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HiliíeBby GoOgIe 



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J 



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o 

:OL. VII JANEIRO DE 1902 



ARCHE0L0G0 
PORTUGUÊS 

COLLECÇAO ILLUSTRADA DE MATERIAES E NOTICIAS 

PUBLICADA PELO 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



Veterum volveu* mominieiitã i 



LISBOA 

lUPBEKSA NACIONAL 

1002 



a» Google 



SXJ l^L IsO. A. B. I O 



Um archeoloqo esquecido: 1. 

Notas e considerações sobre Bragança: 14. 

Projecto de um Museu Archeologico em Setúbal: 18, 

Protecção official á Archeologu: 22. 

Estátua de um guerreiro lusitano: 23. 

Museu militar: 26. 

Extractos archeologicos das «Memorias parochiaes» : 27. 



. Este fascículo vae illustrado com 4 estampas. 



-o by Google 



O AKCHEOLOGO 
PORTUGUÊS 



V, 

WlOeBby G00gle 



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J 

O ARCHEOLOGO 
PORTUGUÊS 



COLLECÇlO 1LMSTR1M DE IATER1ABS E NOIlCUS 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



REDACTOR — J. Leite de Iíkmceiln 



VOL. "Vil 



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Veterum vaivéns monumenla virorum 



LISBOA 

IMPRENSA RACIONAL 



181 .0 

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O ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 

COLLECÇiO [ILUSTRADA DE KATEMAES E NOTICIAS 

ttJTUJCml FELl) 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 

VOL.VII JANEIRO DE J802 N.* 1 

Um archeologo esquecido 
Minoel de Queirofa Comia Carneiro do Fontoura 

Com este artigo tenho por fim desenterrar do esquecimento o nome 
tle um benemérito, embora modesto, arebeologo trasmontano, que viveu 
nos fins do sec. xvm e primeira metade do xix. Refíro-me a Manoel 
de Queiroga* Correia Carneiro de Fontoura. 

No Dircimutrirj JÍibJio!/r<q>kicu, t. vi, pag. 266, cita-se um pequeno 
opúsculo que elle publicou em 1844, mas diz o auetor do Diccionario 
que nada pôde averiguar da biographia de Carneiro de Fontoura, nem 
ao menOs saber qual era o seu nome de batisino, pois no mencionado 
opúsculo este nome está indicado apenas por «M». 

Todavia, como tive ensejo de examinar dois manuscritos que Car- 
neiro de Fontoura deixou, coibi nelles algumas noticias que entendo 
dever dar a lume, porque todos os que trabalham com sinceridade 
tem direito a que os façamos lembrados, e apreciemos com justiça 
ó fruto do seu trabalho: e Queiroga está neste caso. Os manuscritos 
a que alludo pertencem ao Rev.''° Dr. Pedro Augusto Ferreira, digno 
Âbbade de Miragaia, que com a maior liberalidade me permittiu que 
os examinasse em sua livraria, no Porto, c d'elles extrahisse as notas 
que eu quisesse. Postoque a descrição d'elles só tenha de ser feita 
mais adeante, no cap. II d'este artigo, é-me preciso mencioná-los aqui, 
por causa das referencias que se me toma preciso fazer-lhes no cap. i ; 
são os seguintes: Meworiat (feiwaJiigiritx c Ajtjxmtto âe <ntt!<jttídn- 



i Ora encontro escrito Queiroga, ora Qniroga. 



nuyi> r -' c l '''- i - l!,i , "' 



,;e,(£oo^lc 



O AlíCHEOLOGO POKTlTUfÊS 



áes 1 . Alem (Testes manuscritos e do opúsculo impresso, tenho ainda co- 
nhecimento de um artigo escrito por Fontoura a propósito de ama 
inscripção romana. Aos elementos biographicos colhidos nas fontes in- 
dicadas, que são, porém, em pequeno número, junto algumas informa- 
ções que o illustrado colIaboradord-0 Arckeologo Português, o Sr. Joa- 
quim de Castro Lopo, de Valpaços, teve a amabilidade de me obter, 
segundo commu meações que recebeu de alguns parochos de Trás-os- 
Montes. 

I 

Manoel de Queiroga Correia Carneiro de Fontoura nasceu na Granja, 
freguesia de Jou, no 1.° de Abril de 1784. A freguesia de Jou perten- 
.cia naquelle tempo á comarca de Chaves, hoje pertence á comarca 
(e concelho) de Valpaços. 

Seus pães foram Carlos António Queiroga Teixeira e Maria José 
Carneiro de Fontoura, que casaram em 30 de Novembro de 1780. 
Seus avós paternos: Francisco de Queiroga Teixeira e Anna Maria 
de Sá Carneiro, da freguesia de Lamas de Orelhão; e matemos: IV 
Leonardo José Carneiro, do logar da Granja, e Joanna Gomes, do logar 
de Zebras, freguesia de S. Nicolau dos Valles. Foi batizado em 8 de 
Abril de 1784 a . O nosso anctor teve três irmãos: Luis, Ignacia e Anna. 
Ou por todos os ramos, ou só por alguns, era de descendência nobre: 
nas Memoria* genealógica» intitula-se mesmo i fidalgo por linhagem», 
e ahi, a fls. 13, segundo uma communicaç&o do Sr. Abbade de Miragaia, 
falia na sua casa tohtriega da Granja do Jou. A relação d'esteB factos 
nao deixa de ter certa importância, como veremos adeante. Na sua fa- 
mília havia, pelo menos, outro padre, alem do já mencionado; chamou-se 
elle João Manoel de Queiroga, seu tio (reitor da villa de Franco, falle- 
cido em 1828). 

A esta parentela ecclesíastica se deve talvez o facto de Carneiro 
de Fontoura seguir a mesma vida. Segundo o que me diz o Sr. Cas- 
tro Lopo, elle ordenon-se em Braga. Numa carta do Rev.* 1 parocho de 



1 Já depois de escrito o que precede, me disse o Sr. Abbade haver offerecido 
estes mss, á Bibliotheca Municipal do Porto. — N-J Vida Moderna, d." 2ti, de 7 
de Março de 1895, publicou o mesmo Sr. uma breve nota á cerca dos referidos 
manuscritos. 

1 Estas informações foram em parte ministradas pelo Bev.'* Parocho de Jou, 
em carta de 9 de Novembro de 1895, dirigida ao Sr. Castro Lopo: provem do 
litro dos batíamos. Completei-as com o que se lê nas Memoria» genealógicas, 
fls. 213. 



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O Abcheologo Portcovés 



Lamas de Orelhão, dirigida ao Rev. do paro ir lio de Jou eia data de 23 
de Novembro de 1895 e que me veiu as mãos por intermédio do 
Sr. Lopo, encontro o que se segue: «Parece que o P." Manoel Quei- 
roga Carneiro Fontoura, logo que se ordenou, veiu para Lamas, onde 
tinha família. Por os livros do registo vejo que fôra aqui encommen- 

dado desde Março de 1810 Em 1816 he feito cavalleiro da Ordem 

de Christoi. 

Parece que foi em 1816 que terminou as Memorias genealógicas, 
pois no rosto se lê essa data; ahi se intitula também ícavalleiro na 
Ordem de Christo». 

No Apparato de Antiguidade» cita- se a data de 1835; como o titulo 
d'esta obra é dado no folheto impresso, que tem a data de 1844, 
segue-se que o Apparato foi escrito entre 1825 e 1844. 

Entre estas doas datas posso mencionar ainda um facto da sua 
vida: a sna nomeação para reitor das Lamas de Orelhão, que foi 
feita em Abril de 18S2*. 

Carneiro de Fontoura finou-.se nas Lamas em 20 de Novembro de 
1856, sendo sepultado na igreja matriz d'essa freguesia 1 . 

Aqui está tudo o que pude apurar da sna biographia propriamente 
dita, e creio que mencionei os factos essenciaes d'ella, porque, ao que 
se crê, a vida de Carneiro de Fontoura correu serena: vida de estudo 
e de bondade. tFoi homem muito virtuoso, — diz -me o Sr. Castro Lopo 
na carta já citada — , e por esta circumstancia, qne nao tanto pela do 
sen saber, ainda hoje é lembrado pelos velhos da freguesia». 

Passarei agora a occupar-me mais detidamente dos trabalhos litte- 
rarios que deixou. 

n 

1. A obra mais antiga do nosso auctor é a seguinte: Memoria 
Genealógica, ou Apparato para o traetado das genealogias da provín- 
cia de Tras-os-Montes, tirado do* melhores genealógico» e dos cartórios 
e documentos authenticos, assim antigos como modernos, procurados 
para estejim — por Manoel de Queiroga Correia Carneiro de Fontoura, 
fidalgo por linhagem, cavalleiro na Ordem de Christo, natural da fre- 
guesia de Jou, no termo de Chaves e morador na villa de Lamas de 
Orelhão neste presente anno de 1816. 



1 Carta do Rev. 1 '» Paroeho das Lamas, de 23 de Novembro de 1895, já citada. 
* Carta citada na nota antecedente. E carta do Sr. Castro Lopo, de 31 de 
Dtiembro de 1895. 



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O Archeolouo Português 



É um volume in-folio, de 272 fls., com algumas paginas em branco. 

Á semelhança de outros genealogistas, que não querem deixar os 
seus créditos por mãos alheias, Fontoura trata ahi largamente da 
historia da sua família. De si, porém, diz somente: «M. de Q. C. C. 
ile F-, cavalleiro professo na Ordem Militar de Christo, e depois Reitor 
da igreja de Santa Cruz de Lamas de Orelhão, e autor de alguas 
obras de leieratara, alguas já impressas». Esta observação deve ter 
sido acrescentada posteriormente a 1844, em que appareeeu a lume 
o folheto que em breve descreverei. Posto que o auetor, ao faltar das 
suas obras, diga «alguas já impressas», não se conhece mais nenhuma 
nesse caso, alem do mencionado folheto. 

O ms. tem lettras variadas, o que mostra que Fontoura collec- 
cionou apontamentos de differentes proveniências. 

D'esta obra tirou uma cópia, com prévia auctorização do Sr. Ab- 
bade de Miragaia, o Rev. d> Manoel Joaquim da Silva Machado, reitor 
que foi de Bornes: cfr. A Vida Moderna, n.* 26, de 7 de Março de 
1895 (Porto). 

Vimos, no cap. i, qne o nosso auetor provinha do estirpe nobre; 
isto explica que, tendo como tinha, inclinação para as investigações 
histo rico-litter árias, se lembrasse de escrever a genealogia das famílias 
trasmontanas, e por isso da sua própria. Começando pelos seus, come- 
çava bem. 

2. Superior á obra precedentemente mencionada é a que tem por ti- 
tulo: Apparato de antiguidades romanas explicadas, e collecção prompta 
de regras, exemplos, e observações theoricas e práticas necessárias para 
illustração das artes e sciencias; interpretação, intelligencia e perfeito 
conhecimento dos authores latinos e das antigas inscripçoes dos már- 
mores, bronzes e medalhas; seus differentes pezos, e valores reduzidos a 
moeda portugueza, etc, —com três estampas, — por M. de Q. C. F. 

Volume in- folio. Algumas das folhas estão sd escritas de um lado, 
como é costume quando se destina uma obra á impressão. 

A obra compoe-se de duas partas, que vou analvsar, 

PARTE I. — Consta de quatro livros, cujas matérias são as se- 
guintes: 

Livro i. Intitula-se Dicionário de antiguidades romanas, e vae 
de pag. 1 a 319. Da seguinte lista de títulos consta qual a matéria 
tratada: As, Athehae, avgvr, avrica, ayspex, balskae, cadycevm, 
Carthago, Cato, Cavdinae fvrcae, censor, Cícero, colónia, 
coxsvl, Dasaides, dkxarivs, Devcaliox, eyphemisuvs, flamen, 
(Jallia, Hispânia, Homervs, Lares, genitivvs, Genivs, gladia- 



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O Arcbeolouo Português f> 

TOREK, MVNICIPIVM, MYTHOLOGIA, - KUUISHA, PATRICII, PROVÍNCIA, 
SCIENTIA & ARTES, SESTEKTIVS. auetor trata agsim successiva- 
ínente da mythologia, da historia litteraria, da geographia, da numismá- 
tica, da rhetorica, da grammatica. Alguns d'estes artigos constituem 
verdadeiras dissertações, mais ou menos extensas, como o que se 
intitula AS e o que Re intitula nvmisha. O artigo DENARIV8 foi 
reproduzido no folheto que se imprimiu em 1844, do qual fallarei 
maia adeante; a estampa que acompanha o folheto foi coitada no 
ms. do ÂpparatOj no logar respectivo. No mesmo folheto foi tam- 
bém aproveitado o artigo sobre xvmisua. A propósito do artigo 
em que trata da Hispânia insnrge-se com toda a razão contra 
o que alguns auetores disseram da existência doB reis fabulosos 
da Ibéria, attribuíndo isso ao italiano Fr. João de Viterpo, qne o 
faria para lisongear D. Fernando de Hespanha; todavia a lenda é 
mais antiga, e podem buscar-se os fundamentos d'ella num passo do 
historiador Josepho (sec. i), erroneamente interpretado. Lê-se ahi: 
jwtoouÇii Si xxi Qá>fateq 06>J5-fl).9u; oítivíí í» xaí; wv l[3npíç xa/owrai: 
quin et Tkobelu» ThobelU sedem dedit, qui nostra aetate Iberi vo- 
cantur 1 . Josepho não diz se falia da Ibéria do Occidente, seda da Ásia; 
por ísbo S. Jeronymo (sec. m— iv) escreve: Thvbtd, id e»t, Iberi Orien- 
tulet, vel de Oiridenti» partibus Hvt/Hiiu 1 . Estas singelas indicações 
concorreram para o apparecimento de muitas fabulas de que diversos 
historiadores das cousas de Hespanha e Portugal encheram longos ca- 
pítulos das suas obras, povoando de reis phantasticos as regiões da 
Ibéria nas épocas, primitivas. De Tubal até houve quem suppneesse 
que veiu a palavra Setúbal! Mas nío è aqui o logar apropriado para 
me oceupar d'isto, e volto pois ao nosso auetor. 

Segue-se ao assunto tratado por Fontoura um Sapplemento ao 
Dicdonario de antiguidade», com os nomes próprios pelos quaes no 
tempo dos Romanos foram conhecidas várias cidades, promontórios, 
rios, etc, pertencentes a Portugal. Se Fontoura junta ás vezes indica- 
ções tiradas de AA. gregos, junta também nomes como Callipolis 
= tVHla ViçoBa», o qual nào passa de uma grecizaçâo moderna, for- 
jada, como creio, por André de Resende. 

Livro ii. Intitula-se Lettra» e cifras, e vae de pag. 320 a 358. 
Consta de dois capítulos: cap. I, Do valor das lettra» do nlphabeto 
latino, — grande lista de abreviaturas semelhante ás que já vinham 



1 Opera rnimia graeee et latine, Amsterdam 172*!, liv. i, 
» Opera, t. v, Verona 1786, p. 311. 



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O Archeologo Português 

na Prosódia do P.' Beato Pereira; cap. II, Das nota» ou cifras nw««* 
aes de que usarão os antigos Romano», e de que ainda hoje se usa. 
Liveo III. Intitula-se Chronologia dos reis latinos e romanos, dos 
cônsules, dos imperadores, dos césares e dos tyrannos, ete. — Vae de 
pag. 359 a 414. É um resumo chronologico da historia romana até o 
empo de Rómulo Angus tu lo. 

Livro iv. Intitula-se Dos Fasto» consulares. Vae de pag. 415 a 
436. — Contém uma estampa que representa oma moeda romana, e 
outra que representa uma medalha relativamente moderna. 

PARTE II. — Contém 146 paginas, e consta de dois livros: 

Livro I. Intitula se: Das inscripçZes romanas, tuas definiçZee e 
differenças. Vae de pag. 1 a 132. Transcreve de G-rutero, Argote, Joio 
de Barros (Antiguidades de Entre Douro e Minho) e outros AA. vá- 
rias inscripçfies para exemplo da8 definições e para commentarios 
históricos. Discute-as e annota-as, classificando -as em: religiosas, 
funerárias, honorificas, ete; 

LlVRO II. Calendário romano gentílico commentado.Vaa de pag. 133 
a 146. — E aqui termina toda a obra. 

Do que deixo dito se evidenceia que o Âpparoto de antiguidades 
romanas é obra circunstanciada, noticiosa e erudita. 

Carneiro de Fontoura conhece as fontes históricas, e consulta nos 
próprios originaee os anctores antigos que cita; diz elle a pag. II do 
discurso preliminar da Parte I: «Só nos monumentos coevos e origi- 
naes é que se pôde achar aquella verdade, sem a qual todo o estudo 
é quasi nullo; faltando esta certeza, e immediata noticia de antigui- 
dade interior, jamais se poderão estabelecer regras de instrucçao ele- 
mentar!. Nestas palavras, porém, elle tem em mira principalmente 
os monumentos. Elias poderiam servir de norma a muitos litteratos 
modernos que só sabem fazer citações em segunda mio. O auctor 
possue espirito claro, vê as cousas com precisão: io estudo das anti- 
guidades romanas, — -nota elle na Parte I, discurso preliminar, pag. II — , 
é. transcendente para quasi todos os estados, e deve por isto consti- 
tuir ua das principaes partes da instrucçao pública*. O valor especial 
da epigraphia encarece-o assim no citado discurso preliminar, pag. VI : 
■os nomes antigos de muitíssimas cidades só por meio das inscripçoes 
é que tem chegado ao nosso conhecimento; e as situações de outras, 
mencionadas nos anctores, tãobem nos serião desconhecidas, se não 
fossem indicadas por estes monumentos, com os quaes, á proporção que 
vão apparecendo, se vai também íllustrando a geographia profana, e 
mui principalmente a ecclesiastica». Do seu espirito crítico dá prova 



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O Akcheologo Português 



*a censura que rui Parte II, pag. 81-82, dirige a Argote por este haver 
aproveitado, sem discussão, as informações archeologicas que recebeu 
de várias partes. Sem dúvida, Fontoura por vezes nao descobre cousas 
que a crítica moderna, melhor armada, descobre; e também áe vezes 
acceita como authenticaa inscripçô*es que o nao s&o: mas isto aio 
admira. Elle próprio falia modestamente de si: dispõe de pouco 
tempo, tem poucas fôrças, e sao igrandes os trabalhos para consul- 
tar livros que nao ha nesta província .aonde escrevo, e maior ainda 
as dimcaldades pelo intrincado da matéria»; comtudo nao desanima 
era levar a cabo a empresa a que metteu ombros. (Parte I, discurso 
preliminar, pag. vn— vjii). 

Dedica a sua obra á educação da mocidade. Que salutares conse- 
lhos elle dá, nestas palavras do citado discurso, pag. iu, aos archeologos 
principiantes!: <a dócil mocidade só deve estudar pelos authorea ori- 
ginaeB, aprender ' nelles, e nas inscripçoes e medalhas, a historia ro- 



Apesar de Fontoura mostrar bastantes conhecimentos, estar bem 
ao facto da litteratura romana e do movimento archeologico do seu 
tempo, parecer-me-hia pouco prudente publicar hoje na íntegra o 
Apparato de antiguidade». O que teria sido útil nos princípios do 
sec. xix, seria agora serôdio. A anályse que acabo de fazer e os 
extractos que pnblfco adeante bastarão para dar ideia dos méritos de 
Fontoura. 

3. O terceiro trabalho de Fontoura, de que tenho de fallar, é em 
ordem chronologica o seguinte: Instrucçbes de Numismática, para uso 
da mocidade estudiosa e dos curioso» em gabinete de medalhas antigas, — 
Porto, Typographia Conimereial Portuense, 1844, folheto de 40 pa- 
ginas, com nma estampa. No prologo diz : «Em quanto, pela faha d'hum 
suficiente numero de assignantes, continua a retardar -se a impressão 
do Apparato de Antiguidades Romanas explicadas ' obra volumosa, k (sie) 
muito tempo completa, e já, por vezes, enunciada em vários program- 
mas, e periódicos de huma e outra capital; resolvi, para utilidade dos 
candidatos, divulgar, antecipadamente, pela imprensa as presentes in- 
strueçÔes de Numismática, que na mencionada minha obra occupao 
quatro dos 460 artigos differentes em que ella se divide. Oxalá, que 
esta, pequena parte chegue a subministrar ao respeitável publico huma 



1 [O A. junta uma nota no fundo da página, onde transcreve por extenso 
o rosto do Apparato, que ji vimos acima qual era, e onde di nma ideia snm- 
maría da matéria e divisões da obra]. 



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8 . O Amcheologo Poktuqués 

idea perfeita do seu todo, e que ao mesmo tempo impressione nos peitos 
dos intendo dores os mais ardentes desejos, em pró do meu empenho, 
afim de se não baldarem as grandes fadigas litterarias, que, sempre 
encadeadas, chegarão a ocoupar os melhores aiinos da minha exis- 
tência » . 

O folheto divide -se em dois livros: I) histmcçoem de Numimmi- 
tira; II) D»n instrucçde* mnitismatitm, — e cada um d'elles consta de 
differentes capítulos. Contém .para o tempo, e ainda em parte para 
agora, para leitores portugueses, algumas noções úteis. Digo em parte, 
e para hitwet portugueses, porque existem no género muitas obras 
modernas em francês, italiano, allemão, inglês, que poderão consul- 
tar-se com maior proveito. Não é sem certa sympathia especial que 
fallo d'este livrinho, porque foi um dos primeiros, ou mesmo talvez 
o primeiro, que me deu algumas luzes de numismática, ainda durante 
a epocha dos meus estudos esoholares. 

4. O quarto e ultimo trabalho de Fontoura é o artigo a que me 
referi n-0 Arch. Port., n, 170, escrito por elle a propósito da inseri- 
pçâo dos Jiatileniea, achada em Moncorvo, e hoje existente uo Museu 
Etimológico Português. Como a inscripção foi encontrada em 184Õ. 
segne-se que o artigo é posterior a esta data. 



O que se sabe da biographia propriamente dita de Carneiro de 
Fontoura é demasiado escasso para que possam preeisar-se quaes as 
influencias especiaes que o levaram a oceupar-se da archeologia. Como 
base das manifestações do espirito humano está a própria natureza 
do espirito. Porque é que um individuo manifesta predisposições para 
pintor, outro as manifesta para mathematíco, este para marinheiro, 
aquelle para botânico? A sciencia é impotente para responder a taes 
perguntas, e limita se a indicar, quando isso se torna exequível, as 
cauBas determinantes de certas manisfeataçòes. Assim se comprehende, 
por exemplo, que, dada a impulsão nativa, irrednctível, do espirito de 
André de Resende para a archeologia, elle encontrasse, quer na sua 
pátria, Évora, que possue interessantes monumentos romanos, quer 
em viagens que realizou pela Hespanha, Itália, etc., e no convivio de 
homens eminentes na matéria, alimento do fogo sagrado que o abrasava. 

A respeito, porém, do que aotuou no espirito de Carneiro de 
Fontoura nada posso, como ponderei, indicar ao certo. 

Em Jou e Lamas de Orelhão havia algumas antigualhas, como se 
verá no Appendice a este artigo: isso porém tem tão pouca importância 



1 



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, O AvCHKOl.OUO POBTUtífâS V 

para o caso, que nem vale a pena cita-lo. Talvez a estada em Braga, 
a vista dos monumentos antigos que lá ba, a familiaridade com um 
ou outro professor mais instruído, tivessem exercido nelle alguma in- 
fluencia, bem como o facto de Fontoura ser de família antiga, — o que até 
certo ponto desperta o interesse pela historia — , e por ventura as 
relações com o seu tio Padre da villa de Franco. No entanto, mais 
prudente é dizer que nada sabemos positivo, do que estarmos a pro- 
por hypotheses ponco fundamentadas. 

Carneiro de Fontoura não se limitou a escrever tratados de archeo- 
logia; também foi colleccionador : pelo menos, ao citar umas moeda* 
romanas e góticas apparecidas perto das Lamas de Orelhão, refere-se 
ao seu gabinete, isto é, á sua collecçao numismática: vid. Apparato 
•Ir. <mti,,nidftdes, Parte II, pag. 120-121. 

Como Appendice a este artigo, publico alguns trechos que extrahi do ' 
Ap/iat-ato de antiguidades, e que me parecem interessantes. Áhi encon- 
trarão os leitores várias notícias curiosas, e duas inscripçues que sup- 
ponho ainda inéditas. Os mentos de Carneiro de Fontoura ficarão d'este 
modo mais patentes. 

ÁPPENDICE 

Extractos do «Apparato de Antiguidades Romanas» de Carneiro de Fontoura 

I. Sepulturas prebiatorioas 

Modorras e dolrauns 

tSobre alguas das sepulturas costumavlo [os Romanos] amontoar 
grande quantidade de terra, e a este montão chamavSo agger sejntl~ 
eralis ou tumulas, pelo que fingiu Virgílio, no Jiv. m das Eneida», 
v. 62, que Kneas, a respeito do tumulo de Polydoro, faltara assim : 

Ergo i»$lauramv» Pobjdoro funits et ingen* 
Aggeritur tumulo UUv» • 

E accresoenta no fim da pagina a seguinte interessante nota: 
iD'efltes túmulos sepulcraes existem inda hoje muitos por varias 
partes da província de Tras-os-Montes, aos quaes aqui chamão modor- 
ras, nome bem próprio pelo que significa Na freguesia de Jou 

togar da minha naturalidade, em terra de Chaves, perto da quinta de 
Valdegoa, estão dous d'estes túmulos no alto de uma pequena collina, 
que por isto se chama Mòdvrra, e o vulgo a denomina Mudorra. Em 
roda do logar de Zebras, freguesia de Valles, tãobem dietrícto de 
Chaves, hoje de Carrazedo, existem muito d'estes marachões, prin- 
cipalmente em umas planuras incultas, e pela maior parte cubertas de 



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10 O Archeoloqo Português 

algum pequeno mato, ao Sudneste e Poente da dita povoação: do? 
naturaes allí, por não saberem o que aquillo he, une lhes ch&mão 
Muraddhas, e outros Casas da Moura. Alguns d 'estes montões de 
terra for&o jl alli, e em outras partos, escavados, e desfeitos por 
pessoas que esperavão achar thesouroa; porém o que quasi sempre 
tem app&recido debaixo, he uma espécie de cabana formada de quatro 
ou cinco pedras grandes, á similbança de colomna, postas ao alto, e 
encostadas umas contra outras; de modo que o coroe da tal cabana, 
ou finda em pont'agnda, ou he coberto com outra pedra, que lhe 
serve de tecto. Dentro apparecem quasi sempre carvSes, ossos e cin- 
zas dispersas, ou mettidos em umas. O P." Contador, nas suas Memo- 
rias de Braga, tom. u, pag. 511 e 512, falia de alguns d'eafes mon- 
tinhos de terra e cabanas dietas, na freguesia de Mondrões, termo de 
Villa-Keal, e de outros muitos na província de Minho, aonde os taes 
montinhos se ehamlo Mamôas; e ainda que menciona uma destas 
mamoas em que apparecerao algnas pedras sepuloraes, mesmo assim 
não tem estes marachões por túmulos, o que evidentemente he erro>. — 
Parte II, pag. 20-21. 

II. Sepulturas romanas 

1) Sepulturas romana» era gtraJ 

«Não fonto os Romanos tâo esmerados e cuidadosos das próprias 
casas em que viviSo, como das sepulturas em que havião de jazer 
depois de mortos; e isto, ou porque olhavSo aquellas só eomo hospe- 
dagens, e estas como habitações perpetuas, ou porque, á similhança 
dos Egypcios, a sua maior consolação era, quando morressem, deixar 
por meio das inscripçoes e outros monumentos sepuloraes de tal modo 
perpetuada sua memoria, que jamais esquecessem entre os homens 
seus nomes, acções e virtudes. Mas, como estavao persuadidos de que 
se acaso carecessem de sepulturas, nao podilo suas almas ser admit- 
tidas na barca do inexorável Charonte, sem que primeiro andassem 
cem annos errantes nas margens dos rios inferuaes, por onde devião 
passar aos campos Elysios, parece que entre elles este motivo, ensi- 
nado pela sua religião, seria o mais poderoso para cada um mais 
antecipadamente cuidar da sua própria sepultura, com toda aquella 
magnificência, que permittiSo os seus teres, dignidades e capricho*. — 
Parte II, pag. 17-18. 

S) Sepultura* de tijolo romana* 

•Os muitos fragmentos de tijolo, de que inda hoje vemos semea- 
dos alguns campos, assaz bem nos certificam que as sepulturas feitas 

tptizeabyGoOgle 



i 



O Akcheologo Português 11 

d/esta matéria, erao vulgares nesses tempos [dos Romanos], ao menos 
aonde nao havia pedra de granito ou qualquer outra apta para se 
lavrar». — Parte II, pag. 19. 

3) Sepoltova romaum de .A.vidaiKOM 

Ao descrever, na Parte II, pag. 18—19, sepulturas romanas «feitas 
de grandes tijolos, unidos e seguros com pregos e chapas de ferro», 
diz na nota 2 de pag. 19: 

(lio anno de 1825 appareceo uma d'estas sepulturas na freguesia 
d'Avidagos, termo da villa de Lamas de Orelhão. Tinha nove palmos 
de comprimento, e quasi quatro de largura, á similhança de uma 
arca: dous abraçado res de ferro com pregos seguravao a união dos 
tijolos em cada um dos quatro ângulos, e três grandes tijolos, taobem 
ligados com ferros, formavao a tampa, que sobresahia com sen bordo 
pendente em roda da sepultura, tãobem á similhança da tapadoura da 
arca. Dentro estava a urna das cinzas, á similhança de hum alguidar, 
e de tudo eu nXo vi mais que vários pedaços e fragmentos, porqne os 
rústicos que acharão esta sepultura na occasiao em que plantavio 
vinha fizerão logo tudo em miúdos, com a pressa de possuírem os 
thesouros que suppunhao de baixo». 

Pela minha parte direi que também já encontrei e explorei orna 
sepultura romana feita de tijolos com uma tampa de mármore segura 
por varões de ferro. 

m. InaoripçSea romanas 

1) De VllIo-E-lor 

«Na estrada, que deVilla-Flor vai para a Torre-de-Moncorvo, e 
sítio em que os passageiros começam a subir á colima, que separa os 
campos da Yillariça, do rio Sabor, está uma estalagem denominada 
da Silveira, e em cima de uma das suas portas, para o Sul, uma 
grande pedra, com a seguinte inscrípcao, que segundo me parece 
ainda não foi publicada: 

D MS 

ALLIA RE 

BVRINA 

N XLV H-S- 

ST TL 

Diu Manibus sacrum. AUia Reburrina annorum XLVhic «tta est. 
Sit tibi terra lei-U».— Parte II, pag. 26-27. 



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12 O Ahohkologo Português 

O A. faz notar que os A A nao estão cortados, e que REBVR- 
RIKA tem um só B. 

Esta inscripção nao se encontra no vol. n, do Corp. Inter. Lat. 

(No mesmo sítio em que eu vi, e copiei da própria pedra a inseri- 
peão. que acima marquei com o n.° fl, consagrada aos Manes de Allia 
KeLurrina, existe ainda, com vários fragmentos de outras, a seguinte : 

DM 

Q MAET 

IONI A' 

XXVIII 

H S E 

8-T-T-L- 

Aos deuses Manes e a Quinto Mareiào, de vinte e oito mi/ws, de 
idade, o qual aqui está sepultado. A terra te seja leve. A cifra A' no 
fim da terceira regra, vale por AN e diz annorumt. — Parte II. 
pag. 36. — Esta inscrípc&o nJto vem no vol. II do Corp. Inscr. Lat. 

É curioso Martiont — Mareio»!. De Mareio ha um exemplo no 
Corp. Liscr. Lat., u, 773 nota. 

11) J_>u Hrsaa 

• InscripçSo de Braga, onde a vi dentro do pateo o parede das casas 
Barros antigos da rua das Travessas, aonde hoje assiste o cónego 
i Maria da Silva, e diz: 

ASCLÉPIO 
IPHYGIAE 

MARCVS 

EX VOTO 

is lettras forão abertas por railo liabil, e achao-se bem conser- 
is, assim como a pedra, que he hum pedestal de estatua com sua 
ita em roda das lettras das inscripçSes, as quaes forâo douradas, 
o ioda claramente se vê». 

> A. diz que Joio de Barros a cita. Queiroga interpreta: Marco, 
voto que fez ao deus Esculápio pôz esta base ov peanha d sua effigie. 
54. _Mas deve ler-se ET HYGIAE. Vid. Corp. Inscr. Lat., 
•411. 



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O AltCHEOLOÍlO FOHTIIOUÊS 



3) De Marialva 

«Na villa de Marialva, comarca de Pinhel, está na parede de uma 
L'asa particular, a seguinte inscripçlo, que me foi remettida por pessoa 
intelligentc, que a copiou com todo o esmero: 

IMP-CAES -DIVI TRAIANI PARTHICI 
F TRAIANO AVC-PON-MAX-TRIB- 
POTESTCOS-II CIVITAS ARAVOR 

Parte II, pag. 85. —Esta inscripçao vem com melhor forma no 
Corp. Inter. Litt., n, 429. 

IV. Braoara Augusta 

■O sitio de Braga he no melhor clima da zona temperada, debaixo 
de ceo claro em campo fertilissimo, e espaçosamente plano, quasi na 
enseada do mar, sitio em tudo a propósito para gosar das riquezas do 
país e da navegação, que no tempo dos Romanos se fazia grande pelo 
rio Cadavo, des o mar até o sitio da Furada, a uma legoa de Braga, 
como prova o Contador de Argote. Era por tanto Braga sobre pujante 
em qualidades natnraes, e sem fallar nas civis de convento juridioo e 
dietado de Augusta, por serem extensivas a outras cidades de menos con- 
sideração, Braga, já nesses tempos melhor que agora, se avantajava a 
todas as da Gallecia, em parallelo com as maiores da Citeríor e Ulte- 
rior Hespanha; em grandeza, como testeficào os vestígios da sua grande 
extensão, em trafego por ser praça de negociantes cidadãos Romanos 
(Grutero, pag. 498, inscrip. 6), em belleza, como nos consta por vários 
monumentos de seu antigo esplendor, e finalmente na opulência, eomo 
nos consta por. Ausonio, no seu tractado Clarae Urbia, aonde, compa- 
rando Braga com as maiores das Hespanhas, só a esta dá o epitheto 
de Rica: Quaeque sinu petagi jactai Be Jiracara ãives. Mas no que 
Braga excedeo sempre des os primeiros tempos de Augusto, sem 
jamais ser excedida por outra algua cidade, foi na magnificência 
dos seus grandes caminhos. Erao cinco os principaes, todos pavimen- 
tados de pedras quadradas, e ourelados com suas guardas, todos 
medidos, e assignalada oada uma das milhas com padrões cylindrieos 
de grandeza desmarcada, em que inda hoje vemos os nomes, e títulos 
dos Imperadores Romanos, e dos Pro-pretores e legados, que manda- 
rão reformar estes caminhos assim magníficos. Em um destes, a que 
chamarão Via Nova (e depois se chamou Geira porque passava pelo 
monte Geres) fizerao os Romanos grande ostentação do seu poder, 



cbyGOQ^IC 



14 O Archkologo PoKTuotÉa 



rompendo montanhas, vencendo alturas, e fabricando pontes, oH 
tSo profusamente, que eltes mesmos intitularão este caminho Obra 
grandiosa, como vemos na inscripçSo exhibida pelo Contador de Ar- 
gole, tom. i, pag. 552, que diz no fim delta: Qptt» amptum, etc.» — 
Parte II, pag. 93-95, nota. 

V. Autigualhaa das Lamas de Orelhão 

Na Parte II, pag. 120-121, falia de uma povoação antiga que ficava 
perto de Lamas de Orelhão, «em uma colima próxima, hoje chamada 
Muro, pelas muralhas de que era cercada, de cujas ruínas se edificou 
a villa nova, em logar mais commodo». E accrescenta que ahi appa- 
receram muitas moedas consulares, imperiaes e góticas. Na Parte I. 
pag. 311, tem também uma referencia a estas ruínas, e diz que a col- 
lina é cercada não só de muros, mas de fossos. 

J. L. de V, 



Notas e considerações sobre Bragança 

Como comprovando mais as ratões que expus num trabalho que- 
intitulei Bragança e Bemquerença, publicado pela benemérita Sociedade 
de Geographia de Lisboa em seu Boletim, n. * 3 e 4 de 1898-1899, 
e que me levaram a crer que na collina da Villa de Bragança, antes 
de D. Sancho I a mandar fortificar, deviam ter existido outras povoa- 
çSes de povos que por aqui estacionaram, sendo uma d'ellas romana, 
que poderia ter sido a *Bríganiia, tenho agora mais de aecreacentar 
o achado em differentes pontos d'este local de moedas de cobre ro- 
manas que estio no Museu, algumas d'ellas apparecidas em remoções 
de terras e a uma tal profundidade qne indica, bem como a consistência 
do solo, que ha muito tempo tinham ficado atli. 

Outra informação também se me deparou, que e abonatoria do 
mesmo parecer e que tenho como argumento valioso, posto que não passe 
de mera tradição. Vem a ser a noticia que li a paginas 125-r de um 
manuscrito, que comprei a um vendedor de ferros velhos, intitulado 
Tombo da Igreja de S. João, em que, a propósito de ama curiosa e 
interessante questão levantada em 1643 e decidida em Miranda do 
Douro sobre as primazias das duas igrejas matrizes de Bragança, 
Santa Maria e S. João, o parocho d'aquella, que está no ponto mais 
elevado da referida collina, allega, como um dos motivos de preferen- 
cia, a sua antiguidade, dizendo: «Provaria que a Igreja de S." Maria 
Matriz da Cidade de Brag." de que elle Embargado he Prior he tau 



cbyGOQ^IC 



O Abcbeoloqo Português 15 

Yitíga, que he mays antiga, que a mesma Cidade, no Lugar aonde a 
mesma Cid.* hoje esta, porque a Cidade de Bragança, foy primeyro o 
seu assento no Cabeço da Cid.* adonde ahinda ha signays, e Vestígios 
dos muros delia, e ahinda agora aqnelte cabeço bé da mesma cidade, 
e como se deo as freyras de Santa Clara por a Camará ser padroeyra 
do Mosteyro ahinda hoje em dia rende para as freyras, e por assim 
ser. Provaria que sendo outro em Lugar doude agora está fundada a 
mesma cidade, e hum sardnal muy especo os muradores da mesma 
Cidade qnererião no Cabeço assim dito, e mandariXo seos boys e gados 
apastar ao dito sardual adonde pellos pastores foy achada em hum 
sardao a Imagem de Nossa Senhora de vulto, que está na mesma 
Igreja Matris, e por essa razão athe boje em dia se chamou sempre, 
e ahinda hoje em dia se chama Nossa Senhora do Sardao, e logo se 
lhe fes a Igr." para ella estar, e vendo os moradores da Cidade velha 
de Brag.% que estava no Cabeço antigo os milagres que a Senhora 
fazia se mudarão do dito cabeço com sua fazenda e cazas para junto 
da Igreja da Senhora, e assim se começou a Cidade de Brag."* adonde 
agora está por bonde se vé que he mays antiga qne a mesma cidade 
e assim he erro dizer que ha Igrejas tão antigas como ella. na cidade». 

O «Cabeço da Cidade», hoje Cabeço doe Freiras, fica seis kilomc- 
tros e meio em linha recta a nascente de Bragança, sobre o rio Sabor, 
e muito abaixo da ponte de Valbom, no caminho velho que vae para 
Miranda. Ainda lá se vêem restos de um castro e signaes em forma 
de ferradura numa fraga. Não é crível que fosse allí o assento primi- 
tivo da cidade de Bragança, porque a distancia, condições topogra- 
phicas e outras razoes contrariam por completo o parecer do prior. 
Era mais verosímil que o Sardoal pertencesse ao Castro de AvellZs, 
Gimonde, Samil, ruínas da Deveza de VUla Nova e a outras estações 
archaicas que distam metade ou pouco mais de metade do espaço que 
o separava do dito «Cabeço da Cidade», assim chamado, talvez, por 
pertencer á Camará de Bragança, como agora se chama (das freiras», 
por haver pertencido ao convento de Santa Clara. 

Mas não ; a lenda do apparecimento da Senhora é que tem para 
nos verdadeira significação, qne confirma o ter existido na coluna da 
Villa uma povoação dos primitivos povoadores d'estes sítios. Lendas 
d'estas e outras análogas, taes como as que se contam em varias partes, 
Sacoias, Carocedo, SanfAnna de Ervedosa, etc., são indicação certa de 
haver nos locaes a que ellas ae referem vestígios de estações da época 
romana ou luso -romana. Esta coincideneia, que, embora repetida, dúvida 
não nos deixa, a admittir nos leva com segurança, que o mesmo se deu 
neste local, como haviamos conjecturado. 



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16 



O AkCHKOLOUO PoitTI-OLÊS 



Neste mesmo tombo achamos também as seguintes noticias relati- 
vas ás antiguidades de Bragança, que, por curiosas, entendemos serem 
dignas de se registar. Assim a paginas 126-u, tratando ainda do mesmo 
pleito, o prior allega que: «Provaria, que Igr, a de. S. João foy fundada 
por Ima Maria Pires de Moiaes, e por isso seo corpo estava em Lua 
sepultura na parede da dita Igreja para a porta do Adro, e na Ta- 
boada velha das relíquias e indulgências da dita Igreja que está em 
poder do Embargante estava nomeado dia certo do anno em que ga- 
nhava indulgência plenária, que a mesma Igr.", e rezao pella alma da 
dita defunta Maria Pires, e assim o declarava Sebastião Roiz eura na 
mesma Igreja, o domingo antes daquelle dia etc*. 

Fazendo a resenha dos bens da Igreja, a paginas 24-v vem: «Hua 
caza, que deixou Anua Gonçalves mulher que foy de Gaspar Vas Ca- 
minheyro, que está na Rua da Mesquita hoje é a Rua chamada dos 
Oleyros, que parte com a mesma rua e com esta do L. dl Sbastião da 
Guarda e esta obrigada uma missa ao Espirito Santo». Esta rua cha- 
ma-se hoje «de Santo António* e a sua antiga denominação da «Mes- 
quita» provir-Ihe-hia de algum templo mourisco? Se provém, é o unieo 
vestígio que se conhece da estada dos Árabes aqui. 



Também no referido Boletim, tratando da Santa Casa da Miseri- 
córdia, nao errámos o juizo que formámos da sua antiguidade, como se 
vê na copia ~ da lapide de granito que está mettida ua parede sul da 
sua igreja, e pela qual só agora se deu, ao fazerem-lhe algumas repa- 
rações : 



1^3 9-ftN 
R--.IJ { 6 
D-IH6-I9 



Ella mostra haver pertencido a outro templo anterior ao actual, 
que é'de construcção moderna. A cantaria tem já algumas depressões 
ou mossas que deixam em duvida se a 2.* linha seria escrita assim: 

ri *± *ts * X * O -No resto da inseripção nfto lia duvida. 



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O Archeoi-ooo Pomtcgcés 



Uazlo tínhamos para dizer n que expusemos a— O Arch. Port.,v, 
184, a respeito da leitura c significação da inscripçao que alli se trata, 
porque, já depois do que escrevemos, vimos mais nos mesmos casos que 
as primeiras, que despertaram a attençSo, e todas em pedras a dividir 
termos; e agora sabemos, por informação do illustrado Rev. Cónego 
José Maria Ferreira, existir uma no sítio de Mornortau, que divide 08 
termos de Santa Comba o Morado, concelho de Bragança, com esta 
inscripçao 



RCA] 

BA 



tendo as letras inferiores o dobro do corpo das superiores ; e que é fora 
de duvida que quer dizer BARCA, estando escrita por aquella ma- 
neira na pedra, por nâo caber na sua largura de outro modo. O mesmo 
quer dizer esta copia de outra que o Rev. Parodio de Sendas, também 
concelho de Bragança, me mandou 




e em que nio se vêem mais letras, mas de presumir é que o A que 

lhe falta esteja por cima, ainda que já gasto, e por isso mal se perceba 

c o nSo copiou. 

Bragança, Novembro de 1901. , ... T 

F v ' Albino Pereira Luro. 



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O AltCHEOLOÍlO POHTUGUÊS 



Projeoto de um Museu Arctteologico em Setúbal 

Das noticias a baixo transcritas se vê que se projecta fundar um Museu em 
Setúbal. Comquanto eu pela minha parte me esforce sempre por trazer para 
Lisboa, para o Museu Etimológico a meu cargo, todas aquellas antigualbas que 
encontro perdidas, mal estimadas ou deslocadas pelas províncias, — e dos arre- 
dores de Setúbal algumas tenho também trazido—, nem por isso deixo de ser 
apologista da fundação de museus locaes : cfr. O Árch. Port., i, 18 (Serpa), 30, 
223 e 301 (Leiria), 37 (Villa Real), 175 (Moncorvo), 254 (Lagos), n, 272 (Villa 
Eeal), 78 (Braga), ctc. Não direi que se funde um museu em cada villa, mas pelo 
menos devia haver um em cada cidade, ou em cada capital de districto. Se já 
temos Museus Arcbeologicos em Faro, Beja, Elvas, Alcácer do Sal, Lisboa, San- 
tarém, Figueira, Coimbra, Porto, Guimarães, Bragança, ba ainda regiões como 
a Beira Baixa e a Beira Alta, districtos como Leiria, onde não existe nenhum. 
Em Vianna do Castello creio que existem no lyceu algumas antiguidades. Em 
Braga está o Sr. Albano Belliao, com louvável desinteresse e actividade, orga- 
nizando um Museu Archeologieo no paço arebi episcopal, com os próprios objectos 
que elle tem colligido. Setúbal, como capital da península da Arrábida, como 
cidade rodeada de estações arebeologicas, entre as quaes avulta a de Tróia, que 
6 uma das mais celebres do país, merece bem um Museu Archeologieo; e por isso 
é digna do enthusiastieu applauso a ideia da fundação proposta. Se a Ei,"' Ca- 
mará pudesse adquirir a colleeçSo que pertenceu ao fallecido Almeida Carvalho 
(cfr. O Ardi. Port., r, 59), teria nella um excellente começo de museu. 

J. L. mV. 
Museu em Setúbal 

Todos sabem quanta somma de conhecimentos ac cumulados repre- 
senta um Museu e que factor importante se toma na educação de um 
povo, principalmente quando, como o nosso, não lhe sobram tempo e 
eabedaes para procurar fora a instrucção que é uma necessidade do es- 
pirito, como o pão uma necessidade do corpo. Criar um Museu é abrir 
uma escola, é rasgar um parenfheses de luz na vida de uma terra. 

Nós, que de ba muito advogamos com ardente fé e enthusiasmo 
a criação de Museus Regionaes, não podemos senão applaudir e re- 
gosijar-nos com o bom e animador acolhimento que os membros da 
Camará Municipal, reunida na penúltima quarta feira sob a presidên- 
cia do Sr. Venâncio Olympio Ferreira Torres, fizeram á representação 
promovida pela distineta escritora D. Anna de Castro Osório e seu 
marido, o nosso prezado collega Paulino de Oliveira, e que o vereador 
Sr. Henrique Augusto Pereira, a seu pedido, apresentou. 

Tem esta representação por fim requerer á Camará para que faça 
installar na sua pertença, a chamada cape Ha do Corpo Santo, o Museu 
que tanta mingua faz nesta terra. 



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O Archeolooo Português 19 

Os membros da Camará que estavam reunidos approvaram a ideia, 
ticando de ir brevemente tomar conhecimento do local, para, depois 
do seu exame feito, responderem definitivamente. 

Temos pois boas esperanças de que será aceeite a ideia d'aquelles 
senhores, porque só quem não conhece o Corpo Santo pode consentir 
sem amargura em tê-lo fechado, entregue a uma associação de pesca- 
dores, que, por sua honra e é de justiça dizer-se, a teem conservado 
melhor do que talvez outras pessoas mais illustradas o fariam . . . 
Kntregando-a como está, esta associação dá prova da sua boa educa- 
ção cívica, e a Camará decerto não lhe regateará casa, que as tem 
com fartura, onde cila se reúna. 

Estando votada a criação do Museu, a Camará não tinha ainda 
pensado no local onde seria installado; temos pois esperança de que 
so resolva fazf-Io no Corpo Santo, o que será caso para darmos para- 
béns á Camará que tal fizer, e á cidade que ficará dotada com um 
Museu encantador. 

O que seja o Corpo Santo e as suas vantagens como Museu de 
Setúbal os nossos leitores o verão no nosso próximo numero, cm que 
tencionamos publicar a referida representação. 

Será a melhor maneira de poder ser apreciada tão bella ideia, pa- 
trocinada por grande numero de pessoas de vasta cultura intellectual 
d 'esta cidade, e que o povo, que tantas vantagens educativas pode 
auferir de tal criação e installação, certamente applaudirá. 

{O Sul, 24 de Novembro de 1901). 



Como prometlemos, publicamos hoje a representação dirigida á 
< 'amara Municipal de Setúbal sobre a fundação de um Museu no edi- 
fício do Corpo Santo: 

III. 1 " * e Ex. mo * Srs. — Sendo Setúbal uma das mais formosas terras 
do país, aquella onde parece que a natureza caprichou em juntar os 
seus melhores dons, como um clima doce, um céu de esplendido azul, 
aguas de transparência e limpidez incomparáveis, pomares, pinhaes, 
serras pittorescas, vai los amenos, tudo que a poderia tornar a estan- 
cia mais famosa e linda de Portugal, carece quasi por completo de uma 
si orientação artística que dê aos seus habitantes uma alta e nobre 
noção da Arte e lhes ensine a usar intelligen temente os benefícios tão 
prodigamente espalhados neste recanto privilegiado. 

Parece-nos, pois, Senhores, que a criação de um Museu, que seja 
ensino do passado e incentivo para o futuro, é da mais urgente neees- 



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20 AUCHKOLOUG PoiíTtOLÉS 

fsklatle numa terra que deseja progredir, não somente pelo numero das 
suas fabricas c enriquecendo as industrias e o commercio, como edu- 
cando os seus filhos c mostrando aos estranhos que, a pari pauxu, 
se vae engrandecendo materialmente, vae educando a intelligencia. 
rasgando vasto campo para se exercerem as aptidões artísticas do povo. 
que as tem incontestáveis. 

Nas vossas mãos está hoje entregue a direcção do Município, i- 
por isso a vós nos dirigimos para que nos auxilieis com o vosso 
concurso para a criação de um Museu Regional, que se nos antolha 
ser um dos melhoramentos inadiáveis numa cidade da importância da 
nossa. 

Se fossemos bastante ricos para edificarmos uma casa com todas 
as condições que a hygiene requer nas modernas habitações hospita- 
lares, de construcção ligeira, rez-do-chão, bem arejada, e dividida 
propositada para o fim a que se destinava, não hesitariamos um ins- 
tante em propor á Santa Casa da Misericórdia a troca por essa jóia 
de inestimável preço que se chama Convento de Jesus. Ahi instal- 
lariamos o Museu que Setúbal requer, nessa casa que ja por si repre- 
senta um momento único de grandeza na historia artística do pais. 
e que hoje, embora menos mal conservado, não 6 respeitado como 
devem ser os monumentos de arte, visto que as adaptações, por me- 
lhor que cilas se façam, nunca podem passar de triste remédio, e, quasi 
sempre ainda os mais criteriosamente dirigidos, slo mutilações de- 
sastrosas para a csthetica. Mas, infelizmente, não dispomos de re- 
cursos monetários, e tão somente de muito bua vontade de servir a 
nossa terra. 

E, porque nas vossas mãos está dotar esta bella cidade com o mais 
artístico c snggestivo Museu que poderíamos Bonhar, a vós nos diri- 
gimos, Senhores, cônscio de que vos fazemos um bom serviço. 

Pequeno ó o edifício em que pensámos, nem por cmquanto pode- 
remos pensar cm grandezas, porque nos ha de ser árdua tarefa reunir 
objectos numa terra ha tantos nnnos posta a saque pelos amadores de 
fora, c que, com a mais inconsciente indifferença tem deixado levar 
as suas melhores cousas ; mas a casa já de si 6 digna de figurar como 
preciosidade no Museu de arte que alvitramos. Como decerto já vos oc- 
curreu, referimo-nos ao que vulgarmente se chama «Capella do Corpo 
Santo», e que de eapella pouco ou nada tem, a nao ser o oratório, 
todo do magnifica talha dourada, por estranha fortuna cm regular 
conservação. 

Numa cidade que possuísse arte ás mãos cheias, o tCorpo Santo» 
nâo seria para desprezar; em Setúbal, em que a carência de monu- 



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i. 



O Arcueoloqo Português ál 

mantos e objectos de arte é muito sensível, «lie devia ser exposto com 
■.■nvaide cimento aos seus hospedes e tratado com o inteligente carinho 
com que se cuida nos países civilizados de todas as manifestações de 
génio artiatico. 

Parece-nos, pois, Senhores, que não poderá continuar aquella pre- 
ciosidade no desconhecimento de tanta gente, e quasi totalmente en- 
tregue ao bafio do abandono de volha casa deshabitada e trancada. 
Porque aquelle ediãeiozinho, que algumas cousas de custosa valia en- 
thesoura, só de vez em quando é aproveitado para reuniões de uma 
associação de pescadores, que, — diga-se de passagem, para honra d'el- 
les, — não o icem tratado com o vandalismo que a sua ignorância nos 
faria suppôr, — differençàndo-se nisso de algumas pessoas de educação 
ou de posição elevada que já por vezes o teem esbulhado. 

Não e. digno, Senhores, de uma cidade civilizada, como se preza 
de ser a nossa, que se continue a deixar aquella casa tão artística, ou 
a servir de associação de marítimos, ou a estar fechada a sete chaves, 
custando horas e dias de trabalho o desejo de a mostrar a alguém que 
precure conhecer Setúbal. 

Afigura- se-nos, Senhores, que do maneira nenhuma ella seria uti- 
lizada mellior do que num pequeno, mas belEo Museu local, porque 
tem condições para isso, na independência, forma característica do seu 
pateo e escadaria, (que muito bem serviriam para expormos tudo aquillo 
que, recozido pelos tempos, a chuva e o sol não podem prejudicar), na 
amplidão das suas portas o. janellas rasgadas, na decoração das pare- 
des e tectos das suas salas. Dupla e nobremente poderemos servir a 
terra em .que exercemos as nossas actividades: dotá-la de um Museu 
para recreio dos olhos e do espirito, e resgatar um edifício do olvido, 
dando- lhe o único aproveitamento condigno que deve ter. 

E porque estamos convencidos da grande justiça do nosso pedido, 
a vós recorremos, esperando a graça da vossa criteriosa attonção e do 
vosso prompto deferimento. 

E. E. M." 

Setúbal, 24 de Outubro de 1901. 

IH." 1 ** e Ex.™' Senhores Presidente e mais Vereadores da Camará 
Municipal de Setúbal. 

D. Anna de Castro Osorio= Paulino de Oliveira= Dr. João Carlos 
Ilotelho Moniz=Manoel Maria Portella='D. Carlos Pereira Couti- 
nho — l)r. Luiz Teixeira de Macedo e Castro=Dr. António Carlos da 



■a by GoOglc 



22 O Archeologo Português 

Costa Botelho Moniz= António Ignacio Marques da Costa=Dr. Fran- 
cisco de Paula Borba=Dr. Francisco Joaquim Ayres do Soveral^^ 
Dr. Augusto César Loforte=Dr. Domingos Garcia Peres=José de 

Groot Pombo=José António Pmto=Dr. Appartcio Alberto Fernandes 
Calheiros= Luciano de Carvalho =■ Dr . Manoel António Ajfonso Sal- 
gueiro^D. Joaquina Guerreiro Henriques=Jorge Fernandes C?Ott»e»= 
João José Pinto— Alfredo Augusto Portella= Alfredo Leite MitfUen*= 
Joaquim Brandão = Arronches Junqueíro= António Pedro Cardoso Ju- 
nior=Dr. Joaquim Simões Cantante =Joaquim da Costa Novaes= 
Manoel Maria Portella Junior = José Maria da Silva = Henrique 
0'Neill ãe Groot Pombo=João Maria Cardeal Hocka= Júlio Augusto 
de Oliveira. 

(O Sal, 1 de Dezembro de 1901). 



Protecção dada pelos Governos, corporações offioiaes 
e Institutos soientifleos a Aroheologia 

20. Associação Francesa do Progresso das Soieicias 

Esta Associação votou, em sessão de 16 de Março de 1898, a quantia 
de 12:500 francos para a publicação de trabalhos seientifieos, c exeava- 
çòes archeologicas em dolmens, cavernas e outras estacões antigas. 

(Revue mensuelle de VÉcole d*Ânthropólogit, viu, 167). 

21. A Citaria le Borte 

«A Citania de Roriz, na freguesia de Eiriz, do concelho de Paços 
de Ferreira, distrieto do Porto, apresenta importantes vestígios archeo- 
logícos, muito semelhantes aos da Citania. de Briteiros e dignos de 
que o estado proteja a sua conservação. Acontece, porem, que o ter- 
reno da Citania de Roriz está hoje na posse de diversos proprietários, 
o que faz recear que se não mantenha a unidade d'aquelle monumento 
e que, pelo contrario, elle seja retalhado ao arbitrio de cada proprie- 
tário ou de todos elles. No interesse da conservação da Citania de Roriz, 
o Conselho Superior dos Monumentos Nacionaes chamou a attenção 
do Governo para tal assumpto, a fim de, pelos meios que julgar mais 
erUcazes, providenciar no sentido de garantir a integridade d'aquelle 
monumento archeologicoi. 

(O Setmlo de 8 de Novembro de 1901). 



cbyGOQ^IC 



O Archeologo Português 



Estátua de um guerreiro lusitano 

Numa das sesBÕes da Sociedade dos Antiquários de França, «M. 
Eu de, associe correspondant national, presente la gravure de trois vieil- 
les statues luaitanes, publíées ponr la première foia par une revue por- 
tugaise [O Archeologo Português, n, 29]'. Cea statues en granit, fort 
grossièrea, dont deus n'ont pas de tête a et dont aucune n'a de pieda, 
sont interessantes au point de vue du costume et de Tarmement. Le 
s&yon s 'arrete au-desaus du genou. Les bras sont nus. Le bouclier re- 
presento sur deux des statues eat rond et fort petit, répondant à l'in- 
dication de Strabon : le diametre du bouclier des Lusitana neet que 
de deux pieds. L'arme représentée est un poignard. II fant remarquer 
qu'il est placé à droite. Oes statues étaient sans douta des effigies tom- 
bales. Peut-être faudrait-il les rapprocher des monuments d'01erdola 
(Catalogue), ayant grosa ièrement la forme d'un corpa humain. Sur lea 
anueaux dont deux des statues sont ornées, M. Eude se propoae de 
faire une autre communícatiom*. 

O artigo publicado por mim no citado numero d-0 Archeologo foi 
também objecto de uma referencia do Sr. Rocha Peixoto, ao reproduzir 
na Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes, IV, 181 sqq., dois artigos 
do Sr. Martins Sarmento e um do Sr. Figueiredo da Guerra. 

Aos exemplares conhecidos, de estátuas de guerreiros lusitanos, 
posso agora juntar mais um que adquiri para o Museu Etimológico 
Português, por intermédio do Sr. P." José Raphael Rodrigues, colla- 
borador d-0 Archeologo Português. Foi encontrado num campo, ao pó 
da povoação de Capelludos, concelho de Villa Pouca de Aguiar, nae 
faldas do monte do Crasto, na qual ha ainda restos de muralhas de um 
antigo oppidum. 

A estátua é de granito, como as outras que existem no país, mas 
distingue- s o de todas ellas por o guerreiro estar representado com ca- 
pacete na cabeça. Faltam-lhe, porém, já os membros inferiores, estando 
pois a estátua reduzida á maior parte do tronco, aoa membros superiores 
e á cabeça. (Vid. Hg. 1*). 



1 [As estátuas inéditas eram só duas]. 

1 [Nenhuma d'ellas tem cabeça. A de uma d'ellas é moderna]. 
1 BnlUtin de ta Societé Sationak da Antigtiaira de Franee, 189G, p. 359. 
4 Gravura feita segundo uma photographia tirada pelo Sr. Maximiano Apol- 
linario. 



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24 O Ajícheologo PoiiTr<:iTÈe 

Examinemo-la de perto. O capacete ó, como disse, cónico; o vér- 
tice acha-se um tanto esmurrado, o que torna o capacete um pouco 
mais batxo do que era primitivamente. Como na posição em que foi 
tirada a photographia não era poasivel ver o capacete por completo, 
dou aqui (fig. 2) o desenho especial d'elle, tirado de frente, em toda 
a extensão '. Â face nao tem expressão ; os olhos sãos dois buracos 
informes; das arcad as orbitarias só a direita sobresae um pouco; o nariz 
está também esmurrado; a boca torta; toda a fronte oblonga e acha- 
tada. Às orelhas são muito apparentes, mas toscas: a direita está es- 



murrada, com parte da cabeça, d'este lado; a esquerda nao passa de 
uma saliência redonda, com um orifício no centro. O pescoço é grosso 
e curto; os ombros baixos. O artista quis significar que a figura che- 



[,' Capacetes cónicos de differentes fornias sâo conhecidos em muitoB povoe 
antigos. Cf. Rtrur Ardi., 1866, i, p. 261 ; Mvsíe préhistorigue, n.° 955; Coiuptc-rendii 
tltt Congris de Moscou, n, 342; Notlzie dtgli ícavi, 1834, p. 806; Alei. Betrand. 
Le cuaquc de Berra, Paris 1875 ; Chantre, JJâge du brontt, i, 146; Dict. de* ardi- 
i/uilés rir Darem berg & Sagliu, b. v. galea; Ceauola, Cypriote aaíiqmliet, Berlim 
1885, est. xxsut sqq.; Ballet, et mim, de» Âiitiq. de France, 1896, p. 275. 



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1 O Ahcheologo Poktugvéh 25 

gava com a máo esquerda a um escudo pousado verticalmente sobre 
o peito e abdómen; todavia a mio náo se vê, por causa da imperfeição 
artística; apenas avulta o ante braço, que faz angulo com o braço: um 
e outro cingidos ao corpo. A parte superior do braço direito esmurrada, 
e este junto ao corpo; o artista qois também significar que a figura 
segurava na mão direita um objecto, mas a mao nào se vê, apenas o 
ante- braço forma angulo com o braço, embora menor que o do lado es- 
querdo; do objecto seguro pela mao distingue-se só parte, que deve 
ser o cabo informe de uma espada curta, como a que se vê por inteiro 
nas estátuas de Fafe c de Vianna do Castello ' e nas de Montalegre 
(hoje no jardim real da Ajuda)'. A baixo do escudo apparece ainda 
parte do abdómen, e a cima parte do peito descoberto. O escudo des- 
taca-se do corpo do guerreiro em toda a extensão, menos no ponto que 
corresponde á mito esquerda que se suppoe que o toca : è levemente 
convexo, e com um botão ou v,mbo, que sobresae um pouco ao centro 



¥\f. %•— Capacrlr do imfrrtlro lutltuui 

e é também levemente convexo; os bordos do escudo continuam-se 
insensivelmente com o corpo do guerreiro. O escudo tem de diâmetro 
O m ,34, e o itmbo O 111 , 12. No tronco nílo se figurou nenhuma correia para 
se suspender o escudo; a cinta é lisa, e o escudo tem, como disse, 
o aspecto de estar seguro peta mao esquerda. 

Observemos agora a estátua pelas costas. Estas apresentam ao 
longo, verticalmente, um sulco, que corresponde ao sulco natural. Vê-se 
a saliência dos braços ; a do direito maior que a do esquerdo. — CeBte 
lado a pedra apresenta duas fendas ou rachas: uma longitudinal, pa- 
rallela & espinha dorsal, e á direita; outra obliqua, á esquerda. 



■ Vid. os desenhos dtstas— O Ardi. Port., ii, 80-31. 

1 Vid. os desenhos d'es1aa a-0 Occideníe, ix, 248; e em ('hristovam Ayres, 
Historia do estreito jiortugtiiê, i, 254-256. 



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26 O Aecheologo Português 

Como falta a parte inferior do corpo, nío se sabe se a estátua 
estava ou não vestida com um saio, como as mais congéneres. Nem 
no pescoço nem no que resta dos braços se percebe axorea alguma; 
tanto estes como aquelle são lisos. 

à estatua, no seu estado actual, mede de altura, desde o topo do 
capacete, até baixo: l ra ,16 a í m ,n ; de largura, contada de ombro a 
ombro O^jGl ; a espessura do tronco, contada em baixo, é de uns 0",33. 

O trabalho da estátua é muito grosseiro ; um dos braços (o esquerdo) 
éaté menor que o outro; o escudo, comparado cómodas outras estátuas, 
pousa muito a cima. Temos aqui sem dúvida um exemplar da arte doe 
rudes Lusitanos de Trás-os-Montes, exemplar inteiramente comparável, 
quanto á execução e ao uso, aos célebres berrZes ou figuras de porcos, 
também de pedra, da mesma provinda ', 

Tanto os guerreiros, como os berrõea, serviam para serem postos 
sobre sepulturas, o que se prova pela inscrição que se lê na estátua 
de Vianna e pelas que se lêem nas dos toros de Hespanha, que sito seme- 
lhantes aos nossos berrais*. O costume de colloear estátuas sobre se- 
pulturas é bastante espalhado. Muitos povos crêem que as almas dos 
mortos passam de preferencia para as estátuas ou retratos feitos á 
imagem do defunto. Não será também estranho a alguns d'estes cos- 
tumes dos nossos maiores o totemismo 3 . T _ „ 

J. L. DE V. 



Museu militar 

«Consta-nos que o Sr. General Castello Branco, benemérito director 
do Museu do Arsenal do Exercito, vae organizar uma nova sala com 
os modelos dos uniformes do exercito, desde 1740 até a actualidade, 
Begundo estudos e croquis do Sr. Tenente-Coronel Ribeiro Arthur, um 
illustre escritor e um distincto agnarellista. 

Ao centro da sala será coílocada a estatua symbolica da Guerra, 
esculptura de mármore do nosso glorioso esculptor Teixeira Lopes. 
Em volta, em manequins adquiridos na Allemanha, são exhibidos os 
uniformes militares desde a data que já indicámos. 



1 Vid. figuras destes btrrõa n-0 Ârch. Fort., i, 236-237. 

2 O nome popular d'estea quadrúpedes de pedra na Hespanha é toro» de Gai- 
tando; entre nós adquiriu fama a porca de Marca, que pertence i mesma classe. 

» Cf. Alviella, L'idée de Dieu, p. 123. Estátuas nos túmulos: ihid. e cf. p. 124. 
Honras prestadas á effigie dos mortos : ibid., p. 140. Estátuas funerárias na Nova 
Quine: Mélutine, iv, 48; em Alasca: Smittisonian Rtport, 1888, p. 352.— Sobre a 
Hispânia em geral : Hflbner, Monum, ling. Iberieae, p. citt. 



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O Archeoloqo Português 27 

A osta sala será dado o nome do Sr. Ministro da Guerra. 

Deve ser uma das salas mais interessantes d'aquelle museu, que nos 
faz honra. Utilíssima para o estudo da historia dós uniformes, pitto- 
resca e brilhante como decoração d'aquelle notável estabelecimento. 

É o que se faz no estrangeiro. Na ultima exposição de Paris, a 
historia dos uniformes dos grandes exércitos da Europa estava feita 
por aquelle modo attrahente e de rápida comprehensao. 

Ficara o museu devendo mais este embelezamento e valioso ser- 
viço ao Sr. General Caetello Branco, seu dedicado organizador, que 
naquellas admiráveis inetallações tem um honroso testemunho do seu 
culto espirito e da sua fervorosa alma de patriota*. 

(O Secido de 21 de Novembro de 1901). 



Extractos arolieologicos 
das «Memorias parochiaes de 1758» 

118. Riba Pinhio (Trie-os-M«nles) 

«Ka nesta minha freguesia no sitio chamado Saudei que fica em 
hu alto e com pouca distancia desta Igreia em campos que se cultivão, 
e dam toda a casta de pam e feíjSis hua cappella que tem lábios {alia» 
laivos) de Igreia por ter capella major e corpo de Igreia fabricada 
com toda a bizaria por estar ajolejada e co teto de painéis que con- 
star (gic) a Illustrissima e real ascendência da Virgem Nossa Senhora 
de cuja invocaçoin he a mesma capella com o titullo de Nossa Senhora 
da Saúde cuja imagem he de vulto muito antígua que por tradiçam 
se dis que foi descuberta naquelle citio por hua pastora que apasen- 
tava gado achando a dentro de hum sino admmiravel que esta nesta, 
Igreia i. (Tomo xxxi, fl. 508). 

414. Bibelra de Olival (Estremadura) 



«A cappella de N. Senhora do Testinho que está no luguar do 
Estreito com sua Imagem da Senhora disce todos os Domingos e dias 
santos missa na dita Capella por conta do Ei.™ Conde de Castello 
Milhor que a erigio no tempo que andava fugitivo com cujos alcances 
vinha huma tropa, e aonde hoje he a cappella abatido e o eulto, es- 
capou, e levantou aquella Igreja em memoria, com a invocação do 



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28 O Arcoeoloqo Português 

Testinho por trazer comsigo hum preto em que estaua esculpido a. 
Senhora, que por milagre raunto o estimana, e asim se da a conhecer 
polia inscripcão quô esta sobre o pórtico qne he da fornia seguinte: 

HIC VBI PER MULTAS HEltDOMADAS LUDOYICUfi 

A VLL. 05 ET SOUSA COMEIS CASTELLI MELIORIS IN 

SUIS AERUMKIS VNA TUTELA SB.' E VIRGINIS, AB INVOCA- 

TIONE A TESTULA INTUTO FUIT, HOC SACELLUM EEEGI 

IN F1DE. ANNO CIO. DC. LXXXVII. 

A esta capei la concorrera algumas pesoas por ser milagrosa •. (To 
mo xxxii, fl. 608). 

415. Ribeirão (Entre-Donro-e- Minho) 



«Nesta paragem, já disse, corre o rio Ãve de Nascente a Poente 
no distrito desta freguezia sam as suas margens cultivadas: tem três 
azenhas de moer pam com suas (*íc) açudes: no distrito dos meeyros 
tem duas : na ultima está o celebre engenho de pescar peixes que ho 
feito de coatro hastas de ferro como braços de sarilho, tendo na ponta 
de cada hua pendente para a pendente para a parte aonde deita os 
peixes hum cestinho feito com rede de arames; he tangido pela mesma 
agoa da corrente: foi invento do Padre Brás da Silva Tavares, senhor 
da meama Azenha, e morador na aldeã da Povoaçani dos meeyros a 
esta freguezia e inda vive a sua imitação se tem feito muitos em ya- 
rías partes e nilo descreve todo o artificio com mais individuação, por 
ter noticia que outras pessoas o tomaram por empresai. (Tomo XXXII, 
fl. 629). 

4(0. Ria Caldo (Entre-Douro-e-MInho) 

A pvdr* ds SudU Enfsnlm 

-Ha nos Lemttes desta freguesia no monte chamado o alto da 
Oobreyra asima do lugar da Seara hua pedra com bastante grandeza 
e nella se acham sinais vestígios, ou pegadas debuxadas, e escritas 
assim das plantas como dos joelhos que dizem por tradiçam dos an- 
tigos, serem de Santa Eufemia, filha de Cayo Attillío e de Dona Oalcia 
gentios e que por estes montes handara fazendo penitencia retirada 
da presiguiçam do gentilismo: os mesmos e semelhantes vestígios se 
acham em hua pedra, que se acha a cruz do Touro e outros muntos 
na freguezia de Covide onde dizem fora martyrizada>. [Tomo xxxji 
fl. 669). 



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O Arciihologo Portuouêr 



417. Klo Coto (Entre-Donro-e-Mlnho) 

Seputtnru 

• Nam lia mais couza alguma notável nesta freguezia que se possa 
descrever; somente na Igreja parochial algumas sepulturas de pedra 
com suas tapaduras antigas em que se devízam huma espada e hum 
modo de cruz que também nas cazas da rezidencia delles se acham». 
(Tomo xxxii, fl. 675). 

418. Rio de Couro» (Estremadura) 

Cai i lo da pediu 

«NSo acode a ellas (ermida*) gente de romage, mas sim á jgreja. 
por devoção a Xossa Senhora da Natividade, que comummente em 
vocábulo vulgar, se chama de líio de Couros. Em todo o anno con- 
corre povo, mas principalmente em 15 de agosto e a S de setembro 
por ser esta jmagem de muntos e grandes milagres, cujos princípios 
não tem memoria. E alem dos mais milagres de menos nota, contase 
que troucera de terra de Mouros hil ehristSo qn? lá era cativo e que 
fechando o seu senhor á noite em hii caixão de pedra o achava pela 
manhla solto e o caixão fechado e perguntado quem o soltava? res- 
pondia que hua senhora que tinha na sua terra, a quem todos os dias 
rezava o Rozario: o que querendo saber o senhor se meteo eom o 
ihristào no caxão, e ouvindo pelo dicurso da noite tocar sinos per- 
guntou ao christao se avia na sua terra campanuas ; c dizendo o chris- 
tSo que sim entendeu o Mouro o mysterío ou milagre e disse : esta- 
mos na tua terra; athe agora foste meu cativo, agora serei eu teu e 
apportando na caza da senhora se fez christao eto. 

Assim se conta por tradição antiquíssima e supposto que nao 
haja prova autentica há porem muitos motivos para que seja digno 
de fée. 1." porque aqui se conserva o dito eaxão de grandeza de hua 
arca grande jnteíriço (supposto abrio ja hua fenda) de grosura de 
dous dedos; e de qualidade de tal pedra que tem appareticias de 
seixo mas com effeito não he ; pois se desfás facilmente e muntos en- 
fermos tem conseguido milhorar com o seu pó raspado do tal eaxlo. 
2." Porque há Tazois para se preznmir que suposto ouvesse papeis 
donde podesse constar esta ou outras maravilhas e prodígios tudo fi- 
caria consumido na rnina que padeceo esta terra no tempo de que 
não ha memoria. Mas bem se mostra, que foi terra grande e que pa- 
deceo mina. Por quanto achando-sc neste sitio só a caza da Senhora, 
e fazendo-se delia jgreja matrix se tem descuberto vários caxSis eom 
ossos de defuntos, assim dentro como fora da jgreja. grandes e gro- 



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30 O Aecheologo Português 

sos tejolos, telhas e pedras enealiçadas. E isto mesmo se tem achado 
por toda aquello circuito quando se planta, ou arranca algila oliveira. 
3." Porque sendo visto este caxao de muita gente de varias ter- 
ras, n5o ha quem conheça pedra semelhante em Portugal». (Tomo 
sxxii, fl. 686). 

419. Klodades (Beira) 

Etymologi* 

«A respeito do nome de Rio de Ades ha duas tradiçoens e ambas 
com bastante probabilidade : huns dizem que esta povoaçam se chama 
Rio de Ades por serem Ades, pasaros que no rio Távora andao com 
frequência no tempo do inverno, principalmente neste pais e que por 
esta couza se apelida o luguar Rio de Ades ' : outros afirma© qne an- 
tiguamente se chamou Rio de Águias por aver somente neste destrito 
copia destas aves que se criSo e tem sua habitação nos grandes pi- 
nhascos do rio Távora». (Tomo xxxn, fl. 692) . 

420. Rio Frio (Entre-Douro-e-Minbo) 

Torre 

aTem havido nesta freguesia huma Torre antíguissima que ainda 
muitas pessoas que lhe lembra delia, da qual ainda aparecem vesti- 
gios, cujo sitio ainda conserva o seu nome chamado a Torre». (To- 
mo xxxn, fl. 718). 

421. Rio de KaUiiiha» (Entre-Donro-e- Minho) 

Poalfl dl AlUrlida 

«A couza mais nottavel que nestes Rios se admira, he, que di- 
pois de este se juntar com o de Ovelha, e antes de chegarem ao Tâ- 
mega, passa pello sitio da Aliuiada aonde tem huma alta ponte de pe- 
dra na estrada que vay para Amarante, entre as fregnezias de Fornos, 
e São Martinho da Aliuiada, terra de muitos penedos, que encostados 
huns aos outros no fundo de dous altos montes, fazem abobeda, por 
baixo do qual passa o Rio, que por mais caudellozo que corra nos 
enchentes do Inverno se nao vê agoa na distancia de três tiros de 
espingarda; e deziam os anttguos que ali hera a boca de inferno, e 
que debaixo daquellas concavidades se tinhao tirado pessoas vivas, 



1 No Liíro 1 de Inquirições de D. Aflbnao III (ainda nao publicadas), fl. 179, 
vem «ecclesia de paredes et de Kiuo de Aades». Na, Revista Lusitana, v, 121, 
nota, e 160, o Sr. Leite de Vascoiicellos dá a etymologia anates. Quanto a Dade 
(concelho de Viseu), parece-me, porém, que este vocábulo provém de um nome 
próprio. 



cbyGOQ^IC 



O Akcheologo Portugdês 31 

que haviam por muitas vezes dezapparecido, por forsas de pragas 
com que seus supperiores as deram ao demónio; e dipois que no dilto 
sitio se collocou mima crus de pedra se afugentaram as coiizas sinis- 
tras que ali sucediam, e fantasmas que apparessiam ; o sitio he es- 
pantozo, e orrendo». (Tomo xxxn, fl. 733). 

422. Rio d« Moinhos (Alentejo) 

Imcrlpçfto em parta fa Ai 

«Na parede desta igreja (de Santiago) da parte de dentro e da 
parte do Evangelio se acha huma pedra branca, engastada na mesma 
parede, que tem o letreiro seguinte: 

EU D. GONÇALO EDIFIQUEI ESTA IGREJA DE SANTIAGO 
EM HONRA E LOUVOR DE NOSSO SENHOR JESUS CHRISTO, 
E DA BEMAVENTURADA VIRGEM MARIA SUA MAY SANTÍSSIMA. 

E ESTA JGREJA DOM GONÇALO A PES AQUI EM SUA VIDA E 
MORREO, E ESTÁ SEPULTADO EM A PARTE DIREYTA DA J- 
GREJA, REYNANDO EM PORTUGAL DOM DINIS SEXTO REY DES- 
TE REYNO, ISTO FOY FEITO EM O MES DE OUTUBRO NA 
ERA DE 1328 

ESTA PEDRA DESCOBRIO E MANDOU POR AQUI TRADU- 

ZINDOA NESTE IDIOMA O L.no MANOEL RODRIGUEZ RAMALHO, 

NOTTARIO DO SANTO OFFICIO, E PAROCHO NESTA FREGUEZIA 

NA ERA DE 1728 

(Toma xxxii, fl. TB8). 

428. Rio Tinto (Eutre-Douro-e-Mlnho) 



•Ma dita serra pella parte do Norte sitio de Espinhaço de Cana 
se acham fojos porem quazi tapados algum ainda conserva altura de 
vinte palmos, e como ella he ramo da de Valongo e de Santa Justa 
aonde ha muitos com escadas subterrâneas, he sem duvida que dos 
seus fojos se tirou no tempo dos romanos muita quantidade de ouro, 
de que hiâo repletos os Preconsules que governavao a Hespanha no 
tempo da republica c ainda no do Império como dis Plinio e não ha 
muitos annos sendo vivo o Senhor Rei D. Joam o 5.° por ordem sua 
vejo hum mineiro a esta serra, e dizem que achara o ouro, o qual nâo 
proseguyo por não conresponder a ganância a despeza, também em 
Baguim ha ruínas de talco na Quinta do doutor Gualter Antunes Pe- 
reira, e por outras mais partes mostras d'elle». (Tomo xxxii, fl. 814) 



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O Archeologo Português 



424. Rio Torto (TrifOl-Moitea) 

«No que respeita ás antiguidades dignas de memoria nao ha maU 
que em hum cabeço alto huns vestígios das ruínas de hua fortalesa 
dos Romanos ou mais antigua: aqui neste sitio se tem achado reló- 
gios de ouro, e disem ha tradição que também se acharão pratos de 
prata». (Tomo XXXII, fl. 822). 

425. Rios (Entre- Dou ro-e-MInbo) 

Tor™ 

■Ha nesta freguesia chamada e situada no lugar do Poço huma 
torre antiga e de que lie senhor António Marinho Falcam e 1180 pa- 
deceo Ruina no terramoto». (Tomo xxxn, fl. 841). 

42fi. ltullça (Kstreoisilíira) 

UuMfdi— MMlu romuH 

«O Pó, terceira aldeã desta freguesia tem quarenta fogos; e fora 
do lugar huma Ermida, orago de Santa Catherina, em huma quinta 
que he de dona Koza de Peniche: está situada esta aldeã junto a 
huns penhascos chamados Sezereda ', onde este anno foram achados 
alguns dinheiros de cobre com a figura do Imperador Romano de 
huma parte e da ontra com três figuras e em circulo este titulo — 
Reparatw Reipublkac. -— Dizem que esta aldeã fora antiguamente 
Cidade ; e se fundira talvez por algum terromoto ; porque aparecem 
edeficios debaixo da terra. 

He pobre, junto a ella ha um Ribeiro com ponte de cantaria de 
hum arco. 

Columbeira, quarta aldeã anexa a esta freguesia, tem setenta e 
oito fogos, he terra muito pobre, tem dentro em si huma Ermida do 
Povo, Orago de Santa Justa e Rotina ; está situada em planice, junto 
a humas serras onde ha humas grandes concavidades e fundas. So 
lemite deste lugar, onde chamam os Fornos da Telha ha huma fonte. 
cuja agoa sempre foi afamada». (Tomo XXXH, fl. 862). 
Pedro A, de Azevedo. 

1 A orthographia geral hoje c cem c. Qual a melhor grapliin bó a polem 
dar documentos anteriores ao acento ivi. O Sr. Leito do Vascoiicetloe {Ràigmtt 
da Lusitânia, i, 28, nota 4) poo de lado a etymo Caiar, o julga que provenha 



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/II FEVEREIRO E MARÇO DE 1902 N." 2 E 3 



ARCHE0L0G0 
PORTUGUÊS 

COLLECÇ&O ILLUSTRADA DE HATBRIAES E NOTICIAS 



PUBLICADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



Veterum volvens monumenta * 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 

1902 



a» Google 



STT 3*£ ;&£ -A.H I O 



Apontamentos numismáticos: 33. 

Picote (Miranda do Douro): 54. 

Noticias várias: 54. 

Arco romano de Bobadella: 50. 

Noticias archeoloqicas: 58. 

Estudos de numismática colonial portuguesa: 67. 

O Alto do Carocedo ou Carrocedo: 70. 

Extractos archeologicos das «Memorias pàbochiaes»: 74. 

InscripcXo romana de Almeirim: 80. 



Este Fascículo vae illustrado com fi estampas. 



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O ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 

COLLECÇlÚ ILLUSTMDA CE «UTER1AES E HOT1CIAS 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 

VOL.VII FEVEREIRO E MARÇO DE 1902 N." 2 E 3 

Apontamentos numismáticos 
I 

O direito d» bulklo io Porto 

O direito de cunhar moeda de bulhão no Porto pertencia ao alcaide- 
unir d'aquella cidade, Jofio Rodrigues de Sá, mas, nao sei porque 
motivo, foi transferido para o Conde de Penetla. Tendo-se perdido a 
respectiva carta, D. Manoel a 2 de Novembro de 1514, lhe mandou 
passar o seguinte alvará: 

■Nos eIRcy faiemos sabor a quantos esto nosso aluara virem que lio coude 
di: 1'ciiclla, meu muito amado sobrinho, nos dísc como nos lhe tiuhamos fuito 
mercê do bulham da nossa cidade do Porto, assi como bo tinha Johám Rodri- 
gnci de Saa, e porque se nom aeliaua a doaram que ellc díso tinha pera se sa- 
lier as pcnnas que por cllc lhe sam concedidas, a vemos por liem e queremos que 
ila pubricaçain deste nosso aluara cm diante uinhnua pesoa de qual quer estado e 
condiçam que seja que uorn posn fazer no dito bulham na moeda da dita cidade 
.sal no com prazer c consentimento do dito coude ou de seu feitor ou rendeiro, 
uem isso mesmo lio posa vender a outrem senain a eada huíi dcllcs so penua de 
quem lio contrario fizer bo pagnar cm quatro dobro, ametade pera quem lio acu- 
sar c a outra metade pera o dito conde ou acu rendeiro. Porem mandamos ao 
nosso vcador da dita moeda e a qua.es quer outros omciaea e pesoas a que esto 
pertencer que assi o façam notcãquar c comprír c guardar como neste aluara 
lie cointiudo. Feito em Liiboa a dons dias de nouembro — Jorge Fernandes o 
fez — anno de mil c.quiuheutos e quatorze.> 

(Tom do Tombo, MiMm, liv. 6, rol. emb r.) 
II 

ObaertacCes de Damião de (Joeg irôbre a quebra da moeda 

Á semelhança de uma cova, que vae augmentado á proporção da 
terra que se lhe tira, assim a Torre do Tombo, quanto mais se explora, 

Digitizea by GoOgle 



34 O Abcheologo Português 

tanto mais parece que fica por explorar. Ha meia dúzia de ânuos a 
esta parte que bastantes elementos se teem colhido para a elucidação 
biographica de Damião de Góes, e, pela minha parte, não foi pequena 
a colheita que me coube offerecer ao público; mas todos os dias a 
inesgotável mina vae dando o seu grãozinho, com que opulentar o 
thesouro. Aqui está uma nova produccXo do eminente historiador, em 
que elle demonstrou mais uma vez a variedade dos seus conhecimen- 
tos e a segurança do seu conselho. É um parecer que dá a EI- 
Rei sobre a intentada quebra da moeda, cujos resultados pernicio- 
sos explana e exemplifica, tendo para si que seria muito mais vanta- 
joso o augmentar, de preferencia, o valor da moeda. O documento 
acha-se consumido em partes, mas as palavras que faltam, ou se podem 
substituir sem grande difficuldade, ou nío fazem tanta falta que o sen- 
tido geral nao se comprehenda. Carece também de data e toma-se 
um pouco difficil, pelo seu conteúdo, delimitá-la ao certo, mas afigura - 
se-me que o Parecer fora já redigido em Portugal depois de Damião 
de Góes ter regressado definitivamente de Flandres, pois ha runa 
pkraso que diz nestes paços de Lisboa. É curioso advertir que as obser- 
vações que o illustre escriptor faz a respeito do liei D. Fernando e do 
Duque de Bragança vêem exaradas no cap. xx da Parte XV da sua 
Chronira de D. Manoel 1 . Tanto o documento, a que me estou refe- 
rindo, como o que se lê no paragrapho seguinte, foram-me generosa- 
mente communicados pelo meu íllustrado amigo Pedro À. de Azevedo, 
a quem testemunho aqui o meu reconhecimento por este e outros favo- 
res idênticos. 



iS5r. — Sc no a treui incuto desta lembrança que llic mando couber erro óVllt- 
peço ha .v. a. perdain e se for cm bem de seus Reinos m5.de poer em obra ht> 
que Hic delia bem parecer. 

Dízem senhor que quer .v. a. aguora de iiouo mXdar (quebrar) moeda que 
lie cousa cm que hos Beis cuidam semp(re ser} proucito, mas sailhea muitas 
vezes hao contrairo p(or que a) uoiiidadc das moedas hc mais dapnosa, c pe- 

riufdicial aos) Reiuos que ha guerra, porque desta saem muitas vezes 

e amisades, e da outra se segue ha carestia de i nau tini eu tos e frtictos d» 

terra c asy das mcrcado(rias asy) naturaes como estrangeiras, lia qual carestia 
(se lifia) vez faz pec uimqua se mais de todo desarcigua. 

elRey dom fernando destruía mais estes Reinos e grades averes que achou 
dos Reis seus antecessores com fazer muitas moedas noonas e maas, que com has 
guerras que tcue com castclla por que das guerras oimc fim, mas do preço das 
corou (nunca) inais mine baiia que has fizese tornar hao preço que dau(tes) 



11 opúsculo Estudo* sobre Damião de Goa, 2.' 



■a by GoOglc 



J 



O Akcheologo Português 3ã 

tiuhão, e per fim haa taça moedas pella maa ley delias cm pouco tempo se anu- 
larão e apagarão com muita perda do» que lias posuião. 

Se .v. a. quisesc fazei boa moeda seguirseia delia esta soo perda de se tirar 
porá ioora do Reino porque lios mercadores uào buscSo senSo proueito e se nas 
terras donde tractSo não acham mercadorias de que tirem moor ganho que do 
dinheiro deste fazem suas carregações e este heo menos mal que pode proceder 
de emnouar das bSas moedas porque não recebe ho Reino outra perda que tira- 
rem delle ha tal moeda com fiquarem has mercadorias por que se deu que lie 
troqua de liG aver por outro. 

(v.) a. saiba que ho emnouar das moedas e variar delias fiqua sempre por 
taxa ordinária, e geral do preço das cousas e ysto lhe direy que sendo moço 
ouui dizer hao duque de bragança depois que voo da tomada daiamor, nestes pa- 
ços de lixbBa que saneia gloria haia quando mSdou fazer hos meos 

que foy perguntandolhc -S. a. que lhe parecia da tall dizerlhe que lhe 

parecia mal, porque huas luuas que valem aguora trinta reaes dixe elle 

se ham dapreçar ein meo tostam e asy foy porque loguo poscrSo 

ha L. 1 * reaes e aguora vallcm oitenta e mesmo lie em todallas outras 

que .v. a. uãO' estaa em tempo pêra poder mldar fazer que Res- 
ponda em ley, liga, e valia cò has passadas posto do mesmo peso pois pêra 

a fazer maa, seria melhor Reino como estaa, e nSo se mouerê" mais novi- 
dades pêra perda de seus vassallos e sugeitos porque postoque v. a. aguora faça 
niso algum proueito por tempo ha grande perda que se haos seus bade recreçcr 
lhe nade toquar a elle solido e ha de ser deste modo que a que" tanto ven- 
ceu ha cobiça que mãdou per mercadoria ha estes Reinos moeda tam pesada 
como ho sam hos pataquOes de cobre que senão podem mouer sem muito trabalho 
pêra niso fazer ganho Jnliçito que muito mais se mouera ha mãdar cruzados que 
volumão muito pouquo e se poodem tirar de bua uao em hum dia cem mil sem se 
sentir hos qua.es sendo da ligua, ley e valia dos que V. a. dizG que quer aguora 
mãdar fazer, correrão pello Reino por natura.es por que do cunho se não ham 

de conhecer quanto ha liga e ley ho ganho ha de ser tamanho tudo hos 

farão Iguaes e semelhantes lia estes no e ham dentrar nestes Reinos tan- 
tos destes cruzados (que) quasy não se achara outra moeda do que se recrecera 
pello descurso do tempo acharCse todollos vasailos o sugeitos de v- a. enganados 
e defraudados cm dobro de suas faz(endas) por que qiierendose aiudar da tal 

moeda pera seus vso tractos ho que cuidar que tem hum cruzado de seu se 

achara efl reaes e dehay pera baixo do que v. a. não pode receber senão 

p porque ha perda do seu pouo ha de Reputar por sua de m(aneira) que 

has cousas do tracto da mercadoria e dos mantimentos al(cem) sem mesura por 

caso da nouidade das moed(as) has moedas tornar? a seu curso ordinário 

deus concede tempos prósperos fartos e pacíficos aquillo que se cõ- 

praua por hii cruzado de maa moe(da) por quinhentos reaes de bda moeda. 

.6. pcllos então caberão ha valia do mao cruzado e hS daiumtar pera 

fazer quatrocentos e cento que se e baixa da maa moeda que fazê asy hos 

que será tudo mais caro do acustninado ha hc tamanha que vem ha 

fiqnarS lios homGs do dinheiro que pussuiSo e cuidaiiào ter bÕa mo(cda). 

Esta lembrança me pareçeo bem fazer a v. a. o lhe que seria inilhor nc- 

goçco aleuantar has moedas douro e prata asy estrangeiras como do Reino que 
será causa dentrar muito dinheiro na terra pello ganho que se nclle fará e 



)y Goo^lc 



SÓ O Abciieoloco Poktugués 

(Insto modo v. a. achara ha muito pouco preço todo ho dinheiro que ouuer mester 
íí;ih fazer tain fraquos partidos de sua fazenda como mida fazer cm vender re- 
trós lia doze por cento nc tomar dinheiro para as feiras de castella çesara 

tamanho mal coino lie tomarão ha doze por cento de bua feira pêra outra 

ho que fim anendo dinheiro no Reino ho qual ao presente nSo ..... ayer 

MCnSo com su alenantarO has moedas. 

( Al)em do atras ditto v. a. itera lembrado que ea lhe dixe estando nas (ca)sas 
do gouernador que neuhS remedeo tinha pêra se de todo poder desempenhar <■ 
pagar suas deuidas que com abaixar ha pimCta alleuantar has moedas li ao que 
v. a. nio deu orelhas da qual opiuiam ainda estou e he negoçeo que se avia de 
trazer de longe c com muito segreda tanta que avendose de fazer ha mio direita 
ile v. a. ho nio auia de dizer (a mio) esquerda porque sabendose todo ho traba- 
lho que se niso tiuese tomado seria baldio e de pouco valor, nosso senhor acre 
i,'onte hos dias de vida lia v. a. com muito descanso e prosperidade de todos seus 
ltcinos e senhorios. ■= Dam iam de goes. 



Machio» de fazer moeda 

Pedro de Çarate, que tratava em Roma dos negócios dos eavalleíros 
do Santo Sepulcro, foi o auetor de um engenho de fabricar moeda com 
muita perfeição, sem auxilio de martello ou de tesoura, cuja acquisiçSo 
propôs a D. JoZo III, por intermédio de Balthasar de Faria, enviado de 
Portugal junto da Santa Sé. Çarate dava também por fiador da sua pos- 
sua c <la sua capacidade a Lopo Furtado de Mendonça, embaixador 
Ac Carlos V. Existe d'elle uma petição a el-rei, escrita em hespanliol, 
mas sem data nem designação do lugar onde foi escrita. Deve sor 
todavia posterior a 1542, pois foi neste anno que Balthasar de Faria 
partiu para Roma a negociar especialmente a questão dos christSos 
novos. Ignora se se a proposta foi on nao acceita, nao havendo noti- 
cia d'este facto nos nossos tratadistas de numismática. 

Eis agora o memorial de Çarate: 

V. 8. será sortudo de scriuír ha su Alteza sobre cl negocio de las moneilas y ) 
cortifiearlo como con este ingeuio se liara la inoueda siu martillo uj tijeras pêra 
Ih redondear y muy mas facilmente y entauta perfection como eu alteza ha 
nisto por las muestras que 1c iubio per Valtasar de Faria de Roma las qnales se 
las di yo. Viene su alteza ha ganar macho com este ingeuio mediante el qual se 
atajan inuclios salários y gastos. 

Yltradesto se da perpetuo vaudo dos que hazen inoneda falsa y aios que Ia 
1'urçcnan la bucua y aios que la esbolrouan porque luego que se vera moneda 
falsa o çerçenada se conoçera luego. 

Eido de mas como he dicho aV. S. yo negociare libremente con sn alteza 
como debe hazer vn hombre fidalgo y quando su alteza querra haucr noticia de 



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O Archeologo Português 



mi Persona cl siífior Lopo Urtado de Mendoça embaxador de au M. d 1c dam 
boníssima relaçiou y V. S. eeriuira a su alteza que yo aoi elinismodequieaVal- 
ttiasar de Faria le acriuio de Roma y mi noubro ea Pedro de Çarate y el misum 
quo con su S.' y la M. d Cansar ca trata cl negocio de tos caualleros dei S.'° Sepul- 
chro de Christo N. S. sóbrio qual tanbicn Bathasar ha aeripto a Su Alteza.» 
Sò vcr*o. EmformaçSo da moeda pêra o senhor sacro tn ri o ver. 



Moedelrofl na IndU 

Conquistada Goa, lançadas as bases do nosso império oriental, 
tratámos de affirmar bem claramente o nosso domínio, por todos os 
meios com que se asseguram os direitos de posse e soberania. Levantá- 
mos fortalezas, estabelecemos arsenaes e estaleiros, e batemos moeda. 
Cabe a Affonso de Albuquerque, como fundador c organizador do nosso 
empório, a honra e primazia de cunhar moeda portuguesa nos terri- 
tórios por elle adquiridos para o Rei de Portugal. Em Goa, serviu-se 
elle, para este effeito, dos officiaes da terra; em Malaca valcu-sc do 
préstimo de um bombardeiro italiano por nome Joio Nobre. Pelo 
decorrer dos tempos, ficaram fuuccionando na Tndia três casas da 
moeda: a de Goa, que era a principal, a de Coehim e a de Malaca. 
Nio me foi possível ordenar até agora a serie suecessiva dos mestres 
de cada uma d'essas casas, mas as listas que adeante publico, posto 
que incompletas, vem esclarecer, com elementos novos, a historia da 
amoedaçlo portuguesa na índia. 

1 — Jo&o Luis. — Soldado e artifice, batalhou e trabalhou na índia 
no tempo de Affonso de Albuquerque, a quem prestou relevantes e 
variados serviços. A sua aptidão e engenho prestavam-se para muitas 
cousas, e assim o vemos fundir artilharia e moeda, fabricar pól- 
vora, etc. Por estas eircumstaneias o incluí e biographei nos meus 
opúsculos O fabrico da pólvora e Ot fundidores de artilharia. De 
uma sua carta, datada de Cochim a 2 de Janeiro de 1527, extraio o 
seguinte trechozinho, que diz respeito especialmente ao assumpto, de 
que ora me oceupo: 

fE asy no tempo de Affonso Dalbuquerque no cerco de Goa Ha 
fiz moeda de cobre, com que paguaua os trabalhadores que seruift 
nas obras.» 

E este portanto o mais antigo fundidor português que appareccu 
na índia. 



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38 O AltCHEOLOOO POBTDCICÊS 

2 — João Nobre. — Italiano, bombardeiro c entendido também em 
ourivezaria. Quando A Afonso de Albuquerque resolveu mandar bater 
moeda portuguesa em Malaca, dirigiu-se a elle e lhe eucommendou 
que abrisse ferros peva cunhar moeda A' ouro, e prata, e chumbo, porque 
te nom laurava cobre em Malaca, e fizesse para cada cousa sua feição, 
o que assy fez muv c.oncei-tadamente. . . 

Vide Gaspar Correia, Lendas da índia, n, 255. 

3 — Gaspar de Barros. — Ourívez. Mestre da Casa da Moeda de 
Goa. Suceedeu-lhe em 1526 António Mendes, de quem se trata a 
seguir. 

4 — António Mendes. — Ourívez, residente em Lisboa. D. JoSo III 
o nomeou mestre da Casa da Moeda de Goa para sucoeder a Gaspar 
de Barros. A respectiva carta, de 29 de Janeiro de 152C, é do teor 

seguinte : 

•Dora Joliam ecte A quauitos esta minha carta virem faço saber que cora- 
fiamdo de Amtouio MGdcz ottriíiez douro, morador na minha cidade de Lixboa, 
que nesto me saberá seruir como a meu seruiço compre, ey por bein de lhe fazer 
mercê do oficio de mestre da moeda da minha cidade de Guoa pello tempo e 
com ho mJttimento e ordenado comtheudo eu meu BegimPto, asy como o ora tem 
« seruc Gaspar de Bairos, otvriuez. Notcfiquo asy ao meu capitam moor e vea- 
dor da minha fazemda nas partes da Imdia e ao capitam feitor e ofitiaes da dita 
cidade de Guoa e lhes cmcomcmdo e mamdo que tamto que o dite Gaspar de 
Bairos acabar de sentir tempo que tem por meu aluara, metam logo cm pose 
do dito oficio ao dito Amtouio Heindez c lho leiícm seruir e aver o maintimento 
c hordenado tia maneira sobre dita, por quamtoquafoyja eieminado per ofteiaes 
e he soneiomte pera me bem seruir cm o dito carego segundo pareçeo per ecr- 
tidam de dom Pedro de Castro voador de minha fazemda que peramte sy o mS- 
dou exeminar. E mamdo ao feitor c ofioiâes da minha casa da Imdia que nestas 
naaos que com hajuda de noso Senhor atn dir este anno preBCmte de b. E nbj lhe 
dein sita embarcaçã segundo forma de meu Eegimemto c lhe leiíem liir seruir o 
dito oficio sem lhe ser posta algtia duuida nem embargo c o dito Amtouio Mc- 
dez jurara na minha chatncclaria que bem e verdade iram em te syrua o dito oficio 
como compre a meu seruiço e bem das partes. Dada ua minha villa dAlmeirim 
a xiix dias de janeiro — Femam dAluarêi a fez — de mill e b* nbj anitos. Eeu 
Fernam dAluarez a fiz sprever. E porem se outra pessoa for prouyd» do dito ea- 
rego amtc deste cõpriscam primeiro quaes quer prouisões que forem pasadas del- 
Rey meu senhor e padre, que samta gloria aja, on minhas, e nam avera mais 
maratimPto que dez mill reaes.» 

(Tom do Tombo. — ChuKellsrk de D. JoSo III, Doatfct, IIt. T,e, foi. 34.) 

6 — António Marques. — Era ensaiador, mestre de balança e abri- 
dor dos cunbos da Casa da Moeda de Goa. Foi nomeado para o substi- 
tuir Francisco Rodrigues. 



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O Archeologo Português 39 

6 — Francisco Rodrigues. — Em carta de 13 do Janeiro de 1526 
fora nomeado para o logar designado no numero anterior, em substi- 
tuição de António Marques. Francisco Rodrigues traspassara este 
orneio em António Mendes, mas parece que a transacção nao foi aueto- 
rizada. D. Joio III passou-lhe nova carta a 12 de Janeiro de 1529. 

•Dom Joliam &c A quantos esta minha carta virem faço saber que por parte 
tle Francisco Rolz, ouríucz, me foy apresemtadahíla carta per mi asynada c pasaila 
per ininlia chancelaria, de que lio teor tall he: «Dom Ioham per graça de D." 
Rey de Purtugall e dos Algarues daquem e dalém mar em Africa senhor ilc 
Guine o da comquista, navegaçam, coinercyo dBtiopia, Aiabya, Persya e da 
I índia, faço saber a vos meu capitam moor e gouemarlor das partes da Imdia e 
ao veador de minha fazenda em ellas e asy ao meu capitam, feitor e oficyaes da 
minha cydade de Goa, que eomfiamdo eu de Fr ame isco Rolz, ouryuez, que nysto 
ine seruira bem e fiellmente como a meu seruiço compre, me praz de lhe fazer 
niercc dos oficyos dcmsayador e mestre da balamç.a e abrydor dos cunhos da 
minha easa da moeda da dita cydade de Guoa por tempo de três annos e com 
todo ho ordenado, proes e percalços que arya Amtonio Marquez, que os ditos 
oficyos seruio Porem vollo notefico asy e mamdo que tamto que acabar seu tempo 
a pesoa ou pesoas que dos ditos oficyos tenho prouido aintes deste roetaes logo 
de pose delles ao dito Francisco Rolz c lhes lcyses seruir c usar o dito tempo 
e aver o dito ordenado, proes e percalços asy como avya o dito Amtonio Mar- 
quez, que os seruio, sem duuida nem embargo algum, que a ello seya posto, o 
.juall Francisco Rolz jurou na minha chancelaria aos samtos avamgelhos que 
liein e verdadeiramente obre o use do dito oficyo guardamdo a mim meu seruiço 
e as partes se» dereito e tinha hum aluara dos ditos oficyos, que hera feito em 
Tomar a quatro dias de setembro do anno pasado de b° zzb, o qual foy roto ao 
asynar desta, dada cm a minha vylla dAlineyrim a siij dias de janeiro Manoel 
de Moura a fez anno de noso Senhor Jhcsii X" de mill b° nbj. — Pedimdome o 
dito Francisco Roiz que por qnamto ellc trespasaua os ditos oficyos em Amtonio 
Mendez onriuei e a dita sua carta se rompera pollo synall ao fazer doutra ao 
dito Amtonio Mendez a quall eu n3 asynara por algfis respeytos lhe mamdase dar 
esta carta com o teor da dita carta que se asy rompera, e visto per mim seu 
requerymento por lhe nyso fazer mercê me prouue dello e lhe mandey pasar 
esta carta, em que a prymeyra que asy tinha dos ditos oficios vay emeorporada 
de verbo a verbo segundo se por esta presente mostra Porem mamdo que asy se 
compra e guarde como nella lie comtbeudo sem outra duuyda nem cnbargo que 
a ello seya posto, por que asy he minha mercê. Gaspar Memdez afez em Lisboa 
a zij dias de janeiro anno de mill b* xxix E eu Demíam Diaz a fiz escreucr.» 

(Torre da Tombo. — Chucolliria da D. Joio III, BoneSíi, llv. 60, foi. S.) 

7 — Pêro Ruberte. — Mestre da Casa da Moeda de Goa e pae de 
Bastiam Ruberte, que lhe suecedeu por seu fallecimento, 

8 — Sebastião Ruberte. —Por morte de seu pae, de quem se tra- 
tou no numero antecedente, foi nomeado, para lhe sueceder no cargo 
que exercia, em carta de 15 de Janeiro de 1551. Quatro annos depois, 



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40 O ASCHEOLOGO POHTUGUÊS 

em carta de 14 de Outubro de 1555, foi confirmado no mesmo cargo, 
encarregando -o porém especialmente do fabrico da moeda de ouro, 
que o governador Garcia de Sá mandara fazer. Esta particularidade 
torna a carta muito importante. 

•Dom JoliSo &c. A quautoa esta minha carta virem faço saber que con- 
fiando cu de Bastião Ruberte, filho de P° Ruberte, morador na cidade de Goa, 
□aa partes da índia, que no carguo de mestre da moeda da dita cidade me sernira 
com toda fieldade, diligencia o recado que a meu seniiço compre, c avendo res- 
peito a seus seruiços, cy por bem e me praz de Mie fazer mercê do dito oficio 
em dias de sua vida, com o qual avera outro tanto ordenado e mantimento como 
com elle avia o dito seu pay, per cujo falecimento vagou, e o seruira depois de 
compridas minhas prouísdes que do dito carguo tiucr passadas a outras pesoa.s 

feitas antes desta. Notcficoo ao roeu Viso Rey Dada em Almcirym a ib de 

janeiro — AdriSo Luçio a fez — ano do nascimento de nosso Senhor Jlicsii ipo de 
do mil b° lj. A qual meree asy lhe faço avendo também respeito a Martym Afonso 
de Sousa, sentindo do gouernador da Ilidia, lho fazer em meu nome meree do 
dito officio. André Soarez a fez cscreiíer.» 

(Torro do Tombo. — Cbuecllarui de D. Joio III, Doc&i, Ur. 8fl, foi. IH.) 

«Eu elRey faço saber a vos dom Pêro Hazcareulias, do men conselho e meu 
vysorey nas partes da Imdia, que Bastiam Ruberte, mestre da casa da moeda 
da cidade de Guoa, inc fluiou dizer que seindo Martym Afonso de Sousa gouer- 
nador das ditas partes o ano de b c Rb lhe fizera merçc em meu nome do dito 
oficio em sua vyda e lhe mSdara pasar delle carta, e que se mi indo Guarçia de 
Saa de gouernador da Imdia lhe mSdara laurar c fazer na dita casa moeda 
douro, a qual ate emtão nfio fora feyta na dita moeda, c cllc ha fizera de sorte 
e feyção qne lhe fora mauulado pello dito Guarçia de Saa, c que faíemdose na 
dita casa as moedas douro e doutras sortes que lhe mandatiSo fazer, eu lhe con- 
firmara o dito oficio e lhe ínãdara pasar delle carta em forma, per vertude da 
qual seruia ate ora o dito carguo; pedimdoinc que por quainto pello tempo cm 
diauitc poderia aver allgíia duuida se avia cllc de ser mestre da moeda douro 
que se laurase na dita moeda asi como ho he das outras moedas que se na dita 
casa laurSo, ouucse por bem, avemdo respeito a seus seruiços C aos de sen pay 
Poro Ruberte, que o dito oficio seruio muitos auos, e a lho ter fcyto meree do 
dito carego per minha carta de llie midar pasar prouisilo pera elle semir de 
mestre das moedas douro que se na dita moeda fizesem, posto que ao tempo que 
lhe do dito oficio foy feito merçe se nSo laurase na dita easa moeda douro allgíia, 
pello que ey por bem c vos mSdo que vos cmformcis do que o dito Bastyatii 
Ruberte diz e saybais se he auto pera semir de mestre das moedas douro 
que se laurarem na dita moeda asy como lio lie das outras moedas que se na 
dita casa fazem e achaitulo pclla cinfbrmaçao que delle tomardes que he auto 
pera iso ho metaes de pose do dito careguo c ho deyxeis seruir de mestre das 
moedas douro, prata c cobre, sem a iso lhe ser posta duuyda allgúa, fazcmdo neste 
caso ho que vos parecer justiça c mais meu seniiço for. Luís Nunez ho fez em 
Lisboa a xiiij" dias doutubro de Jb c lb.. 

(Torro do Tombo. — CbsncelttrU de D. Joio III, M.njSrn, llv. 54, foi. IS.) 

Vide Rodrigo de Alviar e Pêro Ruberte. 



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O Abcheologo Portcgués 41 

9 — Gallas do Aveliar. — Ourivez de Lisboa. D. João III o no- 
meou ensaiador da Casa da Moeda de Cochim, e partindo elle para a 
índia a exercer o dito cargo achou-o occupado por Fernão de Eslava. 
Em attençao as despesas qne fizera na ida e volta da sua inútil via- 
gem, o mesmo monarcha, em 12 de Fevereiro de 1537, o nomeou 
ensaiador da Casa da Moeda de Goa. 

■Dom J° &q. faço saber a vos meu capitam uioor e gouernador nas partes 
da. índia e ao vedor de minha fazenda em cilas que eu fiz mercê a Galaz do 
Avelar, onryucz, morador na cidade de Lisboa, do oficio de ensayador da casa 
da moeda de Couchym por tempo de três ânuos e com ho ordenado pello Regi- 
mento, indo elle a esas partes pêra o aver de semir e achou pronido o dito 
oficio Feral dEslana em sua vida e avemilo respeito a despesa que o dito Galaz 
do Aveliar fez em yr c vyr e ao trabalho qne nyso leuou, e per lhe querer fazer 
mercê, eomfiando qne me saberá nyso bem semir e o fará com aquela ficldade e 
ileligeucia e hoom recado que a meu semiço compre, cy por bem e me apraz de 
lhe fazer mercê do oficio deinsayador da moeda que se faz na cidade de Goon, 
por quanto se ora achou ser auto e soficyftc pêra o semir segundo o declarou 
per seu asyuado Joo Queymado thesonreiro da moeda da cidade de Lixhoa, o 
qual oficio syruira em tempo de três annos com o ordenado contendo em meu 
Regimento acabatndo seu tempo vagamdo os que delle santprouidos per minhas 
pronisoes ate desta (tia) Noteficouollo asy e mamilo que tanto que pella dita ma- 
neira ao dito Galas do Aveliar couber entrar no dito oficio demsayador da 
moeda de Gooa o metaes cm pose delle c o deixes scruir os ditos três ânuos »s 
aver o dito ordenado cada anuo e todolos proes c percalços que lhe direitamente 
pertencem sem nyso lhe ser posto dunida nem enbargo alguu por que asy hc 
minha mercê e a carta do oficio dcusayador de Couehym se nSo ronpeo por elle 
dizer que a perdera e posto que apareça nâ a vera efeito c no registo delia se 
pos verba como lhe fiz esta mercê cm satysfaçào da que tinha, e elle jurara na 
chancelaria aos santos avangclhos que bem e verdadeiramente syrtia o dito ofi- 
cio. Amtonio Soarez a fez ein Évora a iíj dias do mes de feucreiro do auno do 
uacymeoto de noso Senhor Jhesú ipo de mylb b* xzz bij FernS a fez escrever.* 
(Torre do Tombo. — Cb»nrrll«rla de O. joio 111, Dod(oh, Ht. W, foi. SI v.) 

10 — Rodrigo do Alviar. — Era eavalleiro da casa de El- Rei, tendo 
stdo ourivez, durante largos annos, da Infanta D. Maria, ultima filha 
de D. Manoel. A pedido d'ella foi nomeado, por alvará de 20 de 
Setembro de 1565, mestre da Casa da Moeda da cidade de Goa, 
emquanto estivesse ausente Bastião Ruberte, de quem o orneio era. 
Por outro alvará de 4 de Março de 1566 foi concedido a Rodrigo de 
Alviar que pudesse renunciar o cargo em Diogo Rodrigues Cabaço, 
filho de Jorge Rodrigues, contratado a se casar com uma sua filha. 
Este casamento porém nSo houve effeito, segundo o ajuste feito entre 
os pães dos noivos, porque Diogo Rodrigues já se havia consorciado 
com outra. Por alvará de 14 de Janeiro de 1568 foi passada nova 



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■42 O Abcheologo Português 

provisão para que Rodrigo de Alviar fosse mettido na posse do cargo 
sem renunciar no imaginado genro, Rodrigues Cabaço. 

Esta notícia puliliquei-a já 110 meu livro Arte» e artista» em Por- 
tugal, pag. 118, aproveitando agora a occasiao para rectificar um equi- 
voco que ali se encontra. Na cpigraphe saiu Pedro de Alviar em vez 
de Rodrigo, e só quasi no fim ê que se menciona este nome. Este 
equivoco procedeu de certo por vir uma vez o nome de Pedro no 
documento do Archivo Português Oriental, fase. V, pag. 654, d'onde 
a noticia foi extrahida. Está documento acha-se também registado na 
Chancellaria de D. Sebastião. 

11 — André Marques. — Ourives de ouro. Nomeado ensaiador da 
Casa da Moeda de Goa pelo governador Francisco Barreto, eendo 
confirmado neste officio por carta regia de 19 de Março de 1569. 

•Eu elRey ffaço saber a vos dom Lujs de Tajde do meu conselho e meu 
Viso Rey daa partes da Imdia que aveludo respeito a cuifonnaçâo que me cm- 
viou dom Amt3o de Noronha que foy Viso Rey das ditas partes de Amdre Mat- 
qnei ourjucí douro que seruja demsayador da casa da moeda da cidade de Goa 
u de como lie auto pêra o tatl oficio ey por bem e me praz de lhe fazer dele 
merçe asj e da maneira que lio ele deue ser e como sorujo pela carta que lhe 
do dito oficio pasou Francisco Barcto serujindo de gouernador das ditas partt-s 
e pelas prouysoes dos Vyso Reis pasados com tio qual oficio deinsayador da capa 
da moeda da cidade de Goa o dito Amdre Marquei avera oytemta nijll rcaes 
de ordenado cada ano paguos pela inanejra que ate gora se lhe pagarão pela 
dita carta de Fraucisco Bareto e avera os proes e pcrcallcos que lhe dcreyta- 
mente pertcmçcrem per meu Regymcnto notefiquo uolo asy e ao vedor de mynha 
fazeuida nelas aque o conhecimento deste perteuicer c mando que dejxes serujr 
ao dito Amdre Marquez o dito oficio de eiusayador da casa da moeda de Goa na 
maneira que dito he e avera o dito ordenado e os ditos proes c percallcos sen- 
dolhe prjmejro dado juramento dos saintos avamgelhos que bem e verdadejra- 
luente syrua o dito oficio goardamdo etn tudo meu serujço e as partes seu di- 
reito de que se fará declaração uas costas deste que ey por bem que valha e 
tenha ibrea e vyguor como se fose carta fteyta em meu nome e aselada do meu 
selo sem eiubarguo da ordenação do L.° segundo titulo iz que defemde que nfio 
valha aluara cuyo efeito ouuer de durar mais de huum ano e se registara nos 
L." da casa da índia dcmtro cm quatro meses prjmejros seguymtes e vay por 
duas vias e avendo huum efeyto o outro se uao eomprjra e será de nhuii vygor 
Nycolau Luis o fez em Almejrym a xix de março de j b 4 liix e o dito Amdre 
Marquez scruirá o tall oficio de emsayador da moeda de Goa na maneira que 
dito he em quamto eu ouver por bem e nao mandar o contrajro e cu Duarte 
Diaz o fie espreuer.» 

(Torre do Tombo. — Chucellula do D. Srbulilo s D. Henriqoe, 11». II, foi. DOS.) 

12 — Affonso de Albuquerque. — Era natural da índia e, conver- 
tendo-se ao enristianismo, recebeu o nome do conquistador de Goa; 



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O Abcheologo Português 43 

querendo assim, por certo, o governador Matinas de Albuquerque 
honrar a memoria do seu glorioso antepassado. O mesmo governador 
o nomeou, por toda a vida, moodeiro das moedas de bazarucos de 
cobre e calaim. 



•Ea elRey faço saber aos que este aluara virem que aveudo respeito a 
Afonso d Albuquerque, cristão da terá se coimertcr a nossa saucta fe e o proner 
Matias d Albuquerque, sendo Viso Rey da índia, do cargo demoedeiro da moeda 
ilos bazarucos de cobre C calaim que se laurão na Ribeira de Goa em sua vida 
per híía patente, ey por bem e me praz de lhe fazer merçe de lhe confirmar o dito 
earego para que o sirua conforme a dita patente em sua vida sem embargo do 
Regimento que ha na índia que diz qnc os omeios e caregos nas dytas partes 
se não posaSo seruir por mais tempo que três ânuos somente: pcllo que mando 
ao inen Viso Rey ou gouemador das ditas partes (la índia, que ora he e ao dyante 
for, e ao vedor de minha fazenda em ellas, que cumpram e guardem e facão in- 
teiramente cumprir e guardar este aluara como se nclle cÕtcin e valerá como 
earta &c. c se lhe passou por duas vias, cumprido liíiu, o outro iiio averá efeito. 
António de Paços fez ein Lixboa a xj dabril de mil bj" e quatro Janaluíz 



(Tom- do Tombo. — ChaDCFlUri* de D- FlUppK II, Doaftti, Mv. 11, foi. *.) 

13 — Gonçalo da Costa. — Fora provido no cargo de cunhador da 
moeda de ouro da cidade de Goa pelos serviços que prestara em 
diversas armadas e feitos militares, achando-se na batalha que o 
t-apitito António Telles tivera com os hollandeses, perdendo nesta 
occasiXo um pé, que lhe foi levado cerce por um tiro de baila. 
Tendo fallecido, ficou sua viuva Theodosia da Fonseca, que casou 
pela segunda vez com Martim Gonçalves, de quem se trata em 
seguida. 

14 — Martim Gonçalves. — Por ter casado com a viuva de Gon- 
çalo da Costa, foi nomeado para o cargo que este exercia, sendo a 
carta regia de confirmação, de 16 de Janeiro de 1651. 

• Dom João etc. faço saber aos que esta minha carta uirem qnc por parte de 
Martin CSonçaluea me foi aprezentado li fia earta feita em meu nome e asinado 
]>or dom Pheliphe Mascarenhas Viso Rei daquellc estado de que o treslado he 
O seguinte: 

Dom Joio etc. aos que esta carta uiren faço saber que Tcodozia da Fon- 
eeca uiuua de Gonçalo da Costa enuiou dizer por sua petição a dom Pheliphe 
Mascarenhas do meu conselho de estado meu uiso Rei e capitão geral da índia 
que o dito seu marido fora prouido do cargo de cunhador da moeda de ouro em 
remuneração de me haucr seruido nas armadas de alto e baixo bordo e ua bata- 
lha nabal que o capitão geral António Telles teue con os cnimigos de Europa 



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O Akcheolooo Portoguê8 



perder lium pé cerçio de húa baliu e por nao ter outro cómodo e que por seu 
fui i cimento ficara cila dita Thiodozia da Fonceca eu grande pobreza c dezen- 
paro coo duas innas hiia uiuna c outra donzella me pedia lhe fizesse mercê <? 
respeitando ao referido do mesmo cargo en ilida para seu cazameuto e O sernir 
quem con cila cazar e cu quanto uiuua poder aprezentar nellc hiia pessoa ncllr 
para asi se poder manter dos ordenados proes c percalsoa e que se lhe pasasc 
carta e sendo uista a dita petição pello dito meu uiso Rei ouue por bem per 
despacho seu de dezaseis de maio deste anno de fazer mercê a dita Thiodozia 
da Fouceca do cargo de que trataua para o poder scruir a pessoa que con ella 
cazase cu dias de sua uida visto o que alegaua e por hiia ccrtídSo de Luis da 
Silua cura da igreia de Santa Lusia que prezentou, constou receber a Martin 
Gonçalues con a dita Thiodozia da Fonceca e con a dita petição e despacho do 
dito meu uiso Rey e certidão referida fez o dito Martin Gonçalues outra peti- 
ção dizendo nella que pello despacho junto fora eu gemido fazer mercê a dita 
Thiodozia da Fonceca do dito cargo de cunhador da moeda douro da cidade de 
Goa para a pessoa que con ella cazase cu dias de sna uida c per que ctle estaria 
cazado cou cila na fornia do sagrado consilio Tredentino como constaua da cer- 
tidão do cura da igreia de Santa Luzia me pedia lhe fizesse merce mandar lhe 
pasar carta cn seu nome do dito cargo para o scruir en dias de sua uida con o 
ordenado proes e pcrcalsos que lhe direitamente pertencerem e ouucrSo os |ia- 
sados notifico asi ao uedor da fazenda geral da índia ao thezoureiro da dita 
caza da moeda de ouro mais mcuistros oficiaes e pesoas a que pertencer para 
que asi o cuuprBo e façSo inteiramente cimprir e guardar e metão en pose ao 
dito Martin Gonçalues do dito cargo de cunhador e lho deixen ter c seruir en 
dias de sua uida e lianer o ordenado proes e percalsos como dito he c clle jurara 
em minha chancellaria aos Santos Euangelhos na forma custumada e aprezen- 
tara suas folhas corridas uo juizo dos feitos c o escrínio da matricula geral fará 
declaração eu seu titulo do uencimento do ordeuado c pague ciucoenta zerafj -ns 
dos direitos da mea annata desta merce que he ametade do rendimento de hum 
anno como constou de hiia certidão do escriuao da moeda Manuel da Silua os quacs 
forio caregados ao thezoureiro Manuel Carnal lio a fs. 53 do I-.* de seu resebimeuto 
como outro si constou por certidão de Domingos da Silua escriuito da dita mea 
annata dada cm Goa sob o sello das armas reais da coroa de Portugal Manuel 
Rodrigues a fez a uinte de julho auno de seiscentos quarenta e noue c se pasou 
por três vias hua so hauera efeito o secretario Joscphc de Uliaucs Soto Maior a fez 
oscreuer dom Pheliphe Mascarcuhas. 

Pcdindomc o dito Martin Gonçalues que per quanto o uiso Roi dom Pheli- 
phe Mascarenhas lhe fizesse inerec en seu nome pclla carta nesta incorporada 
do dito cargo de cunhador da moeda de ouro de Goa en sua uida por caiar con 
a dita Theodozia da Fonceca lhe fizesse merce mandarlho confirmar e tendo a 
tudo respeito hei por bem de fazer merce confirmar a nomeação que o dito uiso 
Bei nelle fez do dito cargo aai e da maneira que se conten na dita carta pello 
qne mando ao meu Viso Rei da índia lho de a posse do dito cargo de cunhador 
da moeda de ouro da cidade de Goa para o ter e seruir cu sua uida e aocr o 
ordenado proes e percalços como dito he e o uedor geral de minha fazenda lhe 
dará juramento dos Santos Euangelhos que ben c uerdade iram ente a sirua guar- 
dando cu tudo meu seruiso e direito as partes de que se fará asento nas costas 
desta carta que será registada nos liuros do meu conselho ultramarino e caza 
da Iudia da data delia a quatro mezes primeiros seguintes e do contendo nesta 



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O Archeolooo Português 45 

su porá verba verbas (stc) no registo da carta nesta incorporada do L.° do dito 
f.stado esta se paaou por três vias c pagara o nouo direito — Manuel dOliueira 
ji ítíz eu Lisboa a dezascis de janeiro '-• 

(Torre do Turno.,. — ObutolUrla d.' D. Joio IV, IÍT. W, foi. CO.) 

15 — Angelo Fradique. — Em carta de 27 de março de 1613, o 
confirmou el-rei, por espaço de oito aimos, no cargo de ensaiador da 
Casa da Moeda de Goa. 

■Dom Felipe 4c. faço saber aos que esta minha carta virem que avemdo 
respeito ao arcebispo governador prouer a Amgello Fadrique do cargo de en- 
sayador da moeda da cidade de Goa por sna muita sufi ciem cia para o cargo e 
partes que nclle comeorrem e o Viso Kcy Lourenço deTauora lho confirmar 
<kípoes, ey por bem e me pras de lhe fazer mercê do dito cargo de emsayador da 
moeda da cidade de Goa por tempo de oytn ânuos ua vagamte dos prouidos am- 
tfis do tempo em que o dito Viso Rey lho comfinnou sem embargo do regimento 
que mãoda que os cargos da Ymdia se nSo siruSo por mais tempo que três au- , 
nos e de ter e estar seruiudo e do Regimento em contrario com o qual cargo 
aitcra O ordenado que tiuer por regimento e todos os proes e percalços que di- 
reitamente lhe pertemccrcui : Pello que maodo ao meu Viso Ecy ou governador 
das partes da Ymdia, que ora lie c ao diauite for, e ao vedor de minha fazcmda 
em cilas que tãoto que polia dita maneira ao dito Amgcllo Fadryque couber em- 
trar no dito cargo lhe dem posse delle c lho deixem seruir pollo dyto tempo e 
com o ordenado próis e percalços que lhe pertencerem como dito he sem lhe a 
ysso ser posto duuida nem embargo algum, e o vedor da minha fazcmda da Ym- 
dia lhe dará o juramento, de que se fará assento nas costas desta carta, que será 
registada nos liuros da casa da Ymdia demtro de quatro meses, e se pagou por 
duas vias hua so liauera efeyto. Pedro Luis dAlmeida a fes em Liiboa a vimte- 
sete de março, anuo de mil c seis centos c trese Amdré Campello a fia cscrcuer.i 
(Torre do Tombo. — Cbnuellaria da D. Flllppo n, Doar/*,, llv. 30, foi. 150.) 

16 — Jeronymo Lopes da Costa. — Kra ensaiador da casa da moeda 
de Goa e em 1621, a 16 de fevereiro, pesou e avaliou as peças que 
pertenciam ao espolio de D. Estevam de Athaide, que trouxera Jíuy 
de .Mello de Sampaio, capitão que fora da fortaleza de Moçambique. 

«Ser ti fico cu Jerónimo Lopes da Costa, einsaiador da moeda desta cidade 
de Goa, que por mandado do prouedor mor dos contos deste estado Ambrósio 
de Freitas da Camará fuy a mesa do despacho dos ditos contos aos desaseis 
dias do mes de fevereiro de mil seis sentos e vinte e hum, onde o dito proue- 
dor mor me ordenou pesase e avaliase as peças c cousas abaixo declaradas, que 



1 Falta O anuo, que se pode deprchender pelas outras cartas registadas 
antes e depois d'esta, ser o de Niõl. 



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46 O Arciieolooo Poktuguês 

hurSo as que cut regou Ruy de Mello de Sanpaío, capitão que foi da fortaleza 
de Moçambique da copia da fazenda que elle tomou do defunto dom Estcvlo 
dÀtaide. na dita fortaleza, que sSo as seguintes. 

[Toitt do Tomba. — DoeniMBIoi rulnelrido» d» IodU. lii. 1J, foi. 110.1 

Segue-se a relação. 

17 — Jorge da Cunha. — Era cunhador da moeda da cidade ún 
Goa, no tempo de Filíppe III, sendo promovido a ensaiador. Sen 
filho, António da Cunha, substituiu-o naquelle logar. 

18 — António da Cunha. — Filho do antecedente. Em carta de **4 
de março de 1636, foi confirmada a aua nomeação, por toda a vida. 
para o cargo de cunhador da moeda da cidade de Goa. 

•Dom Phelipe &c. faço saber aos que esta minha carta virem que a vendo 
respeito aos scruiços de Jorge da Cunha, estante ua índia, e a ter procedido 
com satisfação no offiçio de cunhador tia moeda da cidade de Goa attc ser pro- 
mouido ao de emçayador da mesma moeda, e ao conde da Videgueira, sendo 
Viso Rei daquelle estado por ucr uo dito officio de acuuliador da moeda, que 
elle largou, a António da Cunha, seu filho, com obrigação de alcançar a com- 
firmaçfio de tuim dentro em trez aunos por aluara de vinta siueo de agosto de 
seis centos e vinta sette, da qual obrigação se lhe porrogou o tenpo de reque- 
rer a dita eomfirmação por outros trez annos lio conde de Linhares, sendo Viso 
Rei do dito estado por apostilla posta no mesmo aluara de quatro de janeiro 
de seis centos e trinta e ginco c a ter scruido nelle com sastifaçio; hcy por 
bem de lhe fazer merce ao dito António da Cunha de lhe eomfirmar a que em 
meu nome lhe fez o conde da Videgueira do. dito cargo de cunhador da moeda 
da cidade de Goa, cm dias de sua vida, e que esta merçc aja efeito sem em- 
bargo do Rigimento e prouizão passada em sua corroboraçao que deepoeiu que 
os prouidos das capitanias ou cargos do dito estado da índia o não seyão mais 
que por trez ânuos, e pagou de mea auuata mil e duzentos reaes, que he o mesmo 
que dcue de chancelaria, que se carregarão ao tliesonreiro João Pais de Matos 
afl 295 v. do liuro de seu rícibimento, e por firmeza do que dito he llic uian- 
dey passar esta carta de comfinnacào por min assinada e scllada com o sello 
pendente, que se cumprira imteiramente coino se nella comthem sem duuida 
algíta, a qual se registara nos liuros de minha fazenda caza da índia da data 
delia a quatro menes primeiros segiutes, e se passou por duas vias: Ima sou 
avera effeito Bcrtolamcu dArauyo o fes cm Lisboa a vinta quatro de março 
Bimo de seis centos e trinta e seis. Affouso de Barros Caminha a fez escreuer.. 
(Tot» do Tombo. - Chuce lUrtn da D. Fltlppcr III, DeaeS»., MV, *u, f.,1. ST t.) 

19 — Ruy Lourenço Baterias. — Serviu alguns annos de ensaiador 
da Casa da Moeda de Goa, e prestou também serviços militares, 
que Ilie valeram cargos e mercês, ou promessas de uns e outros. 
Tinha uma filha casada com Simío Rodrigues de Almada, o qual lhe 
succfdeii mi cargo. 



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O Abcheologo Poktcoués 47 

20 — Simão Rodrigues de Almada. — Em carta de 28 de Marco de 
1643 foi nomeado ensaiador da Casa da Moeda de Goa, pelos serviços 
que lhe couberam na snccessão de Ruy Lourenço Batevias por meio â« 
tua mulher. Esta circumstancia indica-nos que elle era casado com uma 
filha do dito Batevias. Simlo Rodrigues era filho de Fernão de Alvares. 

■Dom João etc. faço saber aos que esta minha carta rirem que hanendo 
respeito e pretencerein por sentença de justificação a Simão Rodrigues de Al- 
mada filho de Fernão dAluarcz por mejo de sua inollier os sumiços que Ruy 
Lourenço Batarias sen antecessor fez uaquelle estado seruindo alpita anitos de 
einçeador (»ie) da moeda e na Armada do Canara, de capitão de hum nauio e cabo 
de outros e asiin a auçlo das inerçes que lhe estauão feitas do Abitto de Christoe 
vinte inil ruis de tença de híía viagem de Moçambique e os cargos de cseriuflo da 
matricola geral de Goa e da Alfandega de Mascate que nilo onuorão effuito, que 
se lhe concederão por sens seruiços e pellos de seus jrmfios um eouciduraçãodi- 
tudo ey por bem de lhe fazer merçe do officio de emçayador da moeda do ouro 
da cidade de Goa em uida na nagaute dos prouidos antes de dez de dezembro 
e o anno de seiscentos quarenta e hum em que rejo comsultado pcllo conde di' 
Anuirás Viso Re; da índia esta merçe lhe faço alem das que pellos mesmos 
respeitos lhe taobem fiz e auera effeitto sem embargo do Regimento e proui- 
sões passadas por que se ordena que os que forem prouidos de liuin carguo ou 
capitania da índia o não seja de outro, com o qual officio hauera o ditto Simão 
Rodrigues dAlmada o ordenado que lhe tocar sem embargo de não jr declarado 
nesta Carta e da prouisão que sobre esto lie passada em contrairo e todos os 
proca e precalços que lho direitamente pretençerem pello que mando ao meu 
Vizo Rey ou gouernador das partes da índia que ora hc c ao diante for c ao 
needor geral de minha fazenda; em ellas que tanto que ao ditto Simão Rodri- 
gues pella ditta maneira couber emtrar no ditto officio lhe dem posse delir e 
lho deixem sentir em sua vida e aucr o ditto ordenado proes e precalços como 
ditto he sem lhe a isto ser posto duuida nem embargo algum e o ditto veedor 
geral da quelle estado lhe dará juramento dos Santos Evangelhos que bem e 
verdadeiramente sirua guardando em tudo meu sumiço e o direito as partes de 
que se fará assento nas costas desta Carta que será registada nos liuros de 
minha fazenda e Caza da índia da data delia a quoatro mezes primeiros seguin- 
tes, a qual por firmeza de tudo lhe mandey passar por mim asinada e sellado 
com o meu sello pendente por duas vias híía só hauera efiéito Bartholomeu da 
Araújo a fez em Líxboa a vinte oitto de março anno de mil seiscentos quarenta 
e três — Joio Pereira de Betancor afiz escreuer = ElRey »=.• 

(Torre to Tombo. — CnMHtllafU de D. Joio IV, Itv. IS, foi. 41 ■.) 

21 — João Delgado. — Era cantador da moeda do ouro da cidade 
de Goa, tendo renunciado o officio em Jerunymo Teixeira Re bel lo, de 
quem se trata em seguida. 

22 — Jeronyrao Teixeira Rebello. — Tendo João Delgado renun- 
ciado nelle » officio de cunhador da moeda de ourn da cidade de 
Goa, foi confirmado no mesmo lugar, por doze annos, em carta regia 
de 15 de Junho de 1650. 



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48 O ÃaCHEOLOGO Português 

■Dom João ctc. faço saber aos que esta minha carta virem que cn couce- 
deraçio doa respeitos por que Pedro da Si lua que foy do meu conselho destado 
sendo Viso Rc-y da Iudia deu em meu uome, o officio de cunhador da moeda de ouro 
ile Goa a Jlicronimo Teixeira Rabello meu moço da Camará estante na índia ; por 
o propriatario Jofio Delguado fazer renunciação delle e no mesmo ministério ter 
siruido o dito Jheronimo Teixeira o anno de seis centos e trinta e none, e no 
de quarenta e seis se cubargar com Domingos Pereira Biliago, Heyporbem de 
Lite fazer merco do ditto officio de cunliador da moeda de ouro de Goa por doze 
sumos na vagante dosprouidos antes de qiiatorzc de março de seis centos e quarenta 
v. seis em que vltimamente o consultou o conselho vltramarino e esta merçc lhe 
faço sem embargo do Rigimento e Aluara passado em sua corroboraçao qne de- 
fendem aos prouidos de officios da índia podello ser mais que por trez ânuos e de 
u3o tirar portaria dentro do tempo ordenado com o qual officio hanera o dito Jlic- 
ronimo Teixeira Rabello em cadahuui dos ditos doze ânuos que osiruir o ordenado 
que lhe tocar, 'sem embargo de nSo hir declarado nesta carta e da prouizio que 
sobre hisso hc passada bem contrairo c todos os proes e percalços que lhe dereila- 
inente pertencerem. Pcllo qne mando aoVizo Rey ou goueruador das partes da 
índia que ora hc e ao diante for o ao veedor geral de minha fazenda em ellas 
qne tanto que ao dito Jheronimo Teixeira pella dita maneira couber emtrar no 
dito officio lhe dem a posse delle e lho deixem scruir pello dito tempo de doze 
annos na vagante refirida de quatorze de março do seis centos e quarenta <■ 
seis e haner o dito ordenado proes e percalços como dito hc sem lhe isso ser 
posto duuida nem enbargo algum, e o dito veedor geral de minha fazenda lhe 
dará juramento dos Santos Avaugclhos qne bem e verdadeiramente sirna o dito 
officio guardando en tudo meu scruiço c o dereito as partes de que se fará asento 
nas costas desta carta qne será registada nos Huros do meu conselho ultrama- 
rino e caza da índia da data delia a quatro mezes primeiros segintes e do con- 
teúdo nella se porão verbas nos registos da carta que do dito officio se lhe pas- 
sou pello meu Vizo Rcy Pêro da Silua, nos liuros dnquelle estado, e este se 
passou por trez vias híia so hanera efeito e pagara o nouo direito, Manoel 
slOliueira a fes em Lixboa a quinze de junho — Anuo do Nassimento de Nosso 
Senhor Jessu Christo de mil c seis centos e sincoenta — o secretario Marco Ro- 
drigues Tinoco a fez escreuer = EIRci =.» 

(Torre do Tombo. — CbucoJlarla do 1). Joio IV, Ur. 19, fui. UB F.l 

23 — Fernão de Eslava. — Era ourivez de ouro de el-rei D. Manoel. 
No inventario que se fez por morte deste monareha 1 encontram -se três 
verbas de pecas fabricadas por Fernão de Eslava, as quaes faziam 
parte do guarda-roupa da mourisca (dança). Essas três addiçoes são 
do teor seguinte: 

«It. huíia espada de prata de j- (cruz) direita com alguas peças douro es- 
maltadas e sua eõteira douro esmaltada, que fez Fumam dEslaua, c: n3 se pos 
aquy o peso por que na recepta de P* Carnalbo n3 esta deerarado.» (x. t). 



> Torre do Tombo, maço 158 do interior da extincla Casa da Coroa. 



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O Amchkolooo Português 



•It, mais dezasete pomtas granules esmaltadas de hrainoo c preto, que pe- 
nar5c todas junitamente cymqtiu ouças c sete oytauas c scsemta graaSs, qw 
Fez Fenutm d'Eslaua.» (foi. xtv, v.°). 

■It. R.» dele mais bníí taily douro esmaltado todo de três froll c tem no 
meo da face de fora bua lua aleuaintada a qual] tem huíi rosto no meo e lios 
quatro camtoB da mesma face es tam quatro rostos tam bem aleitamtados e na 
facee do aveso bc tam bem esmaltado de tresfroll com huíia rosa no meo de 
meio relevo e pelos quantos leua o dito taily chapas esmaltadas dos ditos es- 
maltes, que pesa cS três argolas douro em que audã as borlas quatro marcos e 
quatro oytauas e quoremta e bufl grafto douro c trás deratro o dito taily bua 
forma de pao por fortaleza em que amda crauado, cd a qual pesa jmntamcutc 
quatro marcos e três onças e tres oitauas c moa, o qtialftz Forni dEêlaua, cõ 
sua gurnição de tres borlas de retrós cremes^ lanrado douro de Genoa de bn- 
sauylho e com sen tecido mourisco de retrós e ouro metido em sua fmnda de 
!>hii».> (foi. Hiij.) 

D. JoSo III, em carta de 27 de Janeiro de 1Ó30, o nomeou, por 
tres annos, mestre da Casa da Moeda de Cochim. Em carta de 27 de 
março de 1532, lhe ampliou a mercê por toda a vida. Em 1Õ34 ainda 
existia no exercício deste cargo, pois sendo nomeado (í alias de Avel- 
lar, o encontrou oecupado por elle. Veja-se este nome. 

■Dom Joliain &e. laço saber a vos meu capitam moor c goueniador nas par- 
tos da índia c aveador de minha fazenda cm ellas e asy ao meu capitam da 
cidade de Cochyni que comfiamdo eu do Pernl dcslaua, ouriue* que foi deIRcy 
meu senhor e padre, que samta grorya aja, que neste me syruira bem c fielmente 
como a meu seruiço compre me praz de lhe fazer mercê do oficio de mestre da 
casa da moeda de Cochym por tempo de tres annos c com lio ordenado em cada 
hum auno comteudo em men Regimento. Porem vollo notefieo asy e inaindo que 
tam to que acabar seu tempo a pesoa on pesoas que sam prouidos do dito oficyo 
per minhas prouisoes feytas aintcs desta cmtam metaes lofruo em pose dellc o 
dito Perna dcslaua c lho leixcs seruir c vsar do dito tempo e aver o dito orde- 
nado na maneira acyma declarado, e elle jurara cm a minha chancellaria aos 
saiutos avamgelhos que bem c como deue obre c nse do dito oficyo guardamdo 
a mym meu seruíço c as partes seu direito. Manoel de Moura a fest em Lisboa 
a ix hij dias de janeiro do anuo de uosso Senhor Jhesit X* de mill 1j c nw 

(Torro do Tombo. — 1'baDCsllsrl» do 1>. Joio III, Ht. 39, foi. 35 p.) 

Ha um Gonçalo Eslava, ourives do ouro de D. João III, talvez 
seu irmão. 

■Dom Joain &e. faço saber a vos, meu capitam inÕor e goiíernador nas par- 
tes da Imdya c ao veedor de mynba fazemda em elas, que comfiamdo en tle 
Pcrnam dcslaua, ouriucz, que nysto me sernivaa bem c fiellmentc como a meu 
lemiço e bem das partes cumpre, querenulolhe fazer graça e mercê, tenho por 
hem e lhe faço merco do oftycyo de mestre da casa da moeda de Cocliyin cm 



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50 O Abcheologo Português 

«lias de «ia vida. com lio ordenado conteúdo em meu regimento. Noteficonolo 
asy e tos mando qne tamto que hacabar o tempo das pesoas que do dito oficio 
forem providas por minhas prouisoões amtes desta, metais loguo o dito Fentam 
deslaua em posse delle e lho leixay servyr e vsaar em sua vyda c haver o dito 
hordenado e todolos proes e percalços que lhe direitamente pertemeerem sem 
Ute niso ser posta duuida nem embargue algum por que basy he minha mercê, e 
nam havemdo hy pesou aJguúa provyda por minha provysl seraa logno metido 
em pose e servyraa pella maneira que dito he, e elLe jurara na chamcelaria 
haos samtos avamgelhes que syrva bem e verdadeiramente goardamde em toda 
a mim meu serviço e as partes sen direito, e paguou dordenado três mill reaes 
na dita chancelaria que fiquam carregados em recepta sobre ho recebedor dela. 
Manocll di, Costa ha fez em Seta vali a ixbij dias de março anuo de nosso se- 
nhor JhesnúXpodej b* xxxij.* 

(Twre de Tomo». — Chwerllarla de D. Joio 111, 11». 16, foi. 31 b.j 

De Fernão de Eslava existe orna interessante carta dirigida a 
el-rei, escrita em Cochim dois annos depois de lá estar exercendo 
o sen orBcio. Nella faz sensatas considerações sobre a venda do ouro, 
achando qne nesta matéria se devia seguir o systema, que deter- 
minara Affonso Mexia, vedor da fazenda. Emquanto ás moedas de 
onro e prata importadas de PortngaJ, entende qne Beria preferível e 
de muito maior interesse para o estado, o enviarem-se os metaes era 
barrinhas e não amoedados. Pede que lhe dêem um homem que o 
ajude no fabrico da moeda, assim como o tiveram os seus antecesso- 
res Gaspar de Barros e António Mendes. Aconselha, por ser de 
grande vantagem, qne se edifique uma casa da moeda própria para 
nao se andar por casas de aluguer. 

•Ho auno passado de . . . escreui a uosa Alteza algiías cousas que ha ser- 
aiço de uosa Alteza e bem de sua fiazcmda compriam por serem de meu offick 
semdo curto que nyso ho siruo outro sy aguora ho faço pêra com mais certeza 
ser Vossa Alteza cmffonuado pois tanto a bem de sua ffazemda e aeruyço com- 
pre || Nos anãos passados semdo Afomso Mexia veedor da ffazemda mamdaua 
qne todo ho ouro de todas as partes que a esta cidade viese asi de Çoffala. como 
de Mamuncabo se uendesc no tesouro de Vossa Alteza por ter espermentadn 
ser muito porueito ha fazemda de nossa alteza ho que he asy por que quando 
asy se comprana no tesouro valiam os portugeses preço de cinquo mill cruza- 
dos que sam mais de quimze pardaos e aguora por se nam ffazer como damtrs 
ualem os portugeses muito menos por que aguora ha carega nam os tomam 
mais que ha catorze e bua tãga que sam quatro myll c dozentos e sesenta reaes 
s ysto por hos chatyns da terá auerem todo ouro a sua mão que das sobre ditai 
partes uem | asy que pois tanto ymporta a seruiço de vossa Alteza e bem de 
sua ffazemda deue mandar a seus oftíciaes que ho ffaçam como em tempo de 
Afomso Mexia se ffazia e pêra certeza dysto pode ser vossa alteza, emformado 
delle. || 

Asy de uosa Alteza mamdar qne nos cofres que pêra qua uem venha ho 
menos ouro amoedado que poder ser prinçipallmentc que nam seyam dobr&es 



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O Archeologo Português 



liorqiie he mais proveito vyr cm barast Sinas por que tanto que oa ehatins da 
terá sabem que vem de laa portngeses c todo lio onro amoedado abatem loguo 
o preço dos seus portugeses que sam poucos por tomarem os de vossa Alteza 
muytos cm pouco preço | asy qnc lie mais seruieo de vossa Alteia e proneito 
de sua fazemda vyr nos eofres ha mais aoma em liaras fhnas que cm moeda la- 
vrada tomo sempre vieram sonmemte estes dous annns pasados que uieram uray- 
tflfl dobrões que foi perda a fazemda de uesa-Alteza | e asy deue vossa alteza 
mamdar prata em baras como sempre reyo por que fFaz subir lio ouro e também 
liam vyr estes dmis ânuos pasados uciihuas baras de prata ffisz ahater uinyto nos 
portugeses por que a moeda he mercadorya que sobe c deçee e de todo esto 
pode vossa alteza ser einforinado por Affomso Mesta que de qua niuytas vezes 
lho esereveo. Q Os mestres desta casa da moeda que amte mym foram a saber 
Gaspar de Bayros e Amtoaio Menulez tyveram hu ornem pêra os ajudar ho 
qaall tynlia soldo c mamtimemto e por que asy dellc tenho muyta necisidade 
por ser soo ho pagão a mynba ensta pelo que peco a vossa Alteza que me ffaça 
mei^e de bom ornem o qual vemça soldo e mamtimemto do dya que eu comecey 
a serayr por ser a casa de inujto trabalho | asy deue vos» alteza mamdar que 
ae tfae» li "iã easa da moceda por nam amdar por casas alugadas por que em 
dons ânuos que qiia sSo foy mudada três vezes. H 

O mestre da moeda de Couchiui — 'Fernando Deslima.» 

(Torra da Tombo. — Corpo CSronoIofico, parta 1.', mieo BI, doe, 71.) 

24 — Gonçalo Eslava. — Alem de Fernão Eslava apparcce um 
Gonçalo Eslava, talvez seu irmão ou parente. Relacionamo-lo aqui por 
afinidade de nome. D. João III o tomou por seu ourivez de ouro, e, 
em 10 de janeiro de 1522, lhe passou a seguinte carta de privilegio ; 

■Dom Yoham 4c. A qnamtos esta nosa carta virem fazemos saber qne nos 
filhamos era em nosa garda e emcomemda e por noso onriuez douro a Gonçalo 
JEslana pêra uos dele sernimios com seu oficio e porem rogamos a todos os grain- 
des destes Reinos e mamdamos ao tesoureiro de nosa casa e a todos os corre- 
gedores, juizes, justiças, ofieiaes, pesoas, a que esta nosa carta for mostrada 
que ajam daqui em diamte ao dito G.° dEslaua por noso ouriuez e a outro ne- 
nhum nani e lhe nom façam nem comsymtam fazer nenhum uoyo nem sem re- 
zam nem costramgimcnto nem outro algum desaguisado por asy ser noso, mas 
de todos em jerall e de cada hum em espiciall receba omra favor e todo bom 
emparo como cousa nosa c de que gramde careguo temos, semdo certos que de 
o asy fazerdes nos feres em elo prazer e do eomtrairo nos desprazeria, e per 
esta nosa carta mamdamos ao noso aposemtador e aos juizes e ofliciaes e pesoas 
a que esta nosa carta for mostrada qne lhe dem ornem omde quer que estener- 
mos pousada e camas de graça pêra ele e sna luolher e gasalhado e como se da 
aos nosos ofieiaes macanicos e que tem nosa moradia sem embarguo da ordena- 
çam em eomtrairo e se forem lugares omde ouner ordenaçam depoousemtadoria 
mldamos aos eotntadores que per suas eomtas tomarem que o que se despemder 
em sna apoeemtadoria o leuem em comta aos ofieiaes dela o que huns e outras 
asy eompri sem nenhua d unida, por qne asy he nosa mercê. Dada em Lizboa 
aos x de janeiro. Symao de Matos o fez ano de niill b" zxij anos. 

(Tom do Tombo. — CbuceUuia, de D. Joio m, 11t, SI, fui. 3 a. | 



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O ÃRCHEOLOtiO POBTDOU^S 



25 — João Gomes. — Onrivez da prata. Sobrinho de Manoel Cro- 
mes, escudeiro da Casa Real. A pedido do tio, D. Joio III o nomeou, 
em carta de 4 de Março de 1552, por espaço de seis annos, mestre 
da Casa da Moeda de Cochim. Esta merco lhe foi renovada, por mais 
duas vezes e por igual tempo, sendo a primeira, por I). João III, em 
2 de Janeiro de 1557, e a segunda, por D. Sebastião, em carta de 
11 de Março de 1564. 

■Dom J.° &c. a quamtos esta minha carta virem faço saber que cSfiamdo eu 
de Joliam Gomez, onriuez, sobrinho de Manoel Gomei, escudeiro de minha casa, 
que no earegno de mestre da moeda da cidade de Sanita Cruz de Cochim nas 
partes da Lmlia, me seruira bem e fielmente com todo recado e deligemeia qne 
a meu seruiço compre, o avemdo respeito a mo pidir o dito M' 1 G-omez me praz 
e ey por bem de fazer íneree ao dito Jnham Gomez do earegno por tempo de 
seis anos c tom lio ordenado contendo no Regimcmto, aeabamdo acu tempo ou 
vagido per qual quer vya que seja a jiesoa oh pesoas qnc do dito eareguo fo- 
rein proiiidas per minhas prouisfles feytas amtes de dois de janeiro deste ano 

presente de li» Hj cm que fiz a dita merce. Notefieo o asy Dada em Kin- 

xobreguas a iiij dias de Março — Adrião Lúcio a fez — ano do nacimento de 
noso Senlior Jhesm" Xpo de jli" lij. Aindre Soarez a fez seprever.* 

(Torre do Tombo. — CliMinll irt> do D. Joio III, DooeSu, llv. es, foi. 11 ».) 

■Dom Joam &c. A quauttos esta minha carta virem faço saber que avemdo eu 
rcspeyto a Normação que me foy dada do serviço que me faz Joam Gomez, on- 
riuez, no cargo de mestre da moeda de Cochim, de que foyprouidopormympor 
tempo de seis anos, ey por bem e me apraz por respeito de mo pedir Manoel 
Gomez, escudeiro de minha casa, de fazer meree ao dito Joam Gomez do dito 
cargo por tempo do mais seis anos pêra per todos serem doze anos, os quaos seis 
anos seruira, aeabamdo de seruir per tinteiro os ditos seis anos primeiros na va- 
gainte dos pronidos do dito cargo per minhas pronisòes feytas amtes desta v 

nvera Dada em Lisboa a dons de janeiro — Adriam Lúcio a fez — ano do 

nacymento de noso Senhor Jhesuii Xpòdejb ihij, e esta vay per duas vias, hfia 
delas se cumprira somente. Amdre Soarez a fez eseprever.» 

(Torre do Tombo. -- Chanarllirí* do D. Joio III, itonfoM, H». 11, foi. 1B1 r.) 

«Dom Sebastião &e. a quantos esta minha carta virem faço saber que avendo 
eu respeito a boa informação que me foi dada de J.° Gomei, ouryuez de prata, 
e seruir bem c fielmente, como comprya a meu seruiçn, o carrego do mestre da 
moeda de Coehym, de que e.lltei meu senhor e avo, que santa gllorya aja, lhe fez 
merco por tempo de xu aunos por dnas prouysÔcs, cy por bem e me praz de fazer 
merce ao dito J.* Gomez do dito cargo de mestre da moeda de Coehym por tempo 
de seis ânuos, posto que pello Regimento oiiuesc de ser três aunos aouiOte e com 
o ordenado cada anno co» ti tido no Rcgymciito na vagante dos pronidos per pro- 
uisões feytas ates desta ou vagando per quallquer maneira que seja, a qual 
inerce lhe faço como dito he alem dos xu annos de que o dito senhor o p ronco 
do dito cargo, como dito he, e portanto o notefieo asi ao meu Viso Rey e Goner- 
uador, (pie ora he e ao dyante for nas ditas partes da índia e ao uedor de minha 
fazenda em ellas a qne o conhecimento desto pertencer c maudolhes que quando 



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O Aecheoloqo Português 



pclla dita maneira ao dito J.° Gomez couber Êtrar nestes seis annos do dito cargo 
o metâo do posse dcllcs, e lhos dcyxcm seruir c aver o dito ordenado, eoino dito 
hc, o os próis e precallços que lhe direitamente pertencerem, sem lhe a isso ser 
posto duuyda nem embargo alguíi, por que asi hc mynha mercê, c o dito meu Viso 
Key e goucmador lbc darã juramento que bem e verdadeiramente sirua o dito 
vargo, da qual posse e juramento se fará dccllaraçao nas eostas desta que se 
registará no lynros da casa da índia dfitro de quatro meses primeiros seguintes, 
<; esta se lhe pasou per duas vyas, de que esta lio a primeira e Ima delias se 
fõprirá somente, e por firmeza do que dito hc lhe mandei dar esta por mim usi- 
nada e scllada de meu sello pendente. Dada cm Lixlma a xi dias de março Ma- 
teus Cartialho a fez — anuo do nacimento de noso S." Jhcsu Xpo de ju c lxiiij". 
Manuel Gomez a fez escreucr.» 

(Torro do Tombo. — ChUKOlUrU d* D. Soúsatlio a D. Henrique, OcofSc», liv. 1C, [01. 57.) 

36 — Simão Garcez. — Ourivez do ouro na cidade de Lisboa. 
1). João III, em carta de lfi de janeiro de 1557, o nomeou mestre 
da Casa da Moeda de Malaca. 

«Dom Joam &c. A qniStos esta minha carta virem faço saber que avcmdo 
cu respeito a boa eformação que me foy dada de Synião Garçcs, ourives douro, 
morador ucsta cidade, c por cOfiar dele que uo cargo de mestre da moeda de 
Malaca me seruira bem e fielmente, como a meu seruiço cumpre, e por folgar 
<1g lhe fazer mercê, ey por bem c me praz (pie ele syrua o dito oficio por tempo 
de seis anos e com lio ordenado cotlicndo no Eegyincnto ua vagamte dos pro- 
ilidos por minhas prouisfles feytas amtes de dons dias de janeiro deste auo pre- 
ste de 1>* Ibij, em que lhe fiz a dita merco, e portam to o notefiquo asy . . . 
Dada cm Lixboa a dezaseis dias de janeiro. Aluara Fernandez a fé» — Ânodo 
nacrmento do noso Senhor Jlicsuu Xpo de quyulictos cymquoemta e sete. Amdre 
Soarez a fez eseprever.» 

(Tom do Tombo Cr.*ncellnri* do D. Joio III, Voa&tt, IIt. 71, foi. 181 r.j 

27 — Bento Gonçalves Sardinha. — Era mestre da Casa da Moeda 

de Malaca, suecedendo-lhe, por seu fallecimento, António Rodrigues, 
de quem se trata em seguida. 

28 — António Rodrigues. — Por fallecimento de Bento Gonçalves 
Sardinha, foi nomeado mestre da Casa da Moeda de Malaca. A res- 
pectiva carta, de d de Março de 1598, nao declara que elle fosse 
ourivez, dizeudo apenas que elle era cavalleiro da Casa Keal e que 
prestara serviços nas armadas e fortalezas fronteiras. 

«Dom Phellipe ctc. faço saber aos que esta carta virem que aueudo respeito 
aos seruiços que nas partes da índia inc tem feitos António Hodrigncz caua- 
leiro fidalgo do Minha casa nas armadas c fortalezas frontcyras ey por bem e 
me praz de lhe fazer merçe do orneio de mestre da moeda da fortaleza de Ma- 
laca que vagou per fallecimento do Bcuto Goucaluez Sardinha o qual s 



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O ÁRCIIEOLOGO PoSTnGTHÊS 



emqiianto eu ouuer por bein e não mandar o contravro, coui o qual oficio úii 
auerá ordenado algum á custa de minha fazenda somente os proes e percalço.-' 
que lhe direitamente pertencerem Pelio que mando ao meu Viso rey ou gouer- 
nador das partes da índia que ora he e m diante for e ao veedwr de minha 
fezertda em ellas que dem ao dito António Bodriguea a ponae «lo dito otfirio «■ 
lho deixem serair e aui-t os proes c percalços que lhe pertencerem mim dito bf«' 
sem lhe a jbso ser posto duuvda nem embargo algum, e ele jurara em ininlia 
chancelaria aos sanctos cuangelhos que bem e verdadeiramente o siraa guar- 
dando ein tndo meu seruiço e as parte» seu dereito de que se £araa assento nas 
postas desta carta que será registada nos Jyuros da casa da índia da feital» 
delia a quatro ateses primeiros seguintes — Belchior Pinto a fez em Liiboa a n#oe 
de marco de quinhentos nouenta e oyto Jan Aluares Soares a fez eacrennr.* 



ie a. ntippp j, ut. ao, «- »*o •- 
Sousa Viterbo. 



Pioote (Miranda do Douro) 

As figuras publicadas n-0 Arck. Port,, v, 143 e 33fi, de objectos 
existentes no Museu apparecidos nesta povoaçto, temos de acerescentar 
mais a seguinte, que representa em '/j do tamanho natural uma lança 




de cobre encontrada no seu castro. Foi desenhada com a maior fide- 
lidade pelo meu camarada e amigo Tenente Fernandes de Macedo, 
e offerecida pelo Reitor P. fl Carvalho ao Museu de Bragança. 
Bragança, Setembro de 1901. 

Albiso Pereira Lo™. 



Noticias varias 

1. Antiguidades dos arredores de Macieira de Cambra 

Lé-se n-0 Século de 19 de janeiro de 1902: 

* monte de forma cónica e irregular. Visto de longe, nada 

apresenta de extraordinário, mas, estudado de perto e com attençío, 
podem os olhos do observador intelligente descobrir os fragmentos quasi 
apagados de um antigo acampamento romano. O povo chama-lbe Crtuto 



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O Aecheologo Pobtugcês 55 

e atlribue aos mouros esses pequenoB vestidos de fortificações levan- 
tadas em volta do monte Hoje, quasi nada existe d'esse campo 

fortificado: apenas uma capellinha, cuja construcç&o é muito recente, 
mostra ao viandante que, nesse mesmo logar onde os santos se con- 
servam rodeados de silencio e veneração, retumbavam outrora as trom- 
betas do combato e da victoria. Diz o povo qne, quando foram cavados 
os alicerces para a edificação da capella, os pedreiros encontraram 
uma grande camará de tijolo, onde estavam depositados alguns es- 
queletos ainda em bom estado de conservação». 

O que Be apura d' esta notícia é que ao pé de Macieira de Cambra 
ha um castro, que não data certamente da época romana, mas de época 
mais antiga; e que ahi se encontram sepulturas, qne, porém, podem 
ser da época romana. — Cfr. o que se lê n-0 Ârch. Port., IH, 101. 

2. Achados arche«lo£lc4>s 
a) Moedas romana» de Bucellae: 

«Em Bucellas, proximidades de Lisboa, foi encontrada por um tra 
balhador que andava no campo uma moeda romana, perfeitamente 
conservada 

Do lado da effigie tem a seguinte legenda: — NERV ATRAIA 
NAVGGERIMFCAES — e no reverso: P. M. T. RPCOS. TL P. P 1 . 



b) Machado de pedra de Volte de Meeeejana: 

Na herdade do Valle de Messejana, próximo da vílla d'este nome, 
foi achado por um eonteiro do Sr. José Domingues Fernandes, de Beja, 
um machado de jtedra da epocha prebistorica. 

É um dos exemplares mais bem conservados qne temos visto. Parece 
ser de diorite, que se acha envolvida numa camada caicarea de mais 
de um millimetro de espessura. Tem 14 centímetros de comprimento 
e 5*/i de largura. Uma das extremidades termina em bico e a outra 
tem o gume sem o menor defeito. 

São frequentes nas proximidades de Messejana os achados archeo- 
logicos, não só dos tempos a que a historia não alcança, como dos da 
dominação romanas. 

(O Campo (FOurique, de 27 de Juobo.da 1901). _ 

J. L. DE V. 



' [Snppooho que estas legendas sSo, no anverso: IMP ■ CÃES ■ NEEVA ■ 
TBAIAN ■ AVG GERM -, e no reyerso: P • M • TK ■ P ■ COS • II ■ P ■ P • 
A moeda é de Trajano (98-117 da E. C.).— J. L. de V.] 



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O ARCHEOLOGO FORTUGUâS 



Aro o romano de Bobadella 

Publicaram-se já n- O Archeologo Português várias noticias relativas 
ia' t antiguidades de Bobadella: vide vol. u, 311 (extracto das Memorias 
Paroehiaes); vol. m, 221 (extracto do Dier-, Gtogr. de Cardoso); vol. V, 
171 (restituição de uma inseri pç lo romana). 



Vide ainda sobre essas antiguidades os seguintes trabalhos: 

Memoria hintork-o-corographica do ditricto de Coimbra, por Hen- 
rique Secco, Coimbra 1853, pag. 103 sqq., onde o auctor cita, entre 
outras noticias interessantes, uma oitava do Viriato Trágico de Brás 
Garcia de Mascarenhas, canto ív; 

Portugal antigo e moderno, por Pinho Leal, Lisboa 1873, 8. v. 
liobadeHa, no vol. i, pag. 405; 

Relatório da secção de archeologia da expedição da Sociedade de 
(íeographia á Serra da Estrella, por Martins Sarmento, Lisboa 1883, 



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O Abcheoloqo Português 



57 



pag. 12-13 e 15-16, com o desenho do arco romano que existe em 
Bobadella. 

Tendo-me o Sr. Francisco Ferreira Loureiro, da Figueira da Foz, 
offerecido cópia de duas photogTaphias por elle tiradas do referido arco, 
visto de frente e a 3 /«, aqui publico as respectivas gravuras. 

Como ainda nao fui a Bobadella, tenho de, para a descrição do 
arco, me valer do que outros disseram. 



Henrique Secco, pag. 103, falia de um arco de muitas columnas 
collocado no meio da praça da villa. Pinho Leal, pag. 405, diz : tDentro 
da villa ainda existe de pé um arco de pedra lavrada, de muita ma- 
gnificência e antiguidade, que indica ser porta de muralhai. Martins 
Sarmento, pag. 16: tO monumento mais bem conservado c um arco 
romano, defronte da igreja, mas em direcção cruzada com ella. A du- 
zentos passos, para o poente, vêem-se restos de um segundo arco, 
igual ao primeiro, e de um ao outro corria uma calçada coeva d'elle, 
que seguia depois em direeçSes divergentes e mal determinadas, e que, 



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O Archeologo Portugvês 



segundo informações que nos repetiram com insistência, existe ainda 

exeellentcmente conservado quatro palmos abaixo da calçada actual». 

Destas breves noticias, a de maior circunstancia é a última. Quanto 

is muitas columnas de que falia Henrique Secco, eu nlo tenho maia 

noticias que possa dar. _ _ ,, 

^ *^ J. L. deV. 

Noticias aroheolog-ioas 
1. TuuIm de Amaa 4e CbaTH, aa Ilha ée 8. Tk*«ó 

cFoi vendido ha tempo um terreno do Governo, qne incluía as 
minas da Igreja de S. João, onde se guardavam os restos mortaes de 
D. Anna de Chaves, fidalga notável a quem se prende a historia 
d'esta Ilha. Na© houve ninguém de bom senso que se lembrasse de 
trasladar os restos mortaes da respeitável donatária com o respectivo 
tumulo para o cemitério, tendo sido tudo demolido sem o menor re- 
paro da Camará Municipal, a cujo presidente cabem graves responsa- 
bilidades, se tiver conhecimento do que muito judiciosamente escre- 
veram Lopes de Lima, Allemào, Cunha Matos, Aunada Negreiros e 
outros. 

Nas ruínas da Igreja do Rosário existe ainda um tumulo de Ma- 
ria Fernandes ou Maria Pires, o qual, naturalmente, leva o mesmo 
destino. 

Chamamos a attençào da Gamara Municipal para tio delicado 
assumpto». 

(Folha da Tarde, de 25 da maio de 1900). 

Nota. — Anna de Chaves era viuva de Gonçalo Alvares, a quem o 
almoxarife da Ilha de S. Thomé dera em 4 de maio de 1535 de ses- 
maria 300 varas de terra e mato maninho de trás da Ilha ao longo do 
Ribeirão da Lagoa «as qnaes se começarão de medir do mar pelo dito 
Ribeirão a cima com sua testada da mesma largura da terra sairá de 
ginete dereytamente á serrai. Era obrigado a roçar dentro de cinco 
annos os referidos terrenos. D. João III, conforme a carta registada na 
sua Chaneellaria, liv. 67 de Doaçòes, fl. 37 v (no Archivo Nacional) con- 
firmou a Anna de Chaves a concessão em 24 de novembro de 1547. 
Anna não era nobre. Foi nesta Ilha que Portugal se começou a ensaiar 
nas grandes culturas tropicaes qne tão grande desenvolvimento tiveram 
no Brasil, para onde também transplantou certos termos usados em 
S. Thomé, como roça c crioulo. Na babia chamada ainda hoje de Anna 
de Chaves está edificada a capital da província das nossas reduzida* 



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O AfiCHEOLOGO PoitTilUUÊS 



possessões no. golfo de Guiné. A influencia portuguesa em toda esta 
região foi extraordinária. No Benim desde o século IV formou-se uma 
civilização interessante devida aos portugueses para la attrahidos. 
As artes metalliirgicas então desenvolveram-se com um feitio especial, 
como modernamente se pôde observar quando os ingleses oecupanun e 
destruíram o antigo reino '. A sorte de Dahomé, pais conquistado pelos 
franceses, alo foi menos angustiosa. Este país em que os mulatos por- 
tugueses tinham conseguido tornar sua a língua a omcial, foi, apesar 
dos esforços para ficar independente debaixo da protecção (!) de 
Portugal, incorporado no domínio colonial francês e entregue sem 
defesa & acção dos missionários d'esta potencia. Na colónia allemã 
dos Camarões (Kamerun) ainda são conhecidas numerosas palavras 
portuguesas entre os habitantes da costa. 

2. O aalaefe «a {atita de D. Koérlge, em Cate rei 

cA freguesia de Casevel é muito espalhada, e composta de ca- 
sa.es dispersos aqui e acolá. A quinta (de D. Rodrigo), por consequên- 
cia, encontra-se só, e eis porque a grande distancia se via o in- 
cêndio. 

O prédio mede approximadamente 500 metros quadrados. £ 
uma solida construcção. A fachada é do lado do nascente, tendo uma 
extensão de 30 a 35 metros, e de largura uns 14. Nos topos ha dois 
torreões quadrados, e ao centro um terrasso em feitio de varanda. Na 
esquina do torreão esquerdo ostenta-se o brasão de armas de D. Ro- 
drigo, antigo dono da quinta* . 

(Folha da Tarde, de 25 setembro de 1900). 

Nata. — Em 1758 (Diccionario Gfeograpkíco) havia uma quinta cha- 
mada de Valle Forcadas, pertencente a D. Gastão José Coutinho. 
Seria esta a chamada de D. Rodrigo, que pertencia ao tempo do in- 
cêndio a D. Anna Adelaide de Faria Pinto, viuva de José Joaquim da 
Fonseca Pinto? 

«. Importante aekito arekeoleglce 

«Penella. — C. — Em S. Simão pequeno logar da freguesia de Santa 
Eufemia, deste concelho, á distancia de 4 kilometros, existe uma 



1 No Boletim da Sociedade dr Geographia de Lisboa, numero commemor&tivo 
de abril de 1901, podem examinar-se on exemplares que vieram para Portugal. 



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60 O AktrHEOLOOO POBTL'(iCÊ8 

ermida da invocação da Senhora da Graça, que tem a particular sin- 
gularidade de pertencer a duas freguesias : a capella-mor á de S. Mi- 
guel e o corpo da capella á de Santa Eufemia. Em frente ha um 
quintal povoado de oliveiras pertencente á capella. 

Ha pouco, andando um trabalhador a abrir uma cova para a 
plantação de uma t ancha, encontrou a profundidade de 1 metro um 
lindo mosaico, formado de quadrados em pedrinhas meudissimas, bran- 
cas, de grandeza igual, cercada de orlas e de pedrinhas azues. 

Um individuo que reside num logar próximo, tendo conheci- 
mento do facto, foi ali e, mandando alargar a cova, notou que o mo- 
saico se estendia em todas as direcções do referido quintal. Preten- 
dendo extrahir uma parte d' es se mosaico, mandou demolir uma parede 
que separa o quintal pelo poente de uma propriedade que lhe fica em 
nível inferior de 2 metros e, quando chegou á altura de 1 palmo 
(Vaquelle mosaico, encontrou outro formado de lindos desenhos em 
pedra azul, branca, côr de rosa escura c côr de rosa desmaiada, de 
que recolheu alguns fragmentos. 

Inquirindo de alguns individues de idade, soube que ha mais de 
trinta annos o dono que então era d'aquelle quintal, e que foi quem 
mandou plantar aquellas oliveiras que ali se encontram, já achara, 
quando abriu as covas para estas, o referido mosaico, a que não li- 
gou importância. Este facto leva a acreditar que o mosaico se es- 
tende numa superfície não inferior a 100 metros quadrados. 

O dono do prédio, que pelo poente fica em socalco inferior ao 
quintal cerca de 2 metros, andando ha cerca de seis annos a repovoar 
uma vinha encontrou também á profundidade de 1 metro um pavi- 
mento ladrilhado de magnifieos e largos tijolos, com rebordo dos la- 
dos, pavimento que parecia ser de um corredor. 

Em outras propriedades contíguas teem também appareeido tijolos 
iguaes, e ainda ha poucos annos um lavrador, que andava lavrando 
terreno próximo, notou que em determinado sitio o arado se prendia 
a um obstáculo, que depois verificou ser a soleira de um largo portado. 

Naquelle quintal, abrindo-se outra eova para oliveira, eneontrou-se 
uma sepultura de alvenaria já em mau estado, dizendo o trabalhador 
que encontrou dentro da sepultura uma espécie de cabeça, que quebrou 
com a enchada. 

E tradição muito vaga que ali houve um convento ou cidade, 
sendo certo que não se encontram fragmentos de paredes, a não ser 
que estejam soterradas nos terrenos de cultura. 

Em presença do mosaico nao duvida que existiu ali uma edifica- 
ção grandiosa. 



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O AKCHJí(>r,o<io Português lil 

Distante 1 kilometro, pouco mais ou menos, d'este sitio, andan- 
do-se a abrir um poço, também se achou, a cerca de 1 metro de pro- 
fundidade, um espaço da largura de 1 metro cercado de parede es- 
pessa de alvenaria, ladrilhado, de cerca de 1 metro de altura, coberto 
por abobadelha de tijolo ordinário; dentro achon-se cal em bom es- 
tado de conservação. 

Esta singular construcçâo prolonga-se na direcção de um monte, 
por baixo de uma estrada ordinária que lhe fica alguns metros por 
cima; a cal está em massa húmida. O que seria?» 

CO Seado, de 17 de maio de 1901). 



4. Cofre» mjiterlowH 

«Mourisca, 7. — Ha dias andando um carpinteiro e um trabalhador 
em Travasse a demolir uma casa, foi descoberto por este um farrapo 
na parede, e começando a puxá-lo, por curiosidade, caíram muitos 
pintos de prata. Procedendo-se á contagem verificou-se serem no- 
venta e cinco. Na mesma casa, mas noutro local e por cima de uma 
porta, encontrou também o carpinteiro oito peças de ouro. O Sr. José 
Laranjeira, dono da casa, chegou na occasião em que se tinha en- 
contrado o dinheiro. O trabalhador, que era seu criado, e o carpin- 
teiro, immediatamente lh'o entregaram. O criado foi gratificado pelo 
patrão com cinco pintos e uma roupa nova,*e as peças foram vendi- 
das pelo Sr. Laranjeira a 16d000 réis cada uma, fazendo o compra- 
dor, que não deu ágio, um bom negocio». 

(Vanguarda, de 9 de junho de 1901). 



5. achado archeologtco 

«No antigo edifício da fabrica da pólvora em Alcântara, que o 
Estado alienou por noventa e nove annos, proeede-se a obras para a 
installação de uma fabrica de gelo. Quando hontem o trabalhador Do- 
mingos António, morador na Serra de Monsanto, procedia á demolição 
de uma parede, deparou com um frasco de vidro contendo quatro 
moedas de prata, tendo gravadas a effigie de D. José I, um galeão e 
data de 1765. O caso produziu enorme alvoroço entre todo o pessoal 
operário, por constar que se tratava de um thesouro que se encon- 
trara. Afinal, o mestre da obra tomou conta do frasco contendo as 
moedas para lhe dar o devido destino. 



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{ 



62 O Abcheologo Português 

O edifício, que em 1500 era um convento, tinha as paredes re- 
vestidas de preciosos azulejos, que pouco a pooco foram desappare- 
cendo, constando terem sido enviados para o estrangeire». 

{Yaagwirda, de 9 de junho de 1901). 



*. Uaa Igreja abaa4aaa4a m Cvbr* 

Santo António do Zaire, 11 de maio. 

«Continuando a viagem por caminhos agora bons, largos, planos. 
que uma carruagem podia bem piear, vamos ter á igreja de Mpinda, 
depois de três horas e meia de caminho. 

A igreja em nada differe da mais humilde cubata. Mede uns 3 
metros de comprimento, terá 2 metros de largura e metro e meio de 
altura. O cheiro é nauseabundo, devido aos morcegos que nella se 
aninham. 

Esta igreja data do tempo dos frades italianos da ordem dos Ca- 
puchinhos, tendo sido seu ultimo ministro Frei António, cujas ossa- 
das ainda ali se encontram. 

A gente de Mpinda era composta de resgatados ; a obra dos mis- 
sionários tornou aquelles povos mais supersticiosos que os negros sem 
convivência com o clero. 

Abandonada a igreja, os santos de madeira foram apodrecendo 
pelo salalá, e os pretos se incumbiram de embrulhar aquelles objectos 
em pannos para evitar que dos troncos se separassem as eabeças 
d'aquelles milagrosos. 

Lá estão no altar alguns objectos de prata, como a naveta e o 
thuribulo. 

Ao lado da igreja está um sino de bronze, pesando mais de 40 
kilogrammas. Este sino tem inscripta a data de 1700. 

O povo, desde que morreu Frei António, tomou a seu cargo a 
igreja, e elegeu elle um padre. 

O actual eleito intítula-se «Padre Lemba do Novo Testamento*. 
£ pela ordem natural das consas o mais finório dos mpindas, e d'isso 
deu provas em acto continuo a sna eleição, ronbando da cruz procis- 
sional o Santo Christo, e indo vendê-lo como feitiço a um povo do 
interior. 

A cruz, que ê de prata, existe actualmente em poder do rei Jor- 
ge, illustre soberano de um dos povos mussorongos de Santo An- 
tónio. 



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O AltCBEOLOGO POKTUGUÈS 63 

O acto da missa tem um tanto de pittoresco. Lemba toca o sino 
si toda a gente dos povos próximos — Pinda, Tuco, Conde e 
Qoini-oú-a-Nganga — acode a igreja. 

Lemba faz ama» contnmelias, voltado para a igreja, simulando as 
dos padres, benze-se e, voltando-se, asperge com agua, por elk meamo 
benta, os fieis, que logo ajoelham. 

Se ha falta de chuvas, Lemba diz aos fieis que não chove porque 
Deus não quer molhar os santos; mostra-lhes os buracos no tecto e 
pede-lhes auxilio para a cobertura. 

Recebidas as esmolas, os pretos voltam para as suas terras, e, se 
a chova continua a faltar, Lemba toca a fieis', apanha-lhes mais di- 
nheiro e diz-lhes que Deus vae dar chuva, mas com a condição d'el- 
les voltarem para as suas povoações, sem nenhum falar no caminho. 

Os pretos li se vão crentes da verdade, mas outro, industriado por 
Lemba, pÕe-se a berrar a meio caminho o que faz indignar a Deus 
e prejudicar o milagre. 

Só tenho pena do Governo não mandar guardar os objectos de 
prata, e remetter para o Museu Colonial o sino como recordação his- 
tórica». 

(O Sendo, de 14 de junho de 1901). 

7. O ¥•€• 4m Meara 

■Este antigo poço, situado na estrada da circumvallaçao, em 
frente da Calçada do Poço dos Mouros, vae soffrer um grande e im- 
portante melhoramento, que era de ha muito reclamado. O poço tem 
uma abundante nascente, e, embora a agua seja salobra, é muito uti- 
lizada pelos moradores das cercanias para usos domésticos. Uca ago- 
ra, alem de limpo, com as fendas vedadas, tapado por uma abobada 
de tijolo e ser-lhes-ha collocada uma bomba. 

O poço é de grande profundidade. Acerca da época em que foi 
construído e a razão da sua denominação pouco ou nada ê conhecido, 
e nem consta qne por aqnelles sítios habitassem mouros. Sabe-se ape- 
nas que o poço é muito antigo, e, ao que parece, já existia no tempo 
de Pêro de Alemquer, em 1491, o celebre marinheiro que acompa- 
nhou D. Vasco da Grama na viagem & índia, e o qual vivia no «Ca- 
beço de Alpercbe* na casa, mais tarde reconstruida, e que hoje tem 
o n.° 6, na Travessa do Calado, qnasi em frente da Igreja da Penha 
de França. 

Junto á mencionada casa, diremos ainda, construin-se, após o ter- 
ramoto de 1755, uma pequena ermida, onde esteve, por algum tempo, 



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64 O Archkoukííi PoR-rrarÉK 



a imagem de Nossa Senhora da Penha de França. Em memoria cou- 
serva-se uma inscripçao gravada em letras brancas em azulejos aznes. 

Como dissemos, a nascente no poço dos Mouros é muito abun- 
dante, principalmente depois que ha annos lhe fizeram três furos com 
uma broca. A agua chega todo o anuo quasi á boca do poço*. 

(Diário de Noticia*, de 20 de junho de 1901). 

8. Recolhimento do Bego 

■Hei por bem fazer mercê a Margarida du Mercês e a Joaquina Ignacia, 
primeira e segunda regentes das recolhidas e convertidas de Nossa Senhora du 
Rosário, que se acham estabelecidas janto ao Grillo, das casas e quinta que fo- 
ram de Custodio Ferreira Uovos e hoje estilo nos próprios da minha Real fazen- 
da, pela arrematação qae na dita propriedade se fez no preço de quatro contos 
e oitocentos mil réis, por execução feita ao sobredito Custodio Ferreira, como 
fiador de José Luiz Serra, devedor da renda da commenda de Mertola, qae se 
lhe arrematou pelo juizo da inconfidência, cujo empréstimo lhe faço sem que 
fiquem obrigadas a pagar renda alguma das ditas casas, mas somente o foro que 
fõr devido as Religiosas do mosteiro de Odivellas, senhoras directas da referida 
quinta e casas, com obrigação de residirem n'ellap com o mesmo recolhimento na 
forma em que actualmente se acham, e lhes concedo licença para na sobredita 
propriedade poderem fazer as obras que lhes forem precisas para a sna accom- 
modaçSo, tem que eomtudo no cato de detpejo lhe* fique por mo a minha Seal fa- 
seada obrigada â natUfação de bemfeitorias algumas; e com a declaração que lhe 
faço esta mercê em quanta Eu assim o houver por bem c nao mandar o contra- 
ria O conselho de fazenda o tenha assim entendido e faça executar com as or- 
dens necessárias. Salvaterra de Magos em vinte e três de fevereiro de 1788. — 
Com rubrica de Sua Magestade, Sebastião Xavier da Gama Lobo-. 

Por este decreto vè-se que o Recolhimento do Bego está estabe- 
lecido era um edifício que o Estado lhe emprestou gratuitamente, ti- 
tulo que nunca pode dar-lhe direito de propriedade, pois que O possue 
em nome alheio, com obrigação de despejo, quando aprouver ao dono 
da propriedade. 

O estabelecimento de recolhidas e convertidas, ao Grillo, com a 
invocação de Nossa Senhora do Rosário, que este decreto aposentou 
no edificio e quinta do Rego, foi incorporado com o das Servitas de 
Kossa Senhora das Dares, do Largo do Leão, a Arroyos, ficando 
ambos no edificio do Rego, por decreto de 29 de maio de 1848, sen- 
do-lhes também dados estatutos approvados por alvará de 13 de fe- 
vereiro de 1849. 

Taes estatutos impunham noviciado, votos secretos e admissão, 
tudo regido pelo dogma de Santo Agostinho, com clausura perfeita*. 

(O Século, de 13 de julho de 1901). 



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O Abchkouigo 1'OlíTL'Hl és l>5 

«Numa rápida visita que fizemos ao edifício e capclla, vimos excel- 
lentes esculpturas dos Apóstolos, boas pinturas e um soberbo traballio 
cie talha dourada. 

No chão da capella-mor encontra-se a seguinte inseripção, que 
reproduzimos a titulo de curiosidade: 

AQUI JAZ 

MARGARIDA I>Afi MERCÊS 

DE MARÉ', FUNDADORA 

DO EEAL RECOLHIMENTO 

DAS CONVERTIDAS 

DO REGO, QUE FALLE- 

CEU AOS 3 DIAS 

DO MEZ DE 

ABRIL DO ANXO 

DE 1801, TENDO DA 

EDADE 55 AN- 

NOS, 4 MEZES 

E 6 DIAS 

REQUIESCAT IN 

PACE 

(Diário de Noticias, de á0 de julho de 1901). 

9. Descrlpçfto de um batel do século X1T 

Portugal, contra a opinião commum, não é por natureza país ma- 
rítimo. As suas costas apresentam-ae pouco rendilhadas para que se 
lhe possa dar essa denominação. Mas onde ellas se manifestam mais in- 
tensamente recortadas ahi se encontram os marinheiros mais audazes, 
como suecede ein Aveiro, Lisboa, Setúbal e toda a costa do Algarve. 
Posteriormente, impellidos por espirito elevado, atreverain-se os por- 
tugueses a afrontar o mar largo em busca de novas terras. 

Quando os portugueses do norte se apoderaram de todo o sul, ter- 
minaram, em consequência de ódios de raça e religião, as viagens á 
Africa que os musulmanos emprehendiam, do que resultou o abatimento 
nas qualidades náuticas dos habitantes das nossas costas. Foi então 
preciso animar com elementos mais modernos e christãos a marinha 



1 Não me foi possível encontrar na Chancellaria Seal nem no Registo dtts 
itxx d'estca tampos noticias d' esta senhora. 



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O ÃBCHK0I.O6O PORTUGCÊB 



uscional e recorreu-se por esse cfFeito aos países mais ade&ntado: 
nesse ramo. Vieram pois os Pazagnos a quem foram concedidos gran- 
des privilégios. 

O grande porto de Lisboa pôde tornar-se como uma escola, vista 
■ que já era uma escala entre o Mediterrâneo e o mar do Norte e muitas 
vezes também um termimis. 

Os termos náuticos portugueses na sua maioria concordam com os 
das outras nações europeias, o que também suecede dos nomes dos 
diversos objectos que se encontravam a bordo do batel, de que foi ven- 
dido metade em 1370. 

A escritura foi feita no porto novo de Aldeia Galloga. 

Como são poucos os documentos portugueses sobre objectos náuticos 
durante a primeira dynastia, creio que publicando esta escritora será 
ella acolhida com estima por aqnelles que se dedicam á areheologia 
naval, posto que o batel, de que se trata, pouco differente seja das mo- 
dernas e modestas faluas. 

Sabhã quantos esta carta de pura venda virèn, que Eu Johã martinz 
dormyras, morador na aldeã galega, Ribatejo, vendo e outorgo deste 
dja pêra todo senpre a uos Domingas de deos, morador na cidade de 
lixboa, Meatade du3 batel c3 a meatade de todolos aparelhos que •> 
dito batel trage, que Eu ej, cõuõn a ssaber: três varas e duas fateixas 
de fero e liuu gouernaltio eua paa E dos liemos e masto o antena cò 
toda ssua Ejxarcya e luiu trou o huu caanre e hua corda, a qual mea- 
tade de batel cÔ" a meatade de todo3 estes aparelhos Ihi vendo por certo 
preço, conuên a ssaber: Cen libras de dinheiros portugeesses que co- 
nnosco e coTesso que dela Reçebj en biios dinheiros cStados, de que 
ssfm bôn pagado e entrego. E mado e outorgo deste dia pêra todo 
ssenpre que ela e todos sseus ssoçeçores, que depôs ela veerê, aiã e 
logren e pessuiã a meatade do dito batel e meatade daparelhos e ffaça 
dele en ele todo aquolo que Ihi prouger c3me de ssua propia coussa. 
E obrigo todos meus bêes mouys e Rajz avudos e por auer a Lhj liurar 
e deffender a meatade do dito batel e meatade daparelhos, de quê quer 
que lho demade ou enbarge, sse uStades perdas e danos que a dita 
domingas de deos- por esta Raz3 veer que Eu lho cBponho cada huu 
dja 03 dez ssoidos de pea, e per poder desta carta a meto en posse 
per affonso marinheiro da dita meatade de batel e meatade daparelhos. 
ffeita ffoj esta carta no porto nouo daldea galega, Ribatejo, vinte e 
dos dias de dezenbro. Era de Mil e quatrocentos e ojto Anos. Testemu- 
nhas Steuã caneiro e Steua dominguez carneiro e affonso marinheiro e 
Johane Anes, home daluaro dominguez, alcaide e outros. Eu Johã gon- 



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O Ahcheologo Português» 67 

çaluez, tabaliii d£l Rej en no dito logo de Ribatejo, que por outorga- 
mento do dito Johã martjnz esta carta escreuj e aqui meu ssinal ftiz que 
tal -f- he = iiij ssoldos'. 

10. Acuado de moedas romanas próximo de Mortola, em 1621 

«Lo que hallamos cô" euidencia, y sin alguna duda es, que desde que 
los Romanos acá entraron; ay en Portugal este Ãpellido de Faria; por- 
que auiendose visto en tiempos passados alguna medalla, o moneda 
Romana con estas letras FARIA [y yo vi vna en Genoua en las manos 
de vn Português que la lleuò de Espafia entre otras de oro, y plata, 
que vendiò alli a vn Platero} se hallò el ano 1G34. a la margen de vn rio, 
cerca de la Villa de Mertola, vna olla de plata com mas de ocho mil 
medallas, o monedas dei próprio metal todas dei tamafío de la nuestra 
de dos roales. En vna delias se via la cabeça de Mercúrio [como suele 
pintarse con su galero y aletas] y dei reuerso vna rauger sentada, con 
vn globo en la mano derecha, de que sale vna hasta; y a los pies vna 
lança, y vn escudo con esta Inscripcion, ROMA, y en la circunferência 
estotra: N. FARIA. Tienela oy en su poder Gaspar de Faria Seuerin, 
Executor mayor dei Reyno, cuya copia tengo por certificaciones de 
Notários públicos. 

Parece que las letras de la circunferência dizem NONIVS FARIA ; 
que deuiò ser Norabre dei Trlunuiro Monetário, el qual hizo esculpir, 
o labrar aquella suerte de moneda; porque los tales Ministros teniã 
priuilegio para poncr sus nobres en ella como se vè claro de muchas 
que trac Sebastiano Erisso. Estos Triunuiros Monetales eran Presi- 
dentes de la Casa de moneda 1 , segun Pomponio Leto de Magistrat, y 

otros Autores. Etc,» 3 . „ . . 

Pedro A. de Azevedo. 



Estudos de numismática colonial portuguesa 

1. Banruco Inédito du século XVI 

No tempo em que Mathias de Albuquerque governou o Estado da 
índia Portuguesa, sob o titulo de Vice-Rei, o Senado de Goa, ou Oa- 



1 Arcuivo Nacional — Mosteiro de Cheias, maço 85, n." 686. 

1 Nota marginal hm.- Asim aao os Cragbeka en Anvores que silo monetá- 
rios, hoc est, presidentes da Casa da Moeda que neste anuo de 1700 he frandsco 
Crasbek. 

' Nota» de Manuel de Faria y Soaa ai Nobiliário dei Conde D. Pedro, pag. 34. 



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GH O AltCUKULUtiO PailTCUCÊS 

mara da Cidade, como também lhe chamavam, mandou lavrar baza- 
rucos de calaim nos annos de 159õ o 159G, contendo symbolos qiu- 
a historia hoje nâo pode precisar. (Aragão, Descripção, ttr., pag. 181 j. 

Taes moedas, que se gastavam depressa, na frase sacramental dos 
sarrafos, peritos que o Senado havia consultado, por accordão de 26 
de Agosto de 1592, sobre se conviria fabricá-las de futuro, são des- 
conhecidas dos senhores numismatas europeus, e talvez mesmo na índia 
não exista hoje competência que possa dar a respeito d'ellas notícia i-tr- 
cumstanciada. O metal com que eram fabricadas abonava plenamente 
a frase d'aquelles senhores do ágio de então, cambistas ao ar livro, 
profundamente versados no judaísmo do lucro. Elias não chegaram á 
actualidade reconhecíveis; perderam-sc no anniquilamento da época. 

A espécie bazanico, profusamente esfarrapada em valores min imos. 
o de cobre, ou o de calaim, deu causa a lamentáveis consequências. 

Arranjavam se estivas aã hoc sempre que o cofre da Junta de Fa- 
zenda carecia de recursos, e mesmo quando o do Senado enfermava 
de igual modo. Estas entidades combinavam á maravilha no sentid» 
de explorarem o povo, o paciente, cujos interesses eram sempre evo- 
cados na justificação dos escândalos monetários que tinham de se 
emittir. 

Nas necessidades instantes era preferido o calaim, porque elle, 
impróprio para o fabrico de utensílios, não derivava para a terra firme, 
como suecedia ao eobre, delicia de caldeireiros e fundidores particu- 
lares. O calaim, metal hybrido, oxydavel, sem importância, sem vah>r 
real intrínseco, era o grande salvador nos lanços de maior aperto. 
Apesar das quebras nas fundições, era um fornecedor de recursos im- 
pagável, insubstituível! O valor mercantil do cobre em pasta era no- 
tavelmente superior ao da tutenaga em bruto, base da mistificação. 

Calcula-se com que alegria os antigos moedeiros orientaes cele- 
bravam festas intimas sempre que novas estivas eram ensaiadas, para 
se conhecer qual fosse a mais produetiva. O commercio não tinha voto 
naquellas orgias de laboratório. 

A numismática hoje não conhece as modificações, tão variadas, do 
bazaruco, fabricado na época Filippina, de ominosa memoria; o que 
c grave, como vae ver-se. 

Foi muito venerada c apreciada em Lisboa a moeda cujos desenhos 
apresentamos. Pcrfumava-a um certo cheiro de santidade ideal, e di- 
zia-se fundida por ordem do Senado de Goa na época referida. Qual- 
quer argumento abonatorio da origem não se expunha sob a mais in- 
contestável nitidez entre devotos. Havia uma questão de crença, que 
nunca basta ao investigador curioso. 



cbyGOQ^IC 



O AkCHEOLORO PnHTI'(»'ÊB 



Vimos a moeda e pedimos os desenhos ao feliz possuidor, no in 
tuito de estudá-la. Repugnava-nos a lenda, aliás sympathíca, na au- 
sência de razoes, convincentes, plausíveis, que ninguém offerecéra. 




A moeda faz parte do notável medallieiro indo -português do Sr. 
Coronel Francisco Augusto Martins de Carvalho, que a adquiriu na 
índia, encontrada entre vulgaridades, que a phantasia de ura hindu 
apreciara innocentemente e cedera, a titulo de lembrança aSèctuosa, 
ao distincto militar. 

Da classe de inutilidade, que uma criança não cobiçaria para seus 
brinquedos, a moeda passou para a veneranda seriedade da sciencia. 
Parcce-nos que se não trata de uma das muito variadas espécies do 
hazarneo, mandadas fabricar pelo Senado no tempo de D. Fílippe I, 
apesar de ter no anverso as armas da cidade de Goa, a roda de 
S. ,a Catharina de Alexandria, c no reverso a cruz da Ordem do Santo 
Sepulcro, cantoaada do estrellas, em vez do escudo de armas do reino 
entre as letras monetárias G — A, typo este que é próprio de espécies 
do mesmo metal, fundidas no tempo de D. João V, sob a denominação 
genérica de rodas, em valores diversos, como se vê doB desenhos n. 01 15 
a 17 da estampa m do vol. 3.° da obra de Teixeira de Aragão, criadas 
pela Junta de Fazenda de Goa em resolução de 24 de Setembro de 1744. 
E certo que se trata de uma raridade de primeira ordem, única co- 
nhecida. Os traços cheios são os qoe melhor se apreciam. Os traços 
de pontos contínuos indicam o typo que tem de se completar men- 
talmente, e que a vista, bem armada, chega a descobrir, logo que 
o exemplar seja exposto a luz conveniente. 

Que a moeda deve ser classificada no reinado de D. Filippe II 
parece não ter dúvida, attendendo a que neste reinado foram batidas 
moedas de cobre, em cujos reversos figura a cruz da Ordem do Santo 
Sepulcro, can tonada de estrellas, como se vê no n.° 4 da estampa i 
de Aragão. Esta semelhança de reverso com a moeda de que se. trata 
parece destruir a hypothese de haver sido fundida no tempo de D. Fi- 
lippe I, e, por conseguinte, por ordem do Senado, Este deu fractos 
monetários no reinado de D. Filippe II, c certo, por alvará de 1 de julho 
de 1600, porem tal documento menciona claramente o typo emissivel: 



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O ARCHEOLOdO PORTTOlÊS 



tendo em uma face a ctphera e na outra as arma» do reino. (Aragão. 
Discripçõo das moeda», etc, pag. 185). 

Um exemplar com este typo existe no medalheiro do Sr. Juiio Mt-ili. 
de Zfirich, muito bem conservado, com o peso de 3",20. 

Pelas razões expostas suppomos que a paternidade do exemplar 
de que nos oceupamos pertence á Junta de Fazenda de Goa, e não 
ao Senado. 

Manoel Joaquim de Campos. 



O Alto do Carooedo ou Oarrooedo 

Na amável companhia dos meus camaradas e amigos, capit3o Es- 
teves, tenentes Manoel Vergueiro, e Carneiro, e alferes Dias, e Campos, 
fui um d'estes dias ao alto do Caroeedo fazer uma excursão archeolu- 
gica, desejoso de me esclarecer sobre o que havia á cerca de umas 
vagas noticias que tinha de umas antiguidades que me diziam que 
nelle se viam. Gastamos no percurso duas horas e meia, proximamente, 
seguindo quasi sempre a estrada nova, que d'esta cidade vae para 
Mogadouro e atravessa a ribeira de Alfaião, um dos affluentes prin- 
cipaes da margem direita do rio Sabor, e ladeia depois o valle e a en- 
costa do Penaeal, passando na portella comprehendida entre a pequena 
elevação de Failde e o nosso alto, que torneia pelo poente, e segue em 
direcção a Izeda. ■ 

É um dos pontos mais elevados da margem direita da Ribeira, 
que, á vista, parece estar no mesmo meridiano de Bragança, mas que 
lhe fica um pouco a sudeste, e distante 10 kilometros, em linha recta. 
A sua eonâguração é" a de uma pyramide cónica, tendo a altitude de 
853 metros, erguendo-se em contornos muito regalares que lhe dão, 
a quem o observa de longe, aspecto todo poético pela sua projecção 
no ceu. A sua posição dominante e a constituição e declive das suas 
encostas eram condições que o tornavam preferido a qualquer outro 
ponto em que se quisesse estabelecer uma estação, naquelle tempo, 
cm que a defensa natural era o principal elemento de resistência e se- 
gurança. Derivando d'elle varias ravinas, que vão formando, em diffe- 
rentes sentidos, férteis prados e hortas onde o homem encontra a abun- 
dância e os recursos da vida, não podia deixar de ser o «refugio» dos 
primeiros que as cultivaram, e dos que tiveram por armas principaes 
o seixo roliço, e por habitação a cavidade do rochedo. Sobrepujaodo 
numa vasta redondeza todas as alturas, e apresentando um vastíssimo 



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O Archeolooo PoETrorÊs 71 

horizonte, absorve- nos no gozo da contemplação de um scenarío que 
só a natureza, por grande e maravilhosa que é, nos pôde dar. 

Das condições physicas d'estc cabeço resultou a sua escolha* para 
assento de um ou mais povoados que o tempo levou, e cujas cinzas 
estão escondidas pela espessura da mata de carvalhos que o cobre e 
que vão ap parece n d o á medida que o arado e o alvião revolvem aquelles 
campos em misteres agrícolas. E é assim que ellas se começam a en- 
contrar logo a partir da portella e subindo a encosta no sitio dos Bar- 
reiros, pela parte de cima de um caatinheiral, entre o caminho velho 
e a estrada, numa terra lavrada pertencente a José Pires Gama, de 
Failde, que me mostrou os alicerces de uma casa, lousa furada, pias 
e pedras trabalhadas, de cantaria, pesos de pedra e barro ipondera», 
grande quantidade de tijolos, de fragmentos de louça e de telha de re- 
bordo, algumas mós manuarias, pedaços de fustes de granito tino; e mè 
informou que se dizia que em tempo se havia encontrado ali «a cabeça 
de ouro de um bezerrinho», que se acham ainda hoje muitos pregos 
e «ferragachos» o até moedas, como uma de cobre que clle tinha em 
casa, em que ainda se lia o nome de AVGVSTVS. 

Estes restos da epocha romana ou lusítano-romana vão-se encon- 
trando por todo o Cabeço, attestando assim a existência de uma im- 
portante estação archaica, tanto pela sua extensão como pela grandeza 
dos seus monumentos, que foram em grande parte feitos de granito, 
a avaliar da grande quantidade de pedras e pedaços de cantaria tra- 
balhada, ínettídas nos muros das propriedades, nas paredes das casas, 
da igreja e ermida, que mostram pelo sen aperfeiçoado e lavores terem 
sido utilizadas para diversos fins, como tampas de sepulturas, lapides 
votivas e funerárias, para construcções, etc.; devendo tomar-se em con- 
sideração que o granito não o ha no local e vem de uma distancia 
talvez superior a 25 kilometros. 

Mas é junto e nas immediaçoeB da ermida de Nossa Senhora da 
Assumpção, que se ergue no ponto mais elevado, no meio de um pe- 
queno recinto de forma elliptica, cercado de enormes fraguedos de 
seixo branco, que a nossa a t tenção mais é attrahida pela variedade 
de cousas que ali se vêem, que bem dignas são de estudo conscien- 
cioso e de observação demorada. Pois, de envolta eom os vestígios 
da civilização romana mencionados, deparam-se-nos outros como: fra- 
gmentos de peças de cobre ou bronze e ferro pertencentes a objectos 
de adorno ou de serventia domestica, machados de pedra, como um 
que eu encontrei, já um pouco incompleto, e outro, que me deram, de 
silex muito perfeito e curioso; algumas «sartasi, espécies de contas 
grandes de pedra molar branca iguaes a uma que me mostrou uma 



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72 t) ÁiíCHKiiLoiio Pihíti(U'í:s 

simplória mulher, que a tinha cosido dentro de um panno, guardando-a 
com todo o recato, porque dizia que possuía o condão de, trazendo- a 
ao pescoço, fazer dar mais leite ás mulheres, e por isso lhe chamava 
«leitor»; muitas sepulturas com ossadas, algumas, dizem, de dimensões 
muito superiores ás das da geração actual; notando eu que o esqueleto 
que vi numa estava voltado ao oriente e tinha só a cabeça resguar- 
dada por uma pequena lousa, como que para que a terra lhe não pe- 
sasse, disposição que me disseram dar- se nas outras, o que é mais 
um elemento valioso para o estudo das crenças e religiões d'estes 
sitios; uns signaos, que aqui vão figurados, que são incontestavelmente 



insrulpfuras prehittoneas, gravados na face sul de um rochedo logo 
ao sul da ermida a que denominam uns berço da SenJtora por ter nella 
apparecido em vulto, outras pegadas da Senkom por se parecerem com 
as dedadas da planta de um grande pé, e ainda outros rotxt do milagre, 
por se extrahirem d'ella uns « poses • com que dizem se curam as ma- 
leitas e que não vem a ser mais do que o pó do seixo raspado pelo 
crédulo, indícios que conjecturo de um idolmen»; junto e do lado poente 
d'estc rochedo, um carrasco de dimensões regulares, que mal se explica 
como vegeta, quasi sem terra entre as fendas de ura fraguedo que liça 
a norte c perto da capella, e que é muito venerado por se lhe attrihuir 



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O AUCIIKOLÍHHI PoiiTCOlÊs 7;i 

a virtude de fazer soffrer tantos annoa de «maleitas» quantas as folhas 
que lhe colherem, o que se relaciona com o antigo culto das plantas; 
finalmente, porções de fossos e muralhas de pedra solta em andares 
que juntamente com os fraguedos formavam uma fortificação, de grande 
-valor para o tempo, que protegia este recinto dentro do qual nós, como 
vemos, ainda agora achamos as «pegadas» da passagem do homem nas 
idades mais afastadas e até nas já fora dos áditos da historia! 

D'este mesmo ponto se destaca, seguindo o declive da vertente 
c em direcção norte, um prolongado massiço de rochedos que se afi- 
gura nma muralha, e contam ter no extremo uma cavidade a que 
chamam a ccrfáeirinha por ter a configuração de uma caldeira que, 
toeando-a, resoa muito; á distancia proximamente de 2:500 melros 
para nascente avistam-se os vestígios de uma pequena defesa, talvez 
uma atalaia; e para sudeste os de um grande castro a que chamam 
a «cidade Ha» que, pelas informações que colhi, parece ter servido de 
arraial on acampamento de tropas que ficava em posição dominante 
cia extensa explanada que vae para Izeda. A ermida tem a entrada 
ao norte, o que é raro nos templos d'estes sítios, e é de construcção 
recente, tendo só para justificar a sua antiguidade o arco da porta, 
que é de granito fino com alguns trabalhos em relevo, e algumas pedras 
tle cantaria das paredes que indicam haverem pertencido a outro edi- 
fício. E, de facto, já ali houve outro templo, pelo que reza a tradição, 
muito maior do que a capclla e que serviu de igreja até que se fez, 
com parte dos seus materiaes, a actual, que fica no meio do povo, cujo 
pórtico, voltado ao oeste, é de arehitectura moderna e muito elegante. 

A povoação de Carocedo é muito pequena e formada por uma só 
rua, que se estende no dorso da encosta que do alto segue a direcção 
este. Os seus habitantes são de trato simples c hospitaleiro, e contam, 
possuidos da mais viva crença, as lendas que envolvem o seu passado, 
ao qual se refere já O Arch. Port., m, 152. 

Estas ruinas e as suas lendas que noutro tempo, como se vê, des- 
pertaram tanto o sentimento religioso a ponto de aquellas serem visi- 
tadas pelos príncipes, e de até, dizem, a própria Senhora as não ter 
querido abandonar, apesar dos da próxima povoação de Faildc empre- 
garem todos os meios para a conservarem na sua igreja, chegando a 
fechá-la num caixão e a assentarem-sc em cima, e ella a fugir sem ser 
presentida, estão hoje quasi que abandonadas e desprezadas, como se 
nada fossem e nada representassem. Estes monumentos vivos de pas- 
sados longínquos, que tem sido poupados e até reverenciados pelas 
gerações qnc nos precederam, são agora mutilados pelos que a igno- 
rância leva a desrespeitar e destruir as memorias antigas. 



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74 O AacHEOLOGO Português 

E é assim que essa fraga, que tanta attençlo e estado nos merece, 
e que está cheia de signaes de precioso valor histórico pela sua re- 
lativa raridade entre nós e por dizerem respeito aos tempos prenis- 
toricos, cujos vestígios vâo escasseando e estSo quasi apagados, fm 
ha poucos annos em parte destruída pelos que foram a ella procurar 
pedra para a estrada! 

Outro carrasco (arvore) que havia, aonde, como no que existe 

actualmente, se reuniram os devotos para agradecer os bene6cios 

do Ceu, caiu aos golpes do machado profano que impiamente abateu 

a arvore que os vendavaes tinham poupado! 

Bragança, Outuhro de 1901. 

Ai3mo Pereuía Lopo. 



Extractos archeologicoa 
das «Memorias parochiaes de 1768» 

437. 8. Roulo (Alentejo) 

Mim. 

«Pello meio delia passa huma Riheira (mV) chamada Asi5cea= 
como não tem seu principio de fontes, e só de agoas que chovem to- 
dos os annos se sécca pelo que dizem se chama Asecca. 

Nesta minha freguezia, dizem que na herdade chamada = Cazarão 
dos frades Agojtinhos = estão huns Minaraes de prata, enchofre e 
cohre, o me asegurao que no tal eitio junto a freguezia de Sam Brás 
dos Mattos estam humas grandes covas ja á muitos annos feitas e 
deites dizem se tirara prata de que se fez hua coroa a Senhora dos 
Remédios do Forte : e como logo veio neste tempo a noticia das guer- 
ras com Hespanha se levantou a gente que trabalhava, dizendo, não 
achavam mais que tirar». (Tomo xxxii, fl. 800). 

428. S. Romio-de-NelTa (Entre-Donro-e-MInho) 



«NSo he murada, nem praça de armas, na freguezia de Santiago 
de Castello de Neyva ha hum Castello antigo chamado o Castello de 
Neyva, de que ha poucos vestígios, do qual trata a Corographia Por- 
tuguesa no tratado quinto, eapitullo terceiro continuando a noticia do 
termo de Barcellos, no julgado de Neyua, seria antiguamente inexpu- 
gnável pella parte do Nascente, sul, Poente, por estar em cima de hum 
penhasco, que para estas três partes hó ingremi e tam decliui que 



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O Ahciteologo Português 75 

O fazia impenetrauel, porem, para o Norte não he tão difieoltoza a sua 
entrada na diseripção que faz da sua cítuagão o Autor da Oorographia 
Portuguesa se enganou em dizer que o dito Castello cata sobre o Mar, 
sondo certo pelo exame que fis que o Mar inda lhe fíea em distancia 
msyor de meyo quarto de legoa sobre o Rio Neyna, he que está eituado, 
ficando lhe este Rio para o sul, de sorte que se de siina do penhasco 
cm que está fundado lançarem huma pedra abaixo, sem duvida ha de 
c-ahir dentro do mesmo rio, sem outro impulso mais que o dispenho 
e a sua grauedadep. (Tomo xxxn, fl. 1)03). 

489. Itomto (Entre-Douro-e-Hlnho) 



■ ; a parte do sul no eaeumen do monte chamado de Bustello 

estSo ainda os vestígios de hua (ao que parece) grande cidade des- 
truída antigamente pellos Bárbaros Bracarences, o que milhor cons- 
tará do Parocho a quem pertense». (Tomo xxxn, fl. 917). 

480. Roínarbjaes (Entre-Doiiro-e-Mliiho) 



«Nam he murada, nem praça de armas, nam tem torres antigas 
só ha nos limites delia vestígios de hum antigo Castelo de terra em 
o monte chamado a Cidade do Curai degoas, que fica para a parte 
do Norte, e todo está coberto de tojo». (Tomo xxxn, fl. 921). 

481. Rorlu i (Tras-os-Monte*) 

Xlnu lio DlUsho. — Ceiam do* Mouroi. — CMtelle do Man Vlzlnlio 

fEncoanto as minas que se mandão procurar declaro que ha no 
termo deste povo em a decida ao Rio Mouce de que logo falarej, 
aonde chamSo ao antanho humas minas muito celebres que jam (?) 
dice (?) forâo abertas com licença de sua Majestade ja averá o tempo 
pouco mais ou menos de perto de duzentos annos por Rodrigo de Sa 



■ De Rodtrici, gen. de Rodcricu*. Eis a serie dos nomes em -rícua em Portu- 
gal : Alariei, Ária ; Ánierici, ÃUBcriz ; Argerid, Algeriz ; Aicaríci, liscariz ; iJtt- 
teriei, D es triz ; Eirid, Eiriz ; Ermoriei, Esmoriz ; Eipanarici, Espariz ; Floma- 
rioi, Froraariz ; Frearici, Freiriz ; Gonleríci, Gondoriz ; Huntrict, Oriz ; HÚde- 
rieí, Alderiz, Ãldriz ; Loderiei, Louriz, Romaria, Romtríz ; Sauariei, Saboriz ; 
Tendoriei, Turí»5 Viariei, Viaríz. Na Galliza, Mondariz. 



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76 O AiaitKOLiiiio 1'oicrniiÈ.s 

que lie do melhor estanho que se pode encontrar pois ainda ha taças 
delles que dizem tem muyta liga de prata, e mais dizem minheyros 
(«irj que tem vindo a vellas que todo este povo está asentado nas 
ditas minas. 

E neste mesmo termo consta por tradição que ouvera asistent-ia 
de Mouros em duas partes em hnma aonde chamao a São TordSo (?) 
de que não ha ja vestígios, o em outra aonde chamão a Castelim di- 
que ainda ha vestígios de eercos donde habitavão». (Tomo xxsn. 
fl. 955). 

« no seu deeurso vay dar a hum castello chamado de Mao 

Vezínho o quoal cerca ao rredor dejxandolhe para elle tão somente 
hnma áspera entrada por terra e muito augusta cuyo castello se tfm 
por tradição hera dos Mouros e nelle se tem achado algumas prendas 
preciosas, cuio Castello ainda estão os vcstigios das paredes argamas- 
sadas e fortíssimas do altar de quoazi dois homens». (Tomo xxxii, 
fl. UB7). 

488. RuItob (Beira) 



i4. Posto que nos prezentes tempos se louva e pode louvar a 
Deus N. Senhor nesta frcguezia e seos Limites em hua Igreja Paro- 
chial e três Ermidas, como fica ditto, . comtudo, pareceme, nafca fiih, 
que nos antiquíssimos (tempos) antes da Encarnação do Divino Verbo. 
já também, os indígenas e estrangeiros lhe tributava o humildes cul- 
tos, offerecendo-lhe sacrifícios holoscaustos e pacíficos segundo o pre- 
ceyto do Êxodo, cap. 20. Deutero. cap. 27. Josué. cap. 8; não só 
em quatro, mas em cinco altares, que, ainda neste limite existem de 
presente, quasi perfeitos do mesmo modo, que está hum junto á Villa 
de Oódeceyro no Bispado da Guarda: o qual está cm campo raso com 
sua pedra de meza em cima, a qual tem dezassete passos em circuito, 
c he quazi redonda, grossa, e tosca, estando as pedras, que a sus- 
tentâo levantadas em forma circular e arrimadas huas ás outras, fi- 
cando no meyo delias, c de bayxo da pedra da meza hum vam á 
maneyra do de hua fornalha de cozer pão. 

Estão estes altares, dous juntos a referida Ermida da Santíssima 
Trindade, hum da parte de trás em distancia de oito passos e outro 
para diante á parte do meyo dia em distancia de cem. 

O terceiro está na demarcação dos Limites onde chamão Vakleiras. 

O quarto está em distancia da supra ditta Ermida de São Paulo 
de quatrocentos passos para o Norte: e o quinto está mays adiante 
cem passos dentro de hum prédio, chamado o Prado da Igreja. 



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O AltClIEOLOUO Poiítugués 77 

E desejando eu investigar com enidencia a causa da factura de 
taes altares pelos montes mandey cavar dentro, o fora deste ultimo o 
da parte de fora apparcecrâo altamente enterradas e arrimadas ás 
pedras levantadas (em que se assentava a pedra da meza que ainda 
está ao pé delias lançada em terra, e tem quinze passos em circuito) 
hua pedra de pederneira do cumprimento de huma pollogada, c do 
feytio de hua costela de lium earneyro, e cinco de afiar quasí de cor 
azul claro, e quazí do cumprimento de hum palmo; e todas cinco do 
mesmo feytio, que são bem similhantes ao ferro de híía junteira de 
Carpinteiro, porque de híía ponta rãu estreitas e do quatro quinas, c 
da outra são largas e chatas e nesta tem gume, bem similhante ao de 
hua junteira, ou de hum malho : todas estas pedras guardo em mi- 
nha casa para prova e memoria. 

Todos estes altares estão postos em campo raso com esta forma- 
lidade: que consta cada hum de cinco, ou seis, ou sette pedras de 
doze ou quatorze palmos ou mais de cumprimento ; as quaes estão 
levantadas na terra em circulo, e arrimadas huas as outras, e sobre 
cilas assenta a pedra da meza, ficando hum vão do bayxo redondo, 
como fica ditto : oceupando cada hum dos altares quinze ou dezassete 
passos em circuito, e não menos, conforme a medida que a todos te- 
nho tomado. 

Prova-se que estes altares forão feytos á imitação daquelles que 
Deos mandou fazer. Primeyro: Porque todos estão em campo raso 
sem degrao algum > Segundo: Porque todas as pedras dellcs são uni- 
formes, toscas e impolidas, sem que nellas se descubra o mais mí- 
nimo signal, do que algum instrumento de ferro as tocasse; o que 
parece uniforme com o preceyto do cap. 20 do Exod. acima referido. 
Terceyro: Porque no referido cap. 27 do Deutcr. se mandou o mes- 
mo, precedendo duas condiçoens. Primeyra: Que levantassem hflas 
grandes pedras: Erige» ingentes Lapirkn. Segunda: Que as alizassem 
ou acepilhasem com hua pedra: Et calce laerigabit evs=-. Laeviíjabis 
eot calce, tomando-se aqui o nome, cah; pro Lapide. 

E achando eu h3a pedra de pederneira, e cinco do feitio de jun- 
teira enterradas ao pe do altar acima, já fica claro, que estes altares 
forão feytos a imitação daquelles que Deos mandou fazer; e que 
estas pedras sirvirião para assacalar as do altar. E se algum me re- 
plicar: que nas taes pedras de meza não se acha escripta a Ley, que 
nos referidos cap. 27 do Deutcr. 8 de Josué se mandava escrever? 
Respondo : Que os caracteres só podião formar-se com tinta sobre a 
meza do altar, ou sobre outra cousa que em cima da mesma se pu- 
zesse, pois de outra maneira não os podião entalhar nas pedras, por 



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8 O AliCHEOLOGO PORTIT.UÉS 

ie estar vedado o uso de ferro em taes pedras ; e sendo assim como 
laramente se prova, fica sem fundamento a instancia. Também ha 
m diversas partes d'este Limite sepulturas antigas, abertas em mar- 
íores, da mesma medida das ordinárias d'estes tempos» 1 . (Tomo 
XXII, fl. 1072;. 

488. nana (Estremada») 

Inic t Ipçíim em lolru sntlgiu 

«Em pouca distancia do lugar tanto para a parte do Nascente, 
orno do Poente, tem descuberto a cazualidade vários vestígios, que 
idicao ter havido em outros tempos pouoaçÕes naquelles eitios. Na 
arte do Nascente, onde boje se vê a quinta das Pedreneiras abrin- 
.oce no anno de 1739 o alicerce para a mesma quinta se acharão 
árias sepulturas com capas de pedra, e nellas vários caracteres de 
?tras antigas, que se nao souberào entender. Pouco mais assima 
esta quinta na aldeã do Penedo abrindose em outros annos antes 
licerse para liuma adega se descobrirão varias pedras que indicavão 
ouza de templo da antiguidade como erão bazes, colunas, capiteis, 
edestais, e outras diversas com seus lauores antigos, dos quais ainda 
oje existem algumas. Na parte do Poente junto á aldeã de Monte 
tey ha hum chafaris antiquíssimo, e huma fonte de cantaria e alve- 
aria, e outras muitas couzas que testificam o mesmo que se julgai. 
Tomo xxxn, fl. 107ÍI). 

434. Sá (Entre-Douro-e-Minlio) 

Camp«i de Ifrejni 

■ Ha memoria que ouve aqui homes de armas Cains e Bessas, 
orruto vocauollo Carnes e Yessas e outros muitos de que nao ha me- 
tioria, somente muitas campas na igreja com armas». (TomoXXXlll, 
I. T,. 

485. Sá (Entre-Douro-e-MInho) 



«He sim tradiçam antiga que nesta freguezia de Santa Maria de 
iá no lugar de Louredo esteve antigamente situada a cidade antiga 
le Britonia, que foy destruída e arrasada pelo bárbaro Almaçor (me) ; 
desta verdade dam testemunho alguns signais; porque dizem os 
jaur adores que todas as veses que neste sitio (que consta hoje de 
inhas) cavao alto aparecem muytos e varíos tejolos de vários ter- 
nos, signais que indica© o referido ; e se extendia esta cidade pella 



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O ÀRCHEOLOGO POKTUUUÊS 



79 



çrande parte da freguesia de Britiandos ' contígua e immediata a esta 
Aonde se presume tomara o nome. Disto na mílhor opiniam dá teste- 
munho Frey Lcam na sua Beneditina Lusitana,, e da corografia Por- 
tuguesa consta que no dito Lugar de Louredo estivera o Mosteiro 
Máximo de Frades Bentos, etc.» (Tomo xxxni, fl. 23). 

486. Sabrosa (Trás- os -Montes) 



cEsta Serra (de Sabrosa) está quasí de nascente a poente e em o 
fim para a parte do nascente tem hum castello munto antigo e em 
bastante altura, murado de redondo com duas ordens de muro bem 
fortificadas, mas cstam já arruinadas, e para a parte do Norte e 
poente de cada huma tem dous fossos grandes, e em o fim deste Cas- 
tello ha hum boracam para baixo da terra aonde se tem mettido caens 
de caça e não tornaram a sahir, e se tem lançado pedras abaixo e 
sae grande ecco por causa do estrondo que ellas fazem, como que 
deçem por escadas abaixo : dentro dos muros d'este aínda ha vestí- 
gios de cazas, e do seu alto deste se avistam oito castellos, primeiro 
o de Chíres distante meia legoa, segundo o de San Fins, distante 
bum-a legoa, terceiro o de Fauaios distante hum-a legoa, coarto o 
de Provezende distante hum-a legoa, quinto o de Sam Martinho dis- 
tante meia legoa, seisto o de Lamego distante coatro legoas, sétimo 
o de Penedono distante sinco legoas, oitavo o de Xamam distante 
sinco legoas ; também delle se avista a Serra da Estrella em a pro- 
vinda da Beira, a serra do Maram que devide esta Província da do 
Minho, a Serra de Siabra em o reino de Castella, a serra da Senhora 
do Vizo, e se descobre parte do Bispado de Lamego e da Guarda ; 
tem esta serra em as suas faklras para a parte do Norte hum-a es- 
trada munto plaina e munto antiga e desuzada, a qual chamam da 
Mourisca, que vem findar a Veiga deste Povo, e acaba em o rio Pi- 
nham, onde chamam o Salto, posso em que antiguamente esteite 
hum-a ponte de pao de que ainda hoye ha vestígios». (Tomo xxxui, 
B. 5G). 

Pedro A. de Azevedo. 



1 Britiandos provém do Brtíenaitdus. Esta palavra Comp3e-ie de Brtíe, pro- 
vavelmente; BritUM, e de Nandvs. Britas ainda no encontra em Britaria* d'oode 
m deriva Britaria. O auffiio -árias não £ raro nos nomes germânicos. A deri- 
vação de Britiandot de Britmda é absnrda. 



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O AiiCiiEOLuoo PoiiTuaujJs 



Inscripção romana de Almeirim 

Por intermédio do meu particular amigo l)r. Henrique Cardoso 
Martins de Meneses ( Margarida), de Guimarães, obtive ha tempos para 
o Museu Etimológico, offerecida pelo Sr. Conde do Sobral, que a en- 
controu na sua quinta do Casal Branco, a 4 kilometros de Almeirim, 
uma lapide calearea com inscripção tumulai-, figurada na estampa junta 
(segundo uma pliotographia). Aqui lhe faço algumas notas: 

V. 1. Não falta palavra nenhuma, posto que soja frequente a fór- 
mula completa D ■ M ■ S ■ 

V. 3. Restituo assim a linha: [VjXOItl Aí XXI. Poderia depois 
do ultimo I haver outro I, vindo então o numero a ser XXII. 

À pedra está quebrada, não se sabe pois se haveria mais alguma 
linha, mas creio que não. — Superfície da lapide: O 1 ", 295 X0"',18; es- 
pessura: 0"',025. Altura das lettras: m ,035. 

A inscripção è pois como se segue: I). M. Funãanus Ivliae Laetae. 
uxori, an(norum) A" AT ou XXII, o que significa: «Aos deuses Manes. 
Fundano consagrou este monumento a sua esposa Júlia Leta, fallecida 
na idade de 21 (ou 22) annos>. 

A pedra, diz-me o l)r. Henrique Cardoso, em carta de 6 de Março 
de 1900, etn resposta a outra minha, foi encontrada «na occasiío em 
que se cavava a terra para metter uma vinha, não se sabendo se es- 
taria lá desde a primitiva, ou se teria em tempos sido transportada 
para lá, vinda de outro local. Não foi encontrado juntamente com 
ella nada mais, e o local não apresentava vestígios alguns de sepul- 
turas, nem de cousa alguma. Anteriormente haviam sido encontra- 
dos na mesma propriedade, mas a distancia, uns pequenos vasos, 
lâmpadas e outros objectos, que pareciam de uso romano, na occasião 
também de revolver a terra para plantação da vinha». D'estas noti- 
cias se conclue que, se a lapide não estava já in loco, não devia 
ter vindo de longe, e que a quinta do Casal Branco foi uma estação 
romana. 

Como Almeirim não figura no Corp. Inter. Lat, sento com dois 
insignificantes fragmentos epigraphieos (vid. n.° ! 4634 e 4637), e como 
a archeología desse concelho não estava ainda representada no Museu 
Etimológico, recebi com muito prazer a dadiva que, tanto o Sr. Conde 
do Sobral, como seu genro o Sr. I>r. Henrique Cardoso, se dignaram 
fazer-me, pelo que lhes dou mais uma vez os meus eordiaes agrade- 
cimentos. 

J. L. dk V. 



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VOL. VII ABRIL E MAIO DE 1002 N." 4 E 5 

ARCHE0L0G0 
PORTUGUÊS 

GOLLECÇ&O ILLUSTRADA DE MATBRIAES E NOTICIAS 

PUHMCADA PELO 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



VtrtcniM volvem mmiumelita |> 



USUOA 

IMPRKKSA NACIONAL 

1002 



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stt:iwem.^:rio 



ErlflKAPHIÁ CHRISTIANÒ-I.ATINA : 81. 
SOCIEDADE ArCHEOLORICA DA FIGUEIRA: 1W. 

Duas estátuas romanas: 100. 

O Cerro de Penhas Juntas: 101. 

Instrumentos de bronze: 102. 

Estudos de numismática colonial portuguesa; 107. 

Noticias numismáticas: 118. 

Candeias arares do Algarve: 119. 

Extractos akcheologicos das «Memorias parochiaesi : lí">. 



Este fascículo vae illustrado cora Hi estampas. 



cbyGOQ^IC 



O ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 

COLIKÇiO ILLUSTfiADi DE MATERIAES E HOTICIâS 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 

DL,. VII .ABRIL E MAIO DE 1902 N." 4 E 5 

Epigraphia christianà-Iatina 
Uma fnserlpçtto Inédita 

«) Procedência da lapide que a contem: 

S. Pedro de Arcos, ou Santa Maria do Valle, é pelo seu passado 
pelo sea presente uma das mais importantes freguesias do concelho 

Areos-de-Val-de-Vez. Tem actualmente a denominação de Nossa 
nhura do Valle. Dentro do seu perímetro perduram ainda vestigioB 
c-heologieos de várias épocas, a attestarem que aos mais antigos 
Tipos podem seus habitantes guindar as tradições locaes. N&o poucas 
imôas pelos visos daa colimas que emmolduram o feracissimo valle 
1 que assenta a freguesia, ruinas de castros ainda bem accentuados 
s relevos do terreno, vestígios embora apagados da época romana, 
restos de uma curiosa necropole medieval podem ser outros tantos 
ulos de um archaíco nobiliário, que se hoje não se archiva em rolos 
pergaminhos, nem scintilla em escudos enxaquetados, não vale menos 
ra enriquecer as estantes dos museus e illnstrar as paginas das re- 
stas. 

O mais antigo templo christao do povoado colloea-o uma velhis- 
na tradição oral numa eminência contigua aos castros; d'elle não 
aram ruinas apparentes; os vestígios de um vasto cemitério christao 
■alizam á sua parte, do outro lado do valle, um centro religioso 
sterior, ainda hoje representado pela actual igreja da freguesia. 
) terreno oecupado pelas sepulturas véem-se restos de paredes, que 
diz serem de outra igreja, que teria sido predecessora da que sub- 
tte, construída em 1701. O adro actual e rocios da freguesia vizi- 
am com a antiga necropole, se é que nalguns pontos, por trás da 
reja, se não sobrepuzeram. Com o tempo, esse chão duas vezes sa- 
ado, para a archeologia e para a piedade dos nossos maiores, veia 



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82 O Archeologo Português 

a ser terra de lavradio, primeiro na posse da própria igreja, depois 
na do arrematante dos passaes, que o foi 11111 dos seus abbades. 

Presentemente parte do local apresenta algumas transformações, 
mas aínda assim os vestigios do antigo cemitério, com suas sepulturas 
abertas no salão duro, reconheeem-se facilmente. Chama-se o sítio Mur- 
teira, da abundância de murta que por ahi se cria espontaneamente, 
e acaso será uma das testemunhas sobrevivas das plangentes loas, com 
que eram alli inhumados ainda á moda antiga, nos seus cofres de tijolo, 
alguns dos valentes e ignotos cooperadores da nossa nacionalidade. 

Em uma parede, que fecha o quinteiro da casa de habitação, re- 
centemente construida no local da uecropole, está mettida uma pedra 
com letreiro, em caracteres de typo romano-degenerado, encontrada 
ha algumas dezenas de annos, e procedente do mesmo cemitério. 



Essa pedra, sensivelmente trapezoide, se completarmos o canto 
que lhe falta, mede no seu maior comprimento apenas m ,87 e na lar- 
gura da cabeceira m ,44. E uma lage granítica de tosca superfície, 
em que se abriram no sentido da sua maior extensão três linhas de 
caracteres, profundamente gravados. Na posição em que se acha em- 
butida na parede, a pedra offerece leitura normal, mas, se a suppu- 
sermos posta sobre uma sepultura, a leitura tinha que se fazer lateral- 
mente. Assim collocada, uma pequena cruz, chamada grega, encimava 
a campa, e o epitáfio. 

Com estes elementos, a sua authen ti cidade é irrefragavel. E não é 
esta uma circumstancia de somenos valor, attendendo a que tal epitáfio 
demonstra que, ainda em séculos nío muito afastados, estavam em 
voga formulários reconhecidamente visigodos 1 . 



I Attamen, com tituli illi ad Visigothonim fere têmpora vel etiam recentioi 
pertineant omnes. . . (Hiibner, Inter, Hisji. ChruL, praef. i). 



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O Archeologo Português 



b) Origem da parockia: 

Antes de proseguir, e com o fim de esclarecer uma referencia da 
epigraphe, que é o principal objecto iVesta noticia, preciso dizer que a 
parochia na sua remota origem foi, como não é raro acontecer, um pe- 
queno mosteiro ou cenóbio, de fundação anterior, e porventura séculos, 
;i monarchía portuguesa. De um documento do tempo de D. João I 
{a. D. 1388) se infere que S. Pedro Darcos já existia na vida do 
1). Tareja, porque a Rainha expressamente o menciona ao fundar em 
terras próximas o outro mosteiro de Santa Maria de Ermello*. 

As Inquirições de 1258 são expressas em consignar em S. Petri 
Darcus, predecessora de Nossa Senhora do Valle, a anterior existência 
de um mosteiro coutado, ao tempo d'ellas ja dissolvido, embora nao 
houvesse ainda um século, se são exactas as conclusões a que me leva 



1 O documento é uma carta de D. João I a Fr. João Martins, Abbade de Er- 
mello, a qual transcrevo na integra de foi. 477 r, do Tombo da freguesia de 
Nossa Senhora do Valle. A cópia que nelle se encontra c authentica. Pôde também 
vOT-se do Liv. 2.° de D. João I, foi. 60 e Liv. 1.° foi. 178, no Archivo Nacional. 
■ Dom Joam por graça de Deos Ri:y de Portugal e do Algarve, Senhor de Ceupta & 
A quantos esta carta virem faiemos saber que Dom Prey Joam Martins Abbade 
do nosso Mosteiro de Santa Maria de Ermello nos disse que a Itaynha Dona Tareja 
nossa bisavó a que Deos perdoe edificara o dito Mosteiro e o naon acabara asy 
como inda agora he e o edificara no julgado de Soayo que be terra de montanhas 
hérnias e lhe leyxara herdades em as ditas montanhas e em outros lugares e polias 
guerras que foram ataqui c polias grandes mortindades que elle e todo seu Con- 
vento se noin podia manter e postoque morresse algum frade, que pollo lugar 
qae era de montanhas e polia mingoa das rendas, que nom haviam, que nenhum 
queria hy entrar por frade e qne a dita Raynha mandara que se o dito Mosteiro 
nom podesse manter asy por guerras, como por mortindade, coroo por ontra qual- 
quer guixa que seja, i/ite ee tornaue o Sam Pedro Darco», que he uo julgado de 
Valdevez e das quaea cousas nos fez certo por Lourenço Annes Fogassa a que 
dello demos encarrego, que o dito Mosteiro se nom podia manter sem alguma 
outra ajuda e nos fizemos pregunta ao dito abbade e elle nos disse que se poderia 
manter se lhe desse a Igreja de Soayo e a Igreja de Britcllo do Arcebispado 
de Braga que parte com a freguesia do dito mosteiro; Porem nos a honra da 
Virgem Maria nossa defensor e destes Keynos em cujo louvor be edificado o dito 
mosteiro, concerando as muytas e estremadas grassas que do seo filho bento 
arrogo delia sempre recebemos asy em guarda do nosso corpo como em exalsa- 
mento dos ditos Reynos, especialmente na Batalha e Campo que ouvemos com 
os CastelhSos daudonos delles vitoria maravilhosa mais polia sna misericórdia, 
que pollos nossos merecimentos e polia grande devaçio que em cila sempre ou 
uemos e havemos e porque vemos que he aervisso de Deos lhe damos a Igreja 
de Soayo, que faria delia camará por a mesa do dito abbade e lhe damos mais 



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84 O Archkologo Português 

o estudo paleographico da inscripção. Combinando este resultado com 
a Dota das Inquirições, poder-se-ha plausivelmente deduzir a época 
aproximada do abandono do pequeno cenóbio pelos reinados de Af- 
fonso II ou Sancho II. Ã lapide seria o mais tardio documento da sua 
existência naquclle logar. 

c) Estudo paleographico da inscripçdo: 

Embora, logicamente, a leitura de uma inscripção seja o resultado 
do exame de eada um dos seus caracteres e consequência da sua in- 
terpretação, inverterei os termos para anteceder o estudo paleogra- 
phieo do epitáfio com a sua leitura completa. 

Aqui está pois, o que diz a campa: 

[/n] hoc locttm requi | -j- esset f(n)ni(u)l{u)e rhr(ist)i ordo | niuê 
cumfr(ater) In «■«. Corrigindo, vem a ser: In hoc loco requíescit fa- 
■mutue CJirlsti Ordoinu* cumfrater in era. . . 



a Igreja de Britello para ob frades do dito mosteiro e que elles possam poer em 
ellas capellles que as regam e dum os Sacramentos aos freguezes das ditas 
Igrejas e nos lhe damos ao dito mosteiro as ditas Igrejas deste dia para todo 

O sempre Dante em a cidade de Braga sinco dias de janeiro Elrey o mandou 

Gonçalto Lourenço a fez era de mil e quatrocentos e vinte e seis ânuos-. Este 
documento demonstra suflicíentemente a existência de um cenóbio em S. Pedro 
Darcos, do qual era por assim dizer filho o de Ermello, onde ainda bc encontram 
formosos trechos do cstylo românico, neste caso perfeitamente datados. As In- 
quirições de 1258 parecem ommissas á cerca d'aquella collaíioiíe, mas na verdade 
o que ha, e nada menos que um erro do amanuense, que escreveu S. Salvalori» 
DÕrvu* onde devia estar S. Petri Varai». Não posso aqui versar essa questão, mas 
bastará notar: que, sendo irrefragavel a existência de S. Petri Darcus no tempo 
de D. Thereza, as Inquirições té-la-hinm oinmittido entre as freguesias do Ju- 
dicato de Valle de Vice ; que, embora por mera coincidência exista actualmente 
na área d'este mesmo judicato uma freguesia com a denominação de S. Salvador 
(da Villa], 6 parochia de criação muito recente (sec. xvii); e finalmente, que os to- 
gares referidos nas Inquirições como de uma S. Salvatorí» Dareut, que então não 
existia, pertencem todos ainda hoje, como então, A collatioiíe S. Petri Dareiti. 
Para dar á publicidade as razoes da minha affirmação, só mo falta ensejo de or- 
denar os apontamentos relativos. Para o actual caso, o que pois importa, é saber 
que as Inquirições confirmam a existência de um mosteiro de S. Petri Darcos, 
coutado por D. Aflbnso Henriqnes e até transferido mais tarde para Ermello, 
cuja fundação se deve a D. 'fareja. Aqui transcrevo o texto das Inquirições : >Ilem 
in collatione Sancti Salvatoris Darcus {aliás S. Petri Darcus). . . jnrati dixeront 
que el Bey non é padrom. Item que è couto per padrões, et que o coutou Rey 
dou Alfonso o primeiro (et aqui seive primeiramente o moesteiro d Armelo et di- 
xeront que aqui o coutou el Iíey don Alfonso 1.*, et o abfaade et os fratres sacaram 
no d aqui et poserom no in squel logar que chamam Armelo)*. .. 



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O Ahcheologo POHTDOrÊS 



Hõ 



Em face de uma epigraphe como esta, muda quanto á sua data 1 , 
o primeiro problema, que surge, é assignar-lha. E é também, creio, 
o único embaraço que ahi se nos depara. 

O exame paleographico de uma inscripção e, ao lado d'elle, o es- 
tudo comparativo da sua formula, quando é possível, devem ministrar, 
regra geral, os mais seguros elementos para o descobrimento da sua 
idade. Neste epitáfio, porem, nKo valerá menos uma circumstancia, 
que se poderá dizer ethnographica, e que o distingue de todos os que 
pude conhecer pelas obras consultadas. 

Vamos, pois, á paleograpbia dos caracteres. 

A simples comparação da presente epigraplie com as que, em 
Hubner (Inscr. Hisp. Ckrht.), tem os n. ' 147 e 234, pareceria fazer 
descobrir nas três um ar de coevidade, respirando porventura maior ru- 
deza a de Santa Maria doValle. Aqitellas duas são: uma da Gallecia, 
das Astúrias outra, o que mais as aparenta todas três. Se, porem, este 
simples confronto nos pódc levar ao mesmo século das de Hubner (o x), 
talvez, singularizando o exame dos caracteres s , nos vejamos impellidos 
para uma época algo mais- recente. 

Assim : ^ que, na inscripção de que me oceupo, é bem caracterís- 
tico em locum e, pela dureza do granito ou imperícia do abridor, é dúbio 
?m hoCf apparece nas epigraphes christãs de Hubner, até aos fins do 
sec, X, e principalmente então, vendo-se ainda em uma do século se- 
guinte 3 . No resto da inscripção, vêem-se tambem os 00, embora mal 
lefenidos; o que é vulgar sueceder. 



1 Epitáfios ehristâos Bem notaçío de data não são caso insólito. Eram lavrados 
linda' em vida d'aquelles a quem haviam de pertencer, segundo um antigo costume 
ihrisíao. {y^a-BeMnrtàgaj,Dictirmtiaírede»antiquitéiieJirétieiivrti,íi.v. Sépulturee). 
Recolheu HUbuer alguns d'estes, e em outros a era foi indicada por uma forma 
ncotnpleta, apenas pelo numero redondo pertencente ao século; a restante espe- 
■ificaçSo ficava á espera do dia derradeiro. Na presente epigraphe, talvez por 
ícalcntar ainda o aimfrater Ordonivg, ao tempo da sua piedosa disposição, a 
-sperança de attingir o século futuro, nem tanto aconteceu. Menos do que isto 
á para Hftbner era enigma: das suas iuscripi.-ocs datadas só pelo século, escreveu 
illc : nt postea mortis annus mensis dies aceuratios adderentur quod tamen néscio 
[ua de causa deiude neglectum est. (Htlbncr, Inscr. Http. Chritt., pracf. pag. 6). 

1 Creio piamente que HQbncr, para definir a idade da presente epigraphe, 
ião teria necessidade de tão demorado exame; o seu solido conhecimento d'estes 
issuntos dava-lhe uma promptidão de vistas que de todo me fallece: instincto 
^cientifico que só se adquire ao fim de longos annos de estudo e observação. 

J Este ^ em losango, data já, segundo Ferreiro (Lece. de Arqueologia Sa- 
irada, pag. 414), do sec. vi,eHttbnercolhcu-onapcninsuIa em epigraphes do sec. vn 
Httbner, Inter. ffiq». Chr., a.<" 100, 119 e 172), em uma do sec. ix (id. n.° 146) 
i do oec. s em os n." 272 e 274, estas tres ultimas das Astúrias e Gallisa. Vid. 



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86 O Arcbeoloqo Português 

Outra letra, cujo caracter se aproxima do da anterior e que a acom- 
panhava, é o [ angular, que penetrou pelo sec. Xf dentro, sendo to- 
davia mais frequente nas lapidee dos sec. IX e X, descriptas por Hii- 
bner '; mas segundo Ferreiro (Lecc. de Arqueologia sagrada, pag. 413 
e 4 15) também apparece em monumentos do sec. xn. É certo que a forma 
de C redondo não andava abandonada, vendo-se nalgumas inscripçoes 
CC e Li simultaneamente*. João Pedro Ribeiro cita em varias inscri- 
pçoes portuguesas o emprego do [ visigótico ainda no sec. xn e até 
na segunda metade do sec. xm (a. D. 1272) 1 . 

Parece pertencer á família paleographica das duas letras antece- 
dentes o S anguloso ou quadrado, e facilmente se acreditaria que 
as tivesse acompanhado. Comtudo, em confronto com as restantes, 
não tende senão a rejuvenescer o epitáfio do Vallc, visto que o sen 
apparecimento na península coincide com a vinda da letra francesa 
nos fins do sec. xi e com a sna definitiva generalização pela segunda 
metade do sec. XII. Em Hiibner ainda não se encontra, nem mesmo 
no Supphmentvm, Dom deVaines diz que elle se adapta especialmente 
aos séculos vm e rx, e decerto se refere ao seu país; mas Chassant 
dá-o em inscripç&es do sec. vm até ao xvi*. João Pedro Ribeiro parece 



ainda em Hiibner {h*cr. HUp. (Sr.,) os a.- 213, 216, 259, 212, 258, 276 e 268, 
que são do sec. x:, e todos teem só o O. No ínser. HUp. Ckr. Suppl-, de Hflbner, 
a epigraphe n.° 488 tem o -0, e é tio sec. xi( do sec. x appareec nas dos n." 486, 
495, 496 e 497. 

* O [é um dos typoa mais persistentes; refere-o já Cagnat (Cour* d'épi- 
araphie latine), emliorn diga que é raro e próprio de épocas baixas; em Hiibner 
encontra-se numa inscripção já do sec. v e para mais do C. Bracarauguetanns 
(n.° 135); a sua voga nos séculos ir e x e nas provindas septentrionaes da His- 
pânia demonstra-ee nas epigraphes dos n." 147, 231, 232, 234, 237, 238, 272, 274, 
276, 242, 251, 246, 252, 255, 256, 271 ; mas vac-se encontrando ainda em oa n- 
268 e 276 que já sáo do sec. XI. Por junto, da Lusitânia, Betica e Tarraconenae 
tem Htibner apenas três epigraphes com o £ quadrado (vejam-se n.™ 210, 223 
e 277). No Inter. HUp. Chr. Suppl., o [ pódc ver-se nas epigraphea 495, 496, 
497, 505 do sec. x e 474, 481, 488 e 506 do sec. xi. 

1 N5o ha exemplo de monumento exclasi vãmente composto de letras qua- 
dradas, dia Dom deVaines (Dictiannaire rnUoimé de Diplomatiiptc, vol. i, pag- 487) . 

1 Veja-se DUierlaçòa ckronnlngicas, tomo iv, disBert. xv, pag. 122. Do sec. mi 
cita inscripçoes doa annos (a. D.) 1219, 1285, 1245 e 1272. Pôde ver-se empre- 
gado em ura epitáfio do sec. xu na fírriíta Ârcheologica, i, 110. 

* £ digno de nota que em nenhuma epígraphe reproduzida por Hiibner se 
encontra o 5 apesar do largo período de seis séculos (v a xi) que o seu tra- 
balho abrangeu. Que significa isto na epigraphia da península? NIo me parece 
qne haja negligencia graphica, onde se encontram tantos exemplos que a não 
suppQem. Poderá então inferir se que na Heapanha não era usado por aquelbts 



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O Aucheologo Português 87 

notá-lo em inscripções nossas do principio do sec. xni, e, como attri- 
buicão de maior antiguidade, pôde ver-se em um epitáfio que se con- 
serva no Museu do Carmo e que tem a data correspondente ao anno 
1197; ahi vem elle associado ao [ainda em uso, como aliás João Fedro 
Ribeiro também o aponta. Na vetusta igreja de S. Christovam de 
Coimbra (hoje substituída) existia outro epitáfio datado da E. 1207 
(a. D. 1169) que também tinha oS'.0 uso porem d'eate typo estava 
longe de ser exclusivo; em todo o caso no titulo do Valle não ha de 
outros. Em resumo: esta letra parece ser, com a sigla a que adeante me 
referirei, uma das que rejuvenescem a epigraphe do Valle. 

Os outros caracteres não abonam mais que estes a antiguidade 
do monumento; ao contrario encontram-se em Hubner ainda nas mais 
recentes inscripções que elle colligiu, que vem a ser as do sec. XI, 
e portanto não contrariam radicalmente uma attribuição mais moderna 
para este epitáfio. Os caracteres não surgem nem desapparecem de 
súbito, mormente em regiões afastadas e agrestes. Nestas considerações 



épocas 1 O que inc parece é que foi utna das letras que nos vciu com a introduccSo 
da francesa; Merino (Eicuela de leer letra* cursiva*, pag. Htí) truz um abecedario 
geral gótico (romano- degenerado) onde le vê o [ c o 0, mas onde falta o 5- 
Jo3o Pedro Ribeiro (tomo ív, dissert. iv, pag. 121 } aseignala o principio do sec. m 
como época em que a letra gótica [id.) já tinha resaíbos de francas; MuBozyRi vero 
(Manual de Paleografia, pag. 24, 28 e 29) diz que a letra francesa se introduzia 
em Hespanha nos fius do sec." n, se generalizou no seu. zn e foi exclusiva no 
sec. nu, tendo-se tornado commum em França no sec. u e i, o que corresponde 
com o que Dom de Vaínes diz do 5- Creio pois que esta letra pertence na pe- 
ninsnla ao sec. zit e principalmente ao xm. No Museu do Carmo (catai. 1692) 
- ha uma inscripção do sec. xi (a. D. 1061) em que os SS silo ainda curvos. Veja-se 
Dom de Vainea, Dictiounaire rauonné de Dipbnnatitpie, (1774), pag. 228, tomo it 
fi 487, tomo x, « Chassant, Dictfonnaire deê abrivialurts latinei et françaises da 
moyen âgt, pag. 66. 

A influencia do typo francês nio podia limitar se á letra cursiva, mas a mo- 
numental havia também de resentir-no da novidade. 

1 JoSo Pedro Ribeiro, Di**ertac3e* chronologicat, rr, pag. 122. Catalogo do 
Mu/eu de Archeologia do Largo do Carmo (1892), d." 2U70; este epitáfio está muito 
bem lavrado em letras ditas onciaes no catalogo e, nisso, distancia-se enorme- 
mente do de S. Pedro do Valle, cujo parecer é rude; é de Coimbra como o que cito 
em seguida, que encontrei por copia no Antiquário Conimbricf.n»e de 1842, n." 8. 
Pode v«r-se também Paleografia visigoda, Munoz y Rívero (1881 ),pag. 47. Na ponto 
do Porto (concelho de Amares) que corta o Cavado e inicia a celebre fieira, vêem -i« 
nos quatro primeiros arcos da margem direita (os únicos que pude observar) di- 
versos signaca de canteiros, constantes de letras, que mais me parecem medievaes - 
que romanas, e entre cilas o S e outro em que os traços horizontaes sobreaiem 
aos vert icaes. Nao falta lá um bello suastika. (Veja-sc Milliariot, de Martins 
Capella, pag. 59.) 



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: 



88 O Archeoi.oqo Pohtugués 

incluo as seguintes letras MNAT1Y; as duas ultimas porem, já nao 
se encontram no sec. xi 1 , mas não se poderá negar que a rudeza do> 
sítio não facilitasse, longe dos centros de irradiação, a persistência 
d'estes typos archaicos, ainda alem de um século em que Hiibner os 
considera como expirados. 

No epitáfio do Valle ha porem uma sigla que merece algumas pa- 
lavras, porque inútil seria procurá-la em Hiibner*. É o signal ■> fa- 
zendo aqui parte da abreviatura 3 FR (cumfrater) 3 . Rivero conhece 
eBta sigla na paleographia visigoda, com a significação de eon {cum). 
tÉ um C invertido em cujo centro existe qnasi sempre um ponto e é 
collocado dentro da linha e no principio das palavras». Foi usado nos 
documentos latinos do sec. xn c posteriores *, e decerto o seu emprego 



1 Não b3o levianamente deduzidas de Hiibner principalmente as minhas con- 
clusões. Para não sobrecarregar o texto com minueiosidades, sou lá mais conciso. 
M cncontra-se nos títulos de Hiibner com os n.*" 34, 128, 156, 172, 216, 220, 
223 e 2715, sendo todos, menos o ultimo, estranhos ao noroeste da península e eom- 
prelicndendo os séculos viu « h. O fj c caracter mais frequente e quiçá de mais 
antiga voga, pois vê-ae desdo o sec. vi nas epigraphes de Hfibner, assim nume- 
radas: n." 2, 33, 34, 35, 44, 60, 64, 65, 82, 84, 86, 99, 108, 117, 128, 165, 166, 165, 
172, 214, 216, 220, 223 e 276; esta só das Astúrias. É ainda forma mais arebaiea 
a do /\ que apparece já no sec. v (Bracara), teve grande uso no sec. x e attinge 
o sec. xi. Podem examinar-se os titulo» a.- 2, 55, 64, 65, 66, 115, 135, 148, 168, 
210, 214, 221, 222, 223, 228, 232, 233, 234, 235, 246, 250, 252, 255, 266, 268, 271, 
272, 279, c 284. X é outra forma característica da degeneração doa caracteres 
romanos, e vê-se já citada por Cagnat para o sec. n; naa epigraphes da península 
encontra-se desde o sec. vn (Hiibner, n.° 119) até ao sec. xi {ali. cil-, 216); sendo 
porem mais frequente no sec. jc; veja-se Hflbner, oh. cif., n.™ 34, 119, 128, 148, 
214, 221, 225, 228, c 234. Ferreiro {oh. cit., pag. 413) encontrou-o ainda no sec. xn. 
O q em Ferreiro (ob. cif., pag. 411) vem num monumento do sec. vi (veja-sc 
pag. 411) e em Hiibner, desde o sec. vn (n.™ 117, 158 e 172) até o sec. x em os 
n." 138, 255 e 274. Por ultimo, as epigrapbes do sec. vi ao x teem o Y (veja-sc 
Hubner, oh. cif., n." 33, 44, 82, 158, 214, 225 e 255, e em Ferreiro, ob. cit., pag. 408). 

1 Nada tem de commum com a sigla do epitáfio os signaes dos títulos de 
Hiibner, n.°' 264 c 272 e. Em ou." 117 (sec. vn) vem para significar cum a abre- 
viatura C. 

1 Ninguém poderá suppor que aqui se trata do confirmo dos diplomas me- 
di evaes. 

* Veja-sc Muíloz y Rivero, Manual de paleografia espanola, pag. 91, 93 C 113 
e Paleografia vuigática, pag. 96. Diz este auetor que esta sigla deriva da epi- 
graphia romana, onde em todo o caso, segundo Cagnat (Epigraphic romaiur, 
pag. 367, 358 e 82) tinha significados espeeiaes; mas é de crer que, na escrita 
documental, fosse retomado pelos amanuenses do sec. xn para significar cum em 
lodos os casos de composição de palavra. Confirma isto Cbassant, Dictiomiaire 
</f* abrèi-iatitrcs latines et françaincs du vioyen âge, xiíx, xxxiv,xxxvi, xlvi epag. 109. 
Cfr. Dom de Vaines, ob. cit., vol. u, pag. 327. 



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O AlICHEOLOGO PoitTirouÊs 89 

obedeceu á voga das abreviaturas que o novo typo graphico acarretava. 
O phenomeno de passarem letras e siglas dos amanuenses para a epi- 
prapltia é consignado nos livros da especialidade'. 

Este minucioso exame paleographico do titulo de S. Pedro doValle 
tornava-se necessário para afastar a impressão de maior anèianidade, 
que porventura o aspecto de algumas letras pudesse produzir. 

D'este estudo parece-mc resultar que teria sido no sec. xii, e 
mais plausível mente na sua segunda meação, que este epitáfio foi la- 
vrado*. E, comtudo, a sua parecença com outros do sec. X, já ci- 
tados, é muito visível. Será a persistência dos typos paleographicos 
que Hiibner notou cm especial na epigraphia espanhola? (Hiibner, ob. 
clt., pref. pag. xiv) 3 . 

A ruatioidade da campa, condizendo com a humildade e o agreste 
do ignorado cenóbio a que ella estava ligada, affirma-se ainda no irre- 
gular traçado das linhas da inscripção, e na sua desigual distribuição. 
Emquanto a primeira letra tem a altura de 0"',09, a penúltima mede 
CF ,07 e a derradeira O 1 " ,05. Se a pedra não foi partida por esse lado, 
não sei como caberia depois a era. 

Nenhuma dúvida offerece a abreviatura de faumlus e a de Ckristi, 
variante do conhecido chrisma monogrammico ; exemplos véem-se em 
Hiibner, ete. 



d) Formula da tnscripçao: 

Seguir-se-hia agora o estudo da formula epigraphica do epitáfio do 
Valle. Não julgo que possa d'ahi saltar alguma luz para a sua attri- 
ouiçâo chronologica. 



1 Vcja-se Chassaut, ob. eit., pref. iv ; e Cagnat, ob. cít., pag. 10 e 21. 

2 Neste titulo não apparece nenhuma letra ontial c comtudo ha-os coevos 
_'om letras visigodas e onciaes promiseuamente, como se pôde ver no já referido 
Antiquaria Conhiibrimite. E certo que, em escrita monumental, suecedeu ao typo 
visigótico ou romano- degenerado o monaoa) (chamado i-ommummente gótico e 
illemão) e isto pelo fim do sec. mi. Veja-se Mufioz y Rivero, Idioma y Escritura 
h Eapa&a, pag. 26; J. P. Ribeiro, Diasti-tações cliroiiologicas, iv, pag. 121 e Me- 
•norias da Academia, xi, pag. 142). 

1 Não me detenho com o exame das letras conjuntas ou compostas da lapide; 
I que indica a syllaba RE encontra-se v. g. em Hiibner (ob. cít.) a." 223 no 
;ec. i; a umSo do O com oKí ainda mais commum c vem numa epigraplie do 
tee. ii, n.° 276 de Hiibner. Esta inseripção, sem o S quadrado o a sigla de cuni, 
Joderia sem anachronismo paleographico attribtiir-se ao sec. vu ou viu. E 6 isso 
]tie lhe dá um ar aucentuadamente visigodo. 



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90 ' O Abcueoloqo Pobtugcês 

De longe vem a formula inicial adoptada; já do ser. v na Itália, 
do flee. v e vi na Gallia, e na Hispânia traz Hiibncr epigraphes dos 
sec. vi e vn com a ampliação do simples kíc para in hoc loco, in hoc 
tumulo, e do sec. x duas, uma. da Gallecia (229) e outra da Tarraco- 
nensis (2B2). O Suppíementum acrescentou uma do sec. x; j a do 
n.° 461. Quanto á idade do epitáfio em vista, parece-me apenas poder 
genericamente inferir que ainda em século recente a formula in hor 
loco nSo estava banida 1 . 

A designação de famulug Christi também não se pôde attribuir a 
nenhuma época em particular, sendo porém muito commum nos epi- 
táfios da península, no tempo dos visigodos 1 . 

Ha porem no titulo do Yalle, relativa ao defunto, uma indicação 
decerto menos vulgar, porque em Hiibncr nenhuma idêntica se en- 
contra, a qual singulariza muito o monumento de que trato. É a qua- 
lificação cumfrater, dada ao sepultando. 

Confrade» ou fwuUmrè» eram, segundo Viterbo (Elucidário, s. v. 
Familiare»), pessoas seculares que faziam doação dos seus bens aos 
mosteiros, com o fim de dar remédio ás próprias almas, tornando-se 
participantes dos bens espiritnaes da ordem em que se confreiravam 
e cujo habito por vezes vestiam 3 . Este costume encontra-se, no disser 
do A., referido nos documentos do sec. x a xni*. E é, na ethnographia 
religiosa daquellcs séculos, um facto que me parece importante para 
o fim que tenho em vista, qual o da idade do epitáfio do Yalle. Julgo 
curiosa por isso mesmo a epigraptie, talvez até singular. Este Ordonho 



1 Nas Tnseríptímttt chrislianae, de Rosai, vem do a. D. 482, n." 877, tn hum- locum 
reijnittcit, e do a. D. 457, n.° 798, in hoc loco quietei. Em Vipigrojihir chritieunt rw 
Gauir., Le-Blant refere a pag. 16, tom. i,&formuÍHÍn hoc Imiuilo. a. D. 491, inhiicloto 
rupiievit, do sec. v (pag. 85), e nas lntcríption* diriiiennts de la Gavle o principio 
In hoc loco requieteit famulii» Dá (i, pag. 65 e n pag. 667 a). Em Hiiitner podem 
ver-se os tituloa dos n." 31, GO, 99, 174, 164, 189, dos séculos vi e th, n* 915 do 
sec. u, da Botica e Tarraconensc, todos excepto um da Lusitânia. Com tfio di- 
minuta collecçSo de epitáfios, é decerto arriscada qualquer conclusão tocante 
a formulário, quer com relação a togares, quer a períodos restrictos. 

1 Hiibncr, nb. cit., pref. pag. n ; Arch. Porl^ r ; Le-Blant (Man. de Cépigraphie 
chritiermc), pag. 78. 

3 Cfr. Du Cange, s. r. Familiares. Cita as Legc* Alfoneiua», ix, R. Cast., 
pari. i, tit. 13, lege 7, na qual se- diz: FamUiare* sou llamados, o confrades, los que 
tomam acuai de habito de algunn orden et moran en sus casas seyendo seiiores de 
lo snyo e non se desamparai) dei lo. 

* Podem ver-se alguns nas Memoriai da Academia, tom. vi, part. n, mem. v 
de Caetano Amaral e tom. ni, pag. 25 e 49, mem. de Fr. Aragão Murato. 



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O Archeologo Português 91 

ara pois um oblato do mosteiro de Santa Maria do Valle, de que hoje 
nem ob alicerces se reconhecem. 

Finalmente eneontro-me ainda por isto conduzido ao período dos 
mesmos séculos a que me levou, embora com mais precisão, o exame 
dos outros caracteres da lapide. 

Nenhuma epigraphe traz Hiibner pertencente a um Orãonius, nome 
que aliás seria commnm nas populações do oeste da península do sé- 
culo ix e seguintes. Vêem apenas referencias aos reis d'aquelle nome. 
Ainda em documentos do sec. xn appareee e porventura em mais re- 
centes '. 

De barbarismos grammaticaes, o epitáfio de Santa Maria do Valle 
dá-nos exemplo da troca do ablativo pelo accusatívo, com a aggravante 
da má concordância in koc locum; do c pelo e (reqníesset); do i pelo 

. (;</.)'. 

e) Idade da epigrapke: 

Já vimos que este epitáfio é attribuivel ao sec. xn e principalmente 
i segunda metade. 

Referindo a idade d'este epitáfio á chronologia portuguesa, teríamos 
pois que elle pôde ser do reinado de Affonso Henriques ou ainda talvez, 
contemporâneo de Sancho I, apesar da estranhesa que causa o encontro 
de uma epigraphe visigoda, pelo emprego e pelo typo, em pura época 
portuguesa. 

Parece-me ser esta a attríbuição mais provável, a hypotncse mais 
segura; advertindo que em inscripçues não datadas, pertencentes a uma 
região em que não abundam, como testemunha Hiibner (pref. pag. vi 
e vn), é melindroso precisar restrictamente uma era, emquanto não for 
sonheoido maior numero de lapides. Em todo o caso, a conclusão a que 
cheguei parece conter-se nos elementos de que me servi, e nos que 
foram ministrados quer pelos paleographistas que consultei e deixo 
indicados, quer por algumas outras inscripeões a que me referi. Por- 
tanto, se erro, não é por absurdo, creio eu. Ãtgnm factor ignoro, nesse 
caso, que devia conhecer. 



1 Nas Memorias Parochiaes da freguesia de Ermtíln, onde o cenóbio do Valle 
linha mna filial, falla-se num sitio que conservava até então o designativo de 
Ordonho. 

* Casos semelhantes se vêem em Hiibner, menos o * por c (Hiibner, 06. cit., 
1.' 99, 101 e 174), em Rosai, (<>b. cit, n.» 798, pag. 346) e na Bcvista Archeotngica 
[pag. 25, 1). 



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O Akcheologo Português 



/) Antiga exploração da necropole: 

O cemitério a que pertenceu a lapide do confrade Ordonio foi, caso 
bem ponco vulgar, explorado no sec. xviii, com intuitos archeologicos. 
E mal imaginariam os meus leitores qne, prestando esse valioso serviço, 
vão encontrar neste longínquo recanto do país nm amigo pessoal de 
Cenáculo! 

No cartório da freguesia de Nossa Senhora do Valle existe um velho 
Tombo, para o qual o abbade Francisco José Lourenço do Valle Cor- 
reia e Freitas, que parochiou aquella freguesia desde 1769 até aos 
primeiros annos do século de 1800 (em 1804 era nomeado o seu euc- 
cessor), compilou os documentos mais importantes e os papeis mais 
curiosos do antigo cartório da igreja. Logo ás primeiras folhas do des- 
botado volume se encontra, entre outras, uma curiosa notícia do nosso 
cemitério, escrita do punho de Fr. José de S. Lourenço, monge cis- 
terciense, irmão d'aquelle abbade e qne seu hospede era na primavera 
de 1782». 

Na integra vou trasladar este interessante documento, embora a sua 
introducçao padeça, em parte, de um vicio do tempo, a prolixidade, e 
o final se deva talvez referir a uma época archeologica diversa da que 
agora me oceupa. Para mais, o erudito monge illnstrou o seu trabalho 
com quatro figuras, que não podem deixar de ser reproduzidas fielmente 
também, pelo seu grande valor. 

•A antiguidade que por si é estimável, porque nella apprendemos e conhe- 
cemos muitas noticias occultas e perdidas na Historia para a qual nos snbministra 
esclarecidos soccorros e porque chegamos a saber a differença, a vantagem e de- 
cadência, das Aitcs, penetrando juntamente a razão, o ingenho e os costumes 
dos séculos anteriores; não só é digna de ser amada mas também do se procurar. 
E sendo eu um dos que a contemplaram na lieçlo da Historia; passei ao maior 
grau de a gostar com as provas da experiência. Já ajudado de tam deleitarei 
pratica vi que este «.evento do Valle, pelo bello horizonte em que está situado, 
seria também antigamente povoação romana ou mais antiga. Inquiri d' estas gentes 
se sabião qualquer notícia c conheci que ucllas não havia nutra que a doe mouros 
e que nem esses aqui estiveram. Desprezada tanta ignorância, principiei, con- 
templados os horizontes, a mandar cavar, e logo na segunda vez que foi no dia 
20 de Abril de 1782 no campo que confronta com as terras de João da Cunha 
do Cotto, descobri uma grande lage que cobria um sepulcro do comprimento de 
10 palmos e dois e moio de largura feito de grande* lijollos e coberto de grossas 
telhas ao gosto romano, cheio por dentro de terra e carrões c calçado por fora com 



e collaborador do grande hispo de Beja piidc 



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O AllCIIEOLOGO POBTLGUÊS 



ias pedras, que mostraram ler servido em algum rico edifício. A figura do tumulo 
seguinte vista da parte de cima: 



No dia 9 de Março e no seguinte mandei cavar no campo da Mwtueira que 
>r corrupção ee chama vulgarmente Murteira ', e appaieccrão mais 38 sepulcros 
vrados perfeitamente dentro do salão, uns descobertos e outros curiosamente 
pados com lages. Somente continham dentro de si terra com carvões por cima 
entre ella. Ha muitos maia sepulcro» neste campo junto da parede que está á 
3o direita no caminho onde está o Cruzeiro defronte da Eira que fica á esquerda 
do- hi' pelo caminho acima. Também em cima d'cste tal campo está uma devesa 

terra mais alta c nclla se vêem ainda muitas aberturas no salão, que são 
irte dos sepulcros que alli houve, desfeitas a outras (?) com o salão que tem caido 
>r estar mais eminente. No principio d'esta devesa descobri uma parede bem 
ita com todas as pedras assentadas em barro, assim por fora como por dentro, 
qual vinha pegar á esquina da parede defronte do Cruzeiro. Tinha de comprido 

1 palmos o de largo 5. Mais adeante para o meio do ília no campo da Mortueira 
■scobri debaixo da terra uma parede de casa quadrada e dentro d'ella uma 
reira e cacos de touca grossa e pedaços de ferrugem. Dentro do âmbito d 'estai 
iredes se achava muita telha romana quebrada que tem differente figura da 
>ssa e è mais grossa do qve os tijollos de que hoje usamos, com muito carvão de 
adeira queimado. Signacs evidentes de terem sido estas casas abandonadas, 

consequentemente arruinadas c nunca reedificadas. Os ditos sepulcros que na 
(ura de quatro dedos, um ou 3 palmos de terra se podem achar, teem as se- 
nintes figuras : 



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O ÃECHKOLOOO POBTOGUÊS 



Note-sc que entes sepulcros todos são mais compridos que um homem e bas- 
tan temente fundos. É tudo isto abra da gentilidade romana que costumava queimai 
os cadáveres e guardar as cinzas em urnas ou túmulos conforme lhe parecia, os 
quacs tinham nos campos junto dos caminhos para os passageiros se lembrarem 
de que eram mortacs. Tem mais estes sepulcros os pi» para o oriente. 

A minha imitação, um rapaz chamado Manoel António filho de Rosa da Cunha 
do logar da Costa da Bouça descobriu no seu campo da» 1'rdrata» muito e grande 
tijollo sobre paredes e nellas muitos piiares de pedra, o que eu por ser impossível 
descobrisse todo o campo, conjecturo ser ornato de. algum magnifico sepulcro, 
qual descobri na mesma obra e era muito comprido todo forrada de lageg. 

No dia 26 de Dezembro de 1782 descobri nos Oiteiros da parte do norte junto 
da quinta de I' rodou, tau cada cume dos taes oiteiros, um sepulcro, cuja obra se 
compunha de uma parede forte e grossa de pedras assentadas em barro formada 
em figura oval. Dentro da circumfcrencia que teria de comprido 15 palmos, es- 
tarão debaixo da terra quatro ou cinco lages levantadas, as quaes quasi juntando-se 
em cima,, em forma de fornalha, estavSo cheias de terra c no fundo a um canta 
uma urna de barro do feitio de orna tijella assentada em barro com carvões e terra 
dentro de si. A figura da urna, que também era da grandeza de uma tijella, á 
a seguinte : 



<^fc> 



Até aqui chega o interessante relatório. D'elle se concloe * qne as 
sepulturas eram cavadas em forma de trapézio, tendo algumas um 
nicho circular para a cabeça do defunto. Uma d'ellas era guarnecida 
lateralmente de tijolos, e coberta de telhas ao gosto romano, cousas 
que Fr. José distingue claramente 1 ; trinta e oito eram simplesmente 



' Ficam portanto excluídas as excavaçSes no Campo das Pedrosa» e nos taes 
oiteiros ou elevações ao norte da quinta do Prado»; no primeiro diz-se hoje 
no sitio, que em tempo appareeerom lá sepulturas de tijolo»; nos taes oiteiros, 
o qne hoje se vê, pode ser tomado por uma grande mamou arrasada, mostrando 
sulcos de explorações. Próximo, encontra-se ainda uma verdadeira mamòa com 
parte da anta, segundo informaç3o fidedigna, 

* Os tijolos a que a narração se refere nSo slo certamente tegtiiae, mas ver- 
dadeiros tijolos lisos e rectangulares {Ititcre») como outros quo foram encon- 
trados nas sepulturas christãs e provavelmente coevas de Giella (Arcos); medita 
ainda a respectiva noticia. Tegulae eram as telhai romana», que no dizer de 
Fr. José appareceram no interior da tal casa incendiada e decerto provinham 
do seu telhado. Essa telha romana tinha diferente figura da contemporânea d'elle 
e era mais grossa do que os tijolo» do seu tempo, portanto nfio se tratava de tra- 
bricee. Assim havia sepulturas forradas lateralmente de tijolos lisos, tapadas 
com tegulae, e, pelo que se conclue de uma das figuras, protegidas ainda as juntas 
com imbriae». Se, quando o auetor do mauuscripto refere a telha romana, preten- 



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O AliCHKOJ-OGO PoRtrurÉs 95 

>ertas no saibro, algumas desprovidas de qualquer cobertura artifi- 
al, outras cuidadosamente tapadas com lages. 

A primeira sepultura encontrada, que parecia pela construcção ser 
: pessoa mais graduada 1 , media 2 m ,22 do comprimento e 0"',55 de 
rgura ; tomadas em geral, eram todas mais compridas que um homem, 
iteriormente nâo continham mais do que terra e carvões, que o amigo 
s Cenáculo attribuiu á incineração dos cadáveres da gentilidade. Por 
m todas as sepulturas eram orientadas. 

<j) Estado actual das sepulturas: 

Concorda inteiramente com estas indicações o que ainda hoje se 
óde ver, e o que eu soube por informação directa de um trabalhador, 
ue assistiu a remeximentos de terra que, ordenados por dois abbades 
a freguesia do Valle*, constituíram duas verdadeiras devastações ar- 
leologicas. 

A necropole, situada em encosta voltada para o quadrante de O. S., 
brangia algumas dezenas de sepulturas, sendo umas tapadas com 
iges, outras com tijolos. Em algumas destacava-se bem o nicho para 
cabeça do defunto. 

Vagamente me informaram que um dos túmulos deu luma espécie 
e enxada» e outros tijelas de barro 3 . 



'ssc designar ama telha §enii-cylin«lrica, nem diria «telha ao gosto romano*, 
.•m compararia a sua espessura & dos tijolos <lo seu tempo. 

1 Note-se ainda a circumstancia de ser sepultura de duplo cofie; a tampa su- 
jrfiiíial era uma grande lage; depois é que estavam as telhas an gosto romano. 
curioso alada o aspecto d' essa sepultura, que é o de um verdadeiro telhado 
imano, composto de tegular e imbrica; mas esta disposição sobreviveu e muito 
civilização do império, entrando pela media idade fora. Cúpulas byzantinas 
sul da França ainda conservam restos d'e.ssa cobertura. {Veja-se Félix de 
craeilh, Arc&itecturt hysantine, pag. 42). 

* O trabalhador eliamava-se Pires; inquiri-o em 1895. O primeiro abbadc 
ra António Pereira Coelho, que o foi desde 1843 até 1870; o segundo era Bento 
osé de Araújo e Sousa Gama, que esteve no Valle desde 1870 até 1891. Este 
impron o passal da igreja e no sitio do cemitério fez uma casa o várias outras 
bras. O Pires assevera que a lapide apparcceu ua necropole, sem poder afiirmar 
ue cobrisse alguma sepultura. 

3 Esta informação é muito vaga para que eu não receie vê-la desmentida 
m futuras explorações do cemitério do Valle. Eefiro-a, porque o caso nem seria 
ovo, nem desebristianizava a necropole. Quem sabe o que seria a «espécie de 
mada»? Mobiliário fúnebre? Casualidade? Enxada ou não? De foicinha, ba mais 
ae um exemplo em sepulturas christíts; veja-se Tanlinghcn et les eépulluree sons 
alies, par 1'abbé H. Debout, pag. 50, onde se refere outro achado ideutico feito pelo 
elebre l'.' Cochet em sepulturas enristas medievaes. As tijelas junto dos esque- 



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96 O Ahcheologo Português 

A minha exploração pessoal foi, por um conjunto de circum st anciãs 
contrarias, limitada a uma sepultura já revolvida. Naquella parte da 
propriedade onde se encontra a eira, via-se bem desenhado no salão 
amarello um trapézio alongado de terra negra, cujo comprimento era 
de 2 metros e largura media O" 1 , 50. De envolta com o húmus, encon- 
travam-se fragmentos de tijolos de rebordo (tegula). A profundidade 
da sepultura não era superior a n ',l, o que se explicava pelo desen- 
grossamento operado no terreno quando fora das obras, para o nivelar. 

Sobreposição de enterramentos de duas épocas históricas sueces- 
sivas não poderia dar-se. As sepulturas estão abertas no saibro virgem 
da encosta. Hoje no terreno que foi cemitério existe uma casa com 
suas dependências agrícolas e junto da casa ha uma leira que dá pão 
e em que o arado vae alternadamente descobrindo e enterrando pedaços 
de tegulas. 

Se, como vimos, o formulário da epigraphe do Valle era o visigodo, 
e se, apesar de pertencer ella a um século ao qual se não pode com 
rigor adaptar já aquella designação, esse formulário estava ainda em 
uso, pelo menos naquelle afastado recanto, não devemos admirar-nos 
de encontrar para lie la mente nos ritos fúnebres a conservação de muitos 
usos antigos. 

Ora o modo de inhumação, observado na necropole do Valle (como 
em outras mais do concelho dos Arcos) é ainda caracterizadamente 
visigodo 1 , mas não só visigodo, senão também próprio de outros bar- 



letos, na mesma ordem de sepulcros, s3o quasi uma vulgaridade nos tempos a que 
os arebeologos franceses chamam meroviugicos, e anteriormente também- Podem 
ver-sc : Dictionnaire da antiquité» ckrétiennu, par 1'abbé Martigní, b. v. Eau bi- 
nite; Leccion de arqueologia lat/rada, por A. L. Ferreiro, pag. 42; Noçõa de ar- 
eheologia, por PoBsidouio da Silva, pag. 150; Étudt mir la tépulture» barbara, por 
fiarríère Flavy, pag. 114; e de entre as numerosas monographias que seoceupam 
de cemitérios bárbaros, esta, ao acaso: Le cimititre franc de Briara-tur-Ettoue, 
par Leon Dumuijs (in Congre*archiologiquedeFraiicc, 1892). Á necropole do Valle, 
por conservar e revelar o processo inliumatorio adoptado pelos bárbaros, inclusi- 
vamente pelos visigodos, podia ainda apresentar mais do que essa analogia. 
Infelizmente, neste capítulo da archeologia nacional, que ê que se tem explo- 
rado?. . . 

> O certo ó, porem, que o emprego da tegula c da lage como forro de sepul- 
tura eiístia nos ritos das gentes que os bárbaros aqui encontraram. Citarei apenas 
necropoles nacionaes: Ferreètello (Areh. Fort., », 70), Moliào em Lagos {Areh. 
Port., v, 103 e vi, 1001, sepulturas de AOiey em Mondim do Basto (ib., m, 70), 
e de Mcrtula {ib., v, 243), etc. Para exemplificar sepulturas dos bárbaros forradas 
de tijolos do rebordo, poderia organizar longa lista, referindo as explorações 
feitas em França. Podem ver-sc referencias em La lépulturet barbara de Bar- 



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O Ahcheologo Português 97 

iros. E necropoles teem apparecido no pais, da época romana, em 
íe o processo inhumatorio é ainda idêntico. 

A) Considerações finaes : 

Para a rigorosa attribuieão chronologíca, não tiro pois d'aqui ele- 
ento algum, mas também nXo se me pode argumentar com os ro- 
lhados <fa exploração d'este cemitério, para recuar a ancianidade da 
ligraphe a séculos anteriores áquelles a que presumo que cila pertence. 

É realmente muito pouco o que pois nos deu o exame d'estas se- 
ilturas. Para o conhecimento da idade do epitáfio, valeram princi- 
il monte o seu exame paleographico e a referida singularidade ethno- 
raphica. Para o da civilização a que o cemitério pertence, serviu o 
■tudo do formulário da lapide. Mas nunca seria para desprezar uma 
cploração conscienciosa e scientifica d'esta necropole e de outras iden- 
camente caracterizadas 1 . Ficam assim incógnitos alguns factores im- 
ortantes que d'ahi poderiam advir para o estudo d'esta época entre nós. 

O mobiliário fúnebre, se o houve, as variantes das inhumaçoes, os 
iracteres dos crânios e a duração da necropole, seriam factos de uti- 
ssimo conhecimento, que por emquanto nos permanecem inteiramente 
^condidos. Sem elles, o estudo da epigraphe é apenas uma folha de 
■n capitulo truncado e incompleto. 

Oxalá se possa dotar o Museu Etimológico com mais algumas an- 

gnalhas d'esta natureza. À lapide conserva-se embutida numa pa- 

ide baixa á direita do portal da quinta, c baldados teem sido os meus 

iforçoa para conseguir que os seus actuaes donos enriqueçam com 

\& o dito Museu, nobilitando-se a si mesmos com esse acto de justa 

enerosidade. Suspeitosos do seu valor, sentem estéril orgulho em a 

mserrar na sua guarda, receando em vão desestimá-la com a trans- 

íissXo para Lisboa. 

Fevereiro de 1902. 

Félix Alves Pereira. 



ère Flavy, pag. 41 c 42, e Le» sêptiliures toue dallea, par H. Debout, pag. 38, 
í e 53; e Vêpigraphie cliritieane en Gattlt de Le Blant, pag. 31. Uma grande 
arte das inhumaçÕcs doa bárbaros era feita em simples fossas e os cadáveres 
acerrados em caiifles de madeira, dos quaes resta a pregaria; mas alem ri 'es tas 
avia os sarcopliagos, as sepulturas de lageu, de tijolos e as emparedadas. 
'b adornos e adminiculos do vestnario o peças do armamento são para o explo- 
wlor o mais importante indicio da natureza d'estas sepulturas. Não se encon- 
ando d'estcs documentos, o caso pode tornar-se duvidoso. (Veja-se Revista de 
luimarSeg, xv, 95). 

1 Conheço- as no meu concelho em Giclla e em Parada. Mae tenho informações 



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O Akcheologo PoetcguêS 



Sociedade Archeologlea da Figueira 
0.' sesslo plenária 

Sob a presidência do sócio cffectivo Sr. Manoel José de Sonsa, se- 
cretariado pelo Sr. Pedro Fernandes Thomás, realizon a Sociedade 
Archeologica da Figueira a 6. a sessão plenária, no dia 12 de outubro 
de 1901, numa das salas do Museu Municipal. A sessão foi muito con- 
corrida de sócios e de senhoras. 

Pelo Sr. Dr. Santos Rocha foi lido um relatório dos trabalhos de 
exploração realizados durante o anno de 1900-1901': os trabalhos 
realizados no Crasto, freguesia de Tavarede; os importantes trabalhos 
feitos em Santa Olaia (concelho da Figueira da Foz); o resultado dos 
seus estudos nos museus de Paris no verão do corrente anno, etc. 
Este documento corre impresso. 

Por ter terminado o primeiro tríennio, procedeu-se á eleição da nova 
direcção. Foram depois apresentados e lidos pelos seus auctoree os 
seguintes trabalhos: 

Crenças e superstições populares do concelho da Figueira da Foz, 
pelo sócio Sr. Fernandes Thomás. O auctor referiu-se á adivinhação do 
futuro por meio das, cartas (cartas de empenho e cartas de agradeci- 
mento) dirigidas aos santos de maior veneração no concelho. Em se- 
guida tratou dos amuletos, que dividiu em dois grupos: amuletos que 
se referem a pbenomenos n&turaes e amuletos referentes a phenomenoB 
sobrenaturaes. ; mostrou em seguida que os do primeiro grupo tendem 
a desapparecer com os progressos da sciencia, e que todas estas supers- 
tições passaram insensivelmente do paganismo para a religião enrista. 
Alludiu por fim aos ex-votos de Pompeios (Itália) e aos da Nossa Se- 
nhora da Encarnação de Buarcos. 

Restos das mais antigas construcçpes dajfigueira e arredores, por 
F. Ferreira Loureiro. Neste trabalho apresenta o auctor photographias 
e descripções de alguns typos de eonstrucções antigas ainda existentes, 
e a descripção de trajes e costumes antigos da Figueira. 

O lagar luso-romano do Valle do Marinho, no Algarve, por Pedro 
Belchior da Cruz, E um lagar aberto no grés. Sobre este trabalho 
fez o Dr. Santos Rocha uma dissertação sobre o funecionamento dos 
lagares romanos. 

Necropote de Ahalar. Relatório dos trabalkos realizados pelo Dr, 
Joaquim Jardim, em dezembro de 1900, pelo Dr. Santos Rocha. O auctor 
chamou a attencão do auditório para o descobrimento de summa impor- 



1 Vid. O Archeologo Portuga, v 



■a by GoOglc 



O Abchbologo Português 



meia feito naquella necropole, um dolmon da cúpula, constituído por 
ma abobada de silhares convergentes, typo de meia laranja, feito com 
lacas de schisto e argilla. Este caso é inteiramente novo na archi- 
5 et ura dolmenica, e aceusa, segundo a opinião do auotor, influencia 
lanifestamente oriental, indicando também que a ultima phase do neo- 
thico do Algarve não deve recuar-se para alem das relações da penín- 
ula com os antigos navegadores vindos do oriente mediterrânico. 

O trabalho, bastante extenso, é acompanhado de desenhos e pho- 
jgraphias de objectos recolhidos na referida necropole, e que se acham 
o Museu Municipal. 

O l)r. Santos Rocha, ainda sobre o mesmo trabalho, tratou dos 
Taes de pedra, de que se obtiveram quatro exemplares completos e 
arte d 'outro. Fez notar a differença entre aquelles graes e os primi- 
.vos, de que mostrou exemplares encontrados nas estações do con- 
elho da Figueira. Os graee continuaram a nsar-se na época chalcoli 
bica e actualmente são elles ainda usados por muitos povos selvagens. 
)s graes de mármore, dè que se não conhecem exemplares senão na 
'eninsula, foram recolhidos pela primeira vez pelo Rev. do António José 
íunes da Gloria, parocho de Bensafrim, a quem a archeologia deve 
ssígnalados serviços. 

O Dr. Santos Rocha referiu-se depois ao fim para que aquelles 
Taes eram destinados, a tatuagem, e fez uma prelecção sobre esta, 
ss igualando- lhe origem remotíssima. Explicou depois como se tatuaria 
homem primitivo, apresentando as matérias de que poderia fazer 
so; mostrou como na sociedade moderna a tatuagem é usada pelos 
aarinheiros, criminosos, eto. 

Ainda a propósito d'uma concha de Triton noáif., recolhida no 
eferido dolmen, fez o mesmo conferente ver que o homem primitivo 
e teria utilizado d'ella s como instrumento musico, como hoje fazem 
inda os nossos pescadores. Notou que na idade da pedra deveriam 
xístir outros instrumentos músicos, mas que, constituídos naturalmente 
or substancias de fácil destruição, tinham dosapparecido pela acção 
os séculos. Para comprovar tal asserção apresentou muitos instrumen- 
os gentílicos, feitos de substancias destruetiveis. 

Materíaet para o estudo do neolitkico no concelho da Figueira (2. 1 
arte), por Pedro Belchior da Cruz. E um complemento do importante 
rabalho scientifico do Dr. Santos Rocha, Antiguidades Prehistoricas 
!o concelho da Figueira. 

As necropoles algarvias da Baralha e do Serro de Barthólomeu Dias, 
ior A. dos Santos Rocha. Esta necropole, da idade do cobre, foi explo- 
ada pelo auetor em dezembro de 1900. ** - _ _. 



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100 O Akcheologo Português 

Estudo sobre um artefacto pre-romano de ouro descoberto no Algarve, 
por Â. dos Santos Rocha. Este trabalho versa sobre uma interessante 
peça de ouro proveniente do Algarve, e que apresenta todos os ele- 
mentos decorativos encontrados na Citania de Briteiros, e semelhança 
perfeita com os discos de ouro encontrados em Mycena por Schliemann, 
e qae serviam de adorno dos punhos das espadas. 

Dezembro de 1901. p _ Belchiob da Cedz . 



Duas estátuas romanas 

(Dadiva no Mu-u Etimológico Portoguíj) 

Entre muitos e valiosos objectos que ha pouco tem entrado ao 
Museu Etimológico, avultam dnae estatuas romanas que o Sr. Vis- 
conde da Amoreira da Torre ae dignou offerecer-lhe. Estas es- 
tátuas foram encontradas em Mertola no see. xvi, e, em virtude das 
vicissitudes a que os monumentos arcbeologieos, como todas as cousas, 
estão sujeitos, achavam-ue ultimamente numa propriedade que aquelle 
illustre titular possue ao pé de Montemór-o-Xovo. 

Os leitores farão idéa do mérito d'ellas, e portanto do valor da 
offerta do Sr. Visconde, lendo um artigo que o Sr, G. Pereira inseria 
em 1890 na Revista Archeohgica, iv, 169 sqq., artigo acompanhado 
de dois desenhos. Em occasião opportuna serão pbotographadas e des- 
criptas n-0 Archeologo. 

Em reconhecimento do acto de generosidade e patriotismo que o 
Sr. Visconde da Amoreira da Torre praticou, privando-se da 
posse particular d'estes objectos para os offerecer ao Museu Etimo- 
lógico, onde ficarão sendo património commum de todos oa estudiosos, 
e constituindo importantes documentos da época lusitano- romana, pu 
blicou-se no Diário do Governo, n.° 52, de 6 de março de 1902, a 
seguinte Portaria de louvor, assignada pelo Sr. Ministro das Obras 
Pnblicas, a quem os serviços arcbeologieos estão merecendo, para 
honra do nosso pais, a mais intelligente e desvelada protecção: 

Ministério das Obras Publicas, Commercio e Industria — Direcção 
Geral das Obras Publicas e Minas — Repartição de Obras Publicas. — 
Sua Majestade El-Rei, tendo conhecimento da doação que fez o Vis- 
conde da Amoreira da Torre ao Museu Ethnologico Português, de duas 
estatuas romanas de mármore, de sua propriedade, de subido e incon- 
testável valor archeologico, existentes, pelo menos, ha dois séculos na 
sua quinta titular: ha por bem ordenar que, em seu real nome, Beja 



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O Archeoloqo Português 101 

invado o Visconde da Amoreira da Torre pelo sen elevado proceder, 
rivando-ee de dois raros exemplares da arte romana do nosso pafs 
ara enriquecer aquelle Museu. 

Paço, em 25 de fevereiro de 1902. =Manuel Francisco de Vargas. 

J. L. DE V. 



O Cerro de Penhas Juntas 

Bem lhe condiz o nome, e da sua configuração se originou, pois 
um alto, « cerro i, cercado todo de fragas, «penhas», muito próximas, 
juntas», umas das outras. Digno è de se fallar d'elle por cousas lá 
e verem, que sabidas devem ser, e não ignoradas, dos que gostam 
e observar os vestígios das gerações passadas. D'estes a attenção 
Ui fica presa, e alonga-se o entendimento em conjecturas, procurando 
xplicar quaes os povos e os tempos em que estes trabalhos se fizeram. 

Grandes foram, na verdade, para perfurarem em tantos pontos L 
:quelles rochedos, abrindo enormes e profundas galerias em procura de 
netal, que, por pedaços encontrados e algumas escorias, presumimos 
;er estanho. Muitas riquezas mineraes houve neste sítio, pois em todo 
lie, de comprimento de cerca 3 kilometros, se encontram aberturas 
outras obras que foram de minas. Km partes, uotam-se pedaços de 
nós manuarias de pedra local, e signaes evidentes de casas sem ei- 
nento, de fosBos, e muralhas de pedra solta; c, caso curioso e raro, 
ité espaços cobertos de pedras de 3 a 4 palmos, postas de pé, com 
i ponta aguçada para cima, dispostas para impedirem a passagem, á 
naneira das nossas defensas accessorias das cstaquinhas ou estrepes. 
íu o experimentei, e custoso me foi sair do recinto, em que, menos 
'auteloso, entrei. 

Em cinco sítios do terreno que percorri, menos de metade, depa- 
rar am- se-me estas estações, sendo uma o «murio», como lá dizem, fora 
lo Cerro, junto e sobranceiro ao pequeno ribeiro, que, vindo do lado 
la povoação, o torneia pelo nascente. É a mais ampla e deteriorada, 
ior se terem aproveitado das pedras para eonstrucções de muros de 
iropriedades, casas e de um moinho que está logo alli. Partindo d'este 
ibeiro, cheguei só ao marco trigonométrico, e, nesta altitude de 846 
netros, admirado fiquei do vastíssimo horizonte que observava: ainda 
pae sejam vulgares taes panoramas nestes logares, comtudo este ac- 
entuada impressão me causou. 

As tradições são vagas e vulgares, attribuindo-se isto aos mouros, 
como já se disse n-0 Ârch. Port., vi, 109, os quaes ahi deixaram 



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102 O Archeologo Português 

muitos thesonros guardados por demónios, que saem ás vezes aos pas- 
tores e sonhadores em forma de bezerros pretos. Todavia nellas, e friso 
bem isto que se dá sempre em circumstancias idênticas, descobri o fio 
que prende a estas minas a origem da povoação actual, que d'ahi tam- 
bém tirou o nome de «Penhas Juntas». 

Esta aldeia é das melhores da vertente oecidental da serra de No- 
gueira e encontra a estrada nova que da Torre de D. Chama vem a 
Bragança. Dista para sudoeste d'esta cidade 22:500 metros em projec- 
ção, e assenta a 2 kilometros para nordeste do Cerro num lombeíro que 
separa as aguas do rio Tuella, que lhe corre a 4:000 metros a poente, 
e do ribeiro, seu afluente da margem esqnerda. Nella ha uma igreja 
de construcçao moderna, pois uma das «historias* que contam, e que 
não deve passar despercebida, ê que as suas pinturas foram feitas com 
cores tiladas do «buraco das tintas*, que me apontaram no Cerro, que 
não pude examinar pela altura a que está e pelo escarpado da rocha nao 
permittir subir sem escada, que não possuía. Ainda assim este buraco 
pareceu -me ser feito para extrahir minério, e a sua denominação provir 
de uma camada esverdeada que cobre quasi todas as fragas. Mas o que 
é facto, é que nesta tradição está a ligação de dois povoados que se 
succe deram — perto um do outro emquanto á distancia geograpbica, 
mas immensamente afastados na medida do tempo! 

Bragança, Novembro de 1901. , _ , 

^ * ' Albino Pereira Lopo. 



Instrumentos de bronze 

Ainda é cedo para tentar em Portugal a reconstituição da historia 
dos tempos chalcolithicos e do bronze. Falham por emquanto os ca- 
racterísticos — que surgem parca e espaçadamente, numa lentidão e 
indigência desesperadoras, mercê da causa primordial do seu desco- 
brimento — a mera casualidade, que é quem de ordinário os exuma 
do esconderijo, os assoalha do thesouro do fundidor ou do mercante, 
os patenteia ao profanador da sepultura secular. Acrescente ee que não 
raro da jazida millenaria caem logo obscuramente no cadinho redactor 
do caldeireiro ou entram desprovei tosamen te em ignoradas collecçSes 
privadas ou se dispersam em destinos similarmente ignotos. 

Não é, pois, supérfluo o registo publico de quantos instrumentos 
d'aqnelles tempos o cultor da palethnologia indígena possa colligír, bem 
que o exemplar archivado esteja calcado em moldes banaes i mingua 
de aspectos e pormenores interessantes. 



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O áecheolooo Português 103 

O grau de certeza da futura synthese ethnographica da idade cu- 
•ríca ha-de oscillar em proporcionalidade directa com a complexidade 
extensão da serie de factos conhecidos e parcellarmente estudados. 
í ainda: a notação perfeita da carta archeologica do pais, a organizar 
im dia, ha-de obviamente depender da densidade do grupo de objectos 
iilgarizados com a assignacao precisa da sua localização chorographica. 

Esta a justificação da nótula subsequente. 



Os dois celta figurados nas gravuras 1 e 2 representam duas phases 
idustriaes de uma das epochas do período tsiganiano ; sSo do grupo 
lassico denominado morgiano por lhe servir de typo o mobiliário da 
elebre estação palafittica de Morges no lago de Génova, cantão suisso 
e Vaud. 

Fig. 1.* Machado de cunha ou chato, encontrado em Arneiro de 
Ubufeira, Salvaterra de Magos. 

Typo dos mais singelos, nu de ornamentações, que tanto opulentam 
s celte congéneres da Inglaterra, da Escossia, da Irlanda, etc. A forma 
inda é modelada pelos machados neolithicos e cbalcolithicos, mas já não 
xhibe aquella faceta de peculiar rudeza, que é característica dos al- 
ores da industria metallurgica. 

Divisa-se-lhe ainda nos bordos a linha das rebarbas produzidas pelo 
geiro extravasamento do metal candente no molde univalve. Mas é 
ambem perceptível o trabalho de correcção pela martellagem que as 
ebateu, produzindo o boleamento pronunciado dos bordos. 

Ás faces, lisas e approximadamente symetricas, foram martelladas 
ara augmentar a densidade do metal e a resistência do instrumento ; 
eviam ter sido também polidas, especialmente no gume que a prece- 
ente operação mechanica alargara em amplo semi-circulo. 

Dimensões: comprimento n, ,158; largura máxima no gume O^^íí 
no caboO" 1 ,^; espessura media O 01 ,011. Peso: 650grammas. Matéria: 
bronze. Pelos trabalhos de Chantre e Schreiber sabe-se que machados 
lenticos teem sido encontrados em França e na Allemanha; Evans 
escreve exemplares semelhantes descobertos no Reino Unido, na Hun- 
ria e mesmo no México. 

Fig. 2. a Machado de talão redondo e duplo anel ou aselha, achado 
om outros de inédito destino sobre a cumieira de um monte próximo 
e Caminha. E o palstave vulgar, tao diffundido em Hespanha e Por- 
ígal e cujo apparecimento tem sido registado na Inglaterra, na Es- 
ossia, na Irlanda e na Fraoça, ainda que em menor abundância. 



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104 O Archeoloqo PoiíTUGDÉs 

O exemplar que descrevo e salvei da obscura e humilde funcçSo 
de peaa-papeitj não chegou a ser usado. Esta circumstancia e a de ser 
encontrado com outros similares persuadem-me de que constituíam 
todos o tkesouro de um fundidor ou de um negociante. Não preciso, 
porém, este ponto, porque foram baldados os esforços par* averiguar 
das condições de jazida e demais pormenores do achado. 



'.^m 



O instrumento conserva adherente a cabeça de fundição e mostra 
bem salientes as rebarbas formadas pela fuga do metal em fusão através 
das fissuras provenientes da imperfeita juxtaposiçlo do molde duplo. 
As suas superfícies Bao rugosas e revelam, mesmo através da patina, 
a falta das operações metallurgicas posteriores á fundição— a martel- 
lagem e polidura. A linha do gume, quebrada em angulo obtuso, não 
documenta o uso do machado, mas a fractura accidental, muito antiga, 
a imperfeição do molde 011 da operação da fundição. 

Ao instrumento pode applicar-3e perfeitamente esta obaervação de 
Evans: <A en juger par 1'état imparfait des outils et des armes trouvées 
dans quelques dépôts des fondeurs de bronze anciens, il semble 



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O Archeologo Português 



105 



robable que les fondeurs ét-haugeaient aouvent leurs marchandises à 

eu prés telles qu'elles sortaient du moule ; les acheteurs lea ter- 

oinaient eux-mêmes* '. 

As canelluras do paútavt sao muito estreitas (0™,0125 a 0* } 011) 
pouco profundas (0' n ,0055 a O 1 " ,0035), de modo que o diaphragma 



Fig. S.* — Micbiido ds Ca» 



ntermedio exhibe-se muito espesso (0 n ',021) e o talão apertadíssimo. 
\ secção transversal é hexagonal. Como no precedente, nota-se neste 
i ausência completa de qualquer ornamentação, quer nas faces e nos 



1 Uâge du bronze, pag. 493. 



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106 O Archeologo Português 

bordos, quer no diaphragma, onda apparece ás vezes para auxiliar a 
segurança do encavamento. Dimensões: comprimento com a cabeçada 
fundição 0"',220; largura provável no gume 0'",044; espessura na al- 
tura do talSo 0»,O32õ e no gume (ffiOSb. Peso 1*,150. Metal: bronze. 
Fig. 3.* Escopro ou cinzel de bronze, encontrado a pequena dis- 
tancia de um muro e a diminuta profundidade do solo, junto da linha 
raiana do Barroso, concelho de Montalegre. 



Kif. S.*— Escopro de Utmu 

As faceB maiores são de igual largura e convexa» na linha do com- 
primento, convergindo symetricamente para formar o cabo e o gume 
bem aguçado. 

Nas faces menores distinguem se bem as linhas das rebarbas, re- 
batidas a martello. 

A secção transversal dá um rectângulo; a longitudinal é lenticular. 

O instrumento foi usado: mostra-o a falha de metal no cabo deter- 
minada pela percussão; indicia-o a polidura, do game. 

Dimensões: comprimento 0™,105j largura 0™,0345; espessura ua 
parte media m ,09õ. Pcbo 245*,0. Metal: bronze. 

Os typoB d'este escopro são bem conhecidos. 

Porto, 1901. JosÉ FoRTE8 . 



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O ãkcheoloqo Português 



Estudos de numismática oolouial portuguesa 

2. Ás offlelnas monetária» de Dam ao nos séculos XVII e XVIII 

O a jesuítas mo o dei roa 

Em 22 de janeiro ultimo fomos agradavelmente surprehendidos cora 
recepção de um exemplar do livro Noticias e documentos para a hiê- 
ria de Damão, edição de Bastorá, 1900, que o auetor, o Sr. António 
rancisco Moniz júnior, nos offereceu. 

Data obra, eminentemente histórica, veiu revelar um facto igno- 
do: a existência de uma officina monetária em Damão no século xvm. 

O auetor descobriu provas, inéditas, d'este facto, cuja noticia será 
>r certo recebida coar agrado pelos estudiosos, que gostam de conhecer 
sumptos novos referentes á numismática índo-portuguesa. Com taes 
ementas, e com as informações constantes do documento n.° 53, in 
;rto a pag. 509 do vol. in da Descripção geral, etc., de Teixeira de 
ragão, reconstrue-se o passado monetário de Damão. 

O vice-rei D. Lourenço de Távora, por alvará de 22 de agosto 
i 1611, a instancias do senado de Damão, cidade em que a moeda 
3stinada aos trocos era escassa, concedeu licença para que o bazaruco 
i cobre, moeda local, fosse ali fabricado; porem bazaruco de lei, obten- 
í-36 de cada quintal de matéria prima as moedas que o sen valor de 
ws ta houvesse de produzir, levadas em conta as despesas e as quebras 
) fabrico, isto é, ordenava-se a abstenção de lucros para o senado. 
Bta concessão era idêntica a outra que o mesmo vice-rei, pela pro- 
.ssão de 15 de janeiro d'aquelle anno, concedera ao senado de Ba- 
úm. Ambas as cidades obtiveram, pois, o direito de vexar o povo em 
arfei ta identidade de princípios. 

Ignora-se com que animo o povo de Baçaim supportou o bazaruco, 
aposto a titulo de necessidade. 

Sabe-se que o senado de Damão, logo ao fazer as primeiras einis- 
íes, mostrou competência para escândalos gananciosos, que tomaram 
osteriormente vigoroso incremento, apesar da prohibíção expressa na 
sgalia concedida, e sabe-se também que os falsificadores particulares 
rgueram tenda á sombra do laisser faire d'en(ão. 

Nesta odiosa violência contra os interesses do povo, o bazaruco 
amanense, não se contendo nos limites do território onde lhe cumpria 
ireular, derivava para o sul, onde o commercio o repellia desdenhosa- 
íente. 

Em breve as queixas incommodaram o vice-rei D. Jeronvmo de 
.zevedo, que mandou, por alvará de 18 de maio de 1(513, suspender 



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108 O Archeologo Português 

a cunhagem. Não cassou a licença, que o seu antecessor concedera, de- 
clarando que carecia de pessoalmente syndicar de factos incriminados 
para deliberar com acerto opportunamente, por certo receando que do 
assumpto derivasse enxovalho para a sua dignidade de magistrado, jus- 
ticeiro e digno que era, perante a metrópole. O senado equilibrava- se 
com a sagacidade de seus vereadores, e os falsarios acompanhavam -no, 
apesar de não terem recebido convite prévio para servirem de com- 
parsas naquetlas scenas dramáticas de fabrico, contagem e emissão. 
Suppomos que as moedas da época são as do typo n.° 5 da est. i da 
obra d» Aragão. Nilo temos visto outras que, com acerto, se possam 
julgar obra do senado 

Em 1617 entraram em scena os jesuítas. Não satisfeitos com a ex- 
pansão mercantil, qite os engrandecia nas colónias, principalmente no 
Brasil, pensaram nos meios que deveriam empregar para que uma nova 
mina de interesses concorresse para o engrandecimento da Companhia. 
Foi visada a opulência de lucros com que o senado mantivera o brilho 
próprio durante os dois annos, escassos, cm que fora o criador da ma- 
ravilha monetária. 

O jesuita, convicto de que o senado e o povo deviam toraar-se 
tributários de seus interesses e viverem na absoluta dependência de 
seus desígnios, não me bastando a influencia religiosa, algo vexatória 
naquella época de obscurantismo e de ambiçfos machiavelicas, deliberou 
assenhorear-se da baixa situação monetária damanense, a melhor fonte 
de receita e mais appetecida. Foi rojar-se aos pés de D. Jeronymo de 
Azevedo, que, com a provisão de 22 de março de 1617, cassou a li- 
cença ao senado e a transferiu para a reitoria do collegio das onze 
mil virgens, annexo ao convento de S. Paulo, propriedade e residência 
dos padres da Companhia de Jesus, deixando á afrontada corporação 
apenas a faculdade de intervir nas intenções da reitoria, sempre que 
esta emittisse bazarucos de tutenaga, metal escolhido para o fabrico. 

O reitor do collegio montou a officína monetária no armazém da 
administração do mesmo estabelecimento, na sua própria casa, e fez-se 
moedeiro ! 

Até ao anno de 16í)5 parece que não houve reparos da corporação 
syndicante a respeito da qualidade ou quantidade dos produetos de fa- 
brico jesuítico. E notável que ato hoje nao tenham apparecido provas 
materiaes do luxo monetário d'esse tempo. Não se presume com que 
symbolos foram fundidas. Naquelle anno os jesuítas, apesar da opu- 
lência com que viviam em Damão, passeando nas ruas conduzidos em 
palanquins agaloados de ouro, principesoamente, no testemunho do via- 
jante italiano Gemelli Careri, que então visitou a cidade, accordaram, 



Wtizedby GoOglC 



O ÁKCHEOLOGO PORTUGUÊS 



m capitulo secreto, que a tutela do senado era intolerável. Urgia que 
e pedisse emancipação, completa e formal, considerada de inteira jua- 
iça a liberdade para o culto da bazarucada *. Ei-Ios novamente em ro- 
laria até ao palácio do vice-rei, que então era o conde de Villa Verde, 
tomem de largo fôlego administrativo e de audaz iniciativa. Ás razões 
pae ponderaram são desconhecidas. O teor da provisão de 18 de junho 
lo mesmo anno, arrancada ao vice-rei, jaz, infelizmente, ignorado, põ- 
em a ideia principal resalta de quatro documentos históricos, notável- 
aente interessantes e ao deante tranacriptos na integra, que o auctor 
la obra que começámos por citar encontrou, compulsando o liv. I do 
egisto de cartas patentes e provisões do antigo senado de Damão, 
. pag. 147 sqq. Pela sequencia dos factos inclinamo-nos a julgar que 
i jesuita não se contentou com aquella victoria ; outra planeou e obteve. 

No Archivo Português Oriental e no Ckronista de TUauary, de Cunha 
iivara, preciosas narrativas de actos da administração portuguesa no 
oriente, faltam referencias á época em que findou a regalia, dada pela 
>rovisão de 15 de janeiro de 1611 ao senado de Baçaim. Pode pre- 
lumir-se que este concorrente incommodasse o moedeiro damanense 
:om a superioridade de seus productos, a cujo fabrico presidiria espi- 
■ito económico e digno, agradável ao povo, que não se queixava nesta 
tpoca. A queixa soa longe e passa a gerações futuras, transmittida 
leia historia; esta conhece-a, mais ou menos nos seus pormenores, se 
iquella deu causa a providencias enérgicas de occasião. Não se pro- 
testou; por conseguinte o senado de Baçaim portou-se dignamente. 

Na occasião da romaria até á cidade de Goa a influencia jesuítica 
ogrou a annullacao da regalia de Baçaim, assimilando-a em seu proveito, 
nercô da amabilidade de um vice-rei, o Deus a quem melhormente 
iUpplicára. 

à ordem seria dada secretamente? Honre uma espécie de portaria 
tarda, não registada, para que não fosse conhecida da critica do futuro ? 
^ne o que quer que fosse de estranho foi concedido demonstra-? o pela 
existência de moedas assignaladas com as marcas monetárias D e B, 
jue significam Damão e Baçaim. 

Quem, pela historia, conhece o caracter do jesuita, independente 
s altivo, pôde por ventura julgar que elle conjugasse ideias com ideias 
Uheias no intuito de obter larga circulação para a sua fazenda em 
terras do norte? isto é, que a contento do antagonista, e de accôrdo 
:om elle, criasse nova moeda? Não é crivei. Dois exemplares de moe- 
las fundidas pelo jesuita, depois de emancipado c duplamente victo- 



1 Esta palavra encontra-ae nos próprios documentos antigos. 



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O Aiicheologo Português 



rioso, existem na riquíssima collecção de numismas indo-portugueses 
que possue o Sr. Júlio Alcili, residente em Ziirich. Eis os desenhos. 



Estas moedas, como se vê, são variantes entre si, distanciadas ape- 
nas por onze annos; comtudo a fabrica é idêntica. São duas notabilis- 
simas raridades. 

As differenças de pesos são sensíveis, por quanto a primeira moeda, 
a que falta um pedaço, tem grammas 18,90, e a segunda, completa 
e magnificamente bem conservada, pesa menos; apenas grammas 16,10. 
Veremos como outras differenças de pesos e diâmetros motivaram pole- 
mica azeda entre o senado e o jesuíta no anno de 1755. 

O jesuíta produziu obra bem visível. As letras monetárias D e B, 
de coltossal grandeza em relação ao typo dos anversos, claramente se 
referem ás duaa cidades. São symbolos fallantes. Nestas moedas, desde 
o circuito granulado até ao modulo, tudo é vasto e pesado, como a ar- 
chitectura sacra d'aquelle tempo. Os escudos de armas do reino, de gra- 
vuras barbaras, mostram o estylo e o gosto do desenhador damanense, 
o ourivez, o pobre que vagueava de aldeia em aldeia, de habitação em 
habitação, em busca de trabalho, sem omeina, vivendo de situações 
do acaso a triste vida nómada d'outrora, semelhante áquella de ourivez 
hindu nas provincias de Bardoz e de Sattary, o vagabundo artista da 
actualidade. 



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O Archeologo Poktcquès 111 

Nos reversos a cruz da Ordem de Christo, que era insubstituível, 
orque se tratava de intervenção sacerdotal, ampla e grandiosa, accu- 
iva o anno do fabrico e a ideia da redempção, ideia que convinha 
■mbrar quotidianamente aos povos, não esquecida a letra da antiga 
rdenança de 1634, a qual dissera aos moedeiros do Oriente que os di- 
imos da índia eram propriedade e gozo do mestrado d'aquella Ordem. 

O bazaruco, tendo recebido as marcas de Damão e Baçaim, como 
m escravo que pertencesse a dois senhores, vagueou de uma para outra 
idade. Elle era apresentável e sympathico. Provavelmente gozou de 
ama e teve o perfume da respeitabilidade do fabricante. Não era indi- 
■esto aos paladares, apesar de nao ser mais do que um mal, necessário 
alguém, criado como providencia immaculada, e até porque desde 
anno de 1667 as moedas estrangeiras de cobre, calaim e tutenaga 
So corriam em Damão, nem nas cidades de Chaul e Baçaim e ter- 
itorios annexos, por deliberação do Conselho da Fazenda de Goa, 
ornada em 9 da julho do mesmo anno. (Aragão, documento n.° 95). 

As moedas que apresentamos tiveram o valor de dez bazarucos, 
maior valor de então em moeda de tutenaga, pois que f na conformi- 
lade da resolução do Conselho da Fazenda de 18 de abril de 1720, 
•ara atalhar os abusos commettidos na alteração das estivas dos baza- 
ucos pela adviinistração das terras do norte (allus3o clara a Damão), 
e determinou que as moedas de dez bazarucos tivessem o peso de 396 
^rãos de tutenaga (19,80 grammas), e nesta proporção se deviam lavrar 
s suas fraeçBes». (Aragão, pag. 283). 

A moeda de 1723, antes de quebrada, teria este peso. 

Pode ajuizar-se das eoudiçSes do fabrico em 1734, reveladas pelo 
xemplar d'este anno, sabendo-se que desde 1716 o preço de cada 
uiutal de tutenaga bruta regulava por 60 xerafina, e que o de calaim 
-alia cerca de 100. 

Em 1734 foi misturado chumbo, mais barato que o calaim. O exem- 
ilar d'este anno tem menos peso e . . . . mais fraude. Que rendoso foi 
i mister de moedeiro damanense! 

No reinado de D. José, em pleno século xvm, o senado de Damão, 
i nobre senado, nao via com olhar prazenteiro a opulência do jesuita, 
i qual contrastava com a decadência em que, apesar de nobre, ia vi- 
'endo, e d'aqui derivou a triste questão que entre elle e o Padre José 
le Andrade, então reitor do collegio, se produziu. A bazarucada, ap- 
etecido pomo, originou a discórdia e as consequências. Teve logar 
i incidente em 1755. 

O jesuita por tal modo vexara os mercadores ebotiqueiros com abun- 
lancia de bazarucada, fundida nesse anno e no anterior, com peso di- 



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112 O Archeologo Português 

minuido, que o senado, em accordão de 22 do abril, resolveu convidá-lo 
a recolher as emissões em giro. O Reitor do collegio das onze mil 
virgens, ufano com a prerogativa e benesses d'ella derivados, nas epis- 
tolas que dirigiu ao senado em 23 e 28 do mesmo mês, allegou de 
sua justiça numa linguagem, quasi rude, em que ha re saibos de polidez 
fictícia. Longe de confessar que no campo do abuso fora muito alem 
das fronteiras marcadas na concessão, allegou que a antiga intervenção 
do senado caducara em 1095. Que a delicadeza jesuítica já não devia 
bradar: agua vae. Que a sua provisão era independente, livre, e, ap- 
proveitando o ensejo, expunha a calva do senado á luz do sol, accu- 
sando-o de esbanjar na razão de dez mil xerafins de prata mensal- 
mente, quantia esta que se n£o comparava com o pretendido vexame 
imposto pela mísera bozarucada de sua lavra, e, finalmente, decla- 
rando- se erudito em theologia, a melhor válvula de segurança contra 
desmandos de consciências, varria o formidável golpe de intimidação 
que o senado lhe vibrara. Xaquella maré de censura o jesuita consi- 
dera va- se a pequenina onda em mar em que a corporação de vereadores 
era a vaga altiva. 

Sao desconhecidas as respostas do senado aos argumentos do ini- 
migo, que se revestira da firme e serena altitude do innocentemente 
culpado. E de crer que as respostas fossem pobremente fundamentadas, 
filhas de esmagadora humildade iotelleutual. O senado, o antigo insur- 
recto chronico, bravamente insurgido em nome do povo, caíra na si- 
tuação desesperada do vencido. Leiam-se os documentos comprovativos 
da questão, provas cujo sabor exquisito dão a norma do estylo epis- 
tolar da época. 

Para alem do anno de 1755 não ha noticia de novas emissões em 
Damão. O fio da extranha contenda quebrára-se, como se quebra um 
fio de linha nas mãos de um descuidado. Talvez não labore em erro 
quem pensar na enérgica intervenção do Marquês de Pombal em se- 
melhante assumpto. Etle dispunha de meios, infaltiveis, com que obrava 
prodígios de administração. O mo ed eiró teve de archivar a ferramenta 
e de fechar a officina, em prejuizo de onze mil virgens, que tantas 
eram as pseudo-interessadas no negocio, irremediavelmente perdido 
para sempre. 

Fica provada a existência da officina monetária de Damão no sé- 
culo xvm, denunciada pelos documentos que se seguem, os quaes justi- 
ficam a interpretação dada ás letras monetárias DeB, que figuram nas 
moedas cujos desenhos apresentamos; estes documentos são, como dis- 
semos acima, extrahidos das Noticias de Damão, do Sr, Moniz Júnior, 
pag. 227 a 237. 



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O Abcheoj-ogo Pohtuguês 



Copia do registo da resposta que □ Senado de Damão 
dirigia ao p.* reitor 

Recebemos a carta de V. Rma. e nella o que nos relata sobre a factura da 
z&rucada e asentandoee este Sennado o inconveniente de não encontrar a ba- 
rucada nova com a velha deve V. Rma. mandar fabricar com divizão aquella 
e pretende fazer de três rodas para vir no conhecimento de mais rústico aó 
m de não servir de prejuízo ao pouvo. A relligioza pessoa de V. Rma. G ° D.* 
' an. 1 . Em meza de vereação 1.° de Abril de 1753— José de Souza. (Mais três 
iignafuras). 

Outra 

M. R. Sr. P.° Administrador José de Andrade. Ontem que SC contavão SI 

corrente nos reprezentou o pouvo d'esta cidade especialmente os mercadores 
jotiqueiros que pela muita abundância de bazarucada que V. Rma. tinha man- 
do fazer se achavâo privados de trazerem os necessários para esta praça por 
■em conduzidos para as terras estranhas fora dos nossos domínios, especial- 
:nte os mantimentos que para estes se conduzirem lhe era preciso mneda de 
■.ta, esta se não achava na terra senão com grandes avanços e a bazarucada 
e nio corria principalmente a nova nos ditas terras e ainda para se venderem 

géneros de seus contratos na terra lhe lio iinposivcl por se ter em primeiro 
prata pella muita bazarucada e este muita falta do seu valor intrinzico. E pon- 
rando este Bennado a justiça que asiste aos ditos mercadores e a necessidade 
e dellcB temos para conduzirem os necessários para a conservação desta Praça 
e do contrario ficará em grande esterilidade nos pareceo ser justo recolher 

Rma. a nova bazarucada que mandou fazer o verão passado e o prezente por 
r- feita sem a intervenção deste Sennado na forma da Provizâo de 22 de Março 

1617 do Sr. Dom Hj-eronímo de Azevedo V. Rey que foi deste Estado e assim 
;speramos da V. Rma. para socego e a quietação deste pouvo. G.° Dcos a pessoa 

V. Rma. m\ a". Em Meza de Vereação 22 de Abril do 1755 — José de Souza 

mais três assignaturaB) fl. 147. 



Copla do registo da resposta do p.' reitor 

Srea. Vereadores e mais off." do nobre Sennado. Receby a carta de V. M.* 
22 do corrente e a ly com a devida atenção. Responderey em particular a cada 
im dos pontos delia com a possível clareza. Primeiramente venero a represen- 
ção desse nobre sennado em matérias de tanta ponderação, porem ainda que 
m V. M." sinto a novidade que me dizem tem canzado a grande abundância 
s bazarucada de que se queixa o povo, e mercadores destes destrictos e a falta 
. mueda de prata com que elles querem desculpar o não conduzirem manti- 
entos e outros viveres necessários para a conservação desta cidade, não posso 
mtndo deixar de reparar em que sahindo do cofre de El-Rey Nosso Senhor 
da mez pouco inais ou menos dez mil xerafins em prata e as vezes ainda mais, 
da esta desgraça, e aó avulta a bazarucada que assim a do anno passado como 
deste toda hé muito menor cantia. Pello do que n'este collegio se cambou então 
agora: porquanto se os mesmos mercadores sabirfio agora com a bazarucada 
itiga que talvez guardacem como costumào esperando ocazião de acharem uella 
'anço, ou se de fora se tem introduzido mueda da mesma, ou de outra forma 



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O ÃRCUEOLOGO POKTIJQUÊ8 



n3o he culpa minha, nem amim me pertence obviar esta desordem. E reparo 
também em que o mesmo pouvo e mercadores sabendo, como amim me consta 
que no Armazém desta Administração se bata esta ultima e a penúltima baaa- 
rucada então mesmo não requeressem ou a suspensão da factura, ou ao menos 
o cambio da mueda, antes esperassem que se fizessem as costumadas despezas 
e se apheasse o necessário trabalho o que se não faria, nem se emprenderia, 
quando o mesmo povo não frequentace este collegio pedindo bazarucada e se 
esta frequência não tivesse precedido se faria escuzado a tomar eu. dinheiro 
a ganhos, para a compra da tutanaga, para o transporte, para os direitos de Snr- 
rate e para os mais gastos inevitáveis a factura da mueda e assim quando nesta 
matéria houvesse, ou parecesse haver alguma culpa, aos mesmos queixosos se 
deve atribuir, e não a quem com o risco, e com o trabalho, pertendeo remediar 
a falta de bazaruco que o mesmo pouvo encarecia, e verificavão effec ti vãmente 
o seu encarecimento. Concorrendo para alguns depois de feita a bazarucada até 
que em outras partes mercadores por auetoridade própria comessarSo a deme- 
nuhir o preço da mueda dando de mais por cada rupia alguns janav adis como em 
outras occasiÕes costumão dar menos pela mesma rupia, alteração e novidade que 
se deve reprovar. E no que os mercadores alegão sobre o não correr a nova mueda 
por ser esta demenuta ainda no valor intrinzico, parecerá a alguém muito justi- 
ficada rezão. mas olho as cousas com olhos limpos, qualquer prudente julgará 
muito pello contrario. He certo que nem esse nobre Sennado, nem também os 
mesmos mercadores íguorão que a demenuiçSo do preço desta nova mueda foi 
industria consultada e aprovada pella prezente vereação e pello Governador An- 
tecedente Francisco Palermo de Souza não só para se atender ao exorbitante 
preço que então tinha a tutanaga a qual nunca a tem certo : mas também e prin- 
cipalmente para se evitar d'este modo a extracção de bazaruco para outras terras 
a qual experimentava a cada passo esta praça grande falta desta mueda. £ assim 
um como o outro motivo desta aprovada demiuuhiçSo consta de uma carta desse 
mesmo Sennado escrita ao P.« Manoel Machado em 22 de Fevereiro de 1713. 
E nem assim me parece acertado o dizerem os queixosos que esta dita mueda 
falta ainda o valor intrinzico porque o valor de mueda se não toma sempre da 
matéria que ella se faz : mas pella major parte, se toma da estimação arbitraria 
aem atenção a matéria : o que se prova de que em alguns reinos a mueda corrente 
he cera, em outros solla, em outros caurv, e em outras couzas que em sy são 
de nenhum ou de Ínfimo valor, e na estimação valem por mueda. Da mesma sorte 
na mueda de tutanaga ainda que tenha mais ou menos pezo não falta o valor 
intrinzico por quanto so tem o da estimação e do preço que se lhe põem não como 
tutanaga mas sim como mueda. E claramente se vã isto na mesma bazarucada 
antiga da qual, como eu mesmo observey cada mueda tem diverso pezo e nem 
porisso vale mais a mueda de doas rodas que peza menos, nem he possível que 
esta mueda saya com igual pezo porque alem de que a forma se gasta com o uso 
também as vezes nella cahe mais ou menos calda. E quanto ao que V M-* dizem 
de lhes parecer justo que eu recolha a bazarucada d'este anno e do verão passado 
respondo que para se evitar qualquer desordem e qualquer indigência nesta ju- 
risdição se me não difileutaria recolher toda a dita bazarucada quando eu ou 
a força ou por meyo de estartagemas tivesse mettido casa de cada qual porem 
como assim não sucedeo antes pelo contrario o Povo continuou pedindo neste 
collegio bazarucada por cambo, me teria lugar para dizer, que eu lhe fiz favor 
lhe não fiz injustiça, e que por nenhum titulo catou obrigado a receber a dita 



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O Akcheologo Poktugué8 



arucada. Nem eu mandey bater esta mueda para lhe dar logo o c< 

para que sendo a feita conservasse em caxa, para poder depois acudir qualquer 
essidade qae podia sobrevir cm tempo em que não fosse possível a condução 
tutanaga e quando o mesmo povo não viesse a pedilla, eu me daria por sa- 
eito com que ella me ficasse em caxa para os gastos domésticos : e com efeito 

este mesmo motivo se não deetribuhio a todos os que a pediio. Nem eu mandei 
.der bazarucada pellas ruas; nem convoquey ao povo. para vir cambar neste 

egio. E assim tenho respondido ao ponto de recolher a bazarucada. E só arres- 
to que com outros meyos se pode e talvez se deve atender ao sucego c bem 
Praça. Mas não fae bem que passemos em claro o motivo que V. M." na sua 
ta me espressa para en dever recolher a dita bazarucada que vem a ser o de 

ella feita sem intervenção desse nobre Sennado na forma (diz a mesma carta) 

Provisão do Ulmo. e Exmo. Sr. Dom Jerónimo de Asavedo V. Rei da Judia. 

este hum ponto em que principalmente se funda toda a justiça que V. M.' 
1S0 em en recolher a bazarucada porem como o mesmo ponto se estriba em 
ncipios falliveis, menos he, do que parece a rezào: por quanto por esta eu 
ho a certeza de que a dita Provizlo só falia em mueda de cobre, que em certos, 

em certo tempo, se bateo talvez depois se suspendesse com ordem contraria, 
por outra parte tenho por infallivel, que na dita Provizão se nSo determina, 
: não possa esta Administração bater mueda bazarucada e de tutanaga sem 
ervenção do nobre Sennado: antes acho no Livro da mesma Administração 
ra Provisão em que não he ao nobre Sennado mas sim a esta Administração 
icedeo o Ulmo. e Exmo. Sr. Conde de Villa Verde V. Rey também deste Estado 
tenando na mesma para bater mueda de basaruco quando fôr necessária e esta 
ivix&o até agora não foi revogada e be muito posterior ao do Ulmo. e Exmo. 

Dom Hyeronimo de Azavedo — por que alem de que todos sabem que o dito 
ino. e Exmo. Sr. Conde governou a índia muitos annos depois das datas das 
as Provisões se vê claramente que a dita Administração he setenta e oito 
aos mays moderna pois que a que esta registada nesse nobre Sennado foi pas- 
la em 22 de Março de 1617 e a dita Administração foi passada em 18 de junho 

1695 o qne exposto consta que eu não tinha obrigação de esperar intervenção 

nobre Sennado para a factura da bazarucada quando o pouvo me represen- 
ta haver necessidade d'ella e assim se me não deve fazer carga de a ter feito 
n motivo e muito menos posso nem devo ser condenado em recolhella bem he 
e quando da factura ou do cambo da mueda se lega algum grande prejuízo a 
publica não poderia en estranhar por parte do nobre Sennado se me fizesse 
tece dentem ente algua representação nem deixaria de obedecer lhe quando me 
isinuasse como necessário o bater esta mueda para o bem comum isto he o que 

me offerece e fico sempre muito penhorado pelos preceitos d'esse nobre Sen- 
do. D.* G." iV. M. 1 m.* ann.- Collegio 23 de Abril de 1755. José de Andrade. 

Outra oarta do mesmo reitor 

* Diz estacaria que para se fabricar esta mueda (bazarueo) com cunhos 

ivos foi necessário a intervenção do nobre Sennado, ca isto digo que confesso 
le para os novos cunhos e demiuuiçâo de pezo foi necessária a intervenção do 
to nobre Seuuado, não por que a Administração com o nobre Sennado uem elle 

' & prluidr» parle d'e«U atrta e>U Ulrglwl. 



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116 O Archeolooo Pobtuguès 

com ella possao alterar ou diminuir, ou innovar cunhos de mueda por que isto 
he regalia doa Príncipes. E em cazos da necessidade o he também dos seus Lu- 
gares- tenentes: mas em circunstancias em que havia autnalmente grande ne- 
cessidade da mueda inferior e em que se não podia esperar determinação da 
corte foi necessário haver convenção com a republica para se poder fazer, o que 
em semelhantes cazos, e distancias permite o direito, e não concorreo esta in- 
tervenção porque careaesse d'ella esta Administração precisamente para a fa- 
ctura da mueda de bazaruco por que esta se lhe concede independente de inter- 
venção algua, e só com a limitação de durar, só athe se ordenar o contrario. 
He verdade que não concede a dita provizão faculdade para se mudarem preços 
nem pezos e porisso no tempo em que se havia dar principio esta nova bazaru- 
cada se tomou para a deminuição do peso, novidade do preço sobre cunho o con- 
sentimento do nobre Senuado e também do Governador que então era Francisco 
Palerma de Souza e se ainda para a factura da mesma bazarucada sem respeito 
ao novo preço e ao novo cunho interveio o nobre Sennado não foi talvez, por 
que o padre Manuel Dias c quem lhe sucedeo requereo ao mesmo nobre Sennado 
no principio a sua intervenção nem pedisse licença para bater mueda. mas re- 
quereo o mesmo nobre Sennado ao dito I'.° que mandaee bater mueda de baza- 
ruco para o ineneyo necessário da cidade e que não bata para se dizer que a 
factura da pura bazarucada carecia da intervenção do nobre Sennado pois a 
mencionada Provizão lhe concede em casos de uecessidade Licença, c assim nem 
o nobre Sennado deve intervir na factura da ordinária bazarucada nem também 
deve nem pode mandar a mesma Administração a cantidade de dinheiro que 
se deve empregar na tutanaga para o effeito da mueda ainda que eu não nego 
que não possa representar cm nome da republica que não convém em tal ou tal 
circunstancia para o bem comum haver bazaruco novo ou haver mais ou menos 
bazarucos. Fallo com mais clareza. Huma cousa é fazer-ce mueda e outra cousa 
é tazer-cc mueda de major ou menor preço do mesmo ou diverso cunho e de 
maior ou de menor pezo em matérias que de sy tem ou não tem valor intrinsieo. 
A primeira mueda em casos de uecessidade pode fazer c a tem feito muitas 
vezes esta Administração. Mas a segunda mueda nem com a intervenção do nobre 
Sennado nem sem ella a pode fazer por que para isso lhe não tem dado os Prín- 
cipes previlegio algum, nem a dita Administração nem ao mesmo nobre Sennado 
e se elie o tem não pertendo impedir-lhe o uso delle: mas na suposição, de que 
O nSo haja, só nas circunstancias do tempo em que se deo principio a esta mueda 
nova olhado distancia dos lugares e perigo do demoramento se podia dispor o 
que se dispoz na matéria da bazarucada. £ como depois daquellas circunstancias 
e depois de feita e cambada a primeirabazarucada continuou o pouvo a frequência 
deste Coltegio pedindo mueda para o cambo por estar já estabelecida e admitida 
pcllo pouvo a dita nova mueda se mandou fazer algua pouca para satisfação do 
mesmo pouvo ao qual não tinha bastado a contia que o nobre Sennado determinou. 
E passado algum tempo se vio outra vez o concurso dos militares e de outros 
pedindo bazarucos nas portas deste Collegio a vista do que eu considerando que 
para o diante havia de ser major falta desta inferior mueda antecipadamente 
por ver que não acharia depois ocazião oportuna para o transporte da tutanaga 
a mandey vir e por não advinhar a Altura concurrencia de bazarucada de fora 
mandey bater a mesma mueda já estabelecida e introduzida com universal con- 
curso para poder achar com ella ao pouvo em circunstancias da necessidade. 
Dizem V. M.* que se for precisa para a factura da primeira bazarucada a inter- 



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O ÁKCHEOLOaO POBTUGUÊS 



nçSo do nobre Sennado, também era precisa a mesma para a outra que depois 

fez ; e a isto respondo, que suposto ter esta Administração licença para bater 
ueda de bazaruco, quando for necessária e suposto ter já o pouvo acertada 
nova mueda, que com algua demiuuiçilo e com novos cunhos com aprovação 
i republica e do governo da Praça sem contradição algua e suposto também 
le da forma da nova mueda se não segue prejuízo algum do comum nem ao 
.rticolar não era preciza nova intervenção desse nobre Sennado. E se a mueda 
i que falamos não corre como na primeira carta de V. M. se expressa nas terras 
> inimigo por ser a dita mueda diminuta no pezo, he sem duvida que isto mesmo 

pertendeo também quando em prezença deV. M.*, qne como verídicos nao ne- 
irao esta verdade se assentou, que se diminuísse o pezo e da carta para O 
." Manoel Machado se infere bem tudo isto. Alem de que amim me consta que 
ta mesma mueda corre nas terras do inimigo sem embargo da deminuição 
>uca ou muita do pezo para qne quem toma semelhante mueda dando seus 
feitos ordinariamente não olba para o pezo mas sim para o preço que lhe he 
tal mente intrinzico. Antes se quizermos falar em mais rigor esta mueda se 
lo pode chamar geralmente demenuta por quanto a. demenuiçao em algnas 
uedas he muito limitada e em outras das mesmas he nenhuma o que cu tenho 
iservado pezando tres rodas antigas com três rodas novas e nao achey di- 
ersidade se bem que algumas pezão hum pouco menos mas a mesma diver- 
dade se acha nas muedas de bazaruco antigo e bem duvido eu de que se algum 
ia a tutanaga for algua cotiza mais cara se possa tirar o gasto que se faz para 
ihir a bazarucada nao havendo mais diminuição do pezo da mueda. £ já eu 
ísse que se o pouvo e os mercadores nao queriad mais bazarucada nem a queriaõ 
im este preço c cunho devião requerer logo como já disse a suspenção da fa- 
:ura para que nem elles nem quem concorreo com os gastos ficasse com o pre- 
lizo. Nem digão que ignorarão a factura da mueda para que evidentemente 
insta que elles o saberão c eu me quexo de que elles se callassE em tempo em 
ue iião faltava quem os induzisse. No tocante a admiração qne V. M.' me si- 
n Loção acerca de eu contradizer os pontos qne na provisão citada na penúltima 
arta de V. M.* se contem digo que desando de parte o que no Livro 1." das roacs 
rdd. no tt.° 66 e no g 3 me permitia o direito não tcmV. M. 1 tanto de que se 
dmirem da minha resposta como da informação que me derão algnas pessoas 
ue tem lido por vezes o Livro desse nobre Sennado os qnaes assim como falarão 
ordade no tocante a permição de se fazer mueda de cobre e a revogação delia 

poderião fallar também no mais e me fez acreditallas a provizão desta Admi- 
istração a qual alem de ser mais moderna não faz menção de algua outra nem 
lais antiga nem emeontrada : e mostrando estes fundamentos cbcguey a duvidar 

se na reprezentação deV. M.' haveria algua equivocação e não me expliquey 
laqnella sorte por ignorar a honra de semelhantes Tribunacs, nem supor que 
lies custumão faltar a verdade nem também por que saiba que muitos Sennados 
heguem a governar reinos e Impérios principalmente aonde não ha rey nem 
mperadores de cujos exemplos estão cheyos os Livros e o mundo — e fico inte- 
ado do conthendo da Provizão que V. M.' me remetem mais antiga do que a 
amha 78 ânuos e tão diversa da minha que aonde est& deV. M." limitada cotia. 
ictermina intervenção do nobre Sennado e restringe circunstancia só daquelle 
empo, a minha concede a licença geralmente independente de qualquer inter- 
venção e concede a faculdade de bater mneda de bazaruco com o mesmo preço 
ithe se ordenar o contrario. 



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118 O Abcheologo Português 

Ly a dita provi zao mas das palavras delia nâo descubro os indícios da des- 
carga de consciência que V. M.* delia me ensinuío: mas em pontos quejogXo com 
a condenei a nem era necessário fallar aquella ProvizSo nem era preciso que 
V. M." com a sua interpretação me pertendessem ainda, que sem efeito intimidar 
para que para saber dirigir a mesma concieneia e ainda as de outros me mandou 
a minha religião estudar Teologia por muitos anitos e não me custou pouco o es- 
capar da obrigação que ella me punha para ca publicamente a ensinar com tudo isto 
fico muito pronto para obedecer os preceitos de V. M.' cujas pessoas DEoa G .* 
m. 1 a.' Collegio 28 de Abril de 1755. José de Andrade, cit. Liv. de reg. pg. 152. 

Lisboa, 5 de Fevereiro de lí)02. 

Manoel Joaquim de Campos. 



Noticias numismáticas 

1. Lellfio de moedas e medalhai portuguesas e nutras 

A Casa Liquidadora de D. Maria Guilhermina de Jesus, Avenida 
da Liberdade n. 01 93 a 113, realizou leilões de uma cotlecçâo numis- 
mática nos dias 5 a 12 de Janeiro de 1902. 

As moedas portuguesas, brasileiras, visigóticas, romanas, árabes 
e algumas estrangeiras, em numero de 1:178, obtiveram preços snpe- 
riores aos dos leilões transactos, realizados na mesma casa. As 492 
medalhas portuguesas, contos, pesos, senhas e verónicas, foram ven- 
didas por quantias que excederam a espectativa geral. 

O catalogo ', elaborado obsequiosamente pelo numtsmata o Sr. Ma- 
noel Joaquim de Campos, foi illustrado com uma estampa de desenhos 
representativos de alguns dos mais notáveis espécimes. Alem de alguns 
numismatas portugueses, residentes no Brasil, fizeram-se representar 
e licitaram : a Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, H. Nerong, de 
Hamburgo, J. Meili, de Zurich, J. Sehulman, de Amersfoort, e a Uni- 
versidade de Leiden. Assim se mostra que a numismática portuguesa 
nSo deixa de prender as attençôes dos amadores estrangeiros. 

S. Catalogo do museu do Porto 
O interessante Catalogo das moeda» da índia t Africa portuguesas 
que possue o Musr.u Municipal do Porto, em folheto de 36 paginas, 
formato em 4.°, 1901, foi mandado imprimir pela Camará Municipal 



1 Catalogo de uma importante eollecção de moeria* portuguesas, etc. Lisbof 
(1901), ip-8.> gr., 81 paginas. 



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O Aecheoloqo Português 



119 



da mesma cidade. O auctor, o Sr. Manoel Joaquim Pereira, guarda 
do Museu, descreve 96 exemplares indo-portugueBes e 83 africanos com 
a seguinte distribuição, por metaes : 



MMdU 






Jlr-lics 






AV. 


M. 


„. 


PL. 


ToUl 


índia 


4 

4 


44 
1 
30 
75 


41 
9 

43 
93 


7 

7 




[ Oriental 

Africa I „ . , 


10 




179 



Candeias árabes do Algarve 

1. Candeias de bronze 

N-O Arch. Port., v, 247-248, fallei da existência de uma candeia 
metallica encontrada no Algarve, na freguesia de Cacella. 
Aqui reproduzo o desenho (fig. 1.*). 



mclulllra de Ctuella 



A propósito d'esta candeia disse eu no citado artigo que ella devia 
ser da epocha visigótica, ou mais provavelmente da epocha árabe. 



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120 O Archeologo Português 

Posteriormente á publicação d-0 Arckeologo li na Revista de archivos, 
hihliotr.ra* y museos, de Madrid, m (ÍSÍID), pag. 7 sqq., ura artigo do 
Sr. D. Rodrigo Amador de los Rios intitulado Industria hispano-maho- 
metana, — Lucernas ó candSes de cobre, onde elle descreve e figura vários 
objeetos semelhantes a este, e sobre cuja origem arábiga não pode 
haver duvida, pois que alguns contém inscripçoea árabes. Como mais 
semelhante ao do Algarve, ê aquelle que reproduzo adeante na fig. 2.", 
que vem na estampa I d'esse artigo. 



Flg. 1 '—Candeia melallica de Heipanhi 

Fica assim averiguado que a candeia algarvia é da época árabe 
e não da visigótica. 

A titulo de comparação, publico também adeante um desenho (me- 
tade do tamanho natural) de uma candeia (ou candieiro) de bronze, 



Flff. 3.* — Onlra candeia melanina de Cacei] a 



-*+. hm 



O Aecheologo Português 121 

proveniente igualmente de Cacella, e que o Museu Etimológico possue 
por mercê (la generosidade do Rev. P. 5 Jacintho Augusto Quintino, 
illustrado parodio algarvio (fig. 3. a ), 

Este objecto compSe-se de um deposito circular que tem inferior- 
mente uma espécie de collo oco mais estreito; adeante ha um bico de 
forma do da candeia representada na fig. 1, o qual devia ter um compa- 
nheiro, que já falta, existindo no logar d'elle um buraco. Os dois bicos 
nao estavam parallelos, mas de modo que formavam angulo. Na parte 
posterior do depósito ha uma pequena asa, que é diversa das das duas 
candeias figuradas acima, mas que se assemelha a uma das represen- 
tadas na Revista de archivos, pag. 13; esta asa parece estar mutilada, 
pois teria primitivamente qualquer prolongamento. O deposito tem, 
tanto cm cima como em baixo, uma abertura circular, onde devia fi- 
xar- se um varão ou tubo metallico. 

2. Candeias de barro 

E frequente encontrar no Algarve (e no Alemtejo se encontram tam- 
bém não raro) candeias de barro árabes do typo representado adeante 
(fig. 4."), segundo um exemplar existente no Museu Etimológico, e pro- 
veniente da primeira d'aquellas províncias, de local indeterminado. 



Este typo è, pois, commum: bico aberto e cannellado, que faz lembrar 
um bico de pato; deposito arredondado, de cuja parte superior se eleva 
o collo alto e estreito; asa redonda e grande, que une o collo ao de- 
posito. O barro é pela maior parte das vezes branco, e ora é liso, ora 
vidrado, no todo ou em parte. Segundo o Sr. Amador de los Rios, no 
artigo ha pouco citado, sSo também de barro branco as candeias his- 
pano-mahometanas encontradas na Andaluzia (pag. S). 

Aos exemplares de candeias árabes do typo indicado, possuidos pelo 
Museu Etimológico, juntei ha tempo um exemplar raro e interessante, 



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122 O ÂRCHEOLOGO POBTUGUAS 

pelo facto de ser ornamentado, e de se differençar dos outros no as- 
pecto geral. Infelizmente esta bastante mutilado. Figuro-o nas gra- 
vuras juntas (fig. 5.* e 5.*-A): a primeira representa o objecto visto 
de lado, a segunda o fundo ou base do meBmo 1 . 



Flg. S.* (viil» delido) — Cuidela de barro de Sllre» 



Do bico e da asa só resta parte ; o deposito tem a forma de um tronco 
de cone, e apresenta em cima, perto do bico, um pequeno orifício, que 
corresponde ao collo nas outras candeias, e em frente d'esse orifício 
dois mamillos um tanto salientes. Na parte superior e inferior do de- 
posito ha ornatos, como constadas gravuras: na parte superior e central 
uma rosácea dentro de uma cercadura formada de quatro arcos de cir- 
culo, que alternam com outros tantos ângulos (como em certos reversos 
de moedas de D. Joio I), e tudo dentro de um circulo, vendo-se alem 
d'isso dentro dos arcos e em algumas das pétalas da rosácea grupos 
de três pequenos 'círculos dispostos em triangulo; na parte inferior 



i Os desenhos que serviram para se fazerem as gravuras d'este artigo, com 
excepção da primeira e da seguoda, foram executados sob a direcção do Sr. Jorge 
Collaço. 



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O Abcheoloqo PoBTconâs 123 

central, também uma espécie de rosácea, mas diversa da primeira, 
entro de dois círculos, que a seu turno estào dispostos numa epicy- 
oide em oujos arcos se vêem pequenos círculos. Dos lados do deposito 
artem sulcos que continuam no bico, e nelle se ramificam em parte, 
.sta candeia apresenta ainda vestígios de vidrado. — Provém de Silves, 

fez parte da oollecção archeologica do Dr. Teixeira de Aragão, que 
ii ha pouco tempo vendida e infelizmente dispersada. 

J. L. DE V. 

Extractos aroheologieos 
das fMemorias paroohlaes de 1768» 

4B7. Salharii (Trás-os-Monteii) 

Tom MU paio* Muuro> 

«Se acha hSa Torre junto da Igreja que dizem foram feitas pellos 
louros e terá de largor ou de ancho trinta palmos digno de altura 
ue em outro tempo dizem fora munto mais alta e de largor terá seis 
almos que hoje serue de caza em que rezide o cura que asíma fica 
ito». (Tomo xxxra, fl. 162). 

188. Salraterra de Magos (Estremadura) 

Etjnologia popnlu 

«He o nome desta Terra, Salvaterra de Magos, cujo nome e co- 
-nome, ha noticia que o tomar dos feiticeiros que antigamente vierao 
esteirados para esta terra : porque, segundo narrao os mais antigos, 
erâo estas partes humas montanhas, para as quais mandavSo os Mi- 
istros do Santo Orneio os feiticeiros, bem como agora os mandão 
>ara Castro Marim, e como o degredo para esta terra os livrava 
laquelles cárceres estes mesmos lhe chamavao terra salva; sendo as 
irimeiras partes aonde se virão cazas em esta terra feitas pellos tais, 
m hum cítio a que chamão . Magos por este sempre lá asistirem, 
içando por esta cauza chamandoce Salvaterra de Magos». (Tomo 
atxra, fl. 231). 

189 Santeiro (Beira) 

Ponta • aatrada doa Muuroi.- Pia da marmora. - Macfaado da cobra. — Bum» da theiouroi 

«Na serra neste Lemite da parte do Norte ha uma fonte de meyas 
adeyras pêra sima chamada a fonte dos moyros, a qual consta por tra- 
lissam que era de cantaria, mas nom ha hoje vestígios de tal cantaria 
»r estar tudo entulhado e cuberto de matos, e defrontte da tal torre, 
listante hum tiro comprido de baila de espingarda aonde chamam o 



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124 O Arcbeologo Português 

Azinhal dos Moyros se acha huma pia em pedra mármore, que me 
dizem parece ser feita a pico, e neste azinhal andando hnm moço 
guardando cabras haverá sinco ou seis annos a esta parte achou 
huma pica ou venabullo de metal amarello, que nam se sabe, se era 
bronze, ou se que era, porquanto a quebrou, e meteu em huma pa- 
rede sem a mostrar a pessoa que podece destinguir o que era, e pro- 
curando a para se averigoar de que metal era a nam achou, isto me 
dice o mesmo moço que he homem de verdade ; e do alto da serra 
athe o simo da fonte chamada dos moyros, vem huma estrada cha- 
mada a estrada dos moyros que se deviza mais de distancia de huma 
legoa por entre os Rochedos da mesma Serra, e toda esta estrada 
está cheya de pedras, que tem cabido da mesma serra, e coberta de 
mattos de argueyra ; no simo desta estrada principia o corredor cha- 
mado o. corredor dos moyros que está em todo o cume da serra neste 
lemite, no qual corredor está hum passeyo com seos assentos de pe- 
dra a maneyra de milheira, e de altura de três palmos pouco roais ou 
menos, e de comprimento de des ou doze varas de medir e nam se 
deviza estes assentos se foram feytos por arte ou se sam naturais, as 
iuntas das tocas estam direytas, e igoais como se focem tiradas á 
Regoa; e alguns feychos das tocas passando eu por este sitio, vi 
levantados e tirados do sen lugar e procurando para que tirariam 
aquellas pedras? me responderão os companheyros qua era effetyo 
da coriosidade de alguns homens que tendo bom thezouro nos seos 
officios procuravão achar minas nos Rochedos, e procurando cu se 
tinhao achado alguma couza? me responderão, que só trabalho e 
dcír». (Tomo xxxm, fl. 270). 

440. Sande (Entre-Donro-e -Minho) 

Pant cobertoan. — HablUflo dai Honrou 



■Não ha serra digna de memoria. Pella parte do poente tem hum 
monte que entesta na freguezia chamado o pena cobertoura no alto 
com grandes penedos». (Tomo xxxm, fl. 329J. 

«... bua serra chamada a falperra que começa no monte de Santa 
Marta áspero e alto existe hua Ermida da mesma Santa entre gran- 
des penedos, dizem foi habitada de mouros». (Tomo xxxm. fl. 321). 

441, Sinde (Entre-Donro-«-MÍolio) 

Quatro sepultam ctwmadM d« Qnstro Inoloi.— Cidadã Cyianla 

«Neste lugar de coatro Irmãos se vè para a parte do Norte na 
estrada que discorre de Guimarães para Braga coatro sepultaras de 



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O âscheoloqo Português 125 

edra fina que se não sabe memoria certa das pessoas que nelas 
xistem ; por que huns dizem serem de eoatro irmãos que tiuerão 
endencias e que neste lugar se matarão hums aos outros ; a mim me 
arece ser manifesto engano pela rezam de se verem as mesmas se- 
ulturas com decência para aquclles tempos pois se ademirão nas 
uas cabeceiras esculpidas Cruzes da Ordem de Christo; e com espe- 
ialidade em três delas deleniadas Espadas, e a vista disto me per- 
uado ser isto do tempo dos Templários e não dos eoatro Irmãos que 
vulgo affirma se matarão naquele citio». (Tomo xxxm, fl. 334). 
■Admirace nesta freguezia. . . o monte ou serra da Cidade Cy- 
ania que foy habitação dos Mouros». (Tomo xxxm, fl. 335). 

442. S&ndlm (Kntre-Dunro-e-HInho) 

Bnppoili cidade do EnfraiU.— Tom 

•He tradiçam antiga que na Casa de Sergude tinha principio a 
idade de Eufrazia, e que continuando pello valle da freguezia 
bayxo chegaua ou pasaua a de S. Pedro de Jngueiros eircumuizi- 
iho, a meia distancia de huma legoa. 

No lugar de Passos tem huma torre que está coasi demolida e 
ro inada a qual se dis he de André Luís da Villa de Guimarães e 
loie de seu genro D. António de Alem Castro (Lencastre), porque 
.ntigamente nella recolhia as suas abultadas rendas, que tem nesta 
regnesia, que hoie lhe lebam os caseyros a villa de Guimarães a sua 
uma caza chamada Villa Felor. No lugar da Torre desta freguezia se 
lis ouuera huma Torre de que hoie não ha bestigios, mas sim desta 
■asa ou Torre procedeu a família dos Sandes, que tomarão o nome da 
reguesía Sandim». (Tomo xxxm, fl. 370). 

443. Sandra (Traí -os -Montei) 



«Tem o destrito desta freguesia duas Fortallezas antigas huma no 
lestrito do lugar de Cheyres no sittio chamado o Castello que pella 
)arte do occidente acerca o rio Pinham está quasi tudo desmantellado, 
; só pela parte do rio se vem alguns vestigios de muralha em huma 
■ocha tam escarpada, que parece innacecivel athe as mesmas aves. 

«O Castello chamado aqui vulgarmente de Santa Margarida esta 
10 mais alto deste monte chamado Serra do Villarelho mostra ser 
>hra grande no tempo antigo tom inda muros em partes de onze e 
loze palmos de alto e outras esta razo com a terra inda tem duas 
miradas para a fortaleza huma da parte do Norte outra ao poente, 



cbyGOQ^IC 



126 O Akcbeologo Português 

mostra a largura da muralha ter nove ou des palmos, alem destes 
tem mais muros em circuito que occupavam meyo quarto de legoa 
em redondo a maior parte destes estam arruinados dentro da forta- 
leza principal esta hum monte de pedras, que mostra ser castello, tem 
mais junto aos muros alicerces de humas piquenas casas. Aqui tem 
aparecido algumas medalhas de prata que pela inscrição tinham Cetar 
Auguetu», tem mais aparecido muytos tijollos lavrados que mostra- 
vam serem de algumas oficinas e muytas medalhas de cobre». (Tomo 
xxxm, fl. 382). 

•Ha tradiçam que no sitio chamado a Silva se tirara ouro mas que 
por ordem da Magestade se mandara tapar». (Tomo xxxm, fl. 383). 

«No adro desta Igreia da parte do meyo dia onde esteve a Igreia 
velha está hum Mausulleu que tem sobre a pedra da sepultura a effi- 
gie de huma espada com hum arco de pedra lavrada por stma e dos 
lados guarnecido de cantaria lavrada, tem de comprimento desoito 
palmos e de largo oito». (Tomo xxxm, fl. 384). 

441. Sanitas da Castanheira (Tris-os-Montes) 

Cutre bibiUdo polo» Mourot 

• Ha também nesta ribeira (de Mouce) no termo da quinta de 
Parada desta freguesia hua fortaleza com seus muros muitos já der- 
rubados, chamada por seu nome o Castro que por tradição dos anti- 
gos se dis foi habitação dos Mouros». (Tomo xxxiil, fl. 390). 

445. Sanhonne (Tráa-cs-Moiites) 
Hm4htu 
«Ha também neste termo hum monturo de seixos grande com terra 
mesturados e em direitura no termo dito onde chamam a pena mos- 
queira estam outros dois a que chamam madorras nam se sabe para 
que faziam os ditos, dizem que deles danam fachos nas guerras». 
(Tomo xxxm, fl. 406). 

440. Santarém (EstroniHilor») 

ItucrlpfS*). — Cau mbtarruta 

«No meyo desta Povoação de Alcáçova he que está fundada a 
Parrochial Igreja desta freguezia e da banda de fora da porta prin- 
cipal estilo duas sepulturas razas as quais tem abertos nas lages os 
seguintes letreiros o primeiro diz assim por estas formais palavras: 

ESTA SEPULTURA HE DE FERNÃO RODRIGUES 
E DE SEUS HERDEIROS. 



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O Ahcheologo Português 127 

E o segundo diz : 

SEPULTURA DO LICENCIADO FHEY MANOEL DE SOUZA 
PAEROCO QUE FOI DESTA IGREJA. PEDE HUA AVE MARIA. 

E no adro estão duas pedras sepulcrais com as inscripçoins que 
segue a que está da parte direita tem as letras que abaixo vão 
piadas*. Quer dizer a inscripçâo desta sepultura segunda que está 
. parte esquerda da porta da Igreja 1 ». (Tomo xxxin, fl. 453). 

Está a estatua (de Santa Iria) voltada para a parte da villa e 
. face do padrão que lhe corresponde se vê gravada a seguinte in- 
rípção 3 . 

Por bayxo logo deste dístico está gravado o escudo das armas da 
tila de Santarém: e na outra face do padrão que corresponde ao 
eyo-dia se vê gravado o seguinte dístico 1 . 

Também não encontro no cartório o anuo da fundação desta 
;reja (de São Martinho) nem o tempo em que se erigio freguezia. 
cho sim duas sepulturas que ainda hoje se conscruão huma do mes- 
e Mendo cuja inscripçâo he o seguinte 5 . 

No adro da mesma Igreja está huma pedra Romana em que se 
o seguinte 6 , 

Outra se acha na capella mor com o Letreiro das seguintes pa- 
ivras 7 . 

■ O dia em que se lavrou a primeira pedra (na reedificarão de 
S. Martinho foi a 9 de Mayo de 1716 e em lugar mais superior em 
ue se deitou a mesma pedra na parte esquerda sahe hum letreiro do 
aeor seguinte 8 . 

•Consta que esta Ermida de S, João (de Alparão) he sagrada com 
ruzes pertencentes ao auto da sagração que se achão pelas paredes 
Corpo da Igreja tem hum arco que divide a Capella mór, e a parte 
squerda da Capella da mesma se acha bum Caixão que tem hum 
_,etreiro com as seguintes palavras 9 . 



1 Já impressa no Corp. Inter. Lai, li, 327. 

* Já impressa no Corp. Inter. I^at., u, 328. 

3 Já impressa em Vaaconcellos, Hittoria de Santarém, i, 377. 

* Id., ibid., i, 877. 
s Id., ibid., i, 270. 
« Id., ibid., i, 270. 
' Id., ibid., i, 270. 

* Id., ibid., i, 269. 
» Id., ibid., i, 275. 



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12tí O Archeologo Português 

Descobrem-se mais dois Letreiros muito antigos e já imperceptí- 
veis os caracteres das Letras hum defronte do que asima vai ponde- 
rado, outro ao pé da pia da agoa benta a parte direita da porta prin- 
cipal este o motivo porque não vão copiados nesta deliberação 1 ». 
(Tomo xxxiii, fl. 502). 

(Pertence aqui fazer menção de huma Caza chamada dos Mouros 
situada aonde chamão a Barroca de que já dei noticia ao intorroga- 
rio («te) dessimo quarto pertensente ás Cazas do Ilustrisimo Conde 
de Óbidos e he a dita caza subteranea fabricada de abobeda de te- 
jolo muyto antigua e na entrada o portal he nobre de pedraria la- 
urada, e he mais provável segundo a tradição que achey nas memo- 
rias desta notauel caza em que concordao os curiozos das antiguidades 
que servia de Caza de refresco no tempo do Estio desta ilustre famí- 
lia dos Condes de Palma e Óbidos». (Tomo xxxm, fl. 514). 

tA primeira sepultura que se vê logo á entrada da porta princi- 
pal desta Igreja (do Santíssimo Sacramento) tem hum Padrão com a 
inscripção seguinte*. 

447. Santiago de Lanhoso (Enlre>Douro-e-Hiuho) 

Cutello du Honiu. — Imeripçíoque « aio lè 

«Pela parte de trás deste Templo no fim da rocha ou penedo está 
hnma Torre ou Castello antiquíssimo já de huma quina arruinado por 
cauza de hum rayo que ali cahio, cujo castello he uulgar tradiçam 
foy habitado por Mouros, quando povoaram este Reyno e caminhan- 
dosse mais pello pé delle para a parte do Norte se encontra huma 
praça por modo de Baluarte já aruinado em parte, e para a parte do 
Poente se vê huma porta feyta ao forte e com valentia aonde se acham 
varias letras nas pedras abertas que se ignora o que dizem, c encostado 
á porta virado ao Poente se acha hum Baluarte já em parte aruinado. 
A torre ou Castello he forte, e bem levantado neste Castello e seu 
circuito se meteo a Sereníssima Bainha Dona Thereza, etc. » (Tomo 
xxxiv, fl. 625). 

Pedro A. de Azevedo. 



< Nesta Igreja está hoje estabelecido um museu pouco florescente. Ignoti 
mdla cupido. 

1 Esta e as outras inscripções seguintes estão publicadas da Historia de San- 
tarem, i, 249 e 250. Os parochoa limitaram-se, quasi sempre, a transcrever da obra 

mencionada as noticias que tocavam ás suas freguesias. 



Wbzedby GoOglC 



JUNHO DE 1902 



ARCHE0L0G0 

•ORTUGUÊ8 



COLLEGÇlO ILLUSTRlpA DE HATEBIAES E NOTICIAS 



PUBLICADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



Veterum volvens 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 
1902 



WlOeBby G00gle 



BTTTVnvr.A.iEtlO 



Sepulturas prehistoricas de caracter mycenense: 129. 

A situaçío da Heráldica eh Portugal: 134. 

Numismática indo-portcguesa: 143. 

InscripçÃo cbrista" de Mertola do século vi: 144. 

Antiguidades dos arredores de Setúbal: 146: 

Mosaico romano de Alcobaça: 146. 

Archeologia deTrís-os-Montes: 149. 

A xorca de ouro de Cintra: 155. 

Notas de Archeologia Artística: 156. 

O Museu de Estacio da Veiga: 157. 

Bibliograpbia: 158. 



Este fíisciuulo vae illustrado com 10 estampas. 



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O ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 

C0LL3CÇA0 ILUSTRADA DK HATERIAES I H0T1CIAS 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 
"OL.VII JUNHO DE Í902 N." 6 

Sepulturas prehistoricas de oaraoter mycenense 

Na necropole prehistoriea do valle de S. Martinho (Cintra), muito 
em explorada pelo Sr. Maximiano Apollinario, <? por elle descrita n-0 
rck. Pari., li, 210 sqq., encontraram-se algumas sepulturas, de forma 
iteressante, que o Sr. Apollinario com razão comparou á das de Al- 
ilar (Algarve). Eis aqui a planta das sepulturas de Cintra (fig. l. s ). 
Ab sepulturas de Alcalar, a que me retiro, constam de camará re- 
onda abobadada e de galeria. A eamara nas sepulturas de Cintra 




■tava arruinada, e da galeria só tenues vestígios restavam. Para jus- 
tiçar melhor a comparação estabelecida pelo Sr. Apollinario entre os 
lonumentos de Cintra e os do Algarve, aqui reproduzo, na fig. 2.% 
planta de uma das sepulturas de Alcalar, segundo a gravura publi- 
ida nas minhas BeligiSes da Lusitânia, i, 290, para onde tinha ido 
is Antiguidades monumentaes do Algarve, vol. m, est. m. 



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130 O Ahcheologo Português 

O Sul do nosso país apresenta vários outros typos semelhantes, 
como Be pôde ver no referido vol. das RdigiÕes, p. 293 sqq. Compa- 
rareis a estas sepulturas são de algum modo as grutas funerárias ar- 
tificiara de Palmella: ob. cif., p. 229. 



Pôde ainda levar-se mais longe a comparação. 

No vol. XXXVIII, Maio-Junho de 1901, da Revue Ârchéoloijiqite, 
p. 405, ao dar-se conta de um livro do Sr. Arthur Martin intitulado 
Le tumultu de Toiam-ar-run en Ymas (Costas do Norte), publiea-se 



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O Aecheoloqo Poktuguês 



planta que, com a devida vénia, reproduzo * na fig. 3.", e diz- se : 
>e tumulus íbuillé et publié par M. Martin noua donne un exemple 




iqiie encore en Bretagne de caveau funéraire en forme de coupole. 
. Martin rapelle à ce propôs les tombes à coupole de Mycènes. 




?s tumulus de 1'Écosse, de 1'írlande et des arehipels du nord de 
Grande-Bretagne, avec leurs chambres voíitées en encorbellement, 



1 Os desenhos que serviram para a gravura daí 
itados sob a direcção do Sr. Jorge Cot laço. 



', 4.* e 5.' foram cic- 



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132 O Akcheolooo Pokttciês 

fournissent des points de comparaison plus voisins. Le caveau n'a servi 
qu'à une seule sépulture». O mobiliário encontrado consistiu em instru- 
mentos de pedra o em fragmentos de cerâmica grosseira, mas talvez 
o tumulo já não contivesse na occasião da exploração todo o mobi- 
liário primitivo. 

Plantas, alçados e noticias dos túmulos gregos de cúpula podem 
ver-se em Perrot & Chipiez, Histoire d<- Vari, vi, Paris 1894, p. 396 
(tumulo perto do Heraeum, ou templo de Hera, enirc Mycenaa e Ar- 
gos), p. 400 (Vapkio, na Laconia), p. 418 (Elensis), p. 453 (Metsara, 
em Creta). Em Myecnas propriamente dila é famoso o tumulo confie- 



¥1%. S.^-Sspultur» de Orcbiiurno (GretU) 

eido pelo nome inexato de Thesottro de Atreu; dou aqui uma gravura 
(fig. 4.*), que representa um edrte e a planta d'elle, — extrahidado livro 
do Dr. Carlos Schuchhardt, intitulado Schliemanji , s Auegrabuni/en, 
Leipzig 1891, p. 176 •- 

Como se vê da planta, o tumulo consta de corredor ou òfsuc;, de ca- 
mará redonda e do uma pequena camará (quadrangular) lateral. Como 
se vê do corte, a camará principal é abobadada. As dimensões d'estc tu- 
mulo sao porém maiores do que as dos do Sul de Portugal. Diz Schuch- 
hardt a respeito da construcçilo da crypta ou camará: que ella é for- 
mada de 33 fiadas circulares de pedras, collocadas horizontalmente 



1 Vide igualmente Perrot & Chipiez, ob. eií., «st. i 



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O Abcheolooo Português ■, 



133 



mas sobre as outras, e que ue vio successivamente apertando de baixo 

ira cima, até que do topo a camará é fechada por uma única pedra '. 

Nas camarás sepnleraea de Cintra o Sr. Maximiano Apollinario 

>servou análogo processo de construcção: «cada fiada forma sacada 



ibre a que lhe fica subjacente, de modo que o sen diâmetro interno 
iminue de baixo para cima, o que dá ao recinto a f(>rma de um tronco 
e cone»'. Cfr. também o que de Atcalar se diz nas Religiões, I, 302 
qq., segundo as observações feitas por Estacio da Veiga. 



' Ob. eit., p. 178. 
1 O Areh. Fort., m 



;n,t :: byGoO^lc 



134 O Archeologo Poetuguês 

Eis na 6g. 5. a a planta de mais um tumulo de cúpula grego [dt- 
Orchómeno, na Beócia), reproduzida do livro já referido, de C. Schtich- 
hardt, Sckliemann's Amgràbungen, p. 354*. 

Em Alcalar encontrou Estacio da Veiga também tumules que, como 
o de My cenas, acima descrito, tinham ao lado da camará principal uma 
ou mais camarás secundarias : v id. a fig. C.*, que extraio das Religiões da 
Lusitânia, i, 303, segando as Antiguidades do Algarve do mesmo auetor. 

Taes túmulos tem bastantes analogias com os dolmens; não devem, 
porém, os do nosso país consíderar-se como evolução local ou autoch- 
tone d'elles, em virtude dos parallelos que acima estabeleci. Pelo que 
toca á data, pode dizer-se que os túmulos portugueses pertencem ao 
fim da época neolithica e primeira idade dos metaes. Dos de Cintra 
diz o Sr. Apollinario: «Até ao estado actual das explorações, o mobi- 
liário é neolithico puro; não se encontrou o menor vestígio de metal. 
Mo podemos, porém, ainda affirmar que esta estação não pertença ao 
período de transição do neolithico para a época dos metaes, mas só o 
apparecimento de algum objecto de metal nos poderá legitimamente 
levar a essa hypotheseii *. Posteriormente á publicação d'este artigo, 
o Sr. Manoel Joaquim de Oliveira, dono do terreno em que estavam os 
túmulos, encontrou oelle, por occasião de trabalhos agricolas, alguns 
objectos de cobre ou bronze, que, por amável intervenção do Sr. Lo- 
pes Gonçalves, de Cintra, teve a bondade de offerecer ao Museu Etimo- 
lógico; a hypothese do Sr. Apollinario aeba-se pois plenamente con- 
firmada. Nos túmulos abobadados gregos, da civilização mycenense, 
também, como é sabido, se encontraram, ao lado de objectos de pedra 
e de ouro, objectos de bronze. J L de V 



A situação da Heráldica em Portugal 

Em 1829 o rei de armas Portugal, Isidoro da Costa e Oliveira, com 
o fim de cohibir abusos que lhe prejudicavam mais o cofre pela ca- 
rência dos competentes emolumentos, do que provavelmente lhe ofTcn- 
diam a sciencia heráldica, dirigiu uma representação ou requerimento 
a D. Miguel, então rei de Portugal. 

Em 1 de dezembro de 1829 foi recebido o requerimento no Tribu- 
nal do Desembargo do Paço, juntamente com nm aviso do Ministro 
dos Negócios do Reino, que ordenava que a mesa consultasse o que 

1 E cf. Perrot & Chipíez, Ristoire de J'«rf,vt, p. 441. 
* O Arch. Port., li, 221. 



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O Archeologo Português 



135 



l»e parecesse sobre o assunto. Em 5 do mesmo mês e anuo mandou 
» Tribunal em portaria, que o desembargador corregedor do cível da 
rCrte da I." vara, o Dr. José Freire Gameiro, averiguasse o que havia 
\e fundado no requerimento do rei de armas e informasse consequen- 
temente. 

Encetou o Dr. José Freire os seus trabalhos a 7 de janeiro do anno 
seguinte, nomeando escrivão das diligencias António Maria de Hori. 
Aos 23 de janeiro foram ouvidas, em casa do juiz corregedor, para 
maior commodidade, quatro testemunhas do pequena qualidade, apre- 
sentadas pelo rei de armas, e passados logo a escrito os seus depoi- 
mentos, que corroboravam os ditos d'aquelle funecionario. Em 3 do 
mês seguinte informou o Dr. Gameiro a mesa que eram exactas as 
iiffirmaçues do requerente, mas que a este é que competia fiscalizar 
o que estava legislado sobre o assunto e querellar dos criminosos ou 
transgressores, ticando todavia superior á opinião d'elle informante 
o a".? fosse do real agrado. Logo no dia immediato ordenou o Tribunal 
que o Procurador da Coroa houvesse vista do informe do juiz; o que 
se verificou, conformando-se o Procurador com o parecer do informante. 

Então a 18 de fevereiro, reunida toda a mesa, pareceu a esta o 
mesmo que ao juiz informante a ao Procurador; do que de tudo se fez 
consulta em 11 de abril, que o rei confirmou em 19 do mesmo. Assim 
terminou o processo sem que o rei de armas, que pretendia livre de 
cuidados fazer entrar em ordem os recalcitrantes, pudesse conseguir 
o seu desejo. 

Não pretendo aqui enumerar as queixas do rei de armas nem tão 
pouco assignnlar as numerosas leis existentes sobre armaria; só tomo a 
permissão de dizer que desde o tempo de Isidoro da Costa e Oliveira 
não tem cessado de augmentar o desconhecimento da existência de re- 
partição competente por onde se passam cartas de brasão, o que era 
verdade não seria grande perda, se com isso nSo estivesse soffrendo 
a archeologia portuguesa. 

Até 1834, termo do ancien réijime, á qualidade de nobre ou fidalgo 
era inherente certo numero de privilégios, que hoje, mercê do trium- 
pho completo dos legistas, tem apenas valor histórico. A lei moderna 
do Estado não reconhece, pelo menos de direito, nem separa, o nobre 
sequer, ou melhor o descendente do antigo nobre, do que o nao é'. 
O distinctivo da nobreza, o sígnal qne indicava o nobre, era o brasão. 
Se este tão vulgarizado estava em 1829, quando ainda eram vivas as 



1 Pretende-se fazer uma dietincçSo entre nobre e fidalgo. Um parcenu pode 
ser nobre, mas n5o fidalgo (filho de algo). Nada d'isto por6m encobre a realidade. 



nt :: byGOO^IC 

1 



136 O Ahcheologo Português 

tradições de uma casta onde o Estado escolhia com mais frequência 
os sens funccionarios, a ponto de muitas pessoas se ornarem com o 
escudo de armas, sem que no cartório da nobreza ficasse notícia do 
facto, não é de estranhar no tempo presente, em que o rei de armas 
é uma cariatide da casa real, os amadores de títulos vetustos se en- 
volvam em symbolos que, em tempos remotos, podiam ser mais cus- 
tosos de alcançar. 

Actualmente não è só o descrédito, que a facilidade de usar brasões 
originou, o único motivo da decadência heráldica em Portugal: o peor 
inimigo que o escudo de armas attraliin para si está oceulto nas re- 
partições de fazenda, sempre prestes a surprehender aquelle que por 
seus títulos nobiliarchicos se toma merecedor de suspeita. Dá-se o caso, 
a maioria das vezes, que aquelle não corresponde hoje uma posição 
pecuniária independente, e nestas circunstancias a victima ha de de- 
clinar a sua situação, ficando baldado o intento fiscal. 

Se o Estado por vezes intenta fazer progredir os estudos archeo- 
logicos e históricos, outras vezes, por falta de harmonia entre as di- 
versas funeçôes d'elle, vae causando perda irreparável em obrigar in- 
voluntariamente a desapparecer certos padrões de valor. Os empregados 
de fazenda, com paciência louvável mas melhor cabida em archeologos, 
formaram para uso próprio cadastros de todos os brasões de armas 
que se encontravam implantados em edifícios particulares dentro dos 
círculos de cobrança, e com elles feitos pretenderam levantar dos res- 
pectivos proprietários a contribuição sumptuária. O apego á ostentação 
não foi tão forte que os lesados acceitassem de boa mente a intimação, 
e para se esquivarem a ella mandaram muitos d'elles apear das fa- 
chadas dos seus solares o escudo que lá lhes dava realce, o qual ainda 
por uma piedosa attenção, quer procurando melhores tempos, quer des- 
canso final nos alicerces de qualquer edifício, ficou esperando a sua 
sorte nos palcos. 

Porem não só os descendentes do fundador do edifício foram com- 
pellidos a exonerarem -se das respectivas pedras, ao que elles com um 
pouco de sacrifício escapariam: também proprietários, que nada tinham 
de nobres, a cujas mãos vieram edifícios brasonados, sendo-lhes primei- 
ramente imlirle rente a existência ou a não existência de escudos nas 
portadas dos seus prédios, tornando- se- lhes pesada, agora, a conser- 
vação d'aquellas recordações, que aliás lhes não pertenciam, não he- 
sitaram em as retirar d'elles. 

É certo que houve alguma commoção em certos círculos com estes 
factos, sem que com isso, porem, se chegasse a alcançar resultado apre- 
ciável. 



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O AitriiKOLOGO Pr>iiTi(;rÉs 137 

Resumindo estas considerações, pode-se affirmar que os dois fau- 
tores principaes da decadência da heráldica em Portugal são os se- 
guintes : 

a) Desconhecimento da terminologia e da composição heráldica na- 
cional, que se confunde com as estrangeiras, o que provém da falta 
de um forte poder central. 

b) Pesados impostos sobre o uso dos brasões, o que provoca o em- 
prego rí&o aucto rizado d'eltes, quasi geralmente. 

Uma secção importante da heráldica é a que trata das divisas das 
povoações. Também não existe aqui grande ordem. 

K muito remota a permissão real concedida áa cidades e villas de 
usarem distinctivos, parecendo até ser constitutivo de um concelho o 
ter divisa. D. Dinis em 1302 deu a Borva, hoje Borba, sina e galo 1 . 
Foram-se constituindo depois concelhos aos quaes não foi concedida 
divisa no acto real ou se perdeu memoria do caso; um dia veiu uma 
camará que, attentondo na falta, a procura remediar, mandando col- 
locar escudos de phantasia nas bandeiras e nos edifícios munícipaes. 
Outras vereações mais honradas recorrem, como única repartição com- 
petente, á Secretaria dos Negócios do Reino que Ih'os faculta gene- 
rosamente. 

Existe um trabalho illustrado de Vilhena Barbosa, intitulado As ci- 
dades e villas da monarchia portuguesa ove teem brasão de armas, 18G0 
a 1862, onde porém o estudioso nem sempre encontrará o que pre- 
tende. 

O Sr. Visconde de Sanches de Baena publicou, em 1872, um tra- 
balho que intitulou Arckivo keraldico-generdotjico ; ahí se contém a des- 
eripçSo de brasões de indivíduos de que houve conhecimento nos re- 
gistos. No mesmo anno publicou um índice heráldico, onde se descrevem 
o* brasões de diversas famílias. Tanto um trabalho como outro não 
possuem estampas. — Poderia ainda citar um importante trabalho sobra 
brasões, mas nSo está ainda completo nem ó accessivel ao público, 
em virtude de ser edição reservada. 

Seguem-se as peças do processo que se formou a requerimento do 



Logar do sêllo da Causa Publica, — Senhor. —O lieyde Armas Por- 
tugal tem a honra de levar submissamente ante o Throno de Vossa 
Magestade a seguinte Representação. Sendo a Nobreza hum firme, e 



1 Cltaneelhiria rfe D. Dinis, w, 20. J. P. Ribeiro, DisurL, w, 2.» parte, 190. 



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I 



138 O ÃaciiEOLoao Português 

inabalável esteio do Throno, em que os Soberanos tanto confiao, assim 
pelos seus Serviços nas Guerras, como vantagens na Paz, cumpre que 
ella se conserve intacta, seguida e jamais confundida, Alvarás de 23 
de Novembro de 1610 de 13 de Novembro de 1651, e Ley de 3 de 
Agosto de 1770 ín principio; e competindo a sua fiscalização e boa 
ordem ao Supplicante segundo o legislado na Ordenação Livro 5 Ti- 
tulo 92 assim como designar a todos os Fidalgos e Nobres do Reino 
os seus Escudos de Armas, que só pelo Rey de Armas Portugal podem 
ser mandados illuminar, Ley de 8 de Abril de 1605, nao podendo tão 
pouco inipremir-se livros alguns de Armas e de familías, sem serem 
por elle revistos, Alvará de 11 de Maio de 1607; igualmente lhe com- 
pete vigiar que ninguém uze de Armas que lhe nao pertençao, ou que 
nos Escudos se aumente, ou deminua alguma couza arbitrariamente; 
nao pode o Supplicante ver sem dôr, no menoscabo destes Previlegios, 
e no desprezo das Leys, offendidas estas, e contundida a pura Nobreza, 
como hoje acontece; porque muitas pessoas, assim na Capital, como 
por todo o Reyno iizão, por hum intolerável abuzo, de Armas sem \hv 
competirem, suppondo alguns que lhes basta ter seu Avô, ou Pay tido 
li razão de Armas para logo delle se servirem e uzarera, sem previa 
Habilitação perante o Rey de Armas Portugal, e sem que este lhes 
dezigne em Diploma próprio, as Armas de que cada hum deve uzar 
eom as respectivas differenças, conforme as Leys da Armaria recomen- 
dadas no citado Titulo 92 do Livro 5." das Ordenaçoens: imaginando 
outros que podem aumentar, ou diminuir aã libitum as suas Armas, 
alterando por este modo a integridade dos seus Escudos; e uzando 
outros, finalmente de Coroas, quando aliás nao pertencem a nenhuma 
das Altas Classes, e Gerarchias da Fidalguia aquém compete privati- 
vamente, esta Nobre Insignia, rezultaudo de todo o exposto acharem-se 
muitas Armas cheias dos mais notáveis erros da Arte Heráldica e Leys 
da Armaria apezar de ficarem sugeitos ás penas fulminadas na referida 
Ordenaç3o Livro 5. p Titulo 92. 

Sendo igualmente da privativa attribuição do Rey de Armas Por- 
tugal, como Fiscal da Armaria, o conceder as licenças para se levan- 
tarem as Armas Reaes, ou outras quaes quer, em Taboletas publicas, 
sem a qual ninguém as pode levantar, devendo os que o pertenderem, 
requerer com o Titulo do seu Previlegio, afim de lhes conceder a refe- 
rida licença, que fica registada nu Livro competente do Cartório da 
Nobreza, o que não obstante, ninguem a exige. Em cujos termos— 
P. a Vossa Magestade se Digne dar promptas, e terminantes provi- 
dencias — E. R. M.™--0 Rey de Armas Portugal, Izidoro da Custa 
a Oliveira. 



■a by GoOglc 



O Archeologo Portcgoês 139 

R. com Avizo do Secretario de Estado dos Negócios do Reino do 
1." de Dezembro de 1820 para consultar o que parecer. 

Manda Et Rei Nosso Senhor para o Dezembargador Corregedor 
do Civel da Corte da primeira vara informe com o seo parecer proce- 
dendo as averiguações necessárias. Lisboa 5 de Dezembro de 1829.— 
Dnaa Bttbricas. 

Cumpra-se e para Escrivam das delegenoias precisas nomeio An- 
tónio Maria Sori. Lisboa 7 de Janeiro 1830. = títyiieií-o. 

Lagar ão êêllo da Causa Publica. — Autos de Requerimento feito 
i ih mediatamente c Remetidos em virtude de Portaria do Tribunal do 
Dezembargo do Paço para informe do Rey de Anuas Portugal como 
nelle -se declara. 

Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil outo- 
centos e trinta. Aos sete dias do mez de Janeiro do ditto anno nesta 
cidade de Lisboa e meo Escriptorio, Como Escrivão nomeado Authoei 
o Requerimento do Rey de Armas Portugal, Portaria e Despacho do 
cumprace que tudo aodiante se segue de que fiz este Termo que Eu 
António Maria Sori o Escrevy. 

Logar do sêtto da Causa Publica. — Aos vinte e tres dias do mez 
de Janeiro de mil outocentos e trinta em esta Corte e Cidade de Lisboa 
e Cazas de morada do Doutor Jozé Freire Gameiro Juiz Corregedor 
Proprietário da primeira vara do Juizo da Correição do Civel da Corte, 
onde Eu Escrivão do seo cargo vim e sendo o ditto Menistro ahi pre- 
zente por elle forSo perguntadas e Imqueridas as Testemunhas que por 
parte do Recorrente Rey d'Armas Portugal lhe forao aprezentndas cujos 
seos nomes e dittos se seguem de que para constar tis este Termo que 
Eu António Maria de Sori o escrevi. 

José Vás de Carvalho e S. Payo segundo Escripturario da Conta- 
doria Fiscal do Exercito, morador no Largo de S. Paullo, Freguezia 
do mesmo Hanto, idade trinta annos Testemunha Jurada aos Santos 
Evangelhos a do costume disse nada. 

E perguntado elle Testemunha pello contlieudo no Requerimento 
fuito a Sua Magestade pello Rey de Armas Portugal disse que sempre 
oiivio dizer desde que tem uzo de rezao que somente compete ao Rey 
de Armas mandar illuminúr as Armas que a cada hum compete nos 
seosBrazoens segundo ageueologiados Seos Ascendentes; Sendo outro 
aira verdade que muitas Pessoas uzlo das Armas que os seos Ante- 
passados tiverão pellos seos Brazoens sem de novo se justeficarem. 



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140 O AitciiEOLOGO Português 

Hé também verdade que nesta Cidade se vem muitas Armas era Ta- 
buletas ás portas dos estanqueiros e de outros officios mecank-os com 
os letreiros que dizem «Prevellegiados da Caza Real» porem elle tes- 
temunha está persuadido que a illuminaç&o destas e de todas as Anuas 
competem ao Rey de Armas Portugal e mais nílo disse e assignou com 
o dito Meuistro c Eu António Maria de Sori o Escrevi. = Gameiro— 
José Vaz de Carvalho e Sampaio. 

José dos Reis e, Souza Reposteiro da Camcra de Sua Magestade, 
morador na traveça de S. Joze Numero vinte e seis Freguezia das 
Mercês idade de trinta e sinco annos Testemunha Jurada aos Santos 
Evangelhos e do costume disse nada. 

E perguntado elle Testemunha pello Contheudo no requerimento 
feito a Sua Magestade pello Rey de Armas Portugal disse que sempre 
tom ouvido dizer desde que tem uzo de rezSo que Somente Compete 
ao Rey de Armas mandar illuminar as Armas que a cada hum compete 
nos seos Brazoens segundo a Geneologia dos seus assendentes sendo 
outro sim verdade que muntas pcssoaB uzSo das Armas que os Seos 
Antepassados tiverão pellos seos Brazoens sem de novo se jnstctiearem. 
He também verdade que nesta Cidade se vem muntas Armas era Ta- 
boletas ás Portas dos Estanqueiros, e de outros officios mecânicos com 
os letreiros que dizem «Prevellegiados ou da Caza Real» porem ell« 
testemunha está persuadido que a illu mi nação destas e de todas as 
Armas competem a o Rey de Armas Portugal c mais n5o disse e as- 
segnou com o ditto Meuistro © Eu António Maria de Sori o Escrevi. = 
Gameiro— José dos Ittys e Sousa 

Raimundo Joze Gomes da Silva Eseriptnrario em exercício na con- 
tadoria das Ilhas Adjacentes o Dominios VI trama ri nos, morador na 
Rua de S. Julliâo e da mesma freguezia idade quarenta e seis annos 
Testemunha Jurada aos Santos Evangelhos e do costume disse nada. 

E perguntado elle testemunha pello contheudo no Iícquerimento 
feito a Sua Magestade Senhor Rey Dom Miguel primeiro pello Rey 
de Armas Portugal disse que sempre ouvio dizer desde de que tem 
uzo de rezào, e mesmo por [que] o Avo delle Testemunha ter sido Es- 
crivão da Nobreza, que Somente compete ao Rey de Armas Portugal 
mandar illuminar as Armas que a cada lmm compete nos seos respe 
ctívos Brazoens, segundo a Geneologia dos Seos Ascendentes, Sendo 
igualmente verdade que muitas Pessoas uzão das Armas que os Seos 
Antepassados tiverlo pelos seos Brazoens sem de novo se justeficarem, 
Hé outro sim certo que nesta Corte se vem muntas Armas em Tabe- 



fe byGoO^IC 



O Abcheologo Português 141 

leias áa Portas doa Estanqueiros e de outros Offietos Mecânicos com 
os letreiros que dizem * Prevelegiados ou da Caza Real» porem elle 
testemunha está persuadido que a i Iluminação destas e de todas as 
Armas competem ao Rey d'Armas Portugal e mais não disse e assi- 
£i)ou com o dito Menistro e Eu António Maria de Sori o escrevi. = (fu- 
meiro = Raimundo José Gome» da Silva. 

Caetano Vás Carvalho e Não Paio Ajudante do Sacretario da Junta 
dos Juros dos iíeaes Empréstimos, morador no largo de São Paullo 
e da mesma Freguezia idade trinta e quatro aunos Testemunha Ju- 
rada aos Santos Evangelhos e do costume disse nada. 

E perguntado elle Testemunha pcllo contheudo no requerimento 
feito a Sua Mageslade Fedelissimn o Senhor lley I). Miguel primeiro, 
pello Rey de Ártnas Portugal disse que sempre ouvio dizer desde 
une tem uzo do llezao que somente compete ao Rey de Armas mandar 
illuminar as Armas que a cada hum compete nos seos respectivos Bra- 
zocna Segundo a Geniologia dos Seos Ascendentes sendo outro sim 
verdade que muntas Pessoas uzão das Armas que aeos Antepassados 
tiverão pellos seus Brazoens seni de novo se justificarem; Hé também 
verdade que nesta cidade se vem muntas Armas em Taboletas ás portas 
dos Estanqueiros n do outros offieios Mecânicos com oe letreiros que 
dizem «Prevelligiados ou da Casa Reali porem elle Testemunha eslá 
persuadido que a illuminaçao destas e de todas as Armas competem 
ao Rey de Armas Portugal e mais não disse e assignou com o dito Me- 
nistro e Eu António Maria de Sori o escrevi. = Gameiro=s Caetano Vaz 
de Carvalho e Sampaio 

E os faço concluzos António Maria de Sori o Escrevy. 

Senhor. — Manda Vossa Magestade que informe com a minha opinião 
o requerimento que levara a Augusta Prezença de Vossa Magestade 
o Rei de Armas Portugal em q pede providencia ao grande ahuzo de 
que cada hum a seo aprazimento sem as formalidades e requezitos pre- 
cisos uzZo nos seus Escudos de Armas que lhes nto pertencem, e as 
alterão, ou já pertencendo -lhes as nau illunimão por elle Rei de Armas, 
assim como allevantarem Armas Reaes ou outras quaisquer em Tabo- 
Iftas publicas sem licença sua, alem de outros abuzos mais, que em seu 
requerimento aceusa em menos cabo das Leis da Armaria, A justi- 
ficação prova os abuzos de que trata o requerimento mas aeliandose 
muito miudamente Legislado para os casos em questão na ordenação 
do Livro 5 titulo 02 só me resta o arbítrio de lembrar que sendo o 



cbyGOQ^IC 



íii O Archeologo Português 



Rei de Armas Portugal, a quem compete fazer as declaraçoens pre- 
cisas acerca d'objecto de que se trata, e como tal hum Fiscal dos abu- 
zos, deve exigir o competente titulo do sugeito, de quem desconfiar on 
souber que uza iii diviciamente d' Armas que lhe nJEo competem, ou com- 
prehendido em algum dos outros casos, que aceusa, e achando-o com- 
prehendido requerer a Authoridadc competente para lhe formar culpa 
em conformidade da Legislaçam do Livro 5 titulo 92 que mui circuns- 
tanciada e decisivamente Legislara a este respeito. Esta a minha opi- 
nião Mas Vossa Mageatade Resolvera o que for do seo Real agrado: 
Lisboa 3 de fevereiro 1830. =0 Dezembargador Corregedor do Cível 
da Corte da primeira vara, Jmé Freire Gameiro. 

Haja vista o Procurador da Coroa Lisboa 4 de fevereiro de 1830.= 
Duas rubricas. 

O Recorrente Rej de Armas Portugal uâo pede Providencia detri- 
minada, mas indetriminada para cazos que possão acontecer á ma- 
neira dos que tem acontecido; e me persuado que uzando elle do di- 
reito que unicamente lhe compete pello § 2.° da Ordem. Lív. 5 titulo 
92 e do modo que pondera o Informante com quem rae conformo dSo 
ha mister e escusada será outra alguma Providencia, que ao llecur- 
rente não pertence requerer.= í.'ma rubrica. 

Pareceu a Meza conformando se com o juiz informante, e com o 
que pondera o Procurador da Coroa, que havendo na Lei providen- 
cias estabelecidas para se atalharem os abuzos de que o Supplieante 
se queixa nenhuma outra se carece dar, e se torna portanto ociosa e 
inattcndivel a Supplica do recorrente bastando-lhe fiscalizar a obser- 
vância da Lei. Lisboa 18 de Fevereiro de 1830- = 5eíe rubricas. 

Fez Consulta cm 11 de Março de 1830 '. 

Pedro A. de Azevedo. 



1 Archivo Nacional, Desembargo do Paço, Corte, Estremadura e Ilhas, maço 
1578, n.° 4.° A consulta apresentada a D. Miguel foi assignada pelos seguintes 
sete desembargado res : Gomes Ribeiro, Ferrão, Lencastre, Teixeira Coutinho, Ar- 
riaga, Bastos e Pedrosa. A margem da referida consulta, que é escrita em bclla 
calligraphia c constituo um resumo do processo i|ue fica impresso, razílo pelo que 
ae nao publica, está o seguinte despacho de D. Miguel: «Como parece á Mesa. 
Palácio de Queluz aos dezanove de Abril de mil oitocentos e trinta. =M. R. 
{Miguel, Rei): Desembargo do Paço, Carte, Estremadura e Pitas, maço 2153, n.» 126. 



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O Akciieologo Português 



Numismática indo-portuguesa 

Cora a devida venia transcrevo da Reirue belge de Numiematíqiie, lvih, 1902, 
>sg. 214, a seguinte apreciação feita pelo Sr. Júlio Meili, de Zurich, ao livro do 
5r. Manoel Joaijiiim de Campos intitaludo Numismática Indo- Portugutta, publicado 
un Lisboa em 1901. Não súmonte. fi lisonjeiro para Portugal o serem apreciadas 
li fora com louvor, por i*speeialistas competentes, ob trabalhos cmprchendídos 
i^om consciência por compatriotas nossos, mas é-o também em particular, no caso 
presente, para Archeologo, por se tratar de dois numismatas que tem honrado 
com a ena collaboração as paginas dVsta revista. . . a.y 

A 1'ooeasioii des fòtes riu IX* oontenaire do la déeouvorto du che- 
min marítimo aux Iiules orientales par le navigateur portugais Vasco 
da Gama, qui eurent lieu à Lisbonne en mai 1898, M. Manoel Joaquim 
de Campos y fit, tlans los salous do Ia Société de Géograpbie, dont íl 
est membre, uno exposition do sa-liollo eollection do monnaies indo-por- 
tugaises. Maintonant M. Campos vient de publier, dans !es' Bullctins 
4 à 7, 18 a série, de la dite Sociéte de Géograpbie, sous le titre de: 
Numismática Indo- Portuguesa, lo catalogue détaillé et raisonné de sa 
eollection de 5G8 piòces. Ce catalogue, imprime par la • Imprensa Na- 
cional» do Lisbonne, forme un volume do 25(i pagea et roprósente 
vraiment un (ravail de mérito, qui est non seulement três intéressant 
par la descriptinn mínutiouse des píèces de la colleotion de M. Campos 
íuême, mais bien austsi par los informations instruclívos quo 1'auteur 
a pu nous donnor par suite de sou examen de trente-six eollections 
analogues, publiques et privéos, dnut il cito los noms. Pour se mettre 
en état de tranobor des doutos sur beaucoup de points qui, jusqu'a 
présent, étaient mal definis, M. Campos a pris la poine de proceder à 
1'examen de tant d'antres eollections et il a, certes, contribuo à éclairoir 
un bon nombre de questions. 11 est vrai tlu resto, M. Campos le con- 
fesse lui-inême, qu'il reste encore beaucoup d'ouvrage à faire pour 
arriver à dissiper toutes les ténebres qui planent sur ce terrain, mais 
il faut espérer que sa belle publication fera revivre davantage 1'intérêt 
particulier que mérito la numismatique indo-portugaisc, dont tes élé- 
ments datent lenr naissance du comine ncement du siccle des décou- 
vertes - J. Mkili. 



«E porque sou e sempre fui amigo de brevidade, em nenhua das 
cousas que vos contar serei prolixo. 

Pr. Amadob Ahhaii, Dialogo», ir, fl. 104, ed. de 1604. 



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O AUCHKOLOOO PoRTUGfKS 



Insoripçflo christâ de Mertola do secnlo VI 

A inscripçâo de que vou fallar já foi publicada por E. Hiibiier na 
sua obra intitulada Inecriptionum Hispantae Chriatianaruttt SupjJe- 
menttim, Berlim 1000, p. 12, mas, como por um lado a estampa e o 
texto que Htibner deu d'ella estilo imperfeitos, e como, por outro lado, 
esta inscripçâo jA nSo existe infelizmente em 'Portugal, reproduzo-a 
aqui, segundo uma photographia que o meu amigo o Sr. Joio Manoel 
da Cosia me ofTereceu. A mesma inscripçâo saiu também n-0 Arch. 
l'urt., I, p. 181, com algumas imperfeições. 




Lapide de mármore, de l m ,40 de altura, de 0'",4:8 de largura, e de 
0",04 de espessura, encontrada em 1886 ao pé da igreja do Carmo, no 
quintal de Manoel de Oliveira. Estas informações foram-me dadas tam- 
bém pelo Sr. Costa, que viu e examinou o monumento com todo o cui- 
dado . 

A inscripçâo está gravada, em parte, entre duaB pilastras com base 
e capitel, sendo este ornamentado com quatro pequenos círculos. For 



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O Aecheolooo Português 145 

cima da iuacripção ha uma cruz de braços iguaes inscripta num circulo, 
c cantonada por dois pequenos traços ornamentaes, — cruz semelhante 
á dos Templários e ás de consagração dos templos. 

A inscripção, depois de desfeitas as abreviaturas e de separadas 
as letras que estão inclusas noutras, diz: 

-C Simplioius preab(yter), fartaãua D(e)i, vixit an(not) LVIIII; re- 
quievit in pace D(omt)nÍ áie VIII kalenãas Septembres era DLXXV. 

Notas ao texto: 

L. 1. O monogramma pelo qual começa a inscripção, e que se dis- 
tingue na photographía, falta no texto de Hiibner. Este monogramma 
alterna frequentemente nas inscripções enristas comesfoutro: J?.Taes 
monogrammas chamam-se chrismaa. Ora apparecem inscriptos em cír- 
culos, ora vem sós; também ás vezes tem aos lados um alpha e um 
irmega. Existem d'clles muitas variedades. — O nome Simplicius, de- 
rivado de siviplex, parece representar a ideia de humildade christã, 
ideia que Be exprime não raro, por vários modos, nesta classe de ins- 
cripções. 

L. 2. A respeito da abreviatura runs, diz Hiibner, loc. cit., p. 12, 
nota, que lho parece ter BÍdo escrita por erro. Ao sábio epigraphista 
escapou que tal modo de escrever se encontra noutras inscripções 
da mesma epocha, por ex.: carysvs prbs qvi fvit ad dei OFFICIO 
paratvs 1 ; e também: me reqviiscit in face anicitianvs vjí frbs. 
scae com. aecl 2 . Nellas a abreviatura prbs significa presbyter, e eu 
não estaria muito longe de crer que representará uma forma popu- 
lar *presbyte.ru3, deduzida do genetivo presbyteri, forma que de mais 
a mais corresponderia á grega itpiffSúTífs; (comparativo de upiffêu;). 

L. 3. Hiibner escreveu por extenso Dei, mas o texto somente con- 
tém D com I incluso; por isso pus na minha transcripcâo o e entre 
parenthesis. 

L. 6. Nesta linha o D, atravessado por um traço, significa díe. 
Falta no texto de Htibner. 

Esta lapide, pela sua antiguidade, pois e do anno de 537, corres- 
pondente á era de 575, indicada na inscripção, e pelos desenhos que con- 
tém, constitue interessante documento histórico da antiga igreja myrti- 
liana, e igualmente uma amostra da arte esculptural d'aquelles tempos. 
Pena é que cila nZo esteja no Museu Etimológico, onde existe a maior 
parte das lapides christianò-medievaes de Mertola! 

J. L. DE V. 



1 Le Blant, Iitscriptiorw chritiamet de la Gatde, t. n, Paris 1856, pag. 9. 

2 Le Blant, ibidem, numa nota a pag. 433 (iuscripçío de Como, na Itália). 



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O Archeologo Português 



Antiguidades dos arredores de Setúbal 

2. Povoaçfo romana de Alto rrar 
Com esta epigraphe escreveu o Sr. Marques da Costa n-0 Arch. 
Port., II, 10, uma notícia tire um st anelada rio local, e dos vestiários 
romanos que nelle se encontram, por forma tão verdadeira, que acho 
ocioso fazer nova descripção, pois esta não seria mais do que a repetição 
do que aquelle senhor disse. 



Portanto limito-me a juntar a notícia do aehado de duas moedas 

imperiaes de cobre, e de um fragmento de vaso de barro sagiinlinu 

ornamentado, de que dou gravura, segundo uma photographia. 

Setúbal, 1901. 

AltKONCIIES JuJiQUEIKO. 



Mosaioo romano de Alcobaça 

No dia 24 de Abril de 1902 recebi o seguinte tclogramma do 
Sr. Vieira Natividade, de Alcobaça: u Vonha já. Mosaico romano risco 
perder-se. Urgente». Enviei a Alcobaça, na tarde d'esse mesmo 
dia, um empregado- do Museu, para se informar do que se passava, 
e tomar as providencias que fosse possível tomar. 

No dia 25 chogou-me um omeio do Sr. Administrador do concelho 
de Alcobaça, sobre o mesmo assunto. 

Do que li nesse officio, e do que me contou o empregado do Museu 
que foi a Alcobaça, vim a saber que no campo de Pedrógão, junto 
da aldeia da Póvoa, freguesia de Cós, concelho de Alcobaça, havia 
apparecido um mosaico romano digno de conservação c estudo. 

Depois de ter escrito ao Sr. Administrador do concelho e ao Sr. 
Vieira Natividade, agradecendo-lhes as suas eommiinicações, e dizen- 
do-lhcs o maís que julguei a propósito, parti eu próprio para Alcobaça 
cm 29 de Abril, levando em minha companhia o Sr. Júlio Garcia. 



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O Arcukoloqo Poiítuuués 147 

conductor de obras publicas em serviço no Museu Etimológico. No 
mesmo dia, de tarde, fui, com os Srs. Xativid&de e Garcia, ao local 
do apparecimento do mosaico. 

Este oecupa uma arca de uns 100 metros quadrados, o acha-ae a 
uns (y°,S abaixo do solo actual. Não esta ainda todo descoberto. O mo- 
saico è polychromico : tem ao centro, inclusa num circulo, como em um 
medalhão, uma cabeça humana ou divina, eom coroa radiada, e em 
volta muitas figuras, como animaes, um vaso de flores, etc., e também 
desenhos geométricos ', 

Alem do seu valor geral como documento artistico, o mosaico tem, 
cm particular, muito merecimento histórico é areheologico, já porque 
se relaciona com outras antiguidades romanas, algumas da mesma es- 
pécie, apparccidas por toda aquella região (Alcobaça*, Porto de Mós 3 , 
Leiria*), já porque são muito poucos os mosaicos que, em troços grandes 
cumo este, e de mais a mais com figuras, existem em Portugal. 

Parece-rac, pois, da maior conveniência e urgência o seguinte: 

1.° que es te mosaico seja considerado monumento 
nacional, — porque, se o não fôr, e com toda a brevidade, corre 



1 Por ora nSo podo fazer-sc do mosaico descripçlo minuciosa, pois, como 
disse, não está ainda todo descoberto. 

1 Das antiguidades romanas de Alcobaça se encontram já algumas noticias em 
Fr. Bernardo de Brito, Mmi. Tais., parte i, liv. 111, C. 11, o em Viterbo, Eliteidarío, i, 
*. r. «Alcobaça»: O tumulo romano n que elle se refere, e que é do século m 
da E. C., acbft-se hoje no Museu Areheologico do Carmo. Cfr. também : Hlibner, 
in MemaUbericht der Kõnigl. Ákad. des Wissensch., 1861, p. 772; Corp. Iiuer. Lat., 
11, 351 sqq.; Boletim dos Archeologos do Carmo, 1, 8; e Museu Eepahul de Anti- 
giiedades, n, 235. O Sr. Vieira Natividade possue vários objectoB d'essa época na 
valiosa collecção archeologica que organizou em sua casa, em Alcobaça: vid. 
do mesmo : Roteiro areheologico do» coutos de Alcobaça, 1891, e As gratas de Alco- 
baça (estr. da Portugália, t. i, fase. 3), onde vem algumas noticias das antigui- 
dades romanas; e cfr. O Arch. Port., i, 104, e v, 79. 

1 Monumentos romanos de Porto de Mós {inscripcScs, objectos de barro 
e de ferro, moedas, etc.) encontram se na collecçao particular do Sr. José Callado, 
outro estudioso da archeologia local. No castello d'aquella yilla ha ainda hoje 
duas inseripçôcs romanas. Cfr. também Corp. fotscr. I^at., ii, 5237 sqq. No Museu 
Kthnologico existem alguns objectos de Ia, offereeidos pelo Sr. Callado. 

* Leiria é a antiga CoUippo, de que falia Plínio (Xut. Hist., iv, 113) e de que 
restam Inscripções romanas. No castello ha ainda hoje bastantes inscripções, 
o uma d'ellas, pelo menos, muito importante: vid. Corp. Inscr. Lat., n, p. 36 sqq. 
Ha annoa appareceu ao pé da cidade um óptimo mosaico romano, que actualmente 
n' conserva no Museu Etimológico: vid. O Arch. Po rt. , v, 330. Já antes do ■apare- 
cimento d'este tinham apparecido outros : vid. Arehivo Pittoresco, i, 125, e Boletim 
dos Archeologos do Carmo, i, 24. 



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148 O Abcheoloqo Pobtugoês 

risco de se perder completamente, em virtude do notório vandalismo 
do nosso povo *; 

2.° Que o respectivo terreno seja expropriado por 
utilidade publica, — no que não se gastará quantia superior a 
505000 réis; 

3.° Que em volta do mosaico se construa um edifício 
que o defenda da acção nefasta dos agentes naturaes, 
e da barbárie dos homens, — o que nao causará despesa supe- 
rior a 100|JOOO réis, — podendo a cbave d'este edifício ser entregue 
a qualquer das auetoridades parochiaes da localidade. 

Assim se fará obra meritória, em benefício da sciencia, e se dará 
exemplo e lição ao público, mostrando-se-lho que os monumentos ar- 
cbeologicos devem ser conservados, e que as estações officiaes cuidam 
d'Ísso competentemente. 

E possível que de uma escavação realizada nas vizinhanças do mo- 
saico, por occasiâo da construcçao do projectado edifício, resulte o des- 
cobrimento de outras antiguidades. Pelo campo se encontram agora, 
á superfície do chão, restos de imbrices, fragmentos de opus Signinum, 
ctc. Os objectos importantes, por ventura lá descobertos no futuro, 
poderiam ficai 1 reunidos dentro da casa, ao pé do mosaico. 

Já n-0 Archeologo Português, v, 200, por occasiâo de fallar do mo- 
saico apparecido em Tralliariz, — que não sei em que estado se acha 
hoje, — , citei um exemplo de conservação de um mosaico ín loco, na 
Allemanha. Em todos os paises civilizados se dá, effectivamente, grande 
apreço aos mosaicos : eu tenho-os visto conservados e resguardados com 
todo o carinho em vários museus, como nos de Barcelona, Madrid, 
Paris, Lião de França, Berlim, Dresde, Colónia, TréVeros, — para não 
citar outros. Alguns d'estes mosaicos vem reproduzidos, em ponto pe- 
queno, nos catálogos, como no Catalogue somniaire des musêes de la vilh 
de Lyon, pag. 205, e no Catalogo dei Museo provincial de antigiiedades 
de Barcelona, 1888, pag. 103. Sobre os mosaicos de Tréveros ha mesmo 
um trabalho especial, intitulado Eômiscke Mosailcen aus Trier unã dessrn 
Umgegend, por Wilmowsky, 1888, com magnificas estampas. 

Um dos mosaicos lusitanò-romanos, de que fallei a cima, na nota a 
respeito de Leiria, mosaico muito interessante, a julgar da figura edes- 



1 É sabido como, por exemplo, os bellos mosaicos romanos de Milrcu, ao pé 
de Faro, tem sido pouco a pouco destruídos por quem là vae para os ver! Cfr. 
Ârch. Port., iv, 228.— D'cstes mosaicos até ja chegaram fragmentos a Leiden! 
Ahi eucontrei eu um ou dois, no Museu Archeologico, em uma das minhas viagens 
á Hol landa. 



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O Archeologo Portugl-ès 



ripçXo que vem no citado volume do Archivo Pittoreaco (1857— 1858), 
onsta-me que foi levado para Inglaterra, — certamente por pessoa 
íaís cuidadosa da nossa archeologia do que nós próprios. Num artigo 
ublicado no periódico inglGs Ulustrateã F.ondon Nexos, de 2 de Agosto 
e 18Ô6, acerca d'esse mosaico, c reproduzido no Archivo, diz-se o 
ogruinte, depois de se faliar do apparecimento e trasladação de outro 
nosaico, de Cirencester: aMuito fora para desejar que num paia, como 
'ortugal, onde tantos vestígios das artes romanas se acham indubita- 
olniente enterrados no ehâo, se olhasse com igual desvelo para os 
estos da antiguidade, e se fizessem as necessárias diligencias para 
e estudar a sua historia, e segurar a sua boa conservação; mas infe- 
izmente, por effeito da ignorância provinciana, taes reliquias, quando 
>or acaso se tem encontrado, hão sido descuidosamente destruídas, 
lara se satisfazer a algum fim imtnediato». 

Palavras tão desoladoras não podem ter applicação no caso pre- 
ente; é por isso que, tanto ao Sr. Vieira Natividade, que, segundo já 
'imos a cima, cultiva c«m affecto e proveito a archeologia local, como 
.o Sr. Francisco Eliseu Ribeiro, digno Administrador do concelho de 
Mcobaça, devem tributar-se muitos louvores pelo interesse e calor 
lue tem tomado nesta cruzada da salvação do mosaico da Póvoa de 
?os. Oxalá ella obtenha o resultado que se espera! 

Lisboa, Maio de 1902. 



J. L. de V. 



Archeologia de Tras-oa-Montes 

1. Concelho de Moncorvo 

Ha três annos que possuo os seis instrumentos de pedra que vou 
mencionar, offereeidos pelo meu muito amigo P.° Adriano Guerra, de 
Moncorvo, dos quaes cinco foram encontrados na Lousa e um em Ma- 
dres. 

a) Instrumentos da Lousa. 

1." Um machado de schisto ardosíano, muito negro, de forma de 
ima pyramidc quadrangular, de secção transversal rectangular, de 



àees nada planas, sendo uma convexa, com uma nervura em todo o com- 
jrimento no centro, e a outra algum tanto concava, de bordos em an- 
gulo recto um pouco abatidos, de gume formado pelo desengroasamen to 
jor igual de ambas as faces, muito convexo c com a aresta cortante, 
to arco de circulo, de vértice rombo, pouco liso, assim como o resto 
lo machado, á excepção do gume que c muito bem polido. 



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150 



O AkCHEOLOOO PORTl-(iL'ÉR 



O comprimento do instrumento é de O 1 ", 14, e a largura na base i 
de O"', 05, e no vértice, onde foi tirado um fragmento pelos exploradores. 
de 0"',020. 

2.° Um machado muito pouco elegante, de schisto ardosiano par- 
dacento, da forma de pyramide, pouco regular, de secção transversal 
rhomboidal, de O^Ol de comprimento, de m ,0óri de maior largura na 
base, de vertíee rombo de O 1 ", 02 de maior largura e de maior espes- 
sura m ,043, terminando obliquamente em razão de falha na pedra 
numa das suas faces. 

É instrumento grosseiro e bastante pesado, com o gume convexo, 
pouco arqueado e formado á custa de ambas as faces, que concorreram 
em partes iguacs pelo desengrossamento para esse fim. 

A superfície é desigual, com algumas depressões que facilitavam 
o seu manuseamento. 




3.° Um machado de schisto ardosiano, de O 1 ", 12 de maior compri- 
mento, de 0"',039 na maior largura, c de 0"',3ri na maior espessura, 
de gume cortante, bem polido, formado pelo desengrossamento dus 
bordos, sem facetas determinadas, levemente convexo, com a aresta do 
gume (ou fio) pouco adelgaçada, com uma grande falha devida a fra- 
ctura recente. 



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O Aecheologo Poetugdês 



151 



As faces do machado não foram alisadas, e tem varias c 
ti que assentam os dedos e facilitam o uso do machado, sendo uma 
Misiveimente convexa do meio para as extremidades e a outra concava 
n sentido contrario. 

O vértice é arredondado pelo desengrossamento das faces e bordos, 
tem de diâmetro 0"',02, — muito semelhante ao de outros machados 
a Parafita e Carrazedo do Alvão. 

4.° Outro machado da mesma pedra que os dos números anteriores, 
ada elegante, de n ',128 no maior comprimento, de O" 1 ,048 na maior 
irgura, de 0,'"040 na maior espessura, de forma de um ellipaoide, de 
utne pouco convexo, formado pelo desengrossamento dos bordos em 
ngulos quasi rectos no terço, inferior e abatidos no resto da extensão, 
e secção transversal rhomboidal, de vértice obliquo por causa de uma 
ilha no calhau que se aproveitou para o instrumento, arredondado 
elo desengrossamento das faces e bordos, apparece com o fio do gume 
ouço cortante e com depressões naturaes na maior parte da extensão 
as faces. 

Uma das faces do gume está bem alisada, mas por polir, e a outra 
ia! alisada. É instrumento pesado, como o do n." 3, e que não dá 
igual, assim o outro, de ser empregado com auxilio de cabo ou gastalho. 

5." Doa instrumentos da Lousa é este o menos imperfeito e menos 
;rosseiro. 




A sua configuração geral è a de pyramide, de secção transversal 
■homboidal, adelgaçada nas extremidades, de modo que dá na base 
ím gume de forma convexa e dirigido segundo uma das diagonaes 



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152 O Archeologo Português 

do rhomboide, como se viu num machado de Parafita, e no vértice outro 
gume que se encontra mal representado, em virtude de fracturas evi- 
dentemente produzidas pelos trabalhadores que fizeram a exploração. 
As dimensões são: O 1 " ,080 para o maior comprimento, 0™,04õ para 
a maior largura e m ,02õ para a maior espessura. 

6) Instrumentos de Maçores 

É da mesma pedra que os da Lousa, da forma de pyramide de 
secção transversal em trapesio, truncada, com uma das faces e os 
bordos alisados e a outra face por alisar com uma grande concavidade 
natural no terço inferior. 

Apresenta o gume formado á custa dos bordos desengrossados igual- 
mente, pouco convexo e pouco cortante. 

Tem no maior comprimento m ,125, na maior largura m ,049 e na 
maior espessura 0™,027. 

2. Concelho de Santa Martha 

Em Coucíeiro, numa propriedade do meu amigo Luís Teixeira de 
Mesquita Queiroz, alem de pedaços de tijolos em grande quantidade, 
encontrou-se uma sepultura de tijolos, semelhante ás de Athey de que 
dei noticia a-0 Archeologo, vol, IH, p. 70. 

Offereceu-me o Sr. Queiroz um tijolo d'essa sepultura. 

Na Cumieira, no sítio das Moradias, numa propriedade do III." 10 Sr. 
Josó Joaquim Baptista, por occasiâo da plantação de bacellos, encon- 
traram os trabalhadores grande quantidade de tijolos partidos, grossos 
e com um grosso rebordo muiios d'elles, dois bronzes pequenos muito 
mal conservados, que parecem de Constâncio II ou Constante II, e ou- 
tros objectos que vou mencionar, por me parecer importante o achado 
ou seu conjunto: 

1." Um espheroide de granito de grão grosso, muito liso, de 0"',1 de 
comprimento no eixo maior e O 1 " ,08 no menor, com uma fractura re- 
cente em forma de calota de esphera, 

2.° Um pedaço de tijolo, de côr cinzenta, de O" 1 ,08 de espessura, 
0"',16 de comprimento e n ',14 de largura, bem cozido, próprio para 
construcçao de paredes, fornos, etis. 

3.° Fragmentos de tijolos vermelhos do 0"',02Õ de espessura, de 
rebordos com encaixes próprios para se ligarem a outros, de modo 
que pudessem construir uma sepultura, como as de Atliey. (Arch. 
Port., III, p. 71). 

4.° Um pedaço de tijolo de 0'",12 de comprimento, de O" 1 ,025 de 
espessura, com um bordo, de m ,025 na de espessura e de ID ,02 de 



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O Akcheologo Português 153 

ltura, arredondado, morrendo numa meia canna bastante profunda, 
e O" 1 , 01 de largura, de barro avermelhado, grosseiro, pouoo alisado 
111 ambas as faces. 

5.° Outro pedaço de tijolo, de barro vermelho, bem cozido, com 
m bordo e meia canua, como a do antecedente, com uma depressão 
o bordo, própria para encaixe com outros tijolos. 

<i.° Um pedaço de uma talha (?) grossa, de forma semelhante ás 
[ae se encontraram nas sepulturas de Athey. (Arck. Port., m, 71), 
que cobriam o angulo formado pelo encontro das faces lateraos na 
■arte superior das mesmas sepulturas. 

É de barro vermelho, bem cozido, de O" 1 ,02 de espessura e com 
. face externa ou superior muito lisa, e muito pouco na outra face 
'pposta a esta. 

7.° Quasi todo o fundo de uma amphora, de 0"',012 de espessura 
ias paredes, de côr cinzenta, com uma porção de carvão intimamente 
inida ao barro, que, pela côr e unetii os idade, me parece igual ao de 
mtras amphoras, que não podem deixar de se classificar como funera- 
ias, e o carvão como animal. 

H.° A quarta parte, pouco mais ou menos, da bocca de um vaao 
le grandes dimensões, em dois pedaços, de barro vermelho, de 0™,6 
i 0"',7 de diâmetro (na bocca), com um forte rebordo com duas mol- 
luras circulares em relevo, separadas por uma meia canna muito per- 
eitas e bem alisadas, assim como o resto de toda a face externa do 
ragmento, bem cozido, de 0"',025 de espessura, e de massa pura e fina. 

9." Um fragmento da bocca de um vaso de grande capacidade, de 
tarro vermelho, muito bem cozido, perfeitamente alisado, de m ,115 
le comprimento, de 0' n ,0(j2 de espessura, com um forte rebordo, des- 
;aindo obliquamente de cima para baixo e de dentro para fora, ter- 
minando num angulo agudo a que se segue uma face inferior de ni ,01 
le largura, que vae acabar numa gola de 0' n ,028 de largura muito funda, 
am cuja extremidade superior começa logo a formar-se o bojo. A porção 
le vaso correspondente á bocca, rebordo e gola, é em curva muito 

10." Um caco de um vaso de grandes dimensões, quasi quadrado, 
que se partiu logo abaixo da bocca do vaso a que pertencia, de barro 
acinzentado, bem cozido, em que se nota uma faixa obliqua em relevo, 
que devia tornear o bojo do vaso, e a que vem ter um pequeno sulco, 
que se subdividiu em dois ramos com a forma do um Y. 

E o único objecto em que se vô este principio de ornamentação. 

11." Um pedaço de vaso do barro avermelhado, de 0"',015 de es- 
pessura quasi quadrada, tendo cada lado O™, 12 de extensão, muito 



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154 O Archeologo Postcgl"ès 

liso, com duas cintas estreitas arredondadas em relevo bem distinctas, 
separadas por uma meia canna, com umas manchas negras na face 
interna, que parecem devidas a carvão animal. 

12." Um pedaço de (tijolo?; de barro avermelhado, de forma trian- 
gular, com dois lados resultantes de fractura recente, e com o terceiro 
arredondado e intacto, em arco de circulo de curvatura tão pronunciada 
que exclue a ideia de poder pertencer a um vaso de bocca horizontal. 

A configuração do restante parece ser de nm vaso de forte bojo, 
e apresenta a O" 1 ,07 do bordo concavo uma faixa em relevo seguindo 
a curvatura do mesmo, com manchas escuras na face externa entre 
o bordo concavo e a faixa, devidas ou ao terreno em que esteve met- 
tido, ou a carvão a que estivesse unido. 

13." Um pedaço de vaso de barro acinzentado, pouco perfeito, 
mas alisado, sem molduras de espécie alguma, com a boca mais es- 
pessa (O™ ,03) do que o resto do corpo do vaso (0*,02), começando o 
bojo a formar-se de uma maneira abrupta três centímetros abaixo da 
circunferência da mesma. 

Era um dos vasos de maior bojo entre todos os encontrados. 

14.° Parte da bocca de um vaso de pequenas dimensões, de bocca 
larga e de barro tão fino que não parece ser da epoea dos outros objectos 
descriptos. 

Neste parece que foi empregado verniz, e fica-se em duvida se será 
de origem moderna e que fosse levado ao local onde se encontraram 
os outros. 

Na Azinheira, numa propriedade, ha um aquedueto ou caminho 
coberto de grande extensão, de cantaria, que n8o sabem os habitantes 
da quinta aonde leva nem onde acaba. 

Por occasiào da plantação de baeellos descobriram uma construcção 
de forma arredondada, da qual, no dizer da gente pouco illustrada, ou 
melhor, rústica, saiam bruço* em toda a roda como num rodízio de um 
moinho ordinário de forma do estrella. Não fazemos ideia do que possa 
ser, e sabemos apenas que esta construcção esteve descoberta por algum 
tempo e que a cobriram outra vez. 

Numa quinta próximo, pertencente á família do meu illustradissimo 
collega e velho amigo Dr. Francisco de Salles da Costa Lobo, tem sido 
achadas pelos caseiros muitas moedas romanas, e entre ellas uma de 
bronze, mediana, de Constantino Magno, que me oflfereceram. 

J)a rápida doscripçao dos restos dos vasos que me vieram á mão, 
da qualidade e configuração dos tijolos, e da existência de carvão, que 
não será difficil reconhecer como animal, parece-me muito provável que 
na Cumieira existiu um cemitério romano. 



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O AaCHEOLOGO POBTUGDÊS 155 

Ainda não explorei o local onde appareceram estes fragmentos, 
que foram recolhidos ao acaso e me enviaram para aqui. 

É tal a quantidade de tijolos, que lioje fazem muros com elles. 
Villa Real, 28 de Fevereiro de 1902. 

Henrique Botelho. 

A soma de ouro de Cintra 

Lembrar-se-hão os leitores da magnifica xorca de ouro, achada em 
Cintra, de que lhes faltei n-0 Arck. Pari., n, 17, num artigo acom- 
panhado de um desenho da mesma '. Esta xorca era não só o mais bello 
objecto archeologico de onro que existia cm Portugal, mas de certo, 
polo seu peso, — 1:262 grammas!— , um dos mais ricos que havia! Pois 
doa aos leitores hoje a triste nova de que esta preciosidade, que con- 
vinha que ficasse em um museu português, foi por seu antigo dono 
vendida ha meses a um museu de Londres! 8 

D'esta catastrophc, — que não posso empregar outro nome — , são 
vários os culpados. Não quero porém entrar em pormenores. O antigo 
possuidor da xorca tentou, é certo, vendê-la cá; ninguém comtudo o 
attendeu: uns achavam caro o objecto, outros não lhe ligavam maior 
importância, outros parece que até se riram! Realmente o preço pedido 
a principio (em 1895) era exorbitante: 4:000£0O0 réis! E elle também 
me aterrou a mim; todavia, para o fim, tinha baixado até 2:000(9000 
réis, e mesmo baixaria a 1:800(5000 réis, segundo o que me consta. 

No commércio nem sempre ha prudência: é por isso que muitas 
cousas archeologicas se perdem. Se o dono do xorca tivesse pedido 
logo de começo um preço razoável, eu têda-hia adquirido para o Museu 
Ethnologico; mas o preço pedido era de mais! Ainda assim, as pes- 
soas que podiam resolver o assunto não o resolveram, e o possuidor, 
que não é dado a estudos arebeologicos, nem estava bem no caso 
de avaliar se da acquisição ou não acquisição da xorca adviria gloria 
ou desdouro para a historia da archeologia nacional, e que além d'isso 
se sentiu desanimado por bater em vão a muitas portas, aproveitou 
o melhor ensejo de venda que se lhe offereceu, e cedeu a xorca a um 
museu estrangeiro por 2:000)5000 réis. 

Fique exarada aqui a menção d'este desastre, a ver se de futuro 
se evitam outros semelhantes. 



1 Cfr. também Boletim dos Archeologos <lo Carmo, vn, (3.* serie), p, 77. 

! NSo sei a qual, mas talvez ao Britannico, que é aonde vão em geral parar 
todas as obras primas da arte, da archeologia e da bibliographia. que escapam 
a outros museus ou bibliothecas. 



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156 O Archeologo Poktugl'ês 

Para preencher o logar que a xorea de Cintra devia oceupar ar- 

eheologicamente num museu do estado, temos de nos servir agora de 

um desenho ou de uma reproducção galvanoplastica; é verdade que 

isso está de acordo com os nossos hábitos, pois costuma dizer-se que 

Portugal vende a cortiça aos estrangeiros para depois lhes comprar 

as rolhas! T T , T 

J. L. de V. 



Notas de Aroheologia Artística 

4. AltidH Biignrco 

O meu prezado amigo o Sr. Commendador G. J. Carlos Henriques, 
que com tanta dedicação estuda as antiguidades de Atemquer, sua pá- 
tria adoptiva, informa-me de que na freguesia de Santa Quitéria de Meca 
existe, e existia já em 1601, ura casal denominado dos Bvgnreos. 

E sabe-se que existia já cm 1601, porque nesse anno lavrou o ta- 
bellião de Alemquer, António Barbosa, uma eseriptura pela qual um 
barbeiro, morador ao Carvalhal de Meca (Santa Quitéria), vendeu a 
Ruy Dias de Meneses, fidalgo da casa real, morador em Lisboa, duas 
terras no sítio dos Bur/areos. 

Relaeionar-se-ha porventura esta designação com o artista a quem 
me referi a pag. G6-67 do vol. vi i'0 Arck. Port.f Próximo da Ba- 
talha, em cujas obras trabalhou Boytae, ha um logar com o nome de 
Boutaca, derivado, provavelmente, do appellido do celebre arcliitecto. 

Ruy Dias de Meneses é personagem conhecida, e cuja existência 
ficou largamente assignalada nos documentos officiaes do tempo. Era, 
effeeti vãmente, fidalgo da casa d'el-rei, e escrivão da fazenda real, en- 
carregado, como seu pae e seu avô, da repartição dos mestrados e ilhas. 
No tempo de Filippe II (de Portugal), a cujo conselho pertenceu, de- 
sempenhou o cargo de secretario dos despachos e mercês, cumulativa- 
mente com o de secretario de estado da repartição da índia, Brasil, 
Mina e Guiné. Em 1632 foi jubilado «por estar mui surdo» ; e em Junho 
de 1633 era já falleeido. Seu pae, Duarte Dias de Meneses, que fora 
secretario da casa d'el-reí D. Sebastião, e do seu conselho, morreu era 
Alcácer Kibir, onde lhe ficou um filho captivo, o qual acabou a vida no 

° ' José Pessanha. 



1 Vid. Corp. Chronol., parte i, maço 112, doe. 128: — D. Filippe I, liv. 5.» de 
Doações, fl. 113 e liv. 6.', fl, 215; — Filippe II, liv. 20.» de Doação, fl. 187 v, liv. 
21.°, fl. 79 e, liv. 23.°, fl. 158 v, liv. 26.°, fl. 93, e liv. 35.», fl. 146; — e D. Filippe III, 
liv. 26." de Doaçõe», ti. 115. 



)y Goo^lc. 



O Ahcheologo PoliTiauÊs 



O Museu de Estacio da Veiga 

Na Portugália, i, 656 (fascículo 3.°), diz o meu amigo o Sr. Joa- 
quim de Vasconceltos que o museu de Estacio da Veiga desappareceu 
por inteiro em Lisboa. 

Para aquietação dos ânimos, convém observar o seguinte. 

A collecçào archcologica organizada por Estacio da Veiga compre- 
hendía duas partes, á hora do falleeimento do benemérito archeologo : 

1) o Museu do Algarve, pertencente á nação, e depositado ao tempo 
na Academia das Bellas Artes ; 

2} o a parte que pertencia propriamente a Estacio, e que constava 
de objectos que existiam, uns na sua casa de campo em Cabanas da 
Conceição, concelho de Tavira, e outros na sua habitação emfcisboa. 

Por decreto de 20 de Dezembro do 1803, referendado em boa 
hora pelo nobre e patriótico Ministro o Sr. Dr. Bernardino Machado, 
o Museu do Algarve passou a fazer parte integrante do Museu Etimo- 
lógico, fundado na mesma data com titulo de Museu Ethnographico 
Português; e lá se acha hoje. 

A outra parte foi comprada quasi toda pelo estado á família de 
Estacio da Veiga, e encorporada igualmente no Museu Etimológico, 
como se diz na Rev. Lusit., m, 11)9. Cfr. o que também escrevi nos 
Ensaios Etknographicos, i, 281 n. e 282, e n-0 Arch. Port., i, 218. 

A eolIecçSo de Estacio da Veiga não está pois perdida. E certo que 
só à minha paciência e paixão se deve o não se ter extraviado 
grande parte d'ella, e o achar-se hoje quasi toda reunida (digo-o sem 
vaidade: e com prebende- se facilmente que eu tenha excellentes raz3es 
para o dizer!); mas, emfim conserva-se, — pelo menos tudo o que o 
Museu Etimológico recebeu 1 . 

Esta eollccção, no seu conjuncto, esteve já exposta no edificio da 
Academia das Scieneías, onde primeiro se instai! ou o Museu Ethno- 
logico; actualmente anda sendo transportada, com o resto do Museu, 
para o edificio dos Jcronymos (Bolem). T T v 



1 Alguns dos objectos conservados primitivamente na posse particular foram 
dispersos pela família de Estacio : por exemplo, o bracelete de ouro, figurado nas 
Antiguidade» mowimentaes do Algarve, iv, est. xzii, vendeu-o cila, antes de 20 de 
Dezembro de 1893, a um ourivez da Rua da Palma, em Lisboa, onde em vão depois 
o procurei; o formoso anel árabe do Algarve, que Estacio trazia no dedo, com- 
prou-o, segundo me consta, S. M. El -Boi ; uma das grandes placas de schísto pre- 
historícas de que se falia nas AiUiguidatlei monumentaes do Algarve desappareceu 
de Cabanas, onde estava; algumas grandes facas de silei descritas ibidem desap- 
parcecram de lá igual mente. 



cbyGOQ^IC 



O Aiíchbologo Português 



BiTaliograpliia 



Abciieolooia Christà, por Albano Bellino, Lisboa 1900, 290 pag. 

O Sr. Albano Bellino, archcologo bracarense, publicou itm novo 
livro, intitulado Archeologia ChriatÕ, com o qual veiu enriquecer o pa- 
trimónio areheologieo nacional, fazendo nelle a coordenação completa 
de quantos monumentos, e não são elles poucos nem de pequeno valor, 
que a arte christã deixou nas duas mais antigas cidades do Minho enos 
seus arredores. O serviço que o Sr. Albano Bellino presta assim á his- 
toria da archeologia portuguesa é valiosíssimo. Naquella região encon- 
tram -se realmente edifícios religiosos de respeitável antiguidade, e tanto 
mais dignos de apreço quanto, em volta de muitos d'elles, gravitam 
factos importantes, quer da nossa historia nacional, quer da primitiva 
historia da Igreja portuguesa. E não só edifícios, mas alfaias de altís- 
simo merecimento, vinculadas também a tradições indubitavelmente an- 
tigas e respeitadas, se guardam preciosamente nos thesouros de muitas 
igrejas c capellas d'aquella província. Estas riquezas ficam, depois do 
livro do Sr. Albano Bellino, archivadas indelevelmente para o conhe- 
cimento da arte antiga christã em Portugal. Por isso dizíamos que este 
trabalho representa um serviço importantíssimo prestado á archeologia 
histórica nacional. 

Quer isto dizer que ha inteira concordância de opiniões entre mis 
e o illustre autor da obra, a respeito da attribuição de alguns monu- 
mentos de que se oceupa? Evidentemente não; em tão vasto campo 
de observação e em face de tão numerosas producções da antiga arte 
christã, não datadas, seria impossível obter absoluta conformidade de 
voto. Tanto mais que são ainda restrictos entre nós estudos de archeo- 
logia monumental. Para exemplificar, apenas destacaremos a nossa di- 
vergência do parecer do Sr. Albano Bellino na antiguidade outorgada 
á curiosa igreja de S. Miguel-do-Castello (Guimarães)'; crèmo-la algo 
menos antiga; a opinião que o A. attribue aVilhena Barbosa e ainda 
a de Filíppe Simões* afíguram-se-nos mais conciliáveis com a díffusáo 



1 Archeologia ckrUtã, pag. 43. 

* O parecer de F. Simões é que esta igreja í coeva da Cedofeita (seeulo u 
e inicio do seeulo xh), contudo do seeulo xu e talvez nu (a minha duvida veren 
eobre a leitura de uma inscrição) conheço eu, cm Arcos deVal-de-Vcz (Távora), 
ama capella que parece ale estrozida sobre a de Guimarães. Veja-se Rdiquiai 
da architeclitra Tomavico-bysanlina em Portugal, por A. F. Simões, pflg. 20 ; Boletim 
da Real Associação doe Archittdos Ciais e Ârcheologos Portugueses, tomo v (1888J, 
pag. 2; Monumc iilos de Portugal, por Vilhena Barbosa, pag. 106 o Abicidaire oa 
rudiment d'Arcliêologic, par De-Caumout, pag. 204 o 380. 



cbyGOQ^IC 



O Akchkolooo Português 159 

das formas architectonicas características de cada século *. A forma 
do portal com sua archivotta e a da porta lateral (lado sul), que não 
se vê na estampa, mas que é bastante característica, não são, a meu 
ver, elementos que não devam pesar no critério do areheotogo. Ainda 
outra discordância: o precioso sino de S. Geraldo, rejuvenescemo-lo 
alguns séculos, relativamente á idade que lhe confere o Sr. Albano 
Bellino*. Prece-nos que a paleographia 3 terá dificuldades em aeceitar 
a conclusão a que o Sr. Bellino chegou, apesar da exactidão da leitura 
com que aliás concordamos. E, não obstante, a critica epigraphica 
poderia com direito levantar suspeição contra a authenticidade de um 
letreiro, cm qne o modo de datar fosse ANNO DJíí MILE em vez 
de ERA M ou ERA MILLESIMÃ, tralando-se do tempo de que se 
trata. O velho bronze da Sé de Braga, embora não seja senão do 
século XVI, como julgamos (1501), constitue, no seu género, uma anti- 
guallia rara. Podem a razão e o acerto não estar do nosso lado, mas 
nem isso desmente a sinceridade com que assim pensamos, nem o con- 
trario deslustra o valor do trabalho do operoso archeologo. Incondi- 
cional homenagem prestamos a quem com tanta fadiga colligiu esse 
rico inventario de antiguidades nacionaes; muito devem ao seu autor 
os estudiosos do pais e os de fora que pela nossa arte se interessem. 
Entendemos porém que não deve repousar sobre os louros o Sr. Al- 
bano Bellino. A archeologia histórica e exigente, e o património na- 
cional de antiguidades tem direito de pedir mais alguma cousa, a quem 
com tanta dedicação tem mostrado que o sabe zelar. Muitos dos mo- 
numentos, cuja descripção e historia este, livro encerra, merecem mo- 
nographias especiaes, particularizadas, e d'ellas carecem mormente 
debaixo dd aspecto arclútectonico*. Esses modilhÕes uniformes on va- 



• N3o para fazer indicações: hibliogranhícas, que seriam desnecessárias, mas 
para darmos fundamento ao nosso juízo, referiremos algumas obras que, neste 
assunto, nos vío educando; «3o cilas: Arckéologie Chriliame, de Bouvasai'; Ar- 
chrologie. Eeligieuse, de Mallct; o magnifico compendio de Gaborit, Manuel d'Ar- 
ckéolagie\ a riquíssima obra de J. Guilbabaud, Monumenlt ancien» et modernes, 
eom numerosas monographias e esplendidas gravuras; as Reliquia», de Filippe 
Simões; os Elementos de Archeologia e Iconographia Christà, de Sousa Monteiro; 
Archeologia Christà, de Possidonio; Monumentos arquitetónicos de EtpaTia; Lec- 
ciinís de Arqueologia Sagrada, de L. Ferreiro; etc., etc. 

1 Archeologia ehriêlã, pag. 55. 

' Firmamo-nos em J. P. Ribeiro {Dissertações chronologicai e critica*, tomo ív, 
dissertação xv), e em Htlbner (Itucr. Hisp. Chrisl.), etc. 

* Lembra-nos, por exemplo, a igreja de S. Salvador de Montelbos, de que a 
Ardieologia Christà se oceupa a pag. 34. Moveram-nos uma grande curiosidade 



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160 O Akcheologo Português 

riados, esses capiteis phantasticos ou figurados, esses fustes ornamen- 
tados ou lisos, essas profundas archivoltas de lavores geométricos, 
esses espelhos arrendados, as bases românicas com patas ou de mol- 
duras corridas, a presença on ausência de contrafortes e a sua forma, as 
linhas de uma fachada, a planta de um edifício, a eonstrueção e o gé- 
nero de uma abobada, os vestígios ou a inteira falta das "cúpulas by- 
santinas ou dos madeiramentos latinos, a averiguação das influencias 
que de cada estylo ou escola sobresaem na fachada, na planta, no 
apparelho, na ornamentação . . . , quantos problemas não encontrará o 
Sr. Bellino, detendo-se agora com olhar perscrutador deante das vene- 
randas relíquias architec tónicas, que ainda esmaltam as duas velhas 
cidades e os seus campos! O livro do Sr. Bellino é, como disse, um in- 
ventario erudito, recamado de pródigas referencias históricas; mas o 
que a areheologia nacional agora pede a quem tão desinteressadamente 
a serve, é o complemento d'esse largo trabalho, o preenchimento d'esse 
grande programma, o estudo especial, demorado o completo de cada 
monumento em separado. Lance-se o nosso amigo a essa tarefa com 
a vontade que lhe não falta, c verá a numerosa prole gerada do seu 
próprio livro, quando elle se desdobrar em monographias especiaes, il- 
lustradas com representações irreprehensivelmente nítidas de todos os 
elementos architec tónicos ou decorativos de cada monumento ou de 
cada alfaia, que isso é conveniente, documentadas com a reproducçãn 
paleographica e absolutamente exacta de cada letreiro, que isso è es- 
sencial, quando este sirva para a comprovação escrupulosa da sua idade, 
ou para o conhecimento perfeito de algum problema, a que se ligue. 

Na forma, o livro do Sr. Albano Bellino é um volume de 290 pa- 
ginas, precedidas do retrato do autor, repletas de indicações interes- 
santes e ornadas com 6G photogravuras, que, a falar verdade, noa 
estimulam a curiosidade de saber mais, e o desejo de ir ainda ao intimo 
das cousas. 

Agradecemos o exemplar com que o nosso amigo e desinteressado 

escritor nos brindou, e felicitamo-lo pelo seu trabalho, valioso em si, 

como acabamos de mostrar, e valioso como exemplo, bom para ser 

seguido. 

Lisboa, Maio de 1902. 

telix Alves Pereira. 



essas relíquias architec tónicas, depois que lemos no Boletim <!a Real Atmàação 
dos Arc/iitectot Ciei» t Archcologox Portugueses (tomo viu, 1898, pag. 18) um curto, 
mas notável, estudo do professor Ernesto Korrodi, que crê ver nessas ruinas um 
dos vestígios mais antigos da architectura religiosa existentes em Portugal, por- 
ventura na península, e por isso mesmo dignos de grande apreço. 



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fOL. VII JULHO DE 1902 N." 7 

ARCHE0L0G0 
PORTUGUÊS 

COLLECÇAO ILLUSTRADA DE MATERIAES E NOTICIAS 



PUBLICADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



Veteruin volyens irioiiumenia 



LISBOA 
IMPREN8A NACIONAL 

1902 



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stt :m: :m: -A.H i o 



Aula de Numismática da Bibliotheca Nacional de Lisboa: 161. 

Uma falsificação monetária: 172. 

lucerna romana dos arredores de serpa: 175. 

Estudos sobre Tróia, de Setúbal: 176. 

Miscellanea Archeologica : 180. 

Engenhos de pesca: 188. 

Extractos archeologicos das iMemorias parochiaesb: 190. 

Vidros Romanos de Beja: 192. 



Este fascículo vae illuatrado com 20 estampas. 



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O ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 

C0LLECÇ10 ILLDSTRADA DÊ HATERIAE3 E NOTICIAS 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 

VOL.VII JULHO DE 1902 N.« 7 

Aula de Numismática da Bibliotheca Nacional de Lisboa 

1. Curso do «nno lectivo de 1697-1898 

O curso d' este anuo constou de duas partes principaes: 

Parte I. Numismática geral. — Nomenclatura; origem da moeda; 
series numismáticas (classificação), com alguns desenvolvimentos his- 
tóricos. Bibliograpbia numismática. — Serviram de livros de texto: 
NumUnuitica, do Dr. Salomone Ámbrosoli, 1.' edição, e Vocabolarietto 
ilei NumiemaUci (1897), do mesmo. 

Parte II, Estudo pratico de algumas moedas da republica romana 
e do império, com vários desenvolvimentos, históricos. Auxiliaram este 
estudo os seguintes livros: Monete romane de F. Gnecchi, 1.' edição, 
e Lexiquè des antiquítéu romaines de Cagnat & Goyau, Paris 1895. 

Deu-se noticia de diversas moedas romanas achadas em Portugal: 

1) Em Monsanto e arredores, concelho de Idanha; a summula da 
respectiva liçio foi publicada a-0 Arck. Port., iv, 79, pelo alumno 
César Pires; 

2) Era Porto de Mós ; 

3) No eastello de Dornes, — denario de chumbo da republica; vide 
O Arck. Port., V, 12. 

2. Corso do anão lectivo de 1898-1899 

Parte I, — Preliminares 
Definição de Numismática e objecto d'esta sciencia: cfr. Elencko' 
das Liçdet ãe Numismática, Vili, 3 (ou Arch. Port., i, 305). Costuma 
incluir-se na Numismática, alem do estudo das moedas, também o das 
medalhas e o de outros objectos monetiformes (contos, etc). Sem dúvida 
podem entrar na Numismática certos objectos monetiformes, por exemplo 
os méreaux franceses medievaes (curso fiduciário); mas hoje ha entre 



cbyGoo^le 



162 - O Aucheologo Pojítúgl-ks 

os especialistas tendência para constituir com o estado das medalhas 
uma disciplina especial, a Meâalhittíca, e com o dos coutos outra (a 
esta os Franceses chamam Jeionistique) 1 . Realmente as medalhas, no 
sentido próprio, sSo modernas, datam da época do Renascimento (Itália), 
e destinam- se a commemorar factos históricos; os conto» tiveram ap- 
plicaç&o muito especial (cálculo arithmetico); ao passo que as moedas 
representam fundamentalmente valores. A distincção é pois justa, mas 
não é absoluta, pois que as moedas antigas (e ás vezes mesmo as mo- 
dernas) 'servem também de medalhas, e os conto» reproduzem nío raro 
typos monetários, e tem então em certos casos cabimento ao pé das 
moedas, pelo menos em appendíce ao estudo d'estas. 



Divisòes da Numismática em: f/eral e especial. Na Numismática 
especial entra a Numismática ibérica, de que este anno em parte nos 
ocoup aremos. 

A Numismática está actualmente em grande florescimento, como 
o prova a consideração que lhe dão no ensino publico, as sociedades 
que se oceupam delia, os periódicos da especialidade, e a actividade 
que se nota no commércio. 

1. Ensino: 

d) AUemanha. O Dr. Bernhard Pick foi nomeado professor ex- 
traordinário de Numismática na Universidade de Jena: vid. Monatu- 
blatt dernumismathchen Gesellschafi m Wien, 1896, pag. 350; o mesmo 
professor fez, no semestre de inverno de 1897-1898, prelecções sobre 
Hythologia artística estudada segundo as moedas: vid. MonattUati, 
1897, pag. 139. No Programma da Universidade de Estrasburgo, 
semestre do verão de 1898, vejo a seguinte notícia: Tramer, Gritchischr 
Numiêmatik e Numiêmatisches Gol/oquium; o mesmo professor, no se- 
mestre do verlo de 1891, fez exercícios numismáticos, 2." curso, moedas 
de Itália; no semestre de inverno de 1891—1892 continuou os mesmos 
exercícios; no semestre do inverno de 1892— 1893, também fez exercícios 
numismáticos, 1." curso, Numismática grega. — Ha varias outras uni- 
versidades em que se professam cursos de Numismática como nas de 
Municb, Bonn, etc., ás vezes regidos pelos professores das cadeiras 



' Cfr.: Engel & Sernire, Traité de 2f«mi*mati<,ue d» 3foyen Âyr, I (1891), 
xx : F. Gnecclii, in Jticítla di Xumitmatira. x, 235. 

;n,t :: byGoO^lc 



O AKCHEOLOUO PoBTIOI'Éis 163 

de Historia. — E nSo é só nas universidades que a Numismática tem 
entrada, mas também noutros estabelecimentos scientíficos (gymnasios, 
etc.). — Com relação á utilidade que da prática da Numismática se pôde 
colher para o ensino escolar existem vários trabalhos, por exemplo: 
Shaper, Antíke Miinzen ai» Ântehaittingtntittd in alUjiraehJirhen tenrf 
geachicktiirhen Unterricht auf den Gymnatitn (Moedas antigas como 
auxiliares no ensino intuitivo da historia e das lingoas antigas nos gym- 
nasios), Magdeburgo 1896, com estampas; Pfeifer, Antike MUnzlfilder 
fiir deu Schtdyebrauch (Figuras de moedas antigas para uso escolar), 
Wintertbur 1895, com estampas e varias indicaçSes bibliographicas ; 
Imhoof-Blumer, PortraitkÍlj>fe <tuf rifmiêchen Miinzen der Rejmblik vnd 
dtr Kaittrztit, fSr den /Schii/i/ebranch (Retratos nas moedas romanas da 
republica e do império, para uso das escolas'*, Leipzig 1892. Destes 
trabalhos tenho conhecimento directo, mas podem verse outros que 
vem citados no referido opúsculo de Scliaper, pag. 1, nota. Cfr. tam- 
bém : Dr. Meistor, Miimkunde fSr Anfilnger (Numismática para prin- 
cipiantes), Leipzig 1895, livrinho destinado aos estudantes da classe de 
tertia: vid. MonaUbhdt, 1895, pag. 262. 

6) Áustria. Na Universidade de Vienna tenho notícia de quatro 
corsos de Numismática: Dr. Karabacek, sobre Numismática mahome- 
tana, com especial referencia á Metrologia; Dr. Kubitschek, que é ao 
mesmo tempo conservador do Gabinete Numismático do Museu Na- 
cional, sobre Numismática antiga; Dr. Steinherz, introducc&o á His- 
toria monetária austríaca : Dr. Landesberger, reforma monetária austro- 
hungara: vid. Monatablatt, 1890, pag. 350. Para o semestre de inverno 
de 1897-1898, o Dr. Kubitschek annunciou um curso elementar de 
Numismática grega; e o Dr. Steinherz outro de historia monetária da 
Idade-Media (introducçâo): for. cif., 1897, pag. 139. — Na Universi- 
dade de Graz, o Dr. Pichler annunciou, para o semestre de inverno 
de 1897-1898, prelecções sobre moedagem atheniense. — Sobre as nu- 
merosas collecçÕes numismáticas que existem nas escolas medias (es- 
pécie de escolas primarias superiores) da Áustria em 1890-1897, vid. 
o cit. Monatêblatt, 1897, pag. 144; e cfr. também a pag. 93 um artigo 
sobre o problema da adopção escolar da Numismática nas referidas 
escolas. 

c) Suiça. Na Universidade de Zíirich, o Dr. Stilckelberg rege 
uma cadeira de Numismática. O mesmo professor é auetor de um bom 
tratado da disciplina que professa. 

d) França. Na Sorbona, em Paris, fez, em 1894. o Dr. Th. Rei- 
nach um curso de «Historia da Grécia estudada pelas moedas»: vid. 
Buileiiu de N«mÍgHiafiqitê, n, 130. 



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164 O Abcheologo Português 

e) Itália. O Dr. Ambrosoli rege um curso de Numismática na ci- 
dade de Milão. 

f) Hetpanha. Na Escola Diplomática, em Madrid, rege um curso 
de Numismática o professor Rada y Delgado. Corre impresso um pro- 
gramma d'este curso. 

2. Sociedades. 

Sem se poder, nem ser preciso, indicar todas as Sociedades que 
ha de Numismática, indicam-se porém algumas: Sociedade Numismá- 
tica de Berlim; Sociedade Numismática, de Dresdc; Sociedade Nu- 
mismática, de Vienna; Club dos Amigos das Moedas e Medalhas, de 
Vienna; Sociedade Suiça de Numismática; Sociedade Francesa de Nu- 
mismática; Sociedade de Numismática Belga; Sociedade Numismática 
Italiana. Até em Portugal já existiu um Centro de Numismática (cfr. 
O Areh. Port., i, 303), que teve porém a vida das rosas. Muitas das 
sociedades mencionadas publicam revistas ou boletins especiaes. 

3. Periódicos. 

Mostraratn-se nas aulas exemplares dos seguintes periódicos : 

Bulletin de Numismatique, de Paris; 

Gazette Numismatique, de Paris; 

Gazette Numismatique (La), de Bruxellas; 

Journal International â'Ârchiologie Numismatique, de Amenas, com 
artigos em grego moderno, em allemão e em francês; 

Monateblatt der Numismatischen Gesellsckaft, de Vienna de Áustria ; 

Numismatic Circular, de Londres; 

Numismatisches Literatur-Blatt, de Breslau; 

Numismatiscke Zeitschrift, de Vieuna de Áustria; 

Recue Belge de Numismatique, de Bruxellas; 

Revue Suieee de Numismatique, de Genebra; 

Recue Numismatique, de Paris; 
e algumas separatas da Jiioista Italiana di Numismática. 

Em algumas d'estas revistas domina exclusivamente ou predomina 
a Numismática antiga; noutras predomina a medieval e a moderna; 
o Numismatic Circular e a Gazette Numismatique, de Bruxellas, são 
principalmente destinados a estabelecerem relações commerciaes; a Ga- 
zette Numismatique de Paris tem sobre tudo caracter artistico ; o Numis- 
matischet Literatur-Blatt é, como o titulo diz, exclusivamente bibliogra- 
pbioo. 

Alem d'estas revistas especiaes, ha muitas do archeologia em que 
a Numismática tem entrada. 



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O AltCHEOLOtiO POHTUtHJÊB Í6i> 

4. Actividade commercial. 

Constantemente recebo catálogos de commerciantes numismáticos 
de diversos países. Eis aqui os nomes de alguns d'estes commerciantes: 

Jacobo Hirsch— Munich. 

Ernest Boudeao — Paris. 

Charles Dupriez — Bruxellas. 

Rodolfo Ratto — Génova {Itália I. 

C. Theodore Bom — Amsterdam. 

Maria Guilhermina de Jesus — Lisboa. 

Raymond Serrure — Paris. 

A. Weyl— Berlim. 

G. Morchio — Veneza. 

J. Schulman — Amersfoort. 

Spink Son's — Londres. 

Zschiesche Koder — Leipzig. 

Dr. Eugen Merzbacher — Munich. 



Nomenclatura e exercícios numismáticos: a este objecto foram con- 
sagradas oito lições. Para estudo da nomenclatura numismática serviu 
de guia o meu Elencho das Lições de Numismática, fascículo I, com 
augmentos e corre cçSes. 

Parte II. — Moedas ibéricas 

Bibliographia especial: Monnaies Antiquee de VEspagne [et ãu Por- 
tugal], por A. Heiss, Paris 1860; La Arqueologia de E*paiia [y Por- 
tugal], por E. Hubner, Barcelona 1888; Monumento Linguae Ibericae, 
pelo mesmo, Berlim 1893; Indicador de la Numismática esjxitlola (í. é, 
hispânica), por Campaner y Fuertes, Madrid -Barcelona 1801. 

Noticia dos povos antigos da Ibéria (Phenicios, Gregos, Ligures, 
Celtas e Carthagineses). Época romana: divisSo da Hispânia cm Ci- 
terior e Ulterior. 

Grupos das moedas ibéricas: 
I. Moedas gregas. Sec. iv-iii A. C. 
II. Moedas dos Barquidas. Sec. m A. C. 

III. Moedas com caracteres phenicios (púnicos). Sec. ni A. C. 

IV, Moedas eom letreiros libyphenicios. 

V. Moedas romano -ibéricas (com letreiros ibéricos). Sec. m A. C. 
VI. Moedas latinas. Sec. i A. C. 



cbyGOQ^IC 



166 O AkchkolímíO Portluiês 

Estudámos algumas moedas da Hispânia Citerior: Rhoda, Em- 
porias, Ausa, Herda, Ilergetes, Dertosa, Celsa, Caesaraogusta, Ildu- 
ijith, Osicerda, Sfigunto, Saetabis, Osca, Cascanto, Turiaso, (_'lunia, 
Aregrada, Bilbilis, Segobriga, Ergavica, Cartliago-Nova, Valentia, 
Ilici, Contrebia, Acei; e da Hispânia Ulterior: Obulco, Carbula, 
llora, Ilurco, Ventippo, Urso: e deu-se notícia das moedas punieó- 
pbenicias do Sul da Ibéria, e das moedas da Lusitânia. 

Draehma de Emporias existente no Gabinete Numismático da Bi- 
bliotheca Nacional de Lisboa (tig. !■*): 




, cabeça de Arethusa, de brincos e collar, voltada para a 
direita, entre três peixes, dois adeante, que se defrontam, e um detrás 
da nnca; no rewrso, o Pégaso, a galope, voltado para a direita, com 
este letreiro por baixo: EMÍIOPITUN, genetivo de 'Efiftcpi?*! = Empo- 
ritani, «habitantes de Emporias (hoje Ampurias)», na repião dos In- 
digetes. 

O nome latino Indigeteê, como o grego 'Ivòo«ít*i e 'EwiyÍT*i traduz 
o nome local Untcicn ^^HYíííMj que se lê nas moedas, por 
exemplo, neste exemplar de um asse do Gabinete da Bibliotlioca Na- 
cional de Lisboa (fig. 2.*): 




Flg. t.>_Indl«< 



no anverso, cabeça de Minerva, com capacete emplumado, voltada i 
direita, e um vaso detrás da nuca; no reverso, dentro de um circuito 
de traço contínuo, o Pégaso a galope a direita, cuja cabeça é for- 
mada por uma figura assentada, estando uma coroa por cima, no campo, 
e em baixo o referido letreiro ibérico. Este exemplar differe do que 
vem em Heiss, Monnaiei antiquei de VEtpagne, est. iv, n." 39, em não 



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O Akcheolouo Português 107 

ter letras adeante da boca e do pescoço da figura de Minerva (letras 
que nunca houve no nosso exemplar). 

A comparação do latim InãitjeU» e grego 'Iváixjjrsti on 'Ev&jvtxi 
eom o ibérico Untcscn ou Untcetcen, que também se encontra, e onde 
devem sujiprir-se algumas vogaes, mostra-nos qual era a maneira pela 
qual os antigos representavam os nomes dos povos bárbaros, nomes 
diffioeis de pronunciar, como alguns anctores grecò-romaDOs mesmo 
por vezes dizem. Factos semelhantes se encontram nas línguas mo- 
dernas: os Franceses, por exemplo, chamam S' Ubes á nossa cidade 
de Setúbal, e nós chamamos Nápoles á cidade que os italianos chamam 
Xapoli e os franceses Naple*. Cada povo affeiçoa ao caracter da pró- 
pria língua as palavras das linguas estranhas. Com relação ao Untcscn, 
havia ainda para os romanos a palavra inãiget, plural indigite», que 
significa «nacional», e era também nome de divindade,- palavra que 
existia na língua commnm, e que por isso contribuiria para que a ibé- 
rica se alterasse na boca d'elles d'aquella maneira. Não sei se já a 
ultima explicação occorreria a alguém. Temos neste facto também uma 
amostra do processo que se tem seguido para a decifração do famoso 
alphabeto ibérico, pois nessa palavra se buscou interpretar pelo ono- 
mástico transmittido pelos auetores antigos o valor attribuido a certas 
letras indígenas pela comparação alphabetologica. A terminação ibérica 
-scen, que se nota no nome citado, e que corresponde á latina -te», 
eucoiitra-se também, como veremos, em lltrcescen, e a esta palavra 
corresponde igualmente -te» na transcripçâo latina — IUrgeU», 

Na região dos Ilergetes estudámos varias moedas. Aqui ficava Herda, 
hoje Lerida; o seu nome indígena era Iltrd, como se lê nas moedas. 
Eis os desenhos de duas de cobre que existem na Bibliotheca Nacional 
de Lisboa (figs. 3.* e 4.*): 



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168 O Akcheologo Pohtuguês 

Estas moedas, uma indígena, outra latina, são muito interessantes, pois 
que uma corresponde í outra: á cabeça barbara, de deus ou de chefe, 
naqoella, corresponde nesta a cabeça de Augusto (com legenda, de 

que se lê parte: IMPA ); A loba, com legenda ibérica na 

primeira, corresponde outra loba, com legenda latina, na segunda: 
é evidente que uma legenda traduz a outra. Os caracteres ibéricos 
são i* h T í X» que dizem lltrd; esta palavra nao differe muito de 
Herda, se subentendermos junto das consoantes as vogaes que facil- 
mente nesta escritura se subentendem, como também na semítica, com 
a qual se relaciona intimamente a ibérica. Eis assim outro exemplo do 
processo seguido na decifração dos caracteres ibéricos, e este exemplo 
é mais importante ainda do qne o citado acima com relação aos Indi- 
getes, pois ahi só tínhamos a auxiliar-nos o onomástico e a comparação 
alphabetologica, e aqui temos, alem d'estes dois auxiliares, também 
a disposição das figuras e legendas nas moedas, o que nos prova sem 
dúvida alguma que lltrd era Herda. Com o restabelecimento de certas 
vogaes vemos que a differença que existe entre Herda, Hergete» e Indi- 
gites, de um lado, e as respectivas transcripçoes ibéricas, do outro, 
não é tamanha, como, apesar do que fica dito, poderá parecer. Vejamos: 

f h Y <t X 

i /(<•) t r ã{a) 
á(e) 

Em iletrde ou iletrda havia para os romanos o grupo de letras nSo 
natural trd, que tinha de ser destruído, o que aconteceu pela synçope 
ou suppressfto do í, facilitada por dissimilação ', pois que havia outra 
dental logo adeante; por isso: Herda. 



1 Em Linguistica ou Glottologia diz-se que ha diêtimitação, quando, existindo 
dois sons iguacs ou muito semelhantes numa palavra, se supprime ou modifica, 
em certas condições, um d'elles: por exemplo, do lat. nitrum veíu O port. rodo 
(instrumento agrícola) j de aratrvm veíu arado. O que succede em português suc- 
cede naturalmente noutras lingoas; por exemplo: oprov. ganrm vero de gran-rcn, 
o prov. pendre vem de prcndre; no dialecto de Pavia, reondo vem do rotundtu: 
o fr. Bruta/ (nome de terra) vem de Bruret; o hesp. Flandet (também em port. 
ant.) e Federioo (em port. pop. Fedrico) vem respectivamente do Flandrt* (holl. 
Vtaattdtrem, ali. Flandcrn e de Frederico (got. Friparcilzs, ali. Friedrick ou Frie- 
derieh); o gallego Xilgorio vem de Gregório. E ainda pelo mesmo motivo quo em 
português se diz menittro, vezivho, der.ino, jior ministro, vizinho, divino. — Não 
posso desenvolver aqui este assunto, tanto mais que já me tenho occupado d'elle 
em trabalhos especiaes. 



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O Akcheolouo Poktuuuks I(i9 

Do mesmo modo : 

i l(e) t r ce ■ ce n 

Isto é: Ueircescen, o que dá com a equivalência entre 17 e c> ambas 
gntturaes, e a substituição de -$ce por -te, como no citado exemplo 
de Indtgetes, a forma iletrgeten = iletrgete-n ou iletrget en, pois que 
-n ou -en é mera desinência, e finalmente Iletrgetts = Ile{t)rgete-s ou 
Ile(t)rget-ea, sendo -s oa -e* também mera desinência. Esta legenda 
vé-se numa moeda (quadrante) de que existe um exemplar na Biblio- 
theca Nacional de Lisboa; aqui dou o desenho d'ella (fig. 5. a ); 




Tal moeda, de que vi um exemplar semelhante no Gabinete Numis- 
mático da Bibliotheca Nacional de Paris em 1900, parece estar ainda 
inédita. A legenda é a das moedas dadas como dos llergetes, segundo 
se pôde ver em Hiibner, Mim. ling. Ibericae, n.° 31, e em Heiss, 
Monnaies antique» de VE$pagne, est. x, n. D 1 a 5; com o typo do re- 
verso, meio-Pegaso a galope á direita, cfr. os das moedas de Ausa 
e outros em Heiss, ob."cit., est. v, etc, e em Hiibner, ob. cit., n." 18, 
etc; detrás da nuca da figura do anverso da nossa moeda vêem-se três 
pontos, indicação de três onças = quadrante, como nas moedas romanas. 
As moedas de Celsa dão mais um elemento para juntar aos que 
ficam expostos a respeito do processo scientifico de decifração do al- 
phabeto ibérico, sobre o qual tanto se tem escrito, e ás vezes com 
tanta phantasia. Neste exemplar da Bibliotheca Nacional de Lisboa 
(%. 6/): 




lê-se no reverso, debaixo do cavalleiro: <Aít; ° °, ue sem grande 
diflicnldade se pôde interpretar por celse, pois a primeira letra é bem 



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170 O ÀltCHEOLOOO PoltTLmÉS 

semelhante ao C, a segunda é igual ao lambda (A — /..). a terceira é 
semelhante ao S, e a quarta ao E. A palavra indígena £'eíee foi pelos ro- 
manos interpretada oomo Celta, com a mudança de -e em -«, segundo 
os hábitos da língua latina, do mesmo modo que nós dizemos Mancha 
em vez.do francês Mancha. Esta interpretação, a que se chegou pela 
simplez comparação alphabetologica, è plenamente confirmada por outra 
moeda, de que também aqui se dá um desenho, segundo um exemplar 
da nossa Bibliotheca Nacional (fig. 7."): 




Ahi se vê no reverso a mesma legenda indígena, e no anverso as letras 
cel, abreviatura da palavra CELsa, e traduccâo da primeira legenda: 
logo, não pôde ser mais completa a demonstração. 

Foi procedendo d'esta maneira, que pouco a pouco se decifraram 
no seu conjunto os alphabetos ibéricos, taes como elles se acham ex- 
postos nos Monumenta Unguae Iberícae, de Hiibner, em que se reúnem, 
coordenam e criticam todas as investigações anteriormente feitas a tal 
propósito. Processo análogo se tem applicado á decifração de outros 
alphabetos antigos, de que só nos restam inscripçoes monetárias, lapi- 
dares ou semelhantes. A decifração dos alphabetos da Hispânia eons- 
titnc porém só meio caminho andado para a solução do problema ibérico ; 
pois falta ainda interpretar e classificar- as línguas que lhes corres- 
pondem. São assuntos differentes, que muita gente se apraz erronea- 
mente em confundir. 

A propósito das moedas de Caesaraugusta ministraram-se algumas 
noticias sobre o estabelecimento das colónias entre os romanos, pois Au- 
gusto enviou para lá (dedvxít) uma colónia de soldados das legiSes IV, 
V e X, algarismos que se lêem nas moedas. Symbolos monetários: 
bois jungidos, boi infulado ou mitrado, sacerdote com a charrua. 
Duumviros de Caesaraugusta. Como muitas outras vezes acontece, o 
nome romano Caesaraugusta = Caeaar Augusta substituiu um nome 
indigena; este era Salduba, como se lê nos AA. grecò-romanos, cor- 
respondendo-lhe, ao que parece, nas moedas, em caracteres ibéricos, 
Saldaie. O nome moderno é Zaragoza, que nós escrevemos incorre- 



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O Akcheolooo Português 



ctamente Saragoça era vez de Çaiagoça, como tTantes se escrevia. 
Zaragata nâo provém directamente, quanto a mim, de Caesaraugusta, 
pois -sta não daria cm hespanhol -za; provém todavia de Caesarau- 
yustea ou Caesaraugustia, forma em que -stia, isfo ê -stja, 
dava naturalmente em hespanhol -za. 

Quando tratei das moedas de Olunia citei uma inscripção romana 
*lo castello de Porto-de-Mós, que vem imperfeitamente copiada no Corp. 
Inter. Lat., n, 5238. Km Dezembro de 1897 estive em Porto-de-Mós, 
t_- offereceu-se-me occasião de examinar a pedra com todo o cuidado, 
apesar da dificuldade que tive nisso, pois ella esta bastante alta, e 
foi-me preciso subir lá com uma escada. Â inscripçSo, tal como a li 
e decalquei, diz: 

CSVLPICIO 

PIILIO ■ CIILTI V 

MILITI CORTIS 

LUSITANORVM 

QVI ■ OBIT CVLVNI 

Ali III CVNA F 

Isto é: C. Sulpicio Peito, Celti ffilio), mãiti cortis Lusitanorum, gui 
obit Culuniae. Ei Cuna fiecit). Tenho idéa que Hiibner, a quem enviei 
cópia da inscripção, discordava da interpretação que apresento da ul- 
tima parte (ntfo encontro agora a carta d'elle, para verificar), mas 
creio não haver dúvida na leitura, pois Cuna é nome conhecido: vid. 
Holder, Altcelt. Spraehsehatz, s. v. ; pelo que toca á formula ei feeit, 
cfr. por exemplo ei posuerunt parentes nó Corp. Inter. Lat., II, 3243, 
e ei posuit, ib., ib., 3244. Esta inscripção é importante sob vários 
aspectos: quanto ao latim, apresenta, alem de cortis = cohortiê e 
obit = obíit, phenomenos nada raros, a forma Culuniae, locativo de 
Calunia = Clunia, onde se intercalou um u no grupo consonantico cl, 
como em latim, em Hercules (cfr. vocativo Hercle e grego 'Hpxx/fiç); 
quanto á historia, menciona-se ahi uma cohorte dos Lusitanos, de que 
C. Sulpiciut Pelius era soldado; quanto á etimologia, temos nella, ao 
lado do nome Celti, os nomes Pelius (que noutros documentos coexiste 
com Pellius) e Cuna, .que parecem de origem céltica': sendo Pelius 
filho de uns CtUtttê, palavra que evidentemente contém em si nm tes- 
temunho dos Celtas, e sendo em verdade Cuna parente ou das relações 
intimas de Pelius, nâo é realmente para estranhar tal origem. 

' Vid. sobre elles Holder, ob. cit., s. v. 



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172 O Akcheoukjo Pobtuguês 

No decorrer das lições deram-se varias outras noticias históricas, 
quando o assunto as pedia: por exemplo, sobre as contramarcas de 
Caesaraugttsta e de Ergaviea, sobre as variedades do alphabeto ibérico. 
De modo geral, pôde dizer-se que ha dois typos de alphabeto ibérico: 
o da Província Ulterior, no qual as letras se lêem da direita para a 
esquerda, como na escritura semítica; e o da Província Citerior, no 
qual as letras se lêem da esquerda para a direita, por influencia grecò- 
romana. Existem porém certas variedades importantes, como na re- 
gião Asidonense. As inscripçoes do Sul de Portugal relacionam-se com 
as legendas das moedas de Salada; umas e outras se lêem da direita 
para a esquerda. Estes factos estão de acordo com as palavras referidas 
por Estrabão na Geographia, III, i, 6, segundo as quaes os Iberos não 
se serviam de uma só yjstfífMtTixí, expressão que significa antes «es- 
critura» do qne litteratura. 

P. S. Em 22 de Março de 1899 tive de interromper as liçSes, pois 
fui para fora do reino, cm viagem de estudo, com auctorização do 
Governo, Ficou a substituir-me até o fim do anno lectivo o meu col- 
lega o Sr. Rebello Trindade, então conservador da Bibliotheca Nacional 
de Lisboa. . _ , T 

J. L. DE V. 



Uma falsificação monetária 



Num pacote com decalques de moedas nacionaes e estrangeiras, que 
existe na secção de numismática da Bibliotheca Nacional de Lisboa, 
acha- se uma delgada folha de estanho malleavel, em que foram ini- 
pressas, por meio de compressão, as gravuras de um numisma estranho 
e inédito, que se representa na seguinte cópia : 




Trata-se de uma moeda falsificada, para ser classificada na categoria 
d'aquellas moedas anteriores á iv dynastia dos reis de Portugal, cujos 



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O Archeolooo Português 173 

symbolos vem figurados nos n. ' 2 a 5 da estampa xkvii do volume i 
da obra do Sr. Dr. Teixeira de Aragão, Destripção yeral e histórica, etc. 

O exemplar pertenceu a M. Devegge, residente em Copenhague, 
conforme se diz em nota mencionada no envolcro que contém o decalque 
original. Esta moeda foi, provavelmente, obra do autor das moedas a 
que noa referimos a cima, imaginada para i Iludir o colleccioaador, sem- 
pre ávido de singularidades não vistas, quando sob o império de uma 
estima illimitada a arrecadasse religiosamente, qualificando- a de única 
no seu catalogo descriptivo, ou em canhenho de apontamentos. 

A moeda foi canhada? ou fundida? 

Pela nitidez do decalque parece que a primeira hypothese está em 
manifesta opposiçSo com a segunda, e a vence. 

No campo do anverso as armas do reino tem os dois castellos in- 
feriores obliquamente dispostos. Em cada um dos cinco escudetes, em 
cruz, ha um só ponto, como em algumas moedas de bolhão de D. Affon- 
so III. Os grupos de quatro arruelas, collocados verticalmente á direita 
e á esquerda das armas, são ornamentaes. A legenda, que abre e fecha 
entre cinco arruelas em cruz, é assas desigual. Na palavra ALPHON- 
SVS as letras mantém entre si distancias quosi regularas, porém nos 
algarismos romanos VI e em D. G. até REX as distancias não são 
compensadas pelos pontos divisórios. Denuncia -se o buril inexperiente. 
O effeito é de desolação e tristeza, como quando raras arvores só de 
longe em longe offerecem dóceis de sombra na estrada que conduz ao 
viso da montanha. A coroa real é simples, fechada a traço fino. 

No reverso o valor X, a significar dez réis, oceupa todo o campo. 
É acompanhado por quatro bezantes nos ângulos, dentro de um circulo 
granulado. Este valor, bem visivel, é de forma elegante. A sua gran- 
deza determinaria a das letras PORTVGALIíE. D. G. t em cujos in- 
terrallos foi seguido o systema já visto na legenda do anverso. 

A singularidade principal d'este typo ó a data 1689 (S ás avessas 
para significar 5) entre dois pontos. Estes algarismos, cuja grandeza 
concorda com a das letras da legenda, dão aspecto bárbaro ao conjunto 
typico. Parece que a febre das grandezas impressionara vivamente a 
inferioridade artística do gravador. 

Nas orlas de ambas as paginas da moeda o circuito granulado 'é 
contínuo, completo e nítido, como se tem visto em algumas moedas 
á flor do cunho de outros reinados. 

E digna de reparo especial a repetição das letras D. G. em ambas 
as legendas. A graça de Deu» foi invocada duas vezes,como se (Ura 
senha de passe com que a producção artística houvesse de caminhar 
pela via dolorosa das conjecturas até os domínios da sciencia numis- 



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174 O Akchkouvío 1'i »uTt'ut'í:s 

matica, qualquer que fosse o grau de perfectibilidade a que esta che- 
gasse tio futuro. 

Na composição d'este prodncto de pliaotasia o autor inspirou-t-e uw 
typo do exemplar de igual valor, cuja figura consta do n.° 9 da estam- 
pa xxxvi do volume u da obra citada, fundido na época da Regência 
do Príncipe D. Pedro. 

Entendemos, por dever de numísmata, que era conveniente salvar 
do esquecimento a noticia d'csta moeda falsa. A sciencia não repugnam 
casos esporádicos; elles, por vezes, guiam o estudo acerca de certa* 
aptidões especiaes, que se movimentaram nas lutas pela existência, 
lutas assíduas, bravas e intelligentes criminosamente, ou levam ao co- 
nhecimento de factos relacionados com a economia social de povo.-. 

Convém que as falsidades monetárias não sejam apreciadas, em 
principio, apenas como entretenimento^ o que seria próprio para cu- 
' cantar somente os leigos da sciencia. 

A numismática, para conhecer, avaliar e julgar, tem de inquirir 
na luz e nas trevas, e assim corrige, afina e desbrava o caminho em 
que, de i Ilação em illacao, corre para o esplendor do seu desenvolvi- 
mento completo. 

A consulta regia de 9 de dezembro de 1642, acerca da conveniência 
de se bater moeda de cobre na falta de trocos para as compras mais 
humildes, o Senado de Lisboa, em 31 de Janeiro de 1643, respondeu 
que a moeda se fizesse — de çoiie que não fosse tão pequena que das 
Reinos estranhos se metesse neste, nem que por grande a fundissem o* 
caldeireiros. (Arag&o, documento n.° 112). 

A razão que obstou 4 cunhagem de moedas grandes, isto é, de X. 
devia ter influído no reinado de D. Affonso VI, e,- assim, a moeda de 
que tratamos não foi ensaio monetário. Na aurora d'este reinado, pro- 
vavelmente, foram cunhados valores de V réis e 3 réis, com typos 
ignaes aos de D. João IV, em virtnde de lei nào conhecida, acompa- 
nhando a cunhagem da moeda de 1'/» real, e com cila formando serie, 
perdendo esta o qualificativo de falsa, que lhe foi dado na pagina 4" 
do volume n de Aragão, assim como perdeu a categoria de única co- 
nhecida. Xa colleeçlo do Sr. José Baptista da Fonseca Queiroz, con- 
tador do Tribunal de Contas, existe outro exemplar d'este 1'/* real. 
que tem evidentes signaes de gasto, produzido pela circulação. O gasto 
acensa authentieidade. ■ Antigamente ninguém se entreteria a gastar 
qualquer moeda, para que ella gozasse de credito e definisse uma 
ideia especial perante apreciações de futuros eapecialistas. 

Talvez que os valores de V reis e 3 reis de D. Affonso VI tenham 
apparecido em pesquisas numismáticas, porem, facilmente confundidos 



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O AltCHKOLOUO PORTUtíCÉS 175 



com os de I>. Jo3o IV, desprezados pelos colleccionadores, por falta 
de reparo nas legendas, seriam envolvidos e baralhados sem deixar 
rasto na sucata de cobre, que em Lisboa abundava no tempo dos Lopes 
Fernandes, dos Lamas, e ainda um pouco posteriormente, corridos ina- 
dvertidamente no acto da escolha, cuja rapidez era a sagacidade sys- 
tematica mais adequada pnra nSo fatigar a benevolência dos caldeireiros, 
que, alem de serem os causadora- do mais detestável dos ruídos, com 
que, no bater da obra, encommodavam os moradores da rua Augusta, 
eram os fornecedores do cobre antigo para collecçSes. 

Kos talvez em tempo commettessemoB o nefando crime de mal fun- 
dada rejeição. Agora para todos os colleecionadores é tardio o arrepen- 
dimento acompanhado pela magoa ... A sucata de cobre amoedado já 
não existe. 

Lisboa, 5 de Junho de 1902, 

Manoel Joaquim de Campos. 



Lucerna romana dos arredores de Serpa 

A lucerna, de que se dá aqui uma gravura em metade do tamanho 
natural, executada segundo uni desenho do Sr. Jorge Collaço, per- 
tence ao Museu Etimológico Português, ao qual a offereceu o Sr. Ma- 
noel Dia* Nunes, redactor da Tradição, de Serpa, 

É de barro amarellado, com toda a superfície desgastada, sem fi- 
guras no centro, e só com vestígios de uma pequena ornamentação 
junto do bico (wÇí = - tni/.va), do qual porém só resta metade. Ao centro, 




na parte superior da lucerna, ha um orifício, por onde se lançava o li- 
quido que alimentava a luzi A asa é oval e aberta. 

Foi encontrada nas ruínas romanas das Barrosas, vulgo cidade da 
Rosa, de que se fallou n-0 Arch. Port. r v, 237 sqq. Supponho, pela 
sua forma, pertencer au sec. m ou IV, o que concorda com a data 
das moedas romanas achadas no mesmo sítio: vide O Arch. Port., 
aa " 233 - J. L. DE V. 



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176 O Archkoi.ooo Português 

Estudos sobre Tróia, de Setúbal 
9. Cerâmica romana 

Aos objectos descritos n-0 Archeologo, v, 7, venho jantar a noticia 
de outros, que encontrei posteriormente em Tróia, tão fértil em relíquias 

archeologicas. 



Fig. 1." Pequena amphora de barro vermelho e grosseiro. Mede 
O m ,27 de altura e <y",l7 de diâmetro. 

Fig. 2." Amphora de barro. Mede l m ,05 de alto, e U ,28 de diâ- 
metro. 

Fig. 3.' Pequeno vaso de barro grosseiro, e de execução muito 
rudimentar. Tem vestígios de asa. Mede O 1 ", 14 de altura e O^COS de 
diâmetro . 



cbyGOQ^IC 



O Arcíieologo Português 



Figa. 4.* e 5." Fragmentos de vasos de barro chamado taguntino, 
ornamentados. 



Fig. 6. 1 Vaso de barro vermelho, de forma espherica, tendo na base 
uma saliência mamilar. A parte opposta á representada na gravura está 



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178 O Ahchkologo Poutoguês 

muito damniticada; ainda assim vê-se que a boca era uma simples 
abertura circular, devendo ter o diâmetro de O 1 ", 16 a O" 1 , 18. Junto d» 
boca eneontra-se vestígio de uma asa, semelhante á dos nossos tachos 
modernos. Mede 1"',68 de circumferencia. 



Figs. 7.* e 8.* Fragmentos de fundos de vasoa de barro chamado 
taguntino, cora marcas. Na 5. 1 lê-se BN e na 6.* 1VLI. 

10. Utensílios e adornos de cobre 

Figs. 1.*, 2. 1 « 3," Agulhas de cobre. AS.^completaJmedeOV^. 
Fig. 4." Pnncao ou escopro de cobre. Mede M, ,102. 



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O Aecheologo Português 179 

Fig. õ. a Marca de jogo. É de pedra polida e de forma semi-esphe- 
rica. Mostra ter eido trabalhada ao torno. Mede 0™,022 de diâmetro. 

Fig. 6.* Manipulo de chave pequena. Mede 0™,03. 

Fig. 7." Anzol de cobre. 

Fig. 8.* Disco de cobre análogo ao nosso corta-maasas. Mede 0"',025 
de diâmetro. 

Figa. 9. 1 e 10.* Fragmentos de ganchos de cobre, semelhantes aos 
actuaes alfinetes de segurança. 
Iustrumentros cirúrgicos: 

Fig. 11.* Sonda. Mede <P,0õ3. 

Fig. 12.» Espátula. Mede O m ,045. 

Fig. 13.» Lanceta. Mede m ,026. 




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11.» lí. 1 IS.* 


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Fig. 14." Anel de cobre. Tem a apparencia de lacre preto e produz 
som metálico sendo percutido. 

Fig. 15." Anel de cobre com um pedaço de esmalte verde claro, 
salpicado de pequenas pérolas, sobre um delgado filete do mesmo 
metal. 

Fig. 16. a Fuzil de um colar. Este objecto parece feito de borracha 
endurecida. 

Fig. 17.» Fuzil de colar. Parece feito de borracha endurecida. Tem 
dois furos na direcção indicada pelas linhas a e b. por onde passava 
o fio que ligava estas peças para firmar o adorno citado. 

Setúbal 1901. 

Arronches Junqueiro. 



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O Aecheolooo Poktuocês 



Misoellanea aroheologrloa 

Sob esta rubrica reuno cinco documentos, que se referem a assuntos 
archeologicos e que vão de 1308 até o século XVI. 

O primeiro tem relação com o uso de um sêllo conventual, de que 
pretendera apoderar-se o respectivo abbade. 

O documento, que se lhe segue, trata da construcçlo do outão de 
um edifício de Torres Novas. O termo outão ê conhecido dos nossos 
diccionaríos e achou emprego em nome de localidades, de que a mais 
conhecida é a Torre de Outão, junto de Setúbal. 

O terceiro refere-se á construcçSo em Randide, depois Rendide, de 
uma ponte. Este ultimo nome não se encontra no indico do Diccionario 
Corographico de Baptista; só no tomo IV, 704, ha referencia a elle. 
Felizmente no Diccionario Geographico, manuscripto existente no Ar- 
cbivo Nacional e que é formado pelas memorias enviadas em 1758 pelos 
parochos das freguesias do reino, encontram-se esclarecimentos. Lá se 
diz, a pag. 637 do vol. xxvin, que o nome (antigo) da freguesia de 
S. Pedro da Cadeira (Cathedra S. Petri) é Rendide tpor quanto a 
metade da freguesia são tudo caeaes de renda». Ingénua etymologia! 
Mais adeante diz que corre pela freguesia o rio Sizandro, sendo por- 
tanto netle que foi lançada a ponte, a que se refere o documento que 
vae impresso. Caiu ella com o terremoto de 1755, e para a gente 
passar tiveram de lhe collocar uns paus, provavelmente para escorar 
as minas'. 

O quarto documento trata de quem competia olhar pelas reparações 
das muralhas de Mertola. Já aqui tenho publicado diversos documentos 
sobre aquella villa, sem que esgotasse ainda esse material. 

O derradeiro dá denominações de differentes armas de guerra e 
de torneio. 

1. Constrncçfto em Torres Notas no anno de 1808 
. do onlflo do Paço Grande 

Inome de deus amen. Sabhã quantos este tralado desta carta uirem 
que Eu Joham dominguit tabalio de Torres nouas uj e lij hfia carta 



1 O parocho diz também : "Tem junto as áreas do mar huâ Ermida de Santa 
Crus, a qual he muito antigua e se diz que no dito citio ouve hum templo de hum 
ídolo, e com efeito fazendoase de novo a Capela se acharão nos alicerces huns 
capeteis que mostrão haver naquelle citio Templo grande cuja Ermida he sa- 
grada». 



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O Arcbeologo Português 181 

aberta e seelada de seelo pendente do ourado dõ Pedro nunlz Abade 
T>afcobaça da qual carta o teor tal he: 

Sabha quantos esta carta uirê" e leer ouuirè que Nos ffrey Pedro 
Abade e o Conuento Dalcobaça damos a uos Steuã gil e a nossa mo- 
lher Eirêa uiçonte buas nosas Casas co sa quíjntáá e cõ sas entradas 
e saidas as qnaes auemos en Tores nonas as quaea forom de Gonçale 
Aiies o Clérigo a tal preito e so tal condiçom que uos dedes. en cada 
húú Ano en paz e en saluo a noa ou ao nosso Celareiro de Torres 
nouas três marauedis de Portugal e húú capS o doze ouos e uos de- 
uedes a fazer o outono do Paáço grande de pedra e de Cal e cobrilo 
de madeira e de telb* moy bem todo e dereitamente e poerdes hy 
huas portas nouas e motalo (sie) moy bem e a outra Casa que iaz di- 
ribada fazerdela de tufo e de lodo e guarnillas de cal de dentro e de 
fora e fazerdes hua onbreira qual hy outra see feita e cobrilla de ma- 
deira e de telha e põer hy lulas portas das outras uelhas que forom 
do Fááço e en cima do portal deanteiro poerdes senhos caens e a 
morte de uos anbos ficarem as ditas Casas c8 todas sas benfeitorias 
e melhorias mantSudas asi como de snso dito Jie liures e eysentas sem 
contenda nchíia aa Ordyn eu paz e en saluo e nos e todos nosos soce- 
sores obligamos nos per quanto no mundo auemos a aguardar as cousas 
de suso escritas. En testemõyo destas cousas nos de suso ditos Abade 
o Conuento damos ende a uos esta carta seelada do seelo de my sobre- 
dito Abade e nos de suso dito Conuento por que seelo propio nõ auemos 
ao poimento do seelo de noso Abade louuamos e outorgamos, ffeyta en 
Alcobaça quinze dias Doutubro. Era de Mil e trezentos e quaraenta 
e seis. 

ffeito este tralado desta carta sete dias de Mãyo. Era de Mil e tre- 
zentos e quaraenta e sete Anos. T(estemunha)s Joham soariz iuiz Afonso 
loureoço Mèede anes. Afonso dominguít Pedro manso e Eu Joham do 
minguit pnblíco tabaliõ de Tores nouas este tralado desta carta c3 mba 
inSo propia escreuy e meu signal hy pugy que tal he -\- l 



i. Qoestoes entre o Convento de Oliveira (estlneto no século XVI) 
e o respectivo abbade sobre ■ posse do sêllo- IS de dezembro de 1811 

In nomíne domini Amen. Xouerint vninersi quod cum, coram venera- 
bile uiro domino Gunsaltio ioliannis, Decano ecclesie Bracarens., Reue- 

ren(dissimi) patris domini M. diuina prouidentia ciuadem Arclúopiscopi 



1 Archiro Nacional, Cullecção Etpedal, i 



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182 O Archeologo Português 

generali vicário, iierteretur questio inter Religiosum uirum domínum 
Martinum dominicj, Priorem Mon. deVluaria, ex parte una et Con- 
uentum ipsins Mon. ex altera super hoc uidelicet: quod dicti Conuentus 
conquerebantur de dicto priore per eo quod, cum idem Conuentus ha- 
beret suam sigillum proprium et dictus prior ipsura sigillum penes se 
haberet et faceret fieri nomine et consensu ipsius Conuentus per dictum 
sigillum procuratíones, emptazamenta et alias multas cartas contra uo- 
luntatem ipsius Conuen(tus) ut eodem Conuentum minime requisito ; pe- 
tierunt dictum priorem compellendi per directum ad restituendam eis si- 
gillum simm et quod pronunciarei emplazamenta, facta tempore ipsius 
prioris, non ualere, cum fuerint facta ipsis irrequisitis et non uocatis et 
ti t dicebant. Tandem quare post multas rationes et traetatus hábitos inter 
eos, quare dictus prior confessas fuit, coram domino Decano vicário 
supradicto, quod dictus Conuentus coosueuit habere sigillum propriam 
et quod ipse prior idem sigillum penes se habebat, idem Decanus et vi- 
cárias in scriptis mandauit per sententiam dicto priorj, quoddetin cod- 
tincntj dictum sigillum Conuentus prior) Claustrali Mon. supradicti, ut 
ipsum apponat in procurationibus et alijs contractibus seu scripturis 
ad mandatum Conuentus Mon. memoratj. ffuerunt presentes Vincentius 
dominici, Martinus dominici, Petrus Martiuj, Laurentius stephani, Ste- 
phanus tnartinj, Dominicus petri portales, Canonici (CanSici) Mon. su- 
pradicti et plures alij. Ego uero Johannes pelagij, tabellio Bracarens., 
de permisBÍs quibus rogatus interfrai ad instantiam dicti Conuentus, 
manu própria conferi hoc publícnm instrumcntum, signo meo signatum 
in testimonium ueritatis. Actum Bracare. Jdus Decembris . Anno do- 
mini Millesimo. CCC.° xj.° 

Jacob us 

Johannes 

Laurentius 

Nu verso: como os cónegos e conuento tinha selo sobrre si cõ que 
faziS os prazos '. 

8. CtmstrucçAo de uma ponte em Rendido no anno de 1886 

Sabhan todos que ena villa de Torres uedras ssoo Alpender de 
Martin ssymhfíes Aluazil conuen a suaber prcstumeyro dia do junho 
era de Mil. o trezentos e saseèta e quatro anos en presença de mjn 
Domingos de carnyde publyco Tabellio" dei Rey u na dita villa e das 



' Archivo Nacional, Cvllecçâo E*ptcittl, c 



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O Archeologo Português 183 



t(estemunha)s que adeante sson escritas ffrey Steuã procurador e cela- 
reyro do que a orden de Alcobaça a ê* Torres uedras e ê" seu termho 
disse e ffrootou ao dito Aluazil que El qnerya coprir a carta dei Rey 
que El dise que tíjnha sarrada pêra fazer as pontes asy e como ê ela 
era denyaado come quer que nõ ffose dereyto protestando que níS ffosse 
E Bea preiuizo e que a querya ffazer en esta guyssa en rrandide ena 
testeyra per hu entesta Alcobaça conuen a ssaber ponte de lageas per 
tal guyssa que sen receo ffosen per ela e que durase ufjnte e trynta 
e quarceta anos se mester ffose e se caese que a farya per esta guyssa 
como dito he das quaes cousas o dito ffrey Steui! pydiu a mjn Tabeliõ 
hu t(estemunh)o Eu deylho. ffeito no dito logo. Ts. Gonçalo moreyra 
Martin anes das couas Martin Aiies Johã uycente procuradores Afonso 
martins (stc) Domjngos Morãao e outros. Eu dito Tabeliã 1 a esto ffuy 
este testemujnho screuy e aqui meu signal pugy que tal + e'. 

4. Reparações das muralhas de Mertola na Idade-Medla. Sentença 
de 4 de abril de 1404, dada em Relação 

Dom Joham pela graça de deus Rey de portuga! e do Algarue. 
A todollos Juizes Corregedores e justiças dos nossos Begnos A que 
esta carta de Sentença for mostrada Saúde. Sabcde que dante uaasquo 
esteueez chanceler na nossa casa do Çíuel e dante Joham afonsso fu- 
seiro Corregedor por nos Na Cidade de lixboa. A que nos este feito 
que ase adiante segue cometemos veeo perante nos e os do nosso de- 
sembargo per agrauo. este feito, o qual era. Antre O concelho e mora- 
dores de mertolla. Autor per seu procurador gomez esteuez da liuua 
parte E o meestre de ssantiago Dom mem rroiz de uasconçellos Reeo 
da outra per Razom de demanda que lhe o dito concelho e moradores 
de mertolla faziam perante Johane meendez ' Corregedor na nossa corte 
Dizendo Antre as outras cousas Contra o dito meestre e sua ordem 
que em tempo delRey dom Afonsso. Rey que foy destes Reynos de 
portuga! e do Algarue. Auya o dito Rey inujtos djreitos em no dito 
Regno do Alguarue. os quaes eram Reaaes e perteeçíam Aa corooa 
do Reyno E que auendo Asi os ditos djreitos e Rendas como dito he. 
Que veeo a fazer tal conpossiçara com cada hiiu dos meestres que 
em Aquel tenpo eram Que o dito Senhor Rey lho desse grani parte 
das ditas Rendas e djreitos que no dito Regno Auija pêra Repara- 



1 Arcliivo Nacional, Colleeção Especial, caixa 89, n." 46. 
1 Este corregedor ainda era vivo em 1431, segundo diz o Sr. Gama Barros, 
Historia da Administração, etc, i, 603. 



;n,t :: byGoO^lc 



184 O Archeologo Português 

mesto do moro da dita ujla de mertolla. £ deziam que Aaueença for» 
feita Autre a dita ordem e Meestre e o dito Senhor Rey outorgada e 
firmada E que o dito Mestre se obrigara a fazer e Repairar por ssi 
e seus sobçessores os muros da dita vilia E qne por bem da dita con- 
posiçam o dito Meestre que pollo dito tenpo era e sua ordem. Cobrou 
e oaue em ssy gram parte dos direitos e Rendas que o dito Senhor 
Rey Auija Os quaes aynda oje ha e posuye A dita ordem e el dito 
Senhor Mestre que ora he E que por bem da dita composiçam o* 
ditos Meestres que forom e a dita ordem forom e som obrigados per 
as Rendas da dita ordem Repairar em e fazerem os ditos muros £ os 
Repairaram ao depois. E deziam mais que Antre os meestres que 
guardarom a dita conposiçam feita antre o dito Meestre e o dito Se- 
nhor Rey. Assi foy dom gil femamdez meestre que foi da dita ordem 
em tempo delRey dom pedro Rey que foy destes Regnos. E que on- 
trosi o dito Meestre Aas suas propias despesas sem o dito concelho 
lhe dar outra ajuda nem adua mandou Repairar os ditos muros da 
dita vila e logar de mertola per Steuam do Azinhal que emtom era 
seu Almoxarife cm boja. Aa custa do meestre e dos djnheiros que o 
meestre e a ordem auíja £ que outrosi antre o dito Senhor Rey dom 
afonsso e a ordem e meestre que entom eram seendo feita a dita com- 
posiçam como dito lie que foy posta em pubrica Autentica escríptura 
e que des entom Ataa ora foy sempre aguardada antre a dita ordem 
c meestre dela. E que per bem das ditas Rendas que Asi ounerom os 
ditos Meestres Repairarom os ditos muros e castelo e cerqna da dita 
vila. Aas suas propias despesas. E que auendo asi as ditas scripturas 
e priuyllegios da dita coDpos.siçam e seemdo postas na arca do Con- 
celho de mertola as quaaes eram feitas como dito he Antre os ditos 
Reis e meestres e a ordem. Em fauor do dito concelho Que foy Re- 
uolta guerra. Antre estes Regnos e os de castelã E que no dito tenpo 
da dita guerra a dita ujla de mertola foy entrada per castellltaos e 
metuda a Roubo e que no dito tenpo os liuros e príuillegios que a dita 
vila auja forom todos ou a mayor parte perdndos e que antre os liuros 
e priuillcgios e scripturas que asi forqm perdudas. Asi foy a dita eom- 

possiçom feita e eellebrada Antre a dita ordem e meestres elles 

seerem exentos de adua e doutra ajuda darem pêra reparamento e re- 
fazimento da dita vila. E os ditos meestres obrigados Ao rrefazimento 
como dito he. £ deziam que o dito concelho per bem do que dito be 
era em posse e os moradores dei. de sogeiçom tle seerem exentos e li- 
ures do encarrego de Repairarem os ditos muros per vijnte e trijnta 
e quareenta e çinquoenta Anos. e mais per tanto tempo que A me- 
moria dos homeens nom era em comtrairo £ que outrosi os Repaira- 



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O Aecheologo Poutuguês 185 

mentos dos ditos muros per bem do que dito he sempre forom feitos 
pellos ditos meestres e ordem de sautiago e que elles os Repairarom 
pelloa ditos anos e tempos e que desto era pubrica uoz e fama e 
crreença nos ditos Regnos de portuga! e do Algarue Porem pedya 
o dito concelho e moradores de mertola. Ao dito corregedor que per 
sua Sentença defenetjna julgando pronunciasse o dito Mestre e ordem 
de santiago serem theudos Ao dito Reparamento e construcçom E 
serem theudos A repararem os ditos muros e cerqua da dita vila Aas 
suas propias despesas. E que per essa medes Sentença Asoluesse o 
dito concelho e mandasse nom seer theudo a dar ajuda nem Ádua. 
pêra os ditos muros e cerqueiro e que dauam este libello e artigoos 
dei o dito concelho com protestaçom de seu direito. Segumdo esto mais 
compridamente nos ditos artygos e composiçom era contheudo. A qual 
petiçam foy julgada que tragia direito, o os artigoos dela por pertee- 
çentes. E foy contestada da parte do dito meestre Dom mem Rojz. 
dela per confissom e dela per negaçom e foy julgado que contestaua 
que A-uondaua. E da parte do dito Meestre forom dados artigoos con- 
trairias em nos quaaes dezya antre as outras cousas que A dita ordem 
de ssantiago e elle em seu nome ante os outros Meestres que Ante 
ele forom ouueram e bam Muytos beens e Rendas deles. No Regno 
do Algarue e que todollos beens ou A mayor parte delles e Rendas 
delles que a dita ordem e seus meestres no dito Regno ham toda a 
mayor parte deles forom dados e dotados Aa dita ordem e meestres 
dela per aqueles que a dita ordem fundarem de começo e dotarem e 
conatituirom sem nenbSu encarrego. E que todollos bens e Rendas que 
a dita ordem ha e el Meestre em seu nome no dito Regno que senpre 
forom eixentos e forros da dita ordem e dela obrigados e aos meestres 
que da dita ordem pellos tenpos forom de Cento e duzentos anos aa 
ca e de tanto tenpo que a memoria dos horaeens nom be em coutrairo 
e a outro nenhflu nom. E que outrosi os Reys que forom em portugal 
.s. dom afonsso e dom pedro e dom fernando. seendo viuos. e ora nos 
senpre fezerom e mandarom fazer e Repairar aas suas despesas pro- 
pias e dos moradores da dita villa. e per adnas que tomauam e man- 
dauam tomar do dito concelho os muros e çerqua da dita vylla. de 
mertolla e do castello delia E que outrosi todollos beens qne A dita 
ordem e el em seu nomo ham e em mertolla e em todo ho Regno 
do algarue: Senpre de Cento anos aa ca e mais de tanto tenpo que 
a memoria dos liomeens nom he em contrairá, forom como som pro- 
pios e eixentos e forros da dita ordem e meestres que delia forom 
Rendandoos e lenando a dita ordem e meestres dela os fruytos e 
nouos e Rendas delles. e apropiando as soomente assy e despenden- 



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186 O AttCHEOLOGO POKTUGUÊS 

doos do que Ibe conpiya e fazia mester soo em serujço da dita ordem 
etc. segundo mais conpridamente nos ditos Artigoos era conthendo. 
Os quaaes Artigoos vistos pello Corregedor julgou que eram de Re- 
ceber e que os Recebya ao dito meestre e que nomeasse a clles tes- 
temunhas pêra os prouar e forom filhadas InquiriçoSes da bua e da 
outra parte e dadas escrípturas em ajuda de suas prouas. £ estando 
lio feito em este ponto e visto pello dito vaasco esteueez e Joham 
Afomso A que ho nos cometêramos. Julgaram que Bem enbargo das 
escrípturas dadas por parte do meestre que aviam as Inqniriçoões por 
abertas e publicadas e que ho' meestre mostrasse as doaçooes que 
tijnha de mertolla e dos outros beens e terras e Rendas que elle e sua 
ordem aviam no Regno do Algarue O qual veeo com escrípturas das 
ditas doaçooes E visto o feito pello dito vaasco esteueez e Joham 
Affonso Julgarom que ho Concelho e moradores de mertolla prouanam 
em tanto que sam e deuyam seer exentos e escusados de fazerem Re- 
pairar os ditos muros E que o dito meestre e sua ordem erom A ello 
theudos. Visto como nom prouaua sua contrariedade, e se ho meestre 
avia Razooes A enbargar a defenjtiua. que veesse com ellas. O qual 
veeo com razooes dizendo em suas Razooes antre as outras cousas que 
el queria fazer certo que Nos avendo certa enformaçom em como ho 
Itepairamento dos ditos muros A Nos perteeçiam pois eram da coroa 
do Regno. que A Nos prazya de os Repairar Aa nossa custa o do 
Regno Assi como ja de feito Rcpairaramos e mandáramos Repairar. 
E esto pêra senpre. Li orando do dito Repairamento o dito Meestre 
E sua ordem. E que nunca ja mais ho Meestre e sua ordem podessem 
seer demandados per Razom do dito Repairamento. E pois que el nom 
era tbeudo ja a Reipairallos nom deuya seer condanado Ao dito Repai- 
ramento Segundo mais compridauiente Nas ditas razooes era contheudo 
das quaaes lhe os ditos vaasco fernandez (aliai Esteves) e Joham afomso 
conheceram o foi termo asignado ao dito Meestre que fezesse dello 
certo. E visto o feito pelios ditos vasco fernandez e Joham Affonso c 
o que se pello feito mostraua E Aantrelu cato ria em que era pronun- 
ciado Que ho concelho prouaua em como o dito meestre e sua ordem 
nom prouauam as Razooes a que forom Recebidos dando A defene- 
tiva declarando o dito Concelho de mertolla e moradores delia serem 
(isentos e escusados de fazer e Repairar os ditos muros aa sua custa, 
e per essa Sentença condanarom o dito Meestre e sua ordem que fe- 
zessem e Repairasscm os ditos muros Aãs suas despesas quando con- 
prír e mester fosse seruindo em ello os moradores da dita villa por 
seus jornaaes se conprisse e que fosse sem custas. Visto como o dito 
meestre auya justa razom de ase defender: Da qual Sentença o dito 



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O Archeologo Pobtbgoés 187 



meestr© per sen procurador pêra nos agrauou e pagou os dinheiros 
na nossa chancellarya pêra lhe conhecerem do agrano Segundo se 
mostra pella anta (sic) do feito. E nos visto o dito feito dagrauo em Rol- 
laçom com os de nosso desembargo, presente o dito Mestre de ssan- 
tiago © o dito procurador do dito Concelho de mertolla: Julgamos que 
o Mestre e sua ordem eram agrauados pella Sentença daquelles a que 
este feito "foy cometido: £ corregendo Assoluemos o dito Meestre e sua 
ordem daquelo que contra elles he pedido. Vistas as escripturas pe- 
rante nos mostradas e o que sse pello feito mostra e seia sem custas 
Porem Mandamos A uos Juizes Corregedores e Justiças dos nossos 
Regnos que façades comprir K guardar o dito nosso juizo pella guisa 
que per nos he julgado, honde ai nom façades: Dante em A cidade de 
Vixl>oa quatro dyas do mes dabril. El Rei ho mandou, per lourenço 
atines doutor em lex. e per gonçallo esteueez seus vasaallos Anhos 
do sseu desenhargo Rodrigo aluarez a fez. Era de mjl e iiij c e qua- 
reenta e dous Annos 1 . 

5. Relação dos objectos qno furara roubados a um dnqoe de Bragança 
no sec. XVI 

Às armas que Roubara os fram(ceses). 

It. dous arneses de guerra e Justa e outro de ligeira com todas 
suas peças asy pêra a pee como pêra a caualo com as peças de torneo 
e outras mais peças neçesarias douradas e lauradas potas bordas com 
duas testeiras de caualo que custara no u et a escudos. 

It. duas lunetas de malha garn£ÇÍdas de veludo: três escudos. 

It. duas selas huSa de ligeira e outra de Justa com suas bordas 
douradas huua delias laurada ao çimzel sob verniz: 1). 

It. duas garnicoes de caualo pêra estas duas selas huua de couro 
turquesqo lauradas de preto de maginaria 9. outra de dam to com sua 
crauaçao do modo da sela acimziladas e ymvernizadaa : 25. 

It. duas duzeas de bridas huas diferentes das outras: 12. 

It. sete pares destribos invernizados e laurados ao modo da sela 
de ligeira e gamiçôes cõ outras tantas esporas lauradas da mesma 
maneira: 7. 

It. dous pares de Rédeas de graã com suas cabeçadas tudo de ferro. 

It. huua duzea de partezanas douradas e lauradas com seus frocos 
douro e seda comtos dourados e garnição de villudo: 14. 



1 Archivo Nacional, Livro do» copos, fl. 122 v. Este livro de registo da 
Ordem de S.Tiago foi composto por mandado de D. Jo3o II, datado de 1481. 



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188 O Abcheolooo Pobtoouês 

It. quatro Rodelas de naodona: 14 escudos. 

It. huu penacho amarelo e azul e branquo com todas as plumas 
dobradas e lanradas douro com outro penacho pêra o eaualo e huua 
pluma pêra huu barrete : 25 escudos. 

It. hufia maça dourada cíí sua portamaça de velludo e sen cordão 
de seda e oura e huu estoque e buSa espada darmas b. adagua e dous 
talabartes tudo dourado e garneçido de veludo branquo com punhos 
de fio de prata dourados : 30 escudos. 

It. huna duzea de guerras pretas e de graa e de deferentes cores : 5. 

It. dous chapeos de seda: 5 escudos. 

It. seis chapeos de palha muito finos: 20 escudos. 

It. doze pares de copos dourados: 6 escudos. 

It, de velludo pêra ganieçer as celladas e armas de coxães e om- 
breiras: 8 escudos. • 

Despes» que se fei com as cousa § atrás 

It. dous cofres forrados de linho per dentro: ... escudos. 
It. duas caixas de pao e panos encerados: bij escudos. 
It. de dereitos em Milão se pagarão : biij escudos. 
It. de trazer estas careegas de Milão a Genoua seis escudos. 
It. pagou Be em G-enoua de direitos: bij escudos. 
No verso : Enformaçlo do que valliã as armas que forS tomadas ao 
Senhor duque de Bragança no maar 1 . 

Fedeo A. de Azevedo. 



Engenhos de pesoa 

{Carta bo redutor d' O Ànhtninço Portugal*] 

Lisboa, 9 de Maio de 1902. — Jío n.° 1 do vol. vu à'0 Archeo- 
logo Português vem descrito, a pag. 28 — Itibeírão (Entre-Douro-e- 
Minho) — um engenho de pesca. 

A forma feminina da palavra açude já a tinha ouvido na Beira 
Baixa, próximo da Covilhã; mas ha tanto tempo, que me seria impos- 
sível indicar o nome da pessoa que a disse. Pareceu-me, todavia, ser 
forma vulgar de dicção. Demais, não é esse o assunto que me leva a 
tomar o tempo aV., mas o objecto da notícia que completa o que es- 



1 Maço 13 de FragmetUot, no Archívo Nacional. 



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O Ahcjieologo Português 



crevea o Sr. Baldaque da Silva no seu livro intitulado Estado actual 
dai Pesca» em Portugal. 

Com effeito, a pag. 320 d'esae livro, falia o Sr. Baldaque dos en- 
genhos automáticos usados no Cávado e Neiva para a pesca fluvial, e 
que se não encontram em outros rios do pais. Eis como os descreve 
aquelle autor, que acompanha a explicação com três gravuras que re- 
presentam a planta e cortes longitudinal e transversal do apparelho: 

cKos açudes das azenhas construem um canal de passagem deno- 
minado caneiro, onde ínstallam uma pequena roda hydraulica com o eixo 
assente pelos extremos nas paredes do caneiro formada por quatro 
raios de ferro, tendo nas extremidades igual numero de copos de 
arame de forma cubica. 

Em posição conveniente está collocada uma calha de madeira in- 
clinada na qual os copos, quando passam na posição mais alta deitam 
o conteúdo; a calha communica com um tanque ou pia de pedra com 
tampa fechada a cadeado. 

Soltando a agua do ramal superior, a roda adquire movimento de 
rotação do montante para jusante e de baixo para cima. 

Os peixes que procuram subir o rio são apanhados pelo copo de 
arame, que os deita na calha e d'aqui escorregam para o tanque on 
deposito fechado. 

Quando abrem a tampa do deposito, encontram se ainda vivos os 
peixes que nella caíram, porque este reservatório contém agua até 
uma certa altura. 

Este systema engenhoso de pesca produz grande abundância de 
pescaria sem carecer de pessoal, e bem empregada é a despesa de ins- 
tallação do apparelho para obter um tão bom rendimento de peixe 
ainda vivo. 

Por este processo pescam-se sáveis, lampreias, trutas, bogas e ou- 
tras variedades dos rios, sendo notável a captura de três salmões que, 
em 1887, fez o engenho de pesca das Azenhas Novas do rio Cavado». 

Esta noticia do livro do Sr. Baldaque não traz, como se vê, in- 
dicação alguma respeitante á origem da invenção, que se completa 
com o que diz o Areheologo. 

Com a mais subida consideração, etc. 

José Maria de Mello de Mattos. 



«Divina invenção foi por certo a Impressão, pela facilidade de tras- 
ladar o livro». 

Ft. Amador Abrau, Diálogos, n, fl. 106 v, ed. de 1604. 



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O AECHEOLOGO POKTUGKJfiS 



Extractos aroheologioos 
das «Memorias parochiaes de 1768» 

448. Sapardoa (Entre-Dooro-e-MIabo) 

Cidade « Ponedoí Agndoa 

«Está situada em hum baixo de dous pequenos montes, a hum da 
parte do Xacente chamam o da Cidade e Penedos Agudos e o outro 
da parte do Poente o monte Colbello». (Tomo XXXIV, fl. 641). 

44». Sapataria (Estremadura) 

Pfldrií chmmmdmi mmm.rr.inhíi 

«He o clima da Terra sadio, muy cheyo nâo só de Arvores frucli- 
riras, mas de muitas siluestres abundantes de lenha e tem da parte 
do nascente hum monte chamado o Regodinho asim nelle como na 
distancia da sua roda o que poderá compreender meyo quarto de le- 
goa se achão hnas pedras a que os naturais da terra ehamão mamar- 
rainhas a sua figura he da forma de huma bolota outras mais peque- 
ninas tendo so a diflêrensa de acabarem de hua banda em bico, di- 
zem estas Pedras são chamadas Iudaicas por virem da ludea e tem 
o préstimo de moidas, os seus pos bebidos servirem para a dor de 
pedra. Das dietas se achão em abundância no tal sitio». ^Tomo xxxiv, 
fl. 648). 

450. Meda (Alemtejo) 

Cutcllo ds Arminho. — Eljnotogti popular 

«Chamase esta povoação a villa da Seda, o seu nome antiguo foi 
Arminho ; e he tradição antigua que estando o seu Castello tâobem 
chamado Arminho em poder dos Mouros e combatendo-o os nossos 
Portugueses com todo o valor e defendendose os mouros com o mesmo 
depois de grande porfiado Capitão dos nossos lhe mandou dizer que 
se persistião na resistência e elle vencesse tudo passaria a espada; 
e tendo o que levou o recado negociado o fim para que fora, subiu 
ao muro, e disse em vox alta para os de fora vão he necessário com- 
bater, mais a fortaleza porque já »e dá; e desta palavra pronunciando 
o a breve, e com brandura he que teue origem o chamar-se esta vílla 
Seda ; e asim o testafica e refere o Doutor António Gonçalves de No- 
vaes na relação que dá das couzas deste Bispado de Elvas no fim da 
constituição delle». {Tomo xxxiv, fl. 761). 

* (Ermida) da Senhora dos Prazeres em distancia de duas Legoas, 
onde ehamão Alparrajão, no qual sitio houve antiguamente hum Cas- 
tello, ou Villa que foi destruída em tempo dos Romanos e as que das 



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O Archeologo Português 191 

suas mãos escaparão viera» fundar a povoassão que hoje se chama 
Seda, refereo assim o citado Novaes». (Tomo xxxiv, fl. 766). 

«Esta ribeira de Seda chamouse antiguamente Arminha dis No- 
vaes, citado por ter seu principio na Serra da Aramenha perto de 
Portalegre, onde foi aquella antiga cidade de Medobriga '». (Tomo 
XXXIV, fl. 772). 

151. SegadKea (Beira) 

Cidade da Vae» 

«Paga vassalagem (o rio Vouga) a villa de Vouga de que tomou 
o nome porque em alguns tempos antigos dos Godos e Romanos foi 
povoação populoza e se chamava a cidade da Vaca 1 de que fazem 
menção alguns livros antigos e ba tradição que chegavão os navios 
que e ii travão pela Barra de Aueyro e vinhão anchorar junto a dita 
cidade, mas na Expugnaçâo dos Mouros ficou destruhída e assolada 
como mostrlo ainda os seus vestígios antigos; mas agora he villa de 
pouco povo como deporá o seu R. Ao Parodio». (Tomo xxxiv, fl. 784). 

462. Seixal (Estremado™) 

Inurlpclo 

«Em o portal de humas cazas da Rua direyta deste lugar se acha 
aberto hum Letreyro que dis assim 

VILLA NOVA DO SEYXAL 

o qual he tradição sertã o mandara abrir El liey o Senhor Dom Af- 
fonso Sexto vindo de AzeytSo de huma função de Touros, e não 
achando em Coyna embarque prompto por falta de maré vindo a este 
Porto que sempre o premitte, a tempo que se fazião as ditas casas 
lhe mandou abrir o dito Letreyro e privilegio em premio de prompto 
embarque de que seos moradores nunca gozarão, porque ainda hoje 
he lugar e não villa». (Tomo xxxiv, fl. 831). 

468. Seixas (Beira) 

Peshueo de aelxoi 

«Tem mais esta terra o Cabeço, que chamão de São Martinho 
donde está hiia Capella do mesmo Santo advogado das Cezoens, cos- 



1 Sobre Medobriga e Aramenha vid. Borges de Figueiredo, Beviíta Archeo- 
logica, iv, 62 e sqq. Nio me parece que em Casal de Ermio, concelho de Louca, 
se encontre Herminiu»; julgo antes ser O nome próprio Ermigio. 

1 Cfr. Oppida rtttituta, por Borges de Figneiredo, no Boletim da Sociedade. 
de Geographia de Litboa, v, 874. 



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192 O Ahcheolooo Português 

tumão os devotos Icvar-lhe duas telhas para que lhe leve as Cezoens, 
e ó pé desta capella está hum penhasco de seyxos que parece hum 
Castelto, e só por hua parte se pode lá subir que he por feyiio de 
hua escada, e no cimo tem hua planície donde podem estar mais de 
trezentas pessoas, e para a parte do poente tem hua grande distan- 
cia de altura, que fás horroroso olhar para bayxo. Do cimo deste pe- 
nhasco se descobre muitas terras de Oastella e Portugal.» (Tomo 
XXXIV, fl. 842). 

Pedro A. de Azevedo. 



Vidros romanos de Beja 

Existem no Museu Etimológico os doía seguintes objectos de vidro, 
que snpponho romanos, achados em Boja, próximo da estação dos 
caminhos de ferro, onde tem apparecido vários restos daquella época. 



O n.° 1 representa em tamanho natural um fragmento de vaso de 
vidro branco ornamentado; a ornamentação oecupava o bojo, na parte 
exterior d 'este. 

O n.° 2 representa uma conta azul, com vestígios de estrias. 

O vidro nos dois objectos aSha-se um pouco decomposto. 

J. L. DE V. 



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VOL.VII AGOSTO E SETEMBRO DE 1902 U." 8 E 9 i 
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ARCHE0L0G0 
PORTUGUÊS 

COLLECCÍ0 ILLUSTRADA DE MATEMAES E NOTICIAS 

PUBLICADA PELO 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



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Veterum volvens monumtnla virorum 



LISBOA 

IWBENSA NACIONAL 

1902 



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SXJ M M A. IR, I O 



Um passeio abcheologico no concelho dos Arcos de Valdevez: 

193. 
Espada antiga: 209. 

Estudos de numismática colonial portuguesa: 210. 
Antiguidades dos arredores de Évora: 218. 
Um inventario do século xiv: 223. 
Moeda inédita de 4#400 réis de D. Affonso VI: 234. 
Extractos archeologicos das «Memorias parociluesi: 237. 



Este fascículo vae illustrado com 17 estampas. 



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O ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 

COLLECÇAQ [ILUSTRADA DE HATERIAES l SOTICÍAE 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 

VOL..VII AGOSTO E SETEMBRO DE 1902 N." 8 E E 



Um passeio arcíieologieo 
no concelho dos Arcos de Valdevez 

l>e 1893 datam as minhas primeiras excursões archeologioius pelo 
concelho dos Arcos de Valdevez. Aguçára-me o appetite a travessia da 
Chã do Mesto nas épocas da popular romagem da tíetihora da Peneda, 
santuário escondido mima profunda anfractuosidade das serras da Ga- 
vieira. Nessa chã, pela beira do caminho, as antas ora se encontram, 
ora se avistam, destacando os seus contornos mamiformes, hemisphe- 
ricos, sobre a árida planura da montanha, apenas forrada de tojo ras- 
teiro e fetos bravos. Por menos que se fosse lido nos costumes dos 
povos, que nos legaram estes restos solemnes do seu culto pelos mortos 
e das suas crenças immateriaes, o esplendido planalto do Mezto, se- 
nhoreando larguíssimo horizonte, que dilue ímperceptivelmente as suas 
ultimas balisas pelas longes nebrinas do ceti, insinuava o evocar d'essas 
idades mysteriosas, que desafiaram com suas obras a fúria cega e in- 
clemente das tempestades de vária espécie, desencadeadas ha tantos 
semilOB. 

O indolente chouto dos machos que, graças á firmeza das suas exí- 
guas e curtas patas, incapazes porém de vaeillarem sobre a aresta de 
nm calhau ou de resvalarem no lagedo de uma calçada, bSo as ca- 
valgaduras preferidas pelos frequentadores d'aquella celebre romaria, 
dava-uie tempo a relancear a vista pelas suaves ondulações da elevada 
charneca, c a lobrigar por ella fora as antas desmontadas, que sobrepu- 
jam nutridas mamôas. Abei rand o -me d'ellas, sentia-me invadir d'aquella 
indefinida nostalgia de tempos que nenhum de nós viveu, de épocas que 
nenhum de nós conheceu, e que nos permanecem encerradas num 
segredo quasi impenetrável. Mas depois, cada um de nós que pensa 
desvanecido no nosso progresso, no porvir da nossa raça, considera-se 



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194 O Archeologo Português 

humilhado por motivo da incapacidade para também transpor, com 
monumentos da missa mZo e do nosso génio, aponas meia dúzia de sé- 
culo», ao olhar aqnelles rudes mausoléus de grandes povos, que aliáf 
passaram com o mais magestoso desprezo da sua missão histórica c 
11a mais feliz inconsciência do quejandas preoccnpaçõcs da civilização. 
K não obstante, ainda boje nos torturam, e victoriosamente, com a ânsia 
de sabermos quem eram elles e de onde vinham, legando-nos os seus 
esqueletos; que língua fallavam. mostrando -nos a sua escrita rupestre; 
que crenças professavam, insculpindo ns pedras informes; que género 
de luta pela vida lhes oceupava a existência, enthesourando-nos cui- 
dadosamente as suas armas, a sua cerâmica, as suas jóias, as suas in- 
sígnias. 

Estas reflexões sempre me povoavam o espirito quando, ao atra- 
vessar debaixo de um sol descoberto as nuas serras d'aquelle meu con- 
celho, noutros tempos provavelmente ubérrimas de vegetação, encon- 
trava restos da antiguidade, a principio sem intento de mais do qu* p 
de os ver, e depois, irresistivelmente, com o plano bem determinado 
de os estudar e registar, esquadrinhando-lhes recessos. 

Foi assim que, por um despertar lento de natural curiosidade, 
comecei a arehivar em repetidas digressões os siuaes que pelo con- 
celho ainda appareccm das civilizações archaicas. Ora pesquisava, 
guiado pelo onomástico, como na Chã de Arcas, na Serra da Anta, 
ora me dirigia pela suspeita em que me punham a situação e relevo de 
uma eminência, umas vezes por informação 011 notícia alheia, outras 
quasi a esmo, sem motivo definido. Muitas mamôas encontrei que não 
podiam reeonheeer-se a mais de 20 metros de distancia; tão depri- 
midas e arrasadas que ninguém as via. (Jlaro è que isto acontece 
sempre nas regiões accidentadas ou nas povoadas. 

D'estes trabalhos resultou a ideia de um reconhecimento arehco- 
logico do concelho, reconhecimento que, se não é completo na parte 
que abrangeu, vem em todo o caso revelar a positiva existência de 
restos de grande numero de monumentos megalithicos numa região 
onde apenas eram conhecidos uns seis '. 

Não vae ainda pois acabada a tarefa, e por isso não a acompanho 
de uma carta archeologiea, que ficaria incompleta. Não pude até agora 
percorrer senão as montauhas da margem esquerda doVêz e não todas; 



1 Seis antas na Chã do Mczio regista o meu amigo dr. Leite de Vaecoucellos 

aa -Excursão ao Soajo. em 1882; o Minho Pittorcueo (lá-nos a. gravura de oulra 

rio mesmo local, que provavelmente- é uma das seis, porque varias se acham á borda 



<lo caminho. 



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O AWIHEOLOGO POKTUGUÈS 195 

são extensas, desertas e por vezes ásperas e ínvias. A cada eminência 
que se alcança, parece que a terra logo se dobra e desdobra; surgem 
para deante outros accidentes imprevistos, córregos atulhados de pe- 
nedia, íngremes quebradas desnudas, ou manchadas de giestaes arbo- 
rescente», etc. K o dorso das serras, as chãs das cumeadas, as por- 
tellas ou passadouros dos altos, é indispensável ealcurreá-los todos, 
aos zigue-zagues, procurando as mamôas como quem procura agulha 
eiu palheiro. É nesses pontos que principalmente se encontram mega- 
lithos. 

Da margem direita não conheço as montanhas; sei que ha também 
por lá muito que notar, mas d'esse lado os relevos são menos penhas - 
cosos e mais suaves, u a região tem menos de deserta que a outra. O re- 
conhecimento deverá ser menos fatigante. 

Não me ocetipo agora senão das antas. A descripção dos castros, 
também numerosos, fica adiada sem compromisso de tempo. E útil 
seria fazer o estudo parallelo d 'estas antiguidades. 

Antes de começar, porém, o inventario d'aquelles monumentos, farei 
algumas considerações que os abranjam num volver de olhos geral. 

Em primeiro logar não pude encontrar nenhuma denominação ge- 
nérica que a voz do povo applicasse áa antas. Casas dos mouros, the- 
souros ou celleiros d'elles, cortelhos. . ., são os termos que encontrei 
na gente analphabeta e na illustrada. 

E, comtudo, ha no onomástico uma Serra da Anta, a qual tem os 
restos de um megalitho que já ninguém conhece pela nomeada pró- 
pria; ha uma Ckã das Atras, onde encontrei dois grupos de mamôas 
também ignoradas, uma Bouça da Anta, uma Leira de Anta (Joeira 
Dantes, cfr. S. Paio Dantes, citado por M. Sarmento), etc. '. Estes 
termos ficaram pois no onomástico, mas a sna intelligencia perdeu -se 
pelo menos em algumas regiões *. De onde se poderá inferir, que este 
phenomeno está ligado a causas locaes, hoje indecifráveis. A natureza 



1 Por um documento, tive notícia de um ponto chamado Alto da Arca de San- 
grou, que ainda ulo pude visitar. O termo modorrão existe também, mas locativa- 
uiente, applicado a uni castro da freguesia de £iVa*.Villa-Amil {Castros y matnoas 
de Galicia, pag. 201), refere-se a um castro gallego, denominado Modorra do* 
Honro». Em Alijó chamam modorras ás antas (Ârch. Port., iv, 181). Vejam-se 
as Religiões da Lusitânia, por Leite de Vasconcelos, i, 251 sqq. 

1 Isto nSo suecede com os castros. Embora o povo hoje não saiba affinnax ni- 
tidamente que foram povoações (em alguns talvez só temporárias), tuna sombra 
de tradição ainda parece re conhece r-ae no coutar que, entre castros fronteiros. 



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196 O Aucheologo Português 

funérea d'esses monumentos também de todo se obliterou da memoria 
das populações.' E aqui' o facto é mais genérico. Parece que houve um 
hiato histórico dilatado entre a época do levantamento, utilização e re- 
conhecimento das antas c uma civilização ulterior mais ou menos dis- 
tanciada, que inteiramente ficou ignorando o verdadeiro destino dos 
megalithos. As tradições, d'esta forma, extra viaram-se por completo. 
O assunto é digno de meditar-se *. 

O concelho dos Arcos de Valdevez tem uma balisagem natural pela 
crista das vertentes todas de um só rio, o Vêz. E de certo uma singu- 
laridade topographica. Este rio, afluente do Lima, reúne exclusiva- 
mente aguas da orographia do concelho. Os castros es tenderam -se ao 
longo das alturas que mais de perto cingem o vallc primário, tal como 
linhas parallelas de fortificações que se escalonassem para defender os 
áditos d'esta região de serras. Os castrejos procuravam a contiguidade 
das veigas férteis qne atapetam o fundo do va]le e que o esteiro do 
Vez refresca, para nellas exercerem a agricultura ou pastorearem os 
rebanhos. Reservaram em regra as alturas para as suas moradias e quiçá 
as sombras das frondentes montanhas para asylo de seus mortos. E uma 
lembrança commovedora e que dogmatiza bem a dignidade do homem 
perante a natureza: a do culto piedoso e solemne que os povos, ainda 
no inicio das civilizações, prestaram aos seus defuntos. E é isso o que 
d'elles nos ficou. Pôde bem dizer-se que principalmente a archeologia 
prehistorica é uma grandiosa elegia. 

Mas regressemos d'estes devaneios, que em todo o caso não são pnra 
fantasia, e olhemos para as antas que dormem abandonadas nas mon- 
tanhas d'este concelho. 

Ou porque tenham desappareeido das baixas, não deixando mais 
vestígios que os toponímicos, ou porque de facto não tenham jamais 
lá existido, o que é certo é que as antas de maiores dimensões nau 
se vêem senão nas mais elevadas altitudes do systema orographico 
do concelho; ahi também os seus construetores encontravam já soltas 
e inadherentes pela acção do tempo as grandes lages com que capeavam 



havia rivalidades e combates. Como é preciso qne o archeologo se não deixe fas- 
cinar pela apparencia archaica de una tradição, devo dizer que ao concelho iIob 
Arcos, no século ivh, pela invasão do exercito de Pantoja, emquanto oh hespa- 
nhoes avançavam por uma margem do rio, os portugueses iam -nos íncommodando 
pela outra, ferindo-se por vezes alguns combates de nm contra o outro lado onde 
se encontram castros. que ha a favor da tradição arehaica, 6 que esta tradição 
também existe noutros pontos, por exemplo, na Galliza. (Villa-Ãmil, Castro* y 
momoa» de Galicia, pag. 197 e 205). 

1 Cfr. Hdigiòeê da Ltuítania, por Leite de Vasconcellos, i, 258. 



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O Abcheologo Poktugdêm 197 



essas camarás sepulcraes. O transporte não offerecia insuperáveis em- 
baraços, nem pela distancia, nem pelas escabrosidades do terreno. 
i(.'fr. Cartailhae, Les ages préhistoriqties, pag. 152 e 150). 

Xas eminências inferiores e em situações próximas de alguns cas- 
tros, topam-se antas de menores proporções, tanto pelo que respeita 
á mamfta, como ao dolmen propriamente dito. A região è menos ás- 
pera, os granitos menos denudados e portanto menos expostos á pode- 
rosa corrosão do gelo e das chuvas. Os grandes calhaus teriam de ser 
talhados na rocha viva e arrancados; só os de dimensões medianas é 
que poderiam encontrar- se quasi app a rolhados. 

Todas as antas sao constituídas por pedras que nXo tem o menor 
sinal ou vestigio de trabalho humano nas faces externas. 

a) Chã das Arca» (4 antas): 

Foi a toponomia do logar que me levou a procurar as antas da 
portetla assim denominadas (vid. JieJigBSeg da Lusitânia, por Leite 
de Yasconcellos, pag. 254, Cartailhac, ibul., pag. 147 sqq. e Arch. 
Port,, I, 350). Não me enganei nn minha presumpção '. A Chã das 
Arcas oceupa um local situado entre os marcos designados na carta 
geodésica n.° 4 com as cotas 443 (Penacova) e 471 (Cunrieira), e na 
geographia administrativa do concelho está situada nos limites das fre- 
guesias de Grade, do Vatle e de S. Payo. Marca um ponto da linha 
divisória das aguas do Vèz e do Lima. Contíguo lhe fica o Coto da 
Pena, castro de que restam alguns vestígios*. Quanto a antas, encon- 
Iram-sc, descendo d'este alto, quatro pequenas mamôas em dois grupos 
distanciados cerca de 700 metros. O grupo mais próximo do castro da 
Pena compõe-se de duas pequenas mamôas quasi contíguas, tendo de 
altura l metro a l m ,5. Em Setembro de 18í)5, que foi quando visitei 
rate sítio, já bó existia um dos tranqueiras de uma das antas. No logar 
ila camará restava apenas uma depressão ou escavação. A mamôa era 



1 NJo quero com íato significar que alguém na região dê o nome de arras 
aus dolmen.". Sc nn realidade, estas tirou* eram monumentos prebistoricos ou 
marcos nSo o juro. Divisão territorial que alli houvesse, desconheço -a. Naqnelle 
ponto tocam-se as terras de duas freguesias, que se chamam S. Pedro darco» (hoje 
N\* S-* do Valia) o S. Payo damos, aquella anterior A monarchia, esta muito an- 
tiga também. Se arcos e arcas tivessem o mesmo sangue etymologico, estava 
explicado o nome da vitla dos Arcos de Valdevez, cuja sede 6 S. Payo darcot 
e sobre cuja origem se tem fantasiado a capricho. Tem a palavra os cavadores 
dViitas linhagens da palavra. 

* Para a banda do norte distingueiii-oe ainda dois ou três patamares caracterís- 
ticos; e no alto, do mesmo lado, alicerce de um lanço de muro, entre dois penedos. 



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198 O AECHEOLOflO POBTDGUÊS 

constituída de terra á mistura com cascalho graúdo. Em uma d'ellas 
informaram -me que, havia pouco, tinha sido inhumado uni touro- 
Aviso a surpresas de exploradores incautos. 

Do chão recolhi um caco grosseiro e um fragmento de utensílio de 
pedra (gneiss alterado) obtido na natureza, mas com signaes de apro- 
veitamento pelo homem. Lembra os do cfistello de S. Miguet-o-An/o 
(Arch. Port., I, 6). Não podia provir do castro próximo por transporte 
natural. Havia ao lado d' este grupo nma pequena elevação de terra, 
que deixava duvidas acerca da sua definição. Poderia ter sido ama 
mamôa arrasada e desfeita. 

O segundo grupo compõe-se de ontras duas mamôas, distantes 
uma da outra uns 100 metros. Sao das mesmas dimensões e do mesmo 
aspecto que as anteriores. Roubadas as pedras. Este grupo acha-se a 
NO. do marco geodésico 471 (Cumieim). 

b) Chã do Torrão (3 antas) : 

Visitei este sitio da freguesia de Gondoriz 1 em Agosto de 1895. 
D'elle se desfruta vasto panorama. A este tempo pois se refere o estado 
dos monumentos que descrevo. 

No mappa geodésico a." 1 deve col)ocar-se esta chi entre os pontos 
350 (Selim) e 415 (abaixo e a O. de Villa-Boá), no caminho de Boa-Vuia 
(O. de Selim) para este ponto 415. Á distancia de dois kilometroe existe 
um logar, ainda hoje habitado, com o nome de creuto. Se nío fosse esta 
circunstancia, não se lhe reconheceriam signaes d'aquíllo qoe provavel- 
mente foi. 

Sao três as mamôas d'este grupo. A mais meridional é um pequeno 
tumuluB de terra misturada com cascalho. Desappareceram já as pedras 
da anta e ficou só a depressSo central, como corpo de delicto do sa- 
crilégio. 

A segunda mamóa, também violada, encontra-se a 80 metros da 
primeira, mas está tão junta á terceira e ultima que os perímetros 



A superfície da terra topam-ee alguns restos cerâmicos, análogos na pasta aos 
de outros castros. Nos flancos informaram -me que tem apparecído enterrados 
porriks com cinzas (urnas funerárias). Ha a lenda do olho marinho (como em 
outras estações); isto é, dSo se pode cavar em determinado ponto, defronte do ri- 
beiro de Carraleova (que se avista), com risco de rebentar um olho de agua. Pren- 
de-se-lhe também a tradição de tnta com os Orasfos do Vallr, que lhe ficam a 
distancia e em situação inferior para sul. A denominação de Cato da Pena parece 
conservar a memoria de alguma pedra porventura com valor a rcheo lógico, mil 
que hoje em v3o se procura. 

1 Na bflea do povo é Gnndriz (de Çhmdtrici). 



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O Archeologo Português 199 

daa diiaa se cortam. O meu guia, a quem eu acabava de explicar o 
destino (Testes monumentos, que para elle eram thesouros do tempo 
da mourama, commentou, ao ver estas duas mamôas: 
— Então, senhor, isto aqui era marido e mulher! 
No concelho nXo conheço segundo exemplar d'esta espécie de ge- 
minação de mamôas. 

Tem cada uma a circumferencia de 70 metros e a altura de 1 me- 
tro a 1"',5, o que quer dizer que sâo das mesmas dimensões que as da 
Chã dn» Arca». Do ch3o recolhi fragmentos cerâmicos, sem ornamen- 
tação alguma, trabalhados á roda, mas de pasta e aspecto claramente 
archaicos. 

c) Alto ou Chã <lu Mezio 1 (16 antas): 

O Mesio é uma vasta portella, uma larga e alta ch&, flanqueada 
aproximadamente a ME. e SO. pelos montes do Guiãão (1:217 metros) 
e do Gião (798 metros), e atravessada pelo caminho de Cnha»n-M<nor 
para Soojo. O seu relevo contem-se nas cotas máximas de 7áH e 71fi 
e na mínima de 640, ponto exactamente obtido na trajectória d'aquelle 
caminho. (Vide Carta n.° 1 da Commisaao geodésica). É uma situacXo 
elevada e, para quasi todos os lados, a vista é soberba e o horizonte 
dilatado. O estuário do Lima tica-lhe a SE., e d'alli se observa eomo 
este pittoresco rio, depois de serpentear por entre serras de tortuosos 
flancos, vae adormecer ao longe em manso e estirado leito pelas veigas 
da (.'orrelhi até ao Oceano 1 . 

Âs notas que se seguem foram por mim tomadas num minucioso 
exame que passei (is mamSas do Mezio em Outubro de 1895. Havia 
dois atino s porém que eu já tinha descoberto algumas. 

As antas do Mezio podem marcar-se na referida carta desde um 
ponto a E. da cota 728, seguindo pelas dos n. 01 661 e 640 até próximo 



1 Mezio ou Homexio é antigo termo português, que ficou no onomástico na- 
cional. NBo é ente o único Mezio. Podo ver-aer Eheiílnrio, «. v., •omízio»; Rniitta 
Limilaaa, i, 62; Panorama, n, 379; HMoria de Portugal, de Bcliaeffer, i, 250. 
Em Aeiê chamam pado do Âlmetio (vi d. Revista Lusitana, iv, 227) ao gado 
do monte. Em Caatro-Daire e Lamego ha Meão». 

* Não sei se é As antas do Mezio ou a outros vestígios que ainda não topei, 
que Pr. Lourenço do Valle, amigo de Cenáculo, se quer referir em uns manus- 
criptos exif tontos na llibliotlicca de Évora, segundo apontamentos do meu amigo 
Leite de Vaseoi icei loa: -Hoc etiaiu mire vidi in monte Homexio, jnxta Soajo. 
Ámpliora sunt ígitur aediuui, terra suli gravi carbonibus, 1 a ter Í busque voa- 
tigia fortuito delecta foasorilms, et qnae quondam fníase incêndio sepulta tes- 



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300 O Abchbolooo Fobtuodês 

do ponto 716. E uma linha um pouco encurvada, mas orientada pro- 
ximamente de N. para S. 

São quinze as antas que lá encontrei: um polyandrio em ponto 
reduzido. Infelizmente todas saqueadas e muitas destruídas ; a triste 
mamôa com a escavação central. Castro algum lhe fica próximo; é já 
a região da montanha inculta, em outro tempo talvez coberta de fron- 
doso hosquedo ', 

Começarei a descripçâo d'estee monumentos pelo mais septentrional. 
ao fundo do elevado cone do Gutdão (1:217 metros). 

1/ Mamôa de terra e Barulho, como todas as outras; mede de cir- 
cumferencia 59 metros e de altura ao centro 2 metros sobre o nivel 
do terreno oircumjacente. As alturas d'estes monumentos foram calcu- 
ladas por estimativa; os circuitos foram medidos á fita métrica com 
o possível rigor. 

A anta acha-se destruída e destroçada, com excepção de dois dos 
esteios ou tranqueiras. 

2. a A mamõa tem as mesmas dimensões. 

Existem as ruínas da anta, cuja tampa mede '2"\ 10 X l ra ,50. Dista 
da anterior 500 metros plus minus*. 

3.* A circumferencia do montículo artificial dá 30 metros; a altura 
aproximadamente é de 1 metro. Nem uma só pedra escapou. Fica a 
70 metros da anterior. 

4.' E a melhor de todas. Encontra-se a 40 metros da antecedente, 
para SE. Conserva-se a mamôa com seus 59 a 60 metros de circuito e 
a erypta figurada na fig. 1.* (corte e planta nas figa. 2.' e 3. 1 ). Quando se 
avista esta mamôa nada faz suspeitar a conservação da camará sepul- 
cral, porque está inteiramente enterrada. Subindo porém ao cume do 
montículo, depara-se-nos logo uma grande lage, ainda em parte co- 
berta de terra (em 1895), e que tem & vista 3 m ,10 X 1",80. Esta lage 



1 D'essa secular vestidura resta ainda talvez um bello pedaço, na c 
Mala do Ramiictil, que oecupa as margens do ribeiro de Cabreiro a 2 kilometros 
das nascentes (1:306 metros) até cerca de 8:000 metros abaixo. Essa esplendida 
inata é o mais incondicional logradouro de vândalos que se pode crer em terras 
de civilização. Povoam -na carvalhos e azevinhos. 

* A distancia aproximada de 100 metros, na direcção em que venho, encon- 
. tra-se uma elevação de terra e sarulho, nSo emergindo totalmente do terreno, nuu 
bó metade, porque a outra parte confunde-se com o relevo do monte. Esta ele- 
vação é coroada por uma lage de 2",90 X 2 metros, que se apoia por um lado 
na rocha natural e pelo outro descansa sobre um calbau de forma arredondada. 
Davido que tudo isto seja obra do homem. Mas terá sido aproveitada? (Vide 
Reviria de Guimarães, «toi, 26). Registo em duvida. 



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O Archeoloqo Pobtugcéb 201 

é uma das tampas ou capas da anta; todas as outras acham-se occultas 
ainda. È claro que este monumento foi já saqueado, mas conserva ainda 
todas as suas pedras nas respectivas posições. Os violadores incspertos 
atacaram-no pelo lado do O., cavando junto a dois dos esteios ou tran- 
queiras, até conseguirem desviá-los um pouco para fora, e formar assim 
uma abertura, uma espécie de escotilha, por onde apenas pôde intro- 
duzir-sc uni homem, descendo-se. 




Kntrando-se na camará ou crvpta, nota-se que todas as pedras con- 
servam ainda os seus logares, sustentando as de supporte três grandes 
lages que capeiam a anta. O pavimento é de terra negra e mede 2™,80 
X 2™,60, sendo aproximadamente circular. A entrada própria da anta 
parece ter sido para E., na pedra A. Coaclne-se isso pelo exame da 



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202 O AftCHEOLOGO PobtdgcêS 

disposição dos pés -direitos relativamente uns aos outros. Como se pôde 
verificar na planta da camará, estas pedras estão dispostas não de-topo 
mas de-coberta, isto é, sobrepondo parte das suas faces menores. D'esta 
sorte, a vedação das juntas era tanto quanto possível completa, porque 
as pedra» ajustavam-se pelas faces lisas, naturaes, e não pelas fracturas 
irregulares e toscas. Este processo de construir tem sido reconhecido 
em outras explorações (Cfr. O Pantíieon, n,° 1, artigo de Martins Sar- 
mento, sobre as antas doValle de Ancora). As primeiras pedras collo- 
cadas pelos couBtructores megalithicos teriam sido os tranqueiras da 
entrada própria da anta; successivamente viriam outras encostando-se 
ás que as precediam e sobrepondo-se em parte. 

Do corte da anta também se pode inferir qual o processo de as- 
sentamento das padieiras; a primeira collocada teria sido a mais pró- 
xima da entrada ; sobre essa correu a segnnda e por ultimo a terceira. 
A pedra A deve ter sido a porta, e como tal collocada em ultimo togar. 
Parece-me que por ahi- deviam ter começado exploradores mais avi- 
sados. O esteia ou tranqueira opposto á entrada mede, na parte visível 
interiormente, l m ,70 de largura por 1",40 de altura, que pois representa 
a máxima altura interna da camará funerária. 

5.* A 150 metros aproximados para SE. da referida mamôa en- 
contra-se outra de dimensões apparentemente iguaes. Parece ter tido 
uma pequena galeria com 2",80 de extensão e de largura 0™,80; orien- 
tada NO. -SE. A lage superior tombada é sensivelmente circular com 
2 metros de diâmetro. Alem (Vestn pedra, conservam-se algumas de 
supporte. 

Ii. a Pequena mamôa, com os seus contornos já pouco perceptíveis, 
o que torna impossível medi-la. Não ê mais alta que 1 metro. A crypta 
não teria mais de 1 metro de diâmetro, a julgar pela posição de alguns 
supportes. Este monumento encontra-se a cerca de 300 metros para 
SE, do anterior. 

7. 1 A 150 metros da mamôa antecedente, caminhando-se porém no 
rumo de NE. para SO., encontra-se outra com 55 metros exactos de 
circuito e a altura de l m ,5 a 2 metros. Existe a lage superior ainda 
pousada sobre alguns tranqueiras, que formam um recinto circular com 
o diâmetro de 2 metros. 

H.* Torneando um pouco para 8., avísta-se uma mamôa junto ao 
caminho. As suas dimensões são idênticas ás da primeira que descrevo, 
isto é, mede 60 metros de. circumferoncia e de altura 2 a 3 metros. 
Da anta só tirou o sitio. 

!).' Voltando para SO., á distancia exacta de 30 metros topa-sc 
com outra mamôa no mesmo estado da anterior e tão intacta como ella. 



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O Arcreologo Português 203 

IO.* A distancia de 6 metros certos para S. ha minas de uma 
mamôa pequena, completamente saqueada o que de alto nao tem maia 
de O"*, 50. 

11." Regressando á 8/ mamôa e andando para SE. 160 metros, 
depara-se-nos outro tunatlus, cuja altura náo ultrapassa 1 metro, e em 
<-ireuito é inferior úquelln, eom a qual e mais com a 9/ forma um 
triangulo. 

12/ Partindo agora da 9/ para 8., ú distancia de ãíi metros me- 
dulo», tocam os pés em uma mamôa, desprovida já de pedras, e tendo 
70 metros de redor com 3 aproximados de altura ao centro. 

13.* Medindo 23 metros do ultimo tumulus para ENE., vê-se novo 
monumento, completamente depredado, distando da 9. a mamôa 40 me- 
tros e formando triangulo com essa e mais a 12/ Nfio chega a ter 1 
metro de altura. 

14/ Afastada da anterior 80 metros ha outra mamõa na direcção S. 
E das de maior typo d'eate polyandrio, restando da anta os snpportes, 
elevando-se acima do tumula» de terra l m ,5. Parece ser a que vem figu- 
rada no Minho Pittoreteo. Será difficil dizer hoje desde quando data 
o desaferro do dolmen. 

15/ É uma mamôa de 2 metros aproximadamente de altura que 
está situada a 65 metros de distancia da anterior para SSO. Deixa- 
ram- lhe por favor um tranqueiro. 

16/ Esta mamõa encontra-se entre o Mesto e liouças-Donas do ou- 
tro lado de uma ribeira e a algumas centenas de metros da 1/ Nao 
a vi eu, mas um companheiro meu d'estas digressões que me merece 
credito. 

Como costumo, indago sempre se a voz popular tem para esta 
espécie de monumentos alguma designação especial. Não a encontrei 
ainda. Explicaram-me que aquillo eram casas dos mouros, esperas 
das batidas ao lobo. . . A lenda do passado e a realidade do presente! 
Nao devo deixar de me referir a uns curiosos enfileiramentos de 
pedras, mais ou menos com as formas de lages, desenhando na pla- 
nura da montanha figuras muito irregulares no traçado e nas dimen- 
sões. Algumas d'essas lages teeui 1"',5 de altura, e largura igual, o 
que lhes dá respeitáveis dimensões. O transporte dVstas pedras teve 
de effectuar-se por distancia de algumas centenas de metros, desde as 
quebradas oircumdantes. Tndo está muito destroçado, mas conhece-se 
que em outro tempo marcavam recintos fechados, embora da maior ir- 
regularidade. Hoje ha muitas interrupções. Caracter areheologico nâo 
creio que tenham. É certo que, perguntando eu a »m guia montanhês 
o que queriam dizer aquellas pedras, elie me explicou que eram bouças 



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O Archeologo Português 



do tempo doa mouros l , o que a meu ver, níto é bastante para lhes dar 
valor archeologíco. Relação com as antas, não me parecem ter; e a 
prova está na 4.* mamôa, que é atravessada por duas das taes veda- 
ções. Chamam se bouças de João Paz. 

•1) Chã do Porrêáo* (1 anta): 

Este local pertence á freguesia de S. Jorge e fica nos limites d'eata 
e de N. â S. a doValle. Sendo pouco extenso, não é fácil determinar- lhe 
bem a situação na carta geodésica n." 4, mas parece estar comprehen- 
dido nos pontos designados com as cotas 348, 378 e 470, vertentes 
do rio Lima. 

Percorri estes sitios em Setembro de 189Õ, e ainda não voltei lá 
depois d'esse anno. 

 mamôa que lá existe é das de maior typo d'este concelho. Con- 
tei-lhe 64 metros de circuito, mas de alto apenas l m ,5. É preciso, creio 
eu, presumir que a primitiva elevação d'estes monumentos deve ter 
sido maior; o que actualmente as protege é o mato; in tilo temport 
eram decerto abrigadas pela vegetação arbórea circumdante. 

l>o que era mais difficil livrar-se uma anta, era da rapina; e assim 
nesta perdeu-sc tudo, menos. . . o que era intransportavel. A eseavaçlo 
que ficou, mede seis passos por três. 

Os monumentos d'esta limitada região apresentam uma particula- 
ridade que me feriu a a t tenção, e não só a mim mas a um guia que 
me acompanhava e que, a respeito de prevenções li Iterarias, mal sa- 
beria ler. 

O tumulus é constituído de terra e cascalho grosso, abundante no 
monte, mas em redor da camará ou das suas minas estão collocadas, 
contiguamente, series de pequenas lascas de pedra em disposição im- 
bricada inversa, isto é, assentes como as lousas de um telhado de ar- 
dósia, mas de tal forma que são as inferiores que recobrem as supe- 
riores e não více-versa. O meu guia designou esta disposição por um 
termo feliz, dizendo que eram pedras entelheiraâa»; e sSo-no, mas in- 
versamente. 



1 Bouça é ura pedaço de monte, fechado por parede, isolado do restante baldio, 
para que n vegetação se desenvolva a salvo do dente do gado. E propriedade par- 
ticular. Conetitue, penso eu, o modelo e ntethodo a seguir na arborização gradual 
das nossas montanhas. Monte é, na linguagem d'estes sítios e em sentido rentricto, 
o maninho. 

1 Porr&âo poderá vir de pÕrro (alho) e designar abundância d'elles (Cfr. ar- 
voredo, vinhedo). 



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O Abcukologo Português 205 

Se este systema de construir as camadas externas das mamôas 
se inspirava na intenção de as tornar mais consistentes, necessidade 
acaso reclamada neste sitio por motivos que hoje não adivinhamos, 
ou talvez impróprias para a vegetação, pareceu-me que na verdade 
Iwm sagazmente andaram os nossos prehistoricos avoengos. A erosão 
da mamôa devia ser qnasi nulla durante muitos séculos, e a anta ou 
propriamente o jazigo fúnebre, embora fosse construído por pedras de 
pequenas dimensões, como era presumível que o fosse naquelle sítio, 
por não haver de outras, deveria ficar muito melhor protegido contra 
a rapina. Resgatava-se assim por uma construcçao especial a imrnu- 
nidade que deveria provir do megalithisrao ritual. 

O monumento era em 1895 cortado lateralmente por um caminho. 

e) Alto das Ra/ tosas (4 antas): 

Subindo da Chã do Porrêão no rumo E., alcauça-se o A/to das 
lic/iostis. Ao dobrar o pendor de» monte para a cumioira, em um pe- 
iwdn ha vate signa) / /\ o qual, conforme a posição do observador, 
pode considerar-se com o vértice para cima ou para baixo. As linhas 
cheias indicam a parte em que se reconhece trabalho humano; a pon- 
teada a parte em que elle é discutível. É de 0™,20 o comprimento das 
hastes maiores. 

1.' Logo a seguir encontra-se uma mamóa que tem 22 metros de 
circumferencia. Destroçada como as que seguem. 

2." A 40 metros de distancia ha outra medindo no circuito 35 
metros. 

;}.* Está 12 metros distanciada, e é sensivelmente igual. 

4.* Outra mamôa dista 17 metros, e apresenta as mesmas dimen- 
sões. 

Estas mamóas estão numa direcção proximamente de O. para E. 
Das suas camarás só existe a depressão central, e os próprios tumuli 
tendem a desapparccer, pois já só tem O" 1 , 70 de altura, apesar de serem 
etittlheiradoe, — aproveitemos o termo. 

/) Alto de Sobrcdinko * (1 anta) : 

Continuando a subir o monte encontra-se outra mamôa. 



1 Sobrtdinho é demiuntivo de Sobrido qne está no mesmo caso de Porrêdo; 
isto é, vem de Sobro. Devo esta indicarão ao Sr. Dr. Leite de Vasconeellos, que 
me diz mais, que Sobreda existe no onomástico de Vianna do Lima c de Villa 
Real; e cfr. Sobrédo que se encontra em Tráa-os-Moute», Beira e Estremadura. 
Xa Galliza ha muitos Sobrido» e pelo menos uma Sobreda. Em Oliveira do Hos- 
pital ha o dolinen da Sobreda (vid. l'orl avalia, i, 18). 



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O ÀRCHEOLOGO POBTUGDÊB 



1." Esta apresenta a feição e o aspecto das anteriores e acha-sc 
uo mesmo estado. 

g) Coto dr Vil/ar ãr Oshoí (6 antas): 

Ainda no mesmo local, subindo sempre, mas desandando um pouco 
para N., em uma eminência que fica sobranceira ao logar de Viifardr 
OstoB, descobre-se novo grupo de monumentos d'csta natureza, ae 
todo 6, e tio desfeitos que mal destacam o seu relevo. Não teem mais 
de 25 metros de eircumfcrencia. 

São construídos de terra e lascas de pedra, colhidas á superfície 
do monte, onde se encontram em grande cópia. Ainda é bem patente 
a disposição especial a que acima me refiro. 

Km nenhum outro ponto do concelho encontrei íuamòas construídas 
por esta forma. 

Em uma monographia intitulada Contributiun à 1'étuJe dm tuarcltett 
(separata do tomo xxi dos Annaes da Sociedade Archeologica de Namuri 
pelo barão Alfredo de Loc" (lHÍ)f>), eneontra-so a descripção de alguns («- 
muli belgas, designados com a locução marchtt», em que se poderá ver 
alguma analogia com estas mamõas formadas, como aquellcs, de cas- 
calho quasi só. Nas dimensões esses monnmentos ainda se aproximam 
dos nossos (altura 0"',õ0 a l m ,5; diâmetro 3 a 18 metros). Não quem 
por isto estabelecer filiação, mas notar o facto e insinuar que causas 
idênticas devem ter produzido factos análogos em todas as regiões. Os 
nutithett encontram-se em sítios elevados, incultos e agrestes; as ma- 
mõas mtelheiraãas também, mas aqui a abundância de lascas sugfreriu 
de certo aos construetofes d'estes monumentos a imbricação do cas- 
calho exterior. Os marchete são também protegidos por cascalho irre- 
gular, mas muito conjunto. 

k) Larn/is do Vêz (6 antas): 

Nas quebradas setentrionaes do ponto mais elevado (1:415 metros; 
da orographia de E n tre -Li ma-e- Minho, o Alto da Pedrada, sito na parti; 
da serra de Soajo denominada Outtiro-Maior, entre as cotas 1:258 c 
1:288 metros da carta geológica n." 4, dilata-sc uma larga planície, * 
que chamam Lamas âo Viz, porque ahi brotam, por entre a urze e os 
piornos, os fios de agua que engrossando gradualmente vão formar o 
curso do rio Vêz. 

A esta já respeitável altitude, encontrei em 1894 seis bellas ma- 
mõas, cujas dimensões não pude tomar com rigor, mas que me pare- 
ceram semelhantes ás do Mczio. As antas foram saqneadas e derni- 
ladas. Pertencem, pois, A classe das antas inegali tbicas do concelho, 



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O Abcheologo Foktugukb s!07 

podendo as do nutro typo (Chã daê Arcas, PorrSdo, Alto das Raponua 
etr.) considf rar-se como tendo sido anteltas, a julgar pelas dimensões 
do que resta. 

i) Chã do Calcado ('J antas): 

O Galrado ê uma lomba de surra que na carta geodésica a." 1 
tem a cota de 1:250 e liça a SE. do marco lá inexactamente designado 
com o titulo de Peneda em vez de Pedrinho*. Nesta chã existe uma 
bella anta, alterada bastante, cuja camará mede interiormente l m ,;10. 

Como actualmente serve para eapera nas batidas ao lobo, é isso o 
que nos respondem os habitantes da região quando se pergunta pelo 
epitheto de tal construcçao. 

A 00 metros para E. da inamõa anterior encontram-se minas de 
mitra. 

J) Alio do Otmpetto (1 anta): 

Este ponto, situado na mesma serra, e na freguesia da Gavieira, 
tem a cota de 1:155 metros e encontra-se a 1:000 metros ao Sul do 
marco da Cesta* (1:131 metros) e a NE. do Pe-irmho. Vè-se ahi uma 



* Esta inexHctiditc provém naturalmente de informação confusa prestada 
pelos gutas ao distiucto engenheiro que levantou a carta geodésica nesta regilo. 
O marco a que na carta n.° 1 se assigna o titulo Peneda, é conhecido pelos habi- 
tantes com o nome de marco do Pedrinho, c teve a cota de 1:373. Pertence a, fre- 
enesia de Sitttllo. Peneda è o nome de hm logar que se encontra na mesma carta 
ao centro de um quadrilátero formado pelos marcos Pena me da (1:258), Rajada 
(1:081), Veiga (1:139) e Agua Santa (1:139). É um ponto situado no fundo de um 
vallc agreste, e nelle existe um santuário (N.* S.* da Pcneda) muito concorrido, 
cm duas romarias do anno, por gente do Norte, do Minho e da Galliza. Pertence 
a freguesia da Garieira. Esta grande serra tem sido designada pelos que con- 
sultam esta carta cora a epigraplie de serra da Peneda, em consequência da faci- 
lidade com qne salta á vista a palavra Peneda (aliás Pedrinho) escrita em letras 
maiúsculas, mas deverá ser chamada Serra de Soqjo 1 , porque o seu ponto culmi- 
nante (Pedrada, 1:415 metros) está dentro de limites da freguesia de Soajo. 
Da evidencia com que na carta da CommissSo Geodésica se apresenta a palavra 
Peneda (1:373 metros), provém esquecer-se o ponto mais elevado da serra, situado 
numa collina chamada Outeiro- Maior, cujo cimo restrictamente é conhecido por 
ÁUo da Pedrada e sito a 1 :415 metros de altitude, o ponto mais elevado do norte 
do pais depois do Gerez. 

1 De c.itta deve provir, mas nao no sentido archeologico. Talvez o local dê 
a decifração do nome. 



eordllbelr* prlnchMl «i 



» by GoOglC 



O Abcheologo Português 



anta do maior typo da regiio, anta cuja lago superior do forma elli- 
ptica mede 3'",20 X 2"',40 X 0",50 de espessura (hg. 4.'). 



<u 



Como serve hoje de abrigo ao gado que pastoreia no monte, ouvi 
darem-lhe o nome do coiiellio. ( > sítio, onde se levanta este monnmenl» 
é a ,l/«í<t do Olho Marinho 1 . No di/,er de um pastor que me mostrou 
esta respeitável inamôa, foram os mouros que fizeram tal obra:— /fo- 
uietiê, st-nhor, não podiam! accrescentava elle. 

k) Serra da Anta (1 anta): 

Em área das freguesias de Portella e de Sistello, desde o logar da 
Mourisca até ao coto da Estríca, está a serra chamada da Anta, onde 
o Efectivam ente visitei as ruínas de uma. Na carta tem o local inexacta- 
mente o nome de Mvndoiro* e conta 79íi metros de altitude. Da anta 
não se vê mais que a mamo a. Apesar do nome da serra, ninguém me 
sabia dizer onde era o megalitho. 

/) Junto ao caminho que liga as duas freguesias de S. Jorge e £V- 
mello, antes de chegar a ViUar de Ossos, existiam em 1897 as mina; 
de uma anta, já sem pedra alguma. 

SAo estas as 4(> antas de que posso dar noticia exacta, ponjin' 
as visitei todas, menos uma. Restringindo-me, porém, á área do con- 
celho dos Arcos de Valdevez, posso ainda indicar algumas por infor- 
mação, nas freguesia» de Goiiãoriz (sítio de Entre-côtos), do Valle ( logar 
de Paredes), da Miranda (ao S. e ao N. do CasteUo), do Extremo (fíragan- 
déllo), da PortAhi (sobre o sítio da Layoa e no Penedo do Lobo), e de 
Padroso, — sem comtudo estar habilitado a dizer o seu numero. D'esta 



1 Villa- Atníl (Castros y viamoas de Galicia) dá o nome de motas a umas protu- 
berâncias ou elevações de terra que tem encontrado no cimo de alguns castros 
gallegoa. 

1 Mendoiro é sítio que rn-a na vertente norte d'esta mesma serra. 



cbyGOQ^IC 



O Aecheologo Poetuguês 209 

rápida exposição se infere que a archeologia portuguesa tem um vasto 
campo de estudo dcante de si, nao lhe minguando megalithos para 
exercer a sua actividade, mas estando ainda longe de completar o in- 
ventario d'estes monumentos. Em cada concelho se deveria fazer uma 
investigação archeologica capaz de revelar todos ou os principaes ves- 
tígios das antigas civilizações. Confesso porém une é difficil fazê-la 
por estranhos. Por meio das anctoridades locaes, é inútil tentar seme- 
lhante empresa. Do Sul ao Norte de Portugal as antas são abundantes, 
attingindo as maiores altitudes das regiões montanhosas. 

Maio. 1902. „ . _ 

1 Félix Alves Pereira. 



Espada antiga 

A espada que se representa na figura junta, vista dos dois lados, tem 
de comprimento l'",0ii. A lamina é de dois gumes, e mede de compri- 
mento m ,86; de largura junto ao punho tem O" 1 ,04, diminuindo pro- 
porcionalmente, e tendo próximo da ponta m ,2. 



Junto ao punho tem um corte semi-circular, aonde se apoia a se- 
gunda phalange do dedo indicador, sobrepondo na primeira d'esse dedo 



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210 Archeologo Português 



a primeira do pollegar; os três dedos restantes da mão seguram n 
punho, que só tem o espaço de IP" ,06, presumindo-se que neste espaço 
tivesse talas de madeira ou marfim. 

O guarda- mão tem de um lado doía botões eom pé, de O*' ,03 de 
altura, que serviam para proteger a costa da mão, quando a.espada 
do adversário resvalasse (tígura da *rmta)7 e na tígura da flfifNW 
vê-se um appenso metallieo, que, alem de proteger os dedos da mio, 
servia também para suspender a espada, quando coltocada no talabarte 
ou arção. 

O giiarda-mão e punho são <le ferro, e tanto estas partes comu 
a lamina estão bastante earcomidas pela ferrugem, tendo apenas, por 
esse motivo, somente de peso l k ,20o. 

Foi encontrada, já sem bainha, ao sorribar o terreno de um prado, 
para plantação de vinha, no termo de Burçó, eoncelho de Mogadouro, 
partindo-se em três hocados na occasião de a arrancarem. Apparcct- 
ram também, em diversos pontos do mesmo prado, ossadas humanas, 
que, ao serem extrahidas da terra, se desfaziam. 

Segundo a tradição, naquelle prado íeriu-se uma sangrenta batalha. 

Bragança, Fevereiro de 1902. 

Oklestiko Be^a. 



Estudos de numismática colonial portuguesa 
3. Oh patacOe* de (loa 




Dentro de dois círculos as armas do reino, entre Cl— A. A legenda, 
que se segue da esquerda para a direita, está qtiasi toda obliterada; 
presumimos que deve restituir-se do modo seguinte : 

[PI1I]LIPV[S] • III • REX [ ■ PORTVOALIAE • ET ■ ALG • , 
É provável que a orla fosse ornamentada eom circuito de glóbulos. 

Çr. — Cruz da Ordem de S. Bento de Avis, dentro de um circulo. 
Legenda: IN H00 ■ S[IONO VINOES ■] 



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O Abchkologo Pohtuqdís 



Pa tacão de G tangas de prata de 11 dinheiros. 

Peso 17*,35. Diâmetro 30 milímetros. Espessura 2,5 tnillimetros. 




Dentro de dois círculos as armas do reino, tendo á direita um A. 
Obliterada a letra monetária Gr á esquerda. 

[PHILr]PVS III - REX [ PORTVQALIAE ■ ET ■ ALO ■ ] (?) 
que se lia da esquerda para a direita. Na orla restos de circuito de 
glóbulos. 

£-. — Cruz da Ordem de S. Bento de Avis dentro de um circulo. 
Legenda: IN [ ■ HOC ■] SIG[NO VIN]CES 

Meio patacão de 3 tangas de prata de 11 dinheiros. 

Peso 9*,50. Diâmetro 26 millimetros. Espessura 1,5 inillimetros. 

Estas moedas foram cunhadas na Casa da Moeda de Goa. Únicas 
;ité hoje conhecidas, são ornamentos notabilissimos do medalheiro do 
Sr. Henry Grogan, subdito de Sua Majestade Britannica, residente 
«m Park Street, 101, Grosvcnor Square, London,W. 

Este cavalheiro, que se dignou enviar-nos copias dos espécimes, 
em boa hora occasionou a palestra que vae seguir-se. 

Não se poupem louvores a quem concorra para que a sciencia co- 
nheça especialidades monetárias de alto interesse. Este procedimento 
contrasta com factos que, por vezes, se dão em Portugal, onde existem 
alguns medalheiros, considerados valiosíssimos, que a ninguém é dado 
estudar, nem aos próprios donos! como se o pensamento fosse gazua 
contra a inviolabilidade a que tem jus quaesquer antiguidades, onde 
quer que a fantasia do acaso as tenha collocado! 

A causa fundamental da emissão de patacues goenses, durante o rei- 
nado de D. Filippe III, encontra-sc declarada no livro iv do archivo 
do extincto Conselho da Fazenda de Goa, a fl. 125. 

Em 13 de Novembro de 1630, o viee-rei D. Miguel de Noronha 
propôs ao Conselho a conveniência de se baterem moedas novas com 
symbolos portugueses, que substituíssem as patacas hespanholas, reates, 
que as armadas do reino tinham embarcado no Tejo, com destino á 



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212 O ÃHCHEOLOGO PORTUGUÊS 

Indía, em abundantes remessas, principalmente depois que D. Filippe 1 
entrou na posse da herança que os Governadores do reino de Portu- 
gal e outros traidores lhe haviam facilitado. Esses reala, que a nação 
portuguesa era forçada a tolerar, pobre, acabrunhada e profundamente 
ferida pelo desastre de Alcacer-Kibir e pela inaptidão de um cardeal de- 
crépito e inconsequente, que fora rei, circulavam na índia com valores 
incertos, desfigurados pela monstruosa lepra dos carimbos, variados, 
e roídos pelo cerceio. 

O índio nunca se entendera +em com a pataca hespanhola, cujas 
fracções, inconvenientes e prejudiciaes nas condições da prata que- 
brada, baptizava com a variada nomenclatura da antiga moeda indí- 
gena. 

Em 1030, apesar d'este recurso ingénuo de baptismo, aggravava-se 
a situação monetária do Oriente Português. 

O indio malbaratava o tempo e a paciência, questionando parti- 
cularmente, nos bazares, nos mercados, e clamava pela promulgação 
de reformas contra confusões c enredos. Por que se não cunhava moeda 
com symbolos portugueses? Occorria, naturalmente, esta pergunta. 
A resposta guardava-se, como se fora um segredo que tivesse de pro- 
teger um crime! Tempestuosos ventos da Hespanha derrubavam ins- 
tituições e prerogativas seculares, e, no desastre d'esse esmagamento 
oppressor, o numisma português antigo vacillava no seu pedestal de 
glorias, immensamente saudosas! 

Os reales tinham então a preponderância em todas as ramificações 
do commercio indo-português. 

Esta praga hespanhola invadiu outros domínios de alem-mar. Na 
Ilha da Madeira, em 1789, os reales foram admittidos como moeda 
corrente representativa de 1/5000 réis; em Cabo Verde circulavam pelo 
valor de 920 réis; em Angola por lfHOO réis; e em Moçambique por 
920 réis 1 . 

No reino foi auetorizada a circulação de patacas hespanholas, por 
decreto do general Junot de 17 de Março de 1808, com o valor de 
800 réis, e subsistiram até & lei de 29 de Julho de 1854, que lhes 
suspendeu a regalia. 

Ainda por decreto de 1 de Setembro de 1834 voltaram a circular 
carimbados com um punção de armas portuguesas (carimbo idêntico 
ao dos dobrões de ouro). 



1 Noticia tobrt o» pesou, medidas t motda» de Portugal t suai jnueuõce ultra- 
marina*, por Luís Travassos Valdez, pags. 31, 34, 37 e 89. 



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O Arcbeolooo Português 213 

Parece que a Hespanha não se orgulhou com esta deferência fi- 
dalga dos seus vizinhos. 

Os reates viveram longa serie de annos na índia Portuguesa. Ainda 
em 1856 eram a única moeda estrangeira auctorizada ali, por titulo 
que nos é desconhecido, e por isto circulavam com insignificantes va- 
riações cambiaes. Tinham o valor de 5 serafins, 3 tangas e 45 réis, 
ou 1$725 réis de Goa. 

José de Torres, no artigo intitulado «Portugal em 1690», inserto 
no Arckivo Pittoresco, n, 323, disse que: iDe Portugal ia todos oh 
annos a Goa um grande navio, armado a expensas da fazenda, e car- 
regado pelos particulares, que pagavam o frete. Ah remessas consis- 
tiam quasi exclusivamente em patacas de peso, em que se lucravam 
sessenta por cento». Mesmo levando em conta o exagero do escritor 
a respeito da quantidade dos carregamentos, vê-se que no reinado 
de D. Pedro II os negociantes da metrópole ainda tinham singular 
maneira de prejudicar os povos da índia, como a tiveram durante 
a época filippina. 

Grande quantidade de moedas de onro e prata foi cunhada em Por- 
tugal no reinado de D. Filippe III; porém este neto do Demónio do 
melo-dm, porque não se atrevera a sepultar no olvido a promessa de seu 
avô ', permíttiu que derivasse para o Oriente a fatal epidemia hespa- 
nhola, grandemente odiada ali, como em Portugal, em vez de promover 
c facilitar a exportação da moeda do reino, que seria bem acceite pelo 
indio, como o foi aqnella que a equipagem das caravelaB de Vasco da 
ííama cambiou em Calecut. 

Em 1(530 o Conselho da Fazenda de Goa, ponderados motivos 
de força maior, attendiveis de melhor feição que os da justiça, acor- 
dou da inércia antiga, e, sobre saltado com a ideia de acontecimentos 
lamentáveis, para os quaes a reprovada influencia dos rudes pu- 
desse encaminhar a irritação do animo popular, accedeu á proposta 
do vice-rei. 

Os cadinhos officíaes aprontaram-se para a transformação imme- 
diata de rente» na importância de 50:000 serafins. Tão insignificante 
quantia para amoedar de pronto era remendo bem simples e exíguo 
para encobrir um rasgão complexo e enorme ! D'aqui resultou que os 



' Entre as mercês, graças e privilégios que D. Filippe I deu a Portugal na 
carta patente de 12 do Novembro de 1582 mejiciona-se, no capitulo vtití «Que 
o ouro e prata que se lavrar nestes Reinos e Senhorios se lavrar* co'os cunhos 
de Armas de Portugal sem outra incstuxa». Cotlteção da» Corte», da Academia 
de Historia, tomo xi, pag. 70. 



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214 O Archkologo Português 

reale» continuaram a proBperar, não obstante os protestos platónicos 
do povo, que apenas pedira a palavra, e nSo a violência brota, como 
de ordinário snceede na diplomacia das greves actuaes. 

A nova estiva para bater os 50:000 xerafins manteve o titulo da 
prata recolhida, sem outra liga alem da que tinha. A moeda de maior 
valor e a do valor immediato receberam omcialmente o nome deputação 
e meio jjatacão, da origem i>at<tca, palavra com que foi conhecida a 
moeda hespanhola de 8 reide», tanto na índia como em Portugal. 

Foram emittidas as seguinteB moedas: 

Patacão de tangas com o peso de 345 grãos ; 

Meio patacao de 3 tangas com o peso de 177 '/j grãos; 

Tanga pesando 57*/j grilos; 

Meia tanga pesando 28'/* grãos. 

Mo se conhecem estas moedas mínimas. É provável que também 
mostrassem a cruz da ordem de Avis, symbolo ca rac to ris tico da emis- 
são, que não foi repetida. 

Esta cruz, que na moeda do reino foi gravada algumas vezes 
até o reinado de D. Pedro II, em moedas indo-portuguesas figurou 
somente na emissão de 1030, porque o facto desagradou a D. Fi- 
líppe III, que, por carta regia de 15 de Março de 1634, ostentou a 
defesa do legitimo direito da Ordem de Cbristo, a cujo mestrado per- 
tenciam os dízimos que se cobravam na índia, ao passo, que censu- 
rava a emissão, que não auctorízara, e ordenava que de futuro se 
cunhassem xerafins de prata baixa, apenas quando a necessidade de 
os emittir fosse absoluta. E era assim que a Hespanha concorria para 
a decadência económica da colónia, cujas antigas glorias nao tinham 
symbolos representados nos brasões da sua nobreza. O ciúme da gloria 
alheia arrancava do passado elementos ideaes para se constituir um 
crime de ruina futura! 

Penalíza-noB ver que os exemplares figurados e descriptos nao con- 
servam a primitiva belleza. Evidenceia-se que um gravador, muito hábil 
para tal época, se distinguiu notoriamente em Goa. É admissível pensar 
que sob a direcção c conselho de Jorge da Cunha ', que exercia o officiu 
de ensaiador (la mwda ila cidade de Ooti no tempo de D. Filippe III, 
fosse executado o trabalho. Parece que este artista não era natural da 
índia. Na carta de continuação no orneio de cunhador na mesma cidade, 
passada a favor de seu filho, António da Cunha, por D. Fílippe III. 
em 24 de Março de 163G (vide ainda a nota infra), diz-se que Jorge 



1 ViHe O Archeoloyo Ptirtugitt», vn, iti. 



■a by GoOglc 



O Akciieologo Português 215 

da Cunha era estante nu índia, isto c, que ati tinha residência. Habi- 
litar-se-hia em Lisboa, onde fora ourivez, ou abridor de cunhos? 

A conjectura de superioridade artística entre este homem e outros 
moedciros de Goa, contemporâneos, é fácil de mostrar. Confror*"-"" 
o que resta nas gravuras dos patacoes com a menos bem cui 
expressão de symbolos gravados em moedas goenscs cmittidas 
riormente, de que se podem ver exemplos na est. i, do vol. 11 
obra do I>r. Teixeira de Aragão, DescripçSo (feral, etc. 

< >s patacijes, apenas emittidos, saíram da circulação goense. 
obstante estarem assignalados com a cruz, assalton-os a avarez 
softrida nos Estados vizinhos da colónia portuguesa. Optimau 
recebidos no estrangeiro, recommendados pelo titulo metálico e 
peso, emigrados opulentos, fatalmente estavam condemuados ao 
quilamento. K o Conselho da Fazenda não presumiu este infi 



Os exemplares do Sr. Henry Grogan, únicos existentes, salvo 
sualmente do cadinho, provam a nobreza da sua origem e a dosas 
L-jttincçSo dos seus companheiros. 

O desusado diâmetro e a espessura do patacâo de li tangas nau 
■ alisar surpresa entre colleccionadores, habituados a conhecer són 
formas modestas em xerafins e rupias. Quem ler a carta de lei d 
ile Junho de 1509, que D. Sebastião expediu para Goa, conhecerá 
no reinado de 1). João III, o vice-rei D. Aftbnso de Noronha ma 
bater sanfhomés, ou patacoes de prata, do título de 11 dinheiros, 
li grande peso de 544 grãos. Estas moedas, desconhecidas, tau 
foram sacrificadas na sua época; nem mesmo o notável numis 
indiano Filippe Ncry Xavier as conheceu. E de crer que tive 
considerável diâmetro e espessura. O typo seria bárbaro, ao gosl 
rpoca, assim como foram quasi grotescas as feições c pesadas as 
porções do bazarneo de cobre n." 1 da estampa XV de Teixeir 
Aragão, cunhado no governo de D. JoSo de Castro. Isio accei 
radicalmente. 

O indio revoltou-se contra o valor cxaggcrado de 360 reaes n 
natithomés, equiparados aos pardaus de ouro correntes, valor que es 
em desacordo com o preço da prata fina, que era de 2$ 400 reae: 
marco, porem nSo se aborreceu com espessuras e diâmetros. E po 
se aborreceria? A plástica da novidade não molestou o indio, para ( 
a moeda nunca foi prototypo de monstruosidade ou de formosura ; 
Uca. Homem pratico, nao teve as mais leves noções do que fosse o ' 
numismático, que hoje se manifesta e se comprehende claramente, 
pôde suspeitar que os systemae monetários seus contemporâneo: 



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O ÃBCHEOLOGO PORTUGUÊS 



contemporâneos de seus avós, no futuro seriam objecto de apaixonado 
culto, de estudos, de controvérsias, que concorressem para o progresso 
e gloria da sciencia. No caso contrario as harpias do lucro reservariam 
algumas amostras d'aquelles materiaeB, destinados para ornamento da 
areheologia no futuro. 

No fabrico do exemplar da fig. n.° 2 foi excedido o peso que a lei 
estatuíra, porque, cerceado como está, ainda tem 12 grãoe a mais. Este 
caso é" um dos raros que temos apreciado com relação a moedas fa- 
bricadas em Goa, onde os operários, desdenhando impunemente das 
estivas, craveiras legaes in nomine, costumavam reduzir os pesos. 

Também nalgumas emissões feitas na metrópole no século XIX se 
tem notado irregularidades análogas. 

Quanto ao lavratnento de espécies em ouro é citado um caso grave. 
O Dr. Teixeira de Aragão, em nota a pag. 141 do vol. II da obra já 
citada, diz que viu uma dobra de quatro escudos, cunhada em 1820, 
com 10 grãos a mais. He entre os exemplares lavrados neste anno, em 
numero de 1:687, saíram para a circulação alguns com luxo il legal 
idêntico ou superior, não inutilizados na Casa da Moeda, frouxa a fis- 
calização do fabrico e talvez perturbada por graves acontecimentos po- 
líticos da época, o publico houve por bem não se accusar do benefício. 
Aguardava novas manifestações de generosidade que os moedeiros offe- 
recessem? 

As unícas moedas portuguesas que, sem duvida alguma, se conhe- 
cem como fabricadas no tempo de D. Filippe III são as de Goa, da- 
tadas ou não datadas; estas d enunciam- se pelos pesos e typos, como 
os patacões de que tratamos. 

As emissões de Lisboa, sem designações especiaes de chronologia, 
confundem-se com as do reinado antecedente. Ao dominador caste- 
lhano talvez que só muito tarde oceorresse que a manifestação pratica 
de uma das mais valiosas prerogativas regias ficava obscura na his- 
toria monetária de Portugal; seria quando viu approxiuiar-se o mo- 
mento em que tinha de levar para o estreito abrigo do tumulo a pre- 
tenção de rehaver uma herança valiosíssima, que não soubera ou não 
pudera guardar. 

Depois de 1640, anno em que a pretenção se arreigou no cérebro 
d'aquelle rei, o escudo das armas de Portugal foi gravado, bem nítido 
e visível, mas sem coroa, no conjunto heráldico de Hespanha, como 
se houvesse prestado vassallagem, que deprimisse a nobreza e menos- 
cabasse os brios da nação libertada. Como se vê da fig. 3, elle oceupou 
o logar central, o de honra. D. Filippe sublinhou a affronta com sin- 
gular cortesia! 



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O Archeoloho Português 



O melhor critério não deixará de reconhecer no procedimento do 
rei hespanho) certa intenção oceulta. 



Em 1667 a affronta foi supprimida nas cunhagens de moedas para 
o continente hespanhol. A suppressão teria como causa primaria a in- 
fluencia moral da batalha de Montes Claros, ferida a 17 de Junho de 
1665, ultima prova da tenacidade heróica de um povo para consolidar 
a independência, que num só dia, emtim, conquistara violentamente. 

D. Carlos II recolheu e arrecadou a pretençâo paterna até o anno 
de 1604! Pretenderia realizar diplomaticamente, ou por força de armas, 
a união de Portugal a Castella? Esta ideia paira serenamente no espirito 
de quem examinar o anverso áojxitucon, fig. 4.*, cunhado em Antuérpia 
quando o monarcha era senhor dos ducados de Brabante e Limburgo. 



Fie. 1." 
Parece que depois de 1694 o brasão de armas de Hespanha não mais 
se pavoneou numismatícamente com adornos de propriedade alheia ; pelo 
menos na obra de Aloiíss Ueiss ' não encontrámos estampas que provem 
o contrario. 



1 DcKrición general de Utt moitedaê huptmo-cristiatuis. 



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218 



O Ahcueologo Português 



Terminadas estas considerações, com que acompanhámos aa figuras 
de dois numismas notabilissimos, devemos dizer que o Sr. Henry Orogin 
consagra especial estima á numária colonial portuguesa. Esta homena- 
gem, pouco vulgar, prestada por um estrangeiro ás nossas colónias, devn 
impor-se, como fortificante raz&O de estimulo, para que os numismatas 
portugueses se interessem na apreciação da moeda estrangeira, á qual 
n3o falta valor histórico nem arle, sem que por este facto se privem 
de enthesourar e apreciar a antiga moeda nacional, dia a dia cada 
vez mais rara c esquiva. 

Cônsul te-se a seguinte synopse, que nâo comprehende exemplares 
em duplicado, a fim de 86 conhecer como é numerosa a serie de moedas 
indo -português as da collecção do Sr. Henry Grogan. 



— - — 


AV. Alt. j AB. PL. T..t»l 










ii > t ■ l Oriental 

Da Africa{„ . . . , 


- i - | 7 I - 1 7 
2 5 9 ' - ! 16 












G j 2tí5 ; 287 i 45 j 603 



Lisboa, Julho de 1902. 



MaxueIj Joaquim de Camj*os. 



Antiguidades dos arredores de Évora 

1. Antas do Barrocal 

O sítio do Barrocal fica perto da Tourega, no concelho de Évora: 
u-0 Arc/t. Port., iv, 128 sqq., fallei das antas existentes neste sítio, 
as quaes um dia espero explorar com o concurso do Ex."'° Sr. Visconde 
da Esperança, a quem no citado numero cl- O Archeotot/o me retiro. 

Aqui publico duas gravuras que representam duas das mencionadas 
antas, segundo photographias do Sr. Barbosa, de Évora. 



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O Archeologo Português 



Fig. 1.* É a maior das antas que estilo porto do monte, ou easa (la 
Habitação da herdade do Barrocal. Encostado a um dos esteios ficou 



phntographado um moço do gado, com o seu trajo característico : çafòVa, 
barrete, etc, e muito pasmado, porque, dizia elle, tinha medo de que 
o enfeitiçassem eom a photographia. — D'esta anta se dá a planta a-0 



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220 O Arciieologo Português ! 

Arch., iv, 120 sqq; e foi nella que se encontrou a placa de schisto | 

figurada ibidem (n. n 5 da estampa). 



Fíg. 2. a Ê a menor das ditas antas. Um dos esteios está por terra, 
e falta-lhe já a tampa. Pela figura do caçador que ao pé ficou photo- 
graphado se faz ideia geral da altura da camará dolmenica. 



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O Archeolouo Português 



. Ruínas romanas da Tourega 



Como complemento do que escrevi n-OArch., iv, 130 sqq-, aqui pu- 
blico três gravuras, também segundo photographias do Sr. Barbosa: 



Fíg. 3. 1 Representa #9 '""'}■'■■• descritos na memoria do que trans- 

>,gitizea by GoOglC 



O Arcbeolooo Poktdouks 



uy» 

crevi parte n-0 Arch.Ji 132; cstíio, i-oino lá se diz, vestidas interna- 
mente de ojmt Signinum. 



FÍ(f. 4.* lícpreseiita minas de edificações e grandes patines de r 
ralha, einy.ua puf turra. 



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O ArcheolohO Poktugoís 223 

Fig. 5.' Vista da fonte de Santa btnominata ou Annotninata, que se 
descreve n-0 Arck., iv, 133 sqq. Não direi que a fonte seja romana, 
em todo o caso é antiga, e andam ligadas a ella tradições populares. 



Do que fica dito se vê que a Tourega foi efteetivamente estacão 
romana de certa importância, fiem mereceria a pena proceder alii a 
escavac/íes mcthudieas. . T ,, 



Um inventario do século XIV 

O inventario a que se procedeu por morte do mestre de Avis, 
1). Martim de Avelar, pode ser considerado como um dos mais ricos 
até agora conhecidos. Netle se encontram mencionados os utensílios de 
tuda a espécie, de que se cercavam os homens na Idade -Medi a. O nu- 
mero e a variedade dos tecidos e de objectos de luxo demonstram -nos 
ato que ponto suhíra a industria c a importância que o commercio to- 
mara. 

Muitos dos nomes não sâo suficientemente explicados em trabalhos 
competentes, pelo menos no sentido etymologico, que é aquelle que 
mais cabalmente pôde determinar a origem próxima ou remota de dado 
objecto'. 



1 Em quatro documentos em latim, sem datil, mas que se podem attribiiir ao 
lo nr, os quaes vem transcritos no celebre Livro Preto, de Coimbra, a fls. 
209 e 213, encontram -se já os seguintes termos : •ulfanibar ou atpkanbartm, 



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224 O Akchkologo Português 

A lei de 26 de Dezembro de 1253 *, anterior um século a este in- 
ventario, teve já um interprete, na parte relativa a tecidos, na pessoa 
do Dr. Rolin*, de Praga. No seu consciencioso estudo encontram-se 
notas relativas aos seguintes panos: escarlata, chamalote, grã, tíritana, 
viado, estamenha, burel, cendal, sirgo, ipre, picote, sarja, alrres, etc 

O mencionado inventario despertou no sec. xviii a attençAo de um 
curioso, que é pena ser-nos desconhecido. Escreveu a seguinte nota, 
que se encontra collada na primeira folha do caderno: 

t Copia do Inventario a que se proeedeo, por morte do Mestre D. Mar- 
tim de Avelar acontecida em 1362 e a quem suecedeo D. JoSo, que 
ao depois foi Rey. Foi feito este Inventario por Gonsalo Esteves Pn»- 
vedor do Mestrado, e em ele relacionou a maior parte dos bens assim 
moveis como de raiz, e ornamentos das Igrejas, que aquele tempo 
a Ordem possuhia. Nas relações d' A via e de Veiros achar-se-hSo os 
moveis de caza, e armaduras de guerra que ficara nestes depozitos, 
e havião sido do nzo do Mestre defunto, o na do Alandroal a candelária 
que ali tinha. FaltSo porem algumas relações como a de Santarém, 
Alpedriz, Torres Novas, Algarves, Elvas, Oriz, Seixo e Covelhaã. Este 
documento abunda em palavras antiquadas d'algumas das quaes não 
pude achar os significados ■ . 



Era de mjl e quatrocentos e quatro Anos primeiro dja de Majo en 
ffronteira presente my AfFonso monjz Tabeliom dei Rej En A ditavjla 
Gonçalo Steuez proucedor dos bifes do Meestrado daujs mostrou huti 
íjuro de papel En que andaua scritos os bêes que a dita ordem ha. Os 
quaees erS scritos per maao de tabeljaes doa logares da dita bordem 
e Assjnaados per suas maaos segundo pareçja o fazhnento. Primeira- 
mente bua scritura Seita e assynaada per maSos dAffomso ffranciaco 
tabeljom en Alcanede da qual scritura o teor ta! lie. 



peUiciam (sobre-pclita,), plumaznm (chumaço), phimellam (ehumella), xauanam e 
tapeiem. Um doa documentos citados descreve um leito da seguinte fornia: mrm» 
Irctum com rito aliffafe. et tapete et almwtala H linufai quomodn rit cimposilvm-. 
Ainda menciono aqui o termo euletiram ou cátedra. 

» Impressa por J. Pedro Ribeiro, 1813, DiuerlaçSr», eU., tomo m, parte ii, 
pag. 59; Pori. Mon. HiH., Leges, 1858, pag. 192;TeÍieira de Aragão, Ducripeâo 
Geral, etc, 1875, i, 824. 

* Documente relatift à Vliitloirt da commerce det drapt dana ta Pemnmie M- 
rique au xnr* tiecle, in Sechtunddreiêtigiter Jahreê-BerieJd iiber die Prager Ean- 
dehakademit, Praga 1892. 



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O ÃBCHEOLOGO PORTUGUÊS 



Alcanede 

It. Gonçalo steuez fez per ante ssy vijr Lourenço dominguiz AI- 
moxaryfe que ffoj de dom Martin do Auelaat per my Affomso ffrançisco 
serina do Almoxarifado e outro ay Martin Vaasqulz Jujz da dita vjla 
ilaleanede que ffoj ia en outro tempo Almoxaryfe e Joliíí Affomso que 
ffoj Rendeiro da dita vjla e fies lhes pergunta per juramento dos Euan- 
gelhos que bees erã os qtie a dita bordem daujs auja en a dita vjla 
dalcanede e em sen termho assj moujs come Rajzes os quaees per o dito 
Juramento djsserom estes que sse adeante segem primeiramente 1 . 

It. Achou na dita Egreia da dita vyla Estes ornamentos que se 
adeante segem primeiramente hua cruz de prata que djzia" que auja 
quatro marcos de prata. It. outra cruz da latom e o crucifico de prata. 
It. outra cruz pequenina da latom que leuã ao comugar. It. hu tribulo 
de prata de dous marcos de prata. It. três calezes de prata os dous 
calezes pos a ordem e Iruu pos o concelho e huu dos ditos calezes que 
pos a ordem he du marco e ho outro duu marco e mejo mejos* hua 
meja onça. It. hua vistymenta ffestjual que tem o manto de cendal. 
It. outra vistjmenta fíístiiial que tem o manto de pesso. It. hua capa 
de ssolja. It. houtra capa de pano de sseda. It. hahj huas obradeiras. 
It. duas Almatjgas de pano de seda. It. hahj três vistjmentas velhas. 
It. três ssaiteiros. It. hu domingal. It. hu santal. It. hu Auangjljorõ. 
It. hu sacramentoron. It. três caritanhos. It. dous lyuros de batjsçar 
e dencomendar. It. Im dominga! nouo de Canto. It. hu Ijuro pisto- 
leiro. It. hu offjcjal de canto. It. hahj hu caderno do orfiçio do corpora 
chriati. It. hahj outro caderno do offiçio de santa Maria da Conçeiçom. 
It. hahj outro caderno doffiçío do umgir. It. hahj duas Arcas pe- 
quenas. It. hahj hua coussella de prata en que sèè o corpore chriati 
En que ba huu meo marco de prata. It. hu caldeiro e duas galhetas. 
It. hu bacio quebrado. It. hB sepiltro (?) It. hu çjmeiro em que see 
as candeas pêra as treuas. It. as coussas sobreditas o dito Gonçalo 



i Dos bens immoveis que a Ordem possuía em Alcanede só transcrevo os dois 
seguintes item: 

It. ba na dita Rjbejra hu Engenho de buriles de que ha ordem ha o terço e 
paga a terça parte a ordem dos custos e tenoVjçente Andrcu e seus Éreos. 

It. ha en Ãlueela dous mojnhos e híi Engenho de burGes que stã afforados 
por trinta e çjnco libras en cada huu Ano e tenos aflorados Joliam martinz en 
djas de sua vjda. 

Engenho está no sentido de fabrica. Em Alcanede havia um sítio denomi- 
nado aiffrautgat (fravegos), palavra que se deriva de fabrica*. 

» menos 



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2'2G O Archeologo Português 

Síteuez mandou a Fern5 Anes moordomo da ordem que as ffaca poer 
em Recado. It. dous Religajroa da latom em que djzem que andauuã 
Reljgas e n<5 sabem queiendas som por que am fechados c3 soldadura. 
It. todas estas coussas sobreditas o dito Gonçalo Steuez emtregou ao 
dito moordomo presente Domingos Fernandez serina. 

Benarent* 

It. Outrossj Eu Affonso monjz tabeljom dei Rej en ffrontejra vj 
bua scritura feita e asjnada per mãao de St. anes tabeljom en bena- 
uente segundo pareçja e ffazia mençom da qual scritura o teor tal he: 

It. Estes som os ornamentos que o dito Gonçalo Steuez achou na 
Egreia da dita vjla primejramente bua naueta da latom em que anda 
ho emçenço. It. hua boceta de prata em que sta o corporc christi. 
It. três vi stj mentas de baldoqui compridas. It. hua vestimenta de tabls 
comprida vjado cõ seu manto branco a cobertura. It. cinco vistjmentas 
brancas perffeitas. It. outra vistjmenta branca que entregou a Johan 
Fernandez Camello. It. hu manto qnareesmal de cendal preto e mingãlhj 
todos os outros ornamentos e trage outros doutras vjstjmentas convém 
a ssaber hua stola e ha manjpollo. It. hu manto uermelho de cendal 
vjado velho. It. hua capa de baldoqui velha. It. duas Almatjcas de 
baldoqui velhas cò* sas gorgeiras. It. hua capa de mortorio. It. hu frontal 
de baldoqui velho. It. doze ffaceiroes hu deites grande. It. duas sobre- 
pelizas velhas. It. quatro toalhas. It. quatro sauáás. It. Em outra parte 
sete sanas que dizem que son daltar major. It. hua sauáá Rota. It. hu 
ssantal e hu dominga!. It. dous offiçjaes. It. hu missal. It. hu Auan- 
geliorS. It. hu carjtanho. It. hú pestolejro. It. Iiu sacramentoro. It. hil 
caderno de santa Maria. It. outro caderno do corporc christi. It. doas 
ssalteiros. It. iiu mjssal mistjco. It. outro mjssal. It. hua campaâ de 
comungar. It. hua caldeira dagua beèta. It. dous bacios da latom hú 
delles velho quebrado. It. hu Ijuro custumeiro de papel. It. bua vistj- 
menta qnareesmal comprida. It. hua vistjmenta ffestiual. It. hííu liuro 
dencomendar. It. dous chumaços de ljnho nouos açedrèchados com pena. 
It. dous chumaços laurados e huus mantéés daprapo. It. hila Almoçella 
nona de Santarém. It. hu alfambar e hu des talho. It. hu veo de Rossetas 
dourado e houtro vééo de meatades e outro veo branco. It. dous vééos 
dourellas uermelhas e outras verdes. It. hu manto ffcstjual. It. hua cor- 
tjnha que leuã sobre o corporc christi quando vãa comungar. It. buas 
cordas douradas. It. sete corporaes. It. hu spelho que see antre a nia- 
gestade de santa Maria. It. hu candceyro de çaffara de tauola. It. huas 
obradeiras. It. hua vistjmenta branca de santa Maria os quaes orna- 



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O Aecheologo Poktucidés 227 

mentos os horaes bôos da dita vjla dizem que aom do concelho e que 
nõ ha o Meestre por que oa tomar os qnaes horuamentos o dito Gonçalo 
Steuez entregou a Oomez Lourenço que ffez moordomo. 



Estes sson os penhores que Gonçalo Steuez achou en Aujs que 
flora dejtados a penhor no tempo do Meestre don Martim do Auelaal 
primeiramente ffoj achado que Affia Mouro tjnha hua scudella de prata 
por trinta libras a qual ffoj pessada e pesou honzc honze honças peitas 
honças da marcaria e ffoj certo per testemunhas que iazia por as ditas 
trinta libras. 

It. ffoj achado que tijnha o torto hua espada por çjncoenta libras 
a qual espada lie garnida cfi trauessa e mogeirô esmaltado e dourado 
e cu hua cinta de sseda morada com vinte e sete chapas com biqueira 
e fiuela e arganes e foj certo por testemunhas que ffora apenhada por 
as ditas çincoenta libras. 

It. ffoj achado que tijnha Belamjz mercador dÁuis a penhor duas 
taças com esmaltes por trinta e quatro libras de pano que dei comprara 
o Meestre as qnaes taças ffora pessadas e pessarfí três marcos e ffoj 
certo per testemunhas que iaziâ a penhor por as ditas trinta (m"c) libras. 



fl\ It. Estes ssom os ornamentos que ha na Egreía da dita vjla de 
Berna. Primeiramente três vestjraentas compridas brancas. It. bua ves- 
tjmenta branca comprida e mingua huu manjpolo. It. hi! manto de Ijnho 
branco e duas Aluas cõ duas cassulas. It. huu manto ffestjual de bal- 
doquí hussado. It. Outro manto de baldoqui rroto. It. Imã capa noua 
de tabis cardeo com becas douro. It. hua capa de cendal vjado hussado. 
It. duas almatioas uermelhas hussadas. It. duas capas de tnortoiro. 
It. três ssobre peljzas Rotas. It. bS mjssal velho mjstjco. It. hu saltai 
[mntal) velho. It. hõ" domingal velho. It. três s salte iros dous velhos e 
huu nouo. It. hSu oaritanho de hauticar. It. hu mjssal pequeno de mãao 
de mjssas prinadas que ffoi de Joham Lourenço creligo. It. três Aras 
Encadernadas de madejro compridas. It. duas galhetas ferradas e hua 
cXpajnha de comungar. It. hua Arqueta pratada (?) En que sta o corpo 
de deus It. hua lanterna noua. It. bua obradeira. It. os Altares todos 
bê Kepairados. It. duas campaynhos de ssotelha. It. hu baçjo dofferta 
de cobre. It. hua Arca grande En que Estan os ornamentos. It. hua 
caldeira dagua bêeta e hu" cadeado. 



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O Aecheologo Português 



It. Outrossj Eu dito Affonso monja taboljom dei Rej em (fronteira 
vij e líj hua scritura no dito libro ffeita e assjnaada per raaao de Pe- 
resteuez tabclion de lixboa a qual era dos bcea que a orden daujs hj 
a«ja segundo pareçja e os bees sson estes: 

It. hua Adega cfl" ssas cassas e dous lagares de vjnho na qual Adega 
stauR vinte e sete tonéés Wl vjnho comvem a saber vijnte três cô" ver- 
melhos e Ros setes e quatro brancos. It. três tonees de Raspa e hu en- 
cetado. It. duas Cubas vazyas hua desfundada e hua peça de madeira 
velha de cubas. It. duas tjnhas pequenas que stauS pêra cajr e outras 
duas tjnhas pequenas de pjsar tynta hua velha e a ontra melhor. It. 
hua masseira de trasffegar. It. Outrosj aja hy outro lanço de tonéés 
vazjos e antre velhos o nouos e os que stauX cõ os vjnhos son per 
todos qnaree-nta e três e dous cascos de pipas hua gTande e outra pe- 
quena. 

ÀTlS 

{[. It. Outrossj eu dito Affonso Monjz tabcliom vj hiia scritura no 
dito Ijuro feita e asynaada per maão de Gil Gonçaluez tabelion En Anis 
que tal he. 

Era de mjl e quatrocentos e dous Anos vijnte c noue djas de Março 
En Anja en o Adro de Santa Maria Gonçalo Steuez proueedor dos bees 
do Meestre Entregou Estos hèes A Steuan Dominguez que ffez moor- 
domo. It. primeiramente híla Arca cô" speçias En que sija hfi talhador 
de prata que djuià que Era bacio. It. duas scudelhas de prata. It. hu 
pjehel de prata c5 hfi smalte En çjma. It. dous pjchees pequenos de 
prata e hu deites he sem coberto e duas colhares de prata A qual prata 
Era por laurar e pesarana e Achara que Auia En Ela seis ARataes 
e meo e Mais ojto honças e pesarana per os ARataes por que nõ tijnliS 
honças. It. hua Arca En que staua boticária e ffrojta que apodreçeo. 
It. outra Arca En que staua hu talhador de prata que djziX que era 
baçjo. It. duas scudellas de prata. It. dous prateiros de prata. It. sete 
salsijnhas de prata. It. três cornares de prata. It. ojto taças de prata 
douradas delias e smaltadas. It. hiia capa de Egreia de case vjado e 
stola de case vjado. It. hiia pentaneira de cojro preta c3 chapas de praia 
e cô* hu cordom de seda preto. It. dous pedaços de cases hu hindeu 
e houtro uerde. It. lida uestjmenta degreia cõ mato forrado cõ hua 
solja cardea e fforrado de cendal uerde e manjpolo e stolla do dito pano 
e Alua e o Amito de pano de Ijnho e hua Alcoffinha c5 speçia. It. dous 
panos de cabeçSes laurados. It. huas toalhas l&uradas nonas. It. outras 



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O ARCHEOLOGO PoRTUflUÊS 229 



toalhas velhas. It. híi Atjto de prata c3 ssa cadea. It. huas si ribeiras 
darame douradas. It. quatorze cordas de seda uerdes e moradas pêra 
sela. It. hu pendom de Rede. It. três pares de limas e Mais hua luua. 
It. dous baçjos de prata smaltados A qual prata toda de çjma pessarfi 
Aflora A que ia Era pesada e Achar!? hj dez e nove ARataes e meo 
c vinte e quatro honças. It. quatro peças de cendal branco o qual mj- 
djrõ e Acharõ" En ele Çjncoenta e quatro Alas 1 mejos quarta As quaes 
ala Emmurjlhadas Eu hS pano. It. três cruzes En pano branco e as 
cruzes uerdes de sobre sjnaes. It. três mangilhas de lanças de géébe 
e hua delias tem aljouffar meudo. It. quatro cordas quatro cordas de 
seda pera sella e delias som cortas (slc) per mejo. It. dez e sejs peças 
de ffio de prata legadas c3 b.3 fio de ssirgo uermelho cõ que se pesarB 
e pesarono e achar? hj pela pessa de marcjría quatro honças. It. dez 
Ij alhos de ffio douro Em que ha trinta hua peças ljadas cô" ffio de 
ssirgo uermelho co" que o pessarõ e pessarõno e achara En Elle pelo 
passo da marçiria oito honças. It. Achamos na dita Arca que fficarõ 
por sereuer Estas cousas que se adeante sege primeiramente hua frou 
uea de chumaço taurado. It. híi pano de seda branca En que ha três 
Alas mejos quarta. It. hu pedaço de géébe uermelho En que nõ ha mea 
Ala. It. hu pequeno de pano de geebe uerde. It. hua Redoma pequena 
que djzem que anda En Ela bálsamo ca no" staua hj quê o conboçesse. 
It. dous mendraculos que som ffegura dome e de molher. It. huas 
Rédeas de seda uerde velhas. It. quatro pedaços de cabeçadas velhas 
sem pregadura. It. outras Rédeas de Cordom de cadarço. It. quatro 
panos de Çjntas de sseda uelhas. It. hfi pendon de Rede Rico. It. híi 
pedaço de cendal de pendom velho Roto. It. três Alas mejos quarta 
de cendal uermelho. It. sejs bocetas de pááo En que dizia que anda 
tjryaga. It. hu Ramo de Cendal velho. It. hu saqnito cõ defumaduras. 
It. outra houtra bucha e Achamos En Ela hua çjnta de pano morado 
que luua hua beca dourada pela mejatade com piqueyra e ffiuela de 
prata e esmaltada e vinte e hfla chapas todo dourado. It. outra çjnta 
de pano uerde cõ biqueira e ffiuela de prata e esmaltada e tijnha qua- 
reenta Rosetas que ffoj dourada e Era ia husada. It. outra Çjnta strei- 
tjnha de pano cõ chapas de prata En que ha Cento e dez e seis co 
mnela e biqueira. It. três brochas hua garnjda de prata e As duas 
de mangos brancos e a hua tem prata na macia e no ARiaz. It. dous 
Cojtelhos o dous canjuetes todos Em hua pajnha. It. dous panos la- 
urados laurados cõ ffio douro que Erã pera vistjmentas. It. huas toalhas 
de pano mouriscas. It. hu barueadoiro laurado. It. honze panos de ffa- 



1 De «ília, l'ui fr&ncGs moderno atine. 



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230 O Archeologo Português 

cejrões laurados. It. hu* stoque garnjdo de prata sen conteira cò três 
chapas e mogerõ e ARjac dourada e cõçjstatcnada e cõ víjnte o oíto 
chapas cõ ffiuella e cu piqucira e Argonees. It. outro s toque dua chapa 
e ARjajz e mogoro e conteira smaltado e huu pano branco de ss*da 
com quareenta e noue Rosetas com muelas e bijqiieira. It. outro stoqne 
cõ huã chapa e conteira dourado o mogerom e ARiac e cõ seus es- 
maltes e hua cinta de seda husada e cõ Çincoenta e noue Rosetas cõ A 
biqueira e c3 ffiuela. It. quatro Rosetas de prata douradas dadagajas 
genetas Em murilhado Em hu pano de ffaceirõo laurado. It. liõa Ci- 
meira de capelina <:5 pregos de prata e dourada e cõ hu pendon de 
prata smaltado e posaua per huas onças de marçarja de Crara fer- 
nandez e acharõ que pesaua quinze honças. . • possa. It. hfi cobertojro 
de pjchel de prata pequeno que pessou hua honca e hua meja ojtaua. 
It. h3 pouco daljouffar mendo En que auerja dons nSbretes. It. ssejs 
ffolhas En hõ° papel douro e de sseda lauradas catorze cordas de ssela 
muares de seda. It. hua borladura. It. huas tessoirinhas douradas e 
híl cojtello punhar de tachas e çinque ffijueletas emea de prata. It. 
hua bolssynha de seda velha. It. honze marauedis e dous nouees. It. 
hua luua laurada. It. houtra hucha En que iazia hu pano daltar de 
sseda velho. It. hfi calez de prata cõ ssa napejra e cõ ssa patana e he 
dourado e pesou dez e oito honças. It. hS frontal de seda iterde e for- 
rado de pano uerde. It. hua Arqueta cõ os corporaes. It. Outra Ar 
queta pêra as ostjas. It. hu pã dacucar. It. hu manto de Egreia de 
seda cõ seus lauores e stola manjpolo e Alua e Çjnta. It. hiia chumella 
de cendal vjado Rota. It. doas cruzes de prata douradas hua grade e 
A outra pequena sem macaa En huas toalhas lauradas velhas. It: dous 
eastjçaes de prata que pessarõ e Acharõ hy vinte honças e mea. It. hiia 
eâpajnha. It. hu ljuro mjssal. It. huas tauoas pintadas daltar. It. bus 
matees velhos pêra altar. It. Achamos En hua trouxa dous Cabeçães 
vazios de lãa. It. hu cabeçal de ffrouuea branca hnssada. It. hu Aljffaffe 
de pano uermelho cõ pena que diziam que Era etqtiios It. duas mantas 
velhas e hua coberta de pjeote. It. três ffaçejroos laurados. It. En 
outra trouxa h3 jobete branco de seda. It. hua cojffa darmar cuberta 
de pano de seda. It. outro Jubete de selhas e duas eojffas darmar. 
It. hfl Aljffaffe de pano uermelho e pena que djziam que Era etquios 
It. hua Aliaueira laurada e hussada. It. hu destalho e hu tapede velho 
Roto e h3a mata velha. It. hua ehumella pequena velha. It. hua taça 
de prata que pessou sete honças. It. três ffo.rradas grandes e h3 Ago- 
mjl e hua mantagira e sete hodres e quatro costaas de laa. It. Acharõ 
En A cassa de Crara ffernandez dous Almadraques de pena cõ ffrou- 
ueas brancas. It. hu cabeçal laurado velho. It. duas colchas brancas. 



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O Archeolooo Português 231 

It. dous ffaçeiroos velhos. It. três sauaas de cama. It. três destalhos 
nerdes e hu sobre çeeo vjado que parece manta velha de laà e he Roto 
Em togares. It. hBa Arca Eneojrada. It. três Inuas decejro. It. M bar- 
ueadeiro de pano de ljnho laurado. It. hu cobertor de coelho. It. hua 
puna branca pêra manto. It. outro pedaço de pena de coelho. It. quatro 
ffaçejroos uelhos. It. dons Cojtellos de messa En hua bajnha. It. três 
raantees. It. hu saco pêra dinheiros sen dinheiros. It. hu lençol nouo. 
It. treze Armaduras de cojros pêra cães. It. outros mantees velhos. 
It. hu touolejro cS tauolas. It. hua manta velha. It. híia corda dalca- 
naue pêra Apertar cama. It. hil AIntadraque velho destrado. It. três 
porgeiras de cães. It. hu Almaffreixe. It. hu tapede uelho. It. hua 
manta velha. It. hua napeíra de taças. It. hu fferramental c8 hu mar- 
telho grande. It. hu Almaffariz {?). It. dous castjçaes velhos de cobre. 
It. hu baçjo grande de oobre. It. hu haril pêra azejte e Ima lãpada todo 
d» cobre. It. hua manta noua. It. sejs pejtoraes e híias Redjas e hB pe- 
daço de coiro vermelho. It. hil destalho uelho e he Roto En togares. 
It. hu cabeçal velho laurado. It. duas chumellas de cojro e hu godo- 
mecjl de cojro.lt. dous ljuros que dizèque sonbriujajros. It.hu talejgo 
c3 dentes de porcos. It. Ii3 saco cô trás malhos de Redes It. hu pedaço 
de tocha It. hu barril destauho. It. ssete queijos (?) Redondos, It. dons 
pares de botas velhas. It. dous pares de çapatos. It. hfl bacio de cobre 
pêra capeai. It. seis Ascuas monteiras. 

It. Achara En cassa de Maria Vjeira En que cozjnhaua Estas coos- 
sas que se Adeante sege" hua caldeira grande. It. hu caldeiro grande. 
It. duas panelas de cobre uelhas e duas peelas de cobre. It. duas co- 
Ihares de ferro e hua mirada e outra sãa. It. hu gadanho de Serro. 
It. três spetos de ferro dous grandes e hB pequeno. It. Imas grelhas de 
aseis steos e de quatro pees. It. dous catores pequenos. It. sete talha 
dores saaos e dous britados. It. hua gameleta. It. hus ealdejrijs grandes 
de ferro e outros pequenos. It. hBa sejra desparto e hu graal e hu ma- 
lhadeiro As quaes cousas fora Entregues A Steua Domíngez. It. Ou- 
trossj Reçebeo o dito Steuâ Domingues quatorze dobras castelaas que 
AcharÕ quanto o Meestre Moreo e scrituras de obrigaçijes. 

Fruteira 

It. Outrossy Eu Affonso monjz tabelion vj hBa scritura feita e asj- 
nada per mha màao dos bees que a ordem ha En fronteira Antro os 
quaes hê*es que a ordem hj ha sou Estes. 

It. estes som os ornamentos que ha na Egrcia primeiramente huu 
domingal. e hBu lantal. It. três salteiros velhos. It. hfiu Auagjljorom. 



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232 O Archeologo Português 

It. hu carjtanho. It. dous liuros de bautiçar. It. liu offiçial e hu pjs- 
toleiro os quaes ljuros Era velhos coovem a ssaber os dous ssalteiros 
hu deites saem Lua vjgjlja e des En cardernados e Rotos En Mojtos lo- 
gares e hu dos do bautiçar tem hua tauoa britada per A mejatade e ho 
outro des En cadernado E o dito domingal mal En cadernado e hiia 
das tau nas britadas e o dito santal velho e des En cadernado os quaes 
ljuros o bispo deuora mandou que se AdubasS e En cadernassem e Aln- 
measem. It. bua vjstj menta velha cõprida e Rota o manto de baltoqui 
velho e Roto de deante. It. hua capa de tabis vjado cõ três pedras. 
It. quatro dalmatieas Rotas a togares de tabis. It. hu manto e hua capa 
de Ijnho tinta de tjntura preta. It. hiia vistjmenta de Ijnho velhas e 
Outro Bsj hahj outros beis moujs que Aqui n3 vâ scritos Assi trigo 
come çeuada e gado e bestas as quaes cousas fora Eintreges A pêro 
falageiro moordomo. 

Veiros 

It, Estes som os becs que ha hordein ha Em Veiros os quaes erS 
scritos En o dito tjuro per maao de Gil Vicente tabeliom segundo pa- 
recia primeiramente. It. Çjnco pares de cojxotes e caneleiras e hu par 
dos ditos eoixotes Erã hu esmaltado e toe senhas ffolhas de prata c 
quatro ffiutslas e quatro Lj queiras de prata e huas das caneleiras Era 
britadas. It. huas limas daco. It. dez e noue beestas coin ssas fundas 
de burel e de pano de Ijnho. It. huas Cãbhas e moços duu ffreo tarijm 
dourado os quaes sj3 ffechados En hua Arca. It. hiia íuachadjnha e huu 
maço de ferro. It. cinco capelinas e três gorgeiras e son quatro caihadas 
seis Wigoes e hu delles he Roto. It. ojto lurjgas de corpo e As duas 
sson Rotas. It. duas mangas de lurygas e hiia ffaldra e hu. . . It. sete 
lurigas de eaualo cõpridas o hua caga de lurtga e delias sson Rotas 
A togares. It. hu Jubete de Ijnho canamo de pano de pesso Roto. It. 
outro Jubete de cuberto de cendal uerde. It. dez e oito cãjbajses cu- 
bertos de pano de Ijnho delles saaos e delles Rotos. It. treze cojffas 
dalmazS de pano de linho. It. outra eojffa cuberta de tabis vjado. It. 
huas cobertoiras de eaualo c8 seis castaneês cubertas de cendal branco 
co" sjnaes da ordem. It. huus perpontos de eaualo eõ curuzea uerdes. 
It. hua sela de eaualo cô" sas stribeiras de ffio e eõ sas ssilhas e látegos 
e eõ trinta cordas que Andaua dobrados e cõ sua ffunda de valençina 
uermelha. It. huas estrebeiras muares de ffio de prata. It. hua sela muar 
laurada eõ sas strebeíras de ffio de prata e eõ homze cordas saas que 
Andaua dobradas e cinco cordas britadas. It. hu freo muar cõ cabe- 
çadas de seda e três pendentes e três chapas e híi pejtoral cS três 
pêjdemtes. It. outro pejtoral Com çinque pendemtes e co" sas chapas 



cbyGOQ^IC 



O Aecheologo Português 233 

de cobre. It. híia sela velha de cojro preto cõ saa stribeiras. It. três 
atuirás mouriscas daalõ mar e hua de portugal Rotas. It. três dagajetas 
e hu scudo cõ funda uermelha. It. hií candeeiro de fferro. It. duas 
lanças que stZ En hua ffunda de senhas costas. It. Oyto soadeiros de 
lurigas de caualo cõ sas deanteiras e hua deanteira. It. hua cobra cõ que 
ande debulhar bois de vinte colares e três braças sem colares. It. três 
Rolos de cordas de Ijnho de vinte vinte e seis braças. It. três ffundas 
de |iendom. It. duas napejras de caças de uerga. It. duas napeiras de 
uerga de coj xotes. It. duas tendas Rotas ssen cordas It. hua manta 
velha Bota. It. hu Ijuro que Era de Regra dos freires. It. outro ljuro 
pequeno de tauoas. It. quatro pedaços de cadea da latom e quatro 
Rosetas. It. h5 prego de ssella. It. hua domina En qne sj&m ffeguras. 
It. hu pedaço de coiro de íondaril. It. quinze mãtees dabranpo de ljnho. 
It. dous pentes h3 dalraaffa e outro de madeiro. It, bonzo couedoB des- 
tamenha Rota no meogoo. It. sete taalhas cheas de vjnho e En hua 
Kn que sya vjnho nò Era meja e por que o dito vjnho sja per midida 
mandou Ao dito Joham Veegas que possesso hua molher jurada que 
o vendese e gn rd asse os dinheiros e Reçebeçe os El delia. It. três duze&s 
de pelles dovelhas cortjdas que fora Entreges A joham veegas cõ o 
vinho e taalhas. It. três Arcas duas Encojradas e hua sem cojros e 
fficou Kn hua delias (Fechada scritura. It. As quaes coussas o dito Gon- 
çalo steuez mandou A Lourenço Meendez Alcaide do castello que As 
lejxassc leuar Ao dito Joham Veegas e que lhas Entregaria. E o dito 
Alcaide dise que El Rej Ihj mandara que nõ desse n3 leixase tirar 
nchua coussa A nchu daqueto que sja no dito castello e o dito Corre- 
gedor mandou tornar As ditas coussas Aas ditas cassas En que sjâ 
e mandou ffochar A porta como staua. 

It. Em tregou o dito Corregedor A joham veegas hu bacio de brata 
britado no ffundo o miai pessou três ARatâes per os ARataes dos car- 
niceiros meos duas honças. It. Ihj Entregou hua spada jeneta cõ três 
trauessas e ARiat e mogorõ e conteíra e hua çjnta de sseda e cõ sete 
chapas e fliuela c biqueira e cõ hua trauesa e cõ seus Arganecs. It. 
Ihj Entregou outra espada cõ hfla cpunhadura de fio e cõ sa maçãa 
esmaltada e seu ARiat cõ ffolha de prata dourado e cõ sua trauesa e 
ponteira de brata e cõ hua çjnta de seda e cõ Xoueenta e sejs Rosetas 
(.'omtada hj A ftiuela e bj queira e os Arganõs As quaes espadas e bacio 
tjnha En garda per mandado dos jujzes. It. lhe Entregou Ao dito Jo- 
ham veegas hua capelina saa boa. It. he Entregou duas gorgeiras bua 
garnida de geebe uermelho e A outra de cojro preto. 

It. Achou que fforã Entreges Ao dito Lourenço meendez Alcajde 
do castello Estas coussas que se Adeante segem As quaes Erã scritas 



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234 O ãbcheolooo Português 

per Joham ianes tabeliom primeiramente hu Almadraque branco velho. 
It. hu cabeçal grande de pena. It. hu cabeçal grande de lãa cheo de 
pena hussado. It. hua colcha Rota. It. hua manta velha. It. duas cal- 
deiras quebradas e duas fouces Roçadoiras quebradas. It. hfi malho 
bõo. It. duas penejras velhas. It. cento e trinta e quatro scudos grandt-s. 
It. quatro pequenos come dagaras (?). It. Çjncoenta capellos de ffeiro 
e trinta gorgeiras dalmazê. It. trinta e seis solhas das quaes se o dito 
Alcaide deu por Emtrege das ditas coussas e por que o dito Corregedor 
Achou que fora As ditas coussas Emtreges Ao dito Alcaide e Erã dal- 
mazc" mandou que xe semesem [ate) no dito castello e que o dito Alcajde 
dese delias Conto e Recado Ao dito joham véégas se cSteçer que lij 
outro Alcajde venha e que o dito Joham veegas As Entrege Ao outro 
Alcajde per conto e per Recado e que as screua o sseu serina. 

It. Era de mjl e quatrocentos e dous anos sejs djas dabril Gonçalo 
títeuez Corregedor por nosso Senhor El Rej nas terras da ordem daujs 
e proueedor dos bêes do Meestrado ffoj A egreia de Sâ Saluador de 
ueiros e sereueo os ornamentos que sjã na dita Egreia os quaes son 
Estes que se adeante sege primeiramente hu offiçial e hu peBtuleiro. 
It. h5 mjsal e hu AuãgjljorS. It. h5 domingal e h3 santal. It. dous ssal- 
k teiros. It. hu offiçial velho u hu mjsal velho. It. hu quaritanho. It. huu 
Ijuro de bautiçar velho. It. hua capa de seda as quaes coussas achou 
que Erã da ordem. It. Emtregou o dito Gonçalo títeuez a Joham Veegas 
ssete bestas asnajs çjnco ffemeas e hu asno e hu burro. 

Pedeo A. de Azevedo. 



Mooda Inédita de 4*400 réis de D. Afftmso VI 




A. — Escudo de armas do reino entre o valor 4000 e restos da data 
16 . . , que nío foi anterior a 1663. Na orla direita as letras incompletas 
LPHONSVS ■ V. Restitue-se toda a legenda que existiu na moeda pelo 
modo seguinte: 
[A]LPHONSVS - V[I D ■ G • REX PORTVGAJ, ou PORTVG. 



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O Abcheologo Portogoês 



It. — Dentro de um circuito granulado, a cruz da Ordem de Chi 
com um ponto no centro, e cantonada por 1063 [16]63. No angnl 
querelo superior foi applicada a marca de esphera coroada e no di 
o carimbo de 440[0] dentro de um rectângulo coroado. Não tem ves- 
tígios de legenda, que fora: .:. IN ■ HOC ■ SIGNO • VINCES • 

No bordo ha cordão (ou serrilha). Diâmetro reduzido de 24 milli- 
metros. Peso de 7*,50. Ouro de 22 quilates, ou 916 millcssimos. 

Este exemplar, verdadeiramente notável e de raridade única conhe- 
cida, embora estes attributos pareçam absurdos á primeira vista, per- 
tence ao Sr. Robert A. Sbore, súbdito inglês, residente em Lisboa, 
que ha 10 annos collige com ardor e competência preciosos elementos, 
tom que está organizando uma collecção que hoje é já das mais im- 
portantes em Lisboa. 

No nosso livro intitulado Numismática Indo-portitgtiesa f publicado 
primeiro nos n.° 8 4 a 7 (18. a serie) do Boletim da Sociedade de Geo- 
ijraphta ãe Lisboa (1901), na pag. 376, referimo-nos a este distincto 
amador da archeologia numismática de Portugal. 

A moeda foi composta com o anverso do desenho n.° 10 da es- 
tampa xxxiv do vol. II de Aragão (vid. adeante, hg. n.° 2), e com o re- 
verso de meio cruzado de prata cunhado no anno de 1663, de que apre- 
sentamos as feições na figura n.° 3, copiadas do magnifico exemplar que 
existe na collecçSo do Sr. Dr. Francisco Cordovil de Barahona, resi- 
dente em Portalegre. 



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236 O Archeologo Português 

A mistura hybrida representada na fig. n.° 1 não é fantasia; é a de- 
monstração fiel de um erro notável, característico do descuido on da 
pouca aptidão profissional do operário moedeiro. Foi aproveitado o re- 
verso de meio cruzado, que tinha diâmetro conveniente, o de 30 mil- 
limetros, em vez de se empregar o verdadeiro reverso com a cruz de 
Christo cantonada por anéis, e nSo pela data, como se vê na fig. n.° 2, 
conforme o disposto na lei de 28 de Junho de 1663, que mandou subs- 
tituir a cruz de S. Jorge datada, que se gravara nas emissões de ouro 
anteriores. * 

A cruz de Christo nunca foi cantonada com algarismos em moedas 
de ouro do continente do reino, exceptuando-se unicamente no valor 
de 500 reaes de D. Sebastião a que chamaram engenhoso, mas só nas 
variantes do typo assignaladas com G — A. 

A cruz de Christo datada é a causa principal da raridade notável 
com que se atavia o exemplar representado na fig. n.° 1. 

Como consequência necessária da mistura hybrida, houve duplica- 
ção de data. No anverso não se define qual fosse, esmagados os alga- 
rismos da unidade e da dezena pela applicação do carimbo de 440[<>* 
(4400). Esta irregularidade é de somenos importância no estudo anató- 
mico da moeda, porém confirma o erro principal. 

Erros de qualquer ordem produzidos na Casa da Moeda de Lisboa 
são raros desde as primeiras emissões auctorisadas pelas leis de 14 de 
Fevereiro e 27 de Março de 1641, ao passo que foram tantos e tão 
variados no fabrico de numerário em Goa que até surprehendem quem 
pouco se intresse em conhecê-los. 

E sempre conveniente indicar a existência de anormalidades notá- 
veis, mas é melhor explicá-las, quando se não apresentem refractárias 
as raciocínio, depois de apurada a curiosidade numismática. 

Examinemos outras particularidades. 

O cordão, ou serrilha, é irregular em todo o contorno; dir-se-hia 
feito a Uma, em época recente, se na moeda não existisse a marca da 
esphera coroada. Esta marca dá au th en ti cidade á serrilha, porque a 
moeda recebeu uma e outra na occasião em que se deu cumprimento 
á lei de 9 de Agosto de 1686. Qualquer valor de ouro recebido na Casa 
da Moeda para ser serrilhado era logo entregue á competência analytica 
dos ensaiadores, que o marcavam com a esphera, como norma preli- 
minar da operação. Existe notícia d'esta marca no capitulo 02 do Re- 
gimento dado por D. Pedro II á Casa da Moeda em 9 de setembro 
de 1786, em que se lé o seguinte: testas (barras de ouro) marcarSo (os 
ensaiadores) em cada uma 'Ias pontas, sendo as do mais antigo a das 
Armas Reaes, e do segundo a Esphera que sempre se usou na Casa (da 



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O Abcheologo Português 237 

moeda)». A redacção é um tanto confusa, porém torna evidente a exis- 
tência da esphera como marca da contrastaria d'aquelle tempo em bar- 
ras e moedas de ouro. Também foi applicada em productos de ourivc- 
zaria, como se diz no capitulo 13 do mesmo Regimento: tHeypor bem, 
<■ itmnão que o Provedor da Coza da Moeda corra com seus officuies todos 
os mezes, t as mais vezes que lhe parecer, as ruas dos Ouriws do ovro, 
r. prata, fazendo vistoria nas Casas, e Taboletas dos Oitriws, e exami- 
naiulo se as pessas tem os quilates referidos (31) e guanlão o disposto 
na mesma Zify*. 

É certo que nalgumas moedas de ouro de D. João IV e de 1_). Aífon- 
s» VI, que tem carimbos indicativos de augmento de valor, se nota a 
falta da esphera, como nos n. n " 3 da estampa XXX, 2 da estampa xxxili 
f 11 da estampa XXXIV de Aragão. A falta provem de nSo terem sido 
serrilhadas. 

É evidente que á esphera nâo se deve chamar carimbo. Julgamos 
ser opportuna a demonstração que aqui fazemos desta verdade. 

A moeda do Sr. Shore, muito cerceada, tem hoje o insignificante 
peso de 7*,50, ou 1Õ0 grãos; cerca de dois terços do primitivo peso de 
246 */j grãos, dado pelo decreto de 29 de Março de 1642, que regulou 
i> fabrico da segunda emissão de ouro no reinado de D. AiTonso VI, 
iomo regulara o da primeira no mesmo reinado. 

O diâmetro é só de 24 millimetros, de 30 que a moeda teve, mas 
estes motivos não lhe offendem o valor numismático, incontestável, 
Xa aurora do seu tempo, quando começou a correr de mão para mão, 
fui completa e bella. Então já se manifestava entre os nosBOS gravadores 
o sentimento da arte e a tendência para o seu aperfeiçoamento, que 
se desenvolveu com brilho notável vinte annos depois, como se vê dos 
esplendidos ensaios monetários de cobre com o millessimo de 1C83, 
u." % 28 a 31 da estampa xxxvii de Aragão. 

Lisboa, Junho de 1ÍHI2. 

Manoel Joaquim i>e Campos. 



Extraotos archeologicos 
das «Memorias parochlaes de 1768» 

454. Sernaebe dos Alhos (Beira) 



■Houve no lugar do Picoto hum barbeiro de quem se conta por 
t radicam, que ao passar de hum ribeiro encontrara hum homme de 
barbas crecidas, e offerecendo-se-lhe para lhe fazer a barba, ao fazer 



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23tS O Akcheolooo Português * 

delia lhe estalara a navalha na mam, e o homem se desfizera em fogo 
e fumo, de que ficou entendendo ser o diabo em figura de homem, 
este tal barbeiro teve quatro filhos o Dr. Manoel Alvares de Carva- 
lho, medico, o Dr. António Alvares, Theologo, e o Doutor Joam dos 
Reis, canonistas, eto.» (Tomo xxxiv, fl. 9t>4). 

455. Sernancelhe (B«lra) 

Forie doi Moum 

• Cernancelbe he villa munto antiga, esta cituada em hum alto, 
ha tradição que foy abitada pellos Mouros e nella cm hum roxedo 
que lhe fica jminente fizeram seos muros com forte c balluartes de 
que hoje existem bastantes minas e se conserva ajnda a mesma 
portta chamada do Sol, por estar ó nasente e por esta parte domi- 
navam toda a villa, e paresc pello munto despinhado e rozedos em 
que cstam situados nam teriam mais portas dentro dos muros.» 
(Tomo xxxiv, fl. 983). 

*58. Serpa (Alemtcjo) 

(Indagando as couzas notaueis desta villa, que mais se podem 
admirar achamos ser Serpa muito antiga De muitas eviden- 
cias consta esta antiguidade, sendo a mais demonstrativa hum cipo, 
que nota Fr. Bernardo de Britto, e traz Resende no Liv. 4. pag. 19 r. 
que diz expressados os breucs de caracteres antigos na Língua La- 
tina 1 :» (Tomo XXXIV, fl. 101G). 

467. 8. Bartkolonen da Serra (Alente» 

Dcooinlnmçlo usogrmphl cm 

«Está situada em hum pequeno Tezo entre terras planas donde 
se descobre o convento de frades de S. Francisco da Villa de Men- 
cejana e seu castello, e o santuário de N. S. r " do Castello da Villa 
de Aljustrel». (Tomo xxxiv, fl. 1037). 

458. S. Francisco da Serra (Alentejo) 

lllu dft pi* t» o chuobo 

■Para a parte do norte em distancia da Igreja da minha fregue- 
sia se abrio huma mina de prata e chumbo de que ha noticia se abryo 



* Corp. Inter. Lai., ii, ».- 971, 



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O Akcheolooo PoKTUGUÈa 239 

no reynado do Sr. Rey D, João o Quinto alias do Sr. Rey D. Pedro 
.Segundo e se fecharão no tempo do Snr. Rey D. Jo3o o quinto». 
(Tomo XXXIV, fl. 1045). 

45». S. Slmlo da Serra (Alentejo) 

Gruta tlm Fui» 

fila nesta serra (de S. Miguel) hum buraco chamado da Faspa 
tem este sua entrada pella parte do poente, e se dis ter de compri- 
mento meyo quarto de legoa, em cujo se acham vários lugares em 
forma de salas com boa formalidade, sem duvida feytas por arte, c 
as passages de humas a outras salas em partes tam estreitas que 
apenas cahc huma pessoa, nam consta se lhe chegaçe ao fim porque 
o temporal com suas romãs lhe tem embaraçado a passage thé o fim 
que paresse se encaminha as portas do Rodam. Ao longo desta se 
acha hum çitio chamado Conhal, porque no mesmo se não acha mais 
Uo que pedras de que ahaxo se falará 1 ». (Tomo XXXIV, fl. 1070). 

460. Serra do Bouro (Estremadura) 



«Junto ao mar que dista desta Freguesia meyo quarto de Legoa 
ha uma fonte chamada a Fonta Santa por constar por tradição que a 
Imagem de N. Senhora dos Martyres, orago da Freguesia fora ali 
achada sobre hum penedo, que ainda existe ao pé da mesma fonte 
com o feitio de altar». (Tomo xxxiv, fl. 1080). 

461, Setúbal (Estremadura) 



«Esta esta vila fundada, cm huma ensi&da que forma o Oceano 
aonde se mete nellc o rio Sado, foi antiguamente asentáda Setúbal no 
cílio a que hoje chamão a Troya». (Tomo xxxiv, fl. 1107). 

462. Slbft (Entre-Douro-e-KInko) 



«Ma nesta freguesia porem hum castello ou Torre antiga do Conde 
de Priegue do Reyno de Galiza, a qual me informâo ser reedificada 
de hum cunhal haverá sassenta ou satenta annos. Não tem mais que 



1 Eaqueceu-se, porém, de f&xer a narrativa. 

;n,t :: byGoO^lc 



240 O Archeologo Português 

as paredes e por dentro signaes de que teve três sobrados com bas- 
tante capacidade para se habitar nelles. Etc.» 

■Ha nesta freguezia entre o Monte da Rinhanha e do Sao Sebastião 
da Inculca hum buraco onde nasce agoa que sahe a um ribeyrmho, ou 
rego junto do qual está a entrada da tal coua a que comumente chamSo 
a Cova da Moura, foy feita por arte e corre por bayxo da superfície 
da terra. Dizem-me tem alguns pertendído examinalla dentro e que 
aterrados de bum soido se retiraram (será o soido da agoa que por 
ella corre) e fugirão sem se atreverem a entrar mais dentro. Dizem 
sahe a hum alto de hum monte de Cossourado do Concelho de Coura 
visinha desta freguesia. Outros dizem que mais longe». (Tomo xxxv, 
fl. 1205). 

468. Silva 1 (Entre-Douro-e-MIaho) 



■Não ha notavilidade nesta freguezia que possa expender e somente 
hum Cálix de prata de feitio antiquíssimo e desusado assim na copa, 
como no pé e baixo, o qual applícado a opilaçífis e inflamações pella 
mercê de Deos experimentão os necessitados conhecidas melhoras e de 
facto de toda esta Província e do Reino de G-alliza he pertendído para 
o remédio de que recebe varias esmolas applicadas para a confraria do 
Santíssimo Sacramento. Â sua tradição he tão antigua como ridícula 
porque se não diz mais que ser tirado a huns fantasmas de noite por 
hu laurador desta freguesia e não tem nem lhe dão outra sahida poli- 
tica». (Tomo xxxv, fl. 1208). 

464. Silveiras (Entre-Oouro-e-MInho) 



•Junto a dita Ermida (de N. Senhora do Livramento) está hum pe- 
dasso de terra cham cercado de forles feitos antiguamente de terra e 
ha indicies de que houve ncile castello e casas de que inda aparecem 
licerses e se tirão delles pedras Iabradas de pico e muito tíjollo e te- 
lhas quebradas, e por comua tradissao destes pouos dizem habitarão 
neste sítio os Mouros e chamauão a este sítio a Cidade de Sitania ou 
Sytaina e o Campo do Ouro e ioda hoje muitas pessoas lhe chamãu 
assim e deste Monte não sei nem alcanso cousa mais algua das i-ou- 
theudas no interrogatório nem dignas de Memoria». (Tomo xxxv, 

'' Pedro A. de Azevedo. 



1 Comarca de Valença. 



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-V0L.V1I OUT. E NOV. DE 1902 N." 10 E 11 

ARCHE0L0G0 
PORTUGUÊS 

COLIFXÇAO ILLUSTRADA DE «ATER1AES E NOTICIAS 



PUBLICADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



Velentm vaivéns 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 

1902 



a» Google 



SXJ M 3WE.A. B. I O 



ArCHEOLOGIA LUSITANÒ-ROMANA : 241. 

Moedas portuguesas de ouro carimbadas ou cravejadas kas ÍN- 
dias otcidentaes e no continente americano : 248. 
Um inventario do século xiv: 259. 
Vasilha antiga: 265. 

Extractos arcbeoloqicos das «Memorias parochiaesi: 207. 
Machados de pedra: 273. 

Estações prehistoricas dos arredores de Setúbal: 275. 
Noticias várias: 283. 
Biblioqraphia : 288. 



Este fascículo vae i 11 listrado com 11 estampas. 



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O ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 

C0LLICÇ1O MOSTRADA DE MATKRIàíS i HOTíCIAS 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 

VOL.VII OUTUBRO E NOVEMBRO DE 1902 N. M 10 E 11 

Aroheologia lusitanó-romana 
1. Intcrlpglo de Alfaielrão 

De um decalque que o Sr. Vieira Natividade me enviou, vejo que 
& inscripção funerária publicada no Corp. Inscr. Lat. r li, 360, deve 
ser assim: 

TERENTIAE<Q 

F<CAMIRAE 

TERENTIa<SQ 

F<MAXVMA 

MATER 

As divergências entre o meu texto e o do Corpus bÍLo pequenas. 

Na Unha 3 o Corpus tem DOC com um o pequeno incluso no O, ao 
passo que a lapide bó apresenta DQ com um o pequeno incluso no D; 
nesta abreviatura contém-se a palavra Doqiãri, ou um derivado delia, 
i. é, Doqitiricus (= Docquiricus); cfr. no C. I. L., ii, 624 e 551 res- 
pectivamente ATIA DOQVJKI P - SEVERA C DOCQVIMCVS VITALIO. 

As palavras no meio das linhas estão separadas não por pontos, 
como no Corpus, mas por pequenos ângulos. 

O sentido da inscripção é: cATerencíaCamira, filha de Quinto, sua 
mãe Terencia Máxima, filha de Doquiro (ou Doquirico), consagrou este 
monumento». 

Tanto Camira, como o vocábulo abreviado em Dog., são frequentes 
no onomástico peninsular. 

2. Inscrlpgto achada era Lisboa 

No jardim do palácio do Sr. Duque de Falmella, na Rua da Escola 
1'olytechnica, em Lisboa, appareceu em Maio de 1902, num entulho, 



cbyGOQ^IC 



242 O Archeoloqo Português 

por baixo <lo alicerce de um muro de vedação, uma lapide cupifonne 
de mármore em que se IS, dentro de uma moldura, a seguinte inseri p;ã.j 
funerária, que copiei do próprio original, com amável auctorizaçâõ do 
Sr. Duque, por intervenção do Sr. Gabriel Pereira; 

D 0- S 

COGITA TA \ S 
NORV«V'FIRMI 
DIVS PEKEGRIXV 

FIL'F-C*H*S-E-S'T*T*L 

Commentario ao texto: 

L. 1. Falta M, por a pedra estar gasta. 

L. 2. Falta A, pelo mesmo motivo; o N está em parte safado. 

L. 3. Entre o I e o R produziu-se um pequeno gasto na pedra, o 
que faz suppor que aquella letra é um H ligado a um li. Mas a lei- 
tura é sem duvida F1KMI. 

L. 4. A palavra PEREGIUNV foi gravada sem S final. Este nunca 
existiu na lapide. 

L. 5. O ponto depois do segundo F está ura pouco sumido. pri- 
meiro S está também incompleto. 

O sentido é : « Dom aos deuses Manes. Cogitata ', de 5 annos de idade. 
está aqui sepultada. Firmidio Peregrino mandou fazer este monumento 
em honra de sua filha. A terra te seja leve». 

A lapide tem de comprimento m ,93; de altura O", 29. O campo 
da inscripção tem estas dimensões: 0",165 X 0",19, Altura das letras 
0™,02. Aqui publico uma gravura d'ella s : 



1 Cogitata, como nome de mulher, apparece noutra inscripySo da Hispana; 
Corp. Inser. Lat., ri, 4150. 

* Segundo um desenho executado sob a direcção do Sr. Jorge Collafo. 




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CABEÇA OE MÁRMORE ROMANA ACHADA EM BEJA 



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O Archeologo Português 243 

Este monumento n3o estava certamente no seu logar primitivo, pois 
ao pé, no mesmo entulho, appareceu uma esculptura portuguesa, de 
pedra. Sou levado a crer que elle veiu do Alemtejo, já porque alli se 
encontram com frequência lapides sepuleraes em forma de pipa (chamo- 
Ihes eupiforma, pois « pipa» é cupa em latim), já porque numa inscripçRo 
de Myrtilis, publicada no Corp. ítiscr. Lai., n, 17, figura um individuo 
chamado L. Firmiãiue Peregrinus, que pôde ser o mesmo de que se 
aqui trata, ou parente ; e mais provável é que a pedra a mandassem 
da província para a capital, do que de Lisboa para uma terra provin- 
ciana. 

8. Antiguidades de Pax Inlla (Beja) 

Em 15 de Dezembro de 1900 eBCreveu-me uma carta o Sr. Joa- 
quim de Vargas, conservador do Museu Municipal de Beja, communi- 
cando-me que, meses antes, demolíndo-se parte da muralha de Beja 
para edificação do palácio das repartições publicas, se encontraram 
várias antiguidades romanas, como fragmentos de capiteis, de frisos 
e de fustes de columnas, uma cabeça de estatua de mármore, restos 
de pedras tumulares e outras Todos estes monumentos deram entrada 
naquelle museu. 

O Sr. Joaquim de Vargas levou a sua bondade a enviar-me copias 
e desenhos das inscripçoes. Adeante as vou publicar. 

Tendo eu estado em Beja, em Outubro de 1901, tive oceasito de 
ver todos esses monumentos archeologicos, e de obter (por intermédio 
do Sr. Manoel Joaquim Duro) uma photographia da cabeça de mar- 



Xa pagina junta figora-se uma photo-gravura d'esta ultima. Está re- 
duzida a '/> da grandeza natural. 

Este pequeno monumento appareceu propriamente Ho 2.° baluarte 
da 2.* ordem de muralhas da cidade, mettido na vedação do convento da 
Esperança. Foi encontrado por um trabalhador, e offerecido ao Museu 
de Beja peto Sr. Francisco António Vital, apontador de obras publicas; 
entrou no Museu em Fevereiro de 1000. 

A respeito d'elle, diz-me o Sr. Salomon Reinach em carta: «Le 
marbre dont vons m'envoyez la photographie me parait appartenir à 
la fin du I* r siècle après J. C. Par le procede du travai!, il rappelle 
uaturellement les bustes de Corbulon qui sont au Lonvre. Mais it ne 
represente ni Corbulon, oi aucnn autre personnage connu. De pareils 
portraits sont toujours bons k publier, car ce sont d'excellents exem- 
ples de la aculpture impérialei. 



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O Ahchkologo Português 



Passarei agora a occupar-me das inscripçfleB. 
a) Num mármore: 




L. 2. O primeiro T não está bem nítido na soa haste horizontal, nem 
o segundo V; mas não ha duvida que a palavra a que essas letras per- 
tencem é Vettonianua. 

L. 3. A letra P nSo está muito clara. 

O sentido da inscrípçao é: «Dom ao deus Manes. Quinto CaasioVel- 
toniano, de Pax Júlia, de 26 ânuos de idade, está aqui sepultado. A terra 
te seja levei. 

Altura da pedra 0",86; largura 0",47; espessara 0",S7. Campo da 
inacripçâo: 0",36 X 0",42. Altura das letras O-jOõ. 

O cognome Vettonianua é a primeira vez que app&rece numa ins- 
crípçao da Ibéria, — pelo menos não o vejo citado no vol. u do Corpus; 
mas encontra-se muito espalhado fora da Península'. A inscrípçao de 



1 Vi d. Proiopographia Imptrii Romani, parte m, Berlim 1898, p. 413; r. Corp. 
Inter. Lai., m, 5G63; vii, 164; viu, 4623. Limito -me a essea exemplos (ha mais). 



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O Abcheologo Português 



ÍM:> 



Beja tem por isso certa importância. Este cognome deriva de Vetto, 
directa ou indirectamente: quanto ao modo da formação directa, cfr. 
Vtirronianuê*, do Varro; para a formação indirecta, teria de se ad- 
mittir *Vettonins, como nome intermédio, estando para elle Vetto- 
■nianut, na mesma relação em que, por ex., Scríbonianug está para 
Scribonins. O nome *Vettonius nunca o encontrei; todavia podia 
existir, do mesmo modo que existe Vasconius*, derivado de Vasco 
(no plural Váscone», povo ibérico). Vetto (no plural Véttones, nome de 
outro povo ibérico) apparece com frequência nas inscripçôes da Penín- 
sula, tanto em Portugal, como na Hespanha 3 . 

6) Num fragmento de lapide cupiforme, de mármore: 





D • M • S- 
IVL-CLEOPATR- 
/\NN 'XXXIII 
FFREN-PRISCVS- 
MRIT-PII5S/M.- 

H-S-E- S-T-T-L* 




O sentido é: «Dom aos deuses Manes. Júlia Cleópatra, de 33 annos 
de idade, está aqui sepultada, llerennio Prisco levantou este monu- 
mento fúnebre a sua dedicadíssima esposa. Seja-te leve a terra». 

O campo da inacripção tem esta área: m ,20 X G™,21. Altura das 
letras: (ffiSò. 



' No Corp. Iiaer. IM., x, 0280. 
1 No Corp. Iraer. Lai., n, 6340. 
1 Vid. Corp. Inter. Lai., ii, 201, 001, I 



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O Archeologo Português 



e) Num fragmento de lapide cupiforme, de mármore: 



AA S 



■0RICL10 
LORICFÁGATI 

IMARITE PIE NI 
ISSÍMF CVM 

\qvamvixit 
, commvn is 

iANNOSXXZX 
•MF A/SE -I 



L. 1. Do D inicial só resta parte. 

L. 2. Antes do P ha um ponto, o que faz crer que P não indica o 
praenome», mas que cate falta. — E a primeira vez que encontro Oriclh; 
mas a leitura não offereee duvida. Noutras inscripções de fora da Pe- 
nínsula lê-se okicvlo, ohiclo (-— avricvlo). Talvez Oriclio esteja 
para Oriclo na mesma relação em que, por ex., Dentio está para Dento, 
e Capitio para Capito. O latim possuía, como é sabido, pouca tendência 
para formar augmentativos ; entre os poucos que restam conta-se capito, 
-onie, «que tem a cabeça grandes; Dento deve pertencer á mesma cate- 
goria e significar «dentola»; Oriclo poderá significar «orelhudo». 

L. 3. Florice = Floricae (dativo). Agafi —■ Agathi, que se lê no 
Corp. Imcr. Lat., II, 1401; Atjatkus (ou Agatus) é frequente no ono- 
mástico geral (origem grega). 

L. 6. Qttam em vez de qua. No latim da decadência eocontra-se 
frequentemente o accusativo regido de cnm, por isso que m não se 
pronunciava: tanto valia pois para o ouvido, no nosso exemplo, qttam 
como quu. 

L. 9. Das duas primeiras letras só se vê metade por a pedra estar 
gasta. Deve ser: II. Creio que não falta outra antes. Jfenae==mense(m) f 



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O AfiCHEOLOGO POKTtiGOÊS 



247 



oom queda do m, que, como se disse acima, desapparcceu da pronuncia 
popular; é aceusativo, e não ablativo, como se prova por annoa na li- 
nha 8. 

Os AÃ. não teein traço ao meio. O 1." A da linha 3 tem aspecto 
de lambda. 

O sentido é pois: «Dom aos deuses Manes P. OricliZo (ou Ori- 

c-Iio) consagrou este monumento á memoria de sua dedicadíssima esposa 
Florica, filha de Agato, com a qual fez vida commum durante quarenta 
c dois annoa e um mês». 



Próximo da igreja do Carmo, ao abrir-se um cabouco para edifica- 
ções, eucontrou-se, como me diz o Sr. Vargas na referida carta, uma 
sepultura completa; mas os estúpidos trabalhadores estragaram tudo, 
salvando- se apenas um cippo marmóreo com uma inscripção. Aqui o re- 
produzo também, segundo o desenho que o mesmo Sr. me enviou: 



Ç 



D-M- S- 
IVL'CRYSIS 
ANN» XXIII 

H'S"f'f'íl- 



L, 2. O cognome Crysis está por Chrytu, que apparece noutras 
iiiBcrípcSes peninsulares; também apparece Crt/tu, Chrisi* e Cry(a)itla. 
Temos aqui a palavra grega jrpvffiç, que significa «objecto de ouro» 
(bordado, vaso, etc), designação bem própria no nosso caso, pois se 
applica a um rapariga de 23 annoa. Cfr. Iulia Cleópatra numa das 
inscriçOes precedentes, onde apparece o mesmo nomen gentilichtm que 



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248 O Abcheoloqo Português 

nesta, e também um cognome grego. Júlia Cleópatra e Júlia Chrysida 
eram talvez libertas. 

Altura da lapide: 0",69; largura no meio: 0",27; espessura: 0*,U. 
Campo da inscripcSo: m t 18 X 0*",17. Altura das letras: O™ ,025. 

O sentido é: «Dom aos deuses Manes. Júlia Chrysida, de 23 aunos, 
está aqui sepultada. A terra te (Beja) levei. 



Vê -se que o Museu de Beja continua a progredir, o que é motivu 
de satisfação para todos os que se occupam da archeologia nacional. 

J. L. DE V. 

Moedas portuguesas de ouro 

carimbadas ou cravejadas nas índias Oooidentaes 

e no Continente Americano 

Na minha publicação «As moedas da Colónia do Brasil» tive oeca- 
st 3o de fazer conhecidas meia dúzia de diSerentes contramarcas, que 
em vários togares das índias Occidentacs foram applicadas em moeda* 
portuguesas de ouro, sobretudo em meias dobras, que circularam lar- 
gamente naqnella parte da America desde a segunda metade do sé- 
culo xvm, isto é, desde que se deu o avultado augmento no rendimento 
das minas de ouro do Brasil, que fez com' que estas moedas se tornas- 
sem tao abundantes que até procuravam países estrangeiros, como o 
Canadá e a Inglaterra, para alli poderem circular á vontade. É sabido 
que esta abundância principiou no reinado de D. João V. As dobras 
eram conhecidas na parte brkannica das índias Occidentaes pelo nome 
de «Johannesesi (plural de Johannes) ou, por abreviatura, « Joes», e as 
meias dobras pelo nome de «Half Joes». Tendo cessado, em virtude A* 
lei portuguesa de 29 de Novembro de 1732, o lavramento das dobras, 
estas foram depois pouco a pouco desapparecendo, e então em alguns 
logares chamava-se á meia dobra, impropriamente, «Joc», quando se 
devia dizer «meio Joe». Ás moedas de ouro de 45800 réis os ingleses 
deram o nome de «Moidores». Houve tempo (1790 a 1820) em que as 
moedas portuguesas de ouro constituíram o principal meio circulante 
nas índias Occidentaes do domínio inglês, francês, hollandês e dina- 
marquês, auxiliadas pelas patacas hespanholas de prata, inteiras, cor- 
tadas e fraccionadas. As meias dobras tinham alli geralmente o valor 
de 8 patacas hespanholas. Aconteceu, porém, que estas moedas de ouro 
foram muito cerceadas, tendo-se originado tão feia pratica na cireums- 



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O Arciieolooó Fobtugués 240 

tancia de ser o valor das moedas de ouro no mercado algum tanto su- 
perior áquelle que fora oficialmente estabelecido 1 . O abuso do cercea- 
mento chegara a tal ponto que as peças, em vez de pesarem 4 oitavas, 
só pesavam cerca de 3, vindo isto a produzir verdadeira calamidade, 
que obrigou os respectivos Governadores a tomar serias providencias. 
Consistiam estas no arbitramento de um preço, ou para determinada 
unidade de peso, ou para moedas cujo peso estava dentro de certo li- 
mite, permittindo-se, ou tolerando-se, em alguns logares, dar ás moedas 
um augmento de peso por meio de um cravo, que se pregava no centro 
(em francês chamado ccloui 1 , em inglês «plug» *). Esse cravo era 
muitas vezes composto de uma mistura de ouro com metaes ordinários. 
Km conformidade com os difFerentes systemas estabelecidos, mandou-se 
proceder á carimbagem das moedas, para assim se nacionalizarem, ado- 
ptando cada ilha, ou cada grupo de ilhas, um carimbo especial. Esta 
pratica continuou ainda durante o primeiro quartel do século XIX, até 
que as peças assim tatuadas ou deformadas foram desoionetizadas, e 
então desappareceram nos cadinhos dos ourives d'aquellas terras ou 
acharam, como ouro velho para derreter, o caminho para os mercados 
europeus. Hoje estas moedas, carimbadas ou cravejadas, sao bastante 
raras, e mais facilmente se encontra um ou outro exemplar em Paris 
ou em Londres do que naquellas ilhas. 

A primeira meia dobra assim carimbada achei-a, ha uns doze annos, 
do mercado do Rio de Janeiro. Como eu fizesse ver ao cambista que 
a moeda parecia ser muito leve, tive em resposta que esta era pre- 
cisamente a razão por que valia mais, visto que meia dobra com o 
simples peso de 3 oitavas já era só por si alta raridade, sem falar do 
carimbo (o algarismo 20, tendo por baixo a figura de uma pequena 



1 The characteristic featnre of the Windward Ialands was tlie prevalescence 
of the Portuguesa Joliannes as tlic standard coin. The underrating of this coin 
at W, lead to the circulation of light -Joea» and to the mal-practices of clippingi 
sweating, etc. Hittory of Curreiícy tn tlie Britiêh ColonitM, by Robert Chalmers, 
London 1893, p. 82. 

1 Lorsqn'une moBde se tronvait rognée, un orfèvre y pratiqiiait un trou de 
façnn à écarter le métai et le bouehait avec un morcean d'or d'un titre quel- 
conque qu'il aplatiasait ensuite et qui forma it une teto de ciou. II donnait ainsi 
à la pièce le potds legal. HUíoire Monitaire de» Colonie» FrajiçaUe», par £. Zay 
Paris 1892, p. 193. 

1 When a gold coin whicli had becn clippcd nas raised again to the Btan- 
dard weight, the additional gold, fiíed on the clippeil coin, was callcd tlie «plug») 
and the lumpish rosult was plugged gold coin. Needless to say, the pluggs were 
freqnently adultera te d. The coin inost commonly phiggcd was the «Joc*. Ro- 
bert Chalmers, ob. cit., p. 23. 



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250 O Abcheologo Português 

águia), que lhe dobrava o valor. Desde então estudei as meias dobras 
que tinham falta de peso, tratei de conhecer os exemplares semelhantes 
que se acham em outras collecçoes e esforcei -me por obter aqneUes 
poucos que em longos íntervallos appareceram nos mercados europeus. 

Foi do catalogo da celebre Collecção de Moeda» e Medalhai Por- 
twjuegas, de Eduardo Luis Ferreira Carmo, do Porto, que se me de- 
parou a indicação de três meias dobras com carimbos estrangeiros 
|n.°* 546 b , 597 e 598), que me pareciam dever pertencer á categoria 
das que me interessavam, e, iníbrmando-me do actual dono d'aquella 
collecçSo, o Es.™ Sr. Aires de Campos, foi continuada a minha suppo- 
siçâo. Este cavalheiro teve a amabilidade de permittir que se tirasse 
a photographia do n." 597, que reproduzi no meu livro a p. 169, 
n.° 99». 

Os mais valiosos elementos de estudo concernentes á carimbagem 
de moedas portuguesas de ouro no Arohip-lago Columbiano encon- 
tramo-los, porém, nas duas publicações de E. Zay, Paris, e de Robert 
Chalmers, Londres, cujos títulos já a cima indiquei. Os autores d'estes 
interessantes trabalhos, em virtude das pesquisas que puderam fazer 
nos respectivos archivos públicos, chegaram a descobrir documentos 
otBciaes, que nos tranemittiram, os quaes nos dão a explicação de bom 
numero d'estas contramarcas. E aos indicados autores que devemos o 
conhecimento das circumstancias particulares que motivaram a marca- 
ção das moedas, e assim podemos agora, com probabilidade de acerto, 
determinar a proveniência de alguns d'esses carimbos. 

Existem com certeza ainda outros carimbos d'aquellas numerosas 
ilhas, que são por emquanto desconhecidos; entretanto dar-me-hía por 
feliz se pudesse com estas linhas despertar o interesse dos colleccionado- 
res, chamando a sua attenção para peças semelhantes, que porventura 
jazam inapreciadaa nos seus medalheiros : seria bem possível que alguns 
exemplares tivessem, de volta das terras descobertas por Colombo, pro- 
curado .novamente a sua pátria, não para lá morrerem, que as cousas 
inanimadas não morrem, mas para continuarem a viver contando aos 
qne desejarem ouvi-las as suas aventuras por paises longínquos. 

Passando agora a descrever os números reproduzidos na estampa 
junta, e mencionando ao mesmo tempo os outros exemplares que me 
são conhecidos, desejo apresentar assim aos leitores um pequeno re- 
sumo d'este assunto. 

1. Moedas carimbadas 

1. Meia dobra (6$400 réis), cerceada, de D. José, 1778. R., peso 
9" r ,80 (em vez do legal de 14 íf ,34). Carimbo applicado na ilha francesa 



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O Archeologo Pobtu<3i;ê8 2õl 

I^a Martinique em 1805: algarismo 20, tendo por baixo afigura de ama 
pequena águia, semelhante á do exemplar já reproduzido na estampa 
xv a. e 2. 

Outros exemplares são: o n.° 598 da collecção- Carmo, de D. José, 1769 (letra 
R V) ; um na collecção do Sr. E. Zay em Paris, do mesmo anuo, letra R., pesando 
este IOp.W; e outro na collecção do Br. João Carlos da Silva, em Angra do He- 
roísmo (Ilha Terceira) de 1767. li. 

Semelhante a este carimbo é o dos n." 2 e 3. 

2. Moeda de ouro (45800 réis), cerceada, de D. Joio V, 1718. 4R, 
peso 8 er ,85 (em vez de 10 gr ,75). Carimbo posto na ilha francesa La 
Martinique em 1805: algarismo 22, tendo por baixo, como no n.° 1, 
a figura de uma pequena águia. 

3. Meia dobra, cerceada, de D. José, 1765. R., peso 11^,70. Ca- 
rimbo igual ao do numero anterior. 

Outros exemplares são: um na minha collecção, de D. Maria I e de D. Pe- 
dro III, 1786. E., peso 12*50, ja reproduzido a pag. 195, a.' 31 ; o do n." 546 ■ da 
collecção Carmo, de D. João V, 1717. R. ; outro na collecção do Sr. João Carlos 
da Silva, em Angra, de 1776, R. ; outro, de meio escudo (800 réis) de D. João V 
1729, que pesa 1f,G7 (em vez de 1*,79), com a mesma contramarca, qne me foi 
ultimamente communieado, e que se acha nas mãos de uni colleecionador em Gua- 
deloupe. 

Os dois carimbos precedentes, nos quaes se encontram leves diffe- 
renças, são, como se deprehende do numero de exemplares citados, 
os menos raros, e existem, como vimos, não somente em meias dobras, 
mas também nas suas divisões e mesmo em «moedas de ouro», o que faz 
presumir que o nome francês de «Moêdes» se referia primitivamente 
a esta ultima espécie, tomando depois a significação genérica de «Mon- 
naies d'or». Os franceses usaram também muito da expressão iLis- 
bonnine» ou tPortugaise», tanto para as moedas de ouro de 45800 réis 
como para as meias dobras de 6tJ40O réis, ao passo que os ingleses 
conservaram o nome de «Moidor* para as moedas de ouro de 4/J800 réis. 

Dos documentos publicados por E. Zay, que eu transcrevi a pag". 
115, juntando-lhes um complemento e uma rectificação qne o próprio 
autor da Hístoire Monétaire dts Colonies Françaises me tinha ministrado, 
segue-se que os dois carimbos agora descritos são oriundos da ilha fran- 
cesa La Martinique (onde no dia da Assunção d'este anno se deu o ter- 
rível catastrophe em que perderam a vida uns 20:000 habitantes), que 
os algarismos 20 ou 22 indicam o valor em livres cohmiales da unidade 
de peso que era o groe equivalente a 3 gr ,82 (um pouco mais da oitava), 
e que o encarregado da carimbagem teve de imprimir a marca de 20 
ou 22, conforme a proveniência das moedas («marquer du chiffre 22 les 



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252 O Archeoloqo Pohtuocês 

moSdes d'or vrai de Portugal, de 30 celles de fabrique d'Améríque. 
de Genève ou de pays étrangers ») e finalmente que a proporção do valor 
da moeda colonial com a da mâe-patria alli era em 1805, quando foi 
ordenada a marcação, de 3 : ;>. Para se chegar a conhecer o valor de 
uma moeda, era preciso portanto pesá-la, e multiplicar depois o numero 
de groB pelo algarismo marcado, de 20 ou de 22. Sabendo-se que o 
toque legal das moedas portuguesas, tanto das cunhadas no continente 
como das lavradas no Brasil, era uniformemente de 22 quilates, estra- 
nhamos naturalmente encontrar em exemplares absolutamente legitimou 
ora o carimbo de 20, ora o de 22. Só explico isto admíttindo a hypo- 
these de que o oncarregado do serviço da marcação tivesse encontrado 
algumas differenças de toque, que o pudessem ter induzido a applicar 
em legitimas moedas portuguesas o carimbo de 20 em vez de 22, e 
por que nas casas de moeda no Brasil o toque prescrito não foi sempre 
rigorosamente observado. Em circulação achavam-se também imitações 
de moedas portuguesas, de ouro baixo * (suspeito que o meu exemplar 
de 1773 com a letra monetária que finge um R, reproduzido apag. 169, 
n.° ÍH, ó uma delias) fabricadas na America e na Inglaterra 1 , e a estas 
é que era omei ai mente destinado o carimbo de 20. Devo entretanto 
observar que, calculando-se o kilogramma de ouro de 22 quilates a 
3:157 francos, e tomando se a relação da moeda colonial com a da 
mâe-patria. como ella regulava em 1805, quando principiou a carim- 
bagem, isto e a de 3 ; 5, resulta para o .171-0» de 3 ír ,82 só um valor de 
20 libras; parece portanto que já naqnella época a indicada relação 
tendia para subir, chegando effecti vãmente em 1817 a ser de 100 ; 185 
em Guadeloupe e de 100 ; 180 na Martinique, e para se obter o valor 
de 22 libras coloniaes era preciso coutar com a proporção indicada 
nestes últimos algarismos. Em 1826 foi abolida a livre, colvniale. 

4. Meia dobra, nao cerceada, de D. Maria I e D. Pedro III, 1779. 
R-, peso 14* r ,30. Carimbo da ilha francesa de Guadeloupe 82.10 (82 Zi- 
vres e 10 soua, moeda colonial) e por cima outro: G coroado (Georgelllt 
numa oval; ambos da administração inglesa, postos provavelmente nos 
annos de 1810-1811. 



1 Une Lisbonninc, ou Portugaiae, de 1755, de fanase fabrica tion, s*est tronttfe 
»u titre de 0.699 (I6V1 karate). TraiU (íes Monnaie* (for et d'arge»t par Pieire 
Prêdéric Bonneville, Paria, 1806, pag. 46. 

1 Robert Chalmers, pag. 20, citando um inemorandum du Tortola, datado de 
1802, escreve : at the Bame time a villainoua practice was introduced of importing 
base half-Johsnnes from Birmingham, SheflGeld, and America. Aqui a palavra 
America com certeza não ee refere ao Brasil, mas sim á America do Norte. 



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O Archeologo Português 253 

Exemplar igual è o do n.° 597 da collecçto Carmo, que já reproduzi na pag. 169 
Bob o n.° 99* de D. Josó, 1759. K. 

Aqui o carimbo indica o valor em livres coloniales que cabia á mes- 
ma moeda, tendo ella, como è o caso, o peso legal e nao somente o de 
uma nnidade de peso, correspondendo o valor marcado de 82.10, como 
tiz ver a pag. 116 do men livro, com o de 22 livre» coloniales por grou. 
Pelas informações que nos ofierece £■ Zay a pag. 193 da obra citada, 
sabemos que foi em Guadeloupe, durante a administração inglesa, que 
se punecionaram moSdes cora um G coroado e se lhes marcou o valor 
em livres, sous et deniers. Como se vê, a coroa que encima a letra G 
ó effectivamente de forma inglesa, e a indicação do valor (82.10) está 
demonstrando que os ingleses conservaram alli o modo francês de cal- 
cular por livres coloniales, como conservaram em Essequibe c Demerara 
o computo hollandês por florins. 

A ilha de Guadeloupe esteve por quatro vezes no poder dos in- 
gleses: de 1759 a 1763; em 1794 só sete meses; de 1810 a 1813, quando 
foi cedida d Suécia que a dominou apenas durante cerca de um anno; 
« de 1815 a 1816; voltou porém depois ao domínio francês. 

A pag. 191 E. Zay cita ainda um decreto da administração fran- 
cesa de 22 de Abril de 1803 a respeito de moedas cravejadas, que aca- 
bavam de ser introduzidas em Guadeloupe. Como os respectivos cravos 
foram reconhecidos como ouro alterado, julgou-se necessário impedir 
a circulação de semelhante moeda, a nao ser que se estabelecesse previa 
verificação. Aquelle decreto determinou que as moldes de ouro bom 
deviam ser estampadas com um G e com uma outra marca que as fi- 
zesse reconhecer. Este carimbo de G acompanhado de outra marca ê 
dos que ainda não cheguei a ver. 

5. Meia dobra, ponco cerceada, de D. José, 1709. II., peso 12* r ,60. 
Este exemplar, juntamente com o n.° 6, já occasionou um pequeno ar- 
tigo que publiquei na Numismatic Circular de Spink & Son do mês 
de Julho de 1901. A moeda levou três carimbos: um rectangular, eol- 
locado sobre o pescoço do rei, algarismo 22, seguido, mais por cima, 
de um signal indicativo de livres e depois vem a figura de uma pe- 
quena cabeça barbada, que representa talvez a autoridade governa- 
mental (?) Os outros dois carimbos são: no anverso, sobre a testa do 
rei, o algarismo 22 e no reverso, sobre a coroa, a figura de uma cabeça, 
de frente, trabalho rude; ambos num quadrado. Aqui temos, portanto, 
duas vezes a indicação do valor; quer-me, porem, parecer que a sua 
significação não é idêntica. O primeiro punção, qne tem certa analogia 
com os dos n. n " 1 a 3, marca o valor de 22 livres coloniales por gros 
e dá assim a entender que foi applicado nas Antilhas francesas, sem 



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254 O Archeolooo Poetuguês 

nos deixar conjecturar em qual d'ellas. Os outros dois carimbos, que 
foram talvez postos simultaneamente, um no anverso, outro no reverso. 
também não denunciam bem a sua proveniência, a não ser pela fignra 
da cabeça, que entretanto nos ê desconhecida; fica-nos a alternativa ou 
de presumir que serão também oriundos de uma d'aquellas ilhas fran- 
cesas, o que julgo pouco provável, ou então de os attribuir a uma du 
Possessões, que são, oh qnejá foram Hollandesa», qner d 'aquelle mesmo 
archipelago (Curaçao, S. Eus tache, Saba e em parte S. Martin) quer 
do continente americano (Guiana hollandesa, outrora composta de Ber- 
bice, Essequibo, Demerara e Surinam e agora reduzida a esta ultima 
colónia, por terem as primeiras três passado no começo do século xix 
para mãos britannícas) que conservaram ainda por muito tempo o modo 
hollandês de calcular por guilders ou florins, valendo o Joe (a meia 
dobra) 22 guilders 1 . íia minha opinião é a guilders que se refere a se- 
gunda indicação do valor que vemos no carimbo quadrado, mas falta-me 
um ponto de apoio para dizer a qual das ilhas ou a qual das colónias 
bollandesas pertence. Seria proveniente da ilha de S. Martin, que eslá 
em parte sob o domínio dos franceses e em parte sob o dos hollandeses, 
obedecendo a figura de uma cabeça, que se vê também no primeiro ca- 
rimbo, a uma ideia commum? Seria de Essequibo, por ser quadrado, 
não obstante faltar-lhe a inscrição E. D (Essequibo e Demerara)? São 
supposições que só futuras investigações poderão esclarecer. 

6. Meia dobra, cerceada, de D. José, 1773. R., peso 10 ,r t 25. Ca- 
rimbo E D, em letras cursivas (Essequibo Demerara), em nma depres- 
são oval, applicado no anno de 1798 na colónia inglesa Demerara, para 
a moeda poder temporariamente circular com o valor de 22 guilders 
(florins hollandeses). 

Nas Moedas da Colónia do Brasil, pag. 1 16, já citei as interessan- 
tes informações que nos deu Robert Chalmers na sua History of Ciir- 
rency in tke British Colonies, ao tratar da Guiana britannica, a saber: 
A meia dobra era em 1798 nas colónias de Essequibo e Demerara a 
medida geral dos valores e por assim dizer o único meio circulante. 
Xo meado d'aquelle anno parece que circulava alli grande quantidade 
de Johauneses cerceados. Por iniciativa do Governador que teve razfSes 
para recear mais outra importação das mesmas moedas, o tribunal de 



1 Robert Chalmers, pag. 121: These three Colonies (Berbice, Demerara and 
Essequibo) tong retained the mode of reckoning b_y Guilders which liad been in 
vogue nnder DutcH rule. A lialf Johannes (here styled a « hole Johannes) paseed 
for 22 guilders or florins. 



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O Abcheologo Portoouês 255 

policia passou no dia 2 de Agosto de 1798 uma ordem a respeito d'estaa 
moedas leves, verificando -se que em 29 de Outubro do mesmo armo 
não havia em circulação senão Joes e só muito poucas ou nenhumas de 
outras moedas. Estabeleceu essa ordem (hollandesa) que pelo preço usual 
de :i2 gnilders só podiam ser acceites os Johanneses de ouro (isto é, os 
que não eram falsos) que tivessem o peso de 7 engels e as fracções em 
proporção. Porem, para evitar prejuízos aos habitantes, visto que todos 
os Johanneses que se achavam na colónia pesavam menos de 7 engels, 
ordenou-se que os que tinham intactas as letras da inscrição fossem 
puncionados, para poderem ainda durante um anno passar pelo valor 
inteiro, e nomearam-se dois commissarios para carimbar a moeda, de- 
vendo o carimbo para Essequibo ser quadrado, com as letras E. D, 
e circular o para Demorara, com as mesmas letras. Baseado nestas in- 
formações, não hesitei era attribuir este numero a Demerara, faltan- 
do-me ainda encontrar a marca para Essequibo, que deve ser quadrada 
e conter as mesmas letras E. D. 

Em 1808, isto é, dez annos depois d'aquella ordem concernente 
aos Joes cerceados, vieram os Joes cravejados perturbar o meio circu- 
lante colonial. (Continuo a aproveitar-me das informações de Robert 
Chalmers). Tendo uma enorme quantidade de peças portuguesas, com 
cravos de cobre ou de latão levemente dourado, chegado a introduzir-se 
na circulação das colónias de Essequibo e Demerara, resolveu-se re- 
colhê-los todos, de qualquer metal que os taes cravos fossem, e emittir 
notas em logar d'elles. Recolheram-se logo cerca de 28:000 Joes cra- 
vejados, que foram remettidos para Inglaterra, para lá serem vendidos, 
e emittin-se uma somma equivalente em notas, resgatáveis no prazo 
de 18 meses. No officio que acompanhou a remessa, o Governador 
pediu que, no caso de Sua Majestade Britannica não julgar conve- 
niente permittir que a recunhagem d'aquelle ouro fosse feita em peças 
portuguesas, qne eram a única espécie corrente naquellas colónias, 
se ordenasse o lavramento de uma real moeda colonial de ouro do 
mesmo peso, toque e valor das qne corriam. Esta proposta não achou 
acceitaçâo na metrópole. Foi ordenada a cunhagem de moedas espe- 
ciaes de prata para Essequibo e Demerara. Até 1815 seguiram-se outras 
e importantes remessas de milhares de Joes (dos quaes hoje custa a 
encontrar algum exemplar avulso!), tomando sempre o papel-moeda 
o seu logar. Deatas notas coloniaes, emittidas ao principio para serem 
resgatadas dentro de 18 meses, achavam-se ainda algumas em cir- 
culação no anno de 1841. Tenho na minha collecção as fSrmas destes 
iColony Goods of Demerary and Essequebo» de 1, 2, 3 e 20 Joes = 
22, 44, G6 e 440 guilders. 



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256 O AiiCBEOLoao Português 

Seguem-se agora dois exemplares, cujas contramarcas dão campo 
a differentes suppoaiç&es. Mão ó, entretanto, poasivei adeantar nada de 
positivo a respeito da significação que tem. 

7. Meia dobra, nao cerceada, de D. José, 1769. B., peso 14« r ,25. 
Carimbo (bastante nítido) de uma pequena flor de hz, posto atrás 

da cabeça do monarcha. 

E. Zay reproduziu a pag. 200 o carimbo de uma grande flor de 
liz (trabalho mais grosseiro), como sendo de Guadeloupe, posto em 
moedas estrangeiras de prata e a pag. 207 dois outros, como sendo 
de S. Martin (parte francesa), em moedas de cobre e de bilhão. Isto 
dá logar a perguntar se o carimbo deste n.° 7 não podia ser também 
proveniente d'aquellas possessões francesas? 

8. Meia dobra, cerceada, de D. Maria I e D. Pedro III, 1781, 
("sem letra monetária), peso 12* t ,36, 

Este exemplar é o que figurou na collecção de Jules Fonroberl, 
que vem descrito no respectivo catalogo sob o n, # 8:808; foi castigado 
com seis carimbos no anverso e um no reverso. Os do anverso são: 
na orla, G I, L, M H (em mouogramma), U (B as avessas), no centro 
& M (em monogramma), podendo as letras também ser tomadas por 
C H (os dois últimos carimbos em círculos dentados) e mais um sinal 
cm forma de roseta ou de trevo de quatro folhas. O do reverso, que 
não está mencionado no catalogo de Fonrobert, consiste numa pequena 
letra W dentro de um circulo. Fonrobert attríbue estea carimbos i 
autoridade portuguesa que em 1823 continuava a sustentar-se na ci- 
dade da Bahia (Brasil); ereio, porém, que não se pode produzir ne- 
nhum motivo que fale em favor de semelhante supposioão. Parece-me 
que também devemos proenrar a origem d'estes carimbos nas índias 
Occidentaes. 

2. Moedas cravejadas 

9. Meia dobra, cerceada, de D. José, 1771, R., peso ÍO^OÕ (cerca 
de 3 oitavas). 

Este exemplar, que já foi reproduzido nas Moeda» da Colónia do 
Brasil, est. sv, n." 3, tem a cabeça do cravo muito saliente e em 
cima d'ella vê-se num rectângulo a marca das letras I. H, que talvez 
representem as iniciaes do nome de quem mandou cravejar a moeda. 
Esta operaç&o em algumas ilhas fui feita oficialmente e em outras par- 
ticularmente. O cravo, que devia naturalmente ser de ouro fino, era al- 
gumas vezes de ouro muito baixo, ou mesmo de qualquer outro metal, 
apenas um pouco dourado. Servia o cravo para dar á moeda o peso 
estabelecido nas differentes ilhas, como limite para poder circular, e 



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O Abcheolooo Português 257 

edte limita variava de ilha para ilha: era de 7 dwts (pennyweights) em 
S. Kitts, Antigua, Montserat e Nevis, ou de cerca de 3 oitavas (1 pen- 
nyweight = 1 E ',ÕÕ5), ao passo que para Tortola era fixado em 8 penny- 
weights ou cerca de 3,5 oitavas. 

10. Meia dobra, pouco cerceada, de D. José, 1757, It., peso 14 ír ,20 
(perto de 4 oitavas). 

Este exemplar também já se acha reproduzido, veja-se pag. 168, 
d." 294, do meu livro citado; só pelo reverso se conhece que está cra- 
vejado; no anverso, em cima do cravo, vêem-se as letras F & G dentro 
de uma depressão oval. Devido á ajuda do cravo, esta moeda chegou 
novamente a ter o peso primitivo de 4 oitavas (ou quasi); é portanto 
de suppor que fosse cravejada para uma das ilhas, onde só podiam 
correr os Joes de peso legal, como na de Barbados. Veja-se Robert 
Chalraers, ob. cit., pag. 20 

3. Moedas carimbadas e erarejauai 

ll. + Meia dobra, cerceada, de D. JoJoV, 1747, R., peso 11^,50. 

Foi omcialmente cravejada na ilha britannica de Grenada (que com 
as de S. Vincent e S. Lucíe forma o grupo das Windward Islands), para 
que o seu peso chegasse ao limite prescrito de 7 dwts. 12 grs. (7 pen- 
nyweights e 12 grains ou ll^âG) sendo a cabeça do cravo marcada 
com J. W. (em letras cursivas) e carimbada no anno de 1798 em tri- 
plicado, sempre perto da orla, com a letra G. (Grenada), para poder 
correr pelo preço de 3 libras e 6 shíllins. 

A respeito d'este exemplar, que está numa collecçao particular de 
Londres e que eu já tornei conhecido a pag. 174 das Moeda» da Colónia 
d» Ilra.sU, vou aqui repetir as informações colligídas da obra de Robert 
Chalmers, pag. 83, que, como se verá, se adaptam perfeitamente ao 
caso. Em 31 de Julho de 1798 publicou- se em Grenada uma ordem 
para, em vista do estado alterado e degradante das variedades de moe- 
das que ali circulavam, se regularem os preços d'ellas e também para 
se evitar que aquella ilha fosse inundada com as leves moedas portu- 
guesas de ouro que estavam sendo desmonetizadas nas colónias vizinhas. 
Na lista que acompanhou a ordem as meias dobras estavam assim ta- 
rifadas : 

Johannes, de peso não inferior a 7 dwts. 12 grs. (ll pr ,(>6) 3 libras 
o 6 shillins; Johannes, de peso nío inferior a 8 dwts. 12 grs. (13 ír ,20) 
3 libras e 12 shillins. 

E como havia em circulação poucos Johanneses, cujo peso chegava 
ao limite de 7 dwts. 12 grs., e se anteviam os embaraços que d'ahi po- 



cbyGOQ^IC 



258 O Archeoloqo Pohtuguês 

diam resultar para o commercio, ordenou-se que os Johanneses do peso 
de G dwts. (9 cr ,33) fossem cravejados pelos officiaes para isso nomeados 
até que o seu peso attingisse o limite estipulado. Para facilitar a cir- 
culação do Johaunes, e das suas partes divisionárias, tanto d*aqueu*j 
que tinham os pesos devidos como dos que então se permittia qoe fossem 
cravejados, de terminou -se que nos Johanneses com o peso de 8 dwts. 
12 grs., ou mais, se imprimisse a letra Ot no centro, do lado da effigie, 
e naquelles que pesassem 7 dwts. 12 grs. a mesma letra era três to- 
gares, também do lado da effigie e tão perto da orla quanto fosse pos- 
sível. A ultima determinação era evidentemente para obstar que hou- 
vesse novo cerceio. 

O peso d 'este exemplar é de 1 l 8r ,50. Depois de carimbado foi fu- 
rado e assim o seu peso correspondeu ao de 7 dwts. 12 grs. O earimbu 
que lhe cabia era e Efectivamente o de G, applicado em três jogares, 
para a moeda correr pelo valor de 3 libras e 6 shillins. XÕo encontre- 
ainda a variante de carimbo com uni só G no centro, que deviam rt- 
ceber os exemplares cujo peso attingisse a 8 dwts. 12 grs. ou 13^,20 
valendo 3 libras e 12 fhi/lins. Este valor entende-se naturalmente em 
moeda colonial, que estava para o da moeda da mae-patria conto 36 l 72 
ou como 1 I 2 e até mais alto, isto é como 100 '. 210, se levarmos ent 
conta que o peso legal da meia dobra não é só de 8 dwts. 12 grs. 
(13*,21), mas de 9 dwts. 5 grs. (I4* r ,34). 

12. Meia dobra, cerceada, de D. José, 1767. R., peso ll r ,60 
(7 dwts. 12 grs.). Encimando o cravo ha uma marca com as letras G H 
e perto da orla vê-se em três logares o carimbo da letra S. 

Em Mrs. Spink & Son's, Numismatic Circular, do mês de Agosto 
de 1899 já publiquei esta moeda, dando a entender que talvez a letra S 
indicasse as possessões britannicas Sommer Islands, ou ilhas Bermudas, 
e mencionei naquella occasião também umas moedas de prata cortadas 
{fracções de patacas hespanholas) com a oontramarca de nm S, ás 
vezes só, outras vezes em companhia da palavra Tortola, e sinto não 
ter encontrado depois nenhuns dados mais que pudessem contribuir 
para melhor interpretação deste carimbo. 

Os n.°* 5 a 12 representam os únicos exemplares que conheço com 
essas contramarcas. 

E notável que todos os exemplares aqui mencionados, com excepção 
apenas do n.° 8, sejam de origem brasileira, isto é, cunhados na Casa 
de Moeda do Rio de Janeiro, ou na da Bahia. 

JULIUS Mkjli. 



cbyGOQ^IC 



O Archeologo Português. Collecçâo Meili. 

Moedas Portuguesas 

carimbadas ou cravejadas nas índias Occidentaes. 



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O Akcheologo Português 



TJm inventario do século XIV 

(Coniiiiu.çao d< pag. in) 
Serpa 

It. Estes Bsom os hornamentoa que A ordem ha na Egreia d« as3 
saluador de sserpa primeiramente. It. quatro calezes de prata cif sas 
patanas It. hu tribulo de prata britada. It. quatro visti men tas cõpridas 
e Acabadas de pano de Ijnho. It. três mantos velhos de cendal. It. hua. 
capa velha de meja U3. It. hfi mjssal grande. It. dons pequenos. It. híi 
pistoleiro. It. dons liuros de bautizar e de saoterrar. It. hfi Ijuro do 
offiçio do corpore cristo. It. hã liuro doa vitatorios pontado. It. hu cari- 
tanho. It. dons domjngaes hu" de canto e outro de leenda. It. hu caderno 
do Auento. It. híi Offiçial. It. dons ssantaes grandes. It. hfi santal de 
Comfi. It. três ssalteíros. It. três sobrepelizas. It. treze veeos de seda. 
It. hu esquinino En que iazè" oa ditos lèções. It. hua boceta de prata 
En que iaz o corpo de deos. It. três AIfftbaras nouas. It. hfia cortjnha 
noua. It. hua tenda Redonda que sta sobre o Altar. It. bua colcha que 
sta sobre o croçifiço. It. hua peça ae sauaas e de mStêes velhos c3 
que stã cubertos todos os Altares. It. hua Alffanbar que sta no Altar de 
ssã ssalvador. It. diase Johan Vicente que Auia hj hua cruz de prata 
que íazía Enpenhada por o ffeitjo do que En Ela ffezero". It. dous sinos 
grandes. It. duas Câpãas de Sotelha. It. hua cnpaa de cumungar. It. 
hua Arca grande grande Em que iazS os ornamentos. It. hu ffrontal 
destoria de sS johane por os quaes ornamentos fficou por fiador Joham 
Affomso dito sendeiro tabeliom os quaes ornamentos ffora Emtreges 
A Johan Vicente creligo A quê os o dito Gonçalo Steuez Entregou. 

It. Estes som os ornamentos que o dito Gonçalo Steuez Achou 
Em A egreia de santa Maria de Serpa primeiramente hua cruz de prata. 
It. três calizes. It. hna copa de prata c3 hu calez pequeno de comungar 
c3 ssa cruz e co* sa toalha e cS sa napeíra. It. hfi tribulo britado. It. hua 
naueta cô" ssa colhar. It. hua boceta En que ia o corpo de deus. It. seis 
veeos de seda Antre velhos e nouos. It. três veeos velhos de seda, Rotos. 
It. três veeos de Ijnho. It. hu veeo de seda c3 pedieiras douro. It. bua 
colcha que sta no Altar de santa Maria. It. três vistimentas de pano 
de Ijnho. It. três mantos de cendal c3 hfi pano douro. It. três sobre- 
pelizas. It. três salteiros dous velhos e hfi nono. It. hfi oficial. It. hfi 
pistoleiro. It. hfi mjsal grande. It. hfi santal de dous velumes. It. hfi 
dominga! de dous velumes. It. hfi caderno de corpore chrieti. It. dous 
mjsaes pequenos. It. hfi liuro de bautizar. It. bua câpãa de comungar. 
It. hua capita' de Botelha. It. hna capa vjada. It. outra quaresma!. It. 



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260 O Abcheologo Pobtdouês 

duas cortinha de cima do Altar de santa Mana os quaes ornamentos 
de santa Maria o dito Gonçalo Steuez Emtregou a afomso eanes creligo 
dordêes meores que pos que seruise A dita Egreia de santa Maria por 
os quaes fiuou por ffiador Gonçalo Steuez Çeuadeiro moor do Ifante 
dom f ornando. 

Moira 

Era de mjl e quatrocentos e dons Anos dez e seis dias de majo 
En moura dentro na Egreia de Sanboane Gonçale steuez Corredor 
(sic) que se djzia das terras da ordem danis e proueedor dos bê"es que 
A ordem daujs ha En nos Rejnos de portugal e do Algarue deo as te- 
sourarias de sanhoane e de santa Maria de Moura a afomso martinz 
creligo filho de Marfim Mtgees e Entregou lhe Estes ornamentos que se 
Adenntc segem. It. ssete calezes de prata cõ ssas patanas os quatro 
saaos e os três dessoldados dos quaes tijnha hu delles o cano dentro 
e A maçaa e o vaso dalatom e hua chapa dalatom A sobre A maçâa 
e os dous tijnhã chfibo cô" que fora ssoldados os quaes pessarS sete 
marcos e sete honças per As bouças da marcaria. It. hfla Copa de co- 
mugar e híi calez pequenjno e híia cruz pequena que pesou todo quinze 
honças de prata. It. hua Arque ta de prata que pessou três honças de 
prata. It. híi tribullo de prata e hua naueta e colhar que pesou qnatorze 
honças c3 bua Argola que o tribulo tijnha da latom En cima pella ourela 
e huas cadeas En ffundo dalatom que foj todo pessado. It. hua cruz de 
prata que pessou Cinco marcos e meo. It. bua cruz de paao cõ Solha 
de prata cnberta britada e híi pee da cruz de prata. It. bua naueta da- 
latom. It. híia cruz de paao grande euberta c3 ffolha dalatom velha. 
It. duas cruzes dalatom pequenas. It. quatro cSpajnbas duas de sotelha 
e duas de ciímungar e bua Era se badalo. It. três casticaes de Aferro pe- 
quenos. It. seis vistimentas còpridas e bua tijnha o manto destinai e A 
outra tjnha o manto qnareesmal. It. seis mantos os quatro velhos e dous 
Botos festjuaes. It. dez Almatjcas ojto velhas e duas nouas. It. duas 
Capas hua vjada e A ontra de bal do qui. It. duas sobrepelizas sâas. 
It. noue Almatieas velhas Rotas En logares e outras todas Rotas que 
o dito proueedor mandou que Adubasem huas cõ As outras. It. três 
chumellas pequenas. It. quatro mantees de ljnho velhas e Rotas En lo- 
gares. It. duas palas velhas e duas Alffardas e hua delias tynha hu bu- 
raco de ffogo. It. dous omçiaes de lecda e de canto. It. dous mjsaes hu 
mjstico c outro nom. It. dous ssãtaes hu husado e outro velho. It. dons 
domingaes de leenda e de canto Anbos velhos. It. três santeiros dous 
velhos e lrâ nouo c5 tauoas. It. ha caderno da conceiçom. It. outro 
caderno de santa maría do neme (sie). It. outro caderno de si hras. 



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O ÁKCH£OLOGO PORTUGUÊS 261 

E este ornamentos buso ditos som scritos per Gonçalo fernandez Ta- 
belioa dei Rej En moura e Asiuada per sua maao aegundo parecia e 
fazia mençom. 

Sondar 

Era de mjl e quatrocentos Anos dez e ojto djas de majo En na dita 
vjla de noudar dentro En no castelo da menagE En cima Aa porta da 
torre grande Gonçalo stenez contou e fez contar o Almazê" do dito cas- 
tetli! e foj hj Achado trinta seudos nonos e llajs sete. It. vinte e noue 
capellos e baçinetea de fferro. It. trinta gorgeiras de solhas. It. quinze 
beestna treze çjntos c5 que as Arma. It. trinta solhas dalmazè cubertas 
de pano de Ijnho. It. hiia soma de selas As quaea Armas Achou o dito 
Gonçalo atenez En poder de Gonçalo vaasquez Alcajde e ficarõ En seu 
poder. 

Alandroal ■ 

It. seja Éguas paridas de potros machos deste Ano nados. It. Ojto 
Éguas paridas de potros ffemeas deste Ano nadas. It. Çjnco potros ma- 
chos de dous dons Anos. It. çjnco potros machos de senhos Anos. It. híí 
caualo branco das Éguas de cavallagS. It. dez e noue Éguas Alfeirias (?) 
per grandes e per pequenos e sor En soma per todas quareentn e quatro 
c5 o caualo das Éguas de grandes e quatorze potros e potras tenrreiros. 
It. Ima Adega En que stã dez taalhas de vinho branco clicas e trea cheas 
de Rosete e ojto de vjuho uermelho As Çjnco de bôo vjnho e A troe de 
niaao e duna taalhas quebradas e hua tjnha c hu concho de pisar tjnta. 
It. Esta hua taalha de vjnho na adega de Joham dos Pasoa o ho vjnho 
he do Meestrc e A taalha dalquicl c ho vjnho he ffurmjgento. 

It. ata hua Cuba na adega de madrjana martinz o o viuho he do 
Meestrc e A cuba he de madrjana martinz e ho vjnho he inaao. It. 
Achamos nouenta e viíj" vacas per todas e destas son dez e noue paridas 
e trinta e hu machoa. It. Achamos dona touros e outra vaca que An- 
daua ffora Apartada e som assj Cento e lula per todos. It. acharõ depois 
hu Ahuulho c sson Cento e dous. 

It. Na egreia lia Estes ornamentos. It. híi offiçíal grande mjstieo 
de canto e de leenda. It. híi dominga! e Santal Anbos velhos. It. dous 
saal toiros hu velho e outro nono e o nouo ffaleçe hu caderno e no bc 



1 Na notícia dos immoveis que a ordem tiulia no Alandroal cucontra se o 
seguinte: 

•It. À cabeça do çenteo hu chama As (turrarias c ha ho Meestrc de cada 
Apciro que hj ste quando la arar cada domin. çjuco Arjellns de ferro de djzimo». 



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262 O Archeologo Português 

Encadernado. It. hõ caritanho de capitolar. It. hú missal peno velho 
En que iaz o oficio da missa da trindade e de ssante spritu e da cruz 
c doa Angios e dos Após talos e outras orações. It. fm liuro de ba-itizar 
e dencomendar velho Roto. It. três vistimentas velhas eonpridas e dous 
mantos festiuaaes hu Roto e lio outro sâao e os calezes e A cruz c o tri- 
bulo eson do côçelho. It. duzentas quareenta e oito e meia Açiellas de 
ferro. It. hua caldeira e dez e oito queijgos (?) e noue tauoas sarradíças. 
It, seis exadas e hua quebrada. E logo o dito domingos ffortes se deu 
por Entrege perdante mjm scriua de todas estas coussas suso ditas que 
Ihi fora Entrege per o dito Corregedor. It. hu Apejro de ffazer Aferro 
cõ liiias tenhazes o c3 hu pie3 e c3 hú martello de britar vea e lananca 
de ferro. It. Reçebeo de Joham A iras que foi moordomo do Meestro dom 
martim do Auelaal dez quarteiros e hu meo Alqueiro de trigo e trinta 
Alqueires de irigo podre de ffundo de coua o qual trigo he ia scrito na 
Reeadaç3 de domingos fortes per mjm priur Bcriva da Recepta e des- 
pesa. It. vinte e çjnco djas de Majo Era de mil e quatrocentos e dous 
Anos ffoj Gonçalo steuez Ao Castello do landroal pêra vêêr As coussas 
que os jujzes hj Acharom Aa morte do Maestro e As coussas som estas. 
It. hil catormel c3 cruzes uerdes de geebe uerde It. huus sobre synaaes 
de geebe nermelho c3 cruzes uerdes En oanpo de prata. It. huas ssolhas 
cubertas de geebe nermelho. It. hu Jubete cuberto de marromaque. If. 
três pares de çapatos de ferro. It. dous pares déspotas douradas de Roda. 
It. hú par desporas douradas c3 cruzes. It. duas beestas c3 dous çjntoíi. 
It. huas cabeçadas de canalo c3 synaes de cruzes. It. hu brageiro dar- 
mas. It. hua manta velha. It. hu tapete velho de cojro. It. hua hucha 
longa c8 scrituras. It. hua Arca cS dnas ffechaduras. It. outra Arca que 
dizia que Era do caluo das quaes Arcas Reçebeo Domingos ffortes hua 
pêra teere El e o scrivâ os dinheiros que ReçeberS. It. íBcou A Do- 
mingos fortes hu stromento de como El Rej mandou tomar Ao meestre 
As Rendas de moura e de serpa e de beia e de vjla vjçossa e todalas 
outras coussas fficâ a R«. Airas A que as o dito Gonçalo Steuez inâdou 
que As Asoelhasse e gardase como se no" perdesem. testemunhas («<■). 
E logo no dito dja o dito Gonçalo steuez ffoj Ao castelo do dito logo 
e Achou hua torre ffechada c3 h£i cadeado e perguntou A Roj Airas 
Alcajde do dito castelo se tjnha chaue do dito cadeado e o dito Alcajde 
disse que a n3 tjnha nè" na ouuera nè* ssabia dela parte E logo o dito 
Gonçalo steuez pressente Eu dito tabeliom e as testemunhas A deante 
sentas mandou tjrar hua Armela da dita porta per vie"r o que Esta na 
dita Torre e fforâ Achadas dentro Estas coussas que se Adeante segem. 
It. primeiramente dez e oito capellos de fferro dalmazê". It. ha ba- 
çmete mellado. It. dous elmos velhos. It. quinze gorgejras. It. trinta 



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O Archkoloqo Pobtuguês 2G3 

solhas dalmazê* cada hua deanteira e caga. It. li «a stribeira ieneta. 
It. hu Elmo de caualo de coiro. It. hua messa velha. It. hua tatioa 
longa. It. mjl e çem seetas dalmazè' Ea duas qajyxas. It. huas qajxás 
sen sen seetas. It. vinte e dous scudos. It. hu cinto. It. dous Arcos 
de beestas quebrados. It. hua collonha mourisca. It. hua collonha de 
calaueira sem noz britada du cabo na cassa da noz. 

It. duzentas E çjncoeuta Açiellas de fferro meudo mazcabado c dez 
graaos o qual fferro logo o dito Gonçalo steuez Entregou A Domingos 
Fortes moordomo no dito logo. It. no Alpender do Almaze hua Arca 
de uerga chea de viras dalmazè delias cu Serros e delas se tferros. 
It. hu concho longo cheo de viras e mandou o dito Gonçalo Steuez ao 
Alcayde que o meta na dita torre do Almazè. It. duas Arcas cheas 
descreturas e fez lhj o dito Gonçalo Steuez lançar chapas de ferro e 
ficarâ carradas CÔ" As ditas chapas En a dita torre e mandou Ao dito 
Alcayde que as vjse En gissa que nõ chouua en Elias As quaes coussas 
que assi ffiirS Achadas no dito castello todas fficarõ En poder do dito 
Alcajde ssaluo o dito ferro que o dito Domingos ffortes leuou. It. hu 
cortiço cheo dalgodom e pesou o dito Algodom xx ARataes e meo o qual 
o dito Corregedor Entregou Ao díto Domingos fortes. 

Jarnmenha 

Outrossj Eu Affonso monjz vy e Ij hiía scritura En o dito Ijuro de 
Gonçalo Steuez feita e Asynada per maao daffonso martinz tabcliom En 
juromeuha dos bees que A ordem hauja En Juromenha que tal he, 
It. ffoj Entrege A pedro Affonso moordomo seis Alqueires e dous pú- 
caros e meo dazejte. It. Reçebeo o dito pedro Affomso de Gonçalo 
marttnz presente mj Afomso martinz scriuã sascenta e cinco Mojos c 
hu quarteiro e meo Alqueire de trigo. It. Eu outra parte Reçebeo hu 
Mojo de trigo que foi Achado que ouue de Rabeiras das Eiras da ordem 
que dizia o dito Gonçalo Martinz que Auia dausr o qual trigo o dito 
Gonçalo Steuez Achou que n3 Auja por que o Auer ca o nô* AuiS os 
proueedores dante El. 

It. En o dito dya Reçebeo o dito proueedor do dito Gonçalo mar- 
tinz presente o dito Gonçalo Steuez quareenta e noue Mojos e dous 
quarteiros e meo Alqueire de çeuada. It. Eu o dito (ríc) Reçebeo o dito 
Pêro Affomso do dito Gonçalo martynz dez e seis Mojos e hu quarteiro 
e hu Alqueire e meo de çenteo. It. vinte e cinco Alqueires de mjlho. 
E este pa he deste ano que o dito Gonçalo martjnz ffoj moordomo de 
Juromenha o qual pS he de quinze Alqueires o quarteiro. It. Reçebeo 
o dito Pedro Affomso de pam velho dora a hu" Ano que Eucouou En 



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264 O AscnEOLOGO PoitTuauÊs 

Jiiromenha Pêro de Muel primeiramente Ima coua chea de çeuada velha 
na qual iazia hu Aluara que contaua que iazia na dita ooua dez e seu- 
Moios o dous quarteiros e hu meo Alqueire. Coua he da capclla que 
iaz na Rua direita A par de os paços de Martim Gomez. It. Jhj foj Ea- 
trege Ao dito pedro Affonso Outra coua chea de çeuada. A qual coua 
he de Martim Gomez na qual coua iazia hu Aluara que contaua que 
iazia na dita coua vinte Moios e vinte e três Alqueires de çeuada. 

It. Ihj foj Entrege outra coua que he da ordem que iaz dentro no 
lagar que foj do vjnho chea de çeuada na qual iazia hu Aluara que 
cõtaua que iazia na dita coua dez Mojos de pã e vinte e três alqueires 
de çeuada. It. Ihj foj Entrege outra coua que he da Ordem chea de çe- 
uada A par de o Açouge Em que iazia hu Aluara que contaua que iazia 
na dita coua dez e sete Mojos c quareenta Alqueires de çeuada. It. Ihj 
ffoj Entrege outra coua que he da ordem chea de Çenteo En que iazia 
hu Aluara que contaua que iazia na dita Coua noue Mojos e hu quar- 
teiro e ojto Alqueires de çenteo A qual coua iaz junta com as cassas 
que fforã de Joham Airas que he daffonso Lourenço. It. Ihj fora En 
treges per mjdjda Çincoenta e sois Alqueires de çenteo velho que iazia 
En hua coua dante cas Vasco Lourenço. 

It. Ihj fforS Entreges per mjdjda três Mojos e dons quarteiros de 
çeuada que iazia dentro na coua de so a calçada do castello que he 
da ordem. It. llij fforã Entreges dez quarteiros de mjllio per mjdjda 
velho que iazia En hua coua da ordem de so a calçada. 

It. ffoj Entrege o dito pedro Affomso de três Anos (»ie) cS sua* 
Albardas nouas e três cjnlhas uelhaa. It. de dez fferros darado velhas 
e duas Roçadojras e quatro exadões velhos. It. três ejxadas hoas e hfi» 
traado e hua malho- grande c hufi pequeno. It. dojto ffojçes de ssegar 
pí e de dous tanoeiros boos de quatro loros. It. doutros dous temeeiros 
velhos E noue cojundas boas hnssadas. It. dous Almadraques hú de 
laa Roto e o outro Roto de concertos. It. dua caldeira boa boa saa 
mejaa e diia manta viaruço husada. 

It. foj Entrege de noue bojs darado e En outra parte dtí coiro du 
boi que mor roo. It. foj Entrege o dito pedro Affomso dua cadea grosa 
de prisões de vinte e três ffuzies cô" sua Argola e de duas Adouas cõ 
seus Ellos. It. de cinco colares de garganta e os três leuã ffozies e os 
dous no". 

It, de quatro trebelhos c3 seus ffozies E hu tpco (?) de paao. 

Estas som As Armas que Gonçalo Steuez Achou Em o castello que 
fficaro Em poder de Gonçalo Martinz Alcajde primeiramente duas so- 
lhas velhas. It. dez e noue gorgeiras de solhas. It. dous capellos de 
ferro. It. dous cab&jsscs. It. quatro scudos. It. três cajxas de seetas. 



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O Archeolooo Português 265 

It. quatro çjntos e lm n3 tem cambho. It. liua taalha vazia pêra teer 
azejtc. It. híi torno pêra armar beeata cõ dous cabhos de ferro. It. lhj 
fficou Ao Alcajde hu chumaço Roto velho de 13n. It. ffoi cSfcssado per 
o dito Gonçalo Martin/ que Recebera qnatorze bois dos quaes entregou 
a Pedro Affomso os ditos noue bois que ia vSa scrítos c RecadaçÕ E que 
morrerft En seu poder os cinco dos quaes ia deu hu cojro Ao dito pedro 
Affomso que ia vaj En Recadaçõ do dito pedro Affomso E outro ffoi 
feito ê" caj fidas e tcmoeiros As quaes cajtindas e temoeiros ia vaa scritas 
Ao dito pedro Affomso En sua Recadaçõ' e os dous coiroa iaze En pe- 
lomê pêra solas dos quaes se deu por Entrege o dito pedro Affomso 
E outro coiro foj vendudo por o dito Gonçalo Martinz que Ihí ia foj 
posto En Recadaçom na conta que lhj o dito Gonçalo Steuez ffilhou 
c3 outra Recadaçij. It. o dito Gonçalo Steuez Achou que Auja En 
A egrcia de Juromenha Estes liuros que se sege" os quaes tijnha scrítos 
sobre sj o procurador do concelho que lie pêra dar delles RecadaçS 
Ao meestre e Ao concelho primeiramente h3 liuro de bautjzar. It. hu" 
liuro do corpo de deus. It. híi Ijuro mjsal. It. hu liuro parseiro. It. hu 
caderno de canto velho. It. hu Ijuro do mingai. It. hu liuro santal. It. 
dous ssalteiros. It. hu salteiro velho pequeno As quaes cousas ssobre 
ditas contehudas En Este caderno Eu Affomso martinz tabeliom e 
scriuã na dita vjla scríui c foi presente A todo e ffiss Aqui meu synal. 
It. Entregou o dito Gonçalo Steuez A Joliam louçàao Almoxariffc 
do castello de Juromenha pressente mj dito tabeliom e scrínam Estas 
conssas que se sege* que tinha En aseu poder Gonçalo martinz Alcaide. 
It. duas cadeas de paríola uò quatro Argolas. It. outra cadea cÕ que 
Alça os cantos grossa. It. híía lauanca grande e duas pequenas. It. hua 
marra. It. hiia Cunha e dous scouparos e hua maceta. It. ÇJnco picões 
e quatro camartees. It. hua sachola e outra meia de sachola. It. bua 
colhar e hua lima todo esto susso dito hc de ferro. It. lula serra braçal 
grande e lula ffolha de serra britada E bit calaure groso pêra Engenho 
e cu suso dito tabeliom Esto scriuj e ffoj presente. 

Pkdro A. de Azevedo. 



Vasilha antiga 

Em setembro de 189G, mima escavação a que se procedeu na fre- 
guesia de Eiriz, concelho de Paços de Ferreira, foram encontradas 
bastantes vasilhas, a maior parte das quaes foram despedaçadas, já 
casualmente pelo alvião dos trabalhadores, já propositadamente com 



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2fi(i 



O Archeologo Português 



a mira no ouro, que deveriam conter, ou cm que se transformaria o 
barro de que eram feitas. Os Mouro» eram peritos na arte de encantar 
o precioso metal, affirma sem sombra de dúvida o nosso povo. 

Graças A obsequiosidade do meu collega Rev. Bento Bravo, abbad* 
de Codeços, pude obter uma das vasilhas para o museu da Sociedade 
Martins Sarmento. É feita de formoso barro vermelho, muito lisa a 
pasta; não tem ornatos alguns, e tem as dimensões, que vão indicadas 
no modelo junto. 




Algumas outras vasilhas, que escaparam, de dimensões diversas, 
e os cacos das que foram quebradas, são conservados pelo achadur, 
que espera que dentro de poucos dias será um Creso. 

A freguesia de Eíriz é situada nas proximidades da conhecida 
Citrmia de Roriz. 

Oliveika Guimarães. 



tA todo amor natural se ha de preferir o da pátria, e quem teve 
outra cousa por mais querida e estimada, errou como ingrato». 
Fk. Amador Arraie, Dialogo», ii, fl. 110, ed. de 1601 



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O Abcheologo Português 



Extractos aroheologkios 
das «Memorias parochiaes de 1768» 



465. 8. Slwflo de Azeitão (Estreai odor*) ' 



«Junta a Aldeã deVilla frexe esta hum lago pequeno de agoa que 
chamão o rio de Sam Simão que continuamente está cresendo nelle 
grande abundância de agoa com que se regào reparti damente por horas 
oato quintas, cujo lago ou xarco tem pouca altura e hua pedra no meyo, 
que dizem alguns vedores de agoa que se lha quebrasem ou tirasem 
seria tanta a agoa que se alagaria todo Azeytão e cada Aldeã tem junto 
a si sua fonte de agoas muito finas de que se uteliza». (Tomo xxxv, 
fl. 1291). 

466. Slndlm (Beira) 

KcliqnliL de S. Unia. - CuhIIo di' ri. Tliedom 

«Ha sim hum grande comcurso de gente de vários povos em dia de 
Sam Braz que vem a Igreja Matriz a venerar huma relíquia do mesmo 

Santo E nos mais dos dias do anno concorre munta gente ou 

ferida de anímaes damnados e mim tas pessoas com grandes feridas a 
tocar a santa relíquia e outras com recovo de tain venenozo achaque 
e nam consta, nem ha tradição de que pessoa alguma que viesse tocar a 
santa relíquia por mais ferida que viesse, tivesse períguo algum sem 
a aplicação de outro algum remédio e da mesma sorte trazem a santa 
relíquia os guados e toda a casta de animaes domésticos ao adro desta 
Igreja ou feridos ou com o receyo de se lhe danarem e fazendosse 
porssisilo como se custuma ao redor da Igreja lançandosse a benção 
com o dito cofre aos animaes se lhe segue o mesmo effeyto e tocan- 
dosse pão no dito cofre como se custuma pêra comerem os feridos ou 
receyosos de tal achaque sem outra alguma bençam fica imcorretivel, 
e eu já tive hum pam tocado na Santa rcliquia deus annos sem cur- 
' russão alguma, nem demonstração de a vir a ter. Também todas as 
molhares opremidas com dores de parto mandando avizo e fazendose 
porsisão com a Santa relíquia ao redor da Igreja infalível e inconti- 
nente se segue o parto da criança ou viva ou morta, sem que tenha 
havido exemplo em contrario, o que tudo eu tenho prezenciado no es- 



1 N-0 Ardi. Fort., m, veiu publicado um desenvolvido estudo sobre Azeitão. 



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268 O Akcheologo Poktuguês 

paço de trinta e cinco amioa que boii indigno Parocho desta Igreja». 
(Tomo xxxv, fl. 1303). 

•No dito Lagar de Cabriz deste concelho e freguezia que está çi- 
tuado em buma Ladeyra que desse de hum monte, que se chama o 
Monte Verde abaixo do dito povo dous tiros de espingarda está hum 
iminente Rochedo subranceyro ao Rio Távora, á no alto delle buma 
piquena planície em a quoal ainda Be divizão vestigios de algumas 
cazas e dos alicerces dos muros de hum Castello, da quoal he munlo 
dificultoza a entrada e o tal castello lie Bem duvida que foy edificado 
por Dom Tliedom e seu irmão Dom Bauzendo ossendentes da Exce- 
lentíssima Caza de Távora como largamente consta da Chroniea riis 
tercience, Livro terceiro, Capitullo doze, em que se descreve esta 
grande antiguidade e a batalha que os sobreditos tiverão no dito Ria 
Távora com os Mouros rezidentes na villa de Paredes donde os expul- 
sarão». (Tomo xxxv, fl. 1305). 

463. Sines (alemtcjo) 

Sr pui lura Ar S. Torpci 

«Na foz desta Ribeira de Junqueyra que he na praya está a sepul- 
tura de São Torpes asignalada com humacrux etc» '.(Tomo xxxv. 

fl. 1324). 

464. Sobrado < Entre- Donro-c-MInlio) 



•Ha nella liua memoria ou memorial a que os moradores da terra, 
curnipto bocabollo, chamao marmoiral de comprimento de dez palmos 
a entrada da Quinta da Boavista com suas cruzes abertas em pedras 
redondas nas cabesseyras onde dizem descansarão com o corpo da 
Itaynha a Beata Mafalda, que trazião da Villa de Canavezes para o 
seu Real Mosteyro de Arouca de Religiozos da Ordem de Cister que 
dista desta villa duas Legoas». (Tomo xxxv, fl. 1379). 

469. Sobreira Formosa (Estremadura) 



«Porem se acha hirau couza notável em a Serra que chamao do 
Chio do galego que tem de comprimento hiía legoa sem largura con- 



Cfr. Rdiíjiòtt da I.vnilania, de Leite de Vasconccllos, i, 21 a 2 



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O Abcheologo Português 209 

siderarei porque inda que em parta tinha alguma só tem colmeyas 
nella. e he que he minada e furada the onde chamao o pego d'Almourão 
e por tradição antiga consta ser eouza de Mouros e que nelle bavia 
hua Moura encantada e também se ve nella inda hoje huma estrada 
de oalsaada obra dos mesmos Mouros, que sane da Casa que chamiio 
da Aloura, que não he pequena e feita ao concavo em huma penha*. 
(Tomo xxxv, fl. 1445). 

470. Sobre -Tâmega (Entre-Donro-e-Mlnho) 



«Tem caza de banho que se fez á quinze annos e ao fabricar desta 
se aehar3o varias moedas de hum metal cor de ouro, que parecião 
bronze e alguas de cobre mais pequenas e bua inscripção de muitas 
letras em hua pedra que quebrarão e picarão os pedreiros pelas não 
entenderem e deste sitio ate Tâmega se achSo ainda hoje alguns ladri- 
lhos de barro quadrados de palmo e meyo por modo de escada que 
decia para o dito rio, cujos vestígios mostrão o terem sido já frequen- 
tados e affirma-se seria do tempo dos Romanos por estes serem incli- 
nados a banhos». (Tomo xxxv, fl. 1485), 

171. Sortelha (Beira) 

Fabrico de «magoe» 

«Ha também na dita ribeira da Nave dous PízÕis que servem para 
pizar o pano de saragossa e alguns moinhos de moer pão de centeyo 
e trigo e o mais que asima tenho dito e não ha mais engenhos, que 
03 em que tenho falladoi. (Tomo xxxv, fl. 1525). 

472. Bontello (EDtre>Douro-e-HÍako) 

Rolou* de no convénio. .CliUrte dcUIlmudu-.— AnUds P.ronlolri 

«Ha memorias que nos lemites desta freguesia entre ella e a fre- 
guesia da Lage houvera li.ii Convento de Religiosos de S. Bento e será 
talves o que dís o Á. da Benedictina Lusitana que havia de Laga, 
que dezia mudar o ultimo a cm e e dizer Lage. O citio aonde paresse 
que seria ainda conserva o titulo de S. Mamede, cuja noticia se' corro- 
bora com ser parte de hu prazo desta Igreia. O monte que fica mais 
perto desta freguesia he na freguesia de S. Martinho de Moure que 
ehamão a Torre dos Mouros e fica quasi ao norte desta quasi distancia 



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270 O Aecheologo Português 

de meya Legoa he monte não muy elevado e caminhando para o nas- 
cente acava entre S. Pedro.de Esqueyros e S. Martinho de Xravajv- 
e para a parte do Norte tem bastantes declives ficando-lhe aas falara? 
parte de Novegílde, S. Thiago de Carreiro» e S. Miguel de Carreiras 
e no mays alto delle sobra Moure que lhe fica ao poente houve antiga- 
mente bua Cidade que se chamava Milmandas e no meyo tinha hca 
Torre que lhe dco a denominação de Torre dos Mouros que havi-rá 
90 annos pouco mais ou menos que existindo inda a metade se oWtt- 
para o Concerto da Ponte de Prado que de ahy se conduzio que dis- 
tara da tal ponte três 4.°* de legoa ainda se divizão três cercas ou 
muralhas; cujos recintos não ocupavão muito terreno mas ainda se vem 
vestígios de calçadas não só dentro, mas de fora em algiias partes deste 
monte para o nascente cahindo sobre Barbudo, se vêem alguns vestí- 
gios de redutos de terra levantada. Ao pe do mesmo monte para a 
parte do sul ha pouco mais de vinte ânuos existia inda na mesma fre- 
guesia de Moura nu tal ou quoal rceetaculo que poderia ser o cabida 
de algua Igreja autiga de bayxo delle descubertos os coatro ventos 
estava hua Imagem de S. <0 Antão Abbade que ha memorias o foi em 
hu convento de monges Bentos, que houve no mesmo citio chamado 
de S. w Antão ou S.'° Antoninho que dizem tinha 900 monges com 
Laus perenne continue de noute e de dia; de cujo convento se vêem 
ainda hoje os vestígios, cujo citio he hoje bua Quinta dos herdeiros 
do Dr. Manoel da Cunha e Faria, da cidade de Braga, o qual fes Ca- 
pella ao mesmo S.'" Antão, desviada algua cousa do mesmo citio para 
o que tirou varias pedras de híí torreão antigo que nelle estava feito 
a modo de ahobeda e cuberto de lageas toscas, pedra por laurar no 
citio aonde estava o santo que hoje esta na Igreja de Moure por os 
fregueses delle o não quererem deixar esfar na capella, dizendo lhe 
pertence e não ao finr. da Quinta; e ainda hoje vSo clamores de varias 
freguesias ao citio onde estava o Santo que hé de muitos milagres 
e nos confins da lage havia hua vílla junto ao lugar de Agoella, de 
que não havia vestígio algo existente. 

Há nesta freguesia de Soutello hua antiguidade no lugar da Cachada 
e bem a ser hua pedra Redonda terá des ou doze palmos de diâmetro, 
de grosura conpetente levantada da terra de altura athé seis palmos 
sobre sete pedras; cuja obra tosca custaria muito a duzentos homens 
polia asim, que mais parese seria asim obrado dentro da terra, e esta 
com a continuação dos tempos e das chuvas a poderia descobrir (cha- 
masse a paranheira) cuja analogia bem condis nesta Província, como 
vyo para que se aplicava; servia nSo sey se de bayxo se em sima de 
queimar em sacrifício os frutos como Abel porque depois de terem 



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O Archeologo Português 271 

dizimado dos frutos que lhe ficavão tomando algua parte lhe punhXo 
fogo e o fumo que dahy sahia se observava que subindo direito para 
o ceo achavao tinhão dizimado bem e se o fumo se afastava para os 
lados eutendião tinhão dizimado mal e to ma vão a dizimar. O vulgo 
entende que he algua Moura encantada e que existe de bayxo algií 
tezouro e por vezes ha poucos ânuos lhe tem cavado de bayxo para 
ver se descobrem a mina. Caberão com aperto de bayxo delia des ho- 
mens». (Tomo xxxv, â. 1548 e segg). 

478. Soutello (T ris - os -H otite») 

Rato» de um palácio 

■ No arabalde do Passo atras expressado se descobrem as paredes 
antigas de híia grande caza, cuja porta da entrada se reconhese em 
bum Arco de mediana altura de pedra bem labrada e toda a mais pe- 
draria hé tosca mas bem asente, dentro destas paredes ha outra pella 
mesma Architetura e no síma de bua porta de padeeyra larga, se divíza 
lula pedra de Armas mal aberta pella sua munta antiguidade com hum 
escudo c dentro delle sínco chaves não ha tradição certa da sua origem 
e por hisso hoje se acha abitado de alguns moradores e pella parte de 
fora para a parte do Naçente tem hua fonte subterrânea de pedra mal 
labrada». {Tomo xxxv, fl. 1564) 

■Há no destrito deste Lugar adonde chamão ao Vai da palia, hum 
padrão de pedra tosca sobre dois degraos de pedra da mesma coali- 
dade e neste mesmo sitio se devide o caminho que vem de chaves para 
o arrabalde chamado Lomarinho e deste para o lugar de Saravelha. 
Também há na entrada deste lugar de Soutello hum cruzeyro e no 
sima delle hua volta esférica com bua crus ; e no Arrabalde de Loma- 
rinho, outro de feytio tosco, com hua crus em sima», (Tomo xxxv, 
fl. 1565). 

474. Sniles (Trâl-os- Montes) 



■Em os lemites desta fregnezia ha hum Braço de Serra que nace 
da Serra do Aluam e Maram e neste sittio se costuma chamar por 
huns a Serra de Santa Comba e por outros a Serra do Rei Grelhara, 
consta ser antigamente abitt&da de Mouros e ainda nella se acham 
alguns vestígios de que abit taram nella como sam algumas paredes 
demolidas sobre huraa fraga bem alta a que chamam a fraga do Araste 
que sua altura fiqua virada ó Norte». (Tomo xxxv, fl. 1729). 



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O Abcheoloqo Português 
475. Tabaco (Entre-I) 



• Somente havia nesta Igreja certas relíquias ou Relíquia, com que 
a enriqueceo Pedro Bispo de Tui dedicando-a ou benzendo-a, como pre- 
zumo no anno de 1239 com o titulo de S. ChrystovZo. TresUdo o que 
acho no tombo desta Igreja: Mo anno de 1604 mandei eu Fernão Boiz 
Abbade desta Igreja de Tavaçoo derrubar esta dita Igreja, e mudei 
para o vendaval tanto quanto era a largura da Igreja, e fís de novo 
á minha custa, somente os fregueses concertarão o Telhado. Havia 
fama que no altar maior avião relíquias, o qual eu mandei desfazer, 
uo qual dentro achei certas relíquias em 12 embrulhos de tafetá .ss. 
ossos, cabcllos e huns escritos de que santos erao. Mais achei hum 
breve escrito, cuja letra he a seguinte o anno de 1239: Petrus Epis- 
copus Tudensis hanc Jícclesiam in bonorem Saneti Ohrystophoii anno 
de 1239. E não disse mais o dito escrito. Está no dito altar maior, 
como estará. =Fernlto Eoiz. 

Agora eu não achei mays que huns destrossos deste Thesouro, 
que era estimável, a. saber hum riliquiarío quebrado, e hu vidro, que 
mostrava as relíquias apartado do seu lugar, e também quebrado*. 
(Tomo XXXVI, fl. 2). 

176. Taboado (Entre-Doiro-e-HUho) 



■Acham se nesta terra duas Torres antiguas huma na Aldeã de 
Novois que he dos Montenegros, outra na Aldeã da Peima do fidalgo 
António de Vasconcellos; e se acham ao prezente sem ruína». (Tomo 
xxxvi, fl. 22). 

477. Tojal (Estremadura) 



«Herão tantos os milagres e tão continuas as marauilhas que Deos 
obraua pelos merecimentos de seus santos na dita Irmida (de S. Sebas- 
tião) que lenados da Deuoção os romeiros e vezínhos leuauSo pedaços 
da pedra da mesma imajem que deitando-os em agua e dando-a aos 
doentes logo miraculozamente se euravão dando graças ao Senhor e 
louvores a seu santo e com este zello todo se levou pouco a pouco 
a primeira Imagem sem que delia ficaee cousa alefiai. (Tomo xxxvi. 
fl. 60). 

Pedbo A. de Azevedo. 



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O AacHEOLOoo Português 



Machados de pedra 

Por certas razoes particulares tenho deixado, ha alguns annos, de 
tisc-rever sobre archeologia de Trás-os-Montes. 

Hoje, porém, em virtude de um artigo do Sr. Dr. Henrique Botelho, 
inserto ultimamente n-0 Archeoloyo Português, sou obrigado a escre- 
ver uma nota sobre o apparecimento, no sul do districto de Bragança, 
ti' estes raros e preciosos instrumentos. 

Ha seis annos, pouco mais ou menos, pedin-me o meu amigo e eol 
lega P. e Adriano Guerra, então director do «Collegio de Moncorvo 
algumas antigualhas para offertar ao Ex." 10 Sr. Henrique Boteiho, dis- 
tmeto amador da nossa archeologia. 

Como nessa oceasião eu já tinha cedido algumas ao Museu Etimo- 
lógico Português, possuía então só na minha collecção o machado men- 
cionado n-0 Arch. Port., vil, 152, isto é, um machado encontrado em 
Maçores, d' es te concelho. 

Para comprazer com o meu collega, procedi a trabalhos de explo- 
ração nos dolmeus de V Marinho , concelho de Carrazeda de Anciães, 
em numero de três, estando ainda um em bom estado de conservação, 
cuja gravura já se mostra no Museu Municipal de Bragança. 

Neste concelho da Carrazeda ainda se encontrou outro dolmen bem 
conservado, mas em ponto muito menor, em Zedes, próximo do solar 
dos Srs. Viscondes de Zedes. 

Mas voltemos á exploração dos dohnens de Villarinho, por ser isso 
o objecto principal d'este humilde e modesto artigo. 

Depois de algum trabalho com dois homens, só encontrei no maior 
os machados mencionados pelo Sr. Henrique Botelho Bob o titulo: ilns- 
trumeutos da Lousa». Não me demorarei descrevendo estes instru- 
mentos e o de Macores, por, no referido artigo, estarem já descritos 
pelo prestimoso archeologo deVilla Real. 

Estranhei muito que o meu cullega P. 6 Guerra não enviasse mais 
esclarecimentos ao seu amigo de Villa Real : devia tê-lo feito, se não 
fosse por espirito de gratidão, seria ao menos para maior desenvolvi- 
mento da sua proveniência; mas entendeu não o fazer e estava no seu 
direito, assim como eu estou agora de fazer esta rectificação. 

Para maior comprehensão dos dolmeus de Villarinho o Zedes veja-se 
O Ardi. Port., 1, 107 sqq., onde trato especialmente d'estes venerandos 
monumentos arebeolufricos. 

Estes dolmeus já tinham sido profanados, dcíxem-me assim dizer, 
em eras remotas por estúpidos sonhadores de thesouros encantados, 



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274 O Aucheologo Português 

c por isso não pude encontrar mais alguma cousa de valor, alem di>= 
machados erroneamente chamados da Lousa, pois foram encontrado* 
no dolmen de Villariuho, c não na Lousa. 

Bem desejava eu reivindicar este achado para esta modesta aldeia 
da Lousa, teria da minha naturalidade ; mas a verdade acima de tudo. 
e demais ella também possue as suas gloriosas tradições, 

Ella pode apresentar com j usto orgulho a sua antiga posição na Pa- 
rada, o seu ex ti neto convento trinitario, as suas bellezas natura.es., n.- 
seus machados de pedra, moedas antigas, etc. 

Em occasíão opportuna tratarei (Testas cousas n-0 Ârchetilvgo, 
assim como escreverei um artigo sobre uma povoação romana encon- 
trada por mim este armo em S. Christovam, termo d'esta freguesia 
de Carviçaes. 

Em Maçore3, minha antiga e saudosa abbadia, encontrei um ma- 
chado de pedra de scliisto, que mede cerca de (("',3o e pesa 3 ,51 lía- 
rissimo ! 

É pena estar bastante truncado na ponta; este objecto, assim comn 
um cippo romano, uma figura antiga de pedra, e outros objectos, faztm 
actualmente parte do meu humilde museu. 

Aos críticos mordazes do meu obscuro museu costumo eu responder 
com o seguinte axioma: Ad augusta per nngustal 

Mas, falando ainda sobre machados de pedra, tenho de aceres- 
centar mais o seguinte. São muito abundantes nos concelhos de Car- 
razeda de Anciães, Moncorvo e Freixo de Espada-á- Cinta; eu já tenho 
possuído machados de differentes freguesias d' estes três concelhos e al- 
guns d'elles de muito merecimento'; já existem por meu intermédio 
espécimes d'elles nos museus: Etimológico, da Sociedade Martins Sar- 
mento e Municipal de Bragança. 

Segundo me constou ha dias, o meu dedicado amigo Dr. Leite de 
Vasconcellos tenciona dentro em breve fazer uma excursão scientifiea 
neste concelho para estudar os seus múltiplos e interessantes monu- 
mentos do passado. Por minha parfe desde já o felicito calorosamente 
polo seu emprehandi mento, offe recendo- lhe o meu fraco préstimo, como 
seu auxiliar nos trabalhos archeologicos. Bem vindo! A colheita seri 
deveras abundante e variada; por cá encontrará vastíssimos assuntos 
para as suas lucubraçdes intellectuaes, e eu serei, neste concelho, o seu 
agradecido cicerone, mostraudo-lhe vários jazigos archeologicos. 



1 Por exemplo: um remedido no Museu Ellinolog-ico, muito perfeito e deeí 

liodiaeimas. 



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O AitcHEOLOtío Português 275 

Por ultimo poço ao Ex.'"° Sr. Henrique Botelho e P." Guerra que 
me desculpam, se acaso os melindrei na minha rectificação; eu desde 
já declaro não ter em vista offendê-los, nem ao menos por sombra. 

Com esta notícia, escrita citrrente calam», só tive em vista prestar 
homenagem á verdade dos factos e nào desgostar homens illustrados. 
<• amigos meus, como eu considero os mencionados cavalheiros. 

Carviçaes, 12 de Agosto de 1902. 

Abií." José Augusto Tavares. 



Estações prehistoricas dos arredores de Setúbal 

(Apontamentos paru o seu estudo) 

Quem de Lisboa observar o horizonte ao sul do Tejo desi: 
no seu extremo á crista de uma serrania, que se desenvolve de 
a oeste entre os dois velhos castellos de Palmella e Cezimbra, s 
dominada ao centro pelas penhascosas montanhas do Fonnosin 
Picoto da Arrábida. 

Esta serie de montes prende-nos a attençao pelo bcllo e accider 
das suas formas e suggere no nosso espirito o desejo de conhei 
sua origem e historia. . 

Dove-se em grande parte ao distincto geólogo o Sr. Paulo Cli 
com missionado nos Trabalhos Geológicos de Portugal, o eonhecin 
dos terrenos do nosso pais. — Este illustre sábio tem com effeito 
duzido valiosíssimas obras que nos podem orientar sobre a goohis 
do território português. 

Da leitura de alguns dos seus trabalhos e da observação qu 
no terreno pude concluir que toda a parte continental do liori. 
que de Lisboa se descobre ao sul do Tejo não existia ainda acin 
mar na época terciária miocenica, e que a serrania que limita ao I 
esse horizonte estava a baixo do nível do oceano. 

O mar que enlXo cobria o terreno que forma agora essas m 
nhãs era viveiro de animaes marinhos taes como o Carcfiaria t 
brdon, a Ostn-a crassusima, a Ostrea crassicostata, o PecUnjacc 
o Clypeaster, a Scutella, as Titrriulla, etc, cujos restos mortu 
se depositaram e deixaram de si memoria nos fosseis que aetualr 
se observam em profusão na parte que resta da camada miocena 
formava o fundo desse antigo oceano. 

Devido ao suecessívo resfriamento e consequente eontracçí 
planeta que habitamos, a crusta solidificada, que desde a esphers 



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27(i O Abcheologo Português 

trai tia turra ainda fluida chegava até o fundo d 'esse mar, encar- 
quilliou-se como a pclle de uma uva que se seeca, a ponto de fazer 
saliências acima do oceano e formar uma elevada ilha, de que a actual 
Arrábida não é mais do que um vestígio, comparável aos restos dv 
altivo e grandioso monumento a que as injurias do tempo não tivessem 
deixado senão pequenas porções das suas arruinadas paredes. 

Com efFeito, o solo que cobria essa ilha foi primitivamente tudo 
formado pelo terreno que constituía o fundo do mar mioceno e for- 
mava sobre ella uma serie de alfas abobadas, recobrindo os terrenos 
secundários mais antigos que com ella se tinham levantado, e envol- 
vendo-a com algumas pregas em toda a sua extensão. 

Porem, numa sequencia de séculos que a nossa imaginação mal 
pode abranger, suecedeu que as abundantes chuvas e outros agentes 
ai mo sp lie ricos cavaram essas abobadas de tal maneira que puseram a 
descoberto as camadas secundarias mais antigas, e nestas mesmas 
asYrusões foram tão grandes que abriram sulcos profundos que consti- 
tuem hoje deliciosos valles. 

São estas camadas constituídas por calcareos jurássicos, assim 
desnudadas e cavadas, que vemos hoje de Lisboa alvejar sobre o 
dorso norte da Arrábida. 

Os valles tem hoje os nomes de Picheleiro, Aleube, Barris, Gra- 
lhai, etc, e são de aspecto tão pittoresco c encantador quanto s>' 
pódc imaginar. 

A camada mioceoa, que formava a primitiva côdea d'essa ilha. 
quasi desappareecu de todo, ficando apenas os seus vestígios nas pregas 
mais fundas d'esse continente, como se vê ainda na escarpa que vae 
desde o Valtão, pela ermida de S. Luis, Casal da Lapa, Pena e Rotura 
até os Bonecos; ou no sopé da montanha que coincidia com a linha 
da costa que circundava a antiga ilha, como se pode observar do lade 
sul pelos Bonecos, Brancancs, Saúde, Albarquel, Recanto, Anicha ■■ 
Santa Margarida, e pelo lado norte, desde Palmella, pela Quinta du 
Anjo, Azeitão, até á Foz na costa ao norte do Cabo Espichel. 

O aspecto que hoje apresentam as rochas que constituem os rectos 
dessa camada miooena, e a sua colloeação, fazom-nos lembrar os ves- 
tígios das abobadas de immensa eathedral cujos fechos tivessem eaidu 
e de que não restassem senão pequenas porções ainda ligadas aos 
encontros que as s importavam. 

N3o foram só as erosões atmosph eriças que destruíram as camadas 
que envolviam a antiga ilha correspondente á serra da Arrábida. K<i 
período em que se levantou a ilha, as carquilbas eram nuns ponte? 
tão salientes o as pregas tão fundas que umas vezes a camada SUpe- 



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O Archeologo PoRTcauÊs 277 

rior esgarçava, como suceedeu em S. Luis, Pena e Rotura, outras 
vezes as carquillias ou dobras anticlinaes tombavam e desmorona- 
vam-se á medida que se iam accentuando as dobras, como suceedeu 
tio lado meridional de Palmella e ainda em toda a encosta meridional 
da serrania arrabidense, desde Albarquel pelos Galapos, Anicha e Santa 
Margarida até o cabo Espichel (fig. l. a ). 

I. Homem terciário 

Qual sería a fauna e flora da ilha formada pela antiga montanha 
da Arrábida? Viveria já nessa ilha do tempo terciário algum ser intel- 
ligente, percursor do verdadeiro homem? 

E difficil responder a estas perguntas, porque durante milhares 
de séculos foram continuando as erosões já referidas, e os terrenos 
escavados que poderiam guardar os restos dos seres que tinham po- 
voado o solo da ilha lá iam arrastados pelas torrentes depositar-so no 
fundo do mar circumjacente c que por ser da época posterior á for- 
mação tio mioceno se chama plioccnico. 

O fundo cVesse mar também ulteriormente, por causa semelhante 
á da formação da montanha da Arrábida, se elevou acima do nível 
do oceano, e, augmentando o continente e ligando-o á antiga ilha, trans- 
formou esta na península arrabidense. 

Os sedimentos do fundo d'esse mar, que agora formam todo o ter- 
reno pliocenico da região adjacente á Arrábida, são constituídos na sua 
maior parte por agglomerados de areias, pedaços de quartzo e ás vezes 
i\<- sehisto rolados, tudo mais ou menos ligado com argila ferruginosa, 
como vemos ha costa do Alfeite, na escarpa das Fontainhas em Se- 
túbal e nas trincheiras das estradas que d'esta cidade se dirigem para 
norte e leste. 

Junto do sopé da montanha de Santo António, aW. de Palmella, 
e na parte que corresponde á costa da antiga ilha, num pequeno golfo 
que ficava entre a dita montanha e os Bonecos, encontram-se ainda 
em abundância pelas encostas da Boa-Vista, Capuchos e S. Komão, 
os pisolites, formados á maneira de confeitos pelo movimento de vae- 
vem contínuo das ondas carregadas de saes de cal sobre as praias 
do mar pliocenico. 

Se dos destroços dos seres vivos que habitavam a antiga ilha 
ainda restam vestígios, devem elles encontrar-se nas camadas do fundo 
tPesse mar pliocenico onde deviam ser espalhados pela acção das aguas. 

Esse mar, porém, que circunidava a ilha era tão movimentado que 
boa parte dos elementos que formavam os conglomerados do seu fundo 
e que apparecem agora a descoberto, formando um continente plioce- 



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27* O AliCHEOLOGO POETUailÊS 



nico, pertencem a terrenos da Jfcscta 1 que ficam, os mais próximos. 
não obstante, a mais do 8 léguas de distancia da Arrábida. Assim 
nesse mar tudo se disseminava. 

Este motivo seria já bastante paia não apparecercm com freqnenoia 
nas camadas pliocenicas adjacentes a Arrábida os fosseis dos seus 
antigos habitantes; mas, alem destas, outras cansas muito mais pon- 
derosas, com quanto ainda não determinadas, haviam por certo de fazer 
com que se dó o facto de no antigo fundo do mar pliocenico dos arre- 
dores de Setúbal, aporá elevado o formando continente, não se en- 
contrar hoje nem um único fóssil ou vestígio de ser vivo, terrestre 
ou marinho, 

Apesar d'isto, o nosso notabilissiroo geólogo e paleoetlinologo Carlos 
Ribeiro encontrou em differentes pontos do terreno pliocenico, e nomea- 
damente no Moinho de Pau, junto do logar onde è boje a praça de 
touros em Setúbal, liem como nos Morcegos e na estrada de Aljesur, 
não fosseis, mas sílices, cujos talhes o mesmo sábio attribuiii a um ser 
intelligente. 

Se aeceititrmos esta asserção, seria este ser o representante do pri- 
meiro esboço do homem actual, o primitivo homem terciário, isto é, o 
ser intelligente mais antigo que estabelece a transição dos seres cha- 
mados irracionaes para aquelle que, separando -se do resto da animali- 
dade e relacionando os conhecimentos adquiridos pelos seus antepas- 
sados, chega a conhecer as leis do movimento do universo e a aproveitar 
esse movimento para satisfazer as suas aspirações sempre crescentes. 

íías differentes observações que tenho feito naa trincheiras abertas 
natural ou artificialmente nos terrenos plbceuicos dos arredores de Se- 
túbal nunca encontrei objectos que apresentassem sinaes que pudessem 
indicar a acção de um ser intelligente. No Moinho de Pau, onde o 
mesmo Carlos Ribeiro encontrou dois sílices a que attribuiu talhe in- 
tencional, encontrei effecti vãmente pedaços de pederneira (silex pyro- 
macho) talhados intencionalmente, e por algum tempo estive em dúvida 
sobre a classificação do terreno onde os encontrei e que tão semelhante 
era ao pliocenico; porém uma observação mais detida do terreno le- 
voii-me ã convicção de que estes pedaços de pederneira provinham d" 
um terreno bem actual, pois que è um aterro artificial feito com areia? 
pliocenicas (o que deu logar á dúvida) no cimo da cotlina onde se achava 
o Moinho de Pau e com o fim de elevar mais a altura do moinho. 



1 O» geólogos chamam MttMta á parte da península ibérica que jií e 
ia ilas ngiuis autos de começar a época sccuudaria. 



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O Archeologo Português 279 



Não conheço pois elemento algum, a nâo ser a respeitável opinião 
Ac Carlos Ribeiro, para que se possa affirmar a existência do homem 
terciário nos arredores de Setúbal; verdade é, também, que não se 
pôde affirmar a sua não -existência. 

II. Homem quaternário paleolithico 

Os terrenos quaternários dos arredores de Setúbal sSo os formados 
pelos alluviões depositados principalmente pelas aguas das chuvas sobre 
:is depressões do solo da peninsula arrabidense, já depois do mar plio- 
cenico ae ter retirado pela elevação do seu fundo. Formam esses ter- 
renos, constituídos pelas terras das encostas dos montes vizinhos, uma 
camada pouco espessa de alluviões quo preenchem o fundo das grutas 
e dos valles. 

Estes terrenos estâo-se formando ainda hoje; mas como durante 
a sua formação tem havido grandes variações no clima, dando isso 
logar a grandes differenças na fauna e flora de cada região, pertencem 
a dois períodos: a) o quaternário propriamente dito ou paleolithico, 
caracterizado pela coexistência exclusiva de certos animaes e pela in- 
dustria do homem, que só fabricava instrumentos de pedra lascada; 
ftjeo actual, caracterizado pela ausência de certo numero de animaes 
da época paleohthica c pela industria do homem, que começou por 
fabricar instrumentos de pedra polida, e, depois de ter descoberto e 
utilizado suecessi vãmente o bronze e o ferro, chegou posteriormente 
a servir-se do alfabeto e agora da electricidade como elementos mais 
importantes do seu poder. 

A affirmação de que tim terreno é da época paleolithica não é pois 
segura senão quando apparecem no seio d'esse terreno restos de ani- 
maes contemporâneos que concorreram para a sua formação e cujas 
espécies tacs como o Rhinocerus ttehorhinua e o urso das cavernas 
orain totalmente extinctos ou tinham emigrado para outras regiões na 
época da pedra polida (neolithica). 

Estes terrenos paleolithieos também se acham chronologicamente 
classificados em épocas, conforme o clima e os animaes dependentes 
d'ellc. 

E geralmente acceite pelos palethnologos a classificação proposta 
por Gabriel Mortillet 1 , segundo a qual o período paleolithico se sub- 
divide em quatro épocas, a saber : a Chelleana, a Mostereana, a Solu- 
treana e a Magdaleneana. 



1 Vid. Tjí Prikiãtorique, |>ag. 22. 

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O Akcheologo Português 

Os animaes que caracterizam na Europa central cada uma (Testas 

idades são: na chelleana, cm qne havia um clima quente e humid» : 

o urso das cavernas, que só se extinguiu na idade solutreana; na idadr- 

mostereana ou glaciaria, em que a temperatura desceu e a Europa 

se encheu de geleiras, os anímaes característicos são o Rhinocervp 

tichorhinue e o mauiwtk (EUjthas primit/enius), que desappareceram. 

o primeiro nesta mesma idade .e o segundo na idade magdakneana ; 

na idade solutreana, cm que a t^ mpcr aWa começou a otiSir , abunda 

j.£fT o cavallo selva gem e a renna (Cervus tarandnt) ; na idade magdaleneana 

- ÍV*^ a temperatura' Do a t i nuQ a suhir e a tal grau, que a renna já não'P)B* , **■ 

yip^ *i** v l** 01 senão sobre os gelos, que permanecem no alto das montanhas 

e d esap parecei^ de todo no período neolitliico, emigrando para a zona 

frigida. 

Os fosseis d'estes animacs podem porém nSo caracterizar as mesmas 
épocas, tanto no centro como no sul da Europa; porque a differença 
de clima de uma para outra parte podia retardar ou antecipar a emi- 
gração ou extinceão de determinada espécie animal. Assim, sendo sem- 
pre o clima de Portugal mais quente que o da Europa central, podia 
ainda em Portugal existir o Rhinoceru» tichorhimia, que foi encontrado 
no deposito inferior da gruta da Furninha em Peniche, quando o fri-> 
já tinha^ motivado o seu desapparecimento na França, extinguindo-»- 
somente depois em Portugal, quando o resfriamento sempre cresceu t-.' 
obrigou este animal a emigrar de novo para o sul á procura de um clima 
africano mais quente e compatível com a sua vida. 

O inverso devia ter suecedido com a renna, qne, talvez fugindo ás 
picadas mortaes de algum insecto que passada a época das geleiras 
se desenvolveu pelo calor sempre crescente a partir da epoea solu- 
treana, sairia de França a procurar nas geleiras do norte abrigo se- 
guro contra o seu terrível inimigo, muito mais tarde do que de Por- 
tugal, onde já de ha muito teria abandonado os últimos reduetos da 
sua defesa nos gelos restantes das mais altas montanhas do pais. 

Em Portugal foram encetados os estudos sobre o homem fóssil pelos 
trabalhos de Carlos Ribeiro, Pereira da Costa e do Sr. Nery Delgado. 

Todavia, por falta de investigações no país, ha ainda carência de 
elementos suffieientes para se poderem classificar as épocas do terreno 
quaternário pelos Bens fosseis. 

Ao sul da península da Arrábida, na serrania que vae de Palmella 
ao Cabo Espichel, tanto junto do mar como entre as camadas calcareas 
das encostas c valles ha innumeras grutas; mas por falta de explora- 
ções nada se pode dizer a respeito do homem fóssil que por ventura 
possa haver nessas cavidades. 



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O Akcheologo Português 



281 



Na ribanceira de um pequeno regato que vem de Pae Mouro 
desaguar do ribeiro de Algodeia, próximo de Setúbal, e no logar em 
que o dito regato passa ao N. dos Combros, colhi um objecto de silex 
(fig. 2.*) coberto de patina e com todos os característicos de instru- 
mento palcoiithico. E lectivamente este objecto de forma triangular, 
apresenta numa das faces um conchoide de percussão, terminado num 
bordo dentado com visível intencionalidade, e na outra face tem diffe- 
rentes retoques. O instrumento parece ter-se partido muito depois de 
ter servido, separando-se um fragmento correspondente ao plano de per- 
cussão do seu fabrico, e de que ainda resta parte. E provável que 
fosse destinado a furar e a raspar. 




Na ribanceira porém niio encontrei fóssil algum, e por isso julgo 
que tanto pódc este instrumento ser da época dos gelos ou moste- 
reana, em que principalmente se fabricavam instrumentos semelhantes 
a este para raspar interiormente e furar as pelles que serviam de ves- 
tuário contra o frio, como da epoca neolitliica em que nada nos impede 
do admittirmos que se podiam fabricar alguns com as formas usadas 
cm tempos anteriores. 



III. Homem prchiatorlco actual 

O período prehistorico actual compreliende duas idades que, por 
sua ordem, são a neolitliica ou da pedra polida, também chamada ro- 
benhauseana, e a m e m&f&litM m o w.dw bron a». 



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2X2 O Abcdeolooo Poktugoês 

Se faltam documentos para comprovar a existência do homem 
na península arrabidense, tanto na idade terciária como no período 
quaternário paleolithico, outro tanto se não pôde dizer com respeito 
ao homem no período prehietorico actual. 

Nos arredores de Setúbal abundam os vestígios do homem nas 
duas épocas d'este período. 

«) Idade neolilble» 

Na idade ueolithica já havia na península da Arrábida popula- 
ção bastante considerável. Não é isto de admirar em região tão pro- 
picia á vida do homem, neste paraiso terrestre situado no cabo dn 
mundo, como com verdade lhe chamou o grande poeta dinamarquês 
Andersen. 

Efectivamente onde melhor poderia levar a existência e snpportar 
as agruras da vida o homem, quando ainda, no dizer de Lucrécio, as 
suas únicas armas eram as mitos, as unhas, os dentes, as pedras e os 
paus partidos das arvores? 

Não tinha ainda o homem um único instrumento de metal que lhe 
assegurasse de qualquer maneira a yietoria contra os grandes animaes, 
ou com que afeiçoasse bem as juntas da madeira para a construcção 
de barcos onde ao longe pudesse ir afrontar as ondas e colher o melhor 
peixe; mas na costa meridional da península da Arrábida, banhada pur 
um mar sempre azul e scintillante, poderia encontrar constantemente 
sobre a alvíssima areia das praias ou entre as agulhas e fragas das ribas 
os appetitosos molluscos e outros mariscos que com afan iria colher 
para a sua alimentação. Nos pittorescos valles do Picheleiro, Gralhai. 
Alcube, Barris, ete-, poderia pastorear os seus rebanhos; sobre os pe- 
nhascos das colimas edificaria as suas habitações forticadas e os seus 
castros; poderia cultivar as várzeas, como a do Bomfim, hoje coberta 
de laranjaes; e nas lapas abertas nas rochas guardaria religiosamente 
os restos dos que passavam á eternidade. 

Ainda hoje se encontram, em muitos pontos da península da Arrá- 
bida, vestígios mais ou menos accentuados da acção dos homens new- 
lithicos: e apraz-nos ver as ossadas d'esses nossos antepassados, ou 
tocar nos objectos que, afeiçoados pelas suas mãos ha mais de seis mil 
annos, muito antes de tudo aqnillo de que a historia falia, nos servem 
agora de testemunhas authenticas e desinteressadas das manifestações 
dos seus sentimentos, das scenas mais Íntimas da familia ou dos actos 
mais solemnes da sua vida pública. 

[Continua). A. J. MAKQUKS DA COSTA. 



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O Archkologo Pohtuguks 



Noticias várias 

. A. ingcrlpclo de TI tus Carro 



N-0 Arch. Port., v, 172, foi publicada a seguinte inscripçilo, que 
está no Museu de Évora, gravada em tijolo: 



A propósito d'esta inscripção transcrevo para aqui o que se lê na 
Notízw degli tcavi di antkkitâ, Roma 1899, p. 106: 

«Certo Luciano Romano in un suo prédio in eontrada Pratelle o Collc 
S. Lúcia, ove si pone la mansio denominata Pitinum nella via che da 
Alba tendeva ad Interocreum (C. I. L., ix, p. 412) e dove nel marzo 
1893 si scopri un sepulcro ed altri avanzi dantichità (V. Noiixie, 1893, 
p. 241), rinveune, tra rotlami di fabbriche, un grosso mattone di creta 
giallastra, lungo m. 0,23, largo m. 0,10, ed alto m. 0,06. Nel mezzo 
vi è un boiío rettangolare profondo che, in lettere incavate, reca la 
seguente leggenda: 

T CARR». 

Não só a inscripção c a mesma 1 , mas o próprio tijolo á igual, ou 
quasi igual, — o que resulta da comparação das medidas dadas a cima 
com as que se deram n-0 Archeologo. 

D'isto se vê que o pequeno monumento archeologíco de Évora veiu 
da Itália pelo eommércio, certamente já na época romana, como tantos 
outros congéneres. 

2. Museu de Moncorvo 

O projecto da fundação de um Museu em Moncorvo (vid. O Arch. 
Port., i, 175) parece, que vae por deante, Begundo o que se lê na Torre 
df Moncorvo, de 2 de Novembro de 1902, em artigo firmado pelo nosso 
dedicado collaborador e amigo Rev. Abbade J. A. Tavares. 

N-0 Trtutnontano, de 13 de Novembro de 1902, leio também o se- 
guinte : «Fomos sempre de accôrdo com a civilizadora ideia da fundado 
de um Museu Municipal, em Moncorvo. Mas é necessário accentiiar 
bem que a sua eriaçSo é da exclusiva iniciativa do nosso chefe poli- 



' Foi o Sr. Professor Dr. II. Dcssnu quem me chamou a attunção para est. 
ncidencia. 



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284 O Archeologo Português 

tico, que de ha muito tem pugnado por que olla se torne effeetiva. 
Ao partido regenerador, pois, sem cooperação alguma do partido ad- 
verso, se ha de attribuir a fundação de tão importante estabelecimento. 
E necessário, todavia, que, aberto ellc, todos cooperem para esta obra 
de engrandecimento local, arredando meras conveniências pessoaes <• 
fátuas arrogâncias politicas. Assim, sim». — O que é necessário è que, 
antes mesmo de fundado o Museu, não se foça já politica por causa 
d'elle. Ao menos deixem os políticos a sciencia em paz! Quando sr 
trata de um melhoramento d'estes, níío deve haver gregos nem troianos, 
o somente deve haver patriotas. 

8. Mosaico de Alcobaça 

A propósito do artigo publicado n-0 Ârch. Port., vit, 146 e 14D. 
sobre o mosaico de Alcobaça, diz-me, em carta de 13 de Agosto d? 
1902, o Sr. A. Heron de Villefosse, director da secção de archeologia 
grega e romana do Museu do Lo uvre, e um dos mais notáveis archeo- 
logos franceses, o seguinte, que tomo a liberdade de transcrever: 

«Vous avez bien raison de réclamer la conservation de la mosaiqiu 1 
de Alcobaça. Les mosaíques romaines sont des te livres trús 
précieuses: notre Académie a pensd h en publier le Corjmt; ce se- 
rait un travail on ne peut plus utilei. 

Estas palavras do sábio professor de Paris confirmam que n-0 
Archeologo se havia ponderado; e por isso folgo de as reproduzir aqui. 

Como complemento da notícia dada a respeito do mosaico de Alco- 
baça, acerescen tarei que, não havendo sido possível pòr-se em pratica 
a opinião emittida n-0 Ardi, Port., loc. laud., pag. 147—148, resolveu 
a direcção do Museu Etimológico adquirir o referido mosaico, o que 
já conseguiu, procedendo-se na occasião presente ao arrancamenío do 
mesmo e, seu transporte para Belém, onde o Museu está installadn. 
Assim se salvou esta preciosidade archeologiea, que estava arriscada 
a perder-se, — o irremediavelmente se perderia! o nosso pais, 
já tão desacreditado perante os estrangeiros, evitou d'este modo mais 
uma vergonha nacional. 

Outras antiguidades se tem descoberto em torno do mosaico, se- 
gundo o que no citado artigo, pag. 148, se previu. 

4. Balneário romano de Canaveses 

Em carta de 28 de Agosto de 1902 diz-me um amigo que nas Caldas 
de Canaveses, concelho do Marco, se descobriu um balneário romano. 



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O Arciieologo Poktuguês 285 

que foi logo destruído, restando apenas no sítio fragmentos de telhas 
de rebordo, tijolos, pedaços de cimento das piscinas destroçadas, e ou- 
tras meudezas. 

5. Antiqualhas de Moiiçtto 

a) Casttllo dos Milagres c Cova âa Moura. 
N-0 Norte, do Porto, de 1 de Outubro de 1902, lê-se: 
«Investigações archeologieas. — Realizou-se ha dias a primeira ex- 
pedição investigadora ao local conhecido por «Covão, «Penedo» ou 
«Castello da Moura», nos Milagres, concelho de Monção, onde existem 
vestigios da dominação romana. Esses vestígios foram confirmados por 
novos descobrimentos, de tijolos romanos e diversos outros objectos da 
velha olaria caracteristicamente de fabricação romana. A commissUo 
encetou a abertura da gruta, que se supp&e ser o inicio de passagem 
subterrânea que parece ter ali existido, estudando a configuração e 
desenhos das rochas, numa das quaes se vêem exeavações artificiaes. 
Foram recolhidos os objectos encontrados de maior valor, que vão ser 
remettidos aos cultores da especialidade, e seguir-se-ha brevemente a 
continuação dos trabalhos. Tomaram parte nestas investigações o ar- 
chitecto italiano, residente nesta cidade, Sr. Michelangelo, e os Srs. 
I)r. Adriano Maria Cerqueira Machado, José Maria Cerqueira Ma- 
chado, Dr. António de Pinho, Diocleciano Ribeiro Torres, P." Simão 
ile Abreu e Mello, e Luis da Rocha Torres •. 



Para ampliarão d'esta noticia, transcrevo para aqui parte do uma 
carta que o Sr. Diocleciano Torres, um dos cavalheiros de queui a cima 
se falia, me escreveu em 4 de Outubro de 1902, era resposta a outra 
minha: 

aÉ certo que promovi umas pesquisas na penedia da Cova da Moura. 
Km todos os sítios em que havia sinaes de entulhos mandei fazer regos 
jitê o terreno natural: appareoeram difte rentes tijolos grossos muito 
fraccionados, e alguns pequenos cacos de toscos vasos, mas de pouca 
importância; o nosso maior trabalho foi a abertura de um buraco que 
dizem ir dar a uma cavidade no interior do monte. Com luz de ace- 
tylena illuminámos a entrada, e fizemos uma perfuração na distancia 
de 12 metros; foi na nossa companhia um italiano, professor no Porto, 
que casualmente aqui se achava, c que me disse ser natural que aquella 
seja a entrada de uma grande gruta, pelo que tencionamos continuar 
as escavações». 



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3«(i 



O Archeoloqo Português 



Antes de se realizar a exploração mencionada, tinha eu estado na 
villa de Monção e travado relações com o Sr. Diocleciano Torres, que 
fui quem primeiro me faltou do Castello dos Milagres, instigando- nu- 
a ir visitá-lo. Efectivamente fui lá cm 23 de Agosto de 1902. O Sr. Tor- 
res não p5de ir comigo, mas foi em minha companhia o Sr. Dr. Luís 
José Dias, deputado da nação e prior de Santa Catharina em Lisboa, 
o qual a esse tempo se achava em Monção, terra, como creio, da sua 
naturalidade. Copio para aqui as notas que por occasilo d'essa excursão 
archoologiea ao Castello dos Milagres tomei na minha carteira; vâo 
informes, taes quaes as escrevi então. 

O Castello fica ao pé do logar dos Milagre», de que toma o nome. 

Num penedo ha uma serie de pequenas excavaçftes de O" 1 ,! de diâ- 
metro: diz o povo que são as pègculinhaé de S. Tiago, que subiu por 
aqui atrás dos Mouros. No cimo do monte está a Croinha ' : coroa cora 
penedos naturaes. Pelo meio do monte encontram-se penedos com ex- 
cavaçoes artificiaes (rectangulares, umas grandes outras pequenas: 
lado de uma: 0™,15); e um, com vestígio de escadas. Pelo chão ap- 
parecein muitos fragmentos de telha grossa (talvez de imbriees) do 
caracter romano, e igualmente fragmentos de tegulas. Em muitos pe- 
nedos ha pequenas excavaçSes, como para se firmar o pé ; noutros ha 
verdadeiras escadas, escavadas nelles. Num penedo vê-sc um sulco 
de alguns metros de comprido, que dobra em angulo e termina numa 
covinha, pouco mais ou menos assim: 



sulco que o povo chama a serpente; tem de largura 0™,06 em alguns 
sítios. No mesmo penedo ha várias exeavaçoes circulares de O n, ,12X 



1 Em gallego chama-se por v 
palavra coroa apparcce pelo meno 



a croas aos cnstros. No nosso onomástico, a 
o Minho e na Brira. 



;n,t :: byGoO^lc 



O Aecheologo Poktuguês 287 



u ni ,(>9. Num penedo vertical ha um buraco atravessado, que não podia 
ser natura); diâmetro: 0*,2. 

À Cova da Moura, que fica no mesmo monte, é uma lapa, ou • abrigo» 
debaixo de grandes rochedos de granito, com uma entrada á semelhança 
de mina de agua. Dizem que tem três communieaçòes : uma para Lungos- 
Valles (vtde infra), outra para Cortes, logar pertencente ao concelho 
de Monção, e outra para o Castello de Lapella, onde lia uma torre; 
t-abc-sc lá de pé, maa o espaço é pequeno e fechado. As três coramii- 
nicaçOes de que o povo fala são: a entrada, uma abertura em frente 
d'esta, c uma fresta no tecto. 

Ha outros penedos que tem denominações populares: penedo do 
òltar (= altar), que a recebeu de estar exeavado em volta (talvez ex- 
i-avação natural), — o que lhe dá porém mais aspecto do chapéu do 
que do altar; penedo da-i-agua santa, muito grande, mas onde nada 
vi notável; penedo das caleçra dos Mouros, também muito grande, e 
com excavaçScs (não pude lá subir). 

No monte não vi vestígios de muralhas que m'o fizessem consi- 
derar castro; houve ali, todavia, uma estação antiga, talvez romana. 
As lendas e denominações apontadas são communs a outras estações 
congéneres, tanto de Portugal como de fora: por brevidade omitto 
notas comparativas; efr. contudo as minhas Religiões da Lusitânia, I, 
372 sqq. 

Perto do Castello dos Milagres, defronte d'elle, fica o Coto do 
Croata; lá estava, diz-se, a Maria da saia hranca, «feita de cal e ti- 
jolo* (não pude averiguar mais nada). 

b) Monte de S. Caetano. 

Na mesma carta em que o Sr. Diocleciano Torres me fala do Cas- 
tello dos Milagres, dá-me tambem os seguintes noticias, que, por serem 
curiosas, transcrevo: 

cNa freguesia de S. João de Longos-Valles, no monte de S. Cae- 
tano, existe um plano que pôde medir 10:000 a 15:000 metros qua- 
drados, aonde se encontram muitos pedaços de tijolos e uns alicerces 
de pequenas casas redondas, construidos com pedras pequenas, e parece 
que em volta houve uma trincheira ou muro arrasado. Mandei ao local, 
por duas vezes, um homem d'ali bastante hábil, e trouxe-me uma porção 
de pequenos tijolos que encontrou á superfície, mas sem importância: 
nesse local espero fazer umas exeavações mais attentas e levantar uma 
planta que remetterei aV... logo que a possa organizar. Se alguma 
cousa apparecer que nos chame a attenção, avisarei aV. . . para lh'a 



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288 O AuciiEOLOao Pohtuguês 

rcmetter como deseja. Tenho fé era qne o monte de S. Caetano ha ile 
servir para auxiliar a archeologia nacional, pelo menos com a exis- 
tência de uma povoação romana no extremo de Portugal». 

Aqui, sim, é que, a julgar da informação precedente, teremos um 
castro, — do typo dos que sBo frequentes no Minho, com casas circu- 
larei. 



O Sr. Diocleciano Torres merece todos os louvores pelo interess 
(pio nclle despertam as antiguidades do eeu concelho. 

J. L. deV. 



Bibliographia 

Lo» puehloa antiguos thl GuaiJalquivir, por G. Bonsor, Madrid 
1902, opusculo de 23 pag., extr. da Revista ãe Ârchivos, Bibliotecas, 
y Museo*. 

O Sr. Bonsor dá neste importante opusculo noticia de várias olarias 
e outras antiguidades das margens de Guadalquivir, da região que fica 
a haixo de Córdova. 

A pag. 23 diz: «Antes de concluir,- he de suplicar a mis colegas 
de las províncias de Huelva y de Badajoz, así como à los arqueólogos 
portugueses, que emprendan la exploración dei Guadiana, pues todo 
autoriza a suponer que han de encontrar ai igual que en el Guadal- 
quivir, numerosos vestigios do alfarerias (olarias)». A este propósito 
lembrarei que já n-0 Ârch. Purt., IV, 329, se publicou um artigo sol >n- 
uma olaria lusitano- romana situada ao pé d'aquelle rio. 

J. L. ue V. 

Cfttalogo <h uma coHecçâo âe moedas, Lisboa 1902. 

A Casa Liquidadora de D. liaria Guilhermina de Jesus, Lisboa, 
Avenida da Liberdade n. n * 93 a 113, acaba de publicar o catalogo 
de uma importante eollecção de moedas portuguesas, continentais i* 
coloniacs, de moedas visigóticas, hespanholas, brasileiras, gregas e de 
medalhas, contos, pesos e senhas portuguesas, o que tudo será vendido 
em leiloes que hão de começar no dia 18 de Janeiro de 1903. 

O catalogo compretiende 71 paginas, em que se mencionam 1:794 
exemplares para venda, e 5 estampas com gravuras representativas 
das moedas e medalhas de maior raridade. 

N. 



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I*. VII DEZEMBRO DE 1902 N." 12 
''"~ ~" =" ^"^^ -ylf' 

ARCHE0L0G0 
PORTUGUÊS 

COLLECÇAO ILLUSTRADA DE KATERIAES E NOTICIAS 

PUBLICADA PELO 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



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Vtterum volvais n 




virorum 




LISBOA 






IMPBEKSA 


NAC10NAI 






1902 





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STJ 1WE Is/L „A_ BI O 



costos para cortar: 289. 

Um inventario do século xiv: 305. 

Trituradores de pedra : 309. 

Pelos jornaes: 310. 

Mosaicos romanos de Portugal: 312. 

Extractos arcrkolooicos das «Memorias parociiiaes*: 



Este fascículo vae i Ilustrado com 11 estampas. 



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O ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 

COLLECÇÀO ILLUSTRADÀ DE MATERIAES E HOTICIiS 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 

OL.VII DEZEMBRO DE 1902 N.' 12 

Contos para oontar 
IH 

Obsenaçoes álvenu e exemplarei Inéditos 

Architectar a historia d'estes modestíssimos auxiliares do calculo. 



que floresceram em Portugal até um pouco alem do termino da idade 
media, é empresa de temerosa responsabilidade, na carência de elemen- 
tos, autorizados, com que o estudioso possa habilitar-se ; porem, tanto 
quanto os esforços da investigação permittiram, algo interessante vamos 
aqui offerecer á curiosidade insaciável dos numismatas portugueses. 

A vida dos contos foi mnito restricta. Examinados ob exemplares 
hoje conhecidos, sabe-se que, desde o reinado de D. Fernando até o 
fim do de D. João III, corresponderam aos jétonê,jetoire, onjeett fran- 
ceses, cujo emprego na contabilidade pratica foi indispensável. 

Os algarismos romanos, e algumas letras do alfabeto, com que se 
escrituravam quantias em dinheiro, nao desenvolviam o calculo arith- 
tnetico. Para sommar não era possível a collocação das parcellas se- 
guintes em vertical: 

iiijiii°xx reaes, ou 4#320 reaes, 

xxjbj reaes, ou 210600 reaes, 

xxxijiiij* reaes, ou 325400 reaes. 

Esta escrituração macabra, usada pelos nossos maiores, fará des- 
cerrar os lábios do mais serio guarda-livros; comtudo não existia outra. 

A dífficuldade vencia-se com o auxilio de discos de metal assinala- 
dos, os contos, convenientemente dispostos em filas, por secçSes. A vícto- 
ria dependia da boa ordem na situação dos combatentes, como veremos. 

Desde a mais afastada antiguidade substancias diversas, sob varias 
formas derivadas da natureza, como pequenos frutos de casca resis- 



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290 O Archeologo Poutuglés 

tente, fracções de ossos, conchas ou seixinhos rolados na correnteza 
dos rios, auxiliaram o rude calculo do homem primitivo, que apenas 
pelos dedos daa mãos contava até uma dezena, ingenuamente, como 
ainda hoje contam os selvagens da Nova Guiné e os naturaes dos 
agrupamentos insulares, separados do convívio civilizado nos mares 
da Oceania. Ha mesmo povos que no computo não chegam a tanto. 

É provável que alguns sinaes e traços prehistoricos, que a arqueo- 
logia nlo decifra satisfatoriamente, esculpidos na penedia bruta, repre- 
sentem frases de contabilidade escrita, referindo-se a quantidades de ini- 
migos, mortos em pelejas, ou de peças de caça grossa abatida. O homem 
primitivo com memora ri a assim a lembrança de façanhas, excepcional- 
mente arrojadas, receoso que a tradição oral a nao guardasse 6el- 
mente. E porque nlo se commemoraría a heroicidade prehistorica ? 

Fontenoy, a pag. 124 e seguintes do Manuel de Vamateur dejetom, 
edição de Paris, 1864, diz que, segundo Heródoto, os Egypcios e os 
Gregos se serviam de pequeninos seixos para as suas operações d* 
contar. Os Romanos, nos tempos áureos da sua civilização, usaram 
de pedaços de marfim, calculi, e então dizia-se j>onere calculo» e <•«/- 
culum detrahere. Os mestres de arithmetica chamavam-se primi nume- 
rorum arenarti. Os jurisconsultos chamavam-lhes calculones, quando 
eram escravos, e calculatores, quando homens livres. 

Desde o século XII, na Europa central principalmente, usaram-se 
discos de metal, cujas gravuras, em vez de allusoes expressivas da 
applicação a que eram destinados, celebravam nascimentos, matrimó- 
nios, óbitos, combates, milagres, adulações de toda a ordem offerecidas 
aos grandes senhores, e por vezes a sátira melindrava themas de as- 
pirações legitimas, ou nuvens tomadas por Juno. E o commercio com 
taes auxiliares alargava os tentaculos entre povos na conquista da pros- 
peridade. 

Vemos, pois, que o metal assinalado se relacionou materialmente 
com o calculo desde longa data. Mas por que processo eram obtidos 
resultados justos, verdadeiros? É ainda Fontenoy quem nos informa. 
Transcrevemos textualmente as palavras do autor. 

iDepuis les temps les plus reculéa, jusqu'au règne de Louis XV, 
et peut-être plus tard, les membres des chambres de finances, les 
employés des bureaux dana les administrations et les marchands eurent 
un meuble particulier que nous allons essayer de décrire. Cêtait un 
comptoir, nommé aboque, qui fit remplaeer le mot calculi par celui de 
abaculi. 

L'abaque, en forme de table, se composait d'une surface plane di- 
visée par des liteaux pen saillants qui fonnaient des rainures ou cases. 



cbyGOQ^IC 



O AUCHEOJLOGO POKTUGCÉS 291 

Chaque case se terminait par un troa rectangulaire donnant ouverture 
ciaus un tiroir également divise par de petites eloisnns corre sp OH dant 
aiix liteaux. Ce comptoir était destine a 1'emploi des jetoirs eomme 
éléments de calcul. 

Lorsqu'un marchand venait de faire une vente, il prenait des jetoirs 
et un déposait dans chaque case, en commençant par la gaúche, autant 
qu'il y avait, dans le prix de sa vente, d'unités, puis de dizaines, de 
centaiues, etc. Lorsqu'il manquait une ou pluaienrs unités dócimales, 
le zero dont nous nous servons dans ce cas était remplacé par le vide. 

Après cela, pour se rendre compte du résultat du trafic pendanl 
une journée, ou tout autre laps de temps, on ouvrait le tiroir et on 
prenait dans le premier compartiment à gaúche tous les jetoirs. On en 
ôtait dix autant de fois que possible, en 7 laissant le reste, et on plaçait 
dans le compartiment suivant des jetoirs en nombre égal à celui de 
fois dix retires du premier. On continuait ainsi pour chaque compar- 
timent, en marchant de la gaúche vers la droite. En nn mot, on faisait 
une véritable addition mécanique, et en definitive, on avait le nombre 
d' uni té 3, de dizaines, etc, exprímant le produit de la journée. 

II était aussi facile, et on trouvera peut-être ce mode meilleur 
cVopérer des le début par la droite ; dans ce cas, le résultat trouvé est 
le nombre total represente par les piéces, exactement dans 1'ordre ofi 
nous plaçons nos ehiffres. 

Le marchand qni procédait par vingtainea pour le premier com- 
partiment, par dizaines pour le second, avait en fín de compte, dans 
le premier les sous, dans le second les livres ou franes, puis les pis- 
toles, etc.i 

Ainda acerca do modo como se realizavam as operações do calculo, 
consulte-se L'aritkmétique de Jean Trenchaut, avec Vart de calcuhr 
auxjetons. Lyon 1608. 



Flf. 1 ■ 

O liara de Nuremberg para calculo, fig. 1.*, representa um maitre 
ã compter sentado junto do abaque e pondo em ordem conveniente os 
seus jttone. 



■a by GoOglc 



292 O Archeologo Português 

Provavelmente houve em Portugal movei próprio para recolher e 
contar os contos, porem não chegou á actualidade a palavra qne o de- 
signava, se a havia em especial. E quantos vocábulos portugueses se 
perderam por falta de cuidado em recolhê-los opportunamente ! 

O P." Raphael Bluteau, um estrangeiro, prestou relevante serviço 
á lexicographia portuguesa, porem nada nos disse acerca dos conto*, 
cnja memoria nao estaria inteiramente perdida no século XVII. D'elles 
iiâo existe hoje qualquer derivação, ridícula ou seria, na linguagem 
popular. Silencio em toda a linha. Em França ainda corre o provérbio 
— Faux eommejeton — acerca de homem que tenha ideias apparente- 
mente honestas, porque o jeton, batido em latão, quando era novo 
assem elhava-se ao ouro. 

Os diccionaristas continuadores da obra de Bluteau guardaram idên- 
tico silencio, e aquelles estudiosos que rebuscam sensações fortes nos 
archivos do Estado ainda não encontraram vestígios dos sulcos abertos 
pelos contoB na lavra que realizaram através da economia popular de 
outr'ora. 

Pelas malhas largas da rede varredoura dos nossos chronistas seria 
enorme a concorrência de factos que passaram tranquilamente ao ol- 
vido. Aquelles obreiros da memoria do passado nao foram tão cuidado- 
sos que seguissem passo a passo a successão dos acontecimentos, como 
os historiadores actuaes a seguem em todo o mundo civilizado, para 
que, nada escapando ao registo, não falte aos homens do futuro o por- 
menor histórico mais simples da tumultuosa complexidade de factos, 
relacionados com a existência das nações. 

Pode presumir se que em Portugal houve homens que foram peritos 
no calculo, nao menos que os estrangeiros. 

A sciencia de bien jtter era de alto apreço em França; até cons- 
tituía prenda especial entre o sexo feminino, bem considerada na serie 
dos requisitos indispensáveis aos merecimentos de uma boa dona de 
casa, e tinha valor bem cotado entre pretendentes ao matrimonio. 

Ignoramos se na educação portuguesa as noivas nos séculos xrv 
e xv manejavam eontoê com perícia, igual áqnella com qne entre a 
roca e o fuso entretiveram tardes e largos serões habilitando-se na arte 
de fiar bem. 

Os contos Bão typicos e absolutamente originaes; as suas gravuras 
não tem semelhanças com as de outras espécies metallicas de paren- 
tesco próximo usadas lá fora. Na sua epigraphia os gravadores come- 
çaram a revelar no tempo de D. João II o nome por que hoje são co- 
nhecidos, nas firmas: CONTVS, CONTOS, COINTOS, OOVKTVS, 
COMTOS, CVNTVS, COTOS, COHTOS, e o fim para que foram 



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O Arciieologo Português 293 

criados: — PARA METES, isto é, mesteres commerciaes?officios ou ar- 
tes? PARA OTEAR, talvez por CONTAR, e PÊRA COTAR ou COI- 
TAR, e ainda PÊRA CONTA. Em DÍNEIROS, GALARDON temos, 
na primeira, N por NH, e na segunda a terminação archaica -ON= 
-OM. Nalgumas legendas ha palavras incompletas, como VERDA, 
CONT, e outras a que não pode iígar-se qualquer significado, tal é 
a sua vacuidade, ex.: OXO, EMAC, SCHEBS, MAPS ou MAPVS. 
Certas abreviaturas confundem a investigação e a encaminham dolo- 
samente nos enredos do enigma, como: OPL — DOA — NOM — NMG. 
Jjêem-se palavras repetidas em ordem symetríca: CONTV — CON- 
TV— CONTV— CONTV, e iniciaes na mesma disposiçÍlo:V:M:V:— 
V:M:V: — V:M:V: — V:M:V: Abundam letras desnecessárias, que 
preenchem espaços mal caculados, ex.: CONTAAR, VERRDADEE. 
Alguns nomes próprios foram um tanto desfigurados, como: IASPAB, 
VALHESAR. A palavra Portugal apresenta também variedades gra- 
phicas: PVRTVGAL, PORTVG, PVRTVGL. Ha notoriamente pala- 
vras retrogadas, algumas com letras invertidas, como: VTVíOO. Nas 
legendas em latim, que silo as mais raras, é esquisita a barbaridade 
orthographica, ex.: PERMALET1VS, ONISS, GREIA. 

Todo este cumulo de irregularidades seria indifferente ao calculador, 
porque, em summa, não influía nos resultados parciaes ou finaes das 
operações arithmeticas. Calculava se materialmente, e neste campo de 
sciencía meramente pratica o analfabeto igualava-se ao letrado. 

Do officio dos contos não descenderam geraçSes de factos perdu- 
ráveis que houvessem de figurar nas devassas scientiiicas do nosso 
tempo. 

Esses autómatos das astúcias lucrativas do passado apenas dizem 

que utearam , que cotaram , i. é, que contaram, e dizem-no 

com simplicidade tão rude, mas tSo encantadora! Nem todos servi- 
riam para o calculo; assim o cremos. Nos mais antigos do tempo de 
D. João I lê-se: AVE»MARIA.GRA*PLENA, n.° 1520 de Uffis- 
toire du Travail, por Teixeira de Aragão. Trata-se de simples senha 
comprovativa da presença de sacerdotes no culto religioso, ao que 
parece. 

Para o serviço de instituições de caridade, misericórdias e gafarias, 
emittiriam o typo a." 18 da collecçâo de Meili', que tem a legenda 
IN DEO MANET ET ET QVD ALEA IN CARITATE. Outras 



1 Vid. O Arch. Port., t, 51-84: «Contos para contar, da colteccio do Sr. 
Júlio Mcili. 



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294 O Aecueologo Português 

variedades serviriam para premiar actos meritórios ou boas serviços 
prestados, como se deprehende das duas inscrições do n.° 1:522 de 
UHUtoire âu TravaU: AO * GALARDON « COMO » AODO e EN : 
LATOR : A BON : SERVIÇO, e seriam os percursores das medalhas 
de recompensa entre nós. 

Lêem-se nomes completos de reis de Portugal nos anversos dè al- 
guns contos; ex.: EMANVEL no n.° 1:528 de UHistoire dn IVavail 
e IOANES : III : nos n.°* 29 a 32 de Meili. Caracterizados cora o 
escudo de armas do reino elles teem apparencia de moedas. Foram 
destinados as operações de contabilidade no real erário. Noutros d'esti 
classe o nome do rei D. João I foi gravado na abreviatura IHXS - 
(veja-se o n.° 5 de Meili). A melhor prova da asserção é a legenda 
do anverso de um exemplar, do typo n.° 25 de Meili, que pertence ao 
Sr. Dr. Henrique Botelho, residente emVilIla Real de Trás-os-Montes. 
«> CONTVS 4> DE : R : P : ET -$> A ■ DNOS + GVINEE. Contos do 
rei de Portugal. Não esqueçamos que no reinado de D. João IV ainda 
havia o emprego de Contador-mór dos contos do Reino e casa (de El* 
Rei) -. 

Também em França alguns jetons foram especialmente fabricados 
para o serviço do Bureau des Finances âu Roi; as legendas o dizem. 

Discriminam-se 5 grupos de contos, cada grupo com physionomia 
particular. 

No primeiro, século xiv, predominam typos aproximados aos do di- 
nheiro da epoca. Escudetes com quinas, dispostos crucialmente, e cru- 
zes da Ordem de Christo, ou semelhantes a pila, cantonadas de florões, 
estreitas ou anéis. Bolhão, cobre c latão. Diâmetros 21 a 23 millimetros. 

No segundo grupo, século xv, ainda apparecem escudetes e cruzes 
da Ordem de S. Bento de Avis, porém, nos reversos, ha grupos de três 
torres, mós de moenda, rodas de azenha que espadanam agua, leões 
que caminham voltados para a esquerda, como nas moedaB de cobre 
de Fernando V e Isabel I, reis de Castella (collecção do Sr. Conde de 
Penha Longa), e pelicanos que alimentam filhos com o próprio sangue. 
Cobre e latão. Diâmetros 24 a 27 millimetros. 

No terceiro grupo, séculos xv e xvi, o escudo de armas do reino 
ostenta-se com castellos, cujo numero vae de 6 até 14. Ha letras iniciaes 
de nomes, escudos que parecem derivados de armas nobiliárias e quinas 
cantonadas de torres. Nos reversos ha espheras, nuas, ou em campo de 



i Víd. O Arck. PoH., iv, 52: «Quitação a Gonçalo de Paiva, thesoureiro d 
Casa da Moeda de Lamego*. 



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O Archeologo Português 295 

ustrellas que parece darem a ideia do firmamento, ou em campo de nu- 
vens esfarrapadas; algumas são ornamentadas por grinaldas de raizes 
arbóreas, de significação enigmática; ex.: o n.° 25 de Meiti com esta 
ultima variedade exquisita. A marca P-0 (Porto), única que indica pro- 
cedência, mostra-se no anverso de vários exemplares fundidos. Neste 
grupo o cobre é menos frequente que o latão. Diâmetros 29 a 31 mil- 
limetros. 

Ao século XVI pertence o quarto grupo. Tem escudetes com quinas, 
ou com um só" ponto, cantonados por S S na maior parte dos exem- 
plares; legendas em dois círculos. Nos reversos predomina a esphera, 
nua ou com globo e com ecliptica, ou sem esta. Cobre c latão. Diâ- 
metro 28 a 30 mil li metros. 

O quinto grupo comprehende um conto de typo inédito, existente 
na Bibliotheca Nacional de Lisboa. Vae representado na fig. 2." 



No campo um açor á esquerda, poupado sobre relva. Tem as asas 
abertas em acção de levantar o vôo. Sobre a cabeça a data - 1 ■ 5 ■ 5 • 6 
com os algarismos separados por pontos. 4- GASPAR : MELCHIOR : 
BALTASAR : SCHEBS. Estes nomes dos magos, que visitaram e 
adoraram Christo no seu berço de recemnascido, lêem-se em contos 
mais antigos: vide os n." 3, 4 e 12 de Meili. 

No campo do reverso exhibe-se um pelourinho ', em cuja base pou- 
sam dois açores que se defrontam. Symbolizam as ilhas de S. Miguel 
e Santa Maria, as do grupo oriental do arehipelago açoriano, duas ir- 
mãs gémeas que demoram na mesma latitude marítima. A esquerda 
7 açores, que representam outras tantas ilhas, as dos grupos central e 



1 «K tem praça bastante perto do mnr (a cidade de Ponta Delgada) e seu 
Pelourinho, cadea, e tudo o maia necessário». Historia Insulana, pelo P.° António 
Cordeiro, pag. 137 da edição de 1717. Por informação particular, prestada obse- 
quiosamente pelo Ej.™ Sr. José S. de Castro do Canto, muito digno secretario da 
Camará Municipal de Angra do Heroísmo, sabemos que o pelourinho jii uío existe 
ha mais de um século. 



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296 O Archeologo Português 

occidental, voam em debandada. 4- CONCÓRDIA • RES ■ PARV.fi 
CRESCVNT, Legenda allusiva ao movimento do commercio, progres- 
sivo e remunerador quando a harmonia se manifesta nos desígnios. 
Bello exemplar de cobre. Peso 4 g ,48. Diâmetro 28 mil limei roa. 

Na decadência dos contos, no fina! de um systetna ja decrépito no 
aeculo xvi pela influencia dos sinaes chamados algarismos árabes, ad- 
míttidos nas operações arithmeticas, apparece este exemplar, raríssimo. 
Figura primacial entre contos ê singular, pela data. Nenhum ourto marca 
incontestavelmente uma epoca. As classificações até agora ensaiadas, 
não diremos definitivamente concluídas, fundam-se em analogias e con- 
frontos, mais ou menos concordes entre o caracter dos contos e o das 
moedas portuguesas, as quaes não foram datadas nas emissões do con- 
tinente do reino antes de 1561. 

Nota-se que nao se commemorassem acontecimentos de interes» 
geral nas gravuras dos contos, nem mesmo assuntos da vida particular 
de instituições, ou de prosonagens attingidas pela celebridade. Em boa 
lógica, para que movessem combinações arithmeticas, por officio, por 
condição indispensável á sua existência, como as machinas movem en- 
grenagens complicadas, até anepigraphos podiam ser. 

Nao vemos nos contos antigos manifestações do génio a acompa- 
nharem a arte, embora alguns sejam suffi cientemente correctos, porem 
no exemplar açoriano o artista exprimiu ideias, clara e precisamente. 
Seria elle estrangeiro, domiciliado em Ponta Delgada, homem que cor- 
rera mundo, e porque vira o progresso a caminhar desassombradamente 
lá fora procurasse aclimatá-lo onde vivia, como benemérito da arte, on 
devoto que ensaiasse cânticos novos perante o altar antigo, froixamente 
i Iluminado? 

Portugal não teve contos batidos em metaes preciosos, apesar da 
sua prosperidade commercial na epoca mais brilhante dos descobri- 
mentos marítimos. Quebrando a monotonia do latão, vulgarmente em- 
pregado nas cunhagens, encontram-se poucas variedades de cobre rubro. 
São raríssimos aquelles exemplares batidos em bolhão, attribuidos aos 
reinados de D. Fernando e de D. João I, em que a prata muito baixa 
figurou em numerário, ao passo que no estrangeiro o luxo dos grandes 
senhores e dos potentados da finança até no calculo arithmetico mani- 
festou preponderância. Carlos, o Temerário, Duque de Bourbon, desde 
1474, serviu-se dejeton* de ouro. Nicolay Guiduche, recebedor do con- 
dado de Flandres, operava com jetons de prata 1 . 



1 Vid HUtoire diijeton au moytn dge, par Julea Rouyer et Ençène Hucher. 
a pag. 17. PariB, 1858. 



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O Archeologo Português 297 

Os negociantes portugueses mais opulentos tinham contos propria- 
mente seus, e também as casas fidalgas ou vinculadas em morgadios; 
a variedade nas gravuras assim o indica, porem o cominercio a retalho, 
muito mais humilde em todas as suas manifestações do que hoje o ve- 
mos fora doa grandes centros de actividade, recorria ao antigo systema 
dos egypcios e dos gregos. 

Os artistas productores dos rantos seriam os moedeiros das offieinas 
monetárias de Lisboa e Porto, por encommendas de particulares, em 
ganchos, como os operários dizem hoje, a nâo admittir-se que os ourives 
cubicassem trabalhos de medíocre importância, desequilibrados na es- 
phera da sua acção artística. 

Em França uma lei especial prohibiu que os typos Aosjetons fossem 
semelhantes aos das moedas correntes. É de suppor que em Portugal 
existisse prohibiçSo idêntica prevenindo e evitando confusões de maior 
ou de menor vulto; com tudo o typo da moeda não foi escrupulosamente 
respeitado nos anversos de alguns contos dos séculos xiv e xvi, quanto 
ao aspecto geral. Não existem documentos, como alvarás de licença, 
referentes ao assunto, mas quaesquer providencias seriam tomadas, ga- 
rantida a liberdade do fabrico sob restricçoes especiaes. 

No campo da hypotheae não repugna admittir-Bo que os contos te- 
riam representado o papel de numerário entre particulares ou entre 
corporações, dispensadas provisoriamente disposições legaes em con- 
trario. 

Manoel Severim de Faria, no discurso IV de Noticias de Portugal, 
confunde contos com moedas '; talvez elle nâo fizesse ingenuamente 
esta confusão, pois no século d'elle os homens de idade mais avançada 
conheceriam tradicionalmente qualquer facto relacionado com esta ma- 
téria, o qual motivasse a affirmativa. 

No typo do pelicano, que era a divisa de D. João II com o dis- 
tinctivo PELA LEY E PELA GREY, os n.°* 16 e 17 de Meili dizem: 
DINEIROS DE CONTVS. A transição d'estea dinheiros para dinheiros 
com valor real seria fácil. Ha ninharias que se tornam sympathicas ao 
povo, quando é acanhado o meio em que vive. No reinado de D. JoXo I 
elle acceiton como prata, reacs de 10 reaes da lei de 1 dinheiro, em 
que eram necessárias 836 peças para se apurar um marco de prata 
de 11 dinheiros. Quem recebeu taes moedas por metal precioso accei- 
taria os contos de bolhão, de cobre, e ainda os de latão, com valores 
mais que modestos sem murmurar uma queixa. Entretanto é mais pro- 



» Cf. O Arck. Porí, v, 58. 



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298 O Ahcheoloqo Português 

vavel que a valorização fosse convencional em conjunturas especiaes, 
ou em tempos de crises monetárias, que urge descobrir e estudar. 

Se os contos do fypo referido, e os do typo n.° 1520 de ISBistoire 
du TravaU, foram usados por corporações religiosas, corresponderam 
aos mercaux franceses, que se valorizavam. Os do Chapitre de Saint- 
Jean de Perpignam tinham cureo na cidade, e também os de Maubeuge 
e de Puy. Alguns d'estes mereaux d'église tinham gravada a palavra 
MONETA <. 

Não seja motivo de censura invocarem-se tantas vezes exemplos 
de fora para restituir phases do viver dos contos. Portugal, desde o sé- 
culo xiil, com maior ou menor empenho tem pautado os cambiantes 
do seu progresso moral e material segundo as normas civilizadoras de 
outros povos mais cultos, ou mais fantasistas. 

Ha pouco mais de dez annos os contos eram considerados como inu- 
tilidades indecifráveis perante a archeologia numismática. Vestígios de 
um systema pratico sem registo na historia portuguesa, condemna- 
vam-se ás secções de refugo entre os amadores da moeda antiga, como 
se fossem espécies indeterminadas e sem importância. E emquanto a 
moeda brilhava no esplendor dos medalheiros, reverenciada, mais que- 
rida que no tempo em que fora a melhor arma de combate nas lutas 
emprehendidas pelo homem equilibrando a vida, os contos, que a co- 
nheceram e que com ella viveram na melhor intimidade, só tinham 
jus ao abandono e a morte! Ultimamente, porem, mereceram muitas 
manifestações de apreço, e o desamor da indifferença terminou como 
por encanto. Os numismatas portugueses, como se acordassem de um 
somno lethargico antiquíssimo, interessaram- se pelos contos, e em Lis- 
boa o commercio de moedas e medalhas escreveu a palavra Jeton, em 
vez de conto, em capítulo especial do livro de ganâncias por con- 
quistar. 

A propósito, convém referir um suecesso de grande nomeada. Xos 
leilões de moedas, medalhas, etc, realizados nos dias 5 a 12 de janeiro 
do corrente anno na Casa Liquidadora, Avenida da Liberdade n.° 93 
a 113, três concorrentes lutaram, com geral espanto, na adjudicação 
de contos, que nesta imprevista mudança de scenario obtiveram preços 
pouco variados entre 15#000 réis e 195500 réis. Estes preços de oc- 
casião, de luta, certamente não podem servir de preceitos para avalia- 
ções. Razoavelmente deve hoje arbitrar- se ao exemplar bem conservado 
a quantia de ljJ200 réis, salvo um caso de raridade inédita, em que, 



1 Fontenoy, ji citado, m pag. < 



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O AltCHEOLOGO POKTUGUÊS 299 

como de ordinário succede com relação amoedas em igual circunstancia, 
não pode haver opinião segura. 

No século XVII os contos degeneraram em senhas ', criadas para 
novos encargos, e na degeneração, perdido o caracter do moedas, mar- 
caram-lhes francamente valores, estampados nas gravuras ou arbitrados 
por convenções particulares. Foram fabricadas de mctaes, de marfim, 
de madeira e de sola. D'esta ultima substancia existe em poder do 
Sr. Julius Meili um exemplar, que se mostra na fig. S. a 



No campo dois troncos de vegetaes mortos, dispostos em sentido 
contrario relativamente ao exergo, contém os algarismos 40. Na parte 
superior ha uma coroa que parece a coroa real. Na orla semicírculos ir- 
regulares, pontuados. No exergo a data 1681. O reverso é anepigrapho. 

Esta espécie de cunho obteve-se com modelo de ferro aquecido 
cuidadosamente, para não produzir lesões, de que não ha vestígio. 

Esta senha com o valor de 40 réis é estranha. Exemplares idên- 
ticos seriam distribuídos a trabalhadores em grandes fainas, agrícolas, 
por exemplo. Cada senha representaria qualquer phase de trabalho 
frequentemente repetida. Finda a semana, ou o dia, cada trabalhador 
recebia a somma a que tinha direito, conforme o numero de senhas 
que apresentava. Para este fim a leveza da sola seria mais conveniente 
que o peso de metaes assinalados. 

Evidentemente os algarismos 40 não se referem a um numero de 
ordem. Por que singular acaso apparecería um numero par, e não Ím- 
par, 39, por exemplo, que nunca teve representação justa em nume- 
rário? Temos de acceitar o pseudo valor, até porque no reinado de 
D. Pedro II houve moedas de prata de 40 réis, ou dois vinténs, mar- 
cadas com xxxx, n.° 24 da est. xxxvn de Teixeira de Aragão. 



» Cf. O Ardi. Port., v, 63. 



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300 



O Ahciieologo Pobtuguês 



Na Bibliotheca Nacional de Lisboa existe outra senha, sem data. 
e sem valor marcado, inédita e não menos interessante. Vae represen- 
tada na fig. 4. 1 




No campo as palavras 8." Miguel lavradas a buril. No exergo o 
mar ondeante, igualmente burilado. Na parte superior do disco três 
flores, vagamente semelhantes a lírios, são outros tantos carimbos de 
ornato, ou intencionaes. 

Isoladamente, no campo do reverso ha o carimbo de dois escudos, 
sobrepostos, encimados por uma coroa de conde. As palavras RU-S. 
SI, em duas linhas, occupam o escudo do primeiro plano: sào indeci- 
fráveis. Disco de cobre. Peso 18 gf ,15. Diâmetro 39 millimetros. 

A reducçSo da palavra S. n ou San, por São (= Santo), e o caracter 
das letras mostram que nos fins do secnlo x-vm, on no principio do 
XIX, floresceria tão interessante raridade na Ilha de S. Miguel. 

Os contas degenerados também serviram de tentos para jogos, o 
que não é para estranhar sabendo-se que as moedas tem tido applicaçlo 
idêntica. As tabulas de que usava um celebre jogador do gamão em 
Coimbra eram dobríJes e meios dobrões de ouro, e assim divertiu-se 
príncipes camente . 



Julgamos ter adduzido algumas ideias preliminares para o estudo 
dos contos, ou calculadores portugueses, sem a p retenção de offerecer 
iguarias de sabor esquisito a todos os paladares. A investigação do 
passado, obscuro e vago, d'estos antigualhas, é uma espécie de relatório 
justificativo da exhibição graphioa de dezeseís variedades inéditas que 
vamos descrever. Figuram na collecção de 71 exemplares que possue 
o Sr. José Ferreira Braga, numismata muito distincto, residente 
em Lisboa. 

Já foi dada noticia d'esta collecção, extraordinariamente impor- 
tante, no artigo intitulado Coup d'eeU sur la NumiênuUtque en Pur- 



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O Arcbeolooo Português 301 

tugaJ, que o Sr. Dr. José Leite de Vasconcellos deu a lume na Gazette 
nnmismatigue françawe, dos Srs. Mazerolle e Serrure, Paris 1897, 
pp. 484-497, na secção de (Correspondências estrangeiras» (o artigo 
foi reproduzido n-0 Arch. Port., IV, 65-^76). 



D. Fernando 

N.° 1. — No campo cinco escudetes com quinas, dispostos crucial- 
mente; quatro estão fixos na junção de dois círculos a par, e ss suas 
extremidades convergem para o centro do disco, onde o quinto está 
col locado em sentido vertical. 

$-. Cruz equilátera!, semelhante á da Ordem de Christo, que occupa 
lodo o campo. É cantonada por dois crescentes e duas estrellas alter- 
nadamente; uma d'estas é maior e assim um dos crescentes. Latão em 
liora estado de conservação. Peso l g ,56. Diâmetro 21 millhuetros. 

Este exemplar é único. Foi encontrado nos entulhos da demolição 
de uma parte da velha muralha da Alcáçova de Santarém. .Julga-se que 
foi perdido ali por occasião do alargamento que D. Fernando mandou 
fazer na área do recinto fortificado da antiga villa. E attribuido a este 
reinado em virtude da semelhança que ha entre o seu reverso e o an- 
verso do dinheiro n.° 48 da est. VI do vol. i de Teixeira de Aragão. 

Século XIV e XV 
D. João I 

N.° 4.— >J< IHNS ■ DEI • GRA ■ REX ■ PO. Dentro de um circulo 
■de glóbulos cinco escudetes com quinas, sendo as centraes maiores que 
as restantes. Quatro anéis ornamentam os espaços que separam os es- 
•cudetes. 

8t. * IHN ■ DEI ■ GREIA ■ REX ■ PO (GREIA por GRATIA). 
■Cruz, semelhante á da ordem de Avis, cantonada por quatro anéis, 
dentro de dois circnloB, pouco distantes nm do outro, formados — o 
menor por um traço fino e o maior em Buccessão continua de glóbulos. 
Bello exemplar de cobre. Peso 2*,70. Diâmetro 23 millimetros. 

Século XV 

X>. AffonnoV 

N." 8.—+ CO[N]SERVACIO : RE3 : DVLIEIAO. Dentro de 
um circulo collocado sobre a cruz de Avis as quinas, cujos íntervallos 



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O Archeolooo Português 



são separados por oito castellos. Variante do n.° 11 de Meili, em que 
ha quatro castellos. 

ífc. + CONTVS ERVACIO : RE3 : DULIEIA. Cruz num escu- 
dete ornamentado com quatro SS e quatro anéis dentro de um epicy- 
cloide de quatro glóbulos, igual ao que se vê no reverso dos cruzados 
de ouro de D. Affonso V. Este reverso é de typo idêntico ao anverso 
do n. B 13 de Meili. Bello exemplar de cobre. Peso 3^,85. Diâmetro 26 
millimetros. 

N.° 10—+ CONTVS : ERVACIO : RES : PVB. Typo do reverso 
do numero anterior. Legenda variada do n.° 13 de Meili. 

8r. + CONT + CONT + CONT + CONT. Quinas profusamente 
ornamentadas de pontos, anéis e semicirculos. Cobre de muito boa 
conservação. Peso 5 |r ,37. Diâmetro 25 millimetros. 

N.° 16—+ GASPAR : MELCHIOR : VALHESAR : No campo 
cinco estrellas; quatro estão contidaB dentro de três semicirculos canto- 
nados de SS. 

R-. + IASPAR : MELCHIOR : VALTHESAR : ET. No campo 
a mó de um moinho sobre um supporte de madeira entre duas estrellas 
e dois anéis. A mó era a divisa de D. Affonso V com o distinctivo HE 
RODÍZIO. Cunho em bolhão bem conservado. Peso 2* r ,78. Diâmetro 
27 millimetros. 

SeonloB XV o XVI 

D. Manoel 

N.° 18.— +COHT + VSPE:+RACO + KT[AR]:— Armas do 
reino entre dois besantes tendo por quinas cinco arruelas. 

R-. COWT ■ + VS : PER— ACOIÍ + TAR— Esphera sem ecliptica 
com um globo no centro dentro de um circulo de pérolas. Exemplar 
de latão, furado, porem bello. Peso 8*,30. Diâmetro 30 millimetros. 

N.° 19— + CONTOS PER CONTAR + CON : D : — Armas do 
reino, com sete castellos e com quinas de anéis, entre dois besantes. 
Coroa sem cruzes, muito original, cortando um circulo de pérolas em 
que o todo está contido. 

R-. <J> CONTOS P^EERA 4- VERRDADEE— Esphera com ecli- 
ptica da direita para a esquerda cortando um pequeno globo, Lat3o 
quasi sem gasto. Peso 5*,63. Diâmetro 29 millimetros. 

N.° 23— +CONTV+BORIO + BTEAR+E COTAR— Armas 
do reino com dez castellos e coroa de 5 cruzes. 



cbyGOQ^IC 



O Arcueologo Português 303 

£. DEVISA : DE : RE + DE : PVRTVG AL— Dentro de dois cír- 
culos, a par, a esphera com a ocliptica da esquerda para a direita. Cobri; 
de boa conservação. Peso 7 e ,ll. Diâmetro 29 millimetros. 

N.« 24 — r- CONTVS + DOPTO + OTEAR + COTAR— Armas 
do reino, entre dois besantes, com onze castellos e coroa de 5 cruzes. 

R-. DEVISA :DE:R- DE :PVRTVGL— Esphera dentro de um 
circulo de pérolas ornamentada na parte superior. A ecliptica desen- 
volve -se da direita para a esquerda atravessando o globo., Exemplar 
fundido, de cobre, muito bem conservado. Peso 9 g ,47. Diâmetro 30 
millimetros. Este conto e o seguinte são oriundos do Porto, como diz 
a abreviatura DO PTO. 

N.° 26— + CONTV + DO PTO -j- OTEAR + E COTAR— Armas 
de reino com dez castellos e coroa de 5 cruzes. 

£. DEVISA : DE : R : DE : PVRTVG AL~Esphera, ornamen- 
tada verticalmente, com globo e ecliptica da direita para a esquerda. 
Cobre, fundido, bem conservado. Peso 10*,26. Diametto 30 millimetros. 

Século XVI 
D. João TTT 

N.° 37— +IOANES : 3 : R • PETATD . O : C : NGETII— Armas 
do reino entre P — O dentro de dois círculos de pérolas. 

ft-. DEVISA . S : R : P : E PARA ■ METES P— Esphera com globo 
e ecliptica em campo de nuvens. Latão bem conservado. Peso 5 g ,67. 
Diâmetro 30 millimetros. 

N.° 41— * CONTOS . PÊRA: CON[T]AR!— Cinco flores de lis, 
em cruz, dentro de um escudo coroado. 

R, . CONTOS : * : PÊRA : * : CONTAAR : * : —Esphera com 
ecliptica e globo. Latão bem conservado. Peso 7 g ,23. Diâmetro 30 
millimetros. 

N.° 44— CONTOS : ♦ i PARA : ■*■ :CONTA : $• : —Cinco estrellas 
em cruz dentro de um escudo, sem coroa, ornamentado por seis semi- 
círculos com arruelas. 

&-. AOCxNOX VONITXOVN— Esphera, com ecliptica da es- 
querda para a direita. Latão magnificamente conservado. Peso 5*,15. 
Diâmetro 30 millimetros. 



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304 O Archeolooo Português 

N.° 45-*:V:M.V:>í<:V:M:V:*:V:M:V:*:V[:M:JV:- 
Entre dois besantes um escudo com pequenina coroa composta de três 
triângulos. No centro cinco estreitas, separadas por quatro escudetes 
vasados. 

ft. + CO/TV+COMTV+COVITV+COMTV— Esphera com 
globo, sem ecliptica, dentro de um circulo de pérolas. Cobre de belln 
patina. Peso 5*,24. Diâmetro 59 millimetros. 

N.° 50— COMTOS PÊRA COMT [AR]— Armas do reino, coroa- 
das, entre duas rosetas. 

&-. ^ CONTOS 4>P[ER]A 4- COM[T]AR—Espnera com a eclí- 
ptica muito descaída da direita para a esquerda sem tocar no globo. 
Latão soflrivelmente conservado. Peso 7 F ,57. Diâmetro 31 millimetros. 

N.« 60— + COXTV+ O0HTV+ COHTV+ COSÍTV— Esta le- 
genda, na orla exterior, è interrompida pelas estremidades da cruz da 
Ordem de Avis. Na orla interior COMTVS ■ PÊRA ■ COUTAR. Cinco 
escudetes com quatro arruelas que são can tonados por quatro quadrados, 
que parecem dar a ideia de outros tantos castellos. Entre o escude to 
central e o da direita ha dois pontos em sentido vertical, que parecem 
sinaes oceultos, como os que se encontram nas moedas. 

Bv. + COHTt + COMT V + COMT V + COJf T V. No centro, dentro 
de um circulo formado de pérolas, a esphera, sem ecliptica, com o globo 
no centro. Cnnho de latfio. Bello exemplar. Peso 8 ir ,16. Diâmetro 29 
millimetros. É attribnido ao reinado de D. João III pelo caracter das 
letras na legenda e pela disposição d'ella em dois círculos, como se usou 
pela ultima vez em portugueses de ouro do mesmo rei. 

Outros conto» de typo idêntico, providos de quatro SS, como os 
n.°* 50 a 54 de Meili, tem sido classificados no reinado de D. Sebas- 
tião. Porque? Por influencia d'aquellas quatro letras, que significassem 
o nome do rei três vezes repetido? Nos n.°* 8, 10 e 16 d'este catalogo, 
em contos de D. Affonso V, ha quatro SS, e também os ba no n.° 13 
de Meili no reinado de D. JoSo II. O escudo de armas do n.° 50 de 
Meili foi coliocado entre dois SS, e pertence ao reinado de D. João III 
por ter o typo do n.° 45. 

Taça letras são iuiciaes de nomes de fabricantes on emissores. 

No tempo de D. Sebastião o uso dos algarismos árabes já era geral, 
como se vê de documentos originaes da época, portanto os contos, per- 
dida a sua importância primitiva, não foram fabricados para auxiliares 
de calculo depois que findou o reinado de D. João III. 

Lisboa, Agosto de 1902. 

Manoel Joaquim de Campos. 



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pudlic l:íí:v".'Í 



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ESTAMPA I 



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KSTAMPA II 



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O Archkoloqo Português 



TJm inventario do seoulo XIV 

(Cunilaoupiu de pag. 109) 

Sio Vicente (da Beira) 

Estas soa as eoussas e Alfajas que Gonçalo Stetiez Achou na cassa 
do Cassai primeiramente see na aldeã doas cubas e hu" tonel e Lua tinha 
It. Achato" 3 outra cassa do paaço três tinhas e duas Arcas. It. En 
outro cabo duas tjnhas e hua Arca e duas messas e hu tauolhejro pêra 
p3 e hua maaeíra e hua cuba que foi fora E estas cousas suso sentas 
som ja scritas no começo do cito de Martim vjuas. As quaes cousas 
mostrou scritas En hu stromento que tomou quando Joham Lourenço 
porteiro dei Rey socrestou os bSes da dita cassa. It. achou na dita cassa 
hua cuba pegada e hu tonel e hua cuba pegada que see En lageosa 
Estas som as Alfajas que ha En vila noua hua cassa de tulhas e te- 
lhada e en que see hua cuba e hua tinha. 

Estas son Alfajas que ha En Sam ujçentj hu paaço En que ha 
Adega e tulhas e En que see hua tinha pêra milho e hua cuba pêra 
vinho e hua cnba pêra pS. 

Estas sou As cousas que ha En várzea hua casa colmada que cõprou 
dona Maria duas cubas que soe na dita casa. 

Beja 

It. Estes esom os ornamentos dos liuroa que Reçebeo o priol de 
saueta Maria de beia primeiramente hu oftíçial ssantal e domingal En 
dous uelumes de tauoas de cojro. It. hu offiçial velho de tauoas. It. dous 
liuros de lenda da briuia En dous uelumes de tauoas de cojro. It. dous 
ssantaes de canto En dous uelumes de tauoas de coiro. It. dous do- 
mingaes de canto ã<: tauoas de coiro. It. dous santoes de leenda e de 
canto de tauoas de paao. It. hu domingal de leenda e de canto de tauoas 
de pião. It. quatro gaiteiros dons velhos e dous nouos c<5 hu que tem 
o vjgairo. It. hu liuro dos mjlagres de ssanta inaria. It. hu pistoleiro. 
It. hu oaritanho. It. dous hu ordinbairo. It. hu liuro En que 

Anda o offiçío do corpore christi e de santa Maria das nenés e de sson- 
tiago e doutros offiçios. It. hu mjssal grande do Altar major. It. dous 
missaes pequenos c5 tauoas. It. hu bontiçeiro e demeomeudar cõ" tauoas. 

Estes ssom os ornamentos das vestimentas que Reçebeo o sobredito 
primeiramente. It. duas Capas de geebe uermelhas. It. hua Capa de 
tahis vyado. It. hua capa preta quareesmal. It. hua capa velha de cas- 
tellos. It. hua vestimenta noua de cendal que deu Branca Domínguez. 
It. duas Almaticas velhas de ssolja. It. duns ulmaticas de geebe uer- 



cbyGOQ^IC 



300 O Abcbeologo Português 

melho. It. duas Almaticas de çemdar Amarelo uerde. It. bua Almatk-a 
velha de baldoqui. It. duas AlmatScas velhas vjadas per ffeiçom cõ 
becas douro. It. hua vestimenta quareesmal preta perffeita. It. bua vjs- 
tj menta de tabis branco vjado per ffeiçÕ. It. hua vestimenta de mar- 
ramaque velha comprida. It. hua vistimenta de cendal morado velha 
comprida. It. hua vestimenta de seda come AmarclU cflprida. It. hua 
vestjmenta de hjmagees It. hua vestimenta morada de ffeguras de galos 
que deu flrançisco dominguez. It. bua vestimenta de tabis morado nona 
comprida. It. hua vestimenta de cendal morado co hua cruz branca com- 
prida. It. hua vestimenta dourada netha comprida. It. hu manto de bal- 
doqui velho. It. hu manto de tabis vjado e hu tapete que deu branca 
dominguez. It. hua vestimenta branca comprida. It. três vestimentas 
brancas compridas. It. hu manto e hua Alua brancos. It. bua stolla e 
hu manjpolo dourado. It. hua capa uelha de laços côljiíes (?) It. hu manto 
de cendal uermelho comprido A ffora hua stola. It. duas Aluas e hu 
manto brancos e hua vestimenta de cendal uerde vjado comprida. It. 
duas capas (?) velhas de ffeguras de griffos e outra de papagajos. It. 
hu pano de vendai laurado uelho. It. dez chumelhas nonas. It. hus 
mantees nouos que deu branca dominguez. It. Ima caldeira de cobre. 
It. bua bacia de cobre. It. hua campajnha de comungar. It. hua cruz 
de Alimagees velha. It. vj ssohre pelizas nouas. It. hus mantees nouos 
que deu A ffillia de Maria anes. It. húas obradeiras pequenas que naze 
v" ostias outras obradeiras que fazem quatro ostias. It. hua lanterna 
nona. It. hua Arque ta de prata ê que ia o corpo de deus e hua de 
rnarflj En que iaz As religas de santa Maria It. hfia colhar de prata. 
It. hua cortinha que de A molher de sem vjnho. It. hu esqninino de 
madeiro pintado. It. hu esqninino dossos mjtidiços desmachado. It. 
huas toalhas dagulhas lauradas que stã eu o sagrado. It. dons casti- 
çaes nouos que deu Joham Giro". It. dons castiçaes Ameados dalatom. 
It. hu castiçal pequeno c3 três maçaas todo dalatom. It. seis mantees 
velhas. It. sete sauaas velhas e lula nona. It. hu frontal de cruzes 
pretas quareesmal. It. dous veeos de sseda Mouriscos nouos de eo- 
inumgar eu ourellas Anchas. It. dous veeos velhos vjados de comungar. 
It. hu veeo de linho de comungar velho c3 cruzes e bandas de seda. 
It. vj veeos de seda e de Ijnho. It. b veos de Rede. It. v veos de seda 
velhos streitos. It. hu veo de seda Ancho que ten hua custnra no meo- 
goo. It. hu sobrevoo de malua branco. It. dous mantees velhos e hu 
nono, It. liíi AlfFambar. It. hus mantees Açedrenchados e3 geitados de 
seda velhos e dous AlfFanbares. It. no Altar de ssa pedro hua sanaa 
velha e hus mantees velhos e hu Alffanbar e hu lençol velho de três 
(*«■). It. no Altar de ssanta cateljna três sauaas e hiis mantees e douB 



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O Ahcheologo Português 30J 

Alffanbares. It. Eu santa asussana hua sauaa e Alfanbar velho. It. no 
Altar de si migel lula sauaa cã cruzes e scudos cã strellas. It. hfls mau- 
tees nouos cõ hu ffuraco de rratos. It. hu Alfanbar. It. bua sauaa noua. 
It. hua cortioha Rota. It. hu AlfFaubar. It. bi! croçoffiço que sta Ante 
ssamigel c dous sauàas. It. o croçoffiço dante santa maria e hua cor- 
tinha de cruzes pequena. It. híia sauâa e hus inantees. It. hua cortinha 
que staua trás santa maria de três Ramos velhos. It. hu Alfanbar velho 
que sta trás santa Maria. It. hu pauo vjado que sta no dito Altar. It. 
híia cortinha noua que staua sobre santa Maria. It. hua cortinha velha 
que staua trás santa Ana. It. hua sauaa noua de cruzes. It. luís man- 
tees velhos. It. h3 Afrontar de Ijnho de cruzes pretas quaréésmal. It. 
duas cortinas velhas. It. dous panos nouos cS cruzes dos croçofBços. 
It. hua taalha c3 ffrol de vide peitos cabos. It. hu Aforamento velho 
Amarello que foj de manto. It. hú" ffrontal de baldoqui. It. no Altar de 
santa Maria huas toalhas nouas ffrançezes. It. hus mantees nouos gran- 
des. It. outros mantees nouos pequenos. It. duas sauaas nouas no dito 
Altar. It. hu veo de Rede que tem ssanta maria. It. hu veo nouo dou- 
rellas douro que tem santa Maria. It. dous spelhos. It. hua cortinha 
que sta sobre o dito Altar de pano de lãa. It. cinco calez.es cõ ssuas 
patanas. It. h3 cazes (síc) se patana. It. hfl calez grande dourado e5 
ssua patana. It. hua cruz de prata dourada. It. duas Enpollas de prata. 
It. hua copa de prata cô - seu calez e cruz. It. hu tributo de prata. It. 
hua cruz pequena de prata. It. no Altar de santa Maria a hua sauaa 
husada e hu Alffanbar. It. hua cruz que deu o còcelho A santa Maria 
os quaes ornamentos sou da Egreia por que os deriJ os fregesses da 
dita Egreia e Achou o dito Gonçalo steuez que erS entreges AVaasco 
Steuez Raçõeiro da dita Egreia c por que Achou que se dan ssenpre 
En poder du Raçõeiro ou do tessoureiro da dita Egreia. A que as dauã 
os ditos Raçoeiros se tal Era ou se daua ffiadores mandou que o dito 
Gonçalo steuez os teuese como os Ante tjnha E foj Achado que a dita 
prata tjnha Martim Anes prioste e Raçõeiro da dita Egreia e outrosy 
Vaasco steuez Raçõeiro da dita Egreia tynha todos os ornamentos que 
som da dita Egreia segundo per Ellcs foj cofessado. Testemunhas 
Joham Lourenço vigairo da dita vjla e Joham eanes creligo e Martim 
dominguez tabelliSes de beia e Joham dominguez do paço e Vaasco 
■ Steuez scudeiro e Affomso monjz tabelliom de fronteira. 

Somsel 
Estes som os ornamentos que ha na Egreia de soussel primeira- 
mente. It. hu domingal nouo e outro uelho. It. hu ofhçial mjstico. It. 
hu gaiteiro hussado. It. hu salteiro velho Roto. It. hu santal e hu ca- 



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308 O Akciieologo Português 

ri t anho e híi liuro de bautiçar. It. hu liuro do offiçio do corpo de deus 
e hu caderno domgímcnto. It. hu caderno de santa maria e de si 
bras. It. hu caderno de posses. It. hu missal de misas priuiadas (?). 
It. quatro gathetns destnnho quebradas. It. hu bacio e hua caldeira de 
cobre. It. hua naueta destanbo c8 sua colhar e hua Capa ffestiual. 
It. quatro sobrepelizas n5 boas. It. híía capa de mortuoro*. It. hil manto 
de geebe velho. It. hua manta ffestiual perfeita. It. hu manto de Ijnho 
de cruz ucrraclha e híi manto quareesmal. It. duas stolas e dous ma 
nipolos. It. Ma vestimenta de pano de linho. It. hu destalho de pano 
de Ijnho de coores. It. hua Argora de Bino e bua Rede de ferro. It. duas 
vestimentas de pano de linho perffeitas. It. hua cruz de prata E hu 
tribulo de prata e quatro calezes. e ffoy logo per os homeês boôs dito 
da dita vyla que bj stauã presentes que custume Era En A dita vjla 
que também os ditos ornamentos come A dita prata que Algíie homês 
boos poBserom En A dita Egreia per sas Almas e que o procurador 
do côçelho os tjnha sempre En poder per conto e per Recadaçom En 
cada hu Ano E o dito Gonçalo Steuez mandou que asj os teuese segundo 
hera scríto En hua scrttura Seita e Asj nada per maao do tabeliom de 
sousel que Andaua scrita En hu Ijuro do dito Gonçalo Steuez trage 
dos bê"es do Meestre. 

Era de mjl e quatrocentos e Çjnco anos ssete djas dabril En ffron- 
teira no castello do Meestrc per ante Gonçalo Steuez proueedor dos 
bees do Meestrado daujs presente mjm Affomso monjz tabeliom dei Rej 
Em a djta villa e testemunhas adeante scritas o dito Gonçalo Steuez 
mostrou Estas scríturas todas suso scritas as quaes El tragia scritas 
En híi ssen Ijuro de papel e mandou a mjm Afonso monjz sobre dito 
tabeljom que lhas traladasse En Esto Ijur" e lhe dese o tralado so mou 
sjnal as quaes Eu tabeliom vj Bcritas per maaos de tabeljSes e so seus 
BJnaes e Eu per seu mandado as screuj e traladej En Este Ijuro teste- 
munhas Pedro ffalageiro e Joham Açenço priol e Joham díajpo e Mar- 
tjm Gonçalvez e lojs e outros e Eu ia dito tabeliom que Estes traJados 
per mandado do dito Gonçalo steuez screui c aqui meu sjnal ffiz que 
tal he + em testemunho de uerdade '. 

Pedro A. de Azevedo. 



A um areheologo : tVós tendes a toda velhice do mundo mettida 
nesse peito, e apenas ha antigualba que não hajais lidoi. 

Fr. Amador Arraia, Dialogo», ir, fl. 112, ed. de 1G04. 



i Arcbivo Nacional, Ordem de Avis, maço 5. 



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O Archeologo Português 



Trituradores de pedra 



Por occasiâo das excursões archeologicaa que temos feito a bas- 
tantes castros, só em dois encontrámos, em suas ruínas, uns utensílios 
de granito destinados, como suppomos, á trituração dô cereaes, e se- 
melhantes aos que foram usados por diversos povos da antiguidade. 



A figura representa o de maiores dimensões: compõe-se de duas 
peças, sendo a primeira uma pedra achatada e tosca, que tem no centro 
uma cavidade oblonga de in ,5õ de comprimento e m ,28 de largura; 
e outra pedra, também de granito, com forma triquetra, com o com- 
primento de m ,30, e que servia de pilão; na figura está ella repre- 
sentada sobre a primeira peça descripta, e apresenta-nos á vista a parte 
superior. A peça menor funccionava movida dentro da cavidade da 
outra com as duas mãos. 

Outros apparelhos similares de varias dimensões se tem encontrado 
e se podem classificar em três typos, aproximadamente: o primeiro typo 
fica já descripto; o segundo é um pouco menor e o pilão é também 
de granito, com forma oval, tendo plana a parte inferior; o terceiro 
typo é de tamanho aproximadamente de mi ,01 , com a cavidade circular 
pouco funda, servindo-lhe de pilão uma pedra de forma cónica. 

O trabalho para a trituração, com estes últimos exemplares, fazia-se 
coin uma só mão. 

Bragança, Maio de 1902. 



Celestino Beça. 



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O Archeolooo Português 



Pelos jornaea 
1. Coln» 



«Coina é povoação antiquíssima, pois é a Equa-Bona dos romanos. 
D. Manoel deu-lhe foral a 15 de Fevereiro de 1516. Tinha juiz ordi- 
nário e misericórdia e foi concelho, supprimido cm 24 de Outubro de 
1855. Teve sele igrejas, hoje não tem nenhuma. Tem uns 20 habi- 
tantes, amarellos e quasi sempre com febres, que mais parecem recem- 
chegados da Africa do que de uma povoação de onde se avista Lisboa. 
Palhaes foi terra importantíssima. Em 1757 tinha 800 fogos, vasta 
igreja, feira annual que durava três dias. Próximo estava o convento 
fundado em 1542 por D. Francisco da Gama, filho do grande desco- 
bridor do caminho marítimo para a índia. Hoje é uma povoação deca- 
dente, com pouco mais de uns 20 fogos, e peor estaria se níío fosse o 
Sr. Pacheco c outros que teem empregado os esforços c boa vontade 
para povoarem Palhaes. Para frisar bem o que acabamos de affirmar, 
vamos citar parte do relatório elaborado pelo fallecido João Andrade 
Corvo, apresentado ao Ministro do Reino e publicado em 1860. Entre 
ontras cousaa diz: Coina em 1763 tinha 170 fogos ou proximamente 
500 habitantes; em 1822, isto é, 60 annos depois, e passados 12 a 14 
de cultura de arroz, Coina tinha só 65 fogos com 150 habitantes; em 
1849, isto é, mais 27 annos de cultura de arroz, Coina estava reduzida 
a 46 habitantes. Calculando a população média de Coina pelos 3 annoí 
de 1849, 1850 e 1855, acha-se que ella é de 65 indivíduos; pode ainda 
reconhecer-se que esta minguada população é renovada por individues 
vindos de outras localidades. Numa população média de 65 indivíduos 
houve 61 óbitos e 37 nascimentos. 

Por aqui se vê a salubridade de Coina, valle de Zebro e Palhaes, 
e apesar de se terem extinguido os arrozaes, existem ainda os pân- 
tanos miasmaticos, focos de febres ou sezões que teem victimado os 
filhos da terra, habituados ao clima, e com mais razão hão de victimar 
aqnelles que para aqui são mandados fazer serviço. Não está longe o 
tempo (Julho, Agosto e Setembro) de se fazerem sentir os effeitos da 
salubridade, e então conhecerão os erros de collocar em Valle de Zebr> 
uma das primeiras escolas do país. Será muito bom para quem ali vi 
de visita, demorando-se pouco tempo; mas para os desgraçados obri- 
gados a estarem ali permanentemente, é condemná-los a morrer. Sf 
ainda 6 tempo de remediar este mal, aconselhamos que o façam, para 
poupar vidas e dinheiro ao Estado. 

(Vanguarda de 12 de Maio de 1902). 



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O Abcheologo Português 311 

2. Achado do moedas ao pé do Yllla Keal 

«No monte da Raposeira, em Villa Real, foram encontradas algumas 
moedas antigas de ouro e prata e duas ossadas humanas. 

Este achado fez-se emquanto se procedia a umas escavações i. 
{Correio da Noite ile 14 de Agosto de 1902). 

8. O antigo cemitério na freguesia doa Anjos. — Um appello 
ao Ect. Prior da mesma freguesia 

•Devem começar em breve os trabalhos para o aterramento do local, 
junto á Igreja dos Anjos, onde até o reinado de D. Maria II se en- 
terraram os cadáveres dos moradores d'aquella freguesia. O terreno 
fui, como é sabido, cedido pela Irmandade do Santíssimo á Camará 
Municipal pela quantia de 5005000 réis. Até 1811 o espaço de terreno 
era muito pequeno, sendo naquella época alargado com a acquiBiçlo, 
por assim se tornar necessário, do maior espaço, cujo dispêndio foi 
custeado pela Irmandade de Santo André e Almas. Ainda ali se con- 
serva numa pedra gravada a data de 1811, como recordação das obras 
do alargamento. 

Conta-se que, procedendo-se ainda não ha muitos ânuos á construc- 
ção de um pequeno muro, que ainda hoje existe, foram encontrados 
ossos em tão grande quantidade que se tornou indispensável a aber- 
tura de uma valia para os enterrar. 

Diz-se igualmente que dos muitos corpos ali enterrados ainda hoje 
ha descendentes vivos naquella populosa freguesia. 

Já aqui apresentámos o alvitre, no qual insistimos, de a Irmandade 
do Santíssimo mondar proceder, sem perda de tempo, á remoção das 
ossadas d'aquelle cemitério para o do Alto de S. Joio, com o que gas- 
taria bem pouco dinheiro. Seis caixões grandes de madeira ordinária 
seriam por certo os sutficientes para receberem todas as ossadas. 

Ora, recebendo a Irmandade do Santíssimo 5000000 réis pela ce- 
dência do terreno, nío seria extraordinário que d'eeta quantia tirasse 
20^1000 ou mesmo 400000 réis para a remoção das ossadas, tanto mais 
que a venda do terreno do antigo cemitério não pôde nem deve ser con- 
siderada « como vendai dos corpos ali enterrados. O terreno vendeu-se 
é facto; agora o que em nome da caridade e da religião tem de sair 
d'ali são as ossadas, para que não digam os criticos e os maldizentes 
que foi uma venda completa. 

Alem de tudo isto, aterrado o antigo cemitério e dado o caso que 
por desleixo ou esquecimento, que o não pôde haver, se não faça a 
remoção das ossadas, mais tarde, quando a Avenida dos Anjos estiver 



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312 O Abcheologo Pobtoguês 

concluída, tornar-se-ha necessária a construcçlo de um collector, e, 
assim, teremos 08 obbos dos que em vida foram bons cathoíicos e que 
sem duvida contribuíram para as obras e festividades naquelia igreja, 
a servirem de ponto de apoio e de argamassa ao mesmo collectorl 

Ora tudo isto poderá ser o que quiser, mas de religioso e decente 
é que não tem a mínima sombra! 

Portanto, para este assunto, a nosso ver importante aos interesses 
da religião, cbamamos a attençâo do Rev. Prior da freguesia dos An- 
jos, sacerdote muito digno e illustrado, para que influa, quanto possa 
e estiver na sua alçada, a fim de levar a Irmandade do Santíssimo ■ 
proceder, embora com a máxima economia, mas com brevidade e como 
lhe compete, á completa remoção das ossadas do antigo cemitério para 
o cemitério municipal». 

{Diário de Koticia» de 20 do Outubro de 1902) 

4. O convento de Ferreira de Ares 

tSerá vendido no dia 23 do corrente em hasta publica, no Minis- 
tério da Fazenda, o edifício do Convento de Santa Eufemia, situado 
no concelho de Satura, freguesia de Ferreira de Aves. 

A base de licitação é de 375)5000 réis. 

Está era ruínas com parte dos muros em terra, portas, madeira- 
mento e telba roubados, etc. 

Ha sete annos, quando falleceu a ultima freira, valia alguns contos 
de réía. Hoje pouco vale». 

[Diário de Notícias de 6 de Novembro de 1902). 

Pedro A. de Azkvedo. 



Mosaicos romanos de Portugal 

Sob esta epigrapbe vae reunir -se n-0 Areheologo uma serie de artigos a res- 
peito de mosaicos romanos encontrados cm Portugal. Alguns d'estes artigos sao 
reproducção de outros já publicados; mas também ae incluirão aqui artigos ine- 
dito*. 

Se as antiguidades romanas, do qualquer natureza, tem sempre muita impor- 
tância, porque ajudam a recompor o quadro aocial de épocas passadas, das quaet 
ás vezes mui poucas ou nenhumas outras noticias possuímos, e porque constituem 
cm particular documentos históricos das localidades em que apparecem, os mo- 
saicos gozam da vantagem especi alisei ma de nos conservarem testemunhos quasi 
directos da pintura antigo, por serem a forma artística que mais se aproxima 
d'ella; o seu valor é ainda realçado quando representam acenas mythologicas, 
usos da vida, emfim, quando sito figurados. 



3gle \ 



/ 



O Akcheologo Português 



No nosso país ha ainda bastante» mosaicos, o estio com certa frequência ap- 
parecendo outros; com tudo tem-ae destruído muitos. Arehivar notieias de mosaicos 
conhecidos, e influir no animo do público para qne se conservem os que de futuro 

apparecerem, pansce-me serviço não despreciarei. 

1. Mosaicos do Arnal e S. Sebastião 

Ha tempos li, com prazer, a notícia dada pela Ulustrated London 
Neva», de 2 de agosto de 1856, relativamente a nm bello espécime 
de pavimento romano enxadrezado, descoberto em Cirencester, e tras- 
ladado com excellente êxito; e não pouco satisfeito fiquei de ver que 
se haviam dado adequadas providencias para bem se arrecadarem e 
conservarem aquellas relíquias de tempos que passaram. 

Muito fora para desejar que, num país como Portugal, onde tantos 
vestígios das artes romanas se acham indubitavelmente enterrados no 
chão, se olhasse com igual desvelo para os restos da antiguidade, e se 
fizessem as necessárias diligencias para se estudar a sua historia, e se- 
gorar a sua boa conservação ; mas, infelizmente, por effeito da igno- 
rância provinciana, taes relíquias, quando por acaso se tem encontrado, 
Mo sido descuidosamente destruídas, para se satisfazer a algum fim 
immediato, sem primeiramente serem submettidas á inspecção de al- 
gum homem competente, que pudesse apreciar o seu valor. 

Próximo a Setúbal existem, sem dúvida nenhuma, os restos de 
ama cidade romana, de cujas habitações se pode ver uma grande parte 
sem muito trabalho. Alguns annos ha que, por meio de subseripçôes, 
se fizeram algumas tentativas para excavar e trazer á vista aquelles 
objectos; mas, tendo passado o primeiro enthusíasmo, falleceram os 
meios, veiu a indolência, a areia tornou a cobrir o que estava feito, 
e o negocio deixou de ter quem se interessasse nelle. 

Noutro logar, a curta distancia de Leiria, ha um armazém de vi- 
nhos, ou adega, cujo chão esteve noutro tempo coberto de pavimento 
enxadrezado romano, de que restava ultimamente uma parte com um 
lavor elegante. Esta relíquia foi comprada e trasladada para Lisboa 
pelo Sr. J. L. 0'Sullívan, Ministro dos Estados Unidos nesta corte. 

Mas, para entrar com mais especialidade no assunto para que chamo 
a attenção do leitor, direi primeiro 'o seguinte: O rev. Patrício B. 
Russell, doutor em theologia e reitor do collegio do Corpo Santo, 
nesta cidade, quando andou examinando a formação geológica e cara- 
cter mineralógico do terreno adjacente a Leiria, encontrou num campo 
alguma porção de pavimento marchetado, que lhe pareceu ser de origem 
romana. Comprou, pois, o direito de fazer escavações, e metteu ope- 



■aby Google 



314 O Aecheoloqo Português 

rarios á obra. O resultado foi sair a lume um interessantíssimo espé- 
cime de pavimento romano de mosaico, muito maior do que o que 
geralmente apparece, e apenas três pés abaixo da superficie. Este des- 
cobrimento ó duplicadamente curioso, porque o pavimento conatitoe 
o solho de uma casa, dividida em vários quartos, e cujas paredes, 
tanto divisórias como externas, ainda se conservam na altura de cousa 
de pé e meio. 

O sítio chama fie Ârnal, aldeola que fica a três ou quatro milhas 
ao NW. da Batalha, celebrada com tanta razão por causa do seu 
mosteiro levantado por I). João I em acção de graças pela victoria 
ganha sobre os castelhanos em 1385, na celebre peleja de Aljubarrota. 
D'aqui tomaremos ensejo para dizer que os restos mortaes d'aquelle 
monarcha e os de sua esposa D. Fjlippa, filha de João de Qannt, Duque 
de Alencastre, jazem alli sepultados; bem como os de quatro de seus 
filhos, entre os quaes se conta o sempre memorando Príncipe D. Hen- 
rique, que, ainda joven, resplandeceu como heroe conspícuo entre oa 
heroes, e que, mais tarde, esquivando-ae ao luzimento da corte, gastou 
os restantes dias de vida no árido promontório de Sagres, estudando 
sem repouso, e animando com mão liberal a navegação e artes a ella 
accessorias; em forma que a elle, exemplar precursor do Gama e do 
próprio Colombo, Portugal e o mundo deveram eminentes serviços pelos 
numerosos e importantes descobrimentos marítimos, que em tempos 
antigos se fizeram. 

Mas tornando a matéria (e deixando aquella certamente perdoável 
digressão), para auxilio das conjecturas que se possam fazer relati- 
vamente ao edifício romano de Arnal, bom será ponderar-se que aquella 
aldeia demora c6rca de três milhas ao NW. de Leiria, aonde se suppõe 
que teve assento a antiga Collippo dos Romanos, regida por um pro- 
cônsul. Leiria esta vantajosamente situada sobre o rio Liz, que a breve 
distancia mistura as suas aguas com as do Lena. Este ultimo nasce 
na serra de Porto de Mós, nove milhas para a parte do Sul, e rega 
um fertilissimo valle, que atravessa no seu comprimento, correndo em 
direcção septentrional para a banda de Leiria. 

Mais se pudera dizer da fertilidade do solo, em tanto que a sua 
feição geológica, ou antes mineralógica, pareceria ter relação com o es- 
tabelecimento de uma vivenda " campestre ornamentada com tanta ri- 
queza como o é a de Arnal. O carvão acha-se alli em abundância, 
e o minério de ferro de exeellente qualidade não é menos profuso. 
Os Romanos, com aquelle animo emprehendedor que os caracterizava, 
tiraram partido sem dúvida das particularidades mineraes d'aquelle 
território; não deixaram de ver por certo o proveito com que alfi se 



cbyGOQ^IC 



O Archeoloqo Portcguèb 315 

podia exercer a manufactura do ferro, tão necessária para as suas ex- 
pedições bellioas; e hoje ha provas manifestas da grande escala em 
que elles produziam aquelle material de guerra. As suas fornalhas 
de fundição, construídas em muitos sítios, desde Porto de Mós até 
Leiria, e nas immediaçÕeB de Leste a Oeste, deviam ser muito pr 
ctivas. As ruínas d'esses fornos, alem de immensos depósitos de c 
rias, ainda se encontram em vários pontos, numa área de 15 m 
quadradas. Tinham estabelecimentos metallurgicos em Porto de ] 
Alqueidao, Amai (sitio do mosaico), Valle de Orta, Necessidades, 
ximo a Leiria, e ao pé da Marinha Grande, á beira do grande Pit 
Tem-se encontrado nos depósitos de escorias alguns pedaços de n 
cm barras, de seis pollegadas de comprimento, quatro de larg 
e três de espessura; em tanto que muitos dos depósitos ou mi 
de escorias, que duram ha mil e tautos annos, estão coroados df 
nerandos carvalhos. 

O recente descobrimento do carvão, no valle da Batalha, veiu 
nova importância áquelle dístricto. O jazigo ê da mesma idad 
carvão dos Alpes e Yorkshire, e foi sublevado pela elevada es 
de calcareo jurássico, que corre de Norte a Snl, numa altura de 2 
pés, desde líio Maior até o pé do Mondego. Grandes filões de : 
polar e magnético atravessam aquellas montanhas, em tanto qu 
valles, e muitos inferiores jacentes entre as montanhas e o mar, abun 
em rico minério de ferro argiloso, e os costumados carbonatos 
terrenos carboníferos. Ao passo que se caminha dos montes para o : 
a formação jurássica desapparece por baixo da oolitíca superior, a 
também fica coberta pela suhcretacea. É no ponto de contacto d'i 
duas formações ultimamente ditas que se encontrou o precioso 1 
magnético, de que se serviam os romanos. 

Com taes vantagens, num âmbito de muitas milhas, pode f 
mente suppor-se que as vizinhanças de Leiria foram, em tempos n 
antigos, tanto por serem sitios aprazíveis, como por interesse, 1 
tadas por pessoas que podiam tirar proveito da fertilidade do 
a da riqueza mineral nelle contida. Deveu, pois, alli ser o centr 
uma população dilatada c industriosa, do que se encontram basti 
provas no cbão, ainda hoje povoado de vasos de louça quebr 
e telhas. Não nos deve, portanto, causar admiração o achado de 
casa esplendida (e talvez que haja ainda outras) nas proximid 
de um município, sob a intendência de um procônsul, numa prov: 
do império romano, como Portugal por muito tempo foi. O edi 
de que se trata, se não era residência do próprio procônsul, podi 
sido, talvez, a do superintendente dos trabalhos de mineração, O 



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316 O ÃKCHEOLOGO PORTUGUÊS 

algum romano opulento que houvesse escolhido o sítio por causa da 
sua salubridade e formosura. 

O chio do edificio, a julgar pelo que até agora ee tem excavado, 
parece ser na máxima parte um parallelogrammo, correndo Nordeste 
e Sueste, com uma saliência no meio da extremidade do Nordeste, 



formando mais do que um semi-circulo com um raio dentro do muro 
de nove pés e duas pollegadas, o que augmenta consideravelmente 
o tamanho da camará principal. As paredes exteriores e as que dividem 
os quartos s5o todas da mesma grossura, que anda por meio metro, 
ou pouco mais de um pé e sete e meia pollegadas; e silo feitas dos 



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O Akcheologo Portcoiés 317 

mesmos materiaes, que consistem ein pedaços de pedra irregulares, 
mas bem unidos uns aos outros, o cimentados com argamassa, tendo 
pedras de cantaria nas umbreiras das portas e janellas. A pedra de 
que se comprem as paredes está misturada com pedaços de telha 
6 porções de escorias aqui e acolá, o que mostra que os fornos de 
fundição das proximidades já então estavam funccionando. A exea- 
vaç&o ainda não chegou a descobrir todo o edifício, nem o local da 
entrada principal. A maior extensão de muro encontrada é de 15 
metros, ou cerca de 180 pés ingleses; mas ainda resta mais por des- 
cobrir. Na extremidade do muro do lado de Nordeste, e do lado de 
Sueste, na extensão de G8 pés pouco mais ou menos, é que se tem 
feito a principal escavação, e é que se tem encontrado o pavimento 
de mosaico. Todos os quartos são assoalhados de mosaico, á excepção 



de um só. O desenho, porem, que enlre todos mais ee distingue, é 
o do quarto principal (fig. 1.'), que, incluindo a extremidade circular, 
tem 10™ ,55, ou mais de 3ô pés de comprimento, e 5 m ,45, ou perto 
de 18 pés de largura. Todo este quarto está cheio de pavimento mar- 
chetado, a parte circular com um desenho de ornato do xadrez preto 
e branco, ao passo que a parte rectangular representa em ditferentes 
cores a fábula de Orpheu amansando os brutos, e encaniando-os com 
a musica da sua lyra. O lobo e o porco montês vêem-se alii em pé, 
com silencioso pasmo olhando para o tangedor; a raposa, deliciada 
com os novas sensaçíies que experimenta, levanta-se, e põe uma pata 
no rochedo em que Orpheu está assentado, e outra pata na própria 
lyra ; o gamo, a maior distancia, parece estar jmmovel escutando a mc- 



cbyGOQ^IC 



318 



O Abcheologo Português 



lodia, em tanto que o coelhinho mostra ir correndo sem saber para 
onde corre, nem o que sente. Alem d'aquelles, ha mais três animaes, 
que parecem não formar parte do bruto auditório, c são uma panthera 
no tope e um veado e alce no fundo, collocados como objectos de or- 
nato e para encher espaços. Os quatro cantos do quadrangulo que 
serve de moldura ao píttoresco painel estão embellezados com quatro 
cabeças maiores do que o natural, e que, em razão do sen numero. 
podiam representar as quatro estações; mas não ha bastantes sinaes 
característicos, que autorizem uma tal supposiçSo. Esta é a única 
alcova em que se acham imagens de objectos viventes; nas outras ha 




bó desenhos ornam entaes, alguns dos quaes são muito elegantes, como 
se vê na fig. 2.*, que representa metade do pavimento de um quarto. 
A fig. 3.* representa tudo o que restava do pavimento de mosaico 
preto e branco, que o Dr. Russell descobriu em S. Sebastião, distante 
milha e meia, pouco mais ou menos, da Batalha, e a que já se alludiu 
como havendo sido encontrado numa adega, e comprado pelo Sr. 0'Sitl- 
livan, que o mandou trasladar para Lisboa. Numa capella antiga, em 
S. Sebastião, vê bê também uma pequena columna quadrada, de mão 
de obra romana, de dois pés de altura pouco mais ou menos, e que 
está reservada em local particular, servindo de apoio a uma pia de 
agua benta. Tem a seguinte inseripção: 




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O AucnEOLOGO Português 319 

Alguns dos nossos leitores poderão melhor ajuizar da valia d'estes 
pavimentos, com parando -os com outros bem conhecidos. Se tivermos 
presente a obra de Montfaucon, Uantiquité cxpliquée, nito se tei 
contrado outro, ou poucos mais se havcrZo encontrado de maic 
tensão, e mais bem executados, excepto, talvez, na Itália. Ai 
autor copia com muita cxacçào do Pitiscus (Lexlcon Antiquitatui 
manam) a estampa de um mosaico romano acbado ao pé de Woo 
em 1712, e que é também composto de xadrez de cores, paro 
ter pertencido a um templo de Bacuho. As dimensões dadas por Pi 
são 36 pés por 15, igual a 540 pés quadrados; em tanto o pavh 
da casa de Amai anda por 1:600 pés quadrados, de que mais d< 
terços são de mosaico de cores. Como tive o gosto de acomp. 
o Dr. Russell e o Sr. 0'Sullivan, quando foram examinar o andai 
das excavações, posso falar, como testemunha ocular, da gra 
e importância d'aque1las bellas antiqualhas'. 

{Do Archho Pittoraco, i, 125). John Maetm 



Extractos archeologicos 
das «Memorias paroaMaes de 1758» 

478. Tancos (Estremadura) 

Ouro 

• Este rio conccrva sempre o mesmo nome emté o perder n< 
occeano onde morre, que he a Barra de Lisboa. Afirmace que df 
áreas se tira e tem tirado muito ouro e disso tem todos os sínae; 
doce ahinda por muitas partes as comcauidadcs e minas por oní 
minarado e bastante ouro tenho tenho visto tirar por huns pobr 
mcns a superBcia da Terra, sem cavarem, nem terem mais trai 
que ajuntarem área dos Inxurros, dizem que tãobem nestes 1< 
ha minas de estanho ou xumbo, segundo se me mostrou por um pt 
de pedra que tenho». (Tomo xxxvi, fl. 87). 

479. Taiigll 



■ Não tem priuilegios nem antiguidades só tem uestigios d 
torres huma no lugar de Crastello, outra no lugar do Paço, o 
na Casta, que são do sollar dos Soares». (Tomo xxxvi, fl. 91). 



1 [A inscripeão de pag. 318 lê-se assim no Corp. Inter. Lat., 
ALBONIVS— TACILLI— PROF— SATVRN1NO— MILITANTE— , 



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O ArCHEOLOOO POBTCCtOÉS 



480. Tarouca 



■Tarouca vílla antiquíssima, situada na Prouincia da Beyra, Bis- 
pado e Comarca da Cidade de Lamego, foi fundada em (empo doa 
guodos teve hum castello muito dcfençavel por arte e por natureza 
por estar situado na iminência de hum monte quazi inacesivel pela 
parto contraria a vílla em cujas ruínas existe hua devota Hirmida». 
(Tomo xxxvi, fl. 103). 

181. Tarrvae 



«Esta esta freguezia toda a roda cercada de campos lavradios, e 
sO por hua parte coazi no meyo delia tem hum Monte mais levantado, 
que será tanto, como a tersa parte dos campos lauradios da dita fre- 
guezia e dizem os Antigos fora este Monte Cidade de Mouros, porque 
se chama este Monte da Cividade, bocabullo corruto, e deste Monte 
se descobre terra e Mar sinco Legoas thé Vianna que fica ao Norte 
c sinco the o Porto, que fica ao sul». (Tomo xxxvi, fl. 116). 

182. T«Ttr» (Algarve) 

PrtTlJetfo 

•Tem os Escudeiros e povo desta cidade de Tavira a merçe de 
gozarem nos cacos crimes do mesmo privillegio que os cavalleiros tem 
por carta do Sr. Rey D. Manuel da feliz memoria de 14 de Septembro 
de 1506, etc.» (Tomo xxxvi, fl. 134). 

Pedbo A. de Azevedo. 



Erratas 



No fascículo 8-9, p. 209-210, a descripção da espada está feita 
como se o desenho ficasse invertido, e por isso, onde, a p. 210, linha 6, 
se diz figura da direita deve ler-se figura da esquerda, e onde se lê 
figura da esquerda deve ler-se figura da direita. 

No mcsino fascículo, p. 221, última linha, leia-se os tanques des- 
critos em vez do as tampas descritas. Ibidem, p. 222, linha 1.% faltou 
dizer que o vol. d O Archeologo citado é o iv. 



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VOLUME VII 
I-INDICE DAS MATÉRIA! 



AQUISIÇÕES : 

Vid. Mturtu. 



Contai de pedra : 71. 

Adorneis variou de cobro, du Tróia ; 179. 

XorcH de ouro: 150. 

Viii. 1'rdiUtorin >• SiKKda4.ke mxhtulogiC\ 

ALFAIAS : 

Vid. Ineetilario. 

ALPHABKTO: 

Vid. &}ii;/riij>hii.i, Nuiiiim)<.i.lii:ii, 



Que talvez seja anta: 239. 
Anta qui! servia de ara: 270. 
Vid. Anta, Iwentarío. 



Km Alcalar: !lf. 

Em Avcoa de Valdevez : 193 (i>.i serra de fejotfjo, 4li 
No Barrocal, concelho de Évora: 21í*. 
Km Ruivos (Beira); 76. 
Em tjanlioane (Tris-os-Moutes): 12U. 
Em Sontcllo (Minho): 270. 
Km Tnift-OH-M<sitr«: 9 o 10. 
Em Villariíiiio (Carrazeda de Anciães): 273. 
Em Zedes (Carrazeda de AnciSes): 273. 
Vid. AUar, 1'whittoria e Lenda». 



cbyGOQ^IC 



O Archeologo Pohtdgubb 



ANTIGUIDADES LOCAES: 



Alandroal : 261 (inventario da Ordem de Avis). 

Avis: 227 e 228. 

Barrosas: 175 (estação romana junto a Serpa). 

Beja: 192 (objectos romanos de vidro), 243 (antiguidade» romana*), 

305 (inventario da Ordem de Avis). 
Borba: 227 (id.). 

Évora: 218 (anta* do Barrocal). Vid. Tonrega. 
Fronteira: 231 (inventario da Ordem de Avis). 
Juromenha: 2fi!t (i<l.). 
Mencejaiia : 238 (cHstello). 
Mertola: 67 (moedas romanas), 100 (estatuas luso- romanas), 144 (iiis- 

cripçilo christã), I83 (muralhas, sua reparação, século xv). 
Moura: 261 (inventario da Ordem de Avis). 
Sondar: 2fil (id.). 

Rio de Moinhos : 81 (inscripção portuguesa). 
S. Bartolomeu da Serra: 238 (denominação gcographica). 
S. Romão: 74 (minas). 
S. Francisco da Serra: 236 (mina). 
S. Simão da Serra: 239 (grata). 
Seda: 190 (enstello, etvmologia). 
Serpa : 175 (luccriia romana), 238 (iuseripçao romana). 259 (inventario 

da Ordem de Avis). Vil. Barrosas. 
Sines: 26M (sepultura de 8. Torpes). 
Sousel: 307 (inventario da Ordem de Avis). 
Tou repa- Évora : 221 (ruínas romanas). 
Vallc de Hessejaua: 55 (machado de pcdrai. 
Veiros : 332 (inventario da Ordem de Avis). 



Atcalar: 1*8 (dolmen de cúpula, graes de tatuagem, concha .sonora). 

Baralha e Serro de Bartolomeu Dias: 99 (necropoleda idade do cobre). 

CacelU: 119 (candeia arabc). 

Silves: 120 c 123 (id.). 

Sítio indeterminado: 100 (objecto prehistorko de ouro). 

Tavira: 320 (privilegio). 

Valle do Marinho: 98 (lagar lnso-romano). 



(,') Beira: 



Bobadella: 56 (arco romano). 

Domes: 161 (moedas romanas). 

Figueira da Foa: 98 (ethnograpbin, architectura). 

Idanha: 1G1 (moedas romanas). 

Macieira de Cambra: 54 (eraato). 



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O Archeologo Português 



Marialva: 13 (inscripçio). 

Mourisca: lil (moedas portuguesas). 

Pendia: 59 (mosaicos, etc.)- 

Riodadcs : 30 (ctymologia). 

Ruivos: 76 (antas). 

Sameiro : 123 (fonte e estrada, pia, machado, estrada e c 

mouros. 
Santa Olaia : 08 (castro). 

S.Vicente da Boira: 305 (inventario da Onlcrn ilu Avie). 
Satam: 312 (Convento de S." Eufemia). 
Scgadaes: 191 (cidade de Vaca). 
Seixas: 101 (cthnographia). 
Semache dos Alhos: 237 (lenda). 
Sernancelhe : 238 (forte). . 
Sindim : 267 (relíquia milagrosa, castello). 
Sortelha: 369 (fabrica de saragoça). 
Tarouca: 320 (castello). 
Tavarede : 98 (castro). 



1>) Eiitre-Douro-e-Miuho : 

Arcos-de -Valdevez : 81 (iiiscripçSo medieval), 193 (autas da st 

Koajo, alto do Mezio, Clià das Arcas). 
Braga: 12 (inscripçào romana), 13 (Bracara Augusta). 
Caminha: 103 (machado de duplo anel). 
Convento de Oliveira: 181. 

Eiriz (Paços de Ferreira): 265 (vasilha antiga). 
Ennello (S. 1 * Maria): 83 (igreja românica). 
Marco de Cnnavezes: 284 (balneário romano). 
Monção: 285 (castello da moura). 
Ribeirão: 28 (engenho de pesca). 
Rio Caldo : 2K (pedia com insculpi uras). 
Rio Covo: 29 (sarcophago). 
. Rio Frio: 30 (torre cm minas). . 
Rb de Galliuhas: 30 (ponte natural c lendária). 
Rio Tinto: 31 (minas). 
Rios: 32 (torre antiga), 
líomão: 7õ (ruínas). 
Romarigãcs; 75 (ruiu»* de. castello). 
Roriz de 1'aços d>' Ferreira: 22 (citania). 
Sá: 75 (campas com brasões). 

Sande: 124 (peua cobertonra; ermida com lenda: sepulturas, c 
Sandiui: 125 (Eufrásia, torre). 
S. líomão da Neiva: 74 (castello antigo). 
S. Tiago de Lanhos» : 128 (castello, inscripçoes). 
S._" Maria de Si: 7f> (vestígios de uma pretendida Britonia). 
Sapardos : 190 (cidade). 

Silva : 239 e 240 (castello, cova da Moura : cálix miraculoso). 
Silveiras i 240 (Sitaina e campo do Ouro). 



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U O AltCHEOLOQO POBTOGUÂS 

Sobrado t 268 (minoria). 

Sobre- Tâmega: 269 (balneário). 

Sou te Ho: 269 (minas, cidade, villa desaparecida, anta). 

Tabaeõ: 212 (relíquias do século xui). 

Taboádo: 272 (torres). 

Tangi! : 319 (eraitello). 

Tarroso: 320 (monto da eividade). 

Vallr (S. Pedro de Arcos ou S." Maria): 83 (antigo cenóbio u neeniNik). 

£) Estremadura; 

Alcântara: 61 (moedas portuguesas). 

Alcanede: 225 {inventario da Ordem de Avis). 

Alcobaça: 146 (mosaico cm Povoa de Cós), 284 (id), ISO nota (restot, 
de um templo). 

Alcmquer (casal dos Bugarcos): 156. 

Alferrar (Setúbal) : HG (adiados romanos). 

Almeirim: 80 (inscripção tumular). 

Arual (Leiria): S13 (mosaico romano e minas). 

Azeitão (S. Símao): 277 (pedra que obtura olho de agua). 

Benavente: 22G (inventario da Ordem do Avis). 

Bncetlas: 55 (moedas romanas). 

Cascvel : 59 (palácio incendiado). 

Cintra (8. Martinho): 129 (sepulturas ptchistoricas), 155 (xorcadeouro) 

Coina: 310 (noticias chorograpbicas). 

Leiria: 147 (vestígios romanos). Vid. Arnaí. 

Lisboa: 228 (inventario da Ordem de Avis), 63 (Poço dos Mouros). 64 
e 65 (Recolhimento do Rego), freguesia dos Anjos: 311 (cemitério). 

Porto-de-Mós : 147 (vestígios romanos), 161 (moedas romanas), 171 (ins- 
eri pç ão romana). 

Rcndidc (Alcobaça): 182 (ponte). 

Ribeira de Olival: 27 (inscripção). 

Rio de Couros : 29 (lenda de um caixão de pedra). 

Roliça : 32 (ruínas e moedas romanas). 

Runa: 76 (iuscripeòcs « restos de construcçòes). 

Salvaterra de Magos : 103 (machado chato de bronze), 123 (etyniologia). 

Santarém: 126 (epigrapiíia, casa subterrânea). 

Sapataria: 190 (pedras meilicina.es). 

Sciíat: 191 (inscripcao). 

Serrado Bouro (Fonte Santa): 239. 

Setúbal (Tróia) : 176 (antiqualhas romaufls). 239 (assento de Setúbal), 
275 (prebistoiia dos arredores, Arrábida, etc.). Vid. Alferrar. 

Sobreira Formosa: 268 (casa da moura). 

Tancos: 319 (areias auríferas). 

Tojal : 272 (raspas de uma imagem de pedra). 

Torres Novas : 180 (outao do Paço Grande). 

F> TráB-oa- Montes : 

Alto do Carroccdo: 70 (castro, objectos jirehisto ricos c 
Avidagos (Lamas de Orelha»): 11 (sepultura romana). 



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O Archeologo Pohtugués 



Bragança e Bemquerença: 14 e 15 (vária). 

Burçd (Mogadouro); 210 (espada antiga). 

Capelludos (Villa Pouca de Aguiar): 23 (estatua lusitana). 

Carrazeda, Moncorvo c Freixo: 274 (abundância de machados). 

Carviçaes: 274 (povoação romana). 

Cerro tias Penhas Juntas : 101 (minas o vestígios de habitação). 

Jou (Val-Passos): 9 (antas). 

Lamas de Orelhão: 14 (castro). 

Maçores (Moncorvo) : 273 (machado de pedra). 

Moucorvo: 149 (instmuientros de pedra). 

Mondrdes (Villa Real): 10 (antas). 

Montalegre : 106 (escopro de bronze). 

Pieote (Miranda do Douro) : 54 (lança de cobre). 

Raposeira (Monte da) cm Villa Real: 311 (moedas e ossadas). 

Riba Pinhão: 27 (imagem de pedra). 

Rio Torto : 32 (minas de forte). 

Roriz: 75 (minas, castro"?, caitollo). 

Sabrosa: 79 (castello, castro?, e estrada antiga). 

Salhariz: 123 (torre antiga). 

Sanfins : 125 (fortalezas ou castellos, moedas romanas, minas, mausoléu). 

Sanfins da Castanheira: 12G (castro).' 

Sanhoane : 12U (antas). 



Santa Martlia: 152 (sepulturas). 
Sontcllo: '271 (minas). 
Susães : 271 (minas). 
Valles (Carrazedo): 9 (antas). 
VUla-Flor: 11 c 12 (inscripçòcs 
Villarinho ; 273 (três antas). 
Zedes : 273 (uma anta). 



ARCHEOLOtílA: 
A) Naclonali 



I. —Por oivlom clironolopion 
Prehi a tori oa : 

Vid. Prehistoria e espécies occorrentes, como Âutat, Machado», 
Gruta*, e te. 

Prot oblato rica: 

Vid. espécies occorreutes, corno Caitro», Cartrlln, Citnvia, Ea- 
tatua, ete. 

Lusitano- romana ! 

Arco romano de Bobadella: 56. 

Vestígios de eonstruceúes a 2 léguas de Bragança : 71. 
Estação romana próximo de Almeirim : 80. 
Estatuas de Mertola: 100. 
Acbados em Alferrar: 146. 

Vestígios romanos na região de Alcobaça, Leiria e Porto de Mi'*: 
147. 



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O Abcheoloqo Português 



Antiqualhas romana* no concelho ile Santa Martha: 152. 
Lucerua romana de Serpa: 170. 
Cerâmica de Tróia: 176. 
Utensílios e adornos de cobre de Trota: 178. 
Objectos de vidro: 192 (Beja). 
Kninas de construccÕes : 221 (Évora). 
Antiguidades de Beja: 213. 
EataçSo halnear romana em Sobre -Tâmega: 269. 
Estaeílo romana cm Carriçacs: 274. 
Cippo e figura de pedra: 274. 
Balneário romano do Marco: 264. 
Tijolos, ete.: 285 e 287 (concelho de Monção). 
Exploração mineira, casa romana : 315 (visinh&nças de Leiria). 
Vid. Bibliographia, Epigraphia, Numimatica, Nomn, Sepul- 
lura», Insculphira, Arehitectura, e espécies occorrentes. 

Medieval : 
Barbara: 

Vid. Ejtigraphia, (Vrmníen, Inventario, Sepultura». 
Árabe: 

Candeias árabes algarvias: 119 a 122. 

Portuguesa : 

Batel do século xiv: 65. 

OutSo no Paço Grande em Torres Novas, século mi: 180. 

Cálix antigo e desusado : 240. 

Vid. Armas, Ultramar, Arehitectura e espécies oceorren- 



II. — Por oitlotn «eou-rapliica 
Vid. Antiguidade» lotara e Memoriai pnrorhiae». 
B) Estrangeira: 

Vid. Sociedade» arch&ihípca», Hetpaiiha, Fiijitrax, Extracto*, Pro- 
tecção á arehfoloaia. 



ARCHITECTURAt 



Arco romano : 56. 

Palácio de torreões: 59. 

Castello da Neiva: 74. 

Ruínas a rebi tectónicas, chafariz c fonte de cantaria: 78. 

Constnicçõcs antigas da Figueira : 98. 

Constrncçâo de um outSo, no século nu: 180. 

Restos archi tectónicos luso- romanos : 213, 

Memoria que recorda a rainha beata Mafalda : 2CS. 

Padrão de pedra: 271. 

Vid. Arrhfoiogia, Muralha», Turre, Ponte, Biiinus, Caxtdto, Forta- 
leza, Sociedade» arditolnyiro», Fonte, ete. 



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O Akckeolugo Português 



AOS A Kl A: 



Relação de armas do século svi ; 187. 
Espada antiga : 20ÍI. 
Víil. ho-nlarío. 

AUCTOEES: 

A) Antigos (citados no texto): 

Ansonio: 13. 
Eatrabilo: 23. 
Grutcro: 13. 
Heródoto: 290. 

Plínio; 147 e 172. 
S. Jerónimo::.. 
Virgilio: fl. 

B) Do rol. Til d-0 Archeologo PorlnjriiOs: 

Vid. Indiee especial. 

AVIS (Ordem ili>): 

Inventario dos ueus moveis, alfaias, cie. 



Em A leaiitara : 02. 
Em Lisboa : 64. 

BALNEÁRIO: 

Estacão balm-ar romana: 211!) 
Balneário romano: 284. 

BEBROES E BEZERROS: 

Vid. Figuraê e Tendas. 

RIBLI041RAPHIA: 

A) Arcbeologic» romaua: 3. 4 o 147 

B) Genealógica: 3. 

C) Numismática: 7, 107, 118, 101 a 172, 210 a 21S, 248 c 2HS. 

Vid. Extracto*. 
I>) Heráldica: 137. 
E) Ethnogrtphlra i ÍW. 
F> Varias M e 288. 

Vid. Socfrdadt» itrch&dngicat. 



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O Abchbologo Pobtugdês 



BIOtíRAPHlASi 

Manuel do Queiroga Correia Carneiro de Fontouri 
Damião de Góes: 33 (nota biographica). 
Bugareo: 156. 
Kuy Dias de Meneies: 156. 

BRÂZOEBi 

Vid. Heráldica e Concelho. 



Objectos indeterminados: 71. 
Escopro ou cinzel : 106. 
Candeias de bronze: IV.) e 120. 
Objectos dai sepulturas prehistorioas de Cintra: 134. 
Vid. Mrtallvrgica, Machado, 1'rckiitnria. 

CÁLIX i 

Antiquíssimo: 240. 
Vid. Inventaria. 



Candeias árabes do Algarve 
Vid. Lueena. 



«Casa doa Mouros» em Santarém: 128. 

• Casa da Moura- cm Sobreira-Formosa : 26!) 

Casa romana perto de Leiria: 815. 

Vid. Caêtro, Castello Anta», Mosaico. 



Vestígios de um cattelía de terra: 75 (castro?). 

Castello (castro ?J com muros, fossos e vestígios de casas: 79 (Sabrosa). 

Castello com vestígios de muralha : 125 (castro?). 

Castello na Serra de Villarelho : 125 (castro?). 

Castello de Lanhoso: 128. 

Castello de Arminho (Aleuitejo): 190. 

Castello de Alparrajno: 190 (castro?). 

Penhasco como se fora castello : 191. 

NaVilla de Mencejaua: 238. 

Castello ou torre só com as paredes : 239. 

Castello de D. Thcdom sobre o rio Távora : 2C8. 

Castello (ou Cova) Ua Moura ou dos Milagres (Monção): 2BÍ». 

Crastello: 319 (Tangil). 

Castello de Tarouca: 320. 

Vid. flatliv. Arckiteetiira Fnrtalexa, Torre. 



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O Ahcheologo Português 



Cabeço diis Fruíras: 15 (antigo Cabeço da Cidade). 

Castro de Capclludos: 23. 

Coto do Crasto (Monção): 287. 

Coto da Pena (Arcos de Valdevez): 197. 

Lamas do Orelhão : 14. 

Macieira de Cambra: 54. 

Monte de S. Caetano (Monção): 287. 

Roriz: 76 (castelini e castello do mau vizinho), 

Sabrosa: 79 (castro ou castello antigo?). 

Sanfins: 120(crasto de). 

Santa Olaia: 98 (crasto de). 

Tavarcde : 98 (castro de). 

Vid. Caêíillo, Citmiin, Cidadr, Surinliulrs nri-henlof/int 

CAVIDADES; 

Vid. Tnustilptura». 

CELTAS: 

Nomes da origem céltica: 171. 
CERÂMICA: 

Tigela medieval: 94. 

Candeias árabes do Algarve: 121 e 122, 

Barro sagnntiuo de Alfcrrar: 146. 

Cerâmica luso-romana: 153. 

Cerâmica romana de Tróia: 17G. 

Vasilha antiga: 265. 

Cerâmica itálica: 283. 

Olarias no Guadalquivir c Guadiana: 28a 

CIDADE: 

Cidade da Vaca (Vouga): 1111. 
Cidade de Milmandas (Minho): 270. 
Monte da Cidade (Sapardos) : 190. 
Monte da Civ idade : 820. 

CITAS IAS: 

De Roriz; 22 e 266. 
De Saúde: 125. 
De Silvciros : 240. 
Vid. Cattro. 

COBRE (Objectos de): 

Lança de Picote : 54. 
Indeterminados: 71. 
Nccropolcs algarvias do cobre: 99. 
Nus sepulturas prehUtoricas de Cintra : 134, 
Vid. Socirdadfê archeo/m/irn.*. 



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O Abcheologo Pobtuguês 



CONCELHO: 

Divisas ou brasões dos couçelbos : 187. 

CONSELHO SUPERIOR DOS MOS l' MESTOS NACIONAES: 

Appi-llo dVlle ao Governo sobre a Citaiiia de Roriz : 22. 

COSTAS: 

CoilUs dl' jii-ilra: 71. 

Conta lie vidro romana: 192. 
Vid- Adorno». 

OOKTOS: 

Vid. Jfumitmatiai. 



Vid. Gruta, CaMrflo. 



EX4JENK0 1)E PESCAI 

Em Ribeirão (Entre-Douro-e-Minho): 28. 

Des r-ripç3" dos engenhos de pest-a : 188. 

EPIOBAPHIA: 

A) LuiltMO-romana: 

Epigrap1.es funerárias; II, 80, 127, 171, 241, 242, 244, 245, 24 ti e 247. 
Epigraphe funerária e outra votiva: 12. 
Epigraplie honorifica: 13. 
Referencia; 238 

B) Medieval: 

Arcos de Valdevez: SI 
Uertnta: 144. 

C) Por t ligues a : 

Alrmtrj», xeculo xiv (■ svm: 31. 
Bragança.: 1(> e 17. 
Estremai! ura, latina, século jtvi : 28. 
Lisboa, século xh: 65. 
Santarém: 126, 127 e 128. 
Seiínl; 191. 

1>) Itálica: 

Marca fifiulina num tijolo: 28.1. 

E) Indeterminada: 

Casteilo de Lanhoso: 128. 
Roma: 78. 
Santarém: 127 e 128. 



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O Archeologo Português 



F) Noticias de apparec Intento de lapides: 
Alto do Carrocedo : 71. 
Sobre-Tamega: 269. 



Vid. fiectificaçòtt 



ESTATUA! 



Estatua de guerreiro lusitano: 28 
Estatuas luso- romanas de Mertola: 100. 



Cabeça de estatua luso-romana de Beja : 243. 

E STR A» A : 

Antiga e desusada (Sabrosa): 79. 
Estrada dos mouros (Beira): 124. 
Estrada doa mouros (Estremadura): 20!). 
Vestigios de calcadas: 270. 

ETHHOURAPHIA: 

Conta de pedra para augmeutar a lactação : 72. 

Memoria sobre adivinhações por cartas, amuletos e ex-votos, do Sr. Fer- 

nandesTliomás: 98. 
Trajos a costumes antigos da Figueira, numa memoria do Sr. Ferreira 

Loureiro: 98. 
Pedras •judaica*- que livram da flor de pedra: 190. 
S. Martinho advogado contra sezões : 191. 
Cálix com virtudes therapeuticas : 240. 
Relíquia de S. Braz com virtudes contra mordeduras de animal dam- 

nado, mau parto e com poder de tornar o pão incorruptível: 207. 
Logar frequentado de clamores : 270. 
Imagem de pedra medicinal : 272. 

Vid. Lendas, Iitiailpturas, Hcligiuts, Socimlada archenlngica* e es- 
prscies ocorrentes (Figuras, Fonte, etc). 

ETIMOLOGIAS : 

Asseca: 74 (popular). 

Itertiandos: 79 (scieu tífiea). 

Cesareda : 32 («cientifica). 

Geira : 13 (popular). 

Rendide: 180 (popular). 

Riodades: 80 (popular e «cientifica), 

Roriz e outros nomes em ii: 75 (scientifica). 

Salvaterra de Magos: 123 (popular). 

Sandim: 125 (popular). 

Seda: 190 (popular). 

Setúbal: 5 (erudita!. 

Vouga : fel (erudita). 



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O Archeologo Português 



EXTRACTOS 1 

A) De periódicos: 



Archivo Pittoresco: 319. 

Campo de Ourique : 55. 

Correio da Noite: 311. 

Diário ilo Noticias; 03, 65, 311 e 312. 

Folha d» Tarde: 58,59. 

Sf-culo: 22, 26, 54, 59, C2 e 64. 

Sul do Setubal : 18. 

Trasmontano : 283. 

Vanguarda : 61 e 310. 

Estrangeiros : 

Notizie degli seavi di anti chita i 283. 

Revoe archéologique : 131. 

Reviu.' belge de Xumismatiquc : 143. 

B) De obras i 

Apparato do antiguidades romanas de Carneiro de Fontoura: 9. 

C) De archlroBt 

Nacional (Torre de Tombo): 

Venda de um batel no século wv : 6G. 

Achado de moedas romanas: 67. 

Doação de Ermello: 83. 

Processo requerido pelo rei de armas em 1834 : 137. 

Oonstroeçío em Torres Novas do Outilo do Paço Grande, século 

xiii : 18U. 
Termo de restituição do sêllo do Convento de Oliveira, século xiii: 

181. 
Construirão de uma ponte em Reudidc : 182. 
Reparação das muralhas de Mcrtola, ecculo sv ; 183. 
RelaçSo de objectos roubados a uin duque de Bragança, se cu In 

xví : 187. 
Invuuturio do século \iv dos moveis e alfaias da Ordem de Avis; 

223, 209 c 305. 

Particulares : 

Do Tombo de N.* S.» do Valle (Arcos de Valdevez) : 92. 
Do Tombo de Tabaco (Arcos de Valdevez): 272. 

D) !>as Memorias Paroehlaes: 

Vid. Memoriai Paroekiou, Numiainatir/t (portuguesa) e Kiimit. 
FACAi 

I'rc histórica de pedra; 77 (costela). 



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O Archeologo Português 

FERIU) i 

Objectos indeterminados : 71. 
Vid- Mina», MHntlHrffia. 



lierròes de pedra; 20. 
Toros licspanboes : 2G. 
Be/errinho ile ouro : 71. 
Vid. KitntHii c Tsnda*. 



fonte afamada cm Roliça : 32. 

Foute ile cantaria c alvenaria: 7tj. 

Fonte doa Mouros : 123. 

Fonte de Santa Iniiomiriata : 223 (Évora). 

Fonte Santa: 239. 

FORTALEZA: 

Ruinas cm Rio Torto : 32. 
Ruínas de duas cm Sanfins: 125. 
Ruínas de forte e baluartes : 238 
Vid. Caeiro, Catitllo. 

GENEALOGIA: 

Memoria genealógica : 3. 
GEOLOGIA: 

Geologia da península da Arrábida: 275, 
GRAESl 

Graes de pedra achado; cm Alcalar: 'J'J. 

GRITAS : 

Concavo de uma penha: 269 (Estremadura). 

Cova da Moura: 240 (Minho). 

Gruta da Faspa: 239 (Alenitojo). 

Gruta subterrânea na Cova da Moura: 280. 

HERÁLDICA: 

A situação da Heráldica cm Portugal: 131. 

II KS1'A\H A : 

(Localidades a ijuc ha referencias): 
Olerdola : 23. 



(Da archcologia portuguesa). 

Vid. Itiogmphia, Exlracttiu, Mocidades, 1'rottxçâti, 3/flm 
Nomes, Numismática. Prehietoriíi. 



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O Ahcheoloqo Português 



quaternário na península da Arrábida. 
Vid. Prehuloria. 

IBÉRIA : 

Vid. Nvmumatitvi, Nome*, Aitrtora. 

lUKEJAt 

Vid. Leudaê. 



Imagem de pedra medicinal : 272. 
Vid. Lenda. 

LSDUBTEUSi 

Fabrico de saragoea : 2(19. 

OHXMAÇÃOi 

Vid. SepuUuro. 

1SO.UI BICÕES: 

Erro iiíis Inquirições de V2bX : 84. 

INSCULPIU B AS EH BOCHA: 

Km forma de ferradura: 15 (Bragança). 
Em forma de pegadas: 28 (Rio Caldo). 
PiaB, pegadas: 71 e 72 (Alto do Carrocedo). 
Lagar luso-romauo : 98 (Algarve). 
Pia no Azinhal dos Mouros: 12<i (Beira). 
Excavações artificiaes na rocha: 285 v 2K(i. 
Vid. tiorieditde* itrcli&itof/iaitt. 

INSTRUMENTOS: 

Um instumeuto musico nos tempos pre históricos : 99, 
Espheroide de granito: 152. 

Vid. Brome, Cobre, Mtidiadu. 



INVENTARIO: 



Uni inventario do sceulu nv : 223, 25!) c 'Jtíà (moveis, alfaias, ctc., d» 
Ordem de Avis). 



LAGAR t 

Vid. Iiacuijitura. 



Luecnia romana de Serpa: 175, 
Vid. Candeia. 



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O Archeologo Português 



Cohorte do Lusitanos: 171. 

Vid, Numismutira f. Ibéria. 

LENDAS: 

Lenda do appare cimento de imagem: Ifl, '27 e 2 

Lenda de fuga de pessoa cativa; 29. 

Lendas ímmanentes a um logar : 30. 

Lenda de desapparec intento de imagem: 73. 

Tbesouroa guardados por demónios, em forma d 

Lenda numa igreja: 102. 

Lenda numa ermida: 124. 

Lenda mim ribeiro: 237. 

Lenda de moura encantada num pego: 260. 

Lenda de monra encantada numa anta: 270. 

Lenda de mouros: 271. 

Vid. Fontr, Etftuographia. 

MACHADOS: 

A) De pedra: 

Alto do Carroceiro: 71. 

Mesaejana: 55. 

Moncorvo: 149. 

Trils-oB-Montes: 273. 

Cinco em forma do ferro da jtmloira de um rarj 

Abundantes em Carrazeda, Moncorvo e Freixo: 



li > Dc brome : 

Chato c de duplo anel: 103. 



Mi NI SCRITOS : 

Memorias genealógicas: 3 
Apparato de antiguidades 

MEHOKIAS FAKOCHIAES: 

Riba Pinhão : 27. 
Ribeira do Olival : 27. 
Ribeirão: 28. 
llio Caldo: 28. 
Rio de Corvos : 29. 
Rio Covo : 29. 
Ríodadcs: 30. 



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O Archeologo Português 



Rio Frio: 30. 

Rio de Gallinbas : 3». 

Rio ite Moinhos (Alemtejo) : 31. 

Rio Tinto: 31. 

Rio Torto : 32. 

Rios : 32. 

Roliça : 32. 

Romão : 75. 

Romarig&vs : 75. 

Roriz : 75. 

Ruivos : 76. 

Runa : 78. 

SA: 7K 

Sabrosa: 7!). 

Salhariz : 128. 

Salvaterra <lc Magos: 1*23. 

Santeiro fBeirn): 123. 

Samle: 121. 

Sauditu : 125. 

Snnfins: 125. 

Santiiin da Castanheira: 126. 

Biulionn,' : 12G. 

Sauta Maria th- Sá: 78. 

Santarém: 121!. 

Santiago ile. Lanhoso: 128. 

S. Bartolomeu ila Serra : 238. 

S. Prnni-iaro da Serra: 238. 

S. Romão (Alemtejo): 74. 

S. liomSo da Neiva : 74 

S. Simão de AwutSo: 267. 

S. Simão da Serra : 239. 

Sapardos: 190. 

Sajmtnria: líHt. 

Seda : 19(1. 

Segadães: 191. 

Seixal: 191. 

Seixas: 191. 

Seriiaclm doa Alhos : 237. 

Sernancelhe ; 238. 

Serpa: 238. 

Serra do Bouro: 23'.). 

Setúbal: 239. 

Silva: 239 e 210. 

Silvelros: 240. 

Sindim: 267. 

Sines: 208. 

Sobrado: 268. 

Sobreira Formosa: 268. 

Sobre Tâmega : 2G9. 



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O Aecheologo Pobtoguès 



Sortelha; 2110. 

Soutello (Minho): 260. 

Soutello (Trás-os- Montes): 271. 

Susães: 271. 

Tabaco : 272. 

Taboado: 272. 

Tancos : 319. 

Tangil : 310. 

Tarouca : 320. 

Tarroso : 320. 

Tavira: 320. 

Tojal .- 272. 



337 



METALLUBOIA: 

Antigos exemplares portugueses provenientes da Guiné: 59. 
Sino de bronze uo Cougo, do século ivjii: 62. 
MINAS: 

Nas proximidades de Leiria: 315. 

Vestígios d'cllas em líio Tinto: 31. 

M. em Roriz; 75. 

Em S. Francisco da Serra (Alemtejo): 238. 

Id. em S. Romão: 74. 

td. em Saufins i 126. 

Em Tancos: 319. 

MOEDAS: 

Vid. Numismática. 
MÓSt 

Mós de mão: 71 (Alto do Carrocerfo); 101 (Cerro de Penhas i 

MOSAICOS: 

Romanos em Pcnella: 60. 

Mosaico romano de Alcobaça : Hfl e 284. 

Mosaicos romanos de Portugal: 312 (mosaico do Arual) 

Iil. de Tralliariz: 14S. 

MOUROS: 

Vid. I^ndat, Ruitm«, Torre, Aula», (Jam, Cadtllo, Catlros, E 
Gruta», Intctilptiira», Fonte, ete. 

MURALHAS i 

Sentença acerca da reparação das muralha* de Mcrtola, século x 
Restos de muralhas ou cercas: 270. 
Vid. Ruiuai, Cattrn», Caêtellnt. 

MUSEUS : 

A) AcqiilsiçOes do Museu Etimológico 1'ortugues : 23, HO 100 121 1 = 
157, 175, 192, 274. ' 



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O Akchkologo Pobtuguês 



B) Outro» íiinseus ou eollerçoes : 

Museus «u cnllecçoeu em Portugal : 18. 

Museu de Srtubal: 18 c 19. 

Museu do Arsenal do Exercito: 26. 

Museu de Bragança: 54, 273, 274. 

Museu Municipal da Figueira : 99. 

Id. do Porto: 118- 

Museu de Santarém: 128. 

Collccçao de Estaeio da Veiga: 157. 

Museu de Beja: 243. 

Museu da Sociedade Martins Sarmento: 206 e 274. 

Collccçao do Eev. José Augusto Tavares: 274. 

Museu de Évora: 283. 

Museu de Moncorvo: 283. 

C) Museus estrangeiros : 

Museu de Lciden : 148. 
Museu Britaunico? ■' 155. 

SECBOPOLEt 

Algarvias da Baralha e do Serro de Bartolomeu Dias, da idade do c 

bre : 9». 
Necropole romana no concelho de Santa Martha: 154. 
Vid. Srpultura», Prehteoria, Sociedade* areheologica». 



A) De pessoas em inscrlpçOes lusitano- romanas: 
Agatus : 246. 
Aliia Eeliurrina: 11. 
Celtua i 171. 
Cogitata : 242. 
C. SulpicinsPelius: 171. 
(•una: 171. 

Doquirus ou Doquirieus: 241. 
Finiiidius Peregrinus : 242. 
Florica : 24'1. 
Fundanus : 80. 
Herenuius Priaeus: 245. 
Júlia Cleópatra: 245. 
Júlia Crysis: 241 
Júlia Laeta: 80, 
Marcus : 12. 
P. Oricli.i : 24tí. 
Q. Caseius Vettonianus : 244. 
Q. Martio: 12. 
Quintua: 241. 
Tercueia Cainira : 241. 
Tereneia Máxima: 241. 



cbyGOQ^IC 



O Archeologo Português 



B> De Imperadores romanos: 
Augusto: 163. 
Constâncio ou Constante II: 152. 

Constantino : 154. 

Trajann: 13 e 55. 

C) De divindades i 

Em epigrapb.ee: 
Asclepíus; 12. 
Hygia.12. 

Em referencias : 
Baccho: 319. 
Orpheu : 317. 

D> De pessoas em Inscrlpçoes lntlno-medievlens: 

Ordonius : 84. 

Simplicius : 144. 

E) De marca de oleiro: 

T. CARR : 283. 

F) GeOBTaphicOB (aiithcnticos nu snppostos): 

Da Ibéria s 
Aravor: 13. 
Brigatitia: 14. 
Britouia : 78. 
C ao ear augusta : 170. 
Cnllipolia : 5. 
Celsa: 169. 
Clunia: 171. 
Collipo: 147. 
Collipo: 314. 
Emporías : 1KII. 
Equaboua: 310. 
Eufrásia: 125. 
Herda: 167. 
Ilergetus: 167 (povos). 
Indigetes: 166 (id.). 
Medohriga: 191. 
Salacia: 172. 
Salduba : 170. 

De fora da Ibéria : 
Myceuas : 131. 
G> De irekeologos estrangeiras a propósito de antiguidades 
Heron deVillefosso: 284. 
Johti Martin: .119, 



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O Akcrkolooo Pohtuooês 



eili : 143 « 24W. 
:i Rcinach; 243. 



H) Em marco de pedra: 
Barca : 17. 

Vid. Awtore» e Bwyraphia*. 

NUMISMÁTICA: 

A) Moedas ibéricas : 

Bibliographia. grupos, leitura ou interpretação: 185. 



Imp oratórias : 

Augusto: 1118. 

Constâncio ou Constante: lí>2. 

Constantino: 154. 

])c Trajano: ftfi. 

Indeterminadas : 

Romanas (e góticas): 14, 32, 55, 07, 71, 126, Hfi. 152, 154, 161. 17; 



C) Moedas portuguesas (numismática continental e 

O direito do bulhão no Porto: 33. 

Observações de Damião de Góes sobre a quebra da moeda: 33. 

Macliina de fazer moeria : 36. 

Mocdeiros na índia: 37. 

Apparccimento de moedas portuguesas: 61. 

Bazaruco do século xvi: 67, 

Officinas mim etárias de Damão nos séculos jvii e ivm : 107. 

Leilão de moedas e medalhas e catalogo do Museu Municipal do Porto: 
118. 

Uma falsificação monetária: 172. 

Os patacòes de Goa : 210. 

Moeda de ouro rara de D. Affonao VI: 234. 

Moedas portuguesas de ouro carimbadas ou cravejadas na índia e Bra- 
sil: 248. 

Contos para contar: 289. 

D) Moedas nlo classificadas : 

Moedas antigas de ouro c prata: 311. 

E) Factos coneeruentes: 

Aula de Numismática em Lisboa; assuntoa.de que se tem úceupttdo em 
1897-1899; ensino da Numismática no estrangeiro; sociedades; re- 
vistas; commercio; moedas ibéricas: 161. 
Vid. Mbliographia, Extractos. 



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O ARCBKOLOfiO PORTDRUBS 



OLARIA: 

Vid. Ci-ramtc", Xo 


ma ctc 


OURO : 




Objecto prti- romano de 
Xorca ile ouro; 155. 
Vid. Socitdatle» art 


ouro proveniente do Algarve ; 100. 

■heologieat, Nvmitmatiea e Mina». 



Pedras espetadas que parecem servir de defesa estratégica em r 

antiga: 101. 
Chamada Pena cobrrtoura :124. 
Pedras chamadas mama/rainhas, ruja raspa cura dos cálculos 

rios: 190. 
Pedra que obtura um olho de agua : 267. 
Raspas ou fragmeutos de imagem milagrosa de pedra : 272. 
Vid. Litculpturtu, Grau, Machados. 



PEGADAS: 










Vid. 


hiscu/ptarae. 




PESOS: 








De 


pedn 


i e de barro : 


71. 


PHEXICIOS 










Vid. 


Niimitmntíea. 




PIAS: 










Vid. 


h,scid.ptwas. 





POSTE: 

De cantaria em Roliça : 32. 

Construeçílo de urna em Rendide (Torres Vedras) : 182 (sceule 

Rccons tracção <la ponte do Prado: 270. 

FREHISTORIA: 

Objectos prel listo ri cos em antas : 77. 

Grraca de pedra, concha souora: 99. 

O ueolithico na Figueira: 99. 

Sepulturas pre historie as de Cintra: 129. 

A lorca de ouro de Cintra: 155. 

Abundância de machados de pedra cm Carrazeda, Moncorvo e P. 

274. 
Estações prehistoricas dos arredores de Setúbal: 275 (homem t 

rio, quaternário paleolithico, prebistorico actual). 
Vid. espécies occorrcutcs como Anta, Gruta, Machado, Cate 
ciilptura, Sociedade* archeoloyirai, etc. 



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O Abcheologo Português 



PROTECÇÃO 1 ARCHEOLOUIA: 

Dotação votada por uma sociedade francesa para explorações: 23. 

AppSllo do Conselho Superior dos Monumentos Nacionaes ao Governo 

sobre a Citania de Roriz : 22. 
Dadiva do Br. Visconde da Amoreira da Torre: 100. 
Vid. Sociedades arckeologicas, Mvttu e Extracto*. 

PBOTOHISTOBIAi 

Vid. Ouro, Castros, Cttama, Sociedade» areheologica», etc. 

RECTIFICAÇÕES: 273 e 320. 
RELIGIÕES 1 

Carrasco venerado : 72. 
Relíquias depositadas no século xnt. 
Vid. EÚmograpaia, fjttutat. 

REPRESENTAÇÕES: 

De vários cidadfios A Camará de Setúbal para a erecção de um Mmen 
la : 19. 

Vid Museu t Extractos. 

REVISTAS: 

Vid. lliblioffraphia. 

RIOSi 

Ave : 28. 

Cavado : 13 e 189. 
Neiva : 189. 
Távora : 30 e 268. 

Toponymia em que este titulo entre como componente, vid. Mana- 
rias Parochiaes. 
BUIS AS í 

De cidade: 75 (Romlo). 

De cercos de mouros ; 76 (Koríz). 

De casas e muralhas: 101 (cerro de Penhas Juntas) 

De construcçõVs e muralhas: 221 (Évora). 

bc fortaleza: 238. 

De convento : 269 c 270. 

De um paço com brasões : 271. 

De paredes do tempo dos mouros: 271. 

Vid. Castelli), Arrhitfclura, Arrheologia, Torre e Fortaleza. 
SÊLLO: 

QuestSo sobre o uso de um sêllo conventual: 181. 



SENTENÇAS : 

De Fr. Amador Arrais: 189, S 



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O Arcbeologo Portuqdès 



SEPULTURAS : 

A)Preblstorlcu: 

Vid. Anta», Préhistnria, Necropole, Sociedade 
B) Romanas t 

Em geral : 10. 

De tijolos: 11. 
De alvenaria : GO, 
Cupiformc: 242. 

Destruída: 247 (com cippo?). 
C)Hedief«ea: 

De tijolos e-lages: 92 sqq. 
D) De épocas Indeterminada! : 

Sarcophagos : 29. 

Camará de tijolo; 65 (ossário?). 

Tampas de pedra: 71 e 72. 

No mármore c outras: 78. 

De lagos: 94. 

Com tampa esculpida: 124 e 126. 

De tijolos: 153. 

Com cruz lavrada: 2G8. 

Ossadas: 311. 

Vid. Epigraphia, Socwdadei arrheologieat, N 

SOCIEDADES ARCHEOLOOICAS: 

Socíété Nationale des Antiquaires de Frauce: 23 

Associação Francesa do Progresso da si S ciências 

Sociedade archeologíca da Figueira, 6.' seteio, e 

de Tavarede; na estação de Santa Olaia; ethno 

architectura antiga; o logar de Valle do Harin 

calar; tatuagem; instrumentos músicos prehi a 

thica da Figueira; necropole da idade de cob 

pre-romano de ouro: 98. 

Sociedades estrangeiras que se occupam de num 

TATUAGEM i 

Tatuagem prehtstorica : 99. 

TECIDOS t 

Vid. Inventario e Indutlrínt. 

TEGULA E TELHA; 

Vid. Tijolo. 



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ii— índice poe nomes de atjctoke: 



Albino Pereira Lopo: 

Notas o considerações sobre Bragança: 14. 

Picote (Miranda cio Douro): 54. 

O Alto ilo Carrocedo: 70. 

O Cerro de Penhas Jnntns : 101. 

Arronches Junqueiro: 

Antiguidades doa arredores de Setúbal: 146. 
Estudos sobre Tróia de Setúbal : 170. 

IV Belchior da Crni: 

Sociedade arelieologica da Figueira: 98. 
Celestino Beça : 

Espada antiga ; 210. 

Trituradores de pedra: 309. 

PeUx Aires Pereira: 

Epigraphia christíano-latina: 81. 

Um passeio arclieologico no concelho dos Arcos de Valdevez: If 

Bibliograpbia: 158. 

índices: 321. 

Henrique Botelho: 

Archeologia de Trás- os -Montes: 149. 

José A ajusto Tararei : 

Machados do pedra: 273. 

José Fortes: 

Instrumentos de bronze : 102. 
José Leite deYasconcellos: 

Um archeologo esquecido: 1. 

Projecto de um Museu Archeologico em Setúbal : 18. 

Estátua de um guerreiro lusitano: 23. 

Noticias várias: 54 e 283. 

Arco romano de Bobadella: 56. 

Inscrípeãi) romana de Almeirim: 80. 

Duas estátuas romanas: 100. 

Candeias árabes do Algarve: 119. 

Aula de Numismática da Bibliotheen Nacional de Lisboa : 161. 



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m-INDICE DAS ESTAMPAS 



Epigraphea portuguesas : 16 e 17. 

Fragmento do estatua de guerreiro lusitano : 24. 

Capacete de guerreiro lusitano: 25. 

Lança de cobre : 54. 

Arco romano de Bobadelia; 56 e 57. 

Bazarnco: 69. 

Insculpiu ras prehistoricas : 72. 

Epigraphe romana: 80. 

Epigraphe medievica: 82. 

Sepultura de tijolos : 98. 

Sepulturas trnpezoidaes : 93. 

Vaso sepulcral : 94. 

Machado de bronze (em forma de cunha): 104. 

Machado de bronze (de dupla aselha): 105. 

Escopro de bronze: 106. 

Moedas indicas: 110. 

Candeia árabe de bronze: 11!). 

Candeia hispano -árabe : 120. 

Candeia de bico duplo: 120. 

Candeia árabe de barro: 121. 

Candeia ornamentada : 122. 

Planta das sepulturas preliisturicas de Cintra: 129. 

Sepultura de Alcalar: 130. 

Sepultura de Yviíis (Franca): 131. 

Sepultura de Mycenas (thesouro de Atreu): 131. 

Sepultura de Orcliomeno (Grécia): 132. 

Sepultura de Alcalar: 133. 

Inscripção cbristíl de Mcrtola: 144. 

Fragmento de vaso saguntino: 146. 

Instrumento prebistorio de pedra: 150 e 151. 

Moeda de Emporias : 166. 

Moeda dos Indigetcs: 100. 

Moeda de tlerda: 167. 

Moeda dos Ilergctes: 161). 

Moeda de Celsa: 169 e 170. 

Calco de moeria portuguesa: 172. 

Liicerna romana: 175. 

Duas amphoras romanas: 176. 

Vaso romano mutilado : 177. 

Fragmentos (2) de vasos saguntinos: 177. 



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O Ahcbeologo Português 



Vaso cspherico romano: 178. 

Fragmentos (2) de vasos saguntinos com marca: 178. 

Vários utensílios romanos: 170. 

Vidros romanos: 192. 

Interior de unia anta: 201. 

Flauta o corte da mesma: 201. 

Mainôa da Serra de Soajo : 208. 

Espada antiga: 209. 

Patacoesdc Goa: 210 e 211. 

Moeda de D. Filippo III: 217. 

Poluem <lc D. Carlos II: 217. 

Antas do Barroeal : 210 c 220 

Ruínas romanas da Tourega: 221 c 222. 

Fonte de Santa Innnminata: 223. 

Moeda inédita de D. AffonsoVT: 234. 

Duas moedas do mesmo monarcha: 235. 

Lapide romana ctipiformc: 242. 

Cabeça romana de mármore: 212-243. 

Lapides epígranhicas romanas: 244, 245, 246 c 247. 

Moedas indicas cravejadas c carimbadas: 258-250, 

Vasilba antiga: 266. 

Perfil geológico da península da Arrábida: 276 u 277. 

Instrumento paleolitliico : 281. 

Marca de tijolo itálico : 283. 

Inscnlptura rupestre : 286. 

Conto (liard) de Nuremberg: 5191, 

Conto do século xvi : 295. 

Senha ile sola: 200. 

Senba de cobre ■ 300. 

Dezascis contos portugueses: 301-305. 

Triturador de pedra ; 309. 

Mosaicos romanos: 316, 817 e 318. 

Cijipo com epigraphe: 310. 



Todos estes índices foram feitos por Félix Alves Pereira. 



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Anno 1(51500 réis. 

Semestre 750 > 

Numero avulso •. . . 160 » 



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deverá ser dirigida a J. Leíto de Vasconcellos, para a BiiíLío- 
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