo Da profundis , 
l)em o pôde fazer em lionra da Eterna bn- 
piedcia , que seja r-lorificada para todo bem- 
pre jamais. Auien. 



CONSIDERAÇÕES 

DAS 

LAGRIMAS, 

QUE 

A 

YIRGEM N. SENHORA 

DERRAMOU 

NA 

SAGRADA PAIXÃO, 

Koparlúlas em dez passos, para a devaçâo do dez 
Sabhados, 

PELO 

da Ordeia de S, Domingos. 



3^i 



S A B B A D O I. 

Despede^se o Senhor da Firmem para ir a pa- 
dec^r. 



C 



Omeção hoje, puríssima Virgcni Mar, 
vossos devotos a considerar, e sentir com 
vosco aqucllc abismo de dores, aquelíe mar 
de lagrimas, que vos ciisLou a Paixão d« 
vosso unigénito Filho , Filho vosso , e verda- 
deiro Deos , c Senhor meu. Atrevimento é , 
tíio grande peccador, como eu, chegar-m« 
a tal companhia , tentar vossos porias, quan- 
to mais entrar por ellas. RJas lembrando- 
vos , Senliora , que vosso Filho iWs^c , qu« 
não vinlia buscar justos, scnao peccadores ; 
dai-nie licença , que se quer de longe , couío 
o Puhiicano , ponha os olhos em vos: para 
que vendo neste aííligidissimo semblante a 
graveza dos*ermentos , que cercào vossa 
alma, reverbere sobre a niiniia uma luz do 
(iCO, que me faça digno de vos ajudar a sen- 
til-os. 

líoje , Soidiora , é o dia , que começa a 
entrar por vo>sa casa aquclla espada, qu« 
taatos ânuos ha ouvistes ao Santo Siiueáo , 



362 Considerações das Laguimas 

qne atravessaria vossa alma. Hoje é o dia , 
que coníeça o vosso Divino Abel a caminhar 
para o campo, em que o espera a maior trai- 
rão , que jamais se commeiteo ; traição , nao 
só de irmãos, inas de filhos, que dóe mais ; 
e fiihos creados com tantas misericórdias. 
Hoje manda a oliediencia do Padre Eterno , 
qne comece o innoccnte Isaac a sobir ao 
monte para ser sacrificado ,e não virá Anjo , 
que detenha o cutello ; mas jnnlar-se-hão 
infinitos algozes a dar pressa ao sacrifício ; 
algozes de vossas penas , executores dos fios 
da empada de Simefio. fios ião agudos, que 
coi tão por alma, e espirito. E porque eite 
Seidior, q!ie ha de ser sacrificado, quer, 
qne venhãt» s«»bre elle todas as desconsola- 
ções juntas , que o mutído pôde dar, acceita 
tanuDeni ser para com vosco o mensageiro de 
tão tristes novas; e entra hoje por vossas por- 
tas a avisar-vos delias, despedir-se de vós, 
e dar-vos os últimos al)racos de obediente fi- 
Ihí» , qual sempre o experimentastes. Magoa 
é sem fisn , que clieguem voaTido as profe- 
cias tristes para m.Jiar, e que as legres tar- 
dem , como se forjo fingimentos , para cn- 
í:^'unar. Tínheis oijvido , que havia de ser 
grande, ciue havia de reinar eternamente 
cm Jacob ; e elle mesmo vos faz a saber, qne 
•vai a padecer , que vai para u não verdiíi 



r>A TiRGEM Nossa Sexhora^ 365 

rtiais em sua vida alegre. O acerbissimo des- 
engano! ó ciuelissima troca! n'oiitro tempí> 
vos disseião os Anjos , que estáveis cljeia de 
graça , que eslava o Senhor com vosco : hoje 
vos diz o r.jesnio Senhor dos Anjos, que se 
vai, e vos deixa, para ficarem com vosco e 
em sen lugar todos os maiores toí^mentos , e 
martyrios , que o mundo pôde dar. 

iMas quo sentiria vossa alma , Virgem 
bemdita, neste passo, que sentiria o fillio na 
sua ? íSão bastão entendimentos de Serafins 
para o poderem penetrar. Creio eu , que vos 
acodiríao aos olhos não menos aguas, que as 
do rio JNiJo paia chorar, e ao coração os tre- 
mores e abalos do monte Etna para suspi- 
TAv. Mas se é verdade , que isto de alguma 
maneira descança e consola; creio também , 
que vos quÍ7X'stes privar de tal allivio, tanto 
para começardes a padecer com o fillio , 
quanto para lhe não accrescentardes magoa, 
s.ibendo certo a grande parle, que tinha nas 
vossas : crtsce a (lòr repiimida , morre por 
arrebentar, como em mit:a, suspiros repre- 
zídos. Assim me persuado, que o mesmo Se- 
lihor para dar lugar a vossas lagrimas, co- 
meçíH) primeiro a declarar, e deixar correr 
as suas, que se elle as não nc^ou na triste/a 
de duasirmãas, que uma vez o agazalliarao , 
nem na dcstruiçáo antes vista da Ciu;'.dL', 



364 Co:T5id£ràçóes das Lacrimií 

que em sua morte se alegrava; como nã<* 
choraria, vendo o que passava em vosso co- 
ração, que o paristes , e creastes , e tantos 
annos tao fielmente servistes, e que por lhe 
ulargar a vida uuia hora , déreis mil vezes de 
boa vontade a vossa. Chorou, e chorastes, e 
misturou couí vossas lagrimas as suas. E as- 
sim íoi hcm , para que da mesma maueira 
que á perdição do mundo , se juntáriío 
duas creaturas a procural-a , assim na res- 
tauração, começasse por la^^rimas das duas 
mais puras ahv.as , que nelle havia. Devia 
eu, \ irgem sagrada, pois meus peccados 
forão causa destas lagrimas, acompanhal-as , 
c acompanhar-vos com pranto perpetuo. 
Mas oflerecer-vos-hci em lugar delle, o que 
ainda me nào tirou mirdia mald^ide, que 
suo desejos de poder chorar toda a vida , 
e com elles vos peco que acceileis estas 
Ave Marias em lemhrança <lo amor , que o 
Kterno Pai noz teve , fazend j-vos 31ái de lai 
£lUo. 

íTfrV/i yíi^e alarias. 



Hk ViRGSM Nossa Senhoua. 565 



S A B D A D O ÍL 

Como sonhe a. Virgem, da prisão , c o mais 
que o SenJior passou aqucUa noite, 

i.iErcada estais fie anjrustias , Tirfrem Snn- 
tissima j fazendo discursos entre li grimas e 
jei»ii(]f/S sobre o sacrifício , que vos foi de- 
nunciado , imaginais sacrifício, imaginais 
iiíorte. Mas triste de mim, menos mal é 
morte, que o modo , e circumstancias da 
que se aparelha para o l)oni JFST^S. Ouvi a 
^o:\n seu amado, que chega dcsalentadíí , e 
tremendo das cruezas , que stus olhos vi- 
rão executadas contra elle. Quem crera, que 
para prendernu um Cordeiro sejão neces- 
sárias mnnljas, e cautelas? Sejão necessárias 
armasP Peita-se o Discípulo infiel: comprào- 
sc a dinheiro , meu hom JESUS , vossas in- 
jurias: busca-se a noite para crescerem em 
despejo c soltura: paga-se uma companhia 
de gente armada para haver mais executores 
delia. 

Assim começa S. Jolo a cortar: n'as 
para o rpie resta, como tereis oll^i<los\i^- 
j^em Santa ? Couio tereis coração? Pcuico é 
kgrimas: noto género couvem de seminu r.- 



365 Considerações da.s Lagrima? 

to : maiores causas pedem maiores L-ffeitoi, 
Hnuve, Scíihoia, Ci)itléis psra alar ri^oio^a- 
mente aquelbs mãos , que fizerão o C.eo e 
a terra, e souu uiua^oz do maldito traidor, 
que o arrecadassem bem. Houve mãos paia 
afear as rosas do rosto mais formoso , que 
quantos nascerão das mulheres : para arre- 
pelar o ouro da sagrada Cabeça. Ho tive pés 
para empuxar , e atropelar os membros san- 
tos. Houve línguas para afrontas , vozes para 
falsos testemuirhos, varas para cinco .mil 
açoutes. E porque antes querem por senhor 
iim César Gentio , que o 1 ilho de Deos vivo • 
dâo-ilie por t:scarneo ceptro, e coroa, ceptro 
de canna , e coroa de espinhos, e em íini 
pôe-Ibcuni pesaiio madeiro sobre as costas, 
que de muito chagadas dos açoutes , crão 
todas uuja só chaga. Mas se cada cousa destas 
pei" si SD basta para quel)iar coraç3es, que 
tempestades de afíllcção levaniariáo nesse 
virginal peito todas juntas? Cheia está mi- 
nha alma de terror, e cheia de compaixão : 
do terror, porque foráo minhas culpas causa 
de tanto mal: de compaixão vendo o que 
padeceis vós igualmente, Virgem bemdita, 
sem teres jamais oiíondido o Crcador, e 
|)or isto merecestes ser .Mái sua , e ouvir a 
iaudação do Anjo, que vos oifcreço ncàtas 
Ave Marias. 

Cem //rc Mur/us^ 



DA. Virgem Nossa. SE^■IroRA. Z6y 



S A B L A D O ÍIÍ. 

Como a Firgem encontroa o ScnJior jia rum 
da Amargura, 

V^Ostiima o inverno frio esforçaras fontes, 
c accrt-íicentar os rios: mas se cresce em ri^or , 
ala , e endurece as aguas , suspende as cor- 
rentes dos rios, e até o mar salgado congel- 
la. Assim creio , Virgem sagrada , que cres- 
cerão tanto vossas magoas, com o que ou- 
vistes a João, que seccarão a veia das íneri- 
mas, cerrarão o peito, [renderão os sus|.iro5, 
e ficando toda trocada, íica.stes por novo mo- 
do mais atribulada. Logo tomais o manto, dei- 
xais a casa, e com passos apresurfidos saís a 
a buscar (como n'oTJtro tempo vos represen- 
tou o Espirito Santo) acu<^lle, a quem amava 
vossa alma. ]\í;;s dai-mo licença para vos di- 
zer, (iw^ accommetleis temerária joiuada: que 
se na outra vos não guardai ão respeito, per- 
destes o u/anto, e ícittes maltratada dos que 
vigiavão a cidade: que esperais agora de 
gente conjurada contra o naior bem da 
me.ima cidade, que era o bom J1''SL'S? Vejo , 
que nie dizeis , que isto é o nicsnio , qiic lus 
cais , n.crrcr cem elie , ou ciiuiic dc-ilc. que 



363 CoifSIDERAÇOES DAS LlGETMAJ 

não deveis menos ao amor, que lhe tendes, 
e ao que sabeis , que vos ellc tem. 

E em fim chí^gastes animosa iVLTi ao Fi- 
lho atribulado , vistes o Filho ; mas como o 
vistes? O' que chagado! O' que i?ista! Bem 
próprio foi o nome , que ficou a tal rua (rua 
<Je amargura) pelo que no Fillio vistes , e 
em vós sentistes. Virão vossos olhos aquelle 
Rosto, que alegra os Anjos do Ceo, pizado 
de bofetadas, e banhado da sangue, que 
tlesce daCa!)cça, atravessada de espinhos: 
liado todo de cordas , j^ara que fosse arrastos, 
quem com. peso da Cruz, e marlyrio dos 
O' outcs estava tão quebrado , e falto de 
torças, que não podia levar os pós. Neste 
estado, Sculiora , vos virão também seus 
oliios , c compadecido de vossa pena , em 
meio de tantas suas, falia com vosco, e com 
vossas companheiras: com ellas cm voz, 
tom vosco em espirito; diz-vos dentro no 
Coração, que alli vai feito valente Sansão 
com as portas da ciilade ás costas para ficar 
.niKirta a celestial Jeruzalem a iodos os pecca- 
doros: leva o cjptro «verdadeiro de Daviíl 
pira sjnhoreir o mundo; porque estava 
t'>'?rit > que do luidvíiro havia ilc reinar. 
A'á co:npau!iv3Íras diz, que cliorein sobre 
si; p>i:pi8 se o vingar dá gosto, duro ca- 
stijo j-jjiM aos qac esta pena lho dj- 



©A Virgem Nossa SEJinoni. 3^9 

tão. Ah Virgem purissinia , npo tos pôde 
faltar consolação daquelles Divinos olhos em 
quanto o tendes pre>?ente, em qualquer esta- 
do, que o vejais; puis sempre vivestes da 
luz delles. E para isto vos lembro a caloria , 
que sentistes com as novas de serdes sua Mai 
na saadacHo Ano^elica, 

Cem Ave Marias. 



S A B B A D O IV. 
Como vio preparo Senhor na Cruz, 

ÍtJLAs é grande a pressa , grande a violên- 
cia , com que vos arrebatào o bom Sei hor; 
se vossos passos não podem ser iguaes , re- 
Kicdio tendes para não errar ocamihl.o; 
tal rasto fica do precioso Sangue , que elle 
vos guiará, onde seus inimigos o levjo. Ao 
monte vão, e la vos convém ir, Virí?m 
l-emd.ita; se tendes animo para ver a ultima 
. maior de todas as maldades e cruezas, 
ijue com elle se usarão : ISiidus egressus snni 
de ventre mutris meae , dizia Job, ntidim r^- 
vertar etc. Qual o vistes na cova do Presépio, 
sem mais testemunhas , que vossos puris- 
simos olhos, e os de S. Joseph : tal qutrcm 



3yo Considerações das Lagrimas 

os malva dos , que o vejais na coiòa cie um 
monte á vista de infinito povo: lá festejado 
dos Anjos, adorado e servido de Reis: cá 
cercado de opprobrios, e pregoado por me- 
nos merecedor da vida, que um publico lio- 
niicida : lá reclinado enj pobres palhinhas, 
mas agazalliado , e abiigado <'om vosso bafo 
e vossa presença : cá estenditlo sobre um 
áspero madeiro , e logo. pregado neiie com 
quatro cravos. Já soão os golpes dos maâtel- 
los , já crescem novas dores, confraiige-se 
a Scigrada Humanidade; reconhecendo sua 
fiaqueza , arrelienta o Sangue em rios, re- 
gfio quatro fontes a terra. Quem podéra , 
Virgem soberana , levantar tanto a conside- 
ração , que ahíançára os effeitos , que nesse 
Santo peito fazião aqueiles golpes, e aquel- 
les cravos! A vós a peco, que m'a podeis al- 
cançar; porque sei, m\e na gloria que hoje 
possuís vos agrado muito lembrando-nos (ie 
\ossos trabaliios , os que somos causa de os 
pí.^sardes , para que assim como foráo prin- 
cipio de nosso remeíiio, assim da lembrança 
delles, comece a enienda de nossas vidas. 

Cc/íi A^e Marias» 



DA Virgem Nossa Senuoiia. Zn 



S A B B A D O V. 

Como vio o Senhor levantado na Cruz, 

J A' parecia , Virji^em affligidissinia , qne naò 
podia haver cousa , que accrescentasse vossas 
penas , quando de novo se moatra , que nem 
em vossos ininiif]fos se leni esgotado as inven- 
coes de afíligir ao meu bom JESUS , nem 
faltão ao vosso peito occasióes de mais dur , 
e mais mcrccimeiUoj hem se diz, que todos 
os Marlyres juntos não padc-cèiáo tanto, 
como elle só ; c que vós sem níorrer , pa de- 
testes tanto, conuí todos eiles. Levant.To a 
(]ruA cm alto, assenta o-llie o pé delia na cova , 
em que lia de ficar arvorada : estremecei 
todo o Corpo Sa<(rado , c ao mesmo passo se 
ahala'râo vossas entranhas, Virfjem Santa, 
nfio tenho dúvida , que vos estalara o cora- 
ção no peito , se para mais merece nlcs vos 
não desse força o mesmo Tilho, como ver- 
dadeiro Deos, que é. Rasgão-se de novo as 
feridas dos pés e macs, e comera a correr 
de todas unia celestial chnva de Sangue, que 
sendo infinito no preço, fa/ ciescer qnasi in- 
finitamente as dures cm todas. 

Já eitá arvorada a serpente do descrio , 



3j5 Considerações das Lagrimas 

que dava saúde com sua vista. Já o Fiiho ão 
liotiieiu está em alto para trazer indo a si: 
já seu divino Sanoue reíra os ossos delidos 
com antiguidade de nosso pai Adão neste 
monte .sepultado j para que lavadas assim 
suas culpas, se torne em ben^^ões a maldi- 
ção, que por ellas mereceo a terra. Pois, Se- 
nhora , como não tom allivio vossas descon- 
solações, onde todo o mundo espera verda- 
deiro remédio ás suas misérias? ftlas se h;To 
de alliviar , se só pafa vós crescem cada hora 
novas rasóes de magoa? Não querem , que 
baste morte de Cruz, morte de iníiimia, e 
iRiddiçâo ; querem fazer culpas , onde ne- 
nhuma podia haver. Com dois bdr<'ies acom- 
panhão o meu bt)m JESUS, e a elle põe no 
meio para que seja julgado poi* lOiíior. Vir» 
gem Sagrada , onde tudo se junta contra 
vós , junto eu cm vosso serviço t honra 
Catas pobres orações. 

r*,7/ ^íi^e Marias^ 



WA Virgem Nossa Senhora. ^yj 



S A B B A D O VI. 

Como lhe deu o Senhor por filho a S» João, 

A^M fim , meu ])om JESUS e Senhor da mi- 
dIki alma , tlado tem remate vosso inimigo a 
tudo o que podia executar contra tós o ódio 
e maldade : já despejào o monte: já vos fino 
da Mãi saibrada. Pilas é em estado, que 
■vos não pôde ser I>oa mais, que com a vista : 
o madeiro alto , e seus braços fracos para 
nos livrar, (.hega-se ao pé delle , que é tudo 
o que pode fazer, e posta em pé para mais 
visinlianca , prega seus olhos nas eslrellas 
dos vossos, que em todas as tempestades da 
•vida llie forão sempre fiel norte. AUi está 
Ioda embebida na consideração das cruelda- 
des , com ((ue vos ti*i\árão a vida: espanta-s* 
como lhe dura a sua , vendo-a de tantos gé- 
neros de morte accommettida , (fuantos são 
os que vos estão atormentando. Neste passo 
mostrastes, nu^u bom Seidior , que não sen- 
tis monos seus tormentos , que os í[ue estais 
padecendo : e lastimado mais .fo eftado , em 
que a vedes, que de vós mesmo , ordenais 
com elia , como olediente e verdadeiro fi- 
lho , vosso testamento. Quera não tem nada 



374 Considerações das Lagbimas 

de seu; pois nem vestidos vos deixarão, e 
até a túnica interior foi jogada aos d^dos, 
assaz é , que dê alguma rou:-^ para prenda , 
e sinal de amor. Uois penhores tínheis na 
terra, que muito amáveis: a sagrada Mài , e 
o Discípulo João : a e!le com amor tle Filho , 
e a ella com amor de jMãi : e porque mor- 
rendo vós , fica ella sem Fillio , e João sem 
?dãi , ordenais, que tenha ella a João por 
Filho , e João a eíl» por Mãi. Isto íoi o que 
naqu tília ultima liora lhe dissestes, ^las 
dai-me iicença , Senhor, para vos dizer, que 
a não desconsolão só os inimigos , também 
vós , que sois todo o seu I)em , lhe dais nisto 
muito que sentir. Mas se desengana quem 
ama de verdade, em quanto vos tem vivo, 
deixai-a , Senhor, enganar C(un vossa pre- 
sença. ?^âo se publicão os testamentos em 
vitla,nem se acceitão legados, senão depois 
que acaba o testador. Quanto mais que nem 
para depois que vós faltanles , é a troca de 
receber : trocar o Rei pelo vassallo , o Se- 
nhor pelo escravo, o amo pelo criado, e:n 
nenhum estilo póile ser género de consola- 
ção : antes creio, que uma das mais cruéis 
setas, que em vossa 1-aixão lhe teríião a al- 
ma, fi)i este desengano. Vós mo» to não po- 
deis deixar ile ser seu Filho, e mais lhe 
vaieis murto , e sepultado , que quantos lhe 



DA. Virgem Nossa Senhora. 3; 3 

podeis dar na viuii , por puros , e santos , que 
sejáo , qual lie João. Se quereis muito a 
Jofio , nao seja tanto á custa da Mài , que vos 
deis já por nào Fillio seu , e que ella sabe 
mui l)em, que vós sois por natureza; e vivo 
€ morto vos quer por Filho , e em todo o 
estado não ha mister outro , senão avós: 
quanto mais, que bem sabeis vós, Senhor, 
que não pôde liaver nenhum , que encha o 
vosso lugar. E sondo assim , occasião lhe dais 
de lagrimas sem remédio todas as vezes , que 
olhar para o adoptivo com lembranças do 
natural ; c. mortais saudades , quando vir, 
que lhe deixastes a sombra em lugar de ver- 
dade. 

Ce-n yli'0 Marias. 



S A B n A D O Vir. 

Como onvío dizer ao ScnJior y que tinha sede, 

J-^Levada estais toda, Virgem Saniissinn , no 
vosso Cnuificado: notando os termos porque 
transpondo o Sol daquella vida , de que de- 
jjende a vossa. Já nadão os (>lhos em ondas 
de niorte , quebrando-se sua luz. (^lída está 
a ral>cça sobre o peito, enrruadcis e grossas 
as ícj idas com o rigor do Lio j e ties|as5ado 



5^6 GoNSIDERAÇt^ES DAS LAGRnfl9 

delle o corpo tório. Neste estado levanta a 
"VOZ o affligidissimo JEjUS, publicando un\ 
tormento interior deseccura, que aquella 
humanidade sentio, causado dos ii^uitos 
exteriores , que tinha passrído, edis?-*, que 
tinha sede : mas a quem vos queixais, meii 
bom Senhor, ou a quem pedis agua: se á 
Mái, ella não vos pôde valer no esfado em 
que está e tós estais, se não for com a de 
seus olhos j se aos que pnssão , toilos síío ini- 
migos , uns zomhào de vós, outi os fazem 
2ond:)aiia da vossa afflicção, sendo Blhos da- 
quelles (ó gente ingralissima) (jue vós anti- 
gamente acompanhastes com uma fonie pe- 
renal, que os seguia por n^eio das areias scc- 
cas do deserto. Sede foi esta só para mailyrio 
da pobre Mái : a vós canoa , m.is a ella ma- 
ta ; porque não a podendo remediar por si , 
te , que houve peitos ião deshumanos, que 
em fel e vinagre embebem uma esponja , 
e vol-o offerecem por agua na ponte de uma 
cana. Que mudanças são estas tão estranhas ? 
Yós sois , Senhor , o que a Elias acodisles com 
o bolo e vazo de aj^iia na sua necessidade , 
e a Daniel no lago dos Leões, com o jantar 
dos Cegadores do outro Profeta ? Vós sois , o 
que na fome do vosso jejum fostes servido de 
Anjos, que vos pozeráií meza nos matos do 
ermo ? Vós sois o que ha pouco tempo susteu- 



DA Virgem Nossa Senhora. ^yj 

tastes muitos milhares de homens com poucos 
pães, e o que offerecieis á Samaritana fontes 
vivas no fervor da calma ? E hoje por uma 
pouca de agua, de que estais necessitado , 
não achais quem vos acuda, se não com fel. 
Mas que Gzestes, meu doce JESUS, quando 
tal Lehida vos foi presentada ? pro"v;jstes o 
fel, para mostrardes, que nenhuma pena 
recusais por meus peccados. E tomada a sal- 
va , deixais o mais á Mãi sagrada, que sem 
dúvida ainda primeiro que vós o hebeo lodo 
em dòr e angustias, senão foi era sustancit, 

Cem Ave Marias, 



S A B B A D O VIII. 

Como lhe vio dar a lançada. 

J-iM fim cliegou-se o termo daquella fida,' 
que para tão perseguida, tinha durado muito. 
Acompanháo vossas dores , Virgem Mái so- 
bre todas as Mais a mais atribulada , e sobre 
todas as Virgens a mais pura , que todas as 
cousas creadas, Cobre-se o Ceo de escurida- 
de, perdem sua luz o Sol e a Lua, treme a 
terra, abalão-se os montes, correm as serras, 
quebrão-s« 05 pçngdos uns com outros. 



3-8 Co:?fsiDERAÇ(5iiS das Lagrimas 

respondem os vales com cecos e roncos tri- 
stes; ludo em fim mostra brandura de sen- 
timento, só vossos inimigos estão ainda mais 
duros e encarniçados , que a primeiía hora. 
O ódio mais entra nhavel , a maior raiva , e 
indignarão do mundo duia até malar o ini- 
migo, e cessa com sua morte; mas nestes não 
é assim, tomão as armas contra os memlíios 
defuntos, e diante de vossos olhos passfio 
com uma lança o peito frio. Abanou-se a 
Cruz com a torça do encontro , tremeo o 
Corpo Sagrado , que já não sentia ; mas o 
que elle não sentia , padecerão vossas entra- 
nhas , Virgem purissima. OcHo e vingança 
fora de homens, nKital-o, e deixal-o; mo- 
stra o braveza de bestas , que depois de 
espodaçar o corpo, bebem o sangue. E 
disto da signal o Peito Sagrado, despedindo 
da ferida um rio de sangue , como repre- 
hendendo sua deshumauitlade , e dizendo: 
Paia a minha sede, nã > tivestes, gente 
avara e cruel , uma gota de agua , eu para 
lartar a vossa , não quero que íique nestes 
membros, nem uma só gola de Sangue , e 
ahi vai todo. O' lança cruel, ó cruiza sobre 
todas as cruezas! Fm comparação delia , do- 
ces (içarão os cravos , brandos os espinhos , 
leve o poíjo du Cruz, 

Ce/n Jy'c Marias^ 



DA. ViiiGiíM Nossa Senhora. 879 



S A B B /\ D O IX. 

Como lhe puzerão o Senhor nos braços , 
clescendo'0 da Cruz, 

VjUmprido eslá , Virgem Santíssima, 
quanto da morte cie vossol^ilholinlifio escrito 
os Profetas, e o mesmo Senhí)r tinha dito 
de si. Eclipsado está de todo aquelle Sol Di- 
vino , c posto cm estado , qne nem de homem 
tem fijj^iira. Mas novos cuidados combatem 
vossa alma. Temeis , e com razão , se que- 
rerão os vossos inimigos, que fique ainda o 
Corpo Sagrado para dar segundiís vistas ao 
povo , e ser alvo de novos opprobrios. E logo 
vos faz temer e tremer um tropel de gente, 
que sentis vir demandando o monte. Porém 
silo Discípulos nobres e secretos de vosso Fi- 
lho , que como o í)uviào de noite, tamhem 
o buscão nas trevas de seus trabalhos: clie- 
gão a vós, pedcm-vos licença para lhe da- 
rem sepultura, descem o Corpo Sagrado, 
depositão-no em vossos braços : nellcs teve o 
primeiro descanco depois de morto , como 
no primeiro , que começou a viver no 
inundo. O que aqui sentistes. Virgem bem- 
dita, os rios de lagrimas , que derramastes, 
« com que banhustei o rosto e peito Sa- 



38o COTTSIDERAÇÕES DAS L.VGRIMAS 

gradd, e lavastes as feridas dos pés , e mãos : 
as lastimas, que em cada uma dissestes, e as 
razoes , que de novo pranto achastes em cada 
uma , só os Anjos , que foiTio presentes , as 
podem refeiir, e a eiíes peço j que mas dèni 
a sentir com talaífecto , que netihHma b.ora 
da vida deixem de ser presentes nesta alma. 
Grande cousa íbi, Virgem Santa, poderdes 
sustentar a vida á vista de tal espectáculo. 
Mas não morrestes, ponjue não podia mor- 
rer quem vivendo já estava morta , e (ji.eca 
o Senh(ir que vivêsseis para consolarão dos 
Disripulos , e remtdi(i <íii sua Igreja, que 
foi , Senhora , o quv vos quiz significar , dan- 
do- vos a João por íilho. 

Cem A\>e Mar Lis. 



S A B B A D O X. 

Como o acompanhou á Seoullura, c o deixou 
ndlct 

ItXAs é tempo , Senhora , de largardes o 
Sa^'rado deposito para se entender no olílcio 
da sepultura ; que o cntrula a noite, e con- 
vém fazer-se antes do Sahbado. Evos Vir- 
gem Santa , não podeis acabar com vosco 
desapegar-vos dclle. Antes quasi tlefunla com 
O defuQto, pedis , que vus juntem a si na 



T>x Virgem Nossa Senhora, 38 1 

sepultura , qne pois para vós houve Cruz, 
como para elie , ao menos haja para am- 
hos a mesma terra, Cul)ra vossos olhos a 
que ciihrir os seus, e íiqiiem vossas (iòres 
com as suas scpullaclas. No meio destas histU 
mas levão-vos o Filho, e a pouei> espaço ve» 
des o Scpulchro cerrado de um grossa lage. 
Aqui, Virgem piedosissima , c.iío sohre 
vossa aluía unia noite e.->cnrissima de triste- 
za , montes de anciã, e tormento sobre o 
coração, e ccrrou-se para vós o Ceo , e a 
terra , o Ceo com a falta do Filho , que ainda 
assim morto era género de consolação sua 
presença : a terra com a luge , que o cobre. 
Bem pagais, Senhora , agora e com cresci- 
das vantagens as dores ,'que no parlo não ti- 
vestes, liem pagais os gozos de vos ou\ ir cha- 
mar bcmdila entre as mulheres. Por um filho, 
que tinha por espcdaçado de feras, não ad- 
mitia consolação um Jacob, tendo vivos 
outros muitos: que fareis Virgem , por um 
só, que verdadeiras feras vos tirarão? Desfa- 
zia-sc cm pranto o Santo Rei David por uni 
filho muito culpado; que será razão, que fa- 
çais vós por ura innocentissimo, cquetonhe- 
ceis por verdadeiro Deos? Com lagrimas ir- 
remediáveis chorava uma Mãi saudosa a 
ausência do seu único Tobias; quais hão de 
«er as voásas n«i moitC} não só ausência d<» 



3 82 CONSIDER. DÁS LaGR. DE N. Se?JHOP\ 

Tosso Unigénito , iinica consolação, refugio 
e renieclio de vossa vifla , que á forra de ferro 
e afrontas vos matarão seus inimiíjros? Vir- 
geiu sagnida, se vossas magoas crescem á 
medida da razão, qtic tendes, nem as ílòies 
podem ter fim , nem todas as aguas do mar 
igualar vossas lagrimas. Maiores sao Tossas 
dores, que todas as grandes, que houve no 
inundo; porque as padece a mais pura e mais 
santa crealura de quantas puras creaturas 
nelle nascerão, que sois vós, e vós as padeceis 
pelo mellior Filíio , que quantos nascerão das 
mulheres, e tal, que só eile vos pôde dar re- 
médio. 

Cem Ave Marias, 

Dia de. Páscoa se dirá uma Missa da Re- 
surrei cão. 



VARIAS COMPOSIÇÕES 

DO 

Padre Fr. LUIZ DE SOUSA, 

Assim em prosn , como cm Terso , que uncIaTao dis- 
persas por diversos livros , e aqui se ajuiitao para 
satisfazer a curiosidade , e gosto dos Leitores, qm 
facilmeute aao as poderiao alcançar. 



385 



Ko pilncipío cias Obras Poéticas de Jaime Falcam , 
impressas em Madrid no aiino de 1600 por diligen- 
cia de Marvel de Sousa Coutinho vem esta Dedicató- 
ria , e Piologo. 

PHILIP PO TERTIO, Hispaniarvm, níqus 
Indiarurn Regi Catholico j clemcntissiiiio y 
augustissimo , invictissimo salutum , et ron- 
tineniem felicitatis cursum, 

t^>iUm Reges in terris pracpotenlis Del pro- 
videntiam exercere, \icem agere, et qiiasi 
quamdam personam sustinere , ipsae sarrae 
Literae plurihus locis attestentur, non iin- 
merito , Regum potentissime , opem tuam 
in beneíicium aniici íato funcú iniploraluiii 
accedo. Ecce oblata jaceiít ad pedes luos ossa 
árida Falcor.is Yaleiítinl ; sciipta, inquani, 
Falconis Poètae quondam disertissimi apiid 
iValentinos, in volunieii , qiiasi in corpus 
integrum compacta : quibus, iit lui favoíi.n 
aíflatu vitain inspires, efflagitamus, non 
brevem, non coniinuneni, non nd irueritiim 
praecipitibus ruentem spatiis, sed diuUirnani, 
et inimortalem, atque in perpetnum tliiratu- 
rani; id est , aeternani , nullisque íinibus 
circnniscribendam ianiain. Qua ut nihil lio- 
Xiiini liberali in -rita optabilius , slc post fata 
nihil gloriosius. Híinc lu eumulatissiuie rrae- 
i3 



^85 Varias composições 

> 

stabis, si ad scripía, qnae offerimiis, íncli- 
nata tantisper Regia majcstate, óculos demit- 
tere non dedignaberis. íta enim fiet , ut sta- 
tnam , qnani nos amico pro viribiis, papyra- 
ceam poniinus , tu in oihls theatro inarnio- 
ream , tu anream reddas. Si enim veteres 
Poètae solo Musarum favore, quasi aura affla- 
ti nominis immortalitatem sibi ausi sunt au- 
gurari, quid nos Falconi cum veteribusacquo 
jure de poèti^A l.u.ide certantiaudehimuspol- 
liceri, si illuni Mi:sarum jam gloria evectum , 
llcgius tuus favor benlgnius complectatur ? 
Accipe igltur, Rex augustissimc, Falconis 
poèmata , in quae afflalu tiio vÍTentem ani- 
mam introducas, utRenipublicam lilerariam 
augeas, tuosque popnlos in borsaruni artium 
stndia incendas: rertabunt hae olium non 
ultimo loco in regiae tuae \irtutcs Inudem, 
Honora Falconem , quo Valcntiam , nrbem 
luam , cjusdem patrlam , nuiltisque tibi no- 
núnibus devinctam inimoitali beneficio de- 

nuò astrin:T.is. Honora cum Falcone omnes 

.... 

illi Musarum studiis conjunctos, ut maiores 

tuos, duosque ipsos Alfonsos, quanvis $a- 
pientum cognomen litcrarum gloria ade- 
ptos , nou S()lum imiteris , 'Tcriini , uti spe- 
rain;js, loií^issiniò antecellas. Vale. Datum 
idibus Martiis , Mantuae Carpentanorum. 
Èni:nafiu€l Sousa Couttigniu, 



DO P. Fr. Luiz de Sousa. 887 



,.«,-%<»<'V^-v«^»-»^v/% •«^fc* -w» »^-» ^^•V ♦^v»^^»/» * -vwvw^ ».'V» *■«.■» *^^ 

STUDIOSIS LECTORIBUS 
S. 

Xllc locus est , ul)i qui suos cdnntlibros, 
pauca de inslituto , Yel judicio* suo pracfari 
solent. Ego vero, studiosi Lectores, cui alie- 
nos in lucem proferrc roíitigit , jnrc meo 
agcre \idear, si non pauca soliini | ditam , 
sed libram ctiam inenm alieno libro "praelc- 
gendum oíferani. Multa mihi dicenda in- 
cumbunt , multorum accusaliciics pracccu- 
pandae. Quis porro multa pau eis complccia- 
tur ? Plerosque niihi sic occvirrentes video. 
Quid Liisiliuio cum Vaicutino? Quld cxiili 
cum sepulto ? rraeterca. (jtiid tu in ( j i je 
alieno laudcm qiiaeris ? Quid iudigct am 
laudem à Valenlinis extorques? íusiiper qui 
lectilare incipiunt. Quid nobis iion \'ii^;ilii 
cenlonesobtrudis P Quid Aiisl(jteleni poèiam 
reddis ? Ad cxlicmuuí. Quid in modict) II- 
bello plures libros distnibis , cl ronr.eclis? 
Haec saue est gralia , qua (»u.ni!im feje scri- 
ptorum labor lependitur: uec ire latet an- 
tiquam esse Tulgi consuctudincnj , vet<'rem- 
que invectivam , iit plane crrdi.miís, cmnes , 
qui se ad studia bouarum artiuni tcníc- 



388 Varias coMPOsirõrs 

runt, etpubiicae utiliiati serviurit, nulla spç 
hiimani praemii adiictos , scd divino in- 
stinctu agitatos id facere. Unde non jam 
proiogium , seá apologiain iiiihi in liiiiine 
constituendani video. Omnes ercfo mortalcs 
in primis persuasos velini, nuUuni me inanis 
gloriae siimulum huic oneri siiscipieiulo 
adegisse. Officium estvet^iris, et bene íun- 
datae amicitlae. Si qtii siniili vinculo ani- 
nium aliquanJo ol^strinxisti , facile apud ex- 
pertos íidem inveriiam. Sed ut singula dilu- 
cidius explanentur , pauca mihi de Falcone 
mostro praemonenda erunt. Jacobus Falco 
Yalentiae Exletanorum (urbs cst in Hispânia 
tani anioenitate soli , quam ingeniorum 
ubertate notissiina} natiis est nobili quidem, 
etaníiqao loco. Prima aetale humanis literis 
incubuit : in iis eani de se expectationem 
dedit tin:i ingcnii acumine , tum judicii 
profunditate , ut ma^^lstri Poetam natiim 
asserercnt. Adhac syllabarum natiiras vix 
perceperat puer , jam justa mensura cirmirja 
scandere , cLiudií.untia nosse, et restituere , 
totum Virj:ilium mcmoriter recitare. Cnm 
tale à naluia in^jenium accepisset , primis 
bumanitatis rudimeniis vix exc(/hiit. Vitium 
est liispaniae nostiae pecidiare. Coelurn 
babem us ingeni )ram mlnimè avarum , lio- 
miaes discipiijiarum avaxissimos. Unde q^uos 



DO P. Fr. Luiz de Sowsa. 389 

cUrissimos habuimus viros, ii magna ex 
parte sunt, qui anud exteras nationcs inge- 
niiim exercuere li bei i à parcntum seu in- 
cúria y seu avaritià. Ua Falco pkii> nalurae , 
quam arti etparenlibusclebitoradolescentlam 
sane importuno tempere ad otiuni convei- 
tit. Hinc lusoriis artibus, aleae, et taloruni, 
animuni adjecit, phis quam decet , litcia- 
rum amatorem. Lrium illi lioc \ilium in 
illà aetate objicilur : in quod paulo post sa- 
lyris duabus ita invectus est , ut possis con- 
jicerc satis ipsum malè impensae opcrae poe- 
nituiíise. Sed cum cgregiac indobs Cbset , 
suople ingenio, tanquam pondus ad cen- 
trum, ad studia literarum deferebatur. A' 
]\hisarum aiilis absens donii multa sibi et 
ditficiba discenda imponcbat. Suo duclu, 
itidHusque auspiciis totam AristoteHs pbi- 
losopbiam , bbrosque Plalonis percurrit, 
"Maihematicas artes, Geomeiiiam , et Astro- 
bj^lam ila penetravil , ut in utiAque iii:>iíj;uio 
evascrit. At ne animum laboriosac scieniiae 
sludio scmper coiilundeict, vcl coaelaneis , 
€t civibns suis minus viderclur humanus, 
lusui quideni inter amicos sacrossivií boris 
indulgebat, scd tali Insui , qui inj^eniuni 
ejus profunde, et non sinevirlule excrreret, 
Audierat Saccrdolem vulgo Aldíalem Saliae 
noniiiiatum ingeniem uou)ÍLÍ5 íaniam lu- 



3go Varias composições 

trmicalorum ludo Gonseciitum, quòd omneí 
aetatis suae homines non suluni artis calli- 
ditate vinceret , setl quòd mcinoritcr, ah- 
sensque ab alvéolo cuiii praesentibus lude- 
let (dictu (juidein mirabile). Floret is in 
Hispânia ludus praecipue inter nobiles , et 
Lene moratos viros. Conteniio est judicio- 
rum , exaaien itigenii : minoris íit in eo lu« 
cruni , q;uiin victoria : ipsa nolius vlrtoria 
preiium est , e praemiiun \ictorlae. Miruni 
«arrabo praestaníi?sin)i inj^enii excmplum. 
Cam antea ne latruiiculos quidem agere 
rosset, parvo teir.poris intervallo non tan- 
tum ciim dexteritate ludere, viotoriainque 
de spííctatisslniis lusoribus repoi-lare, sed 
€liaii) meiDoriler ludere, et cum Abbate 
ipso do latidc certare. Certo seio niultis boc 
lutaruin incredibile: sed cum inter vivos 
testes loquar, niiralnlia narrare non eru- 
besco : incredulosque onínos oratos velim, 
fidem mibi non prius adhibeant, scrupu- 
lunive animo deponaiit, qiiam testes ipsos 
ncuUtos, qui plures adbuc snpcrsunt , per- 
contentur. Is erat Falco, qui sibi sem per 
difriciljima arrogabat; ut ipse eleganter dis- 
berit lib. 2. Ode 24. Unde arcusatus venus- 
tatis, et facllitatis , qua in saíyra utebalur 
(quasl nomen Poetae amitterct, qui a Per- 
siano illo tétrico, et obscuro scribendi generc 



DO P. Ff. Luiz de Sousa. dgt 

ahliorreretj satyrara integram data opera 
coniposuit, ubi sententiarn Horutianae il- 
lius , quae incipit : Quijii Naecenas etc. ad 
ungnem expriínens, singulos versus à mo- 
Dosyllabis orsiis, moiiosyllabis clausit. Per- 
sinm etiam eadem de causa imitatus est sa- 
tyra 2. O studía , o mores etc. Sed qui cla- 
rissimuni ingeniuni à natura acceperat, 
nullo modo adduci poterat, ut obscurè 
aninii sensa depromeret. Legerat apud Gel- 
liuni , ut ipse mihi saepius affirraavit, dilíi- 
ciilimum exisiiniatuni tuisse prisca illaaetate 
carminis Jnmbici genus, quorl Jambis pedi- 
bus merè constaret. Hinc ansam arripuit 
edendi epigranimata , odesque nou pancas 
meris Jambis summo cuni labore , sed non 
minore cum laudo. Omitto retroo:radorum 
carmmum varia gencra , quae primo patent 
libro : qui quidem labor, quanvis sterilis , et 
tanto viro indignus videatur, sublllitateni 
tamen ingenii non contemnendam argiut, 
Sed maximè Falcon«m aíl opinionem iiidu- 
striae, et sagariíalis <ominendaTÍt novus oc» 
cultè scribendi modus {cifram Hispani vo- 
cant) ab eo inventus. (^inn aiidlvissot llte- 
ras Regias, (juac atl exerrinim miitrban- 
tur, saepius interceptas ronsilia nostra lios- 
tibus relexisbc , quarnvis obscuro satis scri- 
bendi geuere cx-iratas j noYuiu exco^itavit 



392 Varias composições 

lAni ínextrlca])iU amba^e perplexiim , ut 
mérito labyrinthus (quod illi nouien Auctor 
rleJit) appellari possit. íd nos in publicam 
utiiitatern Geometricis ejus lucubrationibus 
subnectimus. Cum his artibus in urbe sna 
omnibus cbarus esset , incredibile est, quaiu 
intrinseca famiiiaritate, qiiain solidii amicitià 
animum sapientissimi viii Petri Borgiae sibi 
ílevinxerit. Erat is 'Slontesianae miíiiiae in 
eo regno clarissimae Magister, í'i*aterque 
Francisci ilhislrissiniiGandiae Reguli : utque 
erat solertissimo ingenio praeditus, nec nii- 
nus insigni iiberaUtate ilhistrls, cum Fal- 
conis fidem, industriam, integritatem animi 
uiaximis in rebus expertas esset, eum sum- 
ino cum bouore in collesjium ^Montesianuni 
cooptavit, et vertente tempore honoratissimo 
stipendio cumulavit {Commendam Hispani 
dinint). Erat haec in oppido Perpucicnte sita. 
Adllegem semel, atqueiteru» pergensdegra- 
fissiniis rebus disceplaturus eum secum du- 
xit , omniumquc consiliorum suorum partici- 
pem ferit. Oranum etiam in Africam trajecit, 
quo à Rege missus est munitissimi iUius pro- 
pugnacuU iniperator destinatus. In omnibus 
ita bominis prudentiam, constantiam, gravi- 
tatem admirabatur, nt nibil in otio, nibil in 
regotio , Falcone inconsulto , ageret. Intr- 
rioi Falco nuntjuam Ubros depoQ«re, prae^ 



DO P. Fr. Luiz de Sousa; %3 

sertim poetas; scirper allqultl ir.edltars: 
nunc epigramnia, mmc hyinrjum p;ii)gere : 
partem etiam uoclibus íurari, qnani in tlieíu 
transcrilíeret , iiterls/po iiupendeiei. Per 
itl tempiis libros Georj^icoriini VirgUii iuii- 
taturijs conipendiaiiaiu • luhicoruiii Ailstu- 
telis descriptioncin aggressiis est (jiicuiidissi- 
iiium opus, si, ut prt)po5iiit, absolverei, 
taiiloque Georgicis utiliiis, quanto animo- 
rum ciihus agrirulturae pratstat). IVaeci- 
puus ejus labor fuit ojnis 4»piruni ttxere, 
qiio Hispanoriim fada celeliaicl. íratpius 
(licentem audivi solos portaruin nomint* di- 
gnos esse , qui opus epicnm componero au- 
derent : idque in expositione Anis poétirae 
plane affirmat. Miium est qnam intenta 
opera huic se nieditationi addixit. Tlatonis , 
Arislotelis, Iloratii libros de ai le poética sae- 
pius revolvit, et ('iuiclcca\ it : Graecjs li- 
teras tentavit^ ut sensa Homeri , quem La- 
tine legerat , [)enitus invcsligaret. Cum mul- 
ta jani animo concepisset , instar pictoris 
lineas primas tiahcniis íundamenla jacere 
inccpir, conslruílionem operis formare, 
])arles nunc nKídIas , nunc posleritues ila 
pertraclare, ut faeile tiat kgenlibus conji- 
cere ex liaginentis , quae inter libros annu- 
lueramus Falconem cum primis antiquilalis 
viris aemulalionem assumpsissè, Ab ulioque 



394 Yahias composições 

opere fellciter absolvendo varias homínem 
occupationes retardarunt , qiiibus à IMaece- 
nate Borgia fere semper implicabatur, cum 
sua niinquam commoda amicitiae' officiis 
anteponeret. Quod n^agis doleo , non pauca 
titriusíjue operis periere membra , quae 
sane studiosos delccturent , aiictori gloriam 
])arerent. Nuniijuam niiniis appetentem glo- 
rlae poetam Apolliiiis scbolae protulerunt, 
Ubi noviiin paiturn mens illa conceperat , 
protlniis iníquas pater non umbilicis iiiauia- 
tis, non miniu disllncíls, sed vilibns cliarlis, 
Tel epistolae dorso cnnimendabat , vel in 
calce libri cujusvis exponebat. L'nde ilbiia 
anilei ei<;dein versibus plerunqiie compelia - 
rnnt, quibiis Syi)illam Aeneas apud Virgi- 
lium: Foliis tantiini ne carmina manda ^ nc 
iiirhata volcnt vapidis hidibria iientis. Cer- 
tum est, iiisi per aniicos sietlsset , vix po- 
luisse confia ri parvulum hoc voliinien : quod 
lairicn in duplum excrescerct , si omnia ejus 
v«.rripta exlarent : vel ipse rebus suiseo amore 
indulgeret, quo nmlti indocti Narcissi suas 
admirantur. lilgo quidem plura ab aniicis ao* 
cepi; non pauca meo labore , et industria , 
veluti aucnpio collegi , quae vel in discrimi- 
ne pereundi, vel mutandi patris versabar:- 
tur. Po^qiKun Dorgia í\ pul)iic:s inuneribiis 
obcundis ad olium, et cjuistem 6e «©nYtriil 



DO P. Fii. Lriz DE SoTJsi. 3t|5 

jara síínescente actate : ipse eliam , qiii pari 
annorum passu 31aecenateni suum sequtba- 
lur, i/l uiheni palriam se recepit. Ibi cuni 
amicis conversar! , animiim omnihus piutatis 
«fíiciis excolere, à Ivlnsis tanien nuuqnani 
lecedeie. Eo nos prorsus tenipore homincm 
iiovirrms. Valeijtiani veni anv.n á ['arlii Vir- 
^•inis septuagefsmio soptinio supra niillcssi- 
r.iuni, et quingentessimum. Hanc in!liií:e(]en\ 
elegxTam agitandae rcilei:iplionis uostrae, 
ctfiatris: qui in Bíelitensi trirenii r.dversa 
tenipestate pene CTcrsa à piraiis ad Sardi- 
niam capti , Algerliunqiie in Aírlcain Irajecti 
ciim Praetore har])aro tonveneranins, iiC 
ego in palriam demitterer, ciuii statuto pre- 
tio libertatis utriu&que rediturus. Cuni iir- 
bcm adiissem , rihil mibi potius ftjit, quam 
iit Falronem convenirem, ciijus lama oiiíiies 
regni illiiis sinus pcragrabat. C^onveni, aiuli- 
^i, aiiiavi. Mir?or enini crat fama bcniino 
3;iso. Duobus annls iit paticni cobii , ut nia- 
gistruni veneratus siini. Uiraque ilb; olíicia 
«tpatris, et magislri intbjlgfntissime prae- 
stilit. liitcr alia Artem Poclicam !loralii nnbi 
sedulo explaraAií, eadtniqiif ij)sa scholia 
dictavlt, quae bis libris snl)jimxiimis. Ad 
stutlia literarum pene jam I^lusaruin ol li- 
lum cxcitavli, languentem atl Poéiirii iiii- 
pulit , et quasi futuri pjaesagiis onínibus me 



3yG 



TarTAS COMPOSinÕES 



aniicitiae vinciilis obstrlnxit. Fatio'al)atnr 
tunc gravíssima Geometiiae parte. Cum non 
Sfjbim res magnas snscipere, scd veliementer 
árduas , plenasqiie laljorum à mente inde- 
fessa cogerelur, imposuerat sibi circuli Qua- 
^raturam inrenire. In qiiod studiíini tanta 
unimi conteiilione incubnit, iit saluti ejiis 
nb amicisomnibus timeretur. Noites integras 
insomnes agere, saepius coenae , saepius sui 
í'sse immemorem , Tigllantem, et dornilen- 
tem inter circinos, et bneas versai i, ajiqnandò 
non firmas mentis videri. Fama cst operis 
rxiagniruíbne deterritiim voluisse se tam 
í^ravi oncii subcbjcere , in eamqiie mentem 
anxibnm Uei , bominumque religione insi- 
gnium invocasse: contracto tamen babitii 
assiietudine meditandi niiUo modo poluísse 
ruram exiicre. Scd de bis laiius agemus in 
ipsis Geomcíriae commentjriis , quac prope- 
diem edituri M'.nins, nbi Qiiaib.itnras cir- 
culi phiribus modis fclicitcr tentatns exbibe- 
bimus. íd tantum in a miei commendatione 
addam , quod referi ArnobUis Union Delga 
in eo opere, cui iiomen dedit Lignum vitae 
tom. 2. cap. 4^- V^Z- ^' ^^^^^^ Jacobus 
Falco HispaniJS Valentinns, ordinis Monte- 
sia^e miles , admirabilis ingenii vir. Quod 
enim ante ignotum, suo nobis manifestavit 
in^jenio: paucU lácmpe abbi»G annii Qua* 



DO P. Fi:'. Luiz de Sorsi. ÔCiy 

rlraturam circiili noviter aclinvenil , et Je ea 
insignem tractatum scrij^sit, qiii exciíssiis 
rst AnlticTpiae apwd Joannem Bellerum ari:o 
1591. Haec ilie. Ciim Falco bis turis iam 
£[raviter iirgcretur, nullo modo ad huma- 
iiiora stiuiia revoran potuit : rnni jani abun- 
darei otio , vel ad iiicohata opera perfrcier- 
da , vel inipeifecta s;ilieni expolierda. Ideo 
multa bic iniperíeda , imilía inoriiala da- 
mus, aliqua niimis correcta : cjuce vos ! ori 
consulturos speramus, praesertim cumhitel- 
lexeritls qwo casii , qna fortuna bacc peni» 
jam extlncta nionuinenta è tenebris in luccni 
venerint. Animam egerat Falco exlra pa- 
triam. Dispersa erant ejus «cripta inter mul- 
torum manus. Plura Valentiae liabebal Fran- 
ciscus Beneitus ,vir nolllitate, cl religione 
«:larus: illa , nl crat Falconis amicissitnus , 
menicfiae tradcre snnm. opere oplabal. Ad- 
versabanlur aliqui leiibns quidem de causis, 
partim viri graves, paitim gian ni: ijri : 
íiand seio nu gloiiae 5uae, cl jntriac, an 
Falconis invidenliores. Ita inj^raia Pátria 
scnpta VI ta (IiL;njssima ciim auctore suo se- 
pelicbat: et bonorc ÍVaudabat non eos soluni, 
qui ii) bor libro laudanlur , sed qiii in .«al}- 
ris accusantur. Scilè nu(; juditio Ilelrusc ;'s 
qnidani , pluris, inqnit, laccuni a Dnn;c 



3gS Varias cojiposiçoes 

signari , quam ipsius Hetruriae RcguVi opí- 
bus, copiis, dicruitate frui. Pilagnifica Terò 
vox , et lioniine Romano digna. Si enim 
iinpius jlle Dianae Ephesinae hostis , vel per 
incendia nominis faniam quaerere non du- 
bitavit , quanto gloriasiàs itnmortalitateni 
sihi vindicabunt illi , quorum nomine ab 
homine sapientissimo ieviter joco praesliicU 
aoternum victnris carminibus posteritati 
coniinendantur. Novus casus litem diieniit. 
Almadae in Lusitânia agebam , qui locus 
Ulisiponi imniinet , brevi freto interíluente 
Tago , salu})er coelo, fontibus exuberaas , 
IMusaruni otiis conimodissimus. Vita erat 
curis libera, et pene rusticana, practerquam 
qnòd praefectuíam niihi imposuerat Rex se- 
ptingentorum peditum, equlíuni ferme ccn- 
tunj , qui nobis atl signa, si quando res pos- 
tula!)at, praesto errint. Ad íncrunt (hiber- 
natores Regni , cariam Almadain transíeren- 
tes. Aedes oppidi sibi ia hospirium dislri- 
buunt: cum piares, nec incommodae super- 
esseiit, meãs etiain sibi postulant: quae pos- 
tulalio iniqui plena impcrii contra niorein 
p.itrium, et morum instituía, Regumque 
,h? jes inilissimas satis iiidicabat, nova illos 
\ eteris in me ofíensae recorda tione , jam diii 
cj:npressuni oJii virus opp:>rtunè evomere , 
nequaquani in raemoriaiu rjvocintes , dede- 



DO P. Fr, Luiz de Sousa. Sci^ 

•ere príncipes vires, quales ii esseut, in 
privíttam "vlndictani potenliá pr.blici magi- 
stratívs a]>uti. (>uni vf lienieiiter ariimo ccni- 
motus essein, nova, et inauclila inetauior- 
phoftis liidignantes parleies injuriae siibiliixi; 
in íunuin , et cineres abiere. Ad Rcgcn^i 
rleinde Mantuani Carpentanoium feslir.o, 
Ivegem motili^eiitia in noítros , aequitate in 
onmcs Lusilanoruni iieijum veie succcíío- 
rcni. Ita qiiincjueviraius ilie in\idiani sibi 
non levem conílavit , niihi inopinatuni exi- 
linnj peperit, Falconi gloriam altulit. Lbi 
Manluain vcni , nibil porius duxl , quani ut 
^ndci memoriam consccrarcm. Sciipta ex. 
omni parte colle;;i , disposui , in libM)S di- 
slribni , lahoren, ingenlem suscepi. lia ernnt 
omnia dispersa , et involula , et sibi diss^iden- 
lia. IMiilium milii addit animi Comes Ticalii, 
Joannes Borgia, IMariae Impcraliicis donius 
Pracrecliis, Ma^;istri ijc|)<)S ex íralre, vir 
gravissinius , ci.jiis exslaiit moni. menta do- 
citriíiae, et eruditionis plena. Wuluim acuit 
Venerabilis Thouias Malaeensis Kpiscopiis, 
Magistri fraler. ISon parum altnlit adju- 
nienli Keneitus, qui a Kaicone liuercs ex 
teslanienlo nuncupaliis , serljJa tmirtia, cnae 
potuit , tam l\)elj<.a , c^ian» Cccmclrica co- 
geie , dib'genterque ad me n itlire (llla^it. 
Vixil F;ilcc :irrcs duo?, tt tepij-f^ÍMP. (. Liit 



4ao VàRlAS COMPOSlÇÓEf 

Manluae Carpentanorum : in templnm So 
cietatis JESU tumulo reccptus , anno i594. 
Aá extremam usque spiíittim , cum per oc- 
cupationes llcebat, studiis vacavil. Caelil>em 
\itam perpetua egit. Amicos oíficiosissime 
coluit. Qua etiam de causa extra Patriam 
iliem clausit : cum septuagenarius non ciu- 
])itaret Maecenatis sui vitâ jam defuncti 
causa curiam adire, Regem convenire, et 
de amici rebus constantissimé agere. Con- 
stans est fama, Regem sapientissimum ho- 
iriinis constahtiam admiratum Régio oráculo 
colaudasse : nullum se in tota Republica 
ineliorem Falcone hominem habere. De im- 
mortiilitate animorum, de soUuione naturae 
Libicunque occurrebat, avidè , et jucundè 
disputabat acerrimus immortalitatis demon- 
.stvator: quippe cui omnia bona in morte 
sila esse jndicanti proprium pondus animi 
solertiam acuebat, Cum ad me scriberet, 
liaec ferme fuere verba : de communibus 
amicis, ut scribam , oras: Gombaum sclto 
f;Uis cuncessisse; paucis posl diebus Cbristo- 
.phoriim. Glemens in IMaioricam missas est , 
iu Sar<lÍMÍain Moncada, ambo magistratum 
acturi : verum , si mihi credis , melius cum 
niortuls actum esse opinor. Ilaec ille. Plures 
ia Fidcone viruites e\<'e!laore, comitas , li- 
l)(3raiiui , contiueatiu, l.iborum loltM-autia, 



DO P. Fr. Litiz de Sousa. 4o t 

contemptio forturiae. Ea fuit modéstia, ut 
cum ad unum iinlversa ordinis Montesiani 
administratio deíerretur, Praeíectus a Rege 
ipso loco , ac nomine l\egio nuncupatus , 
tanto se honore diíjnum constanter ne;íaret : 
nec prius proviíiciam susciperet, quani vi 
Regii imperii con:pnlsus est. Ne plura di- 
cam , ita piam se in onínibus , ita philo- 
sophuni gessit , ut Christianum Platonem 
posses dicere. Talis vol)i% hominis, stndiosi 
Lectores , lucubrationes offero : vaticinir.ni- 
que non Delphicum , sed veriim praecino, 
nemiiii qnidem , qui virtutis via insistat , et 
memoria digna connetur, defuturum , qui 
laudes ejus celebiet , nomenque posteris 
muadet. 



yahtc^ 



i 



4ol 



Ko principio do primeiro tomo da Monarchia Lusj^ 
tí\iia , \eai a obra que se segue, 

D. EMMANVKLIS SOSAE COTTIGNI 

Cármen Heroicwn ia laudem Fratris Be*'- 
nardi de Brito. 

Uíscute luctificá squalentein fronte capiU 

liim , 
O qui turbato jam pridem volveris amne , 
Necte sacras lauios, et priscuin crinibus aii- 

rum j 
Amissosque ânimos iterum, Tage , Dubibus 

aequa. 
Magna, qiiod optanti nostrCira permittere 

nemo 
Auderet, reruni series jam nascltnr: ecce 
Bipis, ecce tais otimil tibi Pai ria eivem 
llUistri e{j;rcgiuni partii, quo clarior orbe 
Jaçtabit niiUo telliis se Lysia íantiim. 
Arte pólens , opibusque aninii l;ernardu5 

ab alto 
Ducet Lysiadum famani , et monimcnla liio- 

rum , 
Ex quo prima uotís Aurora invecla quadri- 



!4o4 Varias composições 

Splenfliiit humano gcneri : dehlnc arma 
tritimphis. 

Inclyta , tunc sanctos repetens ?.b origint 
mores , 

LoiJga vetustatis , reruuique arcana niove- 
bit. 
Vela setl in ventos jatujani flullancla pandit. 

Aílsis ò proriiiSí[ne juves , da Nerèa niiiem 

Euruniííue, et Zephyrum, Hcsperii Rex ina- 
xime fiuctus. 

MhificLiín tibi furgit opus , quo viibiera 
iiostra 

Obníibi tandem potuerunt, licèt impla Par- 
ca, 

Diim res ambiguae, dum spei erut ulla íu- 
tu ri , 

Insultare dedlt , fatoque iiiciiniberc trlsti 

Venales Itab\m calamos , quos ater in iras 

Exacuit Uvor , fí^lbsque immane venenuni. 

Lega tamen sta])ili succednnt laela dolori. 

Ascipe ut inJucarjt primam haec in litora 
gentem 

Semina Pyrrhaei lapldis, durum genus unde 

Decidlmus, primam ut nobis Tubal Optimus 
arcem 

Erigat, Hesperiae caput , imperiumque fu- 
turam. 

Ut Lenaeus agens Nysae de vértice Tigres 

Orbe triumphato, primiim Iiis corsedÁt in 

Oi'Í6 



DO P. Fr. Lri7 de Sousi!^ 4o5 

IVonilna Lysiadls socli de Poinine sigffaiis. 
AdiiiiranJa quihas , post longum scilicel 

aevnn» , 
Vertere clniistra clatuni Oceani, et nova si» 

dera inundi , 
Indunique , atqiie suam ra libas Irar.f.ccr.í^r^^ 

iNysani 

Orcultà fati signatum ]c^e £íicl)at. 

. . . 

Addit Ulyssaeis tundatani virihus uroem. 

Ostentai raptas Aquilas, íracluniqiie Quiri- 

num , 
Multatosque Gotlios, atque agmina Vanda- 

lorum , 
Maile levem quoiies ariiiavlt Lysla pubem. 
At geminas huc ílccle acics : nova gentis 

origo , 
Religionc potens , cerne, ut se tollit Olym- 

Et niimernni sanrtis altarlbus aiiget, ut indc 
Vera fides longos nitet intemerata per aii- 

nos. 
Exin gentrin Arabum , pugnalaque in or- 

dine bulia , 
Nostra jugo quorum nunquam se coUa dc- 

d(;rc. 
Testantur nuiliae servalis maenibus arces. 
O quantos Reges í Quam fortia pectora ! 

Magnos 
Alphonsos , et Joanncs , Pctrcíquo roveros. 



4o6 Varias composíçÓeS 

Aspice Cotílnos, genus insuperabile liella. 
Aspice íberorum vulnus , stragemque Ve^ 

reiras , 
Almeydas Indi cladem , Libyaeque Meneses. 
Noronlas, Sylvasque , et beili fulmina So- 

sas , 
Reroasque allos natos melioribus annis , 
Martla qiios stabili clecorarunt vulnera fama. 
Sed quid ego annale , tantaruni stringere 

la u d um 
Yersibus exíguis tentem ? Non si mihi Phac- 

bus 
Et cilharam , et vim sufficeret, rocisque ? 

melosque. 
Ergo ur^de Hesperiae rector , domlnalop 

Eole , 
Laudiluis in^fentem «jratus fer ad aeihera 

aluninun) : 
Aurea quo tandem componas têmpora , red- 

dens 
Seria tibl , luctumque hosti , rairiaequc 

salutem. 



CO P. Fr. Lrrz »e Sousi. 4^7 



Epi^ramma de ^lanoel de Sonsa Coutinho , 
que elU mandou pôr em publico no dia da 
collocação das relicfuias dos Santos Mar» 
tyrcSf que se levarão á Igreja de S. Baque 
a 2S de Janeiro 'de i588, e/itre os mais 
Imersos da festa com o titulo seguinte» 



êumanae SjbiUae orncuhim , qnoã ÀstrologCTum 'vmnitmj 
l/J dcttrins niulavvrat. 



JL Ostqunm ter Phoebus qiiingentis cursibus^ 
aclos 

A Dato in terris miminc, tollet equos. 
Octogessimus octavus vciieraliilis annus 

Lysiaduni geiíti gauclia snnima ferct. 
Si non hoc anno pravae mala scmina sectae. 

Si non cum Lihyco 'lliiax fenis liosle luil. 
At supplcx iiianibus vinctis j»osl tcrga Eii- 
ta n nus 

Hispano subdet pérfida colla jugo. 
Prisca íides , et religio , pielasque, pudorque 

Aurífero referent áurea secía Tago. 
Parva loquor, Divis tolo procul orbe fugatis, 

Ipsc Tagtis sedes, et pia tem pia daLit. 
Tantus erit profugis honor, atque triura- 
phus , ut inde 

Join coelo incipiant or>$a boftta frui» 



4o8 VarUs composições 

Vida do Patriarca S. Domin^oSy dividida em 
i-j disticos y que se acfião debuxados em 
o azulejo , que c^bre as paredes do clausro' 
do Convénio de S, Domingos de Lisboa» 



V Era TÍ( 



ides , gentrix ; coelestem condi» 
in alvo , 
Qui mundum accenso personet ore, ca- 
nem. 

Fax in ventre latens jam sacro fonte lava- 
tus 
Aurora, est , ardens postmodo Plaebus 
erit. 

Absumens parvum pia liteni flauini.i dlreniit. 
Et saiictuni innocuum ter repulère facífs, 

Accipe ai) aetlierco niissuin tlbi muiMJS 
Olympo, 
Orbis tutamen , diliciasque meãs. 

Pro Christo certuns , scutum Cnicis objizit 
hosti , 
Ilanc solam , illaeso milita, tela petunt. 



DO P. Fr. Luiz de Sorrsi.' 4og 

Qui potiiit quondam templi cohibere rui- 
nani , 
Per sobolera verus niinc quoqae fulsit 
Atlas. 

Nate , quis in míseros tantus furor? Áurea 
terris , 
Hoc duce, restituei saecula prisca fides. 

Quas saepe coeli praenuncia signa probâ- 
runt, 
Aeternâ leges consecro lege tuas. 

Lustret, et illustr«t mens aemula Sclis ut 
orbem , 
Legis Evangelicae est rector hic, ille viae. 

Arte laboratam nostrâ tlbi susripe Testem , 
Regiiialde , luei siigmata Dominici. 

Prodlgus ad pocnas renuitqiic , horretque 
Tiaras : 
Omnis anhelaiiti sidera sordet boiios. 

Férrea vinda diu , terque hórrida vcrberi 
noctu 
Aeterna rcpetunt coiulltione vices. 

Quae non monstra tibi, quae non miracula 
ccdcnt , 



4 IO Virias composições 

Cui loties spoliis mortis onusta manusí 

Félix paupertas ! Quid non speremus egeni? 
Coelicolum , o socii , pascimur ecce penu! 

Corpoream excedit nioiem super aéra ra- 
ptus, 
Nec pavet insidias, hostis inique, tuas. 

Qui potuit pluvias cohibere , et claudere 
nubes , 
Hunc mira populi religione colunt. 

Ergo triunipliales , victor, íer ad aetheni 
passas ; 
Sacra ruanus oneret palma , corona caput. 



T>0 P. Fíí. Luil DE SOUSA.^ ÍH 



No principio do livro intitulado Gaza mento 
Perfeito , auctor Diogo de Paiva de An-- 
drade , vem de Manoel de Sousa Comi- 
nho este 



SONETO. 



O 



S meios tle Imivar-te me ncj^aste, 
Buscados, niasentvão, do obedecer- te; 
Que de cliegar, Senhor, a conhecer-te 
Admirações somente me deixaste. 



De^te perfeito assumpto , que tomaste , 
Quiz devidos elogios escrever-te ; 
Mas vejo tpie o louvor chega a ofl'ender-le, 
Por não poder chegar ao que chegaste. 

Mas ainda assim isento de aggravar-le 
Só devia louvur-te jusíanicnle , 
Pois to julgo o mais tligno de louvar-ie» 

No que do mundo illustra Phcho ardente 
Que parte em teu louvor não terá parte? 
Que siente sem li será sienie? 



4 12 Varias composições 

No principio do livro iníilulado Gigantoma^ 
chia , auctor Manoel de Gallegos, vem de 
Manoel de Sousa Coutinho este 



SONETO. 



U 



Nicos son dichosos Tueslros males , 
Pues que gozais vencidos grave ernpleo; 
Si aspirasteys deyad , ya tanta os vco, 
Que con los niisinos dioses soys iguales. 

La ciega presuncion de los mortales 
Ha conslguido el fin de su desseo; 
Con Jn piíer se iguala el gran Typlioo , 
Uno , y otro en tu canto ya imniortales, 

Y tu por niàs que Jove poderoso , 
Bivc gloriosamente en la memoria 
A pezar de laendjidia, y tieuipo avaro, 

El vence nn esqusdron por licencioso, 
Tu le dàb ruUi.inado lanta floria , 
Que Júpiter trocara el poder raro. 



DO P. Fr. Luiz de Sousa. 4i3 



».■». %i^/^ »^V»"V v^-»- «/^/W 



A^o livro intitulado Discursos Variei Políti- 
cos , anctor Manoel Scverim cir Faria, 
impresso em Ei^ora em 1624 vem. íJ^^iManoel 
de Sousa Coutinho eUe 



EPÍGRAMMA 



V^Uod Maro suhlinii , quod sua>i rinrla- 
rus , alto 
Quod Sophocles, tristi Naso , qcod or« 
canit. 
Maestitiauí , casus , horrentia piaelia , amo- 
res , 
Junctasiinul canlu , sed graviore , danuis.' 
Quisnani andor? Camoniu.s. Undc hic? 
Protiiilil illuin 
Lysia in Eoas imperiosa plagas. 
Unus tanta ucdit :* Oedit , et maiora datu- 
riis, 
Ni ciileri fato corriperetiir , erat. 
Ultimus hic choreis Musaruiu pncfiiit: illo 
rieniur Aonidum est , jiubiliortjuc clui- 

rus. 
Fios vetcris, virtuscpie iiovae fuit ille 
Cauienae: 



4f4 Varias composições 

Debita jure sihi steptra Poésis babet.' 
in Lusitanos Mt;Íicouis culmina tractus 
Transtulit a.itia , Lyi'as , sertã, flucnta ^ 
Deas. 
Currere Castalios nostra de rupe liquores 

Jussit, ah invito prata virere solo. 
Cerne per iuculios , Tenipe meliora , reces- 
sus, 
Cerne satãs sterili cespite , veris opes. 
Omnibus Occidui rident tibi florll)Tis liorti , 

Non ego jani Lysios, credo, sed Elysios. 
Orpheús attonilas dulci inodulainine cantes 
Traxit, et ah stygio squalida monstra 
foro. 
fl^bessalicos , Lodoice, sacro dum flumine 
montes 
Pieridumque trabis , Coelicolumque tbo-^ 
ros. 
£unt maiora tuae Orpheis miracula tocís: 
Attica , quid íacerçs , si libi lingua loretií 



Bo P. Fr. Lriz de SotisA^ 4'S 

l^a Biblioteca Lusitana, tom» 2. Art. Fr. 
Luiz de Sousa , vem de Manoel de Sousa. 
Coutlniio, feito na occasião , em que 
deitou o ffygo ás casas déí sua quinta de 
A ima da , este 

EPÍGRAMMA. 

quid nostris insultas aedibus ? ant 
quid 

Exilio causas nectis, alisque moras! 
Molire , expone, implora, minitare , rc» 
posce 
Yindictam, laqueos, jura, pcricla, ne- 
crm 
Conjurem tecum fortuna, occasio, leges ; 

Longe allò nobis lis dirimenda foro est. 
Quos llama absumpsit, redolct milii fama 
Penates ; 
Ponet ai atíternam non moritura domuin« 



IXviJo , 



I 



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BV Sousa, Luiz de 

5095 Vida do Beato Henrique 

S85S6 

1836 



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